Revista da Faculdade Integrada do Ceará ISSN 1676-0522 Anima Fortaleza ano 5 n. 7 p. 9-110 jan./jul. 2005 SOCIEDADE DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ PRESIDENTE ANNITA SCHTERB GORODICHT FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ DIRETOR GERAL JESSÉ DE HOLLANDA CORDEIRO DIRETORA DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS CRISTIANA DOS REIS ROCHA COORDENADORA DE INFORMAÇÕES, SERVIÇOS E REGISTROS ACADÊMICOS NOEME MILFONT MAGALHÃES COORDENADORA DE ENSINO ANA FLÁVIA ALCÂNTARA ROCHA CHAVES COORDENADORA DE PESQUISA E EXTENSÃO ANTONIA CLÁUDIA LOPES DOS SANTOS COMISSÃO DE PUBLICAÇÃO Editor Científico: Prof. Dr. Guilherme Lincoln Aguiar Ellery e-mail: [email protected] Conselho Editorial: Prof. Dr. José de Souza Neto Prof. Dr. José Afonso Bruno Profa Ms. Antonia Cláudia Lopes dos Santos Prof. Ms. Benedito José de Carvalho Filho Prof. Ms Carlos Alberto dos Santos Bezerra Profa Ms Raimunda Hermelinda Maia Macena Produção Editorial: José Vauni de Freitas Bibliotecária Responsável: Luiza Helena de Jesus Barbosa – CRB 830 Anima/Faculdade Integrada do Ceará., ano 5, n.7, (jan./jul. 2005).Fortaleza: Faculdade Integrada do Ceará, 2004. v.: il, 30cm. Semestral Início da coleção v.1, n,1, out./dez. 2001 1. Periódico científico - Faculdade Integrada do Ceará - FIC 2. Artigos diversos CDD 050 Printed in Brazil 2 ISSN 1676 - 0522 Revista da Faculdade Integrada do Ceará 3 Edit orial Editorial O primeiro número da revista ANIMA foi publicado em outubro de 2001. Quatro anos são passados. Hoje é um projeto consolidado, que busca permanentemente se aperfeiçoar. A Faculdade Integrada do Ceará – FIC, de 2001 para cá, tem crescido muito e torna-se uma organização cada vez mais complexa e multifacetada, com o crescente número de alunos, professores e funcionários. Seus cursos de Graduação e Graduação Tecnológica têm sido sempre muito bem avaliados pelas Comissões do MEC. Seu corpo docente se apresenta em constante elevação da qualificação. A Revista ANIMA tem sido, desde a sua criação, um instrumento contribuidor para o crescimento educacional, técnicocientífico e institucional da FIC. Quando o sexto número da revista ANIMA foi lançado, exatamente no dia 21 de setembro de 2004, na sede Via Corpvs, o Professor Benedito João de Carvalho Filho, então editor da Revista, dizia: A Revista ANIMA se confunde com o processo de consolidação do projeto educativo da própria Faculdade. A divulgação dos trabalhos publicados pelos professores pesquisadores é fundamental para dar visibilidade às pesquisas desenvolvidas na Instituição. E, logo em seguida, no artigo “Revista veicula atuação da FIC”, publicado no Jornal O POVO em 22 de setembro de 2004, advertia: O que não significa somente adequar-se às normas técnicas exigidas, mas principalmente elevar a qualidade dos artigos publicados, pois é através deles que elevaremos o nível das publicações. Após conduzir, com entusiasmo e competência, a editoração da Revista, o Professor Benedito, agora integrando o Conselho Editorial, transfere o bastão com as seguintes observações: Em primeiro lugar, considero que uma revista acadêmica não é um artefato cultural somente para cumprir os ditames exigidos pelas autoridades superiores do ensino, no caso o MEC. É importante que ela tenha um formato adequado ao mundo 4 Edit orial Editorial científico, mas penso que seria muito estreito ficarmos aprisionados somente pela sua forma. Uma revista, ou qualquer outra publicação produzida nos centros superiores de ensino é um instrumento de debate cultural, onde os professores escrevem, de preferência, não somente para somar pontos em seu currículo, mas para fomentar a troca de idéias, discutir em profundidade os problemas do mundo e de seu país, cada uma na sua especialidade. Um dos grandes desafios enfrentados pela FIC, sempre explicitado por seus dirigentes, é crescer não só em quantidade, mas, principalmente, em qualidade, o que significa uma busca permanente do profissionalismo e do compromisso na concepção e na execução de seus projetos. A Revista ANIMA é um desses projetos. Neste momento, de muitas mudanças e transformações, na sociedade e nas instituições, a FIC acompanha o ritmo e a efervescência do contexto em que se insere. A Revista ANIMA também segue o caminho das transformações, buscando sempre o seu aperfeiçoamento, perseguindo os alvos supra mencionados. Assim é que, neste número da Revista ANIMA, são apresentados sete Artigos: -A Importância do Controle Interno na Administração Pública Brasileira e a Contribuição da Contabilidade como Principal Instrumento de Controle na Busca da Eficiência da Gestão Pública, de autoria do Professor Stênio da Silva Moreira, docente da FIC. -Educação Empresarial: Uma Proposta de Taxonomia para programas Educacionais Aplicados às Organizações, de autoria do Professor Marcos Antônio Martins Lima, docente da UFC. -Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos, de autoria do Professor Ubiracy de Souza Braga, docente da UECE. -Emoção e racionalidade, de autoria de Leonardo de Araújo e Mota. -O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza, de autoria dos Professores Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz e Francisco de Assis Francelino Alves, o primeiro e o terceiro docentes da FIC e o segundo vice-diretor do Colégio Juvenal de Carvalho. -Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho, de autoria da Especialista Ana Telma Sobreira Monte e do Mestre José Varela Donato, Gerente da CEF e Consultor do BNB, respectivamente. -Gestão em Tempos de Complexidade: Reflexões Acerca da Construção de um Novo Olhar sobre as Organizações, de autoria da Professora Renata Guimarães de Carvalho, docente da FIC. Configura-se, portanto, nesta edição da Revista ANIMA, um rico material técnico-científico, diversificado nas áreas de conhecimento em que se conformam os artigos, plural nas vivências acadêmicas e profissionais de seus autores e com expressiva participação de professores da FIC. Temos a convicção de estarmos perseguindo, com mais este número da Revista ANIMA, os ideais tão bem expostos pelo Professor Benedito José de Carvalho Filho e a orientação emanada dos dirigentes da FIC, contribuindo para a evolução positiva do projeto educacional da Faculdade e para a difusão da produção acadêmica cearense. Guilherme Lincoln Aguiar Ellery Editor Científico 5 6 Su mário Sumário A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública STÊNIO DA SILVA MOREIRA 09 Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações MARCOS ANTONIO MARTINS LIMA Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos UBIRACY SOUZA BRAGA 37 Emoção e Racionalidade LEONARDO DE ARAÚJO E MOTA O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza FRANCISCO JOSÉ DA COSTA SÉRGIO HENRIQUE SOUSA DINIZ FRANCISCO DE ASSIS FRANCELINO ALVES 55 63 Poder gerencial e criatividade no trabalho ANA TELMA SOBREIRA ONTE JOSÉ VARELA DONATO Gestão em Tempos de Complexidade: Reflexões Acerca da Construção de um Novo Olhar Sobre as Organizações. RENATA GUIMARÃES DE CARVALHO 27 79 93 7 WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI A Importância do Controle Interno na Administração Pública Brasileira e a Contribuição da Contabilidade Como Principal Instrumento de Controle na Busca da Eficiência da Gestão Pública Stênio da Silva Moreira* RESUMO: Com a promulgação, em 17 de março de na Administração Pública Governamental, chegando 1964, da Lei Complementar nº. 4.320, que estatui a confundir o desempenho do controller, do contador normas gerais de direito financeiro para elaboração e e do auditor. controle dos orçamentos e balanços, foi estabelecido Na esteira do Plano diretor de Reforma do Estado, o que o controle da execução orçamentária e financeira Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional da União, Estados, Municípios e Distrito Federal deveria ser exercido pelos Poderes Legislativo e Executivo, mediante controles externo e interno, respectivamente. Esse entendimento foi reafirmado pelo art. 70, da Constituição Federal de 1988. Objetivando a se ajustarem à nova sistemática contábil introduzida através daquela legislação, as o Anteprojeto da Lei de Responsabilidade Fiscal, posteriormente, a Lei Complementar nº. 101/00, que foi sancionada em 4 de maio de 2000, e tem por objetivo principal estabelecer regras para a gestão das Finanças Públicas e mecanismos para o cumprimento de objetivos e metas. Além disso, pretendia o governo três esferas da Administração Pública Brasileira dar maior transparência à gestão nas três esferas da foram obrigadas a criar naquela época uma certa Administração Pública, ou seja, uma gestão fiscal forma de controle interno. responsável. Observe-se que ao longo do tempo, o conceito de Este trabalho objetiva demonstrar a importância do controle interno vem sendo entendido como auditoria Controle Interno na Administração Pública brasileira e não como um conjunto de funções integradas. e a contribuição da Contabilidade como principal Nos cenários atuais, no Brasil, ainda é discutível e indefinida a posição do Sistema de Controle Interno Palavras-chave: Controle Interno na Alimentação; Contabilidade como Instrumento de Controle; Eficiência na Gestão Pública Brasileira; Responsabilidade Fiscal. K ey ey--Words: Internal Control in the Food; Accounting as Instrument of Control; Efficiency in the Brazilian Public Management; Fiscal Responsibility. instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública brasileira. *Mestre em Controladoria e Contabilidade Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 9 Stênio da Silva Moreira CT:: With the promulgation, on March 17, ABSTRACT CT ABSTRA Administration, getting to confuse the controller’s 1964, of the Complementary Law any.. 4.320, that I action, in the current landscapes, in Brazil, of the decreed general norms of financial right for accountant and of the auditor. elaboration and control of the budgets and balances In the rug of the pilot plan of Reform of the State, the sheet, it was established that the control of the budget Federal Government drove to the National Congress and financial execution of the Union, States, Municipal districts and Federal district should be exercised by the Ponders Legislative and Executive, through controls expresses me and internal, respectively. That understanding was reaffirmed by the art. 70, of the Federal Constitution of 1988. Appearing to the if they adjust to the new systematic accounting introduced by that legislation, the three spheres of the Brazilian Public Administration were forced she creates for that time a certain form of the Project of the Law of Fiscal Responsibility, then, the Complementary Law any.. 101/00, that it was sanctioned in May 04, 2000, and he/she has for main objective to establish rules for the administration of the Public Finances and mechanisms for the execution of objectives and goals. Beyond, it intended the government to give larger transparency to the administration in the three spheres of the Public Administration, in other word, a responsible fiscal internal control. administration. Be observed that, along the time, the concept of This work appears to demonstrate the importance of internal control was understood as examining and I the Internal Control in the Brazilian Public don’t eat a group of integrated functions. Administration and the contribution of the Accounting It is still debatable and indefinite the position of the as main instrument of Control in the search of the System of Internal Control in the Government Public efficiency of the Brazilian Public Administration. 1 INTRODUÇÃO Na administração empresarial o controle é exercido e imposto pelo empresário, enquanto na administração pública a função controle é exercida em decorrência de exigências legais. A importância do controle na administração pública brasileira passou a ser destacada, principalmente, com a Reforma Administrativa de 1967, consoante o artigo 6º. do Decreto-lei nº. 200/ 67, que coloca o controle, ao lado do planejamento, entre os cinco principais princípios fundamentais que norteiam a atividade pública. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A Lei nº. 4.320/64 estabeleceu que o controle da execução orçamentária e financeira da União, estados, municípios e Distrito Federal será exercido pelos Podres Legislativo e Executivo, mediante controles internos e externos, respectivamente. Tal entendimento foi reafirmado pelo artigo nº. 70, da Constituição Federal Brasileira, de 1988. 10 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do controle Interno na administração pública brasileira e a contribuição da contabilidade como principal instrumento de controle na busca da eficiência da gestão pública Nos termos do artigo 75, da Lei nº. 4.320/64, a finalidade do controle da execução orçamentária compreenderá a legalidade dos atos de que resultem a arrecadação da receita ou a realização da despesa; o nascimento ou a extinção de direitos e obrigações; a fidelidade funcional dos agentes da administração responsáveis por bens e valores públicos; o cumprimento do programa de trabalho, expresso em termos monetários e em termos de realização de obras e prestação de serviços. No âmbito governamental, portanto, pode-se distinguir dois tipos de controles que são executados na administração pública: controles externo e interno. O interno quando exercido dentro da própria administração, ou seja, por agentes do mesmo poder; e o externo exercido por órgãos independentes desse poder. Pode-se afirmar que os governantes, desde a época do Brasil colonial, observavam a premente necessidade de controle, o que legalmente foi viabilizado a partir da Lei 4.320/64, artigos 75 a 82. Posteriormente, pela Constituição Federal de 1988, artigo 74; e mais recente a Lei Complementar 101/00 (LRF), cujo objetivo, consoante Reis (2003:166) “é através do exercício pleno do controle evitar que as entidades governamentais desperdicem os recursos que lhes são oferecidos pela sociedade, e se endividem mais do que o seu próprio lastro financeiro permite”. Referida legislação ampliou e melhorou a ação do controle substantivo. A busca pela eficiência na gestão pública brasileira e pelo equilíbrio fiscal nas contas públicas ganhou impulso no início de 1993, passando os governantes a terem uma preocupação maior com o controle na administração pública o que implica em se afirmar na importância do controle das finanças públicas nacionais razão pela qual pretende-se, com o presente trabalho, enfocar o assunto expondo sua relevância para o momento atual brasileiro. 2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA No que se refere à divisão do território nacional, à divisão de poderes, à forma de governo, o modo de investidura dos governantes, os direitos e garantias dos governados, a organização estatal é matéria constitucional. As disposições constitucionais moldam a organização política do Estado e, por intermédio de legislação complementar e ordinária, a organização administrativa das entidades estatais, de suas autarquias e entidades paraestatais visando a execução desconcentrada dos serviços públicos e outras atividades de interesse coletivo. No modelo federativo brasileiro as entidades estatais são a União, os Estados-membros, os municípios e o Distrito Federal. Observe-se que governo e administração pública não se confundem, portanto, existe uma distinção entre ambos. O governo é o conjunto de poderes e órgãos constitucionais. A administração pública é o conjunto de órgãos instituídos para a consecução dos objetivos do governo. É o desempenho permanente e sistemático, legal e técnicos dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da coletividade. É o aparelhamento do Estado preordenado à realização de seus serviços objetivando a satisfação das necessidades coletivas. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 11 Stênio da Silva Moreira 2.1 FUNÇÕES DOS PODERES De acordo com a Constituição Federal de 1988, artigo 2º, o Estado brasileiro se divide em três esferas de poder distintas, independentes e harmônicas: Legislativo, Executivo e Judiciário. A organização estatal brasileira divide-se em 3 esferas político-administrativas: Federal, Estadual e Municipal. A organização federal compõe-se do Poder Executivo, exercido pelo Presidente da República, auxiliado pelos Ministros de Estado e tendo ainda o Poder Legislativo – exercido por um sistema bicameral, o Congresso Nacional - e o Poder Judiciário, consoante os artigos 4º. e 5º., do Decreto-lei nº. 200/67, de 27 de fevereiro de 1967. A estadual possui estrutura simétrica com a administração federal, sendo o Poder Legislativo unicameral, o Poder Executivo exercido pelo Governador de Estado, com o auxílio dos Secretários de Estado, e o Poder Judiciário. Quanto ao municipal, possui apenas os Poderes Executivo e Legislativo. As funções típicas dos Poderes são, portanto, a legislativa, a administrativa e a jurisdicional. A função administrativa é a mais ampla e abrangente. É através desta função que o Estado promove a gestão de todos os seus interesses, bem como os da população. É desempenhada por todos os Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios e abrange todos os órgãos que, na gestão de interesses de Estado ou da coletividade, não estejam atuando legislativa ou jurisdicionalmente. 2.2 ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA A administração pública pode ser considerada como o universo de órgãos e pessoas que desempenham a função administrativa e compreende a administração direta e a indireta. A administração direta é composta dos órgãos dos Poderes políticos dos entes da federação que exercem atividades administrativas. O Poder Executivo, incumbido da função administrativa, que é típica deste Poder, possui uma estrutura mais complexa, definida pela legislação pertinente e por atos próprios. Os Poderes Legislativo e Judiciário definem, por atos próprios, sua estrutura orgânica. A estrutura do Poder Executivo, em relação à administração direta, compõe-se de órgãos de três classes: a chefia do governo, os órgãos de assessoria direta ou de chefia, tais como, Casas Civil e Militar, procuradorias e defensorias, etc., e os ministérios ou secretarias, como órgãos de ação setorial. Referida estrutura é semelhante nas três esferas de governo: União, estados e municípios. A administração indireta é composta por pessoas jurídicas, ou entidades, vinculadas à administração direta, que executam atividades administrativas de interesse do Estado, de forma descentralizada. Possuem personalidade jurídica própria e compreendem as seguintes categorias de entidades: autarquias; empresas públicas; sociedades de economia mista; e fundações. 2.3 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS A administração pública é regida por vários princípios emanados da Constituição e das diversas leis relativas à sua organização. 12 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública São princípios constitucionais aplicáveis obrigatoriamente às administrações direta e indireta de todas as esferas de governo: legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência. De acordo com o artigo 6º, do Decreto-lei nº. 200/67, planejamento, coordenação, descentralização, delegação de competência e controle são os princípios básicos que devem nortear a atividade operacional na administração pública. Consoante Albuquerque (2002), a função de planejar como um processo racional para definir objetivos e meios de atingi-los, ou seja, a formulação sistemática de um conjunto de decisões, devidamente integrado, que expressa os propósitos e condiciona os meios para alcançá-los. Planejar é, logicamente, o requisito primário mais elementar da administração e consiste na ordenação sistemática da conduta para a consecução de determinados propósitos. Se não houver um mínimo razoável de deliberação que as oriente, as ações não merecem o qualitativo de administrativas. O processo de programar é parte necessária da função administrativa, segundo Albuquerque (2002). A ação governamental obedecerá a planejamento que vise a promover o desenvolvimento econômico e social do País, do Estado ou do município e a segurança nacional, norteando-se segundo planos e programas gerais, setoriais e regionais de duração plurianual elaborados através de órgãos de planejamento sob a orientação e a coordenação dos Chefes de Estado. De acordo com o artigo 165, da Constituição Federal, o planejamento governamental é retratado financeiramente em três instrumentos básicos: as Leis de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o Plano Plurianual (PPP) e o Orçamento Anual (LOA). As atividades da administração pública e especialmente a execução dos planos de programas serão objeto de permanente coordenação e será exercida em todos os níveis da administração mediante a atualização dos responsáveis diretos pelas tarefas através de realização sistemática de reuniões com os demais responsáveis envolvidos e a instituição e funcionamento de comissões de coordenação em cada nível administrativo, de acordo com os artigos 8º. e 9º., do Decreto-lei nº. 200/67. A descentralização pressupõe a existência de agentes públicos investidos de poderes necessários para exercitar a atividade pública e será posta em prática em três planos principais seja na área federal, estadual ou municipal: dentro dos quadros da Administração Federal, Estadual ou Municipal; da Administração Federal, Estadual ou Municipal para as respectivas unidades, quando estejam devidamente aparelhadas e mediante convênio; e da Administração Federal, Estadual ou Municipal para a esfera privada, mediante contratos e concessões. É facultado às autoridades da administração pública delegar competência para a prática de atos administrativos, conforme o previsto em regulamentos. O ato de delegação indicará com precisão a autoridade delegante e a autoridade delegada e as atribuições objeto da delegação. A delegação de competência é considerada por Castro (2002) como uma técnica de descongestionamento e será utilizada com o objetivo de assegurar maior rapidez e objetividade às decisões, situando os agentes públicos próximos dos fatos, pessoas ou problemas. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 13 Stênio da Silva Moreira O controle das atividades administrativas é um dos meios pelos quais se exercita o poder hierárquico, isto é, os órgãos superiores controlam os inferiores fiscalizando o cumprimento das normas e regras que regem cada sistema. Deve ser exercido em todos os níveis e em todos os órgãos. Os documentos relativos à escrituração dos atos de receita e da despesa ficarão arquivados no órgão de contabilidade analítica e a disposição das autoridades responsáveis pelo acompanhamento administrativo e fiscalização financeira e dos agentes incumbidos do controle externo, de competência do Poder Legislativo e dos Tribunais de Contas. Diante do exposto, observa-se a importância do sistema de planejamento, da programação e do controle orçamentário-financeiro, por tratar-se de sistema de formulação de programas de governo, a sua execução e controle. Ao sistema compete também a tarefa de avaliar a execução dos planos e realizar os ajustes necessários. O orçamento compatibiliza as metas com os recursos financeiros disponíveis, exigindo-se que os programas de trabalho nele constantes sejam quantificados em termos físicos e financeiros. A mensuração em termos físicos e financeiros é, sobretudo, indispensável para permitir a elaboração de um esquema lógico e prático de acompanhamento da execução dos programas e de avaliação dos resultados através do exercício dos controles interno e externo. 3 O CONTROLE NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA 3.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE O “CONTROLE” A administração de uma entidade pública ou privada é exercida através de ações coordenadas e planejadas, denominadas de funções administrativas. Estas funções, segundo Fayol, apud Reis (2000), são a previsão, a organização, a coordenação, a direção e o “controle”. A função do controle é indispensável para acompanhar a execução de programas e apontar suas falhas e desvios; velar pela boa utilização, manutenção e guarda dos bens patrimoniais; verificar a perfeita aplicação das normas e princípios adotados e constatar a veracidade das operações realizadas. A função do controle exige a atenção da administração voltada para a execução de planos e programas, para que metas e objetivos previamente delineados sejam atingidos, consoante Reis (2000). Observe-se que a função de controle está intimamente relacionada com a administração que, ao exercer aquela função, analisa e avalia os resultados obtidos, compara-os com o que foi planejado ou previsto, objetivando verificar os resultados e sanar possíveis falhas que possam ter ocorrido. Como qualquer atividade administrativa, o controle precisa ser planejado considerando as peculiaridades da entidade tais como: objetivos; forma e origem jurídica; dimensão; e volume e natureza das operações. 14 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública O controle planejado permite responder questões tais como, o que controlar; como; porque; e onde. O controle exerce, na administração sistêmica, papel fundamental no desempenho eficaz de qualquer organização. É através do controle que se pode detectar eventuais desvios ou problemas que podem ocorrer durante a execução de um trabalho, possibilitando a adoção de medidas corretivas para que o processo se reoriente na direção dos objetivos traçados pela organização. Tratando-se de uma função administrativa, o controle deverá ser exercido em todas as atividades, visando atingir as metas com a máxima eficiência, eficácia e economicidade. 3.2 O CONTROLE NA EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA Os primeiros vestígios de organização de Orçamentos e Contabilidade Pública no Brasil, datam do período colonial, a partir da chegada de D. João VI à Colônia. Tal medida, naquela época, deveuse a premente necessidade interna do País para prestar informações à Inglaterra relativas às exigências contratuais para concessão de empréstimos, bem como para um maior controle dos tributos com a abertura dos portos brasileiros. Objetivando sanar as dificuldades existentes, foi criado por D. João VI o Erário Régio e o Conselho da Fazenda para organizar a elaboração dos orçamentos e a Contabilidade da Colônia, através do Alvará de 28 de junho de 1808. De 1808 até 1919 diversos textos legais preconizaram a adoção de uma contabilidade organizada empregando o método de escrituração por partidas dobradas e utilizando os Livros Diário e Razão e Contas Correntes. Fato relevante ocorreu naquela fase, em 1914, quando o Ministro da Fazenda não teve condições de realizar operações de créditos com banqueiros ingleses em face da inexistência de uma contabilidade organizada e consistente, que não possibilitava fossem verificadas quais as garantias que o governo brasileiro teria para oferecer. A contabilidade do Tesouro Nacional se resumia à escrituração do Livro Caixa. A partir desse fato, os profissionais da área contábil somaram esforços para que se tornasse realidade a implantação de técnicas modernas de contabilidade na Administração Pública como instrumentos de registro, orientação e controle dos atos de gestão. Foram aprovadas legislações que viabilizaram dotar o País de controles internos através da Contabilidade, inclusive criando-se a Controladoria Central da República em 1924. Consoante Silva (2002), desde 1922, os estudos dos sistemas de controle no Brasil revelam que foi estabelecido que o controle no setor público envolvia a ação do Tesouro Nacional, a Controladoria Geral da República e o Tribunal de Contas da União. O controle do orçamento, naquela época, processava-se em três sistemas: controle administrativo, controle judiciário e controle legislativo. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 15 Stênio da Silva Moreira O controle interno, de acordo com Silva (2002), sempre atuou examinando a validando os aspectos da legalidade e da formalidade. O órgão contábil era estruturado segundo os produtos decorrentes de sua ação institucional, para atender aquele objetivo. Portanto, era dividido em contabilidade orçamentária, financeira e patrimonial, revelando preocupação com esses produtos finais, balanço orçamentário, financeiro e patrimonial, em detrimento de uma atuação voltada para o estudo e análise dos processos internos de atuação do setor público. Conclui-se que os governantes estavam mais interessados em atender formalmente aos órgãos de fiscalização externa do que com a avaliação da forma como os administradores atuavam na prestação dos serviços públicos. Após 40 anos, foi promulgada a lei nº. 4.320, de 17 de março de 1964, que estatui normas gerais de direito financeiro para a elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos municípios e do Distrito Federal, tendo sido iniciada uma nova realidade para a contabilidade pública no Brasil. Com o advento do Decreto-lei nº. 200/67, que aprovou a reforma administrativa federal, o sistema de controle interno experimentou uma mudança significativa, passando a dar ênfase ao processo de fiscalização financeira. Foram criadas as inspetorias gerais de finanças, como órgãos do sistema de administração financeira, contabilidade e auditoria, em substituição à Contadoria Geral da República. O governo federal, em abril de 1986, criou a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), na estrutura do Ministério da Fazenda, objetivando promover a modernização e integração dos sistemas de acompanhamento e controle da execução orçamentária, financeira e patrimonial. A STN passou a comandar o movimento financeiro da União e as antigas inspetorias foram denominadas de Secretarias de controle interno. Essa nova estrutura modificou a ênfase de controle e auditoria para o foco aos aspectos financeiros do orçamento e, em conseqüência, sem preocupação com os resultados decorrentes da execução dos programas de governo. Com a implantação do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI), em 1987, foi iniciada uma nova era na contabilidade pública brasileira, surgindo ainda, nos estados e municípios, sistemas informatizados que de alguma forma acompanhavam os procedimentos lógicos, inclusive o plano de contas daquele sistema. Apesar da mudança de enfoque, Silva (2002) é enfático ao afirmar que tal mudança representou sensível melhora em relação aos modelos anteriores, entretanto, sob o aspecto da contabilidade e da auditoria governamental, continha um defeito fundamental, devido o órgão central de controle ser subordinado à Secretaria do Tesouro Nacional. Portanto, o responsável pela gestão financeira era também responsável pela auditoria e contabilidade, ferindo um dos princípios básicos de qualquer sistema de controle: a segregação das funções contábeis e de auditoria da função financeira. Com a implantação daquele sistema, o Tesouro Nacional passou a ter um maior controle da programação financeira e a integrar esse controle à execução orçamentária e à contabilidade dos órgãos e entidades públicas federais. A Constituição Federativa do Brasil, de 1988, trouxe como inovações ao controle da execução orçamentária e financeira, entre outras, a preconização do controle interno em cada poder e de um 16 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública controle externo que seria exercido pelo Legislativo, a necessidade da transparência dos gastos públicos e uma Lei Complementar definindo as responsabilidades na gestão fiscal. Com a criação da Secretaria Federal de Controle Interno (SFC), através da Medida Provisória nº. 480, de 27 de abril de 1994, reeditada periodicamente, foi reformulado o Sistema de Controle Interno do Poder Executivo Federal, que vem servindo de modelo para a implantação dos sistemas de controle nas demais esferas de governo. A SFC tem a precípua função de controlar os gastos públicos. Sua criação representou a introdução da visão do controle voltada para o exame de economia, eficiência e eficácia na gestão pública além de representar uma significativa mudança no controle público, pois passou a priorizar as ações preventivas, com o afastamento gradativo do controle da legalidade e da formalidade. Através da Lei Complementar nº. 101, a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 04 de maio de 2000, que tem por objetivo principal estabelecer normas de finanças públicas voltada para a responsabilidade fiscal, aplicada à União, estados, municípios e Distrito Federal, e mecanismos para o cumprimento de objetivos e metas, consoante os artigos 8º. e 9º., ampliou-se e melhorou-se a ação do controle substantivo, previsto na Lei 4.320/64, inciso III, do artigo 75º. De acordo com Reis (2003), ocorreu um grande avanço no que respeita ao controle da execução orçamentária, estabelecido no artigo 9º., parágrafo 4º., da LRF, que dispõe sobre a avaliação quadrimestral dos resultados obtidos em relação às metas fiscais e sua conseqüente demonstração em audiência pública, tornando, assim, transparentes as informações sobre a gestão governamental. Tratando-se dos municípios, este dispositivo deve ser levado em consideração conjuntamente com o disposto no artigo 31º., parágrafo 3º. de nossa Carta Magna. 3.3 SISTEMAS DE CONTROLE INTERNO E EXTERNO No âmbito da administração pública a função do controle é exercida em decorrência de imposições legais, destacando-se dois tipos de controles que são executados: o interno e o externo. Reis (2003) enfatiza que: “Tanto pelo preceito constitucional, inclusive da LC nº. 101/2000, como pelo sistema da Lei 4.320/64, o controle se divide hoje, no Brasil, basicamente em controle interno, controle interno integrado e controle externo.” Através dos artigos 75 a 82, a Lei 4.320/64 estabeleceu que o controle da execução orçamentária e financeira será exercido pelo controle interno e externo que compreenderá a legalidade, fidelidade funcional e o cumprimento de metas. O fundamento do controle interno está previsto no artigo 76, da Lei 4.320/64 e na Constituição Federativa, artigo 74 e seus incisos e parágrafos. Isto significa que o sistema opera de forma integrada muito embora cada poder organize e mantenha o seu próprio controle interno. Tal sistema deverá ser coordenado pelo Poder Executivo a quem competirá, ao final do exercício, preparar a prestação de contas. