Revista da Faculdade Integrada do Ceará
ISSN 1676-0522
Anima
Fortaleza
ano 5
n. 7
p. 9-110
jan./jul. 2005
SOCIEDADE DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ
PRESIDENTE
ANNITA SCHTERB GORODICHT
FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ
DIRETOR GERAL
JESSÉ DE HOLLANDA CORDEIRO
DIRETORA DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS
CRISTIANA DOS REIS ROCHA
COORDENADORA DE INFORMAÇÕES, SERVIÇOS E REGISTROS ACADÊMICOS
NOEME MILFONT MAGALHÃES
COORDENADORA DE ENSINO
ANA FLÁVIA ALCÂNTARA ROCHA CHAVES
COORDENADORA DE PESQUISA E EXTENSÃO
ANTONIA CLÁUDIA LOPES DOS SANTOS
COMISSÃO DE PUBLICAÇÃO
Editor Científico:
Prof. Dr. Guilherme Lincoln Aguiar Ellery
e-mail: [email protected]
Conselho Editorial:
Prof. Dr. José de Souza Neto
Prof. Dr. José Afonso Bruno
Profa Ms. Antonia Cláudia Lopes dos Santos
Prof. Ms. Benedito José de Carvalho Filho
Prof. Ms Carlos Alberto dos Santos Bezerra
Profa Ms Raimunda Hermelinda Maia Macena
Produção Editorial:
José Vauni de Freitas
Bibliotecária Responsável:
Luiza Helena de Jesus Barbosa – CRB 830
Anima/Faculdade Integrada do Ceará., ano 5, n.7, (jan./jul. 2005).Fortaleza: Faculdade Integrada do Ceará, 2004.
v.: il, 30cm.
Semestral
Início da coleção v.1, n,1, out./dez. 2001
1. Periódico científico - Faculdade Integrada do Ceará - FIC
2. Artigos diversos
CDD 050
Printed in Brazil
2
ISSN 1676 - 0522
Revista da Faculdade Integrada do Ceará
3
Edit
orial
Editorial
O primeiro número da revista ANIMA foi publicado em
outubro de 2001. Quatro anos são passados. Hoje é um projeto
consolidado, que busca permanentemente se aperfeiçoar.
A Faculdade Integrada do Ceará – FIC, de 2001 para cá,
tem crescido muito e torna-se uma organização cada vez mais
complexa e multifacetada, com o crescente número de alunos,
professores e funcionários. Seus cursos de Graduação e
Graduação Tecnológica têm sido sempre muito bem avaliados
pelas Comissões do MEC. Seu corpo docente se apresenta em
constante elevação da qualificação.
A Revista ANIMA tem sido, desde a sua criação, um
instrumento contribuidor para o crescimento educacional, técnicocientífico e institucional da FIC.
Quando o sexto número da revista ANIMA foi lançado,
exatamente no dia 21 de setembro de 2004, na sede Via Corpvs,
o Professor Benedito João de Carvalho Filho, então editor da
Revista, dizia:
A Revista ANIMA se confunde com o processo de
consolidação do projeto educativo da própria Faculdade.
A divulgação dos trabalhos publicados pelos professores
pesquisadores é fundamental para dar visibilidade às
pesquisas desenvolvidas na Instituição.
E, logo em seguida, no artigo “Revista veicula atuação da FIC”,
publicado no Jornal O POVO em 22 de setembro de 2004, advertia:
O que não significa somente adequar-se às normas
técnicas exigidas, mas principalmente elevar a qualidade
dos artigos publicados, pois é através deles que
elevaremos o nível das publicações.
Após conduzir, com entusiasmo e competência, a editoração
da Revista, o Professor Benedito, agora integrando o Conselho
Editorial, transfere o bastão com as seguintes observações:
Em primeiro lugar, considero que uma revista
acadêmica não é um artefato cultural somente para
cumprir os ditames exigidos pelas autoridades
superiores do ensino, no caso o MEC. É importante
que ela tenha um formato adequado ao mundo
4
Edit
orial
Editorial
científico, mas penso que seria muito
estreito ficarmos aprisionados
somente pela sua forma. Uma revista,
ou qualquer outra publicação
produzida nos centros superiores de
ensino é um instrumento de debate
cultural, onde os professores
escrevem, de preferência, não somente
para somar pontos em seu currículo,
mas para fomentar a troca de idéias,
discutir em profundidade os
problemas do mundo e de seu país,
cada uma na sua especialidade.
Um dos grandes desafios enfrentados pela
FIC, sempre explicitado por seus dirigentes, é crescer
não só em quantidade, mas, principalmente, em
qualidade, o que significa uma busca permanente
do profissionalismo e do compromisso na
concepção e na execução de seus projetos.
A Revista ANIMA é um desses projetos.
Neste momento, de muitas mudanças e
transformações, na sociedade e nas instituições, a
FIC acompanha o ritmo e a efervescência do
contexto em que se insere.
A Revista ANIMA também segue o
caminho das transformações, buscando sempre
o seu aperfeiçoamento, perseguindo os alvos
supra mencionados.
Assim é que, neste número da Revista
ANIMA, são apresentados sete Artigos:
-A Importância do Controle Interno na
Administração Pública Brasileira e a Contribuição
da Contabilidade como Principal Instrumento de
Controle na Busca da Eficiência da Gestão Pública,
de autoria do Professor Stênio da Silva Moreira,
docente da FIC.
-Educação Empresarial: Uma Proposta de
Taxonomia para programas Educacionais
Aplicados às Organizações, de autoria do
Professor Marcos Antônio Martins Lima, docente
da UFC.
-Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica
e Direitos Humanos, de autoria do Professor
Ubiracy de Souza Braga, docente da UECE.
-Emoção e racionalidade, de autoria de
Leonardo de Araújo e Mota.
-O Esporte como Serviço e Ferramenta de
Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas
de Fortaleza, de autoria dos Professores Francisco
José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz e
Francisco de Assis Francelino Alves, o primeiro e
o terceiro docentes da FIC e o segundo vice-diretor
do Colégio Juvenal de Carvalho.
-Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho,
de autoria da Especialista Ana Telma Sobreira
Monte e do Mestre José Varela Donato, Gerente
da CEF e Consultor do BNB, respectivamente.
-Gestão em Tempos de Complexidade:
Reflexões Acerca da Construção de um Novo
Olhar sobre as Organizações, de autoria da
Professora Renata Guimarães de Carvalho,
docente da FIC.
Configura-se, portanto, nesta edição da Revista
ANIMA, um rico material técnico-científico,
diversificado nas áreas de conhecimento em que se
conformam os artigos, plural nas vivências
acadêmicas e profissionais de seus autores e com
expressiva participação de professores da FIC.
Temos a convicção de estarmos
perseguindo, com mais este número da Revista
ANIMA, os ideais tão bem expostos pelo
Professor Benedito José de Carvalho Filho e a
orientação emanada dos dirigentes da FIC,
contribuindo para a evolução positiva do projeto
educacional da Faculdade e para a difusão da
produção acadêmica cearense.
Guilherme Lincoln Aguiar Ellery
Editor Científico
5
6
Su
mário
Sumário
A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da
Contabilidade como principal instrumento de
Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
STÊNIO DA SILVA MOREIRA
09
Educação Empresarial: uma proposta de
Taxonomia para Programas Educacionais
Aplicados às Organizações
MARCOS ANTONIO MARTINS LIMA
Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e
Direitos Humanos
UBIRACY SOUZA BRAGA
37
Emoção e Racionalidade
LEONARDO DE ARAÚJO E MOTA
O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção:
Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza
FRANCISCO JOSÉ DA COSTA
SÉRGIO HENRIQUE SOUSA DINIZ
FRANCISCO DE ASSIS FRANCELINO ALVES
55
63
Poder gerencial e criatividade no trabalho
ANA TELMA SOBREIRA ONTE
JOSÉ VARELA DONATO
Gestão em Tempos de Complexidade: Reflexões
Acerca da Construção de um Novo Olhar Sobre as
Organizações.
RENATA GUIMARÃES DE CARVALHO
27
79
93
7
WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI
A Importância do Controle Interno na
Administração Pública Brasileira e a
Contribuição da Contabilidade Como
Principal Instrumento de Controle na
Busca da Eficiência da Gestão Pública
Stênio da Silva Moreira*
RESUMO: Com a promulgação, em 17 de março de
na Administração Pública Governamental, chegando
1964, da Lei Complementar nº. 4.320, que estatui
a confundir o desempenho do controller, do contador
normas gerais de direito financeiro para elaboração e
e do auditor.
controle dos orçamentos e balanços, foi estabelecido
Na esteira do Plano diretor de Reforma do Estado, o
que o controle da execução orçamentária e financeira
Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional
da União, Estados, Municípios e Distrito Federal deveria
ser exercido pelos Poderes Legislativo e Executivo,
mediante controles externo e interno, respectivamente.
Esse entendimento foi reafirmado pelo art. 70, da
Constituição Federal de 1988.
Objetivando a se ajustarem à nova sistemática
contábil introduzida através daquela legislação, as
o Anteprojeto da Lei de Responsabilidade Fiscal,
posteriormente, a Lei Complementar nº. 101/00, que
foi sancionada em 4 de maio de 2000, e tem por
objetivo principal estabelecer regras para a gestão das
Finanças Públicas e mecanismos para o cumprimento
de objetivos e metas. Além disso, pretendia o governo
três esferas da Administração Pública Brasileira
dar maior transparência à gestão nas três esferas da
foram obrigadas a criar naquela época uma certa
Administração Pública, ou seja, uma gestão fiscal
forma de controle interno.
responsável.
Observe-se que ao longo do tempo, o conceito de
Este trabalho objetiva demonstrar a importância do
controle interno vem sendo entendido como auditoria
Controle Interno na Administração Pública brasileira
e não como um conjunto de funções integradas.
e a contribuição da Contabilidade como principal
Nos cenários atuais, no Brasil, ainda é discutível
e indefinida a posição do Sistema de Controle Interno
Palavras-chave:
Controle Interno na
Alimentação;
Contabilidade como
Instrumento de Controle;
Eficiência na Gestão
Pública Brasileira;
Responsabilidade Fiscal.
K ey
ey--Words: Internal
Control in the Food;
Accounting as Instrument
of Control; Efficiency in
the Brazilian Public
Management; Fiscal
Responsibility.
instrumento de Controle na busca da eficiência da
Gestão Pública brasileira.
*Mestre em Controladoria e Contabilidade
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
9
Stênio da Silva Moreira
CT:: With the promulgation, on March 17,
ABSTRACT
CT
ABSTRA
Administration, getting to confuse the controller’s
1964, of the Complementary Law any.. 4.320, that I
action, in the current landscapes, in Brazil, of the
decreed general norms of financial right for
accountant and of the auditor.
elaboration and control of the budgets and balances
In the rug of the pilot plan of Reform of the State, the
sheet, it was established that the control of the budget
Federal Government drove to the National Congress
and financial execution of the Union, States, Municipal
districts and Federal district should be exercised by
the Ponders Legislative and Executive, through controls
expresses me and internal, respectively. That
understanding was reaffirmed by the art. 70, of the
Federal Constitution of 1988.
Appearing to the if they adjust to the new systematic
accounting introduced by that legislation, the three
spheres of the Brazilian Public Administration were
forced she creates for that time a certain form of
the Project of the Law of Fiscal Responsibility, then,
the Complementary Law any.. 101/00, that it was
sanctioned in May 04, 2000, and he/she has for main
objective to establish rules for the administration of
the Public Finances and mechanisms for the execution
of objectives and goals. Beyond, it intended the
government to give larger transparency to the
administration in the three spheres of the Public
Administration, in other word, a responsible fiscal
internal control.
administration.
Be observed that, along the time, the concept of
This work appears to demonstrate the importance of
internal control was understood as examining and I
the Internal Control in the Brazilian Public
don’t eat a group of integrated functions.
Administration and the contribution of the Accounting
It is still debatable and indefinite the position of the
as main instrument of Control in the search of the
System of Internal Control in the Government Public
efficiency of the Brazilian Public Administration.
1 INTRODUÇÃO
Na administração empresarial o controle é exercido e imposto pelo empresário, enquanto na
administração pública a função controle é exercida em decorrência de exigências legais.
A importância do controle na administração pública brasileira passou a ser destacada,
principalmente, com a Reforma Administrativa de 1967, consoante o artigo 6º. do Decreto-lei nº. 200/
67, que coloca o controle, ao lado do planejamento, entre os cinco principais princípios fundamentais
que norteiam a atividade pública.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
A Lei nº. 4.320/64 estabeleceu que o controle da execução orçamentária e financeira da União,
estados, municípios e Distrito Federal será exercido pelos Podres Legislativo e Executivo, mediante
controles internos e externos, respectivamente. Tal entendimento foi reafirmado pelo artigo nº. 70, da
Constituição Federal Brasileira, de 1988.
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
A importância do controle Interno na administração pública brasileira e a contribuição da contabilidade
como principal instrumento de controle na busca da eficiência da gestão pública
Nos termos do artigo 75, da Lei nº. 4.320/64, a finalidade do controle da execução orçamentária
compreenderá a legalidade dos atos de que resultem a arrecadação da receita ou a realização da despesa;
o nascimento ou a extinção de direitos e obrigações; a fidelidade funcional dos agentes da administração
responsáveis por bens e valores públicos; o cumprimento do programa de trabalho, expresso em
termos monetários e em termos de realização de obras e prestação de serviços.
No âmbito governamental, portanto, pode-se distinguir dois tipos de controles que são executados
na administração pública: controles externo e interno. O interno quando exercido dentro da própria
administração, ou seja, por agentes do mesmo poder; e o externo exercido por órgãos independentes
desse poder.
Pode-se afirmar que os governantes, desde a época do Brasil colonial, observavam a premente
necessidade de controle, o que legalmente foi viabilizado a partir da Lei 4.320/64, artigos 75 a 82.
Posteriormente, pela Constituição Federal de 1988, artigo 74; e mais recente a Lei Complementar
101/00 (LRF), cujo objetivo, consoante Reis (2003:166) “é através do exercício pleno do controle
evitar que as entidades governamentais desperdicem os recursos que lhes são oferecidos pela sociedade,
e se endividem mais do que o seu próprio lastro financeiro permite”. Referida legislação ampliou e
melhorou a ação do controle substantivo.
A busca pela eficiência na gestão pública brasileira e pelo equilíbrio fiscal nas contas públicas
ganhou impulso no início de 1993, passando os governantes a terem uma preocupação maior com o
controle na administração pública o que implica em se afirmar na importância do controle das finanças
públicas nacionais razão pela qual pretende-se, com o presente trabalho, enfocar o assunto expondo sua
relevância para o momento atual brasileiro.
2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA
No que se refere à divisão do território nacional, à divisão de poderes, à forma de governo, o
modo de investidura dos governantes, os direitos e garantias dos governados, a organização estatal é
matéria constitucional.
As disposições constitucionais moldam a organização política do Estado e, por intermédio de
legislação complementar e ordinária, a organização administrativa das entidades estatais, de suas autarquias
e entidades paraestatais visando a execução desconcentrada dos serviços públicos e outras atividades de
interesse coletivo.
No modelo federativo brasileiro as entidades estatais são a União, os Estados-membros, os
municípios e o Distrito Federal.
Observe-se que governo e administração pública não se confundem, portanto, existe uma distinção
entre ambos. O governo é o conjunto de poderes e órgãos constitucionais. A administração pública é o
conjunto de órgãos instituídos para a consecução dos objetivos do governo. É o desempenho permanente
e sistemático, legal e técnicos dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da
coletividade. É o aparelhamento do Estado preordenado à realização de seus serviços objetivando a
satisfação das necessidades coletivas.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
11
Stênio da Silva Moreira
2.1 FUNÇÕES DOS PODERES
De acordo com a Constituição Federal de 1988, artigo 2º, o Estado brasileiro se divide em três
esferas de poder distintas, independentes e harmônicas: Legislativo, Executivo e Judiciário. A organização
estatal brasileira divide-se em 3 esferas político-administrativas: Federal, Estadual e Municipal.
A organização federal compõe-se do Poder Executivo, exercido pelo Presidente da República,
auxiliado pelos Ministros de Estado e tendo ainda o Poder Legislativo – exercido por um sistema
bicameral, o Congresso Nacional - e o Poder Judiciário, consoante os artigos 4º. e 5º., do Decreto-lei
nº. 200/67, de 27 de fevereiro de 1967. A estadual possui estrutura simétrica com a administração
federal, sendo o Poder Legislativo unicameral, o Poder Executivo exercido pelo Governador de Estado,
com o auxílio dos Secretários de Estado, e o Poder Judiciário. Quanto ao municipal, possui apenas os
Poderes Executivo e Legislativo.
As funções típicas dos Poderes são, portanto, a legislativa, a administrativa e a jurisdicional.
A função administrativa é a mais ampla e abrangente. É através desta função que o Estado
promove a gestão de todos os seus interesses, bem como os da população. É desempenhada por
todos os Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios e abrange todos os
órgãos que, na gestão de interesses de Estado ou da coletividade, não estejam atuando legislativa ou
jurisdicionalmente.
2.2 ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA
A administração pública pode ser considerada como o universo de órgãos e pessoas que
desempenham a função administrativa e compreende a administração direta e a indireta.
A administração direta é composta dos órgãos dos Poderes políticos dos entes da federação que
exercem atividades administrativas. O Poder Executivo, incumbido da função administrativa, que é
típica deste Poder, possui uma estrutura mais complexa, definida pela legislação pertinente e por atos
próprios. Os Poderes Legislativo e Judiciário definem, por atos próprios, sua estrutura orgânica.
A estrutura do Poder Executivo, em relação à administração direta, compõe-se de órgãos de três
classes: a chefia do governo, os órgãos de assessoria direta ou de chefia, tais como, Casas Civil e Militar,
procuradorias e defensorias, etc., e os ministérios ou secretarias, como órgãos de ação setorial.
Referida estrutura é semelhante nas três esferas de governo: União, estados e municípios.
A administração indireta é composta por pessoas jurídicas, ou entidades, vinculadas à administração
direta, que executam atividades administrativas de interesse do Estado, de forma descentralizada. Possuem
personalidade jurídica própria e compreendem as seguintes categorias de entidades: autarquias; empresas
públicas; sociedades de economia mista; e fundações.
2.3 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS
A administração pública é regida por vários princípios emanados da Constituição e das diversas
leis relativas à sua organização.
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
São princípios constitucionais aplicáveis obrigatoriamente às administrações direta e indireta de
todas as esferas de governo: legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência.
De acordo com o artigo 6º, do Decreto-lei nº. 200/67, planejamento, coordenação,
descentralização, delegação de competência e controle são os princípios básicos que devem nortear a
atividade operacional na administração pública.
Consoante Albuquerque (2002), a função de planejar como um processo racional para definir
objetivos e meios de atingi-los, ou seja, a formulação sistemática de um conjunto de decisões, devidamente
integrado, que expressa os propósitos e condiciona os meios para alcançá-los.
Planejar é, logicamente, o requisito primário mais elementar da administração e consiste na
ordenação sistemática da conduta para a consecução de determinados propósitos. Se não houver um
mínimo razoável de deliberação que as oriente, as ações não merecem o qualitativo de administrativas.
O processo de programar é parte necessária da função administrativa, segundo Albuquerque (2002).
A ação governamental obedecerá a planejamento que vise a promover o desenvolvimento
econômico e social do País, do Estado ou do município e a segurança nacional, norteando-se segundo
planos e programas gerais, setoriais e regionais de duração plurianual elaborados através de órgãos de
planejamento sob a orientação e a coordenação dos Chefes de Estado.
De acordo com o artigo 165, da Constituição Federal, o planejamento governamental é retratado
financeiramente em três instrumentos básicos: as Leis de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o Plano
Plurianual (PPP) e o Orçamento Anual (LOA).
As atividades da administração pública e especialmente a execução dos planos de programas
serão objeto de permanente coordenação e será exercida em todos os níveis da administração mediante
a atualização dos responsáveis diretos pelas tarefas através de realização sistemática de reuniões com os
demais responsáveis envolvidos e a instituição e funcionamento de comissões de coordenação em cada
nível administrativo, de acordo com os artigos 8º. e 9º., do Decreto-lei nº. 200/67.
A descentralização pressupõe a existência de agentes públicos investidos de poderes necessários
para exercitar a atividade pública e será posta em prática em três planos principais seja na área federal,
estadual ou municipal: dentro dos quadros da Administração Federal, Estadual ou Municipal; da
Administração Federal, Estadual ou Municipal para as respectivas unidades, quando estejam devidamente
aparelhadas e mediante convênio; e da Administração Federal, Estadual ou Municipal para a esfera
privada, mediante contratos e concessões.
É facultado às autoridades da administração pública delegar competência para a prática de atos
administrativos, conforme o previsto em regulamentos. O ato de delegação indicará com precisão a
autoridade delegante e a autoridade delegada e as atribuições objeto da delegação.
A delegação de competência é considerada por Castro (2002) como uma técnica de
descongestionamento e será utilizada com o objetivo de assegurar maior rapidez e objetividade às
decisões, situando os agentes públicos próximos dos fatos, pessoas ou problemas.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
13
Stênio da Silva Moreira
O controle das atividades administrativas é um dos meios pelos quais se exercita o poder hierárquico,
isto é, os órgãos superiores controlam os inferiores fiscalizando o cumprimento das normas e regras
que regem cada sistema. Deve ser exercido em todos os níveis e em todos os órgãos.
Os documentos relativos à escrituração dos atos de receita e da despesa ficarão arquivados no
órgão de contabilidade analítica e a disposição das autoridades responsáveis pelo acompanhamento
administrativo e fiscalização financeira e dos agentes incumbidos do controle externo, de competência
do Poder Legislativo e dos Tribunais de Contas.
Diante do exposto, observa-se a importância do sistema de planejamento, da programação e do
controle orçamentário-financeiro, por tratar-se de sistema de formulação de programas de governo, a
sua execução e controle. Ao sistema compete também a tarefa de avaliar a execução dos planos e
realizar os ajustes necessários.
O orçamento compatibiliza as metas com os recursos financeiros disponíveis, exigindo-se que os
programas de trabalho nele constantes sejam quantificados em termos físicos e financeiros.
A mensuração em termos físicos e financeiros é, sobretudo, indispensável para permitir a elaboração
de um esquema lógico e prático de acompanhamento da execução dos programas e de avaliação dos
resultados através do exercício dos controles interno e externo.
3 O CONTROLE NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA
3.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE O “CONTROLE”
A administração de uma entidade pública ou privada é exercida através de ações coordenadas e
planejadas, denominadas de funções administrativas. Estas funções, segundo Fayol, apud Reis (2000),
são a previsão, a organização, a coordenação, a direção e o “controle”.
A função do controle é indispensável para acompanhar a execução de programas e apontar suas
falhas e desvios; velar pela boa utilização, manutenção e guarda dos bens patrimoniais; verificar a
perfeita aplicação das normas e princípios adotados e constatar a veracidade das operações realizadas.
A função do controle exige a atenção da administração voltada para a execução de planos e
programas, para que metas e objetivos previamente delineados sejam atingidos, consoante Reis (2000).
Observe-se que a função de controle está intimamente relacionada com a administração que, ao
exercer aquela função, analisa e avalia os resultados obtidos, compara-os com o que foi planejado ou
previsto, objetivando verificar os resultados e sanar possíveis falhas que possam ter ocorrido.
Como qualquer atividade administrativa, o controle precisa ser planejado considerando as
peculiaridades da entidade tais como: objetivos; forma e origem jurídica; dimensão; e volume e natureza
das operações.
14
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
O controle planejado permite responder questões tais como, o que controlar; como; porque; e onde.
O controle exerce, na administração sistêmica, papel fundamental no desempenho eficaz de qualquer
organização. É através do controle que se pode detectar eventuais desvios ou problemas que podem
ocorrer durante a execução de um trabalho, possibilitando a adoção de medidas corretivas para que o
processo se reoriente na direção dos objetivos traçados pela organização.
Tratando-se de uma função administrativa, o controle deverá ser exercido em todas as atividades,
visando atingir as metas com a máxima eficiência, eficácia e economicidade.
3.2 O CONTROLE NA EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA
Os primeiros vestígios de organização de Orçamentos e Contabilidade Pública no Brasil, datam
do período colonial, a partir da chegada de D. João VI à Colônia. Tal medida, naquela época, deveuse a premente necessidade interna do País para prestar informações à Inglaterra relativas às exigências
contratuais para concessão de empréstimos, bem como para um maior controle dos tributos com a
abertura dos portos brasileiros.
Objetivando sanar as dificuldades existentes, foi criado por D. João VI o Erário Régio e o
Conselho da Fazenda para organizar a elaboração dos orçamentos e a Contabilidade da Colônia,
através do Alvará de 28 de junho de 1808.
De 1808 até 1919 diversos textos legais preconizaram a adoção de uma contabilidade organizada
empregando o método de escrituração por partidas dobradas e utilizando os Livros Diário e Razão e
Contas Correntes.
Fato relevante ocorreu naquela fase, em 1914, quando o Ministro da Fazenda não teve
condições de realizar operações de créditos com banqueiros ingleses em face da inexistência de
uma contabilidade organizada e consistente, que não possibilitava fossem verificadas quais as garantias
que o governo brasileiro teria para oferecer. A contabilidade do Tesouro Nacional se resumia à
escrituração do Livro Caixa.
A partir desse fato, os profissionais da área contábil somaram esforços para que se tornasse
realidade a implantação de técnicas modernas de contabilidade na Administração Pública como
instrumentos de registro, orientação e controle dos atos de gestão. Foram aprovadas legislações que
viabilizaram dotar o País de controles internos através da Contabilidade, inclusive criando-se a
Controladoria Central da República em 1924.
Consoante Silva (2002), desde 1922, os estudos dos sistemas de controle no Brasil revelam que foi
estabelecido que o controle no setor público envolvia a ação do Tesouro Nacional, a Controladoria
Geral da República e o Tribunal de Contas da União.
O controle do orçamento, naquela época, processava-se em três sistemas: controle administrativo,
controle judiciário e controle legislativo.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
15
Stênio da Silva Moreira
O controle interno, de acordo com Silva (2002), sempre atuou examinando a validando os aspectos
da legalidade e da formalidade. O órgão contábil era estruturado segundo os produtos decorrentes de
sua ação institucional, para atender aquele objetivo. Portanto, era dividido em contabilidade orçamentária,
financeira e patrimonial, revelando preocupação com esses produtos finais, balanço orçamentário,
financeiro e patrimonial, em detrimento de uma atuação voltada para o estudo e análise dos processos
internos de atuação do setor público. Conclui-se que os governantes estavam mais interessados em
atender formalmente aos órgãos de fiscalização externa do que com a avaliação da forma como os
administradores atuavam na prestação dos serviços públicos.
Após 40 anos, foi promulgada a lei nº. 4.320, de 17 de março de 1964, que estatui normas gerais
de direito financeiro para a elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados,
dos municípios e do Distrito Federal, tendo sido iniciada uma nova realidade para a contabilidade
pública no Brasil.
Com o advento do Decreto-lei nº. 200/67, que aprovou a reforma administrativa federal, o
sistema de controle interno experimentou uma mudança significativa, passando a dar ênfase ao processo
de fiscalização financeira. Foram criadas as inspetorias gerais de finanças, como órgãos do sistema de
administração financeira, contabilidade e auditoria, em substituição à Contadoria Geral da República.
O governo federal, em abril de 1986, criou a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), na estrutura
do Ministério da Fazenda, objetivando promover a modernização e integração dos sistemas de
acompanhamento e controle da execução orçamentária, financeira e patrimonial. A STN passou a
comandar o movimento financeiro da União e as antigas inspetorias foram denominadas de Secretarias
de controle interno. Essa nova estrutura modificou a ênfase de controle e auditoria para o foco aos
aspectos financeiros do orçamento e, em conseqüência, sem preocupação com os resultados decorrentes
da execução dos programas de governo.
Com a implantação do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal
(SIAFI), em 1987, foi iniciada uma nova era na contabilidade pública brasileira, surgindo ainda, nos
estados e municípios, sistemas informatizados que de alguma forma acompanhavam os procedimentos
lógicos, inclusive o plano de contas daquele sistema.
Apesar da mudança de enfoque, Silva (2002) é enfático ao afirmar que tal mudança representou
sensível melhora em relação aos modelos anteriores, entretanto, sob o aspecto da contabilidade e da
auditoria governamental, continha um defeito fundamental, devido o órgão central de controle ser
subordinado à Secretaria do Tesouro Nacional. Portanto, o responsável pela gestão financeira era também
responsável pela auditoria e contabilidade, ferindo um dos princípios básicos de qualquer sistema de
controle: a segregação das funções contábeis e de auditoria da função financeira.
Com a implantação daquele sistema, o Tesouro Nacional passou a ter um maior controle da
programação financeira e a integrar esse controle à execução orçamentária e à contabilidade dos órgãos
e entidades públicas federais.
A Constituição Federativa do Brasil, de 1988, trouxe como inovações ao controle da execução
orçamentária e financeira, entre outras, a preconização do controle interno em cada poder e de um
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
controle externo que seria exercido pelo Legislativo, a necessidade da transparência dos gastos públicos
e uma Lei Complementar definindo as responsabilidades na gestão fiscal.
Com a criação da Secretaria Federal de Controle Interno (SFC), através da Medida Provisória nº.
480, de 27 de abril de 1994, reeditada periodicamente, foi reformulado o Sistema de Controle Interno
do Poder Executivo Federal, que vem servindo de modelo para a implantação dos sistemas de controle
nas demais esferas de governo.
A SFC tem a precípua função de controlar os gastos públicos. Sua criação representou a introdução
da visão do controle voltada para o exame de economia, eficiência e eficácia na gestão pública além de
representar uma significativa mudança no controle público, pois passou a priorizar as ações preventivas,
com o afastamento gradativo do controle da legalidade e da formalidade.
Através da Lei Complementar nº. 101, a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 04 de
maio de 2000, que tem por objetivo principal estabelecer normas de finanças públicas voltada para a
responsabilidade fiscal, aplicada à União, estados, municípios e Distrito Federal, e mecanismos para o
cumprimento de objetivos e metas, consoante os artigos 8º. e 9º., ampliou-se e melhorou-se a ação do
controle substantivo, previsto na Lei 4.320/64, inciso III, do artigo 75º.
De acordo com Reis (2003), ocorreu um grande avanço no que respeita ao controle da execução
orçamentária, estabelecido no artigo 9º., parágrafo 4º., da LRF, que dispõe sobre a avaliação quadrimestral
dos resultados obtidos em relação às metas fiscais e sua conseqüente demonstração em audiência
pública, tornando, assim, transparentes as informações sobre a gestão governamental. Tratando-se dos
municípios, este dispositivo deve ser levado em consideração conjuntamente com o disposto no artigo
31º., parágrafo 3º. de nossa Carta Magna.
3.3 SISTEMAS DE CONTROLE INTERNO E EXTERNO
No âmbito da administração pública a função do controle é exercida em decorrência de imposições
legais, destacando-se dois tipos de controles que são executados: o interno e o externo.
Reis (2003) enfatiza que: “Tanto pelo preceito constitucional, inclusive da LC nº. 101/2000, como
pelo sistema da Lei 4.320/64, o controle se divide hoje, no Brasil, basicamente em controle interno,
controle interno integrado e controle externo.”
Através dos artigos 75 a 82, a Lei 4.320/64 estabeleceu que o controle da execução orçamentária
e financeira será exercido pelo controle interno e externo que compreenderá a legalidade, fidelidade
funcional e o cumprimento de metas.
