Cadernos de Saúde NÚMERO E S P E C I A L Obesidade VOLUME 4, 2011 Publicação Semestral Índice Editorial 7 Henrique Lecour, Luís Monteiro Determinantes da epidemia mundial da obesidade 11 Determinants of the global obesity epidemic Nuno Borges Responsabilidade da indústria alimentar, de distribuição e marketing na prevenção da obesidade 15 Responsability of food industry, retailers and marketing in the prevention of obesity Ana Gomes A Plataforma contra a Obesidade e o Plano Nacional de Saúde 21 The Platform against Obesity and the National Health Plan Amâncio Carvalho Obesidade Infantil: uma epidemia à escala mundial 27 Childhood obesity: a global epidemic Inês Tomada Factores sociais na obesidade 33 Social factors in obesity Isabel Azevedo Introdução à Mesa-Redonda sobre Fisiopatologia da Obesidade Physiopathology of Obesity Ana Maria P. Gomes 37 O adipócito como uma célula auto-reguladora 39 The adipocyte as an autoregulatory cell Diogo Pestana, Conceição Calhau, Rosário Monteiro Inflamação na obesidade 45 Obesity and inflammation Conceição Calhau, Isabel Azevedo O Balão Intra‑Gástrico no Tratamento da Obesidade 49 The Intragastric Balloon as a Treatment for Obesity A. Vasconcelos Teixeira Obesidade – Uma visão multidisciplinar 55 Obesity – A multidisciplinar aproach Manuel Maia, Luís Azevedo Obesidade e cirurgia bariátrica: perspectiva multidisciplinar 59 Obesity and bariatric surgery: interdisciplinary perspective Vânia Sousa Lima A consulta de Nutrição no pré e pós‑operatório para tratamento da obesidade – Hospital da Prelada Dr. Domingos Braga da Cruz 61 Pre‑ and post‑surgery nutritional intervention at Hospital of Prelada Dr. Domingos Braga da Cruz Maria do Rosário Viterbo Seixas de Castro Martins, Sílvia Carina Gonçalves Pinhão Cruz Consulta de Psicologia no Per‑Operatório da Obesidade 65 Psychological Consultation in the Perioperative period of Obesity Clara Estima Martins, Filipa Mucha Vieira Contra‑Indicações Psiquiátricas na Cirurgia Bariátrica 69 Psychiatric Contraindications in Bariatric Surgery Ana Margarida Cordeiro Intervenção Psicológica em Grupos: Os Grupos de Ensino e os Grupos Pós‑Cirurgia no Hospital da Prelada 75 Psychological Intervention in Groups: Educational Groups and Post‑Surgical Groups in Hospital Prelada Filipa Mucha Vieira, Clara Estima Martins Dietas Pós BG e BIG – Prós e Contras 79 After Gastric Banding and Intragastric Baloon Diets – Pros and Cons Sílvia Pinhão O que há de novo na terapêutica médica da diabetes mellitus tipo 2? What’s new in medical therapy of type 2 diabetes? M. J. Matos, P. Freitas, D. Carvalho 83 Caracterização Clínica dos Doentes Obesos em Acompanhamento na Consulta de Psicologia do Hospital da Prelada 89 Clinical characterization of obese patients in Psychology Service of Prelada Hospital Filipa Mucha Vieira, Clara Estima Martins, Cláudia Almeida, Débora Coutinho, Lisete Fernandes, Sandra Torres Prevalência de excesso de peso e de obesidade em crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico 91 Prevalence of overweight and obesity in children of the 1st Cycle of Basic Education Maria João Monteiro, Cátia Almeida, Amâncio Carvalho, Elza Lemos, José Manuel Dias O balão intragástrico no tratamento da Obesidade: análise de dois casos clínicos Intragastric Balloon as a treatment for Obesity: Study of Two Clinical Cases A. Vasconcelos Teixeira, Clara Estima, Rosário Seixas Martins 95 Editorial Henrique Lecour (ICS, Porto) Luís Monteiro (Hospital da Prelada) A obesidade é um problema major de Saúde Pública, considerada pela OMS a epidemia silenciosa do século XXI. Doença crónica, com enorme prevalência nos países desenvolvidos, afecta homens e mulheres de todas as raças e idades, e está associada a taxas elevadas de morbilidade e de mortalidade, pelas suas repercussões metabólicas e cardio‑vasculares, de que pela sua importância e prevalência se destacam a diabetes e a hipertensão arterial. Deve‑se sublinhar ainda, que, depois do tabagismo, a obesidade é actualmente aceite como sendo a segunda causa de morte passível de prevenção. Em Portugal, a prevalência de indivíduos com peso excessivo aumentou de 49,6% em 1998 para 53,6% em 2005. Importa ainda, referir a elevada e preocu‑ pante prevalência da obesidade na criança e no adolescente, e a necessidade da sua pre‑ venção neste escalão etário através de medidas activas, que incluirão certamente processos de educação para a saúde. O número de trabalhos sobre a obesidade é crescente, permitindo uma melhoria do conhecimento sobre os factores genéticos, metabólicos e ambientais com influência na génese da doença. O arsenal de possibilidades de tratamento da doença tem também aumentado, nomeada‑ mente com a disponibilidade de novas técnicas cirúrgicas e endoscópicas. Esta é, pois, uma patologia que deve ser prevenida e convenientemente tratada, devendo considerar‑se a sua prevenção e tratamento uma tarefa multidisciplinar. A intervenção do endocrinologista, do psiquiatra, do cirurgião, do psicólogo ou do especialista em nutrição, permite uma metodo‑ logia correcta de actuação numa doença com origem multifactorial. Os recentes avanços da epidemiologia, da fisiopatologia e do tratamento da doença, esti‑ veram no centro do debate que o Encontro “A Obesidade – uma visão multidisciplinar” permitiu concretizar. Em face do seu inte‑ resse, fomos levados a encarar a publicação dos trabalhos que nos foram remetidos, num suplemento dos Cadernos de Saúde, a exemplo do que fizemos com os textos da reunião que organizamos em 2009 sobre “Infecção Associada a Cuidados de Saúde”, publicações editadas no âmbito da parceria entre o Centro Regional do Porto da Universidade Católica e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, certos do seu interesse e actualidade. Programa da reunião “Obesidade – uma visão multidisciplinar” 2 e 3 de Julho de 2010 CONFERÊNCIAS I – Determinantes da epidemia mundial da obesidade Prof. Nuno Borges II – Repercussão cardiovascular da obesidade Dr. Anibal Albuquerque III – Responsabilidade da Indústria alimentar de distribuição e marketing na prevenção da obesidade Prof.ª Ana Gomes IV – Determinantes fisiológicos do controlo de peso e apetite Prof.ª Carmen Silva V – A plataforma contra a obesidade e o Plano Nacional de Saúde Prof. Amâncio de Carvalho VI – Obesidade infantil Mestre Inês Tomada VII – Factores sociais na obesidade Prof. Isabel Azevedo VIII – A organização de um serviço de cirurgia bariátrica Dr. Luis Monteiro MESAS REDONDAS 1 – Fisiopatologia da obesidade Introdução Prof. Ana Gomes O adipócito como célula auto-reguladora Mestre Diogo Pestana Inflamação na obesidade Prof. Isabel Azevedo 2 – Obesidade mórbida – Balão intra-gástrico e tratamento cirúrgico Introdução Dr. Canto Moniz Indicações e limitações do balão intragástrico Prof. Vasconcelos Teixeira Obesidade mórbida – Opções cirúrgicas Dr. Paulo Baldaque 10 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A cirurgia da remodelação corporal pós cirurgia bariátrica Dr. Manuel Maia 3 – A importância da comunicação social na prevenção da obesidade Introdução Dr. Eurico Castro Alves A perspectiva da jornalista Dr.ª Paula Rebelo A perspectiva do médico Prof. A. Galvão Teles 4 – Avaliação psicológica e nutricional na cirurgia bariátrica Introdução Dr. Adrian Gramary e Profª. Vânia Sousa Lima A consulta de nutrição no pré e pós-operatóio Dr.ª Rosário Seixas Martins A consulta de psicologia no pré e pós-operatório Dr.ª Clara Estima Quais são as contra-indicações psiquiátricas para cirurgia bariátrica Dr.ª Ana Margarida Cordeiro Os grupos de ensino no Hospital da Prelada Mestre Filipa Vieira Dieta pós colocação de BIG ou Banda – prós e contras Dr.ª Silvia Pinhão 5 – Diabetes tipo 2 e cirurgia metabólica Introdução Prof. A Galvão Teles O que há de novo no tratamento médico da diabetes tipo 2 Dr.ª Paula Freitas A visão do endocrinologista relativamente à cirurgia metabólica Dr.ª Cristina Santos Cirurgia da diabetes tipo 2 – conceitos, indicações, técnicas Dr. Jorge Limão COMUNICAÇÕES LIVRES Caracterização Clínica dos Doentes Obesos em Acompanhamento na Consulta de Psicologia do Hospital da Prelada Filipa Vieira, Clara Estima Martins, Cláudia Almeida, Débora Coutinho, Lisete Fernandes, Sandra Torres Prevalência de excesso de peso e de obesidade em crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico Maria João Monteiro, Cátia Almeida, Amâncio Carvalho, Elza Lemos, José Manuel Dias O Balão Intragástrico no tratamento da Obesidade: Análise de dois Casos Clínicos A. Vasconcelos Teixeira, Clara Estima, Rosário Seixas Martins Determinantes da epidemia mundial da obesidade Determinants of the global obesity epidemic Nuno Borges* Professor Associado. Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, Universidade do Porto Resumo A obesidade é uma doença caracterizada por uma acumulação excessiva de gordura corporal. A sua prevalência tem aumentado significativamente nas últimas décadas, tornando‑a uma verdadeira epidemia global. Apesar da importância esmagadora desta patologia, os inúmeros estudos efectuados não permitem ainda uma visão clara e integradora dos seus determinantes. Para além da importância da hereditariedade, bem estabelecida, é já possível identificar alguns factores que se correlacionam com o aumento de peso, sobretudo na infância. São eles a alimentação materna, a evolução do peso durante os primeiros meses de vida, o aleitamento materno, a duração do sono, a intensidade da actividade física e o consumo de alimentos densamente energéticos e pobres em micronutrientes, nomeadamente bebidas açucaradas. Do acerto das politicas destinadas a corrigir estes factores dependerá muito do sucesso da luta que devemos empreender contra este flagelo. Abstract Obesity is a disease characterized by an excessive accumulation of body fat. Its prevalence has increased significantly in recent decades, making it a global epidemic. Despite the overwhelming importance of this disorder, many studies do not yet allow a clear and inclusive view of its determinants. Apart from the well established importance of heredity, it is already possible to identify some factors that correlate with weight gain, especially in childhood. These include maternal nutrition, weight evolution during the first months of life, breastfeeding, sleep duration, intensity of physical activity and consumption of micronutrient‑poor, energy‑dense foods, particularly sugary drinks. From the appropriateness of policies designed to correct these factors will depend the success of the struggle that we must take against this disease. Keywords: obesity, determinants Palavras‑chave: obesidade, determinantes Com uma expansão vertiginosa nas últimas déca‑ das, a obesidade é hoje um dos maiores problemas de saúde pública a nível mundial. A sua prevalência triplicou apenas nas últimas três décadas e atinge hoje adultos e crianças de todas as regiões do globo. Nos Estados Unidos da América, o número de obesos representa já quase 30% da população adulta, sendo este número ainda mais elevado em alguns países, como por exemplo no Médio Oriente ou em muitas ilhas do Pacífico. Na Europa os valores são igual‑ mente elevados, com percentagens de prevalência superiores a 20% em países como o Reino Unido, a Alemanha ou a Turquia. Os estudos efectuados em Portugal mostram valores mais baixos que estes, em adultos. No trabalho de Isabel do Carmo e colaboradores, é apresentada uma prevalência de obesidade de cerca de 14% em ambos os sexos, sendo que o número de adultos com excesso de peso é de quase 40%. Tão ou mais preocupantes que os valores obser‑ vados em adultos são os dados da obesidade infantil que temos disponíveis. A elevada probabilidade que hoje reconhecemos existir de uma criança obesa vir a ser um adulto obeso torna a questão da obe‑ sidade em crianças e adolescentes num problema de especial relevância. Os problemas colocados pela obesidade são múl‑ tiplos; ela constitui, segundo a OMS, o 5.º maior factor de risco para morte em todo o Mundo. Se juntarmos a hipertensão arterial (o maior factor de risco), a diabetes (3.º) e a hipercolesterolemia (6.º), factores intimamente relacionados com a obesidade, percebemos o enorme impacto desta patologia. É hoje igualmente claro que a obesidade é ainda * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 11-13 12 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e capaz de afectar aspectos como a aceitabilidade social, a probabilidade de casar ou encontrar tra‑ balho. De forma simplista, podemos afirmar que a obesi‑ dade, definida como uma acumulação excessiva de gordura corporal capaz de afectar a saúde, resulta sempre de um desequilíbrio entre a ingestão e o gasto energético. Esta equação simples depende, no entanto, de uma enorme complexidade de mecanis‑ mos reguladores, que em cada individuo e em cada momento asseguram a homeostasia energética. Estes mecanismos envolvem vários núcleos no Sistema Nervoso Central (nomeadamente o hipotálamo) mas também o tubo digestivo e o tecido adiposo, ambos com capacidade de receber e fornecer informação reguladora, sob a forma de hormonas, neurotransmissores ou outras substâncias de acção autócrina ou parácrina. A referida complexidade e redundância destes mecanismos reguladores, ainda não completamente esclarecidos, tem constituído uma barreira ao estabelecimento de terapias eficazes para a obesidade, facto que está, necessariamente, ligado à inexorável progressão desta doença. Assim sendo, importa tentar perceber quais os determinantes desta epidemia sobretudo na pers‑ pectiva de tentar encontrar formas de prevenção eficazes e que possam estancar este problema. Começaremos por abordar a componente genética desta doença. Os estudos actuais mostram que a hereditariedade é responsável por 45% a 75% da variação inter‑individual do Índice de Massa Corporal. A quantidade de genes envolvida parece grande e engloba todos os componentes da regulação ener‑ gética, como o apetite, o dispêndio energético ou a composição corporal. Todavia, embora tenham já sido identificados os genes responsáveis por certas formas monogénicas de obesidade, como na deficiência de secreção de leptina, o actual estado do conhecimento científico não permite ainda compreender as muito mais prevalentes formas de obesidade poligénica. O conhecimento destes genes, suas interacções e mútua regulação entre os seus produtos está ainda numa fase demasiado incipiente para que dele se possam produzir tratamentos eficazes. Se é certo que, como vimos, a genética tem um papel preponderante, não é menos verdade que são as alterações do ambiente que podem explicar a rapidez do aumento da prevalência desta pato‑ logia. Fruto da já referida complexidade e do seu carácter relativamente recente, são ainda poucos os estudos com robustez metodológica suficiente (nomeadamente estudos prospectivos com amostras numerosas) para extrairmos conclusões definitivas acerca da influência de factores ambientais sobre o aparecimento desta epidemia. Ainda assim, existem já alguns dados que importa referir e que podem constituir ponto de partida para futuras intervenções ao nível de populações especí‑ ficas, das quais se destacam, pela sua importância, as crianças e adolescentes. Assim, começamos por apontar que existem facto‑ res maternos que se correlacionam com a obesidade na criança. São eles a diabetes gestacional, o facto de a mãe ser fumadora e a ocorrência de carências nutri‑ cionais durante os primeiros meses de gravidez. Os resultados obtidos mostram que as mães fumadoras têm uma probabilidade significativamente superior de vir a ter um filho obeso, com um Odds Ratio (OR) ajustado variando entre 1,5 e 2,2, consoante o estudo. A desnutrição materna, no início da gravidez, parece igualmente associar‑se ao aparecimento de crianças obesas e, tal como para as fumadoras, o efeito pode dever‑se à reprogramação estrutural e funcional de vários sistemas endócrinos no feto. Outro conjunto importante de determinantes é o que envolve o peso ao nascer e o desenvolvimento corporal da criança nos primeiros meses de vida. Aqui, é preditor de obesidade futura quer o elevado peso à nascença quer o baixo peso associado a rápido crescimento nos primeiros meses de vida. Alguns estudos mostram que crianças com um ganho de peso no quintil superior podem ter um OR quase 4 vezes superior ao das crianças no quintil mais baixo. Quanto ao peso elevado à nascença, e mesmo assumindo que pode apresentar definições variáveis entre estudos, as revisões sistemáticas de que dispomos mostram que crianças obesas têm um OR de serem obesos em fases mais tardias da vida entre 1,35 e 9,18. A variabilidade metodológica dos estudos considerados não permite, no entanto, conclusões seguras quanto à dimensão da associação. A alimentação da criança nos primeiros anos de vida é outro factor que pode associar‑se ao apareci‑ mento de obesidade futura. Neste caso, as diferenças surgem quando comparamos crianças alimentadas com fórmula com as alimentadas com leite materno. Das várias revisões sistemáticas publicadas, encon‑ tramos valores de OR para o aleitamento materno entre 0,75 e 0,95 ou seja, conferindo protecção contra a obesidade quando comparado com o uso de fórmula. A duração do sono é outro parâmetro que tem sido estudado como possível determinante do aparecimento de obesidade. Os dados disponíveis Determinantes da epidemia mundial da obesidade mostram que dormir pouco, na infância, agrava significativamente o risco de obesidade. As crianças com menor número de horas de sono apresentam um risco 58% superior de serem obesas ao das outras crianças. Esse risco sobe para 92% se as compararmos com as crianças que dormem mais horas. Este efeito tem sido consistentemente demonstrado e parece ser maior em rapazes. A família constitui outro factor com influência sobre o desenvolvimento de obesidade, para além, obviamente, dos factores hereditários. O aspecto que aparece mais vezes associado ao aumento da probabilidade de desenvolvimento de obesidade é o nível socioeconómico e educacional da família, sendo esta uma relação inversa, ou seja, quanto mais baixo o nível maior a probabilidade de aparecimento desta doença. A complexidade da associação e as diferenças metodológicas e de realidades sociais entre os vários países estudados não permitem, no entanto, o aparecimento de números sólidos que concretizem a dimensão e importância deste factor. A actividade física relaciona‑se, não surpreen‑ dentemente, com o peso corporal. Em crianças, assume especial relevância a associação entre o tempo dispendido a ver TV ou jogos de vídeo ou computador. A natureza transversal da maioria dos estudos efectuados não permite, no entanto, excluir a possibilidade de haver causalidade reversa, ou seja, a criança obesa ter menos aptidão (e consequente vontade em praticar) actividade física. Ainda assim, estudos longitudinais, embora em menor número, confirmam que os níveis mais elevados de activi‑ dade física protegem a criança e o futuro adulto do aparecimento de obesidade. Uma palavra final para a evidência recente de que o consumo de refrigerantes açucarados está associado também à obesidade e a várias das suas complicações, seja em crianças seja em adultos. Estes dados são consistentes, tal como os da actividade física, com os apresentados pela Organização Mundial da Saúde, em 2003, e que referem precisamente a vida sedentária e o consumo de bebidas açucaradas e alimentos energeticamente densos e nutricionalmente pobres como os principais factores promotores de obesidade. Chegamos assim à conclusão de que muitos destes factores ligados ao aparecimento da epidemia glo‑ bal da obesidade são potencialmente modificáveis. A promoção de uma óptima saúde materno‑fetal, com ênfase na vigilância do peso de ambos e da abstinência tabágica materna deverá constituir um desígnio dos estados que queiram atacar seriamente 13 este problema. A promoção de bons hábitos de sono e actividade física desde muito cedo e o desincen‑ tivo e/ou promoção (eventualmente recorrendo a medidas de natureza fiscal/económica) do consumo de determinados tipos de alimentos é outra forma, complementar, de minimizar esta epidemia. Se nada for feito, os custos económicos, sociais e humanos que teremos de pagar tornar‑se‑ão insuportáveis. Referências bibliográficas 1. Int J Obes (Lond). 2006 Apr;30(4): 610‑7 2. Obes Rev. 2007 Mar;8 Suppl 1: 37‑40 3. Obes Rev. 2008 Jan;9(1):11‑9. Epub 2007 Nov 23. 4. Global health risks: mortality and burden of disease attributable to selected major risks. WHO 2009. Disponível em http://www.who.int/healthinfo/ global_burden_disease/GlobalHealthRisks_report_full.pdf 5. Obes Rev. 2010 Oct; 11(10): 695‑708 6. Public Health Nutr. 2010 Nov; 13(11):1870‑81 Responsabilidade da indústria alimentar, de distribuição e marketing na prevenção da obesidade Responsability of food industry, retailers and marketing in the prevention of obesity Ana Gomes* Professora auxiliar. Escola Superior de Biotecnologia, Universidade Católica Portuguesa Resumo A incidência e a prevalência quer da pré‑obesidade quer da obesidade têm vindo a aumentar no mundo e, também, em Portugal. Estima‑se que mais de 50% da população mundial será obesa em 2025 se não forem adoptadas medidas concretas, o que justifica bem o facto da Organização Mundial de Saúde ter considerado a obesidade como a epidemia global do século XXI. A génese da obesidade deve‑se a sucessivos balanços energéticos positivos, em que a quantidade de energia ingerida é superior à quantidade de energia gasta pelo organismo, ainda que outros factores, também, determinem a sua origem, nomeadamente genéticos, culturais e comportamentais. O estabelecimento de programas de prevenção adequados e o seu cumprimento rigoroso podem reduzir a taxa de pré ‑obesidade e de obesidade. Estes assentam fundamentalmente em três pilares, a saber, a alimentação, a actividade física e a mudança de comportamento e necessitam do envolvimento de todos os parceiros visados, particularmente da família, da escola, e da sociedade onde se inserem. Igualmente determinante é o papel mobilizador e interventivo da indústria alimentar e de bebidas, da distribuição e do marketing que são chamados a rever as suas políticas comerciais voluntariamente ou pelo meio da legislação em vigor. A crescente eclosão de produtos alimentares processados altamente calóricos obriga a indústria agro‑alimentar, e empresas de distribuição, enquanto entidades responsáveis, ao estabelecimento de compromissos empenhados e partilhados que visem a promoção de hábitos alimentares saudáveis. Abstract The incidence and prevalence of both pre‑obesity and obesity have been rising steadily throughout the world and, also, in Portugal. Estimates indicate that more than 50% of the world‑wide population will be obese in 2025 if specific measures are not taken, which justifies the fact that the World Health Organization has considered obesity as the global epidemic of the 21st century. Obesity emerges fundamentally as a consequence of successive positive energy balances, where the amount of energy ingested is superior to the amount of energy spent by the organism, although other factors must also be considered, namely, of genetic, cultural and behavioral origin The establishment of adequate prevention programs and their rigorous fulfillment can reduce the risk of pre‑obesity and obesity. Such programs are based on three basic pillars, namely, food, physical activity and change of behavior and need the involvement of all stakeholders, in particular of the family, the school, and the society where they are included. Equally determinative is the mobilizing role of food and drinks manufacturers, advertisers and traders who are called upon to revise their policies, both voluntarily and as a result of legislation. The global increase in highly processed food products high in calories compels the agro‑food industry and retailers, while responsible entities, to establish pledged and shared commitments aiming at the promotion of healthy eating habits. Keywords: Prevention, obesity, food industry, social responsability Palavras‑chave: Prevenção, obesidade, indústria agro ‑alimentar, responsabilidade social * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 15-20 16 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Introdução Desde há muitas décadas, que as Nações Unidas reconhecem, no artigo 25.º da Carta de Direitos Humanos, que todos os seres humanos têm o direito a uma alimentação adequada à promoção da sua saúde e bem-estar (NU, 1948). A alimentação ade‑ quada, prevista como um direito social, deve ser saudável e suficiente para assegurar o pleno desen‑ volvimento dos indivíduos, em particular daqueles que se encontram em processo de desenvolvimento. Contudo, diversos estudos epidemiológicos indicam um crescimento vertiginoso do consumo de alimentos altamente processados (OMS, 2007). À medida que essa tendência prossegue provocando mudanças drásticas no perfil alimentar dos consumidores, os impactos sobre a saúde passam a ameaçar a longevidade e a qualidade de vida, impulsionando a configuração de problemas de saúde pública que exigem a imediata intervenção dos interlocutores decisores. Presentemente, na Europa, alguns dos maiores factores de risco de morte prematura estão relacio‑ nados com a alimentação desequilibrada. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2007), a má alimentação e o baixo nível de actividade física são responsáveis por 6 dos 7 principais factores de risco de doença na Europa. Estima‑se que poderiam ser evitados 80% das doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais e diabetes tipo 2 e 40% dos can‑ cros se se eliminassem os factores de risco comuns decorrentes dos estilos de vida. Projecções da OMS apontam que em 2020 estas doenças responderão por 58% da carga global de doença no mundo. A obesidade, considerada como uma pandemia (Malecka‑Tendera & Mazur, 2006), e a morbilidade e mortalidade a ela associadas, constituem actual‑ mente um dos principais problemas e desafios ao nível da saúde pública, quer na Europa, quer no mundo, acarretando sérias consequências para a saúde afectando a longevidade e a qualidade de vida (OMS, 2008). É uma doença crónica, com enorme prevalência nos países desenvolvidos, atinge homens e mulheres de todas as etnias e de todas as idades, e diversos estudos têm mostrado um aumento progressivo e consistente da prevalência de indivíduos com excesso de peso e obesos, com destaque especial para o aumento da prevalência nos grupos mais jovens (Pádez, 2004; Rito e Breda, 2009). Em Portugal, dados recentes do estudo rea‑ lizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, iniciativa da Plataforma Contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde, revelam uma prevalência para as crianças (2 a 5 anos) de 29% de excesso de peso, 16,5% de pré‑obesidade e 12,5% de obesidade e para os adolescentes (11 a 15 anos) de 28,2% de excesso de peso, 16,9% de pré‑obesidade e 11,3% de obesidade segundo os critérios do Centre for Disease Control and Prevention (SPEO, 2009). Esta prevalência crescente tem feito aumentar consideravelmente as preocupações sobre a saúde e o bem‑estar particular das crianças (Flegal et al., 2006). A formação de placas arterioscleróticas, intolerância à glicose, diabetes mellitus tipo 2, disli‑ pidemia, hipertensão arterial, hiperleptinemia, entre outros, também têm sido diagnosticados em crianças e adolescentes, especialmente naqueles portadores de obesidade (Iannuzzi et al., 2004; Veugelers & Fitzgerald, 2005). Urge desenvolver acções multi‑sectoriais de modo a conseguir inverter estas tendências sem prejuízo do consumidor. É imprescindível caminhar no sentido de um maior conhecimento das doenças e das suas causas, de modo a que todos os intervenientes, entidades, profissionais de saúde, indústria, reta‑ lhistas, media e comunidade reúnam os elementos necessários para identificar estratégias de prevenção nos domínios da nutrição e da actividade física no sentido da promoção de saúde e prevenção de doença. Etiologia Compreender as causas da obesidade é um factor importante para a sua prevenção e tratamento, não sendo uma tarefa fácil, pois o aumento do peso corporal e também do excesso de adiposidade é um processo complexo onde ocorre a interacção de vários factores tais como genéticos, ambientais, endócrinos e metabólicos, além de influências socio‑ económicas e culturais (Figura 1). As variáveis ambientais (ordenamento dos espa‑ ços urbanos, globalização da indústria alimentar, distribuição de alimentos, evolução tecnológica, disponibilidade de alimentos hipercalóricos, tamanho das doses, publicidade, marketing, emprego materno, escolha alimentar e atitude parenteral) e compor‑ tamentais (depressão, stress, regime alimentar, vida sedentária) têm sido designadas como aquelas que mais influenciam na elevada incidência e prevalência da obesidade a escala global (Hoelscher e McCullum, 2006). A adequação das opções nutricionais numa envolvente ambiental marcadamente obesogénica, i.e. promotora do desenvolvimento e manutenção da Responsabilidade da indústria alimentar, de distribuição e marketing na prevenção da obesidade Figura 1 – Apresentação gráfica dos factores determinantes da obe‑ sidade (adaptado da Organização Mundial de Saúde, 2006) Normas e Valores sociais – Comunidades – Locais de trabalho – Centros de saúde – Escolas e Pré-escolas – Casa –F actores demográficos (idade, género, etnia) – Factores psicossociais – Interacção gene-ambiente – Outros factores Sectores de influência Ambientes Comportamentais Factores individuais Ingestão alimentos e bebidas Actividade física Ingestão energética – Governo – Saúde Pública – Cuidados primários – Agricultura – Educação – Media – Transporte e disposição urbana – Fundações – Indústria - Alimentar - Bebidas - Restaurante - Retalhistas - Actividade física - Actividade de lazer Gasto energético Balanço energético obesidade, revela‑se complexa. A convergência de uma propensão para a obesidade e de um ambiente promotor do ganho de peso aumenta a pressão sobre os indivíduos, no que respeita a necessidade de controlar as suas opções alimentares (Hoelscher e McCullum, 2006). Dados epidemiológicos existentes identificam dois factores muito importantes na base do crescimento da obesidade em Portugal: por um lado, a mudança nos hábitos alimentares com a perda dos valores tradicionais da alimentação medi‑ terrânica (menor consumo de sopa, frutos, hortaliças e legumes e menos cereais completos) e a opção por produtos altamente processados de reduzido valor nutricional mas de elevada densidade calórica, e, por outro lado, os portugueses são de todos os povos da UE aquele que apresenta maior nível de inactividade física entre os adultos e igualmente as crianças (Camolas e Vieira, 2009). Prevenção Diante deste perfil epidemiológico a prevenção da obesidade e do excesso de peso deverão constituir um objectivo fundamental nas políticas de saúde, nomeadamente nas estratégias de prevenção e edu‑ cação para a saúde. Existe um forte consenso de que é necessária uma abordagem holística no combate à obesidade implicando o envolvimento do indivíduo e o seu ambiente físico, socioeconómico e cultural, com a participação efectiva e integrada de diversos parceiros e sectores da sociedade (Milestone et al., 2006). Medidas multifacetadas e multisectoriais, adaptadas aos contextos socioeconómicos e culturais ao nível da população e sustentáveis a longo prazo são essenciais para garantir resultados promissores e duradouros no combate à obesidade (Milestone et al., 2006). A prevenção da obesidade implica 17 necessariamente a instituição de programas interna‑ cionais e nacionais capazes de articular e interligar as autoridades públicas, as instituições relacionadas com a saúde e a defesa dos consumidores, assim como as outras entidades relevantes e a própria indústria alimentar. Neste caso urge garantir que as mensagens utilizadas pelas diferentes empresas serão coerentes, assim como que as acções desenvolvidas serão eficientes. De realçar, ainda, a necessidade premente de participação activa na promoção de hábitos alimentares saudáveis e de exercício físico implicando a alteração de políticas alimentares de comunicação e marketing. Papel do consumidor O consumidor é o actor principal neste mecanismo de prevenção, consequência da escolha individual que faz no que respeita o regime alimentar e o estilo de vida. De facto, a prevenção primária da obesidade consiste na promoção de estilos de vida saudável (ali‑ mentação saudável e prática de actividade regular), o mais cedo possível (gravidez), de forma a manter quer o peso quer o grau de adiposidade dentro dos limites desejáveis. Para além dos factores culturais e psicológicos anteriormente referidos, foram identifi‑ cados 4 factores adicionais a influenciar a escolha do consumidor: sabor, qualidade, conveniência e preço. Pese embora o consumidor indicar uma alimentação saudável e uma nutrição adequada como elementos essenciais, estudos diversos continuam a revelar o peso do sabor, conveniência e preço (Verduin et al., 2005). Adicionalmente o consumidor sob alerta é confundido pela informação algo conflituosa relacionada com alimentação saudável. Importa implementar uma informação perceptível e fidedigna sobre os géneros alimentícios, com o objectivo de permitir que os consumidores identifiquem e utilizem adequadamente os géneros alimentícios e escolham os que melhor correspondem às suas próprias necessidades alimentares. Papel da indústria alimentar, distribuição e marketing Todos os membros da sociedade devem sentir a responsabilidade de prevenir problemas associados com excesso de peso em crianças e adolescentes; medidas devem ser tomadas a todos os níveis de influência com mecanismos que apoiem o grande público a adoptar estilos de vida saudáveis. Isto incluído num cenário em que a globalização e 18 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e a urbanização caracterizam‑se como movimentos incessantes e contínuos, altamente impeditivos do estabelecimento de práticas alimentares saudáveis, é indubitavelmente uma grande responsabilidade. É fundamental que os governos tomem todas a medidas necessárias para promover serviços de saúde adequados e regulamentar e fiscalizar as acções da iniciativa privada de modo que estas não inflijam dano à saúde das pessoas. Nesse contexto, é imperioso notar que a protecção da saúde pres‑ supõe medidas de incentivo dirigidas ao indivíduo ou à população, como por exemplo estratégias de educação alimentar e nutrição complementadas com medidas de apoio que auxiliem os consumidores a fazerem as suas escolhas alimentares mais saudáveis, como por exemplo, a rotulagem nutricional dos alimentos. O Livro Branco da Comissão sobre uma estratégia para a Europa em matéria de problemas de saúde ligados à nutrição, ao excesso de peso e à obesidade refere que a rotulagem nutricional constitui um instrumento importante de informação dos consu‑ midores sobre a composição dos alimentos, que os ajuda a fazer escolhas informadas. A estratégia comunitária em matéria de Política dos Consumidores para 2007‑2013 sublinha que esta possibilidade de fazer escolhas informadas é fundamental tanto para assegurar uma verdadeira concorrência como para garantir o bem‑estar dos consumidores. A decla‑ ração nutricional relativa a um género alimentício fornece informações sobre o seu valor energético e a presença de determinados nutrientes. A indicação obrigatória de informação nutricional deverá facilitar as medidas desenvolvidas no domínio da educação nutricional do grande público e contribuir para uma escolha informada dos alimentos e melhorar dietas menos equilibradas. É do consenso geral que a eficácia da rotulagem nutricional pode ser reforçada como forma de ajudar os consumidores a escolher um regime alimentar equilibrado contribuindo deste modo para a prevenção da obesidade (OMS, 2007). Cabe à indústria alimentar o papel de providenciar informação clara e rigorosa a este respeito promo‑ vendo por exemplo a implementação de códigos de auto‑regulação sobre a rotulagem; a colocação do perfil nutricional dos produtos alimentares na embalagem; a criação de sites informativos, linhas de atendimento, folhetos de informação para os consumidores; e a validação da informação veiculada por entidades científicas. O conhecimento dos princípios básicos da nutrição e uma informação adequada sobre as características nutritivas dos alimentos ajudariam significativamente os consumidores a fazer tais escolhas. A indústria tem o dever de informar sobre o risco do consumo excessivo de alimentos altamente calóricos, ricos em açúcar, gorduras e sódio, características encon‑ tradas na imensa maioria dos alimentos altamente processados, alimentos esses presentes em cerca de 95% da publicidade de alimentos veiculada na Europa, inclusive naquela dirigida especificamente ao público infantil. É inegável do ponto de vista científico o efeito da publicidade sobre a decisão de compra e escolha das famílias (Lobstein e Dibb, 2005). No caso das crianças, há fortes evidências de que a publicidade televisiva, num prazo curto de tempo, influencia o consumo semanal e até diário das crianças, levando‑as a preferir e pedir alimentos e bebidas com alto teor calórico e baixo teor nutritivo (Figura 2). Ressalta‑se que os hábitos alimentares formados na infância são levados para toda a vida, sendo muito difícil revertê‑los posteriormente. Assim, uma comunidade que pauta