DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Ano XIX – nº 55 – primeiro semestre de 2011 Cuidado por inteiro Além do físico, do social e do psicológico, área da saúde começa a considerar o indivíduo como um ser espiritual Páginas 10 a 12 Projeto une áreas do conhecimento Páginas 4 e 5 Escutando o Planeta Páginas 8 e 9 EDITORIAL SUMÁRIO Página 3 Primeira Pessoa: Conheça Pedro Ekhvanossafa, o aluno que descobriu um novo mundo por meio do Projeto Universidade Missionária Páginas 4 e 5 Em Foco: Em 2010, o Projeto InterAÇÃO uniu diferentes cursos em busca de um objetivo comum Páginas 6 e 7 Aconteceu: Saiba o que rolou no Centro de Pastoral e Solidariedade no segundo semestre de 2010 Páginas 8 e 9 Destaque: A preocupação com o meio ambiente na Campanha da Fraternidade 2011 e na PUCRS Páginas 10, 11 e 12 Reportagem Especial: A espiritualidade entra em debate Página 13 Dicas: O Centro de Pastoral e Solidariedade sugere sites, livros e filmes para você aprender ainda mais sobre espiritualidade, religião e fé Página 14 Evento: Encontro reúne representantes Maristas para debater a educação Página 15 Juventude em Ação: Conheça os três universitários da PUCRS que irão na JMJ 2011 Páginas 16 e 17 PUCRS em Solidariedade: A influência do trabalho voluntário na hora de conseguir uma vaga no mercado de trabalho Página 18 Espiritualidade: Qual a diferença entre espiritualidade e religiosidade? Página 19 Opinião: : Gelson Luis Roberto fala sobre a religiosidade na perspectiva Junguiana Novos desafios Depois da saída do Ir. Valdícer Civa Fachi, que administrou o Centro de Pastoral e Solidariedade por mais de um ano e foi enviado em missão à União Marista do Brasil – Brasília, e do período em que o Ir. Evilázio Teixeira, Vice-Reitor da Universidade, gerenciou a unidade temporariamente, fui escolhido para dirigir este belo setor, que tem como missão principal a evangelização da comunidade universitária pelo cultivo da fé e dos valores éticos, com ênfase na solidariedade, contribuindo na formação de pessoas comprometidas com a construção da “civilização do amor”. É com muita alegria e dedicação que inicio os trabalhos neste primeiro semestre de 2011. Espero poder colaborar para o desenvolvimento da unidade e de todos os nossos projetos que contribuem para melhorar a vida de alunos, professores, técnicos administrativos e da comunidade em geral. Você tem em mãos mais uma edição da Revista Ruah, uma importante ferramenta de divulgação das nossas ações. Nela, trazemos temas que interessam aos nossos fiéis leitores, como os que listo a seguir. O Brasil é um país muito religioso, onde mesmo quem se diz ‘sem religião’ sempre tem uma fé interior. E essa é uma questão que está presente no dia a dia e acaba influenciando nas Direção: Irmão Dionísio Roberto Rodrigues Coordenação Editorial: Marisol Germano Trindade ISSN 1808-7868 Publicação do Centro de Pastoral e Solidariedade da PUCRS Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 17 – sala 101 Porto Alegre, RS – CEP: 90619-900 Fone: 51 3320.3576 www.pucrs.br/pastoral [email protected] Ano XIX – nº 55 – primeiro semestre de 2011 2 | Ruah – nº 55 – 2011 Conselho Editorial: Gilnei Lopes de Lima, Marisol Germano Trindade, Melissa de Oliveira Maciel e Rafael Rossetto. profissões. Na área médica, na qual se trabalha com questões delicadas como a vida e a morte, o assunto fica ainda mais em evidência. Para qualificar este debate, trazemos o tema na matéria especial desta edição. Ouvimos especialistas nas áreas que ajudarão a refletir os benefícios que a espiritualidade pode gerar em casos decisivos. Completando esse assunto, destacamos uma matéria sobre a diferença entre a religiosidade e a espiritualidade na página 18. Você ainda confere uma reportagem sobre o projeto InterAÇÃO, promovido em parceria com a Codes e a Prograd, saberá sobre a Campanha da Fraternidade 2011 que traz como tema o cuidado com o Planeta e verá, ainda, como a PUCRS está agindo nesse sentido. Conheça também quem são os três acadêmicos da Universidade que irão representar a Província Marista do Rio Grande do Sul no Encontro Internacional de Jovens e na Jornada Mundial da Juventude, que contará com a presença do Papa Bento XVI. Espero poder reencontrá-los em breve nas nossas atividades do Centro de Pastoral e Solidariedade! Boa leitura!Irmão Dionísio Rodrigues Diretor do Centro de Pastoral e Solidariedade Fotos: Arquivo Fotográfico Assessoria de Comunicação da PUCRS, Arquivo Centro de Pastoral Solidariedade e Divulgação Editoração: CMC/Ascomk Impressão: Gráfica Epecê Jornalista Responsável: Greta Mello (Registro Profissional 14.604) Tiragem: 5 mil exemplares Pauta, reportagem, redação, edição e supervisão gráfica: Greta Mello Circulação: PUCRS, Instituto Marista e Associação Nacional das Escolas Católicas (ANEC) Colaboração: Edson Luiz Dal Pozzo, Gilnei Lopes de Lima, Melissa de Oliveira Maciel, Rafael Rosseto, Sophia Kath e Zita Judith Bonai RUAH Revisão: Irmão Heitor Pedro Scomazzon Periodicidade: Semestral Palavra hebraica que aparece seguidamente na Bíblia e significa vento, força, ação, movimento, sopro de Deus, Espírito do Senhor Primeira Pessoa De milionário a missionário Pedro Ekhvanossafa viu seus planos e metas pessoais mudarem após se envolver de corpo e alma na Missão Paróquia – Restinga N asci em uma família onde a religião não foi muito cultivada. Meu pai é iraniano e se mudou para o Brasil na tentativa de construir algo concreto para sua vida, longe do regime opressor de seu país. Minha mãe acredita em Deus, mas apegou-se mais aos princípios do cristianismo após a morte de seu irmão, em 1997. Eu e ela sempre discutimos muito sobre fé e o sentido da vida, mas suas crenças e de meu pai nunca foram impostas a mim. Estava no sétimo período de Engenharia de Produção na PUCRS quando em uma volta pelo Campus, entrei na Pastoral para buscar informações sobre como poderia fazer a catequese para Primeira Eucaristia e Crisma – fui batizado apenas no ano de 2006, quando já possuía discernimento para escolher qual religião praticar. Na Pastoral, deparei-me com o programa Universidade Missionária. Achei a temática interessante e decidi participar. O que eu não sabia é que para ser um missionário é preciso se despir de todo e qualquer preconceito e mergulhar nessa experiência com o coração. Minha primeira tentativa em 2009 foi meio frustrante. Não participei na íntegra e, por isso, não consegui vivenciar a Missão em sua essência. Foi então que o agente de pastoral Gilnei Lima me convidou para atuar na coordenação da Missão Paróquia, que aconteceu em janeiro de 2010, na Restinga. A partir daí, minha história mudou. Mesmo com um pouco de timidez e receio frente a um mundo que para mim era desconhecido, resolvi tentar novamente. A experiência que tive vivenciando a Missão integralmente foi reveladora, e abriu meus olhos para uma realidade que para mim antes era utópica: pessoas boas, como eu, que não são tão raras e extintas assim. Ganhei, então, muita força e moti- Pedro: “A missão me fez enxergar que estou na terra para amar e ser amado” vação para continuar exercitando minha fé, e ainda me deu mais segurança para me abrir mais e enxergar nos outros o bem que muitas vezes fica escondido. Apaixonei-me pelo projeto Universidade Missionária, e em seguida fui convidado a atuar como coordenador geral universitário da Missão Paróquia de dezembro de 2010, onde pude me dedicar mais ainda, exercitar minha liderança e utilizar muito do conhecimento adquirido no meu curso de Engenharia de Produção. Isso me levou a uma das descobertas mais fundamentais para qualquer bom profissional que deseje ter sucesso na vida e não só no trabalho. Para trabalhar com o coração e colocar sua alma naquilo que se está fazendo, é preciso fazer o bem ao próximo. Sempre. Mudança de planos Uma de minhas metas para o futuro, ou sonho de criança, era me tornar um milionário, pois isso, para mim, era sinônimo de sucesso. Cresci rodeado de pessoas inteligentes, que batalharam para progredir. Por tais motivos, considerava meu objetivo razoável. Mas durante a semana em que participei da Missão, juntamente com o grupo de voluntários, tive a experiência mais intensa dos meus 23 anos de vida. Vi meus planos e metas pessoais mudarem, na mesma medida em que me transformei interiormente. Ficamos alojados na Paróquia da comunidade, de onde saíamos pela manhã e visitávamos lares e famílias da região, com o intuito de trabalhar a fé, levar esperança, amor e compaixão às pessoas que por lá moram. Devido ao meio em que cresci, onde