O fundamento do controle interno está previsto no artigo 76, da Lei 4.320/64 e na
Constituição Federativa, artigo 74 e seus incisos e parágrafos. Isto significa que o sistema opera de
forma integrada muito embora cada poder organize e mantenha o seu próprio controle interno.
Tal sistema deverá ser coordenado pelo Poder Executivo a quem competirá, ao final do exercício,
preparar a prestação de contas.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005
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Stênio da Silva Moreira
Referido controle deverá ser exercido pelos poderes de forma integrada e tendo por objetivos
avaliar o cumprimento das metas previstas no plano plurianual, a execução dos programas de governo
e dos orçamentos da União; comprovar a legalidade e avaliar os resultados quanto à eficácia e eficiência
de gestão orçamentária, financeira e patrimonial nos órgãos e entidades da administração pública,
conforme a esfera governamental, bem como da aplicação de recursos públicos por entidades de
direito privado; exercer o controle das operações de crédito, avais e garantias e demais direitos e
haveres da entidade governamental; e apoiar o controle externo no exercício de sua missão institucional.
Pode-se verificar a universalização do controle, que abrange todos os atos da administração, sem
exceção, quer se tratando das receitas ou das despesas.
Consoante a LRF e o artigo 99, da Lei 4.320/64, o sistema de controle interno deverá considerar
a apropriação e apuração de custos e de avaliação de resultados, para manter a integridade do patrimônio,
portanto, deve a sua organização, implantação e implementação, prioritariamente, definir: a área de
controlar; o período em que as informações devem ser prestadas; quem informar a quem; e o que deve
ser informado, conforme Reis (2003).
Observe-se que tanto a Constituição Federal quanto a Lei 4.320/64 e a LRF enfatizam nos
respectivos textos, como já afirmado, que a contabilidade gerencial e financeira deverá ter por objetivo
preparar informações no sentido de verificação do cumprimento das metas estabelecidas e
consequentemente do objetivo da entidade.
A legislação inovou, instituindo o que se denomina de controle gerencial, ou contabilidade gerencial,
não se preocupando exclusivamente com os aspectos legais. Trata-se, como já observado, do controle
das metas e dos objetivos do plano plurianual, nas diretrizes orçamentárias e no orçamento, ou seja,
acompanhar, analisar e avaliar a execução orçamentária em termos físicos.
A Lei 4.320/64, em seu artigo 77, dispõe que a verificação da legalidade dos atos de execução
orçamentária será prévia, concomitante e subsequente. A verificação prévia pode ser exercida através
das leis específicas, dos contratos, convênios, acordos ou ajustes e ainda do empenho da despesa.
Quanto à verificação concomitante, pode ser realizada através do conjunto de demonstrações e de
relatórios periódicos previstos na Lei 4.320/64 e LRF, e Portarias STN nºs. 516 e 517, de 14 de
outubro de 2002, que reeditaram a 2ª. Edição do “Manual de Elaboração do Relatório Resumido da
Execução Orçamentária” e do “Manual de Elaboração do Relatório de Gestão Fiscal”, respectivamente.
Em relação à verificação subseqüente, os procedimentos serão realizados após conclusão do projeto
ou encerramento do exercício financeiro, através da prestação de contas. O artigo 78º. da Lei nº.
4.320/64, trata do levantamento, tomada ou prestação de contas anual, quando instituído em lei, ou
por fim de gestão, e que poderá ocorrer , a qualquer tempo.
Observe-se, que a verificação subseqüente feita com base nas informações contidas nas
demonstrações contábeis, orçamentárias, financeiras e patrimoniais que comporão a prestação de contas
dos gestores responsáveis pela guarda e custódia de bens pertencentes ou confiados à fazenda pública,
de cada um dos chefes do poder e da entidade jurídica, é uma das exigências da LRF.
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A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
A obrigatoriedade da manutenção e operacionalização do sistema de controle interno integrado,
com vistas àqueles objetivos, é no sentido de assegurar à administração a credibilidade, a sua continuidade
e os benefícios em favor da coletividade.
Portanto, as entidades governamentais, de direito público interno ou de direito privado, estão
obrigadas a se organizarem devidamente a fim de atenderem às suas finalidades precípuas e às
determinações legais e constitucionais.
A organização de um sistema de controle interno deverá considerar as peculiaridades ou
características da entidade, conforme enfocado no item 3.1.
De acordo com Reis (2003), considerando-se o planejamento do controle no campo da
administração pública, o sistema pode ser estruturado nas seguintes partes, ou seja:
a) controle periférico, que se constitui de órgãos atuando articuladamente com os
órgãos centrais de controle; e,
b) controle central, constituída dos órgãos de contabilidade, planejamento e auditoria
interna.
O sistema de controle integrado será estruturado:
a) Controle periférico: órgãos de controle do patrimônio; de pessoal; do material; das
receitas; do movimento de numerário; dos contratos; das obras públicas; procuradoria
fiscal; órgãos que compõem a estrutura administrativa que executam os seus próprios
orçamentos; órgãos ou comissões que controlam a programação financeira;
b) Controle central: planejamento e orçamento; contabilidade central; e auditoria interna.
Para que o sistema funcione harmoniosamente faz-se necessário a existência de instrumentos
adequados tais como: Plano geral de contas; lei de preços; código tributário; cadastro geral de
contribuintes; programação financeira; orçamento-programa, entre outros.
O controle externo é exercido pela União através do Congresso Nacional, auxiliado pelo Tribunal
de Contas da União; nos estados pelas assembléias Legislativas, com o auxílio dos respectivos Tribunais
de Contas Estaduais; e nos municípios, pelas Câmaras Municipais de Vereadores auxiliadas pelo Tribunal
de Contas dos Municípios, outro órgão equivalente, instituído pelo legislativo municipal.
São variáveis-chave de controle do regime de gestão fiscal responsável consoante a LRF:
endividamento público; aumento dos gastos com a seguridade e demais ações de duração continuada;
gastos com pessoal; e administração financeira. Consta ainda a ser observado, segundo aquela Lei,
restrições ao endividamento público; disciplinamento das despesas; normas gerais sobre administração
financeira; normas próprias de cada ente da federação; declaração de responsabilidade fiscal; correção
dos desvios e normas coercitivas; transparência, divulgação e fiscalização; dívida pública, dívida mobiliária
e concessão de garantias; e crimes de responsabilidade fiscal.
A propósito da transparência da gestão fiscal, o controle da sociedade sobre o uso do dinheiro
público é peça básica da LRF e, para tanto, estabelece meios a serem observados, o mesmo ocorrendo
em relação às novas formas de escriturar e consolidar as contas públicas e consolidação das contas de
todas as esferas de governo.
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Stênio da Silva Moreira
Através do “Relatório Resumido de Execução Orçamentária e Financeira e Relatório de Gestão
Fiscal” os controles interno e externo verificarão, periodicamente, a observância dos limites e condições
da LRF. Referidos demonstrativos ensejam o controle simultâneo da execução orçamentária.
O cumprimento da LRF será fiscalizado pelos Tribunais de Contas, conforme artigo 59
daquela legislação.
O fundamento do controle externo está previsto nos artigos 32 e seus parágrafos, 70, 71, seus
incisos e parágrafos, 163 a 168, seus incisos e parágrafos, na Constituição brasileira; nos artigos 81 e 83,
da Lei 4.320/64; bem como as disposições contidas na LRF. Terá por objetivo a verificação da probidade
da administração, guarda e legal emprego dos recursos públicos e o fiel cumprimento da Lei do
Orçamento Anual (LOA).
Seja qual for a esfera governamental em que se situe, o Executivo anualmente prestará
contas ao Legislativo, no prazo estabelecido pelas Constituições Federal e Estaduais, ou nas Leis
Orgânicas Municipais.
O controle externo é exercido não apenas sobre os órgãos da administração direta mas também
sobre as entidades da administração indireta bem como sobre todos os agentes da administração,
consoante as disposições constitucionais.
4 CONTABILIDADE: UM DOS INSTRUMENTOS DO CONTROLE
A legislação atualmente em vigor, seja na área Federal, Estadual, Municipal ou no Distrito Federal,
tem na Lei nº. 4.320/64 os seus fundamentos básicos em contabilidade, em especial, no Título IX,
Capítulos I a IV. Entretanto, a Constituição Federal de 1988, o Decreto-lei nº. 200/67, a LRF, as
Portarias STN nºs. 516 e 517, de 14 de outubro de 2002, entre outros, dispõem também sobre
normas de organização das entidades governamentais no sentido de disponibilizar informações
objetivando subsidiar as decisões dos gestores nas áreas social, econômica e financeira, atendendo às
premissas básicas do controle contábil.
A contabilidade aplicada à administração pública tem como base a Lei 4.320/64, que estatui
normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União,
dos estados, dos municípios e do distrito federal. Registra a previsão da receita e a fixação da despesa,
estabelecida no Orçamento Público, aprovado para o exercício, escritura a execução orçamentária da
receita e da despesa, faz a comparação entre a previsão e a realização das receitas e despesas, controla
as operações de crédito, a dívida ativa, os valores, os créditos e obrigações, revela as variações patrimoniais
e mostra o valor do patrimônio.
A contabilidade pública está interessada também em todos os atos praticados pelo administrador,
sejam de natureza orçamentária (Previsão da receita, fixação da despesa, empenho, descentralização de
créditos, etc.; ou sejam meramente administrativos (contratos, convênios, acordos, ajustes, avais, fianças,
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A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
valores sob responsabilidade, comodatos de bens, etc.;) representativos de valores potenciais que poderão
afetar o patrimônio no futuro. A contabilidade pública não está interessada somente no patrimônio e
suas variações, mas também, no orçamento e sua execução.
Deduz-se, através da Lei 4.320/64, que a contabilidade pública está interessada não apenas em
registrar os fatos contábeis mas registrar, também, os atos contábeis praticados pelo administrador que
poderão alterar qualitativa e quantitativamente o patrimônio.
O objetivo da contabilidade aplicada à administração pública é o de fornecer à administração
informações atualizadas e exatas para subsidiar as tomadas de decisões, aos órgãos de controle interno
e externo para o cumprimento da legislação e às instituições governamentais e particulares, informações
estatísticas e outras de interesse dessas instituições.
Pode-se observar, pelo já enfocado anteriormente, a evolução da contabilidade pública, de 1922,
com código de contabilidade da união, para o disciplinamento da Lei nº. 4.320/64. Não se pode
também deixar de citar as transformações substanciais ocorridas na administração pública brasileira,
em especial, a partir da década de 90.
Consoante o artigo 165, parágrafo 9º, inciso II, da Carta Magna Nacional de 1988, caberá à Lei
Complementar (LC) “estabelecer normas de gestão financeira e patrimonial da administração direta e
indireta, bem como condições para a instituição e funcionamento de fundos”. Entretanto, como referida
LC não foi ainda promulgada, vêm prevalecendo as regras da Lei 4.320/64, que inclusive conflitam
não apenas com a Constituição Federal mas também com LRF.
Portanto, face à ausência de aprovação da LC, em referência, e em razão de não ser possível
prever até quando o Congresso Nacional concluirá os seus trabalhos em relação ao projeto já existente,
não vem a sociedade brasileira podendo disponibilizar os resultados na aplicação dos recursos pelos
gestores através de informações e demonstrações contábeis úteis e de qualidade.
Observe-se que as informações e demonstrações contábeis elaboradas pelos órgãos da
administração pública brasileira com base na Lei 4.320/64 representam a situação financeira e
patrimonial daqueles entes públicos. Entretanto, se aquela legislação não atende mais, na atualidade,
aos objetivos a que se propunha quando foi promulgada, urge que o legislador solucione o impasse
com a atualização daquela lei.
A propósito da Lei 4.320/64, existe tramitando no Congresso Nacional desde 1996, o Projeto de
Lei Complementar nº. 136, que foi amplamente discutido na Comissão de Finanças e Tributação da
Câmara, que o aprovou. Este PLC objetiva reformular a atual Lei 4/320/64 sobre as normas gerais
de direito financeiro, portanto, atualizar e adequar os procedimentos ali contidos à Constituição de
1988, artigo 165.
Aquele PLC/96 traz alterações significativas e abrangentes quanto aos aspectos contábeis. O
substitutivo visa conceber a contabilidade como instrumento de controle de custos e fonte de
informações para tomadas de decisões.
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Consoante Viveiros (1998, p. 42), “ a Contabilidade deverá informar sobre os resultados obtidos
pelas unidades orçamentárias, o custo de suas atividades e os resultados físicos e financeiros obtidos em
cada setor ou área de ação governamental e o resultado da gestão da entidade sobre o patrimônio
público sob sua responsabilidade.”
Tomando por base o PLC 135/96 pode-se resumir os destaques sobre aspectos contábeis em
relação à Lei 4.320/64: Art. 126 – a contabilidade governamental será feita de acordo com os princípios
fundamentais de contabilidade vigentes no Brasil; Art. 136, parágrafo 1º - a escrituração utilizará os
livros Diário e Razão; Art. 138 – nova classificação aos grupos de contas de registro e evidenciação do
patrimônio incorporando o modelo utilizado pela contabilidade comercial.; Arts. 139 e 145 – nas
publicações das demonstrações contábeis deverão constar os valores correspondentes das demonstrações
do exercício anterior; Art. 149 – a contabilização de depreciação, amortização ou exaustão.
Para estudiosos e pesquisadores, o regime contábil das instituições governamentais brasileiras é
misto, segundo o artigo 35, da Lei nº. 4.320/67 bem como o artigo 50 da Lei Complementar 101/00
(LRF), ou seja, regime de caixa para as receitas e regime de competência para as despesas. A LRF
ratificou tal regime.
Entretanto, conforme observa Pires (2002, p. 228): “ Os contadores públicos não podem esquecer
que têm de respeitar os princípios consagrados pela contabilidade, sendo um desses princípios o de
competência que estabelece que as receitas e as despesas deverão ser consideradas em função do seu
fato gerador e não em função do recebimento da receita ou do pagamento da despesa.”
Um dos instrumentos com que a administração pública conta para o exercício da função de
controle é a contabilidade. Para cumprir essa função a contabilidade governamental deverá organizarse objetivando viabilizar informações úteis, consistentes e de qualidade.
O controle contábil deverá ser analisado sob os aspectos substantivo e adjetivo, isto sob o ponto
de vista administrativo. No exercício da função de controle a contabilidade utiliza-se dos controles
gerencial ou operacional; escritural; e documental.
Com a LRF foi atribuído ao contabilista um valor especial, aquela legislação reconheceu a
importância das informações e demonstrações contábeis e, disciplinou os procedimentos de sua
elaboração, divulgação, forma e prazos.
As informações e demonstrações contábeis não se destinam apenas aos gestores das finanças
públicas, mas também à outros usuários, especialmente à sociedade e ao cidadão brasileiro, para que
possam ser avaliados o desempenho dos governantes na aplicação dos recursos colocados a ao seu
dispor através dos tributos arrecadados.
Pode-se observar, diante do exposto, que a legislação brasileira universalizou o controle contábil,
inserindo-o no contexto de um sistema administrativo de controle interno denominado de sistema de
controle interno integrado.
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A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade
como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública
5 CONCLUSÃO
A contabilidade pública vem evoluindo aceleradamente, em particular, com o salto dado 42 anos
depois, do código de contabilidade da União, de 1922, para o disposto na Lei nº.4320/64, que
disciplinou as normas e procedimentos de direito financeiro e estabeleceu princípios e premissas para
elaboração dos balanços e do acompanhamento e controle da execução orçamentária e financeira.
Apesar da Constituição de 1988 ter tido artigos que foram total ou parcialmente regulamentados,
outros não o foram, o que gerou um descompasso entre as Lei nº.4.320/64 e a LRF.
Portanto, toda a estrutura das contas públicas inclusive o plano de contas está sendo definido
pelas Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e Secretaria de Orçamento e Finanças (S.O.F.), consoante o
artigo 67 da LRF.
Tendo em vista as observações acerca dos aspectos contábeis constantes da Lei 4.320/64 estarem
defasados em relação ao cenário nacional atual, pode-se afirmar que, desde que o Projeto de Lei
Complementar nº. 135 de 1996, que traz alterações significativas e abrangentes quanto aos aspectos
contábeis e se encontra tramitando no Congresso Nacional, seja aprovado, que a contabilidade pública
tornar-se-á o melhor e mais eficiente instrumento de controle da administração pública brasileira. Referido
substitutivo visa conceber a contabilidade como instrumento de controle de custos e fontes de
informações para tomadas de decisões.
Consoante o Conselho Federal de Contabilidade e o Instituto Ethos: (2001, p. 15) “O profissional
de Contabilidade, pela característica de seu trabalho, se traduz em agente efetivo de apoio e de orientação
ao gestor de recursos públicos, por estar em permanente contato com a legislação e com as informações
contábeis tendo, por isso, as condições de fornecer ao dirigente público os indicadores necessários a
uma competente e segura decisão. ... Além dos conhecimentos técnicos, o compromisso do contabilista
estende-se ao campo ético.”
Conclui-se que apesar de todos os avanços proporcionados pela Constituição Federal de
1988, pela LRF e outros normativos específicos, o controle interno ainda está carente de legislações
e/ou outras medidas governamentais para que possa ser consolidada e atingir os objetivos das
finanças públicas nacional. Entre outras providências fundamentais , urge que se aprovado e
sancionado o substitutivo da Lei 4.320/64, e atendido o constante no art. 67º, da LRF, em caráter
de urgência, inclusive a criação do conselho de gestão que será outro excelente controle para as
finanças públicas do País.
Abrantes (2001, p. 7) é enfático quando afirma: “Cremos que só o compromisso dos
administradores públicos, com a estreita colaboração dos contabilistas, fará com que os princípios de
responsabilidade fiscal sejam cumpridos.”
Tão logo se materialize a aprovação do substitutivo nº 135/96, a contabilidade se fará presente
como o melhor e mais eficiente instrumento de controle interno contribuindo com informações e
demonstrações contábeis de qualidade geradas em seus Sistemas para subsidiar informações úteis aos
senhores gestores públicos brasileiros.
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Stênio da Silva Moreira
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WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI
Educação Empresarial: Uma
Proposta de Taxonomia para
Programas Educacionais Aplicados
às Organizações
Marcos Antonio Martins Lima*
RESUMO: O presente artigo tem o propósito de
CT:: The present article has the purpose
ABSTRACT
CT
ABSTRA
apresentar uma proposta de taxonomia para os
of present a proposal of taxonomia for the programs
programas de educação empresarial. Essa
of business education. That classification of
classificação de programas busca demonstrar as
programs seeks to show the peculiar nuances of
diferentes nuances dos inúmeros tipos de programas
the educational programs kinds endless number in
educacionais em prática dentro das organizações e
practice inside the organizations and in the market
no mercado de treinamentos empresariais e promover
of business training and promote a handling
um tratamento diferenciado para os processos de
differentiated for the trials of planning, organization,
planejamento, organização, execução e avaliação
execution and evaluation of these programs from
destes programas a partir de suas especificidades.
its especificidades. Verifies-itself, hodiernamente,
Verifica-se, hodiernamente, emprego indevido para
innapropriate job for these kinds of programs or
estes tipos de programas ou eventos educacionais,
educational events, generating a verdadei I laugh
gerando uma verdadeira confusão no uso técnico
tangle in the technical use of we will have like
de termos como congresso, seminário, convenção,
congress, seminary, convention, conference,
conferência, simpósio etc.
symposium etc.
Palavras-chave:
Programas de Educação
Corporativa; Educação
Empresarial; Treinamento
e Desenvolvimento (T&D).
K ey
ey--Words: Programs
of Corporate Education;
Business Education;
Training and
Development (T&D).
* Professor do Curso de Pós-Graduação/Especialização em Administração de Recursos Humanos da UFC-FIEC-IELCOMPI
Universidade Federal do Ceará – UFC/FACED – Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira – Doutorado
em Educação – Núcleo de Avaliação Educacional
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
27
Marcos Antonio Martins Lima
1 INTRODUÇÃO
Os vários anos de estrada do autor na coordenação, no desenvolvimento, na facilitação e na
participação em programas educacionais de diversas organizações, fez constatar a necessidade de uma
taxonomia para estes diferentes tipos de programas. Esse vácuo na literatura educacional e empresarial
contribui para que o emprego de termos como congresso seja adotado ao invés de seminário, que um
simpósio seja divulgado nas diversas mídias como sendo uma conferência e assim por diante. Porém,
antes de desenvolvermos esta tipologia de programas educacionais torna-se necessário um nivelamento
sobre os conceitos de educação empresarial, corporativa e organizacional.
A educação corporativa tem por finalidade o desenvolvimento e educação de funcionários,
clientes e fornecedores, com o objetivo de atender às estratégias empresariais de uma organização
“como meio de alavancar novas oportunidades, entrar em novos mercados globais, criar
relacionamentos mais profundos com os clientes e impulsionar a organização para um novo futuro”
(MAISTER, 1999). A educação empresarial, apesar de englobar todos os programas sistematizados
de educação realizados dentro das empresas, é utilizada aqui, em sentido mais restrito que educação
organizacional ou educação corporativa.
2 PROPOSTA DE TAXONOMIA DE PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO
EMPRESARIAL
Ao nível de programas específicos, a educação empresarial compreende, aqui, os vários eventos
educacionais realizados com a participação de profissionais de empresas. Segundo a ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE ANUNCIANTES (s.d., p. 1), evento é um “acontecimento excepcional, de tempo
determinado, gerador de grande envolvimento e mobilização de um grupo ou comunidade”. Esta
mesma instituição reconhece a existência de uma grande variação de eventos e os classifica em quatro
modalidades básicas: esportivos, artísticos, sociais e mercadológicos. Neste último bloco estão inseridos
os eventos educacionais empresariais, que envolvem cursos, congressos, convenções, seminários,
simpósios, painéis, fóruns, conferências, palestras, debates, mesas redondas, workshops, benchmarking e
outros eventos de cunho educacional.
Verifica-se que os diversos autores em Educação e em Administração não apresentam uma tipologia
adequadamente estruturada para os diversos programas de educação empresarial. O Quadro 1, a
seguir, representa uma proposta inicial de taxonomia para os programas de educação empresarial,
baseada na agregação e estruturação de idéias isoladas de alguns autores (FERREIRA, 1985;
CHIAVENATO, 1994, p. 430-434; VIEIRA DE CARVALHO, 1988; HAMBLIN, 1978) e na experiência
empírica deste autor em projetos e estudos na área de educação empresarial. A coluna grupamento
representa o conjunto de programas e a coluna programa educacional descreve os programas classificados
no grupamento.
28
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações
QUADRO 1: TAXONOMIA DE PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO
EMPRESARIAL
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
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29
Marcos Antonio Martins Lima
Ferreira (1985) e Yara Barreto (1995, p. 30-31) fazem uma classificação genérica dos programas
de treinamento em dois grupos, segundo suas finalidades: funcional e correlato. O treinamento funcional
é aquele que objetiva melhorar, modificar ou acrescentar hábitos ou atitudes relacionadas ao
comportamento na função, na atividade profissional ou no exercício do cargo na relação homem/
função. Por outro lado, o treinamento correlato baseia-se no aprimoramento de conhecimentos ou
habilidades que não estejam diretamente ligados a função profissional do indivíduo, mas que, se
desenvolvidos, podem aperfeiçoar a qualidade do trabalho.
Segundo o local de aplicação, os programas educacionais empresariais podem ser realizados de
forma presencial, a distância, treinamento em serviço e misto. Os programas presenciais são aqueles
que contam com a presença física de educador e educando e, geralmente, são realizados em sala de
aula. Os programas de educação a distância utilizam tecnologia de ensino a distância procurando
minimizar ou eliminar as dificuldades de deslocamentos mediante a redução de investimentos e ampliação
do número de aprendizes atendidos. Atualmente, dentre as diversas tecnologias de educação a distância,
encontram-se a rede internacional (internet) ou as redes internas das organizações (intranets) que permitem
o desenvolvimento de programas de forma virtual, onde os conteúdos são colocados e aprendidos
pelo educando de acordo com a sua disponibilidade e ritmo de aprendizagem. Os programas de
treinamento em serviço (on-the-job-training) são sistemas estruturados e planejados de instrução no próprio
local de trabalho. Várias técnicas, conhecidas como aprendizagem em ação, foram desenvolvidas para
permitir a realização destes tipos de programas, dentre as principais destacam-se: TWI (Training within
Industry) ou treinamento dentro da indústria, JIT (Job Intruction Training) que corresponde a uma primeira
etapa do TWI e é um sistema de adestramento rápido para trabalhadores não-qualificados ou
semiqualificados, treinamento vestibular (vestibule training) que é uma derivação do JIT e que acontece
antes do treinando iniciar suas atividades em local fora do ambiente de produção normal da empresa,
instrução programada onde o conteúdo da aprendizagem é programado por etapas de dificuldades
que são superadas a partir de respostas corretas a questões formuladas, cada uma construída sobre a
precedente (Paula Pinto In BOOG, 1994, p. 283-308). Os programas mistos são eventos educacionais
que se utilizam da composição dos programas presencias, a distância e em serviço ou da combinação
de, no mínimo, dois destes.
Quanto ao espaço funcional que os aprendizes ocupam ou ocuparão após o evento, os programas
podem ser de cunho gerencial, técnico-operacional ou técnico-especializado e comportamental ou
atitudinal. Os programas gerenciais visam o desenvolvimento dos atuais e futuros gestores, executivos
e demais dirigentes das organizações empresariais quanto a aquisição, internalização e mudança de
conhecimentos, habilidades e atitudes inerentes ao novo papel da liderança nas empresas enquanto
influenciadora “no processo de modelagem de comportamentos e de criação de um ambiente de
comprometimento e motivação” (HRISTOV & SILVA In NERY, 1999, p. 74). Os programas técnicosoperacionais e especializados são dirigidos ao desenvolvimento dos técnicos, consultores internos e
profissionais de áreas técnicas e operacionais das empresas e visam o aperfeiçoamento em seus campos
de atuação. Os programas comportamentais ou atitudinais, por sua vez, apesar de não se referirem a
espaços funcionais específicos, estão aqui classificados pela sua aplicação a qualquer cargo ou função. O
objetivo principal destes programas é despertar ou promover a mudança de atitudes e comportamentos
exigida atualmente aos profissionais, envolvem fatores psicológicos haja vista a aplicação de vivências
que visam explorar os sentimentos e as emoções dos participantes.
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações
Os programas educacionais, quanto ao ambiente da empresa, podem ser internos, externos (YARA
BARRETO, 1995, p. 31) e (in company). Os internos são realizados no próprio ambiente da empresa ou
que têm o seu planejamento, organização, controle e execução feita por profissionais da organização,
porém os instrutores ou facilitadores podem ser da organização ou contratados externamente. Os
programas externos ou abertos são aqueles promovidos por instituições especializadas que disponibilizam
ou realizam programas educacionais para profissionais e empresas. Os eventos (in company) também são
realizados por instituições especializadas, porém, para grupo seleto de participantes de uma organização
cliente. Nestes casos os instrutores ou facilitadores são contratados externamente. Com relação ao
negócio que a empresa desenvolve, os programas podem estar voltados para área fim ou (core bussiness),
que são os programas relacionados ao negócio e a sua competência essencial (core competence); ou aqueles
voltados para as áreas meio ou (back office), ou seja, áreas de suporte ao negócio da organização. Sob o
enfoque da estrutura organizacional da empresa, os programas podem ser segmentados, quanto aos
processos internos, em negocial ou comercial, produção, financeiro, atendimento ao cliente, tecnologia,
marketing e comunicação, recursos humanos, logístico e segurança. Cabe explicitar, com mais detalhe,
os eventos voltados para processos negociais e comerciais, pois estes programas visam aplicar técnicas
de melhorias de vendas que buscam alavancar os negócios e resultados empresariais. Os demais estão
relacionados aos conhecimentos técnicos das demais áreas, cabendo destaque para os programas de
segurança no trabalho cujo interesse maior é reduzir e evitar acidentes laborais, utilização correta de
equipamentos de segurança e aplicação de primeiros socorros.
A educação tem papel fundamental para a conquista de competências essenciais nas organizações
que buscam a ampliar sua competitividade empresarial com o aperfeiçoamento das competências
profissionais de seus empregados, logo os programas, em nível de educação formal, podem ser
segmentados de acordo com as políticas e leis educacionais predominantes no País. No Brasil, de
acordo com a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei n° 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, em seus artigos 21 e 44, a educação escolar compõe-se de educação básica, formada
pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; e educação superior, que abrange os seguintes
programas: cursos seqüenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a
candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino; de graduação, abertos
a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em
processo seletivo; de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de
especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e
que atendam às exigências das instituições de ensino; de extensão, abertos a candidatos que atendam aos
requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. Para efeito da presente proposta de
tipologia estruturada de programas de educação empresarial, quanto em nível de educação formal,
estes programas podem ser: de nível fundamental, de nível médio, de nível superior (graduação) ou de
nível superior (pós-graduação).
Quanto em nível de aprendizagem, os programas educacionais, aplicados ao meio empresarial,
podem ser de nível básico, avançado ou prático. O primeiro refere-se aos eventos cujo nível de
conhecimentos é básico ou introdutório para a área ou assunto abordado. Contrariamente, os programas
avançados caracterizam-se por abrangerem assuntos em maior grau de complexidade. Os programas
de nível prático, diferente dos dois anteriores que priorizam os aspectos teóricos em seus conteúdos,
são essencialmente voltados para a prática e o operacional, ou seja, são voltados para os procedimentos
e processos de trabalho. Os programas podem ser divididos, quanto ao intercâmbio de práticas
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
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Marcos Antonio Martins Lima
empresariais, em (benchmarking) interno, (benchmarking) externo e visita técnica. Segundo a “International
Benchmarking Clearinghouse (IBC)” apud Sociedade Latino Americana para a qualidade (1997), “o
benchmarking é um processo sistemático e contínuo de medida e comparação das práticas de uma
organização com as das líderes mundiais, no sentido de obter informações que a possam ajudar a
melhorar o seu nível de desempenho. Ou seja, é uma técnica de observação e adaptação das melhores
práticas das melhores empresas, que, no entanto, não deve ser confundida com a espionagem
industrial”. É uma atividade de comparar um processo da organização com os líderes reconhecidos
ou as best practices, inclusive de outros ramos, para identificar as oportunidades de melhoria da qualidade.
O programas de benchmarking interno são voltados para o conhecimento de práticas internas da
própria organização. Os programas de benchmarking externo têm como foco outras empresas com
práticas de excelência no mesmo segmento ou em outro setor do mercado. As visitas técnicas, por
sua vez, são visitas de profissionais especializados a outras organizações, a fim de conhecer
equipamentos e processos de trabalho, porém com ou sem uma sistematização.
Os programas de educação empresarial podem ser classificados, quanto a sua continuidade e
adaptando-se a terminologia de Hamblin (1978, p. 87), em seriados e exclusivos. Os programas
seriados fazem parte de uma série de programas idênticos e repetidos para diferentes turmas de
educandos ao mesmo tempo ou em períodos diferentes, ou ainda podem ser programas realizados
em vários módulos com paradas em sua realização. Os programas exclusivos são eventos educacionais
que, pela sua necessidade ou circunstância, ocorrem apenas uma vez. Ainda segundo Hamblin (1978,
p. 84), os eventos educacionais podem ser separados, quanto a formulação de seus objetivos, em
programas de extremidade aberta e programas de extremidade fechada. O primeiro tipo refere-se
aos programas que, devido a sua especificidade, não possuem objetivos precisos. Em alguns casos,
embora até tenham objetivos descritos, não é possível estabelecer metas, critérios e instrumentos
para avaliação. Já os programas educacionais de extremidade fechada podem obter maior precisão
na especificação de objetivos.