sua alimentação no consumo excessivo de produtos altamente processados tende a tornar ‑se uma população com problemas de sobrepeso, obesidade e doenças relacionadas. Exigir que esta publicidade apresente uma informação completa e exacta sobre a qualidade nutricional de produtos que colocam em risco a saúde e a qualidade de vida das pessoas cumpre assim, em um só tempo, dois importantes e fundamentais direitos: o provimento da saúde e a garantia da informação precisa e fidedigna. Informar a população sobre os riscos relacionados ao consumo excessivo de alimentos não saudáveis significa abraçar a responsabilidade de oferecer um Figura 2 – Associação entre a prevalência de obesidade infantil e o número de momentos publicitários realizados para alimentos com elevado teor de açúcar/gordura versus alimentos saudáveis (adaptado de Lobstein e Dibb, 2005) 19 Responsabilidade da indústria alimentar, de distribuição e marketing na prevenção da obesidade dos produtos existentes e o desenvolvimento de inovações que permitem disponibilizar uma cres‑ cente diversidade e consequentemente opções mais saudáveis; o facultar aos consumidores uma infor‑ mação acrescida e mais clara sobre as características nutricionais dos géneros alimentícios; a adaptação de medidas voluntárias ao nível do marketing e da publicidade dos géneros alimentícios, particularmente quando dirigidos a crianças (conforme mencionado anteriormente); e a promoção da actividade física, desporto e estilos de vida saudáveis. A disponibilização aos consumidores de uma gama diversificada de alimentos com diferentes composições nutricionais, que permita uma esco‑ lha consciente e informada, é um factor crítico para a mudança dos comportamentos de consumo. O consumo excessivo de alimentos com altas concentrações de açúcar, sódio, gordura saturada e/ou gordura trans pela população, alavancado pelo estímulo bem‑sucedido ao consumo sem restrições desses alimentos por meio da publicidade, revela‑se agora nas estatísticas de excesso de peso e obesidade. Existe a necessidade de aprimorar a qualidade nutri‑ cional dos alimentos industrializados, pela redução de sal (de forma consistente com os requisitos de segurança alimentar), de açúcares adicionados, gorduras saturadas e ácidos gordos trans, redução do teor de calorias, ou pela adição de ingredientes com benefícios específicos para a saúde (os probió‑ ticos, os prebióticos, os esteróis vegetais) (Figura 3). A regulação de alimentos precisa estar harmonizada não somente com questões relacionadas à inocui‑ dade dos alimentos, mas também com parâmetros nutricionais incluindo um esforço para a redução do tamanho das porções. Uma articulação estreita Figura 3 – Exemplos dos ingredientes mais utilizados no desenvolvi‑ mento de alimentos funcionais visando o controlo do peso corporal (Innova Database, 2010) 50 6,2% 7,0% 7,0% 8,4% 8,4% 9,3% 8,4% 20 9,7% 11,5% 40 30 10 Fi C be hr r om iu m ;L -c Fi ar be ni r; tin G e re en te a ca te ch in s Fi be r; Lca rn Er iti yt ne hr ito l; G O re lig en of ru te a ct os ca e te ch in s; Lca Lrn ca iti rn ne iti ne ; C O hr l i go om fru iu ct m os ;G e re en te a ca te ch in s C hr om iu m ;F ib er O lig of ru ct os e 0 Fi be r; A responsabilidade partilhada das indústrias do sector alimentar e empresas de distribuição na prevenção e reversão da obesidade implica, ainda, a melhoria da qualidade nutricional dos produtos que proporcionam ao consumidor. Neste âmbito, as indústrias alimentares em Portugal desencadearam recentemente um conjunto de compromissos e acções concretas nesse sentido incluindo a reformulação Top-10 Ingredient Blends Driving Weight Management Claims (2006-2009) 24,2% 60 Er yt hr ito l; ambiente favorável à vida e à saúde da população, e aproveitar a relocação de recursos do tratamento de doenças evitáveis para o investimento na modulação de macro‑determinantes da saúde. Recorde‑se que em 2005, a Organização Mundial da Saúde reconheceu a publicidade de alimentos não saudáveis direccionada ao público infantil como um factor que contribui para o aumento dos níveis de obesidade e pré‑obesidade. Em Maio de 2010 foram aprovadas pela Assembleia Mundial da Saúde, recomendações que orientam os países a adoptarem medidas restritivas à publicidade destes alimentos como parte integrante das políticas públicas de promoção de práticas alimentares saudáveis. É imprescindível a adopção de códigos de conduta, nacionais ou internacionais, no marketing e publi‑ cidade por parte de todos os parceiros implicados. Como exemplo dessas medidas, cite‑se o sector da indústria alimentar e bebidas em Portugal, através da FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro‑Alimentares e da APAN – Associação Portu‑ guesa de Anunciantes, que assinou em Novembro 2009 o ‘Compromisso da Indústria Alimentar sobre Alimentação, Actividade Física e Saúde’ no sentido da expansão e reforço do processo de auto‑regulação da comunicação comercial. No âmbito do compromisso “EU Pledge” assumido, várias empresas subscritoras pretendem alterar a publicidade dirigida a crianças menores de 12 anos através da televisão, publicações e internet. Todos os compromissos das empresas deverão seguir as seguintes normas: – Abster‑se de publicitar géneros alimentícios a crianças menores de 12 anos através da televisão, publicações e Internet, exceptuando‑se os pro‑ dutos que preencham critérios nutricionais que tenham por base evidências científicas aceites e/ou recomendações nutricionais, nacionais ou internacionais, aplicáveis. – Abster‑se de efectuar comunicação comercial relacionada com produtos alimentares em escolas do primeiro ciclo, excepto quando especificamente solicitada pela ou acordada com a escola e se destinar a fins educativos. Ingredient Blend 20 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e com o governo no desenvolvimento de linhas de orientação e estratégias para apoiar o consumidor na redução progressiva dos excessivos níveis de ingestão dos nutrientes é igualmente desejável. Desde logo, o desenvolvimento de políticas que garantam preços de alimentos saudáveis, como são os cereais, grãos integrais, frutas e verduras, mais acessíveis é igualmente uma premissa no combate à obesidade e excesso de peso. Além disso, no âmbito da actividade física, a indústria alimentar e a distribuição podem incentivar a prática de actividades físico‑desportivas, incluindo nos locais de trabalho, através das comunicações de marketing e/ou colaboração com as autoridades públicas e outros parceiros. Conclusão A prevenção da pré‑obesidade e da obesidade é imprescindível e inadiável, devendo a interven‑ ção baseada na evidência ser tão precoce quanto possível. É necessário um compromisso renovado e cooperação responsável por parte das indústrias do sector alimentar e bebidas, e da distribuição para ajudar a contornar esta problemática complexa. Neste contexto, são necessárias iniciativas organizadas e sustentáveis a longo prazo acompanhadas de uma sensibilização e mobilização constantes para estilos de vida saudável. Referências 1. Camolas, J. e Vieira, J. Regime alimentar. Endocrinologia, Diabetes e Obesidade, 2003, 3, 25‑28. 2. Flegal, K., Tabak, C. e Ogden, C. Overweight in children: definitions and interpretation. Health Education Research, 2006, 21, 755‑760. 3. Hoelscher, D.M. e McCullum‑Gomez, C.. Addressing the obesity epidemic: An issue for public health policy. Em: M. A. Boyle e D. H. Holben. Community Nutrition in Action: An Entrepreneurial Approach, 5th Edition, 2009. Thomson Wadsworth, United States. 4. Iannuzzi A., Licenziati R., Acampora C., Salvatore V., Auriemma L. e Romano L. Increased carotid intima‑media thickness and stiffness in obese children. Diabetes Care, 2004, 27, 2506‑8. 5. Lobstein, T. e Dibb, S. Evidence of a possible link between obesogenic food advertising and child overweight. 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Padez, C., Fernandes, T., Mourão, I., Moreira, P. e Rosado, V. Prevalence of overweight and obesity in 7‑9‑year‑old portuguese children: trends in body mass index from 1970‑2002. American Journal of Human Biology, 2004, 16, 670‑678. 12. Rito A. e Breda J. WHO European Childhood Obesity Surveillance Initiative – Portugal. Plataforma contra a Obesidade da Direcção Geral de Saúde. 2009. Disponível on‑line em: www.plataformacontraaobesidade.dgs.pt. . Último acesso 12.11.2010. 13. Verduin, P., Agarwal, S. e Waltman, S. Solutions to obesity: perspectives from the food industry. American Journal Clinical Nutrition, 2005, 82(suppl), 259S–61S. 14. Veugelers, P. e Fitzgerald, A. Prevalence of and risk factors for childhood overweight and obesity. Canadian Medical Association Journal, 2005, 173, 607‑613. A Plataforma contra a Obesidade e o Plano Nacional de Saúde The Platform against Obesity and the National Health Plan Amâncio Carvalho* Professor Adjunto. Escola Superior de Enfermagem de Vila Real, Universidade de Trás‑os‑Montes e Alto Douro Resumo A conferência está estruturada em três grandes eixos: a perspectiva do Plano Nacional de Saúde 2004‑2010 acerca da obesidade, mencionando as referências a esta temática, reflectindo sobre as metas relacionadas com a obesidade, estabelecidas neste documento e acerca da análise que efectua à problemática; a Carta Europeia da Luta Contra a Obesidade resultante da Conferência Ministerial Europeia, da OMS, que vincou a necessidade de combater esta doença; e a Plataforma Contra a Obesidade como entidade, que tem como principal missão concretizar os objectivos definidos na Carta Europeia de Luta contra a Obesidade e propor medidas e estratégias de luta contra este fenómeno, que preocupa todos os interessados. Palavras‑chave: Obesidade, Prevenção, Estratégias, Medidas Nota Introdutória Estima‑se que mais de 50% da população mundial será obesa em 2025, se não forem tomadas medidas urgentes e eficazes, a nível da prevenção e trata‑ mento da obesidade. A prevalência desta patologia, a nível mundial, é de tal forma elevada, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) designou‑a como a epidemia do século XXI (1). Segundo a OMS, citada pela Direcção‑Geral da Saúde (2: 4), a obesidade pode definir‑se como “uma doença em que o excesso de gordura corporal acumulada pode atingir graus capazes de afectar a saúde”. Os critérios de diagnóstico desta patologia são diferentes e dependem da etapa do ciclo de vida em que se encontra a pessoa. Em crianças e ado‑ Abstract The conference is structured in three big axes: the perspective of the National Health Plan 2004‑2010 about the obesity, mentioning the references to this thematic, reflecting about the goals related with the obesity, established in this document and about the analysis that performs to the problematic one; the European Letter of the Fight Against the Obesity resultant of the Ministerial European Conference of the WHO, that creased the need of fight this illness; and the Platform Against the Obesity as entity, that has like main mission fix the definite objectives in the European Letter of Fight against the Obesity and propose measures and strategies of fight against this disease, that concerns to everybody them interested. Keywords: Obesity, Prevention, Strategies, Measures lescentes, devido às características dinâmicas dos processos de crescimento e desenvolvimento, que ocorrem durante estas etapas, não é possível definir pontos de corte no Índice de Massa Corporal (IMC) para a pré‑obesidade e obesidade, uma vez que as velocidades de crescimento apresentam, em ambos os géneros, uma grande variabilidade inter e intra ‑individual (3). Por esse motivo, o valor de IMC em idade pediátrica deve ser percentilado, considerando‑se existir pré‑obesidade quando os valores de IMC são iguais ou superiores a 85 e inferiores a 95 e obesidade quando aqueles valores são iguais ou superiores ao percentil 95 (2; 4). Na população adulta, o diagnóstico de pré ‑obesidade e de obesidade faz‑se através do cálculo * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 21-25 22 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e do IMC, existindo uma boa correlação entre este índice e a massa gorda corporal. Considera‑se que existe pré‑obesidade quando o IMC é ≥ 25 e que há obesidade quando o IMC ≥ 30. Por sua vez, a obesidade classifica‑se em três classes: classe I (IMC 30,0‑34,9), classe II (IMC 35,0‑39,9) e classe III (IMC ≥ 40,0) (2). Esta patologia tem uma etiologia multifactorial, na qual intervêm factores genéticos, metabólicos, comportamentais, psicológicos, ambientais, entre outros (5; 6). Atendendo a este facto, o combate a esta doença, quer a nível da prevenção, quer a nível do tratamento, deverá envolver vários técnicos. É essencial uma visão e uma actuação multidisciplinar. obesidade sob o prisma do PNS 2004 A – 2010 Qual a perspectiva do PNS sobre a obesidade? Procurando responder a esta questão foi feita uma análise aos dois volumes do documento, que apresento de seguida. O volume I do PNS 2004 – 2010, que termina este ano, está organizado em quatro grandes estratégias: estratégias gerais, estratégias para obter mais saúde para todos, estratégias para a gestão da mudança e estratégias para garantir a execução do plano. As estratégias gerais, no âmbito da abordagem programática, mencionam a obesidade como uma problemática comum a vários programas, que devem ser melhor coordenados. Já nas estratégias para obter mais saúde para todos, inseridas na abordagem centrada na família e no ciclo de vida, são propostas, em quadros, metas a atingir em 2010, por género, em termos de percentagem de indivíduos com IMC entre 27‑29,9 e com IMC ≥ 30, em diferentes classes etárias, começando nos 18‑24 anos até aos 65‑74 anos. Por outro lado, nas estratégias para a gestão da mudança, relativas à mudança centrada no cida‑ dão, promoção de comportamentos saudáveis, no combate a causas subjacentes às principais doenças relacionadas com os estilos de vida, consagra‑se uma atenção particular a factores como o excesso de peso e a obesidade. Ingressando no volume II, logo no prefácio, faz‑se alusão ao Programa Nacional de Combate à Obesidade, referindo estar em fase adiantada de preparação, documento que foi concluído e publicado em 2005. Nas estratégias para obter mais saúde para todos, na abordagem centrada na família e no ciclo de vida, no ponto uma juventude à descoberta de um futuro saudável, é reconhecido o desconhecimento da morbilidade associada a problemas como a obe‑ sidade, em adolescentes. Ainda neste eixo, na abordagem à gestão integrada da doença, na parte respeitante às outras doenças crónico‑degenerativas é referido que a informação sobre a obesidade é deficiente, afirmando que a obe‑ sidade é um enorme problema de Saúde Pública, pela sua elevada prevalência, cronicidade, morbilidade e mortalidade, em crescente aumento, estimando que esse aumento se situe entre 10 e 15%, prevendo que em Portugal, a prevalência se situe nos 15% para o sexo masculino e 16% para o sexo feminino. Continuando neste eixo, nas Orientações Estratégicas e Intervenções necessárias, estabelece‑se como meta melhorar a informação e a acção sobre a obesidade, devendo ser adoptada uma abordagem de promoção da saúde e preventiva do excesso de peso e obesidade, de âmbito intersectorial e preparar medidas compre‑ ensivas de prevenção e gestão contra a obesidade. No âmbito da Intervenção curativa e de gestão da doença, foi reafirmado o compromisso de elaborar uma proposta de programa contra a obesidade. Por sua vez, nas estratégias para a gestão da mudança, relativamente à mudança centrada no cida‑ dão, nos comportamentos e estilos de vida saudáveis é mencionada a malnutrição, sendo referida a baixa ingestão de frutos, legumes e vegetais, em determi‑ nados grupos da população e que, segundo os dados do World Health Report (2002), a alimentação está directa ou indirectamente relacionada com a obesidade e o excesso de peso (7,4%) entre outras doenças. Ainda neste eixo, é referido no âmbito das Inter‑ venções necessárias que se deverá promover uma nutrição saudável e incentivar a actividade física regular. Por último, nas estratégias para a gestão da mudança, tendo em conta capacitar o sistema de saúde para a inovação, na participação do sector da saúde nos Fóruns Internacionais, no âmbito da cooperação com a Organização Mundial de Saúde são salientados os riscos mais importantes para a saúde na actualidade, ligados aos padrões e estilos de vida, tais como a alimentação não saudável, a obesidade e a falta de actividade física (7). Carta Europeia da Luta contra a ObeA sidade A Carta Europeia da Luta contra a Obesidade emergiu da Conferência Ministerial Europeia, da Organização Mundial de Saúde, realizada em 23 A Plataforma contra a Obesidade e o Plano Nacional de Saúde Istambul, na Turquia, em Novembro de 2008. Foi estabelecido como objectivo principal, por todos os estados membros, o controlo da epidemia até 2015. Fig. 1– Organigrama da PCO Alguns dados epidemiológicos A epidemia de obesidade nos países da Região Europeia da OMS evidencia‑se nos seguintes dados: cerca de 20% das crianças e adolescentes têm excesso de peso e um terço destes são obesos. O excesso de peso afecta cerca de 30 a 80% dos adultos nos países da União Europeia. O aumento da prevalência de obesidade em crianças e adolescentes, que se tem verificado nos últimos anos, é dez vezes maior que nos anos 70 do século passado. Sabe‑se, ainda, que quer o excesso de peso, quer a obesidade afectam o desenvolvimento social e económico dos países, contribuindo para o aumento de doenças não transmissíveis, diminuição da espe‑ rança de vida e da qualidade de vida das pessoas. Mais de 1 milhão de mortes na Região Europeia da Organização Mundial de Saúde são devidas a doenças relacionadas com o excesso de peso, o que faz desta problemática alvo obrigatório de intervenção. Esta epidemia resulta das mudanças sociais, econó‑ micas, culturais e ambientais, que se têm processado nas últimas décadas, nomeadamente, alterações do estilo de vida, redução dramática da prática de activi‑ dade física (2/3 da população não é suficientemente activa) e mudanças nos padrões de consumo alimentar. plataforma contra a obesidade como A uma resposta A plataforma contra a Obesidade (PCO) foi criada pela Direcção‑Geral da Saúde em parceria com a GALP Energia em 22/05/2007, tendo constituído um importante passo para alcançar as metas preconizadas na Carta Europeia da Luta contra a Obesidade. O primeiro coordenador da PCO foi o Dr. João Breda, sendo actualmente (Julho de 2010) o Dr. Pedro Graça, ambos nutricionistas. A Organização da Plataforma Contra a Obesidade A PCO tem um coordenador que, conjuntamente com o grupo executivo, possui o poder de decisão. Da sua constituição fazem ainda parte dois órgãos consultivos: o conselho consultivo e o conselho científico da PCO (Fig. 1). O conselho consultivo é constituído por repre‑ sentantes dos principais sectores da sociedade, nomeadamente, da Saúde, Educação, Associação Nacional de Municípios, indústria alimentar, comu‑ nicação, agricultura, restauração, organizações não governamentais ligadas à defesa do consumidor e outras, numa lógica multisectorial. Este órgão estabelece compromissos, parcerias e acordos. Por sua vez, o conselho científico é formado por especialistas de mérito de diversas disciplinas entre as quais medicina, nutrição, enfermagem, psicologia e motricidade humana, que constituíram grupos de trabalho: referenciação da obesidade, aconselhamento nutricional, obesidade infantil, suplementos alimentares, comunicação ao público em geral e intervenção na comunidade. Estes grupos têm vindo a trabalhar, elaboram documentos para serem discutidos e aprovados, apreciam outros que lhe chegam de outras entidades, organizam sim‑ pósios, etc. Este órgão tem como principal função pronunciar‑se sobre questões de interesse, que lhe sejam submetidas pela DGS (Fig. 2). Fig. 2 – Composição do conselho científico Ministério da Saúde Ministério da Agricultura Ministério da Educação Ministério da Economia Plataforma contra a obesidade Representantes da Sociedade Civil Associação Nacional de Municípios Parcerias c/ Outros Stakeholders Missão, objectivos e metas A missão da PCO é concretizar os objectivos defi‑ nidos na Carta Europeia de Luta Contra a obesidade. Os objectivos que pretende atingir são: 1. Reduzir a incidência da pré‑obesidade; 2. Reduzir a incidência da obesidade; 3. Diminuir a prevalência da pré‑obesidade e da obesidade nas crianças, adolescentes e na população adulta; 24 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e 4. R eduzir o número de recidivas dos obesos submetidos a tratamento. Traçaram‑se como metas: – Conseguir progressos visíveis na redução da obesidade nas crianças e adolescentes nos próximos 4‑5 anos; – Contribuir para o controlo do crescimento da epidemia da obesidade até 2009; – Quantificar a incidência, a prevalência e o número de recidivas de pré‑obesidade e obe‑ sidade em crianças, adolescentes e adultos. Estratégias de intervenção aos três níveis de prevenção Medidas de política e regulamentação –D ivulgar a Carta Europeia de Combate à Obe‑ sidade e editar a Carta Portuguesa; – Rever as recomendações alimentares e nutricio‑ nais para a população portuguesa; – Controlar através de proposta de Lei o per‑ fil nutricional dos alimentos produzidos pela indústria; [A auto‑regulação não será solução]; – Regulamentar a disponibilidade de alimentos de alto teor calórico e de sal, nas escolas, serviços públicos e fomentar consumo de fruta e pão nas pausas; – Promover, através de Proposta de Lei, a refor‑ mulação da rotulagem de alimentos de forma a tornar legível a informação nutricional. Ex.: Alegações nutricionais light e de saúde; – Legislar o marketing e publicidade de alimentos dirigidos a crianças e adolescentes. – Operacionalizar o Centro de Observação Nacional para a Obesidade e Controlo do Peso (SPEO); – Realizar estudos epidemiológicos de âmbito nacional e regional (Incidência e prevalência e determinantes) (COSI); – Desenvolver normas de boas práticas destinadas à abordagem terapêutica da pré e da obesidade; – Rever a comparticipação de medicamentos e suplementos alimentares para o tratamento (classe II e III); – Definir conceito de recidiva e desenvolver recomendações para a prevenção. Medidas ao nível da prestação de cuidados –D otar os Centros de Saúde de recursos humanos com competências em matéria de promoção da alimentação saudável e actividade física (consultas multidisciplinares); – Criar um módulo de aconselhamento por tele‑ fone (SNS); – Definir um protocolo de referência entre Cui‑ dados de Saúde Primários e Cuidados de Saúde Diferenciados; – Rever o GDH288. Medidas Intersectoriais –E laborar código de boas práticas em conjunto com o sector alimentar; – Definir e promover o “Concurso Menu Equi‑ líbrio” e “Selo de Qualidade” na restauração com a colaboração dos municípios; [O Menu Equilíbrio será composto por sopa, prato prin‑ cipal, pão, sobremesa, preferencialmente fruta e bebida – água ou vinho tinto. Pretende‑se que o teor do sal e gordura seja baixo. Deve ter no máximo 800 Kcal e um preço acessível. O selo de qualidade visa certificar a qualidade do menu]; – Desenvolver com a Associação de municípios orientações em matéria de urbanismo promoto‑ ras de Actividade Física; [Criar condições para a prática de actividade física pelos cidadãos]; – Criar gabinetes nos municípios que supervisio‑ nem a alimentação pré e escolar [SPARE – Sis‑ tema de Planeamento e Avaliação das Refeições Escolares. Este sistema dispõe de uma base de dados disponível para as escolas com ementas aconselhadas]; – Estabelecer Protocolo de colaboração com o Instituto de Desporto de Portugal para a ela‑ boração de Recomendações Nacionais para a actividade física ao longo da vida; – Promover e colaborar em projectos (MUNSI, Regime da Fruta Escolar, Associação 5 ao Dia – MARL, Saúde Contra a Obesidade – Pró‑Saúde Liga Portuguesa de Profilaxia do Porto, etc. [Projecto MUNSI – Projecto de base municipal desenvolvido pela Universidade Atlântica em parceria com os municípios de Viana do Castelo, Fundão, Oeiras, Seixal e Montijo; Associação 5 ao Dia (MARL) – organiza visitas dos alunos das escolas do 1.º ciclo da Região de Lisboa aos mercados abastecedores desta zona com o objectivo de que as crianças conheçam os produtos hortícolas e frutícolas e saibam a sua origem; Saúde contra a Obesidade – Pró ‑Saúde: Projecto da responsabilidade da Liga A Plataforma contra a Obesidade e o Plano Nacional de Saúde Portuguesa de Profilaxia do Porto, que consiste na implementação de um programa de EPS, junto de pais/educadores com filhos em idade escolar, no 1.º e 2.º ciclo, visando modificar comportamentos e estilos de vida relacionados com a alimentação e actividade física]. Medidas no âmbito da comunicação/informação –D esenvolver um Plano de comunicação (micro‑ site), difundir programas e spots por rádio e TV, revistas, programas de cozinha, produção de materiais informativos, etc. [Ex.: Roadshow das praias, programa “Vida Positiva” no Portugal no Coração na TV]; Medidas no âmbito da Educação – Integrar na Plataforma o PES das escolas, pro‑ movendo a Actividade Física e a alimentação saudável e formação sobre estilos de vida saudáveis etc. Ex.: Apetece‑me – Nestlé. [Pro‑ grama Educativo “Apetece‑me”: uma iniciativa da Nestlé Portugal com o apoio da Direcção‑Geral da Inovação e do desenvolvimento curricular (DGIDC) do Ministério da Educação, que faz chegar às escolas informação sobre os temas alimentação, nutrição, saúde e bem‑estar]. Medidas no âmbito da Formação –P romover a abordagem da obesidade na forma‑ ção Pós‑graduada nos internatos de Medicina Geral e Familiar; [Realiza‑se todos os anos, um fórum de projectos no âmbito desta temática, na Faculdade de Medicina de Lisboa, no âmbito do curso de mestrado]; – Integrar um módulo sobre Obesidade nos cur‑ ricula das Faculdades de Medicina e Escolas de Saúde/Enfermagem; [Nesses módulos, foi feita a indicação dos conteúdos essenciais a integrar nos curricula dos cursos]; – Desenvolver, a nível regional, cursos de for‑ mação em alimentação saudável e Actividade Física dirigidos aos diversos técnicos; [Já foram afectadas 14 formações a profissionais de saúde em diversas regiões de Portugal continental e Regiões Autónomas]. 25 Medidas no âmbito da Investigação – Incentivar a criação de linhas de investigação relacionadas com a prevenção e tratamento da pré e da obesidade (8). Nota final A PCO não é a solução para todos os problemas neste âmbito, nem constitui uma panaceia milagrosa. É necessário continuar a trabalhar com empenho, implementando e aumentando a eficácia de todas as medidas. As metas são arrojadas e o desafio é enorme. Todos somos necessários neste combate: os vários sectores da economia, instituições públicas e privadas e os técnicos. A sua colaboração será preciosa. Participe! Bibliografia 1. WHO (2007). Prevalence of excess body weight and obesity in children and adolescents. Copenhagen: WHO. Disponível: www.euro.who.int/ Document/EHI/ENHIS_Factsheet_2‑3.pdf 2. Direcção‑Geral da Saúde. Divisão de doenças genéticas, crónicas e geri‑ átricas (2005). Programa Nacional de Combate à Obesidade. Lisboa: DGS. 3. Sousa, J; Loureiro, I & Carmo, I. (2008). Obesidade infantil: Um problema emergente. Saúde e Tecnologia, 2, 5 – 15. 4. Carvalhal, I., Silva, A. & Neto, J. (2007). Clarificação do conceito de obesidade e sobrecarga e definição das consequências. In: A. Silva, J. Neto, J. Raposo & Maria Carvalhal – Obesidade infantil. Belo Horizonte: Artes Gráficas. 5. Dâmaso, A. (2003). Obesidade. Rio de Janeiro: MEDSI. 6. Brites, D., Cruz, R., Lopes, S., & Martins, J. (2007). Obesidade nos adoles‑ centes: estudo da prevalência da obesidade e de factores associados em estudantes do ensino secundário de duas escolas de Coimbra. Referência, II Série, 5, 49‑57. 7. Ministério da Saúde (2004c). Plano Nacional de Saúde 2004‑2010. Volume I – Prioridades; Volume II – Orientações Estratégicas. Lisboa: MS. 8. http://www.plataformacontraaobesidade.dgs.pt Obesidade Infantil: uma epidemia à escala mundial Childhood obesity: a global epidemic Inês Tomada* Docente convidada de Nutrição Pediátrica na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa. Laboratório de Biologia Celular e Molecular. Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Resumo A prevalência mundial da obesidade, bem como a sua severidade, tem aumentado nos últimos anos, atingindo actualmente proporções epidémicas. A obesidade, definida como o excesso de gordura corporal, tem etiologia multifactorial. Admite‑se que é resultante da interacção complexa entre factores genéticos, ambientais e de estilo de vida, nomeadamente do elevado aporte energético e dos reduzidos níveis de exercício físico. O excesso de peso e a obesidade têm um impacto negativo significativo na saúde física e psicológica das crianças e adolescentes, os quais se não forem atempada e convenientemente tratados, apresentam grande probabilidade de manter a obesidade na idade adulta. Por estes motivos, devem ser promovidos e incentivados programas de prevenção e/ou tratamento da obesidade. Reconhece‑se que uma das melhores estratégias para a redução da obesidade em idade pediátrica é a adopção duma alimentação saudável e a prática regular de exercício físico pela criança/adolescente, e extensiva a toda a família. Abstract The worldwide prevalence and severity of obesity have increased in recent years, reaching epidemic proportions. Obesity, defined as an excess of body fat, is a disorder of multiple causes. It is believed that is a result of complex interaction between genes, environment and lifestyle, namely the high energy intake and the low physical activity levels. Overweight and obesity in childhood and adolescence, have a significant impact on both physical and psychological health, and if not treated increase the risk of obesity in adulthood. For these reasons, strategies of prevention and/or treatment of obesity should be encouraged. It is well known, that one of the best approaches to reduce childhood obesity is to improve the diet and exercise habits of child/adolescent and of the entire family. Keywords: childhood obesity; body mass index; pediatric nutrition; physical exercise Palavras‑chave: obesidade infantil; índice de massa corporal; nutrição pediátrica; exercício físico Introdução A obesidade, definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma doença crónica, é hoje considerada a doença nutricional mais prevalente em todo o mundo e a epidemia do século XXI. Mais do que um problema de estética, a obesidade é um dramático problema de saúde pública, uma síndroma complexa, multifactorial, conducente a alterações físicas e psico‑sociais graves, com a sua génese na idade pediátrica. Actualmente considerada a doença pediátrica mais prevalente, a obesidade na infância e ado‑ lescência apresenta um aumento transversal a nível mundial. Inquestionavelmente, este flagelo social degrada a qualidade de vida de crianças/adolescentes e das suas famílias, e encurta‑lhes a expectativa de vida pela panóplia de complicações que lhe estão associadas. Para além disso, a sobrecarga ponderal na infância não só tem repercussões a curto e médio prazo na saúde física e mental, como também pre‑ dispõe à obesidade na idade adulta. * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 27-32 28 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A obesidade define‑se como o excesso de gordura corporal total. A avaliação da adiposidade não é um método fácil, mas dada a forte correlação entre a quantidade de gordura total e o Índice de Massa Corporal (IMC = peso [kg] / estatura2 [m]), levou a OMS recomendá‑lo como método simples para o rastreio da obesidade, não só aplicável à população adulta, mas também à pediátrica. De realçar, que na idade pediátrica devido às características dinâmicas do processo de crescimento e à variação fisiológica da composição corporal, a interpretação dos valores de IMC obriga à utilização de tabelas de referência que, tal como as curvas de crescimento, são espe‑ cíficas para o sexo e idade. As estratégias de prevenção, bem como a detecção e os programas de intervenção precoces, constituem actualmente ferramentas imprescindíveis para a opti‑ mização da qualidade de vida em geral, e da saúde em particular, das gerações futuras. Epidemiologia Na população pediátrica, esta epidemia está fora de controlo e longe de ser debelada, atingindo progressivamente taxas de prevalência muito supe‑ riores às das estimativas mais pessimistas alguma vez anunciadas. De acordo com o Relatório da International Obesity TaskForce (IOTF) – Childhood Obesity Group para a OMS, 155 milhões da população mundial com idades compreendidas entre os 5‑17 anos tem excesso de peso (1 em cada 10) e, de entre estas, 30‑45 milhões são obesas (2‑3%). Também na Europa a obesidade infantil tem vindo a aumentar, registando‑se uma maior prevalência de excesso de peso nos países do ocidente e sul (20‑35%), comparativamente às taxas verificadas no norte do velho continente (10‑20%). Genericamente, na União Europeia, 1 em cada 5 crianças e adolescentes é obesa, e por ano, mais de 400 mil crianças se juntam aos 14 milhões com excesso de peso, dos quais 3 milhões são francamente obesos. Em Portugal, na última década regista‑se um aumento gradual de sobrepeso/obesidade. Apesar de não existirem estudos que reflictam concretamente a prevalência de obesidade infantil no nosso país, alguns trabalhos apontam para taxas de prevalência de excesso de peso e obesidade em crianças (7‑10 anos) de 20,3% e 11,3%, e em adolescentes (11‑15 anos) de 12,9% e 3,6%. Mais grave ainda, são os valores revelados em 2005 pela IOTF: Portugal é o 6.º país da União Europeia cuja prevalência de excesso de peso e obesidade ultrapassa os 30%. Importante será destacar‑se não só a magnitude, mas também a forte estabilidade da obesidade na idade adulta. De uma forma simplista, 1/3 das crianças obesas com menos de 6 anos, metade das obesas entre os 6 e os 11 anos, e cerca de 80% dos adolescentes obesos, tornar‑se‑ão adultos obesos! O que permite concluir que a ocorrência de obe‑ sidade em idade pediátrica apresenta‑se como um factor preditivo da sua persistência na idade adulta. A probabilidade de manter o excesso de peso no futuro será tanto mais grave quanto mais precoce for a manifestação da doença. Não obstante, também a existência de obesidade parental tem influência no risco de obesidade da criança/adolescente. Reconhece‑se que o risco de obesidade no futuro é de cerca de 9% quando nenhum dos progenitores tem excesso de peso, aumentando para 50% quando pelo menos um dos progenitores apresenta excesso de peso ou obesidade. Mais grave ainda, quando ambos os progenitores são obesos, o risco de obesidade da criança eleva‑se para 80%! Tal poderá ter várias explicações, mas uma das mais plausíveis prende‑se com o facto do peso das crianças estar na dependência directa dos hábitos alimentares e estilo de vida dos pais, que serão transmitidos e vivenciados pelas crianças. Etiopatogenia Do ponto de vista fisiopatológico, a obesidade é um distúrbio metabólico e morfológico com etiologia multifactorial. A OMS define‑a como uma doença crónica em que o excesso de tecido adiposo corporal pode atingir diferentes níveis de severidade com repercussões crescentes para a saúde. A excessiva acumulação de tecido adiposo, com consequente aumento do peso corporal, está na dependência de sucessivos balanços energéticos positivos (sempre que a quantidade de energia ingerida é superior à dispendida) decorrentes quer do acesso fácil a alimentos de elevada densidade energética e nutri‑ cionalmente desequilibrados, como dos elevados índices de sedentarismo. A susceptibilidade indivi‑ dual, aliada às influências sociais e ambientais no padrão alimentar e de actividade física influenciam o balanço energético, determinando deste modo a maior ou menor acumulação de gordura corporal (Figura 1). A etiologia da obesidade em idade pediátrica é na grande maioria dos casos de causa primária ou nutricional (95‑97% dos casos). As síndromes genéticas e as doenças endócrinas são responsáveis Obesidade Infantil: uma epidemia à escala mundial Figura 1 – Representação esquemática das influências intrínsecas (susceptibilidade individual/biológica) e extrínsecas (influências sociais e ambientais no padrão alimentar e de actividade física) no balanço energético. apenas por 1% da obesidade infantil. No entanto, reconhece‑se que 5‑25% das causas de obesidade têm origem genética, o que manifestamente indica que a hereditariedade tem um papel importante no desenvolvimento da obesidade humana. Considera‑se que a obesidade tem uma base poligénica, estando já identificados mais de 400 genes que, directa ou indirectamente, contribuem para a expressão fenotípica da doença. Todavia, realça‑se que é o estilo de vida, designadamente o comportamento alimentar e o padrão de exercício físico, que exerce a maior influência na magnitude da manifestação clínica da obesidade. Nos últimos anos, diversos estudos demonstram a importância dos factores ambientais, designadamente os nutricionais, deste a vida intra‑uterina. A experi‑ ência fetal irá determinar a ocorrência de diversos mecanismos adaptativos, os quais condicionarão o desenvolvimento de obesidade e de patologia cardio‑ vascular na idade adulta. Para além disso, também a alimentação neonatal e nos primeiros anos de vida tem um papel modulador no risco de obesidade no futuro. Neste contexto, é dado particular destaque para a duração do aleitamento materno (quanto maior for a sua duração, sobretudo em regime de exclusividade, menor o risco de excesso de peso/obesidade em crianças e adolescentes), assim como para a adopção de hábitos alimentares saudáveis e de um estilo de vida fisicamente activo desde tenra idade. Em suma, um conjunto desfavorável de factores nutricionais e de actividade física condicionam a ocorrência de um ambiente obesogénico, cla‑ ramente favorecedor da expressão fenotípica da predisposição individual. 