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Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - A Obra / opúsculos
PALESTRA PRONUNCIADA PELO ESCRITOR GILBERTO FREYRE, NO DIA 11.12.1979, EM
SOLENIDADE COMEMORATIVA DO VIGÉSIMO ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO DA SUDENE.
APRESENTAÇÃO
Ao editar esta palestra do sociólogo-antropólogo Gilberto Freyre, a Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste se alia às merecidas homenagens, de caráter nacional, que
estão sendo prestadas no 80.º aniversário desse notável escritor brasileiro.
É certo que em mais de uma oportunidade o grande mestre teve ocasião de opinar, no
grande auditório dos debates sobre o Nordeste brasileiro, que é o Conselho Deliberativo da
SUDENE, sobre os problemas do desenvolvimento econômico e social da região em que
nasceu e onde exerce uma grande influência. Mas a presente palestra, que ele proferiu numa
reunião comemorativa dos vinte anos de funcionamento da agência nordestina de
desenvolvimento, parece sintetizar, mais do que qualquer outro pronunciamento, o espírito
crítico e a liberdade de criação que são marcas registradas do pensamento gilbertiano. Aqui,
como em tudo o que escreve, ele consegue conciliar, de forma admirável, sua preocupação
marcadamente regionalista com uma visão universal dos problemas humanos.
Seu ponto referencial de análise - tão ao gosto dos que são responsáveis pelo destino da
SUDENE - é a necessidade de dar, à própria formulação do planejamento econômico, uma
dimensão interdisciplinar, em que homens das várias ciências, como também os espíritos mais
livremente artísticos, possam unir suas visões de mundo, para dar ao Nordeste brasileiro um
rumo a melhores condições de vida de sua população, sem prejuízo da preservação de seus
traços culturais próprios.
Assim é que, como se integrando nessa diretriz, agora mesmo a SUDENE viu aprovada,
pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República, em sua nova estrutura administrativa, a
criação de uma Superintendência Adjunta Social - até então inexistente - convivendo com os
problemas de infra-estrutura, estes já nitidamente pertencentes às suas preocupações de
órgão de planejamento e coordenação, desde a fase inicial de começos da década dos 60.
Este único fato revela que não há incompatibilidade entre o que preconiza criativamente
um espírito de escol como Gilberto Freyre e o que pensam os técnicos que mourejam no diaa-dia do esforço para dar ao Nordeste uma posição compatível com os seu passado de região
germinal - para usar expressão do próprio homenageado - da nacionalidade brasileira.
Certamente, algumas opiniões do mestre Gilberto Freyre, declaradamente polêmicas, não
coincidem totalmente com as dos teóricos, e muito menos dos executores dos planejamentos
de desenvolvimento regional. Mas ainda isso é desejável, segundo as palavras do grande
escritor brasileiro, muito pouco adepto das unanimidades, dos convencionalismos e das falsas
abrangências.
Por concordar em que o desenvolvimento é um processo, e que nenhuma idéia pode ser
rejeitada aprioristicamente como inconveniente ao atendimento das aspirações mais sentidas
de uma população, é que agora se edita esta palestra, que, longe de ser um programa, ou
uma aula sobre o desenvolvimento, é um repositório de temas a debater, com liberdade
interpretativa, pelos que se empenham em pensar o Nordeste. Por isso é que a SUDENE se
sente bem à vontade, homenageando Gilberto Freyre com a publicação de sua palestra:
extraordinariamente emulativa, magnificamente literária e explendidamente polêmica - como
emulativa, literária e polêmica é a obra inteira desse sempre jovem octogenário, orgulho de
Pernambuco, do Nordeste e do Brasil.
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VALFRIDO SALMITO FILHO
Superintendente da SUDENE
Tendo participado dos começos de organização da Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste, é com a maior alegria que aqui estou, convocado pelo
Superintendente Valfrido Salmito Filho, para ser o orador deste dia comemorativo.
Comemorativo de um acontecimento que nasceu histórico.
Aqui tive a honra de ser, no Conselho do novo órgão, o primeiro representante do
Ministério da Educação e Cultura. Designou-me para essa alta representação o
Presidente Juscelino Kubitscheck, a quem se deve a notável iniciativa da criação da
Superintendência.
