DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Ano XIX – nº 55 – primeiro semestre de 2011
Cuidado
por inteiro
Além do físico, do social e do psicológico,
área da saúde começa a considerar
o indivíduo como um ser espiritual
Páginas 10 a 12
Projeto une áreas
do conhecimento
Páginas 4 e 5
Escutando o Planeta
Páginas 8 e 9
EDITORIAL
SUMÁRIO
Página 3
Primeira Pessoa: Conheça Pedro
Ekhvanossafa, o aluno que descobriu
um novo mundo por meio do Projeto
Universidade Missionária
Páginas 4 e 5 Em Foco: Em 2010, o Projeto InterAÇÃO
uniu diferentes cursos em busca de um
objetivo comum
Páginas 6 e 7 Aconteceu: Saiba o que rolou no Centro de
Pastoral e Solidariedade no segundo semestre
de 2010
Páginas 8 e 9
Destaque: A preocupação com o meio
ambiente na Campanha da Fraternidade
2011 e na PUCRS
Páginas 10, 11 e 12 Reportagem Especial: A espiritualidade
entra em debate
Página 13
Dicas: O Centro de Pastoral e Solidariedade
sugere sites, livros e filmes para você
aprender ainda mais sobre espiritualidade,
religião e fé
Página 14
Evento: Encontro reúne representantes
Maristas para debater a educação
Página 15 Juventude em Ação: Conheça os três
universitários da PUCRS que irão na JMJ
2011
Páginas 16 e 17
PUCRS em Solidariedade: A influência do
trabalho voluntário na hora de conseguir
uma vaga no mercado de trabalho
Página 18 Espiritualidade: Qual a diferença entre
espiritualidade e religiosidade?
Página 19
Opinião: : Gelson Luis Roberto fala sobre
a religiosidade na perspectiva Junguiana
Novos desafios
Depois da saída do Ir. Valdícer Civa
Fachi, que administrou o Centro de Pastoral e Solidariedade por mais de um ano
e foi enviado em missão à União Marista
do Brasil – Brasília, e do período em
que o Ir. Evilázio Teixeira, Vice-Reitor da
Universidade, gerenciou a unidade temporariamente, fui escolhido para dirigir
este belo setor, que tem como missão
principal a evangelização da comunidade
universitária pelo cultivo da fé e dos valores éticos, com ênfase na solidariedade,
contribuindo na formação de pessoas
comprometidas com a construção da
“civilização do amor”.
É com muita alegria e dedicação que
inicio os trabalhos neste primeiro semestre de 2011. Espero poder colaborar para
o desenvolvimento da unidade e de todos
os nossos projetos que contribuem para
melhorar a vida de alunos, professores,
técnicos administrativos e da comunidade em geral.
Você tem em mãos mais uma edição da Revista Ruah, uma importante
ferramenta de divulgação das nossas
ações. Nela, trazemos temas que interessam aos nossos fiéis leitores, como
os que listo a seguir.
O Brasil é um país muito religioso,
onde mesmo quem se diz ‘sem religião’
sempre tem uma fé interior. E essa é
uma questão que está presente no
dia a dia e acaba influenciando nas
Direção: Irmão Dionísio Roberto Rodrigues
Coordenação Editorial: Marisol Germano Trindade
ISSN 1808-7868
Publicação do Centro de Pastoral e Solidariedade da PUCRS
Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 17 – sala 101
Porto Alegre, RS – CEP: 90619-900
Fone: 51 3320.3576
www.pucrs.br/pastoral
[email protected]
Ano XIX – nº 55 – primeiro semestre de 2011
2 | Ruah – nº 55 – 2011
Conselho Editorial: Gilnei Lopes de Lima, Marisol
Germano Trindade, Melissa de Oliveira Maciel
e Rafael Rossetto.
profissões. Na área médica, na qual
se trabalha com questões delicadas
como a vida e a morte, o assunto fica
ainda mais em evidência. Para qualificar este debate, trazemos o tema na
matéria especial desta edição. Ouvimos
especialistas nas áreas que ajudarão a
refletir os benefícios que a espiritualidade pode gerar em casos decisivos.
Completando esse assunto, destacamos uma matéria sobre a diferença
entre a religiosidade e a espiritualidade
na página 18.
Você ainda confere uma reportagem
sobre o projeto InterAÇÃO, promovido
em parceria com a Codes e a Prograd,
saberá sobre a Campanha da Fraternidade 2011 que traz como tema o
cuidado com o Planeta e verá, ainda,
como a PUCRS está agindo nesse sentido. Conheça também quem são os três
acadêmicos da Universidade que irão
representar a Província Marista do Rio
Grande do Sul no Encontro Internacional de Jovens e na Jornada Mundial da
Juventude, que contará com a presença
do Papa Bento XVI.
Espero poder reencontrá-los em
breve nas nossas atividades do Centro
de Pastoral e Solidariedade!
Boa leitura!Irmão Dionísio Rodrigues
Diretor do Centro de Pastoral e
Solidariedade
Fotos: Arquivo Fotográfico Assessoria de Comunicação
da PUCRS, Arquivo Centro de Pastoral Solidariedade e
Divulgação
Editoração: CMC/Ascomk
Impressão: Gráfica Epecê
Jornalista Responsável: Greta Mello
(Registro Profissional 14.604)
Tiragem: 5 mil exemplares
Pauta, reportagem, redação, edição e supervisão
gráfica: Greta Mello
Circulação: PUCRS, Instituto Marista e Associação
Nacional das Escolas Católicas (ANEC)
Colaboração: Edson Luiz Dal Pozzo, Gilnei Lopes de
Lima, Melissa de Oliveira Maciel, Rafael Rosseto,
Sophia Kath e Zita Judith Bonai
RUAH
Revisão: Irmão Heitor Pedro Scomazzon
Periodicidade: Semestral
Palavra hebraica que aparece seguidamente na Bíblia e
significa vento, força, ação, movimento, sopro de Deus,
Espírito do Senhor
Primeira Pessoa
De milionário a missionário
Pedro Ekhvanossafa viu seus planos e metas pessoais mudarem
após se envolver de corpo e alma na Missão Paróquia – Restinga
N
asci em uma família onde
a religião não foi muito
cultivada. Meu pai é iraniano e se mudou para o Brasil
na tentativa de construir algo
concreto para sua vida, longe do
regime opressor de seu país. Minha mãe acredita em Deus, mas
apegou-se mais aos princípios do
cristianismo após a morte de seu
irmão, em 1997. Eu e ela sempre
discutimos muito sobre fé e o
sentido da vida, mas suas crenças e de meu pai nunca foram
impostas a mim.
Estava no sétimo período de
Engenharia de Produção na PUCRS quando em uma volta pelo
Campus, entrei na Pastoral para
buscar informações sobre como
poderia fazer a catequese para
Primeira Eucaristia e Crisma – fui
batizado apenas no ano de 2006, quando já
possuía discernimento para escolher qual
religião praticar. Na Pastoral, deparei-me
com o programa Universidade Missionária.
Achei a temática interessante e decidi participar. O que eu não sabia é que para ser
um missionário é preciso se despir de todo
e qualquer preconceito e mergulhar nessa
experiência com o coração.
Minha primeira tentativa em 2009 foi
meio frustrante. Não participei na íntegra
e, por isso, não consegui vivenciar a Missão
em sua essência. Foi então que o agente
de pastoral Gilnei Lima me convidou para
atuar na coordenação da Missão Paróquia,
que aconteceu em janeiro de 2010, na Restinga. A partir daí, minha história mudou.
Mesmo com um pouco de timidez e receio
frente a um mundo que para mim era
desconhecido, resolvi tentar novamente.
A experiência que tive vivenciando a
Missão integralmente foi reveladora, e
abriu meus olhos para uma realidade que
para mim antes era utópica: pessoas boas,
como eu, que não são tão raras e extintas
assim. Ganhei, então, muita força e moti-
Pedro: “A missão me fez enxergar que estou
na terra para amar e ser amado”
vação para continuar exercitando minha
fé, e ainda me deu mais segurança para
me abrir mais e enxergar nos outros o bem
que muitas vezes fica escondido.
Apaixonei-me pelo projeto Universidade
Missionária, e em seguida fui convidado a
atuar como coordenador geral universitário da
Missão Paróquia de dezembro de 2010, onde
pude me dedicar mais ainda, exercitar minha
liderança e utilizar muito do conhecimento
adquirido no meu curso de Engenharia de
Produção. Isso me levou a uma das descobertas
mais fundamentais para qualquer bom profissional que deseje ter sucesso na vida e não só
no trabalho. Para trabalhar com o coração e
colocar sua alma naquilo que se está fazendo,
é preciso fazer o bem ao próximo. Sempre.
Mudança de planos
Uma de minhas metas para o futuro,
ou sonho de criança, era me tornar um milionário, pois isso, para mim, era sinônimo
de sucesso. Cresci rodeado de pessoas inteligentes, que batalharam para progredir.