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 17 Stênio da Silva Moreira Referido controle deverá ser exercido pelos poderes de forma integrada e tendo por objetivos avaliar o cumprimento das metas previstas no plano plurianual, a execução dos programas de governo e dos orçamentos da União; comprovar a legalidade e avaliar os resultados quanto à eficácia e eficiência de gestão orçamentária, financeira e patrimonial nos órgãos e entidades da administração pública, conforme a esfera governamental, bem como da aplicação de recursos públicos por entidades de direito privado; exercer o controle das operações de crédito, avais e garantias e demais direitos e haveres da entidade governamental; e apoiar o controle externo no exercício de sua missão institucional. Pode-se verificar a universalização do controle, que abrange todos os atos da administração, sem exceção, quer se tratando das receitas ou das despesas. Consoante a LRF e o artigo 99, da Lei 4.320/64, o sistema de controle interno deverá considerar a apropriação e apuração de custos e de avaliação de resultados, para manter a integridade do patrimônio, portanto, deve a sua organização, implantação e implementação, prioritariamente, definir: a área de controlar; o período em que as informações devem ser prestadas; quem informar a quem; e o que deve ser informado, conforme Reis (2003). Observe-se que tanto a Constituição Federal quanto a Lei 4.320/64 e a LRF enfatizam nos respectivos textos, como já afirmado, que a contabilidade gerencial e financeira deverá ter por objetivo preparar informações no sentido de verificação do cumprimento das metas estabelecidas e consequentemente do objetivo da entidade. A legislação inovou, instituindo o que se denomina de controle gerencial, ou contabilidade gerencial, não se preocupando exclusivamente com os aspectos legais. Trata-se, como já observado, do controle das metas e dos objetivos do plano plurianual, nas diretrizes orçamentárias e no orçamento, ou seja, acompanhar, analisar e avaliar a execução orçamentária em termos físicos. A Lei 4.320/64, em seu artigo 77, dispõe que a verificação da legalidade dos atos de execução orçamentária será prévia, concomitante e subsequente. A verificação prévia pode ser exercida através das leis específicas, dos contratos, convênios, acordos ou ajustes e ainda do empenho da despesa. Quanto à verificação concomitante, pode ser realizada através do conjunto de demonstrações e de relatórios periódicos previstos na Lei 4.320/64 e LRF, e Portarias STN nºs. 516 e 517, de 14 de outubro de 2002, que reeditaram a 2ª. Edição do “Manual de Elaboração do Relatório Resumido da Execução Orçamentária” e do “Manual de Elaboração do Relatório de Gestão Fiscal”, respectivamente. Em relação à verificação subseqüente, os procedimentos serão realizados após conclusão do projeto ou encerramento do exercício financeiro, através da prestação de contas. O artigo 78º. da Lei nº. 4.320/64, trata do levantamento, tomada ou prestação de contas anual, quando instituído em lei, ou por fim de gestão, e que poderá ocorrer , a qualquer tempo. Observe-se, que a verificação subseqüente feita com base nas informações contidas nas demonstrações contábeis, orçamentárias, financeiras e patrimoniais que comporão a prestação de contas dos gestores responsáveis pela guarda e custódia de bens pertencentes ou confiados à fazenda pública, de cada um dos chefes do poder e da entidade jurídica, é uma das exigências da LRF. 18 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública A obrigatoriedade da manutenção e operacionalização do sistema de controle interno integrado, com vistas àqueles objetivos, é no sentido de assegurar à administração a credibilidade, a sua continuidade e os benefícios em favor da coletividade. Portanto, as entidades governamentais, de direito público interno ou de direito privado, estão obrigadas a se organizarem devidamente a fim de atenderem às suas finalidades precípuas e às determinações legais e constitucionais. A organização de um sistema de controle interno deverá considerar as peculiaridades ou características da entidade, conforme enfocado no item 3.1. De acordo com Reis (2003), considerando-se o planejamento do controle no campo da administração pública, o sistema pode ser estruturado nas seguintes partes, ou seja: a) controle periférico, que se constitui de órgãos atuando articuladamente com os órgãos centrais de controle; e, b) controle central, constituída dos órgãos de contabilidade, planejamento e auditoria interna. O sistema de controle integrado será estruturado: a) Controle periférico: órgãos de controle do patrimônio; de pessoal; do material; das receitas; do movimento de numerário; dos contratos; das obras públicas; procuradoria fiscal; órgãos que compõem a estrutura administrativa que executam os seus próprios orçamentos; órgãos ou comissões que controlam a programação financeira; b) Controle central: planejamento e orçamento; contabilidade central; e auditoria interna. Para que o sistema funcione harmoniosamente faz-se necessário a existência de instrumentos adequados tais como: Plano geral de contas; lei de preços; código tributário; cadastro geral de contribuintes; programação financeira; orçamento-programa, entre outros. O controle externo é exercido pela União através do Congresso Nacional, auxiliado pelo Tribunal de Contas da União; nos estados pelas assembléias Legislativas, com o auxílio dos respectivos Tribunais de Contas Estaduais; e nos municípios, pelas Câmaras Municipais de Vereadores auxiliadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios, outro órgão equivalente, instituído pelo legislativo municipal. São variáveis-chave de controle do regime de gestão fiscal responsável consoante a LRF: endividamento público; aumento dos gastos com a seguridade e demais ações de duração continuada; gastos com pessoal; e administração financeira. Consta ainda a ser observado, segundo aquela Lei, restrições ao endividamento público; disciplinamento das despesas; normas gerais sobre administração financeira; normas próprias de cada ente da federação; declaração de responsabilidade fiscal; correção dos desvios e normas coercitivas; transparência, divulgação e fiscalização; dívida pública, dívida mobiliária e concessão de garantias; e crimes de responsabilidade fiscal. A propósito da transparência da gestão fiscal, o controle da sociedade sobre o uso do dinheiro público é peça básica da LRF e, para tanto, estabelece meios a serem observados, o mesmo ocorrendo em relação às novas formas de escriturar e consolidar as contas públicas e consolidação das contas de todas as esferas de governo. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 19 Stênio da Silva Moreira Através do “Relatório Resumido de Execução Orçamentária e Financeira e Relatório de Gestão Fiscal” os controles interno e externo verificarão, periodicamente, a observância dos limites e condições da LRF. Referidos demonstrativos ensejam o controle simultâneo da execução orçamentária. O cumprimento da LRF será fiscalizado pelos Tribunais de Contas, conforme artigo 59 daquela legislação. O fundamento do controle externo está previsto nos artigos 32 e seus parágrafos, 70, 71, seus incisos e parágrafos, 163 a 168, seus incisos e parágrafos, na Constituição brasileira; nos artigos 81 e 83, da Lei 4.320/64; bem como as disposições contidas na LRF. Terá por objetivo a verificação da probidade da administração, guarda e legal emprego dos recursos públicos e o fiel cumprimento da Lei do Orçamento Anual (LOA). Seja qual for a esfera governamental em que se situe, o Executivo anualmente prestará contas ao Legislativo, no prazo estabelecido pelas Constituições Federal e Estaduais, ou nas Leis Orgânicas Municipais. O controle externo é exercido não apenas sobre os órgãos da administração direta mas também sobre as entidades da administração indireta bem como sobre todos os agentes da administração, consoante as disposições constitucionais. 4 CONTABILIDADE: UM DOS INSTRUMENTOS DO CONTROLE A legislação atualmente em vigor, seja na área Federal, Estadual, Municipal ou no Distrito Federal, tem na Lei nº. 4.320/64 os seus fundamentos básicos em contabilidade, em especial, no Título IX, Capítulos I a IV. Entretanto, a Constituição Federal de 1988, o Decreto-lei nº. 200/67, a LRF, as Portarias STN nºs. 516 e 517, de 14 de outubro de 2002, entre outros, dispõem também sobre normas de organização das entidades governamentais no sentido de disponibilizar informações objetivando subsidiar as decisões dos gestores nas áreas social, econômica e financeira, atendendo às premissas básicas do controle contábil. A contabilidade aplicada à administração pública tem como base a Lei 4.320/64, que estatui normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos estados, dos municípios e do distrito federal. Registra a previsão da receita e a fixação da despesa, estabelecida no Orçamento Público, aprovado para o exercício, escritura a execução orçamentária da receita e da despesa, faz a comparação entre a previsão e a realização das receitas e despesas, controla as operações de crédito, a dívida ativa, os valores, os créditos e obrigações, revela as variações patrimoniais e mostra o valor do patrimônio. A contabilidade pública está interessada também em todos os atos praticados pelo administrador, sejam de natureza orçamentária (Previsão da receita, fixação da despesa, empenho, descentralização de créditos, etc.; ou sejam meramente administrativos (contratos, convênios, acordos, ajustes, avais, fianças, 20 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública valores sob responsabilidade, comodatos de bens, etc.;) representativos de valores potenciais que poderão afetar o patrimônio no futuro. A contabilidade pública não está interessada somente no patrimônio e suas variações, mas também, no orçamento e sua execução. Deduz-se, através da Lei 4.320/64, que a contabilidade pública está interessada não apenas em registrar os fatos contábeis mas registrar, também, os atos contábeis praticados pelo administrador que poderão alterar qualitativa e quantitativamente o patrimônio. O objetivo da contabilidade aplicada à administração pública é o de fornecer à administração informações atualizadas e exatas para subsidiar as tomadas de decisões, aos órgãos de controle interno e externo para o cumprimento da legislação e às instituições governamentais e particulares, informações estatísticas e outras de interesse dessas instituições. Pode-se observar, pelo já enfocado anteriormente, a evolução da contabilidade pública, de 1922, com código de contabilidade da união, para o disciplinamento da Lei nº. 4.320/64. Não se pode também deixar de citar as transformações substanciais ocorridas na administração pública brasileira, em especial, a partir da década de 90. Consoante o artigo 165, parágrafo 9º, inciso II, da Carta Magna Nacional de 1988, caberá à Lei Complementar (LC) “estabelecer normas de gestão financeira e patrimonial da administração direta e indireta, bem como condições para a instituição e funcionamento de fundos”. Entretanto, como referida LC não foi ainda promulgada, vêm prevalecendo as regras da Lei 4.320/64, que inclusive conflitam não apenas com a Constituição Federal mas também com LRF. Portanto, face à ausência de aprovação da LC, em referência, e em razão de não ser possível prever até quando o Congresso Nacional concluirá os seus trabalhos em relação ao projeto já existente, não vem a sociedade brasileira podendo disponibilizar os resultados na aplicação dos recursos pelos gestores através de informações e demonstrações contábeis úteis e de qualidade. Observe-se que as informações e demonstrações contábeis elaboradas pelos órgãos da administração pública brasileira com base na Lei 4.320/64 representam a situação financeira e patrimonial daqueles entes públicos. Entretanto, se aquela legislação não atende mais, na atualidade, aos objetivos a que se propunha quando foi promulgada, urge que o legislador solucione o impasse com a atualização daquela lei. A propósito da Lei 4.320/64, existe tramitando no Congresso Nacional desde 1996, o Projeto de Lei Complementar nº. 136, que foi amplamente discutido na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, que o aprovou. Este PLC objetiva reformular a atual Lei 4/320/64 sobre as normas gerais de direito financeiro, portanto, atualizar e adequar os procedimentos ali contidos à Constituição de 1988, artigo 165. Aquele PLC/96 traz alterações significativas e abrangentes quanto aos aspectos contábeis. O substitutivo visa conceber a contabilidade como instrumento de controle de custos e fonte de informações para tomadas de decisões. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 21 Stênio da Silva Moreira Consoante Viveiros (1998, p. 42), “ a Contabilidade deverá informar sobre os resultados obtidos pelas unidades orçamentárias, o custo de suas atividades e os resultados físicos e financeiros obtidos em cada setor ou área de ação governamental e o resultado da gestão da entidade sobre o patrimônio público sob sua responsabilidade.” Tomando por base o PLC 135/96 pode-se resumir os destaques sobre aspectos contábeis em relação à Lei 4.320/64: Art. 126 – a contabilidade governamental será feita de acordo com os princípios fundamentais de contabilidade vigentes no Brasil; Art. 136, parágrafo 1º - a escrituração utilizará os livros Diário e Razão; Art. 138 – nova classificação aos grupos de contas de registro e evidenciação do patrimônio incorporando o modelo utilizado pela contabilidade comercial.; Arts. 139 e 145 – nas publicações das demonstrações contábeis deverão constar os valores correspondentes das demonstrações do exercício anterior; Art. 149 – a contabilização de depreciação, amortização ou exaustão. Para estudiosos e pesquisadores, o regime contábil das instituições governamentais brasileiras é misto, segundo o artigo 35, da Lei nº. 4.320/67 bem como o artigo 50 da Lei Complementar 101/00 (LRF), ou seja, regime de caixa para as receitas e regime de competência para as despesas. A LRF ratificou tal regime. Entretanto, conforme observa Pires (2002, p. 228): “ Os contadores públicos não podem esquecer que têm de respeitar os princípios consagrados pela contabilidade, sendo um desses princípios o de competência que estabelece que as receitas e as despesas deverão ser consideradas em função do seu fato gerador e não em função do recebimento da receita ou do pagamento da despesa.” Um dos instrumentos com que a administração pública conta para o exercício da função de controle é a contabilidade. Para cumprir essa função a contabilidade governamental deverá organizarse objetivando viabilizar informações úteis, consistentes e de qualidade. O controle contábil deverá ser analisado sob os aspectos substantivo e adjetivo, isto sob o ponto de vista administrativo. No exercício da função de controle a contabilidade utiliza-se dos controles gerencial ou operacional; escritural; e documental. Com a LRF foi atribuído ao contabilista um valor especial, aquela legislação reconheceu a importância das informações e demonstrações contábeis e, disciplinou os procedimentos de sua elaboração, divulgação, forma e prazos. As informações e demonstrações contábeis não se destinam apenas aos gestores das finanças públicas, mas também à outros usuários, especialmente à sociedade e ao cidadão brasileiro, para que possam ser avaliados o desempenho dos governantes na aplicação dos recursos colocados a ao seu dispor através dos tributos arrecadados. Pode-se observar, diante do exposto, que a legislação brasileira universalizou o controle contábil, inserindo-o no contexto de um sistema administrativo de controle interno denominado de sistema de controle interno integrado. 22 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 A importância do Controle Interno na Administração Pública brasileira e a contribuição da Contabilidade como principal instrumento de Controle na busca da eficiência da Gestão Pública 5 CONCLUSÃO A contabilidade pública vem evoluindo aceleradamente, em particular, com o salto dado 42 anos depois, do código de contabilidade da União, de 1922, para o disposto na Lei nº.4320/64, que disciplinou as normas e procedimentos de direito financeiro e estabeleceu princípios e premissas para elaboração dos balanços e do acompanhamento e controle da execução orçamentária e financeira. Apesar da Constituição de 1988 ter tido artigos que foram total ou parcialmente regulamentados, outros não o foram, o que gerou um descompasso entre as Lei nº.4.320/64 e a LRF. Portanto, toda a estrutura das contas públicas inclusive o plano de contas está sendo definido pelas Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e Secretaria de Orçamento e Finanças (S.O.F.), consoante o artigo 67 da LRF. Tendo em vista as observações acerca dos aspectos contábeis constantes da Lei 4.320/64 estarem defasados em relação ao cenário nacional atual, pode-se afirmar que, desde que o Projeto de Lei Complementar nº. 135 de 1996, que traz alterações significativas e abrangentes quanto aos aspectos contábeis e se encontra tramitando no Congresso Nacional, seja aprovado, que a contabilidade pública tornar-se-á o melhor e mais eficiente instrumento de controle da administração pública brasileira. Referido substitutivo visa conceber a contabilidade como instrumento de controle de custos e fontes de informações para tomadas de decisões. Consoante o Conselho Federal de Contabilidade e o Instituto Ethos: (2001, p. 15) “O profissional de Contabilidade, pela característica de seu trabalho, se traduz em agente efetivo de apoio e de orientação ao gestor de recursos públicos, por estar em permanente contato com a legislação e com as informações contábeis tendo, por isso, as condições de fornecer ao dirigente público os indicadores necessários a uma competente e segura decisão. ... Além dos conhecimentos técnicos, o compromisso do contabilista estende-se ao campo ético.” Conclui-se que apesar de todos os avanços proporcionados pela Constituição Federal de 1988, pela LRF e outros normativos específicos, o controle interno ainda está carente de legislações e/ou outras medidas governamentais para que possa ser consolidada e atingir os objetivos das finanças públicas nacional. Entre outras providências fundamentais , urge que se aprovado e sancionado o substitutivo da Lei 4.320/64, e atendido o constante no art. 67º, da LRF, em caráter de urgência, inclusive a criação do conselho de gestão que será outro excelente controle para as finanças públicas do País. Abrantes (2001, p. 7) é enfático quando afirma: “Cremos que só o compromisso dos administradores públicos, com a estreita colaboração dos contabilistas, fará com que os princípios de responsabilidade fiscal sejam cumpridos.” Tão logo se materialize a aprovação do substitutivo nº 135/96, a contabilidade se fará presente como o melhor e mais eficiente instrumento de controle interno contribuindo com informações e demonstrações contábeis de qualidade geradas em seus Sistemas para subsidiar informações úteis aos senhores gestores públicos brasileiros. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 23 Stênio da Silva Moreira 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANTES, José Serafim. 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Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 9-25, jan./jul. 2005 25 WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI Educação Empresarial: Uma Proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações Marcos Antonio Martins Lima* RESUMO: O presente artigo tem o propósito de CT:: The present article has the purpose ABSTRACT CT ABSTRA apresentar uma proposta de taxonomia para os of present a proposal of taxonomia for the programs programas de educação empresarial. Essa of business education. That classification of classificação de programas busca demonstrar as programs seeks to show the peculiar nuances of diferentes nuances dos inúmeros tipos de programas the educational programs kinds endless number in educacionais em prática dentro das organizações e practice inside the organizations and in the market no mercado de treinamentos empresariais e promover of business training and promote a handling um tratamento diferenciado para os processos de differentiated for the trials of planning, organization, planejamento, organização, execução e avaliação execution and evaluation of these programs from destes programas a partir de suas especificidades. its especificidades. Verifies-itself, hodiernamente, Verifica-se, hodiernamente, emprego indevido para innapropriate job for these kinds of programs or estes tipos de programas ou eventos educacionais, educational events, generating a verdadei I laugh gerando uma verdadeira confusão no uso técnico tangle in the technical use of we will have like de termos como congresso, seminário, convenção, congress, seminary, convention, conference, conferência, simpósio etc. symposium etc. Palavras-chave: Programas de Educação Corporativa; Educação Empresarial; Treinamento e Desenvolvimento (T&D). K ey ey--Words: Programs of Corporate Education; Business Education; Training and Development (T&D). * Professor do Curso de Pós-Graduação/Especialização em Administração de Recursos Humanos da UFC-FIEC-IELCOMPI Universidade Federal do Ceará – UFC/FACED – Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira – Doutorado em Educação – Núcleo de Avaliação Educacional Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 27 Marcos Antonio Martins Lima 1 INTRODUÇÃO Os vários anos de estrada do autor na coordenação, no desenvolvimento, na facilitação e na participação em programas educacionais de diversas organizações, fez constatar a necessidade de uma taxonomia para estes diferentes tipos de programas. Esse vácuo na literatura educacional e empresarial contribui para que o emprego de termos como congresso seja adotado ao invés de seminário, que um simpósio seja divulgado nas diversas mídias como sendo uma conferência e assim por diante. Porém, antes de desenvolvermos esta tipologia de programas educacionais torna-se necessário um nivelamento sobre os conceitos de educação empresarial, corporativa e organizacional. A educação corporativa tem por finalidade o desenvolvimento e educação de funcionários, clientes e fornecedores, com o objetivo de atender às estratégias empresariais de uma organização “como meio de alavancar novas oportunidades, entrar em novos mercados globais, criar relacionamentos mais profundos com os clientes e impulsionar a organização para um novo futuro” (MAISTER, 1999). A educação empresarial, apesar de englobar todos os programas sistematizados de educação realizados dentro das empresas, é utilizada aqui, em sentido mais restrito que educação organizacional ou educação corporativa. 2 PROPOSTA DE TAXONOMIA DE PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO EMPRESARIAL Ao nível de programas específicos, a educação empresarial compreende, aqui, os vários eventos educacionais realizados com a participação de profissionais de empresas. Segundo a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANUNCIANTES (s.d., p. 1), evento é um “acontecimento excepcional, de tempo determinado, gerador de grande envolvimento e mobilização de um grupo ou comunidade”. Esta mesma instituição reconhece a existência de uma grande variação de eventos e os classifica em quatro modalidades básicas: esportivos, artísticos, sociais e mercadológicos. Neste último bloco estão inseridos os eventos educacionais empresariais, que envolvem cursos, congressos, convenções, seminários, simpósios, painéis, fóruns, conferências, palestras, debates, mesas redondas, workshops, benchmarking e outros eventos de cunho educacional. Verifica-se que os diversos autores em Educação e em Administração não apresentam uma tipologia adequadamente estruturada para os diversos programas de educação empresarial. O Quadro 1, a seguir, representa uma proposta inicial de taxonomia para os programas de educação empresarial, baseada na agregação e estruturação de idéias isoladas de alguns autores (FERREIRA, 1985; CHIAVENATO, 1994, p. 430-434; VIEIRA DE CARVALHO, 1988; HAMBLIN, 1978) e na experiência empírica deste autor em projetos e estudos na área de educação empresarial. A coluna grupamento representa o conjunto de programas e a coluna programa educacional descreve os programas classificados no grupamento. 28 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações QUADRO 1: TAXONOMIA DE PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO EMPRESARIAL & %+ ( ) * , -. / 0 !" ' % #$ !" # ) / 1 - 2 -4 3 - 5 8 4 14 6 4 &- ; 4 7 4 9: ) : 9 " 4 6.# 7 : 3 2 " < ) 3 2 - + + )= 4 > %+ ) ' 3 + 3 3) ) ( ' - : . > 4 ?@ 2 3 ? 4 .A = B " ?) , - . > # ) + # ) -? * - Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 . -: 29 Marcos Antonio Martins Lima Ferreira (1985) e Yara Barreto (1995, p. 30-31) fazem uma classificação genérica dos programas de treinamento em dois grupos, segundo suas finalidades: funcional e correlato. O treinamento funcional é aquele que objetiva melhorar, modificar ou acrescentar hábitos ou atitudes relacionadas ao comportamento na função, na atividade profissional ou no exercício do cargo na relação homem/ função. Por outro lado, o treinamento correlato baseia-se no aprimoramento de conhecimentos ou habilidades que não estejam diretamente ligados a função profissional do indivíduo, mas que, se desenvolvidos, podem aperfeiçoar a qualidade do trabalho. Segundo o local de aplicação, os programas educacionais empresariais podem ser realizados de forma presencial, a distância, treinamento em serviço e misto. Os programas presenciais são aqueles que contam com a presença física de educador e educando e, geralmente, são realizados em sala de aula. Os programas de educação a distância utilizam tecnologia de ensino a distância procurando minimizar ou eliminar as dificuldades de deslocamentos mediante a redução de investimentos e ampliação do número de aprendizes atendidos. Atualmente, dentre as diversas tecnologias de educação a distância, encontram-se a rede internacional (internet) ou as redes internas das organizações (intranets) que permitem o desenvolvimento de programas de forma virtual, onde os conteúdos são colocados e aprendidos pelo educando de acordo com a sua disponibilidade e ritmo de aprendizagem. Os programas de treinamento em serviço (on-the-job-training) são sistemas estruturados e planejados de instrução no próprio local de trabalho. Várias técnicas, conhecidas como aprendizagem em ação, foram desenvolvidas para permitir a realização destes tipos de programas, dentre as principais destacam-se: TWI (Training within Industry) ou treinamento dentro da indústria, JIT (Job Intruction Training) que corresponde a uma primeira etapa do TWI e é um sistema de adestramento rápido para trabalhadores não-qualificados ou semiqualificados, treinamento vestibular (vestibule training) que é uma derivação do JIT e que acontece antes do treinando iniciar suas atividades em local fora do ambiente de produção normal da empresa, instrução programada onde o conteúdo da aprendizagem é programado por etapas de dificuldades que são superadas a partir de respostas corretas a questões formuladas, cada uma construída sobre a precedente (Paula Pinto In BOOG, 1994, p. 283-308). Os programas mistos são eventos educacionais que se utilizam da composição dos programas presencias, a distância e em serviço ou da combinação de, no mínimo, dois destes. Quanto ao espaço funcional que os aprendizes ocupam ou ocuparão após o evento, os programas podem ser de cunho gerencial, técnico-operacional ou técnico-especializado e comportamental ou atitudinal. Os programas gerenciais visam o desenvolvimento dos atuais e futuros gestores, executivos e demais dirigentes das organizações empresariais quanto a aquisição, internalização e mudança de conhecimentos, habilidades e atitudes inerentes ao novo papel da liderança nas empresas enquanto influenciadora “no processo de modelagem de comportamentos e de criação de um ambiente de comprometimento e motivação” (HRISTOV & SILVA In NERY, 1999, p. 74). Os programas técnicosoperacionais e especializados são dirigidos ao desenvolvimento dos técnicos, consultores internos e profissionais de áreas técnicas e operacionais das empresas e visam o aperfeiçoamento em seus campos de atuação. Os programas comportamentais ou atitudinais, por sua vez, apesar de não se referirem a espaços funcionais específicos, estão aqui classificados pela sua aplicação a qualquer cargo ou função. O objetivo principal destes programas é despertar ou promover a mudança de atitudes e comportamentos exigida atualmente aos profissionais, envolvem fatores psicológicos haja vista a aplicação de vivências que visam explorar os sentimentos e as emoções dos participantes. 30 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações Os programas educacionais, quanto ao ambiente da empresa, podem ser internos, externos (YARA BARRETO, 1995, p. 31) e (in company). Os internos são realizados no próprio ambiente da empresa ou que têm o seu planejamento, organização, controle e execução feita por profissionais da organização, porém os instrutores ou facilitadores podem ser da organização ou contratados externamente. Os programas externos ou abertos são aqueles promovidos por instituições especializadas que disponibilizam ou realizam programas educacionais para profissionais e empresas. Os eventos (in company) também são realizados por instituições especializadas, porém, para grupo seleto de participantes de uma organização cliente. Nestes casos os instrutores ou facilitadores são contratados externamente. Com relação ao negócio que a empresa desenvolve, os programas podem estar voltados para área fim ou (core bussiness), que são os programas relacionados ao negócio e a sua competência essencial (core competence); ou aqueles voltados para as áreas meio ou (back office), ou seja, áreas de suporte ao negócio da organização. Sob o enfoque da estrutura organizacional da empresa, os programas podem ser segmentados, quanto aos processos internos, em negocial ou comercial, produção, financeiro, atendimento ao cliente, tecnologia, marketing e comunicação, recursos humanos, logístico e segurança. Cabe explicitar, com mais detalhe, os eventos voltados para processos negociais e comerciais, pois estes programas visam aplicar técnicas de melhorias de vendas que buscam alavancar os negócios e resultados empresariais. Os demais estão relacionados aos conhecimentos técnicos das demais áreas, cabendo destaque para os programas de segurança no trabalho cujo interesse maior é reduzir e evitar acidentes laborais, utilização correta de equipamentos de segurança e aplicação de primeiros socorros. A educação tem papel fundamental para a conquista de competências essenciais nas organizações que buscam a ampliar sua competitividade empresarial com o aperfeiçoamento das competências profissionais de seus empregados, logo os programas, em nível de educação formal, podem ser segmentados de acordo com as políticas e leis educacionais predominantes no País. No Brasil, de acordo com a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, em seus artigos 21 e 44, a educação escolar compõe-se de educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; e educação superior, que abrange os seguintes programas: cursos seqüenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino; de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino; de extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. Para efeito da presente proposta de tipologia estruturada de programas de educação empresarial, quanto em nível de educação formal, estes programas podem ser: de nível fundamental, de nível médio, de nível superior (graduação) ou de nível superior (pós-graduação). Quanto em nível de aprendizagem, os programas educacionais, aplicados ao meio empresarial, podem ser de nível básico, avançado ou prático. O primeiro refere-se aos eventos cujo nível de conhecimentos é básico ou introdutório para a área ou assunto abordado. Contrariamente, os programas avançados caracterizam-se por abrangerem assuntos em maior grau de complexidade. Os programas de nível prático, diferente dos dois anteriores que priorizam os aspectos teóricos em seus conteúdos, são essencialmente voltados para a prática e o operacional, ou seja, são voltados para os procedimentos e processos de trabalho. Os programas podem ser divididos, quanto ao intercâmbio de práticas Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 31 Marcos Antonio Martins Lima empresariais, em (benchmarking) interno, (benchmarking) externo e visita técnica. Segundo a “International Benchmarking Clearinghouse (IBC)” apud Sociedade Latino Americana para a qualidade (1997), “o benchmarking é um processo sistemático e contínuo de medida e comparação das práticas de uma organização com as das líderes mundiais, no sentido de obter informações que a possam ajudar a melhorar o seu nível de desempenho. Ou seja, é uma técnica de observação e adaptação das melhores práticas das melhores empresas, que, no entanto, não deve ser confundida com a espionagem industrial”. É uma atividade de comparar um processo da organização com os líderes reconhecidos ou as best practices, inclusive de outros ramos, para identificar as oportunidades de melhoria da qualidade. O programas de benchmarking interno são voltados para o conhecimento de práticas internas da própria organização. Os programas de benchmarking externo têm como foco outras empresas com práticas de excelência no mesmo segmento ou em outro setor do mercado. As visitas técnicas, por sua vez, são visitas de profissionais especializados a outras organizações, a fim de conhecer equipamentos e processos de trabalho, porém com ou sem uma sistematização. Os programas de educação empresarial podem ser classificados, quanto a sua continuidade e adaptando-se a terminologia de Hamblin (1978, p. 87), em seriados e exclusivos. Os programas seriados fazem parte de uma série de programas idênticos e repetidos para diferentes turmas de educandos ao mesmo tempo ou em períodos diferentes, ou ainda podem ser programas realizados em vários módulos com paradas em sua realização. Os