Os programas educacionais empresariais podem ser estruturados, quanto em nível de competência
profissional exigido, em eventos voltados para conhecimentos, habilidades e atitudes. Os programas
dirigidos para conhecimentos têm cunho mais teórico e cognitivo e voltados para o “saber”. Os eventos
que têm maior enfoque nas habilidades são voltados para o “saber fazer” de uma atividade simples ou
complexa. Os programas atitudinais priorizam o “querer fazer”, ou seja, mudança ou conservação de
manutenção de comportamentos e posturas. Quanto à responsabilidade pelo investimento, os programas
de educação empresarial podem ser de autodesenvolvimento e de desenvolvimento empresarial. Os
primeiros são assumidos pelo educando através da disponibilização de seus próprios recursos e podem
abranger diversas áreas e competências que estejam focadas em seu projeto de vida pessoal e profissional,
mesmo que não tenham relação com sua carreira profissional atual. Os programas de desenvolvimento
empresarial são assumidos, em termos de investimento, de forma integral ou parcial pela organização
e buscam a melhoria das competências profissionais do educando e dos resultados empresariais.
Os programas de educação aplicados nas empresas podem ser segmentados, quanto ao tipo de
evento, em curso, congresso, convenção, seminário, mesa-redonda, simpósio, painel, fórum, palestra,
conferência, vídeo ou teleconferência, debate, workshop, clínica, semana, encontro, colóquio, jornada,
feira, exposição, salão, mostra, sessões técnicas, caso-caso, apresentação, modelos, reunião de debates,
brainstorming etc. Os cursos, conforme já descritos anteriormente, são tipos de eventos educacionais
formativos presenciais, à distância ou mistos que abordam competências em áreas específicas, visando
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações
o aperfeiçoamento do seu grupo de participantes. Os demais eventos, apesar de serem alvos de confusão
no cotidiano das práticas dos programas educacionais de empresas, apresentam definições diferentes
ou aproximadas.
Segundo Boog (1978, p. 36-42), o congresso é uma reunião promovida por entidades associativas,
visando debater assuntos que interessam a um determinado ramo profissional ou área de
conhecimento. A convenção é uma reunião promovida por empresas, setores industriais e comerciais
e partidos políticos, objetivando conhecer novas diretrizes, treinamento, reciclagem, entrosamento e
troca de experiências e informações. Podem se chamar também de convenção outras reuniões com
objetivo de congraçamento, comemoração etc. O seminário consiste em uma exposição verbal feita
para pessoas que possuam o mesmo nível de conhecimento sobre o assunto tratado, objetivando
fornecer e somar informações de temas já pesquisados. Essa exposição gera uma discussão sobre o
tema proposto para um público conhecedor ou interessado no assunto. O seminário tem as fases de:
exposição, debate e conclusão.
A mesa-redonda é uma reunião questionadora e dialogal de um grupo de pessoas atualizadas, que
discutem opiniões próprias ou alheias sobre assuntos controvertidos. Caracteriza-se pela participação
de dois ou mais especialistas e de um coordenador ou moderador. O Coordenador deve ter apresentar
cada especialista e passar a palavra a eles. Após todas as exposições o coordenador fecha o assunto e
parte para coordenar as perguntas que o público desejar fazer.
O simpósio é uma reunião derivada da mesa-redonda, caracterizada pelo alto nível, com a
participação de especialistas de grande renome; é semelhante ao painel, porém, tem uma definição
mais estrita por não prever um posterior feedback dos participantes. É destinado à divulgação de
experiências, de novas tecnologias e de pesquisas, para um grupo altamente especializado e interessado
no assunto. No simpósio os debates são entre o especialista e o público. O painel com debate,
embora se assemelhe à mesa redonda, apresenta uma característica diferenciadora deste pela diversidade
de opiniões entre os expositores.
O fórum é uma reunião cujo objetivo principal é o de conseguir a efetiva participação de um
público numeroso, em qualquer ocasião do evento, obtendo maiores informações sobre o tema a
ser apresentado e que seja de interesse geral. A palestra é uma reunião de um grupo pequeno, visando
a obtenção de maiores informações sobre um assunto já conhecido. A conferência é uma exposição
realizada por um conferencista ou autoridade no assunto exposto e dirigida a um grande número de
pessoas, objetivando responder a questionamentos feitos, conhecer fatos, sugestões e busca de solução
para problemas comuns; no ambiente empresarial, a conferência também pode ser uma reunião de
diversas pessoas para analisar um tópico ou um problema, planejar um curso de ação e ajustar
diferenças, aprofundando um assunto e pode ser realizada isoladamente ou inserida em um outro
tipo de evento. A vídeo ou teleconferência caracteriza-se pelo uso de equipamentos de
telecomunicações que visam transmitir conhecimentos de para um público que esteja distante do
apresentador. O debate é uma discussão realizada entre dois oradores, para defender um ponto de
vista já conhecido do público participante.
O workshop é uma reunião que enfatiza a livre discussão de métodos, habilidades e aplicações
práticas de princípios. Os princípios devem ter sido entendidos pelos participantes previamente ao
workshop. Caracteriza-se pela reunião de pessoas de um mesmo segmento de mercado ou que tenham
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005
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Marcos Antonio Martins Lima
os mesmos interesses no qual o palestrante demonstra sua experiência e trabalha, com os participantes,
sobre o tema abordado. A clínica é uma reunião, em sala de aula, dedicada ao tratamento analítico de
problemas em algum campo especial. A semana é uma reunião acadêmica ou empresarial que visa
normalmente a difusão de conhecimentos, entrosamento e comemoração. O encontro visa expor
trabalhos, estudos e experiências relevantes à área de conhecimento ligada aos trabalhos expostos. Pode
ainda servir para homenagear um grande nome da área.
O colóquio ou colloquy é uma conversação entre especialistas; é empregado como parte de um
outro evento como a conferência ou um seminário. Semelhante à conferência, apresentada por
conferencista de renome e expert no assunto, o colóquio possui como objetivo final o esclarecimento de
um tema ou tomada de decisão, usado mais em classes específicas: médicas e outras. As jornadas são
reuniões de determinadas classes profissionais com objetivo de discutir de forma prática um ou mais
assuntos que não são levantados nos congressos. A feira é um evento de cunho comercial que visa
disponibilizar os produtos/serviços aos participantes de forma que possam ser conhecidos e adquiridos.
A exposição é um tipo de evento que visa divulgar, promover e informar acerca de um produto ou
serviço disponibilizando-o ao participante, sem que seja feito negócio durante sua realização. O salão é
o evento que visa o mesmo da exposição, mas que além disto visa criar uma imagem sobre o produto
ou serviço exposto. A mostra é um outro tipo de evento normalmente de cunho cultural que visa
apresentar o produto a um grande público. As sessões técnicas caracterizam-se pela apresentação de
trabalhos técnicos ou científicos de um evento. Estas apresentações técnicas podem ser orais ou em
formato de pôsteres. O caso-caso é uma apresentação de caso prático em forma de dissertação. Muito
usado para ilustração de assunto previamente apresentado.
A apresentação ou lecture é uma apresentação verbal organizada, utilizando-se recursos visuais,
feita por um apresentador a um grupo de ouvintes, dos quais se espera que retenham os conceitoschaves e certos aspectos específicos de conhecimento contidos na apresentação. Os modelos ou
modelling envolvem a descrição de um sistema típico ou ideal para ser usado como base de discussão
analítica pelos participantes. As reuniões de debates e o brainstorming, se realizados de forma estruturada,
podem ser considerados eventos educacionais. As reuniões de debates, segundo Vieira de Carvalho
(1988, p. 184), não são encontros de trabalho do dia-a-dia profissional, mas constituem-se em discussões
e decisões sobre problemas de formação ligados ao trabalho dos participantes. O brainstorming é
uma técnica para reuniões de grupo que visa ajudar os participantes a vencer as suas limitações em
termos de inovação e criatividade. Criada por Alex F. Osborn em 1963, uma sessão de brainstorming
tem quatro regras básicas: nunca critique uma sugestão, encoraje as idéias bizarras, prefira a quantidade
à qualidade; e não respeite a propriedade intelectual, pelo menos dos participantes no momento da
sessão de brainstorming.
Finalmente, pelo menos para a presente proposta de tipologia, os programas podem ser ainda
classificados quanto ao ingresso de novos profissionais na empresa em programas de integração, inicial
ou introdutório, de estagiários e de trainess. Os programas de integração ou iniciais, também chamados
de introdutórios (YARA BARRETO, 1995, p. 31), visam facilitar a ambientação e adaptação do recémcontratado à cultura da nova organização, bem como ajudar no estabelecimento de vínculos entre a
empresa e o novo profissional. Os programas de estagiários e trainess visam prover a empresa de
talentos jovens, sendo que o primeiro permite uma troca adequada de know-how entre empresas, escolas
e universidades, embora não estabeleça vínculo empregatício entre estagiário e empresa; o segundo faz
parte de um processo de recrutamento e seleção estratégico que visa captar os melhores talentos de
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Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações
universidades para compor quadros de carreira gerencial e técnicos de alto nível (Rittner apud BOOG,
1994, p. 354-377).
3 CONCLUSÃO
Os 15 (quinze) diferentes grupamentos de programas educacionais empresariais constantes do
Quadro 1 demonstra a complexidade envolvida nestes eventos, requerendo tratamento diferenciado
no planejamento, execução e avaliação dos mesmos.
Verifica-se que os distintos eventos educacionais apresentam diferentes conceitos, viabilizando esta
proposta de taxonomia na abertura de portas para novas pesquisas em avaliação e planejamento de programas
educacionais no ambiente organizacional, pois com a diferenciação de conceitos entre os diferentes eventos,
o entendimento passa a ser mais científico evitando-se confusões na aplicação dos termos.
A disseminação dos conceitos dos diferentes eventos e das suas classificações deveria ser feita de
forma mais ampla nos meios acadêmicos e sociais, a fim de evitar a aplicação indevida da nomenclatura
dos eventos, evitando-se a frustração daqueles participantes que são conhecedores destes conceitos e
tornando o evento educacional mais coerente com os desafios que se propõe.
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BRASILEIRA
DE
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[s.n], [199-]. 24 p.
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FERREIRA, P. P. Treinamento de pessoal: a
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MEISTER, J. C. Educação corporativa: a gestão
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35
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Filosofia Pragmática, Pragmática
Sociológica e Direitos Humanos
Ubiracy de Souza Braga*
RESUMO
RESUMO: O presente artigo pretende analisar a
CT: The present article intends to analyse
ABSTRACT
CT
ABSTRA
partir do pragmatismo de Richard Rorty, as
starting from Richard Rorty ’s pragmatism, the
representações da modernidade no âmbito da
representations of the modernity in the ambit of the
cultura norte-americana. Tal reflexão deve-se ao fato
North American culture. Such reflection is due to
de que diante da destruição, extermínio e crimes de
the fact that before the destruction, extermination
guerra cometidos com a nova ocupação militar no
and war crimes made with the new military
Iraque, serviu como baluarte para uma cultura que,
occupation in Iraq, it was good as rampart for a
relacionando pragmatismo e verdade, pragmatismo
culture that, relating pragmatism and truth,
e política e pragmatismo e religião consagrou a
pragmatism and politics and pragmatism and
máxima de Weber calcada na idéia de que “‘fim’ é
religion consecrated the maximum wearing from
a representação de um resultado que se converte
Weber in the idea that “ ‘end’ is the representation
em causa de uma ação”. Não há resposta
of a result that turns into cause of an action “. There
satisfatória tanto para a filosofia pragmática quanto
is not satisfactory answer so much for the pragmatic
para a pragmática sociológica. Além disso, este
philosophy as for the pragmatic sociological. Besides,
episódio demarcou, do ponto de vista da sociedade
this episode to demarcate, of the point of view of the
civil mundial, uma “condenação moral com o
world civil society, a moral condemnation with the
pedido de formação de um Tribunal Penal
request of formation of a International Penal Tribunal
Internacional contra o consórcio anglo-americano”
against the Anglo-American consortium represented
representado por Bush-Blair.
for Bush-Blair.
*
Palavras-chave:
Filosofia Pragmática;
Pragmatismo e Verdade;
Pragmatismo e Política;
Guerra Preventiva;
Consórcio AngloAmericano.
Word-key
ord-key: Pragmatic
Philosophy; Pragmatism
and Truth; Pragmatism
and Politics; Preventive
War; Anglo-American
Consortium.
Sociólogo (UFF), Doutor em Ciências (USP). Professor e pesquisador da Coordenação do Curso de Ciências Sociais da
Universidade Estadual do Ceará – UECE. Mail: [email protected]
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
37
Ubiracy de Souza Braga
1 PRAGMATISMO E VERDADE
Os americanos ainda não criaram uma civilização, no sentido profundo e completo que atribuímos à palavra civilização. O que eles criaram é uma metrópole de força (Discurso
pronunciado em 17 de janeiro de 2002, 11º ano pós-guerra
do Golfo Pérsico iniciada por George Bush).
Saddam Hussein
Algumas circunstâncias levaram-me a redigir um texto sobre pragmatismo. A primeira, vale lembrar,
é que não escrevo para “especialistas”. Com os anos passando, cada vez mais, com a institucionalização
da ciência, da filosofia, da sociologia etc., estes falam do lugar que sua especialidade lhe valeu, com
jogos táticos de linguagem entre porta-vozes e autoridades simbólicas numa economia produtivista.
“Conhecimento” é, para o pragmático, como “verdade”, simplesmente um elogio feito às crenças que
pensam estar bem justificadas. Ou seja, para o pragmatismo, uma corrente filosófica que surgiu na
segunda metade do século 19, o conhecimento tem um caráter essencialmente prático. O conhecer, nas
suas múltiplas formas, não tem a finalidade de chegar ao conhecimento das verdades teóricas, mas é
um processo de adaptação ao ambiente, visando assegurar a sobrevivência do homem.
A segunda é que o pragmatismo através do relativo sucesso de Richard Rorty nos meios acadêmicos
e a variedade dos assuntos que aborda, pode ser visto como mais um teórico da “moda”. Kant tem
toda razão quando acha melhor sermos “tolos da moda” do que ser “contra a moda” – mesmo que
certamente continue sendo uma tolice levar demasiado a sério as “coisas da moda”. Para Lipovetsky
(1989) nos últimos cem anos tudo se passa como se o enigma da moda estivesse grosso modo resolvido.
Esse consenso de fundo dá lugar, conforme seus analistas, a nuanças interpretativas, a leves desvios,
mas, com poucas variantes, a lógica inconstante da moda, assim como suas diversas manifestações, são
invariavelmente explicadas a partir da noção de estratificação social e das “estratégias mundanas de
distinção honorífica”. O que importa é que para o autor,
A moda tornou-se um problema esvaziado de paixões e de desafios teóricos, um
pseudoproblema cujas respostas e razões são conhecidas previamente; o reino caprichoso da fantasia só conseguiu provocar a pobreza e a monotonia do conceito
(Lipovetsky, 1989, p. 10).
Mais do que isso, recolocada na imensa duração das “manifestações de vida”, para lembrar de
Simmel (para quem o conhecimento, é entendido como resultado sempre parcial de uma atividade
interpretativa do sujeito que conhece), é preciso redinamizar, inquietar novamente a pesquisa da moda,
objeto fútil, fugidio, o que poderia estimular ainda mais a razão teórica. Daí que, a moda é uma
realidade historicamente condicionada e característica do Ocidente e da própria concepção de
modernidade. Nesse sentido,
a moda é menos signo das ambições de classes do que saída do mundo da tradição, é
um desses espelhos onde se torna visível aquilo que faz nosso destino histórico mais
singular: a negação do poder imemorial do passado tradicional, a febre moderna das
novidades, a celebração do presente social (Id., ib.).
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Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
Além disso, é “moda” esta intenção filosófica, porque abraça temas que vão desde questões
essenciais de filosofia analítica, amadurecidos com exemplaridade em seu A filosofia e o espelho da natureza
(Philosophy and the Mirror of Nature, 1979) à defesa das democracias ocidentais, inclusive com o homem
diante da guerra e da morte. Tende a ser avaliado pelos próprios especialistas como um diletante “que
fala muito do que conhece pouco”. Como não registrar o desconforto das posições assumidas por
Rorty diante da chamada “guerra fria” (economia de guerra) sem levar em conta a destruição e morte
que ela acarretou no Vietnã, na América Latina, e ainda, posteriormente com relação à Bósnia e ao
apoiar a invasão de Kosovo pelas tropas americanas e seus aliados na Europa? Daí os mal-entendidos,
mas que fazem parte dos riscos assumidos por Rorty na defesa de sua concepção da tarefa de filósofo.
Desnecessário dizer que Rorty tornou-se um dos mais estimulantes pensadores da atualidade
porque conseguiu imprimir à sua escrita a questão “etnobiográfica”. Se é verdade que para os
historiadores a “história de vida” tem seu fundamento no quadro da “história oral”, também é
verdade que alguns autores apreendem outras denominações para a história de vida como
“etnobiografia”, porque do ponto de vista da pesquisa, o conteúdo do material recolhido reflete o
“tempo” e o ambiente “político e social” do narrador. Isto é importante porque Rorty vincula seu
neopragmatismo à sociedade e cultura americana1 . Para Lipset (1966, 1970), a classe intelectual limitada
a escritores e artistas criadores, professores universitários, funcionários públicos da alta categoria e a
advocacia que tem sido a ocupação mais importante para aqueles que possuem educação superior,
colocam-se em antagonismo político aos “titulares do poder” e pode resultar também de algum
senso de frustração por não haver lugar para eles na velha sociedade. Ipso facto,
Seus novos valores não coincidem com aqueles que os colocariam em posições destacadas nas velhas hierarquias locais. Estes valores estão contidos numa ideologia, e a
ideologia que os intelectuais perfilham é a do populismo” (...) “A conseqüente tensão
entre os intelectuais e as forças dominantes da nova nação pode representar um esforço
à formulação de um adequado auto-retrato nacional. Assim é que todas as nações
novas enfrentam o problema de incorporar os seus intelectuais aos seus sistemas de
Governo (Lipset, 1966, p. 87, 94).
No artigo “Trótsky e as Orquídeas Selvagens”, ele diz como aproximou-se da filosofia, antecipando
a originalidade de sua posição etnobiográfica no cenário intelectual de hoje. Ou seja, refletiu sobre
como conciliar a responsabilidade em relação aos demais seres humanos e os sentimentos pessoais que
nutrimos pelas pessoas ou coisas que amamos. Para ele, o que determina a escolha de um ponto de vista
sobre o sujeito e o mundo são os objetivos “pragmáticos” visados e não a posse de uma teoria
fundada em exigências lógicas ou achados empíricos inconstestáveis. Concluiu que não há qualquer
necessidade racional para que esses dois pólos coincidam. Rorty redescobriu, assim, o pragmatismo
filosófico da cultura norte-americana como epicentro das democracias ocidentais e que terá uma forte
influência no pensamento sociológico da Escola de Chicago, como veremos adiante.
1
Seymour Martin Lipset, A Sociedade Americana. Uma Análise Histórica e Comparada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966, “O
Papel dos Intelectuais”, pp. 86-94; O Homem Político (Political Man). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967; capítulo X – “Os
Intelectuais Americanos: Sua Política e ‘Status’”, pp. 326-362; Talcott Parsons,
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Ubiracy de Souza Braga
Finalmente, o que poderemos interpretar sobre este “representante” das representações da
modernidade no âmbito do pragmatismo da cultura americana? Talvez, para lembrarmos do presente,
o fato de que o pragmatismo americano diante da invasão, destruição e extermínio, com a nova guerra
contra o Iraque, serviu como baluarte para uma cultura que, relacionando pragmatismo e verdade,
pragmatismo e política e pragmatismo e religião consagraram a máxima de Weber sobre a utilização
dos fins: “Na nossa concepção, ‘fim’ é a representação de um resultado que se converte em causa de
uma ação” (Weber,1982:99). Não há resposta satisfatória tanto para a filosofia pragmática quanto para
a pragmática sociológica vis-à-vis a argumentação weberiana. Esse é o suposto de nossa pesquisa.
Em assim sendo Richard Rorty afirma que,
Mas não há nada de errado com a democracia liberal, nem como os filósofos que
tentaram ampliar seus escopos. Só há algo errado com a tentativa de ver seus esforços
como falhas em alcançar algo que eles não estavam buscando – uma demonstração da
superioridade ‘objetiva’ de nosso modo de vida frente a todas as outras alternativas.
Não há, em resumo nada de errado com as esperanças do Iluminismo, as esperanças
que criaram as democracias ocidentais. O valor dos ideais do Iluminismo, para nós,
pragmáticos, é justamente o valor de algumas instituições e práticas que eles criaram
(RORTY, 1997, p. 51).
Assim, termos como ‘poder’, ‘interesse’, ‘dominação’, ‘realidade material’ etc., são indispensáveis
à análise do autor, pois verdadeiro é aquilo que nos habituaram a aceitar como verdadeiro, pela força
ou pela persuasão dos costumes. Enfim, a análise lingüística daquilo que nos habilita a descrever o
mundo de uma forma ou de outra não exclui a análise de como fomos levados a crer na “verdade” de
tal descrição. Para efeitos da ação, só existem eventos sob descrição. E a descrição preferida do intérprete
será a mais adequada às suas convicções éticas e não a mais iluminada pela Razão2 .
Rorty insiste na utopia pragmatista da verdade, em seu livro “Pragmatismo: a Filosofia da Criação
e da Mudança”, dando continuidade a voga da filosofia norte-americana por ele reconhecida. Ele é um
dos responsáveis por isso, tanto no papel de participante ativo quanto no de propagador dessa linhagem
que ele próprio afirma, remonta a Emerson, James e Dewey, entre outros.
Contudo, no livro Objetivismo, relativismo e verdade. Escritos Filosóficos, (Philosophical Papers – Objectivity,
Relativism & Truth, 1995), ele adverte: “o pragmatismo parece-me, como eu disse, uma filosofia antes
da solidariedade que do desespero”, (...) pois têm “o desejo de alcançar a maior concordância intersubjetiva
possível, o desejo de estender a referência do pronome ‘nós’ tão longe quanto possível” (...) Além do
que para eles, “o pragmático, dominado pelo desejo por solidariedade, só pode ser criticado por levar
sua própria comunidade “muito” a sério” (...) “o pragmático não tem uma teoria da verdade, muito
menos uma teoria relativista” (RORTY, 1995, p. 45).
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Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
2 PRAGMATISMO E POLÍTICA
Eu assumo a responsabilidade por tomar a decisão, a difícil
decisão de formar uma coalizão para remover Saddam Hussein,
porque a inteligência – não apenas a nossa inteligência mas a
inteligência deste grande país [continuou Bush, se referindo à
Blair e seu país] (...) expôs um argumento claro e irresistível de
que Saddam Hussein era uma ameaça à segurança e à paz.
George W. Bush, New York Times, 18.07.2003.
Com a guerra contra o Iraque, no Golfo Pérsico, quase “esquecemos” que a vitória eleitoral de
George W. Bush como presidente dos EUA deu-se por decisão da Corte Suprema, que optou por
cumprir prazos em detrimento da recontagem dos votos num condado da Flórida, estado cujo
governador era o irmão de Bush. Voto decisivo no colégio eleitoral já que no número absoluto de
votos Bush não sairia vitorioso. Os próprios reclamos da imprensa norte-americana foram atropelados
pelo atentado terrorista de 11 de setembro às torres do World Trade Center e, a partir de então, Bush filho
comprometeu-se com a “missão” de vingar o pai que não conseguira na outra Guerra do Golfo
(1991) retirar Saddan Hussein do poder, no Iraque.
Cercado de assessores “fundamentalistas”, comprometido tanto com a indústria do petróleo
quanto com a de armamentos, George W. Bush, que escapara do serviço militar, agora vai à guerra
(2003) disposto a impor a sua vontade, sobretudo após o ataque ao povo afegão, a substituição de
governo no Afeganistão e a insatisfatória resposta a Osama Bin Laden, um ex-aliado, a quem
responsabilizara pelo ato de 11 de setembro de 2001.
Para nós, política é regulação da existência coletiva, poder decisório, luta entre interesses
contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos mil entre forças sociais, violência em última
análise. Só que a produção política (os processos políticos) se diferenciam radicalmente da produção
econômica porque usa eventualmente suportes materiais, tais como armas, livros, processos, papéis
onde se inscrevem as ordens, os atos de gestão, as sentenças ou as leis, mas não é uma produção
material. Porque consiste em decisões imperativas.
Assim, é também diferente da produção simbólica porque exercita-se sobre o interesse dos agentes
sociais, quando não sobre o seu próprio corpo; corresponde a atos de vontade que regulam atividades
coletivas; disciplina práticas sociais. Não produz mensagens, discursos; “produz” “obediências”,
“obrigações”, “submissões”, “direitos”, “deveres”, “controles”. Poder é uma relação social: de mando
e obediência. As decisões tomadas politicamente se impõem a todos num dado território ou numa
dada unidade social. Convertem-se em atividades coercitivas (esfera da segurança), administrativas (esfera
da administração), jurídico-judiciárias (esfera da justiça) e legislativas (esfera da deliberação).
Simplificadamente, processo político diz respeito a pergunta: “Quem pode o quê sobre quem?” Eis a
grande questão do processo político, do confronto entre forças sociais, da sujeição de vontades a
outras vontades (SROUR,1987, passim),
Mutatis mutandis, não bastassem os contornos de uma tragédia shakespeareana, a alusão a mitologia
grega é procedente. Ela diz que Hefestos, conforme determinação de Zeus, criou sua primeira
mulher dando a ela tudo o que de melhor poderia dar. Nomeou-a Pandora. Entretanto, Zeus deu a
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Pandora uma caixinha que continha todas as possíveis maldades do mundo com a expressa ordem
de zelar por ela e nunca abri-la. Em caso contrário, isso acarretaria toda a sorte de calamidades.
Incapaz de conter a sua curiosidade, Pandora abriu a caixa libertando um inaudito sofrimento que
faz a humanidade sofrer até hoje. Pois esse é o caso: George W. Bush destampou a sua caixa de
Pandora (Cerqueira Fº e Neder, 2003).
Talvez seja possível admitir com o homem diante da guerra e da morte, no Golfo Pérsico em
1991 (com o pai) e 2003 (com o filho), a repetição de nomes: Bush em inglês alude a bucha, como
metáfora de guerra. E regiões, marcadas como emblemas no capitalismo globalizado, a recorrência ao
nome do pai. E mãe-pátria, há dois séculos ao menos, como representação da colonização e a idéia de
subserviência de povos.
Pai ainda, onde incide a violência doméstica em uma complexa operação física fantasiada com as
drogas eletrônicas (armas inteligentes) e o terrorismo de Estado. E psíquica, (a internalização da lei) de
‘’fora (EUA) para dentro (Iraque) ‘’, com a configuração de pátrias degradadas. O Estado de exceção
tornou-se uma prática freqüente entre as nações contemporâneas, atingindo desde o 3º Reich até o
USA Patriot Act.
O fracasso da busca por provas contundentes de armas de destruição em massa, cuja existência
assegurou o argumento em defesa da guerra contra o Iraque, foi apoiada em documentos “falsificados”
e “fontes inconsistentes” e sombrias, como ficou confirmado com os escândalos tanto no Parlamento
inglês, onde foi solicitada a deposição do premier Tony Blair [que respondeu “em silêncio”], ou ainda,
sobre a “culpa” de “acusação falsa” contra o Iraque, da Casa Branca e CIA, conforme o artigo
publicado em El País intitulado “Casa Branca e CIA culpam-se mutuamente sobre acusação falsa
contra Iraque” (12.07.2003). Além disso, para usar a noção de “metrópole de força”, utilizada no
discurso de Saddam Hussein após o massacre de 1991 no Golfo Pérsico causado pelo pai George
Bush, de acordo com o Financial Times,
A derrubada do regime iraquiano retirou dali um tirano sanguinário e cruel que invadiu
dois países vizinhos, empregou armas de destruição em massa contra o Irã e seu
próprio povo e causou milhões de mortes. A queda de Saddam Hussein representa o
único benefício inquestionável desta guerra – embora como afirmara ainda no mês de
maio o vice-secretário de Defesa americano, Paul Wolfowitz, não era uma razão para
colocar em risco a vida dos garotos americanos, ao menos na escala em que colocamos
(Financial Times, 16.07.2003).
O Editorial do Financial Times insiste na idéia de que
argumentou, de modo consistente, que a melhor alternativa para desarmar Hussein
seria dar continuidade às inspeções determinadas pela resolução 1441 do Conselho de
Segurança da ONU. Ao interromper prematuramente estas inspeções, Bush e Blair
debilitaram o órgão internacional mais capacitado para conter a proliferação de armas de
destruição em massa (Id., Ib.).
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Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
Ora, se sociologicamente admitimos anteriormente que “fim” é a representação de um resultado
que se converte em causa de uma ação”, tal argumento já teria sido justificado enquanto motivo para a
guerra. Um argumento sutil defendia que, “existisse ou não tal equipamento, Hussein “pretendia” adquirir
armas de destruição em massa. Noutras palavras, já estava sendo justificada “em termos preventivos”
– e não em termos de proteção”. O jornal El País admitiu que “seria ilusório pensar que não transmitiram
essas dúvidas à Casa Branca nos meses seguintes”. De outra parte, que o secretário de estado Colin
Powell foi mais perspicaz ou mais cauteloso, mesmo defendendo W. Bush afirmando: “quando revisamos
minha apresentação na ONU, uma ou duas semanas depois do discurso do presidente, achamos que
não era mais adequado usar esse exemplo” (Id., Ib.).
Fora da idéia de nacionalismo, a partir da competição entre nações, foi o filósofo Simmel quem
chamou atenção para o fato de que, ‘’a luta contra uma potência estrangeira dá ao grupo um vivo
sentimento de sua unidade’’, e além disso, é ‘’um fato que se verifica quase sem exceção. Não há, por
assim dizer, grupo - doméstico, religioso, econômico ou político - que possa passar sem esse cimento’’.
Essa atividade intelectual, porque psíquica e de preparação psicológica, quase exclusivamente entre
homens, pode representar com o homem diante da guerra um crime contra a humanidade, individual
ou coletivamente com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial,
militar, ou religioso.
Estamos diante do mito de banhos de sangue que para a gramaticalidade do lingüista Chomsky (e
Herman), a partir da guerra do Vietnã, explica porque se deve continuar a matar em grande escala. Mas
isso só foi possível com a passagem da produção de massa e da economia de mercado para as
sociedades de conhecimento baseadas na informação e comunicação.
Com a generalização dos conflitos “aparentemente” iniciados com os atentados ao WTC e
Pentágono, amplamente divulgados pela mídia norte-americana e de resto na Europa, refletimos noutra
oportunidade, não propriamente sobre a questão de uma “nova” guerra no Afeganistão, mas sobre
duas ou três noções correlatas que nestes dias “escapam” ao gravíssimo problema dos dispositivos
discursivos editados na e pela “informação” globalizada.