Por tais motivos, considerava meu
objetivo razoável.
Mas durante a semana em que
participei da Missão, juntamente
com o grupo de voluntários, tive a
experiência mais intensa dos meus
23 anos de vida. Vi meus planos e
metas pessoais mudarem, na mesma medida em que me transformei
interiormente. Ficamos alojados na
Paróquia da comunidade, de onde
saíamos pela manhã e visitávamos
lares e famílias da região, com o
intuito de trabalhar a fé, levar esperança, amor e compaixão às pessoas
que por lá moram.
Devido ao meio em que cresci,
onde o status e a posição social têm
um peso grande, principalmente
quando se trata de fazer amigos, sempre fui muito fechado. Tinha medo de
confiar nos outros, de procurar fazer
o bem e ser explorado. Com a convivência
com o grupo e com os moradores da Restinga, tornei-me mais aberto. Percebi que
não é utópico acreditar que as pessoas são
boas, que é possível ser generoso com todos. Hoje sinto uma paz difícil de explicar.
Meus preconceitos foram embora e meu
olhar para o mundo mudou.
Esse choque de realidade me fez enxergar que estou na terra para amar e ser
amado, para ajudar o próximo. Que minha
disposição e boa vontade são o que tenho
de mais valioso para oferecer. Ainda penso
em ser bem-sucedido em minha profissão,
inclusive pretendo usá-la em prol da sociedade e do planeta, mas meu olhar sobre o
próximo é outro.
Toda essa experiência é tão revigorante e intensa, que digo aos universitários
que têm interesse em participar de futuras missões para não hesitarem. Para
aproveitarem essa oportunidade que a
Pastoral da PUCRS proporciona e aprofundar os valores cristãos, descobrindo o
real sentido da vida e do seu futuro como
profissional.
Ruah – nº 55 – 2011 | 3
EM FOCO
Para interagir ainda
mais e melhor
Projeto da Prograd, Codes e Centro de Pastoral
e Solidariedade busca qualificar o aprendizado
e o atendimento dos alunos a comunidades em
vulnerabilidade social
T
odos os semestres, diversas comunidades carentes recebem os alunos
da PUCRS. São futuros médicos,
dentistas, educadores, entre outros, que
aproveitam os conhecimentos já adquiridos durante o curso para colocar em
prática – aumentando o seu aprendizado
e prestando um serviço a uma comunidade em situação de vulnerabilidade social.
O primeiro contato é marcante, porém,
também traz dúvidas e medos comuns em
diversas áreas de atuação.
Pensando em dividir e amenizar esses
anseios surgiu o Projeto InterAÇÃO, uma
parceria da Pró-Reitoria de Graduação
(Prograd), da Coordenadoria de Desenvolvimento Social (Codes) e do Centro de Pastoral e Solidariedade. Nele, os estudantes
têm encontros liderados por professores
especializados sobre esse primeiro contato
com a comunidade. Em 2010, primeiro ano
do projeto, 233 alunos participaram.
O objetivo é qualificar e ampliar essas
práticas, tanto no sentido do aluno, potencializando essa aprendizagem, quanto no
lado da comunidade, qualificando o que é
entregue para ela. “Não podemos pensar
apenas na perspectiva do estudante porque
temos o compromisso com o desenvolvimento social. Caso contrário, corremos o
risco de fazer sempre o mesmo trabalho e
não alterar a realidade da comunidade, que
também precisa ser ouvida e deve perceber
mudanças, ajudando a escolher as prioridades dentro da possibilidade de cada disciplina”, defende a professora Inês Amaro,
da Codes. “É uma forma bem concreta de
praticarmos o que está nos princípios e no
próprio discurso institucional da Universidade, de darmos importância para dimensão
social da formação do aluno”, completa.
A primeira experiência aconteceu em
2010/1 com os cursos de Enfermagem
e Serviço Social. No segundo semestre
foi a vez da Medicina e da Odontologia.
“Optamos por iniciar com a área da saúde,
mas a cada semestre estamos crescendo.
Irmão Valdícer Civa Fachi, então diretor do Centro de Pastoral e Solidariedade, ministra oficina para alunos
4 | Ruah – nº 55 – 2011
Queremos alcançar todos os cursos que
tenham alunos desenvolvendo atividades
em comunidades”, explica Valéria Lamb
Corbellini, coordenadora da Coordenadoria
de Integração Ensino-Serviço na Saúde da
Pró-Reitoria Graduação da Prograd.
Como funciona
O InterAÇÃO é composto de dois encontros, desenvolvidos dentro de uma
disciplina do curso. O primeiro é a oficina
de sensibilização, que acontece antes dos
alunos irem a campo, e é seguido pela de
avaliação, que acontece no retorno dos
vas com relação ao projeto e aos demais
participantes, além dos desafios. Pequenos grupos são organizados para que os
jovens discutam tais conceitos e depois
apresentem aos demais. “Eles se sentem
mais seguros e confiantes e isso acaba interferindo na qualidade da interação com
essas pessoas”, garante Inês. Segundo as
avaliações feitas pelos próprios alunos,
esse encontro trouxe motivação, maior
segurança, conhecimento e solidariedade,
por exemplo.
Na oficina da volta é feita a árvore da
aprendizagem. Os estudantes são estimulados a descrever sentimentos e colocarem
O objetivo do InterAÇÃO é qualificar e ampliar
as práticas desenvolvidas pela Universidade nas
regiões de vulnerabilidade social tanto no sentido
do aluno quanto da própria comunidade
acadêmicos da comunidade. No primeiro
encontro, os estudantes debatem sobre
como será a experiência, suas expectati-
numa árvore, organizada para a atividade.
Fortalecimento da escolha profissional,
curiosidade, momento de reflexão, desenvolvimento pessoal, comunicação
e responsabilidade social são
alguns dos apontamentos feitos
pelos participantes. “O conhecimento, assim como uma árvore
que tem a sua raiz, o tronco, o
caule, as folhas, os frutos e a semente que refaz todo o processo,
também é construído aos poucos.
A construção do conhecimento
e da interação com diferentes
cenários também ocorre dessa
forma”, compara Valéria.
Depois, as professoras fazem
uma avaliação do material. “A
Árvore da aprendizagem registra sentimentos dos alunos
gente se surpreende bastante com
o significado que o projeto acaba
tendo para alguns, eles ampliam
a visão de mundo e conseguem
ter maior sensibilidade para
perceber as diferenças e poder
começar a desenvolver atitudes
de não julgamento. Perceber os
sujeitos, as suas escolhas e colocar o conhecimento à disposição,
mas com a liberdade que o sujeito
tem de fazer o uso que lhe servir”,
destaca Inês. “O Projeto InterAção
é uma excelente oportunidade
Depois do trabalho, acadêmicos comemoram o resultado
para que os estudantes sociali-
zem com colegas e professores de outras
áreas, suas expectativas e sentimentos. É
um momento privilegiado para a tomada de
consciência da responsabilidade individual
no momento da interação com as pessoas
da comunidade, além de despertar nos estudantes sentimentos como: respeito ao ser
humano, a justiça e a solidariedade”, define
Marisol Trindade, Agente de Pastoral Líder do
Centro de Pastoral e Solidariedade da PUCRS.
Seis professores que compõem a comissão organizadora se revezam para ministrar
as oficinas. Outro ponto importante do
projeto. “No InterAÇÃO, são professores
com o foco bem claro, que não discutem
nada técnico”, ressalta Inês. Ou seja, a
oficina ainda funciona como um suporte
interessante para o professor, que também
tem um papel importante. “Eles participam
desde o inicio porque são eles que vão fazer ligação na continuidade do semestre”,
afirma Valéria.
Próximos passos
Como é um projeto novo, existem diversas sugestões. Porém, ele mostra que veio
para ficar. “Ele faz a diferença pois mostra
para o aluno uma realidade social distinta
e também mostra outros caminhos que não
são só a vivencia que eles vão ter na prática
das disciplinas, mas que eles também podem
continuar atividades de extensão, como o
Projeto Rondon”, sugere Valéria.
As turmas para 2011 já estão definidas. No primeiro semestre, os cursos de
Enfermagem e Serviço Social, Educação
Física e Psicologia serão os contemplados. Em 2011/2, Medicina e Odontologia,
Psicologia, Educação Física e Farmácia
participarão do Projeto.
Além disso, as unidades organizadoras
pretendem finalizar um mapeamento, já
iniciado, das organizações sociais onde a
Universidade está presente através dessas
práticas. “A gente sabe que existe um
universo grande de cursos que desenvolvem
ações na comunidade, mas não temos ideia
de como as comunidades percebem essa
presença da PUCRS”, questiona Inês. “O que
acontece hoje é que a comunicação ocorre
da unidade acadêmica ou até do professor,
com a escola X, a organização Y. Não é
uma presença institucional. Pensamos em
fortalecer essa rede e planejar as atividades
a partir das necessidades dos cursos e das
instituições”, explica.