Meu vizinho no Conselho era o General Afonso de Albuquerque, com quem tantas
vezes coincidiu meu parecer. Ou o seu modo de ver com o meu. Aqui recordo essa
figura ilustre de brasileiro, ao mesmo tempo que relembro a do primeiro
Superintendente, o economista Celso Furtado, com júbilo de ter com eles cooperado
para a SUDENE desse seus primeiros passos como órgão federal de nova espécie.
Organizador admirável, Celso Furtado. Dele, às vezes, divergi. Mas sempre o
admirando. Sempre reconhecendo seu espírito público, ao lado do seu brilhante saber
especializado.
Minha oposição ao economicismo do Professor Celso Furtado, quando primeiro
Superintendente da SUDENE, consta, decerto, dos anais deste órgão benemérito. Ela
aguçou-se quase pungentemente quando o ilustre Superintendente começou a pôr
arbitrariamente em prática, contra o mais elementar humanismo científico e contra o
mais elementar ecologismo, uma mecânica transferência de brasileiros do Nordeste
árido para o Nordeste úmido - o Maranhão - sem preparar-se o migrante,
oficialmente dirigido, para uma tão radical mudança de adaptação a ambiente. O
fracasso não tardou a verificar-se. Recorreu então a SUDENE ao Instituto Nabuco
onde, na época, o Departamento de Antropologia tinha como diretor, um sábio: o
então maior antropólogo brasileiro, o Professor Fróes da Fonseca. Já idoso porém
rijo, seguiu ele próprio para o Maranhão. E dele foram as providências de caráter
científico-social que impediram o fracasso da iniciativa economicista de tornar-se
uma maior calamidade.
Cientistas e pensadores sociais de ser constantemente renovados nos seus
saberes especializados e adquirirem perspectivas interdisciplinares. Principalmente
para chegarem a combinações desses sabres em face de novos avanços em
situações psicossociais. Suas atitudes entre tais situações precisam de ser não só
científicas ou técnicas como humanísticas. Não só de especialistas como de
generalistas.
Pois o especialista que for também um generalista poderá desempenhar função
não só técnica como de liderança: a liderança que a Era Nuclear começa a exigir, de
modo agudo, nos países quer desenvolvidos, quer em desenvolvimento. O
especialista que for também um tanto generalista, precisa, nos dias atuais, de ser o
orientador e inspirador de soluções a serem dadas aos problemas criados por novas
situações tecnológico-sociais. À base de suas orientações e inspirações é que terão
que ser tomadas as decisões políticas, aos políticos e administradores de um novo
tipo não podendo faltar, junto a assessores ou técnicos, especialistas, orientadores
ou inspiradores do tipo humanístico-científico ou generalista. Daí a importância que
Dennis Gabor - um cientista físico - atribue a inspirações que, para aquelas soluções,
possam, ser dadas até por poetas, por artistas, por intuitivos.
Tais inspirações não devem faltar à obra de integração do Nordeste no complexo
nacional brasileiro, por um lado, e, por outro, no moderno, ou já pós-moderno,
sistema internacional de sociedades interrelacionadas pelos seus diferentes
desenvolvimentos tecnológicos ou pelas suas ecologias diversas. A tais inspiradores,
orientadores, assessores, que a especialismos juntem perspectivas generalistas, não
poderão deixar de recorrer os líderes nacionais e internacionais de um novo tipo, aos
quais tocam poderes de decisão política.
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O empreendimento de autocolonização que se inicia numa Amazônia Brasileira a
que o Nordeste não pode ser indiferente, é dos que, mais do que o famoso, do Vale do
Tennessee, terão que desenvolver-se condicionados por novas formas de relações
entre três tipos de liderança - o científico-técnico, o humanista-cinetífico e o político
- que precisarão de ajustar-se para serem, pela sua obra em conjunto, dignos de um
também novo tipo de relações entre elite e nação, entre região e nação, entre nação
e comunidade internacional. Mais: condicionados de modo mais amplo aquelas três
Engenharias - a Física, a Humana, a Social, cuja importância vem sendo salientada
pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais: um Instituto com o qual o
Superintendente Salmito pensa em articular de modo mais efetivo esta
Superintendência.
