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O Peregrino
Paulo Vieira
Parahyba do Norte, 1817
Cena 1
(Chove torrencialmente. O palco está escuro. É noite profunda. Dentro de um nicho,
iluminado por parca luz, vê-se uma cabeça de homem. Um Soldado, tenso, faz a
sua guarda).
Soldado - Por que diabos há de chover tanto esta noite? Tenho eu de ficar aqui
fazendo plantão a uma cabeça morta! Estes ventos, estes arrufos, ai Jesus, tudo
isto torna ainda mais escura e fria e medonha estas horas que não passam. Estou
sozinho aqui com esta maldita cabeça, mas tenho eu a impressão de que não, de
que outros olhos nos espreitam. Por meu gosto e vontade, estaria, na pior das
hipóteses, em minha cama quente na caserna, mas de preferência, de preferência
mesmo, estendido nos braços de alguma rascoa lá no Curral das Éguas. Em vez
disso, maldita seja essa profissão, fui designado para montar guarda a uma
desgraçada cabeça apartada do corpo, por conta dos seus muitos erros e pecados,
que Deus conduza sua alma ao inferno. A cabeça, ao menos, está guardada no
nicho que foi o lugar da santa até ontem. Protegida, não toma chuva. Mas de que
adianta, se agora é indiferente o que lhe vai à cabeça? Tenho eu, então, de ficar
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aqui fora plantado, enquanto o rapaz fica aí protegido. Tenho eu de ficar com os
meus ossos molhados e com o corpo tremendo, não sei se de frio ou se de febre...
Ou de medo... E com os olhos a arderem, não sei se de sono ou se de febre... Ou
de medo... (Batem os sinos das igrejas) Batem os sinos... Meu Deus, santo diabo, o
que será isto, afinal? Não se pode bater os sinos, faz parte do decreto real, não se
deve honrar de prantos o morto... (Batem ainda mais os sinos) Está muito bem...
Está muito bem... Creio que deva ter sido casual esta pancada... Esta noite
miserável todos os sons produz: silvos, trovões, arrulhos e badaladas, mas queira
Deus que o temporal cesse e ceda à manhã a noite atormentada... (Batem ainda
mais fortes os sinos)... Mas não pode ser casual esta pancada... Parem os sinos,
parem, parem os sinos em nome de el-rei, D. João, nosso senhor...
(Duas sombras entram sorrateiras na cena. Enquanto o guarda movimenta-se de
um lado a outro, gritando impotente a ordem, uma delas tira da cintura um punhal e
o enterra no peito do Soldado, que cai, segurando a mão de quem o feriu, e morre,
traduzindo em sua partitura corporal a expressão do horror e do medo. A sombra
que assassina o guarda, pega de Peregrino a cabeça e foge para dentro da
escuridão. A Segunda sombra aproxima-se do guarda, examina o resultado e diz,
em voz baixa e profunda).
Sombra 1 — Se vida houver após o fim, na terra ou no paraíso almejado, ao
menos, queiram os Céus, Peregrino a Eurídice tenha encontrado.
Cena 2
(O corpo do Soldado está coberto por um lençol, sendo examinado por um Sargento
e por um Capitão. Entra o Coronel Matias da Gama Cabral de Vasconcelos)
Sargento - Senhor, a cabeça do alferes foi roubada. Foi assassinado o guarda que
a vigiava. Um duplo crime foi cometido. Foram desafiados os poderes do império.
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(O Coronel examina o corpo rapidamente)
Coronel - O corpo de um morto fala. Se prestarmos bem atenção, pode nos dizer
quem o matou.
Capitão — Senhor, a arma que o matou parece longa, mas nem tanto: menor que
uma adaga, maior que um punhal. Com certeza não foi uma espada, pois nesse
caso, devido a força empregada, a degola seria fatal. A lâmina atravessou as
cervicais, destruindo sem menos nem mais o cachaço do infeliz, atravessou a
faringe, despontou do outro lado. Estivesse o Soldado de cabeça abaixada, teria
estuporado a queixada, seria capaz de arrancar até mesmo a ponta do nariz.
Coronel — Pela descrição detalhada, só posso concluir que o assassino da
sentinela seja alguém de mãos robustas e sentimentos vis.
Sargento - Muito bem, Coronel. Brilhante conclusão.
Coronel - Sendo assim, só posso determinar que comecemos imediatamente as
buscas, pois o assassino desse bravo impune não irá ficar. Os fatos levam-me a
raciocinar que quem matou este homem deve estar pensando que do nosso
regimento há de fazer chalaça, pois tudo me faz concluir que o crime não foi em
vão, quem cometeu esse desatino foi também o ladrão da cabeça de Peregrino. Há
algum suspeito, Sargento?
Sargento
— Não, Coronel, não há. O crime parece perfeito, o criminoso agiu
sorrateiro, o mau tempo foi o seu aliado. Devido à chuva inclemente, fora deixado
uma sentinela somente, jamais passando pela mente que alguém fosse capaz de
sair no escuro da tempestade, matar um homem e roubar de outro a cabeça, não
sei com que propósito...
Capitão — Destratar a nossa autoridade.
Coronel — Creio que até mais do que isso. Com esse desafio o infeliz quer pôr à
prova as forças do império.
Sargento — Penso que os senhores tem razão.
Coronel - Está certo, está certo. Precisamos pensar nos suspeitos.
Sargento — Quem teria, Coronel, interesse em matar a sentinela?
Capitão — A pergunta é outra, Sargento. A pergunta é: quem teria interesse em
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roubar de Peregrino a cabeça?
Sargento — Quem, Coronel?
Coronel — Senhores, a meu ver só há um suspeito, alguém de quem ainda não sei
o nome, mas que se esconde na casa do condenado.
Sargento - Permita-me, Senhor, dizer: Augusto Xavier de Carvalho está preso. O
avô de Peregrino, ao que eu saiba, está doente, desde a prisão do neto, de maneira
que restam naquela casa uma mulher tão somente e uma velha escrava.
Coronel — Não importa. Sã ou malsã, dama ou matrona, ela é a mãe do
decapitado, algum interesse deve ter no seqüestro de sua cabeça, algum secreto
prazer em subverter as ordens de Estado. (Algum tempo pensativo, olhando o
morto. Grita) Sargento!
Sargento — (Perfilando-se) Sim, senhor!
Coronel — Formai a tropa no pátio.
Cena 3
(O Coronel, o Sargento e alguns Soldados, na casa da mãe de Peregrino)
Coronel - Senhora dona Jacinta de Carvalho!
D. Jacinta — O que quereis, senhor?
Coronel — Quero revistar a vossa casa.
D. Jacinta — Que outra desgraça vos traz?
Coronel — Sabeis melhor do que eu.
D. Jacinta — Sei apenas que sois o mensageiro de más fantasias.
Coronel - Procuro do vosso filho a cabeça.
D. Jacinta — Dele, encontrareis aqui apenas a alma, esta jamais surrupiastes. (O
Coronel faz menção de entrar).
D. Jacinta - Detende-vos, senhor, o meu pai sofre na cama, não há limites para a
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sua dor.