29 Diagnóstico O aumento da adiposidade, traduzido grosseira‑ mente pelo aumento do peso corporal, é fundamental para o diagnóstico de obesidade em qualquer faixa etária. Igualmente importante é determinar a origem do excesso de peso/obesidade, isto é, a distinção entre uma situação de obesidade primária ou nutri‑ cional, de obesidade secundária (mais rara). Para o efeito, é imperativa a realização de uma anamnese detalhada, um exame físico cuidado (incluindo avalia‑ ção do estado nutricional/ avaliação antropométrica), e eventual recurso a exames laboratoriais. Num contexto de excesso de peso/obesidade, a anamnese para além de dever incluir a antropometria ao nascer e a evolução estaturo‑ponderal da criança/ /adolescente, deverá obrigatoriamente ser orientada de forma a conhecer: (1) a história nutricional, nomeadamente duração do aleitamento materno, idade de diversificação alimentar, inquérito alimentar (com objectivo de quantificar a ingestão energética e nutricional, bem como de conhecer as preferências alimentares); (2) a história da obesidade, isto é, a idade de início do aumento ponderal, relação com factores desencadeantes, percepção do próprio e da família, e as tentativas de tratamento; (3) o estilo de vida da criança/adolescente/família (visa conhecer o índice de sedentarismo/nível de actividade física). A avaliação antropométrica deverá incluir a medi‑ ção do peso e da estatura, com subsequente cálculo do IMC, e a medição dos perímetros da cinta e/ou da anca. Idealmente, deverá também incluir a avaliação da composição corporal por impedância bioeléctrica. Figura 2 – Curvas de crescimento relatias ao Índice de Massa Corporal (IMC) para a idade (dos 2 aos 20 anos) para reparigas e rapazes. Destacam-se os pontos-de-corte relativos a excesso de peso/risco de obesidade (IMC Percentil ≥85) e obesidade (IMC Percentil ≥95). Fonte: Center for Disease Control, 2000 (Developed by the National Center for Health Statistics in collaboration with Natinal Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion) 30 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A avaliação da gordura corporal não é um método fácil, mas dada a forte correlação entre a magni‑ tude da adiposidade e IMC, este é rotineiramente usado como método de rastreio. Aliás, respeitando as recomendações da OMS, desde 2005 que os Boletins de Saúde Infantil e Juvenil distribuídos em Portugal incluem a versão actualizada das curvas de crescimento publicadas em 2000 pelo Center for Disease and Control and Prevention (CDC) (Figura 2), permitindo assim a substituição da utilização do índice Peso/Estatura pela utilização do IMC, especí‑ fico para o sexo e idade. Considera‑se este parâmetro o mais adequado à correcta monitorização do estado nutricional da criança. A aplicação do IMC no diagnóstico de excesso de peso/obesidade em idade pediátrica reveste‑se de algumas particularidades. Enquanto no adulto, que já terminou o seu crescimento e desenvolvimento, o ponto‑de‑corte de IMC ≥ 25 kg/m2 é critério indicativo de excesso de peso, e quando IMC ≥ 30 kg/m2 de obesidade, nas crianças e adolescentes, devido às características dinâmicas do processo de crescimento e à variação fisiológica da composição corporal, a interpretação dos valores de IMC obriga à utilização de tabelas/curvas de referência (específicas para o sexo e idade) (Figura 3). É consensual considerar‑se excesso de peso/risco de obesidade para valores de Figura 3 – Curvas de Índice de Massa Corporal (IMC) para a idade, específicas para o sexo, propostas por Cole et al (2000). As setas pretendem destacar o aumento dramático do IMC no primeiro ano de vida, a sua deflexão até aos 4-6 anos, seguida de aumento a partir desta idade e durante a adolescência. Note-se também que aos 18 anos estão assinalados nesta representação gráfica os pontos-de-corte largamente aceites para a definição de excesso de peso e obesidade em adultos (IMC ≥25 e IMC ≥30 Kg/m2, respectivamente). Fonte: Cole et al. Establishing a standard definition for child overweight and obesity worldwide: international survey. BMJ 2000; 320:1-6. IMC superiores ou iguais ao percentil 85 e inferiores ao 95 (P85 ≥ IMC < P95), para o sexo e idade, e obesidade sempre que os valores de IMC sejam iguais ou superiores ao percentil 95 (IMC ≥ P95). Pela análise da curvas de IMC ilustradas na Figura 3, constata‑se que o IMC aumenta desde o nascimento até aos 6‑12 meses de idade, deflectindo até um valor mínimo na infância (cerca dos 4‑6 anos), para depois inflectir durante a adolescência e, finalmente, “estabilizar” na idade adulta. O ressalto do IMC reporta‑se assim ao período entre os 4‑6 anos de idade, e define‑se como Ressalto Adipocitário. Este, que é perfeitamente fisiológico, traduz o início do aumento da adiposidade corporal. Admite‑se que quanto mais precocemente este ocorrer, maior o risco de obesidade na idade adulta. Efectivamente, alguns autores consideram que a idade do ressalto adipocitário é um dos melhores indicadores de risco de obesidade na adolescência e na vida adulta. Por este motivo, este período deverá ser alvo da máxima atenção, não só num contexto de prevenção do excesso de peso, mas também de forma a delinear estratégias de intervenção em tempo útil. Destaca‑se também a importância da avaliação do perímetro da cinta ou a relação do perímetro da cinta/perímetro da anca. Estes apresentam forte correlação com a quantidade de gordura intra ‑abdominal (ou tecido adiposo visceral), a qual é preditiva do risco cardiovascular e de complicações cardiometabólicas, não só nos adultos mas também em crianças e adolescentes. Comorbilidades O aumento da adiposidade, não só se reflecte no peso, mas também na (não rara) ocorrência de outras doenças com manifestação clara ainda em idade pediátrica (Tabela 1). As crianças e adolescentes obesos têm uma franca redução na sua qualidade de vida. O excesso de peso/obesidade não só condiciona o desenvolvi‑ mento de alterações do metabolismo da glicose com progressão para diabetes tipo 2, mas também a hipertensão arterial, dislipidemia, puberdade pre‑ coce, e a patologia osteoarticular. Não poderão ser subvalorizados os inúmeros problemas psicológicos que advêm da sobrecarga ponderal, que vão desde a baixa auto‑estima e insatisfação com a imagem corporal, a graves dificuldades de relacionamento. Realça‑se que o sofrimento destas crianças/adoles‑ centes é potencialmente agravado na medida em Obesidade Infantil: uma epidemia à escala mundial Tabela 1 Algumas comorbilidades associadas à obesidade em Idade Pediátrica Aterosclerose/ Dislipidemia Cardiovasculares Hipertensão arterial sistémica Hiperinsulinsmo/ Resistência à insulina/ Diabetes 2 Puberdade precoce Endócrinas Hipogonadismo/ Síndroma do Ovário Poli‑ quístico Necrose do colo do fémur Doença de Blount Músculo‑esqueléticas Joelho valgo Pé plano Esteatohepatite não alcoólica Colelitíase Gastrintestinais Obstipação Acantose nigricans Dermatológicas Estrias/Vasculite Respiratórias Síndroma de apneia obstrutiva do sono Psico‑sociais Baixa auto‑estima Perturbação da imagem corporal Distúrbios do comportamento alimentar Depressão que, com frequência, são alvo de discriminação pelos pares. Estas comorbilidades estão francamente associadas ao risco de doença na idade adulta. Infelizmente, estas crianças/adolescentes mantêm grande sus‑ ceptibilidade de na adultícia apresentarem doença cardiovascular, já que a agregação de factores de risco cardiovascular que tem início na idade pediátrica, mesmo na resolução ao longo da vida da situação de obesidade, nunca serão totalmente reversíveis. Tratamento O sucesso do tratamento da obesidade está depen‑ dente da precocidade do diagnóstico, mas também duma intervenção eficaz numa “situação de risco de obesidade”. Indubitavelmente, a adopção de um estilo de vida saudável é a melhor medida para prevenir e/ou tratar a obesidade. Assim, fundamentalmente o tratamento da obesidade em idade pediátrica deve ter por base o aconselhamento alimentar/nutricional e o aumento da actividade física diária e organizada. De salientar que a abordagem deverá ter sempre um carácter multidisciplinar, sendo imprescindível o envolvimento da família e de todos os prestadores de cuidados às crianças/ /adolescentes na mudança de hábitos alimentares e comportamentos. 31 A mudança do comportamento alimentar invariavelmente incluirá uma restrição energé‑ tica moderada, a qual, em oposição aos regimes altamente restritivos (de que são exemplo as dietas de muito baixo valor energético e as hiperproteicas), são eficazes e, quando bem orientadas por um profissional de saúde habilitado, não apresentam riscos para a saúde da criança/adolescente. Após a anamnese detalhada, numa situação de excesso de peso/obesidade a intervenção deverá ser feita por etapas: (1) conhecimento de intervenções anteriores, desmistificação de conceitos e expectativas de dieta, e estimular o conhecimento sobre alimen‑ tação saudável; (2) avaliação, consciencialização e correcção do comportamento alimentar, designa‑ damente número, horário e local das refeições; (3) educação alimentar, iniciar o processo de correc‑ ção da ingestão alimentar, inicialmente do ponto de vista quantitativo e posteriormente qualitativo, incentivando o consumo de alimentos de elevada importância nutricional; por último, (4) optimização e manutenção das atitudes, transmitindo que todas as mudanças devem ser mantidas ao longo da vida, no entanto que não se pretende que tenham um carácter rígido nem obsessivo, mas sim flexível e adaptável às diversas situações (férias, festas,…). Um aspecto importante a assinalar, é o facto de, apesar da base de trabalho ser semelhante, a abor‑ dagem deverá ser sempre adaptada à idade. De uma forma sucinta: (1) idade pré‑escolar (2‑5 anos): caracterizada por uma fase de desaceleração do crescimento físico, onde se registam diminuição das necessidades energéticas e oscilação fisiológica do apetite. Nesta faixa etária, a abordagem de interven‑ ção deverá ser dirigida aos pais, responsabilizando‑os pela cultura alimentar da criança, que engloba a definição de regras e a promoção de um estilo de vida salutar. Também nesta fase, o papel dos avós e cuidadores ganham grande importância. (2) idade escolar (6‑10 anos): a entrada na escola é uma fase de grandes mudanças em que a criança estará mais susceptível a influências externas, pelo que será determinante adaptar algumas regras, mas acima de tudo consolidar hábitos alimentares. Este é o período ideal da criança começar a tomar consciência da necessidade de fazer escolhas alimentares saudáveis, podendo ser incentivada a contribuir em algumas actividades que envolvam a preparação de alimentos. (3) adolescência (11‑18 anos): período dinâmico de crescimento físico e psicológico, onde a busca de identidade e autonomia estende‑se com frequência à rebeldia no padrão alimentar. Reveste‑se de máxima 32 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e importância consciencializar e responsabilizar os adolescentes das repercussões das suas atitudes alimentares na saúde a curto e médio prazos. Nas duas últimas fases, dever‑se‑á dirigir o discurso directamente à criança/adolescente, evitando criticar ou julgar os seus comportamentos, mas antes, e de forma a aumentar a sua auto‑estima, negociar objectivos, elogiar os progressos (ainda que discre‑ tos) e recompensar (mas nunca com alimentos) a mudança de conduta. Naturalmente que, a uma alimentação equilibrada deve associar‑se a prática regular de exercício físico na escola e nos tempos livres em detrimento da televisão e dos jogos electrónicos. O exercício físico não só aumenta o gasto energético, tendo portanto uma acção directa na composição corporal (reduz as reservas de tecido adiposo total e intra ‑abdominal, e aumenta a massa muscular), como também tem uma acção não desvalorizável no bem ‑estar geral. Sem dúvida que crianças/adolescentes activos têm maior possibilidade de se tornarem adultos saudáveis. Reforça‑se ainda que o sucesso da adesão e permanência em programas de exercício físico é tanto maior quando estas actividades são organizadas, e quando existe um envolvimento activo dos pais. O tratamento farmacológico da obesidade em idade pediátrica poderá ser ponderado em situações de falência da terapia comportamental – cuidados alimentares e exercício físico –, mas apenas em casos seleccionados e sob estrita vigilância médica. Actualmente, são dois os fármacos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA): o orlistat e a metformina. O orlistat, indicado em adolescentes obesos e com mais de 12 anos, tem acção na inibi‑ ção das lípases gástrica e pancreática, reduzindo a hidrólise dos triglicerídeos da dieta e aumentando a sua perda fecal. Apesar do seu uso se associar a perda ponderal, ele é frequentemente mal tolerado e conduz a défices de vitaminas lipossolúveis, mesmo em situações de suplementação vitamínica. Por outro lado, a metformina está apenas indicada em crianças com mais de 7 anos de idade e que apresentem alterações do metabolismo da glicose/insulina. Este fármaco tem efeitos na redução do peso corporal através da redução do apetite e da reserva adiposa. Por último, em adolescentes com obesidade severa com complicações associadas e perante total, e com‑ provado, insucesso de todas as terapias anteriormente enunciadas, poder‑se‑á considerar o tratamento cirúrgico, nomeadamente a colocação de balão intra‑gástrico (menos invasivo e reversível) ou a colocação de banda gástrica. De referir o limitado número de estudos prospectivos disponíveis nesta área. Considerações finais A obesidade em idade pediátrica apresenta uma prevalência crescente, e dadas as suas consequên‑ cias no futuro, é imperativo consciencializar para a necessidade duma intervenção preventiva urgente e eficaz. Para o efeito, destacam‑se algumas condutas (relativamente simples) que podem contribuir em muito para travar a progressão desta epidemia, designadamente: identificar as crianças/adolescentes através do reconhecimento de factores de risco para a obesidade, interpretar e relacionar as alterações do IMC com o crescimento linear, encorajar, dar suporte e proteger o aleitamento materno, motivar a família a adoptar um padrão alimentar saudável e um estilo de vida fisicamente activo. Referências Bibliográficas 1. Biro FM, Wien M. Childhood obesity and adult morbidities. AM J Clin Nutr 2010;91(suppl):1499S‑1505S. 2. Cole TJ, Billizzi MC, Flegal KM, et al. Establishing a standard definition for child overweight and obesity worldwide: international survey. BMJ 2000;320:1‑6. 3. Dehghan M, Akhtar‑Danesh N, Merchant AT. Childhood obesity, prevalence and Prevention. Nutr J 2005;4:24‑31. 4. Galvez MP, Pearl M, Yen IH. Childhood obesity and the built environment. 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Marcadores clínicos e bioquímicos associados a comorbilidade. Dissertação de candidatura ao grau de Doutor apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Porto, 2008. 12. Rêgo C. Obesidade na criança e no adolescente. In: Nutrição pediátrica. Princípios básicos. Silva AC, Gomes‑Pedro J, eds. Clínica Universitária de Pediatria. Hospital de Santa Maria. Lisboa, 2005. 13. Rêgo C, Peças A. Crescer para cima. Obras em Curso. Porto, 2007. 14. Wabitsch M. Overweight and obesity. In: Pediatric nutrition in practice. Koletzko B, ed. Nestle Nutrition Institute, Karger. Munich, 2008. Factores sociais na obesidade Social factors in obesity Isabel Azevedo* Professora Catedrática Aposentada, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Resumo A prevalência crescente da obesidade sugere que há outros factores a considerar para além do binómio nutrição/exercício físico. Entre aqueles, os factores sociais parecem ter um papel da maior relevância. A aceleração do tempo subjectivo, desalinhamento circadiano, diminuição do tempo de sono, indisciplina alimentar, perda do valor afectivo‑social dos alimentos e perda do controlo social das refeições comunitárias/familiares podem estar todos a contribuir para a crescente obesidade. Outro factor de grande peso é o stresse crónico da sociedade actual. A avalanche informacional, a competição, e os esforços das pessoas para se manterem na corrente solicitam reacções de stresse, o que favorece o desenvolvimento da obesidade. Uma das respostas mais desfavoráveis é a derrota/perda do controlo, muito facilitada pelo contraste entre a atitude passiva e expectativas altas criadas na população pelo sistema de política /marketing, e as más notícias divulgadas continuamente, ou as dificuldades reais das pessoas. Só uma abordagem filosófica geral poderá fazer retroceder a presente epidemia de obesidade. Palavras‑chave: Organização social, Cultura, Família, Valor afectivo dos alimentos, Cronobiologia, Tempo subjectivo, Cidades, Stresse, Atitude activa/passiva A dimensão que a prevalência da obesidade adquiriu, não obstante os esforços para tentar prevenir e tratar este problema de saúde, indica que as causas e mecanismos envolvidos ultrapassam largamente os factores aos quais se tem dado quase exclusiva atenção, a ingestão calórica excessiva e a falta de exercício físico. Sendo estes, sem dúvida, factores importantes, a não ignorar, há que alargar o campo de pesquisa, quer a possíveis causas da dificuldade em reduzir a ingestão alimentar e aumentar a actividade física, quer a outros mecanismos que possivelmente interferem com a atitude mental, motivação para a acção, disciplina alimentar, produção hormonal, e metabolismo. Abstract The huge prevalence of obesity suggests that factors beyond the binomium nutrition/physical activity must be considered. Among those, social factors seem of utmost importance. The acceleration of subjective time, circadian misalignment, lack of sleep, loss of meal discipline, loss of the moral‑social meaning of food, loss of the social control of meal behavior in community/ family meals, and interactions among these changes may all be giving significant contributes to the obesity trend. On the other hand, chronic stress, favored by informational load, competition and efforts to keep pace, but also caused by a loss of control perception, evokes neuro‑humoral responses that will facilitate obesity development. People passive attitude/ high expectations resulting from political/marketing strategies, and the repeatedly announced bad news of real life, not to speak of personal difficulties, lead to that defeat/loss of control reaction that is really bad to health and calls obesity in. Less of a full philosophical approach seems insufficient to deal with this obesity epidemic. Keywords: Social organization, Culture, Family, Affection value of food, Cronobiology, Subjective time, Stress, People passive attitude Um grupo multinacional de investigadores (McAllis‑ ter et al., 2009) tem trabalhado uma proposta deste tipo, olhando para “caminhos menos explorados” (less traveled roads) e divulgando evidência para o envolvimento de diferentes factores, como microor‑ ganismos, quer patogénicos quer os simbiontes do microbiota intestinal, factores epigenéticos, aumento da idade em que as mulheres têm os filhos, exposição a alteradores endócrinos, consumo de medicamentos que fazem aumentar o peso, homogeneização da temperatura ambiente, efeitos intrauterinos e inter‑ generacionais, redução do tempo de sono, entre outros, na epidemia da obesidade. * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 33-36 34 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Vários dos factores/mecanismos acima referidos estão na dependência de factores sociais, e, para além daqueles, outros devem igualmente ser discutidos. É esse o objectivo desta breve exposição. É um dado geral dos estudos epidemiológicos da obesidade a associação desta com o nível socioe‑ conómico e/ou educacional das pessoas, sendo a prevalência da obesidade mais alta entre os mais pobres/menos escolarizados (Drewnowski et al. 2007). É por demais evidente que os mecanismos homeostáticos, bioquímicos, da regulação metabó‑ lica se tornaram insuficientes para a regulação do peso e do metabolismo, ultrapassados por factores ambientais que respondem ao hedonismo (Zheng e Berthoud, 2007), ansiedade, stresse (ver McEwen, 2001, e Bengt e Arnetz, 2006), consumismo passivo da sociedade moderna. Nestas circunstâncias tornou ‑se de enorme importância o recurso a mecanismos homeostáticos doutro nível, como é a aprendizagem, o que, estando num nível superior ao dos mecanismos moleculares, simplificadores, da abordagem científica prevalecente, é deixado de lado (Booth, 2008). Por outro lado, as intervenções no sentido de ensinar as pessoas a alimentarem‑se têm sofrido do mesmo tipo de limitações: em relação a um comportamento tão complexo como é a alimentação humana, a sua redução à nutrição, agravada pelo insuficiente conhecimento que ainda se tem sobre este aspecto da alimentação, tem levado, seguramente, a muitos erros. Esta é, sem qualquer dúvida, uma vasta, interessante e fundamental área a trabalhar para uma intervenção eficaz no desequilíbrio alimentar envolvido na obesidade. Provavelmente, a ingestão alimentar por iniciativa individual, fora do contexto de refeições organizadas, familiares, como era o uso não há muito tempo, torna o processo muito mais anárquico e descontrolado. Perdem‑se oportunidades civilizacionais (Elias, 2006), de aprendizagem, tão importante para se saber comer (Capaldi, 1996), perde‑se uma gestão central das refeições que permitia, naturalmente, opções mais racionais e menos dependentes da opção momentânea de cada um, e perde‑se ainda o con‑ trolo pela própria comunidade à mesa (numa mesa comunitária o que cada um come é condicionado pelo que há e pelas necessidades dos demais; não se começa a comer antes dos outros, nem se deve acabar muito depois; come‑se mais devagar porque se está a conversar, etc.). A questão alimentar condiciona outros aspectos da fisiologia que também têm importante papel na regulação metabólica e equilíbrio energético. Por exemplo as orexinas, hormonas do apetite, aumentam a actividade física, o que sugere que o estado alimentado em que as pessoas andam agora quase todo o tempo lhes diminuirá a iniciativa e grau de actividade. Foi, também, publicado um estudo, interessante, que indica ser a obesidade que leva à inactividade e não o contrário, numa relação inversa daquela mais geralmente aceite, apesar de prova insuficiente, de que é a menor actividade física que está a levar ao aumento da incidência de obesidade. A organização alimentar centralizada numa pessoa dedicada a essa tarefa, tradicionalmente, entre nós, a mãe, atribuía aos alimentos um significado afectivo, moral‑social, que se perdeu com o carácter impessoal que os alimentos passaram, frequentemente, a ter (ver Pollan, 2006). A aceleração do tempo subjectivo, criada pelo fluxo interminavelmente crescente de informação, pela pressão das múltiplas exigências, incluindo auto‑exigências, do tempo da tecnologia, e pelo ambiente das cidades (Bettencourt et al., 2007), onde se vive maioritariamente neste momento, cria, provavelmente, alguma desadequação no tempo das refeições. Quando se come mais depressa reduz‑se a possibilidade dos mecanismos homeostáticos da saciedade serem desencadeados a tempo de terem efeito sobre a ingestão, isto é, quando as hormonas da saciedade atingem os níveis denotadores de ingestão suficiente já se comeu demais. Mas as interacções da biologia com o tempo e o seu efeito na obesidade não se reduzem à veloci‑ dade excessiva dos comportamentos. As horas que organizam a vida na sociedade contemporânea levam com grande frequência ao desalinhamento entre o comportamento e os relógios endógenos: dorme‑se menos tempo, por vezes com ciclos actividade/sono invertidos em relação à alternância dia/noite, as horas das refeições deixaram frequentemente de estar previstas, e eliminaram‑se, muitas vezes, os períodos de jejum. Bastantes estudos mostram uma associação positiva entre a diminuição do tempo de sono e a obesidade (Patel e Hu, 2008). Por outro lado, está bem demonstrado que uma percentagem enorme de genes tem uma expressão em ritmo circadiano, sendo os ciclos dessa expressão dependentes dos tecidos, células e funções. Aparentemente as funções orgânicas não podem realizar‑se todas ao mesmo tempo, tendo os seres vivos desenvolvido relógios endógenos que coordenam o desenrolar atempado da fisiologia. Nos mamíferos há um relógio central, no núcleo supraquiasmático do hipotâlamo, que res‑ ponde ao ciclo luz/escuridão, e relógios periféricos, Factores sociais na obesidade no fígado, intestino, tecido adiposo e provavelmente em todos os tecidos, que são acertados pelo reló‑ gio central mas também pelas refeições. O relógio circadiano regula o metabolismo e a homeostasia energética, controlando a expressão e actividade de enzimas e transportadores, e mostrando interligação com mecanismos lipogénicos e adipogénicos. Por sua vez, enzimas‑chave do metabolismo e activadores da transcrição afectam o mecanismo bioquímico do relógio. Efectivamente, demonstrou‑se que dietas gordas perturbam o funcionamento dos relógios endógenos, e os dados de estudos clínicos em trabalhadores por turnos e em obesos reforçam a ligação entre o relógio circadiano e o metabolismo (Froy, 2010). Tendo em conta o que se sabe hoje de crono‑ biologia, é fácil compreender como as condições de vida na sociedade actual podem estar a afectar o metabolismo e a saúde. A luz artificial fez com que o trabalho e outras actividades deixassem de estar confinadas ao dia, havendo uma percenta‑ gem enorme de pessoas que prolongam o dia pela noite dentro, quando não invertem completamente o ciclo sono/actividade. Sobre a diminuição do tempo de sono já se falou acima. Por outro lado, a desorganização temporal das refeições tem, muito provavelmente, consequências no funcionamento dos relógios endógenos e, consequentemente, no meta‑ bolismo (Azevedo et al., 2009). A despadronização dos principais acertadores dos relógios endógenos, luz/escuridão e horas das refeições, tem um efeito de atenuação das oscilações circadianas, isto é, não é a mera ocorrência de fenómenos fisiológicos em tempos bioquimicamente desadequados, mas uma diminuição da amplitude das oscilações, o que tem consequências deletérias em muitos sistemas orgâni‑ cos, provavelmente em todos. Na realidade, uma boa amplitude das oscilações circadianas acompanha‑se de melhor saúde e menor mortalidade. Está bastante bem documentado o impacto de factores sociais na saúde (Marmot e Wilkinson, 2003). Esses factores, como já referido, são vários, e exercem os seus efeitos de diferentes modos. O último que discutiremos aqui é o stresse crónico que os diferentes stressores da vida actual desencadeiam nas pessoas, de modo diferenciado conforme as características genéticas, culturais, educacionais e filosóficas das mesmas pessoas, e também com a sua localização no ranking económico‑social ou, melhor dizendo, como as pessoas se vêem nesse ranking. Independentemente do tipo de factor que desencadeia a resposta de stresse, ou, na designação 35 de McEwen (2001), alostática, a resposta utiliza os mesmos mecanismos, antiquíssimos na filogénese, de preparação para a luta ou fuga. São activa‑ dos dois importantes sistemas neuro‑humorais, o eixo hipotâlamo‑hipófise‑suprarrenal, que tem no cortisol o seu principal efector, e o eixo simpato ‑adrenomedular, com a secreção de catecolaminas, entre outros. Não obstante o valor crucial destes sistemas na sobrevivência dos seres vivos ao longo da evolução, eles deixaram de ser adaptativos quando solicitados, duma forma crónica, pelas tensões da vida actual, resultando desregulação, alostase e doença da sua activação continuada. Como referido por Azevedo et al. (2009), os efeitos da organização social no stresse e na saúde, exaustivamente des‑ critos em Marmot e Wilkinson (2003), devem ser cuidadosamente analisados e tidos em conta para se perceber a obesidade e a síndrome metabólica. Os efeitos metabólicos do cortisol são bem conhecidos, e aliás facilmente revistos na análise da doença de Cushing. Para além desses efeitos directos, que incluem a obesidade central, os cor‑ ticosteróides aumentam a expressão da enzima que converte a cortisona em cortisol, a desidrogénase tipo 1 dos 11‑beta‑hidroxiesteróides, nos adipócitos omentais, mais ainda quando estão hipertrofiados (Azevedo et al., 2009). Cria‑se facilmente, através deste mecanismo, uma espiral viciosa entre stresse e obesidade. Quanto ao envolvimento do eixo simpato ‑adrenomedular, é bem conhecido o papel crucial das catecolaminas, noradrenalina e adrenalina, na regulação da homeostase metabólica, para além dos seus muitos outros efeitos, nomeadamente cardio‑ vasculares. Mas o sistema simpato‑adrenomedular produz outros mediadores, entre eles a substância P, uma taquicinina largamente expressa em muitos tecidos e órgãos, incluindo o sistema nervoso cen‑ tral, a medular suprarrenal e o sistema imunitário. A substância P parece ser um agente central na comunicação bidireccional cérebro‑sistema imuni‑ tário, sistema a partir do qual evoluiu mais tarde na filogénese a resposta de stresse, o que permite compreender como o stresse crónico psico‑social, de que estamos a falar, tem repercussões possíveis em tantos órgãos e pode originar tantas patologias (Maier e Watkins, 1998). No que respeita à obesi‑ dade, há, neste contexto, um interessante campo em desenvolvimento, o da proximidade funcional entre o tecido adiposo e o sistema imunitário, que poderá ir tão longe quanto a reclassificação dos adipócitos como células imunitárias. 36 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e As breves revisões aqui feitas darão uma ideia da complexidade das interacções e dos possíveis ciclos viciosos entre factores sociais e reactividade biológica, incluindo a imunidade e a obesidade. A origem do problema estará, portanto, frequente‑ mente, na interacção indivíduo‑sociedade, parecendo obrigatória uma análise profunda e extensa dos factores sociais que estão a provocar stresse cró‑ nico e doença, incluindo a obesidade. Para além do ritmo, avalanche informacional, competição, desencontros entre as exigências e a capacidade de resposta das pessoas, e outros stressores de identificação fácil, pensamos que o stresse criado pela derrota‑submissão/falta de controlo, de alta prevalência pelo confronto entre a atitude passiva e de altas expectativas criadas pelo ambiente político ‑comercial, com todo o seu poder de marketing, e as dificuldades da vida real, permanentemente comunicadas e repetidas na comunicação social, tem um papel particularmente relevante. O perfil neuro‑humoral próprio desta situação de derrota/ /perda do controlo tem repercussões metabólicas importantes, facilitadoras de obesidade numa situação de cronicidade. Em conclusão, é na sociedade, na sua organização, no espaço de autonomia devolvido às pessoas, e na construção de filosofias adequadas pelas próprias pessoas, no seu direito à autarcia, que se poderá vir a encontrar resolução para um problema da envergadura da obesidade no século XXI. Referências bibliográficas 1. Azevedo A, Santos AC, Ribeiro L, Azevedo I. The metabolic syndrome. In: Oxidative Stress, Inflammation and Angiogenesis in the Metabolic Syndrome. Soares R, Costa C, editors. Pp. 1‑19. 2009, New York, NY, USA: Springer Science. 2. Bengt B. Arnetz, Rolf Ekman (Eds). Stress in health and disease. 2006, WILEY‑VCH. 3. Bettencourt LM, Lobo J, Helbing D, et al. Growth, innovation, scaling, and the pace of life in cities. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007;104(17):7301‑7306. 4. Booth DA. Physiological regulation through learnt control of appetites by contingencies among signals from external and internal environments. Appetite. 2008;51(3):433‑441. 5. Capaldi E (Editor). WHY WE EAT WHAT WE EAT. The Psychology of Eating. 1996, American Psychological Association. 6. Drewnowski A, Rehm CD, Solet D. Disparities in obesity rates: analysis by ZIP code area. Soc Sci Med. 2007;65(12):2458‑2463. 7. Elias N. O Processo Civilizacional. 2006, Publicações Dom Quixote. 8. Froy O. Metabolism and circadian rhythms‑‑implications for obesity. Endocr Rev. 2010; 31(1):1‑24. 9. Maier SF, Watkins LR. Cytokines for Psychologists: Implications of Bidi‑ rectional Immune‑to‑Brain Communication for Understanding Behavior, Mood, and Cognition. Psychological Review 1998; 105: 83‑107. 10. Marmot M, Wilkinson RG (Eds). Social determinants of health. 2003, Oxford University Press. 11. McAllister EJ, Dhurandhar NV, Keith SW, et al. Ten putative contributors to the obesity epidemic. Crit Rev Food Sci Nutr. 2009; 49(10):868‑913. 12. McEwen B. The end of stress as we know it. 2001, Joseph Henry Press. 13. Patel SR, Hu FB. Short sleep duration and weight gain: a systematic review. Obesity (Silver Spring). 2008; 16(3):643‑653. 14. Pollan M. The Omnivore’s Dilemma. 2006, The Penguin Press. 15. Zheng H, Berthoud HR: Eating for pleasure or calories. Curr Opin Phar‑ macol. 2007; 7(6):607‑612. Introdução à Mesa-Redonda sobre Fisiopatologia da Obesidade Physiopathology of Obesity Ana Maria P. Gomes Professora Auxiliar, Escola Superior de Biotecnologia, Universidade Católica Portuguesa A obesidade alcançou proporção alarmante em muitos países do mundo. São múltiplos os factores que intervêm neste processo, desde a genética aos factores endócrinos, alimentares, ambientais e comportamentais, interagindo de forma a que o processo de co‑morbilidades se concretize. Para compreender a fisiopatologia da obesidade à luz dos últimos avanços na ciência, importa retomar o papel real do tecido adiposo, outrora referido apenas como local de reserva energética, protector contra choques e isolante térmico, e na actualidade entendido como órgão dinâmico, devido às inúmeras citocinas libertadas, evidenciando as suas funções inflamatória e endócrina. Neste contexto, a obesi‑ dade, em especial a obesidade visceral, tem vindo a ser caracterizada como um estado de inflamação sistémica de baixa intensidade. A participação activa do tecido adiposo na regula‑ ção geral da homeostasia faz‑se por meio de diversos factores que modulam a função fisiológica de outros órgãos e tecidos. As crescentes evidências de que a resistência à insulina na obesidade humana está relacionada com a presença de células inflamatórias no tecido adiposo, em particular a população de macrófagos, são um bom exemplo da forma como o tecido adiposo desenvolve as suas funções. O conhecimento de que a inflamação responde de forma directamente proporcional ao aumento da adiposidade, evidencia o facto de que uma maior infiltração de macrófagos em proporção ao aumento do tamanho dos adipócitos, pode aumentar a produção de citocinas pró‑inflamatórias e, assim, contribuir para as consequências fisiopatológicas da obesidade incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias, aterosclerose e outras doenças cardiovasculares. Destes conceitos impõe‑se igualmente compreen‑ der as variáveis envolvidas na indução da libertação de citocinas pró‑inflamatórias. Diversos estudos têm tentado provar a hipótese de que estímulos como a superalimentação, principalmente à custa de alimentos ricos em gorduras saturadas, a hipóxia sofrida pelo tecido adiposo devido à expansão desse tecido no desenvolvimento da obesidade bem como influências ambientais como o stresse crónico são alguns dos factores que poderão causar um aumento de secreção de citocinas contribuindo para a inflamação. Assim, acredita‑se existir, um ciclo vicioso entre obesidade e inflamação induzidas por alteração no tecido adiposo. Ainda há muitos mecanismos a serem escla‑ recidos, contudo as informações obtidas até ao momento são promissoras para se conseguir alcançar tal esclarecimento. A compreensão minuciosa das funções endócrinas e inflamatórias do tecido adiposo possibilitará não apenas um tratamento mais eficaz como também a prevenção da obesidade e das suas co‑morbilidades. Na mesa redonda “Fisiopatologia da Obesidade” serão abordados e aprofundados de forma objectiva todos estes aspectos e outros relacionados com o tecido adiposo como um elemento central no controlo da inflamação e da obesidade. A Professora Isabel Azevedo apresentará o tema “Inflamação e obesidade” e o Mestre Diogo Pestana debruçar‑se‑á sobre o tema “O adipócito como célula reguladora”. Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – p. 37 O adipócito como uma célula auto-reguladora The adipocyte as an autoregulatory cell Diogo Pestana*1, Conceição Calhau**2 e Rosário Monteiro***3 Estudante de doutoramento e docente voluntário da FMUP, Serviço de Bioquímica, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 1 Professora Auxiliar da FMUP, Serviço de Bioquímica, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 2 Professora Auxiliar Convidada da FMUP, Serviço de Bioquímica, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 3 Resumo O reconhecimento do estatuto do tecido adiposo como órgão endócrino, com capacidade de integrar estímulos provindos de outros órgãos e de responder produzindo factores com actividade autócrina, parácrina e/ou endócrina é fundamental para a compreensão do adipócito como célula auto-reguladora. O interesse no estudo da modulação das características do tecido adiposo por factores ambientais, tem abrangido quer a influência de componentes normais da dieta, como favorecedores de um desenvolvimento adequado do tecido adiposo ou, num cenário oposto, o estudo do efeito de contaminantes dos alimentos, como os poluentes ambientais persistentes veiculados pela alimentação na etiologia da obesidade. Qualquer uma destas abordagens tem o potencial de contribuir para esclarecer os mecanismos que conduzem à obesidade e ao desenvolvimento das suas complicações. Abstract The recognition of the status of adipose tissue as an endocrine organ capable of integrating stimuli from other organs and respond by producing active autocrine, paracrine and/ or endocrine factors is fundamental to the understanding of adipocyte cell as autoregulatory. The interest in studying the modulation of the adipose tissue by environmental factors has covered both the influence of normal components of the diet, as promoters of a proper development of adipose tissue or in an opposite scenario, the study of the effect of food contaminants, as persistent environmental pollutants, in the etiology of obesity. Either of these approaches has the potential to contribute to clarify the mechanisms leading to obesity and the development of its complications. Keywords: adipose tissue, endocrine organ, adipocyte cell, adipokines Palavras‑chave: tecido adiposo, órgão endócrino, adipócito, adipocinas Explorando o tecido adiposo O tecido adiposo (TA) representa um tecido conjuntivo especial, caracterizado pela presença de adipócitos com lípidos no seu citoplasma. Estas células repletas de gordura são individualmente mantidas no tecido por delicadas fibras reticulares, formando um agrupamento em lóbulos delimitados por septos fibrosos, cercados por uma rica rede capilar e nervosa [1]. Apesar de vários tipos celulares poderem acumular lípidos, incluindo macrófagos, hepatócitos e miócitos, os adipócitos têm caracte‑ rísticas morfológicas especiais, que lhes permitem armazenar gotículas lipídicas de grande dimensão, rodeadas por uma proteína específica, a perilipina [2]. No entanto, apenas um terço do TA contém adipó‑ citos maduros. Os restantes dois terços deste tecido, que constituem a fracção estromal e vascular, são constituídos por uma combinação de pequenos vasos sanguíneos, tecido nervoso, macrófagos, fibroblastos, pericitos, células sanguíneas, células endoteliais e células precursoras de adipócitos, conhecidas como pré‑adipócitos [3]. Esta multicelularidade representa uma ampla gama de alvos para um extenso crosstalk autócrino e parácrino. * [email protected] ** [email protected] ***[email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 39-43 40 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e O entendimento do TA como órgão colide com a definição clássica de localização específica dos outros órgãos. Este facto prende‑se com uma distribuição de depósitos de gordura dispersos por todo o corpo, sem uma ligação física. Apesar de representar um dos maiores compartimentos do corpo, a classificação de depósitos de TA específicos, com base na sua localização anatómica e funcionalidade fisiológica tem sido difícil. [1, 4]. Desta forma, a totalidade do TA é representada pela soma de todos os depósitos de gordura, geralmente, excluindo a medula óssea, bem como as pequenas quantidades de gordura contida nas mãos, pés e cabeça. A massa total de gordura é subcategorizada no TA subcutâneo e interno. O primeiro consiste de uma camada de gordura encontrada entre a derme e a aponeuroses e fáscias dos músculos, podendo ainda ser subdividida em TA subcutâneo superficial e profundo. Por sua vez, o compartimento interno agrupa toda a gordura visceral e não visceral, juntamente com outros depósitos raros ou quan‑ titativamente muito pequenos [1]. Através de um olhar mais pormenorizado sobre os adipócitos, é possível entender as suas capacidades únicas. Com uma forma esférica característica, tem a capacidade de variar enormemente em tamanho (entre 20 μm e 200 μm de diâmetro). Uma membrana fina, rodeada pela perilipina, separa a interface das gotículas de gordura da matriz citoplasmática. Por sua vez, as gotículas lipídicas coalescentes contêm uma mistura de lípidos neutros, triacilgliceróis, ácidos gordos, fosfolípidos e colesterol, sendo que cerca de 95% do conteúdo lipídico total armazenado é representada por triacilgliceróis [1]. Da célula estaminal ao adipócito O TA, assim como o músculo e o osso, têm origem mesodérmica. As células estaminais do mesênquima são capazes de se diferenciar em adipócitos, osteoblastos, condrócitos, mioblastos, e tecido conjun‑ tivo. Os adipócitos surgem a partir de uma via sequencial de diferenciação, a partir do momento em que as células estaminais do mesênquima são comprometidas com a linhagem dos adipócitos, através de sinais apropriados de desenvolvimento. A transição de pré‑adipócitos a adipócitos envolve quatro etapas: a paragem do crescimento, expansão clonal, a diferenciação inicial e diferenciação termi‑ nal. Estes estágios são regulados por uma cascata transcricional, envolvendo o receptor nuclear PPAR e membros da família C/EBPs (CCAAT‑enhancer ‑binding proteins) [2]. Por sua vez, os adipócitos são capazes de aumentar até 20 vezes o seu diâmetro e vários milhares de vezes o seu volume de forma a acomodar o aumento da carga lipídica. No entanto, o aumento do tamanho dos adipócitos não é indefinido, podendo ocorrer a formação de novos adipócitos a partir do conjunto precursor, uma vez atingida a capacidade máxima. Dado que cerca de 90% do volume da célula é uma gota lipídica, o núcleo torna‑se uma estrutura semilunar achatada empurrado contra a periferia da célula com a fina borda citoplasmática. Os adipócitos brancos maduros contêm uma única e grande gota lipídica e são descritos como uniloculares. Contudo, durante o seu desenvolvimento, são transitoriamente multiloculares, contendo múltiplas gotículas lipídicas antes de estas finalmente se fundirem numa única gota de grande tamanho [1]. Plasticidade do tecido adiposo Além de seu papel de isolamento e de suporte mecânico, o TA tem sido tradicionalmente definido como um dos principais locais de armazenamento de energia excedente. De facto, durante os períodos de aumento na ingestão alimentar e/ou diminui‑ ção do gasto energético, a energia excedente é depositada de forma eficiente no TA sob a forma de triacilgliceróis. Este processo é mediado por enzimas lipogénicas. No entanto, no jejum e/ou quando o gasto energético aumenta, as reservas de lípidos são libertadas para fornecer combustível para produção de energia. Portanto, os adipócitos contêm igualmente lípases que hidrolizam os triacilgliceróis em glicerol e ácidos gordos, que podem então ser transportados no sangue para o fígado e músculos, onde são oxidados [5]. A incapacidade de desenvolver uma massa de TA adequada (lipodistrofia) ou a absoluta falta de massa de TA, bem como um aumento no tamanho dos adipócitos, associado com a adiposidade crescente, resulta em resistência grave à insulina e diabetes [6]. O aumento do tamanho dos adipócitos pode repre‑ sentar uma falha do TA para expandir e, portanto, de ser incapaz de acomodar o influxo de energia, promovendo um aumento da massa de TA através de um aumento no tamanho celular (hipertrofia dos adipócitos) e número de células (hiperplasia). Como em todos os tecidos, os adipócitos têm um ciclo de vida natural. Embora a taxa exacta de substituição dos adipócitos não seja conhecida, estudos recentes O adipócito como uma célula auto-reguladora têm demonstrado que o TA branco pode conter bolsas de adipócitos mortos ou moribundos, muitas vezes cercada por macrófagos que fagocitam as gotículas lipídicas e, finalmente, formam células gigantes multinucleadas. A verdade é que em seres humanos e ratos obesos, a necrose de adipócitos está aumentada até 30 vezes [2]. O mecanismo pelo qual a hipertrofia pode pro‑ mover a morte dos adipócitos não é clara, mas o stresse imposto sobre os adipócitos pela criação e expansão de gotículas lipídicas manifesta‑se de forma proeminente no retículo endoplasmático (ER) e na mitocôndria [6]. Sabendo a correlação da hipertrofia dos adipócitos com inflamação e disfunção, nós demonstramos que os adipócitos de maior tamanho são mais susceptíveis a ruptura, quando expostos a forças físicas comuns [7]. É, portanto, muito provável que a ruptura e necrose dos adipócitos no interior da cavidade visceral possam contribuir para ampliar a chamada para os macrófagos para o TA, o que representa um importante elo entre a obesidade visceral e inflamação. O tecido adiposo como órgão endócrino Em 1994, a descoberta da leptina, um factor de saciedade produzido predominantemente pelo TA, acrescentou uma nova dimensão ao nosso entendi‑ mento da função do TA. Esta descoberta demonstrou que este tecido era capaz de emitir sinais para regular a ingestão alimentar e o gasto energético e, assim, orquestrar alterações no balanço energé‑ tico e estado nutricional do organismo [5]. Nesta linha de pensamento, o TA de mamíferos é agora bem reconhecido, não só como um reservatório para o excesso de nutrientes, mas também como um órgão activo. O TA segrega substâncias activas com capacidade endócrina, parácrina e autócrina em resposta a diferentes estímulos, sendo parte integrante de inúmeros processos fisiológicos, bem como de estados patológicos. Algumas são específicas para os adipócitos, como as adipocinas leptina e adiponectina, e outras podem ser produzidas por vários tipos de células no TA e incluem as citocinas inflamatórias (TNFa e IL‑6), quimiocinas, proteínas de fase aguda, os componentes do sistema com‑ plemento, eicosanóides, bem como moléculas com propriedades anti‑inflamatórias [8]. Embora os factores que regulam a hipertrofia dos adipócitos versus hiperplasia permaneçam obscuros, há uma crescente evidência que sugere que os pro‑ cessos que permitem a acumulação de lípidos também 41 impõem um stresse significativo sobre os adipócitos, levando à sua activação e consequente produção e libertação de adipocinas. Assim, o TA está envolvido no desenvolvimento da síndrome metabólica e na regulação da imunidade e inflamação [9]. Adipócito como célula auto-reguladora O reconhecimento do adipócito como célula auto-reguladora prende‑se com o conhecimento dos produtos de secreção dos adipóctos que têm a possibilidade de actuar na própria célula produtora ou em outros adipócitos mais ou menos distantes. Dois desses factores, cuja produção e efeitos no TA têm sido alvo de interesse e estudo no Ser‑ viço de Bioquímica da FMUP, são o cortisol e os estrogénios. A enzima desidrogenase dos 11‑beta‑hidroxi‑ -esteróides (11beta‑HSD) tem um papel central na determinação da concentração de cortisol no TA. A acção desta enzima é bidirecccional, embora no TA, particularmente no visceral, predomine a actividade de 11beta‑reductase (11beta‑HSD de tipo 1), que realiza a re‑activação da cortisona circulante em cortisol, o metabolito activo, e, desta forma, amplifica a acção dos glicocorticóides e facilita a diferenciação dos adipócitos. Deste modo, a expressão desta enzima foi relacionada com a obesidade visceral. Estudos em animais têm também demonstrado que o aumento da expressão da 11beta‑HSD de tipo 1 induz complicações semelhantes à síndrome metabólica e que, por outro lado, animais que não expressam a 11beta‑HSD de tipo 1 não desenvolvem características da síndrome metabólica, isto é, são resistentes à obesidade e à intolerância à glicose induzidas por uma dieta hiperlipídica, mantendo um perfil lipídico favorável [10]. No TA, os pré‑adipócitos contribuem de forma preponderante para a capacidade de produção de estrogénios no tecido, capacidade esta que é reduzida após diferenciação. Entre os efeitos dos estrogénios no TA, encontram‑se bem documentadas a inibição da expressão da lípase das lipoproteínas e o aumento da expressão de leptina. Pela sua acção na lípase das lipoproteínas, os estrogénios podem contribuir directamente para a redução da acumulação lipídica pelo envolvimento desta enzima na lipogénese e re‑esterificação de ácidos gordos. Os estrogénios podem também aumentar a lipólise ao estimularem a lípase sensível a hormonas e a oxidação em beta dos ácidos gordos. Algumas das acções dos estrogénios são específicas para depósitos 42 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e de gordura de diferentes localizações, isto é, no TA subcutâneo inibem a lipólise através do aumento da expressão de receptores adrenérgicos de tipo alfa2A (anti‑lipolíticos). Estes efeitos, juntamente com a maior produção destas hormonas nesta localização, favorecem a maior acumulação gluteofemoral de TA nas mulheres, reflectindo o papel dos estrogé‑ nios na determinação da distribuição da gordura corporal. O papel dos estrogénios na diferenciação dos adipócitos não é muito claro, mas demonstrou ‑se que estas hormonas diminuem o número de pré‑adipócitos, por limitarem a taxa exagerada de divisões celulares que ocorre na sua ausência. Por outro lado, na puberdade, as mulheres adquirem TA caracterizado por hiperplasia, sendo que os estrogé‑ nios parecem desempenhar um papel neste aumento do número de adipócitos. No que diz respeito à diferenciação, os estrogénios são pró‑adipogénicos. No entanto, apesar de estarem relacionados com um efeito facilitador na diferenciação de adipócitos, estas hormonas são geralmente relacionadas com a diminuição da quantidade total de gordura corporal e da hipertrofia dos adipócitos [11]. Modulação da biologia do tecido adiposo O interesse no estudo da modulação das caracterís‑ ticas do TA por factores ambientais, particularmente por componentes da dieta tem um interesse inques‑ tionável, dada a sua influência no desenvolvimento da obesidade. De facto, o interesse neste estudo tem abrangido quer a influência de componentes normais da dieta, como compostos fitoquímicos, como favorecedores de um desenvolvimento ade‑ quado do TA ou, num cenário oposto, o estudo do efeito de contaminantes dos alimentos, como os poluentes ambientais persistentes veiculados pela alimentação na etiologia da obesidade, sendo que qualquer uma destas abordagens tem o potencial de contribuir para esclarecer os mecanismos que conduzem à obesidade e ao desenvolvimento das suas complicações. Investigações realizadas no nosso grupo, no âmbito do primeiro objectivo, consistiram no trata‑ mento de ratos Wistar machos durante 2 ou 6 meses com vinho tinto ou chá verde, respectivamente. Em ambas as experiências, os animais tratados com vinho tinto ou com chá verde tiveram um ganho de peso menor ao longo do tratamento e os seus adipócitos eram menores do que os encontrados nos animais controlo. Parte destes efeitos estavam provavelmente relacionados com o aumento da produção de estrogénios pelo TA, induzido pelos tratamentos, e traduziram‑se ainda em outras alte‑ rações importantes na biologia deste tecido. Estes trabalhos demonstraram a capacidade de compostos bioactivos, presentes em alguns alimentos de origem vegetal, modularem a aromatase. Esta capacidade de interferência na síntese de estrogénios, e o seu efeito confirmado na redução do tamanho dos adipócitos, poderão contribuir para uma redução dos eventos inflamatórios no organismo e, por essa razão, uma melhoria da síndrome metabólica e patologias associadas. Por outro lado, condições ambientais que implicam a exposição a substâncias químicas que mimetizam hormonas endógenas são apontadas como responsá‑ veis por diversos efeitos adversos na saúde humana, incluindo infertilidade, desenvolvimento pré‑natal e infantil anormal, e cancro. Recentemente, tem sido destacado o papel de tóxicos ambientais na etiologia da obesidade. A hipótese dos “obesogénios ambientais” associa poluentes ambientais (compostos químicos xenobióticos persistentes no meio ambiente (POPs – Poluentes Orgânicos Persistentes)) à interfe‑ rência com a homeostasia energética. É relativamente fácil demonstrar o paralelismo entre o aumento da prevalência de obesidade, com o aumento do uso de substâncias químicas orgânicas ou sintéticas, dos seus níveis no ambiente e da consequente exposição humana a estes [12]. Um passo preponderante nesta associação é a demonstração de que estes compostos se acumulam no TA, nas diferentes populações, para que depois se possa estabelecer uma relação entre a sua presença e a alteração metabólica que predispõe para a obesidade. Resultados do nosso grupo, em que se avalia‑ ram amostras de TA colhidas de indivíduos obesos submetidos a cirurgias no Hospital de São João, revelaram a presença de POPs, concretamente de pesticidas organoclorados, em todas as amostras analisadas, sendo o hexaclorobenzeno, o metoxicloro e o o,p‘‑DDT os mais encontrados. O o,p‘‑DDT foi encontrado em 95% das amostras de TA visceral (0.0084 mg/kg por amostra) e de TA subcutâneo (0.0075 mg/kg por amostra). Estes resultados pre‑ liminares constituirão a base para a determinação do impacto metabólico dos contaminantes mais prevalentes no TA. O adipócito como uma célula auto-reguladora Bibliografia 1. Yang K, Adipose Tissue Protocols, Walker J, Second Edition, 2008, Humana Press 2. Gesta S, Tseng YH and Kahn CR, Developmental origin of fat: tracking obesity to its source, Cell, 2007, 131(2), 242‑56 3. Avram AS, Avram MM and James WD, Subcutaneous fat in normal and diseased states: 2. Anatomy and physiology of white and brown adipose tissue, J Am Acad Dermatol, 2005, 53(4), 671‑83 4. Shen W et al, Adipose quantification by imaging methods: a proposed classification, Obesity Res, 2003, 11, 5‑16 5. Sethi JK and Vidal‑Puig AJ, Thematic review series: adipocyte biology. Adipose tissue function and plasticity orchestrate nutritional adaptation, J Lipid Res, 2007, 48(6), 1253‑62 6. Lionetti L et al, From chronic overnutrition to insulin resistance: the role of fat‑storing capacity and inflammation, Nutr Metab Cardiovasc Dis, 2009, 19(2), 146‑52 7. Monteiro R et al, Adipocyte size and liability to cell death, Obes Surg, 2006, 16, 804‑6 8. Kershaw EE and Flier JS, Adipose tissue as an endocrine organ, J Clin Endocrinol Metab, 2004, 89(6), 2548‑56 9. Vachharajani V and Granger DN, Adipose tissue: a motor for the inflam‑ mation associated with obesity, IUBMB Life, 2009, 61(4), 424‑30 10. Paulsen S et al, 11β‑HSD type 1 expression in human adipose tissue: impact of gender, obesity and fat localization, Obesity, 2007, 15, 1954‑58 11. Cooke PS and Naaz A, Role of estrogens in adipocyte development and function, Exp Biol Med (Maywood), 2004, 229, 1127‑35 12. Baillie‑Hamilton PF, Chemical toxins: a hypothesis to explain the global obesity epidemic, J Altern Complement Med, 2002, 8(2), 185‑9 43 Inflamação na obesidade Obesity and inflammation Conceição Calhau*1 e Isabel Azevedo**2 Professora auxiliar com agregação, Serviço de Bioquímica, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 1 Professora catedrática aposentada, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 2 Resumo A obesidade, particularmente a obesidade visceral, dá origem a um estado de inflamação sistémica de baixo grau através de vários mecanismos. A sobrecarga metabólica desencadeia reacções de stresse oxidativo e stresse dos organelos, com inflamação. A hipertrofia dos adipócitos facilita o seu rebentamento, o que desencadeia uma resposta inflamatória. No tecido adiposo de indivíduos obesos há um grande aumento de macrófagos, que se localizam em redor de adipócitos mortos. Todas estas células, adipócitos sob stresse, macrófagos e linfócitos, também presentes no tecido adiposo do obeso, segregam citocinas inflamatórias. Para além disso, os dados recentemente adquiridos sobre o microbiota intestinal e a sua interacção com a gordura alimentar e com a obesidade trouxeram novas hipóteses para a relação da dieta gorda/obesidade com a inflamação. Há, ainda, a considerar outros fenómenos, como o stresse psicológico e a disrupção dos ritmos circadianos, como contribuintes para o estado de inflamação. Por sua vez, a inflamação é em grande parte responsável pela relação entre a obesidade e as morbilidades que lhe estão associadas, como a aterosclerose, diabetes, doenças cardiovasculares e cancro. Abstract Obesity, mainly at abdominal location, leads to a systemic state of low grade inflammation. Metabolic overload evokes different stress reactions, such as oxidative, inflammatory and organelle stresses. Adipocyte hypertrophy facilitates cell rupture, what will evoke an inflammatory reaction. Macrophages accumulate in adipose tissue of obese subjects, particularly around dead adipocytes. Stressed adipocytes, macrophages and lymphocytes, also present in adipose tissue of obese individuals, all secrete inflammatory cytokines. Moreover, recent data on the microbiota and its interaction with food and with obesity brought new hypothetic mechanisms for the obesity/fat diet relationship with inflammation. Beyond these factors, other phenomena, for instance psychological and/or circadian rhythm disturbances, may likewise contribute to the raise of oxidative/inflammatory status. Inflammation is a most important link between obesity and its related morbidities, such as atherosclerosis, diabetes, cardiovascular diseases and cancer. Keywords: Obesity, visceral fat, adipocytes, citokines, inflamation Palavras‑chave: Obesidade, Gordura visceral, Adipócitos, Citocinas, Inflamação A obesidade não é um mero problema de peso, estética ou diminuição funcional, mas representa um aumento importante do risco para doenças cardiometabólicas, pelo menos quando tem um com‑ ponente significativo de gordura visceral. Quando esta se associa a resistência à insulina, dislipidemia (hipertrigliceridemia, aumento da concentração de ácidos gordos livres, diminuição da concentração de colesterol HDL (lipoproteínas de alta densidade)) e/ou hipertensão, passa de obesidade simples para a síndrome metabólica (Azevedo et al., 2009). É conhecido desde há já algum tempo que a obesidade visceral representa um estado de infla‑ mação crónica de baixo grau, dada a sistemática observação de marcadores plasmáticos de inflamação nos indivíduos com aquele tipo de obesidade. Foram, inclusivamente, dilucidados vários mecanismos envol‑ vidos na relação obesidade visceral – inflamação (ver abaixo), mas só recentemente se demonstrou que é a obesidade que desencadeia a inflamação, avaliada pela concentração plasmática de proteína C‑reactiva, não havendo evidência para uma relação inversa * [email protected] **[email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 45-48 46 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e (isto é, não parece ser a inflamação a provocar obesidade) (Welsh et al., 2010). Em 1993 Hotamisligil (Hotamisligil, 1993) descre‑ veu a produção de factor de necrose tumoral α pelo tecido adiposo, tendo, também, demonstrado desde logo um efeito deste mesmo factor na resistência à insulina. Bastante tempo depois, Cinti et al. (2005) descre‑ veram uma acumulação de macrófagos, células que já se sabia estarem muito aumentadas em número no tecido adiposo em situações de obesidade, em torno de adipócitos mortos. Essa chamada e localização de macrófagos em volta dos adipócitos mortos dava a imagem típica de macrófagos em coroa. Não é sur‑ preendente que os macrófagos, células inflamatórias, produtores de vários tipos de citocinas inflamatórias, sejam chamados a partir de células que morrem. O que fica de novo, e a aguardar explicação, é a(s) possível(eis) causa(s) de morte dos adipócitos, que será, portanto, um fenómeno muito mais frequente em situações de obesidade. A observação de adipócitos maduros em micros‑ copia óptica (Figura 1) mostra a morfologia peculiar destas células, com a sua grande gotícula de gordura a ocupar a maior parte do espaço do citoplasma, e a restante estrutura celular reduzida a uma fina camada circular, constituída pela membrana citoplasmática, uma fina camada de citoplasma e a membrana da gotícula lipídica. Numa situação de obesidade, pode haver lugar a uma hiperplasia adipocitária, resultante do recrutamento de pré‑adipócitos e sua diferenciação, não sendo os adipócitos maiores do que o normal num indivíduo não obeso. Mas frequentemente, por uma série de motivos, desde os genéticos e epigenéticos, às condições de idade, sexo ou estado hormonal, bem como a razões mecânicas (o estiramento inibe a diferenciação de pré‑adipócitos (Monteiro et al., 2009), não se produ‑ zem adipócitos suficientes para o depósito de toda a gordura que está a ser ingerida e/ou sintetizada. Nestas circunstâncias, os adipócitos vão aumentando de tamanho (obesidade hipertrófica). Pareceu‑nos que a deformabilidade dos adipócitos teria limites, e que a sua grande dimensão atingida em situações de obesidade colocaria esses limites muito mais perto da possibilidade de rotura face à exposição a forças a que o nosso organismo está sujeito pelos movimentos, esforços mecânicos, choques acidentais, etc. Um trabalho colaborativo com um especialista em Engenharia Mecânica permitiu‑nos, através de simulação com o método de elementos finitos (ABAQUS), demonstrar isso Figura 1 – Aspecto do tecido adiposo em microscopia óptica, onde se pode ver imediatamente a relação entre a espessura do anel de citoplasma e o diâmetro do adipócito. A gotícula lipídica ocupa todo o espaço em branco (poliédrico, arredondado) rodeado pela finíssima camada envolvente de citoplasma e membrana celular. mesmo: uma esfera com uma parede de determinada espessura e um raio r desenvolve, por compressão, uma pressão interna (tensão de Tresca) de determi‑ nado valor, enquanto a mesma compressão aplicada a uma esfera com o mesmo tipo de parede e um raio com o dobro do primeiro leva a uma tensão 3,5 vezes superior, ficando, portanto, a esfera muito mais sujeita a rebentamento (Monteiro et al., 2006). Ou seja, é totalmente plausível que os adipócitos hipertróficos rebentem com mais facilidade, o que levará a um espalhamento de sinais e chamada de macrófagos, entre outros. A hipótese da inflamação associada à obesidade ter relação com o tamanho dos adipócitos é admitida por outros autores (Bah‑ ceci et al., 2007), dado que os níveis mais altos de factor de necrose tumoral α, interleucina‑6 e proteína C‑reactiva de alta sensibilidade, mediadores inflamatórios, se correlacionam positivamente com o tamanho dos adipócitos, ao contrário da adiponec‑ tina, uma adipocina anti‑inflamatória e protectora cardiovascular, que se correlaciona negativamente com o referido tamanho. Apesar de haver vários outros motivos para que a gordura visceral seja mais patogénica que a subcu‑ tânea, como o facto de libertar mais ácidos gordos livres, por lipólise, estar sob o mesmo regime de actividade autonómica que as vísceras, nomeada‑ mente o sistema gastrointestinal, ou ser mais rica na enzima activadora do cortisol (desidrogénase tipo 1 dos 11‑beta‑hidroxiesteróides), o carácter mais laxo do tecido conjuntivo onde se localizam os adipócitos no tecido adiposo visceral por comparação com o subcutâneo, e as variações bruscas de pressão na cavidade abdominal contribuem para um mais fácil Inflamação na obesidade rebentamento dos adipócitos. Por outro lado, estas mesmas características tornam fácil a ocorrência de episódios de hipóxia, por compressão dos capila‑ res que correm entre os adipócitos, sendo que a hipoxia desencadeia uma sinalização angiogénica/ /pró‑inflamatória. Entretanto foram descritos outros mecanismos que podem estar também envolvidos na inflama‑ ção associada à obesidade, a começar pelo stress que a sobrecarga energética cria nos adipócitos e respectivos organelos, nomeadamente no retículo endoplasmático e nas mitocôndrias (Monteiro, 2009). O reconhecimento crescente da proximidade bio‑ lógica entre os adipócitos e o sistema imunitário, ou mesmo da natureza imunitária dos próprios adipócitos, configura, provavelmente, um caminho que deve ser explorado. Por exemplo, os adipócitos possuem TLR (toll‑like receptors, receptors tipo toll), de que os mais estudados são o TLR2 e o TLR4, activados, respectivamente, por lipoproteínas bac‑ terianas e lipopolissacárido (LPS). A activação de qualquer destes receptores leva à translocação do factor nuclear kB (NFκB) para o núcleo e à síntese de factores pró‑inflamatórios tais como o TNF‑α, a IL‑6 e quimiocinas. Os ácidos gordos saturados activam quer o TLR2 quer o TLR4, enquanto os ácidos gordos insaturados inibem a expressão genética e a sinalização mediada por estes receptores (Wolowczuk et al., 2008). Foi observado um aumento pós‑prandial imediato de marcadores inflamatórios no plasma após uma refeição rica em gordura em indivíduos com obe‑ sidade abdominal. No mesmo sentido, está descrito um perfil de expressão genética ligado à obesidade, pró‑inflamatório, em indivíduos com uma dieta rica em ácidos gordos saturados, enquanto uma dieta mais rica em ácidos gordos monoinsaturados leva a um perfil mais anti‑inflamatório. Nestes processos é difícil separar os efeitos directos da ingestão de gordura dos dos ácidos gordos libertados do tecido adiposo por lipólise, dado que a ingestão de dietas ricas em gordura e a obesidade visceral coincidem frequentemente. Um efeito directo da gordura ingerida, recen‑ temente descrito (Cani et al., 2009), é o aumento da permeabilidade intestinal e das concentrações plasmáticas de LPS. Isto é, a ingestão de gordura leva ao que estes autores chamam de endotoxemia metabólica, sendo possível, experimentalmente, controlar esta endotoxemia e inflamação através do controlo do microbiota intestinal. 47 Portanto, uma dieta gorda pode exercer directa‑ mente efeitos pró‑ ou anti‑inflamatórios de acordo com o tipo de ácidos gordos, pode ter consequên‑ cias inflamatórias a longo prazo na dependência da sobrecarga do tecido adiposo, e pode ainda, indirectamente, modular a endotoxemia metabólica através dos seus efeitos sobre o microbiota. Para além dos macrófagos, e dos próprios adipó‑ citos, os linfócitos T, também presentes no tecido adiposo de indivíduos obesos, contribuem para o complexo ambiente pró‑inflamatório do tecido adiposo nestes indivíduos (Yang et al., 2010). A inflamação, por sua vez, tem um importante papel no desenvolvimento das morbilidades asso‑ ciadas à obesidade, como a aterosclerose, diabetes, doenças cardiovasculares e cancro. Em conclusão, é indiscutível a evidência da asso‑ ciação entre obesidade, especialmente obesidade abdominal, e um estado inflamatório, tendo sido propostos e demonstrados vários mecanismos que mostram como o tecido adiposo, nas situações de sobrecarga/obesidade, emite citocinas inflamatórias com origem nos próprios adipócitos e noutras células imunitárias como macrófagos e linfócitos (Figura 2). Há, seguramente, muito por conhecer na biologia do tecido adiposo, em interacção com o equilíbrio energético e toda a gama de hormonas e outros factores envolvidos nesta complexa regulação. Esta mesma complexidade sugere como pouco provável a possibilidade de resolução deste problema de saúde através de tratamento farmacológico. Qualquer intervenção que reduza o número de adipócitos ou o próprio volume de tecido adiposo, mantendo‑se o desequilíbrio energético, só agravará a doença meta‑ bólica pela deposição da gordura noutros órgãos e locais. Na realidade, os factores que, na sociedade actual, tornam o ambiente favorável à obesidade são muitos, incluindo a excessiva ingestão energética, reduzida actividade física, abundância de alimentos de baixa qualidade (ricos em calorias e pobres em micronutrientes, muitas vezes conservados, com aditivos, por longos períodos de tempo), stresse crónico e disrupção da cronobiologia. Possivelmente há ainda outros, para além destes demonstrados duma forma mais robusta, entre os quais salienta‑ ríamos a atitude não só fisica mas psicologicamente passiva que se apoderou das pessoas, sobretudo das menos escolarizadas. Há, na realidade, todo um ambiente psico‑social que desviou as pessoas da sua autarcia e, por arrastamento, da sua saúde física e mental. 48 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Figura 2 – Resumo das interacções complexas entre a obesidade e a inflamação: a obesidade sobrecarrega metabolicamente os adipócitos, provocando stresse dos organelos com produção de ROS e adipocinas, bem como activação de cínases que potenciam a transcrição de genes inflamatórios e interferem com a sinalização da insulina. A hipertrofia facilita a rotura dos adipócitos que atraem e activam macrófagos que reforçam o processo inflamatório com mais ROS e citocinas inflamatórias. A produção de adiponectina, uma adipocina anti‑inflamatória, é reduzida. O aumento da concentração de FFA, particularmente SFA, vindo quer da alimentação quer da mobilização a partir do tecido adiposo, acumula‑se no fígado, além doutros órgãos. A acumulação gorda no fígado leva a um aumento da produção de LDLs e, em conjunto com a IL‑6, de CRP. A NAFLD é uma consequência destas alterações metabólicas, e tudo isto diminui a sensibilidade à insulina. Os SFA activam os TOLL‑like receptors nos adipócitos, contribuindo para a activação da resposta inflamatória. A gordura também tem efeitos na permeabilidade intestinal e no microbiota, com consequências inflamatórias sistémicas. A maior parte das citocinas e metabolitos produzidos em excesso nestes processos converge na resistência à insulina, uma característica central da síndrome metabólica. AP‑1: proteína activadora‑1; CRP: proteína C‑reactiva; FFA: ácidos gordos livres (não esterificados); IL‑n: interleucinas; IKK: inibidor da cínase do NF‑κB; IL‑6: interleucina‑6; Int: intestino; IR: resistência à insulina; JNK: cínase N‑terminal do c‑Jun; LDL: lipoproteína de baixa densidade; M: microbiota; NAFLD: doença hepática gorda não‑alcoólica; NF‑κB: factor nuclear κB; OxS: stresse oxidativo; ROS: espécies reactivas de oxigénio; PKC: cínase C de proteínas; SFA: ácidos gordos saturados; TAG: triacilgliceróis; TLR: receptores tipo TOLL; TNFalpha: factor de necrose tumoral alfa. Retirado de: Monteiro R, Azevedo I. Chronic inflammation in obesity and the metabolic syndrome. Mediators Inflamm. 2010; 2010: 289645. doi: 10.1155/2010/289645. Bibliografia 1. 2. 3. Azevedo A, Santos AC, Ribeiro L, Azevedo I. The metabolic syndrome. In: Soares R, Costa C, editors. Oxidative Stress, Inflammation and Angiogenesis in the Metabolic Syndrome. pp. 1–19. 2009, New York, NY, USA: Springer Science. Bahceci M, Gokalp D, Bahceci S, et al. The correlation between adiposity and adiponectin, tumor necrosis factor α, interleukin‑6 and high sensitivity C‑reactive protein levels. Is adipocyte size associated with inflammation in adults? Journal of Endocrinological Investigation. 2007;30(3):210–214. Cani PD, Possemiers S, Van de Wiele T, et al. Changes in gut microbiota control inflammation in obese mice through a mechanism involving GLP‑2‑driven improvement of gut permeability. Gut. 2009;58(8):1091–1103. 4. Cinti S, Mitchell G, Barbatelli G, et al. Adipocyte death defines macrophage localization and function in adipose tissue of obese mice and humans. Journal of Lipid Research. 2005;46(11):2347–2355. 5. Hotamisligil GS, Shargill NS, Spiegelman BM. Adipose expression of tumor necrosis factor‑alpha: direct role in obesity‑linked insulin resistance. Science. 1993 ;259(5091):87‑91. 6. Monteiro R. Chronic inflammation in the metabolic syndrome: emphasis on adipose tissue. In: Oxidative Stress, Inflammation and Angiogenesis in the Metabolic Syndrome. Soares R, Costa C, editors. Pp. 65‑83. 2009, Nerw York, NY, USA: Springer Science. 7. Monteiro R, Azevedo I. Chronic inflammation in obesity and the metabolic syndrome. Mediators Inflamm. 2010; 2010: 289645. 8. Monteiro R, de Castro PMST, Calhau C, Azevedo I. Adipocyte size and liability to cell death. Obesity Surgery. 2006;16(6):804–806. 9. Monteiro R, Keating E, Castro P, Azevedo I. Abdominal cavity compliance: a participant more in the building up of visceral obesity. Obesity. 2009;17(5):p. 937. 10. Yang H, Youm YH, Vandanmagsar B, et al. Obesity Increases the Production of Proinflammatory Mediators from Adipose Tissue T Cells and Compro‑ mises TCR Repertoire Diversity: Implications for Systemic Inflammation and Insulin Resistance. J Immunol. 2010;185(3):1836‑1845. 11. Welsh P, Polisecki E, Robertson M, et al. Unraveling the directional link between adiposity and inflammation: a bidirectional mendelian rando‑ mization approach. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2010;95(1):93–99 12. Wolowczuk I, Verwaerde C, Viltart O, et al. Feeding our immune system: impact on metabolism. Clin Dev Immunol. 