De modo que em face de um problema mais complexo de Engenharia Física, o
engenheiro físico precisa de considerar as implicações humanas e as projeções
sociais desse problema. Sociólogos e antropólogos, economistas e psicólogos
inspiraram-se em métodos já clássicos da Engenharia Física para desenvolverem
uma metodologia de Engenheiro Social e de Engenharia Humana em que o trato com
os problemas de interrelação social e de relações do indivíduo com o seu ambiente, o
seu espaço e o seu equipamento de trabalho, é o trato objetivamente científico sem
deixar de ser humanístico. Tal é a densidade psicossocial dentro da qual o Homem
moderno se desenvolve tecnologicamente, que o engenheiro físico precisa, por sua
vez, de assimilar das Ciências Sociais, métodos já especificamente dessas ciências,
para lidar com problemas que não são puramente de Engenharia Física: são também
de Engenharia Social e de Engenharia Humana. Engenharias - a Social e a Humana - a
que o Superintendente Valfrido Salmito Filho está se revelando tão sabiamente
sensível.
Nem sempre os três critérios - o da Engenharia Física, o da Engenharia Social e o
da Engenharia Humana - se conciliam, de início, no trato de problemas assim
complexos. Precisam, então, ser ajustados em benefício do homem social, a serviço
do qual operam as três Engenharias, nenhuma deles podendo ser estranha a esta
consideração. Exemplo: a Engenharia Física pode construir aviões supersônicos,
capazes de reduzir, dentro de pouquíssimos anos, os atuais aviões a jato a arcaísmo
aeronáuticos. Pode construí-los em grande escala; já os constrói, no momento. A
velocidade dos aviões supersônicos será três vezes a do som, informam os
Engenheiros Físicos especializados em Engenharia aeronáutica. E na construção de
tais aparelhos, a aviação militar se vai antecipando, por motivos militares, à civil. O
problema desses aviões pós-modernos já está cientificamente resolvido pela
Engenharia Física. Tais aviões já existem. O que falta é considerar-se sua utilização
ampla, em termos economicamente médios, em termos ao alcance do homem
médio, do civil médio, em termos econômicos e em termos sociais. O novo tipo de
transporte aéreo ficaria extremamente caro, para os decênios imediatos: humana e
socialmente desvantajoso, embora fisicamente perfeito. Termos econômicos e
termos sociais a que podem eles próprios ser úteis, em futuro próximo, mas não
imediatamente.
O fato de poderem ser aperfeiçoadas tais ou quais máquinas, parece justificar
sempre um imediato e dispendioso aperfeiçoamento, à revelia de adaptações de
caráter social, econômico e humano, ao superprogresso tecnológico,
demasiadamente rápido. É preciso, segundo a Engenharia Humana, que os
progressos tecnológicos sejam considerados com relação a condições humanas, de
caráter sócio-econômico, e a condições sócio-culturais, de espaço regional, ou de
situações ecológicas ou regionais. Já são hoje denominados engenheiros do
comportamento, aqueles pesquisadores que, dentro da Engenharia Humana, se
especializam na observação e no estudo sistemático e como que de campo, das
interações entre homens e máquinas. Há livros recente sobre Scientific Research, em
que se dedica todo um capítulo à variabilidade científica como problema de
Engenharia: livro sugestivo. Altamente sugestivo. E uma Engenharia como que
médica, já se deriva de tal estudo, que se refere ao diagnóstico e à terapia
psicossociais das mesmas interações - entre o social, o humano e o físico - através
de ajustamentos de caráter psico-tecnológico entre homem e máquina, entre homem
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e equipamento técnico, entre progresso tecnológico e situação humana, condutas
sociais. Assunto que no livro Além do Apenas Moderno, o autor brasileiro desse livro
já considerou, o que pretende ampliar, de moderno mais específico, noutro livro:
Homens, Engenharias e Rumos Brasileiros.