o status e a posição social têm um peso grande, principalmente quando se trata de fazer amigos, sempre fui muito fechado. Tinha medo de confiar nos outros, de procurar fazer o bem e ser explorado. Com a convivência com o grupo e com os moradores da Restinga, tornei-me mais aberto. Percebi que não é utópico acreditar que as pessoas são boas, que é possível ser generoso com todos. Hoje sinto uma paz difícil de explicar. Meus preconceitos foram embora e meu olhar para o mundo mudou. Esse choque de realidade me fez enxergar que estou na terra para amar e ser amado, para ajudar o próximo. Que minha disposição e boa vontade são o que tenho de mais valioso para oferecer. Ainda penso em ser bem-sucedido em minha profissão, inclusive pretendo usá-la em prol da sociedade e do planeta, mas meu olhar sobre o próximo é outro. Toda essa experiência é tão revigorante e intensa, que digo aos universitários que têm interesse em participar de futuras missões para não hesitarem. Para aproveitarem essa oportunidade que a Pastoral da PUCRS proporciona e aprofundar os valores cristãos, descobrindo o real sentido da vida e do seu futuro como profissional. Ruah – nº 55 – 2011 | 3 EM FOCO Para interagir ainda mais e melhor Projeto da Prograd, Codes e Centro de Pastoral e Solidariedade busca qualificar o aprendizado e o atendimento dos alunos a comunidades em vulnerabilidade social T odos os semestres, diversas comunidades carentes recebem os alunos da PUCRS. São futuros médicos, dentistas, educadores, entre outros, que aproveitam os conhecimentos já adquiridos durante o curso para colocar em prática – aumentando o seu aprendizado e prestando um serviço a uma comunidade em situação de vulnerabilidade social. O primeiro contato é marcante, porém, também traz dúvidas e medos comuns em diversas áreas de atuação. Pensando em dividir e amenizar esses anseios surgiu o Projeto InterAÇÃO, uma parceria da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), da Coordenadoria de Desenvolvimento Social (Codes) e do Centro de Pastoral e Solidariedade. Nele, os estudantes têm encontros liderados por professores especializados sobre esse primeiro contato com a comunidade. Em 2010, primeiro ano do projeto, 233 alunos participaram. O objetivo é qualificar e ampliar essas práticas, tanto no sentido do aluno, potencializando essa aprendizagem, quanto no lado da comunidade, qualificando o que é entregue para ela. “Não podemos pensar apenas na perspectiva do estudante porque temos o compromisso com o desenvolvimento social. Caso contrário, corremos o risco de fazer sempre o mesmo trabalho e não alterar a realidade da comunidade, que também precisa ser ouvida e deve perceber mudanças, ajudando a escolher as prioridades dentro da possibilidade de cada disciplina”, defende a professora Inês Amaro, da Codes. “É uma forma bem concreta de praticarmos o que está nos princípios e no próprio discurso institucional da Universidade, de darmos importância para dimensão social da formação do aluno”, completa. A primeira experiência aconteceu em 2010/1 com os cursos de Enfermagem e Serviço Social. No segundo semestre foi a vez da Medicina e da Odontologia. “Optamos por iniciar com a área da saúde, mas a cada semestre estamos crescendo. Irmão Valdícer Civa Fachi, então diretor do Centro de Pastoral e Solidariedade, ministra oficina para alunos 4 | Ruah – nº 55 – 2011 Queremos alcançar todos os cursos que tenham alunos desenvolvendo atividades em comunidades”, explica Valéria Lamb Corbellini, coordenadora da Coordenadoria de Integração Ensino-Serviço na Saúde da Pró-Reitoria Graduação da Prograd. Como funciona O InterAÇÃO é composto de dois encontros, desenvolvidos dentro de uma disciplina do curso. O primeiro é a oficina de sensibilização, que acontece antes dos alunos irem a campo, e é seguido pela de avaliação, que acontece no retorno dos vas com relação ao projeto e aos demais participantes, além dos desafios. Pequenos grupos são organizados para que os jovens discutam tais conceitos e depois apresentem aos demais. “Eles se sentem mais seguros e confiantes e isso acaba interferindo na qualidade da interação com essas pessoas”, garante Inês. Segundo as avaliações feitas pelos próprios alunos, esse encontro trouxe motivação, maior segurança, conhecimento e solidariedade, por exemplo. Na oficina da volta é feita a árvore da aprendizagem. Os estudantes são estimulados a descrever sentimentos e colocarem O objetivo do InterAÇÃO é qualificar e ampliar as práticas desenvolvidas pela Universidade nas regiões de vulnerabilidade social tanto no sentido do aluno quanto da própria comunidade acadêmicos da comunidade. No primeiro encontro, os estudantes debatem sobre como será a experiência, suas expectati- numa árvore, organizada para a atividade. Fortalecimento da escolha profissional, curiosidade, momento de reflexão, desenvolvimento pessoal, comunicação e responsabilidade social são alguns dos apontamentos feitos pelos participantes. “O conhecimento, assim como uma árvore que tem a sua raiz, o tronco, o caule, as folhas, os frutos e a semente que refaz todo o processo, também é construído aos poucos. A construção do conhecimento e da interação com diferentes cenários também ocorre dessa forma”, compara Valéria. Depois, as professoras fazem uma avaliação do material. “A Árvore da aprendizagem registra sentimentos dos alunos gente se surpreende bastante com o significado que o projeto acaba tendo para alguns, eles ampliam a visão de mundo e conseguem ter maior sensibilidade para perceber as diferenças e poder começar a desenvolver atitudes de não julgamento. Perceber os sujeitos, as suas escolhas e colocar o conhecimento à disposição, mas com a liberdade que o sujeito tem de fazer o uso que lhe servir”, destaca Inês. “O Projeto InterAção é uma excelente oportunidade Depois do trabalho, acadêmicos comemoram o resultado para que os estudantes sociali- zem com colegas e professores de outras áreas, suas expectativas e sentimentos. É um momento privilegiado para a tomada de consciência da responsabilidade individual no momento da interação com as pessoas da comunidade, além de despertar nos estudantes sentimentos como: respeito ao ser humano, a justiça e a solidariedade”, define Marisol Trindade, Agente de Pastoral Líder do Centro de Pastoral e Solidariedade da PUCRS. Seis professores que compõem a comissão organizadora se revezam para ministrar as oficinas. Outro ponto importante do projeto. “No InterAÇÃO, são professores com o foco bem claro, que não discutem nada técnico”, ressalta Inês. Ou seja, a oficina ainda funciona como um suporte interessante para o professor, que também tem um papel importante. “Eles participam desde o inicio porque são eles que vão fazer ligação na continuidade do semestre”, afirma Valéria. Próximos passos Como é um projeto novo, existem diversas sugestões. Porém, ele mostra que veio para ficar. “Ele faz a diferença pois mostra para o aluno uma realidade social distinta e também mostra outros caminhos que não são só a vivencia que eles vão ter na prática das disciplinas, mas que eles também podem continuar atividades de extensão, como o Projeto Rondon”, sugere Valéria. As turmas para 2011 já estão definidas. No primeiro semestre, os cursos de Enfermagem e Serviço Social, Educação Física e Psicologia serão os contemplados. Em 2011/2, Medicina e Odontologia, Psicologia, Educação Física e Farmácia participarão do Projeto. Além disso, as unidades organizadoras pretendem finalizar um mapeamento, já iniciado, das organizações sociais onde a Universidade está presente através dessas práticas. “A gente sabe que existe um universo grande de cursos que desenvolvem ações na comunidade, mas não temos ideia de como as comunidades percebem essa presença da PUCRS”, questiona Inês. “O que acontece hoje é que a comunicação ocorre da unidade acadêmica ou até do professor, com a escola X, a organização Y. Não é uma presença institucional. Pensamos em fortalecer essa rede e planejar as atividades a partir das necessidades dos cursos e das instituições”, explica. Ruah – nº 55 – 2011 | 5 aconteceu Jovens cultivam a espiritualidade Em 2010, 20 jovens de diversos cursos se reuniram no Retiro para Universitários da PUCRS, evento realizado no Jardim do Éden, em Tramandaí (RS). Mais uma vez, o tema foi “Dê um feriado para o seu weekend”. O objetivo é proporcionar uma oportunidade para cultivar a espiritualidade, que na sua essência caracterizase pelo conjunto de valores de significados que acompanham a vida. “Cultivar a espiritualidade tem como efeito