Ruah – nº 55 – 2011 | 5
aconteceu
Jovens cultivam a espiritualidade
Em 2010, 20 jovens de diversos cursos se reuniram no Retiro
para Universitários da PUCRS, evento realizado no Jardim do Éden,
em Tramandaí (RS). Mais uma vez, o tema foi “Dê um feriado para
o seu weekend”. O objetivo é proporcionar uma oportunidade
para cultivar a espiritualidade, que na sua essência caracterizase pelo conjunto de valores de significados que acompanham a
vida. “Cultivar a espiritualidade tem como efeito o crescimento
da generosidade, da cooperação, da harmonia e da capacidade
de conviver com o diferente não excluindo ninguém”, destacou
Rafael Rossetto, Agente de Pastoral. O próximo Retiro já tem data
marcada: de 28 a 30 de outubro de 2011. Fique atento!
Próximo Encontro de
Convivência acontece
em abril
A próxima edição do Encontro de Convivência
será realizada nos dias 9 e 10 de abril de 2011, no
Centro de Eventos PV Sul, em Gravataí (RS). As
inscrições estarão abertas a partir de 1° de março
e estão convidados todos os calouros e jovens que
ainda não participaram da atividade.
No ano passado, 30 universitários de diferentes
cursos participaram do encontro, que tem por
objetivo proporcionar maior conhecimento da
proposta e das atividades do Cento de Pastoral e
Solidariedade, envolvendo os estudantes em ações
e projetos desenvolvidos. Outras informações sobre
a nova edição podem ser obtidas pelo telefone
(51) 3320-3576 ou e-mail [email protected].
Ebruc 2010 reúne 200 jovens
Refletir sobre a ação evangelizadora no meio universitário foi
o tema central do 1º Encontro Brasileiro de Universitários Cristãos
(Ebruc 2010), realizado de 9 a 12 de outubro de 2010, na PUC Minas,
no campus Betim, em Belo Horizonte. Cerca de 200 jovens, vindos de
todo o País, estiveram no evento.
Entre as principais atividades estavam a Caravana da Anistia, projeto
que percorre o Brasil para resgatar a história do engajamento cristão no
meio universitário; o Lucenário, momento instrospectivo de reflexão e
oração; e a Festa Cultural, animada ao som de percussão e interpretação
teatral. Também foi destaque a palestra “Presença da Juventude na Universidade, Caminhos e Linguagens Próprias
na Construção da Identidade e Profissão”,
ministrada pelo Pe. João Batista Libanio.
Segundo um dos participantes, o
evento foi “essencial para que todos
possam se fortalecer e levar adiante
projetos e ações que desenvolvem
dentro das universidades”. Visite o
blog ebruc2010.blogspot.com e saiba
um pouco mais do que aconteceu.
Missa, inaugurações e homenagem a
funcionários marcam aniversário da PUCRS
No dia 9 de novembro de 2010, a PUCRS completou 62 anos de atividades. A data
foi marcada pela inauguração do Centro de Educação Continuada e do Centro de
Convivência para Professores. Dando continuidade às festividades, ocorreu na Igreja
Universitária Cristo Mestre a missa de Ação de Graças, celebrada pelo Arcebispo de
Porto Alegre, Dom Dadeus Grings.
O dia foi encerrado com a bonita cerimônia de entrega da Medalha Irmão Afonso
a 56 funcionários. A honraria é conferida a pessoas que prestam serviços à instituição
há 25 anos. Criada em 1981, tem a efígie do fundador da Universidade, Irmão Afonso.
Entre os homenageados estava o Padre Antony Kotholy (na foto ao lado recebendo a homenagem do Reitor, Ir. Joaquim Clotet), assessor do Centro de Pastoral
e Solidariedade.
6 | Ruah – nº 55 – 2011
Universitários levam fé aos moradores da
Vila Fátima e recebem a visita do Reitor
Semana Farroupilha
PUCRS traz a cultura
gaúcha ao Campus
De 8 a 30 de setembro de 2010, o
Piquete Querência Pastoral deu vida à
Semana Farroupilha da PUCRS. Instalado ao lado do prédio 17 do Campus
Central, o espaço proporcionou o
cultivo das tradições gaúchas a toda
comunidade universitária.
Entre os mais de mil visitantes
esteve um grupo de intercambistas
chineses da cidade de Harbin, que puderam conhecer um pouco da história
e da cultura gaúcha contada a partir
da simbologia que ornamentava o Piquete. Ao som da tradicional gaita eles
chegaram até a arriscar alguns passos
da dança gaúcha Chamamé.
O destaque desta edição ficou por
conta do Ciclo de Palestras “Cultura
Política e Identidade Cultural Gaúchas”,
organizado pela Faculdade de Filosofia
e Ciências Humanas em parceria com
o Centro de Pastoral e Solidariedade.
Os debates foram acompanhados por
mais de 150 pessoas, entre acadêmicos
e comunidade em geral.
Como não podia deixar de ser, um
dos pontos altos da Semana Farroupilha foi a Missa Crioula, realizada no
dia 17. Unindo fé e tradição gaúcha,
a celebração contou com a presença
de, aproximadamente, 50 pessoas.
Merece destaque também a presença
do declamador Marcelo Osório Wallau,
autor do livro Tropa de Versos: meus
olhos de ver o mundo, e dos cantores
Carlos e Camila Keppler.
Entre os dias 23 e 29 de julho de 2010, 74 universitários da PUCRS participaram de uma atividade revigorante: a Missão Porto Alegre – Vila Fátima. Visitas
às famílias da região, oficinas pedagógicas, revitalização em estruturas locais,
formação para os alunos e atividades interativas foram praticadas durante a ação.
No último dia de atividades, os acadêmicos foram surpreendidos pela visita do
Reitor, Irmão Joaquim Clotet.
Ele destacou que o projeto tem como objetivo a proteção e a promoção da dignidade
humana mediante a firme atuação da Universidade, do engajamento de toda a comunidade, conscientes de seu papel na construção de uma sociedade justa e fraterna. “A
Missão representa uma experiência de espiritualidade e solidariedade, que proporciona
a aproximação dos acadêmicos com comunidades em situação de vulnerabilidade
social”, destacou.
Neste ano, a Missão
Porto Alegre – Vila Fátima
acontecerá dos dias 21 a
27 de julho, e as inscrições
vão de 25 de abril a 3 de
junho, tendo um encontro
de formação e planejamento
no dia 11 do mesmo mês. A
atividade vale como horas
complementares, mas cada
aluno deve consultar sua
unidade acadêmica.
Projeto Sinergia Digital recebe
Top Cidadania e forma novas turmas
Em 2010, o Projeto Sinergia Digital, que promove a inclusão de crianças, adolescentes
e adultos da terceira idade no meio digital, foi homenageado com o prêmio Top Cidadania,
promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos – seccional do Rio Grande
do Sul. O Reitor da Universidade, Ir. Joaquim Clotet, o Vice-Reitor, Ir. Evilázio Teixeira,
Pró-Reitores, professores e os membros do Comitê Gestor do Projeto prestigiaram a
cerimônia de entrega do troféu (foto abaixo).
No dia 20 de novembro, o Projeto teve outra comemoração: a formatura de novas turmas.
A cerimônia, que contou com a presença dos participantes dos grupos de crianças, adolescentes, funcionários, GERON e voluntários, ocorreu no auditório térreo do prédio 50 da PUCRS.
Compondo a mesa integrante da colação, estavam o Vice-Reitor da Universidade, Ir. Evilazio
Teixeira, a Vice-Diretora da Faculdade de Administração Contabilidade e Economia, Edimara
Mezzomo Luciano, e, representando o Presidente da AVESOL, Débora Rodrigues.
Após a entrega dos certificados, a equipe
Sinergia Digital homenageou os voluntários
com a execução de uma música tocada e
cantada pelo funcionário Mauricio Teixeira
Canello e o Agente de Pastoral Rafael Rossetto. Os atendidos e seus convidados foram
conduzidos ao saguão do prédio, onde foi
servido um coquetel.
Ruah – nº 55 – 2011 | 7
DESTAQUE
Projeto Eco-Óleo: ação da Universidade contra o aquecimento global e as mudanças climáticas
Mais vida para o planeta
A Campanha da Fraternidade 2011 aborda o
tema aquecimento global e mudanças climáticas,
com o objetivo de contribuir para que haja maior
conscientização das comunidades cristãs e das
pessoas sobre a gravidade das variações de
temperatura. A campanha pretende também
incentivar todos a participarem dos debates e
atividades desenvolvidos sobre o tema, os quais
visam encontrar soluções para o problema e
reforçar medidas de preservação para condições de
vida no planeta.