Daí a necessidade das três Engenharias sempre se completarem, na consideração
de problemas complexos, inclusive os de relações de progressos com ecologistas. O
importante problema de relações entre progressos proporcionados pela Engenharia
Física e ecologias: condições naturais. Situações naturais próprias de regiões. Daí,
também, a necessidade das três Engenharias, ou dos três engenheiros - o físico, o
social e o humano - precisarem sempre considerar variações regionais, dentro de
constantes universais. Necessidade que talvez tenda a acentuar-se nas mais
complexas que as de hoje, sociedades pós-modernas, já a madrugarem nos dias
modernos.
Com relação à Engenharia Social, começam hoje a se processar, sob critérios
regionais ou ecológicos - a Ecologia e a Região sempre estão muito ligadas - em
países como a Alemanha Ocidental, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Holanda, a
Bélgica, a Europa Escandinava, a própria União Soviética, obras amplas de
rurbanização, que é um neologismo feito das suas palavras rural e urbano rurbanização - essas obras de rurbanização, através da criação de novos tipos de
pequenas cidades, ou de agro-vilas rurbanas - pequenas cidades das quais
consideráveis espaços sejam dedicados a fins recreativos, lúdicos, esportivos,
religiosos, meditativos, desinteressadamente culturais - na previsão do aumento,
que tende a ser cada vez maior, de tempo-lazer e de uma diminuição, que, aos olhos,
já existem, de tempo-trabalho. Em alguns desses países tecnicamente mais
adiantados, acentua-se já uma substituição de tempo ocupado por tempo
desocupado, impressionante, devido, sobretudo, ao aumento de automação.
A Amazônia brasileira, em grande parte pioneiramente povoada por nordestinos,
pela provável predominância nas formas, quer físicas, quer sociais de sua
autocolonização sistemática. Digo autocolonização, porque é a palavra exata. Falase, às vezes, que o brasileiro está colonizando a Amazônia: o brasileiro não pode
estar colonizando a Amazônia, porque a Amazônia é brasileira. O brasileiro
autocoloniza a Amazônia. A Amazônia tende a autocolonizar-se. Daí o neologismo
autocolonização não ser um pedantismo verbal, mas corresponder a uma situação
extra. Ora, a Amazônia, sobretudo depois desse grande feito de Engenharia Física apenas física - feito monumental, que honra o seu realizador, Mário Andreazza, é
autocolonização. Mas, desde aí, desse feito de Engenharia Física, que a Amazônia
clama - como vinha clamando, já, o Nordeste - por engenharias complementares, de
sentido humano e social, que estão hoje em começo de desenvolvimento no
Nordeste, mas que ainda não surgiram, como deveriam já ter surgido, na Amazônia
brasileira, onde, é possível, estejam se repetindo erros como os que assinalaram a
construção, sob o aspecto de Engenharia Física, particularmente estética,
impressionante, honrosa para o Brasil, que foi Brasília. Aos começos de Brasília faltou
Engenharia Humana. Faltou Engenharia Social. Para sua construção, não foi
convocado de início o pesquisador social. Foi desdenhado esse pesquisador social,
que você, Salmito, está começando a considerar com tanto apreço. Esse
pesquisador, o cientista social, o pensador social, o engenheiro social foram
completamente desprezados, na construção de Brasília. Brasília foi dada, de mão
beijada, a dois notáveis arquitetos esculturais - nem sequer arquitetos além de
esculturas. Dois - um deles, genial - arquitetos esculturais, que levantaram em
Brasília uma obra-prima de Engenharia Física escultural. Mas esquecendo
completamente problemas de Engenharia Humana e de Engenharia Social, que
deveriam ter estado presentes, desde os primeiros dias, na construção de Brasília, e
que só agora, com grandes despesas, estão sendo acrescentados à Engenharia Física
que, de início, deu a Brasília tanto brilho.
As decisões políticas no Brasil, as que o Brasil começa a seguir, terão que
corresponder a novos ritmos de transformação tecnológico-social do nosso país.