A palavra “terrorista”, em primeiro lugar, não pode, de certo, ter “reconhecimento” para o confronto
de entidades “terroristas de manutenção das tradições e sobre ocupações de terra”, historicamente
constituído. A maioria dos estudiosos erra quando considera um ato “terrorista” isolado, praticado por
um “grupo religioso fanático”. E concordar com a idéia de que derrubar o WTC é um ato de “guerra
histórico” equivalente ao que ocorreu em Saravejo em 1914 é, conforme entendemos, apressado. Difícil
concordar ainda, como alguns afirmam, que em NY explodiu a “primeira” guerra da “globalização”.
Nada! NY construiu o que Marc Augé problematizou como “ego ficcional”. Isto é, cúmulo de
um fascínio que se aciona em toda relação exclusiva com a “imagem”, porque é um “ego sem relações”
(est un moi sans relations) e, por isso mesmo, sem suporte identitário, suscetível de absorção pelo mundo
de imagens onde ele pensa poder reencontrar-se e reconhecer-se. Slavoj Zizek denominou-o de “fantasia
paranóica americana máxima”, isto é, um paraíso consumista, onde um indivíduo percebe um espetáculo
encenado para convencê-lo de que ele vive em um mundo real. Exemplo: O filme “Tempo Fora dos
Eixos” (Time Out of Joint).
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Dias depois dos atentados de 11 de setembro é que, parado no drive thru do McDonalds, na cidade
de Fortaleza, Brasil, nos deparamos com Vinny que a nossa filha Bianca de 2 anos de idade brincava.
Tratava-se de propaganda da empresa, uma figurinha com a rubrica de Walt Disney que divulga “Atlantis
- O Reino Perdido (nos cinemas)”. Literalmente refere-se a : “Vinny. Nome: Vincenzo Santorini. Apelido:
Vinny. Função: especialista em demolições. Missão: explodir as coisas. Hobbies: fazer as coisas explodirem.
Características: explosivo. Comentário: ‘Eu gosto apenas de explodir as coisas”.
Na década de 1960, em segundo lugar, uma canção de Dylan, “Subterranean Homesick Blues”,
quando ela diz: “Não é preciso um meteorologista para dizer de que lado sopra o vento...” (You don’t
need a Weatherman to Know which way the wind blows...) inspirou um movimento da juventude
norte-americana que se propunha a destruir a sociedade pela violência. O movimento surgiu como a
facção militante dos 40 mil estudantes da Studentes Democratic Society (SDS). No Congresso nacional do
SDS em Chicago (1969) essa facção tornou-se dominante e conseguiu expulsar os marxistas nãoviolentos. Adotaram uma política de violência imediata com o nome Weathermen e foram os autores de
bombas atiradas em bancos, tribunais, universidades etc.
Análises importantes, todavia provisórias, têm sido feitas a respeito, no caso dos Estados Unidos.
O primeiro talvez a chamar a atenção, naquele momento, tenha sido o escritor Gore Vidal, talvez
melhor que os autores de “Banhos de Sangue” (Bains de sang constructifs dans le sang et la propagande, 1973)
ainda que estes tenham demonstrado até que ponto o governo dos Estados Unidos anteriormente
tenham se envolvido em crimes praticados na Guerra do Vietnã. Vidal divulgou em El País (Madri)
parte do conteúdo das “cartas-correspondências” que mantinha com o terrorista norte-americano
Timothy, pouco antes da violência letal atribuída ao Estado. Dizia ele,- contra o terror de Estado, - que
melhor teria ocorrido ao terrorista explodir bombas para “efeito simbólico” de destruição de prédios,
sem vítimas, p. ex., o próprio Pentágono.
No que se refere especificamente ao confronto contra os afegãos e a utilização de imagens, como
sabemos, o Corão proíbe a “reprodução” de figuras humanas e sagradas. Para os fundamentalistas, a
interdição, feita há 1.300 anos, vale para “fotos e imagens transmitidas pela TV”. Porque querem
preservar, a todo custo, o que construíram: “as regras e normas do islamismo professado por Maomé”.
Embora o país tenha sido devastado nos últimos 200 anos por uma dezena de conflitos, três
guerras contra a Inglaterra até sua independência em 1919, um golpe de estado que derrubou o rei em
1973, e ainda, em 1979 a então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, devastou o país
permanecendo em guerra por dez anos. Quando estes foram expulsos, assumiu o poder a milícia
islâmica Taliban, que significa estudante, no dialeto pashto, a segunda língua da região. O grupo foi criado
em 1994 por um movimento estudantil radical. O “império” americano realizou uma “guerra longa”
contra o Afeganistão como anunciaram pela mídia. No caso do Iraque, nestes dias e em termos de
submissão das vontades, a guerra foi considerada “rápida” na contabilidade americana porque culminou
com a morte de dez mil militares, aproximadamente três mil civis e dezesseis jornalistas em pouco mais
de vinte dias.
Daí a terceira questão e breve, que diz respeito a duas definições weberianas entrelaçadas “ao espírito
do capitalismo”. Todavia trata-se apenas de uma intuição. Weber em 1904/05 afirmava o seguinte: “Ninguém
sabe ainda a quem caberá no futuro viver nessa prisão [o capitalismo vencedor] ou se, no fim desse
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Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
tremendo desenvolvimento, não surgirão “profetas” inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento
de velhos pensamentos e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas – a eventualidade de uma petrificação
mecanizada caracterizada por esta convulsora espécie de auto-justificação” (sich-wichtig nehmen).
O fato é que estes últimos homens poderiam ser designados de acordo com Weber, como
“especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de
civilização nunca antes alcançado”. E em contraposição, o “carisma”, que particularmente refere-se a
faculdades mágicas, revelações ou heroísmo, poder intelectual ou de oratória. O sempre novo, o
extracotidiano, o inaudito e o arrebatamento emotivo que provocam constituem a fonte da devoção
pessoal. Representam eles a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo. É uma
relação social especificamente extracotidiana e puramente pessoal. O pressuposto indispensável para
isso é “fazer-se acreditar”. Se “lhe falha o êxito, seu domínio oscila”.
A impressão que temos diante da mídia norte-americana e de resto na Europa, para não falarmos
no Brasil, quanto ao nome de bin Laden [bin em letra minúscula significa “filho de”] é que, como
justificativa para o fim da “economia de guerra” - ou a chamada “guerra fria”, os conflitos mundiais
perderam sua matriz político-ideológica e ganharam desde a guerra contra o Golfo Pérsico (1991)
mediações culturais e religiosas, de “suposta” rivalidade entre emblemas como Ocidente e Oriente,
entre cristãos, judeus e islâmicos. Ele assim [bin Laden] passa a ser o que Weber intuiu: “não surgirão
“profetas” inteiramente novos?”.
Finalmente, repetimos, ainda um exemplo sobre o gravíssimo problema dos “dispositivos
discursivos” editados na e pela “informação” globalizada. A pergunta é, para lembrarmos de Michel
Foucault (1984a, 1984b): “Que saber se forma a partir daí?”. Posto que não se trata de determinar se
essas “produções discursivas” e esses “efeitos de poder” levam a formular a verdade, ou, ao contrário,
mentiras destinadas a ocultá-lo, mas revelar a ‘vontade de saber’ que lhe serve ao mesmo tempo de
suporte e instrumento, quando interessa-nos levar em consideração, “quem fala, os lugares e os pontos
de vista de que se fala, as instituições que incitam a fazê-lo”, que armazenam e difundem o que se diz,
em suma o ‘fato discursivo’ global.
Mark Bowden, que dispensa apresentação sobre sua imersão jornalística no ideário europeu e
americano é um típico exemplo. No artigo, “Mil e uma histórias que traçam o perfil de Saddam
Hussein”, nitidamente inspirado em “As Mil e Uma Noites” (Las Mil y Una Noches, 1985), particularmente
no conto “A História do rei Schahriar e de seu irmão o rei Schahzmán” (Historia del rey Schahriar y de su
hermano el rey Schahzmán)3 , ele endossa tudo que o jornalismo mundial faz enquanto “capital da notícia”,
modalidade que Marcondes Filho (1986) explica a notícia “como mercadoria”, “como veículo
ideológico” e “como agente político”. Ele fantasia a narrativa a partir de uma idéia de “profeta e tirano
árabe com origens humildes”. Citaremos alguns trechos, com breves comentários.
Para o articulista, Saddam Hussein, o ‘Ungido, o glorioso líder, descendente direto do profeta’
presidente do Iraque, presidente de seu Conselho da Revolução, marechal de seus exércitos, doutor de
3
[Anônimo] Las Mil y Una Noches. Textos Integros. Tomo I. Barcelona, 1985.
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suas leis e Grande Tio de seu povo, costuma acordar por volta das 3h da manhã. Ele nunca dorme
mais do que quatro ou cinco horas por noite, mas “ele tem 65 anos, mas ninguém pode ver que ele está
envelhecendo: o seu poder baseia-se no medo, não no afeto”.
Saddam é um “tirano [que] não pode se mostrar curvado, frágil, grisalho (...) Quando ele precisa
fazer um discurso, os seus conselheiros lhe fornecem um texto com letras enormes (...) O seu problema
nas costas o faz mancar ligeiramente; por isso, ele evita ser visto ou filmado andando”. Ele tem longos
braços e mãos grossas e fortes. No Iraque, o tamanho de um homem ainda é importante, e Saddam
impressiona. Com 1 m88, ele domina os seus conselheiros. O seu peso varia entre 95 e 100 quilos”.
Como “presidente vitalício”, passa todos os dias longas horas em um de seus escritórios, alternadamente,
acompanhado por seus agentes de segurança.
Saddam lê com voracidade e se interessa por muitos assuntos. Entre outros, ele nutre uma paixão
pela história do mundo árabe e a história militar, embora, recorra a “‘ghosts writers’ para alimentar um
fluxo ininterrupto de discursos, artigos, livros de história de filosofia; a sua obra também comporta
livros de ficção. Mas ele “parece ter escrito e publicado duas fábulas românticas (...) antes de publicar
os seus livros, Saddam os distribui discretamente para escritores profissionais iraquianos, e pede seus
comentários e sugestões. Ninguém ousa ser sincero”.
De acordo com o articulista, o que quer Saddam? “Deseja acima de tudo ser admirado, reverenciado
e ficar para a história”. Afirma ele que,
a sua biografia oficial em 19 volumes é uma leitura obrigatória para os funcionários
iraquianos; Saddam também encomendou um filme de seis horas sobre a sua vida,
intitulado “Os Longos Dias” e dirigido por Terence Young, mais conhecido por ter
sido o diretor de três filmes de James Bond. Saddam disse à sua biógrafa que ele não
se interessava por aquilo que pensam dele, e sim apenas o que pensariam dele dentro de
500 anos. A busca tenaz e sangrenta de Saddam pelo poder parece ter por única origem
a vaidade (sic).
Finalmente, Mark Bowden, “patina” em dois argumentos preconceituosos, mas também
pragmáticos para um certo jornalismo, com base em alguns historiadores europeus e americanos:
“Apesar de se extasiar com a rica história da Arábia, Saddam reconhece a superioridade do mundo
ocidental em dois campos. O primeiro é a tecnologia do armamento (daí os seus esforços incansáveis
para importar material militar avançado e para desenvolver armas de destruição maciça). O segundo é
a arte de tomar e de manter o poder. Ele se tornou admirador de um dos dirigentes mais tirânicos da
história: Joseph Stalin” (sic).
3 PRAGMATISMO E RELIGIÃO
A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da
miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o
suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma condição
sem espírito. Ela é o ópio do povo.
Karl Marx
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Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
Entendidas algumas idéias gerais sobre “pragmatismo e verdade” e “pragmatismo e política”,
passemos agora, mesmo que provisoriamente, ao exame da relação “pragmatismo e religião” tomando
como referência as expressões: ‘guerra limpa’; ‘guerra tecnológica’, ‘guerra justa’; ‘guerra contra infiéis’,
entre outros.
Os episódios de 11 de setembro em Nova Iorque recolocaram em pauta o conceito de
“guerra justa”, “pragmaticamente” pensado como “auto-defesa”. Diante da ineficácia simbólica, da
idéia de ‘guerra limpa’, ‘guerra tecnológica’, onde não haveria mais “banhos de sangue” a ser exibido,
nem combate “corpo a corpo”. Em verdade este conceito foi elaborado pela “cristandade ocidental”
no século XII, a partir da expansão da sociedade européia ocidental através das lutas contra os
hereges, das investidas das cruzadas e da criação da Inquisição. De modo que, “estamos diante de
um embate ideológico travado no interior da teologia política ocidental que percorreu vários séculos”
(CERQUEIRA Fº e NEDER, 2003).
A idéia de ‘guerra justa’, lembram os autores, também pode ser admitida como ‘guerra contra
os infiéis”, erigida a partir do expansionismo da igreja romana, católica, no qual as cruzadas condensam
toda a sua magnitude. Situa-se neste enquadramento ideológico a expansão marítima e colonial da
cristandade européia para a América, Ásia e África, a partir do século XVI, num quadro onde a
escravidão e o tráfico de escravos de africanos e indígenas não devem ser esquecidos.
Para os que nos interessa, “a idéia de ‘guerra justa’ implicou, como implica ainda, ser uma
absolvição moral da guerra e daqueles que a decidem e praticam” (Id., Ib.). Mas decidem, em
primeiro lugar, porque a guerra hoje é vista pelo ‘’espelho emocional das sociedades’’. A televisão
amplifica a personalização exacerbada dos comportamentos. E para um líder político, o virtual
permite mostrar um tipo particular de proteção: a imunidade midiática. E em segundo lugar porque
o ‘’novo império’’, é uma empresa plutocrática que exerce poder simbólico sobre a sociedade civil
mundial e propõe-se a administrar e hierarquizar as diferenças numa economia geral de comando.
Daí que a radicalização política ocorre de forma mais aguda na década de 1990. Os fatores que
contribuíram para tal fato foram, o fim da política internacional de “equilíbrio entre blocos”,
representado, no plano simbólico, pela queda do Muro de Berlim, que havia garantido, bem ou mal,
que os conflitos permanecessem confinados em fronteiras imaginárias, ou seja, para que a guerra
imperialista fosse percebida como “localizada”. Assim, a velocidade com que ocorreu o
desmantelamento do bloco socialista deveu-se a uma conjunção de variáveis desfavoráveis à articulação
de um novo “equilíbrio”.
Estas variáveis desfavoráveis representaram, de acordo com Cerqueira Fº e Neder (2003) de
um lado, os governos republicanos nos EUA (Reagan e Bush, pai – meados da década de 1980/
meados dos 90). Estes governos desancaram a voracidade expansionista e o exclusivismo do “império”,
impedindo, inclusive a formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI) na antiga URSS,
então proposta por M. Gorbachev. Com receio dos partidos comunistas do Iraque e do Irã, por
exemplo, que eram organizações políticas fortes até o início do processo de distensão política na
região, apoiaram (militarmente) forças políticas ligadas a grupos fundamentalistas islâmicos, até então
minoritários em vários países asiáticos (dentre eles o Irã e o Iraque).
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
47
Ubiracy de Souza Braga
De outro lado,
a eleição de João Paulo II como “papa polonês” da Igreja Romana deu uma guinada à
direita na inserção política da cristandade ocidental e interferiu diretamente na velocidade do
desmantelamento do bloco socialista na Europa oriental (a partir da Polônia), dificultando
uma repactuação política em termos internacionais. Todavia, foi muito mais fraco o tom,
para não falar em omissão, do Papado Romano na condenação moral das carnificinas entre
cristãos greco-ortodoxos e muçulmanos nos Bálcãs. Mesmo no conflito palestino-israelense a omissão ronda a presença do Vaticano. Também na América Latina, os efeitos desta
guinada fizeram-se presentes, através do esvaziamento político da teologia da libertação,
com desdobramentos significativos, sendo o caso da Nicarágua o mais emblemático
(CERQUEIRA Fº E NEDER, 2003).
Estes episódios repetimos, demonstram porque o genocídio, a vitimização de civis (seja pela guerra
convencional, seja pela guerra de guerrilha ou pelo terrorismo), e a tortura, começaram a ganhar a condenação
moral da sociedade civil internacional, que vem progressivamente reclamando, no tempo presente, por
um “Tribunal Penal Internacional”. Porque tem sido importante declarar direitos universais que devem
ultrapassar as barreiras dos Estados constituídos. E além disso, retomar o processo de elaboração do
conceito de “dignidade humana” e dos direitos fundamentais que se constituem como sua garantia, como
condição para a consolidação de uma vida estável e digna de ser vivida em todo o planeta.
4 PRAGMATISMO E SOCIEDADE
Pelo que sei , só Comte sabia o que ele ia fazer durante todo
o resto da vida.
Florestan Fernandes (1978, p. 3).
Conquanto saibamos que as questões referentes à vida social e aos produtos culturais da atividade
humana permeiam as ciências sociais e as humanidades em geral, não podemos concordar com
Giddens e Turner (1999) quando afirmam: “não consideramos a teoria social propriedade de nenhuma
disciplina”. Ao contrário, entendemos que toda “teoria social” é propriedade de uma disciplina. Por
quê? Uma “disciplina” pode ser definida como uma categoria que organiza o conhecimento científico
e que institui nesse conhecimento a divisão e a especialização do trabalho respondendo à diversidade
de domínios que as ciências recobrem. Apesar de estar englobada num conjunto científico mais
vasto, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela
linguagem que instaura, pelas técnicas que é levada a elaborar ou a utilizar e, eventualmente, pelas
teorias que lhe são próprias.
A organização disciplinar instituiu-se no século 19, principalmente com a formação das universidades
modernas e, depois, se desenvolveu no século 20, com o progresso da pesquisa científica. Isto significa
que as disciplinas têm uma história: “nascimento”, “institucionalização”, “evolução”, “decadência”.
Esta história inscreve-se na da Universidade que, por sua vez, inscreve-se na história da sociedade.
Portanto, o estudo da disciplinaridade, da organização da ciência em disciplinas, é decorrente da “sociologia
das ciências, da sociologia do conhecimento”, de uma reflexão interna em cada disciplina e, também,
de um conhecimento extremo.
48
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
Ipso facto a sociologia do conhecimento pretende identificar os nexos que existem entre as dimensões
racional e histórica do conhecimento, e os sujeitos individuais e coletivos junto com os elementos
culturais de conteúdo cognitivo predominante, tais como se processam em práticas e saberes sociais
constituídos no âmbito das ciências naturais e sociais, doutrinas, crenças, explicações racionais etc., que
foram elaboradas e expressas pelos mesmos sujeitos. A sociologia do conhecimento, portanto, tem
por objetivo estudar a gênese social do “saber”, distinguindo dois conceitos epistêmicos que, embora
a linguagem cotidiana não se aperceba manifestam sentidos diversos como “saber” – “ter por
verdadeiro”, e “conhecer” -, como representação de uma “convivência do falante com aquilo que
fala”, analisando as relações que ocorrem entre as estruturas da sociedade e as formas de conhecimento,
como também tentar demonstrar analiticamente o modo como tais formas se influenciam reciprocamente.
Não basta situar-se como analista social no interior de uma disciplina para “conhecer” os problemas
que lhe são concernentes. Assim, o leitor que busca consenso quanto à natureza e os objetivos de
quaisquer teorias sociais não se sentirá desapontado. Só depois do golpe militar desencadeado pela
intervenção norte-americana no Chile, tendo como prócer o general Haig, com a destruição da Casa de
La Moñeda e a deposição de Allende em 1973, é que o sociólogo Alain Touraine escreveu posteriormente
em “Pour la Sociologie” (1974) sobre a exigência principal do conhecimento sociológico: “o
reconhecimento de que o sentido da ação não é jamais dado inteiramente pela consciência do ator”,
lembrando que “o conhecimento não prepara a ordem de amanhã”.
Isto é importante na medida em que o pragmatismo enquanto uma filosofia da ação serviu
como fonte filosófica da Escola de Chicago. E do ponto de vista da teoria sociológica, o real significado
do “interacionismo simbólico” e sua fecundidade teórica só podem ser compreendidos quando
contrastados com a velha Escola de Chicago, a quem dão continuidade. O interacionismo simbólico é
visto como a continuação de certas partes do pensamento e obra do heterogêneo grupo interdisciplinar
de teóricos da Universidade de Chicago que exerceram certa influência na sociologia americana entre
1890 e 1940, durante a fase de institucionalização propriamente dita da disciplina.
De acordo com Hoas,
A dificuldade maior reside no fato de a Escola de Chicago – que pode ser descrita como
combinação de uma filosofia pragmática, de uma orientação política reformista para as
possibilidades da democracia num quadro de rápida industrialização e urbanização, e
dos esforços para transformar a sociologia numa ciência empírica, sem deixar de atribuir
grande importância às fontes pré-científicas do conhecimento experimental – ser apenas uma relação parcial, do ponto de vista teórico, das possibilidades inerentes à
filosofia social do pragmatismo (HOAS, 1999, p. 131).
Mas, o nome dessa linha de pesquisa sociológica e sociopsicológica foi cunhado em 1938 por
Herbert Blumer. Seu escopo são os processos de interação – ação social caracterizada por uma orientação
imediatamente recíproca –, ao passo que o exame desses processos se baseia num conceito específico
de interação que privilegia o caráter simbólico da ação social.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
49
Ubiracy de Souza Braga
O pragmatismo desenvolveu o conceito de ação, por que é uma filosofia da ação, mas não como
Talcott Parsons, e, pelo menos segundo a interpretação que este lhe deu, ou os pensadores clássicos em
sociologia considerando aqui Marx, Durkheim, Weber e Simmel no quadro do utilitarismo. Decerto, o
pragmatismo não se mostra menos crítico em relação ao utilitarismo do que os clássicos em sociologia.
Todavia, não ataca o utilitarismo devido ao problema da ação e da ordem social, mas por causa
do problema da ação e da consciência, já que no plano da teoria, se é que podemos pensar assim, a
teoria pragmática da ordem social é, pois, orientada pela concepção do controle social no sentido de
auto-regulação e solução de problemas coletivos. Essa concepção da ordem social é moldada por
idéias sobre democracia e estrutura de comunicação nas comunidades científicas. Rorty foi quem melhor
percebeu isso. A real importância desse tipo de ordem social, nas modernas sociedades, suscita um dos
principais problemas da filosofia política pragmática e da sociologia baseada nessa filosofia.
O conceito de “ação” desenvolvido pelo pragmatismo emerge a partir da idéia de superar os
dualismos cartesianos. Ou seja, resumidamente, os pragmáticos põem em dúvida o sentido da dúvida
cartesiana. Melhor dizendo, nada mais é do que a defesa de autoridades inquestionáveis contra a
reivindicação emancipatória do “eu pensante”. É portanto, um pleito em defesa da verdadeira dúvida,
em defesa do enraizamento da cognição “em situações concretas”. A noção central cartesiana do eu
solitário que duvida sucumbe, conforme Joas, à idéia de uma busca coletiva da verdade para solucionar
os problemas reais encontrados no curso da ação. Poder-se-ia atribuir a essa transformação o mesmo
significado histórico concedido à filosofia de Descartes. O que muda, para esta concepção é toda
relação entre cognição e realidade. O conceito de verdade já não expressa a correta representação da
realidade na cognição, que pode ser considerada uma espécie de metáfora de uma cópia; expressa,
antes, um aumento do poder de agir em relação a um ambiente.
Isto quer dizer que, todas as etapas da cognição, da percepção sensorial, através da extração
lógica de conclusões até a auto-reflexão, devem ser agora concebidas de outra maneira. Charles
Pierce encetou esse programa. William James que parece ter influenciado Simmel com suas teorias,
aplicou-o a um bom número de problemas, principalmente de natureza religiosa ou existencial.
Movido pelo desejo de mostrar a impossibilidade de encontrar soluções universalmente válidas para
esses problemas, James estreitou, e portanto debilitou de um modo decisivo, a idéia básica do
pragmatismo. Contrariamente a Pierce, formulou o critério de verdade em termos dos resultados
realmente obtidos, não dos resultados esperados. Em sua psicologia, James não considerou a ação
como ponto de partida, mas o puro fluxo da experiência consciente. Formulou, entretanto, análises
extraordinariamente profundas e intrigantes que mostravam a seletividade da percepção e a distribuição
da atenção como função dos objetivos do sujeito4 .
Contudo, a influência decisiva do pragmatismo na sociologia começou com John Dewey e
George Herbert Mead que passando inicialmente pelos contorno de uma psicologia funcionalista,
4
50
Cf. Hans Hoas, “Interacionismo Simbólico” In: Teoria Social Hoje/Anthony Gidens e Jonathan Turner (orgs.). São Paulo: Editora
UNESP, 1999, pp. 135 e ss.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos
pretendia interpretar todos os processos e operações psíquicas – não apenas as cognitivas – segundo
sua eficácia para a solução dos problemas encontrados pelas pessoas no curso da conduta. Tal empresa
significava a rejeição das abordagens epistemológicas ditas tradicionais, utilizadas na interpretação dos
fenômenos psíquicos, e uma crítica a todas as psicologias que, em maior ou menor grau, acatam tais
posturas filosóficas. A crítica de Dewey e Mead, volta-se sobretudo contra as teorias que reduzem a
ação a uma conduta determinada pelo meio. Entretanto, o modelo de ação utilizado nessa crítica revela
também a modificação do significado da intencionalidade em comparação com as teorias que vêem a
ação como a concretização de “fins” predeterminados. Para Hoas,
no pragmatismo, justamente porque ele considera todas as operações psíquicas à luz de
sua eficácia para a ação, é impossível sustentar que a determinação de um fim seja um ato
consciente per se, que ocorre fora dos contextos da ação. Ao contrário, a determinação de
um fim só pode ser o resultado de ponderações sobre as resistências que uma conduta
variamente orientada em diversas direções encontra. Ao ser impossível acompanhar
simultaneamente todos os impulsos ou compulsões que levam à ação, ocorrerá um
motivo dominante que, como se fora um fim, sufocará os demais ou lhes concederá
eficácia apenas num grau subordinado (HOAS, 1999, p. 136).
A crítica de que esse modelo reduz o conceito de ação de um modo instrumentalista ou ativista
perdeu sua “plausibilidade”, graças ao interesse que Dewey e Mead tinham pelas brincadeiras infantis,
não só porque queriam promover uma reforma educacional, mas também porque as brincadeiras lhes
serviam como modelo de uma ação sujeita a um mínimo de obstáculos para sua realização. Para
Dewey, o pragmatismo era nada menos que uma maneira de criticar aqueles aspectos da vida americana
“que tornam a ação um fim em si mesmo e têm dos fins uma visão muito estreita e muito prática”. Ou
seja, somente na ação a imediaticidade qualitativa do mundo e de nós mesmos nos é revelada.
Mas a objeção principal para nós, diz respeito ao desenvolvimento das idéias de Dewey e Mead,
reiteradas por Joas em comparação com a abordagem utilitarista, quando afirma:
a teoria pragmática da ação inaugura novos campos de fenômenos e, ao mesmo tempo,
torna necessário repensar os campos conhecidos – e os faz de um modo que não
encontra precedentes na crítica feita pelos pensadores da sociologia clássica ao utilitarismo
(HOAS, 1999, p. 137).
O próprio Giddens reviu este aspecto posteriormente com o sugestivo título de seu livro “Política,
Sociologia e Teoria Social: Encontros com o Pensamento Social Clássico” (Politics, Sociology and Social
Theory. Encounters with Classical and Contemporary Social Thought, 1995) quando afirma no capítulo “A
Sociologia Política de Durkheim”:
...Durkheim não estava, como freqüentemente se afirma, preocupado acima de tudo
com a natureza da ‘anomia’, mas antes com a exploração da complexa inter-relação entre
as três dimensões da ‘anomia’, ‘egoismo’ e ‘individualismo’. A divisão do trabalho
social constituiu o pensamento de Durkheim a esse respeito, e ele não se desviou
posteriormente da posição defendida naquela obra, embora não tenha elaborado completamente algumas de suas implicações senão bem mais tarde. A conclusão substancialmente mais importante a que chegou Durkheim em A divisão do trabalho social foi
a de que a solidariedade orgânica pressupõe um individualismo moral: em outras
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
51
Ubiracy de Souza Braga
palavras, que ‘é errado contrastar uma sociedade que vem de uma comunidade de
crenças (solidariedade mecânica) com outra que tem uma base cooperativa (solidariedade cooperativa), reconhecendo apenas na primeira um caráter moral e vendo na segunda
simplesmente um agrupamento econômico’. A fonte imediata desse individualismo
moral, tal como explicitada por Durkheim em sua contribuição para a discussão pública a respeito do caso Dreyfus, estava nos ideais gerados pela Revolução de 1789. O
individualismo moral não pode de modo algum ser confundido com o egoísmo (ou
seja, com a busca do interesse próprio), tal como postulado na teoria econômica clássica
e na filosofia utilitarista. O crescimento do individualismo, derivado da expansão da
solidariedade orgânica, não deveria ser necessariamente equiparado à anomia (a condição anômica da divisão do trabalho era um fenômeno transitório, que se originava
precisamente do fato de que a celebração de contratos estava insuficientemente governada pela regulação moral” (Giddens, 1998, p. 106-107).
Finalmente, se o pragmatismo era nada menos que uma maneira de criticar aqueles aspectos da
vida americana que tornam “a ação um fim em si mesmo” e tem “dos fins uma visão muito estreita e
muito prática”, e ainda, “que a escolha da ação como ponto de partida da reflexão filosófica não
significa que o mundo decaiu em nível de simples material à disposição das interações dos agentes”,
diante de uma guerra pós-imperialista que define a ação a partir do “mercado”, o particular “mercado
das nações” como idealização principesca, seu peer ranking, como não admitir a idéia de ação como um
fim em si mesmo, como fantasia de um país que dá tiros nos próprios pés.
Assim, talvez seja possível pensar numa história e numa lógica da dramaturgia do desprezo – de
base psico-política – como ingrediente constitutivo da fantasia de “Príncipe perfeito” que, num afã, de
responder ao absolutismo do mercado, se coloca no lugar de idealização narcísica diante do extermínio
humano, da possibilidade da destruição das imagens e na crença de um ter por verdadeiro suficientemente
válido, mas apenas no plano subjetivo.
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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005
53
WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI
Emoção e Racionalidade
Leonardo de Araújo e Mota*
RESUMO: Ultimamente, temos organizado nossas
CT:: Lately we organize our lives under the
ABSTRACT
CT
ABSTRA
vidas e anseios sob a influência de um mundo
influence of an emotionally sick world. The occurrence
emocionalmente doente. A taxa de ocorrência de
of emotional disorders such as depression, panic
doenças afetivas como a depressão, a síndrome do
syndr’om and other psychic illiness wich arise in the
pânico e outros distúrbios psíquicos originados no
contemporary estressful social environment, are
estresse do meio social contemporâneo vem
increasing significantly. The present article argues the
aumentando significativamente. O presente artigo
gap between technological development and
discute a lacuna entre desenvolvimento tecnológico
emotional poverty, the role of modern science within
e pobreza emocional, qual o papel da ciência
this context, and how social sciences could assist this
moderna nesse contexto e como as ciências sociais
crisis.
Palavras Chave:
Emoção; Ciência;
Modernidade; Mal-estar;
Saúde Mental.
Key-words: Emotion;
Science; Modernity; Bad
fellings; Mental Health.
poderiam auxiliar na gestão dessa crise.
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, organizamos nossas vidas sob a influência de um mundo emocionalmente doente.