2008;2008:639803. O Balão Intra‑Gástrico no Tratamento da Obesidade The Intragastric Balloon as a Treatment for Obesity A. Vasconcelos Teixeira Unidade de Endoscopia Digestiva, Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto Resumo A obesidade é uma desordem crónica e incapacitante, com aumento progressivo e rápido em todo o mundo, sendo considerada uma verdadeira epidemia e um grave problema de saúde pública, alterando substancialmente a qualidade de vida. É responsável por morbilidade e mortalidade significativas, como consequência de doenças associadas. Sabe‑se que o índice de massa corporal (IMC) tem correlação significativa com a gordura corporal. A terapêutica com Balão Intra-Gástrico (BIG) foi proposta para doentes obesos nos quais falhou a terapêutica convencional, doentes com obesidade mórbida e risco cirúrgico e tratamento pré‑operatório de redução do peso. Neste trabalho avaliamos a experiência com o BIG para tratamento da obesidade, em 269 doentes, 40 homens (14,9%) e 229 mulheres (85,1%), com idade média nos homens de 35 anos (variando entre 18 e 57 anos) e nas mulheres de 43 anos (variando entre 18 e 72 anos). O peso médio foi de 119,2kg (variando entre 85 e 254kg) e o IMC médio foi de 44,8kg/m2 (variando entre 30,2 e 68,0kg/m2). O nosso estudo permitiu verificar que no tratamento da obesidade o BIG ocupa um lugar importante como resultado de um excelente “sucesso clínico” a curto prazo (6 meses), boa tolerabilidade, baixa ou ausente morbilidade e sem mortalidade. Em conclusão, o uso do BIG associado a dieta apropriada e exercício físico adequado pode considerar‑se uma terapêutica segura e eficaz da obesidade. Palavras‑chave: Obesidade, Balão intra‑gástrico, Endoscopia, Perda de peso, Tratamento bariátrico Introdução A obesidade é uma desordem crónica e inca‑ pacitante, com aumento progressivo e rápido em todo o mundo, sendo considerada uma verdadeira epidemia e um grave problema de saúde pública, alterando substancialmente a qualidade de vida(1). É a desordem nutricional mais frequente nos países ocidentais. Atinge cerca de 400 milhões de Abstract Obesity is a chronic and disabling disorder, which is steadily rising all over the world, being thus considered a serious epidemic and a public health problem. It is responsible for a significant mortality and morbidity as a result of associated diseases. It is well known that body mass index (BMI) is directly related with body fat. The therapy based on bioenterics intragastric balloon (BIB) was proposed for obese patients, for whom the conventional therapy had failed. Moreover, it is also use with patients with morbid obesity and surgical risk and with those who need to undergo a programme of weight loss before surgery. In this paper we assess the use of BIB to treat obesity on a group of 269 patients, 40 men (14.9%) and 229 women (85.1%), being the average age of men 35 years (between 18 and 57 years old) and the average age of women 43 years (between 18 and 72 years old). The average weight was 119.2 Kg (between 85 and 254 Kg) and the average BMI was 44.8 Kg/m2 (between 30.2 and 68.0 Kg/m2). Our study has proved that the BIB therapy for obesity is highly important due to its excellent clinic success in the short term (6 months), good tolerability, low morbidity and no mortality. To sum up, using BIB together with an appropriate diet and behavior modification can be considered a safe and efficient therapy for obesity. Keywords: Obesity, Intragastric balloon, Endoscopy, Weight loss, Bariatric therapy pessoas ao nível mundial(2,3). Na Europa, cerca de um terço da população adulta é obesa. Em Portugal(4,5) a prevalência do excesso de peso e da obesidade revelam valores muito preocupantes, não só no adulto (respectivamente 39,4% e 14%) como na criança (respectivamente 20,3% e 11,3%). A prevalência da obesidade nas crianças e ado‑ lescentes triplicou nas últimas três décadas e as suas consequências tornaram‑se evidentes: relação com a * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 49-54 50 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e obesidade do adulto, aumento das co‑morbilidades e alterações psicossociais(5). Alguns adultos jovens obesos podem perder 20 anos de expectativa de vida se não reduzirem o peso(6). O tecido adiposo é hoje considerado um órgão secretor activo e complexo que envia e recebe sinais que exercem acção moduladora na libertação de energia, apetite, sensibilidade à insulina, funções reprodutora e endócrina, metabolismo ósseo, infla‑ mação e imunidade(7). A obesidade resulta de um balanço energético positivo, com patogenese multifactorial, sob a influência da idade, distribuição de gordura corpo‑ ral, sedentarismo, factores genéticos, hormonais e ambientais(8). Sabe‑se que o índice de massa corporal (IMC) – relação entre o peso em kg/altura em m2 – tem correlação significativa com a gordura corporal. A World Health Organization (WHO)(9) e o National Institutes of Health (NIH)(10) propuseram uma clas‑ sificação de excesso de peso e de obesidade com base no IMC (Quadro 1). Quadro 1: Classificação da Obesidade IMC – Kg/m2 Baixo peso < 18,5 Peso normal 18,5‑24,9 Excesso de peso 25,0‑29,9 Obesidade tipo I (>30) 30,0‑34,9 Obesidade tipo II 35,0‑39,9 Obesidade tipo III (mórbida) > 40,0 Super‑obesos > 50,0 A obesidade é responsável por morbilidade e mortalidade significativas, como consequência de doenças associadas (Quadro 2). Quadro 2: Doenças associadas Doenças cardiovasculares Hipertensão arterial Dislipidémia Diabetes mellitus tipo 2 Doença hepática gorda não alcoólica Desordens músculo‑esqueléticas Apneia do sono Neoplasias Litíase vesicular Doença pulmonar restritiva Insuficiência venosa crónica Alterações da coagulação A longo prazo, mais de 95% dos doentes obesos submetidos a tratamento convencional (dieta com restrição calórica, actividade física – “fitness and fatness” – farmacoterapia) não conseguem manter o peso ideal (“rubber effect”) e retornam ao peso inicial(11,12). Neste sentido, foram propostas outras abordagens terapêuticas, nomeadamente a cirurgia bariátrica(13). Para obstar às técnicas invasivas foi proposto o recurso ao balão intra‑gástrico (BIG) colocado na cavidade gástrica sob controlo endoscópico. O BIG foi desenvolvido pela primeira vez nos anos 80 após a observação de perda de peso em doentes portadores de bezoar gástrico(14). Foi conce‑ bido de modo a diminuir a capacidade de reserva gástrica, produzindo atraso do esvaziamento gástrico e sensação de saciedade precoce, permitindo, com o tempo, a aquisição de novos hábitos alimentares. A técnica foi abandonada entre 1987‑1989 devido à ausência de eficácia e de múltiplas complicações(15). Na sequência da “Tarpon Spring’s International Workshop” em 1987(16) surgiu um novo BIG (Bioen‑ terics® Intragastric Balloon – BIB® System‑Inamed Health; Santa Barbara, CA, USA) constituído por material inerte de silicone, não tóxico e não irritativo com um bom perfil de segurança e tolerabilidade, podendo permanecer na cavidade gástrica durante cerca de 6 meses. A terapêutica com BIG foi proposta para doentes obesos nos quais falhou a terapêutica convencio‑ nal, doentes com obesidade mórbida e risco cirúr‑ gico e tratamento pré‑operatório de redução do peso(17). Segundo o NIH(18) os principais candidatos à colocação do BIG são doentes com IMC ≥ 35‑40kg/ /m2 ou > 30‑35kg/m2 na presença de doenças associadas. Segundo alguns autores, a ingestão compulsiva de grandes quantidades de alimentos – “binge eating disorder” – e a idade (adolescência) são factores de insucesso clínico com o BIG(19), caso não exista suporte dietético e psicológico rigoroso. Também está descrita pior resposta em determinados grupos populacionais(20). O BIG pode ser insuflado com soro fisiológico (BIB) e azul de metileno (marcador de rotura) ou com ar (Heliosphare Bag e Endogast)(21). As complicações são consideravelmente baixas, embora exista a possibilidade de intolerância ao BIG (náuseas e vómitos, desconforto ou dor abdominal e refluxo gastro‑esofágico), deflacção parcial ou total do balão (risco de migração, oclusão intestinal O Balão Intra-Gástrico no Tratamento da Obesidade e perfuração), úlceras ou erosões esofago‑gástricas, broncoaspiração, perfuração gástrica e esofágica, esofagite grave e pancreatite aguda. Redução ponderal mantida em volta dos 5% a 10% do peso inicial é muitas vezes suficiente para melhorar o perfil glicémico e lipídico do doente, baixar a tensão arterial e reduzir o número de apneias do sono. A eficácia do tratamento com o BIG foi demons‑ trada, não só em tratamentos de curto prazo, retrospectivos(22) e prospectivos(21), como também em estudos de longo prazo(23). Genco et al. 2005(22) avaliaram a eficácia do BIG em 2515 obesos com IMC médio de 44,4 +/‑ 7,8kg/m2. Ao fim de seis meses verificou‑se redução significativa do IMC para 35,4 +/‑ 11,8kg/m2. Posteriormente viriam a comprovar a eficácia do BIG num estudo “sham‑controlled” com dieta(24). Neste trabalho avaliamos a experiência com o BIG para tratamento da obesidade, em diferentes vertentes: técnica (colocação e remoção), de segu‑ rança, tolerância, complicações e eficácia global (redução do peso e das comorbilidades). Material e Métodos Procedemos à análise retrospectiva dos dados relativos ao tratamento com BIG (Bioenterics® Intra‑ gastric Balloon), entre Janeiro de 2005 e Dezembro de 2008, registados na Unidade de Endoscopia do Hospital da Prelada. Foram tratados 269 doentes, 40 homens (14,9%) e 229 mulheres (85,1%), com idade média nos homens de 35 anos (variando entre 18 e 57 anos) e nas mulheres de 43 anos (variando entre 18 e 72 anos). O peso médio foi de 119,2kg (variando entre 85 e 254kg) e o IMC médio foi de 44,8kg/m2 (variando entre 30,2 e 68,0kg/m2). A distribuição dos doentes segundo o IMC foi de 20 casos (7,5%) na classe I, 57 casos (21,3%) na classe II e 192 casos (71,2%) na classe III. Os doentes foram seleccionados após observação em Cirurgia, Medicina Interna, Nutrição, Psicologia e Gastrenterologia. Foram elegíveis doentes sem contra ‑indicações (Quadro 3), que se comprometeram com um programa de seguimento e após assinatura do consentimento informado. Os doentes foram admitidos no Hospital no dia anterior à colocação do BIG, mantendo‑se internados cerca de 24 horas após a colocação, dependendo a alta hospitalar da evolução clínica, nomeadamente da tolerância oral. 51 Quadro 3: Contra‑indicações Esofagite (> grau 2) em fase activa Varizes esofágicas Hérnia do hiato (>5 cm) Úlcera péptica (gástrica ou duodenal) em fase activa ou complicações prévias Doença de Crohn Cirurgia gástrica prévia Anormalidades estruturais do tracto gastro‑intestinal História de oclusão intestinal ou peritonite adesiva Neoplasias Hemorragia digestiva esófago‑gastro‑duodenal ou lesão potencialmente sangrante Qualquer contra‑indicação para endoscopia digestiva alta Doença hepática grave Doença psiquiátrica Abuso de álcool ou drogas Terapêutica crónica com corticosteroides, aspirina, AINEs ou anti‑ coagulantes Gravidez, aleitamento Farmacoterapia da obesidade Causas endócrinas de obesidade Desordens da coagulação Antes da colocação do BIG foram submetidos a avaliação clínica, testes analíticos ao sangue (nomeadamente hemograma e estudo de coagulação), bioquímicos, incluindo perfil lipídico e glicémico, função renal e hepática e avaliação cardiológica (incluindo ECG e eventualmente ecocardiograma). A endoscopia digestiva alta foi realizada imedia‑ tamente antes da colocação do BIG ou quando se achou necessário. Como exames opcionais realizou‑se estudo radio‑ lógico pulmonar, espirometria, ecografia abdominal e avaliação endocrinológica. Previamente à introdução do BIG colocou‑se o doente em decúbito lateral esquerdo e efectuou‑se a anestesia com propofol (dose média administrada 200ml) sob monitorização: ecg, tensão arterial, pulso e saturação de oxigénio. Realizou‑se a observação endoscópica do esófago, estômago e duodeno. Caso não se verificassem contra‑indicações, retirou‑se o endoscópio e introduziu‑se o BIG. Procedeu‑se à insuflação, sob visão endoscópica, com solução salina (500ml) contendo azul de meti‑ leno (10ml) e colocou‑se o BIG no fundo gástrico. Uma vez verificado que o BIG estava correctamente posicionado, retirou‑se o cateter e confirmou‑se que a válvula estava encerrada. 52 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Nas primeiras 24 horas após a colocação do BIG, manteve‑se solução de glicose a 5% (1500cc/dia), solução salina (1000cc/dia), omeprazol (40mg/dia iv) metoclopramida (10mg 3x/dia iv) e sucralfato (1gr 3x/dia, oral). Logo que possível suspendeu‑se a fluidoterapia mantendo‑se omeprazol oral e, se necessário, antiemético oral. A dieta foi orientada por nutricionista, que manteve o “follow‑up” dos doentes por períodos regulares. O período médio de tratamento com o BIG foi de 6,9 meses. A remoção do BIG foi realizada em regime ambulatório. Procedeu‑se igualmente a anestesia com propofol, com a monitorização descrita anteriormente. Após visualização endoscópica do BIG, realizou‑se punção com agulha e esvaziamento do seu conteúdo, seguida de apreensão do BIG com pinça apropriada. A remoção foi realizada sob controlo endoscópico. Uma vez que a remoção pela técnica descrita pode, nalguns casos, ser difícil (alteração da textura da parede do BIG ou BIG parcialmente esvaziado), foi proposto o uso de um endoscópio com duplo canal e a utilização de pinças de biopsia ou ansas de polipectomia para apreensão do BIG(25). Em 6 doentes a remoção foi adiada por excesso de alimentos na cavidade gástrica, o que impedia a visualização correcta do BIG. Foi considerado “sucesso clínico” uma redução do peso inicial ≥ 10%(9). Em 30 doentes foi possível registar comorbilidades, nomeadamente hipertensão arterial, níveis glicémicos e dislipidemia. Em 48 doentes foi possível registar a eficácia do BIG ao fim de 12 meses. Em 7 doentes a colocação do BIG implicou o recurso à anestesia geral com entubação orotraqueal, no Bloco Operatório. Eram todos doentes com obesidade mórbida e factores de risco. Resultados A redução média do peso verificado nos nossos doentes foi de 19,8kg semelhante à descrita noutros trabalhos(21,26,27), sendo a redução média do IMC de 7,2kg/m2. Estas reduções não guardavam relação com o sexo e a idade (Quadro 4). Verificou‑se “sucesso clínico” em 78,2% dos doentes e uma redução média do peso ≥15% em 42,3% dos casos. Uma redução média do peso <5% (“tratamento ineficaz”) foi verificado em 18,2% dos casos (Quadro 4). Nos 48 doentes em que foi possível obter registos clínico‑laboratoriais durante 12 meses, verificou‑se “sucesso clínico” em 17,8% dos casos, inferior ao descrito noutras séries(28) (Quadro 4). A melhoria das comorbilidades em 30 doentes foi de 60,0% em relação à tensão arterial, de 67,2% em relação aos níveis glicémicos e de 49,6% em relação à dislipidemia (Quadro 4). Quadro 4: Resultados Redução média do peso 19,8 Kg Redução média do IMC 7,2 Kg/m2 “Sucesso clínico” 78,2% Redução > 15% 42,3% Tratamento “ineficaz” 18,2% “Sucesso clínico” após 1 ano (48 doentes) 17,8% Melhoria das comorbilidades (30 doentes) HTA 60,0% Diabetes 67,2% Dislipidemia 49,6% Na colocação do BIG não registamos casos de “insucesso técnico” ou de complicações. Tivemos de realizar a remoção precoce (<6 meses) por “intole‑ rância” persistente (vómitos habituais, epigastralgias persistentes, desequilíbrio hidro‑electrolítico) em 21 doentes (7,8%). Tivemos dois casos com IMC >50kg/m2 em que falhou uma primeira tentativa para colocação da banda gástrica (BG) por esteatose hepática com hepatomega‑ lia. A perda de peso durante o tratamento com o BIG acompanhou‑se de redução do volume hepático, o que veio a permitir a colocação com sucesso da BG. Está demonstrado que a redução de peso diminui a resistência à insulina, factor de ligação importante entre obesidade e doença hepática gorda não alcoólica(29). Náuseas, vómitos e menos vezes epigastralgias surgiram, com frequência, na primeira semana após a colocação do BIG, respondendo com eficácia ao tratamento oral. No decurso da remoção registaram‑se 4 casos de lesão traumática da mucosa gástrica e 2 casos da mucosa esofágica provocadas pela pinça de extracção, sendo as lesões auto‑limitadas e sem complicações. Não se registaram casos de ulceração gástrica ou esofágica induzida pelo BIG, sendo de registar esofagite ligeira a moderada em 32 casos (11,9%) e gastrite erosiva em 14 casos (5,2%), que não tinham evidenciado alterações no exame endoscópico pré ‑colocação do BIG. Não registamos nenhum caso de desinsuflação ou de migração do BIG. O Balão Intra-Gástrico no Tratamento da Obesidade Discussão A terapêutica da obesidade tem originado muita controvérsia. A terapêutica dietética revela uma taxa global de sucesso baixa em diversos estudos pros‑ pectivos(11). A terapêutica farmacológica, com custos elevados e efeitos adversos frequentes, também se acompanha de baixa taxa de sucesso relacionada, fundamentalmente, com a diminuição de resposta a longo prazo(12). A cirurgia bariátrica tem sido referida como a terapêutica “gold standard” da obesidade mórbida(13). Era no entanto imperioso dispor de uma tera‑ pêutica alternativa, pouco invasiva, segura e eficaz. Essas características vieram a ser comprovadas em estudos retrospectivos e prospectivos com o BIG(21,22). O uso de dispositivos intra‑gástricos para promove‑ rem a redução do peso foi descrito pela primeira vez por Nieben e Harboe(14), sendo os resultados iniciais não significativos e as complicações frequentes, pelo que o método foi abandonado(23). A introdução mais recente de novos BIG veio revelar‑se uma técnica segura (baixo índice de complicações e ausência de morbilidade associada), bem tolerada e com “sucesso clínico”(9). Na nossa experiência o período de tratamento foi inferior a 6 meses, por “intolerância” ao BIG, em apenas 21 casos (7,8%). Os efeitos laterais manifes‑ tados durante a primeira semana após a colocação do BIG (náuseas, vómitos e epigastralgias), com resposta eficaz ao tratamento oral, foram semelhantes aos descritos noutras séries(28). A taxa de sucesso técnico na colocação e na extrac‑ ção foi excelente. Apenas registamos complicações auto‑limitadas na extracção do BIG como resultado do traumatismo provocado pela pinça de extracção. Não registamos nenhum caso de ulceração, per‑ furação ou obstrução provocados pelo BIG(22,30). Na nossa experiência, a redução de peso ≥10% (“sucesso clínico”) foi obtida em 78,2% dos casos e >15% em 42,3% dos casos, semelhante ou superior à obtida noutros estudos(31). Esta redução de peso acompanhou‑se de redução significativa de comorbilidades em 30 casos avaliados, de acordo com o descrito por outros autores. Em 2 casos foi possível também comprovar a redução do volume hepático, o que permitiu a colocação posterior da BG(32). Em relação aos efeitos da terapêutica com o BIG a longo prazo (≥12 meses)(23), os nossos resultados foram substancialmente inferiores aos obtidos ao fim de 6 meses (17,8% vs 78,2%). 53 No estudo retrospectivo de Genco et al.(33) a ava‑ liação ao fim de 24 meses mostrou muito melhor resposta com o BIG do que com a dieta, embora a tendência dos doentes tratados com BIG seja a de recuperarem peso quando comparados com os primeiros 6 meses. O nosso estudo permitiu verificar que no tra‑ tamento da obesidade o BIG ocupa um lugar importante como resultado de um excelente “sucesso clínico” a curto prazo (6 meses), boa tolerabilidade, baixa ou ausente morbilidade e sem mortalidade. Os resultados obtidos com o BIG dependem muito da selecção (nomeadamente idade, doenças associadas e motivação pessoal) e seguimento dos doentes durante a permanência do BIG e após a sua remoção. Neste sentido, demos início a um estudo pros‑ pectivo para avaliarmos a melhoria de resposta dependente de critérios de selecção e seguimento dos doentes obesos, assim como do tipo de BIG utilizado (preenchimento com líquido ou ar) e alte‑ rações imuno‑hormonais induzidas eventualmente pelo BIG. Nos doentes seleccionados previamente para colocação da BG é muito importante que os dois tratamentos sejam sequenciais e em tempo útil(34). Em conclusão, podemos afirmar que o uso do BIG associado com dieta apropriada e exercício físico adequado pode considerar‑se uma terapêutica segura e eficaz da obesidade(22,28). O tratamento da obesidade com o BIG respondeu aos objectivos estabelecidos pelo WHO no que respeita à perda de peso inicial(35). É um tratamento temporário, reversível, repetível e seguro(23,36). Os melhores resultados são obtidos no curto prazo (até aos 6 meses) o que constitui a finalidade principal deste tratamento, embora a experiência de diferentes autores revele igualmente resultados satisfatórios em períodos mais longos(37). A selecção e o seguimento dos doentes revelam ‑se factores importantes na obtenção de melhores resultados. Seria importante definir o “perfil do obeso” que melhor responde à terapêutica com o BIG. O BIG constitui também uma “smooth pathway”(23) ou uma “brigde”(38) para a cirurgia bariátrica em doentes que previamente não aceitaram a cirurgia e que após um tratamento com BIG com sucesso passaram a desejar o tratamento cirúrgico. 54 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Agradecimentos Agradecemos a colaboração de todo o grupo mul‑ tidisciplinar na selecção e seguimento dos doentes submetidos a tratamento com BIG, assim como a todos os colaboradores da Unidade de Endoscopia. Bibliografia 20. Ganesh R, Rao AD, Baladas HG, Leese T. The Bioenteric Intragastric Balloon (BIB) as a treatment for obesity: poor results in Asian patients. Singapore Med J 2007; 48: 227‑31. 21. Dumonceau J‑M. Evidence‑based review of the Bioenterics Intragastric Balloon for weight loss. Obes Surg 2008; 18: 1611‑17. 22. Genco A, Bruni T, Zoldi SB et al. Bioenterics Intragastric Balloon. The Italian experience with 2515 patients. Obes Surg 2005; 15: 1161‑4 23. 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Tais medidas condicionaram reciprocamente a expansão da cirurgia de remodelação corporal pós‑perda ponderal maciça. Neste trabalho os autores apresentam a sua visão particular deste problema, assim como as opções cirúrgicas que mais frequentemente utilizam para remodelação corporal pós‑perda ponderal maciça. Abstract The obesity is a major public health problem, which is affecting progressively the occidental societies. The growing awareness with this problem was the main reason to creation of primary and secondary prevention programs. These programs leaded to an expansion at the post‑obesity plastic surgery. At this paper the authors present their vision about this particular problem, as well they present the surgical options more frequently applied to the different post‑obesity problems. Keywords: /Morbid obesity, /Bodylifting Palavras‑chave: Obesidade mórbida, Remodelação Corporal Introdução A obesidade, definida como uma condição de excesso ponderal com um índice de massa corporal superior a 30 kg/m2, é um problema crescente de saúde pública, sendo considerada pela Organização Mundial de Saúde como uma “epidemia global” que atinge em especial os países desenvolvidos, afectando nos EUA 30% dos indivíduos com mais de 21 anos. Portugal não foge a esta situação sendo cada vez maior a população de obesos. Esta condição patológica de etiologia multifactorial e repercursões multi‑orgânicas afecta de forma significativa a sobre‑ vida e qualidade de vida destes doentes. O “preço” da obesidade não se reflecte somente na saúde do obeso, mas também em toda a sociedade. A factura com a obesidade é uma parcela em crescendo nas despesas do SNS. Este enorme impacto na saúde pública e na saúde financeira do SNS levou o Ministério da Saúde a implementar medidas para tratamento desta enfermidade. Estratégia O tratamento da obesidade requer uma abordagem multidisciplinar, com a intervenção desde o início de todas as especialidades que consensualmente constituem a equipa que trata este tipo de patologia, nomeadamente a Cirurgia Geral, Endocrinologia, Nutrição, Psicologia e Cirurgia Plástica. No que concerne ao contributo da Cirurgia Plás‑ tica é nosso entender que esta especialidade deve acompanhar a evolução destes doentes desde a primeira consulta. Infelizmente a realidade é outra. O histórico da nossa prática clínica diz‑nos que os doentes que nos chegam, numa percentagem considerável de casos, vêm por insucesso do tra‑ tamento a que estavam a ser submetidos e não porque fosse o “timing” correcto para a intervenção da nossa especialidade. Desta situação decorre que a nossa postura seja com frequência reenviar os doentes para a especialidade que entendemos ser mais adequada naquele momento para tratar o * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 55-57 56 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e doente, seja ela a Cirurgia Geral, a Psicologia, a Nutrição ou Endocrinologia. O papel da cirurgia plástica O papel da Cirurgia Plástica no tratamento do doente obeso centra‑se basicamente na remodelação corporal pós‑perda ponderal maciça. Normal e classicamente as áreas anatómicas que mais se deformam com as grandes perdas de peso são a cabeça e pescoço, cintura escapular, cintura pélvica e coxas. A cabeça e pescoço na cultura Portuguesa, e coincidindo com a nossa estatística, são as áreas anatómicas menos frequentemente procuradas para correcção. Quando essa procura se efectiva as opções terapêuticas passam pela clássica riti‑ dectomia cervico‑facial com ou sem infiltração de gordura simultânea (permitindo restituir volume às áreas dele depletadas). No que concerne à cintura escapular as áreas a corrigir situam‑se nos braços, face lateral do tórax e regiões mamárias, e podem ser corrigidas isoladamente ou em associação. Nos braços o trata‑ mento centra‑se na chamada braquioplastia, muitas vezes associada a lipoaspiração (esta manobra não se destina necessariamente a diminuir o volume, mas substitui as cruentas dissecções necessárias à remodelação braquial). Na face lateral do tórax tem lugar a remoção dos tecidos dermoadiposos redundantes, que podem ser excisados ou migrados para as regiões mamárias, quando estas estruturas se encontram depletadas de volume. Nas regiões mamárias geralmente tem lugar a realização de mastopexia, que pode ser associada, ou não, a “filling” mamário com tecido redundante da face lateral do tórax, como atrás se referiu. No que diz respeito à cintura pélvica a intervenção plástica actualmente mais consensual consiste numa dermolipectomia circular do tronco, a qual no seu componente anterior corresponde à clássica abdomi‑ noplastia com transposição umbilical e plicatura dos rectos (que apenas em alguns casos tem indicação). Enquanto o seu componente posterior consiste no “lifting” da região nadegueira com excisão dos tecidos redundantes dermoadiposos das regiões lombo‑sagradas, que nas situações de falta de pro‑ jecção nadegueira são transpostos e suturados aos sulcos infra‑nadegueiros, para corrigir o contorno das nádegas, muitas vezes apagado. Nas coxas têm lugar as dermolipectomias com componente horizontal e/ou vertical. Para este tratamento tem grande contributo a associação da lipoaspiração, pois com este acto facilitamos a mobilização dos tecidos dermoadiposos, evitando‑se assim grandes dissecções. Critérios Os critérios do”timing” para a cirurgia de remo‑ delação corporal pós‑perda ponderal não são rígi‑ dos, havendo várias normas publicadas. A título de exemplo apresenta‑se um conjunto de parâmetros indicadores do ”timing” deste tipo de cirurgia: 1. 2. 3. 4. Peso estável IMC<32‑35 Kg/m2 Idade<55 anos Hgb>12g/dL Tal como acima já referido, realçamos o carácter teórico e aleatório destes parâmetros. A decisão do acto cirúrgico é ditada sempre pelo senso clínico após apreciação dos mencionados indicadores. Baseado no índice de massa corporal (IMC), e também sob o ponto vista teórico, estabeleceu‑se uma classificação para estes doentes, assim: Doente tipo I <28 Kg/m2 Doente tipo II 28‑32 Kg/m2 Doente tipo III >32 Kg/m2 Esta classificação visa orientar de forma não vinculativa o cirurgião quanto às prioridades da remodelação corporal, isto é, tem por objectivo ajudar a definir por onde, e como começar a remodelação corporal. Mas será o IMC um factor tão determinante na remodelação corporal? No nosso entender este parâ‑ metro é apenas um dos indicadores, que conjugado com os restantes, vai pesar na decisão clínica de qual e quando o tratamento de remodelação corporal. A cirurgia de remodelação corporal A cirurgia de remodelação corporal pós‑perda ponderal maciça é uma cirurgia longa (5‑6h). É longa devido ao facto de o acto cirúrgico envolver extensas áreas e, com frequência, envolver diferentes áreas anatómicas. Este envolvimento simultâneo de diferentes áreas anatómicas resulta num sinergismo de resultados. A cuidada selecção dos pacientes, a optimização do tempo cirúrgico, a optimização da técnica cirúrgica e a utilização de drenos de longa duração são dos Obesidade – Uma visão multidisciplinar principais factores que contribuem para a baixa incidência de complicações que temos. O tempo de recuperação, embora diferente con‑ forme o acto cirúrgico realizado, é geralmente longo. Conclusão Em suma, a obesidade é um grave problema de saúde pública que afecta de modo crescente a sociedade ocidental. A introdução de medidas anti ‑obesidade condicionou a expansão da cirurgia de remodelação corporal pós‑perda ponderal maciça, obrigando à progressiva diferenciação dos cirurgiões plásticos a esse nível. O Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital da Prelada não fugiu à regra e é de forma sustentada e exponencial que assistimos a uma cada vez maior procura por parte deste tipo de pacientes. Consideramos que esta área é de facto uma área em expansão e que a curto‑prazo mobilizará uma significativa percentagem dos cirurgiões plásticos em seu redor, dada a magnitude que o problema da obesidade representa. É também com satisfação que constatamos o grande impacto físico e psicológico da nossa intervenção nestes pacientes. 57 Obesidade e cirurgia bariátrica: perspectiva multidisciplinar Obesity and bariatric surgery: interdisciplinary perspective Vânia Sousa Lima* Assistente da Faculdade de Educação e Psicologia, Investigadora do Centro de Estudos em Desenvolvimento Humano, Universidade Católica Portuguesa Palavras‑chave: obesidade; cirurgia bariátrica; avaliação psicológica; avaliação nutricional Keywords: obesity; bariatric surgery; psychological assessment; nutritional assessment A consideração de que a obesidade se assume como um problema de saúde pública nos países desenvolvidos decorre da sua prevalência, dos riscos que se lhe associam (Fandiño, Bechimol, Coutinho & Appolinário, 2004), da sua cronicidade e da comorbilidade com outras condições físicas (como sejam a apneia do sono ou doenças car‑ diovasculares) e psicológicas (como depressão ou outras perturbações do humor, ou perturbações do espectro da ansiedade). A crescente prevalência da obesidade, associada à escassez de intervenções cujos resultados sejam mantidos a longo prazo, e ao desenvolvimento de técnicas cirúrgicas laparoscópicas, constituem‑se como factores tidos como conducentes à prolifera‑ ção de cirurgias bariátricas na última década (e.g., Bauchowitz, Gonder‑Frederick, Olbrisch, Azarbad, Ryee, Woodson, Miller & Schirmer, 2005). A já referida comorbilidade psicopatológica requer que a avaliação pré‑cirúrgica contemple a avaliação psicológica, com destaque para as perturbações de humor, ansiedade e personalidade, exigindo‑se necessariamente a inclusão de profissionais de saúde mental (psiquiatras e psicólogos) neste processo. Em acréscimo, atente‑se ao abuso de substâncias por parte dos candidatos a cirurgia bariátrica, que frequentemente se constitui como uma estratégia de regulação emocional, tal como tende a verificar‑se aquando da presença de perturbações do compor‑ tamento alimentar, em particular do binge eating (e.g., Glinski, Wetzler & Goodman, 2001). No que concerne ao estabelecimento das con‑ dições necessárias para a realização da cirurgia bariátrica, alguma controvérsia persiste, seja em redor da perturbação comórbida identificada, seja da intensidade/gravidade da mesma. O consenso emerge, porém, quando, para além da avaliação psicológica e nutricional cuidada e exaustiva no momento pré‑cirurgia, se associa um acompanha‑ mento psicológico adaptado às reais necessidades de cada indivíduo em momento ulterior. Neste contexto, a consideração exclusiva do preenchimento dos crité‑ rios de diagnóstico psicopatológico assume‑se como restrita, devendo a avaliação psicológica contemplar a presença e impacto de sintomas psicológicos ainda que não configurem quadros específicos de psicopatologia. Concomitantemente, aspectos relativos à adesão terapêutica não devem ser negligenciados, dada a evidência da contribuição que esta variável desempe‑ nha no sucesso terapêutico, em antítese ao verificado aquando da presença de expectativas irrealistas no “milagre cirúrgico” (Rabner & Greenstein, 1991), que conduz à desresponsabilização individual no processo de diminuição de peso e/ou manutenção do peso perdido (Travado, Pires, Martins, Ventura & Cunha, 2004). Efectivamente, vários autores subli‑ nham a relevância da avaliação psicológica e da * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 59-60 60 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e adequação cognitiva e comportamental do indivíduo relativamente ao tratamento como cruciais factores da sua eleição e respectivo prognóstico (e.g., Glinski, Wetzler, & Goodman, 2001). Neste sentido, e assumindo a multifactorialidade etiológica da obesidade, urge que os processos de avaliação e intervenção adoptados se constituam como simultaneamente abrangentes e integradores. Abrangentes porque deverão contemplar múltiplas abordagens (como a nutricional, farmacológica, cognitiva e comportamental) e integrativas porque dever‑se‑ão constituir como complementares e pro‑ motores de uma visão holística do indivíduo com obesidade. Intrínseca a esta conceptualização emerge a indispensabilidade de se desenvolver investigação sistematizada que contribua para o conhecimento em torno da adequabilidade da avaliação e eficácia da intervenção desenvolvida. Necessariamente, pois, o estabelecimento de equi‑ pas multidisciplinares cujo modus operandi assente na articulação interdisciplinar, assume‑se como um repto cuja consecução acarretaria a promoção da qualidade do processo de avaliação e intervenção junto do indivíduo obeso e, por inerência, da concre‑ tização e consubstanciação dos ganhos terapêuticos ao longo do tempo, a que se associaria maximização dos recursos disponíveis e, deste modo, minimização dos custos associados. Bibliografia 1. Bauchowitz, A. U., Gonder‑Frederick, L.A., Olbrisch, M.E., Azarbad, L., Ryee, M. Y., Woodson, M., Miller, A., & Schirmer, B. (2005). Psychosocial Evaluation of Bariatric Surgery Candidates: A Survey of Present Practices. Psychosomatic Medicine. 67(5): 825‑32. 2. Fandiño, Bechimol, Coutinho & Appolinário, 2004. Cirurgia Bariátrica: aspectos clínico‑cirúrgicos e psiquiátricos. Revista de Psiquiatria. 26’(1): 47‑51. 3. Glinski, J., Wetzler, S., & Goodman, E. (2001). The psychology of gastric bypass surgery. Obesity Surgery,11, 581‑588. 4. Rabner, J. G., & Greenstein, R. J. (1991). Obesity surgery: Expectation and reality. International Journal of Obesity, 15, 841‑845. 5. Travado L, Pires R, Martins V, Ventura C, Cunha S. (2004) Abordagem psicológica da obesidade mórbida: Caracterização e apresentação do protocolo de avaliação psicológica. Análise Psicológica, XXII (3): 533‑550. A consulta de Nutrição no pré e pós‑operatório para tratamento da obesidade – Hospital da Prelada Dr. Domingos Braga da Cruz Pre‑ and post‑surgery nutritional intervention at Hospital of Prelada Dr. Domingos Braga da Cruz Maria do Rosário Viterbo Seixas de Castro Martins*1 e Sílvia Carina Gonçalves Pinhão Cruz**2 Nutricionista – Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 1 Nutricionista – Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 2 Resumo Para o tratamento da Obesidade, no Hospital da Prelada, existe uma equipa multidisciplinar, da qual faz parte importante a consulta de Nutrição. Os doentes que são enviados para acompanhamento nutricional, são enviados pelas várias especialidades do hospital ou pelo médico de família. O tipo de tratamento a que o doente obeso pode ser submetido (colocação ou não de balão intragástrico e/ou banda gástrica e/ou cirurgia plástica) vai depender do perfil do doente e da resposta que este oferece aos tratamentos que vão decorrendo. Especificamente nos doentes obesos, a consulta de Nutrição desempenha um importante papel antes, durante e após a perda de peso. Pretende‑se que o individuo altere lenta e gradualmente os seus hábitos alimentares e de prática de actividade física desde cedo. As alterações conseguidas devem ser mantidas ao longo do tempo para a manutenção dos resultados obtidos. Cada uma das especialidades da equipa multidisciplinar intervém de acordo com a evolução que o doente vai tendo e sempre que seja necessário para uma melhor evolução do estado de saúde física e mental de cada individuo. Abstract The nutrition appointment in Hospital of Prelada receives patients from other medical specialties. The kind of treatment a patient that suffers from obesity is subjected (placement of gastric balloon or band and/or plastic surgery) depends on the patient profile and on his reaction to the treatments he is being subjected. The intervention of each medical specialty on a patient depends on his own evolution and always that is necessary for a better physical and mental health. The nutrition appointment plays an important role before, during and after the loss of weight. It is desired that each patient changes slowly and gradually his alimentary and exercise habits from early stages. The new habits adopted should be maintained in order to keep the positive results obtained. Keywords: Obesity, Multidisciplinas approach, BIG, Gastric band Palavras‑chave: Obesidade, Equipa Muldisciplinar, Consulta de Nutrição, Balão Intragástrico, Banda Gástrica Introdução A prevalência da obesidade tem aumentado por todo o mundo. Estima‑se que existam 1,2 biliões de pessoas com sobrepeso e 300 milhões dessas sejam obesas. (1,2) Sendo um crescente problema de saúde pública, a obesidade é uma das grandes responsáveis pelos constantes aumentos dos custos de saúde. (3) Ao longo das últimas décadas, as pesquisas têm demonstrado que a prática regular de actividade física, aliada a uma ingestão adequada às necessidades * [email protected] **[email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 61-64 62 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e de cada um, desempenham um importante papel na prevenção e controlo das consequências mais nefastas da diabetes e obesidade, bem como de algumas doenças cardiovasculares.