o crescimento da generosidade, da cooperação, da harmonia e da capacidade de conviver com o diferente não excluindo ninguém”, destacou Rafael Rossetto, Agente de Pastoral. O próximo Retiro já tem data marcada: de 28 a 30 de outubro de 2011. Fique atento! Próximo Encontro de Convivência acontece em abril A próxima edição do Encontro de Convivência será realizada nos dias 9 e 10 de abril de 2011, no Centro de Eventos PV Sul, em Gravataí (RS). As inscrições estarão abertas a partir de 1° de março e estão convidados todos os calouros e jovens que ainda não participaram da atividade. No ano passado, 30 universitários de diferentes cursos participaram do encontro, que tem por objetivo proporcionar maior conhecimento da proposta e das atividades do Cento de Pastoral e Solidariedade, envolvendo os estudantes em ações e projetos desenvolvidos. Outras informações sobre a nova edição podem ser obtidas pelo telefone (51) 3320-3576 ou e-mail [email protected]. Ebruc 2010 reúne 200 jovens Refletir sobre a ação evangelizadora no meio universitário foi o tema central do 1º Encontro Brasileiro de Universitários Cristãos (Ebruc 2010), realizado de 9 a 12 de outubro de 2010, na PUC Minas, no campus Betim, em Belo Horizonte. Cerca de 200 jovens, vindos de todo o País, estiveram no evento. Entre as principais atividades estavam a Caravana da Anistia, projeto que percorre o Brasil para resgatar a história do engajamento cristão no meio universitário; o Lucenário, momento instrospectivo de reflexão e oração; e a Festa Cultural, animada ao som de percussão e interpretação teatral. Também foi destaque a palestra “Presença da Juventude na Universidade, Caminhos e Linguagens Próprias na Construção da Identidade e Profissão”, ministrada pelo Pe. João Batista Libanio. Segundo um dos participantes, o evento foi “essencial para que todos possam se fortalecer e levar adiante projetos e ações que desenvolvem dentro das universidades”. Visite o blog ebruc2010.blogspot.com e saiba um pouco mais do que aconteceu. Missa, inaugurações e homenagem a funcionários marcam aniversário da PUCRS No dia 9 de novembro de 2010, a PUCRS completou 62 anos de atividades. A data foi marcada pela inauguração do Centro de Educação Continuada e do Centro de Convivência para Professores. Dando continuidade às festividades, ocorreu na Igreja Universitária Cristo Mestre a missa de Ação de Graças, celebrada pelo Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. O dia foi encerrado com a bonita cerimônia de entrega da Medalha Irmão Afonso a 56 funcionários. A honraria é conferida a pessoas que prestam serviços à instituição há 25 anos. Criada em 1981, tem a efígie do fundador da Universidade, Irmão Afonso. Entre os homenageados estava o Padre Antony Kotholy (na foto ao lado recebendo a homenagem do Reitor, Ir. Joaquim Clotet), assessor do Centro de Pastoral e Solidariedade. 6 | Ruah – nº 55 – 2011 Universitários levam fé aos moradores da Vila Fátima e recebem a visita do Reitor Semana Farroupilha PUCRS traz a cultura gaúcha ao Campus De 8 a 30 de setembro de 2010, o Piquete Querência Pastoral deu vida à Semana Farroupilha da PUCRS. Instalado ao lado do prédio 17 do Campus Central, o espaço proporcionou o cultivo das tradições gaúchas a toda comunidade universitária. Entre os mais de mil visitantes esteve um grupo de intercambistas chineses da cidade de Harbin, que puderam conhecer um pouco da história e da cultura gaúcha contada a partir da simbologia que ornamentava o Piquete. Ao som da tradicional gaita eles chegaram até a arriscar alguns passos da dança gaúcha Chamamé. O destaque desta edição ficou por conta do Ciclo de Palestras “Cultura Política e Identidade Cultural Gaúchas”, organizado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em parceria com o Centro de Pastoral e Solidariedade. Os debates foram acompanhados por mais de 150 pessoas, entre acadêmicos e comunidade em geral. Como não podia deixar de ser, um dos pontos altos da Semana Farroupilha foi a Missa Crioula, realizada no dia 17. Unindo fé e tradição gaúcha, a celebração contou com a presença de, aproximadamente, 50 pessoas. Merece destaque também a presença do declamador Marcelo Osório Wallau, autor do livro Tropa de Versos: meus olhos de ver o mundo, e dos cantores Carlos e Camila Keppler. Entre os dias 23 e 29 de julho de 2010, 74 universitários da PUCRS participaram de uma atividade revigorante: a Missão Porto Alegre – Vila Fátima. Visitas às famílias da região, oficinas pedagógicas, revitalização em estruturas locais, formação para os alunos e atividades interativas foram praticadas durante a ação. No último dia de atividades, os acadêmicos foram surpreendidos pela visita do Reitor, Irmão Joaquim Clotet. Ele destacou que o projeto tem como objetivo a proteção e a promoção da dignidade humana mediante a firme atuação da Universidade, do engajamento de toda a comunidade, conscientes de seu papel na construção de uma sociedade justa e fraterna. “A Missão representa uma experiência de espiritualidade e solidariedade, que proporciona a aproximação dos acadêmicos com comunidades em situação de vulnerabilidade social”, destacou. Neste ano, a Missão Porto Alegre – Vila Fátima acontecerá dos dias 21 a 27 de julho, e as inscrições vão de 25 de abril a 3 de junho, tendo um encontro de formação e planejamento no dia 11 do mesmo mês. A atividade vale como horas complementares, mas cada aluno deve consultar sua unidade acadêmica. Projeto Sinergia Digital recebe Top Cidadania e forma novas turmas Em 2010, o Projeto Sinergia Digital, que promove a inclusão de crianças, adolescentes e adultos da terceira idade no meio digital, foi homenageado com o prêmio Top Cidadania, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos – seccional do Rio Grande do Sul. O Reitor da Universidade, Ir. Joaquim Clotet, o Vice-Reitor, Ir. Evilázio Teixeira, Pró-Reitores, professores e os membros do Comitê Gestor do Projeto prestigiaram a cerimônia de entrega do troféu (foto abaixo). No dia 20 de novembro, o Projeto teve outra comemoração: a formatura de novas turmas. A cerimônia, que contou com a presença dos participantes dos grupos de crianças, adolescentes, funcionários, GERON e voluntários, ocorreu no auditório térreo do prédio 50 da PUCRS. Compondo a mesa integrante da colação, estavam o Vice-Reitor da Universidade, Ir. Evilazio Teixeira, a Vice-Diretora da Faculdade de Administração Contabilidade e Economia, Edimara Mezzomo Luciano, e, representando o Presidente da AVESOL, Débora Rodrigues. Após a entrega dos certificados, a equipe Sinergia Digital homenageou os voluntários com a execução de uma música tocada e cantada pelo funcionário Mauricio Teixeira Canello e o Agente de Pastoral Rafael Rossetto. Os atendidos e seus convidados foram conduzidos ao saguão do prédio, onde foi servido um coquetel. Ruah – nº 55 – 2011 | 7 DESTAQUE Projeto Eco-Óleo: ação da Universidade contra o aquecimento global e as mudanças climáticas Mais vida para o planeta A Campanha da Fraternidade 2011 aborda o tema aquecimento global e mudanças climáticas, com o objetivo de contribuir para que haja maior conscientização das comunidades cristãs e das pessoas sobre a gravidade das variações de temperatura. A campanha pretende também incentivar todos a participarem dos debates e atividades desenvolvidos sobre o tema, os quais visam encontrar soluções para o problema e reforçar medidas de preservação para condições de vida no planeta. 