Coronel — Revistai a casa, Soldados, procurai dentro de cada cousa e cada canto,
há de estar guardada aqui a cabeça do traidor, hei de levá-la comigo espetada em
minha espada, hei de a expor na ponta de uma vara para que a vejam todos os
passantes. Olhai o que se passa no interior.
(A escrava Vicência surge trazendo na mão uma faca suja de sangue, com a qual
cortava um naco de carne. Os Soldados tomam-lhe a faca. Saem levando-a
consigo. Ficam apenas o Coronel e D. Jacinta)
D. Jacinta - Já não vos basta, Coronel, o ultraje que a minha casa tem sofrido. Meu
filho morto e esquartejado, preso como um bandido o meu marido. Já não vos basta
haver sido apartada do corpo a cabeça do meu filho, terem o seu corpo puxado por
cavalos e arrastado na lama. Não vos basta cortarem dos seus braços as mãos que
em sua infância tantas vezes me acariciaram. Agora, quereis que vos diga onde foi
parar a sua cabeça, eu, a mãe da criança que sem piedade sacrificastes... Quereis
que vos deis conta de um pedaço do meu filho, se a vós mesmo, quando ele ainda
estava vivo, eu vos pedi, senhor, eu vos implorei, eu roguei, aos vossos pés eu me
atirei, rasguei de dentro do meu peito a minh’alma, supliquei para que salvásseis o
meu filho, o meu Peregrino por inteiro, não um pedaço do seu corpo, não as suas
mãos, sua cabeça ou qualquer parte dos seus membros apartada, mas o meu
menino tal como o concebi, tal como do meu ventre foi nascido, o meu Peregrino, o
meu menino. Por sua vida, em vão em vos implorei a salvação.
Coronel — Senhora, as minhas mãos não assinam tais sentenças. Sou um soldado
fiel ao meu príncipe D. João.
D. Jacinta - Sois um lacaio do império.
Coronel — Sou um fiel servidor da nação.
D. Jacinta - Fosseis vós o que dizeis, teríeis estado ao lado do meu Peregrino, com
vossa espada teríeis lutado junto ao meu menino, teríeis sonhado com a liberdade
pela qual ele se bateu... Mas não sois nada disso... Sois um Coronel de milícia...
Não sois mais do que um fariseu.
Coronel — Senhora, por muito menos do que dizeis, fosse outra a situação, não
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estivesse eu preocupado em recuperar a cabeça do vosso filho, eu vos levaria
arrastada pelas ruas, eu vos meteria no fundo de uma cadeia infecta, eu vos faria
apodrecer como um mamão.
D. Jacinta — Fazei, senhor, que vos custa, completai o ódio que à minha família
tendes, realizai o propósito de vossa vingança. Sou apenas uma mulher
envelhecida, não posso com uma espada, não sei manejar uma adaga, jamais em
minha vida degolei um ganso, sou a adversária perfeita para a vossa bravura.
Cena 4
(Masmorra de Santa Catarina)
Cap. João Neiva — Bebeis alguma cousa? Vinho do Porto ou cachaça?
Coronel — Água.
Cap. João Neiva — Bebei algo que vos aqueça o corpo, Coronel. Água... parece
que o céu esta noite resolveu verter do seu pote a medida. O que a este forte vos
traz?
Coronel - Uma cousa muito grave, resquícios de patriotada, um crime sem provas
nem testemunhas, uma sentinela quase degolada, a cabeça de Peregrino
desaparecida.
Cap. João Neiva — Há suspeitos?
Coronel — Não, não há. A intuição me diz que é necessária uma investigação no
seio da própria família. Revistei a casa que fora de Peregrino, examinei cada canto,
abri cada cômoda e gaveta, o cofre e as caixas, pus de cabeça para baixo cada
móvel e todos os cômodos, até mesmo a alcova em que agoniza de morte o avô do
malfadado alferes. Interroguei sem piedade a mãe do condenado. Só não o fiz com
a negra velha. Nada encontrei que pudesse gerar suspeita. Resolvi ao próprio chefe
da família interrogar.
Cap. João Neiva — Perdoai-me, Coronel, a intromissão, mas creio que devereis a
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escrava interrogar, pois não fora outra que outrora rondara as muralhas da
fortaleza.
Coronel - Em que época?
Cap. João Neiva — Quando aqui estivera Peregrino trancafiado.
Coronel — O que queria a cativa?
Cap. João Neiva — Disse-me que era mãe de criação do condenado, que ele em
seu peito bebera o leite da infância, que servia a tantos anos na casa dos Carvalho,
rogava apenas que lhe fosse dada a clemência de a Peregrino pela última vez
avistar. Trazia em sua mão uma trouxa com doces de alfenim e cocada.
Coronel — Permitiste-lhe a visita?
Cap. João Neiva — Sim, meu Coronel, acompanhada por um praça de confiança.
Coronel — Do que falaram Peregrino e a escrava?
Cap. João Neiva — Do que fala uma mãe a um filho sentenciado?
Cena 5
(Passos que ressoam no fundo da masmorra. Uma chave que gira na porta.
Augusto Xavier de Carvalho está atirado ao fundo da cela. Entram o Coronel, o cap.
João Neiva, depois, distante, o carcereiro).
Coronel — A quem ordenastes para que roubasse a cabeça do vosso filho?
Augusto — Nada ordenei, Coronel. Preso aqui, como eu o faria? Se alguém roubou
do meu filho a cabeça, foi certamente alguma alma pia.
Coronel — Foi algum maldito patriota, que haverei de pegar antes que o dia finde.
Era o vosso filho um traidor, e como tal deve ser tratado.
Augusto — Não era o meu filho um traidor
Coronel - Senhor, vosso filho não merecia clemência. Era um assassino nato, pois
não fora outra cousa o que fizera aqui nesta fortaleza, no dia em que a patriotada do
Coronel Amaro Gomes Coutinho cercou a cidade, tomando-a na manhã seguinte,
declarando em praça pública a independência. Não ignoreis, certamente, que ele
matou o Capitão José Lourenço da Silva. Está aqui o nosso Capitão João Neiva,
que não me deixa mentir.
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Cap. João Neiva — É verdade, Coronel. O mais bárbaro crime que eu já vi.
Augusto — Mentira! Mentira! O meu Peregrino se bateu em duelo, homem contra
homem, espada contra espada. O Capitão José Lourenço foi quem, antes, agiu
como covarde. Em meio à confusão criada com as notícias de que a revolução fora
declarada, o capitão provocara o tenente-Coronel Marcelino Andrade.
(O retorno do tempo)
Cap. José Lourenço — Tenente-Coronel Marcelino de Andrade? Sois patriota ou
realista?
Ten. Marcelino — Sou patriota.
Cap. José Lourenço — Pois toma o que tu mereces (enterra a espada no peito do
Tenente-Coronel). Eis o fim de tua raça!
Peregrino - Capitão José Lourenço! Matastes um patriota! Morrereis por isso! Em
guarda!
(Os dois lutam violentamente, até que Peregrino acerte com um golpe o oponente,
que cai)
Cap. José Lourenço — Viva o Príncipe Regente! (Morre).