(4‑7) Os programas de perda de peso que inicialmente eram maioritariamente baseados na diminuição da ingestão energética, rapidamente foram caracterizados por dificilmente ajudar a reduzir a gordura corporal e provocar um impacto negativo no metabolismo corporal. (8) A grande preocupação relacionada com a obesi‑ dade está, na maior parte das situações, associada aos factores de risco que dela advêm. (3) Apesar do importante papel da prevenção, a gestão da obesidade e o acompanhamento dos indivíduos obesos continua a ser um grande desafio para a saúde pública. As políticas mais comuns envolvem alterações nos estilos de vida, hábitos alimentares e prática de actividade física, métodos farmacológicos e cirurgia (para as obesidades de maior grau). (9) Com a cres‑ cente ênfase atribuída a estas políticas têm surgido cada vez mais programas de perda de peso. (10) Vários estudos têm, no entanto, demonstrado que as alterações a nível comportamental são cruciais para o sucesso da maioria desses programas. (9,11) Muitos chegam mesmo a salientar a importância da colaboração entre os doentes e o nutricionista de forma a melhor identificar e entender as causas do excesso de peso. É fundamental identificar e compreender as relações entre os pensamentos, sentimentos e os comportamentos com o grande objectivo de identificar a melhor solução para cada caso. consulta de Nutrição do Hospital da A Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz À consulta de Nutrição do Hospital da Prelada chegam pacientes de algumas especialidades do Hospital: Cirurgia Geral, Cirurgia Plástica, Ortopedia, Medicina Interna, entre outras. Grande parte dos doentes são enviados à consulta de Nutrição por excesso de peso ou obesidade, sendo o princi‑ pal o objectivo a perda de peso ou prevenção do ganho de peso pós intervenção cirúrgica, outros são encaminhados por terem alguma patologia gastroin‑ testinal ou possuírem distúrbios alimentares, como bulimia ou anorexia, por doença renal ou hepática, por dislipidemia ou outra situação que justifique o acompanhamento nutricional/alimentar. Na primeira consulta é feito um levantamento dos dados do doente: idade, estado civil, profissão, número de filhos, antecedentes pessoais e fami‑ liares de doença, hábitos tabágicos e de consumo de bebidas alcoólicas. É também administrado um questionário sobre hábitos e preferências alimentares, bem como frequência de consumo de alguns grupos de alimentos mais riscos em açúcares ou gorduras. O doente é avaliado sob o ponto de vista antropo‑ métrico, nomeadamente peso, altura, perímetros da cintura e da anca e é feita avaliação da percentagem de massa gorda por bioimpedância. Com base em todas as informações recolhidas, é elaborado um plano alimentar individualizado, de acordo com as necessidades do doente, associado a um aconselha‑ mento relativo à prática de actividade física. Tal como tem sido referido por vários autores, os programas de perda de peso devem focar a sua atenção no doente e nos seus interesses. Após ter compreendido o modo como o doente vê e sente os seus problemas, o profissional de saúde deve definir as estratégias e objectivos conjuntamente com o doente para envolvê‑lo tanto quanto possível. É fundamental que o paciente possa sentir os benefícios da mudança e assim automotivar‑se. Stewart e Little et al. salientam cinco medidas fundamentais para um programa centrado no paciente: A) explorar o motivo da consulta, as principais preocupações, e a necessidade de informação; B) compreender a realidade pessoal e o contexto familiar do paciente; C) encontrar uma solução que se ajuste ao problema e satisfaça as necessidades do paciente; D) reforçar a importância de reduzir o risco de doença e promover um melhor estado de saúde; E) reforçar a contínua relação e apoio entre o paciente e o profissional de saúde. (12) Do mesmo modo, as Nutricionistas do Hospital da Prelada procuram ir, o mais possível, de encontro aos hábitos e gostos de cada paciente e, progressiva‑ mente, promover alterações nos hábitos alimentares e de actividade física, tendo sempre presente os objectivos de cada doente. Em cada consulta são estabelecidos pequenos objectivos que o paciente é convidado a atingir até à consulta seguinte. No caso das consultas para perda de peso, caso as alterações propostas se mostrem insuficientes para atingir os objectivos desejados, podemos recorrer à colocação de um balão intragástrico (BIG) e/ou banda gástrica (BG). As consultas têm uma periodicidade variável depen‑ dendo do motivo da consulta, da área de residência do doente, da sua disponibilidade financeira para A consulta de Nutrição no pré e pós-operatório para tratamento da obesidade se deslocar ao Hospital, e até do próprio perfil psicológico do doente, pois nalguns casos um acom‑ panhamento mais assíduo produz melhores efeitos. A consulta de Nutrição pré-cirurgia Como já foi referido anteriormente, muitos dos doentes que chegam à consulta de Nutrição estão propostos para a colocação de um BIG e/ou de uma BG. Durante alguns meses cabe à equipa multidis‑ ciplinar (composta por: cirurgião, nutricionista e psicólogo) avaliar se o doente reúne, ou não, os requisitos necessários para enfrentar o tratamento a que inicialmente se propõe, nomeadamente se é capaz de seguir um plano estruturado, se é capaz de perder peso, se está psicologicamente estável para se submeter ao tratamento e se está analítica e fisicamente capaz de se submeter à cirurgia proposta. O acompanhamento do doente pré-intervenção cirúrgica é fundamental pois é durante este período que o doente vai ser sensibilizado para a importância da alteração dos seus hábitos alimentares e da prática de actividade física, sem as quais nunca poderá alcançar os objectivos que pretende. É importante que o doente compreenda que a colocação de uma BG ou de um BIG não pode ser o ponto de partida para a perda de peso ou alteração de hábitos de vida. Esse trabalho deve ser feito previamente. Há, inclusive, casos em que o doente perde tanto peso durante o acompanhamento pré‑intervenção que acaba por não ser necessário recorrer ao procedimento cirúrgico inicialmente proposto. Durante esta fase as consultas são, idealmente, espaçadas de 2 em 2 ou 3 em 3 meses. BIG ou Banda Gástrica – Alta Hospitalar Os doentes iniciam uma dieta pobre em resíduos, como preparação para a cirurgia, nos 3 dias que antecedem a admissão hospitalar. As primeiras refeições no hospital após a inter‑ venção são de líquidos claros (chá, água chalada, água de arroz, entre outros.). Caso não haja qualquer intercorrência, o doente tem alta no dia seguinte à intervenção e é orientado para seguir uma dieta de consistência líquida por um período de um mês (até a reavaliação na consulta de Nutrição). A dieta prescrita é de 1200Kcal no caso das mulheres e de 1500Kcal no caso dos homens, ambas com 50% de hidratos de carbono, 30% de 63 gorduras e 20% de proteínas, sempre adaptadas aos gostos e horários de cada doente. Todos os doentes fazem uma suplementação vitamínica e mineral para equilibrar a dieta e suprir eventuais carências que possam existir. A consulta de Nutrição pós-cirurgia Um mês após colocação de BG ou BIG o doente é reavaliado pelo Nutricionista. Caso não tenham surgido dificuldades associadas ao cumprimento do plano alimentar proposto, o doente inicia uma dieta de consistência mole mantendo a mesma distribuição percentual energética em macronutrientes, que ao terceiro mês, se permanecer sem queixas associadas à alimentação, passa a consistência normal. Em cada consulta de seguimento são registados os parâmetros antropométricos (peso e perímetros de cintura e anca), para verificar a evolução do doente e são avaliadas as dificuldades sentidas no cumprimento do plano alimentar, procedendo‑se aos reajustes necessários. Os doentes são avaliados mensalmente nos 6 primeiros meses após a alta hospitalar. Do sétimo ao décimo segundo mês, as consultas são espaçadas de 2 em 2 meses e, atingido o primeiro ano, o acompanhamento é feito de três em três meses, ou sempre que se justifique. A tolerância aos alimentos é variável pelo que alguns alimentos deverão ser testados individual‑ mente. O doente deve ser alertado para parar de comer/ /beber logo que se sinta satisfeito e não se forçar a cumprir as quantidades previstas no seu plano alimentar. Por vezes, os doentes que não conseguem ingerir o previsto no plano alimentar recorrem a alimentos de elevada densidade energética de fácil deglutição. Essa ingestão não só desequilibra a dieta como prejudica a perda de peso, podendo mesmo resultar num ganho de peso. Balão Intragástrico O BIG é colocado por endoscopia e permanece no estômago do doente por um período médio de seis meses. O acompanhamento do doente obeso pré-colo‑ cação de BIG é muito importante. É durante esse tempo de preparação que o doente é convidado a alterar gradualmente os seus hábitos de forma 64 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e a obter os melhores resultados possíveis com a colocação do BIG. É muito importante que o doente compreenda que as alterações conseguidas devem ser mantidas ao longo da vida e não apenas durante o período de permanência do BIG no estômago. O doente é avaliado pelo Nutricionista mensal‑ mente tendo como objectivo principal a máxima perda de peso durante os seis meses. Após remoção do BIG pretende‑se que o doente mantenha o peso ou, se possível, vá continuando a reduzir, ainda que lentamente o seu peso. As consultas são idealmente bimestrais ou trimestrais. Conclusão No Hospital da Prelada os doentes são integrados e acompanhados por uma equipa multidisciplinar que envolve várias especialidades: Cirurgia Geral, Gastrenterologia, Nutrição, Psicologia, Psiquiatria e Cirurgia Plástica. Cada uma das especialidades intervém de acordo com a evolução conseguida pelo doente e, sempre que necessário, acompanhando a sua evolução na saúde física e mental. A consulta de Nutrição desempenha, como referido por vários autores, um importante papel antes, durante e após a perda de peso. A obesidade, sendo considerada uma doença crónica, nunca se trata definitivamente pelo que o acompanhamento deve ser tão prolongado quanto possível. Assim, a consulta de Nutrição tem como objectivo máximo a promoção de alterações lentas e graduais dos hábitos de vida para que sejam sustentáveis ao longo do tempo, extensíveis a todo o ambiente familiar e possam ser transmitidas ao longo das gerações contrariando o ambiente “obesogénico” característico de muitos lares portugueses. Bibliografia 1. Wilborn, C.; Beckham, J.; Campbell, B. et al. Obesity: Prevalence, Theories, Medical Consequences, Management, and Research Directions. Journal of The International Society of Sports Nutrition, 2005, 2: 4‑31. 2. Freedman, D.S.; Khan, L.K.; Serdula M.K. et al. Trends and correlates of class 3 obesity in the United States from 1990 and 2000. Jama, 2002, 288: 1758‑1761. 3. Report on Population Survey; Department of Health: Hong Kong, China, 2004. 4. Volek, J.S.; Gomez, A.L.; Love, D.M. et al. Effects of an 8‑week weight ‑loss program on cardiovascular disease risk factors and regional body composition. Eur J Clin Nutr, 2002, 56:585‑592. 5. Fox, A.A.; Thompson J.L.; Butterfield, G.E. et al. Effects of diet and exercise on common cardiovascular disease risk factors in moderately obese older women. Am J Clin Nutr, 1996, 63: 225‑233. 6. Larson‑Meyer, D.E.; Heilbronn, L.K.; Redman, L.M. et al. Effect of calorie restriction with or without exercise on insulin sensitivity, beta‑cell function, fat cell size, and ectopic lipid in overweight subjects. Diabetes Care, 2006, 29: 1337‑1344. 7. Ross, R.; Janssen, I.; Dawson, J. et al. Exercise‑induced reduction in obesity and insulin resistance in women: a randomized controlled trial. Obes Res, 2004, 12: 789‑798. 8. Stiegler, P.; Cunliffe, A. The role of diet and exercise for the maintenance of fat‑free mass and resting metabolic rate during weight loss. Sports Med, 2006, 36: 239‑262. 9. Woo, J.; Sea, M.M.; Tong, P. et al. Effectiveness of a lifestyle modification programme in weight maintenance in obese subjects after cessation of treatment with Orlistat. J. Eval. Clin. Pract, 2007, 13, 853‑859. 10. Tsai, A. G.; Wadden, T. A. Systematic review: an evaluation of major commercial weight loss programs in the United States. Ann Intern Med. 2005, 142, 56‑66. 11. Jones, L.R.; Wilson, C.I.; Wadden, T.A. Lifestyle modification in the treatment of obesity: an educational challenge and opportunity. Clin Pharmacol Ther. 2007, 81, 776‑779. 12. Little, P.; Everitt, H.; Williamson, I. et al. Observational study of effect of patient centeredness and positive approach on outcomes of general practice consultations. BMJ 2001, 323, 908‑911. Consulta de Psicologia no Per‑Operatório da Obesidade Psychological Consultation in the Perioperative period of Obesity Clara Estima Martins*1 e Filipa Mucha Vieira**2 Psicóloga, Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 1 Psicóloga, Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 2 Resumo O excesso de peso e a obesidade constituem uma situação crónica complexa com um impacto negativo na saúde, de difícil tratamento, com uma prevalência elevada e crescente, associada a vários problemas psicológicos. A principal intervenção psicológica é centrada no indivíduo e baseada em alterações no comportamento. O facto de a cirurgia bariátrica ser o único tratamento efectivo de acção prolongada mas exigente e com riscos necessita de uma avaliação psicológica prévia e de acções didácticas claras sobre todo o processo de tratamento e obriga a um compromisso de participação activa do paciente. Dela será elaborado um parecer técnico a apresentar em equipa multidisciplinar a fim da avaliação de critérios cirúrgicos. A acção psicológica no internamento é de apoio educacional do comportamento. Após a cirurgia e na fase longa de seguimento, além da necessidade de reavaliação psicológica, importa prestar cuidados regulares de psicoterapia de cariz cognitivo‑comportamental para maximizar as capacidades do indivíduo no seu tratamento. Palavras‑chave: obesidade; intervenção psicológica; cirurgia bariátrica A obesidade, que constitui uma situação crónica, tem um impacto negativo na saúde, no bem‑estar psicossocial, na longevidade e na qualidade de vida daqueles que por ela são afectados (Devlin et al., 2000; Kolotin et al., 2001). Os dados epidemiológicos mostram aumento dos índices de morbilidade e de mortalidade com índices de massa corporal (IMC) superiores a 25 Kg/m2 (Pin‑Sunyer, 1998) e, em especial, se estiver presente obesidade mórbida Abstract Overweight and obesity are a complex chronic condition with a negative health impact, difficult to treat, with a high and increasing prevalence associated with various psychological problems. The main psychological intervention is focused on the individual and based on behaviour changes. It is a fact that bariatric surgery is the only effective treatment of prolonged action demanding and with risk that needs a prior psychological evaluation, action and clear teaching on the entire treatment process and requires a commitment to an active participation of the patient. The technical advice will be drawn between a multidisciplinary team to the evaluation of surgical criteria. The psychological action in the internment is based on educational support behaviour. After surgery and during long follow‑up beyond the psychological need for reassessment, it should be provided regular care of cognitive‑behavioural psychotherapy in order to maximize the capabilities of the individual in their treatment. Keywords: obesity; psychological intervention; bariatric surgery (IMC> 40 Kg/m2) (Kral, 1985). A obesidade é con‑ siderada pela OMS um problema de saúde pública com uma prevalência que tem vindo a aumentar nos países industrializados e está a tornar‑se um problema maior do que o da subnutrição (Travado et al., 2004; Carmo et al., 2008; Elte et al., 2008). Em Portugal, mais de 50 por cento da população adulta tem excesso de peso ou obesidade com uma prevalência de 53,6 por cento e uma razão de 0,9 na relação mulher/homem (Carmo et al., 2008). * [email protected] **[email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 65-67 66 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A obesidade é uma das situações médicas mais fáceis de reconhecer mas de muito difícil tratamento (Devlin et al., 2000). É uma doença complexa e multifactorial que se desenvolve pela interacção de factores genéticos, metabólicos, sociais, comporta‑ mentais e culturais (Bocquier et al., 2005). Por isso têm sido praticados variados tipos de trata‑ mento no combate ao excesso de peso e à obesidade, alguns de um modo complementar, com resultados variáveis: 1) de terapêutica cirúrgica que incluem procedimentos restritivos gástricos (banda gástrica ajustável por laparoscopia; gastroplastia vertical em banda; clipagem do estômago por laparoscopia) e procedimentos malabsorptivos (“bypass” gástrico; e “bypass” bílio‑pancreático); 2) balão intragástrico por endoscopia; 3) terapêutica farmacológica; 4) tratamento psicológico e, se necessário, psiquiátrico; 5) dieta hipocalórica; 6) prática desportiva. Aspectos Psicológicos De salientar que tem sido referido que o grau de obesidade está relacionado com o risco de desen‑ volvimento de problemas psicológicos interligados com a obesidade (Klem et al., 2000; Kolotin et al., 2001). Existem diversas variáveis psicológicas que podem estar associadas à obesidade tais como: baixa auto‑estima; insatisfação com a imagem corporal; isolamento social; sentimentos de culpa, de rejeição e/ou de exclusão social; baixo auto‑controlo com‑ portamental; e sintomatologia depressiva ou ansiosa (Travado et al., 2004; Bean et al., 2008). A principal intervenção psicológica em pacientes obesos é baseada em alterações no comportamento. Os programas comportamentais para o controlo de peso são considerados os de eleição para indivíduos com excesso de peso ou moderadamente obesos, comportando melhorias ao nível dos hábitos ali‑ mentares, do estilo de vida e também no aumento da prática do exercício físico (Devlin et al., 2000). O tratamento comportamental deve incluir o esta‑ belecimento de metas de forma a permitir a avaliação do progresso individual do paciente e necessita de clareza na orientação deste, isto é, mais do que simplesmente ajudar o paciente a decidir qual o seu objectivo deverá orientá‑lo no modo de como o fazer. Este tratamento orienta progressivamente pequenas em vez de grandes mudanças, permitindo ao paciente obter sucessos contínuos durante o mesmo e assim ir melhorando a sua adesão e os resultados (Wadden et al., 2005). A consulta psicológica a indivíduos obesos para controlo de peso e para a auto‑aceitação é um processo de longo prazo, que necessita de uma relação de confiança entre o profissional de saúde e o paciente, tendo em conta ambas as perspectivas, as do paciente e as do seu assistente psicológico. Deverá ser um processo dinâmico e grandemente influenciado pela acção interpessoal entre o clínico e o paciente (Neumark‑Sztainer, 1999; Bean et al., 2008). onsulta de Psicologia e Cirurgia da C Obesidade A cirurgia bariátrica constitui o único tratamento efectivo para uma perda significativa prolongada de peso na obesidade mórbida (Elte et al., 2008). A selecção e os cuidados pré e pós‑operatórios nos pacientes com obesidade mórbida devem ser prestados por uma equipa multidisciplinar de que faz parte um psicólogo clínico (Elte et al., 2008; Bean et al., 2008; Travado et al., 2004). De referir que para se alcançar uma evolução cirúrgica satisfatória é essencial que os pacientes estejam bem informados e motivados para a cirurgia e para a participação no tratamento e no seguimento de longo prazo, em formato de grupo e/ou individualizado. A – Apoio Pré‑Cirurgia Em primeiro lugar, importa realizar a avaliação psicológica de cada paciente. Para isso utilizamos um protocolo de que fazem parte uma entrevista clínica semi‑estruturada e questionários clínicos de caracterização psicológica de cada indivíduo. Procede‑se à exploração da história de vida; e à avaliação da existência de problemas emocionais, de dificuldade de autocontrolo alimentar, de algum distúrbio psicopatológico, da compreensão do plano de alimentação e de prática desportiva, de apoio familiar/social e de qual a motivação para a inter‑ venção cirúrgica. Esta avaliação psicológica permite a obtenção de dados objectivos para a emissão de um parecer técnico a apreciar em equipa multidisciplinar a fim de se poderem cumprir critérios de oportunidade e de selecção para cirurgia semelhantes aos referidos por Elte et al. (2008). Permite ainda facilitar uma abordagem psicológica personalizada nas várias fases de tratamento, de acordo com as necessidades de cada paciente. Consulta de Psicologia no Per-Operatório da Obesidade Na acção psicológica pré‑cirúrgica é importante realizar acções intencionais e didácticas esclarecidas centradas no paciente para a compreensão do trata‑ mento. O paciente deve entender que a cirurgia bari‑ átrica é um procedimento não‑fisiológico, exigente e com riscos (Elte et al., 2008), cuja eficácia a longo prazo necessita do cumprimento de um conjunto de regras. Assim, aquelas acções devem cumprir os seguintes objectivos: a) facilitar a expressão emocio‑ nal (problemas pessoais/familiares; adaptação social; imagem corporal; auto‑estima, etc.); b) desenvolver a gestão de expectativas/oscilações emocionais face ao tratamento; c) promover o autocontrolo alimen‑ tar (controlo da ingestão compulsiva, redução da ansiedade, gestão do tempo e estabelecimento de regras para o cumprimento do plano); d) promoção de estratégias de resolução de problemas; e) e desenvolver estratégias motivadoras face à prática desportiva regular (Bean et al., 2008). Por fim, nesta fase pré‑cirurgia bariátrica, importa obter do paciente um compromisso esclarecido de participação activa (Elte et al., 2008; Travado et al., 2004) que acentua a necessidade do maior esforço de adesão na interacção a desenvolver entre o paciente e a equipa multidisciplinar. B – Apoio no Internamento Preparação psicológica e educacional do compor‑ tamento do paciente no internamento no Serviço de Cirurgia Geral, nos períodos pré e/ou pós‑operatórios imediatos e acções de apoio e de esclarecimento para a adesão aos variados requisitos face ao tratamento. C – Apoio pós‑cirúrgico e de Seguimento De salientar o interesse nesta fase mais longa de realizar acções de reavaliação psicológica e de prestar cuidados regulares de psicoterapia de cariz cognitivo‑comportamental em formato individual e/ou grupal. Nas sessões individuais, o apoio pres‑ tado vai sempre de acordo com as necessidades de cada paciente e em acordo com os seus objectivos de tratamento conjugados com os dos profissionais de saúde que o assiste. Nas sessões de grupo, os pacientes ao participarem as suas experiências e os resultados positivos e negativos obtidos, podem estimular‑se uns aos outros, no sentido de alcançar os objectivos preestabelecidos (Elte et al., 2008). Nestas intervenções, o psicólogo, integrado numa equipa multidisciplinar, actua de forma a maximizar as capacidades do indivíduo e a que ele ultrapasse 67 possíveis barreiras em prol do seu processo de tratamento desta doença crónica, no sentido da perda e da manutenção da perda de peso corporal, a bem da sua saúde e bem‑estar. Em conclusão, a consulta de Psicologia nos períodos per‑operatório e de seguimento constitui uma força de acção no apoio aos pacientes com obesidade em tratamento multidisciplinar, na promoção efectiva da sua saúde. Bibliografia 1. Bean MK, Stewart K, Obrisch ME – Obesity in America: implications for clinical and health psychologists. – Journal of Clinical Psychology in Medical Settings (2008) 15: 214‑224 2. Bocquier A, Verger P, Basdevant A, et al. – Overweight and obesity: knowledge, attitudes, and practices of general practitioners in France. – Obesity Research (2005) 13 (4): 787‑795 3. 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Wadden TA, Sarwer DB, Fabricatore AN, et al. – Psychosocial and behavioral status of patients undergoing bariatric surgery: what to expect before and after surgery. – The Medical Clinics of North America (2007) 91: 451‑469 Contra‑Indicações Psiquiátricas na Cirurgia Bariátrica Psychiatric Contraindications in Bariatric Surgery Ana Margarida Cordeiro* Psiquiatra Hospitalar, Centro Hospitalar Conde de Ferreira, Porto Resumo A cirurgia bariátrica é actualmente o único tratamento eficaz para a Obesidade mórbida. Embora a doença psiquiátrica não seja considerada como critério de exclusão, nos EUA a cirurgia bariátrica é adiada ou recusada em cerca de 15% dos candidatos devido a factores psicológicos. O objectivo deste artigo é a revisão da literatura relevante dirigida às questões colocadas pela doença psiquiátrica na cirurgia bariátrica, nomeadamente no processo de selecção e orientação dos candidatos com patologia psiquiátrica, seguida de discussão. Foram revistos os principais diagnósticos psiquiátricos no que respeita a riscos e contra‑indicações para a cirurgia bariátrica e os resultados cirúrgicos a longo prazo em candidatos com estas patologias. A identificação e o tratamento da sintomatologia psiquiátrica antes da cirurgia bariátrica são fundamentais. É também recomendada a monitorização pós‑cirúrgica da psicopatologia que pode comprometer a redução de peso. Palavras‑chave: obesidade, cirurgia bariátrica, psiquiátricos, psicopatologia Introdução A Obesidade está associada a prevalências mais elevadas de sintomatologia depressiva e ansiosa e de alterações do comportamento alimentar. Quanto à presença de doença psiquiátrica em candidatos a cirurgia bariátrica, estima‑se que cerca de dois terços tenham antecedentes de patologia psiquiátrica do Eixo I da DSM, com predomínio das Perturbações do Humor. Na avaliação pré‑cirúrgica, 24‑38% dos candidatos apresentam patologia do Eixo I, nomeadamente Perturbações do Humor (10‑16%) e Perturbações de Ansiedade (11‑24%) e as Perturbações do Comportamento Alimentar surgem Abstract Bariatric surgery is currently the only effective treatment for morbid obesity. Although psychiatric disorder is not considered an exclusion criterion for bariatric surgery, in the EUA this practice is delayed or denied for approximately 15% of surgery candidates due to psychological reasons. The aim of this article is to review the status of relevant literature addressing psychiatric issues in bariatric surgery, namely selection criteria and procedures towards candidates for weight loss surgery which present with psychiatric disorder, followed by discussion. Major psychiatric diagnoses were reviewed concerning risks and contraindications to bariatric surgery and long term surgical outcome. The assessment of psychiatric symptoms and its treatment before bariatric surgery is essential and postsurgical monitoring of psychopathology that may compromise weight reduction is recommended. Keywords: obesity, bariatric surgery, psychiatric, psychopathology em 10‑16%. Encontra‑se também num pequeno número de casos o Abuso de Substâncias (1.7%) 2,3,4. Nas Guidelines adoptadas pela American Society of Metabolic and Bariatric Surgery em 2004 recomenda ‑se que os candidatos a cirurgia bariátrica sejam avaliados por uma Equipa Multidisciplinar e que, quando necessário, sejam observados pela espe‑ cialidade de Psiquiatria. São considerados como critérios de exclusão para a cirurgia bariátrica a detecção de causas reversíveis de Obesidade, a presença de abuso de álcool ou drogas, a doença mental grave e não controlada e as pessoas que manifestam incapacidade para perceber os riscos, os benefícios e os resultados do tratamento, bem * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 69-73 70 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e como as mudanças de estilo de vida inerentes à cirurgia1. Nas Guidelines de 2004 a doença psiquiátrica não é um critério absoluto de exclusão. No entanto, estima‑se que cerca de 15% dos candidatos nos EUA sejam excluídos por este motivo, em particular por apresentarem quadros de depressão descompensada ou por não terem capacidade de compreensão do procedimento cirúrgico4. A consulta de Psiquiatria no âmbito da consulta multidisciplinar de Obesidade realiza‑se com os objectivos de: diagnosticar a patologia psiquiátrica, nomeadamente situações que interfiram com a capa‑ cidade de compreensão e de mudança de estilo de vida necessárias ao procedimento cirúrgico, bem como de instituir o seu tratamento com vista ao controlo dos sintomas e à compensação dos quadros clínicos. Material e métodos Realizou‑se uma pesquisa nas bases de dados Medline and PubMed dos artigos relevantes refe‑ rentes às relações entre patologia psiquiátrica e cirurgia bariátrica, nomeadamente contra‑indicações e prognóstico do procedimento cirúrgico, publicados entre 2000 e 2009. Foram seleccionados onze artigos. iscussão D Consumo de substâncias Nos estudos efectuados em populações de can‑ didatos a cirurgia bariátrica verifica‑se que até 32% dos indivíduos tem antecedentes de consumo de álcool ou drogas. No entanto, o seu número é muito inferior à data da avaliação, estando o Abuso de Tóxicos presente em apenas cerca de 1.7% dos candidatos. Compreende‑se que o Abuso de Tóxicos seja um critério de exclusão para a cirurgia bariátrica nas Guidelines de 20041,5. Nestes indivíduos são frequentes os comportamentos desadaptativos com interferência na sua vida profissional e social e as dificuldades de compromisso com os horários e as obrigações do quotidiano12. Outro aspecto importante é o efeito das substâncias tóxicas ao nível do apetite, do peso e da saúde em geral. Contudo, seria importante especificar se a presença de antecedentes de Dependência de Tóxicos deve constituir um factor de exclusão ou qual o período de tempo de abstinência necessário até se poder considerar segura a intervenção bariátrica. Demências e deficiência mental Os quadros demenciais, pelo compromisso das capacidades cognitivas que acarretam e pela sua evolução crónica, são à partida critérios de exclusão na selecção de candidatos a cirurgia bariátrica. Também os indivíduos com Deficiência Mental Moderada, Grave ou Profunda, devido às limitações ao nível do seu funcionamento intelectual e à sua autonomia reduzida, deverão ser excluídos na ava‑ liação pré‑cirúrgica5,12. Perturbações psicóticas Esquizofrenia Dentro do grupo de Perturbações psicóticas, a Esquizofrenia é a patologia psiquiátrica mais grave. Os indivíduos com Esquizofrenia têm uma maior prevalência de factores de risco cardiovasculares, nomeadamente HTA, doença coronária, diabetes, tabagismo e, em cerca de 42%, Obesidade. São causas de Obesidade nestes indivíduos a adopção de vida sedentária e de hábitos alimentares pouco saudáveis e, muitas vezes, o tratamento farmacológico6. De especial relevância é a utilização de fármacos mais recentes, como alguns antipsicóticos atípicos, com eficácia comprovada, mas que, pelo seu mecanismo de acção (bloqueio dos receptores 5‑HT2C e H1), provocam o aumento do apetite e do peso12. A Esquizofrenia enquadra‑se nos critérios de exclusão das Guidelines de 2004 devido à gravidade da sua sintomatologia. Esta patologia cursa com frequência com episódios de descompensação em que surgem delírios, alucinações e comportamento desorganizado (com compromisso do juízo crítico da realidade), bem como com deterioração cognitiva e sintomatologia negativa (avolição, isolamento social), aspectos que limitam a capacidade destes indivíduos de compreenderem o procedimento cirúrgico e de procederem a mudanças no seu estilo de vida5,12. Contudo, cerca de 10‑20% dos indivíduos com Esquizofrenia apresentam uma boa evolução, com períodos de estabilização prolongados e uma boa integração social e, mais raramente, profissional12. Desta forma, em casos pontuais devidamente ava‑ liados e de bom prognóstico, poder‑se‑á ponderar a realização de cirurgia bariátrica. No entanto, para além do acompanhamento psiquiátrico regular, torna‑se particularmente importante a existência de um bom suporte familiar que assegure que o indivíduo cumpra o tratamento e que, caso surja Contra-Indicações Psiquiátricas na Cirurgia Bariátrica alguma complicação pós‑cirúrgica ou mostre sinais de descompensação psiquiátrica, recorra de imediato ao hospital. Perturbações do humor Perturbação Bipolar Dentro das Perturbações do Humor, a Perturba‑ ção Bipolar tipo I é a que coloca mais questões na avaliação dos candidatos a cirurgia bariátrica. Esta patologia caracteriza‑se pelo aparecimento de episódios de Mania, com hiperactividade e pos‑ sibilidade de actividade delirante. Podem ocorrer também episódios de Depressão, por vezes com sintomas psicóticos e risco de suicídio12. Estes epi‑ sódios determinam com frequência a necessidade de internamento hospitalar. Estima‑se que cerca de 35% dos indivíduos com Doença Bipolar tipo I têm Obesidade6. À semelhança do que se verifica na Esquizofrenia, uma das causas identificadas para este fenómeno é o seu tratamento com fármacos que provocam aumento de apetite e do peso, como os antipsicóticos atípicos e alguns estabilizadores do humor clássicos (lítio e ácido valpróico) 12. Relativamente à evolução da Doença Bipolar tipo I, sabe‑se que cerca de 45% destes indivíduos têm vários episódios de descompensação ao longo da vida e que cerca de 20% mantêm alterações do humor residuais apesar do tratamento farmacológico instituído12. Como consequência, o diagnóstico de Doença Bipolar tipo I implica na maioria dos casos a exclusão no processo de selecção dos candidatos. No entanto, sabe‑se que cerca de 15% destes indivíduos têm uma boa evolução, com uma quase ausência de episódios e um funcionamento socio‑ profissional preservado12. Nos casos de melhor prog‑ nóstico pode‑se ponderar a intervenção bariátrica, desde que, tal como referido para a Esquizofrenia, esteja assegurado o acompanhamento psiquiátrico regular e a boa retaguarda familiar. Perturbações Depressivas Relativamente à sintomatologia depressiva, esta é frequente em candidatos à cirurgia bariátrica, chegando a ocorrer em 16% desta população. Verifica‑se que nos indivíduos do sexo masculino com Obesidade mórbida, a probabilidade de sofrerem de depressão é oito vezes superior à da população 71 geral; no sexo feminino, esta probabilidade é quatro vezes superior6. Nos indivíduos com Obesidade são comuns a baixa auto‑estima, a auto‑imagem negativa, a insatis‑ fação nas relações interpessoais e na vida conjugal, padecerem de queixas álgicas e de limitações físicas, serem vítimas de discriminação educativa, profissional e social. Estes factores determinam uma menor qualidade de vida1. A Obesidade favorece o aparecimento de doenças físicas, outro aspecto que aumenta a vulnerabilidade à depressão. Com efeito, indivíduos com doenças crónicas, tais como a diabetes ou a doença coronária, têm um risco de depressão aumentado (25% nalguns estudos) 12. Os quadros depressivos cursam com alterações do apetite e do peso, desinteresse pelas actividades quotidianas, abulia, anedonia e, nos episódios mais graves, sintomas psicóticos, o que dificulta a ade‑ são às mudanças de estilo de vida requeridas pela cirurgia bariátrica. Por este motivo, recomenda‑se o controlo dos sintomas e o tratamento da depressão previamente à intervenção cirúrgica5. Relativamente aos resultados da cirurgia bariátrica nesta população, verifica‑se que na maioria dos casos ocorre uma melhoria da depressão. No entanto, há um subgrupo de doentes que mantém a sintoma‑ tologia depressiva. Por outro lado, indivíduos com depressão após a cirurgia bariátrica têm menores taxas de sucesso, nomeadamente ao nível da redução de peso e da qualidade de vida5. Pode‑se concluir que o diagnóstico de Depressão, embora não implique a exclusão do candidato, torna imprescindível o seu tratamento antes do procedimento cirúrgico e a monitorização continuada da sintomatologia após a cirurgia bariátrica4,6. Perturbações de ansiedade As Perturbações de Ansiedade constituem um vasto grupo que inclui a Perturbação de Ansiedade Generalizada, a Perturbação de Pânico e Agorafobia, a Perturbação Obsessivo‑Compulsiva, a Fobia Social e a Perturbação Pós‑Stress Traumático. As Perturbações de Ansiedade são das mais fre‑ quentes em candidatos a cirurgia, estando presentes em 11‑24% dos indivíduos. De notar que em alguns estudos até 11% dos indivíduos tem história de Per‑ turbação Pós‑Stress Traumático, estando por clarificar a relação entre a ocorrência de eventos traumáticos precoces e o aparecimento de Obesidade3. 