Somente na França, a depressão aumentou em 60% entre 1980 e 1990 (PERES, 2003). As constantes
pressões inerentes à vida cotidiana como a intensificação da competitividade, a constante ameaça de
desemprego, a ruptura da estrutura familiar etc. têm impacto significativo sobre nossa capacidade de
partilhar afeto. O mito de que o progresso tecnológico situaria a humanidade num patamar de bemestar nunca antes alcançado, foi traído pelos fatos. Considerando que o século XX inaugurou o período
em que as armas de destruição em massa foram utilizadas em larga escala, resta pouca esperança que a
ciência ainda venha a honrar suas promessas originais.
* Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, autor do livro A Dádiva da Sobriedade: a ajuda
mútua nos grupos de Alcoólicos Anônimos, Ed. Paulus (2004).
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
55
Leonardo de Araújo e Mota
O século XXI se inicia sobre a égide da mesma crise moral que caracterizou o período precedente.
Trata-se de um dilema que escapa ao reducionismo econômico. A crise atual não ocorre em virtude da
escassez de recursos, mas por conseqüência da sua concentração em poucas mãos. O desenvolvimento
de nossas aptidões técnicas não se seguiu ao controle de nossas imperfeições morais. Além do mais,
uma sociedade que estimula seus membros a competir incessantemente entre si é incapaz de gerar
qualquer solidariedade.
O apelo do consumismo produz constantes sentimentos de desamparo. Na medida em que a
mídia publicitária manipula os desejos de consumo, oculta ela o fato de que, para a grande maioria das
pessoas, o carro possante ou a viagem dos sonhos representa apenas delírio frustrado. Este é o universo
simbólico onde repousam as aspirações contemporâneas de auto-afirmação. Trata-se de um mundo
fantasmagórico onde as imagens cintilantes dos sonhos de consumo contrastam com a dura realidade
de uma economia excludente. O fato da depressão se apresenta hoje tão difundida e descortina o
aspecto mais deletério de uma sociedade que condena os “mal-sucedidos” a vivenciar constantemente
sentimentos de auto-recriminação, germe fundamental para a instalação dos distúrbios depressivos.
2 MAL-ESTAR E MODERNIDADE
No início do século XX, quando Freud escreveu “O Mal-Estar na Civilização” sugeriu ele que
o homem moderno havia renunciado a seus instintos de agressividade e sexualidade em troca de
segurança. De maneira geral, ainda prevalecia a crença de que a “anomia” da era moderna estava em
via de superação e o avanço da ciência conduziria a humanidade a gradações superiores, desde que
mantida a renúncia aos instintos. A supressão da liberdade seria o caminho para a conquista da
suposta felicidade. Nunca poderemos ter tudo na vida, por isso é necessário ceder de um lado para
obter alguma vantagem do outro.
Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas
também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser
feliz nessa civilização. Na realidade, o homem primitivo se achava em situação melhor,
sem conhecer restrições de instinto. Em contrapartida, suas perspectivas de desfrutar
dessa felicidade, por qualquer período de tempo, eram muito tênues. O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. (FREUD, 1997, p.72)
Diferentemente do período que Freud analisou, na sociedade contemporânea não há mais limites
para o exercício da liberdade. Todavia, o paradoxo atual é que quanto se promete a satisfação dos
desejos, mais infelicidade é criada. Tal contexto induz uma busca frenética por bem-estar psíquico
através da literatura de auto-ajuda, da forma física, do consumismo, das drogas, da indústria do
entretenimento etc. O incremento no consumo de psicotrópicos é estarrecedor. Somente em 2001,
foram consumidas 33,7 bilhões de doses de tranqüilizantes no mundo (CEBRID, 2003). A busca
individualizada pela satisfação dos desejos desconhece quaisquer fronteiras.
Zygmunt Bauman, em seu livro “O Mal-estar da Pós-modernidade”, atenta para o fato de que,
ao contrário do que Freud diagnosticou quase um século atrás, a busca por segurança tornou-se uma
heresia nos dias atuais. Aqueles que procuram valores e condições de vida estáveis no atual contexto
56
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
Emoção e Racionalidade
estão condenados a sofrer constantes decepções. Na medida que a busca de segurança era premissa
básica no processo civilizatório do início do século XX, a demanda atual por liberdade total reverteu
radicalmente esse contexto, mesmo que o preço a pagar seja a insegurança endêmica. Por conseqüência,
“se obscuros e monótonos dias assombravam os que procuravam a segurança, noites insones são a
desgraça dos livres” (BAUMAN, 1998, p. 10).
No momento em que a desregulamentação se torna palavra de ordem não há mais sentido
buscar abrigo nas instituições que outrora defenderam a “segurança da civilização”. Se a época precedente
ficou obcecada em organizar uma realidade naturalmente desorganizada, a condição presente assume
sem culpa o demasiadamente humano, seus instintos e incertezas. A estabilidade do emprego ou da
família não interessa mais a um sistema que deve modificar-se constantemente para acompanhar as
flutuações do mercado.
As doutrinas totalitárias firmaram-se num contexto de busca pela segurança. Apesar de suas
diferenças, tanto o fascismo como o comunismo buscavam estabelecer uma ordem social onde o caos
humano não teria lugar. Todas as visões totalitárias foram essencialmente modernas e desumanas. Neste
prisma, poderíamos até comemorar a derrocada desses fantasmas do passado, mas a situação não é tão
simples assim. A queda do socialismo causou um vazio ideológico que acabou por provocar um
marasmo na ação social. As inquietudes de hoje são engolidas a seco, enquanto as novas alternativas são
geralmente encaradas com desconfiança ou descaso.
No estado liberal dos dias de hoje não há campos de concentração nem departamentos
de censura, enquanto as prisões, inchadas como são, não têm celas reservadas para
heréticos ou opositores políticos, A liberdade de pensamento, de expressão e associação alcançou proporções inéditas e nunca esteve tão próxima de ser verdadeiramente
ilimitada. O paradoxo, no entanto, é que esta liberdade sem precedentes chega num
momento em que há pouca chance de transformar a liberdade de restrições em liberdade para agir (...) ter um “controle sobre o presente” é algo que evidentemente falta aos
homens e mulheres contemporâneos. (BAUMAN, 2000, p.174)
A sensação de impotência que hoje experimentamos se opõe ao ideal da modernidade. O impacto
emocional da desesperança e do cinismo é devastador. Ter consciência das injustiças e sentir-se incapaz
de agir contra elas afeta nosso próprio instinto de sobrevivência. Em síntese, submeter-se aos ditames
do mercado sem contestar sua lógica tornou-se a única ordem a ser observada, visto que o
descontentamento comum não produz solidariedade. De maneira geral, as pessoas parecem cada vez
mais fechadas em si mesmas, presas a um individualismo que se tornou patológico.
Numa perspectiva mais universal, o colapso na fé dos grandes sistemas filosóficos explicativos
como promotores de uma melhor compreensão do mundo moderno, e até da própria ciência como
verdade inabalável e geradora de “progresso”, somado ao desmascaramento da “mentira pública” de
nossos sistemas políticos vigentes, cada vez mais desacreditados, juntamente com a marginalização
social de numerosos segmentos da população, os altos índices de desemprego, o aumento da mendicância
nos grandes centros urbanos etc., gerou uma frustração generalizada frente à inacessibilidade dos ideais
propostos pela cultura, abalando assim profundamente a crença do homem na realização efetiva de
seus ideiais. (SEVERIANO, 2003, p. 228).
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
57
Leonardo de Araújo e Mota
O paradigma dominante impõe atualmente uma racionalidade que busca incessantemente converter
nossos anseios e emoções em cálculo econômico. A existência humana é reduzida à sua capacidade de
produzir produtos e serviços a custos cada vez menores, não importando o custo social e psíquico da
exploração dos trabalhadores. Como conseqüência, o ambiente de trabalho hoje está carregado de
patologias mentais, fruto da exasperação da competitividade, da supressão das garantias trabalhistas e
da constante ameaça de exclusão do mercado de trabalho. Segundo a Organização Mundial de Saúde,
no mundo atual, 30% dos trabalhadores apresentam sintomas de depressão, transtornos de ansiedade
ou estresse. (LOBO, 2003)
3 INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E RACIONALIDADE
O hiato que hoje observamos entre o desenvolvimento tecnológico e a nossa humanidade é
abismal. Como bem observou Giddens (1997), a vida emocional dos indivíduos na civilização moderna
foi menosprezada pelo iluminismo, em detrimento dos esforços tecnológicos e científicos que
sedimentaram a atual noção de modernidade. Ser moderno não passou a significar ser mais “humano”
para livrar-se das estruturas arbitrárias da era pré-moderna. O espírito humanista perdeu espaço para o
utilitarismo tecnológico. Nesse contexto, requeria-se do indivíduo apenas domínio da técnica e das
noções de eficácia. Segundo Santos:
a ciência moderna, outrora vista como solução para todos os problemas das sociedades
modernas, acabou por se tornar, ela própria, num problema. A transformação gradual
da ciência numa força produtiva neutralizou-lhe o potencial emancipatório e submeteu-a ao utopismo automático da tecnologia. (2000, p. 117)
As conseqüências desse desequilíbrio original entre humanidade e racionalidade emprestou também
à ciência a noção de “frieza”. Para obter-se êxito na carreira acadêmica, tornou-se indispensável ao
cientista assumir postura calculista e insensível diante de seu objeto de estudo. O estatístico deve ser
tecnicamente preciso ao produzir indicadores sobre a pobreza, mas jamais deverá compadecer-se do
sofrimento dos pobres. Noções de caridade, amor ou benevolência passaram a ser interpretadas como
pertencentes à esfera da religião (do erro) e arbitrariamente classificadas de “anticientíficas”. Para fazer
a “verdadeira” ciência, o pesquisador deve suprimir seus sentimentos.
Desse modo, ao mesmo tempo em que busca contemplar uma das dimensões fundamentais do homem, a ciência o afasta do cenário de estudo. (...) A linguagem científica
é, via de regra, impessoal, emitida em terceira pessoa; o mundo interno do pesquisador
é desprezado em sua qualidade subjetiva, pouco importando as sua opiniões informais, seus desejos e aspirações, mesmo que tais dimensões atuem decisivamente em
sua produção; se algum fato imprevisível, como um sonho, ajuda no desencadeamento
da solução de um problema de grande importância é concebido como mera e curiosa
artimanha do acaso e nada mais. Em outras palavras, a subjetividade do pesquisador
torna-se terreno proibido. (NEUBERN, 2000. p. 156)
No entanto, quantificar, analisar e formular teorias sobre a sociedade não conseguiu livrar-nos de
nosso cérebro reptiliano, área de nosso córtex responsável pelo direcionamento de nossos instintos.
58
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
Emoção e Racionalidade
Certamente, hoje, somos mais sofisticados tecnologicamente, mas ainda sobrevive o animal primitivo
que não estava circunscrito na filosofia iluminista. A “besta” pode falar mais alto que o Sapiens e isso
ocorre com relativa freqüência sob a forma de guerras, por exemplo. Por outro lado, os modernos
instrumentos de dominação psicológica podem também causar ao indivíduo um dano maior que a
violência física propriamente dita. Portanto, não há garantias objetivas de que somos hoje mais
“civilizados” que nossos antepassados.
Algumas décadas atrás, os testes de QI determinavam o futuro de muitos estudantes e serviam
para eles como notável distinção curricular. A pessoa considerada inteligente era aquela que possuía o
maior domínio possível dos procedimentos técnicos e formais, especialmente os matemáticos. A
capacidade de memorizar fórmulas e conceitos era a chave do sucesso profissional.
No entanto, a partir do avanço das neurociências, tal tendência começou a modificar-se em
grande parte do mundo ocidental. Estudos posteriores conseguiram diagnosticar que, na melhor das
hipóteses, um QI elevado pode determinar até 20 por cento para o sucesso na vida, ficando os
restantes 80 por cento sujeitos a outras forças. Daí então, descobriu-se que o modelo mecanicista
apresenta uma série de limitações, ou seja, agora sabe-se que a cabeça e o coração precisam um do
outro (Goleman, 1996).
O estereótipo do cientista maluco ou pedante denota claramente a contradição entre elevado
desempenho do raciocínio lógico e “incompetência emotiva”. Nas escolas, os garotos com as maiores
notas, salvo raras exceções, são geralmente aqueles que encontram mais dificuldades de relacionar-se.
Na sabedoria popular é também comum afirmar-se que namoro não combina com vestibular, o
cérebro romântico é inútil para a ciência. Desde cedo, é inculcado nas crianças que o pensamento
formal deve ser desprovido de emoção, que sentimentos atrapalham o desempenho intelectual. Não é
por acaso que muitos comportamentos esquizofrênicos germinem em mentes altamente capacitadas
para o raciocínio lógico, embora “emocionalmente infantis”. Nestes termos, Goleman observa que
a inteligência acadêmica pouco tem a ver com a vida emocional. Os mais brilhantes entre
nós podem afundar nos recifes de paixões desenfreadas e impulsos desgovernados;
pessoas com altos níveis de QI são às vezes pilotos incompetentes de suas vidas
particulares. (Idem. Ibidem.: 46)
Os efeitos do que Goleman denominou de “analfabetismo emocional” são catastróficos: estupros,
depressão, evasão escolar, abuso de álcool e drogas, guerras, etc. A incapacidade dos homens em administrar
suas emoções é a causa de muitos infortúnios que provocam intensa deterioração do tecido social. Uma
pergunta não quer calar: será que a atual fase do capitalismo não estaria condicionada à falta de empatia
que hoje caracteriza o meio social? Ora, pessoas que são capazes de colocar-se no lugar do outro certamente
não adotariam uma postura tão egoísta com relação a seus semelhantes e certamente teríamos mais
igualdade de oportunidades. A gênese dos problemas atuais não pode ser circunscrita apenas no âmbito
de um contexto estrutural que impõe sua lógica perversa a uma massa inerte e indiferenciada.
Como conseqüência do mal-estar que assola a sociedade, a busca pela felicidade tornou-se
atualmente uma obsessão. O exemplo mais evidente desse frenesi é a profusão dos títulos de autoAnima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
59
Leonardo de Araújo e Mota
ajuda que abarrotam as prateleiras das livrarias. A procura pela fuga do estresse cotidiano e a intolerância
ao sofrimento instituíram um mercado promissor para gurus da auto-ajuda, místicos e charlatões,
narcotraficantes, laboratórios farmacêuticos, entre outros. Nos últimos três anos, o consumo de
antidepressivos aumentou em 11% no Brasil, atestando o desejo de milhares de pessoas de aplacar o
tédio e o desassossego (SEGATTO, MANIR E TERMERO, 2003).
Apesar de se tratar de um tema bastante presente na vida cotidiana de todos os indivíduos, a
felicidade não despertou muito interesse por parte da sociologia. Considerando que a ciência moderna
não está equipada para trabalhar com problemas que não possam ser sistematizados formalmente, a
questão da felicidade geralmente é deslocada para a esfera das artes ou da filosofia. Na realidade,
quantificar a felicidade das pessoas é tarefa impossível.
Foi a partir dessas interrogações que Pedro Demo publicou três volumes intitulados “A dialética
da felicidade” (Ed. Vozes, 2001), suscitando na sociologia brasileira uma discussão profícua sobre essa
temática. Entre suas ilações, Demo encaminha uma severa crítica à proliferação desordenada dos livros
de auto-ajuda, desnudando suas promessas ilusórias, calcadas na premissa inócua de que “querer é
poder”. Por outro lado, Demo reconhece também o desprezo da ciência pelos sentimentos humanos
em favor da constante necessidade de formalização e regulação do conhecimento científico.
A ciência usual não compreende a vida como questão de vivência, mas a explica como
sistematização formal, complexo de relações lógicas, estrutura dada, sistema. Afasta-se
de conteúdos e dinâmicas porque somente sabe tratar objetos formalmente paralisados. Teme enfrentar sujeitos necessariamente ideológicos, comprometidos, éticos. Considera o político como intromissão, invasão, perturbação. Por isso mesmo a ciência
usual é “injusta” com a realidade social (...). (DEMO, 2001, a. 34)
Avançando da pesquisa teórica para os procedimentos empíricos, Demo dirigiu uma pesquisa de
campo sobre a felicidade monitorando três grupos: (1) membros da Igreja Universal do Reino de
Deus (IURD); (2) gente comum, encontrada aleatoriamente pela rua e (3) professores universitários de
ciências sociais. Foram pesquisados 100 fiéis da IURD, 100 pessoas comuns e 20 professores da UnB.
Dentre os 100 entrevistados de cada grupo, 20 indivíduos que se declararam felizes foram selecionados
para entrevistas de profundidade. Observou-se que as interpretações sobre o que era ser feliz são
inomináveis, tendo em vista que se trata de uma solução de caráter eminentemente individual. Também
foi requerido por parte dos entrevistadores grande dose carisma e habilidade na aplicação dos questionários
e entrevistas, uma vez que “estudar a felicidade é tarefa pouco promissora através dos métodos clássicos”
(DEMO, 2001b:11).
Procurando relacionar a posse de conhecimentos científicos e sua implicação para a felicidade,
Demo catalogou algumas opiniões sobre a administração de assuntos mundanos e sua relação com a
carreira acadêmica a partir das entrevistas com os professores da UnB. Pedro Demo defende a tese de
que as ciências sociais, sendo demasiadamente críticas, não colaboram para a construção de uma visão
positiva da realidade. O hábito dos sociólogos exaltarem o lado negativo dos conflitos sociais é problema
para a felicidade. Além disso, a tendência igualmente verificada de conceber a religião como algo
conservador ou alienante, e não como uma necessidade humana básica, parece agravar ainda mais a
60
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
Emoção e Racionalidade
situação. Outro quesito importante foi a resistência encontrada entre os professores para responder o
questionário, ou melhor, quem muito pesquisa os outros não se sente à vontade quando pesquisado.
Grande parte dos professores entrevistados disse que não teria como tratar cientificamente a
felicidade, visto que este assunto seria da competência dos filósofos, poetas ou místicos. Mesmo assim,
14 dos 20 entrevistados afirmaram que existe felicidade na academia, encontrando-se ela relacionada
com o sucesso acadêmico, já que o conhecimento também pode sempre tornar-se algo “realizador”.
Entre as quatro pessoas que alegaram não existir felicidade na academia, os argumentos indicaram que
o excesso de competitividade, a vaidade e os ressentimentos constituem-se grande causa de infelicidade
entre acadêmicos.
Entre todos os quesitos, que seriam muito extensos para enumerá-los aqui, aquele que mais chamou
a atenção de Demo foi a dificuldade dos professores em lidar com a autocrítica. Aqueles que estão
habituados a uma postura crítica com relação ao mundo externo, pouco exprimem a possibilidade de
avaliar-se com sinceridade. Segundo Demo (2001, b. 59) “parece ser mais ou menos comum que os
cientistas sociais apreciem a crítica a tudo e a todos, desde que ele mesmo não se inclua. (...) na convivência
diária preferem a situação não problemática, como se fossem dialéticos para fora e funcionalistas para
dentro”. Apesar da pequena amostragem (20 entrevistados), fica evidenciada a dificuldade dos intelectuais
em assumir suas próprias contradições. A autocrítica parece implicar em ameaça ao jogo do poder
característico dos círculos acadêmicos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Longe de representar um futuro de paz e igualdade, os filmes e alegorias futuristas projetam uma
sociedade em putrefação onde a robótica assume o controle e o irracionalismo humano desdobra-se
numa violência sem fim. Esta dimensão escatológica do devir, projetada incessantemente no inconsciente
coletivo pela indústria cinematográfica, incrementa o medo e coloca a civilização moderna em xeque.
O futuro civilizado, limpo e preciso dos Jetsons é substituído por tramas pessimistas como nas seqüências
de Mad Max ou em “O exterminador do futuro”. A utopia cede lugar ao desengano. A promessa de
dias melhores é trocada pelo imperativo categórico do cinismo.
A crise da pós-modernidade realça a incapacidade da ciência em superar os sentimentos humanos
de cobiça, ira ou ganância. A “frieza” dos procedimentos tecnológicos possibilitou um avanço sem
precedentes em muitas áreas relacionadas ao bem-estar humano como o controle e cura de diversas
doenças, maior rapidez nos transportes e telecomunicações, sistemas jurídicos mais precisos com a utilização
de testes de DNA para desvendar crimes, etc. Por isso, seria injusto decretar a falência da ciência moderna
como tal e negar sua contribuição para a sociedade. No entanto, acredito que as ciências sociais devam ser
postas a serviço do desamparo emocional da humanidade. Vale observar que a competição exacerbada
gera uma profunda ansiedade que possibilita o desenvolvimento de uma série de moléstias psicológicas
como a depressão, a síndrome do pânico, o abuso de álcool e drogas, entre outras.
Como cientistas sociais precisamos instigar um novo reencantamento do mundo, resgatando a
paixão pela ciência como ferramenta para a emancipação humana, no intuito de desmontar a visão
estereotipada da universidade como uma “torre de marfim”. O paradoxo de um mundo
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
61
Leonardo de Araújo e Mota
tecnologicamente rico e emocionalmente pobre constitui-se um grande dilema para o século XXI. Por
isso, faz-se necessário a prática saudável da autocrítica, visando ao nosso engrandecimento não apenas
como cientistas sociais, mas também como seres humanos dotados de razão e emoção.
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62
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005
O Esporte como Serviço e Ferramenta
de Promoção: Um dos Estudos nas
Escolas Católicas
de Fortaleza
Francisco José da Costa1
Sérgio Henrique Sousa Diniz2
Francisco de Assis Francelino Alves3
RESUMO: Este trabalho discorre sobre os esportes como
ABSTRACT: This paper intends to discuss the sports
serviços e ferramentas de promoção de marketing nas
as services and a marketing promotion tools in the
instituições educacionais. O objetivo geral consiste em
educational institutions. The main objective consists in
analisar, junto às escolas católicas de Fortaleza, a
utilização dos esportes nas atividades de marketing. Alem
do objetivo geral foram estabelecidos três objetivos
específicos: analisar as estratégias dos serviços de
analyzing, in Fortaleza's catholic schools, the use of
the sports in marketing activities. It was also defined
strategies of the researched schools; to analyze
de comunicação associadas ao esporte; e por último
promotion strategies related to sports; and, finally, to
analisar a contribuição que essas estratégias trazem para
know the contribution that this strategies bring to the
as escolas. Foram ainda definidas duas hipóteses: a
organizations performance. It was also defined two
primeira é que o esporte é sub-utilizado como serviço
hypothesis: the first is that the sports are sub used as
como instrumento de promoção e de consolidação de
marca é também sub-utilizado. Foi feito um estudo de
campo junto a oito escolas confessionais de Fortaleza.
Foi destacada uma percepção limitada por parte dos
Key word: Sport;
Schools; Services;
Marketing Promotion.
three specific objectives: to analyze the sports services
esporte das escolas pesquisadas; analisar as estratégias
nas escolas; e a segunda é que o potencial do esporte
Palavra-chave: Esporte;
Escolas; Serviços;
Promoção de Marketing.
services in the schools; and the second is that the sports
potential as a tool of promotion and brand
consolidation is also sub used. It was done an empirical
study involving eight catholic schools from Fortaleza.
gestores esportivos das potencialidades do esporte, com
It was detected a limited perception by the sport
formação de estratégias de maneira marcadamente
managers of the sports potentialities, with strategies
informal.
formation done in an informal way.
1
Professor de marketing da FIC
Vice-diretor do Colégio Juvenal de Carvalho
3
Coordenador do Curso de Educação Física da FIC
2
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005
63
Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves
1 INTRODUÇÃO
Duas preocupações são destaque na sociedade contemporânea: a educação e a qualidade de vida.
A primeira remete às instituições educacionais, enquanto que a segunda remete aos esportes e às atividade
de lazer. Estas duas dimensões encontram-se entrelaçadas e são merecedoras de atenção a partir dos
esportes nas instituições educacionais.
O diálogo estabelecido entre estas duas dimensões remete à necessidade de estudos envolvendo
as duas áreas. Aqui se discute especificamente os aspectos de marketing, em uma convergência entre o
marketing esportivo e o marketing das instituições educacionais. Dada a impossibilidade de se abordar
o universo mais amplo das instituições educacionais, optou-se pela abordagem sobre as escolas do tipo
confessional católico.
Dentre as práticas pedagógicas adotadas pelas escolas confessionais, o esporte assume um papel
relevante por ser uma ferramenta que possibilita uma variedade de recursos educacionais e contribui
efetivamente para a formação integral dos educandos. Essas escolas, em sua grande maioria, foram
construídas com grandes estruturas físicas para as práticas esportivas como ginásios esportivos, piscinas,
campos de futebol, salas de lutas, salas de dança, salas de teatro, dentre outros, confirmando assim, o
seu significativo envolvimento com as práticas esportivas e artísticas.
O problema central da pesquisa questiona: de que forma o esporte é utilizado como ferramenta
estratégica de marketing das escolas confessionais de Fortaleza? Partindo desse problema central definiuse como objetivo geral analisar junto às escolas católicas de Fortaleza a utilização dos esportes nas
atividades de marketing, enquanto serviços e ferramenta de comunicação e promoção.
Além do objetivo geral foram estabelecidos três objetivos específicos que são: analisar as estratégias
dos serviços de esporte das escolas pesquisadas; analisar as estratégias de comunicação associadas ao
esporte e por último analisar a contribuição que essas estratégias trazem para as escolas.
Foram ainda definidas duas hipóteses: a primeira é que o esporte é sub-utilizado como serviço
nas escolas; e a segunda é que o potencial do esporte, como instrumento de promoção e de consolidação
de marca da escola, é sub-utilizado nas escolas.
Optou-se pelo desenvolvimento do trabalho em cinco itens, além desta introdução. Inicialmente
são discutidos os elementos gerais do marketing esportivo; em seguida discute-se o marketing das
instituições educacionais, a terceira parte traz a metodologia do estudo empírico desenvolvido, na parte
seguinte são apresentados os resultados do trabalho de campo desenvolvido, e, por fim, a parte final
traz algumas considerações sobre os o alcance do objetivos apresentados, a reflexão sobre a confirmação
das hipóteses e algumas recomendações de possíveis estudos a serem realizados.
2 MARKETING ESPORTIVO
De acordo com Pitts e Stotlar (2002) a prática esportiva está segmentada em: esportes de iniciativa
privada, esportes mantidos pelo governo, organizações mantidas por sócios, organizações esportivas
64
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005
O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas
de Fortaleza
não lucrativas, escolas de esportes e academias de fitness e esportes. Destacam-se no Brasil três grandes
canais principais que são os clubes, as escolas e as academias.
Os clubes são instituições caracterizadas por serem o berço da prática esportiva, tendo uma
atuação no esporte profissional e amador ou no esporte puramente amador: na categoria do esporte
profissional, que é caracteriza por estabelecer relações trabalhistas entre clubes e atletas, estão em nível
de Brasil os clubes de futebol, que em alguns casos favorecem a prática dos esportes reconhecidos
como amadores, estes são caracterizados por não estabelecerem relações de trabalho entre os clubes e
seus praticantes (voleibol, basquete, natação etc.); os clubes de origem puramente amador que são
caracterizados por adotarem a prática das atividades esportivas somente em nível amador, que tem
como característica não estabelecerem relações trabalhistas entre os seus praticantes.
Já as academias são caracterizadas por serem empresas prestadoras do serviço de atividade física,
cujo objetivo principal é possibilitar para a população a busca e manutenção de uma melhor qualidade
de vida. As academias estão focadas em todos os segmentos da sociedade a partir da infância até a
terceira idade.
O esporte escolar tem características puramente amadoras, possuindo em seus objetivos principais
a busca da formação humana, da qualidade de vida, além de funcionar como um instrumento de
formação cultural e pedagógica.
Em nível de prática esportiva, tem-se, além do esporte praticado nos clubes, que envolve os
atletas profissionais e que tem uma preponderantemente orientação para a performance, e que tem nos
torcedores os seus clientes, há ainda aquelas atividades desenvolvidas no nível chamado amador, e que
envolvem os esporte voltado para interessados em geral (no caso dos esportes das academias), para as
comunidades e para as diversas organizações.
Sobre estas últimas destaca-se a prática do esporte nos clubes de lazer e esporte das empresas ou
instituições públicas, normalmente voltadas para os funcionários, e por vezes estendidos à comunidade.
De modo especial nesta modalidade, tem destaque o esporte praticado nas organizações escolares.
Levantamentos realizados pelos autores apontaram que as escolas são, depois dos clubes, os principais
ambientes da prática esportiva. Em realidade, é possível encontrar indicativos de que as escolas são
ambientes que tendem a superar os clubes em termos de desenvolvimento de atletas. Com efeito, as
escolas têm sido centros geradores de vários atletas para os clubes, ainda que não seja esta a sua finalidade
com relação ao esporte.
Para Cardia (2004), a definição de marketing esportivo não pode ser muito diferente do marketing
propriamente dito. Assim, da mesma maneira que se procede em relação a um produto ou serviço de
consumo deve-se atentar para o tamanho do mercado de fãs de um clube, alunos de instituições
educacionais, academias de ginásticas ou aficionadas de um esporte. Esses grupos de indivíduos têm
em comum uma necessidade ou desejo que pode ser suprido pelo mesmo tipo de produto ou serviço.
Isto faz desse grupo um mercado em potencial. As premissas do marketing esportivo destacadas pelo
autor são demanda (que é o desejo associado à capacidade de compra de um determinado produto ou
serviço); desejo (a feição dada pelos clientes às suas necessidades); valor (a diferença entre o que foi
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005
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Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves
pago e o valor com que a posse e o uso de determinado produto ou serviço); satisfação (o atendimento
às expectativas de um comprador); qualidade (a capacidade de um bem ou serviço não apresentar
defeitos e suprir a satisfação do cliente).
Para Cardia (2004), a doutrina não dispõe de nenhuma definição objetiva de marketing esportivo
por duas razões: primeiro por que a definição de marketing latu sensu é por si só suficiente para abranger
a definição de seu subgrupo esportivo; segundo, porque é, à luz de tudo que já foi observado, abranger
dois grupos distintos dentro da mesma definição. Esses grupos são constituídos pelos consumidores
de um lado e os que são designados por entidades esportivas (ligas, federações, clubes, atletas, estádios,
etc.).
Segundo Cardia (2004), este fato leva a uma duplo conceito, distinguindo os dois lados da relação.
Assim, surgem duas possibilidades para se definir o marketing esportivo: sob o prisma das entidades
esportivas e sob a ótica dos clientes. Sob o prisma das entidades, "é o processo pelo qual se suprem
necessidades e desejos de entidades esportivas através da troca de produtos e valores com seus mercados".
Sob a ótica dos clientes, dos torcedores ou dos praticantes, marketing esportivo "é o processo social e
gerencial pelo qual os indivíduos e grupos têm seus desejos e necessidades atendidas por meio de
transações com o fim de lhes trazer satisfação" (CARDIA, 2004, p.22).
Já para Mullim, Hardy e Sutton (2004), o marketing esportivo tem seu conceito ainda indefinido.
Segundo estes autores o termo marketing esportivo foi cunhado pela revista Adversiting Age em 1978,
para descrever as atividades dos profissionais marketing de produtos industriais, de consumo e de
serviços que estavam utilizando cada vez mais o esporte como veículo profissional.
Entretanto, este sentido do termo é extremamente limitado por que fracassa em reconhecer a
parte dominante do marketing esportivo, que é o marketing de produtos, eventos e serviços esportivos.
