SE MARIA GRAHAM VOLTASSE
José Mario Rodrigues
Quando estávamos sob domínio português, em l821, andou pelo Recife a viajante
inglesa Maria Graham. Ela se demorou um pouco mais de vinte dias. Encontrou uma
cidade tumultuada por conta da revolta contra o então governador e capitão general da
província de Pernambuco, Luiz do Rego Barreto, que em julho do mesmo ano havia
sofrido um atentado. O povo fazia barricadas contra o governo, os tiroteios eram
freqüentes e o lixo tomava conta das ruas.
Mesmo naquele cenário inseguro, Maria Graham percorreu todos os lugares.
Comeu frutas que não conhecia, conversou, entrou nas casas e anotou com precisão os
costumes e hábitos exóticos dos nativos em pé de guerra. Ficou horrorizada com a
escravidão e a maneira degradante como os senhores e os brancos tratavam os negros
que morriam doentes na imundície da senzala.
Comecei a delirar com uma hipótese absurda: se Maria Graham voltasse ao
Recife, quase dois séculos depois, o que ela anotaria em seu diário de viagem? Como se
trata de um delírio, é bom que se diga, sem uso de drogas, vou abolir deste texto o
condicional e dar um salto de l86 anos no tempo. Fica mais fácil e compreensível relatar
a volta imaginária da viajante inglesa, elogiada por Gilberto Freyre em “Casa Grande e
Senzala”.
Pronto. Maria Graham chegou. Hóspede da Prefeitura do Recife, o cerimonial
preparou o roteiro da sua visita à cidade. Ao descer no Aeroporto dos Guararapes a
viajante ficou impressionada com o progresso e a modernidade do Recife. Ainda no
Aeroporto, lhe chamou atenção as obras de arte de João Câmara, Zé Cláudio, Gil
Vicente, Pedro Frederico e as esculturas de Francisco Brennand. Demonstrou interesse
em conhecer os artistas da terra e levar algumas telas para a sua coleção particular.
Instalou-se na suíte presidencial do Recife Palace. À noite foi recepcionada com
um jantar na casa do Prefeito. No dia seguinte, em hora previamente estabelecida, o
guia do cerimonial estava plantado no saguão do hotel para levar a famosa escritora a
um olhar sobre cidade. Entre outros lugares turísticos foram incluídos a Oficina
Brennand, o Castelo de Ricardo Brennand, a Capela Dourada, o Marco Zero, a
Fundação Gilberto Freyre e uma rápida passagem pela Sé de Olinda.
Acontece que a viajante tarimbada, pesquisadora arguta, historiadora
internacionalmente conhecida, deu um bolo no guia resolveu sair sozinha para
redescobrir a cidade. Esse roteiro oficial programado era tudo que não queria, pois
esconde a realidade local e a vida como ela é. Foi aí que começou o desastre. Ela tomou
o ônibus Boa Viagem/ Caxangá, desceu na Avenida Guararapes, saiu andando pelo
Pátio de São Pedro em direção ao Mercado São José. Nem bem chegou ao destino, foi
assaltada por três meninos de rua que lhe roubaram a bolsa com passaporte e mais um
punhado de libras esterlinas que esqueceu cambiar. Como os meninos não conheciam a
moeda inglesa, foi fácil prendê-los. A polícia conseguiu reaver os documentos, mas o
dinheiro sumiu.
Maria Graham não desistiu de chegar ao Mercado e encontrou por lá um
escritor maldito, que ninguém quer publicar, pois o seu assunto são os excluídos, as
prostitutas, os cafetões, os travestis, a extrema pobreza que “relaxa e goza”.
Desta vez, ela ficou assombrada com a violência e comentou com Liêdo
Maranhão a estatística da criminalidade. Mata-se por um celular. Mata-se pelo volume
do som. Mata-se para demarcar ponto de venda de droga e o não pagamento da droga.
Mata-se para roubar e rouba-se para comprar armas e matar. Matam-se muitas mulheres.
Matam-se jovens e os jovens se matam. Ao chegar ao hotel a viajante leu os jornais e,
desiludida, resolveu cancelar a visita. O que viu, bastou. A população cresceu, a cidade
tanto se modernizou como empobreceu, mas a barbárie é a mesma.
Um dado positivo acrescentou ao seu novo Diário: o protesto das ruas. Os sem
teto, os sem terra, os sem salário digno cobram seus direitos, xingam os governantes e
pedem paz. O Recife lava o rosto adormecido na água do mar e acorda para a vida.
Download

SE MARIA GRAHAM VOLTASSE