programas exclusivos são eventos educacionais que, pela sua necessidade ou circunstância, ocorrem apenas uma vez. Ainda segundo Hamblin (1978, p. 84), os eventos educacionais podem ser separados, quanto a formulação de seus objetivos, em programas de extremidade aberta e programas de extremidade fechada. O primeiro tipo refere-se aos programas que, devido a sua especificidade, não possuem objetivos precisos. Em alguns casos, embora até tenham objetivos descritos, não é possível estabelecer metas, critérios e instrumentos para avaliação. Já os programas educacionais de extremidade fechada podem obter maior precisão na especificação de objetivos. Os programas educacionais empresariais podem ser estruturados, quanto em nível de competência profissional exigido, em eventos voltados para conhecimentos, habilidades e atitudes. Os programas dirigidos para conhecimentos têm cunho mais teórico e cognitivo e voltados para o “saber”. Os eventos que têm maior enfoque nas habilidades são voltados para o “saber fazer” de uma atividade simples ou complexa. Os programas atitudinais priorizam o “querer fazer”, ou seja, mudança ou conservação de manutenção de comportamentos e posturas. Quanto à responsabilidade pelo investimento, os programas de educação empresarial podem ser de autodesenvolvimento e de desenvolvimento empresarial. Os primeiros são assumidos pelo educando através da disponibilização de seus próprios recursos e podem abranger diversas áreas e competências que estejam focadas em seu projeto de vida pessoal e profissional, mesmo que não tenham relação com sua carreira profissional atual. Os programas de desenvolvimento empresarial são assumidos, em termos de investimento, de forma integral ou parcial pela organização e buscam a melhoria das competências profissionais do educando e dos resultados empresariais. Os programas de educação aplicados nas empresas podem ser segmentados, quanto ao tipo de evento, em curso, congresso, convenção, seminário, mesa-redonda, simpósio, painel, fórum, palestra, conferência, vídeo ou teleconferência, debate, workshop, clínica, semana, encontro, colóquio, jornada, feira, exposição, salão, mostra, sessões técnicas, caso-caso, apresentação, modelos, reunião de debates, brainstorming etc. Os cursos, conforme já descritos anteriormente, são tipos de eventos educacionais formativos presenciais, à distância ou mistos que abordam competências em áreas específicas, visando 32 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações o aperfeiçoamento do seu grupo de participantes. Os demais eventos, apesar de serem alvos de confusão no cotidiano das práticas dos programas educacionais de empresas, apresentam definições diferentes ou aproximadas. Segundo Boog (1978, p. 36-42), o congresso é uma reunião promovida por entidades associativas, visando debater assuntos que interessam a um determinado ramo profissional ou área de conhecimento. A convenção é uma reunião promovida por empresas, setores industriais e comerciais e partidos políticos, objetivando conhecer novas diretrizes, treinamento, reciclagem, entrosamento e troca de experiências e informações. Podem se chamar também de convenção outras reuniões com objetivo de congraçamento, comemoração etc. O seminário consiste em uma exposição verbal feita para pessoas que possuam o mesmo nível de conhecimento sobre o assunto tratado, objetivando fornecer e somar informações de temas já pesquisados. Essa exposição gera uma discussão sobre o tema proposto para um público conhecedor ou interessado no assunto. O seminário tem as fases de: exposição, debate e conclusão. A mesa-redonda é uma reunião questionadora e dialogal de um grupo de pessoas atualizadas, que discutem opiniões próprias ou alheias sobre assuntos controvertidos. Caracteriza-se pela participação de dois ou mais especialistas e de um coordenador ou moderador. O Coordenador deve ter apresentar cada especialista e passar a palavra a eles. Após todas as exposições o coordenador fecha o assunto e parte para coordenar as perguntas que o público desejar fazer. O simpósio é uma reunião derivada da mesa-redonda, caracterizada pelo alto nível, com a participação de especialistas de grande renome; é semelhante ao painel, porém, tem uma definição mais estrita por não prever um posterior feedback dos participantes. É destinado à divulgação de experiências, de novas tecnologias e de pesquisas, para um grupo altamente especializado e interessado no assunto. No simpósio os debates são entre o especialista e o público. O painel com debate, embora se assemelhe à mesa redonda, apresenta uma característica diferenciadora deste pela diversidade de opiniões entre os expositores. O fórum é uma reunião cujo objetivo principal é o de conseguir a efetiva participação de um público numeroso, em qualquer ocasião do evento, obtendo maiores informações sobre o tema a ser apresentado e que seja de interesse geral. A palestra é uma reunião de um grupo pequeno, visando a obtenção de maiores informações sobre um assunto já conhecido. A conferência é uma exposição realizada por um conferencista ou autoridade no assunto exposto e dirigida a um grande número de pessoas, objetivando responder a questionamentos feitos, conhecer fatos, sugestões e busca de solução para problemas comuns; no ambiente empresarial, a conferência também pode ser uma reunião de diversas pessoas para analisar um tópico ou um problema, planejar um curso de ação e ajustar diferenças, aprofundando um assunto e pode ser realizada isoladamente ou inserida em um outro tipo de evento. A vídeo ou teleconferência caracteriza-se pelo uso de equipamentos de telecomunicações que visam transmitir conhecimentos de para um público que esteja distante do apresentador. O debate é uma discussão realizada entre dois oradores, para defender um ponto de vista já conhecido do público participante. O workshop é uma reunião que enfatiza a livre discussão de métodos, habilidades e aplicações práticas de princípios. Os princípios devem ter sido entendidos pelos participantes previamente ao workshop. Caracteriza-se pela reunião de pessoas de um mesmo segmento de mercado ou que tenham Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 33 Marcos Antonio Martins Lima os mesmos interesses no qual o palestrante demonstra sua experiência e trabalha, com os participantes, sobre o tema abordado. A clínica é uma reunião, em sala de aula, dedicada ao tratamento analítico de problemas em algum campo especial. A semana é uma reunião acadêmica ou empresarial que visa normalmente a difusão de conhecimentos, entrosamento e comemoração. O encontro visa expor trabalhos, estudos e experiências relevantes à área de conhecimento ligada aos trabalhos expostos. Pode ainda servir para homenagear um grande nome da área. O colóquio ou colloquy é uma conversação entre especialistas; é empregado como parte de um outro evento como a conferência ou um seminário. Semelhante à conferência, apresentada por conferencista de renome e expert no assunto, o colóquio possui como objetivo final o esclarecimento de um tema ou tomada de decisão, usado mais em classes específicas: médicas e outras. As jornadas são reuniões de determinadas classes profissionais com objetivo de discutir de forma prática um ou mais assuntos que não são levantados nos congressos. A feira é um evento de cunho comercial que visa disponibilizar os produtos/serviços aos participantes de forma que possam ser conhecidos e adquiridos. A exposição é um tipo de evento que visa divulgar, promover e informar acerca de um produto ou serviço disponibilizando-o ao participante, sem que seja feito negócio durante sua realização. O salão é o evento que visa o mesmo da exposição, mas que além disto visa criar uma imagem sobre o produto ou serviço exposto. A mostra é um outro tipo de evento normalmente de cunho cultural que visa apresentar o produto a um grande público. As sessões técnicas caracterizam-se pela apresentação de trabalhos técnicos ou científicos de um evento. Estas apresentações técnicas podem ser orais ou em formato de pôsteres. O caso-caso é uma apresentação de caso prático em forma de dissertação. Muito usado para ilustração de assunto previamente apresentado. A apresentação ou lecture é uma apresentação verbal organizada, utilizando-se recursos visuais, feita por um apresentador a um grupo de ouvintes, dos quais se espera que retenham os conceitoschaves e certos aspectos específicos de conhecimento contidos na apresentação. Os modelos ou modelling envolvem a descrição de um sistema típico ou ideal para ser usado como base de discussão analítica pelos participantes. As reuniões de debates e o brainstorming, se realizados de forma estruturada, podem ser considerados eventos educacionais. As reuniões de debates, segundo Vieira de Carvalho (1988, p. 184), não são encontros de trabalho do dia-a-dia profissional, mas constituem-se em discussões e decisões sobre problemas de formação ligados ao trabalho dos participantes. O brainstorming é uma técnica para reuniões de grupo que visa ajudar os participantes a vencer as suas limitações em termos de inovação e criatividade. Criada por Alex F. Osborn em 1963, uma sessão de brainstorming tem quatro regras básicas: nunca critique uma sugestão, encoraje as idéias bizarras, prefira a quantidade à qualidade; e não respeite a propriedade intelectual, pelo menos dos participantes no momento da sessão de brainstorming. Finalmente, pelo menos para a presente proposta de tipologia, os programas podem ser ainda classificados quanto ao ingresso de novos profissionais na empresa em programas de integração, inicial ou introdutório, de estagiários e de trainess. Os programas de integração ou iniciais, também chamados de introdutórios (YARA BARRETO, 1995, p. 31), visam facilitar a ambientação e adaptação do recémcontratado à cultura da nova organização, bem como ajudar no estabelecimento de vínculos entre a empresa e o novo profissional. Os programas de estagiários e trainess visam prover a empresa de talentos jovens, sendo que o primeiro permite uma troca adequada de know-how entre empresas, escolas e universidades, embora não estabeleça vínculo empregatício entre estagiário e empresa; o segundo faz parte de um processo de recrutamento e seleção estratégico que visa captar os melhores talentos de 34 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 Educação Empresarial: uma proposta de Taxonomia para Programas Educacionais Aplicados às Organizações universidades para compor quadros de carreira gerencial e técnicos de alto nível (Rittner apud BOOG, 1994, p. 354-377). 3 CONCLUSÃO Os 15 (quinze) diferentes grupamentos de programas educacionais empresariais constantes do Quadro 1 demonstra a complexidade envolvida nestes eventos, requerendo tratamento diferenciado no planejamento, execução e avaliação dos mesmos. Verifica-se que os distintos eventos educacionais apresentam diferentes conceitos, viabilizando esta proposta de taxonomia na abertura de portas para novas pesquisas em avaliação e planejamento de programas educacionais no ambiente organizacional, pois com a diferenciação de conceitos entre os diferentes eventos, o entendimento passa a ser mais científico evitando-se confusões na aplicação dos termos. A disseminação dos conceitos dos diferentes eventos e das suas classificações deveria ser feita de forma mais ampla nos meios acadêmicos e sociais, a fim de evitar a aplicação indevida da nomenclatura dos eventos, evitando-se a frustração daqueles participantes que são conhecedores destes conceitos e tornando o evento educacional mais coerente com os desafios que se propõe. 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANUNCIANTES. Guia de eventos. São Paulo: [s.n], [199-]. 24 p. BARRETO Yara, Como treinar sua equipe. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1995. 101p. BOOG, G. G. (Coord). Manual de treinamento e desenvolvimento. São Paulo: Makron Books, 1994. p.15-34. CHIAVENATO I. Recursos humanos. 3 ed. São Paulo: Atlas, 1994. 525p. FERREIRA, P. P. Treinamento de pessoal: a técnico-pedagogia do treinamento. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1985. 237p. MEISTER, J. C. Educação corporativa: a gestão do capital intelectual através das universidades corporativas. São Paulo: Makron Books, 1999. 242p. NERY, A. A. (Org.). Gestão de RH por competências e a empregabilidade. Campinas: Papirus, 1999. 127p. SOCIEDADE LATINO AMERICANA PARA A QUALIDADE. 50 Conceitos de Administração, de A a Z. Disponível em: <http:// www.calidad.org/>. Acesso em: jan. 1997. VIEIRA DE CARVALHO, A. Treinamento de recursos humanos. São Paulo: Pioneira, 1988. 251p. HAMBLIN, A. C. Avaliação e controle de treinamento. Trad. Gert Meyer. São Paulo: McGraw-Hill, 1978. 286p. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 27-35, jan./jul. 2005 35 WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos Ubiracy de Souza Braga* RESUMO RESUMO: O presente artigo pretende analisar a CT: The present article intends to analyse ABSTRACT CT ABSTRA partir do pragmatismo de Richard Rorty, as starting from Richard Rorty ’s pragmatism, the representações da modernidade no âmbito da representations of the modernity in the ambit of the cultura norte-americana. Tal reflexão deve-se ao fato North American culture. Such reflection is due to de que diante da destruição, extermínio e crimes de the fact that before the destruction, extermination guerra cometidos com a nova ocupação militar no and war crimes made with the new military Iraque, serviu como baluarte para uma cultura que, occupation in Iraq, it was good as rampart for a relacionando pragmatismo e verdade, pragmatismo culture that, relating pragmatism and truth, e política e pragmatismo e religião consagrou a pragmatism and politics and pragmatism and máxima de Weber calcada na idéia de que “‘fim’ é religion consecrated the maximum wearing from a representação de um resultado que se converte Weber in the idea that “ ‘end’ is the representation em causa de uma ação”. Não há resposta of a result that turns into cause of an action “. There satisfatória tanto para a filosofia pragmática quanto is not satisfactory answer so much for the pragmatic para a pragmática sociológica. Além disso, este philosophy as for the pragmatic sociological. Besides, episódio demarcou, do ponto de vista da sociedade this episode to demarcate, of the point of view of the civil mundial, uma “condenação moral com o world civil society, a moral condemnation with the pedido de formação de um Tribunal Penal request of formation of a International Penal Tribunal Internacional contra o consórcio anglo-americano” against the Anglo-American consortium represented representado por Bush-Blair. for Bush-Blair. * Palavras-chave: Filosofia Pragmática; Pragmatismo e Verdade; Pragmatismo e Política; Guerra Preventiva; Consórcio AngloAmericano. Word-key ord-key: Pragmatic Philosophy; Pragmatism and Truth; Pragmatism and Politics; Preventive War; Anglo-American Consortium. Sociólogo (UFF), Doutor em Ciências (USP). Professor e pesquisador da Coordenação do Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará – UECE. Mail: [email protected] Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 37 Ubiracy de Souza Braga 1 PRAGMATISMO E VERDADE Os americanos ainda não criaram uma civilização, no sentido profundo e completo que atribuímos à palavra civilização. O que eles criaram é uma metrópole de força (Discurso pronunciado em 17 de janeiro de 2002, 11º ano pós-guerra do Golfo Pérsico iniciada por George Bush). Saddam Hussein Algumas circunstâncias levaram-me a redigir um texto sobre pragmatismo. A primeira, vale lembrar, é que não escrevo para “especialistas”. Com os anos passando, cada vez mais, com a institucionalização da ciência, da filosofia, da sociologia etc., estes falam do lugar que sua especialidade lhe valeu, com jogos táticos de linguagem entre porta-vozes e autoridades simbólicas numa economia produtivista. “Conhecimento” é, para o pragmático, como “verdade”, simplesmente um elogio feito às crenças que pensam estar bem justificadas. Ou seja, para o pragmatismo, uma corrente filosófica que surgiu na segunda metade do século 19, o conhecimento tem um caráter essencialmente prático. O conhecer, nas suas múltiplas formas, não tem a finalidade de chegar ao conhecimento das verdades teóricas, mas é um processo de adaptação ao ambiente, visando assegurar a sobrevivência do homem. A segunda é que o pragmatismo através do relativo sucesso de Richard Rorty nos meios acadêmicos e a variedade dos assuntos que aborda, pode ser visto como mais um teórico da “moda”. Kant tem toda razão quando acha melhor sermos “tolos da moda” do que ser “contra a moda” – mesmo que certamente continue sendo uma tolice levar demasiado a sério as “coisas da moda”. Para Lipovetsky (1989) nos últimos cem anos tudo se passa como se o enigma da moda estivesse grosso modo resolvido. Esse consenso de fundo dá lugar, conforme seus analistas, a nuanças interpretativas, a leves desvios, mas, com poucas variantes, a lógica inconstante da moda, assim como suas diversas manifestações, são invariavelmente explicadas a partir da noção de estratificação social e das “estratégias mundanas de distinção honorífica”. O que importa é que para o autor, A moda tornou-se um problema esvaziado de paixões e de desafios teóricos, um pseudoproblema cujas respostas e razões são conhecidas previamente; o reino caprichoso da fantasia só conseguiu provocar a pobreza e a monotonia do conceito (Lipovetsky, 1989, p. 10). Mais do que isso, recolocada na imensa duração das “manifestações de vida”, para lembrar de Simmel (para quem o conhecimento, é entendido como resultado sempre parcial de uma atividade interpretativa do sujeito que conhece), é preciso redinamizar, inquietar novamente a pesquisa da moda, objeto fútil, fugidio, o que poderia estimular ainda mais a razão teórica. Daí que, a moda é uma realidade historicamente condicionada e característica do Ocidente e da própria concepção de modernidade. Nesse sentido, a moda é menos signo das ambições de classes do que saída do mundo da tradição, é um desses espelhos onde se torna visível aquilo que faz nosso destino histórico mais singular: a negação do poder imemorial do passado tradicional, a febre moderna das novidades, a celebração do presente social (Id., ib.). 38 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos Além disso, é “moda” esta intenção filosófica, porque abraça temas que vão desde questões essenciais de filosofia analítica, amadurecidos com exemplaridade em seu A filosofia e o espelho da natureza (Philosophy and the Mirror of Nature, 1979) à defesa das democracias ocidentais, inclusive com o homem diante da guerra e da morte. Tende a ser avaliado pelos próprios especialistas como um diletante “que fala muito do que conhece pouco”. Como não registrar o desconforto das posições assumidas por Rorty diante da chamada “guerra fria” (economia de guerra) sem levar em conta a destruição e morte que ela acarretou no Vietnã, na América Latina, e ainda, posteriormente com relação à Bósnia e ao apoiar a invasão de Kosovo pelas tropas americanas e seus aliados na Europa? Daí os mal-entendidos, mas que fazem parte dos riscos assumidos por Rorty na defesa de sua concepção da tarefa de filósofo. Desnecessário dizer que Rorty tornou-se um dos mais estimulantes pensadores da atualidade porque conseguiu imprimir à sua escrita a questão “etnobiográfica”. Se é verdade que para os historiadores a “história de vida” tem seu fundamento no quadro da “história oral”, também é verdade que alguns autores apreendem outras denominações para a história de vida como “etnobiografia”, porque do ponto de vista da pesquisa, o conteúdo do material recolhido reflete o “tempo” e o ambiente “político e social” do narrador. Isto é importante porque Rorty vincula seu neopragmatismo à sociedade e cultura americana1 . Para Lipset (1966, 1970), a classe intelectual limitada a escritores e artistas criadores, professores universitários, funcionários públicos da alta categoria e a advocacia que tem sido a ocupação mais importante para aqueles que possuem educação superior, colocam-se em antagonismo político aos “titulares do poder” e pode resultar também de algum senso de frustração por não haver lugar para eles na velha sociedade. Ipso facto, Seus novos valores não coincidem com aqueles que os colocariam em posições destacadas nas velhas hierarquias locais. Estes valores estão contidos numa ideologia, e a ideologia que os intelectuais perfilham é a do populismo” (...) “A conseqüente tensão entre os intelectuais e as forças dominantes da nova nação pode representar um esforço à formulação de um adequado auto-retrato nacional. Assim é que todas as nações novas enfrentam o problema de incorporar os seus intelectuais aos seus sistemas de Governo (Lipset, 1966, p. 87, 94). No artigo “Trótsky e as Orquídeas Selvagens”, ele diz como aproximou-se da filosofia, antecipando a originalidade de sua posição etnobiográfica no cenário intelectual de hoje. Ou seja, refletiu sobre como conciliar a responsabilidade em relação aos demais seres humanos e os sentimentos pessoais que nutrimos pelas pessoas ou coisas que amamos. Para ele, o que determina a escolha de um ponto de vista sobre o sujeito e o mundo são os objetivos “pragmáticos” visados e não a posse de uma teoria fundada em exigências lógicas ou achados empíricos inconstestáveis. Concluiu que não há qualquer necessidade racional para que esses dois pólos coincidam. Rorty redescobriu, assim, o pragmatismo filosófico da cultura norte-americana como epicentro das democracias ocidentais e que terá uma forte influência no pensamento sociológico da Escola de Chicago, como veremos adiante. 1 Seymour Martin Lipset, A Sociedade Americana. Uma Análise Histórica e Comparada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966, “O Papel dos Intelectuais”, pp. 86-94; O Homem Político (Political Man). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967; capítulo X – “Os Intelectuais Americanos: Sua Política e ‘Status’”, pp. 326-362; Talcott Parsons, Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 39 Ubiracy de Souza Braga Finalmente, o que poderemos interpretar sobre este “representante” das representações da modernidade no âmbito do pragmatismo da cultura americana? Talvez, para lembrarmos do presente, o fato de que o pragmatismo americano diante da invasão, destruição e extermínio, com a nova guerra contra o Iraque, serviu como baluarte para uma cultura que, relacionando pragmatismo e verdade, pragmatismo e política e pragmatismo e religião consagraram a máxima de Weber sobre a utilização dos fins: “Na nossa concepção, ‘fim’ é a representação de um resultado que se converte em causa de uma ação” (Weber,1982:99). Não há resposta satisfatória tanto para a filosofia pragmática quanto para a pragmática sociológica vis-à-vis a argumentação weberiana. Esse é o suposto de nossa pesquisa. Em assim sendo Richard Rorty afirma que, Mas não há nada de errado com a democracia liberal, nem como os filósofos que tentaram ampliar seus escopos. Só há algo errado com a tentativa de ver seus esforços como falhas em alcançar algo que eles não estavam buscando – uma demonstração da superioridade ‘objetiva’ de nosso modo de vida frente a todas as outras alternativas. Não há, em resumo nada de errado com as esperanças do Iluminismo, as esperanças que criaram as democracias ocidentais. O valor dos ideais do Iluminismo, para nós, pragmáticos, é justamente o valor de algumas instituições e práticas que eles criaram (RORTY, 1997, p. 51). Assim, termos como ‘poder’, ‘interesse’, ‘dominação’, ‘realidade material’ etc., são indispensáveis à análise do autor, pois verdadeiro é aquilo que nos habituaram a aceitar como verdadeiro, pela força ou pela persuasão dos costumes. Enfim, a análise lingüística daquilo que nos habilita a descrever o mundo de uma forma ou de outra não exclui a análise de como fomos levados a crer na “verdade” de tal descrição. Para efeitos da ação, só existem eventos sob descrição. E a descrição preferida do intérprete será a mais adequada às suas convicções éticas e não a mais iluminada pela Razão2 . Rorty insiste na utopia pragmatista da verdade, em seu livro “Pragmatismo: a Filosofia da Criação e da Mudança”, dando continuidade a voga da filosofia norte-americana por ele reconhecida. Ele é um dos responsáveis por isso, tanto no papel de participante ativo quanto no de propagador dessa linhagem que ele próprio afirma, remonta a Emerson, James e Dewey, entre outros. Contudo, no livro Objetivismo, relativismo e verdade. Escritos Filosóficos, (Philosophical Papers – Objectivity, Relativism & Truth, 1995), ele adverte: “o pragmatismo parece-me, como eu disse, uma filosofia antes da solidariedade que do desespero”, (...) pois têm “o desejo de alcançar a maior concordância intersubjetiva possível, o desejo de estender a referência do pronome ‘nós’ tão longe quanto possível” (...) Além do que para eles, “o pragmático, dominado pelo desejo por solidariedade, só pode ser criticado por levar sua própria comunidade “muito” a sério” (...) “o pragmático não tem uma teoria da verdade, muito menos uma teoria relativista” (RORTY, 1995, p. 45). 40 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos 2 PRAGMATISMO E POLÍTICA Eu assumo a responsabilidade por tomar a decisão, a difícil decisão de formar uma coalizão para remover Saddam Hussein, porque a inteligência – não apenas a nossa inteligência mas a inteligência deste grande país [continuou Bush, se referindo à Blair e seu país] (...) expôs um argumento claro e irresistível de que Saddam Hussein era uma ameaça à segurança e à paz. George W. Bush, New York Times, 18.07.2003. Com a guerra contra o Iraque, no Golfo Pérsico, quase “esquecemos” que a vitória eleitoral de George W. Bush como presidente dos EUA deu-se por decisão da Corte Suprema, que optou por cumprir prazos em detrimento da recontagem dos votos num condado da Flórida, estado cujo governador era o irmão de Bush. Voto decisivo no colégio eleitoral já que no número absoluto de votos Bush não sairia vitorioso. Os próprios reclamos da imprensa norte-americana foram atropelados pelo atentado terrorista de 11 de setembro às torres do World Trade Center e, a partir de então, Bush filho comprometeu-se com a “missão” de vingar o pai que não conseguira na outra Guerra do Golfo (1991) retirar Saddan Hussein do poder, no Iraque. Cercado de assessores “fundamentalistas”, comprometido tanto com a indústria do petróleo quanto com a de armamentos, George W. Bush, que escapara do serviço militar, agora vai à guerra (2003) disposto a impor a sua vontade, sobretudo após o ataque ao povo afegão, a substituição de governo no Afeganistão e a insatisfatória resposta a Osama Bin Laden, um ex-aliado, a quem responsabilizara pelo ato de 11 de setembro de 2001. Para nós, política é regulação da existência coletiva, poder decisório, luta entre interesses contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos mil entre forças sociais, violência em última análise. Só que a produção política (os processos políticos) se diferenciam radicalmente da produção econômica porque usa eventualmente suportes materiais, tais como armas, livros, processos, papéis onde se inscrevem as ordens, os atos de gestão, as sentenças ou as leis, mas não é uma produção material. Porque consiste em decisões imperativas. Assim, é também diferente da produção simbólica porque exercita-se sobre o interesse dos agentes sociais, quando não sobre o seu próprio corpo; corresponde a atos de vontade que regulam atividades coletivas; disciplina práticas sociais. Não produz mensagens, discursos; “produz” “obediências”, “obrigações”, “submissões”, “direitos”, “deveres”, “controles”. Poder é uma relação social: de mando e obediência. As decisões tomadas politicamente se impõem a todos num dado território ou numa dada unidade social. Convertem-se em atividades coercitivas (esfera da segurança), administrativas (esfera da administração), jurídico-judiciárias (esfera da justiça) e legislativas (esfera da deliberação). Simplificadamente, processo político diz respeito a pergunta: “Quem pode o quê sobre quem?” Eis a grande questão do processo político, do confronto entre forças sociais, da sujeição de vontades a outras vontades (SROUR,1987, passim), Mutatis mutandis, não bastassem os contornos de uma tragédia shakespeareana, a alusão a mitologia grega é procedente. Ela diz que Hefestos, conforme determinação de Zeus, criou sua primeira mulher dando a ela tudo o que de melhor poderia dar. Nomeou-a Pandora. Entretanto, Zeus deu a Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 41 Ubiracy de Souza Braga Pandora uma caixinha que continha todas as possíveis maldades do mundo com a expressa ordem de zelar por ela e nunca abri-la. Em caso contrário, isso acarretaria toda a sorte de calamidades. Incapaz de conter a sua curiosidade, Pandora abriu a caixa libertando um inaudito sofrimento que faz a humanidade sofrer até hoje. Pois esse é o caso: George W. Bush destampou a sua caixa de Pandora (Cerqueira Fº e Neder, 2003). Talvez seja possível admitir com o homem diante da guerra e da morte, no Golfo Pérsico em 1991 (com o pai) e 2003 (com o filho), a repetição de nomes: Bush em inglês alude a bucha, como metáfora de guerra. E regiões, marcadas como emblemas no capitalismo globalizado, a recorrência ao nome do pai. E mãe-pátria, há dois séculos ao menos, como representação da colonização e a idéia de subserviência de povos. Pai ainda, onde incide a violência doméstica em uma complexa operação física fantasiada com as drogas eletrônicas (armas inteligentes) e o terrorismo de Estado. E psíquica, (a internalização da lei) de ‘’fora (EUA) para dentro (Iraque) ‘’, com a configuração de pátrias degradadas. O Estado de exceção tornou-se uma prática freqüente entre as nações contemporâneas, atingindo desde o 3º Reich até o USA Patriot Act. O fracasso da busca por provas contundentes de armas de destruição em massa, cuja existência assegurou o argumento em defesa da guerra contra o Iraque, foi apoiada em documentos “falsificados” e “fontes inconsistentes” e sombrias, como ficou confirmado com os escândalos tanto no Parlamento inglês, onde foi solicitada a deposição do premier Tony Blair [que respondeu “em silêncio”], ou ainda, sobre a “culpa” de “acusação falsa” contra o Iraque, da Casa Branca e CIA, conforme o artigo publicado em El País intitulado “Casa Branca e CIA culpam-se mutuamente sobre acusação falsa contra Iraque” (12.07.2003). Além disso, para usar a noção de “metrópole de força”, utilizada no discurso de Saddam Hussein após o massacre de 1991 no Golfo Pérsico causado pelo pai George Bush, de acordo com o Financial Times, A derrubada do regime iraquiano retirou dali um tirano sanguinário e cruel que invadiu dois países vizinhos, empregou armas de destruição em massa contra o Irã e seu próprio povo e causou milhões de mortes. A queda de Saddam Hussein representa o único benefício inquestionável desta guerra – embora como afirmara ainda no mês de maio o vice-secretário de Defesa americano, Paul Wolfowitz, não era uma razão para colocar em risco a vida dos garotos americanos, ao menos na escala em que colocamos (Financial Times, 16.07.2003). O Editorial do Financial Times insiste na idéia de que argumentou, de modo consistente, que a melhor alternativa para desarmar Hussein seria dar continuidade às inspeções determinadas pela resolução 1441 do Conselho de Segurança da ONU. Ao interromper prematuramente estas inspeções, Bush e Blair debilitaram o órgão internacional mais capacitado para conter a proliferação de armas de destruição em massa (Id., Ib.). 42 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos Ora, se sociologicamente admitimos anteriormente que “fim” é a representação de um resultado que se converte em causa de uma ação”, tal argumento já teria sido justificado enquanto motivo para a guerra. Um argumento sutil defendia que, “existisse ou não tal equipamento, Hussein “pretendia” adquirir armas de destruição em massa. Noutras palavras, já estava sendo justificada “em termos preventivos” – e não em termos de proteção”. O jornal El País admitiu que “seria ilusório pensar que não transmitiram essas dúvidas à Casa Branca nos meses seguintes”. De outra parte, que o secretário de estado Colin Powell foi mais perspicaz ou mais cauteloso, mesmo defendendo W. Bush afirmando: “quando revisamos minha apresentação na ONU, uma ou duas semanas depois do discurso do presidente, achamos que não era mais adequado usar esse exemplo” (Id., Ib.). Fora da idéia de nacionalismo, a partir da competição entre nações, foi o filósofo Simmel quem chamou atenção para o fato de que, ‘’a luta contra uma potência estrangeira dá ao grupo um vivo sentimento de sua unidade’’, e além disso, é ‘’um fato que se verifica quase sem exceção. Não há, por assim dizer, grupo - doméstico, religioso, econômico ou político - que possa passar sem esse cimento’’. Essa atividade intelectual, porque psíquica e de preparação psicológica, quase exclusivamente entre homens, pode representar com o homem diante da guerra um crime contra a humanidade, individual ou coletivamente com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, militar, ou religioso. Estamos diante do mito de banhos de sangue que para a gramaticalidade do lingüista Chomsky (e Herman), a partir da guerra do Vietnã, explica porque se deve continuar a matar em grande escala. Mas isso só foi possível com a passagem da produção de massa e da economia de mercado para as sociedades de conhecimento baseadas na informação e comunicação. Com a generalização dos conflitos “aparentemente” iniciados com os atentados ao WTC e Pentágono, amplamente divulgados pela mídia norte-americana e de resto na Europa, refletimos noutra oportunidade, não propriamente sobre a questão de uma “nova” guerra no Afeganistão, mas sobre duas ou três noções correlatas que nestes dias “escapam” ao gravíssimo problema dos dispositivos discursivos editados na e pela “informação” globalizada. A palavra “terrorista”, em primeiro lugar, não pode, de certo, ter “reconhecimento” para o confronto de entidades “terroristas de manutenção das tradições e sobre ocupações de terra”, historicamente constituído. A maioria dos estudiosos erra quando considera um ato “terrorista” isolado, praticado por um “grupo religioso fanático”. E concordar com a idéia de que derrubar o WTC é um ato de “guerra histórico” equivalente ao que ocorreu em Saravejo em 1914 é, conforme entendemos, apressado. Difícil concordar ainda, como alguns afirmam, que em NY explodiu a “primeira” guerra da “globalização”. Nada! NY construiu o que Marc Augé problematizou como “ego ficcional”. Isto é, cúmulo de um fascínio que se aciona em toda relação exclusiva com a “imagem”, porque é um “ego sem relações” (est un moi sans relations) e, por isso mesmo, sem suporte identitário, suscetível de absorção pelo mundo de imagens onde ele pensa poder reencontrar-se e reconhecer-se. Slavoj Zizek denominou-o de “fantasia paranóica americana máxima”, isto é, um paraíso consumista, onde um indivíduo percebe um espetáculo encenado para convencê-lo de que ele vive em um mundo real. Exemplo: O filme “Tempo Fora dos Eixos” (Time Out of Joint). Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 43 Ubiracy de Souza Braga Dias depois dos atentados de 11 de setembro é que, parado no drive thru do McDonalds, na cidade de Fortaleza, Brasil, nos deparamos com Vinny que a nossa filha Bianca de 2 anos de idade brincava. Tratava-se de propaganda da empresa, uma figurinha com a rubrica de Walt Disney que divulga “Atlantis - O Reino Perdido (nos cinemas)”. Literalmente refere-se a : “Vinny. Nome: Vincenzo Santorini. Apelido: Vinny. Função: especialista em demolições. Missão: explodir as coisas. Hobbies: fazer as coisas explodirem. Características: explosivo. Comentário: ‘Eu gosto apenas de explodir as coisas”. Na década de 1960, em segundo lugar, uma canção de Dylan, “Subterranean Homesick Blues”, quando ela diz: “Não é preciso um meteorologista para dizer de que lado sopra o vento...” (You don’t need a Weatherman to Know which way the wind blows...) inspirou um movimento da juventude norte-americana que se propunha a destruir a sociedade pela violência. O movimento surgiu como a facção militante dos 40 mil estudantes da Studentes Democratic Society (SDS). No Congresso nacional do SDS em Chicago (1969) essa facção tornou-se dominante e conseguiu expulsar os marxistas nãoviolentos. Adotaram uma política de violência imediata com o nome Weathermen e foram os autores de bombas atiradas em bancos, tribunais, universidades etc. Análises importantes, todavia provisórias, têm sido feitas a respeito, no caso dos Estados Unidos. O primeiro talvez a chamar a atenção, naquele momento, tenha sido o escritor Gore Vidal, talvez melhor que os autores de “Banhos de Sangue” (Bains de sang constructifs dans le sang et la propagande, 1973) ainda que estes tenham demonstrado até que ponto o governo dos Estados Unidos anteriormente tenham se envolvido em crimes praticados na Guerra do Vietnã. Vidal divulgou em El País (Madri) parte do conteúdo das “cartas-correspondências” que mantinha com o terrorista norte-americano Timothy, pouco antes da violência letal atribuída ao Estado. Dizia ele,- contra o terror de Estado, - que melhor teria ocorrido ao terrorista explodir bombas para “efeito simbólico” de destruição de prédios, sem vítimas, p. ex., o próprio Pentágono. No que se refere especificamente ao confronto contra os afegãos e a utilização de imagens, como sabemos, o Corão proíbe a “reprodução” de figuras humanas e sagradas. Para os fundamentalistas, a interdição, feita há 1.300 anos, vale para “fotos e imagens transmitidas pela TV”. Porque querem preservar, a todo custo, o que construíram: “as regras e normas do islamismo professado por Maomé”. Embora o país tenha sido devastado nos últimos 200 anos por uma dezena de conflitos, três guerras contra a Inglaterra até sua independência em 1919, um golpe de estado que derrubou o rei em 1973, e ainda, em 1979 a então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, devastou o país permanecendo em guerra por dez anos. Quando estes foram expulsos, assumiu o poder a milícia islâmica Taliban, que significa estudante, no dialeto pashto, a segunda língua da região. O grupo foi criado em 1994 por um movimento estudantil radical. O “império” americano realizou uma “guerra longa” contra o Afeganistão como anunciaram pela mídia. No caso do Iraque, nestes dias e em termos de submissão das vontades, a guerra foi considerada “rápida” na contabilidade americana porque culminou com a morte de dez mil militares, aproximadamente três mil civis e dezesseis jornalistas em pouco mais de vinte dias. Daí a terceira questão e breve, que diz respeito a duas definições weberianas entrelaçadas “ao espírito do capitalismo”. Todavia trata-se apenas de uma intuição. Weber em 1904/05 afirmava o seguinte: “Ninguém sabe ainda a quem caberá no futuro viver nessa prisão [o capitalismo vencedor] ou se, no fim desse 44 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos tremendo desenvolvimento, não surgirão “profetas” inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento de velhos pensamentos e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas – a eventualidade de uma petrificação mecanizada caracterizada por esta convulsora espécie de auto-justificação” (sich-wichtig nehmen). O fato é que estes últimos homens poderiam ser designados de acordo com Weber, como “especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado”. E em contraposição, o “carisma”, que particularmente refere-se a faculdades mágicas, revelações ou heroísmo, poder intelectual ou de oratória. O sempre novo, o extracotidiano, o inaudito e o arrebatamento emotivo que provocam constituem a fonte da devoção pessoal. Representam eles a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo. É uma relação social especificamente extracotidiana e puramente pessoal. O pressuposto indispensável para isso é “fazer-se acreditar”. Se “lhe falha o êxito, seu domínio oscila”. A impressão que temos diante da mídia norte-americana e de resto na Europa, para não falarmos no Brasil, quanto ao nome de bin Laden [bin em letra minúscula significa “filho de”] é que, como justificativa para o fim da “economia de guerra” - ou a chamada “guerra fria”, os conflitos mundiais perderam sua matriz político-ideológica e ganharam desde a guerra contra o Golfo Pérsico (1991) mediações culturais e religiosas, de “suposta” rivalidade entre emblemas como Ocidente e Oriente, entre cristãos, judeus e islâmicos. Ele assim [bin Laden] passa a ser o que Weber intuiu: “não surgirão “profetas” inteiramente novos?”. Finalmente, repetimos, ainda um exemplo sobre o gravíssimo problema dos “dispositivos discursivos” editados na e pela “informação” globalizada. A pergunta é, para lembrarmos de Michel Foucault (1984a, 1984b): “Que saber se forma a partir daí?”. Posto que não se trata de determinar se essas “produções discursivas” e esses “efeitos de poder” levam a formular a verdade, ou, ao contrário, mentiras destinadas a ocultá-lo, mas revelar a ‘vontade de saber’ que lhe serve ao mesmo tempo de suporte e instrumento, quando interessa-nos levar em consideração, “quem fala, os lugares e os pontos de vista de que se fala, as instituições que incitam a fazê-lo”, que armazenam e difundem o que se diz, em suma o ‘fato discursivo’ global. Mark Bowden, que dispensa apresentação sobre sua imersão jornalística no ideário europeu e americano é um típico exemplo. No artigo, “Mil e uma histórias que traçam o perfil de Saddam Hussein”, nitidamente inspirado em “As Mil e Uma Noites” (Las Mil y Una Noches, 1985), particularmente no conto “A História do rei Schahriar e de seu irmão o rei Schahzmán” (Historia del rey Schahriar y de su hermano el rey Schahzmán)3 , ele endossa tudo que o jornalismo mundial faz enquanto “capital da notícia”, modalidade que Marcondes Filho (1986) explica a notícia “como mercadoria”, “como veículo ideológico” e “como agente político”. Ele fantasia a narrativa a partir de uma idéia de “profeta e tirano árabe com origens humildes”. Citaremos alguns trechos, com breves comentários. Para o articulista, Saddam Hussein, o ‘Ungido, o glorioso líder, descendente direto do profeta’ presidente do Iraque, presidente de seu Conselho da Revolução, marechal de seus exércitos, doutor de 3 [Anônimo] Las Mil y Una Noches. Textos Integros. Tomo I. Barcelona, 1985. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 45 Ubiracy de Souza Braga suas leis e Grande Tio de seu povo, costuma acordar por volta das 3h da manhã. Ele nunca dorme mais do que quatro ou cinco horas por noite, mas “ele tem 65 anos, mas ninguém pode ver que ele está envelhecendo: o seu poder baseia-se no medo, não no afeto”. Saddam é um “tirano [que] não pode se mostrar curvado, frágil, grisalho (...) Quando ele precisa fazer um discurso, os seus conselheiros lhe fornecem um texto com letras enormes (...) O seu problema nas costas o faz mancar ligeiramente; por isso, ele evita ser visto ou filmado andando”. Ele tem longos braços e mãos grossas e fortes. No Iraque, o tamanho de um homem ainda é importante, e Saddam impressiona. Com 1 m88, ele domina os seus conselheiros. O seu peso varia entre 95 e 100 quilos”. Como “presidente vitalício”, passa todos os dias longas horas em um de seus escritórios, alternadamente, acompanhado por seus agentes de segurança. Saddam lê com voracidade e se interessa por muitos assuntos. Entre outros, ele nutre uma paixão pela história do mundo árabe e a história militar, embora, recorra a “‘ghosts writers’ para alimentar um fluxo ininterrupto de discursos, artigos, livros de história de filosofia; a sua obra também comporta livros de ficção. Mas ele “parece ter escrito e publicado duas fábulas românticas (...) antes de publicar os seus livros, Saddam os distribui discretamente para escritores profissionais iraquianos, e pede seus comentários e sugestões. Ninguém ousa ser sincero”. De acordo com o articulista, o que quer Saddam? “Deseja acima de tudo ser admirado, reverenciado e ficar para a história”. Afirma ele que, a sua biografia oficial em 19 volumes é uma leitura obrigatória para os funcionários iraquianos; Saddam também encomendou um filme de seis horas sobre a sua vida, intitulado “Os Longos Dias” e dirigido por Terence Young, mais conhecido por ter sido o diretor de três filmes de James Bond. Saddam disse à sua biógrafa que ele não se interessava por aquilo que pensam dele, e sim apenas o que pensariam dele dentro de 500 anos. A busca tenaz e sangrenta de Saddam pelo poder parece ter por única origem a vaidade (sic). Finalmente, Mark Bowden, “patina” em dois argumentos preconceituosos, mas também pragmáticos para um certo jornalismo, com base em alguns historiadores europeus e americanos: “Apesar de se extasiar com a rica história da Arábia, Saddam reconhece a superioridade do mundo ocidental em dois campos. O primeiro é a tecnologia do armamento (daí os seus esforços incansáveis para importar material militar avançado e para desenvolver armas de destruição maciça). O segundo é a arte de tomar e de manter o poder. Ele se tornou admirador de um dos dirigentes mais tirânicos da história: Joseph Stalin” (sic). 3 PRAGMATISMO E RELIGIÃO A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma condição sem espírito. Ela é o ópio do povo. Karl Marx 46 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos Entendidas algumas idéias gerais sobre “pragmatismo e verdade” e “pragmatismo e política”, passemos agora, mesmo que provisoriamente, ao exame da relação “pragmatismo e religião” tomando como referência as expressões: ‘guerra limpa’; ‘guerra tecnológica’, ‘guerra justa’; ‘guerra contra infiéis’, entre outros. Os episódios de 11 de setembro em Nova Iorque recolocaram em pauta o conceito de “guerra justa”, “pragmaticamente” pensado como “auto-defesa”. Diante da ineficácia simbólica, da idéia de ‘guerra limpa’, ‘guerra tecnológica’, onde não haveria mais “banhos de sangue” a ser exibido, nem combate “corpo a corpo”. Em verdade este conceito foi elaborado pela “cristandade ocidental” no século XII, a partir da expansão da sociedade européia ocidental através das lutas contra os hereges, das investidas das cruzadas e da criação da Inquisição. De modo que, “estamos diante de um embate ideológico travado no interior da teologia política ocidental que percorreu vários séculos” (CERQUEIRA Fº e NEDER, 2003). A idéia de ‘guerra justa’, lembram os autores, também pode ser admitida como ‘guerra contra os infiéis”, erigida a partir do expansionismo da igreja romana, católica, no qual as cruzadas condensam toda a sua magnitude. Situa-se neste enquadramento ideológico a expansão marítima e colonial da cristandade européia para a América, Ásia e África, a partir do século XVI, num quadro onde a escravidão e o tráfico de escravos de africanos e indígenas não devem ser esquecidos. Para os que nos interessa, “a idéia de ‘guerra justa’ implicou, como implica ainda, ser uma absolvição moral da guerra e daqueles que a decidem e praticam” (Id., Ib.). Mas decidem, em primeiro lugar, porque a guerra hoje é vista pelo ‘’espelho emocional das sociedades’’. A televisão amplifica a personalização exacerbada dos comportamentos. E para um líder político, o virtual permite mostrar um tipo particular de proteção: a imunidade midiática. E em segundo lugar porque o ‘’novo império’’, é uma empresa plutocrática que exerce poder simbólico sobre a sociedade civil mundial e propõe-se a administrar e hierarquizar as diferenças numa economia geral de comando. Daí que a radicalização política ocorre de forma mais aguda na década de 1990. Os fatores que contribuíram para tal fato foram, o fim da política internacional de “equilíbrio entre blocos”, representado, no plano simbólico, pela queda do Muro de Berlim, que havia garantido, bem ou mal, que os conflitos permanecessem confinados em fronteiras imaginárias, ou seja, para que a guerra imperialista fosse percebida como “localizada”. Assim, a velocidade com que ocorreu o desmantelamento do bloco socialista deveu-se a uma conjunção de variáveis desfavoráveis à articulação de um novo “equilíbrio”. Estas variáveis desfavoráveis representaram, de acordo com Cerqueira Fº e Neder (2003) de um lado, os governos republicanos nos EUA (Reagan e Bush, pai – meados da década de 1980/ meados dos 90). Estes governos desancaram a voracidade expansionista e o exclusivismo do “império”, impedindo, inclusive a formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI) na antiga URSS, então proposta por M. Gorbachev. Com receio dos partidos comunistas do Iraque e do Irã, por exemplo, que eram organizações políticas fortes até o início do processo de distensão política na região, apoiaram (militarmente) forças políticas ligadas a grupos fundamentalistas islâmicos, até então minoritários em vários países asiáticos (dentre eles o Irã e o Iraque). Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 47 Ubiracy de Souza Braga De outro lado, a eleição de João Paulo II como “papa polonês” da Igreja Romana deu uma guinada à direita na inserção política da cristandade ocidental e interferiu diretamente na velocidade do desmantelamento do bloco socialista na Europa oriental (a partir da Polônia), dificultando uma repactuação política em termos internacionais. Todavia, foi muito mais fraco o tom, para não falar em omissão, do Papado Romano na condenação moral das carnificinas entre cristãos greco-ortodoxos e muçulmanos nos Bálcãs. Mesmo no conflito palestino-israelense a omissão ronda a presença do Vaticano. Também na América Latina, os efeitos desta guinada fizeram-se presentes, através do esvaziamento político da teologia da libertação, com desdobramentos significativos, sendo o caso da Nicarágua o mais emblemático (CERQUEIRA Fº E NEDER, 2003). Estes episódios repetimos, demonstram porque o genocídio, a vitimização de civis (seja pela guerra convencional, seja pela guerra de guerrilha ou pelo terrorismo), e a tortura, começaram a ganhar a condenação moral da sociedade civil internacional, que vem progressivamente reclamando, no tempo presente, por um “Tribunal Penal Internacional”. Porque tem sido importante declarar direitos universais que devem ultrapassar as barreiras dos Estados constituídos. E além disso, retomar o processo de elaboração do conceito de “dignidade humana” e dos direitos fundamentais que se constituem como sua garantia, como condição para a consolidação de uma vida estável e digna de ser vivida em todo o planeta. 4 PRAGMATISMO E SOCIEDADE Pelo que sei , só Comte sabia o que ele ia fazer durante todo o resto da vida. Florestan Fernandes (1978, p. 3). Conquanto saibamos que as questões referentes à vida social e aos produtos culturais da atividade humana permeiam as ciências sociais e as humanidades em geral, não podemos concordar com Giddens e Turner (1999) quando afirmam: “não consideramos a teoria social propriedade de nenhuma disciplina”. Ao contrário, entendemos que toda “teoria social” é propriedade de uma disciplina. Por quê? Uma “disciplina” pode ser definida como uma categoria que organiza o conhecimento científico e que institui nesse conhecimento a divisão e a especialização do trabalho respondendo à diversidade de domínios que as ciências recobrem. Apesar de estar englobada num conjunto científico mais vasto, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela linguagem que instaura, pelas técnicas que é levada a elaborar ou a utilizar e, eventualmente, pelas teorias que lhe são próprias. A organização disciplinar instituiu-se no século 19, principalmente com a formação das universidades modernas e, depois, se desenvolveu no século 20, com o progresso da pesquisa científica. Isto significa que as disciplinas têm uma história: “nascimento”, “institucionalização”, “evolução”, “decadência”. Esta história inscreve-se na da Universidade que, por sua vez, inscreve-se na história da sociedade. Portanto, o estudo da disciplinaridade, da organização da ciência em disciplinas, é decorrente da “sociologia das ciências, da sociologia do conhecimento”, de uma reflexão interna em cada disciplina e, também, de um conhecimento extremo. 48 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos Ipso facto a sociologia do conhecimento pretende identificar os nexos que existem entre as dimensões racional e histórica do conhecimento, e os sujeitos individuais e coletivos junto com os elementos culturais de conteúdo cognitivo predominante, tais como se processam em práticas e saberes sociais constituídos no âmbito das ciências naturais e sociais, doutrinas, crenças, explicações racionais etc., que foram elaboradas e expressas pelos mesmos sujeitos. A sociologia do conhecimento, portanto, tem por objetivo estudar a gênese social do “saber”, distinguindo dois conceitos epistêmicos que, embora a linguagem cotidiana não se aperceba manifestam sentidos diversos como “saber” – “ter por verdadeiro”, e “conhecer” -, como representação de uma “convivência do falante com aquilo que fala”, analisando as relações que ocorrem entre as estruturas da sociedade e as formas de conhecimento, como também tentar demonstrar analiticamente o modo como tais formas se influenciam reciprocamente. Não basta situar-se como analista social no interior de uma disciplina para “conhecer” os problemas que lhe são concernentes. Assim, o leitor que busca consenso quanto à natureza e os objetivos de quaisquer teorias sociais não se sentirá desapontado. Só depois do golpe militar desencadeado pela intervenção norte-americana no Chile, tendo como prócer o general Haig, com a destruição da Casa de La Moñeda e a deposição de Allende em 1973, é que o sociólogo Alain Touraine escreveu posteriormente em “Pour la Sociologie” (1974) sobre a exigência principal do conhecimento sociológico: “o reconhecimento de que o sentido da ação não é jamais dado inteiramente pela consciência do ator”, lembrando que “o conhecimento não prepara a ordem de amanhã”. Isto é importante na medida em que o pragmatismo enquanto uma filosofia da ação serviu como fonte filosófica da Escola de Chicago. E do ponto de vista da teoria sociológica, o real significado do “interacionismo simbólico” e sua fecundidade teórica só podem ser compreendidos quando contrastados com a velha Escola de Chicago, a quem dão continuidade. O interacionismo simbólico é visto como a continuação de certas partes do pensamento e obra do heterogêneo grupo interdisciplinar de teóricos da Universidade de Chicago que exerceram certa influência na sociologia americana entre 1890 e 1940, durante a fase de institucionalização propriamente dita da disciplina. De acordo com Hoas, A dificuldade maior reside no fato de a Escola de Chicago – que pode ser descrita como combinação de uma filosofia pragmática, de uma orientação política reformista para as possibilidades da democracia num quadro de rápida industrialização e urbanização, e dos esforços para transformar a sociologia numa ciência empírica, sem deixar de atribuir grande importância às fontes pré-científicas do conhecimento experimental – ser apenas uma relação parcial, do ponto de vista teórico, das possibilidades inerentes à filosofia social do pragmatismo (HOAS, 1999, p. 131). Mas, o nome dessa linha de pesquisa sociológica e sociopsicológica foi cunhado em 1938 por Herbert Blumer. Seu escopo são os processos de interação – ação social caracterizada por uma orientação imediatamente recíproca –, ao passo que o exame desses processos se baseia num conceito específico de interação que privilegia o caráter simbólico da ação social. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 49 Ubiracy de Souza Braga O pragmatismo desenvolveu o conceito de ação, por que é uma filosofia da ação, mas não como Talcott Parsons, e, pelo menos segundo a interpretação que este lhe deu, ou os pensadores clássicos em sociologia considerando aqui Marx, Durkheim, Weber e Simmel no quadro do utilitarismo. Decerto, o pragmatismo não se mostra menos crítico em relação ao utilitarismo do que os clássicos em sociologia. Todavia, não ataca o utilitarismo devido ao problema da ação e da ordem social, mas por causa do problema da ação e da consciência, já que no plano da teoria, se é que podemos pensar assim, a teoria pragmática da ordem social é, pois, orientada pela concepção do controle social no sentido de auto-regulação e solução de problemas coletivos. Essa concepção da ordem social é moldada por idéias sobre democracia e estrutura de comunicação nas comunidades científicas. Rorty foi quem melhor percebeu isso. A real importância desse tipo de ordem social, nas modernas sociedades, suscita um dos principais problemas da filosofia política pragmática e da sociologia baseada nessa filosofia. O conceito de “ação” desenvolvido pelo pragmatismo emerge a partir da idéia de superar os dualismos cartesianos. Ou seja, resumidamente, os pragmáticos põem em dúvida o sentido da dúvida cartesiana. Melhor dizendo, nada mais é do que a defesa de autoridades inquestionáveis contra a reivindicação emancipatória do “eu pensante”. É portanto, um pleito em defesa da verdadeira dúvida, em defesa do enraizamento da cognição “em situações concretas”. A noção central cartesiana do eu solitário que duvida sucumbe, conforme Joas, à idéia de uma busca coletiva da verdade para solucionar os problemas reais encontrados no curso da ação. Poder-se-ia atribuir a essa transformação o mesmo significado histórico concedido à filosofia de Descartes. O que muda, para esta concepção é toda relação entre cognição e realidade. O conceito de verdade já não expressa a correta representação da realidade na cognição, que pode ser considerada uma espécie de metáfora de uma cópia; expressa, antes, um aumento do poder de agir em relação a um ambiente. Isto quer dizer que, todas as etapas da cognição, da percepção sensorial, através da extração lógica de conclusões até a auto-reflexão, devem ser agora concebidas de outra maneira. Charles Pierce encetou esse programa. William James que parece ter influenciado Simmel com suas teorias, aplicou-o a um bom número de problemas, principalmente de natureza religiosa ou existencial. Movido pelo desejo de mostrar a impossibilidade de encontrar soluções universalmente válidas para esses problemas, James estreitou, e portanto debilitou de um modo decisivo, a idéia básica do pragmatismo. Contrariamente a Pierce, formulou o critério de verdade em termos dos resultados realmente obtidos, não dos resultados esperados. Em sua psicologia, James não considerou a ação como ponto de partida, mas o puro fluxo da experiência consciente. Formulou, entretanto, análises extraordinariamente profundas e intrigantes que mostravam a seletividade da percepção e a distribuição da atenção como função dos objetivos do sujeito4 . Contudo, a influência decisiva do pragmatismo na sociologia começou com John Dewey e George Herbert Mead que passando inicialmente pelos contorno de uma psicologia funcionalista, 4 50 Cf. Hans Hoas, “Interacionismo Simbólico” In: Teoria Social Hoje/Anthony Gidens e Jonathan Turner (orgs.). São Paulo: Editora UNESP, 1999, pp. 135 e ss. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 Filosofia Pragmática, Pragmática Sociológica e Direitos Humanos pretendia interpretar todos os processos e operações psíquicas – não apenas as cognitivas – segundo sua eficácia para a solução dos problemas encontrados pelas pessoas no curso da conduta. Tal empresa significava a rejeição das abordagens epistemológicas ditas tradicionais, utilizadas na interpretação dos fenômenos psíquicos, e uma crítica a todas as psicologias que, em maior ou menor grau, acatam tais posturas filosóficas. A crítica de Dewey e Mead, volta-se sobretudo contra as teorias que reduzem a ação a uma conduta determinada pelo meio. Entretanto, o modelo de ação utilizado nessa crítica revela também a modificação do significado da intencionalidade em comparação com as teorias que vêem a ação como a concretização de “fins” predeterminados. Para Hoas, no pragmatismo, justamente porque ele considera todas as operações psíquicas à luz de sua eficácia para a ação, é impossível sustentar que a determinação de um fim seja um ato consciente per se, que ocorre fora dos contextos da ação. Ao contrário, a determinação de um fim só pode ser o resultado de ponderações sobre as resistências que uma conduta variamente orientada em diversas direções encontra. Ao ser impossível acompanhar simultaneamente todos os impulsos ou compulsões que levam à ação, ocorrerá um motivo dominante que, como se fora um fim, sufocará os demais ou lhes concederá eficácia apenas num grau subordinado (HOAS, 1999, p. 136). A crítica de que esse modelo reduz o conceito de ação de um modo instrumentalista ou ativista perdeu sua “plausibilidade”, graças ao interesse que Dewey e Mead tinham pelas brincadeiras infantis, não só porque queriam promover uma reforma educacional, mas também porque as brincadeiras lhes serviam como modelo de uma ação sujeita a um mínimo de obstáculos para sua realização. Para Dewey, o pragmatismo era nada menos que uma maneira de criticar aqueles aspectos da vida americana “que tornam a ação um fim em si mesmo e têm dos fins uma visão muito estreita e muito prática”. Ou seja, somente na ação a imediaticidade qualitativa do mundo e de nós mesmos nos é revelada. Mas a objeção principal para nós, diz respeito ao desenvolvimento das idéias de Dewey e Mead, reiteradas por Joas em comparação com a abordagem utilitarista, quando afirma: a teoria pragmática da ação inaugura novos campos de fenômenos e, ao mesmo tempo, torna necessário repensar os campos conhecidos – e os faz de um modo que não encontra precedentes na crítica feita pelos pensadores da sociologia clássica ao utilitarismo (HOAS, 1999, p. 137). O próprio Giddens reviu este aspecto posteriormente com o sugestivo título de seu livro “Política, Sociologia e Teoria Social: Encontros com o Pensamento Social Clássico” (Politics, Sociology and Social Theory. Encounters with Classical and Contemporary Social Thought, 1995) quando afirma no capítulo “A Sociologia Política de Durkheim”: ...Durkheim não estava, como freqüentemente se afirma, preocupado acima de tudo com a natureza da ‘anomia’, mas antes com a exploração da complexa inter-relação entre as três dimensões da ‘anomia’, ‘egoismo’ e ‘individualismo’. A divisão do trabalho social constituiu o pensamento de Durkheim a esse respeito, e ele não se desviou posteriormente da posição defendida naquela obra, embora não tenha elaborado completamente algumas de suas implicações senão bem mais tarde. A conclusão substancialmente mais importante a que chegou Durkheim em A divisão do trabalho social foi a de que a solidariedade orgânica pressupõe um individualismo moral: em outras Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 37-53, jan./jul. 2005 51 Ubiracy de Souza Braga palavras, que ‘é errado contrastar uma sociedade que vem de uma comunidade de crenças (solidariedade mecânica) com outra que tem uma base cooperativa (solidariedade cooperativa), reconhecendo apenas na primeira um caráter moral e vendo na segunda simplesmente um agrupamento econômico’. A fonte imediata desse individualismo moral, tal como explicitada por Durkheim em sua contribuição para a discussão pública a respeito do caso Dreyfus, estava nos ideais gerados pela Revolução de 1789. O individualismo moral não pode de modo algum ser confundido com o egoísmo (ou seja, com a busca do interesse próprio), tal como postulado na teoria econômica clássica e na filosofia utilitarista. O crescimento do individualismo, derivado da expansão da solidariedade orgânica, não deveria ser necessariamente equiparado à anomia (a condição anômica da divisão do trabalho era um fenômeno transitório, que se originava precisamente do fato de que a celebração de contratos estava insuficientemente governada pela regulação moral” (Giddens, 1998, p. 106-107). Finalmente, se o pragmatismo era nada menos que uma maneira de criticar aqueles aspectos da vida americana que tornam “a ação um fim em si mesmo” e tem “dos fins uma visão muito estreita e muito prática”, e ainda, “que a escolha da ação como ponto de partida da reflexão filosófica não significa que o mundo decaiu em nível de simples material à disposição das interações dos agentes”, diante de uma guerra pós-imperialista que define a ação a partir do “mercado”, o particular “mercado das nações” como idealização principesca, seu peer ranking, como não admitir a idéia de ação como um fim em si mesmo, como fantasia de um país que dá tiros nos próprios pés. Assim, talvez seja possível pensar numa história e numa lógica da dramaturgia do desprezo – de base psico-política – como ingrediente constitutivo da fantasia de “Príncipe perfeito” que, num afã, de responder ao absolutismo do mercado, se coloca no lugar de idealização narcísica diante do extermínio humano, da possibilidade da destruição das imagens e na crença de um ter por verdadeiro suficientemente válido, mas apenas no plano subjetivo. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A GUERRA do Iraque valeu a pena. Financial Times, 16 de jul. 2003. Editorial. ALVES, Rubem Azevedo, O suspiro dos oprimidos. São Paulo: Paulinas, 1984. ATAQUE anti-eva no Iraque mostram stilo clássico de guerrilha. New York Times, 17 de jul. 2003. BLAIR defender guerra contra Saddam em claro apoio a Bush. New York Times, 18 de jul. 2003. BOMBASSARO, Luiz Carlos. As fronteiras da epistemologia: como se produz o conhecimento. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992. 52 CERQUEIRA F. Gisálio; NEDER, Gizlene. 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A taxa de ocorrência de of emotional disorders such as depression, panic doenças afetivas como a depressão, a síndrome do syndr’om and other psychic illiness wich arise in the pânico e outros distúrbios psíquicos originados no contemporary estressful social environment, are estresse do meio social contemporâneo vem increasing significantly. The present article argues the aumentando significativamente. O presente artigo gap between technological development and discute a lacuna entre desenvolvimento tecnológico emotional poverty, the role of modern science within e pobreza emocional, qual o papel da ciência this context, and how social sciences could assist this moderna nesse contexto e como as ciências sociais crisis. Palavras Chave: Emoção; Ciência; Modernidade; Mal-estar; Saúde Mental. Key-words: Emotion; Science; Modernity; Bad fellings; Mental Health. poderiam auxiliar na gestão dessa crise. 1 INTRODUÇÃO Atualmente, organizamos nossas vidas sob a influência de um mundo emocionalmente doente. Somente na França, a depressão aumentou em 60% entre 1980 e 1990 (PERES, 2003). As constantes pressões inerentes à vida cotidiana como a intensificação da competitividade, a constante ameaça de desemprego, a ruptura da estrutura familiar etc. têm impacto significativo sobre nossa capacidade de partilhar afeto. O mito de que o progresso tecnológico situaria a humanidade num patamar de bemestar nunca antes alcançado, foi traído pelos fatos. Considerando que o século XX inaugurou o período em que as armas de destruição em massa foram utilizadas em larga escala, resta pouca esperança que a ciência ainda venha a honrar suas promessas originais. * Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, autor do livro A Dádiva da Sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de Alcoólicos Anônimos, Ed. Paulus (2004). Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 55 Leonardo de Araújo e Mota O século XXI se inicia sobre a égide da mesma crise moral que caracterizou o período precedente. Trata-se de um dilema que escapa ao reducionismo econômico. A crise atual não ocorre em virtude da escassez de recursos, mas por conseqüência da sua concentração em poucas mãos. O desenvolvimento de nossas aptidões técnicas não se seguiu ao controle de nossas imperfeições morais. Além do mais, uma sociedade que estimula seus membros a competir incessantemente entre si é incapaz de gerar qualquer solidariedade. O apelo do consumismo produz constantes sentimentos de desamparo. Na medida em que a mídia publicitária manipula os desejos de consumo, oculta ela o fato de que, para a grande maioria das pessoas, o carro possante ou a viagem dos sonhos representa apenas delírio frustrado. Este é o universo simbólico onde repousam as aspirações contemporâneas de auto-afirmação. Trata-se de um mundo fantasmagórico onde as imagens cintilantes dos sonhos de consumo contrastam com a dura realidade de uma economia excludente. O fato da depressão se apresenta hoje tão difundida e descortina o aspecto mais deletério de uma sociedade que condena os “mal-sucedidos” a vivenciar constantemente sentimentos de auto-recriminação, germe fundamental para a instalação dos distúrbios depressivos. 