8 | Ruah – nº 55 – 2011 A mudança na temperatura do planeta é perceptível. Segundo relatório de 2007 do Intergovernmental Panel Climate Change (IPCC) o planeta Terra está aquecendo desde 1750, tendo elevado a temperatura média em 0,74° C, somente até 2006. E a maior parte do aumento de temperatura foi causada por concentrações crescentes de gases do efeito estufa, como resultado de atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. O IPCC projeta ainda que as temperaturas globais de superfície provavelmente aumentem no intervalo entre 1,1 e 6,4 °C entre 1990 e 2100. A variação dos valores reflete o uso de diferentes cenários de futura emissão de gases estufa e resultados de modelos com diferenças na sensibilidade climática. Mas mesmo diante de um cenário tão preocupante é preciso não perder a fé. Dar as mãos e buscar medidas que revertam, de algum modo, esse quadro. A Campanha da Fraternidade, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), deste ano traz como tema a “Vida no Planeta” e como lema “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). Seu objetivo, além de denunciar situações e apontar responsabilidades no que diz respeito aos problemas ambientais decorrentes do aquecimento global, é propor novos comportamentos e práticas fundamentados em valores que tenham a vida como referência na relação com o meio ambiente. A campanha sugere ainda o estímulo ao amor fraterno entre as pessoas, já que o planeta Terra é a casa de todos, sem distinção. Além disso, mostra que é preciso mobilizar, propor e denunciar. Somar essas três ações possibilitando, assim, uma tomada de atitude consciente e eficaz. Bons exemplos Existem iniciativas de sucesso que demonstram a preocupação da sociedade e evidenciam o princípio da responsabilidade no cuidado com o meio ambiente. A PUCRS, com base na sua missão e correspondendo ao seu compromisso social, priorizou o tema durante o desenvolvimento de seu Planejamento Estratégico 2011-2015. A Universidade entende que cuidados com o meio ambiente são imprescindíveis para o bem-estar e a qualidade de vida da sociedade. Entre as iniciativas organizadas pela instituição, destaca-se o Projeto Social Eco-Óleo, desenvolvido pela Faculdade de Química, no qual óleo de cozinha é transformado em biodiesel. O princípio da atividade é fazer com que a cidade não produza mais um resíduo (o óleo de fritura) e sim transforme esse material em combustível renovável, o biodiesel, envolvendo a sociedade com questões como impacto ambiental, aquecimento global e sustentabilidade. Para tanto, a Universidade conta com a participação de escolas, empresas e dos alunos e professores da instituição. De acordo com a coordenadora do projeto, professora Jeane Dullius, a atividade é um exemplo de que é possível demonstrar que existem alternativas para se trabalhar de forma sustentável. “Nossos alunos se deparam diariamente com questões técnicas, no que se refere a produção do biocombustível, econômicas, pois otimizamos o processo para que este seja economicamente viável, e sociais, já que discutimos o impacto de todo o processo sobre a vida da comunidade.” Segundo ela, o planeta busca combustíveis alternativos aos derivados de petróleo. “O emprego de um resíduo como o óleo de fritura para produção de combustível traz ganhos no que diz respeito a dar um destino ao óleo utilizado para cozinhar e não descartá-lo no meio ambiente, bem como produzir um combustível renovável”, destaca. A professora diz ainda que não existe uma única solução para a crise energética como um todo. “Muitas iniciativas deverão ser tomadas de forma efetiva e o biodiesel é apenas uma delas.” Impacto econômico Jeane explica que a produção de biodiesel requer subsídio dos governos ao redor do globo, para ser competitivo com o diesel de petróleo. “Um dos fatores que contribui de forma predominante no custo final do biodiesel é o óleo vegetal utilizado. Quando utilizamos resíduos como o óleo de fritura, esta conta diminui e o preço final do combustível cai”, comenta. Entretanto, não são todos os carros que podem fazer uso do combustível sustentável. Os veículos que possuem motor ciclo diesel (caminhões, ônibus, caminhonetes) têm a opção de utilizar o biodiesel no lugar do diesel. Conforme a professora, muitos estudos definem que misturas são ideais para que o desempenho destes motores continuem o mesmo, sem precisar de adaptação. “A maioria dos motores converge para uma mistura B30 (30% biodiesel + 70% diesel). Na Alemanha, utiliza-se B100 (100% biodiesel) há bastante tempo”, compara a coordenadora do projeto. Segundo a professora, para que o programa cresça cada vez mais, é fundamental que parceiros se interessem em contribuir. “O projeto deve ser mantido, para que nossos alunos continuem transferindo seus conhecimentos e aprendendo com a sociedade.” O projeto social EcoÓleo comprova que existem alternativas viáveis para contribuir com o meio ambiente, basta planejamento, investimento e esforço coletivo. Saiba mais sobre o projeto Revista Ruah O biodiesel produzido na PUCRS é comercializado? Jeane Dullius Não. Revista Ruah Jeane Revista Ruah Jeane As pessoas podem doar óleo para o projeto? Sim. Entretanto como a usina é localizada no Centro Social Marista Cesmar (Estrada Antônio Severino, 1493 – Bairro Mario Quintana. Fone: (51) 3086-2300), este óleo deve ser direcionado para lá. Como se recicla óleo em casa? O ideal é que o óleo, depois de frio, passe por uma peneira e seja guardado em uma garrafa de água ou refrigerante. Como participar O grupo do Projeto Social Eco-Óleo também organiza palestras e capacitações explicando a importância da campanha, além de fornecer informações sobre o processo de produção. Interessados em participar e doar óleo de cozinha utilizado podem entrar em contato com o Cesmar pelo telefone (51) 3366-3817 e a Faculdade de Química pelo número (51) 3320-3549 ou e-mail [email protected]. Ruah – nº 55 – 2011 | 9 REPORTAGEM ESPECIAL Fáberson Mocelin (à esquerda) e Julio Cesar Razera, alunos do 5º ano de Medicina, acreditam que a espiritualidade faz parte da melhora do paciente Além do físico Área da saúde volta às origens, tratando o paciente como um ser social, psicológico e espiritual A natomia, Morfologia, Fisiologia e Epidemiologia são disciplinas comuns de qualquer curso de Medicina. Porém, ao analisar com calma o currículo da Faculdade de Medicina (Famed) da PUCRS, nos deparamos com aulas como Humanismo e Cultura Religiosa e Filosofia e Bioética, reflexo de uma mudança que vem acontecendo no setor. Afinal, a academia acompanha – e muitas vezes antecipa – a vida. 10 | Ruah – nº 55 – 2011 Formalmente, a definição de saúde determinada pela Organização Mundial da Saúde, o órgão mais importante da área, é de que ‘é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença’. Mas já está claro para médicos e pacientes que além do físico, do social e do psicológico, o profissional deve levar em consideração o indivíduo como um ser espiritual. E é isso que a Universidade busca passar aos futuros trabalhadores da saúde. Em 1989, o atual Reitor da PUCRS, Joaquim Clotet, então professor da Medicina, criou a disciplina de Bioética ( que trata do assunto) na Famed, a primeira do Brasil a incluir o tema no currículo. Segundo ele, a espiritualidade pode ser definida como um estado interior da pessoa que orienta para a transcendência, ou a busca do além. “Ela admite diversas formas ou concepções, pode demandar fé numa força que transmite firmeza e ajuda. Do mesmo modo, pode incluir técnicas que possibilitam ultrapassar ou vencer a realidade”, completa (leia mais sobre espiritualidade na página 18). Essa mudança, porém, não é tão simples e rápida como parece. Por não ser algo sólido e visível, ainda é motivo de muita polêmica. “A dimensão biológica é a que mais se destaca pelo viés que nós temos de olhar para o exame físico, coisas palpáveis. E é essa imaterialidade que parece romper com a questão do biológico, mas, ao contrário disso, ela tem que integrar todas essas dimensões. São níveis de complexidade que estão sendo incluídos na questão da saúde“, explica José Roberto Goldim, biólogo, doutor em Medicina e professor da Famed e do Instituto de Filosofia, por meio do qual ministra a disciplina de Bioética em diversos cursos, como Nutrição, Farmácia e Odontologia. É autor de diversos livros sobre o assunto, como Bioética e Espiritualidade. A questão da imaterialidade dificulta, da fé, o paciente passa – muitas vezes – a acreditar mais na cura de sua enfermidade e colabora com o seu tratamento tomando suas medicações conforme orientação do médico, alimentando-se melhor, saindo do leito, esforçando-se na fisioterapia, dentre outros pequenos atos que somados têm um grande impacto”, destaca Razera. “Existem muitas situações, ao longo da história da Medicina, onde não há uma explicação para a cura. Não sabemos se o nosso conhecimento é limitado ou se realmente forças espirituais influenciaram o desfecho”, completa Mocelin. Sem hierarquia também, as pesquisas sobre o tema. Apesar disso, em uma rápida busca em um dos sites mais consagrados na área médica, é possível encontrar mais de 2,9 mil artigos sobre o assunto – sendo que o mais antigo data de 1982. “A partir da década de 90 existem vários estudos que tentam desvendar, por exemplo, o poder da oração e os grupos que rezam por outros. Há também estudos que demonstram que as pessoas que têm uma dimensão espiritual mais trabalhada acabam tendo também maior capacidade de lidar com situações difíceis”, relata o professor. Um estudo que acompanhou mais de três mil adultos durante seis anos constatou que as pessoas que possuíam