Ritmos diferentes em várias Regiões. E aí nós nos deparamos com um problema que
é de Engenharia Física: interessa ao problema de transporte, que é um problema
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sobretudo, repita-se de Engenharia Física. Mas também de Engenharia Humana,
porque é preciso haver adaptação a homens regionais diferentes, de modernos tipos
de transportes, que venham a dominar em regiões diversas. E também de
Engenharia Social, porque o problema interessa à integração nacional do Brasil: uma
integração a que brasileiro nenhum pode ser indiferente; a que líder político nenhum
pode ser indiferente; a que administrador nenhum pode ser indiferente. O problema
das interrelações entre regiões que se completam. A esse propósito, note-se,
primeiro: o Brasil, diante das novas transformações técnico-sociais que estão a se
verificar, já é uma presença notável, no mundo de hoje. Nós não temos mais o direito
de ser modestos. O espaço físico brasileiro nos tira o direito, que por acaso
quiséssemos ter, de ser modestos. Nós não podemos ser modestos; somos uma das
grandes extensões nacionais do mundo, ao lado da China, da Rússia, dos Estados
Unidos, do Canadá. Só isso nos dá uma situação de relevo mundial. Nesse vasto
espaço começam a se verificar notáveis transformações de caráter técnicos,
humano, social. Para a direção dessas transformações, nós precisamos - a palavra,
alguns querem desacreditá-la, mas ela não se deixa desacreditar - de elites. Nós
precisamos da seleção dos mais capazes, em direções de obras diversas, de
iniciativas diversas, de empreendimentos diversos. Na política, na economia, na
cultura; precisamos convocar, procurar, descobrir, valorizar os nossos supradotados,
estejam eles onde estiverem: nos mocambos, nas favelas, nas choupanas, entre a
gente mais pobre, entre as etnias mais desprestigiadas. Precisamos procurá-los.
Favorecer a sua formação, o seu preparo, a sua educação, como elites não de luxo,
mas necessárias, essenciais, a serem utilizadas pelo Brasil em transformação.
Há já no Brasil uns poucos pesquisadores e uns tantos jovens assistentes de
pesquisa, quer em ciências biológicas, quer nas sociais e nas intermediárias,
ecológicas e bio-sociais, aptos a concorrer - recrutados pela SUDENE e pelos
Institutos Nabuco - para a orientação e a execução dessas transformações. Alguns já
concorrem para que se examinem em profundidade situações ou realidades regionais
nacionais. Cientistas sociais e cientistas-humanistas idôneos, que surpreendam e
identifiquem aspectos ou características de situações brasileiras, as do Nordeste,
entre elas, porque o Nordeste é - queiram alguns brasileiros de outras Regiões ou não
- básico para o desenvolvimento pan-nacional. O Nordeste é germinal; o Nordeste
começou, realmente, uma civilização brasileira. O Nordeste é raiz. O Nordeste é
gérmen. O Nordeste, como população, é 1/3 da população brasileira. De modo que,
quando se clama pelo Nordeste, não se pede aos Governos Centrais uma caridade
pelo amor de Deus. O Nordeste tem direito nato a ser atendido, a ser valorizado, ser
olhado com extremos de atenção pelo Governo Central. A Engenharia Social,
aproveitando-se da Física, e de início completada pela Humana, pode, em futuros
próximos, criar no Brasil condições de produção econômica e de organização social
mais saudável que as hoje dominantes. Somos ainda um país, em vários dos seus
aspectos, de populações, não digo miseráveis, porque quem viu ou quem vê as
populações miseráveis da Índia, do Oriente, de certas partes da África, não pode
dizer que haja no Brasil populações miseráveis. Mas há populações extremamente
pobres. Nós não temos o problema de fome que se vê na Índia, por exemplo, onde eu
vi, com meus próprios olhos, morrer-se de fome, nas ruas de Bombaim. Não se morre
de fome nas ruas do Brasil, mas há subnutrição, que é uma maneira lenta e até sutil,
de morrer-se de fome. Que o diga Mestre Nelson Chaves. Ora, há muito que se fazer,
através de três Engenharias pelo Brasil.