2 MAL-ESTAR E MODERNIDADE No início do século XX, quando Freud escreveu “O Mal-Estar na Civilização” sugeriu ele que o homem moderno havia renunciado a seus instintos de agressividade e sexualidade em troca de segurança. De maneira geral, ainda prevalecia a crença de que a “anomia” da era moderna estava em via de superação e o avanço da ciência conduziria a humanidade a gradações superiores, desde que mantida a renúncia aos instintos. A supressão da liberdade seria o caminho para a conquista da suposta felicidade. Nunca poderemos ter tudo na vida, por isso é necessário ceder de um lado para obter alguma vantagem do outro. Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização. Na realidade, o homem primitivo se achava em situação melhor, sem conhecer restrições de instinto. Em contrapartida, suas perspectivas de desfrutar dessa felicidade, por qualquer período de tempo, eram muito tênues. O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. (FREUD, 1997, p.72) Diferentemente do período que Freud analisou, na sociedade contemporânea não há mais limites para o exercício da liberdade. Todavia, o paradoxo atual é que quanto se promete a satisfação dos desejos, mais infelicidade é criada. Tal contexto induz uma busca frenética por bem-estar psíquico através da literatura de auto-ajuda, da forma física, do consumismo, das drogas, da indústria do entretenimento etc. O incremento no consumo de psicotrópicos é estarrecedor. Somente em 2001, foram consumidas 33,7 bilhões de doses de tranqüilizantes no mundo (CEBRID, 2003). A busca individualizada pela satisfação dos desejos desconhece quaisquer fronteiras. Zygmunt Bauman, em seu livro “O Mal-estar da Pós-modernidade”, atenta para o fato de que, ao contrário do que Freud diagnosticou quase um século atrás, a busca por segurança tornou-se uma heresia nos dias atuais. Aqueles que procuram valores e condições de vida estáveis no atual contexto 56 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 Emoção e Racionalidade estão condenados a sofrer constantes decepções. Na medida que a busca de segurança era premissa básica no processo civilizatório do início do século XX, a demanda atual por liberdade total reverteu radicalmente esse contexto, mesmo que o preço a pagar seja a insegurança endêmica. Por conseqüência, “se obscuros e monótonos dias assombravam os que procuravam a segurança, noites insones são a desgraça dos livres” (BAUMAN, 1998, p. 10). No momento em que a desregulamentação se torna palavra de ordem não há mais sentido buscar abrigo nas instituições que outrora defenderam a “segurança da civilização”. Se a época precedente ficou obcecada em organizar uma realidade naturalmente desorganizada, a condição presente assume sem culpa o demasiadamente humano, seus instintos e incertezas. A estabilidade do emprego ou da família não interessa mais a um sistema que deve modificar-se constantemente para acompanhar as flutuações do mercado. As doutrinas totalitárias firmaram-se num contexto de busca pela segurança. Apesar de suas diferenças, tanto o fascismo como o comunismo buscavam estabelecer uma ordem social onde o caos humano não teria lugar. Todas as visões totalitárias foram essencialmente modernas e desumanas. Neste prisma, poderíamos até comemorar a derrocada desses fantasmas do passado, mas a situação não é tão simples assim. A queda do socialismo causou um vazio ideológico que acabou por provocar um marasmo na ação social. As inquietudes de hoje são engolidas a seco, enquanto as novas alternativas são geralmente encaradas com desconfiança ou descaso. No estado liberal dos dias de hoje não há campos de concentração nem departamentos de censura, enquanto as prisões, inchadas como são, não têm celas reservadas para heréticos ou opositores políticos, A liberdade de pensamento, de expressão e associação alcançou proporções inéditas e nunca esteve tão próxima de ser verdadeiramente ilimitada. O paradoxo, no entanto, é que esta liberdade sem precedentes chega num momento em que há pouca chance de transformar a liberdade de restrições em liberdade para agir (...) ter um “controle sobre o presente” é algo que evidentemente falta aos homens e mulheres contemporâneos. (BAUMAN, 2000, p.174) A sensação de impotência que hoje experimentamos se opõe ao ideal da modernidade. O impacto emocional da desesperança e do cinismo é devastador. Ter consciência das injustiças e sentir-se incapaz de agir contra elas afeta nosso próprio instinto de sobrevivência. Em síntese, submeter-se aos ditames do mercado sem contestar sua lógica tornou-se a única ordem a ser observada, visto que o descontentamento comum não produz solidariedade. De maneira geral, as pessoas parecem cada vez mais fechadas em si mesmas, presas a um individualismo que se tornou patológico. Numa perspectiva mais universal, o colapso na fé dos grandes sistemas filosóficos explicativos como promotores de uma melhor compreensão do mundo moderno, e até da própria ciência como verdade inabalável e geradora de “progresso”, somado ao desmascaramento da “mentira pública” de nossos sistemas políticos vigentes, cada vez mais desacreditados, juntamente com a marginalização social de numerosos segmentos da população, os altos índices de desemprego, o aumento da mendicância nos grandes centros urbanos etc., gerou uma frustração generalizada frente à inacessibilidade dos ideais propostos pela cultura, abalando assim profundamente a crença do homem na realização efetiva de seus ideiais. (SEVERIANO, 2003, p. 228). Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 57 Leonardo de Araújo e Mota O paradigma dominante impõe atualmente uma racionalidade que busca incessantemente converter nossos anseios e emoções em cálculo econômico. A existência humana é reduzida à sua capacidade de produzir produtos e serviços a custos cada vez menores, não importando o custo social e psíquico da exploração dos trabalhadores. Como conseqüência, o ambiente de trabalho hoje está carregado de patologias mentais, fruto da exasperação da competitividade, da supressão das garantias trabalhistas e da constante ameaça de exclusão do mercado de trabalho. Segundo a Organização Mundial de Saúde, no mundo atual, 30% dos trabalhadores apresentam sintomas de depressão, transtornos de ansiedade ou estresse. (LOBO, 2003) 3 INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E RACIONALIDADE O hiato que hoje observamos entre o desenvolvimento tecnológico e a nossa humanidade é abismal. Como bem observou Giddens (1997), a vida emocional dos indivíduos na civilização moderna foi menosprezada pelo iluminismo, em detrimento dos esforços tecnológicos e científicos que sedimentaram a atual noção de modernidade. Ser moderno não passou a significar ser mais “humano” para livrar-se das estruturas arbitrárias da era pré-moderna. O espírito humanista perdeu espaço para o utilitarismo tecnológico. Nesse contexto, requeria-se do indivíduo apenas domínio da técnica e das noções de eficácia. Segundo Santos: a ciência moderna, outrora vista como solução para todos os problemas das sociedades modernas, acabou por se tornar, ela própria, num problema. A transformação gradual da ciência numa força produtiva neutralizou-lhe o potencial emancipatório e submeteu-a ao utopismo automático da tecnologia. (2000, p. 117) As conseqüências desse desequilíbrio original entre humanidade e racionalidade emprestou também à ciência a noção de “frieza”. Para obter-se êxito na carreira acadêmica, tornou-se indispensável ao cientista assumir postura calculista e insensível diante de seu objeto de estudo. O estatístico deve ser tecnicamente preciso ao produzir indicadores sobre a pobreza, mas jamais deverá compadecer-se do sofrimento dos pobres. Noções de caridade, amor ou benevolência passaram a ser interpretadas como pertencentes à esfera da religião (do erro) e arbitrariamente classificadas de “anticientíficas”. Para fazer a “verdadeira” ciência, o pesquisador deve suprimir seus sentimentos. Desse modo, ao mesmo tempo em que busca contemplar uma das dimensões fundamentais do homem, a ciência o afasta do cenário de estudo. (...) A linguagem científica é, via de regra, impessoal, emitida em terceira pessoa; o mundo interno do pesquisador é desprezado em sua qualidade subjetiva, pouco importando as sua opiniões informais, seus desejos e aspirações, mesmo que tais dimensões atuem decisivamente em sua produção; se algum fato imprevisível, como um sonho, ajuda no desencadeamento da solução de um problema de grande importância é concebido como mera e curiosa artimanha do acaso e nada mais. Em outras palavras, a subjetividade do pesquisador torna-se terreno proibido. (NEUBERN, 2000. p. 156) No entanto, quantificar, analisar e formular teorias sobre a sociedade não conseguiu livrar-nos de nosso cérebro reptiliano, área de nosso córtex responsável pelo direcionamento de nossos instintos. 58 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 Emoção e Racionalidade Certamente, hoje, somos mais sofisticados tecnologicamente, mas ainda sobrevive o animal primitivo que não estava circunscrito na filosofia iluminista. A “besta” pode falar mais alto que o Sapiens e isso ocorre com relativa freqüência sob a forma de guerras, por exemplo. Por outro lado, os modernos instrumentos de dominação psicológica podem também causar ao indivíduo um dano maior que a violência física propriamente dita. Portanto, não há garantias objetivas de que somos hoje mais “civilizados” que nossos antepassados. Algumas décadas atrás, os testes de QI determinavam o futuro de muitos estudantes e serviam para eles como notável distinção curricular. A pessoa considerada inteligente era aquela que possuía o maior domínio possível dos procedimentos técnicos e formais, especialmente os matemáticos. A capacidade de memorizar fórmulas e conceitos era a chave do sucesso profissional. No entanto, a partir do avanço das neurociências, tal tendência começou a modificar-se em grande parte do mundo ocidental. Estudos posteriores conseguiram diagnosticar que, na melhor das hipóteses, um QI elevado pode determinar até 20 por cento para o sucesso na vida, ficando os restantes 80 por cento sujeitos a outras forças. Daí então, descobriu-se que o modelo mecanicista apresenta uma série de limitações, ou seja, agora sabe-se que a cabeça e o coração precisam um do outro (Goleman, 1996). O estereótipo do cientista maluco ou pedante denota claramente a contradição entre elevado desempenho do raciocínio lógico e “incompetência emotiva”. Nas escolas, os garotos com as maiores notas, salvo raras exceções, são geralmente aqueles que encontram mais dificuldades de relacionar-se. Na sabedoria popular é também comum afirmar-se que namoro não combina com vestibular, o cérebro romântico é inútil para a ciência. Desde cedo, é inculcado nas crianças que o pensamento formal deve ser desprovido de emoção, que sentimentos atrapalham o desempenho intelectual. Não é por acaso que muitos comportamentos esquizofrênicos germinem em mentes altamente capacitadas para o raciocínio lógico, embora “emocionalmente infantis”. Nestes termos, Goleman observa que a inteligência acadêmica pouco tem a ver com a vida emocional. Os mais brilhantes entre nós podem afundar nos recifes de paixões desenfreadas e impulsos desgovernados; pessoas com altos níveis de QI são às vezes pilotos incompetentes de suas vidas particulares. (Idem. Ibidem.: 46) Os efeitos do que Goleman denominou de “analfabetismo emocional” são catastróficos: estupros, depressão, evasão escolar, abuso de álcool e drogas, guerras, etc. A incapacidade dos homens em administrar suas emoções é a causa de muitos infortúnios que provocam intensa deterioração do tecido social. Uma pergunta não quer calar: será que a atual fase do capitalismo não estaria condicionada à falta de empatia que hoje caracteriza o meio social? Ora, pessoas que são capazes de colocar-se no lugar do outro certamente não adotariam uma postura tão egoísta com relação a seus semelhantes e certamente teríamos mais igualdade de oportunidades. A gênese dos problemas atuais não pode ser circunscrita apenas no âmbito de um contexto estrutural que impõe sua lógica perversa a uma massa inerte e indiferenciada. Como conseqüência do mal-estar que assola a sociedade, a busca pela felicidade tornou-se atualmente uma obsessão. O exemplo mais evidente desse frenesi é a profusão dos títulos de autoAnima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 59 Leonardo de Araújo e Mota ajuda que abarrotam as prateleiras das livrarias. A procura pela fuga do estresse cotidiano e a intolerância ao sofrimento instituíram um mercado promissor para gurus da auto-ajuda, místicos e charlatões, narcotraficantes, laboratórios farmacêuticos, entre outros. Nos últimos três anos, o consumo de antidepressivos aumentou em 11% no Brasil, atestando o desejo de milhares de pessoas de aplacar o tédio e o desassossego (SEGATTO, MANIR E TERMERO, 2003). Apesar de se tratar de um tema bastante presente na vida cotidiana de todos os indivíduos, a felicidade não despertou muito interesse por parte da sociologia. Considerando que a ciência moderna não está equipada para trabalhar com problemas que não possam ser sistematizados formalmente, a questão da felicidade geralmente é deslocada para a esfera das artes ou da filosofia. Na realidade, quantificar a felicidade das pessoas é tarefa impossível. Foi a partir dessas interrogações que Pedro Demo publicou três volumes intitulados “A dialética da felicidade” (Ed. Vozes, 2001), suscitando na sociologia brasileira uma discussão profícua sobre essa temática. Entre suas ilações, Demo encaminha uma severa crítica à proliferação desordenada dos livros de auto-ajuda, desnudando suas promessas ilusórias, calcadas na premissa inócua de que “querer é poder”. Por outro lado, Demo reconhece também o desprezo da ciência pelos sentimentos humanos em favor da constante necessidade de formalização e regulação do conhecimento científico. A ciência usual não compreende a vida como questão de vivência, mas a explica como sistematização formal, complexo de relações lógicas, estrutura dada, sistema. Afasta-se de conteúdos e dinâmicas porque somente sabe tratar objetos formalmente paralisados. Teme enfrentar sujeitos necessariamente ideológicos, comprometidos, éticos. Considera o político como intromissão, invasão, perturbação. Por isso mesmo a ciência usual é “injusta” com a realidade social (...). (DEMO, 2001, a. 34) Avançando da pesquisa teórica para os procedimentos empíricos, Demo dirigiu uma pesquisa de campo sobre a felicidade monitorando três grupos: (1) membros da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD); (2) gente comum, encontrada aleatoriamente pela rua e (3) professores universitários de ciências sociais. Foram pesquisados 100 fiéis da IURD, 100 pessoas comuns e 20 professores da UnB. Dentre os 100 entrevistados de cada grupo, 20 indivíduos que se declararam felizes foram selecionados para entrevistas de profundidade. Observou-se que as interpretações sobre o que era ser feliz são inomináveis, tendo em vista que se trata de uma solução de caráter eminentemente individual. Também foi requerido por parte dos entrevistadores grande dose carisma e habilidade na aplicação dos questionários e entrevistas, uma vez que “estudar a felicidade é tarefa pouco promissora através dos métodos clássicos” (DEMO, 2001b:11). Procurando relacionar a posse de conhecimentos científicos e sua implicação para a felicidade, Demo catalogou algumas opiniões sobre a administração de assuntos mundanos e sua relação com a carreira acadêmica a partir das entrevistas com os professores da UnB. Pedro Demo defende a tese de que as ciências sociais, sendo demasiadamente críticas, não colaboram para a construção de uma visão positiva da realidade. O hábito dos sociólogos exaltarem o lado negativo dos conflitos sociais é problema para a felicidade. Além disso, a tendência igualmente verificada de conceber a religião como algo conservador ou alienante, e não como uma necessidade humana básica, parece agravar ainda mais a 60 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 Emoção e Racionalidade situação. Outro quesito importante foi a resistência encontrada entre os professores para responder o questionário, ou melhor, quem muito pesquisa os outros não se sente à vontade quando pesquisado. Grande parte dos professores entrevistados disse que não teria como tratar cientificamente a felicidade, visto que este assunto seria da competência dos filósofos, poetas ou místicos. Mesmo assim, 14 dos 20 entrevistados afirmaram que existe felicidade na academia, encontrando-se ela relacionada com o sucesso acadêmico, já que o conhecimento também pode sempre tornar-se algo “realizador”. Entre as quatro pessoas que alegaram não existir felicidade na academia, os argumentos indicaram que o excesso de competitividade, a vaidade e os ressentimentos constituem-se grande causa de infelicidade entre acadêmicos. Entre todos os quesitos, que seriam muito extensos para enumerá-los aqui, aquele que mais chamou a atenção de Demo foi a dificuldade dos professores em lidar com a autocrítica. Aqueles que estão habituados a uma postura crítica com relação ao mundo externo, pouco exprimem a possibilidade de avaliar-se com sinceridade. Segundo Demo (2001, b. 59) “parece ser mais ou menos comum que os cientistas sociais apreciem a crítica a tudo e a todos, desde que ele mesmo não se inclua. (...) na convivência diária preferem a situação não problemática, como se fossem dialéticos para fora e funcionalistas para dentro”. Apesar da pequena amostragem (20 entrevistados), fica evidenciada a dificuldade dos intelectuais em assumir suas próprias contradições. A autocrítica parece implicar em ameaça ao jogo do poder característico dos círculos acadêmicos. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Longe de representar um futuro de paz e igualdade, os filmes e alegorias futuristas projetam uma sociedade em putrefação onde a robótica assume o controle e o irracionalismo humano desdobra-se numa violência sem fim. Esta dimensão escatológica do devir, projetada incessantemente no inconsciente coletivo pela indústria cinematográfica, incrementa o medo e coloca a civilização moderna em xeque. O futuro civilizado, limpo e preciso dos Jetsons é substituído por tramas pessimistas como nas seqüências de Mad Max ou em “O exterminador do futuro”. A utopia cede lugar ao desengano. A promessa de dias melhores é trocada pelo imperativo categórico do cinismo. A crise da pós-modernidade realça a incapacidade da ciência em superar os sentimentos humanos de cobiça, ira ou ganância. A “frieza” dos procedimentos tecnológicos possibilitou um avanço sem precedentes em muitas áreas relacionadas ao bem-estar humano como o controle e cura de diversas doenças, maior rapidez nos transportes e telecomunicações, sistemas jurídicos mais precisos com a utilização de testes de DNA para desvendar crimes, etc. Por isso, seria injusto decretar a falência da ciência moderna como tal e negar sua contribuição para a sociedade. No entanto, acredito que as ciências sociais devam ser postas a serviço do desamparo emocional da humanidade. Vale observar que a competição exacerbada gera uma profunda ansiedade que possibilita o desenvolvimento de uma série de moléstias psicológicas como a depressão, a síndrome do pânico, o abuso de álcool e drogas, entre outras. Como cientistas sociais precisamos instigar um novo reencantamento do mundo, resgatando a paixão pela ciência como ferramenta para a emancipação humana, no intuito de desmontar a visão estereotipada da universidade como uma “torre de marfim”. O paradoxo de um mundo Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 55-62, jan./jul. 2005 61 Leonardo de Araújo e Mota tecnologicamente rico e emocionalmente pobre constitui-se um grande dilema para o século XXI. Por isso, faz-se necessário a prática saudável da autocrítica, visando ao nosso engrandecimento não apenas como cientistas sociais, mas também como seres humanos dotados de razão e emoção. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. LOBO, Flávio. 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It was also defined strategies of the researched schools; to analyze de comunicação associadas ao esporte; e por último promotion strategies related to sports; and, finally, to analisar a contribuição que essas estratégias trazem para know the contribution that this strategies bring to the as escolas. Foram ainda definidas duas hipóteses: a organizations performance. It was also defined two primeira é que o esporte é sub-utilizado como serviço hypothesis: the first is that the sports are sub used as como instrumento de promoção e de consolidação de marca é também sub-utilizado. Foi feito um estudo de campo junto a oito escolas confessionais de Fortaleza. Foi destacada uma percepção limitada por parte dos Key word: Sport; Schools; Services; Marketing Promotion. three specific objectives: to analyze the sports services esporte das escolas pesquisadas; analisar as estratégias nas escolas; e a segunda é que o potencial do esporte Palavra-chave: Esporte; Escolas; Serviços; Promoção de Marketing. services in the schools; and the second is that the sports potential as a tool of promotion and brand consolidation is also sub used. It was done an empirical study involving eight catholic schools from Fortaleza. gestores esportivos das potencialidades do esporte, com It was detected a limited perception by the sport formação de estratégias de maneira marcadamente managers of the sports potentialities, with strategies informal. formation done in an informal way. 1 Professor de marketing da FIC Vice-diretor do Colégio Juvenal de Carvalho 3 Coordenador do Curso de Educação Física da FIC 2 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 63 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves 1 INTRODUÇÃO Duas preocupações são destaque na sociedade contemporânea: a educação e a qualidade de vida. A primeira remete às instituições educacionais, enquanto que a segunda remete aos esportes e às atividade de lazer. Estas duas dimensões encontram-se entrelaçadas e são merecedoras de atenção a partir dos esportes nas instituições educacionais. O diálogo estabelecido entre estas duas dimensões remete à necessidade de estudos envolvendo as duas áreas. Aqui se discute especificamente os aspectos de marketing, em uma convergência entre o marketing esportivo e o marketing das instituições educacionais. Dada a impossibilidade de se abordar o universo mais amplo das instituições educacionais, optou-se pela abordagem sobre as escolas do tipo confessional católico. Dentre as práticas pedagógicas adotadas pelas escolas confessionais, o esporte assume um papel relevante por ser uma ferramenta que possibilita uma variedade de recursos educacionais e contribui efetivamente para a formação integral dos educandos. Essas escolas, em sua grande maioria, foram construídas com grandes estruturas físicas para as práticas esportivas como ginásios esportivos, piscinas, campos de futebol, salas de lutas, salas de dança, salas de teatro, dentre outros, confirmando assim, o seu significativo envolvimento com as práticas esportivas e artísticas. O problema central da pesquisa questiona: de que forma o esporte é utilizado como ferramenta estratégica de marketing das escolas confessionais de Fortaleza? Partindo desse problema central definiuse como objetivo geral analisar junto às escolas católicas de Fortaleza a utilização dos esportes nas atividades de marketing, enquanto serviços e ferramenta de comunicação e promoção. Além do objetivo geral foram estabelecidos três objetivos específicos que são: analisar as estratégias dos serviços de esporte das escolas pesquisadas; analisar as estratégias de comunicação associadas ao esporte e por último analisar a contribuição que essas estratégias trazem para as escolas. Foram ainda definidas duas hipóteses: a primeira é que o esporte é sub-utilizado como serviço nas escolas; e a segunda é que o potencial do esporte, como instrumento de promoção e de consolidação de marca da escola, é sub-utilizado nas escolas. Optou-se pelo desenvolvimento do trabalho em cinco itens, além desta introdução. Inicialmente são discutidos os elementos gerais do marketing esportivo; em seguida discute-se o marketing das instituições educacionais, a terceira parte traz a metodologia do estudo empírico desenvolvido, na parte seguinte são apresentados os resultados do trabalho de campo desenvolvido, e, por fim, a parte final traz algumas considerações sobre os o alcance do objetivos apresentados, a reflexão sobre a confirmação das hipóteses e algumas recomendações de possíveis estudos a serem realizados. 2 MARKETING ESPORTIVO De acordo com Pitts e Stotlar (2002) a prática esportiva está segmentada em: esportes de iniciativa privada, esportes mantidos pelo governo, organizações mantidas por sócios, organizações esportivas 64 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza não lucrativas, escolas de esportes e academias de fitness e esportes. Destacam-se no Brasil três grandes canais principais que são os clubes, as escolas e as academias. Os clubes são instituições caracterizadas por serem o berço da prática esportiva, tendo uma atuação no esporte profissional e amador ou no esporte puramente amador: na categoria do esporte profissional, que é caracteriza por estabelecer relações trabalhistas entre clubes e atletas, estão em nível de Brasil os clubes de futebol, que em alguns casos favorecem a prática dos esportes reconhecidos como amadores, estes são caracterizados por não estabelecerem relações de trabalho entre os clubes e seus praticantes (voleibol, basquete, natação etc.); os clubes de origem puramente amador que são caracterizados por adotarem a prática das atividades esportivas somente em nível amador, que tem como característica não estabelecerem relações trabalhistas entre os seus praticantes. Já as academias são caracterizadas por serem empresas prestadoras do serviço de atividade física, cujo objetivo principal é possibilitar para a população a busca e manutenção de uma melhor qualidade de vida. As academias estão focadas em todos os segmentos da sociedade a partir da infância até a terceira idade. O esporte escolar tem características puramente amadoras, possuindo em seus objetivos principais a busca da formação humana, da qualidade de vida, além de funcionar como um instrumento de formação cultural e pedagógica. Em nível de prática esportiva, tem-se, além do esporte praticado nos clubes, que envolve os atletas profissionais e que tem uma preponderantemente orientação para a performance, e que tem nos torcedores os seus clientes, há ainda aquelas atividades desenvolvidas no nível chamado amador, e que envolvem os esporte voltado para interessados em geral (no caso dos esportes das academias), para as comunidades e para as diversas organizações. Sobre estas últimas destaca-se a prática do esporte nos clubes de lazer e esporte das empresas ou instituições públicas, normalmente voltadas para os funcionários, e por vezes estendidos à comunidade. De modo especial nesta modalidade, tem destaque o esporte praticado nas organizações escolares. Levantamentos realizados pelos autores apontaram que as escolas são, depois dos clubes, os principais ambientes da prática esportiva. Em realidade, é possível encontrar indicativos de que as escolas são ambientes que tendem a superar os clubes em termos de desenvolvimento de atletas. Com efeito, as escolas têm sido centros geradores de vários atletas para os clubes, ainda que não seja esta a sua finalidade com relação ao esporte. Para Cardia (2004), a definição de marketing esportivo não pode ser muito diferente do marketing propriamente dito. Assim, da mesma maneira que se procede em relação a um produto ou serviço de consumo deve-se atentar para o tamanho do mercado de fãs de um clube, alunos de instituições educacionais, academias de ginásticas ou aficionadas de um esporte. Esses grupos de indivíduos têm em comum uma necessidade ou desejo que pode ser suprido pelo mesmo tipo de produto ou serviço. Isto faz desse grupo um mercado em potencial. As premissas do marketing esportivo destacadas pelo autor são demanda (que é o desejo associado à capacidade de compra de um determinado produto ou serviço); desejo (a feição dada pelos clientes às suas necessidades); valor (a diferença entre o que foi Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 65 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves pago e o valor com que a posse e o uso de determinado produto ou serviço); satisfação (o atendimento às expectativas de um comprador); qualidade (a capacidade de um bem ou serviço não apresentar defeitos e suprir a satisfação do cliente). Para Cardia (2004), a doutrina não dispõe de nenhuma definição objetiva de marketing esportivo por duas razões: primeiro por que a definição de marketing latu sensu é por si só suficiente para abranger a definição de seu subgrupo esportivo; segundo, porque é, à luz de tudo que já foi observado, abranger dois grupos distintos dentro da mesma definição. Esses grupos são constituídos pelos consumidores de um lado e os que são designados por entidades esportivas (ligas, federações, clubes, atletas, estádios, etc.). Segundo Cardia (2004), este fato leva a uma duplo conceito, distinguindo os dois lados da relação. Assim, surgem duas possibilidades para se definir o marketing esportivo: sob o prisma das entidades esportivas e sob a ótica dos clientes. Sob o prisma das entidades, "é o processo pelo qual se suprem necessidades e desejos de entidades esportivas através da troca de produtos e valores com seus mercados". Sob a ótica dos clientes, dos torcedores ou dos praticantes, marketing esportivo "é o processo social e gerencial pelo qual os indivíduos e grupos têm seus desejos e necessidades atendidas por meio de transações com o fim de lhes trazer satisfação" (CARDIA, 2004, p.22). Já para Mullim, Hardy e Sutton (2004), o marketing esportivo tem seu conceito ainda indefinido. Segundo estes autores o termo marketing esportivo foi cunhado pela revista Adversiting Age em 1978, para descrever as atividades dos profissionais marketing de produtos industriais, de consumo e de serviços que estavam utilizando cada vez mais o esporte como veículo profissional. Entretanto, este sentido do termo é extremamente limitado por que fracassa em reconhecer a parte dominante do marketing esportivo, que é o marketing de produtos, eventos e serviços esportivos. Mullim, Hardy e Sutton (2004), consideram ainda os componentes do marketing esportivo em duas dimensões, assim distribuídas: o marketing do esporte e o marketing através do esporte. • O marketing do esporte: é o marketing de produtos e serviços esportivos, que de forma geral ocorre em academias, clubes de esportes individuais e coletivos, nas instituições educacionais (universitárias e escolas básicas) etc; • O marketing através dos esportes: é caracterizado pelas atividades ou produtos que se utilizam o esporte como veículo promocional. Podem ser citados como exemplo as empresas de comercialização e produção de automóveis, vitaminas, produtos alimentícios, artigos esportivos, e, também, as instituições educacionais (universitárias e escolas básicas) etc. (cf. CONTURSI, 2000) É relevante considerar que as instituições educacionais estão posicionadas nas duas dimensões apresentadas, ou seja, no marketing do esporte, quando utilizam as atividades esportivas como serviços educacionais, e no marketing através dos esportes, quando promovem suas instituições através do ótimo conceito de saúde, disciplina, sucesso e qualidade de vida que o esporte possui diante da sociedade. Mullim, Hardy e Sutton (2004) consideram ainda outros elementos no marketing esportivo e que causam confusão, que são: o marketing dos esportes (plural) e o marketing do esporte (singular). Para os 66 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza autores, o marketing dos esportes designa uma orientação voltada para modalidades e práticas específicas, enquanto o marketing do esporte tem sentido genérico, envolvendo toda a industria do esporte. (cf. PITTS e STOTLAR, 2002). Se o marketing esportivo consiste em atividades destinadas a satisfazer as necessidades e os desejos dos consumidores esportivos, então o marketing esportivo tem sido também vitima do que Theodore Levitt (1960) chama de "miopia do marketing" que consiste na falta de previsão nos empreendimentos de marketing. Para Mullim, Hardy e Sutton (2004) os sintomas padrão da incluem o seguinte: um foco na produção e venda de bens e serviços, em vez de enfocar a identificação e satisfação de necessidades e desejos dos consumidores e de seus mercados; a crença de que vencer absorve todos os outros pecados; a confusão entre as promoções e o marketing; um foco equivocado sobre os investimentos de curto prazo, como os patrocínios, em vez de longo prazo em pesquisa e marketing de relacionamento. A miopia do marketing esportivo é estendida a mais dois fatores importantes, que são: a falta de pesquisa de marketing e a técnicas de vendas fracas. Em relação às pesquisas de marketing observa-se a carência de uma maior sensibilidade esportiva. As pesquisas têm sido realizadas com o consumidor casual de esporte. Em realidade, ocorre uma necessidade de que os gestores esportivos invistam em pesquisas bem planejadas que incluam métodos qualitativos e não simplesmente levantamentos rápidos e descuidados. Já em relação às vendas, o investimento efetivamente no esforço de vendas é fraco e carente de profissionalismo. As vendas são limitadas às bilheterias dos estádios e ginásios esportivos, sempre esperando que o consumidor do esporte dirija-se a sua procura. Algumas ações têm sido implementadas pelos gestores esportivos como a venda de ingressos em farmácias e lojas em shopping centers. Assim, torna-se imperativo o uso de estratégias de vendas orientadas e executadas por profissionais. 