pouca ou nenhuma atividade religiosa tinham comparativamente maior mortalidade. “Eu não tenho dúvida nenhuma de que a espiritualidade é uma dimensão fundamental na vida do ser humano e que ela tem que ser levada em consideração quando se está discutindo a saúde de um paciente, de uma família ou de uma sociedade”, defende. “Uma pessoa que tenha uma dimensão espiritual muito trabalhada e que a valorize muito obviamente vai ter uma abordagem diferente do que aquela que acha isso é uma coisa secundária”, completa. A experiência de anos de profissão também deve ser levada em conta. Segundo Goldim, de modo geral, o que pode ser observado é que as pessoas que têm a dimensão espiritual mais desenvolvida acabam enfrentando melhor situações complexas de saúde, como o diagnóstico de uma doença muito grave ou uma situação de morte eminente. “Acredito que isso aconteça porque as pessoas acabam tendo essa possibilidade de transcender, porque as manifestações espirituais de alguma forma lidam com a questão da morte”, levanta. No quinto ano do curso de Medicina, os alunos Julio Cesar Razera e Fáberson Mocelin estão aplicando, na prática, os conhecimentos já adquiridos. “A confiança e a força de vontade da pessoa em cuidado e seus familiares são muito importantes para o sucesso de determinado tratamento médico. Em razão Quando um médico faz o primeiro exame do paciente, pergunta quais são os sintomas e queixas que ele tem, faz uma avaliação física e vê quais são os sinais vitais. Assim, consegue fazer um diagnóstico de saúde mental e social, mas dificilmente entra na questão da espiritualidade. Um fato que exemplifica como o tema está presente e precisa ser tratado é que pelo menos 10% dos pacientes em hospitais têm alguma restrição alimentar por motivo religioso que eles não revelam. O que eles fazem é deixar a comida no prato. “Acho que as pessoas não querem se expor nessa dimensão porque acham que vão ser ridicularizadas. Então acabam tendo uma maneira muito sutil de manter a prática religiosa”, conta Goldim. Existem situações mais radicais, como quando a religião impede que a pessoa faça algum procedimento, como é o caso de transfusão de sangue de Testemunhas de Jeová. “Quando enfrentamos situações na área da saúde onde o principal elemento do processo de tomada de decisão do paciente é a dimensão religiosa, isso acaba trazendo um enorme desafio para as equipes. Nós não podemos dizer para o paciente ‘isso fica lá fora’”, afirma o professor. Como não existe, por definição, uma hierarquia nas quatro dimensões (biológica, social, mental e espiritual), há momentos em que o espiritual domina e outras horas em que o biológico é o mais importante. “O principal desafio hoje em dia na área da saúde é lidar com a multiplicidade de fatores que intervêm no Ruah – nº 55 – 2011 | 11 processo de decisão que o médico, junto com o paciente, sua família e a sociedade vai ter que tomar”, defende o biólogo. Voltando às origens De certa forma, o currículo da faculdade e toda essa transformação espelham uma volta às origens – mas sem deixar de lado o conhecimento técnico adquirido ao longo de séculos de estudos. Isso porque os primeiros hospitais, quando não havia nada para oferecer no plano físico, tinham essa visão mais espiritual. “Eles eram um acolhimento de moribundos, um exercício de caridade e amor no sentido de abrigar alguém que sofre”, conta José Roberto Goldim. Com o conhecimento técnico, porém, a espiritualidade foi deixada de lado durante um tempo. Progressivamente começou a entrar a noção de que existia uma outra dimensão, que era a psicológica. Passou-se, então, a tratar da saúde mental. Por volta de 1970, inclui-se uma terceira dimensão: a social. Nessa caminhada, quando houve a mudança da definição de saúde dada pela OMS, começou a ter a discussão sobre a dimensão espiritual. “A discussão se mantém porque ela ficou contaminada com a questão da religiosidade X espiritualidade, já que as pessoas confundem os dois, o que é um campo de discussão gigantesco”, opina o professor. É claro que não é possível ignorar todo o conhecimento técnico conquistado ao longo de mais de séculos de estudos. Ao contrário do que foi feito no passado, hoje fica claro que nenhum âmbito deve sobrepor os outros, a não ser em casos específicos. “Não podemos cair na mesma armadilha do recorte individual, de transformar um individuo que é multidimensiocinal em unidimensional”, afirma Goldim. “Eu não acredito que se dermos um remédio para um paciente sem ter nenhuma interação humana com ele, numa situação de total isolamento, tenha a mesma eficácia de que se ele tiver uma boa relação médico-paciente, uma boa rede de apoio social, um bom apoio espiritual. Eu acho que são todas dimensões que se complementam e o que temos tentado ensinar na Faculdade de Medicina é essa complementaridade”, finaliza o biólogo e professor. 12 | Ruah – nº 55 – 2011 O exemplo da PUCRS Joaquim Clotet, atual Reitor da PUCRS, foi o primeiro professor de bioética do Brasil. Em 1989 ele criou a disciplina de Ética e Bioética no curso de pós-graduação da Faculdade de Medicina. No início dos anos 2000, a Faculdade de Medicina da PUCRS mudou a base curricular para novas diretrizes. Nesse momento, a Bioética foi definida como um eixo transversal, estando presente ao longo de toda a formação do aluno. “A universidade tem esse papel muito importante de trabalhar esses temas que são polêmicos e que geram angústias e medos nos estudantes. Eles são, desde o início, preparados para discutir e refletir sobre essas questões”, esclarece Valéria Lamb Corbellini, coordenadora da Coordenadoria de Integração Ensino-Serviço na Saúde da Pró-Reitoria Graduação. “Na prática, eles debatem a bioética do primeiro ao último semestre”, garante Goldim. Além de ser tratada em inúmeras disciplinas, ela possui uma específica para o curso de Medicina, denominada Filosofia e Bioética, que ocorre no terceiro semestre e é ministrada por dois professores, um da Bioética e outro da Filosofia. Os alunos aprovam a medida. “A aceitação e a compreensão das diversas religiões e da espiritualidade são fundamentais para a formação de um médico mais humano. Formar pessoas, não somente médicos, é um dos grandes desafios das faculdades”, opina o acadêmico Julio Cesar Razera. No curso de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem, Fisioterapia e Nutrição, o tema também é tratado com muita relevância. “A fé tem esse papel de mobilizar uma força interior, e a superação de problemas de saúde depende muito disso. Por esse motivo, o tema aparece ao longo de diversas disciplinas e, ao meu ver, precisa ser sempre reforçado”, finaliza a diretora da unidade, Beatriz Ojeda, que atuou como enfermeira pediátrica por mais de 30 anos. Ir. Joaquim Clotet, Reitor da PUCRS, foi o primeiro professor de Bioética do Brasil DICAS Para assistir O filme Aparecida - O Milagre, que tem a direção de Tizuka Yamasaki, narra uma história de transformação, superação e reencontro de um homem – com a família, com o filho e, sobretudo, consigo mesmo, através da fé em Nossa Senhora Aparecida. Marcos, personagem principal do filme, perde seu pai ainda criança e culpa Maria por este acontecimento. Já adulto, ele é um homem separado, que tem um relacionamento ruim com o filho, o qual sofre um grave acidente. Em meio a tantas dores, a devoção a Nossa Senhora Aparecida poderá salvá-lo. Nomes como Murilo Rosa, Bete Mendes, Maria Fernanda Cândido, Jonatas Faro, Rodrigo Veronese e Leona Cavalli fazem parte do elenco. Espiritualidade e Saúde Mental Se você gostou do tema tratado na matéria de capa desta edição também irá curtir o artigo Espiritualidade e Saúde mental – O desafio de reconhecer e integrar a espiritualidade no cuidado com nossos pacientes do médico Alexander Moreira de Almeida. Disponível no endereço hoje.org.br/site/arq/artigos/Espiritual1.pdf, o projeto é uma série de quatro capítulos publicados em uma revista especializada. O objetivo do coordenador é destacar a importância da religiosidade e/ou espiritualidade na prática clínica. Os textos são escritos por especialistas com reconhecida competência na área. Ano Mariano é celebrado em 2011 A União Marista do Brasil (Umbrasil), a partir do apelo fundamental do XXI Capítulo Geral “Com Maria ide depressa para uma nova terra”, estabeleceu que em 2011 será celebrado o Ano Mariano. O objetivo é reavivar a presença de Maria na vida Marista e oferecer uma visão renovada sobre a santa, centrada em Jesus Cristo, em sintonia com o Vaticano II e em diálogo com o mundo contemporâneo. A