Mullim, Hardy e Sutton (2004), consideram ainda os componentes do marketing esportivo em duas
dimensões, assim distribuídas: o marketing do esporte e o marketing através do esporte.
• O marketing do esporte: é o marketing de produtos e serviços esportivos, que de forma geral
ocorre em academias, clubes de esportes individuais e coletivos, nas instituições educacionais
(universitárias e escolas básicas) etc;
• O marketing através dos esportes: é caracterizado pelas atividades ou produtos que se utilizam o
esporte como veículo promocional. Podem ser citados como exemplo as empresas de
comercialização e produção de automóveis, vitaminas, produtos alimentícios, artigos esportivos,
e, também, as instituições educacionais (universitárias e escolas básicas) etc. (cf. CONTURSI, 2000)
É relevante considerar que as instituições educacionais estão posicionadas nas duas dimensões
apresentadas, ou seja, no marketing do esporte, quando utilizam as atividades esportivas como serviços
educacionais, e no marketing através dos esportes, quando promovem suas instituições através do
ótimo conceito de saúde, disciplina, sucesso e qualidade de vida que o esporte possui diante da sociedade.
Mullim, Hardy e Sutton (2004) consideram ainda outros elementos no marketing esportivo e que
causam confusão, que são: o marketing dos esportes (plural) e o marketing do esporte (singular). Para os
66
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005
O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas
de Fortaleza
autores, o marketing dos esportes designa uma orientação voltada para modalidades e práticas específicas,
enquanto o marketing do esporte tem sentido genérico, envolvendo toda a industria do esporte. (cf.
PITTS e STOTLAR, 2002).
Se o marketing esportivo consiste em atividades destinadas a satisfazer as necessidades e os desejos
dos consumidores esportivos, então o marketing esportivo tem sido também vitima do que Theodore
Levitt (1960) chama de "miopia do marketing" que consiste na falta de previsão nos empreendimentos
de marketing. Para Mullim, Hardy e Sutton (2004) os sintomas padrão da incluem o seguinte: um foco
na produção e venda de bens e serviços, em vez de enfocar a identificação e satisfação de necessidades
e desejos dos consumidores e de seus mercados; a crença de que vencer absorve todos os outros
pecados; a confusão entre as promoções e o marketing; um foco equivocado sobre os investimentos
de curto prazo, como os patrocínios, em vez de longo prazo em pesquisa e marketing de relacionamento.
A miopia do marketing esportivo é estendida a mais dois fatores importantes, que são: a
falta de pesquisa de marketing e a técnicas de vendas fracas. Em relação às pesquisas de marketing
observa-se a carência de uma maior sensibilidade esportiva. As pesquisas têm sido realizadas com
o consumidor casual de esporte. Em realidade, ocorre uma necessidade de que os gestores
esportivos invistam em pesquisas bem planejadas que incluam métodos qualitativos e não
simplesmente levantamentos rápidos e descuidados.
Já em relação às vendas, o investimento efetivamente no esforço de vendas é fraco e carente de
profissionalismo. As vendas são limitadas às bilheterias dos estádios e ginásios esportivos, sempre
esperando que o consumidor do esporte dirija-se a sua procura. Algumas ações têm sido implementadas
pelos gestores esportivos como a venda de ingressos em farmácias e lojas em shopping centers. Assim,
torna-se imperativo o uso de estratégias de vendas orientadas e executadas por profissionais.
3 MARKETING DE SERVIÇOS EDUCACIONAIS
Educação é missão e propósito de um grande número de organizações, entre as quais se pode
citar instituições religiosas, culturais, de saúde e esportivas. Independente de qual seja a natureza da
organização, se pode observar que uma variedade de instituições educacionais enfrenta problemas de
marketing. Essas dificuldades estão relacionadas à mutação de alunos, à concorrência por clientes, aos
recursos escassos e às pressões financeiras, sociais e legais persistentes.
As escolas são organizações prestadoras de serviços (LAS CASAS, 2002) reconhecidas como
sendo de extrema complexidade, seja por seu objetivo de educar, seja pela sua grande variedade de
serviços. Este item concentra-se no marketing destas instituições.
3.1 INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS E O USO DO MARKETING
De acordo com Kotler e Fox (1994) muitos educadores têm enfocando o marketing com cautela.
Embora os administradores tenham adotado imediatamente funções gerenciais como finanças,
contabilidade, planejamento e relações públicas etc., eles têm sido mais céticos no que se refere ao
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marketing. Ainda segundo os mesmos autores, o marketing leva consigo a imagem de ser uma função
de empresas que visam exclusivamente o lucro, causando a impressão nos administradores educacionais
de que o marketing é manipulador e caro e, portanto, inadequado para suas organizações.
Por outro lado, Kotler e Fox (1994, p. 23) observam que o marketing constitui "uma atividade
central das instituições modernas, crescendo em sua busca de atender eficazmente alguma área de
necessidade humana". Neste sentido, é relevante que as instituições educacionais utilizem as ferramentas
e conceitos de marketing como forma de sobreviverem e se tornarem bem sucedidas.
Em relação à utilização do marketing nas instituições educacionais, há indícios de que as instituições
universitárias estão começando a aplicar ativamente as idéias e conceitos de marketing, enquanto que
nas escolas particulares de educação básica ainda há desconhecimento sobre o que o marketing tem a
oferecê-las. As instituições escolares públicas, de uma forma geral, não demonstram qualquer interesse
em marketing.
Para Kotler e Fox (1994), composto de marketing nas instituições educacionais é a combinação
particular de variáveis de marketing controláveis que a instituição utiliza para obter seus objetivos no
mercado-alvo. O marketing mix é composto por quatro subconjuntos de variáveis, que são identificadas
como os "4Ps" (produto, preço, promoção e ponto).
Posto que a finalidade deste trabalho é abordar o esporte como elemento de marketing,
especificamente associado às variáveis produto e promoção, os próximos itens estarão concentrados
nestes elementos e suas principais variáveis.
3.2 O PRODUTO DE UMA INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL
Para os profissionais de marketing a utilização do termo produto tem um sentido bastante amplo,
envolvendo tudo o que a instituição oferece ao consumidor. De acordo com Kotler e Armstrong
(1999) um produto na forma de serviço, como qualquer outro produto, pode ser analisado em três
níveis: núcleo, tangível e aumentado.
• No nível mais essencial está o produto núcleo, que responde aos seguintes questionamentos: o
que o consumidor esta realmente procurando? E quais necessidades o produto está realmente
satisfazendo? Cabe então ao especialista em marketing a missão de perceber o produto na
perspectiva do consumidor.
Na escola o produto caracterizado como produto núcleo é a educação, considerada na sua
dimensão mais ampla. Neste sentido, todos os serviços que são disponibilizados à sociedade por
qualquer instituição educacional, pensados de maneira agregada, constituem o produto núcleo de uma
escola.
Posto que a educação visa desenvolver o sujeito na sua plenitude, no contexto do produto núcleo
é possível inserir a educação física e o esporte, na medida em que estes têm por finalidade, na escola, o
desenvolvimento da dimensão física, psicológica, social e humana do educando.
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de Fortaleza
• O produto tangível: é o produto de primeiro nível transformado em modalidades ou linhas
específicas de produtos.
Na instituição educacional podem-se apontar como produtos deste segundo nível as atividades
de instrução básica (educação infantil, ensino fundamental, médio e superior) e os demais serviços que
são agregados, como as diversas atividades artísticas, atividades físicas, os serviços à comunidade, os
serviços de cantina, biblioteca, semi-internato etc.
Como serviços de atividades físicas podem-se citar a educação física escolar e os esportes. A
primeira relaciona-se a uma disciplina curricular que tem caracterização dependente da proposta
pedagógica da escola. Especificamente nos esportes destacam-se as diversas modalidades esportivas
que são ofertadas aos diversos públicos das escolas. São apresentadas a seguir as principais atividades
desenvolvidas:
EM RELAÇÃO AO AMBIENTE
• Esportes de quadra: futsal, basquete, handebol, voleibol etc;
• Esportes aquáticos: natação, pólo-aquático e hidroginástica;
• Esporte de mesa ou de salão: tênis de mesa, xadrez, dama...
EM RELAÇÃO À FINALIDADE
• Esporte de competição: que objetivam a participação em eventos como torneios, copas e
campeonatos. Inserem-se nestas categorias as seleções das diversas modalidades;
• Escolinhas esportivas: que se desatinam ao aprendizado dos fundamentos básicos das diversas
modalidades esportivas.
• O produto aumentado são os benefícios e serviços que se estendem além do produto núcleo e
do produto tangível. De acordo com Kotler e Fox (1994), a concorrência não ocorre apenas no
que as instituições educacionais oferecem dentro das salas de aula, mas também no que acrescentam
nas suas ofertas padronizadas na forma de embalagem, serviços, propaganda etc.
Neste sentido, pode-se considerar como serviço aumentado de uma escola as peculiaridades
ofertadas em cada produto, tais como nível de qualidade, ambientação, metodologias mais efetivas
(como inter e transdisciplinaridade), uso de tecnologias avançadas, reputação de imagem da instituição
e do serviço etc.
Em relação aos serviços esportivos de uma escola, o que pode ser adicionalmente agregado são:
nível diferenciado dos profissionais, qualidade das instalações físicas, reputação diante da comunidade
escolar e das demais escolas, a conexão com a proposta pedagógica da escola, qualidade do material
esportivo, participação em eventos afins e outros.
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No contexto da escola, a instrução básica constitui um produto de natureza perene, a despeito das
transformações que ocorrem na sua dimensão pedagógica. Por outro lado, a dimensão que os esportes
têm na sociedade contemporânea e as perspectivas que guardam para o futuro não deixam dúvidas de
que sua tendência é também de perenização no contexto da escola. Ou seja, a atividade esportiva deve
ser entendida de forma integrada a todas as demais atividades das escolas, não apenas como mais uma
oferta de serviços, mas também dentro do contexto da proposta pedagógica da escola.
PROMOÇÃO
As instituições educacionais são portadoras da necessidade de comunicações eficientes com seus
mercados e públicos. Não basta desenvolver bons serviços ou fixar preços tentadores: as instituições
devem aos seus consumidores e demais envolvidos no seu trabalho maior conhecimento sobre suas
metas, atividades e ofertas e assim despertar o interesse pelos mesmos.
Kotler e Fox (1994) observam que as instituições educacionais executam sua comunicação através
de duas vias: propaganda, ou a divulgação paga de idéias, produtos, programas ou serviços, que pode
ser em televisão, jornais, radio, cartazes, catálogos etc; relações públicas, ou conseguir interesses favoráveis
em uma instituição pela difusão de noticias de forma gratuita em mídias de radio, televisão ou outra
fonte de divulgação.
Na perspectiva de Faria (2003), um programa eficiente de comunicação necessita de uma grande
experiência profissional, não devendo ser relegado ao acaso. As publicações das instituições devem ser
revisadas em termos de qualidade, consistência, conteúdo e estilo, devendo sempre que possível ser
utilizados canais de comunicação os mais personalizados possíveis e adaptado as características de
mercado em que a instituição de ensino atua.
Para a finalidade desse trabalho optou-se por comentar apenas os elementos de comunicação
associadas ao esporte de uma instituição educacional. Assim, decidiu-se comentar os fatores associados
à propaganda, patrocínio, boca a boca e imagem da empresa:
• Em relação à propaganda, as instituições de ensino utilizam-se das atividades esportivas para
divulgarem sua imagem diante do seu público consumidor como forma de atrair novos alunos
e promover a venda dos seus serviços. Essa divulgação é escolhida pela imagem vencedora e
de qualidade de vida que o esporte proporciona. É comum encontrar propagandas associando
as escolas ao esporte nas mídias de outdoor, jornal, televisão etc.
• As instituições utilizam-se do instrumento de patrocínio em duas vias: patrocinando eventos e
equipes esportivas e também sendo patrocinadas por instituições diversas. As duas vias objetivam
a divulgação da instituição. Na via em que a instituição é patrocinada também é visada a redução
de custos.
• A forma de divulgação boca a boca é bastante utilizada pelas instituições educacionais, notadamente
pelos alunos, ex-alunos e familiares destes que a divulgam tanto nas questões pedagógicas e
como sobre as estruturas físicas. A participação em eventos esportivos diversos são também
uma importante fonte de divulgação boca a boca.
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• As atividades esportivas são fonte de grande divulgação para as instituições educacionais no
sentido de transmitirem uma imagem de boa formação humana, de equilíbrio, saúde, disciplina
e qualidade de vida, atributos esses buscados pela sociedade dos tempos contemporâneos.
As considerações dos últimos dois itens demonstram o quanto os esportes são importantes para
as instituições de educação concernente a suas estratégias de produto e de promoção. Neste sentido, o
esporte tem a possibilidade de ser um verdadeiro elemento de diferenciação para as escolas, que tem a
possibilidade de se apropriar do grande contributo que as atividades esportivas e físicas podem fornecer
para a construção de um individuo sadio, equilibrado, com boa qualidade de vida.
4 METODOLOGIA
A orientação metodológica deste trabalho foi delineada com o objetivo de consolidá-lo nos
rigores da metodologia científica, tornando-se indispensável a justificativa e a exposição dos caminhos
percorridos na construção deste trabalho. A seguir estão delineados todos os procedimentos relacionados
ao estudo empírico.
O trabalho de campo consistiu em um levantamento do tipo descritivo. Este tipo de estudo se
caracteriza pela intenção de conhecer o universo, suas características, agentes, processos, dentre outros
aspectos, com a pretensão de descrever com a maior exatidão possível os fatos e fenômenos relevantes
(BARROS e SAMARA, 1997).
O universo da pesquisa foi constituído pelas escolas confessionais católicas localizadas no município
de Fortaleza e que possuem coordenação específica de esportes. Por este parâmetro, o universo constou
de nove unidades, das quais procurou-se proceder ao levantamento de dados de forma censitária.
Deste total, somente uma escola não pôde ser abordada.
Definido o universo, a fase seguinte consistiu em levantar os dados primários acerca das orientações
dos esportes junto às unidades do universo definido. Por não existir instrumento consagrado pelo uso
para atender a este propósito, optou-se pela elaboração de um roteiro estruturado (BOYD e WESTFALL,
1982, 146).
A partir do conteúdo das entrevistas realizadas e com base na revisão de literatura, foram
identificadas as variáveis de investigação e definida a estrutura do roteiro de pesquisa. Estas variáveis
foram então divididas em quatro blocos de questões. O primeiro bloco contém as variáveis de identificação
e de segmentação da pesquisa com foco na caracterização das unidades pesquisadas e dos respondentes.
Já o segundo bloco envolve as questões referentes à percepção dos respondentes em relação aos
aspectos gerais de marketing nas suas respectivas organizações. O terceiro bloco contempla as questões
que visam identificar as principais estratégias desenvolvidas em cada organização relacionadas aos esportes
enquanto serviços. O quarto bloco envolve questões relacionadas aos esportes como ferramentas de
promoção de marketing.
Após a consolidação do instrumento de pesquisa, o roteiro definitivo foi aplicado junto aos
componentes do universo. Para a aplicação foi utilizado o método de abordagem direta, com aplicação
realizada pelos autores. Os informantes foram os gestores esportivos das escolas.
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A análise dos dados considerou, portanto, as medidas fornecidas e os cruzamentos com a discussão
das características significativas, sempre procurando confrontar os resultados levantados com o referencial
teórico do estudo.
5 ANÁLISE EMPÍRICA
Este item apresenta a análise dos dados do levantamento empírico realizado no mês de maio de
2004 junto às escolas confessionais católicas atuantes no mercado de Fortaleza, que se enquadravam nos
critérios definidos para o universo de pesquisa. A partir da análise realizada foi possível conhecer
informações sobre os as escolas, seus gestores e ainda sobre as orientações estratégicas de esportes das
escolas pesquisadas.
5.1 DESCRIÇÃO DAS ESCOLAS E DOS RESPONDENTES
A Tabela 1 abaixo apresenta as escolas pesquisadas e os seus respectivos tempos de atuação no
mercado de educação de Fortaleza.
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A tabela permite verificar que todas as escolas pesquisadas têm um longo tempo de atuação,
todas acima de trinta anos de existência, merecendo destaque em relação a este tempo para duas
escolas: o Colégio Marista Cearense, que tem noventa e três anos de existência; e de forma especial o
Colégio Imaculada Conceição que é a escola católica pesquisada com maior tempo de existência, tendo
sido a primeira escola católica a atuar em Fortaleza, com cento e trinta e sete anos de existência.
A Tabela 2 analisa as escolas pesquisadas em relação à capacidade de absorção de alunos e a
quantidade de alunos matriculados, tanto geral como especificamente do esporte (somente o Colégio
Marista Cearense não revelou a quantidade de alunos matriculados no esporte). Foi observado que
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O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas
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todas as escolas têm capacidade ociosa tanto em relação ao seu número de alunos de forma geral
como especificamente nas atividades esportivas.
É importante considerar que todas as escolas pesquisadas têm capacidade para absorverem pelo
menos mil e quatrocentos alunos, com limite máximo para três mil alunos, e em relação ao esporte
podem absorver de trezentos a dois mil alunos, sendo a escola que tem maior capacidade de absorver
alunos para o esporte o Colégio Marista Cearense, que possui o maior complexo esportivo entre as
escolas pesquisadas.
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A relação entre o número de alunos e professores das escolas apresenta-se de onze a vinte e cinco
alunos por professor, o que representa uma diferença bastante significativa. Em relação ao número de
alunos e o total de colaboradores também se verifica uma grande diferença entre as escolas pesquisadas,
com destaque novamente para os Colégios Santa Cecília que tem o maior número de alunos por
colaborador (16) e Marista que tem o menor número (7).
Em relação às informações coletadas sobre os gestores esportivos, é relevante observar que
todos são do sexo masculino o que confirma uma tradição característica do esporte nas escolas, mesmo
as dirigidas por pessoas do sexo feminino. Em relação à idade, percebeu-se que todos os gestores têm
acima de 30 anos, havendo uma predominância na faixa de idade entre 30 e 40 anos, com seis dos
pesquisados, e ainda um gestor com idade entre 40 e 50 anos e um outro com mais e 50 anos.
Já em relação ao tempo de experiência na gestão do esporte escolar, verifica-se que os gestores
em sua maioria (sete no total) têm mais de 15 anos de prática, o que significa serem possuidores de um
considerável tempo de vivência prática no assunto em questão.
Quanto ao grau de instrução, observa-se que a maioria quantidade dos gestores é de especialistas
(seis dos oito pesquisados), o que revela um nível de interesse bastante elevado em formação profissional.
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5.2 OS ELEMENTOS GERAIS DE MARKETING
Neste item são apresentados os resultados de uma série de questões elaboradas aos gestores
sobre os diversos elementos de marketing e sua utilização nas escolas pesquisadas. Inicialmente os
gestores esportivos foram questionados sobre os métodos utilizados na formulação de preços das
diversas modalidades esportivas oferecidas pelas escolas.
Observou-se que a maioria não pratica a adoção de preços com base na aferição de custos e despesas
ou a partir da disposição do cliente em pagar ou não pelos serviços. A grande maioria (cinco dos nove
pesquisados) afirmou que definem seus preços no setor de acordo com os preços praticados no mercado.
Com relação às estratégias de preços utilizadas, os gestores foram convidados a apontar as principais
dentro de um elenco de seis alternativas. Foi apontado que as escolas têm uma preferência pela oferta
de descontos para os alunos, e, secundariamente, pela fixação de preços de sobrevivência. Ainda que
não seja o preço a única variável relevante é possível extrair daí uma das razões pelas quais as escolas
têm, nos esportes uma grande capacidade ociosa.
Com relação às estratégias de distribuição de serviços, observou-se que há uma predominância
das escolas (metade das pesquisadas) não terem uma orientação estratégica definida, ao passo que
duas das escolas se utilizam de planos de expansão através de investimentos nas suas instalações
esportivas e outras duas apontaram o desenvolvimento de programas de aprimoramento de design
nos seus ambientes esportivos.
É possível apontar que as escolas sofrem a falta de orientação estratégica neste quesito. A
verificação de que metade das escolas não tem orientação estratégica definida é bastante para demonstrar
esta falta de deficiência. Também a baixa freqüência de escolas que tem preocupação com o
aprimoramento de programa de design causa perplexidade e é mais uma demonstração de deficiência
estratégica, especialmente em escolas confessionais católicas, que são destacadas por sua beleza e
grandiosidade arquitetônica.
5.3 SOBRE OS SERVIÇOS DE ESPORTE
Para este estudo os autores classificaram os esportes praticados nas escolas em três categorias,
assim descritas: esportes de quadra, esportes de mesa e salão e esportes aquáticos (cf. item 3). Verificouse que todas as escolas pesquisadas possuem, em relação aos esportes de quadras, modalidade de futsal,
basquete e voleibol. Em relação aos esportes de mesa e salão, ocorre uma variação grande entre as
atividades praticadas nas escolas em questão, havendo preferência para xadrez, dama e tênis de mesa. Já
a terceira classificação, que são os esportes aquáticos, observa-se que apenas três escolas das pesquisadas
adotam esses esportes.
Observa-se que as atividades esportivas praticadas com maior incidência nas escolas pesquisadas são
os esportes tradicionais mais praticados pela sociedade brasileira. Observa-se também a falta do futebol
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de campo nas escolas, apesar de este já ser considerado um esporte tradicional no Brasil. É possível supor
que essa atividade não é praticada devido a falta do espaço físico que a modalidade requer.
Quanto aos esportes aquáticos, somente três escolas possibilitam seus alunos a praticarem. Esse
dado revela a falta de estrutura física das escolas e ao alto investimento na construção e manutenção de
uma piscina. Em relação aos esportes de salão, observou-se a pouca incidência do xadrez, que é uma
atividade extremamente relevante para a prática para a interação coma prática pedagógica da escola.
Quanto aos principais fatores determinantes para a oferta destes serviços, observou-se que a
maioria das escolas pesquisadas oferece as atividades solicitadas pelos alunos (7). Já indicações sobre a
influência de algum esporte em ascensão ou a solicitação das famílias obtiveram um índice significativo
de escolas que decidem suas atividades por estas solicitações (5 e 6, respectivamente).
Torna-se ainda relevante destacar que apenas uma escola determina as atividades a serem praticadas
considerando a necessidade de interação com a proposta pedagógica, no que os autores consideram
um erro grave já que as atividades esportivas devem servir como uma ferramenta e grande valor para
prática pedagógica das escolas.
Em relação à contribuição destes para o desempenho estratégico das escolas pesquisadas, verificouse que a maioria dos pesquisados (em um total de 7) afirma que eles possibilitam o alcance dos objetivos
pedagógicos da escola, o que contraria as afirmações descritas em relação aos principais fatores que
determinam a oferta desses serviços. O potencial de melhoria da imagem da escola e o favorecimento
a captação e manutenção de alunos também receberam uma boa indicação em relação ao universo das
escolas pesquisadas (3 e 4, respectivamente).
Os autores consideram relevante observar que a associação dos elementos acima descritos produz
um efeito considerável na contribuição que estes serviços podem prestar as escolas em questão.
Os gestores também foram convidados a informar se a escola mantém serviço de esporte para
clientes além dos alunos matriculados na escola.
Assim, inicialmente estes foram questionados sobre a oferta de serviços de esporte para o público
adulto (professores, funcionários, pais etc) e caso respondessem positivamente quais os objetivos. Somente
um dos respondentes informou que a escola não presta tais serviços. Já em relação aos objetivos que
esses serviços têm nas instituições pesquisadas foi verificado que a maior parte as escolas pesquisadas
(em um total de cinco das sete que responderam) considera que eles aproximam as famílias e funcionários
das escolas, enquanto que apenas duas escolas consideram que os serviços provocam a aproximação da
escola com a comunidade.
Uma segunda questão perguntava se a escola estende o serviço de esportes para a comunidade
externa. Nesta questão todos os respondentes responderam favoravelmente. Em relação aos objetivos
das atividades realizadas nas escolas pesquisadas, a metade considerou que as mesmas têm forte influência
na captação de alunos para as escolas que as utilizam; também metade das pesquisadas considera que as
atividades são instrumento de divulgação da instituição na comunidade. Em relação ao papel social que
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a escola representa apenas três dos respondentes consideraram que ele é relevante. Observa-se nos
dados coletados o pouco conhecimento do poder de penetração que o esporte pode favorecer as
escolas diante da sociedade e assim alavancar as instituições em relação a sua aceitação e escolha por
parte da sua potencial clientela.
Por fim, os gestores foram perguntados se a escola mantém algum serviço de esportes para os
seus ex-alunos. Também nesta questão todos os gestores responderam favoravelmente.
A última questão sobre os esportes enquanto serviços consistia em um conjunto de afirmações
nas quais os gestores eram convidados a expressar seu nível de concordância. Observou-se que apenas
uma escola discorda que o esporte é um dos principais serviços da escola, enquanto que três consideram
que o esporte é um dos principais serviços de uma escola. Em relação a afirmação que os esportes são
criados em consonância com os objetivos estratégicos das escolas, observou-se que somente duas das
escolas pesquisadas consideram que são estratégicos, enquanto que quatro escolas consideram que são
estratégicos mais não em seu grau maior. Nota-se também que nenhuma escola considera as atividades
esportivas como não estratégicas.
A afirmação de que o esporte tem por finalidade somente se constituir em um componente da
Educação Física Escolar foi negado por quatro das escolas pesquisadas, com apenas dois escolas
concordando com a afirmação. Já em relação à qualidade dos serviços esportivos constituindo um
diferencial competitivo da escola observou-se uma igualdade de informações que variam da maior
importância a menor, o que mostra um desconhecimento dos gestores sobre a questão.
Quanto ao esporte ser visto unicamente como uma atividade pedagógica da escola novamente
ocorreu um equilíbrio nas informações colhidas das escolas pesquisadas, ficando dois considerando
que sim e dois considerando que não, enquanto as demais considerando um meio termo.
5.4 SOBRE O USO DO ESPORTE NA PROMOÇÃO DA ESCOLA
Sobre os esportes como ferramentas de comunicação de marketing, inicialmente os gestores
foram inquiridos sobre quais os principais atributos do esporte utilizados pela escola na sua comunicação
com o público. Observou-se que todas as escolas consideram o objetivo de formação humana como
um atributo do esporte, ao passo que metade DOS respondentes considerou que o esporte é um
instrumento de inter-relação pedagógica, e ainda cinco do total consideraram que o esporte é um
promotor de qualidade de vida de seus praticantes e apenas uma considera que o esporte é um formador
de cidadãos vitoriosos.
Observa-se que os pensamentos colocados estão bastante coerentes com as finalidades do
esporte e com sua proposta diante da sociedade que são: favorecer a formação humana e a boa
qualidade de vida, sem deixar de também ser uma ferramenta de grande valor nas inter-relações
pedagógicas das escolas.
Já em relação aos programas de comunicação do esporte, as escolas pesquisadas informaram na
sua totalidade que utilizam a participação e realização de eventos associados ao setor e apenas uma
utiliza as ferramentas de forma estruturadas de marketing.
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Por fim, a última questão sobre os esportes enquanto ferramenta de comunicação consistia em
um conjunto de afirmações nas quais os gestores eram convidados a expressar seu nível de concordância.
Observou-se que apenas duas escolas informaram que as atividades do esporte são componentes
comuns nas suas campanhas de propaganda, enquanto três não utilizam forma alguma o esporte em
suas campanhas de propaganda. Em relação à participação das escolas em eventos esportivos, a maioria
(5) afirma que esse fator é relevante para consolidação da imagem da instituição.
Já em relação ao patrocínio esportivo como uma ferramenta importante na comunicação de sua
imagem, foi apresentado um equilíbrio nas informações coletadas das escolas pesquisadas ficando duas
concordando totalmente e outras duas discordando totalmente. As demais ficaram em um meio termo.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho é oriundo da inquietação dos autores no sentido de compreender
como os esportes são utilizados no processo estratégico de marketing nas organizações escolares
católicas de Fortaleza. Conforme se pôde observar, a explanação procurou ser marcada por
uma orientação descritiva.
O trabalho empírico procurou ser consistente com os objetivos e as hipóteses delineadas para o
trabalho, tendo possibilitado uma melhor compreensão do setor escolar como um todo e dos esportes
escolares, de forma mais específica.
A pergunta de partida do trabalho, que questionava de que forma o esporte é utilizado como
ferramenta estratégica de marketing nas escolas confessionais de Fortaleza, conduziu todo o
desenvolvimento da pesquisa, tendo sido possível uma resposta satisfatória.
O objetivo geral, que era analisar junto às escolas católicas de Fortaleza as atividades de marketing
e serviços de comunicação e promoção associadas aos esportes, foi atingido, sendo observado que as
escolas não apresentaram uma orientação profissional, deixando clara a necessidade de projetos que
contemplem uma orientação de marketing no sentido de utilizar as atividades esportivas como instrumento
para alavancar e sustentar as instituições educacionais.
Em relação ao primeiro objetivo específico que era analisar as estratégias dos serviços de esporte
das escolas pesquisadas, também foi atingido, sendo visto que as escolas não utilizam estratégias definidas
de marketing adequadas para a execução dos seus serviços. Já em relação ao segundo objetivo específico,
que era analisar as estratégias de comunicação associadas ao esporte, também foi atingido, tendo-se
observado que as escolas analisadas não utilizam o potencial dos esportes de forma adequada em suas
ações de comunicação e promoção de marketing. O último objetivo específico consistia em analisar a
contribuição que os esportes trazem para as escolas, também foi atingido, tendo-se aferido que, mesmo
sem ter uma estratégia profissional, eles são utilizados sempre que as instituições estabelecem suas
campanhas, sem na verdade uma verificação com precisão.
Em relação à primeira hipótese, foi confirmado que as atividades esportivas não tem a utilização
na sua verdadeira dimensão, ficando as instituições sem vivenciar as verdadeiras contribuições que o
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esporte pode oferecer para as escolas. Da mesma forma, a segunda hipótese se confirma, visto que as
atividades esportivas não são utilizadas de forma a atingirem todo o seu potencial como ferramenta
para a promoção e consolidação da marca das instituições educacionais.
Os autores consideram que o desenvolvimento de outros trabalhos de pesquisa faz-se necessário
para a melhor compreensão tanto do campo do marketing esportivo como para o próprio setor
escolar. Seguem algumas recomendações de possíveis trabalhos a serem realizados.
O modelo de análise aqui utilizado ficou restrito às escolas confessionais católicas. A adequação
como referencial explicativo deste modelo no universo estudado não é bastante, por outro lado, para
entendimento de escolas de outras orientações, como as leigas e as comunitárias. Deste modo, seria
relevante que este trabalho fosse ampliado para estas escolas.
Também a relação entre as variáveis do composto de marketing nas escolas e a aplicação aos
esportes constituiria um relevante trabalho tanto para o marketing educacional como esportivo.
Apesar das limitações deste trabalho, acredita-se que as informações constantes neste estudo poderão
servir de apoio para adoção de decisões estratégias melhor adaptadas à realidade do setor.