Peregrino — (Gritando para a tropa) Senhores! Estamos apartados da monarquia,
seguimos os exemplos da América e da França revolucionárias. Formaremos ao
norte uma república, cuja capital será a nossa Parahyba.
(Tiros de bombas e de arcabuzes invadem a cena).
(Volta o tempo presente).
Coronel – Tínhamos, felizmente, no comando do forte um homem de brio, o
Capitão João Neiva.
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(O Capitão abaixa a cabeça, orgulhoso e agradecido).
Augusto — Desde aquele dia, somente vi o meu Peregrino no instante em que fui
rogar a sua vergonha, quando pedi para que abandonasse a luta... Eu soube, por
Gonzaguinha, que ele estivera na cidade, entrara homiziado, quando ela ainda
estava em poder realista.
Cena 6
(Porta batida com violência. Surge a mãe de Gonzaga).
Coronel — Quero falar com o vosso filho agora.
Mãe de Gonzaga - Ele está doente, Coronel. Chegou tarde em casa, tomou chuva a
noite, meu pobre Gonzaga, amanheceu com febre e a respiração dificultada.
Coronel - Senhora, não interessa a saúde do vosso filho. Esta não é visita de
cortesia. Chamai-o à sala sem demora.
Gonzaga - (Entrando) O que quereis de mim, Coronel?
Coronel - Saber onde passastes a noite.
Gonzaga — Passei-a onde sempre a passo.
Coronel — Onde, rapaz?
Gonzaga — Não quereis que vos diga na frente da minha senhora.
Coronel — Saí, madame, para que eu possa conversar com o vosso filho.
(A mulher, assombrada, deixa a sala).
Gonzaga — O que há, Coronel? Não pode um homem viver sem sair de casa?
Coronel — A cabeça de Peregrino foi roubada.
Gonzaga — Não fui eu, se é isso o que quereis saber. Peregrino era meu amigo
desde a tenra infância. Eu o admirava, quando vadiávamos no rio. Nem sempre eu
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o acompanhava em suas aventuras.
Coronel — Eu soube, pelo pai do traidor, que Peregrino entrara escondido na
cidade.
Gonzaga — Sim, Coronel, é verdade.
Coronel — O que viera fazer?
Gonzaga – Ele viera encontrar Eurídice.
Coronel - A filha morta de João Alves Sanches Massa?
Gonzaga - Morrera justamente naquele dia, e isso Peregrino ainda não sabia.
Coronel — E o que tinha aquele bandido a entreter-se com a filha do seu pior
inimigo?
Gonzaga — Amor, Coronel, de quase todo mundo escondido.
(O retorno do tempo)
(Queda d’água. Vozes de moças no banho. Eurídice nua, banha-se, acompanhada
por uma jovem escrava. Peregrino aproxima-se remando uma canoa. Avista as
mulheres).
Escrava - O que faz tu aqui, nhonhô?
(Eurídice grita e esconde a sua nudez mergulhando na água).
Peregrino — Cala-te mulher. Queres atrair a atenção de toda a gente?
Eurídice — O que fazeis aqui, senhor? lnvadistes a privacidade do meu banho.
Peregrino — Senhora, acreditai, não foi por vontade própria.
Eurídice — O que aqui vos traz?
Peregrino — O acaso me trouxe a esta praia.
Eurídice — Ide-vos embora.
Peregrino - Senhora, por favor, se o acaso aqui me trouxe, planta-me agora a este
lugar o amor.
Eurídice — Não podeis amar a uma estranha.
Peregrino — Não, tendes razão, mas já não o sois.
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Eurídice — Não?
Peregrino — Não, diz o meu coração.
Eurídice — O meu a mim não diz nada, não vejo o vosso rosto.
Peregrino — Pois voltai o vosso para o meu lado. Voltai-o. Embora não seja eu
digno de vossa graça, reparai em mim e vereis um homem atirado aos vossos pés.
(Eurídice vira-se de frente para ele). Senhora... sois bela como não há semelhança.
Eurídice — Senhor... sois belo como não tenho lembrança.
(Volta o tempo presente).
Coronel — O que viera fazer Peregrino na cidade ainda não tomada pela
patriotada?
Gonzaga — Antes de vos falar sobre isso, Coronel, permiti que eu vos fale sobre a
Confraria da Gameleira.
Coronel — Que Confraria é esta?
Gonzaga — Era assim que Peregrino chamava a um grupo de amigos que se
juntava à sombra de uma centenária gameleira. Traziam livros, idéias que seriam
confrontadas. Peregrino costumava ler panfletos escritos por frei Caneca, nos quais
dizia o frade que «a salvação do povo é a primeira e máxima das leis, a fonte donde
derivam todas as outras, é o ponto de apoio que sustenta os movimentos e equilibra
a marcha de toda a máquina política”.
Coronel - Menos detalhes, menos detalhes...
Gonzaga — Muitas vezes, as conversas da Confraria estendiam-se pela noite e
continuavam nas mesas dos lupanares da rua do Curral das Éguas. Foi lá que
Peregrino conheceu a segunda paixão de sua vida... Estávamos na pensão da
madame Ceci... Conheceis, pois não? A marafona francesa, Cécile...
Coronel — Sim, sim, continuai a narrativa...
Gonzaga — Naquela noite, o mestre Guigui arrancava os lundus, fados e modinhas
com voz compungida em seu violão. Quando, certa vez, Guigui parou um minuto
para descansar, eu o chamei: “Ó Guigui, vem para cá”.
(O retorno do tempo).
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Guigui — Tenho sede.
Gonzaga — (Enchendo um copo com aguardente) Beba, homem. Com sede não se
pode viver.
(Guigui bebe o seu copo de uma única vez)
Peregrino — (Pegando o violão) Posso experimentar?...
(Dedilhou um tanto)
Guigui — Meu rapaz, eu te digo, o que tocas é uma porcaria, mas jeito tens, isso te
dou garantia.
(Todos riem. Volta o tempo presente)
Gonzaga — Foi assim que Peregrino começou a tomar aulas com o mestre Guigui,
ocupando com o instrumento o seu tempo ocioso, dedicando a ele tanta paixão que,
em poucos meses, conseguiu acompanhar o mestre nos lundus e nas variações,
para preocupação da D. Jacinta, que via no filho uma tendência pecaminosa à
dissolução. Estava o mestre Guigui inteiramente encantado com o talento musical
de Peregrino, com a sua voz de timbre forte e aveludado. Peregrino vivia às voltas
com os Amantes da Lua, o grupo de seresteiros liderados pelo mestre Guigui.
Depois que Peregrino conheceu Eurídice, foi sob a sua janela que plangeu com
paixão as cordas do seu violão.
Coronel — Pareceis-me suspeito, Senhor. Até agora nada respondestes
satisfatoriamente.
Gonzaga — Quereis que vos diga o que eu não sei, Coronel. Digo apenas o que
sei. Sei que Peregrino, depois que matou em duelo o oficial em Cabedelo, homiziouse como seus homens nas brenhas do rio que conhecia como ninguém, e, enquanto
sitiada a cidade estava, entrou escondido em busca de sua amada. Quando se
aproximou dos muros de sua morada, para sua ingrata surpresa, ao invés da dama
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adorada, encontrou choros, gritos e lamentos. Eurídice morrera naquela tarde,
vitimada pela varíola. Jamais vi, Coronel, em um homem tamanho desespero.