homenagem visa também favorecer o cultivo da mística e da espiritualidade marianas nos espaços de Missão Marista no Brasil, em comunhão com a Igreja. O Ano Mariano ainda ajudará na preparação para a comemoração dos 200 anos de nascimento da Sociedade de Maria (1816-2016) e do Instituto dos Irmãos Maristas (1817-2017), e será desenvolvido em dois eixos fundamentais: Mística e espiritualidade e Formação e celebração. O período de realização das atividades acontecerá de 25 de março a 8 de dezembro. Para saber mais sobre as ações organizadas pelo Centro de Pastoral e Solidariedade, acesse wwww.pucrs.br/pastoral. Experimentando Deus A dica de livro da edição é a obra Se quiser experimentar Deus, de Alsem Grün. O texto aborda por vários ângulos o como experimentar Deus nos dias de hoje, tendo como fundo os caminhos serializados pelos textos bíblicos. A obra faz um convite ao leitor para abrir-se a Deus e ao mundo, aos sentidos e ao desejo, e a todo o divino para quem anseia vivenciar Deus. Editora Vozes, 248 páginas. Segunda chance Se você perdeu as palestras do projeto Fé e Cultura 2010, pode assisti-las no site www.pucrs.br/ feecultura. A dica é a palestra Quem é Deus?, de José Saramago, que aconteceu no dia 10 de maio de 2010 – você encontra o vídeo clicando em Programação. A palestra, apresentada por Luiz Antonio de Assis Brasil, professor da Faculdade de Letras, e Luiz Carlos Susin, da Faculdade de Teologia, abordou algumas das obras do escritor português ganhador do Prêmio Nobel que veio a falecer no dia 18 de junho do ano passado, pouco mais de um mês após a palestra. Confira a programação de 2011 no site. Ruah – nº 55 – 2011 | 13 Evento Olho no futuro Encontro debate papel das Instituições de Ensino Superior no Século 21 R epresentantes de oito países estiveram no Campus Central da PUCRS, em Porto Alegre, para debater os desafios e responsabilidades das universidades durante o 4º Encontro do Conselho de Reitores e Representantes da Rede Marista Internacional de Instituições de Ensino Superior (IES). Entre os dias 5 e 8 de outubro de 2010, 16 IES Maristas do Brasil, México, Austrália, Filipinas, Itália, Argentina, Espanha e Peru estudaram os cenários futuros da educação superior marista. Já na abertura, o Reitor da PUCRS, Ir. Joaquim Clotet, destacou os grandes desafios de uma universidade neste século, como o compromisso com a sustentabilidade, a pluralidade de opiniões e a formação de cidadãos responsáveis e bons profissionais. Clotet lembrou ainda que “a Unesco diz que a educação superior contribui para a erradicação da pobreza, o desenvolvimento sustentável e o progresso”. No momento, estavam presentes, entre outras personalidades, o arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, e o Vice-Reitor da PUCRS, Ir. Evilázio Teixeira. 14 | Ruah – nº 55 – 2011 O Reitor ainda apresentou as propos- Juliatto, e pelo professor Ricardo Tescatas para o futuro das IES segundo a Fe- rolo, com a colaboração do professor deração Internacional das Universidades Paulo Eduardo de Oliveira e dos Irmãos Católicas (Fiuc), que abrange 210 institui- Manoel Alves, Pablo Franco, Antônio ções em todo o mundo. Promover diálogos Benedito de Oliveira (Benê), Gentil Pae movimentos em favor da paz, con- ganotto, Félix Roldán e Frederico Unterberger. No estudo, tribuindo assim os autores tratam para fortalecer a sobre Educação Sumissão da Igreja perior na Sociedade Católica, está endo Conhecimento e tre os objetivos da como Compromisso instituição. Eclesial, entre outros Integrante do tópicos. Conselho Superior O Encontro do dos Institutos MaConselho já aconteristas e represenceu em Curitiba, em tante na América, 2004; em Guadalao Ir. Josep Maria (Unesco) jara, no México, em Soteras falou sobre temas educativos maristas e seus sonhos 2006; e em Alcalá de Henares e Salafuturos, além da educação solidária e manca, na Espanha, em 2008, antes atuação como membros de uma sociedade de retornar ao Brasil no ano passado. A globalizada. Durante o evento, também foi próxima edição está sendo preparada e distribuído o documento “Missão Marista ocorrerá na Cidade do México, em 2012. na Educação Superior”, organizado pelo Acesse e leia o documento na íntegra: Reitor da PUC do Paraná, Ir. Clemente Ivo champagnat.org. “A educação superior contribui para a erradicação da pobreza, o desenvolvimento sustentável e o progresso.” Juventude em AÇÃO Rumo à Espanha Conheça Miguel, Sophia e Tailine, os acadêmicos da PUCRS que irão representar os mais de 800 jovens da PJM do Rio Grande do Sul no Encontro Internacional de Jovens Maristas e na Jornada Mundial da Juventude Q uem acha que os adolescentes e jovens só querem saber de festa está muito enganado. Em agosto de 2011 são esperados milhares de participantes entre 16 e 28 anos para compartilhar experiências, partilhar sonhos, inquietudes e realizações no Encontro Internacional de Jovens Maristas e na Jornada Mundial da Juventude, que acontecem em Buitrago de Lozoya e em Madrid, ambos na Espanha. Cada Província Marista enviará cinco jovens aos eventos. Dos escolhidos pela unidade do Rio Grande do Sul, três são acadêmicos da PUCRS: Miguel Perez, 18 anos, estudante de Física que iniciou sua caminhada no Colégio Champagnat, em Porto Alegre (RS), Sophia Kath, 19 anos aluna de Jornalismo que estudou no Colégio Rosário, também na Capital gaúcha, e Tailine Castilhos, 18 anos, acadêmica de Letras que começou sua trajetória no Instituto Marista Graças, em Viamão (RS). Os três tiveram trajetórias parecidas. Estudantes de colégio Maristas, iniciaram suas caminhadas na Pastoral Juvenil Marista (PJM), onde se tornaram animadores de Grupo. A escolha para participação foi motivo de muito orgulho e responsabilidade para eles, já que entre os critérios estavam: o nível de engajamento na unidade, a proximidade com a comunidade eclesial, a biografia da vida envolvendo a PJM e tempo de grupo, por exemplo. “Outros colegas teriam a mesma capacidade de ir, por isso é uma grande oportunidade representá-los”, disse Tailine. Tanto é que todos os jovens da PJM participarão da preparação para os encontros, mesmo que apenas cinco embarcarão rumo à Espanha. “Quando vamos para esses encontros percebemos que existem outros jovens que lutam pelo mesmo objetivo que nós. Isso nos mostra que o mundo tem um futuro e que a gente tem que continuar lutando por isso”, completou Sophia. Sophia, Miguel e Tailine (da esquerda para direita): prontos para embarcar Protagonismo juvenil no Encontro O Encontro Internacional de Jovens Maristas acontecerá de 10 a 14 de agosto em Buitrago de Lozoya (município localizado a 70 km de Madrid) para um grupo de 125 a 200 jovens, representando todas as Unidades administrativas do Instituto. Entre os objetivos estão: realizar um momento de protagonismo juvenil em que jovens evangelizem outros jovens, celebrar a riqueza da internacionalidade do Instituto Marista e renovar o espírito de serviço como Maristas.No dia 15 de agosto, haverá uma grande celebração com os participantes do encontro e da jornada. A grande jornada Criada pelo Papa João Paulo II em 1985, a JMJ é uma reunião de jovens com o mesmo objetivo: tornar Jesus Cristo conhecido e amado. A primeira JMJ aconteceu em Roma (Itália) e, desde então, já passou por Buenos Aires (Argentina), Czestochowa (Polônia), Denver (Estados Unidos), Paris (França), Toronto (Canadá), Colónia (Alemanha), Sydney (Austrália), entre outros. No evento, que ocorre de três em três anos, os jovens que participaram do Encontro Internacional se juntarão a outros maristas e jovens de diferentes movimentos e congregações – até o dia 4 de fevereiro já eram contabilizados mais de 4.000 inscrições do Brasil e 260.810 de todo o mundo. Ela acontece do dia 16 ao dia 21 de agosto, em Madrid. Algumas das atividades serão missas, catequese e uma Vigília com a presença do Papa Bento XVI, que enviou uma carta aos jovens ressaltando a importância da JMJ para toda a comunidade de Deus. João Paulo II foi nomeado patrono da JMJ Madrid 2011 depois do anúncio da sua beatificação, prevista para o próximo 1º de maio. O encontro se estende até o dia 21 de agosto, porém, não se encerra nessa data. Os gaúchos pretendem espalhar o conhecimento adquirido nas terras espanholas. “Não podemos guardar apenas para nós a experiência que tivemos lá, seria um grande egoísmo. É nossa obrigação passar para os outros”, ressalta Perez. Ruah – nº 55 – 2011 | 15 PUCRS em Solidariedade Trabalho voluntário contribui para formação profissional Empresas consideram voluntariado um diferencial na