72 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A sintomatologia ansiosa pode ter interferência marcada no funcionamento socioprofissional dos indivíduos e muitas vezes está associada a uma elevação do limiar de saciedade e à irregularidade dos padrões alimentares. Também com frequência ocorre um aumento de ingestão de alimentos como tentativa de controlo da sintomatologia ansiosa. Por estas razões, o tratamento da ansiedade deve ser realizado antes da cirurgia bariátrica. Perturbações do comportamento alimentar Perturbação de Ingestão compulsiva de Alimentos (“Binge Eating Disorder”) Dentro do grupo das Perturbações do Comporta‑ mento Alimentar, o aparecimento em programas de emagrecimento de casos de Anorexia e de Bulimia Nervosas é raro. Muito mais frequente é a presença de Perturba‑ ção de Ingestão Compulsiva de Alimentos, carac‑ terizada pela ocorrência de ingestões compulsivas de grandes quantidades de comida acompanhadas de sensação de perda de controlo sobre o acto de comer. Os episódios provocam um mal‑estar significativo no indivíduo e, ao contrário da Bulimia Nervosa, não são acompanhados de comportamen‑ tos compensatórios (indução do vómito, toma de laxantes, etc.)12. Estes episódios são muitas vezes precipitados por estados emocionais e muitos destes indivíduos têm antecedentes de depressão, o que levou a colocar a hipótese da depressão poder gerar vulnerabilidade para o desenvolvimento desta patologia7. A Perturbação de Ingestão Compulsiva de Alimen‑ tos predomina no sexo feminino (65% dos casos) e afecta 2‑5% da população. Nas amostras recolhidas na comunidade, apenas 50% dos indivíduos com esta patologia são obesos. No entanto, estudos efectuados com indivíduos em programas de emagrecimento revelaram prevalências de Perturbação de Ingestão Compulsiva de Alimentos em cerca de 30%. Os indivíduos com Perturbação de Ingestão Compulsiva e Obesidade têm um início mais pre‑ coce de Obesidade e de dietas de emagrecimento, apresentam flutuações mais marcadas de peso ao longo da vida e têm uma tendência a aumento de peso ao longo de 20 anos. Estes dados parecem sugerir que a Perturbação de Ingestão Compulsiva de Alimentos pode constituir um factor de agravamento da Obesidade7. Relativamente à cirurgia bariátrica, a Perturbação de Ingestão Compulsiva de Alimentos muitas vezes melhora ou mesmo remite com a intervenção e não parece interferir negativamente ao nível da perda de peso. Contudo, verificam‑se mais complicações pós‑cirúrgicas e mais reajustes de Banda Gástrica quando esta patologia está presente5,8,9,10. A Perturbação de Ingestão Compulsiva que é diagnosticada após a cirurgia bariátrica tem sido associada a uma menor redução de peso e a casos de insucesso com recuperação do peso perdido aos 18‑24 meses4,8,9,10. Num estudo recente verificou‑se que a maioria dos casos com Perturbação de Ingestão Compulsiva após a cirurgia eram indivíduos que já tinham tido estes episódios no seu passado, isto é, constituíam casos de recaída de uma patologia préexistente10. Consequentemente, é de particular relevância a sinalização e a instituição de tratamento nos casos de Perturbação de Ingestão Compulsiva de Alimentos7 antes de realizar a cirurgia bariátrica e a vigilância continuada dos indivíduos após o procedimento4. Outros factores de selecção Características como a manifestação de desconforto significativo com o excesso de peso e a assiduidade nas consultas e exames marcados fornecem indirec‑ tamente informações quanto ao grau de motivação dos indivíduos e ao prognóstico para a cirurgia bariátrica1. Na avaliação é importante prestar atenção à envolvente familiar, pois um familiar próximo que discorde da cirurgia bariátrica pode interferir nega‑ tivamente nos resultados do tratamento. Com efeito, muitos centros privilegiam no processo de selecção a existência de concordância e apoio conjugal ou familiar11. Devem‑se também despistar situações de crise relacional aguda, em que o emagrecimento é procu‑ rado como solução rápida para problemas pessoais e conjugais4. Pelo contrário, uma vida afectiva, social e pro‑ fissional estável, com regularidade de horários e sem factores de stress são factores facilitadores da adopção de dietas alimentares e de estilos de vida mais saudáveis5. Os indivíduos com doença psiquiátrica deverão ter acesso a acompanhamento psiquiátrico continuado para o controlo da sintomatologia, de forma a evitar que esta prejudique o sucesso do tratamento bariátrico. Contra-Indicações Psiquiátricas na Cirurgia Bariátrica Bibliografia 1. Mechanick JI, Kushner RF et all. American Association of Clinical Endocrino‑ logists, The Obesity Society and American Society for Metabolic & Bariatric Surgery medical guidelines for clinical practice for the perioperative nutricional, metabolic, and nonsurgical support of the bariatric patient. Surg Obes Relat Dis 2008; 4(5):S109‑S184 2. Rosenberger PH, Henderson KE, Grilo CM. Psychiatric disorder comorbidity and association with eating disorders in bariatric surgery patients: a cross‑sectional study using structured interview‑based diagnosis. J Clin Psychiatry 2006; 67:1080‑1085 3. Kalarchian MA, Marcus MD et all. 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A intervenção em grupo tem um grande poder terapêutico pela facilitação da expressão emocional, pela possibilidade de troca de feedback, de modelagem, permitindo às pessoas um espaço seguro onde possam desenvolver estratégias mais adaptativas para lidarem com os seus problemas. A investigação nesta área revela resultados positivos na utilização da intervenção em grupo no tratamento da obesidade, nomeadamente ao nível do controlo da ingestão alimentar, auto‑estima e sintomatologia psicopatológica. Especificamente no contexto do tratamento cirúrgico da obesidade, os programas de intervenção grupal, quer na fase pré como pós cirurgia, parecem contribuir para um melhor ajustamento aos novos padrões alimentares e uma maior consciencialização e participação dos doentes no seu processo de emagrecimento. Abstract Currently in health system there is a growing interest in the study of psychological intervention in a group context. The group intervention has a great therapeutic power through facilitation of emotional expression, the possibility of feedback, modeling, allowing people a safe space where they can develop more adaptive strategies to cope with their problems. Research in this area shows positive results in the use of group intervention in the treatment of obesity, especially in terms of control of food intake, self‑esteem and psychopathological symptoms. Specifically in the context of surgical treatment of obesity, the group intervention programs, both in pre and post‑surgery, appear to contribute to better adjustment to the new eating patterns and a greater awareness and participation of patients in the process of weight loss Keywords: Groups; Psychological Intervention; obesity; bariatric surgery Palavras‑chave: Grupos; Intervenção Psicológica; obesidade; cirurgia bariátrica A Obesidade é actualmente considerada pela Organização Mundial de Saúde (WHO, 2002) um problema de saúde pública, com proporções epidémicas, atingindo cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. À baixa qualidade de vida destes doentes, resul‑ tantes dos problemas inerentes ao excesso de peso (e.g. hipertensão arterial, diabetes, patologias cardio‑ vasculares, osteo‑articulares), acrescem as variáveis psicológicas, nomeadamente a baixa auto‑estima, insatisfação com a imagem corporal, sentimentos de insegurança e culpa, percepção de baixo auto ‑controlo, pobre ajustamento social, sintomatologia depressiva e ansiosa, entre outras (e.g. Travado et al., 2004; Carmo, Fagundes & Camolas, 2008). O tratamento da obesidade deve ser perspectivado do ponto de vista multidisciplinar, contemplando várias componentes em função da severidade * [email protected] **[email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 75-77 76 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e da doença e dos contextos de intervenção. Este tratamento inclui os programas comportamentais para controlo de peso, que visam essencialmente a mudança de hábitos alimentares e estilo de vida, a farmacoterapia e, para os casos mais graves de obesidade mórbida, a cirurgia. Apesar dos resultados da cirurgia da obesidade serem globalmente positivos, nem todos os doentes apresentam sucesso a longo prazo, verificando‑se que alguns continuam a comer compulsivamente por motivos que não a sensação física de fome (Saunders, 2001). Por outro lado, a fase pós‑cirurgia exige múltiplas modificações que acontecem ao nível dos hábitos alimentares e estilo de vida, bem como mudanças no próprio corpo e nas relações com os outros. Todas estas mudanças potenciam no indivíduo inúmeras questões emocionais que deverão, no nosso entender, ser alvo de reflexão no contexto da componente psicoterapêutica do tratamento da obesidade. Actualmente no campo da saúde verifica‑se um crescente interesse pelo estudo da intervenção psi‑ cológica em contexto grupal. Esta revela‑se eficaz, nomeadamente pelo facilitar do encontro entre as pessoas, que ao reconhecerem as semelhanças dos seus problemas, encontram uma forma de suporte social alternativo, essencial na construção e desenvolvimento da sua identidade, bem como contribuir para um equilíbrio nas mais diversas situações (Guerra & Lima, 2005). A intervenção em grupo tem um grande poder terapêutico pela facilitação da expressão emocional, pela possibilidade de troca de feedback, de modelagem, permitindo às pessoas um espaço seguro onde possam desenvolver estratégias mais adaptativas para lidarem com os seus problemas. Para além destes aspectos, é de salientar uma redução de tempo e de custos associada a esta modalidade de intervenção. Renjilian e colaboradores (2001), num estudo que compara a eficácia da intervenção em grupo e intervenção individual no tratamento da obesidade, constatam que a intervenção grupal apresenta melho‑ res resultados ao nível da perda de peso. Seamore, Buckroyd e Stott (2006) referem que a eficácia da intervenção em grupo com a população obesa assenta no uso de estratégias cognitivo‑comportamentais, assim como na promoção de factores terapêuticos identificados por Yalom (1995) designadamente a possibilidade que o grupo oferece ao nível da partilha e troca de experiências, valorização da expressão emocional, responsabilidade e crescimento pessoal e desenvolvimento de competências interpessoais. Os referidos autores desenvolvem um programa de intervenção em grupo de 24 sessões semanais dirigido a mulheres obesas, visando a diminuição dos comportamentos de voracidade alimentar. Wolff e Clark (2001) avaliam a eficácia de um programa de intervenção de 15 sessões, num grupo de 12 mulheres obesas, verificando uma redução signifi‑ cativa na frequência dos episódios de compulsão alimentar e uma melhoria significativa ao nível da auto‑eficácia e na avaliação da imagem corporal. Também no contexto do tratamento cirúrgico, tem‑se assistido ao desenvolvimento de programas de intervenção em grupo. Saunders (2001) refere a pre‑ dominância de grupos de cariz psicoeducativo e de suporte, sugerindo a escassez de estudos sobre grupos de cariz psicoterapêutico. Neste sentido, desenvolve um programa de 12 sessões pós‑cirúrgicas, de cariz cognitivo‑comportamental, com influências da Tera‑ pia Interpessoal, cujos objectivos são promover um melhor ajustamento aos novos padrões alimentares, quebrar a associação pré‑existente entre comida e conforto emocional, desenvolver novas estratégias de coping e de comunicação interpessoal. Marcus e Elkins (2004) salientam a importância da fase pré ‑cirúrgica desenvolvendo programas de intervenção em grupo onde os doentes são acompanhados pré e pós cirurgia, visando uma maior consciencialização por parte destes dos mecanismos envolvidos no comportamento alimentar, procurando contribuir para uma perda de peso saudável e uma melhor adaptação às mudanças exigidas. Em suma, os objectivos destes programas de intervenção em grupo na fase pré‑cirurgia têm como objectivo ajudar os doentes na tomada de decisão, aumentando para tal os seus conhecimentos sobre o tratamento e suas implicações. No Hospital da Prelada realizam‑se periodicamente sessões de esclarecimento dirigidas aos doentes candidatos a realização de cirurgia de colocação de Banda Gástrica e a colocação de Balão Intragástrico, com a presença da equipa multidisciplinar (cirurgião, gastroenterologista, nutricionistas e psicólogos). Nestas sessões é transmitida informação sobre os procedimentos cirúrgicos, alimentação nas fases pré e pós cirurgia e sobre a importância das variáveis psicológicas no desenvolvimento e tratamento da doença. Privilegia‑se a participação dos doentes, assim como a partilha de testemunhos reais. Na fase pós‑cirurgia as intervenções tendem a assumir um carácter mais psicoterapêutico. Esta será uma fase de profundas alterações ao nível do peso, imagem corporal, alimentação e estilo de vida em Intervenção Psicológica em Grupos: Os Grupos de Ensino e os Grupos Pós‑Cirurgia no Hospital da Prelada geral, o que poderá provocar algumas alterações emocionais nos indivíduos, nomeadamente ao nível da ansiedade, gestão de expectativas e inseguranças. O objectivo da intervenção grupal pós‑cirurgia, assente na coesão e na partilha do grupo, é promover a adaptação a esta nova realidade, ajudando os indivíduos a compreenderem melhor as mudan‑ ças que estão a viver, estimulando a participação activa destes no processo de emagrecimento. No Hospital da Prelada, os grupos pós‑cirurgia são de carácter fechado, de 10 a 12 sessões, com cerca de 8 a 10 elementos cada grupo. Privilegia‑se a homogeneidade do grupo relativamente a algumas características, nomeadamente quanto ao género e ao tipo de intervenção cirúrgica realizada. Os principais temas explorados são o comportamento alimentar, a imagem corporal, o estigma da doença, as relações interpessoais, a sexualidade, entre outros. Dos resultados obtidos até ao momento (alvo de apresentação e análise noutros trabalhos) salientamos a percepção por parte dos participantes de mudanças em áreas centrais, nomeadamente ao nível de um maior conhecimento acerca da problemática, da mudança no estilo de vida, e de um maior bem‑estar com o seu próprio corpo. Bibliografia 1. Carmo, I., Fagundes, M.J., & Camolas, J. Cirurgia Bariátrica. Revista Portu‑ guesa de Cirurgia, 2008, II Série (4), 43‑50. 2. Guerra, M. P., & Lima, L. Intervenção Psicológica em Grupos em Contextos de Saúde, 2005, Climepsi Editores 3. Marcus, J. & Elkins, G. Development of a model for a structured support group for patients following bariatric surgery, Obesity Surgery, 2004, 14, 103‑106. 4. Renjilian, D., Perri, M., Nezu, A. el al. Individual Versus Group Therapy for Obesity: effects of matching participants to their treatment preferences, Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2001, 69 (4) 717‑721. 5. Saunders, R. Compulsive eating and gastric bypass surgery: what does hunger have to do with it?. Obesity Surgery, 2001, 11, 757‑761. 6. Seamore, D., Buckroyd, J. & Stott, D. Changes in eating behaviour follo‑ wing group therapy for women who binge eat: a pilot study. Journal of Psychiatric and mental Health Nursing, 2006, 13, 337‑346. 7. Travado L, Pires R, Martins V, et al. Abordagem psicológica da obesidade mórbida: caracterização e apresentação do protocolo de avaliação psicológica. Análise Psicológica, 2004, 22, 533‑550 8. Wolff, G. & Clark, M. Changes in eating self‑efficacy and body image following cognitive‑behavioral group therapy for binge eating disorder: a clinical study. Eating Behaviors, 2001, 2, 97‑104. 9. World Health Organization. Obesity: Preventing and managing the global epidemic. Report of a WHO consultation on Obesity, 2002, Geneva: WHO 10. Yalom, I. Theory an Practice of Group Psychotherapy, 1995, Basic Books. 77 Dietas Pós BG e BIG – Prós e Contras After Gastric Banding and Intragastric Baloon Diets – Pros and Cons Sílvia Pinhão* Nutricionista do Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, do Centro Hospitalar São João, EPE e da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da UP Resumo A Obesidade é um enorme problema de saúde pública. O insucesso do seu tratamento é muito frequente. Quando falamos de indivíduos com obesidade mórbida, verificamos que muitas vezes a terapêutica alimentar, comportamental e farmacológica são insuficientes e ineficazes, sendo por vezes necessário recorrer ao tratamento cirúrgico. Neste artigo serão abordados os prós e contras das dietas para obesos com banda gástrica ou balão intragástrico. Apesar de o BIG não ser um método cirúrgico, mas sim endoscópico, também pode ser um adjuvante para o tratamento de obesos mórbidos. Logicamente que as recomendações nutricionais para o tratamento da obesidade estão bem definidas, mas na realidade, neste tipo de tratamento específico as dietas fornecidas aos doentes devem ser hipoenergéticas, na ordem das 1200kcal para as mulheres e 1500kcal para o homens de forma a evitar deficiências nutricionais. Com a BG e BIG é mais fácil controlar a ingestão, logo as dietas são mais facilmente cumpridas, as perdas de peso são visíveis e a auto-estima melhora. Por outro lado, são dietas monótonas que podem conduzir à desmotivação e abandono do tratamento e existem muitos alimentos que são difíceis de tolerar. Além disto, a BG e/ou BIG podem trazer riscos associados para a saúde, incluído a recuperação do peso. Uma vez que a dieta tem um valor energético muito baixo, podem ocorrer deficiências de micronutrientes e por isso a suplementação vitamínica e mineral pode ser necessária. Nestes tratamentos não podemos esquecer o facto de os obesos serem particularmente sensíveis às qualidades sensoriais do alimentos e que o facto de srem obrigados a deixar de comer o que gostam pode ser um barreira para o sucesso do tratamento. Assim, além de pensar nas vantagens e desvantagens da dieta, é fundamental que se modifiquem comportamentos, se adaptem os planos individualmente a cada doente e se criem hábitos que lhes permitam ter um estilo de vida saudável com um peso também ele saudável. Abstract Obesity is a major public health problem. The failure of the treatment is very common. When we have individuals with morbid obesity, we find that many times diet, behavioral and pharmacological therapies are insufficient and ineffective, it is sometimes necessary to choose surgery. In this article we will consider the pros and cons of the diets for obese patients with gastric banding (GB) or intragastric balloon (IGB). Although BIG is not a surgical method, it is endoscopicaly performed but may also be an adjunct to the treatment of morbid obesity. Logically, the nutritional recommendations for the treatment of obesity are well defined, but in reality, this type of treatment, provided by specific hypo caloric diets in the order of 1200 kcal and 1500 kcal for women and for men, respectively to avoid nutritional deficiencies. With GB and IGB it is easier to control the intake, so diets are more easily accomplished, the weight losses are visible and self-esteem improves. On the other hand, these monotonous diets can lead to discouragement and abandonment of treatment, and there are many foods that are difficult to tolerate. In addition, GB and / or IGB can bring risks to health, including weight regain. A diet with a very low energy value can induce, micronutrient deficiencies, and vitamin and mineral supplementation may be necessary. In these treatments it is not possible to forget that obese people are particularly sensitive to sensory qualities of food, so forcing them to avoid to what they like to eat can be a barrier to a successful treatment. So, in addition to thinking about the advantages and disadvantages of the diet, it is essential to modify behaviors, to adapt the food plans to each patient individually and to create habits that allow them to have a healthy lifestyle with a healthy weight too. Keywords: obesity, GB, GIB; diets Palavras-chave: obesidade, BG, BIG, dietas * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 79-81 80 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A obesidade é um enorme problema de saúde pública. È uma acumulação de gordura que prejudica gravemente a saúde se estiver em valores superiores a 30% no caso das mulheres e superior a 20% nos homens1. Várias vezes os doentes obesos passam por tratamentos ao longo do tempo que não os fazem atingir o objectivo de perder peso, fazendo com que o insucesso no tratamento da obesidade seja bastante elevado. Na grande maioria das vezes, os indivíduos com obesidade mórbida referem tentativas falhadas de emagrecimento, tendo recorrido a terapêutica alimen‑ tar, comportamental e farmacológica. Quando estes tratamentos se mostram insuficientes e ineficazes, pode ser necessário sugerir ao doente que recorra a um método cirúrgico2. Existem dois grandes tipos de cirurgias bariátricas: as restritivas e as malabsortivas. Nas primeiras é reduzida a capacidade gástrica pelo que há menor conteúdo gástrico, por outro lado, nas cirurgias malabsortivas o que acontece é uma diminuição da absorção de nutrientes. Dentro das restritivas, tem sido recentemente muito usada a BG e apesar de o BIG não ser uma técnica cirúrgica, pois o balão é colocado endoscopicamente, entra também no tipo de tratamento que reduz a capacidade gástrica e ajuda a controlar a ingestão de alimentos. Neste artigo abordam-se os prós e contras das dietas para obesos com banda gástrica ou balão intragástrico. As recomendações nutricionais para o tratamento da obesidade estão bem definidas, devemos ter um plano alimentar hiponergético, repartido pelos diferentes macronutrientes nas percentagens correctas 2 , mas quando recorremos a um método cirúrgico há quem defenda o uso de dietas de muito baixo valor energético na ordem das 800 a 100kcal3. Sabe-se que dietas de 1200kcal para as mulheres e 1500kcal para os homens, são dietas que à partida não provocam deficiências nutricionais, pelo que atualmente têm sido fornecidas dietas desses valores energéticos, repartidas com 20% de proteínas, 30% de gordura e 50% de hidratos de carbono, para prevenir possíveis deficiências nutricionais. Estes planos são ajustados aos gostos pessoais e aos horários habituais das refeições, sempre que possível, tendo em consideração que no primeiro mês os doentes começam por ter que cumprir uma dieta de consis‑ tência líquida (recorrendo a sumos, leite, iogurtes, sopa); após um mês de ter realizado a cirurgia ou quando o doente tolerar, passa a cumprir uma dita de consistência mole (já recorrendo a “todo o tipo de alimentos”) e a partir do terceiro mês ou quando tolerar passa a fazer uma dieta de consis‑ tência normal. De salientar que em todas as dietas propostas, a única variação é o tipo de consistência, mantendo-se o valor energético total e respetiva distribuição energética pelos macronutrientes. Teoricamente, ao ser colocada uma BG ou um BIG é mais fácil controlar a ingestão, pois o volume gástrico é francamente reduzido, logo, os planos alimentares propostos são mais facilmente cum‑ pridos, e é possível comer de tudo um pouco de forma equilibrada, por isso a educação alimentar é fundamental, as perdas de peso são visíveis e a auto-estima melhora. Alguns doentes dão o seu testemunho dizendo que: – “ O tratamento alimentar foi melhor do que esperava pois nunca teve vómitos”; – “O tratamento é muito mais simples do que esperava” – “Sente-se bem porque consegue comer de tudo um pouco”. Se as vantagens podem ser várias, as desvan‑ tagens são um pouco superiores, pois as dietas podem tornar-se monótonas e podem conduzir à desmotivação e abandono do tratamento. Provavelmente porque existem muitos alimentos que são difíceis de tolerar e, outros, com os quais os doentes se sentem melhor, o leque de escolhas alimentares passe a ser muito reduzido e a monotonia provoque o abandonar de um tratamento que até então estava a ter resultados positivos. Como exemplo, podemos referir, por experiências vivenciadas pelos próprios doentes, que alimentos como espargos, espinafres e bróculos devem ser bem cortados ou triturados para evitar sentir desconforto gástrico após a sua ingestão; o ananás pode ser ingerido sob a forma de sumo mas como fruta inteira provoca dificuldades na digestão; os citrinos de uma forma geral têm muita fibra e por isso são de difícil digestão, a carne, o bacalhau e o ovo cozido embolam e o pão branco fresco e o arroz seco são difíceis de deglutir. Alguns doentes referiram aspectos negativos da dieta proposta: – “ Durante 5 meses não conseguia comer quase nada” – “Com a BG vomito muito e acabo por ter crises de pânico” – “Ainda tenho muito apetite mas, vomita muito” Dietas Pós BG e BIG – Prós e Contras – “ Pensava que ia emagrecer mais rapidamente” – “Não consigo comer de tudo!” Além da tolerância alimentar ser variável, a BG e/ ou BIG podem trazer riscos associados para a saúde pelo método em si. No caso do BIG, que só pode estar colocado durante cerca de 6 meses, podem ocorrer náuseas e vómitos, sobretudo nos primeiros dias, que podem ser atenuados com medicação, mas que, quando persistem, podem levar a desidratação e/ou hipocaliémia, obrigando à remoção precoce do balão por intolerância, pode ocorrer perfuração gástrica, esofagite, erosão gástrica, úlcera gástrica, migração espontânea do balão com possível obs‑ trução intestinal4. A banda gástrica pode ter como complicações a deslocação da banda, dilatação do reservatório, erosão e falência do porte, sendo necessário por vezes remover o porte ou reposicionar o reserva‑ tório, que podem ou não estar relacionados com o (in)cumprimento da dieta5. Este método também pode ter como desvantagens a possibilidade de ingestão de líquidos hiperenergéticos, ocorrência de vómitos e regurgitações. Comparativamente com outras técnicas de cirurgia bariátrica, a banda gástrica apresenta menor percentagem de perda de peso, exigindo por isso maior necessidade de cooperação do doente principalmente ao nível dos hábitos alimentares 3. Uma vez que os planos alimentares têm um valor energético muito baixo, podem ocorrer deficiências ao nível dos micronutrientes. Sendo os mais pre‑ valentes a carência de ferro, zinco e cálcio. Assim, além de educar no sentido de escolher alimentos que possam ser ricos nestes nutrientes, é por segurança importante fazer uma suplementação vitamínica e mineral. Nestes tratamentos não podemos esquecer o facto de os obesos serem particularmente sensíveis às qualidades sensoriais do alimento,s e que o facto de serem obrigados a deixar de comer o que gostam pode ser um barreira para o sucesso do tratamento 6. Para conseguirmos ajudar os doentes na longa caminhada que têm que percorrer para atingir um peso melhor, é importante ensiná-los que quanto menos se come menos se precisa, por isso é possível que o peso estabilize durante o tratamento e a BG ou o BIG por si só não fazem efeito. Há pequenos truques que funcionam, mas o fundamental é o cumprimento do plano alimentar com todas as vantagens ou inconvenientes pessoais e sociais que isso possa acarretar. 81 Ensinar o doente a compreender os seus próprios erros alimentares, manter-se ocupado física e psico‑ logicamente pode ajudar a evitar procurar refugio nos alimentos, modificar o modo de comer quer pelo tempo dedicado á refeição quer pela procura de companhia, e criar situações que permitam resistir a estímulos que incitem ao ato de comer. Além de tudo isto, é fundamental adaptar planos aos gostos pessoais, incluindo se necessário, alimentos conforto para que ultrapassem as suas carências de forma controlada7. Assim, além de pensar nas vantagens e desvan‑ tagens da dieta, é fundamental que o doente tenha consciência que o tratamento cirúrgico é apenas um adjuvante e que o que é realmente importante é que se modifiquem comportamentos, se adaptem os planos individualmente a cada doente e se criem hábitos que os permitam ter um estilo de vida saudável com um peso também ele saudável. Bibliografia 1. Organization,W.H.O. 1997. Obesity: Preventing ang Managing the Global Epidemic. Report of a WHO Consultation on Obesity. Geneva. 2. Organization. W.H. 2000. Obesity: Preventing ang Managing the Global Epidemic. Report of a WHO Consultation on Obesity. Geneva. 3. Soares, C.C., Falcão, M.C. 2007. Abordagem nutricional nos diferentes tipos de cirurgia bariátrica. Revista Brasileira de Nutrição Clínica 22(1): 59-64. 4. Maggard MA, Shugarman LR, Suttorp M, Maglione M, Sugerman HJ, Livingston EH, et al. Meta-analyses: surgical treatment of obesity. Ann Intern Med. 2005; 142(7):547-59. 5. Snyder, B., Wilson, T., Mehta, S., Bajwa, K. 2010. Past, present, and future: critical analisys of use of gastric bands in obese patients. Diabetes, Metabolic Syndrome and Obesity: Targets and Therapy 3: 55-65. 6. Correia F, Pinhão S, Poínhos R, Oliveira BMPM, de Almeida MDV, Medina JL, and Galvão-Teles A. Obstacles in dietary treatment of obesity. Obesity and Metabolism, 2009 Sep 5(3): 107-113. 7. Sousa AM, Pinhão S, Oliveira BMPM, Correia F. Conforto alimentar no tratamento da obesidade. Arquivos de Medicina, 2004, 18(3):40 O que há de novo na terapêutica médica da diabetes mellitus tipo 2? What’s new in medical therapy of type 2 diabetes? M. J. Matos*, P. Freitas, D. Carvalho Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Hospital de São João, E.P.E., Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Resumo A diabetes mellitus tipo 2 é uma doença progressiva com uma prevalência crescente. O antidiabético ideal será aquele que permita um bom controlo glicémico e altere a história natural da doença, com consequente diminuição da morbilidade e mortalidade associadas às complicações da doença. Terá ainda que demonstrar um bom perfil de segurança, nomeadamente ausência de hipoglicemias, de ganho de peso ou de aumento do risco cardiovascular. Após décadas de estagnação, a terapêutica da diabetes tem conhecido notáveis progressos nos últimos anos, que se traduziram no desenvolvimento de novas classes de fármacos, algumas delas já comercializadas, como as terapêuticas baseadas nas incretinas e os análogos da amilina, e outras em fase de investigação. As terapêuticas baseadas nas incretinas (análogos do glucose‑like peptide‑1 e inibidores da dipeptidil‑peptidase 4) mostraram‑se eficazes na redução da A1c, com baixo risco de hipoglicemias e ausência de ganho de peso (ou mesmo perda, no caso dos primeiros). Parecem ainda poder atrasar a progressão da doença em fases precoces e ter uma acção anti‑aterogénica. Os novos fármacos, nomeadamente os baseados nas incretinas, são promissores, mas terão ainda que demonstrar eficácia e segurança a longo prazo e uma boa relação custo‑eficácia. Abstract Type 2 diabetes mellitus is a progressive disease with an increasing prevalence. The ideal antidiabetic agent is the one that allows good glycaemic control and is able to change the natural history of the disease, with consequent reduction of the morbidity and mortality associated to the complications of diabetes. Such antidiabetic agent has yet to demonstrate a good safety profile, namely absence of hypoglycaemias, weight gain or cardiovascular risk increase. After decades of stagnation, remarkable progress in diabetes therapy has been done in recent years. Some of the new antidiabetic agents are already in the market, namely incretin based therapies and amylin analogs, and other are still in investigation. Incretin based therapies (glucose‑like peptide‑1 analogs and dipeptidil‑peptidase 4 inhibitors) showed to be effective in A1c reduction, with low risk of hypoglycaemia and no weight gain (or even weight loss in the former). They also seem to slow disease progression in early stages and to have an anti‑atherogenic action. The new anti‑diabetics, namely incretin based therapies, are promising, but still have to demonstrate long‑term effectiveness and safety as well as good cost‑effectiveness. Keywords: Diabetes mellitus, glucose‑like peptide 1, dipeptidil‑peptidase 4 Palavras‑chave: Diabetes mellitus, glucose‑like peptide 1, dipeptidil‑peptidase 4 Introdução A diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crónica progressiva com uma prevalência crescente. Em 2007 estimava‑se que existissem 246 milhões de diabéticos, o que corresponderia a 5,6% da população mundial entre os 20 e os 79 anos de idade. Mais de 80% dos diabéticos viveriam em países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Espera‑se que o número de indivíduos diabéticos atinja os 360 milhões em 2030. O Estudo da Prevalência da Diabetes em Portugal (PREVADIAB), realizado em 2009, evidenciou uma prevalência total de diabetes de 11,7% em indivíduos entre os 20 e os 79 anos, e de 26,3% no subgrupo entre os 60 e os 79 anos. Cerca de 50% dos indivíduos não estão diagnosticados. * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 83-87 84 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e A fisiopatologia da diabetes mellitus tipo 2 é com‑ plexa, envolvendo factores genéticos e ambientais, responsáveis por 3 mecanismos principais: resistência à insulina a nível periférico, deficiente secreção de insulina e aumento da produção hepática de glicose. A deterioração progressiva da célula β e a sua apoptose acelerada na diabetes mellitus tipo 2 têm como principais factores determinantes a glicotoxi‑ cidade, a lipotoxicidade, a acção de citocinas pró ‑inflamatórias, da leptina e a deposição de amilóide nas células dos ilhéus. A DM2 manifesta‑se clinica‑ mente quando há uma perda significativa de células beta pancreáticas, que se tornam insuficientes para contrariar níveis de glicose elevados, na presença de resistência periférica à insulina. A redução da função e possivelmente da massa das células beta parecem ser reversíveis, particularmente nas fases iniciais da doença. Contudo, a diabetes mellitus tipo 2 não pode ser reduzida a uma disfunção da célula beta pancreática, uma vez que variadíssimas hormonas, para além da insulina, estão envolvidas no processo de regula‑ ção do metabolismo da glicose, nomeadamente o glucagon, hormonas intestinais incretinícas e não incretínicas e adipocinas. Porquê novos fármacos para o tratamento da diabetes? A terapêutica da diabetes tem conhecido notáveis progressos nos últimos anos, que se traduziram no desenvolvimento de novas classes de fármacos, algumas delas já comercializadas – as terapêuticas baseadas nas incretinas, os agonistas da amilina e os análogos da insulina – e outras em fase de investigação. Estes progressos, após décadas de estagnação, foram impulsionados: pela notável e cres‑ cente prevalência da doença; pelo reconhecimento da imperiosidade de um óptimo controlo glicémico e da redução dos demais factores de risco desde as fases mais precoces da doença; pelo reconhecimento das insuficiências do arsenal terapêutico previamente existente. De facto, o antidiabético ideal será aquele que permita um bom equilíbrio glicémico e altere a história natural da diabetes: 1) eficácia e durabi‑ lidade no controlo glicémico; 2) atraso/prevenção da perda de função da célula beta; 3) aumento da massa de células beta; 4) ausência de ganho de peso, de hipoglicemias e/ou de aumento do risco cardiovascular; 5) melhoria dos factores de risco para síndrome metabólica; 6) atraso/prevenção directa da progressão das complicações da diabetes mellitus. Terapêuticas baseadas nas incretinas O efeito incretina e as hormonas incretinas A existência de hormonas intestinais com impor‑ tância na regulação da glicemia foi reconhecida há vários anos, com a constatação de que a resposta na secreção de insulina à ingestão oral de determinada quantidade de glicose era maior e mais duradoura quando comparada com a sua administração por via endovenosa. Este diferencial ou incremento de resposta de secreção pancreática com o estímulo oral designa‑se por efeito incretina. As principais hormonas incretinas actualmente identificadas são o glucagon‑like peptide‑1 (GLP‑1) e o glucose‑dependent insulinotropic polypeptide (GIP). O GLP‑1 é segregado em maior concentração e é considerada a hormona incretina mais importante do ponto de vista fisiológico em humanos. O GLP‑1 é produzido nas células L do intestino distal. Aumenta a secreção de insulina dependente da glicose, parecendo também estimular a proliferação das células beta, induzir a neogénese de ilhéus a partir de células precursoras ductais e inibir a apoptose das células beta pancreáticas. O GLP‑1 inibe ainda a secreção de glucagon, atrasa o esvaziamento gástrico, tem uma acção central na indução de saciedade e diminuição da ingestão alimentar, aumenta a glico‑ génese nos hepatócitos e no músculo esquelético e aumenta a lipogénese nos adipócitos. Demonstrou‑se ainda um papel benéfico do GLP‑1 na redução da pressão arterial e dos triglicerídeos, na função cardíaca, na função renal e no metabolismo ósseo. O GIP é produzido nas células K do intestino proximal. Aumenta também a secreção de insu‑ lina de modo dependente da glicose (embora de forma menos potente do que o GLP‑1), estimula a actividade da lipoproteína lipase e, ao contrário do GLP‑1, não tem efeitos sobre o esvaziamento gástrico ou saciedade. O efeito incretina na diabetes mellitus tipo 2 A secreção de GLP‑1 está diminuída em indivíduos diabéticos: os níveis de GLP‑1 activo são mais baixos nos indivíduos com diabetes mellitus tipo 2, tanto no período pré‑ como no pós‑prandial; contudo, a resposta dos tecidos-alvo é normal quando os níveis de GLP‑1 são repostos por