8 | Ruah – nº 55 – 2011
A
mudança na temperatura do planeta
é perceptível. Segundo relatório de
2007 do Intergovernmental Panel
Climate Change (IPCC) o planeta Terra está
aquecendo desde 1750, tendo elevado a
temperatura média em 0,74° C, somente
até 2006. E a maior parte do aumento de
temperatura foi causada por concentrações crescentes de gases do efeito estufa,
como resultado de atividades humanas
como a queima de combustíveis fósseis e
o desmatamento. O IPCC projeta ainda que
as temperaturas globais de superfície provavelmente aumentem no intervalo entre
1,1 e 6,4 °C entre 1990 e 2100. A variação
dos valores reflete o uso de diferentes cenários de futura emissão de gases estufa
e resultados de modelos com diferenças
na sensibilidade climática. Mas mesmo
diante de um cenário tão preocupante
é preciso não perder a fé. Dar as mãos e
buscar medidas que revertam, de algum
modo, esse quadro.
A Campanha da Fraternidade, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), deste ano traz como
tema a “Vida no Planeta” e como lema
“A criação geme em dores de parto” (Rm
8,22). Seu objetivo, além de denunciar
situações e apontar responsabilidades no
que diz respeito aos problemas ambientais
decorrentes do aquecimento global, é
propor novos comportamentos e práticas
fundamentados em valores que tenham
a vida como referência na relação com o
meio ambiente.
A campanha sugere ainda o estímulo
ao amor fraterno entre as pessoas, já que
o planeta Terra é a casa de todos, sem
distinção. Além disso, mostra que é preciso
mobilizar, propor e denunciar. Somar essas três ações possibilitando, assim, uma
tomada de atitude consciente e eficaz.
Bons exemplos
Existem iniciativas de sucesso que
demonstram a preocupação da sociedade
e evidenciam o princípio da responsabilidade no cuidado com o meio ambiente. A
PUCRS, com base na sua missão e correspondendo ao seu compromisso social, priorizou o tema durante o desenvolvimento de
seu Planejamento Estratégico 2011-2015.
A Universidade entende que cuidados
com o meio ambiente são imprescindíveis
para o bem-estar e a qualidade de vida da
sociedade.
Entre as iniciativas organizadas pela
instituição, destaca-se o Projeto Social
Eco-Óleo, desenvolvido pela Faculdade
de Química, no qual óleo de cozinha é
transformado em biodiesel. O princípio
da atividade é fazer com que a cidade não
produza mais um resíduo (o óleo de fritura)
e sim transforme esse material em combustível renovável, o biodiesel, envolvendo a
sociedade com questões como impacto
ambiental, aquecimento global e sustentabilidade. Para tanto, a Universidade conta
com a participação de escolas, empresas
e dos alunos e professores da instituição.
De acordo com a coordenadora do projeto, professora Jeane Dullius, a atividade é
um exemplo de que é possível demonstrar
que existem alternativas para se trabalhar
de forma sustentável. “Nossos alunos
se deparam diariamente com questões
técnicas, no que se refere a produção
do biocombustível, econômicas, pois
otimizamos o processo para que este seja
economicamente viável, e sociais, já que
discutimos o impacto de todo o processo
sobre a vida da comunidade.”
Segundo ela, o planeta busca combustíveis alternativos aos derivados de petróleo.
“O emprego de um resíduo como o óleo de
fritura para produção de combustível traz
ganhos no que diz respeito a dar um destino ao óleo utilizado para cozinhar e não
descartá-lo no meio ambiente, bem como
produzir um combustível renovável”, destaca. A professora diz ainda que não existe
uma única solução para a crise energética
como um todo. “Muitas iniciativas deverão
ser tomadas de forma efetiva e o biodiesel
é apenas uma delas.”
Impacto econômico
Jeane explica que a produção de biodiesel requer subsídio dos governos ao
redor do globo, para ser competitivo com
o diesel de petróleo. “Um dos fatores que
contribui de forma predominante no custo
final do biodiesel é o óleo vegetal utilizado. Quando utilizamos resíduos como
o óleo de fritura, esta conta diminui e o
preço final do combustível cai”, comenta.
Entretanto, não são todos os carros
que podem fazer uso do combustível
sustentável. Os veículos que possuem
motor ciclo diesel (caminhões, ônibus,
caminhonetes) têm a opção de utilizar o
biodiesel no lugar do diesel. Conforme a
professora, muitos estudos definem que
misturas são ideais para que o desempenho destes motores continuem o mesmo,
sem precisar de adaptação. “A maioria dos
motores converge para uma mistura B30
(30% biodiesel + 70% diesel). Na Alemanha, utiliza-se B100 (100% biodiesel) há
bastante tempo”, compara a coordenadora do projeto.
Segundo a professora, para que o
programa cresça cada vez mais, é fundamental que parceiros se interessem em
contribuir. “O projeto deve ser mantido,
para que nossos alunos continuem transferindo seus conhecimentos e aprendendo
com a sociedade.” O projeto social EcoÓleo comprova que existem alternativas
viáveis para contribuir com o meio ambiente, basta planejamento, investimento
e esforço coletivo.
Saiba mais sobre o projeto
Revista Ruah O biodiesel produzido na PUCRS é comercializado?
Jeane Dullius Não.
Revista Ruah
Jeane
Revista Ruah
Jeane
As pessoas podem doar óleo para o projeto?
Sim. Entretanto como a usina é localizada no Centro Social
Marista Cesmar (Estrada Antônio Severino, 1493 – Bairro Mario Quintana. Fone: (51) 3086-2300), este óleo deve ser
direcionado para lá.
Como se recicla óleo em casa?
O ideal é que o óleo, depois de frio, passe por uma peneira e seja guardado em uma garrafa de água ou refrigerante.
Como participar
O grupo do Projeto Social Eco-Óleo também organiza palestras e capacitações
explicando a importância da campanha, além de fornecer informações sobre o
processo de produção. Interessados em participar e doar óleo de cozinha utilizado
podem entrar em contato com o Cesmar pelo telefone (51) 3366-3817 e a Faculdade
de Química pelo número (51) 3320-3549 ou e-mail [email protected].
Ruah – nº 55 – 2011 | 9
REPORTAGEM
ESPECIAL
Fáberson Mocelin (à esquerda) e Julio Cesar Razera, alunos do 5º ano de Medicina, acreditam que a espiritualidade faz parte da melhora do paciente
Além do físico
Área da saúde volta
às origens, tratando o
paciente como um ser
social, psicológico e
espiritual
A
natomia, Morfologia, Fisiologia
e Epidemiologia são disciplinas
comuns de qualquer curso de Medicina. Porém, ao analisar com calma
o currículo da Faculdade de Medicina
(Famed) da PUCRS, nos deparamos com
aulas como Humanismo e Cultura Religiosa e Filosofia e Bioética, reflexo de uma
mudança que vem acontecendo no setor.
Afinal, a academia acompanha – e muitas
vezes antecipa – a vida.
10 | Ruah – nº 55 – 2011
Formalmente, a definição de saúde
determinada pela Organização Mundial
da Saúde, o órgão mais importante da
área, é de que ‘é um estado de completo
bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de doença’. Mas já
está claro para médicos e pacientes que
além do físico, do social e do psicológico,
o profissional deve levar em consideração
o indivíduo como um ser espiritual. E é
isso que a Universidade busca passar aos
futuros trabalhadores da saúde.
Em 1989, o atual Reitor da PUCRS, Joaquim Clotet, então professor da Medicina,
criou a disciplina de Bioética ( que trata do
assunto) na Famed, a primeira do Brasil
a incluir o tema no currículo. Segundo
ele, a espiritualidade pode ser definida
como um estado interior da pessoa que
orienta para a transcendência, ou a busca
do além. “Ela admite diversas formas ou
concepções, pode demandar fé numa
força que transmite firmeza e ajuda.
Do mesmo modo, pode incluir técnicas
que possibilitam ultrapassar ou vencer
a realidade”, completa (leia mais sobre
espiritualidade na página 18).
Essa mudança, porém, não é tão simples e rápida como parece. Por não ser
algo sólido e visível, ainda é motivo de
muita polêmica. “A dimensão biológica é
a que mais se destaca pelo viés que nós
temos de olhar para o exame físico, coisas
palpáveis. E é essa imaterialidade que
parece romper com a questão do biológico, mas, ao contrário disso, ela tem que
integrar todas essas dimensões. São níveis
de complexidade que estão sendo incluídos na questão da saúde“, explica José
Roberto Goldim, biólogo, doutor em Medicina e professor da Famed e do Instituto
de Filosofia, por meio do qual ministra a
disciplina de Bioética em diversos cursos,
como Nutrição, Farmácia e Odontologia.
É autor de diversos livros sobre o assunto,
como Bioética e Espiritualidade.
A questão da imaterialidade dificulta,
da fé, o paciente passa – muitas vezes – a
acreditar mais na cura de sua enfermidade e colabora com o seu tratamento
tomando suas medicações conforme
orientação do médico, alimentando-se
melhor, saindo do leito, esforçando-se na
fisioterapia, dentre outros pequenos atos
que somados têm um grande impacto”,
destaca Razera. “Existem muitas situações, ao longo da história da Medicina,
onde não há uma explicação para a cura.