hora de contratar funcionários A prestação de trabalho voluntário pode ser um forte diferencial para quem quer se distinguir em um processo seletivo. Para o diretor de empreendimentos da Braskem, Guilherme Guaragna, algumas empresas evidenciam a preferência por valores pessoais como conduta e perfil em detrimento da técnica. “Os conhecimentos técnicos, hoje, são abundantes. É mais fácil a empresa formar tecnicamente uma pessoa do que formar perfil e atitudes”, justifica. O Brasil é um país com grande necessidade de realização nas questões sociais. A atuação do Estado e mesmo a do em- presariado são insuficientes para criar um ambiente eficaz na solução dos problemas sociais. Estrategicamente, o trabalho voluntário tornou-se um elemento importante para o país, na medida em que se constituiu em um modo de capacitação pessoal. Uma das exigências da sociedade sobre o estudante é a experiência de viver um ambiente profissional. Muitas vezes, esta formação não é alcançada pelo aluno, mesmo que ele faça estágios ao longo do seu curso. Ao participar de ações sociais, o estudante aprende coisas novas e descobre um mundo diferente. Desta forma, o voluntariado se tornou um complemento prático dos conhecimentos recebidos na universidade. Além disso, a atividade ganhou status de diferencial profissional. Na Braskem, essas características são determinantes na hora da contratação e evidenciam o real potencial do candidato. “Ao se verificar um trabalho prévio de voluntariado, a pessoa demonstra um perfil diferente. É mais preparada e tem o espírito de servir, que é uma das virtudes mais importantes que se busca dentro da Braskem e da Organização Odebrecht. Consequentemente, quem tem experiência de voluntariado acaba tendo vantagem em um processo de seleção”, afirma Guaragna. Atualmente, o trabalho voluntário traz benefícios tanto às empresas quanto à sociedade, que se cerca de pessoas que fazem a diferença na construção de um mundo melhor. Graças à experiência voluntária aliada ao conhecimento técnico, Rodrigo Villanova conseguiu o primeiro estágio 16 | Ruah – nº 55 – 2011 Primeiro emprego graças ao voluntariado Rodrigo Fallavena Villanova, 26 anos, é estudante de Sistemas de Informação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Ele começou a voluntariar em 2002 quando participou da Semana Solidária, evento que consiste em doar uma semana, durante o período do recesso acadêmico, às atividades de entretenimento para crianças carentes. Por dois anos, o jovem trabalhou como voluntário junto à Juventude Marista. Uma vez por semana, atuava em diferentes creches. Ao envolver-se com o voluntariado, Villanova buscou mesclar o curso com o interesse social que tinha. Algum tempo depois, ao participar de um processo de seleção para uma vaga de trabalho, o estudante foi questionado sobre a importância do terceiro setor, que abrange as Organizações Não Governamentais (ONGs). Para surpresa do entrevistador, Villanova narrou sua experiência com os temas humanitários. Aliada ao seu conhecimento técnico, a condição rendeu-lhe o primeiro emprego. Ele passou a ser o responsável pela manutenção de todos os computadores da ONG Pequena Casa da Criança. Além da remuneração, o jovem sentiu-se motivado por saber que seu trabalho iria auxiliar muitas pessoas a melhorarem a qualidade de vida. De acordo com Villanova, hoje, o mercado de trabalho olha diferente para quem já voluntariou. “As empresas notam que o profissional que se importa com o social é um profissional completo e, geralmente, tem maior decência”, diz. O universitário também conta que o voluntariado o ajudou em outros aspectos. “Perdi o medo de falar em público. Tornei-me mais desenvolto e sociável”, relata. As experiências obtidas fizeram com que a rotina de Villanova não se resumisse apenas em faculdade, trabalho e balada. Ele encontrou tempo para incluir o cunho social em sua vida. Vocação para solidariedade Em 2008, dois anos antes de se aposentar, a professora Iara Terezinha Pereira Claudio organizou seu projeto de vida. Entre os objetivos da ex-diretora da Faculdade de Informática da PUCRS estava a prática do voluntariado. O contato que teve com comunidades carentes da Zona Norte de Porto Alegre, em ações esporádicas realizadas entre 2001 e 2005, despertou seu interesse no auxílio aos outros em busca de felicidade. Desde abril de 2010, mês em que se aposentou da Universidade, Iara se dedica diariamente às atividades voluntárias pelo Programa Voluntariado PUCRS. A ex-assessora da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (PRAC) vai duas vezes por semana a antiga Vila dos Papeleiros, no bairro Santa Terezinha, na Capital, e outras duas ao Hospital São Lucas. Na comunidade carente, ela, que lecionava matemática na Universidade, dá aulas sobre como conseguir o primeiro emprego. Disposta a ajudar no que for preciso, a professora conta que já atuou em peças de teatro, ensinou tricô e até aprendeu a Linguagem Brasileira de Sinais para comandar uma oficina voltada à inclusão social de pessoas surdas. No Hospital São Lucas, Iara coordena a Associação dos Bebês Apressados (ABA), que cuida do bem-estar de famílias com bebês prematuros e administra as doações recolhidas pela entidade. Uma das iniciativas de destaque da associação é o Projeto Ouvir, missão criada para ajudar as famílias que ficam emocionalmente sensíveis após o nascimento da criança prematura. “A mãe tem alta depois do parto, mas a criança permanece internada. É um choque muito grande para os pais. A nossa função é escutar essas famílias e dar apoio”, explica a professora. Iara revela que está muito satisfeita com o papel social que desempenha. “No voluntariado é possível renascer como um jovem. Sinto que posso mudar o mundo. Pode até parecer que não, mas sei que estou fazendo a diferença. E isso é fantástico”, acredita. Voluntariado ou caridade? Apesar do crescente interesse pelo voluntariado, ainda existe um tabu quanto a essa prática. No imaginário popular, voluntariado ainda é confundido com caridade, o que acaba por desvirtuar a atividade social na medida em que desvaloriza o ato solidário. Em sua tese Voluntariado e Solidariedade: da Caridade ao Direito, realizada em 2005, Helenara Fagundes defende a importância de compreender o voluntariado na perspectiva solidária. A caridade pode ser constituída por uma orientação semelhante à propensão que o bem supremo exerce sobre ela, afirma a autora. Felizmente, diversas instituições observaram nos últimos anos a importância de promover ações benéficas para o próximo e difundiram o voluntariado ao redor do mundo, desmistificando a questão da caridade e ampliando ações voluntárias a todos os setores da população. Ação da ONU em 2001 Há mais de 40 anos, a questão da responsabilidade social desperta interesse. Mas foi só nesse milênio, em 2001, que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Ano Internacional do Voluntariado. A partir deste momento, muitos trabalhos já existentes ganharam notoriedade. Com o crescente engajamento nesses programas, a sociedade passou a dispensar um tratamento diferenciado para os temas sociais. Nesta edição, a revista contou com a colaboração de estudantes de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social. Rosângela Albano assina o texto da página 15, enquanto Maurício K. Tomedi é responsável pela matéria Vocação para solidariedade e Danielle Brites pela Voluntariado ou caridade. Ruah – nº 55 – 2011 | 17 CONHECIMENTO ESPIRITUAL Espiritualidade X Religião Apesar de terem significados diferentes, muitos ainda confundem as duas palavras R esponda rápido: qual é a diferença entre religião e espiritualidade? Estabelecer um conceito para cada um desses termos não é tarefa fácil, já que, na prática, não se vê uma distinção clara entre ambos. Além disso, eles são usados da mesma forma pela maioria das pessoas. Mas olhando de um ângulo mais profundo e específico é possível determinar uma diferença entre os termos. Segundo o mestre em psicologia clínica e analista junguiano Gelson Luís Roberto, para diferenciar religião de espiritualidade é preciso pensar em ambos como uma qualidade, assim é possível ter uma ideia do espírito ligado à imagem, do pensamento e da consciência. “O universo do espírito estaria ligado aos picos (alturas), ou seja, busca de elevação, sublimação do corpo, unidade e transcendência. O universo da religiosidade estaria mais ligado à alma, uma qualidade que tem como imagem o vale, que é múltiplo, relacional e busca a profundidade. As diferenças são de perspectivas que colocam