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Poder Gerencial e Criatividade
no Trabalho
Ana Telma Sobreira Monte1
José Varela Donato2
RESUMO: Este artigo tem por objetivo analisar
ABSTRACT: This article has the objective to analyze
como o poder gerencial interfere sobre a criatividade
as the managerial power interferes over the employees'
dos funcionários, através de um estudo de caso em
creativity, through a case study in a state organization.
uma organização estatal. O estudo buscou identificar
The study tried to identify the meaning and the forms
o significado e as formas pelas quais o poder se
through which the power shows in the researched
manifesta na organização pesquisada e, em seguida,
organization and, later, which are the consequences
quais as conseqüências do poder gerencial no uso
of the managerial power in the use of the creativity by
da criatividade pelas pessoas. Conclui-se que há
the people. The study concluded that there is a
uma predominância do poder baseado nas
predominance of the power based on the responsibilities
responsabilidades do cargo e na hierarquia, o qual
of the functions and the hierarchy. These power form
bloqueia a criatividade das pessoas e, em
blocks the people's creativity and, in consequence, the
conseqüência, as possibilidades de inovação e
possibilities of innovation and organizational and
desenvolvimento organizacional e pessoal.
personal development.
Palavras-chaves: Poder;
Criatividade; Liderança;
Inovação.
Key-words: Power;
Criativity; Leadership;
Innovation.
1 INTRODUÇÃO
A cultura organizacional, as competências das pessoas, a criatividade e a inovação são ingredientes
mais importantes para os resultados organizacionais que as fontes tradicionais de êxito (DRUCKER,
1986; PFEFFER, 1994).
Para que as empresas aproveitem o potencial criativo, é necessário uma cultura em que a imaginação
seja estimulada, os erros se tornem fonte de aprendizado, o trabalho seja compartilhado, as pessoas
tenham autonomia, os objetivos sejam negociados e o poder nas relações seja uma unidade de troca,
num clima de confiança e abertura para novas experiências.
Especialista em Recursos Humanos pela UECE.
Gerente da Caixa Econômica Federal
2
Mestre em Administração (Organizações e Gestão) pela UFSC
Consultor em Controladoria do Banco do Nordeste do Brasil
1
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005
79
Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato
Os líderes assumem um papel fundamental na criação de oportunidades para expressão do
talento e imaginação aplicados no desenvolvimento de produtos e serviços inovadores. Entretanto,
percebe-se imenso desperdício do potencial das pessoas, que, ao serem tratadas apenas como recursos,
perdem sua própria identidade, não encontram significado no trabalho e se desvinculam do sentirpensar-fazer.
Este artigo mostra o resultado de uma pesquisa em uma organização governamental (MONTE,
1998), realizada em 1998, com o objetivo de verificar as conseqüências do poder gerencial na
criatividade dos empregados. A importância desse estudo está na investigação deste paradoxo: um
mundo que exige criatividade e inovação e, de outro lado, uma cultura organizacional calcada no
controle e na predominância da autoridade formal.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nesta seção, explicitam-se os fundamentos teóricos pertinentes às duas categorias de análise da
pesquisa: o poder gerencial e a criatividade no trabalho.
O Poder. Estudiosos comparam as organizações com sistemas políticos, que funcionam através
do uso do poder (MORGAN, 1986, p. 281; PAGÈS, 1993, p. 208; FOUCAULT, 1995, p. 183). Essa
perspectiva se fundamenta nas seguintes premissas: organizações são coalizões compostas de indivíduos
e grupos de interesse variados; há diferenças contínuas entre indivíduos e grupos em seus valores,
preferências, crenças, informação e percepção da realidade; a maioria das importantes decisões nas
organizações envolvem a alocação de recursos; em virtude dos recursos escassos e diferenças contínuas,
o conflito é central à dinâmica organizacional, e o poder, o mais importante recurso; as metas e decisões
organizacionais emergem da barganha, negociação e manobras por posições entre membros de coalizões
diferentes (BOLMAN e DEAL, 1991, p. 186).
A utilização do poder torna-se necessária sempre que surge um conflito quando se tem em mira
a satisfação de um objetivo ou interesse. Daí, entende-se que o poder consiste em um meio – um
recurso, uma capacidade, uma força, uma energia – para atingir determinados fins (PFEFFER, 1994, p.
33; BENNIS e NANUS, 1988, p. 13).
Para Pfeffer (1994, p. 33), o poder é definido como a "capacidade para influenciar o
comportamento, para mudar o curso dos eventos, para vencer resistências e para induzir as pessoas a
fazer coisas que elas não fariam de outro modo".
O poder se expressa em formas, intensidade e freqüência ricas e variadas, em decorrência de
fatores individuais e organizacionais, e emana de fontes estruturais e pessoais inter-relacionadas (PFEFFER,
1994, p. 58).
O poder se exerce em rede pela organização, nas relações de produção, na ordenação do espaço,
na produção e distribuição do saber, nas engrenagens e regras da organização e no inconsciente de seus
empregados, que lançam mão e sofrem as conseqüências do poder (PAGÈS, 1993, p. 208; FOUCAULT,
1995, p. 183).
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Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho
O poder gerencial compreende a capacidade de mobilização das pessoas para alcançar os resultados
através das pessoas (BRYSON e CROSBY, 1992, p. 2). Ao exercer esse papel com eficácia, os gerentes
se tornam importante centro de irradiação de poder.
A força criativa. Há tantas definições de criatividade quanto autores que tratam do assunto. De
uma maneira geral, a criatividade se expressa pela busca de soluções novas, propensão a pensar diferente,
brincar com idéias, ver sob novas perspectivas, manipulando conhecimento e experiência
(BENVENUTTI, 1996; OECH, 1988; ALENCAR, 1996).
A criatividade floresce quando a pessoa desperta sua curiosidade, acredita no seu potencial inventivo,
afasta julgamentos negativos, aguça sua capacidade de observar, questionar profundamente, escutar e
prestar atenção.
Alencar (1996, p. 3) afirma ser a criatividade "um fenômeno complexo e multifacetado que
envolve uma interação dinâmica entre elementos relativos à pessoa, como características de personalidade
e habilidades de pensamento, e ao ambiente, como o clima psicológico, os valores e normas da cultura
e as oportunidades para expressão de novas idéias".
No plano organizacional, a criatividade consiste no ingrediente básico para a inovação e
competitividade. No plano individual, o uso da criatividade dá forças às pessoas para enfrentarem
problemas que as rodeiam hoje, como: infelicidade, pela incapacidade de tomar decisões; ansiedade,
proveniente do vazio e da solidão, falta de propósito, perda da própria identidade; falta de autonomia,
por não ter uma experiência definida de seus próprios desejos e necessidades (MAY, 1990, p. 22).
Argyris (1957, p. 79), numa reflexão sobre o conflito entre o sistema e o indivíduo, afirma que se
os princípios da organização formal, assentados na estrutura formal, liderança autoritária e controles
administrativos forem usados como idealmente definidos, as pessoas disporão de controle mínimo
sobre seu mundo de trabalho, serão passivas, dependentes e submissas, terão limitada perspectiva
temporal, serão induzidas a aperfeiçoar e valorizar o uso freqüente de poucas aptidões superficiais
deverão produzir sob condições que levem ao malogro psicológico.
Bennis e Nanus (1988, p. 6) realizaram pesquisa e concluem que grandes desperdícios nas
organizações repousam na ausência de comprometimento dos empregados. Por isso, defendem que os
líderes devem organizar ao invés de controlar, administrar a expressão ao invés da repressão, conceder
poder, dar significado ao trabalho, reforçar a competência, passar um sentimento de propósito comum
e importância no contexto da comunidade e pôr de lado toda a ameaça ou formas de punição.
Donato (2001, p. 44-46), em pesquisa realizada em uma organização bancária estatal, constata que
a predominância do poder baseado na "autoridade formal" gera centralização das decisões, um
comportamento conservador, avesso ao risco e erros, os quais inibem a criatividade dos funcionários
e a inovação.
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Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato
3 METODOLOGIA
A pesquisa utilizou o método do estudo de caso, utilizando-se de procedimentos qualitativos e
quantitativos. Basicamente, identificaram-se as formas de poder utilizadas na Caixa Econômica Federal,
em Fortaleza, Estado do Ceará, e avaliou-se como elas interferem na criatividade dos funcionários.
A população pesquisada compreendeu o conjunto dos funcionários que trabalham em agências,
na área negocial, dividido em 2 grupos: gerentes e não gerentes.
Para coleta das informações, lançou-se mão de questionário com perguntas fechadas e abertas,
seguido de entrevistas para aprofundar alguns pontos explicitados nas respostas ao questionário. Do
total de 50 questionários enviados, foram recebidos 35 questionários (70%) 14 de gerentes e 21 de nãogerentes. Após a aplicação do questionário, foram realizadas três entrevistas com os gerentes e cinco
com os não-gerentes.
4 PODER GERENCIAL, CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
Esta seção revela as fontes e manifestações de poder gerencial na Caixa Econômica Federal e
como elas interferem na criatividade e inovação dos funcionários.
4.1 FONTES DE PODER GERENCIAL X CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
Poder predominante. A "autoridade formal" considera-se o poder predominante; alguns ainda
percebem o poder de controlar recursos escassos e o poder de conhecimento e acesso às informações.
Para os não-gerentes, as reações ao poder da autoridade formal tendem para a frustração, a
obediência, o respeito, o distanciamento, o lamento e o fazer cumprir a hierarquia; um disse observar e
depois aguardar uma oportunidade para um enfrentamento. Fica bastante evidenciada, nos depoimentos
desse subgrupo, a existência de dois grupos na empresa: os que pensam e os que fazem.
As pessoas vêem no comportamento dos outros a intenção de agradar a gerência, medo, críticas
às escondidas que geram dependência, falta de compromisso, desânimo, mas também tranqüilidade e
passividade quando alguém aponta o norte. Com o passar do tempo, as pessoas ficam restritas às suas
tarefas e não se interessam pela vida organizacional. Desaprendem a pensar, criticar e criar pelo desgaste
de expressar-se diante da "autoridade formal". O sentimento das pessoas se expressa na percepção de
que "há duas classes, uma superior e uma inferior", "manda quem pode, obedece quem tem juízo", "me
sinto uma aluna do 1º primário" e "muitas vezes, a gente pensa que está brincando de faz-de-conta".
Já os gerentes que dizem reagir geralmente o fazem das seguintes formas: sentem tolhimento e
impotência, obedecem e mostram compromisso e responsabilidade; enfrentam e buscam argumentar
com fatos e dados; procuram estabelecer um canal informal de comunicação, buscando um
relacionamento mais conciliador e participativo.
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Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho
Quanto ao comportamento dos outros, percebem reações do tipo obediência, descompromisso,
desinteresse, "enrolação", desestímulo, simplesmente cumprindo seu horário de trabalho.
Na presença, subjugam-se, concordam, obedecem e precisam da pressão contínua para
'responder'. Por trás, sentem-se ameaçadas, pressionadas e criticam...
Os gerentes que apontaram como fonte de poder predominante o controle de recursos escassos
ficam admirados e felizes quando se deparam com um gerente que utiliza essa fonte de poder e
acreditam que os outros nem sempre aceitam bem esse poder, confundindo-o com o poder autoritário
e explorador.
Poder e criatividade. As mudanças mais significativas precisam do aval do gerente para ser
implantadas. Alguns entrevistados afirmam que são apenas "comunicados" e solicitados à colaboração
para viabilizar o que já está decidido, pois a visão estratégica é dos gerentes que, inclusive, ressaltam que
são pagos para isto. Já na visão do gerente, a participação do empregado é sempre bem-vinda, o canal
está sempre aberto e não percebem quanto o poder de posição está impedindo ou dificultando o
surgimento de novas idéias por parte dos empregados.
Para a maioria dos funcionários, há uma relação direta entre a fonte de poder e a criatividade e
freqüência com que a utilizam.
Os não-gerentes informam que a liberdade e participação dão "condições para a pessoa expressar
sua criatividade", e "um chefe do tipo 'eu quero que você faça' não nos deixa muita margem para
sermos nós mesmos." Mesmo os que dizem não ver uma relação direta entre a fonte de poder gerencial
e sua criatividade acham que existe uma interferência da fonte de poder com seu grau de
comprometimento com a Caixa e até com sua autoconfiança, e uma pessoa diz que procura passar por
cima das "castrações".
Quanto aos gerentes, sentem-se mais criativos ou não, dependendo da fonte de poder que seus
superiores utilizam.
De onde vêm as idéias. Para os não-gerentes, as fontes de transformação partem principalmente
da alta administração; mas também provêm de empregados e de clientes, fornecedores, mercado etc.
Dentro da própria unidade, todos foram unânimes em afirmar que normalmente as idéias surgem da
alta administração ou da gerência.
Já na percepção dos gerentes as transformações significativas na Caixa hoje emanam mais dos
funcionários e da própria participação de cada um do que dos gerentes e da alta administração.
4.2 POSTURA GERENCIAL X CRIATIVIDADE, INOVAÇÃO E SATISFAÇÃO
Neste ponto, a pesquisa preocupou-se em verificar até que ponto as pessoas percebem o papel
do gerente em promover um ambiente de trabalho em que as pessoas realizem tarefas criativas da
melhor forma possível, criando oportunidades, apoiando aprendizado a partir dos erros, dando
abertura para aprender e investigar, permitindo o questionamento, delegando e confiando nas pessoas.
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Estilo. Para os não-gerentes, o estilo gerencial na Caixa lentamente dá sinais de mudança; mas
ainda apresenta uma postura tradicional de excessivo controle, ênfase na maneira e resposta corretas,
na busca do culpado pelos erros e, na maior parte do tempo, na resolução de problemas. Uns até
brincam questionando "o que seriam dos gerentes se não fossem os problemas"?
Se fôssemos fazer uma comparação entre as gerências há nove anos (quando assumi
na Caixa) e hoje, podemos dizer que houve uma grande 'humanização', mas ainda
penso que, apesar de o discurso ter alto teor democrático, a prática ainda difere e dista
muito da teoria.
Os gerentes percebem que algumas lideranças já começam a absorver uma postura gerencial de
vanguarda, mas reconhecem tratar-se de um processo incipiente.
Reações a novas idéias. As reações mais comuns às novas idéias estão ligadas a sua adequação
às normas. Nos níveis inferiores, idéias contrárias às normas enfrentam uma "batalha". Já os gerentes
são mais ouvidos.
Para os não-gerentes, as pessoas continuam presas às rotinas. "Vamos pensar mais sobre isto" e
"será que a norma permite" foram as citações mais apontadas. Alguns afirmam que "as coisas chegam
prontas"; outros, que "a rotina é mais fácil". Alguns ainda reconhecem que, se a idéia for boa, é aproveitada.
Fica claro nas respostas que vai depender do estilo de cada liderança.
Existe a postura de ouvir e receber, mas há resistências de aplicação prática de idéias de
ordem estrutural ou de contexto.
Para os gerentes, a reação mais comum é "vamos pensar mais sobre isto". Em seguida, "será que
a norma permite"; e "dão a atenção necessária e procuram colocar em prática".
A norma significa o primeiro obstáculo a ser transposto, o critério básico para aferir a viabilidade
de uma idéia. Mas dá segurança e respaldo às decisões. Questioná-la sempre será uma atitude solitária,
a princípio, pois vai de encontro a hábitos arraigados.
Autonomia sobre a atividade. As pessoas manifestam que já possuem relativo grau de autonomia
sobre a criatividade na Caixa. Pouco mais da metade dos não-gerentes informaram que, às vezes, têm
autonomia e tomam as decisões necessárias; ressalvam, porém, que isto significa muito pouco no
contexto, por ser um campo de atuação estritamente operacional.
Somos regidos por normas e também temos que respeitar aquilo que a agência determina como meta. Mas, em muitas situações, somos obrigados a improvisar.
O restante assegurou ter autonomia sobre as atividades que desenvolve e buscar a cada dia a
competência no fazer e consultar a gerência quando necessário. Geralmente, são pessoas que respeitam
e obedecem ao poder da autoridade formal.
Já a grande maioria dos gerentes (79%) percebe-se com autonomia sobre sua atividade. Entretanto,
uma parte salientou que os gerentes "não aprenderam a ouvir".
84
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005
Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho
Quando se utiliza a criatividade. Os não-gerentes, em sua maioria, informaram que raramente
utilizam sua criatividade na Caixa. Acreditam alguns que "as boas idéias vêm sempre de cima". Outros
dizem que utilizam sua criatividade ocasionalmente e não atribuem este fato ao poder gerencial, mas ao
corre-corre do dia-a-dia, à própria dinâmica da empresa, e à divisão do trabalho, que "cegam",
"bloqueiam" e não "oferecem oportunidades de experimentar outras áreas" que, na percepção de
alguns, ampliam a visão sistêmica, clarificam o ato de correlacionar as partes e ensejam o surgimento de
idéias eficazes. Por isso, as pessoas são valorizadas pela sua habilidade de se encaixarem e contribuírem
para o fim desejado da organização. Uma pequena parte afirmou que freqüentemente utiliza sua
criatividade na Caixa, mediante sugestões e críticas.
Quando as pessoas não são ouvidas, as reações são as seguintes: revoltam-se e permanecem na
mágoa e no ressentimento, outras aguardam as oportunidades aparecerem e outras (uma minoria) vão
buscar espaço junto às gerências.
Para a maioria dos gerentes (80%), freqüentemente estão inovando, principalmente na unidade
onde trabalham. Fora do ambiente de trabalho, já é mais difícil, pois, segundo o argumento de um
gerente, "não existe na Caixa a cultura de aproveitamento de idéias". Os demais informaram que
apenas ocasionalmente são criativos, devido à sobrecarga de atividades.
Quando se inova no trabalho. Existem dificuldades de propor inovações, pela imposição da
rotina ou pela postura gerencial. A condição para inovar é, na visão de May (1982, p. 79), que o
indivíduo esteja conectado com o seu ser, com o seu fazer e que se coloque como veículo de sua visão
de mundo. O estar conectado com o seu ser e com o seu fazer é uma postura muito ligada ao esforço
e busca de cada um.
A maioria do subgrupo sem função gerencial diz inovar raramente, o que os torna menos autoconfiantes, vistos e valorizados. A inovação é mais presente no subgrupo gerencial. Dessa forma, é
verdadeira a hipótese de que pessoas que não têm espaço para ser criativas se omitem da construção da
realidade organizacional e se tornam "coisas" para a organização.
Os obstáculos apresentados para a inovação são os seguintes: acomodação e sentimento de
incapacidade para a criação; vigilância da gerência, que não tem cultura de ouvir, centraliza e discrimina
pessoas ousadas; a estrutura de atividade, que condiciona à homogeneidade, estimula a padronização
das decisões e suprime o questionamento.
As pessoas afirmaram também que, quanto mais participam das mudanças, são ouvidas e
valorizadas, mais costumam inovar e se tornam profissionais mais auto-confiantes e requisitados também.
A maioria dos que ocupam função gerencial (80%) diz inovar freqüentemente, desde alteração no
ambiente de trabalho, até as atividades que atingem diretamente a melhoria no atendimento dos clientes.
Os demais dizem sobrar pouquíssimo tempo para inovar devido à sobrecarga de atribuições com
poucos resultados práticos.
O dia-a-dia de um gerente é dedicado à resolução de problemas, controles operacionais
e atendimento a demandas, a superiores. Pouco tempo é dedicado ao planejamento e
ao exercício da criatividade.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005
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Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato
Entre todos os pesquisados, 93% afirmam que a periodicidade com que costumam inovar
interfere no seu perfil como profissional, pois tendem a destacar-se mais e a receber trabalhos mais
desafiadores também.
Nível de comprometimento x utilização da criatividade. O comprometimento do subgrupo
sem função gerencial com a Caixa tem uma correlação direta com a utilização de seu potencial
criativo que, por sua vez, tem a ver com a fonte de poder utilizada pela gerência. O comprometimento
gera o desejo de realizar, que gera o pensamento criativo. Dessa forma, o poder da autoridade
formal, ao afastar o indivíduo do envolvimento com o todo, deixando-lhe apenas a opção de
obediência e respeito, afasta-o do ato criativo. Assim, o comprometimento do empregado é
influenciado pela fonte de poder utilizada pelo gerente. Para Pfeffer (1994, p. 278), "as pessoas são
persuadidas pela razão, mas movidas pela emoção […] compartilhar uma linguagem com outras
pessoas proporciona a mais sutil e poderosa de todas as ferramentas […] a eficácia de um líder
repousa na sua capacidade de fazer a atividade significativa para os outros […] dar aos outros um
sentido de compreender o que eles estão fazendo".
A ação gerencial é uma das "portas" que possibilita o comprometimento e a criatividade. Para
95% dos não-gerentes, quando estão mais comprometidas, são mais criativas e enfatizam o
reconhecimento e a valorização do gerente como estímulo ao comprometimento, que, por sua vez,
ativa o interesse, o envolvimento e criatividade (uma reação em cadeia). O investimento de tempo e
energia só acontecem quando existe comprometimento e paixão pelo que estão fazendo, juntamente
com a crença de que seu esforço na organização vai fazer a diferença no resultado. As pessoas enfatizam
que o comprometimento as deixa atentas às necessidades e objetivos da organização.
... quando sou solicitada, valorizada, mostro que sou capaz.
O agir com consciência de gado, obedecendo a ordens não significa comprometimento.
O comprometimento existe quando acreditamos nos resultados das nossas ações e
usamos nossa criatividade para influir nos processos da empresa.
Quanto aos gerentes, a maioria (57%) afirma que existe uma relação entre seu nível de
comprometimento, que gera o desejo de realizar, e a utilização de sua criatividade. Os demais gerentes
expressaram que seu grau de comprometimento independe da freqüência com que são criativos, pois
colocam o "profissionalismo acima do pensamento da administração individual da gerência".
Não só meu comprometimento para com a Caixa! Mas para comigo mesma. Não me
colocar para agregar gera em mim uma sensação de mediocridade, omissão...
Satisfação com o trabalho x criatividade. A natureza do trabalho realizado pode repercutir
muito na sua criatividade e desempenho das pessoas. De um modo geral, os funcionários da Caixa
gostam do que fazem.
A grande maioria do subgrupo sem função gerencial da amostra pesquisada expressou que não
utiliza sua criatividade na Caixa. Esta constatação tem origem na crença de que as idéias dos menos
graduados têm menor importância e nas experiências passadas e castrações já sofridas. Os que
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Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho
conseguem ser criativos ocasionalmente acreditam que a "batalha e mesmice do dia-a-dia" bloqueiam
o pensamento criativo.
Os empregados perdem as oportunidades de crescimento pessoal, e a Caixa perde contribuições
criativas e inteligentes. A pesquisa mostra que pessoas que fazem aquilo de que gostam se sentem mais
criativas, valorizadas e comprometidas com a empresa, colocando seu potencial à disposição, existindo
uma relação entre a satisfação da pessoa com o que ela faz e sua criatividade.
Grande parte dos não-gerentes (85%) apreciam o seu trabalho, porém dizem que há outras coisas
que gostariam de fazer na empresa e nas quais seriam mais criativas, pois seriam mais desafiadas no seu
crescimento profissional. Percebem que, para os gerentes, há maior permissão e liberdade para criar.
...quando trabalhamos com motivação, principalmente quando gostamos do que fazemos, liberamos bem mais o lado criativo.
Gostar do que se faz, estar ligado 24 horas e feliz com a atividade exercida faz a diferença.
De igual modo, os gerentes pesquisados estão satisfeitos com o trabalho que realizam na
Caixa, mas existem outras coisas que gostariam de fazer, embora 80% afirmem que utilizam seu
potencial criativo, freqüentemente ou ocasionalmente, inovando e tomando as decisões que são
necessárias no dia-a-dia; ocasionalmente, deparam-se com algumas coisas sobre as quais não têm
autonomia para decidir. Os demais dizem que gostam de sua atividade e do ambiente de trabalho,
que, desafiadores, lhes permitem colocar "a criatividade e o potencial à disposição" e fazer com
que "os resultados aconteçam".
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QU
ADRO 1 - RESPOST
AS A
O QUESTIONÁRIO D
A PESQUISA 1
QUADRO
RESPOSTAS
AO
DA
0
,
0
1 Estão registradas na tabela apenas as alternativas assinaladas pelos respondentes.
2 NGE (não-gerentes); GE (Gerentes).
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Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho
5 CONCLUSÕES
A convivência das pessoas na realidade organizacional é cheia de sutilezas. Existe uma diferença
entre a realidade que se apresenta, global e rica, e o que somos capazes de apreender dela. Para Morgan
(1986, p. 347), "só é possível conhecer as organizações através de conhecimento e experiência e assim
compartilhar conclusões, mas nunca é possível ter a certeza de que se está absolutamente correto".
As conclusões fundamentadas nos dados da pesquisa e no referencial teórico estudado não devem
ser generalizadas, pois representam uma fotografia de um determinado instante e com determinados
atores, que estão em processo de mudança.
A mais clara fonte de poder na Caixa é, neste momento, o poder da "autoridade formal",
legitimado pela estrutura da empresa, o qual cria e delimita um campo de influência. Enquanto
poder determinante dentro de uma estrutura mecanicista, reduz muitos funcionários a autômatos,
cumpridores de normas e com um campo de atuação e autonomia restrito à sua atividade, os quais
tendem a sentir-se instrumentos na consecução dos objetivos e propósitos da empresa. Dessa forma,
são valorizados pela sua capacidade de contribuir com o resultado final da organização. Isto já faz
parte da cultura da Caixa.
A pesquisa indica que a fonte de poder utilizada pela gerência imediata determina o grau de
permissividade para que o funcionário possa utilizar sua criatividade. Neste enfoque, a hipótese de que
o gerente é co-responsável pelo surgimento de equipes e pessoas criativas é verdadeira.
Os gerentes que utilizam como fonte de poder predominante a "autoridade formal" têm
subordinados que demonstram muito pouco sua criatividade. O poder da "autoridade formal", quando
não proporciona ambiente de negociação e expressão das pessoas, dificulta ou mesmo impossibilita o
surgimento da criatividade nos funcionários em favor da empresa.
A falta de envolvimento e a apatia do empregado advêm, em boa parte, da inexistência de
oportunidade, reconhecimento e valorização da energia que tem, por parte da gerência superior,
principalmente quando esta se utiliza do poder da "autoridade formal". Desta situação pode resultar:
falta de interesse; apatia e alheamento do espaço organizacional; frustração e o conflito nas suas experiências;
sensação de vazio, pela convicção pessoal de incapacidade para dirigir a própria vida (ARGYRIS, 1957,
p. 102; MAY, 1990, p. 22).
Afirmou-se, numa das hipóteses deste trabalho, que os indivíduos que têm espaço para expressão
de suas idéias e crenças junto ao gerente e equipe e apoio na sua implementação são motivados e
comprometidos com o resultado organizacional. A pesquisa demonstra que isto só é verdadeiro
quando o indivíduo gosta do que faz. Na opinião de May (1990, cap. 3), amar verdadeiramente o que
se está fazendo a cada momento e encontrando, cada qual, o seu modo próprio de ser, é um segredo
para trazer a criatividade para os negócios e para a vida.
A hipótese de que a tarefa repetitiva dispensa a criatividade e torna o indivíduo inflexível às
mudanças não foi comprovada nesta pesquisa. Na verdade, ao dispensar a criatividade, verificamos
que a tarefa repetitiva deixa o empregado com dificuldades de pensar sobre o todo da realidade
organizacional, o que pode vir a dificultar sua ação na implementação das mudanças.
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Nesta pesquisa, verificou-se que o poder gerencial limita ou incentiva: a criatividade, o
comprometimento, a descoberta de novos horizontes, a visão e o significado da ação do indivíduo na
realidade organizacional. Uma entrevistada afirmou que "é papel do gerente liderar, educar, ser um
agente de mudanças, integrar, motivar, interpretar tendências, enriquecer espiritualmente a equipe".
Dessa forma, infere-se que, no tocante à relação com o poder, ambos, gerentes e gerenciados,
são remetidos à forma como lidaram com o poder em suas relações anteriores. Uns esperam muito do
gerente, como esperaram dos pais, dos professores e de todas as figuras de poder da sua história.
Outros negociam com seus gerentes, da mesma forma que aprenderam a negociar com suas figuras
parentais. Outros ainda se revoltam por não conseguir ser ouvidos. Muitos tendem para a obediência,
negando suas vontades pessoais, ou para viver numa situação de conflito, o que gera uma relação
cheia de desgaste e desânimo; ou ainda para uma relação madura e respeitosa de negociação, que
traz significado e produtividade.
Nos relatos sobre a dinâmica organizacional, verificou-se entre os gerentes que as variáveis humanas,
como motivação, conflito e personalidade são variáveis "não lógicas" ou limitantes à racionalidade e ao
controle, exigindo assim, mais habilidade do gestor para lidar com essa complexa realidade na empresa.
Fica evidenciado que gerentes e gerenciados fazem parte de dois mundos bem distintos,
caracterizados pelos que têm o poder ratificado pela estrutura formal da empresa e os que não o têm.
Mundos cheios de signos, significados e fantasias que vão escrevendo a realidade de cada um.
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de. A gerência
da criatividade. São Paulo: Makron Books, 1996.
ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de. Criatividade.
Brasília: UnB, 1995.
ARGYRIS, Chris. Personalidade e organização. Rio de
Janeiro: Renes, 1957.
BENNIS, Warren; NANUS, Burt. Líderes:
estratégias para assumir a verdadeira liderança. São
Paulo: Herbra Ltda, 1988.
BENVENUTTI, J. C. Criatividade e potencial:
fazendo cócegas no cérebro. São Paulo: Commit,
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Gestão em Tempos de Complexidade:
Reflexões Acerca da Construção de
um Novo Olhar Sobre
as Organizações.
Renata Guimarães de Carvalho*
RESUMO: Este artigo trata do atual contexto de
CT:: This article tries the present context of
ABSTRACT
CT
ABSTRA
gestão das organizações e sua inserção em um
management of the organizations and his insertion
ambiente marcado pela complexidade. Para tanto,
in an environment marked by the complexity. For so
discute os pressupostos teóricos de autores como
much, it discusses the theoretical budgets of authors
BOHM e CAPRA que trazem contribuições para a
as BOHM and CAPRA that bring contributions for
formação de um novo paradigma científico, alinhado
the formation of a new one paradigma scientific,
ao pensamento complexo. E, ainda, seu processo de
aligned to the complex thought. And, still, his trial of
articulação às organizações e à prática de trabalho
articulation to the organizations and to the practical
das pessoas que a compõem, especialmente gestores.
one of work of the persons that it compose, specially
Nesse sentido, destaca-se a contribuição de
gestores. In that sense, detaches-itself the contribution
MORGAN e a perspectiva de construção de metáforas
of MORGAN and the metaphors construction
organizacionais como forma de efetivar a construção
perspective organizacionais as form of efetivar the
de um novo olhar sobre as organizações.
construction of a news look about the organizations.
Palavras-chave:
Gestão Complexidade
Análise Organizacional.
K ey
ey--Words: Analysis
Complexity Management
Organizacional.
* Mestra em Administração, psicóloga, professora da Faculdade Integrada do Ceará - FIC.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
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Renata Guimarães de Carvalho
1 INTRODUÇÃO
Observa-se na atualidade a existência de um discurso voltado para o reconhecimento da
complexidade e para a necessidade de implantação de práticas de gestão mais adaptadas a essa realidade.
A disseminação de idéias na administração que apontam para a constituição de empresas dinâmicas,
ágeis em suas decisões e ações, que busquem construir conhecimento e inovação, reforça a percepção
de que a sobrevivência das organizações está relacionada à sua capacidade de interagir com o fluxo de
mudanças no mundo dos negócios.