Não sabemos se o nosso conhecimento é
limitado ou se realmente forças espirituais influenciaram o desfecho”, completa
Mocelin.
Sem hierarquia
também, as pesquisas sobre o tema.
Apesar disso, em uma rápida busca em
um dos sites mais consagrados na área
médica, é possível encontrar mais de
2,9 mil artigos sobre o assunto – sendo
que o mais antigo data de 1982. “A partir
da década de 90 existem vários estudos
que tentam desvendar, por exemplo, o
poder da oração e os grupos que rezam
por outros. Há também estudos que demonstram que as pessoas que têm uma
dimensão espiritual mais trabalhada
acabam tendo também maior capacidade
de lidar com situações difíceis”, relata o
professor. Um estudo que acompanhou
mais de três mil adultos durante seis anos
constatou que as pessoas que possuíam
pouca ou nenhuma atividade religiosa
tinham comparativamente maior mortalidade. “Eu não tenho dúvida nenhuma
de que a espiritualidade é uma dimensão
fundamental na vida do ser humano e que
ela tem que ser levada em consideração
quando se está discutindo a saúde de
um paciente, de uma família ou de uma
sociedade”, defende. “Uma pessoa que
tenha uma dimensão espiritual muito
trabalhada e que a valorize muito obviamente vai ter uma abordagem diferente
do que aquela que acha isso é uma coisa
secundária”, completa.
A experiência de anos de profissão
também deve ser levada em conta. Segundo Goldim, de modo geral, o que pode
ser observado é que as pessoas que têm
a dimensão espiritual mais desenvolvida
acabam enfrentando melhor situações
complexas de saúde, como o diagnóstico
de uma doença muito grave ou uma situação de morte eminente. “Acredito que
isso aconteça porque as pessoas acabam
tendo essa possibilidade de transcender,
porque as manifestações espirituais de
alguma forma lidam com a questão da
morte”, levanta. No quinto ano do curso
de Medicina, os alunos Julio Cesar Razera
e Fáberson Mocelin estão aplicando, na
prática, os conhecimentos já adquiridos.
“A confiança e a força de vontade da
pessoa em cuidado e seus familiares são
muito importantes para o sucesso de determinado tratamento médico. Em razão
Quando um médico faz o primeiro
exame do paciente, pergunta quais são os
sintomas e queixas que ele tem, faz uma
avaliação física e vê quais são os sinais vitais. Assim, consegue fazer um diagnóstico
de saúde mental e social, mas dificilmente
entra na questão da espiritualidade.
Um fato que exemplifica como o tema
está presente e precisa ser tratado é que
pelo menos 10% dos pacientes em hospitais têm alguma restrição alimentar por
motivo religioso que eles não revelam.
O que eles fazem é deixar a comida no
prato. “Acho que as pessoas não querem
se expor nessa dimensão porque acham
que vão ser ridicularizadas. Então acabam
tendo uma maneira muito sutil de manter
a prática religiosa”, conta Goldim.
Existem situações mais radicais, como
quando a religião impede que a pessoa
faça algum procedimento, como é o caso
de transfusão de sangue de Testemunhas
de Jeová. “Quando enfrentamos situações
na área da saúde onde o principal elemento do processo de tomada de decisão
do paciente é a dimensão religiosa, isso
acaba trazendo um enorme desafio para
as equipes. Nós não podemos dizer para
o paciente ‘isso fica lá fora’”, afirma o
professor.
Como não existe, por definição, uma
hierarquia nas quatro dimensões (biológica, social, mental e espiritual), há
momentos em que o espiritual domina e
outras horas em que o biológico é o mais
importante. “O principal desafio hoje em
dia na área da saúde é lidar com a multiplicidade de fatores que intervêm no
Ruah – nº 55 – 2011 | 11
processo de decisão que o médico, junto
com o paciente, sua família e a sociedade
vai ter que tomar”, defende o biólogo.
Voltando às origens
De certa forma, o currículo da faculdade e toda essa transformação espelham
uma volta às origens – mas sem deixar de
lado o conhecimento técnico adquirido
ao longo de séculos de estudos. Isso porque os primeiros hospitais, quando não
havia nada para oferecer no plano físico,
tinham essa visão mais espiritual. “Eles
eram um acolhimento de moribundos, um
exercício de caridade e amor no sentido
de abrigar alguém que sofre”, conta José
Roberto Goldim.
Com o conhecimento técnico, porém,
a espiritualidade foi deixada de lado durante um tempo. Progressivamente começou a entrar a noção de que existia uma
outra dimensão, que era a psicológica.
Passou-se, então, a tratar da saúde mental. Por volta de 1970, inclui-se uma terceira dimensão: a social. Nessa caminhada,
quando houve a mudança da definição
de saúde dada pela OMS, começou a ter
a discussão sobre a dimensão espiritual.
“A discussão se mantém porque ela ficou
contaminada com a questão da religiosidade X espiritualidade, já que as pessoas
confundem os dois, o que é um campo de
discussão gigantesco”, opina o professor.
É claro que não é possível ignorar todo
o conhecimento técnico conquistado ao
longo de mais de séculos de estudos.
Ao contrário do que foi feito no passado, hoje fica claro que nenhum âmbito
deve sobrepor os outros, a não ser em
casos específicos. “Não podemos cair na
mesma armadilha do recorte individual,
de transformar um individuo que é multidimensiocinal em unidimensional”,
afirma Goldim. “Eu não acredito que se
dermos um remédio para um paciente
sem ter nenhuma interação humana com
ele, numa situação de total isolamento,
tenha a mesma eficácia de que se ele
tiver uma boa relação médico-paciente,
uma boa rede de apoio social, um bom
apoio espiritual. Eu acho que são todas
dimensões que se complementam e o
que temos tentado ensinar na Faculdade
de Medicina é essa complementaridade”,
finaliza o biólogo e professor.
12 | Ruah – nº 55 – 2011
O exemplo da PUCRS
Joaquim Clotet, atual Reitor da PUCRS, foi o primeiro professor de bioética do
Brasil. Em 1989 ele criou a disciplina de Ética e Bioética no curso de pós-graduação
da Faculdade de Medicina. No início dos anos 2000, a Faculdade de Medicina da
PUCRS mudou a base curricular para novas diretrizes. Nesse momento, a Bioética foi
definida como um eixo transversal, estando presente ao longo de toda a formação
do aluno. “A universidade tem esse papel muito importante de trabalhar esses temas
que são polêmicos e que geram angústias e medos nos estudantes. Eles são, desde
o início, preparados para discutir e refletir sobre essas questões”, esclarece Valéria
Lamb Corbellini, coordenadora da Coordenadoria de Integração Ensino-Serviço na
Saúde da Pró-Reitoria Graduação.
“Na prática, eles debatem a bioética do primeiro ao último semestre”, garante
Goldim. Além de ser tratada em inúmeras disciplinas, ela possui uma específica
para o curso de Medicina, denominada Filosofia e Bioética, que ocorre no terceiro
semestre e é ministrada por dois professores, um da Bioética e outro da Filosofia.
Os alunos aprovam a medida. “A aceitação e a compreensão das diversas religiões
e da espiritualidade são fundamentais para a formação de um médico mais humano.
Formar pessoas, não somente médicos, é um dos grandes desafios das faculdades”,
opina o acadêmico Julio Cesar Razera.
No curso de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem, Fisioterapia e Nutrição,
o tema também é tratado com muita relevância. “A fé tem esse papel de mobilizar
uma força interior, e a superação de problemas de saúde depende muito disso. Por
esse motivo, o tema aparece ao longo de diversas disciplinas e, ao meu ver, precisa
ser sempre reforçado”, finaliza a diretora da unidade, Beatriz Ojeda, que atuou como
enfermeira pediátrica por mais de 30 anos.
Ir. Joaquim Clotet, Reitor da PUCRS, foi o primeiro
professor de Bioética do Brasil
DICAS
Para assistir
O filme Aparecida - O Milagre, que tem a direção de
Tizuka Yamasaki, narra uma história de transformação,
superação e reencontro de um homem – com a família,
com o filho e, sobretudo, consigo mesmo, através da
fé em Nossa Senhora Aparecida. Marcos, personagem
principal do filme, perde seu pai ainda criança e culpa
Maria por este acontecimento. Já adulto, ele é um
homem separado, que tem um relacionamento ruim
com o filho, o qual sofre um grave acidente. Em meio
a tantas dores, a devoção a Nossa Senhora Aparecida
poderá salvá-lo. Nomes como Murilo Rosa, Bete Mendes, Maria Fernanda Cândido,
Jonatas Faro, Rodrigo Veronese e Leona Cavalli fazem parte do elenco.
Espiritualidade e Saúde Mental
Se você gostou do tema tratado na matéria de capa desta edição também irá curtir
o artigo Espiritualidade e Saúde mental – O desafio de reconhecer e integrar a espiritualidade no cuidado com nossos pacientes do médico Alexander Moreira de Almeida.
