Resumo: A Rádio Universitária Cultural e Educativa UNESP FM e o Curso de
Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação vêm
desenvolvendo desde o início do ano letivo de 1996, os Núcleos de Produção e de
Dramaturgia Radiofônica para estimular a formação de redatores, produtores e
roteiristas capazes, gradativamente, de resgatar a qualidade de produção no Rádio.
A PRÁTICA DO ROTEIRO: DA INFORMAÇÃO À DRAMATURGIA
Antônio Francisco Magnoni-FAAC/UNESP
Terezinha de Jesus Boteon-FAAC/UNESP
O rádio é o meio preferido pela população brasileira, cuja parcela
predominante é suburbana e de cultura oral. Ele é um dos principais elos de ligação
dessas massas empobrecidas e subescolarizadas com a cultura simbólica e
consumista das grandes cidades. A baixa qualidade da programação radiofônica
pouco contribui para melhorar o repertório desses milhões de ouvintes de tradição
oral. Essa desqualificação dos conteúdos é agravada pela semelhança de produtos
entre as emissoras. Do norte ao sul do País, elas adotam um padrão gerado no eixo
Rio-São Paulo e ignoram as diferenças sociais e culturais de cada região brasileira.
Para BOSI
brasileiro. Mas é claro que tal unidade ou uniformidade parece não existir em
sociedade moderna alguma e, menos ainda em uma sociedade de classes”
Ele alerta para a existência de "uma cultura erudita brasileira, centralizada
no sistema educacional (e principalmente nas universidades), e uma cultura
popular, basicamente iletrada, que corresponde aos mores materiais e simbólicos
do homem rústico, sertanejo ou interiorano, e do homem pobre suburbano ainda
não de todo assimilado pelas estruturas simbólicas da cidade moderna”
É esta diversidade social que os dirigentes e os profissionais do rádio
parecem desconhecer ou ignorar.
Toda vez que se discute os conteúdos radiofônicos, fica evidente o conflito
entre cultura letrada e cultura oral; cultura erudita e cultura popular. Há o
preconceito intelectual contra a cultura radial que permeia o imaginário das
camadas populares. Assim o rádio recebe pouca atenção dos pesquisadores. Eles
preferem estudar a Tv, o cinema e os meios impressos.
Os comunicadores e os publicitários,ao tratá-lo como um meio meramente
mercadológico e de baixo faturamento anulam o potencial imbatível que o rádio
tem de se comunicar indistintamante, individualmente e, simultaneamente, com os
habitantes das babélicas
autenticamente
popular
cidades brasileiras .O nosso rádio é um veículo
com uma
mensagem estereotipada,
popularesca,
preconceituosa e autoritária.
No Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, praticamente não
houve ainda iniciativas abrangentes de produção e transmissão de uma
programação radiofônica alternativa nas emissoras comerciais e nas emissoras
culturais e educativas .
Desde a metade da década de oitenta que o Movimento Nacional de
Democratização da Comunicação vem reivindicando, sem sucesso, o fim do
monopólio político e empresarial das concessões públicas de rádio e tv. A partir
do desmonte do DENTEL durante o Governo Collor, houve um afrouxamento na
fiscalização das transmissões não-autorizadas. Por conta disso, estima-se que mais
de 500 pequenas emissoras religiosas, comunitárias e particulares operam
atualmente na área metropolitana de São Paulo. Um movimento que se expande
nacionalmente potencializando a comunicação regionalizada e avança na
contramão da economia da informação globalizada.
Essas experiências brasileiras de emissoras populares, todas de curta duração
devido a repressão policial e jurídica, não permitiram ainda que a maioria dos
ouvintes concebesse a perspectiva de uma programação com conteúdos diferentes
da radiodifusão tradicional. Tampouco houve tempo ( ou interesse? ) para os
pesquisadores avaliarem, cientificamente, este tipo de radiodifusão. É provável, se
não houver uma discussão sobre a qualidade da produção e, simultaneamente, a
luta pelo reconhecimento dessas rádios de baixa potência, que elas reproduzam o
modelo publicitário e de entretenimento do rádio comercial.
Essa discussão certamente não será feita pelo mercado da comunicação, que
se preocupa mais com a gestão empresarial dos veículos, que em cumprir com a
função sócio-cultural nos conteúdos difundidos.