Peregrino quis entrar na sala onde o corpo estava sendo velado. Deu-me trabalho
contê-lo.
Coronel — O que fazíeis lá, rapaz?
Gonzaga — A curiosidade, Coronel, não é da mulher apenas o vicio. Eu soube do
que acontecera. Fiquei rondando os muros em busca de mais notícias, quando
encontrei Peregrino nas sombras escondido.
(O retorno do tempo)
Peregrino — (Enlouquecido, esbofeteando-se, urrando. Bastante barulho de vozes)
Sem ti, nada faz sentido.
(Peregrino desembainha a espada para matar-se. Gonzaga tenta tomar-lhe a arma).
Gonzaga — Afasta-te, foge Peregrino, se te pegam aqui, Deus tenha piedade de ti.
João Alves — (Pai de Eurídice) Quem está aí? Quem, com esses gritos, perturba a
minha dor?
Gonzaga — Foge, Peregrino, protege ao menos a tua vida.
Vicência — Meu menino!... Peregrino!...
João Alves — Tragam à minha presença quem não me deixa velar a minha flor.
Gonzaga — Foge, homem, eu te peço...
(Dois homens entram armados de espada. Peregrino luta. Um morre, outro foge
apavorado. Depois, sem forças, Peregrino se atira aos braços de Vicência).
Peregrino — Vicência, se a morte não for o fim, se houver alguma cousa depois de
tudo, quero ir em busca dela, desço nem que seja aos infernos, se este fora o seu
destino.
Vicência — Há tempo pra tudo, nhozinho... Há tempo pra tudo, meu menino...
Gonzaga — Vamos embora, Peregrino, vamos fugir...
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(Volta o tempo presente).
Coronel - Para onde fugiram, senhor Gonzaga?
Gonzaga - O único lugar seguro que lhe restava: a cela do frei Estevão, no mosteiro
de São Francisco.
Coronel - Muito bem, senhor Gonzaga, muito bem... Creio que ainda muito teremos
que conversar. Por isso, devo informar que estais detido...
Cena 7
Frei Estevão — Naquela noite, aconteceu o que ninguém esperava. Tanta cousa
má vindo a um só tempo: a varíola que matou de muitas famílias um membro, a
revolução republicana acontecendo, tanta cousa, Coronel, que somente pedindo a
proteção do céu, encomendando com pia obra muitas novenas, porque eu acredito
que mais do que um momento tenso há uma peste pairando sobre a nossa cidade,
eu penso.
Coronel — Dizei, reverendo, o que houve na noite em que Peregrino veio ter a
vossa companhia.
Frei Estevão — Lembrais muito bem, Coronel, foi no amanhecer daquela
madrugada, em que venceram os patriotas por Amaro Gomes Coutinho
comandados, pondo em franca correria para fora da cidade os que eram do rei
partidários... Vede aquela fonte ao pé da colina?
Coronel - Pois não?
Frei Estevão — Era ali o lugar em que Peregrino costumava com Eurídice
encontrar.
Coronel - Logo naquele lugar, padre! Não surpreende que houvesse no rapaz um
ajuntamento de traidor, sacrílego e sacripanta. Conduzir uma donzela a um lugar
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como tal, beber daquela água é o mesmo que sujar no homem a sua moral.
Frei Estevão — Sabeis, Coronel, o mal que paira sobre estas paragens foi por
Peregrino e Eurídice vencido. Os dous se amavam. O amor fora expulso de casa.
Restavam aos amantes os lugares escondidos. Eu mesmo os trouxe a primeira vez
a esta bica. Eu mesmo lhes disse: meus filhos, o amor é capaz de superar qualquer
barreira.
Coronel — O pai da donzela, senhor de muita afeição aos costumes e à tradição,
certamente não vos aprovaria tanta dedicação a um namoro ao qual - estou
informado — havia dito não.
Frei Estevão — Sim! é verdade, Coronel. Deixai que eu vos conte a razão da minha
decisão. Peregrino vivia em noites de serenatas sob a janela de Eurídice a cantar
com tanta doçura e convencimento o seu amor à menina, para quem atirava flores
quando assomava a janela, para quem, sobre todas as moças de nossa província,
sobre todas as mulheres famosas das histórias, ele dizia — exprimindo do seu
coração a ardência — que ela, Eurídice, somente ela, de todas era a mais bela. As
serenatas foram prolongadas por várias noites, tantas, que o senhor João Alves
Sanches Massa, desceu à calçada e disse:
(O retorno do tempo).
João Alves - Ó rapaz, não sei quem sois, donde vens, nem para onde vais, sei que
a minha filha tem para convosco grande consideração e não menos a tem a minha
esposa, de maneira que eu vos autorizo a minha filha visitar, desde que parais de
vez com essas cantigas que já me põem louco o juízo.
(O tempo presente).
Frei Estevão — Peregrino, no dia seguinte, foi a sua amada visitar. Entrou, sentou,
bebeu chá, disse ao que veio, o que intencionava, quem era, e que daí a uns tantos
dias partiria para Pernambuco em busca da patente de oficial de el-rei, a quem
serviria. Pouco se demoraram — pobre Peregrino — as cortesias. O pai de Eurídice,
o senhor de Engenho que sabeis, rico, poderoso, orgulhoso de sua origem lusitana,
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perguntou a Peregrino sobre política, o que pensava ele de el-rei, sobre a
independência o que dizia, deveria o Brasil romper a aliança que a coroa lusa o
unia... Peregrino, por sua imprudência, disse o que lhe vinha, o que pensava, o que
justo lhe parecia, citando de frei Caneca os escritos.
(O retorno do tempo).
João Alves — Não posso crer, rapaz, não posso aceitar a vossa ousadia, virdes à
minha casa, e diante da minha família pronunciardes palavras que mais são
inspiradas em pensamentos de maçonaria.
Peregrino — Senhor, creia-me, eu o conheci em Olinda. Frei Caneca deseja, como
todos nós, a construção de uma nova nação. Em seus discursos esclarece com
perfeição a relação que permeia o senhor e o escravo, afirmando com tanta
veemência que o poder do senhor depende de sua própria subordinação, estando
ambos presos pela mesma corrente, o mesmo se dando com o poder vigente de
uma nação, sendo, portanto, necessário libertar o homem que somos, libertar os
escravos, quebrar o elo da cadeia para que livre da peia cresça o homem, funde-se
uma nação.
João Alves — O que está por trás de tudo isso é o fim da tradição, é o corte no
liame que ata o sagrado e as cousas de Estado, isto eu sei, nada vem de graça, a
inspiração para o que dizeis veio da França e de sua maldita revolução. Mas eu vos
pergunto, ó rapaz, fora do sagrado e de seus valores absolutos, haverá alguma
outra regra de conduta? Que mal terrível, meu Deus, que maldição assola o nosso
século, quando dentre todos os seres da natureza, nós, somente nós, o homem,
clamamos contra a obra do Criador, recusamos a ser o que somos. Senhor, em
minha casa não há lugar para semelhante desrazão, ponha-se para fora, ide-vos em
busca dos que como vós clamam por revolução.