3 MARKETING DE SERVIÇOS EDUCACIONAIS Educação é missão e propósito de um grande número de organizações, entre as quais se pode citar instituições religiosas, culturais, de saúde e esportivas. Independente de qual seja a natureza da organização, se pode observar que uma variedade de instituições educacionais enfrenta problemas de marketing. Essas dificuldades estão relacionadas à mutação de alunos, à concorrência por clientes, aos recursos escassos e às pressões financeiras, sociais e legais persistentes. As escolas são organizações prestadoras de serviços (LAS CASAS, 2002) reconhecidas como sendo de extrema complexidade, seja por seu objetivo de educar, seja pela sua grande variedade de serviços. Este item concentra-se no marketing destas instituições. 3.1 INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS E O USO DO MARKETING De acordo com Kotler e Fox (1994) muitos educadores têm enfocando o marketing com cautela. Embora os administradores tenham adotado imediatamente funções gerenciais como finanças, contabilidade, planejamento e relações públicas etc., eles têm sido mais céticos no que se refere ao Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 67 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves marketing. Ainda segundo os mesmos autores, o marketing leva consigo a imagem de ser uma função de empresas que visam exclusivamente o lucro, causando a impressão nos administradores educacionais de que o marketing é manipulador e caro e, portanto, inadequado para suas organizações. Por outro lado, Kotler e Fox (1994, p. 23) observam que o marketing constitui "uma atividade central das instituições modernas, crescendo em sua busca de atender eficazmente alguma área de necessidade humana". Neste sentido, é relevante que as instituições educacionais utilizem as ferramentas e conceitos de marketing como forma de sobreviverem e se tornarem bem sucedidas. Em relação à utilização do marketing nas instituições educacionais, há indícios de que as instituições universitárias estão começando a aplicar ativamente as idéias e conceitos de marketing, enquanto que nas escolas particulares de educação básica ainda há desconhecimento sobre o que o marketing tem a oferecê-las. As instituições escolares públicas, de uma forma geral, não demonstram qualquer interesse em marketing. Para Kotler e Fox (1994), composto de marketing nas instituições educacionais é a combinação particular de variáveis de marketing controláveis que a instituição utiliza para obter seus objetivos no mercado-alvo. O marketing mix é composto por quatro subconjuntos de variáveis, que são identificadas como os "4Ps" (produto, preço, promoção e ponto). Posto que a finalidade deste trabalho é abordar o esporte como elemento de marketing, especificamente associado às variáveis produto e promoção, os próximos itens estarão concentrados nestes elementos e suas principais variáveis. 3.2 O PRODUTO DE UMA INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL Para os profissionais de marketing a utilização do termo produto tem um sentido bastante amplo, envolvendo tudo o que a instituição oferece ao consumidor. De acordo com Kotler e Armstrong (1999) um produto na forma de serviço, como qualquer outro produto, pode ser analisado em três níveis: núcleo, tangível e aumentado. • No nível mais essencial está o produto núcleo, que responde aos seguintes questionamentos: o que o consumidor esta realmente procurando? E quais necessidades o produto está realmente satisfazendo? Cabe então ao especialista em marketing a missão de perceber o produto na perspectiva do consumidor. Na escola o produto caracterizado como produto núcleo é a educação, considerada na sua dimensão mais ampla. Neste sentido, todos os serviços que são disponibilizados à sociedade por qualquer instituição educacional, pensados de maneira agregada, constituem o produto núcleo de uma escola. Posto que a educação visa desenvolver o sujeito na sua plenitude, no contexto do produto núcleo é possível inserir a educação física e o esporte, na medida em que estes têm por finalidade, na escola, o desenvolvimento da dimensão física, psicológica, social e humana do educando. 68 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza • O produto tangível: é o produto de primeiro nível transformado em modalidades ou linhas específicas de produtos. Na instituição educacional podem-se apontar como produtos deste segundo nível as atividades de instrução básica (educação infantil, ensino fundamental, médio e superior) e os demais serviços que são agregados, como as diversas atividades artísticas, atividades físicas, os serviços à comunidade, os serviços de cantina, biblioteca, semi-internato etc. Como serviços de atividades físicas podem-se citar a educação física escolar e os esportes. A primeira relaciona-se a uma disciplina curricular que tem caracterização dependente da proposta pedagógica da escola. Especificamente nos esportes destacam-se as diversas modalidades esportivas que são ofertadas aos diversos públicos das escolas. São apresentadas a seguir as principais atividades desenvolvidas: EM RELAÇÃO AO AMBIENTE • Esportes de quadra: futsal, basquete, handebol, voleibol etc; • Esportes aquáticos: natação, pólo-aquático e hidroginástica; • Esporte de mesa ou de salão: tênis de mesa, xadrez, dama... EM RELAÇÃO À FINALIDADE • Esporte de competição: que objetivam a participação em eventos como torneios, copas e campeonatos. Inserem-se nestas categorias as seleções das diversas modalidades; • Escolinhas esportivas: que se desatinam ao aprendizado dos fundamentos básicos das diversas modalidades esportivas. • O produto aumentado são os benefícios e serviços que se estendem além do produto núcleo e do produto tangível. De acordo com Kotler e Fox (1994), a concorrência não ocorre apenas no que as instituições educacionais oferecem dentro das salas de aula, mas também no que acrescentam nas suas ofertas padronizadas na forma de embalagem, serviços, propaganda etc. Neste sentido, pode-se considerar como serviço aumentado de uma escola as peculiaridades ofertadas em cada produto, tais como nível de qualidade, ambientação, metodologias mais efetivas (como inter e transdisciplinaridade), uso de tecnologias avançadas, reputação de imagem da instituição e do serviço etc. Em relação aos serviços esportivos de uma escola, o que pode ser adicionalmente agregado são: nível diferenciado dos profissionais, qualidade das instalações físicas, reputação diante da comunidade escolar e das demais escolas, a conexão com a proposta pedagógica da escola, qualidade do material esportivo, participação em eventos afins e outros. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 69 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves No contexto da escola, a instrução básica constitui um produto de natureza perene, a despeito das transformações que ocorrem na sua dimensão pedagógica. Por outro lado, a dimensão que os esportes têm na sociedade contemporânea e as perspectivas que guardam para o futuro não deixam dúvidas de que sua tendência é também de perenização no contexto da escola. Ou seja, a atividade esportiva deve ser entendida de forma integrada a todas as demais atividades das escolas, não apenas como mais uma oferta de serviços, mas também dentro do contexto da proposta pedagógica da escola. PROMOÇÃO As instituições educacionais são portadoras da necessidade de comunicações eficientes com seus mercados e públicos. Não basta desenvolver bons serviços ou fixar preços tentadores: as instituições devem aos seus consumidores e demais envolvidos no seu trabalho maior conhecimento sobre suas metas, atividades e ofertas e assim despertar o interesse pelos mesmos. Kotler e Fox (1994) observam que as instituições educacionais executam sua comunicação através de duas vias: propaganda, ou a divulgação paga de idéias, produtos, programas ou serviços, que pode ser em televisão, jornais, radio, cartazes, catálogos etc; relações públicas, ou conseguir interesses favoráveis em uma instituição pela difusão de noticias de forma gratuita em mídias de radio, televisão ou outra fonte de divulgação. Na perspectiva de Faria (2003), um programa eficiente de comunicação necessita de uma grande experiência profissional, não devendo ser relegado ao acaso. As publicações das instituições devem ser revisadas em termos de qualidade, consistência, conteúdo e estilo, devendo sempre que possível ser utilizados canais de comunicação os mais personalizados possíveis e adaptado as características de mercado em que a instituição de ensino atua. Para a finalidade desse trabalho optou-se por comentar apenas os elementos de comunicação associadas ao esporte de uma instituição educacional. Assim, decidiu-se comentar os fatores associados à propaganda, patrocínio, boca a boca e imagem da empresa: • Em relação à propaganda, as instituições de ensino utilizam-se das atividades esportivas para divulgarem sua imagem diante do seu público consumidor como forma de atrair novos alunos e promover a venda dos seus serviços. Essa divulgação é escolhida pela imagem vencedora e de qualidade de vida que o esporte proporciona. É comum encontrar propagandas associando as escolas ao esporte nas mídias de outdoor, jornal, televisão etc. • As instituições utilizam-se do instrumento de patrocínio em duas vias: patrocinando eventos e equipes esportivas e também sendo patrocinadas por instituições diversas. As duas vias objetivam a divulgação da instituição. Na via em que a instituição é patrocinada também é visada a redução de custos. • A forma de divulgação boca a boca é bastante utilizada pelas instituições educacionais, notadamente pelos alunos, ex-alunos e familiares destes que a divulgam tanto nas questões pedagógicas e como sobre as estruturas físicas. A participação em eventos esportivos diversos são também uma importante fonte de divulgação boca a boca. 70 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza • As atividades esportivas são fonte de grande divulgação para as instituições educacionais no sentido de transmitirem uma imagem de boa formação humana, de equilíbrio, saúde, disciplina e qualidade de vida, atributos esses buscados pela sociedade dos tempos contemporâneos. As considerações dos últimos dois itens demonstram o quanto os esportes são importantes para as instituições de educação concernente a suas estratégias de produto e de promoção. Neste sentido, o esporte tem a possibilidade de ser um verdadeiro elemento de diferenciação para as escolas, que tem a possibilidade de se apropriar do grande contributo que as atividades esportivas e físicas podem fornecer para a construção de um individuo sadio, equilibrado, com boa qualidade de vida. 4 METODOLOGIA A orientação metodológica deste trabalho foi delineada com o objetivo de consolidá-lo nos rigores da metodologia científica, tornando-se indispensável a justificativa e a exposição dos caminhos percorridos na construção deste trabalho. A seguir estão delineados todos os procedimentos relacionados ao estudo empírico. O trabalho de campo consistiu em um levantamento do tipo descritivo. Este tipo de estudo se caracteriza pela intenção de conhecer o universo, suas características, agentes, processos, dentre outros aspectos, com a pretensão de descrever com a maior exatidão possível os fatos e fenômenos relevantes (BARROS e SAMARA, 1997). O universo da pesquisa foi constituído pelas escolas confessionais católicas localizadas no município de Fortaleza e que possuem coordenação específica de esportes. Por este parâmetro, o universo constou de nove unidades, das quais procurou-se proceder ao levantamento de dados de forma censitária. Deste total, somente uma escola não pôde ser abordada. Definido o universo, a fase seguinte consistiu em levantar os dados primários acerca das orientações dos esportes junto às unidades do universo definido. Por não existir instrumento consagrado pelo uso para atender a este propósito, optou-se pela elaboração de um roteiro estruturado (BOYD e WESTFALL, 1982, 146). A partir do conteúdo das entrevistas realizadas e com base na revisão de literatura, foram identificadas as variáveis de investigação e definida a estrutura do roteiro de pesquisa. Estas variáveis foram então divididas em quatro blocos de questões. O primeiro bloco contém as variáveis de identificação e de segmentação da pesquisa com foco na caracterização das unidades pesquisadas e dos respondentes. Já o segundo bloco envolve as questões referentes à percepção dos respondentes em relação aos aspectos gerais de marketing nas suas respectivas organizações. O terceiro bloco contempla as questões que visam identificar as principais estratégias desenvolvidas em cada organização relacionadas aos esportes enquanto serviços. O quarto bloco envolve questões relacionadas aos esportes como ferramentas de promoção de marketing. Após a consolidação do instrumento de pesquisa, o roteiro definitivo foi aplicado junto aos componentes do universo. Para a aplicação foi utilizado o método de abordagem direta, com aplicação realizada pelos autores. Os informantes foram os gestores esportivos das escolas. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 71 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves A análise dos dados considerou, portanto, as medidas fornecidas e os cruzamentos com a discussão das características significativas, sempre procurando confrontar os resultados levantados com o referencial teórico do estudo. 5 ANÁLISE EMPÍRICA Este item apresenta a análise dos dados do levantamento empírico realizado no mês de maio de 2004 junto às escolas confessionais católicas atuantes no mercado de Fortaleza, que se enquadravam nos critérios definidos para o universo de pesquisa. A partir da análise realizada foi possível conhecer informações sobre os as escolas, seus gestores e ainda sobre as orientações estratégicas de esportes das escolas pesquisadas. 5.1 DESCRIÇÃO DAS ESCOLAS E DOS RESPONDENTES A Tabela 1 abaixo apresenta as escolas pesquisadas e os seus respectivos tempos de atuação no mercado de educação de Fortaleza. !) ! + > Nome da escola Tempo de Existência ' "- *: (( ' "- ' 4 (, ' "- *) 08 ' "- , ' ; ' "- C ' D * 3 E ( ' F 5 5 A A tabela permite verificar que todas as escolas pesquisadas têm um longo tempo de atuação, todas acima de trinta anos de existência, merecendo destaque em relação a este tempo para duas escolas: o Colégio Marista Cearense, que tem noventa e três anos de existência; e de forma especial o Colégio Imaculada Conceição que é a escola católica pesquisada com maior tempo de existência, tendo sido a primeira escola católica a atuar em Fortaleza, com cento e trinta e sete anos de existência. A Tabela 2 analisa as escolas pesquisadas em relação à capacidade de absorção de alunos e a quantidade de alunos matriculados, tanto geral como especificamente do esporte (somente o Colégio Marista Cearense não revelou a quantidade de alunos matriculados no esporte). Foi observado que 72 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza todas as escolas têm capacidade ociosa tanto em relação ao seu número de alunos de forma geral como especificamente nas atividades esportivas. É importante considerar que todas as escolas pesquisadas têm capacidade para absorverem pelo menos mil e quatrocentos alunos, com limite máximo para três mil alunos, e em relação ao esporte podem absorver de trezentos a dois mil alunos, sendo a escola que tem maior capacidade de absorver alunos para o esporte o Colégio Marista Cearense, que possui o maior complexo esportivo entre as escolas pesquisadas. !) ' - Nome da escola Capacidade Nº alunos Capacidade para esportes Nº alunos nos esportes ' "- *: <<< (<< 0<< << ' "- ' 4 <<< ,<< 00< 0<< ' "- *) 0<< ,<< (<< < (<< ;,< 0<< ,<< <<< <0 <<< # ,<< 5<< 8<< ,<< (<< 5,8 << , ,<< 8< (<< << ' "' ' "- C ' D * ' F E 3 A A relação entre o número de alunos e professores das escolas apresenta-se de onze a vinte e cinco alunos por professor, o que representa uma diferença bastante significativa. Em relação ao número de alunos e o total de colaboradores também se verifica uma grande diferença entre as escolas pesquisadas, com destaque novamente para os Colégios Santa Cecília que tem o maior número de alunos por colaborador (16) e Marista que tem o menor número (7). Em relação às informações coletadas sobre os gestores esportivos, é relevante observar que todos são do sexo masculino o que confirma uma tradição característica do esporte nas escolas, mesmo as dirigidas por pessoas do sexo feminino. Em relação à idade, percebeu-se que todos os gestores têm acima de 30 anos, havendo uma predominância na faixa de idade entre 30 e 40 anos, com seis dos pesquisados, e ainda um gestor com idade entre 40 e 50 anos e um outro com mais e 50 anos. Já em relação ao tempo de experiência na gestão do esporte escolar, verifica-se que os gestores em sua maioria (sete no total) têm mais de 15 anos de prática, o que significa serem possuidores de um considerável tempo de vivência prática no assunto em questão. Quanto ao grau de instrução, observa-se que a maioria quantidade dos gestores é de especialistas (seis dos oito pesquisados), o que revela um nível de interesse bastante elevado em formação profissional. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 73 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves 5.2 OS ELEMENTOS GERAIS DE MARKETING Neste item são apresentados os resultados de uma série de questões elaboradas aos gestores sobre os diversos elementos de marketing e sua utilização nas escolas pesquisadas. Inicialmente os gestores esportivos foram questionados sobre os métodos utilizados na formulação de preços das diversas modalidades esportivas oferecidas pelas escolas. Observou-se que a maioria não pratica a adoção de preços com base na aferição de custos e despesas ou a partir da disposição do cliente em pagar ou não pelos serviços. A grande maioria (cinco dos nove pesquisados) afirmou que definem seus preços no setor de acordo com os preços praticados no mercado. Com relação às estratégias de preços utilizadas, os gestores foram convidados a apontar as principais dentro de um elenco de seis alternativas. Foi apontado que as escolas têm uma preferência pela oferta de descontos para os alunos, e, secundariamente, pela fixação de preços de sobrevivência. Ainda que não seja o preço a única variável relevante é possível extrair daí uma das razões pelas quais as escolas têm, nos esportes uma grande capacidade ociosa. Com relação às estratégias de distribuição de serviços, observou-se que há uma predominância das escolas (metade das pesquisadas) não terem uma orientação estratégica definida, ao passo que duas das escolas se utilizam de planos de expansão através de investimentos nas suas instalações esportivas e outras duas apontaram o desenvolvimento de programas de aprimoramento de design nos seus ambientes esportivos. É possível apontar que as escolas sofrem a falta de orientação estratégica neste quesito. A verificação de que metade das escolas não tem orientação estratégica definida é bastante para demonstrar esta falta de deficiência. Também a baixa freqüência de escolas que tem preocupação com o aprimoramento de programa de design causa perplexidade e é mais uma demonstração de deficiência estratégica, especialmente em escolas confessionais católicas, que são destacadas por sua beleza e grandiosidade arquitetônica. 5.3 SOBRE OS SERVIÇOS DE ESPORTE Para este estudo os autores classificaram os esportes praticados nas escolas em três categorias, assim descritas: esportes de quadra, esportes de mesa e salão e esportes aquáticos (cf. item 3). Verificouse que todas as escolas pesquisadas possuem, em relação aos esportes de quadras, modalidade de futsal, basquete e voleibol. Em relação aos esportes de mesa e salão, ocorre uma variação grande entre as atividades praticadas nas escolas em questão, havendo preferência para xadrez, dama e tênis de mesa. Já a terceira classificação, que são os esportes aquáticos, observa-se que apenas três escolas das pesquisadas adotam esses esportes. Observa-se que as atividades esportivas praticadas com maior incidência nas escolas pesquisadas são os esportes tradicionais mais praticados pela sociedade brasileira. Observa-se também a falta do futebol 74 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza de campo nas escolas, apesar de este já ser considerado um esporte tradicional no Brasil. É possível supor que essa atividade não é praticada devido a falta do espaço físico que a modalidade requer. Quanto aos esportes aquáticos, somente três escolas possibilitam seus alunos a praticarem. Esse dado revela a falta de estrutura física das escolas e ao alto investimento na construção e manutenção de uma piscina. Em relação aos esportes de salão, observou-se a pouca incidência do xadrez, que é uma atividade extremamente relevante para a prática para a interação coma prática pedagógica da escola. Quanto aos principais fatores determinantes para a oferta destes serviços, observou-se que a maioria das escolas pesquisadas oferece as atividades solicitadas pelos alunos (7). Já indicações sobre a influência de algum esporte em ascensão ou a solicitação das famílias obtiveram um índice significativo de escolas que decidem suas atividades por estas solicitações (5 e 6, respectivamente). Torna-se ainda relevante destacar que apenas uma escola determina as atividades a serem praticadas considerando a necessidade de interação com a proposta pedagógica, no que os autores consideram um erro grave já que as atividades esportivas devem servir como uma ferramenta e grande valor para prática pedagógica das escolas. Em relação à contribuição destes para o desempenho estratégico das escolas pesquisadas, verificouse que a maioria dos pesquisados (em um total de 7) afirma que eles possibilitam o alcance dos objetivos pedagógicos da escola, o que contraria as afirmações descritas em relação aos principais fatores que determinam a oferta desses serviços. O potencial de melhoria da imagem da escola e o favorecimento a captação e manutenção de alunos também receberam uma boa indicação em relação ao universo das escolas pesquisadas (3 e 4, respectivamente). Os autores consideram relevante observar que a associação dos elementos acima descritos produz um efeito considerável na contribuição que estes serviços podem prestar as escolas em questão. Os gestores também foram convidados a informar se a escola mantém serviço de esporte para clientes além dos alunos matriculados na escola. Assim, inicialmente estes foram questionados sobre a oferta de serviços de esporte para o público adulto (professores, funcionários, pais etc) e caso respondessem positivamente quais os objetivos. Somente um dos respondentes informou que a escola não presta tais serviços. Já em relação aos objetivos que esses serviços têm nas instituições pesquisadas foi verificado que a maior parte as escolas pesquisadas (em um total de cinco das sete que responderam) considera que eles aproximam as famílias e funcionários das escolas, enquanto que apenas duas escolas consideram que os serviços provocam a aproximação da escola com a comunidade. Uma segunda questão perguntava se a escola estende o serviço de esportes para a comunidade externa. Nesta questão todos os respondentes responderam favoravelmente. Em relação aos objetivos das atividades realizadas nas escolas pesquisadas, a metade considerou que as mesmas têm forte influência na captação de alunos para as escolas que as utilizam; também metade das pesquisadas considera que as atividades são instrumento de divulgação da instituição na comunidade. Em relação ao papel social que Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 75 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves a escola representa apenas três dos respondentes consideraram que ele é relevante. Observa-se nos dados coletados o pouco conhecimento do poder de penetração que o esporte pode favorecer as escolas diante da sociedade e assim alavancar as instituições em relação a sua aceitação e escolha por parte da sua potencial clientela. Por fim, os gestores foram perguntados se a escola mantém algum serviço de esportes para os seus ex-alunos. Também nesta questão todos os gestores responderam favoravelmente. A última questão sobre os esportes enquanto serviços consistia em um conjunto de afirmações nas quais os gestores eram convidados a expressar seu nível de concordância. Observou-se que apenas uma escola discorda que o esporte é um dos principais serviços da escola, enquanto que três consideram que o esporte é um dos principais serviços de uma escola. Em relação a afirmação que os esportes são criados em consonância com os objetivos estratégicos das escolas, observou-se que somente duas das escolas pesquisadas consideram que são estratégicos, enquanto que quatro escolas consideram que são estratégicos mais não em seu grau maior. Nota-se também que nenhuma escola considera as atividades esportivas como não estratégicas. A afirmação de que o esporte tem por finalidade somente se constituir em um componente da Educação Física Escolar foi negado por quatro das escolas pesquisadas, com apenas dois escolas concordando com a afirmação. Já em relação à qualidade dos serviços esportivos constituindo um diferencial competitivo da escola observou-se uma igualdade de informações que variam da maior importância a menor, o que mostra um desconhecimento dos gestores sobre a questão. Quanto ao esporte ser visto unicamente como uma atividade pedagógica da escola novamente ocorreu um equilíbrio nas informações colhidas das escolas pesquisadas, ficando dois considerando que sim e dois considerando que não, enquanto as demais considerando um meio termo. 5.4 SOBRE O USO DO ESPORTE NA PROMOÇÃO DA ESCOLA Sobre os esportes como ferramentas de comunicação de marketing, inicialmente os gestores foram inquiridos sobre quais os principais atributos do esporte utilizados pela escola na sua comunicação com o público. Observou-se que todas as escolas consideram o objetivo de formação humana como um atributo do esporte, ao passo que metade DOS respondentes considerou que o esporte é um instrumento de inter-relação pedagógica, e ainda cinco do total consideraram que o esporte é um promotor de qualidade de vida de seus praticantes e apenas uma considera que o esporte é um formador de cidadãos vitoriosos. Observa-se que os pensamentos colocados estão bastante coerentes com as finalidades do esporte e com sua proposta diante da sociedade que são: favorecer a formação humana e a boa qualidade de vida, sem deixar de também ser uma ferramenta de grande valor nas inter-relações pedagógicas das escolas. Já em relação aos programas de comunicação do esporte, as escolas pesquisadas informaram na sua totalidade que utilizam a participação e realização de eventos associados ao setor e apenas uma utiliza as ferramentas de forma estruturadas de marketing. 76 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 O Esporte como Serviço e Ferramenta de Promoção: Um dos Estudos nas Escolas Católicas de Fortaleza Por fim, a última questão sobre os esportes enquanto ferramenta de comunicação consistia em um conjunto de afirmações nas quais os gestores eram convidados a expressar seu nível de concordância. Observou-se que apenas duas escolas informaram que as atividades do esporte são componentes comuns nas suas campanhas de propaganda, enquanto três não utilizam forma alguma o esporte em suas campanhas de propaganda. Em relação à participação das escolas em eventos esportivos, a maioria (5) afirma que esse fator é relevante para consolidação da imagem da instituição. Já em relação ao patrocínio esportivo como uma ferramenta importante na comunicação de sua imagem, foi apresentado um equilíbrio nas informações coletadas das escolas pesquisadas ficando duas concordando totalmente e outras duas discordando totalmente. As demais ficaram em um meio termo. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho é oriundo da inquietação dos autores no sentido de compreender como os esportes são utilizados no processo estratégico de marketing nas organizações escolares católicas de Fortaleza. Conforme se pôde observar, a explanação procurou ser marcada por uma orientação descritiva. O trabalho empírico procurou ser consistente com os objetivos e as hipóteses delineadas para o trabalho, tendo possibilitado uma melhor compreensão do setor escolar como um todo e dos esportes escolares, de forma mais específica. A pergunta de partida do trabalho, que questionava de que forma o esporte é utilizado como ferramenta estratégica de marketing nas escolas confessionais de Fortaleza, conduziu todo o desenvolvimento da pesquisa, tendo sido possível uma resposta satisfatória. O objetivo geral, que era analisar junto às escolas católicas de Fortaleza as atividades de marketing e serviços de comunicação e promoção associadas aos esportes, foi atingido, sendo observado que as escolas não apresentaram uma orientação profissional, deixando clara a necessidade de projetos que contemplem uma orientação de marketing no sentido de utilizar as atividades esportivas como instrumento para alavancar e sustentar as instituições educacionais. Em relação ao primeiro objetivo específico que era analisar as estratégias dos serviços de esporte das escolas pesquisadas, também foi atingido, sendo visto que as escolas não utilizam estratégias definidas de marketing adequadas para a execução dos seus serviços. Já em relação ao segundo objetivo específico, que era analisar as estratégias de comunicação associadas ao esporte, também foi atingido, tendo-se observado que as escolas analisadas não utilizam o potencial dos esportes de forma adequada em suas ações de comunicação e promoção de marketing. O último objetivo específico consistia em analisar a contribuição que os esportes trazem para as escolas, também foi atingido, tendo-se aferido que, mesmo sem ter uma estratégia profissional, eles são utilizados sempre que as instituições estabelecem suas campanhas, sem na verdade uma verificação com precisão. Em relação à primeira hipótese, foi confirmado que as atividades esportivas não tem a utilização na sua verdadeira dimensão, ficando as instituições sem vivenciar as verdadeiras contribuições que o Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 77 Francisco José da Costa, Sérgio Henrique Sousa Diniz, Francisco de Assis Francelino Alves esporte pode oferecer para as escolas. Da mesma forma, a segunda hipótese se confirma, visto que as atividades esportivas não são utilizadas de forma a atingirem todo o seu potencial como ferramenta para a promoção e consolidação da marca das instituições educacionais. Os autores consideram que o desenvolvimento de outros trabalhos de pesquisa faz-se necessário para a melhor compreensão tanto do campo do marketing esportivo como para o próprio setor escolar. Seguem algumas recomendações de possíveis trabalhos a serem realizados. O modelo de análise aqui utilizado ficou restrito às escolas confessionais católicas. A adequação como referencial explicativo deste modelo no universo estudado não é bastante, por outro lado, para entendimento de escolas de outras orientações, como as leigas e as comunitárias. Deste modo, seria relevante que este trabalho fosse ampliado para estas escolas. Também a relação entre as variáveis do composto de marketing nas escolas e a aplicação aos esportes constituiria um relevante trabalho tanto para o marketing educacional como esportivo. Apesar das limitações deste trabalho, acredita-se que as informações constantes neste estudo poderão servir de apoio para adoção de decisões estratégias melhor adaptadas à realidade do setor. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROS, J. C; SAMARA, B. S. Pesquisa de marketing: conceitos e metodologias. 2. ed. São Paulo: Makron Books, 1997. BOYD, W. B; WESTFALL, R. Pesquisa mercadológica: textos e casos. 5. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1982. CARDIA, W. Marketing e patrocínio esportivo. Porto Alegre: Bookman, 2004. CONTURSI, E. B. Marketing esportivo. 2. ed. Rio de Janeiro: Sprint, 2000. FARIA, S. E. Aplicação do composto de marketing nas instituições de ensino superior. SEMEAD, 6., 2003. Anais eletrônicos. KOTLER, P. Administração de marketing. 10. ed. São Paulo: Prentice-Hall, 2000. KOTLER, P; FOX, K. 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São Paulo: Prentice-Hall, 1999. 78 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 63-78, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho Ana Telma Sobreira Monte1 José Varela Donato2 RESUMO: Este artigo tem por objetivo analisar ABSTRACT: This article has the objective to analyze como o poder gerencial interfere sobre a criatividade as the managerial power interferes over the employees' dos funcionários, através de um estudo de caso em creativity, through a case study in a state organization. uma organização estatal. O estudo buscou identificar The study tried to identify the meaning and the forms o significado e as formas pelas quais o poder se through which the power shows in the researched manifesta na organização pesquisada e, em seguida, organization and, later, which are the consequences quais as conseqüências do poder gerencial no uso of the managerial power in the use of the creativity by da criatividade pelas pessoas. Conclui-se que há the people. The study concluded that there is a uma predominância do poder baseado nas predominance of the power based on the responsibilities responsabilidades do cargo e na hierarquia, o qual of the functions and the hierarchy. These power form bloqueia a criatividade das pessoas e, em blocks the people's creativity and, in consequence, the conseqüência, as possibilidades de inovação e possibilities of innovation and organizational and desenvolvimento organizacional e pessoal. personal development. Palavras-chaves: Poder; Criatividade; Liderança; Inovação. Key-words: Power; Criativity; Leadership; Innovation. 