administração endovenosa. A secreção de insulina em resposta ao GIP está também diminuída na diabetes (10‑20% da resposta normal), possivelmente graças à redução da O que há de novo na terapêutica médica da diabetes mellitus tipo 2? expressão dos receptores do GIP e à sub‑regulação destes R nas células beta pancreáticas. Assim, a diabetes mellitus tipo 2 caracteriza‑se por uma diminuição marcada do efeito incretina, que se traduz numa insuficiente secreção de insulina estimulada pela glicose, numa reduzida depuração da glicose, num aumento dos níveis de glucagon e numa aceleração do esvaziamento gástrico. As hormonas incretinas possuem uma semivida curta (1‑2 minutos), sendo rapidamente degradadas por uma protease ubíqua, a dipeptidil‑peptidase 4 (DPP4). As duas estratégias que permitiram melhorar a eficácia clínica do GLP‑1 nativo foram o desen‑ volvimento de análogos do GLP‑1 resistentes à degradação pela DPP4 e de inibidores da DPP4. Análogos do GLP‑1/ Incretinomiméticos Os agonistas dos receptores do GLP‑1 incluem o exenatido (disponível desde 2005), o exenatido LAR (long‑lasting release), de libertação prolongada, e o liraglutido, já disponível nos EUA, em alguns países europeus e no Japão. Estão ainda em curso ensaios clínicos com outras moléculas (AVE‑0010 bid/ZP10, albiglutido e tasopoglutido/R1583). O exenatido é um peptídeo recombinante baseado na exendina‑4, encontrada na saliva do Heloderma suspectum (monstro Gila). A sua sequência de ami‑ noácidos tem uma homologia de 53% com o GLP‑1 nativo, o que explica que 38% dos doentes tratados desenvolvam um título baixo e 6% um título alto de anticorpos anti‑exenatido, sendo que em metade destes últimos (i.e., em 3% do total dos doentes) tal se traduz numa redução da eficácia do fármaco. Atinge o pico plasmático 2 horas após administração subcutânea, tem uma semi‑vida plasmática de 3 a 4 horas e reduza glicemia durante 5 a 7 horas. Requer, assim, duas administrações diárias (60 minutos antes do pequeno‑almoço e jantar), e actua sobretudo sobre a glicemia pós‑prandial. O exenatido é eliminado por via renal, estando contra‑indicado na insuficiência renal grave (depuração da creatinina <30mL/min). Os principais efeitos secundários associados a esta molécula são gastro‑intestinais, sobretudo náuseas e desconforto abdominal, que afectam cerca de 20% dos doentes tratados. Estes efeitos adversos poderão ser minimizados se a terapêutica for iniciada com uma dose de 5 μg 2 vezes por dia, seguida pela dose de manutenção de 10 μg 2 vezes por dia. O atraso do esvaziamento gástrico provocado pelo exenatido poderá reduzir a absorção de outros fármacos admi‑ nistrados concomitantemente por via oral. O exenatido 85 associa‑se a uma redução dos níveis de A1c entre 0,8 e 0,9% e a uma perda ponderal de 1,6 a 2,8 Kg. Foram descritos casos de pancreatite aguda em doentes tratados com exenatido. Contudo, a incidên‑ cia de pancreatite não parece ser superior àquela que seria esperada em doentes diabéticos, mais susceptíveis do que a população não‑diabética, pelo que a relação causal não ficou provada. A forma de libertação prolongada, o exenatido LAR, é administrada sob a forma de uma injecção sub‑cutânea semanal. Estudos efectuados demonstra‑ ram uma redução dose‑dependente da A1c entre 1,4 e 2,7%, e reduções ponderais de 4 Kg em indivíduos sob terapêutica com dose superior. Não foram descri‑ tos efeitos gastro‑intestinais graves nem hipoglicemias graves com a utilização de exenatido LAR. O liraglutido é um derivado acilado do GLP‑1 que se liga à albumina de forma reversível, o que poderá contribuir para a sua resistência parcial à degradação pela DPP‑4 e a sua acção prolongada. Apresenta uma sequência de aminoácidos com 97% de homologia em relação ao GLP‑1 nativo, o que explica uma menor frequência de desenvolvimento de anticorpos (8,6%, e sem redução da eficácia do fármaco), em relação ao que sucede com o exena‑ tido. Administra‑se por via sub‑cutânea uma vez por dia, podendo a injecção ser efectuada a qualquer hora do dia, em horário independente das refeições. Reduz a A1c em até 1,6%. Do mesma modo que o exenatido, associa‑se a efeitos gastro‑intestinais, embora de forma menos frequente e habitualmente transitória. Tem também uma acção benéfica sobre o peso (‑2,5 Kg) e pressão arterial sistólica (‑2,1 a ‑6,7 mmHg). Foi testado no tratamento de obesos sem diabetes proporcionando perdas de peso de 7,2 Kg ao ano comparado com 2,8 Kg no placebo. Inibidores da DPP4 Os inibidores da DPP4 actualmente disponíveis em Portugal são a sitagliptina, a vildagliptina e, mais recentemente, a saxagliptina. Várias outras moléculas desta classe farmacológica estão ainda em fase de investigação (denagliptina, alogliptina, melogliptina, linagliptina, dutogliptina, teneligliptina, BI1356). A sitagliptina foi o primeiro inibidor da DPP‑4 a obter aprovação pela Agência Europeia do Medi‑ camento (EMA). Produz uma inibição da actividade da DPP‑4 de pelo menos 80% durante 12 horas na dose de 50 mg e de 24 horas na dose de 100 mg (a dose diária recomendada). Aumenta em pelo menos 2 vezes o GLP‑1 pós‑prandial, reduzindo 86 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e a glicemia pós‑prandial, sem causar hipoglicemia. Além do seu efeito na secreção de insulina de forma dependente da glicemia, actua também sobre a célula alfa, inibindo a secreção de glucagon. Ao contrário dos agonistas do receptor do GLP‑1, não tem efeito significativo sobre a motilidade gástrica, o que explica parcialmente o seu efeito neutro no peso corporal. É eliminado por via renal, pelo que é necessária redução da dose para 50 mg/dia em caso de insuficiência renal moderada e para 25 mg/ /dia em caso de insuficiência renal grave. Quando usada em monoterapia, a sitagliptina associou‑se a reduções da A1c entre ‑0,6% e ‑0,9%, mas reduções superiores foram observadas em associação com a metformina (e maiores para A1c inicial> 8,8%). Embora muito bem tolerada, a sitagliptina associou ‑se a um aumento de infecções urinárias (3,2%) e nasofaringite (6,4%) versus comparadores (2,4% e 6,1% respectivamente), tendo sido ainda descritos casos pós‑comercialização de angioedema, síndrome de Stevens‑Johnson e pancreatite. Foi levantada a hipótese de alguns efeitos secundários terem como origem a inibição de outras enzimas da família das DPP, a degradação de outros substratos (alguns neuropeptídeos, factores de crescimento e citocinas) ou a interferência com algumas funções da DPP‑4, como o seu papel no sistema imunitário. A vildagliptina foi aprovada pela EMA em Setembro de 2007. Associa‑se a reduções da A1c de cerca de 1%, é igualmente bem tolerado, tem um efeito neutro sobre o peso corporal e baixo risco de hipoglicemias A sitagliptina e a vildagliptina estão indicadas, segundo a EMA, em associação com metformina, sulfonilureias e glitazonas. A sitagliptina obteve ainda aprovação para utilização em monoterapia (na presença de contra‑indicação para metformina) e em associação com a insulina. A saxagliptina estará disponível entre nós desde Outubro de 2010. Os inibidores da DPP‑4 parecem associar‑se a melhoria dos parâmetros de função da célula β. Estudos em animais também demonstraram aumento da massa de células β com estes fármacos, mas este efeito ainda não foi comprovado em humanos. Os inibidores DPP‑4 também poderão associar‑se a melhoria da sensibilidade à insulina (mas os resultados entre os vários estudos são discordantes). Os mecanismos de acção dos inibidores da DPP‑4 (sobretudo a melhoria da função da célula β) e as suas eficácia, tolerabilidade e segurança sugerem que estes fármacos poderão ser importantes como tratamento de 1.ª linha nas fases iniciais da DM2 (em combinação com metformina). O papel das terapêuticas baseadas nas incretinas no tratamento da diabetes mellitus tipo 2 – situação actual e perspectivas futuras As terapêuticas baseadas nas incretinas foram incluídas nas recomendações de 2009 da American Association of Clinical Endocrinologists – American College of Endocrinology, que sugeriram que doentes com uma A1c entre 7,6% e 9% fossem submetidos a terapêutica dupla com metformina (a menos que contra‑indicada) associada, por ordem de preferência, a um agonista do GLP‑1, a um inibidor da DPP‑4, a uma glinida ou a uma sulfonilureia. Foi realçado o risco mais baixo de hipoglicemias com agonistas do receptor do GLP‑1 ou inibidores da DPP‑4 (vs glinidas ou sulfonilureias). Foram ainda enfatizados a maior capacidade de redução da glicemia pós‑prandial e o benefício sobre a perda de peso dos agonistas do receptor do GLP‑1 comparativamente aos inibidores da DPP‑4. Um consensus statement da ADA‑EASD recentemente publicado recomenda a utilização de agonistas do receptor do GLP‑1 como tratamento de segunda linha (atrás da metformina) em doentes nos quais as hipoglicemias sejam particularmente indesejáveis ou naqueles em que a perda de peso seja uma prioridade. As terapêuticas baseadas nas incretinas estão associadas, de facto, a eficácia no controlo glicémico com um baixo risco de hipoglicemias, a perda de peso (no caso dos agonistas do receptor do GLP ‑1) ou a ausência de ganho de peso (no caso dos inibidores da DPP‑4) e, não menos importante, a melhoria da função da célula beta. Apesar de promissoras, estas classes de fármacos terão ainda que confirmar as suas eficácia e segurança a longo prazo. Análogos da amilina O pramlintido, lançado nos Estados Unidos em 2005, é um análogo sintético da amilina, uma hormona produzida nas células β pancreáticas e co‑segregada com a insulina. A amilina suprime a secreção de glucagon e atrasa o esvaziamento gástrico, contribuindo para a normallização da glicemia. Tem ainda um papel importante na indução de saciedade. Os indivíduos com diabetes mellitus tipo 1 têm uma produção deficiente de amilina, e os de tipo 2 uma secreção insuficiente às refeições. O pramlintido administra‑se antes das refeições por via sub‑cutânea, permitindo reduzir a hiperglicemia pós‑prandial. Está indicado em associação à insulinoterapia em doentes com diabetes O que há de novo na terapêutica médica da diabetes mellitus tipo 2? –A ctivadores da glicocinase (estimulam a secre‑ ção de insulina e o metabolismo hepático de glicose); – Inibidores da fosforilase do glicogénio, anta‑ gonistas do receptor do glucagon e inibidores da frutose‑1,6‑bifosfatase (reduzem o débito hepático de glicose). mellitus tipo 1 e tipo 2. Os seus efeitos secundários mais frequentes são gastro‑intestinais (náuseas, vómitos e diarreia), que se associam ao atraso no esvaziamento gástrico provocado pelo fármaco, mas que tendem a diminuir com a continuação do tratamento. Não se associa a hipoglicemias graves e tem um efeito benéfico sobre o peso corporal. I nibidores do co‑transportador renal de sódio‑glicose Nos últimos anos, tornou‑se claro que os rins desempenham um papel fundamental no metabo‑ lismo global da glicose no organismo. Em indiví‑ duos “normais”, os rins filtram continuamente um grande volume de glicose através do glomérulo (aproximadamente 180 g/dia) e reabsorvem acti‑ vamente quase toda essa glicose. Em pessoas com diabetes mellitus tipo 2 que têm hiperglicemia, mais glicose é filtrada que reabsorvido, ajudando a manter a hiperglicemia da diabetes. Uma proteína denominada co‑transportador da glicose‑sódio tipo 2 (SGLT2) é responsável pela reabsorção renal de glicose e desempenha um papel importante na homeostasia da glicose. A retenção de excesso de glicose por esta via contribui para a hiperglicemia persistente. Ao longo do tempo, a hiperglicemia crónica causa glicotoxicidade, que pode ter efeitos deletérios sobre a função das células beta e agrava a insulino‑resistência. A supressão da actividade dos SGLT2 no organismo inibe a reabsorção renal de glicose, aumentando a excreção do excesso de glicose do organismo e ajudando na redução da hiperglicemia. Os inibidores SGLT2 não estimu‑ lam a secreção de insulina e, portanto, deverão ser associadas a um baixo risco de hipoglicemia. Ensaios de fase 3 da dapaglifozina, um destes inibidores, nas doses de 2,5 e 10 demonstraram reduções de A1c de 0,55 a 09%, e de peso corporal de 2,66 a 3,66 %. Classes de fármacos em desenvolvimento Há vários novos fármacos antidiabéticos em inves‑ tigação, que têm como alvo diferentes mecanismos envolvidos no metabolismo da glicose. Destacamos os seguintes: – Inibidores da 11β‑hidroxisteróide desidrogenase e antagonistas do receptor dos glicocorticóides (diminuem a insulino‑resistência e o débito hepático de glicose); 87 Conclusões: As terapêuticas baseadas nas incretinas já dispo‑ níveis são promissoras: mostraram‑se eficazes na redução da A1c com risco baixo de hipoglicemias e sem aumento de peso (ou mesmo redução no caso dos agonistas do GLP‑1); poderão atrasar a progressão da doença em fases precoces; têm uma potencial acção anti‑aterogénica. Contudo, tratando ‑se de fármacos ainda recentes, têm ainda que demonstrar eficácia e segurança a longo prazo, bem como uma boa relação custo‑eficácia. Estão abertas boas perspectivas sobre novas vias terapêuticas na diabetes, esperando‑se que os novos fármacos permitam não só obter um bom controlo glicémico a longo prazo, como reduzir as compli‑ cações da doença, com consequente diminuição da morbilidade e mortalidade que lhes estão associadas. Bibliografia: 1. Drab SR. Incretin‑Based Therapies for Type 2 Diabetes Mellitus: Current Status and Future Prospects. Pharmacotherapy. 2010;30:609‑624 2. Aicher TD, Boyd SA;McVean M et al. Novel Therapeutics and Targets for the Treatment of Diabetes. Expert Rev Clin Pharmacol. 2010;3:209‑229 3. Halimi S. DPP‑4 inhibitors and GLP‑1 analogues: for whom? Which place for incretins in the management of type 2 diabetic patients? Diabetes Metab. 2008;34 Suppl2:S91‑5 4. Pratley RE, Salsali A. Inhibition of DPP‑4: a new therapeutic approach for the treatment of type 2 diabetes. Curr Med Res Opin 2007;23:919‑31 5. Meece J. Pancreatic islet dysfunction in type 2 diabetes: a rational target for incretin‑based therapies. Curr Med Res Opin. 2007;23:933‑44 6. Wajchenberg BL. Beta‑cell failure in diabetes and preservation by clinical treatment. Endocr Rev. 2007;28:187‑218 7. Baggio LL, Drucker DJ. Biology of incretins: GLP‑1 and GIP. Gastroenterology. 2007;132:2131‑57 8. Ranganath LR. The entero‑insular axis: implication for human metabolism. Clin Chem Lab Med. 2008;46:43‑56 9. Combettes M, Kargar C. Newly approved and promising antidiabetic agents. Therapie. 2007; 62:293‑310 10. Penfornis A, Borot S, Raccah D. Therapeutic approach of type 2 diabetes mellitus with GLP‑1 based therapies. Diabetes Metab. 2008;34 Suppl 2:S78‑90. 11. List JF, Woo V, Morales E, Tang W, Fiedorek FT. Sodium‑glucose cotrans‑ port inhibition with dapagliflozin in type 2 diabetes. Diabetes Care. 2009;32:650‑657 12. Neumiller JJ, White JR, Campbell RW. Sodium‑Glucose Co‑Transport Inhibitors Progress and Therapeutic Potential in Type 2 Diabetes Mellitus. Drugs 2010; 70: 377‑385 Caracterização Clínica dos Doentes Obesos em Acompanhamento na Consulta de Psicologia do Hospital da Prelada Clinical characterization of obese patients in Psychology Service of Prelada Hospital Filipa Mucha Vieira 1,2, Clara Estima Martins2, Cláudia Almeida1, Débora Coutinho1, Lisete Fernandes1, Sandra Torres1 Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 1 Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 2 Palavras‑chave: obesidade; caracterização psicológica; cirurgia bariátrica Keywords: obesity; psychological intervention; bariatric surgery A Obesidade é actualmente considerada uma prioridade ao nível dos cuidados de saúde devido às proporções epidémicas que assume em todo o mundo (WHO, 2002). Na sua génese e desen‑ volvimento podemos encontrar frequentemente a influência de factores psicológicos, essenciais quando pensamos em intervir nesta problemática. No caso particular da Obesidade Mórbida (OM), o tratamento através de cirúrgica bariátrica exige ao doente uma forte adesão aos requisitos pós‑cirúrgicos, através de modificações alimentares e de estilo de vida em geral. Neste sentido, devem ser consideradas algumas variáveis psicológicas e sociodemográficas na avaliação do doente com OM, que nos permitam compreender o processo de doença e adaptar as estratégias de intervenção (Travado et al., 2004). Neste estudo pretende‑se apresentar algumas características sociodemográficas e clínicas de uma amostra de doentes com Obesidade Mórbida a aguardar cirúrgica bariátrica em contexto hospitalar. A amostra é constituída por 300 indivíduos (273 mulheres; 27 homens), a aguardar cirurgia de colo‑ cação de banda gástrica no Serviço de Cirurgia Geral do Hospital da Prelada. O protocolo de avaliação psicológica inclui uma entrevista clínica semi‑estruturada e instrumentos de auto‑relato que pretendem avaliar dimensões como o comportamento alimentar, qualidade de vida, sintomatologia psicopatológica. Neste breve trabalho apenas analisamos os dados da entrevista clínica semi‑estruturada. Os resultados que obtivemos foram os seguintes: A idade dos doentes obesos em acom‑ panhamento na consulta de Psicologia varia entre os 18 e 68 anos (M=40,85; SD=11.56). Relativamente ao estado civil e número de filhos, 70,2% dos doentes avaliados são casados e 77% tem um ou mais filhos. Quanto à situação profissional, 16% estão desempregados. No que concerne ao peso dos doentes, este oscila entre os 70kg e os 174kg (M=108,26; SD=17,4), apresentando a amostra um IMC médio de 41,3 kg/m2 (SD=5,7). Cerca de 53% da amostra refere ter ante‑ cedentes familiares (1.º grau) de obesidade. Ao analisar a história clínica, verificamos que 26% da amostra tem acompanhamento regular de Psiquiatria, estando 46% da mesma a fazer medicação antidepressiva e/ou ansiolítica. Como acontecimentos associados ao aumento de peso, 39% dos doentes avaliados * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 89-90 90 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e atribui esse aumento à(s) gravidez(es) e 32% aos hábitos alimentares. Como consequências do excesso de peso, cerca de 60% dos doentes avaliados salientam os sintomas físicos e problemas funcionais (e.g. dores, cansaço, dificuldades motoras) e 35% a insatisfação com o corpo e a sua auto‑imagem. Em relação aos tratamentos já efectuados, 88% refere ter feito no passado várias tentativas de perda de peso (dietas e medicação) sem sucesso a médio e a longo prazo. Quanto ao comportamento alimentar, cerca de 80% da amostra no momento da 1.ª consulta de Psicologia apresenta um padrão incorrecto, associando um aumento da ingestão alimentar a situações de maior stress/estados emocionais negativos. A análise destes resultados permite‑nos perceber que a população de indivíduos em acompanha‑ mento na consulta de Psicologia e que recorre a tratamento da Obesidade no Hospital da Prelada é maioritariamente feminina (91%) e com um IMC que indica a presença de Obesidade de Grau III ou OM. Podemos considerar que o tratamento cirúrgico para grande parte destes doentes surge após um historial de tentativas anteriores de perda de peso sem sucesso e que os principais factores associados ao desenvolvimento deste problema de saúde relacionam‑se com os padrões alimentares disfuncionais. As consequências, sobretudo físicas, do excesso de peso são apontadas como o principal motivo que conduziu estes doentes à procura de um novo tratamento. De salientar ainda que uma percentagem bastante significativa da amostra refere acompanhamento psiquiátrico regular e quase que metade dos doentes em acompanhamento na con‑ sulta de Psicologia encontram‑me medicados para a sintomatologia depressiva e ansiosa. À semelhança do que está descrito na literatura (Wadden et al., 2007), a análise destas variáveis per‑ mite uma caracterização clínica e sociodemográfica dos doentes com obesidade, fundamental quando queremos compreender esta patologia e deste modo planear e ajustar as estratégias de tratamento às especificidades de cada caso. Bibliografia 1. Travado L, Pires R, Martins V, et al. Abordagem psicológica da obesidade mórbida: caracterização e apresentação do protocolo de avaliação psicológica. Análise Psicológica, 2004, 22, 533‑550 2. Wadden TA, Sarwer DB, Fabricatore AN, et al. – Psychosocial and behavioral status of patients undergoing bariatric surgery: what to expect before and after surgery. – The Medical Clinics of North America (2007) 91: 451‑469 3. World Health Organization. Obesity: Preventing and managing the global epidemic. Report of a WHO consultation on Obesity, 2002, Geneva: WHO Prevalência de excesso de peso e de obesidade em crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico Prevalence of overweight and obesity in children of the 1st Cycle of Basic Education Maria João Monteiro* 1,3, Cátia Almeida4, Amâncio Carvalho1,2 , Elza Lemos1, José Manuel Dias1 Escola Superior de Enfermagem de Vila Real, Universidade de Trás‑os‑Montes e Alto Douro 1 Centro de Investigação em Formação de Profissionais de Educação da Criança 2 Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano 3 Centro de Saúde de Peso da Régua – ACES Douro 4 Palavras‑chave: Obesidade, Infância Introdução A OMS estima que, em 2010, na Europa, 150 milhões de adultos e 15 milhões de crianças e adolescentes sejam obesos, e desde 1980, em muitos países europeus, os casos de obesidade têm tripli‑ cado, calculando‑se que a este ritmo, em apenas cinco anos, aumentará para 20 milhões. Estudos recentemente realizados por Lobstein, Bauer e Uauy (2004), vieram comprovar que Portugal, Grécia, Itália e Espanha lideram a lista dos países relativamente à prevalência de excesso de peso em crianças e adolescentes: cerca de 10% apresentam excesso de peso, com risco aumentado de desenvolvimento de doenças crónicas e outras co‑morbilidades antes ou durante a vida adulta. A obesidade pode ter início em qualquer época da vida, mas o seu aparecimento é mais comum no primeiro ano de vida, entre os cinco e os seis anos de idade e na adolescência. Estamos perante uma doença epidémica de contornos difíceis de controlar, à medida que o número de crianças obesas vai crescendo, de forma mais acentuada nos países mais desenvolvidos com proporções que começam a substituir a desnutrição e as doenças infecciosas (Mourão‑Carvalhal et al., 2007). Apesar de se terem concentrado esforços na área de saúde pública e na prevenção das doenças não transmissíveis, dando ênfase à redução da obesidade, à modificação do Keywords: Obesity; childhood padrão alimentar e à diminuição do sedentarismo a magnitude das suas proporções coloca‑a como um flagelo social. Portugal encontra‑se numa das posições mais desfavoráveis do cenário europeu, sendo um dos países com maior prevalência de obesidade infantil, evidenciando valores de excesso de peso nas crianças entre os 7‑11 anos que já ultrapassam 30%, e em crianças dos 3 aos 6 anos atinge 23,6%, mostrando que esta conjuntura começa cedo, agravando‑se com a idade (Rito e Breda, 2006). Também no estudo de Mourão‑Carvalhal et al., (2007) o número de crianças obesas tem vindo a aumentar consideravelmente, com a taxa de incidência aos 6 e 11 anos, a aumentar de 4% e 7% para 11% e 15%, respectivamente. De um modo geral, as crianças estão cada vez mais gordas e assiste‑se a um aumento da prevalência de jovens obesos, com maior percentagem de crianças obesas entre os 7 e os 9 anos de idade (Padez et al., 2004). Problema de saúde pública intrinsecamente ligado à inactividade física que parece contribuir da mesma forma que a ingestão excessiva de alimentos. O presente estudo visa contribuir para a obten‑ ção de uma base de informação relevante no que concerne à monitorização do excesso de peso e obesidade, hábitos alimentares e de actividade física, em crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico, e con‑ tribuir para uma maior eficácia das estratégias de intervenção que visem o controlo deste problema. * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 91-93 92 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Material e Métodos O estudo desenvolveu‑se em 13 escolas do Agru‑ pamento Vertical de Escolas do Peso da Régua, optando‑se por uma amostra estratificada e propor‑ cional por sexo, idade e ano de escolaridade, ficando composta por 245 alunos. Como instrumentos de recolha de dados foi utilizado um questionário de autopreenchimento constituído por seis conjuntos de questões aplicado aos pais ou encarregados de educação e um formulário para registo dos parâ‑ metros antropométricos avaliados pela equipa de pesquisa, cujo tratamento de dados foi efectuado com recurso ao SPSS (versão 16.0). Resultados A distribuição por sexo é sensivelmente idêntica com 121 alunos do sexo masculino e 124 do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 6 e 11 anos, sendo que a maioria (26,1%) tem 9 anos de idade. Da determinação do percentil ao nascimento, observam‑se valores semelhantes no número de crianças do sexo masculino acima e abaixo do percentil desejado, enquanto o número de casos acima do percentil é mais elevado no sexo feminino. Aos dois anos de idade o número de crianças abaixo do percentil é idêntico para ambos os sexos, o que não se verifica no número de crianças acima do percentil, sendo bastante superior para o sexo feminino. A maioria das crianças (119) apresenta peso normal, 63 magreza, 15 excesso de peso e apenas 1 caso de obesidade. As situações de excesso de peso são mais comuns no sexo feminino (10), com maior número aos 9 anos de idade. A obesidade apenas se verifica num caso do sexo masculino de 11 anos (tabela 1). Tabela 1: Distribuição do Índice de Massa Corporal por idade e sexo Idade 6 Anos Magreza Peso normal Excesso peso No que diz respeito à actividade física (tabela 2) é de salientar que todas as crianças a realizam no espaço escolar com a maioria a praticar duas vezes por semana e aproximadamente 120 minutos. A prática de uma actividade desportiva ocorre em 37,7% das crianças, na sua maioria 2 vezes por semana. Quanto a actividades como ver televisão e utilizar o computador são realizadas diariamente pelas crianças. Grande parte delas não joga Play station e as que o fazem é apenas 1 ou 2 vezes por semana. Um estudo realizado com 4069 crianças que integraram o 3.º Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição, conduzido entre 1988 e 1994 (Crespo et al., 2001), concluiu que a incidência de obesidade aumentava à medida que aumentava o número de horas de televisão e que quase metade das crianças com idades compreendidas entre os 8 e 16 anos viam mais de duas horas de televisão por dia. Tabela 2: Distribuição das crianças por tipo de Actividade Física e Lazer Sim Actividades n % Actividade física na escola 199 100,0 Actividade física fora da escola 90 Actividades leves (marcha, bicicleta) 139 F M F M F M F 11 3 6 10 0 0 0 0 62,3 2,5 Utiliza o computador 148 74,4 51 25,6 Joga play station 73 36,7 126 63,3 Quanto à frequência das principais refeições (tabela 3), a maioria (96,5%) toma todos os dias o pequeno‑almoço, o almoço (99,5%), o lanche (95,5%) e o jantar (99%). A maior parte toma o pequeno‑almoço em casa (93,5%) e faz o almoço e o lanche na escola (80,4%). Tabela 3: Distribuição da frequência das principais refeições Principais refeições Todos os dias n 192 198 % 96,5 99,5 Algumas vezes na semana n % 2 1 1 0 0 8 Anos 9 7 8 15 1 2 0 0 Lanche 190 95,5 6 3 Jantar 197 99 1 0,5 0 0 10 Anos 7 3 7 10 0 2 0 0 11 Anos 0 1 3 1 0 0 1 0 Total 42 21 43 76 5 10 1 0 30,2 5 2 5 60 124 16 2 69,8 37,7 8 24 54,8 97,5 6 11 109 75 7 1 45,2 194 7 Anos 8 % Desporto Pequeno‑almoço Almoço 9 Anos n Ver televisão Obesidade M Não Poucas vezes na semana n % 3 1,5 1 0,5 Nunca n 1 % 0,5 1 0,5 No que diz respeito a alguns alimentos e à fre‑ quência da sua ingestão, constatamos que a maioria consome leite e sopa todos os dias, peixe três vezes por semana, carne quatro vezes por semana e Prevalência de excesso de peso e de obesidade em crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico comem, todos os dias, arroz, massa e batatas. Cada vez mais a alimentação tem sido alvo de atenção por parte de muitos investigadores, considerando ‑se de entre as inúmeras recomendações que um regime alimentar equilibrado deve ter pelo menos 4 refeições diárias, reforçando‑se que a ingestão de um pequeno‑almoço completo é indispensável para a saúde dos indivíduos. Neste estudo verifica‑se que a maior parte das crianças (42,7%) tem por hábito alimentar‑se antes de dormir, sendo os alimentos mais ingeridos o leite e o iogurte. No entanto, e apesar do reduzido número não o fazer (20,6%), é considerado manifestamente desfavorável à saúde das crianças, se se tiver em conta os problemas que daí advêm. Quanto à ingestão de alimentos antes das refeições, a maioria (38,2%) só o faz às vezes e estes resultados poderão encontrar explicação no facto de muitas crianças permanecerem mais tempo em casa, frequentemente em frente da televisão, e privadas de qualquer exercício físico. Os casos de excesso de peso verificados neste estudo (8,08%) são superiores no sexo feminino, duplicando em relação ao sexo masculino. Corro‑ boram os nossos resultados, um estudo de âmbito nacional em crianças com 7 anos de idade, com as raparigas a apresentarem uma maior percentagem de excesso de peso e até obesidade (Padez et al., 2004). A maior prevalência no sexo feminino está relacionada com o armazenamento sob a forma de gordura e não de proteína, do excesso de energia e com a avaliação da medida da prega cutânea (o sexo feminino tem mais tecido adiposo). Conclusões Numerosos autores são unânimes ao apontarem a causa multifactorial para a obesidade, com forte contribuição dos factores ambientais, conduzindo mesmo à designação de ambiente “obsogénicos” como a alimentação e o sedentarismo. Na verdade as facilidades tecnológicas e a progressiva diminuição dos espaços livres nos centros urbanos estão a reduzir as oportunidades de lazer e de uma vida fisicamente activa, facilitando atitudes sedentárias (Dâmaso et al., 2003). A reduzida prevalência das situações de excesso de peso, em oposição aos resultados obtidos em estudos de âmbito nacional, vem reforçar a importância que a intervenção multi‑ disciplinar assume no combate à obesidade, através da implementação dos objectivos operacionais do Programa Nacional de Saúde Escolar, mediada pelo Centro de Saúde. Por outro lado, o contexto em que 93 se desenvolveu o estudo, marcado, ainda, por traços de ruralidade, parece potenciar hábitos saudáveis no que concerne à problemática da obesidade infantil. Referências bibliográficas 1. Crespo, J. [et al.] – Televison watching, energy intake and obesity in US children. Results from the third national health and nutrition examination survey (1988‑1994). Journal of American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. Nº 155, (2001), pp. 360‑365. 2. Lobstein, T.; Bauer, L.; Uauy, R. – Obesity in children and young people: a crisis. Public Health. Obesity Reviews. Nº 5 (supl. 4), 2004, pp. 4‑85. 3. Mourão‑Carvalhal, I. [et al.] – Introdução. In Silva, A. J. [et al.] – Obesidade Infantil Montes Claros: Editora CGB Artes Gráficas, 2007, pp. 15‑19. 4. Padez, C. [et al.] – Prevalence of overweight and obesity in 7‑9‑year‑old Portuguese children. Trends in body mass index from 1970‑2002. American Journal of Human Biology. Nº 16, 2004, pp. 670‑678. 5. Rito A.; Breda, J. – Um olhar sobre a estratégia de nutrição, actividade física e obesidade na União Europeia e em Portugal. Nutricias. Nº 6, 2006. O balão intragástrico no tratamento da Obesidade: análise de dois casos clínicos Intragastric Balloon as a treatment for Obesity: Study of Two Clinical Cases A. Vasconcelos Teixeira* 1, Clara Estima2, Rosário Seixas Martins3 Unidade de Endoscopia Digestiva 1 Gabinete de Psicologia 2 Gabinete de Nutrição, Hospital da Prelada – Dr. Domingos Braga da Cruz, Porto 3 Palavras‑chave: balão intragástrico; obesidade, equipa multidisciplinar Introdução A obesidade, actualmente reconhecida como um problema de saúde pública, é uma doença crónica com impacto significativo, no bem‑estar psicossocial, na longevidade e na qualidade de vida (1). Em Portugal, mais de 50 por cento da população adulta tem excesso de peso ou obesidade (2). É uma doença complexa e multifactorial sendo de difícil tratamento. De entre os vários métodos não cirúrgicos, o que utiliza a colocação de um balão intragástrico (BIG) constitui uma terapêutica minimamente invasiva, temporária, que é utilizada em simultâneo com terapêutica nutricional e comportamental: na redução de peso corporal pré‑cirurgia na obesidade mórbida, em doentes com obesidade de grau III que não sejam candidatos a cirurgia e nos com graus I e II para melhoria de co‑morbilidades (3). Apresentam‑se 2 casos clínicos em que se recorreu à colocação de um BIG para tratamento da obesidade. Metodologia No âmbito das consultas de Gastrenterologia, de Nutrição e de Psicologia do Hospital da Prelada apresentam‑se 2 casos clínicos que foram avaliados aquando da colocação do BIG e após a sua remoção, sobre os seguintes aspectos: 1) avaliação antro‑ pométrica: peso (Kg), altura (m), índice de massa Keywords: intragastric balloon; obesity; multidisciplinary team corporal (IMC em Kg/m2) e perímetros da cintura e da anca (cm); 2) perfil analítico no sangue (ureia, creatinina, glicose em jejum, colesterol total, LDL e HDL, e triglicerídeos); 3) risco cardiovascular (tensão arterial e electrocardiograma); 4) comportamento psicológico; e 5) nível de qualidade de vida. Desde o início e após a remoção do BIG, os doen‑ tes foram acompanhados em consulta de Nutrição e Psicologia, de um modo sistemático. Resultados Doente A – Doente do sexo feminino, de 47 anos de idade, com altura de 1,62 m, costureira. Referia lombalgias e apresentava hipertensão arterial. Operada de colecistectomia há 25 anos e de exérese de mioma uterino há 2,5 anos. Foi‑lhe colocado um BIG em 19.10.2009 o qual permaneceu cerca de 7 meses. No fim deste período verificou‑se: a) diminuição progressiva do valor de todos os parâmetros antropométricos (ver Gráfico) tendo a doente perdido 15,2 Kg de peso e 5,8 Kg/m2 de IMC, b) que os parâmetros analíticos no sangue sofreram uma variação discreta e não significativa, c) que o ECG não revelou alterações e a tensão arterial manteve‑se controlada, d) a nível psicológico, melhorias notórias nos níveis emocional e de auto ‑controlo alimentar. * [email protected] Cadernos de Saúde Vol. 4 Número especial Obesidade – pp. 95-96 96 Cader n o s d e S a ú d e Vo l. 4 N ú m e ro e s p e c i a l O b e s i d a d e Conclusões Evolução dos parâmetros antropométricos: antes da colocação (I), durante o tratamento (D), na remoção (R) e após a remoção do BIG (F). Doente A B Datas Fase Peso (Kg) IMC (Kg/m2) Per. da cintura (cm) Per. da anca (cm) 19.10.2009 I 92.0 35.0 n.r. n.r. 24.11.2009 D 82.2 31.3 109 107 27.01.2010 D 78.1 29.7 104 101 3.5.2010 R 76.8 29.2 103 98 8.6.2010 25.02.2009 F 76.8 29.2 101 I 142.0 63.1 n.r. 99 n.r. 31.03.2009 D 126.2 56.1 132 >150 27.07.2009 D 109.8 48.8 119 140 18.12.2009 R 91.5 40.6 107 121 11.03.2010 F 80.0 38.2 106 116 n.r. – não registado; Per – perímetro Doente B – Doente do sexo feminino, de 58 anos de idade, com altura de 1,50 m, doméstica. Apre‑ sentava hipertensão arterial e hipercolesterolemia. Operada de histerectomia total há 16 anos. Foi‑lhe colocado um BIG por um período aproximado de 10 meses. Pelo fim deste período verificou‑se: a) uma diminuição progressiva do valor de todos os parâmetros antropométricos (ver Gráfico) tendo a doente perdido 54,5 Kg de peso e 24,2 Kg/m2 de IMC, b) que os parâmetros analíticos no sangue sofreram uma variação discreta e não significativa, c) que o ECG não revelou alterações e a tensão arterial manteve‑se controlada, d) a nível psicológico, melhorias significativas na qualidade de vida, na satisfação com a imagem corporal e na auto‑estima. Comentários A colocação de um BIG tem‑se mostrado simples e eficaz na promoção da perda de peso corporal (3,4,5) tal como o verificámos nos 2 casos clínicos apresentados. Para o êxito desta técnica concorrem a implementação de uma dieta hipocalórica indivi‑ dualizada, um incremento da actividade física (5) e alterações adequadas a nível comportamental. Importa que a abordagem terapêutica da obesidade contemple dimensões biopsicossociais de cada indi‑ víduo obeso através de uma equipa multidisciplinar (Gastrenterologia, Psicologia e Nutrição) (4,5), para que se possa assegurar o tratamento desta condição, em particular, a longo prazo. No tratamento da obesidade, a colocação do BIG é um procedimento simples, bem tolerado e eficaz que contribui para a perda de peso corporal, que se pretende sustentada. O seguimento do doente por uma equipa multidisciplinar mostra‑se fundamental para a obtenção de melhores resultados a curto e a longo prazo. Bibliografia 1. Kolotin RL, Meter K, Wikkiams GR – Quality of life and obesity. – Obesity Reviews 2001; 2: 219‑229 2. Carmo I, Santos O, Camolas J, et al – Overweight and obesity in Portugal: national prevalence in 2003‑2005 – Obesity Reviews 2008; 9: 11‑19 3. Dumonceau J‑M – Evidence‑based review of the bioenterics intragastric balloon for weight loss. – Obes Surg 2008; 18: 1611‑1617 4. Kahtani KA, Khan MQ, Helmy A, et al – Bio‑enteric intragastric balloon in obese patients: a retrospective analysis of King Faisal Specialist Hospital experience. – Obes Surg 2010; 20: 1219‑11226 5. Mazure RA, Salgado G, Villarreal P, et al – Intragastric balloon and multi‑ disciplinary team. – Nutr Hosp 2009; 24: 282‑287