(O tempo presente).
Frei Estevão — Estava por aquela época em visita ao nosso mosteiro o monge
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Malaquias, que é cego e vive isolado, casto e piamente, a orar na capela de
Lucena. Sabeis onde é, pois não?
Coronel — Qual? Uma que fica no alto do morro?
Frei Estevão — Esta mesma.
Coronel — Mas não está abandonada naquele lugar?
Frei Estevão — Ainda não totalmente. Malaquias vive lá, e se não fosse cego eu
diria a contemplar o mar.
Coronel — O que fazia nesse mosteiro o ancião?
Frei Estevão — Ele vem a cada semestre nos visitar. Malaquias, apesar de cego,
anda como se visse melhor do que eu a luz do dia. Andando próximo à fonte,
deparou-se com Peregrino e Eurídice enlaçados num abraço ofegante.
(O retorno do tempo).
Peregrino - Quem sois, ó senhor, que contemplais o que não é de vosso mister?
Sois louco? Sois surdo?
Eurídice — Peregrino, não vês? É cego o ancião.
Peregrino — É cego! Tanto melhor, com os seus olhos mortos não dará vazão a
curiosidade que o domina. Tenho eu razão ou não? Parti, meu velho, pois o que
fazemos nesta fonte é algo que à vossa condição afronta. Sois monge, deveis
guardar o decoro e a virgindade.
Malaquias — Peregrino, guardai a vossa língua deseducada, preparai-vos para a
vossa missão. O céu e a terra se encontram em má conjunção. Marcha para esta
plaga um exército maligno. Assopra o inferno o seu hálito pestilento. Cada pedra e
cada casa há de ser contaminada. Pressinto no ar o cheiro nefando do miasma.
Aproxima-se cada vez mais a vossa hora, precisais fazer a escolha para a grande
obra.
Peregrino — Vai-te daqui, deixa-me em paz, ó velho.
Eurídice — Não, Peregrino, detém a tua ira. Senhor, o que é preciso fazer em
nosso favor?
Malaquias — Cada cousa tem seu tempo, cada tempo a sua hora. Vejo que um
exército demoníaco cerca a nossa cidade, vejo que se irmanam como a água e o
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sal os mais terríveis elementos. Vejo no destino das gentes uma má premonição.
Um homem apenas basta, desde que esteja disposto aos piores sacrifícios, um
cordeiro como os de antigamente, que suba ao altar e entregue a cabeça ao cutelo.
Peregrino — Velho, ao altar sobem os santos e os padres em missão.
Malaquias — Sobem também aqueles a quem a clemência divina obriga a
remissão.
Peregrino — É louco o velho, ou tem o veneno da cobra.
Eurídice — Não diga asneira, Peregrino. Tenho medo do destino.
Malaquias - (que já estava se afastando) Peregrino, preparai-vos para a obra
verdadeira.
(O tempo presente).
Coronel — Ainda não ouvi de vossa boca o que me interessa: onde anda de
Peregrino a cabeça?
Frei Estevão — Todas as vezes que a vi, antes do seu executamento, estava bem
assentada em seus ombros. Uma das últimas foi na noite em que morreu Eurídice.
A cidade estava cercada pelos realistas, o único entre eles que dentro dela estava
era Peregrino, perseguido por um batalhão do exército.
(O retorno do tempo).
(Pancadas apressadas em uma porta. Frei Estevão corre para abri-Ia. Entram
Peregrino, amparado por Gonzaga e Vicência).
Frei Estevão — Quem está aí? Quem desta maneira me chama?
Gonzaga — Sou eu, senhor, Gonzaga. Trago comigo Peregrino na loucura
mergulhado. Por favor, abri a porta, ou nada mais valerá a nossa vida.
(O Frei Estevão abre a porta rapidamente. Ouve-se o barulho de vozes e latidos de
cão lá fora).
Frei Estevão — Meu filho, o que fazes aqui? Soube de ti notícias que me
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inquietaram, que havias matado em duelo um oficial, que havias fugido
comandando um barco lotado com patriotas. Agora a guerra está à porta de nossa
cidade. Todos sabem que tu és um dos principais entre os revolucionários. Julgavate comandando uma tropa. Vejo-te aqui, em estado calamitoso, sendo perseguido
pelos realistas como se fosses tu um criminoso.
Peregrino — Meu padre, salvou-me a vida Gonzaga e a nossa escrava. Não sei no
céu que maldita conspiração está sendo tramada.
Frei Estevão — Peregrino, falas como um blasfemo.
Peregrino — Meu padre, se Deus é assim tão cruel, a minha alma eu entrego ao
Demo.
Frei Estevão — Não digas, filho meu, nunca mais, semelhante asneira.
Peregrino — Nada tenho a temer.
Frei Estevão - Ao nosso pai supremo todos o temos
Peregrino — Eu o renego.
Frei Estevão — Filho meu, tua alma poderá arder no fogo do inferno.
Peregrino — Padre meu, o inferno sou eu.
Frei Estevão — Cala-te, ó maldito, não vês que em tudo Deus pôs o manto do seu
mistério?
Peregrino — Eurídice morreu.
Frei Estevão — Nas menores partículas Deus estendeu o seu olho infinito.
Peregrino — Eurídice morreu, meu pai.
Frei Estevão — Sopra esta noite um vento deletério.
Gonzaga — É verdade, Padre, o que diz Peregrino. Morreu esta noite a pobrezinha.
Frei Estevão — Pai! fazei com que a sua alma encontre a salvação.
Gonzaga — Parece pairar no ar uma maldição. O calor, a guerra, poucas cousas
são, comparados ao ar pestilento como praga. Não bastassem tantas vidas em
desperdício nesta vila, morreu Eurídice de varíola.
Peregrino — Meu padre, vim aqui parar não sei por que forças dominado, mas
quero de Eurídice seguir o destino, quero junto com ela ser enterrado.
Frei Estevão — Escuta de uma vez, ó Peregrino, escuta de uma vez, ó desgraçado,
não quero ouvir-te falar assim, não somos senhores do nosso fado, detém o ódio
que o teu coração treslouca, cala para sempre a blasfêmia em tua boca. Não porás
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a tua vida termo, não descerá a tua alma ao inferno. Eurídice morreu, isto é triste,
eu lamento, mas tens que a tua missão dar prosseguimento. És um soldado, não és
um jumento. Conduz com a tua espada a revolução. Longe da luta não há salvação,
esta é a tua sina, a tua labuta.
(O tempo presente).
Coronel — Lamentável, frei, incitáveis a desordem.
Frei Estevão — Não, Coronel, não foi bem isso. Foi o chamado a desrazão para a
ordem.
Coronel — Eu tenho pressa, reverendo. O dia não findará sem que eu ponha um
espeto no meio da rua ornado com a cabeça de Peregrino.
Frei Estevão — Isto é pior do que o pior crime por ele praticado.
Coronel — Isto é a lei do império.
Frei Estevão — Isto é a lei da barbárie.
Coronel — Não quero discutir o que é de direito, padre. Dizei sem tardança como
terminou a
noite da lambança.