1 INTRODUÇÃO A cultura organizacional, as competências das pessoas, a criatividade e a inovação são ingredientes mais importantes para os resultados organizacionais que as fontes tradicionais de êxito (DRUCKER, 1986; PFEFFER, 1994). Para que as empresas aproveitem o potencial criativo, é necessário uma cultura em que a imaginação seja estimulada, os erros se tornem fonte de aprendizado, o trabalho seja compartilhado, as pessoas tenham autonomia, os objetivos sejam negociados e o poder nas relações seja uma unidade de troca, num clima de confiança e abertura para novas experiências. Especialista em Recursos Humanos pela UECE. Gerente da Caixa Econômica Federal 2 Mestre em Administração (Organizações e Gestão) pela UFSC Consultor em Controladoria do Banco do Nordeste do Brasil 1 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 79 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato Os líderes assumem um papel fundamental na criação de oportunidades para expressão do talento e imaginação aplicados no desenvolvimento de produtos e serviços inovadores. Entretanto, percebe-se imenso desperdício do potencial das pessoas, que, ao serem tratadas apenas como recursos, perdem sua própria identidade, não encontram significado no trabalho e se desvinculam do sentirpensar-fazer. Este artigo mostra o resultado de uma pesquisa em uma organização governamental (MONTE, 1998), realizada em 1998, com o objetivo de verificar as conseqüências do poder gerencial na criatividade dos empregados. A importância desse estudo está na investigação deste paradoxo: um mundo que exige criatividade e inovação e, de outro lado, uma cultura organizacional calcada no controle e na predominância da autoridade formal. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Nesta seção, explicitam-se os fundamentos teóricos pertinentes às duas categorias de análise da pesquisa: o poder gerencial e a criatividade no trabalho. O Poder. Estudiosos comparam as organizações com sistemas políticos, que funcionam através do uso do poder (MORGAN, 1986, p. 281; PAGÈS, 1993, p. 208; FOUCAULT, 1995, p. 183). Essa perspectiva se fundamenta nas seguintes premissas: organizações são coalizões compostas de indivíduos e grupos de interesse variados; há diferenças contínuas entre indivíduos e grupos em seus valores, preferências, crenças, informação e percepção da realidade; a maioria das importantes decisões nas organizações envolvem a alocação de recursos; em virtude dos recursos escassos e diferenças contínuas, o conflito é central à dinâmica organizacional, e o poder, o mais importante recurso; as metas e decisões organizacionais emergem da barganha, negociação e manobras por posições entre membros de coalizões diferentes (BOLMAN e DEAL, 1991, p. 186). A utilização do poder torna-se necessária sempre que surge um conflito quando se tem em mira a satisfação de um objetivo ou interesse. Daí, entende-se que o poder consiste em um meio – um recurso, uma capacidade, uma força, uma energia – para atingir determinados fins (PFEFFER, 1994, p. 33; BENNIS e NANUS, 1988, p. 13). Para Pfeffer (1994, p. 33), o poder é definido como a "capacidade para influenciar o comportamento, para mudar o curso dos eventos, para vencer resistências e para induzir as pessoas a fazer coisas que elas não fariam de outro modo". O poder se expressa em formas, intensidade e freqüência ricas e variadas, em decorrência de fatores individuais e organizacionais, e emana de fontes estruturais e pessoais inter-relacionadas (PFEFFER, 1994, p. 58). O poder se exerce em rede pela organização, nas relações de produção, na ordenação do espaço, na produção e distribuição do saber, nas engrenagens e regras da organização e no inconsciente de seus empregados, que lançam mão e sofrem as conseqüências do poder (PAGÈS, 1993, p. 208; FOUCAULT, 1995, p. 183). 80 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho O poder gerencial compreende a capacidade de mobilização das pessoas para alcançar os resultados através das pessoas (BRYSON e CROSBY, 1992, p. 2). Ao exercer esse papel com eficácia, os gerentes se tornam importante centro de irradiação de poder. A força criativa. Há tantas definições de criatividade quanto autores que tratam do assunto. De uma maneira geral, a criatividade se expressa pela busca de soluções novas, propensão a pensar diferente, brincar com idéias, ver sob novas perspectivas, manipulando conhecimento e experiência (BENVENUTTI, 1996; OECH, 1988; ALENCAR, 1996). A criatividade floresce quando a pessoa desperta sua curiosidade, acredita no seu potencial inventivo, afasta julgamentos negativos, aguça sua capacidade de observar, questionar profundamente, escutar e prestar atenção. Alencar (1996, p. 3) afirma ser a criatividade "um fenômeno complexo e multifacetado que envolve uma interação dinâmica entre elementos relativos à pessoa, como características de personalidade e habilidades de pensamento, e ao ambiente, como o clima psicológico, os valores e normas da cultura e as oportunidades para expressão de novas idéias". No plano organizacional, a criatividade consiste no ingrediente básico para a inovação e competitividade. No plano individual, o uso da criatividade dá forças às pessoas para enfrentarem problemas que as rodeiam hoje, como: infelicidade, pela incapacidade de tomar decisões; ansiedade, proveniente do vazio e da solidão, falta de propósito, perda da própria identidade; falta de autonomia, por não ter uma experiência definida de seus próprios desejos e necessidades (MAY, 1990, p. 22). Argyris (1957, p. 79), numa reflexão sobre o conflito entre o sistema e o indivíduo, afirma que se os princípios da organização formal, assentados na estrutura formal, liderança autoritária e controles administrativos forem usados como idealmente definidos, as pessoas disporão de controle mínimo sobre seu mundo de trabalho, serão passivas, dependentes e submissas, terão limitada perspectiva temporal, serão induzidas a aperfeiçoar e valorizar o uso freqüente de poucas aptidões superficiais deverão produzir sob condições que levem ao malogro psicológico. Bennis e Nanus (1988, p. 6) realizaram pesquisa e concluem que grandes desperdícios nas organizações repousam na ausência de comprometimento dos empregados. Por isso, defendem que os líderes devem organizar ao invés de controlar, administrar a expressão ao invés da repressão, conceder poder, dar significado ao trabalho, reforçar a competência, passar um sentimento de propósito comum e importância no contexto da comunidade e pôr de lado toda a ameaça ou formas de punição. Donato (2001, p. 44-46), em pesquisa realizada em uma organização bancária estatal, constata que a predominância do poder baseado na "autoridade formal" gera centralização das decisões, um comportamento conservador, avesso ao risco e erros, os quais inibem a criatividade dos funcionários e a inovação. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 81 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato 3 METODOLOGIA A pesquisa utilizou o método do estudo de caso, utilizando-se de procedimentos qualitativos e quantitativos. Basicamente, identificaram-se as formas de poder utilizadas na Caixa Econômica Federal, em Fortaleza, Estado do Ceará, e avaliou-se como elas interferem na criatividade dos funcionários. A população pesquisada compreendeu o conjunto dos funcionários que trabalham em agências, na área negocial, dividido em 2 grupos: gerentes e não gerentes. Para coleta das informações, lançou-se mão de questionário com perguntas fechadas e abertas, seguido de entrevistas para aprofundar alguns pontos explicitados nas respostas ao questionário. Do total de 50 questionários enviados, foram recebidos 35 questionários (70%) 14 de gerentes e 21 de nãogerentes. Após a aplicação do questionário, foram realizadas três entrevistas com os gerentes e cinco com os não-gerentes. 4 PODER GERENCIAL, CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO Esta seção revela as fontes e manifestações de poder gerencial na Caixa Econômica Federal e como elas interferem na criatividade e inovação dos funcionários. 4.1 FONTES DE PODER GERENCIAL X CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO Poder predominante. A "autoridade formal" considera-se o poder predominante; alguns ainda percebem o poder de controlar recursos escassos e o poder de conhecimento e acesso às informações. Para os não-gerentes, as reações ao poder da autoridade formal tendem para a frustração, a obediência, o respeito, o distanciamento, o lamento e o fazer cumprir a hierarquia; um disse observar e depois aguardar uma oportunidade para um enfrentamento. Fica bastante evidenciada, nos depoimentos desse subgrupo, a existência de dois grupos na empresa: os que pensam e os que fazem. As pessoas vêem no comportamento dos outros a intenção de agradar a gerência, medo, críticas às escondidas que geram dependência, falta de compromisso, desânimo, mas também tranqüilidade e passividade quando alguém aponta o norte. Com o passar do tempo, as pessoas ficam restritas às suas tarefas e não se interessam pela vida organizacional. Desaprendem a pensar, criticar e criar pelo desgaste de expressar-se diante da "autoridade formal". O sentimento das pessoas se expressa na percepção de que "há duas classes, uma superior e uma inferior", "manda quem pode, obedece quem tem juízo", "me sinto uma aluna do 1º primário" e "muitas vezes, a gente pensa que está brincando de faz-de-conta". Já os gerentes que dizem reagir geralmente o fazem das seguintes formas: sentem tolhimento e impotência, obedecem e mostram compromisso e responsabilidade; enfrentam e buscam argumentar com fatos e dados; procuram estabelecer um canal informal de comunicação, buscando um relacionamento mais conciliador e participativo. 82 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho Quanto ao comportamento dos outros, percebem reações do tipo obediência, descompromisso, desinteresse, "enrolação", desestímulo, simplesmente cumprindo seu horário de trabalho. Na presença, subjugam-se, concordam, obedecem e precisam da pressão contínua para 'responder'. Por trás, sentem-se ameaçadas, pressionadas e criticam... Os gerentes que apontaram como fonte de poder predominante o controle de recursos escassos ficam admirados e felizes quando se deparam com um gerente que utiliza essa fonte de poder e acreditam que os outros nem sempre aceitam bem esse poder, confundindo-o com o poder autoritário e explorador. Poder e criatividade. As mudanças mais significativas precisam do aval do gerente para ser implantadas. Alguns entrevistados afirmam que são apenas "comunicados" e solicitados à colaboração para viabilizar o que já está decidido, pois a visão estratégica é dos gerentes que, inclusive, ressaltam que são pagos para isto. Já na visão do gerente, a participação do empregado é sempre bem-vinda, o canal está sempre aberto e não percebem quanto o poder de posição está impedindo ou dificultando o surgimento de novas idéias por parte dos empregados. Para a maioria dos funcionários, há uma relação direta entre a fonte de poder e a criatividade e freqüência com que a utilizam. Os não-gerentes informam que a liberdade e participação dão "condições para a pessoa expressar sua criatividade", e "um chefe do tipo 'eu quero que você faça' não nos deixa muita margem para sermos nós mesmos." Mesmo os que dizem não ver uma relação direta entre a fonte de poder gerencial e sua criatividade acham que existe uma interferência da fonte de poder com seu grau de comprometimento com a Caixa e até com sua autoconfiança, e uma pessoa diz que procura passar por cima das "castrações". Quanto aos gerentes, sentem-se mais criativos ou não, dependendo da fonte de poder que seus superiores utilizam. De onde vêm as idéias. Para os não-gerentes, as fontes de transformação partem principalmente da alta administração; mas também provêm de empregados e de clientes, fornecedores, mercado etc. Dentro da própria unidade, todos foram unânimes em afirmar que normalmente as idéias surgem da alta administração ou da gerência. Já na percepção dos gerentes as transformações significativas na Caixa hoje emanam mais dos funcionários e da própria participação de cada um do que dos gerentes e da alta administração. 4.2 POSTURA GERENCIAL X CRIATIVIDADE, INOVAÇÃO E SATISFAÇÃO Neste ponto, a pesquisa preocupou-se em verificar até que ponto as pessoas percebem o papel do gerente em promover um ambiente de trabalho em que as pessoas realizem tarefas criativas da melhor forma possível, criando oportunidades, apoiando aprendizado a partir dos erros, dando abertura para aprender e investigar, permitindo o questionamento, delegando e confiando nas pessoas. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 83 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato Estilo. Para os não-gerentes, o estilo gerencial na Caixa lentamente dá sinais de mudança; mas ainda apresenta uma postura tradicional de excessivo controle, ênfase na maneira e resposta corretas, na busca do culpado pelos erros e, na maior parte do tempo, na resolução de problemas. Uns até brincam questionando "o que seriam dos gerentes se não fossem os problemas"? Se fôssemos fazer uma comparação entre as gerências há nove anos (quando assumi na Caixa) e hoje, podemos dizer que houve uma grande 'humanização', mas ainda penso que, apesar de o discurso ter alto teor democrático, a prática ainda difere e dista muito da teoria. Os gerentes percebem que algumas lideranças já começam a absorver uma postura gerencial de vanguarda, mas reconhecem tratar-se de um processo incipiente. Reações a novas idéias. As reações mais comuns às novas idéias estão ligadas a sua adequação às normas. Nos níveis inferiores, idéias contrárias às normas enfrentam uma "batalha". Já os gerentes são mais ouvidos. Para os não-gerentes, as pessoas continuam presas às rotinas. "Vamos pensar mais sobre isto" e "será que a norma permite" foram as citações mais apontadas. Alguns afirmam que "as coisas chegam prontas"; outros, que "a rotina é mais fácil". Alguns ainda reconhecem que, se a idéia for boa, é aproveitada. Fica claro nas respostas que vai depender do estilo de cada liderança. Existe a postura de ouvir e receber, mas há resistências de aplicação prática de idéias de ordem estrutural ou de contexto. Para os gerentes, a reação mais comum é "vamos pensar mais sobre isto". Em seguida, "será que a norma permite"; e "dão a atenção necessária e procuram colocar em prática". A norma significa o primeiro obstáculo a ser transposto, o critério básico para aferir a viabilidade de uma idéia. Mas dá segurança e respaldo às decisões. Questioná-la sempre será uma atitude solitária, a princípio, pois vai de encontro a hábitos arraigados. Autonomia sobre a atividade. As pessoas manifestam que já possuem relativo grau de autonomia sobre a criatividade na Caixa. Pouco mais da metade dos não-gerentes informaram que, às vezes, têm autonomia e tomam as decisões necessárias; ressalvam, porém, que isto significa muito pouco no contexto, por ser um campo de atuação estritamente operacional. Somos regidos por normas e também temos que respeitar aquilo que a agência determina como meta. Mas, em muitas situações, somos obrigados a improvisar. O restante assegurou ter autonomia sobre as atividades que desenvolve e buscar a cada dia a competência no fazer e consultar a gerência quando necessário. Geralmente, são pessoas que respeitam e obedecem ao poder da autoridade formal. Já a grande maioria dos gerentes (79%) percebe-se com autonomia sobre sua atividade. Entretanto, uma parte salientou que os gerentes "não aprenderam a ouvir". 84 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho Quando se utiliza a criatividade. Os não-gerentes, em sua maioria, informaram que raramente utilizam sua criatividade na Caixa. Acreditam alguns que "as boas idéias vêm sempre de cima". Outros dizem que utilizam sua criatividade ocasionalmente e não atribuem este fato ao poder gerencial, mas ao corre-corre do dia-a-dia, à própria dinâmica da empresa, e à divisão do trabalho, que "cegam", "bloqueiam" e não "oferecem oportunidades de experimentar outras áreas" que, na percepção de alguns, ampliam a visão sistêmica, clarificam o ato de correlacionar as partes e ensejam o surgimento de idéias eficazes. Por isso, as pessoas são valorizadas pela sua habilidade de se encaixarem e contribuírem para o fim desejado da organização. Uma pequena parte afirmou que freqüentemente utiliza sua criatividade na Caixa, mediante sugestões e críticas. Quando as pessoas não são ouvidas, as reações são as seguintes: revoltam-se e permanecem na mágoa e no ressentimento, outras aguardam as oportunidades aparecerem e outras (uma minoria) vão buscar espaço junto às gerências. Para a maioria dos gerentes (80%), freqüentemente estão inovando, principalmente na unidade onde trabalham. Fora do ambiente de trabalho, já é mais difícil, pois, segundo o argumento de um gerente, "não existe na Caixa a cultura de aproveitamento de idéias". Os demais informaram que apenas ocasionalmente são criativos, devido à sobrecarga de atividades. Quando se inova no trabalho. Existem dificuldades de propor inovações, pela imposição da rotina ou pela postura gerencial. A condição para inovar é, na visão de May (1982, p. 79), que o indivíduo esteja conectado com o seu ser, com o seu fazer e que se coloque como veículo de sua visão de mundo. O estar conectado com o seu ser e com o seu fazer é uma postura muito ligada ao esforço e busca de cada um. A maioria do subgrupo sem função gerencial diz inovar raramente, o que os torna menos autoconfiantes, vistos e valorizados. A inovação é mais presente no subgrupo gerencial. Dessa forma, é verdadeira a hipótese de que pessoas que não têm espaço para ser criativas se omitem da construção da realidade organizacional e se tornam "coisas" para a organização. Os obstáculos apresentados para a inovação são os seguintes: acomodação e sentimento de incapacidade para a criação; vigilância da gerência, que não tem cultura de ouvir, centraliza e discrimina pessoas ousadas; a estrutura de atividade, que condiciona à homogeneidade, estimula a padronização das decisões e suprime o questionamento. As pessoas afirmaram também que, quanto mais participam das mudanças, são ouvidas e valorizadas, mais costumam inovar e se tornam profissionais mais auto-confiantes e requisitados também. A maioria dos que ocupam função gerencial (80%) diz inovar freqüentemente, desde alteração no ambiente de trabalho, até as atividades que atingem diretamente a melhoria no atendimento dos clientes. Os demais dizem sobrar pouquíssimo tempo para inovar devido à sobrecarga de atribuições com poucos resultados práticos. O dia-a-dia de um gerente é dedicado à resolução de problemas, controles operacionais e atendimento a demandas, a superiores. Pouco tempo é dedicado ao planejamento e ao exercício da criatividade. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 85 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato Entre todos os pesquisados, 93% afirmam que a periodicidade com que costumam inovar interfere no seu perfil como profissional, pois tendem a destacar-se mais e a receber trabalhos mais desafiadores também. Nível de comprometimento x utilização da criatividade. O comprometimento do subgrupo sem função gerencial com a Caixa tem uma correlação direta com a utilização de seu potencial criativo que, por sua vez, tem a ver com a fonte de poder utilizada pela gerência. O comprometimento gera o desejo de realizar, que gera o pensamento criativo. Dessa forma, o poder da autoridade formal, ao afastar o indivíduo do envolvimento com o todo, deixando-lhe apenas a opção de obediência e respeito, afasta-o do ato criativo. Assim, o comprometimento do empregado é influenciado pela fonte de poder utilizada pelo gerente. Para Pfeffer (1994, p. 278), "as pessoas são persuadidas pela razão, mas movidas pela emoção […] compartilhar uma linguagem com outras pessoas proporciona a mais sutil e poderosa de todas as ferramentas […] a eficácia de um líder repousa na sua capacidade de fazer a atividade significativa para os outros […] dar aos outros um sentido de compreender o que eles estão fazendo". A ação gerencial é uma das "portas" que possibilita o comprometimento e a criatividade. Para 95% dos não-gerentes, quando estão mais comprometidas, são mais criativas e enfatizam o reconhecimento e a valorização do gerente como estímulo ao comprometimento, que, por sua vez, ativa o interesse, o envolvimento e criatividade (uma reação em cadeia). O investimento de tempo e energia só acontecem quando existe comprometimento e paixão pelo que estão fazendo, juntamente com a crença de que seu esforço na organização vai fazer a diferença no resultado. As pessoas enfatizam que o comprometimento as deixa atentas às necessidades e objetivos da organização. ... quando sou solicitada, valorizada, mostro que sou capaz. O agir com consciência de gado, obedecendo a ordens não significa comprometimento. O comprometimento existe quando acreditamos nos resultados das nossas ações e usamos nossa criatividade para influir nos processos da empresa. Quanto aos gerentes, a maioria (57%) afirma que existe uma relação entre seu nível de comprometimento, que gera o desejo de realizar, e a utilização de sua criatividade. Os demais gerentes expressaram que seu grau de comprometimento independe da freqüência com que são criativos, pois colocam o "profissionalismo acima do pensamento da administração individual da gerência". Não só meu comprometimento para com a Caixa! Mas para comigo mesma. Não me colocar para agregar gera em mim uma sensação de mediocridade, omissão... Satisfação com o trabalho x criatividade. A natureza do trabalho realizado pode repercutir muito na sua criatividade e desempenho das pessoas. De um modo geral, os funcionários da Caixa gostam do que fazem. A grande maioria do subgrupo sem função gerencial da amostra pesquisada expressou que não utiliza sua criatividade na Caixa. Esta constatação tem origem na crença de que as idéias dos menos graduados têm menor importância e nas experiências passadas e castrações já sofridas. Os que 86 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho conseguem ser criativos ocasionalmente acreditam que a "batalha e mesmice do dia-a-dia" bloqueiam o pensamento criativo. Os empregados perdem as oportunidades de crescimento pessoal, e a Caixa perde contribuições criativas e inteligentes. A pesquisa mostra que pessoas que fazem aquilo de que gostam se sentem mais criativas, valorizadas e comprometidas com a empresa, colocando seu potencial à disposição, existindo uma relação entre a satisfação da pessoa com o que ela faz e sua criatividade. Grande parte dos não-gerentes (85%) apreciam o seu trabalho, porém dizem que há outras coisas que gostariam de fazer na empresa e nas quais seriam mais criativas, pois seriam mais desafiadas no seu crescimento profissional. Percebem que, para os gerentes, há maior permissão e liberdade para criar. ...quando trabalhamos com motivação, principalmente quando gostamos do que fazemos, liberamos bem mais o lado criativo. Gostar do que se faz, estar ligado 24 horas e feliz com a atividade exercida faz a diferença. De igual modo, os gerentes pesquisados estão satisfeitos com o trabalho que realizam na Caixa, mas existem outras coisas que gostariam de fazer, embora 80% afirmem que utilizam seu potencial criativo, freqüentemente ou ocasionalmente, inovando e tomando as decisões que são necessárias no dia-a-dia; ocasionalmente, deparam-se com algumas coisas sobre as quais não têm autonomia para decidir. Os demais dizem que gostam de sua atividade e do ambiente de trabalho, que, desafiadores, lhes permitem colocar "a criatividade e o potencial à disposição" e fazer com que "os resultados aconteçam". Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 87 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato QU ADRO 1 - RESPOST AS A O QUESTIONÁRIO D A PESQUISA 1 QUADRO RESPOSTAS AO DA 0 , 0 1 Estão registradas na tabela apenas as alternativas assinaladas pelos respondentes. 2 NGE (não-gerentes); GE (Gerentes). 88 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho 5 CONCLUSÕES A convivência das pessoas na realidade organizacional é cheia de sutilezas. Existe uma diferença entre a realidade que se apresenta, global e rica, e o que somos capazes de apreender dela. Para Morgan (1986, p. 347), "só é possível conhecer as organizações através de conhecimento e experiência e assim compartilhar conclusões, mas nunca é possível ter a certeza de que se está absolutamente correto". As conclusões fundamentadas nos dados da pesquisa e no referencial teórico estudado não devem ser generalizadas, pois representam uma fotografia de um determinado instante e com determinados atores, que estão em processo de mudança. A mais clara fonte de poder na Caixa é, neste momento, o poder da "autoridade formal", legitimado pela estrutura da empresa, o qual cria e delimita um campo de influência. Enquanto poder determinante dentro de uma estrutura mecanicista, reduz muitos funcionários a autômatos, cumpridores de normas e com um campo de atuação e autonomia restrito à sua atividade, os quais tendem a sentir-se instrumentos na consecução dos objetivos e propósitos da empresa. Dessa forma, são valorizados pela sua capacidade de contribuir com o resultado final da organização. Isto já faz parte da cultura da Caixa. A pesquisa indica que a fonte de poder utilizada pela gerência imediata determina o grau de permissividade para que o funcionário possa utilizar sua criatividade. Neste enfoque, a hipótese de que o gerente é co-responsável pelo surgimento de equipes e pessoas criativas é verdadeira. Os gerentes que utilizam como fonte de poder predominante a "autoridade formal" têm subordinados que demonstram muito pouco sua criatividade. O poder da "autoridade formal", quando não proporciona ambiente de negociação e expressão das pessoas, dificulta ou mesmo impossibilita o surgimento da criatividade nos funcionários em favor da empresa. A falta de envolvimento e a apatia do empregado advêm, em boa parte, da inexistência de oportunidade, reconhecimento e valorização da energia que tem, por parte da gerência superior, principalmente quando esta se utiliza do poder da "autoridade formal". Desta situação pode resultar: falta de interesse; apatia e alheamento do espaço organizacional; frustração e o conflito nas suas experiências; sensação de vazio, pela convicção pessoal de incapacidade para dirigir a própria vida (ARGYRIS, 1957, p. 102; MAY, 1990, p. 22). Afirmou-se, numa das hipóteses deste trabalho, que os indivíduos que têm espaço para expressão de suas idéias e crenças junto ao gerente e equipe e apoio na sua implementação são motivados e comprometidos com o resultado organizacional. A pesquisa demonstra que isto só é verdadeiro quando o indivíduo gosta do que faz. Na opinião de May (1990, cap. 3), amar verdadeiramente o que se está fazendo a cada momento e encontrando, cada qual, o seu modo próprio de ser, é um segredo para trazer a criatividade para os negócios e para a vida. A hipótese de que a tarefa repetitiva dispensa a criatividade e torna o indivíduo inflexível às mudanças não foi comprovada nesta pesquisa. Na verdade, ao dispensar a criatividade, verificamos que a tarefa repetitiva deixa o empregado com dificuldades de pensar sobre o todo da realidade organizacional, o que pode vir a dificultar sua ação na implementação das mudanças. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 89 Ana Telma Sobreira Monte, José Varela Donato Nesta pesquisa, verificou-se que o poder gerencial limita ou incentiva: a criatividade, o comprometimento, a descoberta de novos horizontes, a visão e o significado da ação do indivíduo na realidade organizacional. Uma entrevistada afirmou que "é papel do gerente liderar, educar, ser um agente de mudanças, integrar, motivar, interpretar tendências, enriquecer espiritualmente a equipe". Dessa forma, infere-se que, no tocante à relação com o poder, ambos, gerentes e gerenciados, são remetidos à forma como lidaram com o poder em suas relações anteriores. Uns esperam muito do gerente, como esperaram dos pais, dos professores e de todas as figuras de poder da sua história. Outros negociam com seus gerentes, da mesma forma que aprenderam a negociar com suas figuras parentais. Outros ainda se revoltam por não conseguir ser ouvidos. Muitos tendem para a obediência, negando suas vontades pessoais, ou para viver numa situação de conflito, o que gera uma relação cheia de desgaste e desânimo; ou ainda para uma relação madura e respeitosa de negociação, que traz significado e produtividade. Nos relatos sobre a dinâmica organizacional, verificou-se entre os gerentes que as variáveis humanas, como motivação, conflito e personalidade são variáveis "não lógicas" ou limitantes à racionalidade e ao controle, exigindo assim, mais habilidade do gestor para lidar com essa complexa realidade na empresa. Fica evidenciado que gerentes e gerenciados fazem parte de dois mundos bem distintos, caracterizados pelos que têm o poder ratificado pela estrutura formal da empresa e os que não o têm. Mundos cheios de signos, significados e fantasias que vão escrevendo a realidade de cada um. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de. A gerência da criatividade. São Paulo: Makron Books, 1996. ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de. Criatividade. Brasília: UnB, 1995. ARGYRIS, Chris. Personalidade e organização. Rio de Janeiro: Renes, 1957. BENNIS, Warren; NANUS, Burt. Líderes: estratégias para assumir a verdadeira liderança. São Paulo: Herbra Ltda, 1988. BENVENUTTI, J. C. Criatividade e potencial: fazendo cócegas no cérebro. São Paulo: Commit, 1996. BOLMAN, L. G; DEAL, T. E. Reframing organizations: artistry, choice, and leadership, San Francisco, CA: Jossey-Bass, 1991. 90 BRYSON, J. M.; CROSBY, B. C. Leadership for the common good: tackling public problems in a sharedpower world. San Francisco, CA: Jossey-Bass, 1992. DONATO, J. V. A influência da cultura organizacional no planejamento estratégico. Políticas Públicas e Sociedade. Fortaleza, v. 2, n. 2, p. 37-54, jul./dez. 2001. DRUCKER, Peter F. Administrando em tempos de grandes mudanças. São Paulo: Pioneira, 1996. FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1995. MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Petrópolis: Vozes, 1990. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 Poder Gerencial e Criatividade no Trabalho MONTE, Ana Telma Sobreira. A influência do poder gerencial na criatividade dos empregados da Caixa Econômica Federal de Fortaleza. Fortaleza: UECE, 1998 (Monografia). MORGAN, Gareth. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 1996. OECH, Roger Von. Um "toc" na cuca. São Paulo: Livraria Cultura, 1988. PAGÈS, Max et. al. O poder das organizações. São Paulo: Atlas, 1993. PFEFFER, Jeffrey. Vantagem competitiva através das pessoas. São Paulo: Makron Books, 1996. PFEFFER, Jeffrey. Managing with power: politics and influence in organizations. Boston, MA: Harvard Business School Press, 1994. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 79-91, jan./jul. 2005 91 WKLDFONHSAWUYMNSGFDUISEPWQJKDSVCZXI Gestão em Tempos de Complexidade: Reflexões Acerca da Construção de um Novo Olhar Sobre as Organizações. Renata Guimarães de Carvalho* RESUMO: Este artigo trata do atual contexto de CT:: This article tries the present context of ABSTRACT CT ABSTRA gestão das organizações e sua inserção em um management of the organizations and his insertion ambiente marcado pela complexidade. Para tanto, in an environment marked by the complexity. For so discute os pressupostos teóricos de autores como much, it discusses the theoretical budgets of authors BOHM e CAPRA que trazem contribuições para a as BOHM and CAPRA that bring contributions for formação de um novo paradigma científico, alinhado the formation of a new one paradigma scientific, ao pensamento complexo. E, ainda, seu processo de aligned to the complex thought. And, still, his trial of articulação às organizações e à prática de trabalho articulation to the organizations and to the practical das pessoas que a compõem, especialmente gestores. one of work of the persons that it compose, specially Nesse sentido, destaca-se a contribuição de gestores. In that sense, detaches-itself the contribution MORGAN e a perspectiva de construção de metáforas of MORGAN and the metaphors construction organizacionais como forma de efetivar a construção perspective organizacionais as form of efetivar the de um novo olhar sobre as organizações. construction of a news look about the organizations. Palavras-chave: Gestão Complexidade Análise Organizacional. K ey ey--Words: Analysis Complexity Management Organizacional. * Mestra em Administração, psicóloga, professora da Faculdade Integrada do Ceará - FIC. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 93 Renata Guimarães de Carvalho 1 INTRODUÇÃO Observa-se na atualidade a existência de um discurso voltado para o reconhecimento da complexidade e para a necessidade de implantação de práticas de gestão mais adaptadas a essa realidade. A disseminação de idéias na administração que apontam para a constituição de empresas dinâmicas, ágeis em suas decisões e ações, que busquem construir conhecimento e inovação, reforça a percepção de que a sobrevivência das organizações está relacionada à sua capacidade de interagir com o fluxo de mudanças no mundo dos negócios. Uma nova forma de significar o mundo e de perceber as organizações, pautada em pressupostos que resgatam o caráter sistêmico dos fenômenos, sua diversidade e complementaridade, desponta como aliada do processo de transformação das empresas em espaços complexos e interligados. Pensar a construção de modelos para pessoas e organizações que sirvam como referência de uma nova práxis de gestão, atenta à configuração ambiental atual e suas contradições, é uma dos grandes desafios do pensamento administrativo contemporâneo. Contribuindo com essa discussão sobre novas estruturas organizacionais e modelos de gestão, a reflexão sobre como as pessoas que trabalham nas empresas e, especialmente, os gestores percebem e experienciam estas transformações, é também de fundamental importância. Portindo desse contexto, quantos gestores de empresas reconheceriam no pensamento abaixo extraído do livro Tao Te Ching, que fala da relação dinâmica de padrões opostos, e, portanto de complexidade, um conhecimento importante em sua formação? Quantos extrairiam dele princípios de gerenciamento para suas empresas? Se você quiser conter uma coisa, deve permitir que se expanda. Se quiser enfraquecer uma coisa, Deve permitir que cresça forte. Se você quiser eliminar uma coisa, Deve permitir que ela floresça. Se quiser tomar algo para si, Deve garantir que o mereça. Isto é chamado sutil iluminação. A estranheza que causa esse tipo de indagação indica que trilhamos caminhos de transição e, portanto, de confluência de formas de pensar oriundas de modelos mentais mecanicistas e complexos que se encontram e misturam no espaço das organizações. O intuito do presente artigo é buscar referências desse novo paradigma, esboçar reflexões sobre suas possibilidades de articulação ao âmbito dos processos de gestão e principalmente na criação de um novo olhar sobre as organizações tendo em vista a prevalência de um discurso sobre a complexidade. 