cada um em uma vivência diferente”, explica. Conforme Roberto, neste caso, a religião seria, de acordo com o entendimento de Carl Gustav Jung, especialista em psicologia analítica, mais do que um religare (uma busca de ligação com Deus). Seria uma atitude cuidadosa com a vida. “Neste sentido estaríamos falando de religiosidade e espiritualidade e não reli- gião e espiritualidade e tanto uma como a outra pode ser dogmática e má compreendida. No que se refere à diferença entre religião e espiritualidade, podemos dizer que a religião está no âmbito da institucionalização de uma crença, com seus dogmas e doutrina, e espiritualidade e religiosidade estão mais na vivência, uma atitude e sentimento fruto da fé, da compreensão pelo coração e de uma consciência da experiência compartilhada, em outras palavras do estar em conexão com a vida e com Deus, seja através do outro ou de um processo interior”, define. O assessor de pastoral Gustavo Balbinot complementa, dizendo que o início de qualquer religião nasce de uma espiritualidade. “Com o tempo essa experiência se transformou em religião, instituição. A religião, para ter sentido em si, deve estar a serviço da espiritualidade e espiritualidade tem a ver com ‘experiência’ e não com doutrinas, dogmas, leis morais, ritos, que fazem parte do dinamismo da religião em si.” Balbinot acrescenta ainda que muitas pessoas buscam fora o que está dentro delas. “É um caminho mais fácil, mais cômodo e até oferecedor de respostas prontas. Elas procuram conforto espiritual e não vivem a espiritualidade em si como experiência de vida e a religião, ou o movimento religioso serve como aprovação ou desaprovação moral de suas atitudes.” Religião sem espiritualidade Conforme Roberto, existem pessoas que se intitulam de determinadas religiões, mas vivem com total distanciamento de uma espiritualidade verdadeira. “Existe uma história que conta que uma pessoa perguntou para um sábio porque atualmente os homens não tinham mais contato com Deus, não reconheciam e não conheciam a experiência de Sua Presença. O sábio respondeu que é porque hoje ninguém se abaixa suficientemente. Acho que isso dá uma ideia da dificuldade de nos abrirmos com humildade para essa experiência espiritual e assim acabamos caindo em caminho dogmático e cerebral, que se impõe como uma forma de acolher a Deus, uma cabeça cheia de conceitos e um coração vazio. E o que temos são religiões que acabam agindo de maneira contraditória ao que se propõem“, explica. Ele acrescenta que a religião pode ser um caminho para a espiritualidade, mas não é o único e nem sempre acaba cumprindo essa proposta. “Podemos encontrar a espiritualidade em qualquer experiência em que nos entreguemos enquanto algo sagrado. Balbinot destaca que um ser espiritualizado é aquele que busca o sentido da vida. “Somos parte do universo, seres sagrados. A verdadeira religião é aquela que torna o ser humano melhor, mais amoroso, mais sensível e solidário. Muita gente não encontra a espiritualidade dentro de um caminho religioso.” OPINIÃO Religiosidade na perspectiva Junguiana Gelson Luis Roberto* Gelson Luis Roberto, mestre em Psicologia pela PUCRS, explica o tema Q uando pensamos na prática junguiana, estamos afirmando um conjunto de princípios que definem o psiquismo humano e seu funcionamento, dos quais a religiosidade é uma condição inerente. Assim sendo, qualquer processo analítico junguiano tem, entre outras, uma preocupação com a experiência religiosa. Começamos com uma citação de Jung, numa paráfrase da afirmação de Santo Inácio de Loyola, onde declara: A consciência do homem foi criada com a finalidade de reconhecer que sua existência provém de uma unidade superior, dedicar a esta fonte a devida e cuidadosa consideração; executar as ordens emanadas desta fonte, de forma inteligente e responsável, proporcionando deste modo um grau ótimo de vida e de possibilidade de desenvolvimento à psique em sua totalidade. Essa afirmação de Jung sintetiza os aspectos essenciais que envolvem a experiência básica do homem. Experiência esta que é eminentemente religiosa. Percebemos que a ideia de religiosidade pressupõe uma visão de totalidade e um eixo de ligação entre a coisa pequena que é o ego e sua consciência e a coisa maior que é o Self, o arquétipo da totalidade, princípio regulador e centro da psique, representando os aspectos transpessoais do indivíduo. Para termos mais clareza do significado da experiência religiosa, importa afirmar que, para Jung, esta é concebida como religere: uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto chamou de numinoso. Trata-se de mostrar um elemento não-racional na ideia do divino e, assim se liga a experiência do sagrado. Trata-se de uma experiência viva do sagrado ou como aponta Jung, a experiência viva de símbolos vivos. Apresenta como forma o mistério e como conteúdo tremendum e fascinans. A experiência numinosa abarca toda vivência de veneração e temor que constitui o mysterium tremendum e que fundamenta a experiência do sagrado. Isso equivale dizer que a experiência religiosa exige uma atitude cuidadosa com a vida. Para Murray Stein (2003), a análise junguiana, como um método de investigação, descoberta e cura, estuda os padrões que emergem do Self, através das diversas manifestações do inconsciente. Observando o irracional, o surpreendente, as ligações escondidas que se infiltram nas nossas vidas e nos conectam com tudo o que existe. É uma reflexão encorajadora do roteiro de Deus, o qual se torna manifesto na medida em que prestamos atenção com profundidade à nossa subjetividade. A realização da mensagem inscrita nas nossas almas cura a nossa unilateralidade e nossas doenças neuróticas. Por princípio, a experiência religiosa é única, íntima e transformadora. A percepção da natureza psicológica da experiência religiosa é extremamente valiosa para o homem da atualidade. A espiritualidade deve então servir como esse campo interativo com o Self, campo interativo que é inerentemente transformador. Em vários momentos percebemos esta instância maior da psique enviando mensagens e reposicionando o ego em benefício da personalidade maior, ou seja, da busca da realização da totalidade psíquica. A religiosidade deve então servir como esse campo interativo com o Self, campo interativo que é inerentemente transformador. Também percebemos esta experiência religiosa no mito do significado, impulso inato que move todo ser humano e que se manifesta através dos símbolos. Assim, muito da experiência religiosa se faz no encontro com as manifestações significativas dadas pelo símbolo. A experiência Em artigo exclusivo, o especialista Gelson Luis Roberto trata sobre a religiosidade na perspectiva Junguiana simbólica sacraliza a vida, dando-nos essa dimensão numinosa, dessa realidade que não cabe em nós e nos remete para algo que não pode ser traduzido racionalmente, apenas vivenciado. E é nesse movimento de sentido que se estabelece uma relação entre o pessoal e o transpessoal. Um lugar onde a vida não seja excluída da totalidade dos eventos e significados da experiência. Assim temos uma relação entre unidade e multiplicidade dentro de uma totalidade dinâmica. Com maior frequência este é o momento em que são mostradas as conexões surpreendentes entre os eventos e a psique humana. Nesse momento, eventos externos comportam-se como se fossem parte da nossa psique, onde Deus, em sua sabedoria e onipresença pode “falar” conosco através desses arranjos da vida. *Psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica, analista junguiano, membro da Associação Junguiana do Brasil e da International Association for Analytical Psychology, membrofundador e presidente do Instituto Junguiano do RS. Ruah – nº 55 – 2011 | 19 Cultivando a espiritualidade no Campus Nessa edição da Revista Ruah você pode ler a respeito de espiritualidade. Conheça agora as possibilidades de cultivá-la na Universidade. Para ter mais informações você pode se dirigir ao Centro de Pastoral e Solidariedade (prédio 17). Missas Cultivando a vida De Segunda a Sexta-feira, às 18h30min Quinzenalmente, das 14h às 17h30min Meditação Atendimento personalizado, confissões e orientação espiritual Quartas-feiras, das 18h30min às 19h15min Quintas-feiras, das 16h25min às 17h Sábado, das 10h15min às 11h Oração e formação bíblica Quintas-feiras, das 19h15min às 20h30min Saiba mais em: Consulte no site dias e horários Preparação para os Sacramentos de Iniciação Cristã (Batismo, Primeira Eucaristia e Crisma) Consulte no site dias e horários www.pucrs.br/pastoral