Frei Estevão — Sabeis que há em nossa ermida um túnel construído desde o início
da colônia.
Coronel — Sim, eu sei, mas o julgo destruído ou fechado.
Frei Estevão — Nem uma cousa nem outra. É guardado como uma catacumba em
nossa missão, como se fosse o lugar secreto dos primeiros cristãos. Peguei o
Peregrino pela mão, abracei-o ao meu peito, senti que as suas forças desfaleciam...
(O retorno do tempo).
Frei Estevão — Meu menino, confias em mim, pois não? Confiaste desde pequeno,
não há razão para agora ser diferente.
Peregrino — Meu padre, faço o que for de vossa vontade.
Frei Estevão — Irás fugir desta cidade.
Gonzaga — Não há saída, senhor, daqui ouvimos os tiros, as ruas são um arraial
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de combate.
Frei Estevão — Eu tenho a solução. Levantemos esse alçapão (Gonzaga e
Vicência prontamente se dispõem a fazer o que disse o reverendo. A Peregrino)
Segura esta tocha. Gonzaga! Podias servir-lhe de ajudante?
Gonzaga — Descer com Peregrino a esta cova?!
Frei Estevão — Sim, é um secreto caminho que os conduzirá à margem do rio,
muito ao longe da cidade. Deverão encontrar um bote no fim da caverna.
Gonzaga — Padre, eu não tenho coragem.
Vicência — Eu vou mais o sinhozinho.
Peregrino — Não, não virá ninguém comigo. A vida é minha e a morte também.
Descendo sozinho eu, ao menos, poderei, atolado nesta catacumba, compartilhar
com Eurídice o seu leito de tumba.
Frei Estevão — Filho, filho meu, vais atravessar um bueiro profundo, não poderás
deter os passos, o teu corpo não poderá quedar-se de cansaço, não poderás temer
a descida, porque uma vez fechada esta porta, o único caminho é a saída fora da
cidade... Se o ar pestilento cheirando a morte invadir os teus sentidos, não caía, não
desmaie, não deite a cabeça ao chão, senão serás fatalmente pelos ratos roído.
Peregrino — Padre, pouco me importa ser por ratos ou vermes comido.
(Peregrino pula para dentro da fossa).
Cena 8
Coronel — Isto é mesmo um inferno!
Frei Estevão — Detende a blasfêmia em vossa boca.
Coronel — Blasfêmia?... O que sai da minha boca?... Tendes coragem de me
recriminar?... Vós, que acabaste de confessar que no caso de Peregrino com a filha
do senhor de engenho João Alves Sanches Massa, agistes como um vil e reles
alcoviteiro? Como se isto aqui não fosse lugar de frades, de gente cujo ofício deve
ser o de louvar a Deus, do modo como ordenou nos mandamentos?! Mas o que eu
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tenho sabido indica justamente o contrário: isto aqui está mais próximo de um
puteiro.
Malaquias — Quem é este que diz palavras insidiosas contra Deus e a nossa
ordem? Quem é este que não respeita a santidade desta casa e pronuncia palavra
cujo sentido faria desbotar o dourado de algum anjo por ventura aqui guardado?
Coronel — Quem é o ancião?
Frei Estevão — O venerando Malaquias.
Coronel — Sois, então, o monge que vive isolado em Lucena? (Ao frei Estevão)
Sabíeis que o eremita estava convosco durante estes dias?
Frei Estevão — Sim, Coronel, eu sabia.
Coronel — E não pensáveis em me pôr a par?
Frei Estevão — Desconhecia o vosso interesse pela nossa ordem.
Malaquias - O que quereis de mim?
Coronel — Alguns esclarecimentos. Conhecestes Peregrino?
Malaquias — Creio que nunca soube em minha vida de outro tão bom menino.
Coronel — É verdade que o encontrastes em companhia de Eurídice...
Malaquias — Na Fonte dos Milagres.
Coronel — E ele vos detratou?
Malaquias — Cousa de somemos importância.
Coronel — Era Peregrino um infante, venerando padre, um moleque, para ser mais
claro e sincero; a irresponsabilidade o fez liderar uma tropa contra el-rei e o império.
Merecia castigo pior do que o que sofreu.
Malaquias — Quem, Coronel, puder apresentar uma vida sem mácula, atire a
primeira pedra, são palavras dos evangelhos. Além do mais, aquele fora o primeiro
encontro que tivemos.
Coronel — Houve um segundo?
Malaquias - Na noite em que caiu esta cidade nas mãos dos patriotas.
Coronel — Contai-me em detalhes, se a vossa memória não for fraca.
Malaquias — Lembro-me perfeitamente. Tenho eu o hábito de caminhar ao léu
contemplando a natureza...
Coronel — Desculpai-me... não sois cego? Como podeis contemplar?
Malaquias — Do mesmo modo que contempla uma árvore a paisagem.
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Coronel — Continuai, continuai vosso depoimento.
(O retorno do tempo).
Peregrino — Malditas sejam todas as forças da natureza, malditos o ar e o
elemento, maldito seja eu mesmo que não tenho coragem de pegar a minha adaga
e por fim à minha vida...
Malaquias — Devo saber que o vosso nome é Peregrino.
Peregrino — Quem sois? Quem sois, ó sombra, que na pior das minhas noites me
assombrais?
Malaquias — De mim não vos lembrais?
Peregrino — Está escuro, não tenho lume. Vejo o vulto dos vossos cabelos que me
parecem brancos, a vossa barba apenas, mais não vejo.
Malaquias — De nós dous, qual é o cego?
Peregrino — De que parte vindes? De Deus ou de Satanás?
Malaquias — Qual a que preferis?
Peregrino — Senhor, hoje nada sei, tanto faz. Fiz uma travessia medonha por um
túnel que eu pensava fosse lenda. Andei como um louco impulsionado por uma
força que eu sei não era a minha. Por minha vontade, eu sei, teria caído e lá mesmo
teria ficado sepultado. Nunca em minha vida vi cousas tão horrendas,
assombrações e má fantasia que a luz do archote que eu trazia desenhava nas
paredes da caverna. Senti o fedor de enxofre e a podridão que parecia vir de
malditos intestinos. Não tenho palavras agora e acho que jamais as terei para contar
a alguém o horror por que passei depois que naquele buraco entrei. Vi a desgraça
em cada curva, vi tudo o que não queria ou não sabia que poderia ver. Somente não
vi Eurídice, somente não vi razão para viver.
Malaquias — Peregrino, sou Malaquias, sou o monge que maltratastes outro dia.
Peregrino — Viestes então buscar a vossa vingança? Tomai-a em vossas mãos.
Não sois um homem, sois mais uma assombração, a derradeira, eu espero, pois o
que faria um homem neste escuro e neste ermo, sobretudo sendo como sois, velho
e cego?
Malaquias — De nós dous, qual o que não vê?
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(O tempo presente)
Coronel — Padre, como pode o senhor sendo cego...