94 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. Para tanto, serão abordados elementos teóricos pautados em autores como Capra (1996, 1983, 1982), Bohm (1980) e Morin (1998) que têm por tema a construção de um pensamento alinhado com o paradigma da complexidade; autores como Morgan (1992), Bauer (1992), Cunha (2000), Shelton (1997) que pensam nessa integração de modelos no âmbito administrativo. E, ainda, elementos de investigação empírica de como essa realidade é vivenciada por gestores de empresas (CARVALHO, 2001). 2 NOVAS REFERÊNCIAS NA CIÊNCIA: O UNIVERSO INTEGRADO EM REDE. Desde o período do Renascimento e do surgimento da ciência como campo de saber diferenciado da filosofia e da teologia, os estudos voltados para a investigação de objetos do mundo ‘natural’ têm servido como base segura na construção de conhecimento. Ao longo dos séculos XVI até o XVIII o avanço metodológico na investigação do mundo natural criou um ambiente propício para o surgimento de um paradigma científico diferenciado dos anteriores. Nomes como Galileu e Newton, através de seus estudos, organizaram pressupostos que descortinaram uma compreensão científica acerca do homem e do mundo. Esse paradigma científico, em contraposição às referências teológicas da Idade Média, carregou a herança de tradições filosóficas, como o racionalismo, apoiado pelo método analítico proposto por Descartes, e o empirismo indutivo de Bacon. Pressupôs a linearidade dos fenômenos, o funcionamento do mundo como uma máquina movida através de reações de causa e efeito. Centrou a busca objetiva e mensurada da essência, da substância das coisas, contemplando assim uma visão reducionista dos objetos de estudo. Nessa perspectiva, o rigor na aplicação do método científico apontaria o caminho de apreensão da natureza e dos fenômenos humanos, o desvendamento dos seus segredos e a elaboração de suas leis de funcionamento. Bohm (1980) indica que este caminho levou a ciência moderna para o trabalho de especialização dos objetos de estudo, a busca por princípios últimos, a análise e separação dos elementos fundamentais da matéria, implicando na construção de um conhecimento fragmentado acerca da realidade. Em teorias originadas nesse contexto, a necessidade de descrição objetiva do mundo e apreensão do conhecimento verdadeiro leva à separação entre o sujeito que pergunta, investiga, e o objeto de estudo, composto de uma natureza externa e estranha que deve ser decifrada e traduzida para a linguagem científica. A dicotomia cartesiana teria originado um modelo de pensamento linear incapaz de reconhecer as próprias limitações do conhecimento. Segundo Bohm (1980:22), as teorias formuladas acerca dos objetos nada mais seriam do que insights, “um modo de olhar para o mundo” construído pelo pesquisador em suas premissas. Não seria possível apreender a realidade de forma pura, imediata, pois a subjetividade do pesquisador já seria uma primeira mediação em relação ao objeto de estudo. No entanto, a própria Física, através do desenvolvimento da física quântica, trouxe subsídios para o movimento de renovação dos pressupostos científicos mecanicistas. Ela descortinou as possibilidades de um mundo físico que não podia ser compreendido através das lentes newtonianas e que trazia em si Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 95 Renata Guimarães de Carvalho uma complexidade que não se submetia a respostas objetivas ou leis gerais de funcionamento. Reconheceuse que no mundo subatômico, do ‘infinitamente pequeno’, os fenômenos são complexos e passíveis de influência pela subjetividade do pesquisador. Esse panorama trouxe ventos que revitalizaram os pressupostos científicos, resgatando tradições de pensamento excluídas no paradigma mecanicista. Gleiser (1997:251,252) resume esses novos pressupostos que causaram certo mal-estar e sensação de estranheza entre os físicos: 1)um objeto em movimento sofre uma contração de seu comprimento na mesma direção em que se move; 2) um relógio em movimento bate mais devagar; 3) massa e energia podem ser convertidas entre si; 4) não podemos determinar se os constituintes fundamentais da matéria são ondas ou partículas, a famosa dualidade ‘onda-partícula’; 5) ao observarmos um sistema físico influenciamos seu comportamento; não existe mais uma separação clara entre observador e observado; 6) a presença da matéria deforma a geometria do espaço e altera o fluxo do tempo; 7) não podemos determinar a localização de um objeto – apenas afirmar a probabilidade de ele estar aqui ou ali. A descoberta dessas propriedades físicas e a necessidade de repensar seus métodos de investigação, assim como elaborar uma linguagem ordinária própria que pudesse refletir seus princípios teóricos, serviu de base para uma visão diferenciada acerca da relação entre os fenômenos e a ciência. Em “O Tao da Física”, Capra (1983) analisa o caminho de encontro entre a física quântica e tradições do pensamento oriental, destacando princípios convergentes entre ambos. A idéia de unidade e inter-relação dos fenômenos, a relação dinâmica de complementaridade dos opostos, a dimensão da complexidade espaço-tempo, matéria-vazio, o reconhecimento de fluxos de mudança na ‘dança cósmica’, norteiam o surgimento de um novo paradigma científico, resumidos no quadro 01. 96 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. QUADRO 1: PRINCÍPIOS DO NOVO PARADIGMA ! G +B + A . )= % $ G B . " " - > " - + - A + " % = ) )= # H > = )= 4 D )= " )= 4 . G ) 3 4 ) 3- I ) =: A 3 G + + A ) 4# " +B ! A A A > A G ! & " A A > I ) 4 + A & 3 : - " 3 - B 3 4 - $ .A G A 4) FONTE: Baseado em CAPRA, 1983: p.244 –248. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 97 Renata Guimarães de Carvalho Considerando um paradigma como uma forte referência que fornece “problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KHUN, 1982: 13), torna-se razoável inferir a emergência de um paradigma novo, ou pelo menos, de um horizonte diferenciado de compreensão do mundo. Seus princípios resgatam elementos complementares para a cultura ocidental contemporânea e implicam em uma forma diferenciada de pensar o saber científico. Esses campos de estudos apontam para o surgimento de uma cosmovisão que apresenta opções ao modelo mecanicista e determinista da realidade; um paradigma, ainda em construção, que indica caminhos para o estudo científico de fenômenos inseridos em níveis de complexidade e aleatoriedade crescentes; um modelo científico que contempla os fenômenos não lineares regidos simultaneamente por instâncias de ordem e desordem que não obedecem a leis gerais de funcionamento e a estruturas de previsibilidade. A complexidade mostra o inevitável caminho da incerteza, a trajetória de um objeto de estudo que se auto-organiza e emerge sempre de uma forma diferente ao olhar do pesquisador. A inclusão de seus princípios no campo de discussão teórico-científica traz inúmeros desafios para os pensadores contemporâneos em busca de metodologias que possam expressar dimensões novas do conhecimento. A arguta observação de MORIN (1998, p. 196-197) esclarece esse ponto: Problema duplo por toda a parte: o da necessária e difícil mistura, confrontação da ordem e da desordem. (...) A necessidade de pensar conjuntamente, em sua complementaridade, sua concorrência e seu antagonismo, as noções de ordem e desordem levantam exatamente a questão de pensar a complexidade da realidade física, biológica e humana. A meu ver, para isso é necessário conceber um quarto e novo olhar, dirigido para o nosso olhar (...) Temos de olhar para o modo como concebemos a ordem e para nós mesmos olhando para o mundo, isto é, incluir-nos em nossa visão do mundo. A construção de um novo olhar sobre as organizações que integre noções ligadas ao novo paradigma descortinado pelas pesquisas sobre complexidade, mudança, transitoriedade, ordem e desordem, repetição e variedade, inclui a revisão de nossas formas de compreensão do mundo. A criação de outras possibilidades de representação sobre as organizações, estrutura, processos de gestão, alcance de resultados, significados sobre trabalho é um desafio atual e presente ao cotidiano das pessoas nas empresas. Nesse sentido, a próxima seção do artigo tratará das condições de articulação dessa matriz de pensamento à gestão das organizações. 3 NOVAS REFERÊNCIAS NAS EMPRESAS: EM BUSCA DE UMA METÁFORA. Na Teoria das organizações uma visão única do que seria a organização tornou-se dominante a ponto de prejudicar a efetivação de um pensamento discordante do hegemônico. Segundo Bauer (1999) a composição da administração, como disciplina de saber científico, foi fundamentada no paradigma cartesiano-newtoniano o que redundou na criação de categorias que se enraizaram na prática administrativa e, em última instância, constituíram a concepção de uma estrutura funcionalista e burocrática. A organização, como espaço social, parecia intrínseca a uma matriz positivista. Com o processo de 98 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. configuração de um novo olhar sobre as empresas, especialmente atrelado à ciência do caos e da complexidade, o autor sugere o surgimento de uma também nova teoria das organizações que acompanha este movimento e que rompe com uma visão administrativa tradicional. Burrell (1999) defende que a teoria organizacional, enquanto espaço social, é por definição o campo da pluralidade, da diversidade de visões, idéias e comportamentos. E é pelo viés dessa multiplicidade que devem se guiar seus estudos. O seu propósito de desenvolvimento deve superar a percepção funcionalista de modelos representantes da ‘verdade’, do discurso científico que avançará na constituição de modelos novos, mais eficazes, para as organizações. A pulverização da verdade das organizações em teorias que representam visões da realidade avançou com os estudos de Morgan (1996) acerca do uso das Metáforas. Sua interpretação da análise organizacional não produz uma verdade única sobre o que é a organização. A análise organizacional acompanha a multiplicidade de significados constituídos em um ambiente social marcado pela indefinição dos fenômenos, pela impossibilidade de construção de objetos de estudo imutáveis. A perspectiva das metáforas é integrativa, inclusiva, e o seu uso é combinado em um ‘visão binocular’ que necessariamente contempla mais de uma visão da organização. Várias formas de conceber o espaço e a estrutura organizacional são dessa forma possíveis em uma mesma organização. Morgan expressa que: “usar uma metáfora implica um modo de pensar e uma forma de ver que permeia a maneira pela qual entendemos nosso mundo em geral.” (1992:16) Uma forma de ver e pensar a organização entre as muitas possíveis, dependendo dos sujeitos pertencentes a este espaço e do campo de representações criadas. Uma intrincada teia de significados produz as metáforas que irão atuar não apenas no nível simbólico, mas também na práxis da administração. A forma como o gestor percebe, vê a organização irá nortear sua atuação prática nela. As metáforas são usadas como parâmetros que irão ajudar o gestor a resolver problemas, tomar decisões e desenvolver a capacidade de pensar em cursos de ação cada vez mais variados e complexos, assim como o é a realidade organizacional. Nesse sentido, a perspectiva das metáforas implica nas seguintes considerações: • A busca da organização como um fenômeno complexo com multiplicidade de determinações, prescindindo de uma análise especializada de suas funções. • A aceitação da natureza indeterminada da organização, que leva à possibilidade de se chegar a verdades apenas aproximadas em relação ao fenômeno estudado. A organização não como um objeto de estudo empírico que pode ser alcançado em sua totalidade, mas uma forma de pensar, uma teoria, um insight. • A visão do sujeito da análise organizacional como um sujeito produtor de significado e de realidade – não sendo possível sua separação em relação ao objeto. Suas ponderações e conclusões são condicionadas pelo modelo de análise que é efetivado. O sujeito não pode ser separado do objeto e, portanto, influencia a sua configuração; ou seja, as pessoas criam a organização e são transformadas por ela. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 99 Renata Guimarães de Carvalho A força da metáfora advém da possibilidade de gerar significado para a construção de organizações sustentadas não apenas por estruturas físicas ou organogramas formais, mas também por estruturas simbólicas, imagens que criam um modelo mental de compreensão e construção da realidade. Sendo assim, que tipo de compreensão e significados surgem nas organizações modernas sobre as mudanças que parecem tão necessárias e urgentes para a sobrevivência das empresas? Que significados são propostos para as pessoas que compõem a organização? Em Carvalho (2001) o processo de construção de um novo olhar sobre as organizações é investigado tendo por referência a análise organizacional pelo uso das metáforas. Através de categorias relacionadas às imagens das organizações como ‘fluxo e transformação’ e como ‘cérebro’ (MORGAN, 1996) buscou-se compreender a realidade do processo de gestão de uma empresa meio de hospedagem de pequeno porte sediada em uma praia do litoral leste do Estado do Ceará. QUADRO 2: CATEGORIAS DE ANÁLISE DA IMAGEM ORGANIZACIONAL Fonte: Baseado em CARVALHO, 2001, p. 98. Entre as entrevistas realizadas no estudo vale destacar a análise do discurso do gerente geral do hotel, um profissional que tinha por função gerenciar o cotidiano de trabalho da empresa e efetivar as diretrizes dos proprietários. Inicialmente demonstra ter boa visão administrativa do hotel, seus setores, funcionários, cargos e atividades desempenhadas. Reconhece o processo de crescimento e desenvolvimento da empresa em relação às instalações físicas, condições de trabalho e qualidade dos serviços oferecidos, fruto do esforço conjunto de funcionários e proprietários. (...) um hotel que está crescendo, que está prestando um melhor serviço... Eu acredito que a gente vai conseguir passando por dificuldades, né? O hotel já teve as dificuldades que teve, problemas de caixa e tudo mais e isso foi resolvido(...) As pessoas, os funcionários, estão mais incentivados porque existiam os que não estavam motivados e, hoje, eles já tem outra visão da administração, da própria dona da empresa. A coisa cresceu muito e foi graças a esse esforço, tanto dos funcionários tanto como deles que são os proprietários. (CARVALHO, 2001, p. 121) 100 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. No discurso do gerente é possível identificar a importância dada à formação de redes externas e a posição ativa da empresa na conexão com o ambiente: relação com a concorrência, formação de parcerias, principalmente com fornecedores, influência no mercado de trabalho, e melhoria do processo de divulgação do hotel. (...) o hotel F. pra região engole tudo, é um hotel grande, tem resort, tem parque, tudo mais, mas hoje a gente já está achando que nosso hotel está incomodando. Por quê? Porque alguns clientes vem para cá pro hotel, vem fazer as refeições, por que a comida de lá não é boa. Então acho que o hotel na verdade está intervindo, ele está abrindo espaço também no campo de trabalho que nós tínhamos. Quando eu cheguei aqui, nós tínhamos vinte e dois funcionários. Hoje temos vinte e oito (...), então as pessoas procuram, elas já estão se informando, elas já estão mais informadas que o hotel está crescendo, as pessoas de fora da região no caso, né? Então acredito que o hotel, ele esteja intervindo, está ampliando o espaço tanto para fornecedores que a gente sempre recebe, eu recebo telefonemas e fax de outras empresas, outras distribuidoras estão oferecendo os produtos (CARVALHO, 2001, p. 122) Existe também a preocupação com a disseminação de conhecimento entre os funcionários como forma de melhorar a qualidade dos serviços. Além do treinamento de capacitação formal, são desenvolvidas no hotel metodologias de aprendizagem que incentivam o intercâmbio de idéias entre os funcionários, resolução de problemas cotidianos e a discussão de melhorias, como descritas no relato a seguir: A Dona do Hotel fez treinamento ultimamente(...) Ela mostra vídeo, discute com cada um, cada setor então é feito essa discussão, é muito bom. Ela começou a fazer treinamento com uma pessoa de Fortaleza, com uma especialista. A gente conversa, eu também converso com alguns deles, a gente discute certas questões de cada setor para cada setor. Então hoje o treinamento está sendo mais a nível de mostrar vídeo, de discussão no salão, no restaurante, para cada problema. Então a coisa é discutida assim, o grupo total discute, corrige as falhas, os erros. ‘Olha isso aqui, um dia tal aconteceu, essa falha tal, O que houve? Por quê?’ Então, ela tá fazendo isso e é muito bom. Tá começando a abrir, a ampliar mais horizontes(...) (CARVALHO, 2001, p. 126) Apesar de destacar a existência das parcerias, da discussão de idéias entre os funcionários, a importância da sua participação e uma estrutura hierárquica empresarial leve e enxuta, calcada no trabalho de equipes, alguns aspectos de seu discurso revelam um processo de gestão alinhado a modelos tradicionais. É forte na função gerencial a necessidade de agir como um fiscalizador das atividades desempenhadas pelos funcionários. (...) não existe chefia pro setor. O hotel por ser pequeno, na verdade se fossemos fazer um organograma, seria mínimo(...) porque em cada setor existem as equipes, ta certo? No início a coisa era mais difícil mas hoje as pessoas, cada uma delas já sabem as suas funções. Então na verdade eu tô mais de, de estar junto com elas na administração, no dia-a-dia, né? Eu fico praticamente no comando, ele não é só de dizer: - Você faz isso! Eu tenho que estar vistoriando, fiscalizando. (CARVALHO, 2001, p. 122) Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 101 Renata Guimarães de Carvalho O fato das equipes de trabalho estarem atreladas a um sistema de supervisão acirrada está relacionado à visão que o gerente elabora sobre os funcionários. Esta remete a modelos tradicionais de gestão taylorista: a dicotomia entre o ‘pensar’ e o ‘fazer’ do trabalho e a visão de ‘homus economicus’ desenvolvida pela escola de administração científica. Como o pessoal é mais dessa região, não é que eles não tenham qualificação, vamos dizer assim, mas por serem da região, é um pessoal que (...) você conversando com alguns deles tem essa idéia de... – ah, vai assim mesmo sabe? Ele não pensa antes, indo dessa forma em frente ao cliente, vá ver.... Puxa vida! (...) Então às vezes tem que ter uma pessoa: não, isso aqui está errado, volte! Melhore isso! Faça assim! Uma decoração, uma coisa assim. Então é mais ou menos dessa mentalidade. (CARVALHO, 2001, p. 122) Citando a trajetória de mudança do hotel, que é marcada por um período de má administração dos proprietários anteriores, crise financeira e mudança para o estilo de gestão dos atuais donos, ele reforça um modelo de gestão voltado para a centralização de decisões e adaptação dos funcionários antigos. No processo de mudança, houve a clara ruptura de processos e hábitos já estabelecidos que deram lugar a métodos de trabalho compatíveis com o novo estilo gestor e com a visão de futuro do hotel. É pra eles, para que eles vejam que a coisa mudou de muito tempo atrás. Tem muita gente aqui que é antiga, né? Tem gente aqui da administração antiga, a dona atual do hotel sempre foi sócia, ela me explicou, ela sempre foi sócia mas ela não participava muito. Hoje ainda querem mexer um pouquinho, querem soltar um pouco, você tem que: - Não, isso não pode ser assim! Isso você fez isso no passado, hoje a realidade é outra! Isso está errado! Então ela melhorou muito a administração dela. Melhorou muito o comportamento até de certas pessoas que ainda estão aqui. (CARVALHO, 2001, p. 128) (...) eu vou citar o caso da cozinha(...) há algum tempo atrás um pouco antes da atual dona do hotel não nos dava condições para funcionar corretamente o restaurante para realmente atender melhor o cliente. Nesse processo de desenvolvimento, na verdade, em relação aos funcionários, eles não queriam adaptar-se às novas regras, eles não queriam adaptar-se ao próprio desenvolvimento do hotel. Faltava mercadoria, eles não solicitavam a mercadoria, ou faltava, e eles deixavam faltar, “deixava faltar, vai assim mesmo, deixa de qualquer jeito”, então com a atual Dona., nós entramos, eu comecei a ficar mais próximo dessa questão do fornecimento, organizei os fornecedores, captamos mais fornecedores, falando. Fomos comprando material, repondo os materiais que estavam, então eles foram vendo que a coisa mudou, eles tiveram que acompanhar. Foi difícil, tiveram que ir acompanhando esse processo de mudança. Então se teve de conversar bastante, ficar muito em cima. (CARVALHO, 2001, p. 124) O gerente coloca-se como um aliado da dirigente do hotel no trabalho de conscientização dos funcionários em relação à implantação de novos hábitos de trabalho. Em seu discurso, situa-se de forma diferenciada em relação aos demais funcionários. É o que eles achavam até quando eu cheguei aqui, eu posso dizer a você: - Ah, isso aqui não vai funcionar. Ah, vai continuar como era antes, como era com fulano, fulano. E esse processo foi um processo lento de um ano quase (...) hoje eles já tem essa visão de que o hotel cresceu, o hotel está crescendo, está realmente se desenvolvendo. (CARVALHO, 2001, p. 124) Características da empresa investigada favorecem o surgimento de processos alinhados à imagem da organização como ‘fluxo e transformação’ e como ‘cérebro’ (foco no trabalho em equipe, 102 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. flexibilidade, construção de redes, visão do todo do negócio, entre outros) – trata-se de uma organização de pequeno porte, da área de serviços, que convive com a sazonalidade própria do mercado turístico. No entanto, esses processos organizacionais coexistem com resquícios mecanicistas, relacionados à supervisão e fiscalização de atividades, a imposição de regras de trabalho, a direção e o controle como ferramentas gerenciais. Percebe-se uma dimensão formal da organização – articulada em um esforço de gerenciamento tradicional com metodologias de planejamento, direção, comando e controle – e uma dimensão informal que escapa ao controle dos dirigentes e emerge no campo do trabalho cotidiano dos funcionários que precisam “administrar” o seu próprio trabalho e o inesperado que está nele, apesar das tentativas de controle. O crescimento da integração da equipe de trabalho e o aumento da flexibilidade, de uma certa autonomia informal, expressam estratégias que permitem a sobrevivência e a eficácia nesse meio de trabalho em processo de transformação. No artigo “Improvisação e Organização” (CUNHA, CUNHA: 2000) a capacidade de improvisar, ou seja, de efetuar uma ação repentina que responda a um fato imprevisto em temporeal é uma competência característica de organizações que atuam no ambiente hiper-competitivo ou complexo. Neste contexto as empresas participam de um jogo onde os competidores e mesmo as regras de competição podem mudar a qualquer momento. Em ambientes de hipercompetição a velocidade da inovação de processos e produtos leva à transitoriedade das vantagens competitivas das empresas que precisam estar constantemente atentas aos padrões de mudança e, principalmente, gerando tendências em condições crescentes de incerteza. Nesse sentido, a improvisação é tão importante como o planejamento e a organização. Tendo por referência o modo de organização de uma banda de jazz observa-se que ordem e desordem permanecem em um trabalho de conjunção criativa de opostos. No jazz, a improvisação ocorre no quadro de um conjunto de regras bem definidas e especificadas pela teoria, o que significa que o termo improvisação não surge como sinônimo de desordem nem de resultados totalmente emergentes. (...) A combinação de teoria e prática, individualidade e cooperação, estrutura e improvisação, faz do jazz um campo potencialmente rico para o estudo da colaboração criativa. ( p. 221, 222). QUADRO 3: PLANEJAMENTO E IMPROVISAÇÃO Características Planejamento Improvisação Risco Paralisia por análise Extinção por instinto Timing de ação Antecipação Resposta em tempo-real Materias-primas Números, análise Intuição, síntese Abordagem da incerteza Redução da incerteza Acomodação da incerteza Objetivo Racionalidade de ações Capacidade de resposta Imagem Ópera Jazz Fonte: Baseado em CUNHA & CUNHA, 2000, p.223. Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 103 Renata Guimarães de Carvalho A resistência em se reconhecer a importância dos elementos de ordem e desordem na gestão das empresas vem associada ao modelo mental das tradicionais escolas da teoria da organização, utilizadas na realidade prática em algumas versões hegemônicas, das quais seria possível ressaltar o modelo mecanicista. Esta forma de ver as organizações, ou metáfora organizacional, exclui a percepção de que a organização também é composta pelas relações informais, pela emergência de processos espontâneos de criação e inovação que se auto-organizam no cotidiano dos grupos de trabalho que procuram dar conta dos imprevistos em tempo-real. A necessidade de integrar essas metáforas aponta para a construção de um novo olhar que possa superar uma visão rígida sobre modelos de gestão tradicionais. Considerando que os processos tradicionais de gestão, implantados e disseminados largamente nas empresas, priorizam os instrumentos de planejamento, organização e controle tornam-se claras as dificuldades impostas aos gestores por um ambiente turbulento e imprevisível. Atualmente os executivos vivem sob enorme tensão. (...) Suas empresas podem até parecer poderosas quando vistas de fora, mas eles mesmos se sentem empurrados para cá e para lá pelas forças globais de mercado e acham-se inseguros em face de turbulências que não conseguem prever e nem mesmo compreender plenamente. (...) Há um sentimento profundo e difuso entre os gerentes e administradores de que, por mais que trabalhem, não conseguem ter controle sobre as coisas. (CAPRA, 2002 p. 109,110) A concepção racionalista-newtoniana de mundo concedeu muitos poderes ao sujeito, outorgando a ele a possibilidade de intervir e controlar a emergência dinâmica dos fenômenos. Oriunda dessa perspectiva ressaltam-se as funções clássicas do administrador voltadas para o aumento da eficiência e da eficácia organizacional, através do planejamento, organização, direção e controle de processos e tomada de decisão. Os pressupostos da complexidade, no entanto, desapropriam o sujeito desse lugar de dominação e poder, recolocando-o como elemento integrado em um todo sistêmico que apresenta uma forma própria de funcionamento e organização de processos. Se as organizações fossem máquinas, todo esse planejamento e esse controle poderiam fazer sentido. No entanto, as organizações são sistemas vivos. Procurar impor controle não é só algo fútil, mas também suicida. Sistemas vivos prosperam na desordem. Requerem desequilíbrio (SHELTON, 1997 p.158). As contribuições desses autores para a elaboração de uma nova forma de conceber as organizações unem-se aos esforços de busca de novas referências para a teoria organizacional e a administração. Esperar transformar as organizações através de metodologias de gerenciamento fechadas e da mobilização de pessoas através de um discurso prescritivo (‘os processos têm que ser assim para que dêem certo’), apenas arranha a superfície de uma visão de mundo muito mais arraigada que gera um modelo mental específico sobre a empresa, o trabalho e as pessoas. Torna-se importante o reconhecimento de uma dimensão subjetiva nas organizações que cria os significados e os concretiza na realidade através da construção de modelos de gerenciamento e de estrutura organizacional. A administração, dessa forma, tateia no campo simbólico, atrelado ao conhecimento intuitivo, complexo, que não traz respostas prontas ou efeitos diretos. O processo de construção de uma nova 104 Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 Gestão em tempos de complexidade: reflexões acerca da construção de um novo olhar sobre as organizações. mentalidade, uma metáfora mais alinhada ao pensamento complexo no âmbito das organizações, pode ser observado na atualidade em plena dinâmica de elaboração, com alguns avanços e muitas lacunas. Como diz Shelton (1997: 185): Nosso anseio por mudarmos o local de trabalho de um lugar onde há o predomínio do poder e da política para um lugar onde haja parceria requer uma nova visão de mundo – uma nova compreensão da maneira como o universo funciona. Também requer um compromisso pessoal com novas maneiras, bem diferentes, de conviver no trabalho. 4 CONCLUSÃO Apesar das produções científicas sobre o tema não serem ainda suficientes, descortina-se um novo referencial pautado na percepção da complexidade dos fenômenos e seu impacto na gestão das organizações. Compatível com este novo paradigma surge a análise organizacional através das imagens, privilegiando a dinâmica de construção simbólica da organização, a assimilação de metáforas, o surgimento de determinados modelos mentais como formas de definição de processos de gestão. A construção da metáfora da organização como sistema orgânico, complexo, expressa mais do que uma realidade que deve ter sua aplicabilidade investigada de forma minuciosa. Representa uma mudança fundamental no arcabouço simbólico das pessoas que fazem a organização, implicando uma verdadeira mudança de modelo mental. Novas organizações surgem a partir de um conjunto de idéias, valores, princípios espelhados nesta imagem e produzem uma práxis consistente. Este é um caminho ainda em construção, com muito de seus pressupostos dispersos em um conjunto de metodologias e ferramentas ainda pouco articuladas. A falta de concatenação dessas práticas tem suas raízes mais profundas na incipiente vivência teórica e prática desses construtos, e a carência de sua validação em maior amplitude no cotidiano das organizações. A missão do eixo administrativo, como saber que tem por proposta analisar e atuar na organização, é imprescindível nesse contexto. É seu papel facilitar processos, articular significados, delinear arquiteturas em que o pêndulo da ordem e desordem seja possível dentro da organização, criando resultados e fazendo parte de um estilo de gestão coerente. No entanto, considerar a função da administração única ou mais importante que os outros processos da dinâmica organizacional é um equívoco que deve ser evitado. As dimensões complexas que compõem a dinâmica organizacional e transcendem os limites da prática instrumental devem ser reconhecidas pela administração como forças atuantes. O gestor não será aquele que precisará necessariamente atuar, intervir nos processos organizacionais, controlá-los, produzindo resultados objetivos mais eficientes. A administração tem um papel fundamental à medida que reformular a idéia de planejamento e controle, admitindo a complexidade dos fenômenos e sua transformação, e empreender ações para facilitar esse processo nas empresas através de três momentos: composição de uma arquitetura organizacional que traduza em artefatos visíveis uma mentalidade alinhada ao pensamento complexo; construção de um estilo Anima, Fortaleza, ano 5, n.7, p. 93-107, jan./jul. 2005 105 Renata Guimarães de Carvalho de gerenciamento aberto ao movimento de ordem e desordem e de auto-organização do trabalho individual e em equipe; e disseminação de um modelo mental que contamine as pessoas da organização fazendo com que elas sejam pontos de inflexão e mudança de seu próprio trabalho e de toda a organização daí para frente. Esse deve ser um padrão de reforço circular ascendente que não estará nas mãos de poucas pessoas, mas, sim, enraizada em uma estrutura simbólica, que será a ferramenta gerencial necessária que apresentará os caminhos, assim como os desafios, para a organização e a própria teoria administrativa. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUER, R. Gestão da mudança: caos e complexidade nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999. BOHM, D. A totalidade e a ordem implicada: uma nova percepção da realidade. São Paulo: Cultrix, 1980. BURRELL, G. Ciência normal, paradigmas, metáforas, discursos e genealogia da análise. In: CLEGG, S; HARDY,C; NORD, W. (Org.) Handbook de estudos organizacionais: modelos de análise e novas questões em estudos organizacionais. São Paulo: Atlas, 1999. CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002. ______. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996. ______. 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A revista não se obriga a devolver os originais das colaborações enviadas. ANÁLISE DOS AR TIGOS P AR A PUBLICAÇÃO ARTIGOS PAR ARA 12. Adota-se o sistema de avaliação anônima (blind review) para análise dos artigos encaminhados para publicação, com pelo menos dois avaliadores. A avaliação é apreciada pelo Conselho Editorial, que decidirá sobre a publicação. 13. O prazo para resposta ao primeiro ou único autor do artigo submetido é de até 60 dias contados da data de recebimento na Revista ANIMA. 14. Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es). Os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido citar parte do artigo ou do documento sem autorização, desde que identificada a fonte. 109 FICHA TÉCNICA PROJETO GRÁFICO Clarice Frota REVISÃO Roberto Cunha Lima - FENAJ - 239 NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA Luiza Helena de Jesus Barbosa - CRB/830 EDITORAÇÃO ELETRÔNICA José Vauni de Freitas IMAGEM Olho do tipo de uma inscrição hieroglífica 110 Rua Vicente Linhares, 308 - Aldeota Fortaleza - Ceará - Brasil Site: http://www.fic.br E-mail: [email protected] 111