Disponível no endereço hoje.org.br/site/arq/artigos/Espiritual1.pdf, o projeto é uma
série de quatro capítulos publicados em uma revista especializada. O objetivo do coordenador é destacar a importância da religiosidade e/ou espiritualidade na prática
clínica. Os textos são escritos por especialistas com reconhecida competência na área.
Ano Mariano
é celebrado em 2011
A União Marista do Brasil (Umbrasil), a partir do apelo
fundamental do XXI Capítulo Geral “Com Maria ide depressa para uma nova terra”, estabeleceu que em 2011 será
celebrado o Ano Mariano. O objetivo é reavivar a presença
de Maria na vida Marista e oferecer uma visão renovada
sobre a santa, centrada em Jesus Cristo, em sintonia com
o Vaticano II e em diálogo com o mundo contemporâneo.
A homenagem visa também favorecer o cultivo da mística
e da espiritualidade marianas nos espaços de Missão
Marista no Brasil, em comunhão com a Igreja.
O Ano Mariano ainda ajudará na preparação para a
comemoração dos 200 anos de nascimento da Sociedade
de Maria (1816-2016) e do Instituto dos Irmãos Maristas
(1817-2017), e será desenvolvido em dois eixos fundamentais: Mística e espiritualidade e Formação e celebração. O
período de realização das atividades acontecerá de 25 de
março a 8 de dezembro. Para saber mais sobre as ações
organizadas pelo Centro de Pastoral e Solidariedade,
acesse wwww.pucrs.br/pastoral.
Experimentando
Deus
A dica de livro da edição é a obra Se
quiser experimentar Deus, de Alsem Grün.
O texto aborda por vários ângulos o como
experimentar Deus nos dias de hoje, tendo
como fundo os caminhos serializados pelos
textos bíblicos. A obra faz um convite ao
leitor para abrir-se a Deus e ao mundo,
aos sentidos e ao desejo, e a todo o divino
para quem anseia vivenciar Deus. Editora
Vozes, 248 páginas.
Segunda chance
Se você perdeu as palestras do
projeto Fé e Cultura 2010, pode
assisti-las no site www.pucrs.br/
feecultura. A dica é a palestra
Quem é Deus?, de José Saramago,
que aconteceu no dia 10 de maio
de 2010 – você encontra o vídeo
clicando em Programação. A
palestra, apresentada por Luiz Antonio de Assis Brasil, professor da
Faculdade de Letras, e Luiz Carlos
Susin, da Faculdade de Teologia,
abordou algumas das obras do
escritor português ganhador do
Prêmio Nobel que veio a falecer
no dia 18 de junho do ano passado, pouco mais de um mês após a
palestra. Confira a programação
de 2011 no site.
Ruah – nº 55 – 2011 | 13
Evento
Olho no futuro
Encontro debate papel das Instituições
de Ensino Superior no Século 21
R
epresentantes de oito países estiveram
no Campus Central da PUCRS, em Porto Alegre, para debater os desafios e
responsabilidades das universidades durante
o 4º Encontro do Conselho de Reitores e Representantes da Rede Marista Internacional
de Instituições de Ensino Superior (IES).
Entre os dias 5 e 8 de outubro de 2010, 16
IES Maristas do Brasil, México, Austrália,
Filipinas, Itália, Argentina, Espanha e Peru
estudaram os cenários futuros da educação
superior marista.
Já na abertura, o Reitor da PUCRS, Ir.
Joaquim Clotet, destacou os grandes desafios de uma universidade neste século,
como o compromisso com a sustentabilidade, a pluralidade de opiniões e a
formação de cidadãos responsáveis e bons
profissionais. Clotet lembrou ainda que
“a Unesco diz que a educação superior
contribui para a erradicação da pobreza, o
desenvolvimento sustentável e o progresso”. No momento, estavam presentes,
entre outras personalidades, o arcebispo
de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, e o
Vice-Reitor da PUCRS, Ir. Evilázio Teixeira.
14 | Ruah – nº 55 – 2011
O Reitor ainda apresentou as propos- Juliatto, e pelo professor Ricardo Tescatas para o futuro das IES segundo a Fe- rolo, com a colaboração do professor
deração Internacional das Universidades Paulo Eduardo de Oliveira e dos Irmãos
Católicas (Fiuc), que abrange 210 institui- Manoel Alves, Pablo Franco, Antônio
ções em todo o mundo. Promover diálogos Benedito de Oliveira (Benê), Gentil Pae movimentos em favor da paz, con- ganotto, Félix Roldán e Frederico Unterberger. No estudo,
tribuindo assim
os autores tratam
para fortalecer a
sobre Educação Sumissão da Igreja
perior na Sociedade
Católica, está endo Conhecimento e
tre os objetivos da
como Compromisso
instituição.
Eclesial, entre outros
Integrante do
tópicos.
Conselho Superior
O Encontro do
dos Institutos MaConselho já aconteristas e represenceu em Curitiba, em
tante na América,
2004; em Guadalao Ir. Josep Maria
(Unesco)
jara, no México, em
Soteras falou sobre
temas educativos maristas e seus sonhos 2006; e em Alcalá de Henares e Salafuturos, além da educação solidária e manca, na Espanha, em 2008, antes
atuação como membros de uma sociedade de retornar ao Brasil no ano passado. A
globalizada. Durante o evento, também foi próxima edição está sendo preparada e
distribuído o documento “Missão Marista ocorrerá na Cidade do México, em 2012.
na Educação Superior”, organizado pelo Acesse e leia o documento na íntegra:
Reitor da PUC do Paraná, Ir. Clemente Ivo champagnat.org.
“A educação superior
contribui para a
erradicação da pobreza,
o desenvolvimento
sustentável e o
progresso.”
Juventude
em AÇÃO
Rumo à Espanha
Conheça Miguel, Sophia e Tailine, os acadêmicos da PUCRS que irão
representar os mais de 800 jovens da PJM do Rio Grande do Sul no Encontro
Internacional de Jovens Maristas e na Jornada Mundial da Juventude
Q
uem acha que os adolescentes e
jovens só querem saber de festa
está muito enganado. Em agosto de
2011 são esperados milhares de participantes entre 16 e 28 anos para compartilhar experiências, partilhar sonhos, inquietudes e
realizações no Encontro Internacional de
Jovens Maristas e na Jornada Mundial da
Juventude, que acontecem em Buitrago de
Lozoya e em Madrid, ambos na Espanha.
Cada Província Marista enviará cinco
jovens aos eventos. Dos escolhidos pela
unidade do Rio Grande do Sul, três são
acadêmicos da PUCRS: Miguel Perez, 18
anos, estudante de Física que iniciou sua
caminhada no Colégio Champagnat, em
Porto Alegre (RS), Sophia Kath, 19 anos
aluna de Jornalismo que estudou no Colégio Rosário, também na Capital gaúcha,
e Tailine Castilhos, 18 anos, acadêmica
de Letras que começou sua trajetória no
Instituto Marista Graças, em Viamão (RS).
Os três tiveram trajetórias parecidas.
Estudantes de colégio Maristas, iniciaram
suas caminhadas na Pastoral Juvenil Marista (PJM), onde se tornaram animadores
de Grupo. A escolha para participação foi
motivo de muito orgulho e responsabilidade para eles, já que entre os critérios
estavam: o nível de engajamento na unidade, a proximidade com a comunidade
eclesial, a biografia da vida envolvendo a
PJM e tempo de grupo, por exemplo. “Outros colegas teriam a mesma capacidade
de ir, por isso é uma grande oportunidade
representá-los”, disse Tailine. Tanto é que
todos os jovens da PJM participarão da
preparação para os encontros, mesmo que
apenas cinco embarcarão rumo à Espanha.
“Quando vamos para esses encontros percebemos que existem outros jovens que
lutam pelo mesmo objetivo que nós. Isso
nos mostra que o mundo tem um futuro
e que a gente tem que continuar lutando
por isso”, completou Sophia.
Sophia, Miguel e Tailine (da esquerda para direita): prontos para embarcar
Protagonismo juvenil no Encontro
O Encontro Internacional de Jovens Maristas acontecerá de 10 a 14 de agosto em
Buitrago de Lozoya (município localizado a
70 km de Madrid) para um grupo de 125 a
200 jovens, representando todas as Unidades
administrativas do Instituto. Entre os objetivos
estão: realizar um momento de protagonismo
juvenil em que jovens evangelizem outros jovens, celebrar a riqueza da internacionalidade
do Instituto Marista e renovar o espírito de
serviço como Maristas.No dia 15 de agosto,
haverá uma grande celebração com os participantes do encontro e da jornada.