(O retorno do tempo)
Peregrino — Eu vi a fogueira consumir Eurídice... Eu vi o túmulo a devorar as suas
cinzas... Eu vi aquela que foi a minha amada transformar-se em nada... Então eu
gritei, para quem não sei, mas eu gritei, onde está a sua alma? Eu mesmo pulei no
túmulo que devorava o que antes eu adorava... Foi como se me houvesse aberto
uma outra vista... Quando dei por mim, estava Eurídice ao meu lado, flutuava em
um nimbo, a minha amada, as faces desmaiadas como uma santa de nicho na
capela... “Eu não habito mais a minha casa”, ela me disse, “encontro-me na Lua
Negra...” Padre, inconformado por tê-la tão próxima e tão ausente de mim, tentei por
três vezes abraçá-la, por três vezes seus abraços adorados, que antes inchavam de
calor o meu peito, o perfume que vinha dos seus cabelos como se fosse o olor de
uma flor, por três vezes entre os meus braços dissipara-se como sombra aquela
que outrora fora minha soberana...
Malaquias — Peregrino, somente um cego não enxerga a luz que brilha sobre o
vosso destino. Levantai-vos do chão. Sois jovem, meu rapaz, ainda imberbe, mas
tendes por vós mesmo uma missão a cumprir.
Peregrino — Morrerei, finalmente?
Malaquias — Não digo isto.
Peregrino — O que dizeis, senhor?
Malaquias — Cumprireis a vossa obra.
Peregrino — Que obra? Que destino? A morte? A salvação? Padre, e se eu estiver
errado? E se tudo for alucinação? E se eu não tiver Eurídice avistado? E se não
houver a verdade?
Malaquias - Peregrino, o caminho para a consciência é sofrível como o fora o de
Damasco. O homem é um metal impuro que necessita do fogo para temperar os
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seus sentimentos.
Peregrino — Padre, a morte de Eurídice faz-me acreditar que nada faz sentido.
(O tempo presente).
Malaquias — Quem de amor vive, Coronel, vive pendente entre a euforia e a
loucura.
Coronel — Reverendo, sois um homem respeitado pelos vossos em vosso
mosteiro. Viveis apartado da comunidade em vossa ermida em Lucena. Sois um
homem sábio. Um cego que vê além do que é permitido à vossa cegueira. Tendes
poderes excepcionais. Dizei-me, padre, pelas vossas cãs, dizei-me sem demora e
sem mentir: onde está a cabeça de Peregrino? Quem a roubou? Onde a escondeu?
Com que propósito? Algum ritual satânico ou simples desobediência à lei? Dizei,
senhor, antes que eu perca a paciência, pois desde quando este maldito dia
amanheceu que eu busco a cabeça do bandido, e do guarda que dela tomava conta
busco também o seu assassino. Onde está a cabeça de Peregrino?
Malaquias — Coronel, eu não sei, não fui eu quem a roubei, e mesmo que o
quisesse, sou cego, disso não vos esqueceis.
Coronel — Um cego que está em todo o lugar e a toda a hora, que a tudo vê, tudo
comenta, dá conta, notícia e recado, quando vos convém. Haverá de saber onde foi
escondida a cabeça do alferes. Dizei, senhor, eu vos ordeno.
Malaquias — Um homem como eu, Coronel, não recebe ordens de ninguém.
Coronel — Posso acusar-vos de colaboracionista.
Malaquias — Está em vosso poder acusar-me do que vos aprouver.
Coronel - Posso enfiar-vos numa masmorra, onde vivereis os últimos dos vossos
dias.
Malaquias — Há de ser sempre um claustro. Farei penitência.
Coronel — Posso atravessar-vos com a minha espada, do mesmo modo como eu o
faria a um cachorro.
Malaquias - Será sempre um sacrifício.
Frei Estevão — Coronel, detende o vosso destempero.
Coronel — Vós e a vossa maldita confraria levam-me ao exaspero. Sargento!
26
Sargento!
(Entra o sargento seguido de alguns praças e monges).
Sargento — Revistamos tudo, Coronel, nada encontramos.
Coronel — Entretanto, é aqui que se esconde o Demônio. O palácio de Satã, eis o
que é o vosso mosteiro. Somente o palácio de tal divindade pode ter acesso à porta
do inferno. Frei Estevão! Mostrai-me onde está a entrada do túnel que me falastes.
Frei Estevão — O que quereis nele, Coronel?
Coronel — Quero descobrir o vosso segredo. Quero denunciar ao meu rei D. João
que a conspiração que fez tremer este lado da nação tem uma raiz pagã sob o
manto de religião.
Frei Estevão — Vinde comigo. Eu vos mostrarei. (Mostrando o alçapão) Ei-la.
Coronel — Levantem-na. (Dois homens levantam a tampa) Providenciem tochas.
Sargento! Aproxima-se a hora de desvendar um grande segredo. Ficai aqui com
alguns homens. Montai guarda neste palácio do Demônio. Sobretudo, vigiai os dous
padres que me parecem bastante suspeitos. O restante dos homens virá comigo.
Cena 9
(O funeral da sentinela. Uma corneta executa um toque fúnebre, seguido da batida
de um bombo).
Viúva da Sentinela — E agora? O que será das minhas crianças? Quem irá lhes
dar o leite e botar na mesa o pão e o feijão de todo o dia? Já era pouco, quase nada
ganhava o meu maridinho com o soldo que lhe pagavam. Que homem irá castigar
os pestes que são esses meninos, se agora já não tenho mais o meu santo
maridinho, que sabia muito bem tratar de menino e cachorro, um e outro, ele dizia
— e com que graça dizia isso, senhores, parece até que o estou vendo nesse
momento, tal como era, não como agora, essa massa morta em que se transformou
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aquele homem que comia por um elefante e em cima dos meus peitos babava e
gemia e gritava como se estivessem a lhe arrancar um membro, mas em verdade o
tal membro era eu que o ganhava, um membro por noite, um menino por ano, de
maneira que já não posso contar os membros, mas os meninos que ganhei eu os
conto e somam seis, seis bocas famintas, seis pestes a me atormentarem a vida:
um chora, outro grita, outro suja de bosta a casa, outro trepa na pitombeira, outro
deita no chão a roupa limpa, outro mija ao pé da mesa, e tudo isso ao mesmo
tempo, parecendo até que foi castigo. Mas como eu ia dizendo, o meu santo
maridinho, este que agora está estendido feito boneco de cera, dizia com sabedoria
que não se cria menino nem cachorro sem lhes dar umas pancadas, e isso ele fazia
com a eficiência de um soldado, pois quando chegava em casa perfilava todos os
meninos, pegava a palmatória e sem ao menos saber se um ou outro tinha culpa a
confessar, enchia de uma porrada o de um ano, duas o de dous, três o de três, até a
última distribuição de corretivo, como dizia com tanta graça o meu defunto, esse que
está estendido no caixão, o desgraçado, porque, meu padre, tenho certeza que
nunca ele disse à vossa mercê em confissão, era bom marido, não nego, mas esse
infeliz vivia nos puteiros lá do Curral das Éguas, gastando com as quengas o pouco
dinheiro que tinha... (Chega o Coronel Matias) Comandante, comandante Matias, o
vosso soldado está morto, meu maridinho infeliz, que passou a vida inteira vivendo
com um miserável soldo que lhe pagava D. Joãozinho, o nosso rei. Agora, está
durinho no caixão, relaxado aos braços de uma lei que não é a vossa, mas é pior,
meu comandantezinho Matias, é pior, foi escrita do outro lado da fossa em que irá
repousar o seu corpo que até antes da morte só sabia fazer duas cousas em cima
dessa vossa criada: peidar e bufar, quando se lhe dava a natureza.