Lembre-se que não foi um nacionalista da Ásia ou do Brasil, mas anglo-americano,
interessado na valorização dos Trópicos, que escreveu há pouco, destacando um
exemplo expressivo: ser o embarque de cocos de palmeiras de azeite, de áreas
tropicais - uma dessas áreas podia ser o Nordeste - para Brighton, New York ou
Cincinnati, a fim de serem aí despolpados para se proceder à extração de óleos. Um
absurdo. Significa um monopólio de produtos tropicais - podiam ser os produtos do
Nordeste os visados por esse observador norte-americano - por industriais de terras
não tropicais. Exploração imperialista, da pior espécie, de gentes tropicais.
A essas gentes vêm faltando, no Brasil, detentores do poder político e detentores
do poder econômico, que as defendam contra as explorações e depredações de seus
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recursos naturais e de seus recursos humanos. Chega-me a informação - ontem,
precisamente - de pessoas que suponho bem informadas, de que o Brasil, para as
suas indústrias de utilização do coco, vai ter que importar coco da África ou da Índia.
Ora o Brasil, realmente - o Nordeste, em particular - devido a absurdas manobras de
roubo de espaço agrícola, para fins, às vezes luxuosamente industriais, está ficando
sem cajueiros e sem coqueiros, necessários às suas indústrias correspondentes a
cajus e a cocos. É um problema, ai, em que a ampliação da utilização de tais valores
seria possível, através da Engenharia Física, com resultados humanos e sociais do
maior significado para a economia brasileira, para o bem-estar humano do Brasil,
para o desenvolvimento brasileiro, em termos sociais e humanos, e não apenas
econômicos.
É inseparável de uma imagem do moderno Brasil, como civilização em que se
conciliem, com arrojos inovadores, constantes apuradas por uma já considerável
experiência no tempo histórico, o fato de que, aqui, mais do que em outro vasto país
da mesma ecologia, começa a desenvolver-se uma consciência ecológica, tanto
entre cientistas como entre artistas; tanto entre elites como entre massas. O
Brasileiro já sente que é possível ser predominantemente civilizado sem deixar de
ser teluricamente tropical, ou quase tropical, ou brasileiro, em geral. Civilizado, sem
se envergonhar de ser a população brasileira, por exemplo, em grande parte,
tropicalmente ou euro-tropicalmente mestiça. Mestiça e crescentemente eugênica.
Mestiça, sem que com a mestiçagem, deixe de haver no Brasil um conjunto, cada vez
maior, de formas e cores humanas esteticamente positivas além de eugenicamente
positivas.
Este reparo se junta a outros que poderiam ser feitos em torno de interpretações
sócio-antropológicas de uma irrecusável, já a definir-se de modo incisivo, civilização
brasileira. Por exemplo, a interpretação, justa, de que essa civilização é, ao mesmo
tempo, una e plural, regional e nacional.
Sua unidade é afirmada por uma língua nacional e comum, falada por 120 milhões
de bocas de brasileiros das mais diversas origens étcnicas e culturais. E é também
afirmada por uma religião Católica, ou, em vários casos, para-Católica, que permite
anarquistas dizerem, como personagens de recente livro de Zélia Amado,
"Anarquistas, Graças a Deus". É esse o título tão expressivamente brasileiro desse
livro. Vou dar um resumo do que ele contém. Zélia é esposa de Jorge Amado. O livro
não tem nada de Jorge Amado; nem palavrões, nem outro característico do aliás
admirável Jorge. É um livro de Zélia. Ela conta, autobiograficamente, a origem de sua
família: anarquistas italianos, que vieram para o Brasil no reinado de D. Pedro II,
protegidos por ele, Pedro II, que viu naqueles anarquistas italianos um bom elemento
a ser integrado ao Brasil. E tudo leva a crer que acertara. Eles foram se fixar no Sul do
Brasil. Mas veio a República de 89.