A grande jornada
Criada pelo Papa João Paulo II em 1985,
a JMJ é uma reunião de jovens com o mesmo objetivo: tornar Jesus Cristo conhecido
e amado. A primeira JMJ aconteceu em
Roma (Itália) e, desde então, já passou
por Buenos Aires (Argentina), Czestochowa
(Polônia), Denver (Estados Unidos), Paris
(França), Toronto (Canadá), Colónia (Alemanha), Sydney (Austrália), entre outros.
No evento, que ocorre de três em três anos,
os jovens que participaram do Encontro Internacional se juntarão a outros maristas e jovens
de diferentes movimentos e congregações – até
o dia 4 de fevereiro já eram contabilizados mais
de 4.000 inscrições do Brasil e 260.810 de todo
o mundo. Ela acontece do dia 16 ao dia 21 de
agosto, em Madrid. Algumas das atividades
serão missas, catequese e uma Vigília com a
presença do Papa Bento XVI, que enviou uma
carta aos jovens ressaltando a importância da
JMJ para toda a comunidade de Deus. João
Paulo II foi nomeado patrono da JMJ Madrid
2011 depois do anúncio da sua beatificação,
prevista para o próximo 1º de maio.
O encontro se estende até o dia 21 de
agosto, porém, não se encerra nessa data.
Os gaúchos pretendem espalhar o conhecimento adquirido nas terras espanholas.
“Não podemos guardar apenas para nós
a experiência que tivemos lá, seria um
grande egoísmo. É nossa obrigação passar
para os outros”, ressalta Perez.
Ruah – nº 55 – 2011 | 15
PUCRS em
Solidariedade
Trabalho voluntário contribui
para formação profissional
Empresas consideram voluntariado um
diferencial na hora de contratar funcionários
A
prestação de trabalho voluntário
pode ser um forte diferencial para
quem quer se distinguir em um
processo seletivo. Para o diretor de empreendimentos da Braskem, Guilherme
Guaragna, algumas empresas evidenciam
a preferência por valores pessoais como
conduta e perfil em detrimento da técnica.
“Os conhecimentos técnicos, hoje, são
abundantes. É mais fácil a empresa formar
tecnicamente uma pessoa do que formar
perfil e atitudes”, justifica.
O Brasil é um país com grande necessidade de realização nas questões sociais.
A atuação do Estado e mesmo a do em-
presariado são insuficientes para criar um
ambiente eficaz na solução dos problemas
sociais. Estrategicamente, o trabalho voluntário tornou-se um elemento importante
para o país, na medida em que se constituiu
em um modo de capacitação pessoal.
Uma das exigências da sociedade sobre
o estudante é a experiência de viver um
ambiente profissional. Muitas vezes, esta
formação não é alcançada pelo aluno,
mesmo que ele faça estágios ao longo do
seu curso. Ao participar de ações sociais,
o estudante aprende coisas novas e descobre um mundo diferente. Desta forma, o
voluntariado se tornou um complemento
prático dos conhecimentos recebidos na
universidade. Além disso, a atividade
ganhou status de diferencial profissional.
Na Braskem, essas características são
determinantes na hora da contratação e
evidenciam o real potencial do candidato. “Ao se verificar um trabalho prévio
de voluntariado, a pessoa demonstra um
perfil diferente. É mais preparada e tem o
espírito de servir, que é uma das virtudes
mais importantes que se busca dentro da
Braskem e da Organização Odebrecht. Consequentemente, quem tem experiência
de voluntariado acaba tendo vantagem
em um processo de seleção”, afirma Guaragna. Atualmente, o trabalho voluntário
traz benefícios tanto às empresas quanto
à sociedade, que se cerca de pessoas que
fazem a diferença na construção de um
mundo melhor.
Graças à experiência voluntária aliada ao conhecimento técnico, Rodrigo Villanova conseguiu o primeiro estágio
16 | Ruah – nº 55 – 2011
Primeiro emprego
graças ao
voluntariado
Rodrigo Fallavena Villanova, 26
anos, é estudante de Sistemas de
Informação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS). Ele começou a voluntariar
em 2002 quando participou da Semana Solidária, evento que consiste em
doar uma semana, durante o período
do recesso acadêmico, às atividades
de entretenimento para crianças
carentes. Por dois anos, o jovem
trabalhou como voluntário junto à
Juventude Marista. Uma vez por semana, atuava em diferentes creches.
Ao envolver-se com o voluntariado,
Villanova buscou mesclar o curso
com o interesse social que tinha.
Algum tempo depois, ao participar de um processo de seleção para
uma vaga de trabalho, o estudante foi
questionado sobre a importância do
terceiro setor, que abrange as Organizações Não Governamentais (ONGs).
Para surpresa do entrevistador, Villanova narrou sua experiência com os
temas humanitários. Aliada ao seu
conhecimento técnico, a condição
rendeu-lhe o primeiro emprego. Ele
passou a ser o responsável pela manutenção de todos os computadores
da ONG Pequena Casa da Criança.
Além da remuneração, o jovem
sentiu-se motivado por saber que seu
trabalho iria auxiliar muitas pessoas
a melhorarem a qualidade de vida.
De acordo com Villanova, hoje, o
mercado de trabalho olha diferente
para quem já voluntariou. “As empresas notam que o profissional que
se importa com o social é um profissional completo e, geralmente, tem
maior decência”, diz. O universitário
também conta que o voluntariado o
ajudou em outros aspectos. “Perdi o
medo de falar em público. Tornei-me
mais desenvolto e sociável”, relata.
As experiências obtidas fizeram
com que a rotina de Villanova não
se resumisse apenas em faculdade,
trabalho e balada. Ele encontrou
tempo para incluir o cunho social
em sua vida.
Vocação para solidariedade
Em 2008, dois anos antes de se aposentar, a professora Iara Terezinha Pereira
Claudio organizou seu projeto de vida. Entre os objetivos da ex-diretora da Faculdade
de Informática da PUCRS estava a prática do voluntariado. O contato que teve com
comunidades carentes da Zona Norte de Porto Alegre, em ações esporádicas realizadas
entre 2001 e 2005, despertou seu interesse no auxílio aos outros em busca de felicidade.
Desde abril de 2010, mês em que se aposentou da Universidade, Iara se dedica diariamente às atividades voluntárias pelo Programa Voluntariado PUCRS. A ex-assessora da
Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (PRAC) vai duas vezes por semana a antiga Vila dos
Papeleiros, no bairro Santa Terezinha, na Capital, e outras duas ao Hospital São Lucas.
Na comunidade carente, ela, que lecionava matemática na Universidade, dá aulas
sobre como conseguir o primeiro emprego. Disposta a ajudar no que for preciso, a professora conta que já atuou em peças de teatro, ensinou tricô e até aprendeu a Linguagem
Brasileira de Sinais para comandar uma oficina voltada à inclusão social de pessoas surdas.
No Hospital São Lucas, Iara coordena a Associação dos Bebês Apressados (ABA),
que cuida do bem-estar de famílias com bebês prematuros e administra as doações
recolhidas pela entidade. Uma das iniciativas de destaque da associação é o Projeto
Ouvir, missão criada para ajudar as famílias que ficam emocionalmente sensíveis
após o nascimento da criança prematura. “A mãe tem alta depois do parto, mas
a criança permanece internada. É um choque muito grande para os pais. A nossa
função é escutar essas famílias e dar apoio”, explica a professora.
Iara revela que está muito satisfeita com o papel social que desempenha. “No voluntariado é possível renascer como um jovem. Sinto que posso mudar o mundo. Pode até
parecer que não, mas sei que estou fazendo a diferença. E isso é fantástico”, acredita.
Voluntariado ou caridade?
Apesar do crescente interesse pelo voluntariado, ainda existe um tabu quanto a essa
prática. No imaginário popular, voluntariado ainda é confundido com caridade, o que
acaba por desvirtuar a atividade social na medida em que desvaloriza o ato solidário.
Em sua tese Voluntariado e Solidariedade: da Caridade ao Direito, realizada em
2005, Helenara Fagundes defende a importância de compreender o voluntariado
na perspectiva solidária. A caridade pode ser constituída por uma orientação
semelhante à propensão que o bem supremo exerce sobre ela, afirma a autora.
Felizmente, diversas instituições observaram nos últimos anos a importância de
promover ações benéficas para o próximo e difundiram o voluntariado ao redor do
mundo, desmistificando a questão da caridade e ampliando ações voluntárias a todos
os setores da população.
Ação da ONU em 2001
Há mais de 40 anos, a questão da responsabilidade social desperta interesse. Mas foi
só nesse milênio, em 2001, que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Ano
Internacional do Voluntariado. A partir deste momento, muitos trabalhos já existentes
ganharam notoriedade. Com o crescente engajamento nesses programas, a sociedade
passou a dispensar um tratamento diferenciado para os temas sociais.
Nesta edição, a revista contou com a colaboração de estudantes de Jornalismo da Faculdade de Comunicação
Social. Rosângela Albano assina o texto da página 15, enquanto Maurício K. Tomedi é responsável pela matéria
Vocação para solidariedade e Danielle Brites pela Voluntariado ou caridade.