A formação de recursos humanos que dominem a linguagem sonora do rádio
- e que conheça o multiculturalismo de seu público - é o caminho mais adequado
para melhorar a programação do veículo. A universidade é a única instância capaz
de discutir de modo abrangente a comunicação radiofônica atual. . É sua tarefa e
responsabilidade formar profissionais criativos. Gente com visão para apropriar-se
das modernas tecnologias de produção e transmissão e gerar novos processos de
comunicação efetivamente democráticos. . Cabe aos comunicadores sociais da
universidade um trabalho concreto para resgatar as múltiplas identidades sociais
na programação e, ao mesmo tempo, qualificar os conteúdos e reafirmar a
identidade e a credibilidade do veículo.
A Rádio Universitária Cultural e Educativa UNESP FM e o Curso de
Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação,
preocupados em formar radialistas especializados, vêm desenvolvendo desde o
início do ano letivo de 1996, os Núcleos de Produção e de Dramaturgia
Radiofônica. O objetivo é estimular a formação de redatores, produtores e
roteiristas capazes, gradativamente, de resgatar a qualidade de produção no rádio.
Os Núcleos são interdisciplinares e abertos, preferencialmente, à
participação de professores e alunos das Habilitações da Comunicação Social.
Embora não restrinjam o engajamento de interessados de outras áreas.
Organizados de maneira informal utilizam a estrutura da FM UNESP e do Curso
de Comunicação para a organização de cursos, de pesquisas para a produção de
programas que são veiculados pela emissora universitária.
A coordenação é integrada por professores de Técnica Redacional, História
da Comunicação, História, Comunicação Comparada, Jornalismo Especializado,
Jornalismo Comunitário, Roteiro e Radiojornalismo. As reuniões das equipes
acontecem uma vez por semana para discussão e andamento dos projetos em
desenvolvimento.
O resultado prático é o aprendizado de professores e alunos sobre as
potencialidades comunicativas de um veículo eletrônico popular e o estímulo para
a pesquisa e a produção de formatos pouco freqüentes hoje em dia, na
programação das emissoras . Procuramos trabalhar no campo jornalístico: a grande
reportagem, os documentários,o debate
e a mesa redonda. No campo da
dramaturgia e da produção musical estamos priorizando as adaptações literárias; o
resgate da radionovela e do radioteatro,o estímulo à paródia e ao humor e a
produção artística musical e de variedades no rádio.
A principal contribuição desses núcleos tem sido a criação de um espaço
multidisciplinar que concilia a pesquisa acadêmica de natureza teórica com a
produção profissional dentro de um veículo de comunicação de massa. Este espaço
foi reforçado pela criação recente de um Setor de Arquivo, Documentação e
Pesquisa que facilitará o desenvolvimento das tarefas programadas.
O SETOR DE ARQUIVO, DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA
A implantação de um Setor de Arquivo, Documento e Pesquisa baseado em
um sistema de indexação automatizado garante a provisão de informação em
computadores e redes, possibilitando o desenvolvimento de pesquisas dos Núcleos
de Produção e de Dramaturgia e a produção da programação da RÁDIO UNESP
FM.
O Centro de Rádio e Televisão Cultural Educativa da Universidade Estadual
Paulista do Câmpus Universitário de Bauru - Estado de São Paulo, recebe um fluxo
intenso de informações jornalísticas, educativas e culturais .Estas informações,
quando sistematizadas, sustentam e garantem a produção da Rádio Universitária.
Apesar dessas fontes de informação serem indispensáveis para os setores de
jornalismo e produção musical e artística, a emissora não dispõe de um sistema
específico de catalogação, armazenamento e consulta rápida dessas informações
para uso dos profissionais da emissora , da comunidade acadêmica e da população
de Bauru e região.
A dispersão deste material torna cada vez mais difícil o acesso e a
recuperação de dados: um entrave para a pesquisa histórica e para a preservação
das fontes
de informações jornalísticas.
A ausência do Setor de Arquivo
Documentação e Pesquisa inviabilizaria, em pouco tempo, o trabalho das equipes
de jornalistas e produtores. Haveria o comprometimento integral da programação
da UNESP FM.
Diante da demanda estratégica de um banco de dados complexo, mas de
operação ágil, concebemos a criação e utilização de um sistema de armazenamento
e recuperação de informações, com uma estrutura organizacional e tecnológica
adequada às atuais exigências dos meios de comunicação. Tal estrutura garantirá a
fidelidade e a credibilidade necessárias às informações veiculadas e garantirá a
qualidade exigida pela programação cultural e educativa dessa emissora
universitária.