Vocês não pensem que eu sou, como meu querido amigo Ariano Suassuna,
monarquista; não vou a tanto. Mas sou dos que reconhecem que a Monarquia foi útil
ao Brasil. Ela concorreu para a unificação do Brasil. A Monarquia desenvolveu todo
um sistema de oportunidade, até para brasileiros de cor, de chegarem a altas
situações, como foi o caso dos Rebouças, tão amigos de Pedro II, como foi o caso de
Teodoro Sampaio, como foi o caso de Juliano Moreira, como foi o caso de outros
brasileiros de cor, protegidos, amparados, dadas oportunidades de ascensão social,
pela Monarquia e por sobrevivências da Monarquia na República. Julgada a Monarquia
por um critério sociológico-histórico, de justiça histórica e justiça sociológica, neste
particular merece o respeito dos brasileiros de hoje.
Mas, vejam no caso de Zélia Amado, o que ela conta: que o fundador da sua família
era uma anarquista italiano: sem dúvida Dom Pedro II examinara a condição desse
anarquista, seus antecedentes, e daí Ter-lhe dado inteira liberdade para se
estabelecer, como se estabeleceu, com outros anarquistas, no Sul do Brasil. Mas veio
a República e, politicamente, foi em cima dos anarquistas, condenando-os só pelo
nome de anarquistas. Dissolveu a colônia - aquela colônia romântica, que estava
começando a prosperar, plantando as suas próprias verduras e vivendo uma vida
fraterna e telúrica. Abrasileirando-se. A República extinguiu-a. Vieram, então, os
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avós de Zélia para São Paulo. Em São Paulo, é claro que cada família anarquista foi
para um lado, cada um teve que viver a sua própria vida, e cada uma teve que sofrer
a influência brasileira, a influência brasileirante, ou abrasileirante. E, sobre os
anarquistas, conta Zélia, de sua própria mãe, que ainda era anarquista que, quando
se zangava, ou quando queria agradecer alguma coisa, valia-se de Deus, dos Santos,
da Virgem brasileiros. Já era um abrasileiramento; já era um anarco-brasileirismo, ao
qual, de certo modo, eu pertenço.
Nós nos defrontamos, no setor em conjunto de tr6es engenharias, com o problema
da chamada imaginação científica, que tanto pode agir retrospectivamente, na
interpretação do nosso próprio passado social, como futurologicamente, em
especulações sobre não um futuro certo, rígido, matemático, mas sobre possíveis
futuros brasileiros, que foi o que eu próprio procurei fazer, no meu livro chamado
Além do Apenas Moderno. Porém se especula sobre possíveis futuros brasileiros, e
sobre a parte que as três engenharias podem ter, agindo em conjunto, nesses
futuros. E aí se recorda uma experiência americana dos Estados Unidos, que é uma
experiência válida: a experiência do Vale do Tennessee. O que se fez no Vale do
Tennessee, foi qualquer coisa de interesse especial para o Nordeste brasileiro.
Resolveu-se aí um conjunto de problemas que afetavam o próprio futuro dos Estados
Unidos: a separação, que tinha vindo desde a guerra civil, do Sul agrário, em face do
Norte industrial. Nas obras do Vale do Tennessee, criou-se, então, uma enorme, uma
formidável ponte física, humana, social, entre dois grupos humanos numa só Nação,
que comprometiam o futuro desta Nação.
Essas obras, já históricas, do Vale do Tennessee têm um enorme interesse, para
mostrar como as três Engenharias, de que venho falando, podem de fato atuar a
favor de uma nação: a favor do entendimento entre suas Regiões. Não sei se é
demasiado se pensar numa espécie de obras do Vale do Tennessee, para o Nordeste
brasileiro: a especulação é futurológica. Mas cabe aos pensadores sociais, aos
cientistas sociais, aos engenheiros físicos, aos engenheiros humanos, aos
engenheiros sociais, pensarem nessa possibilidade magnífica, de um equivalente das
obras do Vale do Tennessee, para o Nordeste brasileiro. Para a sua efetiva integração
no desenvolvimento brasileiro. O desenvolvimento social, e não apenas econômico.
Nem somente tecnológico.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Palestra pronunciada pelo escritor Gilberto Freyre, no dia 11.12.1979, em
solenidade comemorativa do vigésimo aniversário de fundação da SUDENE. Recife: SUDENE, 1980. 22p.
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palestra pronunciada pelo escritor gilberto freyre, no dia 11.12.1979