Ruah – nº 55 – 2011 | 17
CONHECIMENTO
ESPIRITUAL
Espiritualidade X Religião
Apesar de terem significados diferentes, muitos
ainda confundem as duas palavras
R
esponda rápido: qual é a diferença
entre religião e espiritualidade?
Estabelecer um conceito para cada
um desses termos não é tarefa fácil, já que,
na prática, não se vê uma distinção clara
entre ambos. Além disso, eles são usados
da mesma forma pela maioria das pessoas.
Mas olhando de um ângulo mais profundo
e específico é possível determinar uma diferença entre os termos. Segundo o mestre
em psicologia clínica e analista junguiano
Gelson Luís Roberto, para diferenciar religião de espiritualidade é preciso pensar
em ambos como uma qualidade, assim é
possível ter uma ideia do espírito ligado à
imagem, do pensamento e da consciência.
“O universo do espírito estaria ligado
aos picos (alturas), ou seja, busca de
elevação, sublimação do corpo, unidade
e transcendência. O universo da religiosidade estaria mais ligado à alma, uma
qualidade que tem como imagem o vale,
que é múltiplo, relacional e busca a profundidade. As diferenças são de perspectivas
que colocam cada um em uma vivência
diferente”, explica. Conforme Roberto,
neste caso, a religião seria, de acordo
com o entendimento de Carl Gustav Jung,
especialista em psicologia analítica, mais
do que um religare (uma busca de ligação
com Deus). Seria uma atitude cuidadosa
com a vida.
“Neste sentido estaríamos falando de
religiosidade e espiritualidade e não reli-
gião e espiritualidade e tanto uma como
a outra pode ser dogmática e má compreendida. No que se refere à diferença
entre religião e espiritualidade, podemos
dizer que a religião está no âmbito da
institucionalização de uma crença, com
seus dogmas e doutrina, e espiritualidade
e religiosidade estão mais na vivência,
uma atitude e sentimento fruto da fé, da
compreensão pelo coração e de uma consciência da experiência compartilhada, em
outras palavras do estar em conexão com
a vida e com Deus, seja através do outro ou
de um processo interior”, define.
O assessor de pastoral Gustavo Balbinot
complementa, dizendo que o início de
qualquer religião nasce de uma espiritualidade. “Com o tempo essa experiência
se transformou em religião, instituição.
A religião, para ter sentido em si, deve
estar a serviço da espiritualidade e espiritualidade tem a ver com ‘experiência’ e
não com doutrinas, dogmas, leis morais,
ritos, que fazem parte do dinamismo da
religião em si.”
Balbinot acrescenta ainda que muitas
pessoas buscam fora o que está dentro
delas. “É um caminho mais fácil, mais
cômodo e até oferecedor de respostas
prontas. Elas procuram conforto espiritual
e não vivem a espiritualidade em si como
experiência de vida e a religião, ou o movimento religioso serve como aprovação
ou desaprovação moral de suas atitudes.”
Religião sem espiritualidade
Conforme Roberto, existem pessoas que
se intitulam de determinadas religiões, mas
vivem com total distanciamento de uma espiritualidade verdadeira. “Existe uma história
que conta que uma pessoa perguntou para
um sábio porque atualmente os homens não
tinham mais contato com Deus, não reconheciam e não conheciam a experiência de Sua
Presença. O sábio respondeu que é porque
hoje ninguém se abaixa suficientemente.
Acho que isso dá uma ideia da dificuldade
de nos abrirmos com humildade para essa
experiência espiritual e assim acabamos
caindo em caminho dogmático e cerebral,
que se impõe como uma forma de acolher a
Deus, uma cabeça cheia de conceitos e um
coração vazio. E o que temos são religiões
que acabam agindo de maneira contraditória
ao que se propõem“, explica.
Ele acrescenta que a religião pode ser um
caminho para a espiritualidade, mas não é o
único e nem sempre acaba cumprindo essa
proposta. “Podemos encontrar a espiritualidade em qualquer experiência em que nos entreguemos enquanto algo sagrado. Balbinot
destaca que um ser espiritualizado é aquele
que busca o sentido da vida. “Somos parte do
universo, seres sagrados. A verdadeira religião
é aquela que torna o ser humano melhor,
mais amoroso, mais sensível e solidário. Muita
gente não encontra a espiritualidade dentro
de um caminho religioso.”
OPINIÃO
Religiosidade na
perspectiva Junguiana
Gelson Luis Roberto*
Gelson Luis Roberto, mestre em
Psicologia pela PUCRS, explica o tema
Q
uando pensamos na prática junguiana, estamos afirmando um
conjunto de princípios que definem
o psiquismo humano e seu funcionamento,
dos quais a religiosidade é uma condição
inerente. Assim sendo, qualquer processo
analítico junguiano tem, entre outras, uma
preocupação com a experiência religiosa.
Começamos com uma citação de Jung,
numa paráfrase da afirmação de Santo
Inácio de Loyola, onde declara:
A consciência do homem foi criada com
a finalidade de reconhecer que sua existência provém de uma unidade superior,
dedicar a esta fonte a devida e cuidadosa
consideração; executar as ordens emanadas desta fonte, de forma inteligente e
responsável, proporcionando deste modo
um grau ótimo de vida e de possibilidade
de desenvolvimento à psique em sua
totalidade.
Essa afirmação de Jung sintetiza os aspectos essenciais que envolvem a experiência básica do homem. Experiência esta que é
eminentemente religiosa. Percebemos que
a ideia de religiosidade pressupõe uma visão
de totalidade e um eixo de ligação entre a
coisa pequena que é o ego e sua consciência
e a coisa maior que é o Self, o arquétipo da
totalidade, princípio regulador e centro da
psique, representando os aspectos transpessoais do indivíduo.
Para termos mais clareza do significado
da experiência religiosa, importa afirmar
que, para Jung, esta é concebida como
religere: uma acurada e conscienciosa
observação daquilo que Rudolf Otto chamou de numinoso. Trata-se de mostrar um
elemento não-racional na ideia do divino
e, assim se liga a experiência do sagrado.
Trata-se de uma experiência viva do sagrado ou como aponta Jung, a experiência viva
de símbolos vivos. Apresenta como forma
o mistério e como conteúdo tremendum e
fascinans. A experiência numinosa abarca
toda vivência de veneração e temor que
constitui o mysterium tremendum e que
fundamenta a experiência do sagrado. Isso
equivale dizer que a experiência religiosa
exige uma atitude cuidadosa com a vida.
Para Murray Stein (2003), a análise junguiana, como um método de investigação,
descoberta e cura, estuda os padrões que
emergem do Self, através das diversas manifestações do inconsciente. Observando
o irracional, o surpreendente, as ligações
escondidas que se infiltram nas nossas vidas e nos conectam com tudo o que existe.
É uma reflexão encorajadora do roteiro de
Deus, o qual se torna manifesto na medida
em que prestamos atenção com profundidade à nossa subjetividade. A realização da
mensagem inscrita nas nossas almas cura
a nossa unilateralidade e nossas doenças
neuróticas.
Por princípio, a experiência religiosa é
única, íntima e transformadora. A percepção da natureza psicológica da experiência
religiosa é extremamente valiosa para o
homem da atualidade. A espiritualidade
deve então servir como esse campo interativo com o Self, campo interativo que é
inerentemente transformador.
Em vários momentos percebemos esta
instância maior da psique enviando mensagens e reposicionando o ego em benefício
da personalidade maior, ou seja, da busca
da realização da totalidade psíquica.
A religiosidade deve então servir como
esse campo interativo com o Self, campo interativo que é inerentemente transformador.
Também percebemos esta experiência
religiosa no mito do significado, impulso
inato que move todo ser humano e que
se manifesta através dos símbolos. Assim,
muito da experiência religiosa se faz no
encontro com as manifestações significativas dadas pelo símbolo. A experiência
Em artigo exclusivo, o especialista Gelson
Luis Roberto trata sobre a religiosidade na
perspectiva Junguiana
simbólica sacraliza a vida, dando-nos essa
dimensão numinosa, dessa realidade que
não cabe em nós e nos remete para algo
que não pode ser traduzido racionalmente,
apenas vivenciado. E é nesse movimento
de sentido que se estabelece uma relação
entre o pessoal e o transpessoal. Um lugar
onde a vida não seja excluída da totalidade
dos eventos e significados da experiência.
Assim temos uma relação entre unidade e multiplicidade dentro de uma totalidade dinâmica. Com maior frequência este é
o momento em que são mostradas as conexões surpreendentes entre os eventos e a
psique humana. Nesse momento, eventos
externos comportam-se como se fossem
parte da nossa psique, onde Deus, em
sua sabedoria e onipresença pode “falar”
conosco através desses arranjos da vida.
*Psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica, analista junguiano, membro da Associação Junguiana do Brasil e da International Association for Analytical Psychology, membrofundador e presidente do Instituto Junguiano do RS.
Ruah – nº 55 – 2011 | 19
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