Uma nova forma de significar o mundo e de perceber as organizações, pautada em pressupostos
que resgatam o caráter sistêmico dos fenômenos, sua diversidade e complementaridade, desponta
como aliada do processo de transformação das empresas em espaços complexos e interligados. Pensar
a construção de modelos para pessoas e organizações que sirvam como referência de uma nova práxis
de gestão, atenta à configuração ambiental atual e suas contradições, é uma dos grandes desafios do
pensamento administrativo contemporâneo. Contribuindo com essa discussão sobre novas estruturas
organizacionais e modelos de gestão, a reflexão sobre como as pessoas que trabalham nas empresas e,
especialmente, os gestores percebem e experienciam estas transformações, é também de fundamental
importância.
Portindo desse contexto, quantos gestores de empresas reconheceriam no pensamento abaixo
extraído do livro Tao Te Ching, que fala da relação dinâmica de padrões opostos, e, portanto de
complexidade, um conhecimento importante em sua formação? Quantos extrairiam dele princípios de
gerenciamento para suas empresas?
Se você quiser conter uma coisa,
deve permitir que se expanda.
Se quiser enfraquecer uma coisa,
Deve permitir que cresça forte.
Se você quiser eliminar uma coisa,
Deve permitir que ela floresça.
Se quiser tomar algo para si,
Deve garantir que o mereça.
Isto é chamado sutil iluminação.
A estranheza que causa esse tipo de indagação indica que trilhamos caminhos de transição e,
portanto, de confluência de formas de pensar oriundas de modelos mentais mecanicistas e complexos
que se encontram e misturam no espaço das organizações.
O intuito do presente artigo é buscar referências desse novo paradigma, esboçar reflexões sobre
suas possibilidades de articulação ao âmbito dos processos de gestão e principalmente na criação de
um novo olhar sobre as organizações tendo em vista a prevalência de um discurso sobre a complexidade.
94
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
Para tanto, serão abordados elementos teóricos pautados em autores como Capra (1996, 1983, 1982),
Bohm (1980) e Morin (1998) que têm por tema a construção de um pensamento alinhado com o
paradigma da complexidade; autores como Morgan (1992), Bauer (1992), Cunha (2000), Shelton (1997)
que pensam nessa integração de modelos no âmbito administrativo. E, ainda, elementos de investigação
empírica de como essa realidade é vivenciada por gestores de empresas (CARVALHO, 2001).
2 NOVAS REFERÊNCIAS NA CIÊNCIA: O UNIVERSO INTEGRADO
EM REDE.
Desde o período do Renascimento e do surgimento da ciência como campo de saber diferenciado
da filosofia e da teologia, os estudos voltados para a investigação de objetos do mundo ‘natural’ têm
servido como base segura na construção de conhecimento. Ao longo dos séculos XVI até o XVIII o
avanço metodológico na investigação do mundo natural criou um ambiente propício para o surgimento
de um paradigma científico diferenciado dos anteriores. Nomes como Galileu e Newton, através de
seus estudos, organizaram pressupostos que descortinaram uma compreensão científica acerca do homem
e do mundo.
Esse paradigma científico, em contraposição às referências teológicas da Idade Média, carregou a
herança de tradições filosóficas, como o racionalismo, apoiado pelo método analítico proposto por
Descartes, e o empirismo indutivo de Bacon. Pressupôs a linearidade dos fenômenos, o funcionamento
do mundo como uma máquina movida através de reações de causa e efeito. Centrou a busca objetiva
e mensurada da essência, da substância das coisas, contemplando assim uma visão reducionista dos
objetos de estudo. Nessa perspectiva, o rigor na aplicação do método científico apontaria o caminho
de apreensão da natureza e dos fenômenos humanos, o desvendamento dos seus segredos e a elaboração
de suas leis de funcionamento.
Bohm (1980) indica que este caminho levou a ciência moderna para o trabalho de especialização
dos objetos de estudo, a busca por princípios últimos, a análise e separação dos elementos fundamentais
da matéria, implicando na construção de um conhecimento fragmentado acerca da realidade. Em
teorias originadas nesse contexto, a necessidade de descrição objetiva do mundo e apreensão do
conhecimento verdadeiro leva à separação entre o sujeito que pergunta, investiga, e o objeto de
estudo, composto de uma natureza externa e estranha que deve ser decifrada e traduzida para a
linguagem científica.
A dicotomia cartesiana teria originado um modelo de pensamento linear incapaz de reconhecer as
próprias limitações do conhecimento. Segundo Bohm (1980:22), as teorias formuladas acerca dos
objetos nada mais seriam do que insights, “um modo de olhar para o mundo” construído pelo
pesquisador em suas premissas. Não seria possível apreender a realidade de forma pura, imediata, pois
a subjetividade do pesquisador já seria uma primeira mediação em relação ao objeto de estudo.
No entanto, a própria Física, através do desenvolvimento da física quântica, trouxe subsídios para
o movimento de renovação dos pressupostos científicos mecanicistas. Ela descortinou as possibilidades
de um mundo físico que não podia ser compreendido através das lentes newtonianas e que trazia em si
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
95
Renata Guimarães de Carvalho
uma complexidade que não se submetia a respostas objetivas ou leis gerais de funcionamento. Reconheceuse que no mundo subatômico, do ‘infinitamente pequeno’, os fenômenos são complexos e passíveis de
influência pela subjetividade do pesquisador. Esse panorama trouxe ventos que revitalizaram os
pressupostos científicos, resgatando tradições de pensamento excluídas no paradigma mecanicista.
Gleiser (1997:251,252) resume esses novos pressupostos que causaram certo mal-estar e sensação
de estranheza entre os físicos:
1)um objeto em movimento sofre uma contração de seu comprimento na mesma
direção em que se move; 2) um relógio em movimento bate mais devagar; 3) massa e
energia podem ser convertidas entre si; 4) não podemos determinar se os constituintes
fundamentais da matéria são ondas ou partículas, a famosa dualidade ‘onda-partícula’;
5) ao observarmos um sistema físico influenciamos seu comportamento; não existe
mais uma separação clara entre observador e observado; 6) a presença da matéria deforma a geometria do espaço e altera o fluxo do tempo; 7) não podemos determinar a
localização de um objeto – apenas afirmar a probabilidade de ele estar aqui ou ali.
A descoberta dessas propriedades físicas e a necessidade de repensar seus métodos de investigação,
assim como elaborar uma linguagem ordinária própria que pudesse refletir seus princípios teóricos,
serviu de base para uma visão diferenciada acerca da relação entre os fenômenos e a ciência.
Em “O Tao da Física”, Capra (1983) analisa o caminho de encontro entre a física quântica e
tradições do pensamento oriental, destacando princípios convergentes entre ambos. A idéia de unidade
e inter-relação dos fenômenos, a relação dinâmica de complementaridade dos opostos, a dimensão da
complexidade espaço-tempo, matéria-vazio, o reconhecimento de fluxos de mudança na ‘dança cósmica’,
norteiam o surgimento de um novo paradigma científico, resumidos no quadro 01.
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Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
QUADRO 1: PRINCÍPIOS DO NOVO PARADIGMA
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FONTE: Baseado em CAPRA, 1983: p.244 –248.
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Renata Guimarães de Carvalho
Considerando um paradigma como uma forte referência que fornece “problemas e soluções
modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KHUN, 1982: 13), torna-se razoável
inferir a emergência de um paradigma novo, ou pelo menos, de um horizonte diferenciado de
compreensão do mundo. Seus princípios resgatam elementos complementares para a cultura ocidental
contemporânea e implicam em uma forma diferenciada de pensar o saber científico. Esses campos de
estudos apontam para o surgimento de uma cosmovisão que apresenta opções ao modelo mecanicista
e determinista da realidade; um paradigma, ainda em construção, que indica caminhos para o estudo
científico de fenômenos inseridos em níveis de complexidade e aleatoriedade crescentes; um modelo
científico que contempla os fenômenos não lineares regidos simultaneamente por instâncias de ordem
e desordem que não obedecem a leis gerais de funcionamento e a estruturas de previsibilidade.
A complexidade mostra o inevitável caminho da incerteza, a trajetória de um objeto de estudo
que se auto-organiza e emerge sempre de uma forma diferente ao olhar do pesquisador. A inclusão de
seus princípios no campo de discussão teórico-científica traz inúmeros desafios para os pensadores
contemporâneos em busca de metodologias que possam expressar dimensões novas do conhecimento.
A arguta observação de MORIN (1998, p. 196-197) esclarece esse ponto:
Problema duplo por toda a parte: o da necessária e difícil mistura, confrontação da
ordem e da desordem. (...) A necessidade de pensar conjuntamente, em sua
complementaridade, sua concorrência e seu antagonismo, as noções de ordem e desordem levantam exatamente a questão de pensar a complexidade da realidade física,
biológica e humana. A meu ver, para isso é necessário conceber um quarto e novo olhar,
dirigido para o nosso olhar (...) Temos de olhar para o modo como concebemos a
ordem e para nós mesmos olhando para o mundo, isto é, incluir-nos em nossa visão
do mundo.
A construção de um novo olhar sobre as organizações que integre noções ligadas ao novo paradigma
descortinado pelas pesquisas sobre complexidade, mudança, transitoriedade, ordem e desordem,
repetição e variedade, inclui a revisão de nossas formas de compreensão do mundo. A criação de
outras possibilidades de representação sobre as organizações, estrutura, processos de gestão, alcance
de resultados, significados sobre trabalho é um desafio atual e presente ao cotidiano das pessoas nas
empresas. Nesse sentido, a próxima seção do artigo tratará das condições de articulação dessa matriz de
pensamento à gestão das organizações.
3 NOVAS REFERÊNCIAS NAS EMPRESAS: EM BUSCA DE UMA
METÁFORA.
Na Teoria das organizações uma visão única do que seria a organização tornou-se dominante a
ponto de prejudicar a efetivação de um pensamento discordante do hegemônico. Segundo Bauer
(1999) a composição da administração, como disciplina de saber científico, foi fundamentada no
paradigma cartesiano-newtoniano o que redundou na criação de categorias que se enraizaram na prática
administrativa e, em última instância, constituíram a concepção de uma estrutura funcionalista e burocrática.
A organização, como espaço social, parecia intrínseca a uma matriz positivista. Com o processo de
98
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Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
configuração de um novo olhar sobre as empresas, especialmente atrelado à ciência do caos e da
complexidade, o autor sugere o surgimento de uma também nova teoria das organizações que acompanha
este movimento e que rompe com uma visão administrativa tradicional.
Burrell (1999) defende que a teoria organizacional, enquanto espaço social, é por definição o
campo da pluralidade, da diversidade de visões, idéias e comportamentos. E é pelo viés dessa
multiplicidade que devem se guiar seus estudos. O seu propósito de desenvolvimento deve superar a
percepção funcionalista de modelos representantes da ‘verdade’, do discurso científico que avançará na
constituição de modelos novos, mais eficazes, para as organizações.
A pulverização da verdade das organizações em teorias que representam visões da realidade avançou
com os estudos de Morgan (1996) acerca do uso das Metáforas. Sua interpretação da análise organizacional
não produz uma verdade única sobre o que é a organização. A análise organizacional acompanha a
multiplicidade de significados constituídos em um ambiente social marcado pela indefinição dos fenômenos,
pela impossibilidade de construção de objetos de estudo imutáveis. A perspectiva das metáforas é integrativa,
inclusiva, e o seu uso é combinado em um ‘visão binocular’ que necessariamente contempla mais de uma
visão da organização. Várias formas de conceber o espaço e a estrutura organizacional são dessa forma
possíveis em uma mesma organização. Morgan expressa que: “usar uma metáfora implica um modo de
pensar e uma forma de ver que permeia a maneira pela qual entendemos nosso mundo em geral.”
(1992:16) Uma forma de ver e pensar a organização entre as muitas possíveis, dependendo dos sujeitos
pertencentes a este espaço e do campo de representações criadas.
Uma intrincada teia de significados produz as metáforas que irão atuar não apenas no nível
simbólico, mas também na práxis da administração. A forma como o gestor percebe, vê a organização
irá nortear sua atuação prática nela. As metáforas são usadas como parâmetros que irão ajudar o gestor
a resolver problemas, tomar decisões e desenvolver a capacidade de pensar em cursos de ação cada vez
mais variados e complexos, assim como o é a realidade organizacional.
Nesse sentido, a perspectiva das metáforas implica nas seguintes considerações:
• A busca da organização como um fenômeno complexo com multiplicidade de determinações,
prescindindo de uma análise especializada de suas funções.
• A aceitação da natureza indeterminada da organização, que leva à possibilidade de se chegar a
verdades apenas aproximadas em relação ao fenômeno estudado. A organização não como um
objeto de estudo empírico que pode ser alcançado em sua totalidade, mas uma forma de
pensar, uma teoria, um insight.
• A visão do sujeito da análise organizacional como um sujeito produtor de significado e de
realidade – não sendo possível sua separação em relação ao objeto. Suas ponderações e conclusões
são condicionadas pelo modelo de análise que é efetivado. O sujeito não pode ser separado do
objeto e, portanto, influencia a sua configuração; ou seja, as pessoas criam a organização e são
transformadas por ela.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
99
Renata Guimarães de Carvalho
A força da metáfora advém da possibilidade de gerar significado para a construção de
organizações sustentadas não apenas por estruturas físicas ou organogramas formais, mas também por
estruturas simbólicas, imagens que criam um modelo mental de compreensão e construção da realidade.
Sendo assim, que tipo de compreensão e significados surgem nas organizações modernas sobre as
mudanças que parecem tão necessárias e urgentes para a sobrevivência das empresas? Que significados
são propostos para as pessoas que compõem a organização?
Em Carvalho (2001) o processo de construção de um novo olhar sobre as organizações é
investigado tendo por referência a análise organizacional pelo uso das metáforas. Através de categorias
relacionadas às imagens das organizações como ‘fluxo e transformação’ e como ‘cérebro’ (MORGAN,
1996) buscou-se compreender a realidade do processo de gestão de uma empresa meio de hospedagem
de pequeno porte sediada em uma praia do litoral leste do Estado do Ceará.
QUADRO 2: CATEGORIAS DE ANÁLISE DA IMAGEM
ORGANIZACIONAL
Fonte: Baseado em CARVALHO, 2001, p. 98.
Entre as entrevistas realizadas no estudo vale destacar a análise do discurso do gerente geral do
hotel, um profissional que tinha por função gerenciar o cotidiano de trabalho da empresa e efetivar as
diretrizes dos proprietários.
Inicialmente demonstra ter boa visão administrativa do hotel, seus setores, funcionários, cargos e
atividades desempenhadas. Reconhece o processo de crescimento e desenvolvimento da empresa em
relação às instalações físicas, condições de trabalho e qualidade dos serviços oferecidos, fruto do esforço
conjunto de funcionários e proprietários.
(...) um hotel que está crescendo, que está prestando um melhor serviço... Eu acredito que a
gente vai conseguir passando por dificuldades, né? O hotel já teve as dificuldades que teve,
problemas de caixa e tudo mais e isso foi resolvido(...) As pessoas, os funcionários, estão
mais incentivados porque existiam os que não estavam motivados e, hoje, eles já tem outra
visão da administração, da própria dona da empresa. A coisa cresceu muito e foi graças a esse
esforço, tanto dos funcionários tanto como deles que são os proprietários.
(CARVALHO, 2001, p. 121)
100
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
No discurso do gerente é possível identificar a importância dada à formação de redes externas e
a posição ativa da empresa na conexão com o ambiente: relação com a concorrência, formação de
parcerias, principalmente com fornecedores, influência no mercado de trabalho, e melhoria do processo
de divulgação do hotel.
(...) o hotel F. pra região engole tudo, é um hotel grande, tem resort, tem parque,
tudo mais, mas hoje a gente já está achando que nosso hotel está incomodando. Por
quê? Porque alguns clientes vem para cá pro hotel, vem fazer as refeições, por que a
comida de lá não é boa. Então acho que o hotel na verdade está intervindo, ele está
abrindo espaço também no campo de trabalho que nós tínhamos. Quando eu cheguei aqui, nós tínhamos vinte e dois funcionários. Hoje temos vinte e oito (...), então
as pessoas procuram, elas já estão se informando, elas já estão mais informadas que
o hotel está crescendo, as pessoas de fora da região no caso, né? Então acredito que o
hotel, ele esteja intervindo, está ampliando o espaço tanto para fornecedores que a
gente sempre recebe, eu recebo telefonemas e fax de outras empresas, outras distribuidoras estão oferecendo os produtos (CARVALHO, 2001, p. 122)
Existe também a preocupação com a disseminação de conhecimento entre os funcionários como
forma de melhorar a qualidade dos serviços. Além do treinamento de capacitação formal, são desenvolvidas
no hotel metodologias de aprendizagem que incentivam o intercâmbio de idéias entre os funcionários,
resolução de problemas cotidianos e a discussão de melhorias, como descritas no relato a seguir:
A Dona do Hotel fez treinamento ultimamente(...) Ela mostra vídeo, discute com cada
um, cada setor então é feito essa discussão, é muito bom. Ela começou a fazer treinamento com uma pessoa de Fortaleza, com uma especialista. A gente conversa, eu
também converso com alguns deles, a gente discute certas questões de cada setor para
cada setor. Então hoje o treinamento está sendo mais a nível de mostrar vídeo, de
discussão no salão, no restaurante, para cada problema. Então a coisa é discutida assim,
o grupo total discute, corrige as falhas, os erros. ‘Olha isso aqui, um dia tal aconteceu,
essa falha tal, O que houve? Por quê?’ Então, ela tá fazendo isso e é muito bom. Tá
começando a abrir, a ampliar mais horizontes(...) (CARVALHO, 2001, p. 126)
Apesar de destacar a existência das parcerias, da discussão de idéias entre os funcionários, a
importância da sua participação e uma estrutura hierárquica empresarial leve e enxuta, calcada no trabalho
de equipes, alguns aspectos de seu discurso revelam um processo de gestão alinhado a modelos
tradicionais. É forte na função gerencial a necessidade de agir como um fiscalizador das atividades
desempenhadas pelos funcionários.
(...) não existe chefia pro setor. O hotel por ser pequeno, na verdade se fossemos fazer
um organograma, seria mínimo(...) porque em cada setor existem as equipes, ta certo?
No início a coisa era mais difícil mas hoje as pessoas, cada uma delas já sabem as suas
funções. Então na verdade eu tô mais de, de estar junto com elas na administração, no
dia-a-dia, né? Eu fico praticamente no comando, ele não é só de dizer: - Você faz isso!
Eu tenho que estar vistoriando, fiscalizando. (CARVALHO, 2001, p. 122)
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101
Renata Guimarães de Carvalho
O fato das equipes de trabalho estarem atreladas a um sistema de supervisão acirrada está relacionado
à visão que o gerente elabora sobre os funcionários. Esta remete a modelos tradicionais de gestão
taylorista: a dicotomia entre o ‘pensar’ e o ‘fazer’ do trabalho e a visão de ‘homus economicus’ desenvolvida
pela escola de administração científica.
Como o pessoal é mais dessa região, não é que eles não tenham qualificação, vamos dizer
assim, mas por serem da região, é um pessoal que (...) você conversando com alguns deles
tem essa idéia de... – ah, vai assim mesmo sabe? Ele não pensa antes, indo dessa forma
em frente ao cliente, vá ver.... Puxa vida! (...) Então às vezes tem que ter uma pessoa: não,
isso aqui está errado, volte! Melhore isso! Faça assim! Uma decoração, uma coisa assim.
Então é mais ou menos dessa mentalidade. (CARVALHO, 2001, p. 122)
Citando a trajetória de mudança do hotel, que é marcada por um período de má administração dos
proprietários anteriores, crise financeira e mudança para o estilo de gestão dos atuais donos, ele reforça
um modelo de gestão voltado para a centralização de decisões e adaptação dos funcionários antigos. No
processo de mudança, houve a clara ruptura de processos e hábitos já estabelecidos que deram lugar a
métodos de trabalho compatíveis com o novo estilo gestor e com a visão de futuro do hotel.
É pra eles, para que eles vejam que a coisa mudou de muito tempo atrás. Tem muita gente
aqui que é antiga, né? Tem gente aqui da administração antiga, a dona atual do hotel
sempre foi sócia, ela me explicou, ela sempre foi sócia mas ela não participava muito. Hoje
ainda querem mexer um pouquinho, querem soltar um pouco, você tem que: - Não, isso
não pode ser assim! Isso você fez isso no passado, hoje a realidade é outra! Isso está
errado! Então ela melhorou muito a administração dela. Melhorou muito o comportamento até de certas pessoas que ainda estão aqui. (CARVALHO, 2001, p. 128)
(...) eu vou citar o caso da cozinha(...) há algum tempo atrás um pouco antes da atual
dona do hotel não nos dava condições para funcionar corretamente o restaurante para
realmente atender melhor o cliente. Nesse processo de desenvolvimento, na verdade,
em relação aos funcionários, eles não queriam adaptar-se às novas regras, eles não
queriam adaptar-se ao próprio desenvolvimento do hotel. Faltava mercadoria, eles não
solicitavam a mercadoria, ou faltava, e eles deixavam faltar, “deixava faltar, vai assim
mesmo, deixa de qualquer jeito”, então com a atual Dona., nós entramos, eu comecei a
ficar mais próximo dessa questão do fornecimento, organizei os fornecedores, captamos mais fornecedores, falando. Fomos comprando material, repondo os materiais
que estavam, então eles foram vendo que a coisa mudou, eles tiveram que acompanhar.
Foi difícil, tiveram que ir acompanhando esse processo de mudança. Então se teve de
conversar bastante, ficar muito em cima. (CARVALHO, 2001, p. 124)
O gerente coloca-se como um aliado da dirigente do hotel no trabalho de conscientização dos
funcionários em relação à implantação de novos hábitos de trabalho. Em seu discurso, situa-se de
forma diferenciada em relação aos demais funcionários.
É o que eles achavam até quando eu cheguei aqui, eu posso dizer a você: - Ah, isso aqui não vai
funcionar. Ah, vai continuar como era antes, como era com fulano, fulano. E esse processo foi
um processo lento de um ano quase (...) hoje eles já tem essa visão de que o hotel cresceu, o
hotel está crescendo, está realmente se desenvolvendo. (CARVALHO, 2001, p. 124)
Características da empresa investigada favorecem o surgimento de processos alinhados à imagem
da organização como ‘fluxo e transformação’ e como ‘cérebro’ (foco no trabalho em equipe,
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Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
flexibilidade, construção de redes, visão do todo do negócio, entre outros) – trata-se de uma
organização de pequeno porte, da área de serviços, que convive com a sazonalidade própria do
mercado turístico. No entanto, esses processos organizacionais coexistem com resquícios mecanicistas,
relacionados à supervisão e fiscalização de atividades, a imposição de regras de trabalho, a direção e
o controle como ferramentas gerenciais. Percebe-se uma dimensão formal da organização – articulada
em um esforço de gerenciamento tradicional com metodologias de planejamento, direção, comando
e controle – e uma dimensão informal que escapa ao controle dos dirigentes e emerge no campo do
trabalho cotidiano dos funcionários que precisam “administrar” o seu próprio trabalho e o inesperado
que está nele, apesar das tentativas de controle. O crescimento da integração da equipe de trabalho e
o aumento da flexibilidade, de uma certa autonomia informal, expressam estratégias que permitem
a sobrevivência e a eficácia nesse meio de trabalho em processo de transformação.
No artigo “Improvisação e Organização” (CUNHA, CUNHA: 2000) a capacidade de
improvisar, ou seja, de efetuar uma ação repentina que responda a um fato imprevisto em temporeal é uma competência característica de organizações que atuam no ambiente hiper-competitivo ou
complexo. Neste contexto as empresas participam de um jogo onde os competidores e mesmo as
regras de competição podem mudar a qualquer momento. Em ambientes de hipercompetição a
velocidade da inovação de processos e produtos leva à transitoriedade das vantagens competitivas
das empresas que precisam estar constantemente atentas aos padrões de mudança e, principalmente,
gerando tendências em condições crescentes de incerteza.
Nesse sentido, a improvisação é tão importante como o planejamento e a organização. Tendo
por referência o modo de organização de uma banda de jazz observa-se que ordem e desordem
permanecem em um trabalho de conjunção criativa de opostos.
No jazz, a improvisação ocorre no quadro de um conjunto de regras bem definidas e
especificadas pela teoria, o que significa que o termo improvisação não surge como
sinônimo de desordem nem de resultados totalmente emergentes. (...) A combinação
de teoria e prática, individualidade e cooperação, estrutura e improvisação, faz do jazz
um campo potencialmente rico para o estudo da colaboração criativa. ( p. 221, 222).
QUADRO 3: PLANEJAMENTO E IMPROVISAÇÃO
Características
Planejamento
Improvisação
Risco
Paralisia por análise
Extinção por instinto
Timing de ação
Antecipação
Resposta em tempo-real
Materias-primas
Números, análise
Intuição, síntese
Abordagem da
incerteza
Redução da incerteza
Acomodação da incerteza
Objetivo
Racionalidade de ações
Capacidade de resposta
Imagem
Ópera
Jazz
Fonte: Baseado em CUNHA & CUNHA, 2000, p.223.
Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005
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A resistência em se reconhecer a importância dos elementos de ordem e desordem na gestão das
empresas vem associada ao modelo mental das tradicionais escolas da teoria da organização, utilizadas
na realidade prática em algumas versões hegemônicas, das quais seria possível ressaltar o modelo
mecanicista. Esta forma de ver as organizações, ou metáfora organizacional, exclui a percepção de que
a organização também é composta pelas relações informais, pela emergência de processos espontâneos
de criação e inovação que se auto-organizam no cotidiano dos grupos de trabalho que procuram dar
conta dos imprevistos em tempo-real. A necessidade de integrar essas metáforas aponta para a construção
de um novo olhar que possa superar uma visão rígida sobre modelos de gestão tradicionais.
Considerando que os processos tradicionais de gestão, implantados e disseminados largamente
nas empresas, priorizam os instrumentos de planejamento, organização e controle tornam-se claras as
dificuldades impostas aos gestores por um ambiente turbulento e imprevisível.
Atualmente os executivos vivem sob enorme tensão. (...) Suas empresas podem até
parecer poderosas quando vistas de fora, mas eles mesmos se sentem empurrados para
cá e para lá pelas forças globais de mercado e acham-se inseguros em face de turbulências
que não conseguem prever e nem mesmo compreender plenamente. (...) Há um sentimento profundo e difuso entre os gerentes e administradores de que, por mais que
trabalhem, não conseguem ter controle sobre as coisas. (CAPRA, 2002 p. 109,110)
A concepção racionalista-newtoniana de mundo concedeu muitos poderes ao sujeito, outorgando
a ele a possibilidade de intervir e controlar a emergência dinâmica dos fenômenos. Oriunda dessa
perspectiva ressaltam-se as funções clássicas do administrador voltadas para o aumento da eficiência e
da eficácia organizacional, através do planejamento, organização, direção e controle de processos e
tomada de decisão. Os pressupostos da complexidade, no entanto, desapropriam o sujeito desse lugar
de dominação e poder, recolocando-o como elemento integrado em um todo sistêmico que apresenta
uma forma própria de funcionamento e organização de processos.
Se as organizações fossem máquinas, todo esse planejamento e esse controle poderiam
fazer sentido. No entanto, as organizações são sistemas vivos. Procurar impor controle
não é só algo fútil, mas também suicida. Sistemas vivos prosperam na desordem.
Requerem desequilíbrio (SHELTON, 1997 p.158).
As contribuições desses autores para a elaboração de uma nova forma de conceber as organizações
unem-se aos esforços de busca de novas referências para a teoria organizacional e a administração.
Esperar transformar as organizações através de metodologias de gerenciamento fechadas e da
mobilização de pessoas através de um discurso prescritivo (‘os processos têm que ser assim para que
dêem certo’), apenas arranha a superfície de uma visão de mundo muito mais arraigada que gera um
modelo mental específico sobre a empresa, o trabalho e as pessoas. Torna-se importante o reconhecimento
de uma dimensão subjetiva nas organizações que cria os significados e os concretiza na realidade através
da construção de modelos de gerenciamento e de estrutura organizacional.
A administração, dessa forma, tateia no campo simbólico, atrelado ao conhecimento intuitivo,
complexo, que não traz respostas prontas ou efeitos diretos. O processo de construção de uma nova
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Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações.
mentalidade, uma metáfora mais alinhada ao pensamento complexo no âmbito das organizações,
pode ser observado na atualidade em plena dinâmica de elaboração, com alguns avanços e muitas
lacunas. Como diz Shelton (1997: 185):
Nosso anseio por mudarmos o local de trabalho de um lugar onde há o predomínio do
poder e da política para um lugar onde haja parceria requer uma nova visão de mundo –
uma nova compreensão da maneira como o universo funciona. Também requer um
compromisso pessoal com novas maneiras, bem diferentes, de conviver no trabalho.
4 CONCLUSÃO
Apesar das produções científicas sobre o tema não serem ainda suficientes, descortina-se um
novo referencial pautado na percepção da complexidade dos fenômenos e seu impacto na gestão
das organizações. Compatível com este novo paradigma surge a análise organizacional através das
imagens, privilegiando a dinâmica de construção simbólica da organização, a assimilação de metáforas,
o surgimento de determinados modelos mentais como formas de definição de processos de gestão.
A construção da metáfora da organização como sistema orgânico, complexo, expressa mais do
que uma realidade que deve ter sua aplicabilidade investigada de forma minuciosa. Representa uma
mudança fundamental no arcabouço simbólico das pessoas que fazem a organização, implicando
uma verdadeira mudança de modelo mental. Novas organizações surgem a partir de um conjunto
de idéias, valores, princípios espelhados nesta imagem e produzem uma práxis consistente. Este é um
caminho ainda em construção, com muito de seus pressupostos dispersos em um conjunto de
metodologias e ferramentas ainda pouco articuladas. A falta de concatenação dessas práticas tem
suas raízes mais profundas na incipiente vivência teórica e prática desses construtos, e a carência de
sua validação em maior amplitude no cotidiano das organizações.
A missão do eixo administrativo, como saber que tem por proposta analisar e atuar na
organização, é imprescindível nesse contexto. É seu papel facilitar processos, articular significados,
delinear arquiteturas em que o pêndulo da ordem e desordem seja possível dentro da organização,
criando resultados e fazendo parte de um estilo de gestão coerente. No entanto, considerar a função
da administração única ou mais importante que os outros processos da dinâmica organizacional é
um equívoco que deve ser evitado. As dimensões complexas que compõem a dinâmica organizacional
e transcendem os limites da prática instrumental devem ser reconhecidas pela administração como
forças atuantes.
O gestor não será aquele que precisará necessariamente atuar, intervir nos processos
organizacionais, controlá-los, produzindo resultados objetivos mais eficientes. A administração tem
um papel fundamental à medida que reformular a idéia de planejamento e controle, admitindo a
complexidade dos fenômenos e sua transformação, e empreender ações para facilitar esse processo
nas empresas através de três momentos: composição de uma arquitetura organizacional que traduza
em artefatos visíveis uma mentalidade alinhada ao pensamento complexo; construção de um estilo
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de gerenciamento aberto ao movimento de ordem e desordem e de auto-organização do trabalho
individual e em equipe; e disseminação de um modelo mental que contamine as pessoas da organização
fazendo com que elas sejam pontos de inflexão e mudança de seu próprio trabalho e de toda a
organização daí para frente.
Esse deve ser um padrão de reforço circular ascendente que não estará nas mãos de poucas
pessoas, mas, sim, enraizada em uma estrutura simbólica, que será a ferramenta gerencial necessária que
apresentará os caminhos, assim como os desafios, para a organização e a própria teoria administrativa.
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