Para viabilizar o projeto, foi definido o Sistema de Indexação PRECIS Preserved Context Indexing System de acordo com a metolodologia de indexação
do sistema Precis, em língua portuguesa, desenvolvido pela Profª. Dra. Mariangela
Spotti Lopes Fujita.
“PRECIS é um sistema de indexação alfabética de assunto dotado de uma
metodologia própria para construir índices de assuntos por computador ”
Foi criado pelo Prof. Dr. Derek Austin e é utilizado pela BRITISH
NATIONAL BIBLIOGRAPHI (BNB) na produção automática de seus índices de
assuntos desde 1968.
Muitos pesquisadores da ciência da informação e de
instituições, preocupados com sistemas de informação em diferentes países entendendo
a
excelência
da
estrutura
de
funcionamento
e
do
pleno
desenvolvimento do PRECIS para a BNB - buscaram desenvolver as adaptações
para diferentes línguas e tipologia de documentos.
“O PRECIS é um sistema dotado de dois conjuntos de procedimentos: sintaxe e
semântica. O primeiro conjunto de procedimentos - a parte sintática do sitema atua como “gramática” dos termos nas entradas. O segundo conjunto de
procedimentos - a parte do tesauro do sistema - atua no estabelecimento de classes
de significados entre termos individuais (ligação dos sinônimos, termos
genericamente superiores e termos que formam relações associativas com os
termos que ocorrem na mente do usuário). Ambos foram especialmente criados
para agirem como método de indexação: a parte sintática constitui-se na função do
indexador de contrução da cadeia de termos, um processo de determinação da
ordem sintática e arranjo de termos a tal modo que o computador produzirá as
entradas requeridas; a parte semântica envolve a produção das referências ver e
ver também para o termo utilizado.
Tanto a parte sintática como a parte semântica são contituídas de um
conjunto de operadores de função que caracterizam a posição e o significado dos
termos de acordo com o contexto do enunciado de assunto do documento
analisado. Cada operador possui função sintática ou semântica específicas e
constitui-se numa instrução de computador que, quando utilizado, aciona,
automaticamente, a posição, função e tipografia do termo e uma entrada de
assunto.”
A indexação automática dos documentos disponíveis no Setor de
Arquivo,Documento e Pesquisa será processada através de três etapas principais:
análise de assuntos, representação de conceitos e síntese que objetiva a construção
de índice de assunto.
O Setor terá a responsabilidade de organizar e tornar disponível ao Centro de
Rádio e Televisão, mais especificamente aos profissionais dos setores de
Jornalismo e Produção, aos alunos da comunidade da UNESP e à população de
Bauru e região as informações existentes em tempo hábil. O acesso rápido às
fontes de informações é considerado indispensável para o desenvolvimento das
pesquisas em geral e na produção de programas nos veículos de comunicação em
particular.
O Setor de Pesquisa, Documentação e Arquivo da Rádio deverá ser um
centro irradiador de informação.
Os usuários - profissionais da emissora ,
docentes e discentes da Universidade e a comunidade de Bauru e região - terão
acesso à informação a partir de um sistema que possibilite a seleção dos
conteúdos, acessando informações “on line” de acordo com suas necessidades e
interesses.
O Setor de Arquivo,Documentação e Pesquisa e os Núcleos de Produção e
de Dramaturgia Radiofônica, são as primeiras sementes de um trabalho de base
realizado pela UNESP FM e pelo Curso de Comunicação da Faculdade de
Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP com o objetivo de resgatar o
talento,a qualidade e a função sócio-cultural do Rádio . É um esforço modesto e
limitado,mas necessário para reapresentar o veículo aos novos profissionais. Ao
mesmo tempo,é a oportunidade de ocupar nos currículos de Jornalismo e
Radialismo o espaço devido para os meios de comunicação eletrônicos. O rádio e
a televisão atingem diariamente quase cem por cento da população,enquanto os
meios impressos são lidos por pouco mais de dez por cento dos brasileiros.
Apesar
disso,
os
cursos
mantém
a
predominância
da
cultura
escrita,reservando a maior carga horária para as disciplinas que trabalham a
comunicação impressa. É preciso reivindicar nos currículos, um espaço
correspondente ao prestígio que o Rádio tem junto a população. Ao mesmo tempo,
urge repensar o modo de ensinar a comunicação eletrônica na universidade.
O Rádio é a única voz que todo mundo entende: e não há analfabeto oral.
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