Coronel — Minha senhora, ficai certa de que a morte do vosso marido não foi em
vão. Foi um bravo homem, serviu com valentia a nação. Era um soldado cego ao
cumprir as ordens que lhe fossem dadas, desconsiderava o perigo e dele não tinha
medo, um praça exemplar à corporação. Quando em combate, chamava a si os
inimigos, como se não fosse o seu peito de carne, mas uma couraça feita apenas de
coragem e de espírito realista, como convém a um bom praça. Ficai certa, senhora,
a mão que apunhalou ao vosso esposo o fez pelas costas, o fez por traição,
covardia e maus instintos, como foram as mãos dos revolucionários dessa mal
28
fadada separação de Estado, e que agora estão em exposição nas ruas da nossa
cidade, para que as vejam o povo e saibam que mãos covardes não intimidarão a
justiça de D. João. O nosso soldado haverá de ser vingado!
Viúva —Ai, meu comandante, que belas palavras dizem a vossa boca. Pena que o
defunto não o possa escutar a falar com tanta propriedade sobre as virtudes desse
safado, mas que o cachorro era valente eu tenho certeza, ao menos com os de
casa, pois não conto as vezes, comandante, que tendo de ir buscar no balcão de
algum puteiro esse desgraçado cachaceiro, não conto as vezes que ele sentou-me
a mão no cachaço dizendo que lugar de mulher é em casa...
Coronel — Minha senhora, eu vos asseguro, a morte do vosso marido será
vingada, eu mesmo cuido da empreitada.
Cena 10
Coronel
—
Capitão,
os
nossos
informantes
nos
dizem
alguma
cousa
extraordinária?
Capitão — Em que sentido Coronel?
Coronel — Detectaram no meio do povo alguma inquietação?
Capitão — Sim, Coronel. A exposição de tantas cabeças e mãos pelas ruas,
agravada pela chuva que não pára, proporciona ao povo um espetáculo macabro.
Alguns dizem que é terrível a crueldade do império, outros afirmam que é cena de
um cemitério diabólico em que foi transformada a cidade. Alguns demonstram
medo, outros revolta, outros ainda, para nossa surpresa, divertem-se contando
anedotas a respeito das cabeças.
Coronel - Apenas isso?
Capitão - Nada além do que vos digo.
Coronel — Nada nos contam sobre alguma seita?
Capitão — Que eu saiba, não... Não sei se isso ajudaria, mas o que se sabe é que
a escrava da casa do Peregrino pratica a religião dos negros, sendo mesmo alguém
29
de importância no meio da gentalha que freqüenta suas assembléias numa mata
de jurema.
Coronel — Infelizmente, Capitão, a tal seita que está com a cabeça de Peregrino
não nasceu no seio dessa gente ordinária, porque se assim o fosse, a esta hora
estaria desbaratada. Antes — e isso é o preocupante — é uma sociedade secreta
instalada nas boas, senão nas melhores famílias de nossa sociedade, e até mesmo
— ouso dizer sem medo — no meio do clero. A cabeça de Peregrino é um trunfo ou
um símbolo. Mas que sociedade é essa? Qual o seu fim? Revolucionário? Nesse
caso, a raiz do mal não foi ainda extirpada.
Capelão — (Entrando) Não creio que algo tenha de patriotada. Mas se falais desse
túnel secreto sob o chão do mosteiro dos franciscanos, se falais do monge que vê,
mesmo sendo cego...
Coronel — Ou aparenta...
Capelão — Parece-me que há algo de mais terrível nisso tudo do que uma simples
sociedade... Parece-me tratar-se de satanismo, a tal seita... A Pestifera Societas,
como a ela se referiu o Papa João XXII em uma de suas bulas. A sociedade dos
que vivem em comunhão com o Demônio. Dissestes que Peregrino encontrou-se
com Eurídice.
Coronel — Foi o que me contou o padre cego.
Capelão — O transporte de Peregrino até a região dos mortos, Coronel, segundo
decreto do Papa Eugênio IV, é um poder do Demônio, que, em geral, arrebata os
seus adeptos para um lugar de difícil acesso a fim de que possam comemorar o
sabá, no qual fazem banquetes, danças e orgias com Satanás, quando preparam
um pó mágico com as cinzas de crianças sacrificadas, e ainda, senhor, celebram a
missa de forma a transformar em blasfêmia as cerimônias e orações do seu ritual.
Não vos parece estranho o número de crianças que morrem em meio aos
mocambos?
Coronel — Que relação pode haver com o satanismo de que falais?
Capelão — Simples, Coronel, as crianças mortas podem estar servindo para os
rituais de Satã, as doenças não sendo mais do que um disfarce para encobrir a
verdadeira causa da morte e o seu objetivo. Tenho quase certeza de que o túnel
que atravessastes não é apenas o que dizem os franciscanos, uma passagem
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secreta construída estrategicamente à época dos holandeses, mas a própria boca
do inferno.
Coronel — Vi apenas ratos e morcegos.
Capelão — Animais de estimação de Satã, senão o próprio, metamorfoseado.
Coronel — Dei com as botas à margem do Parahyba.
Capelão — Disfarce para iludir desavisados.
Coronel — Saí do outro lado em meu juízo perfeito.
Capelão — Mas Peregrino saiu transtornado.
Coronel — Não posso aceitar que estive no inferno e não vi o Demônio!...
Capitão!... Sim, agora começo a juntar as peças do inquérito. Sargento! Mandai vir
à minha presença o doutor Epaminondas e aquele tocador de serestas...
Sargento — Mestre Guigui?
Coronel — Fazei-os vir imediatamente.
Cena 11
Epaminondas — Há aqui casos de doenças graves, Coronel?
Coronel — Não, doutor, felizmente.
Epaminondas — Esta maldita praga de varíola que vem se arrastando há meses
muito trabalho tem-me dado. Coronel, não há luta mais titânica do que a do homem
contra a má natureza. Sei que o senhor vai me falar que não, a guerra tem mais
beleza, mais arte, mais destreza. Mas eu vos digo, Coronel, ouvi outro dia uma
dessas duplas de violeiros cantando no mercado. O mote era: como é grande e
bonita a natureza. Pois não é que um cantava a beleza sem igual das cousas
grandes, o elefante, a girafa, as montanhas e todas as potências cósmicas, e o
outro, ao contrário, dizia com tal graça e safadeza que o homem, tão grande, forte e
inteligente, dobra-se em dor quando aperta a tripa gaiteira, o gajo vomita, peida e se
acaba em caganeira, e tudo isso provocado por um bichinho pequenininho alojado
no intestino, e depois dizia se rindo sem deixar de ser verdadeiro, que mais forte do
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que o homem é o verme que o derruba, terminando o verso como o mote que já
soava ironia, é a luta de Davi contra Golias, como é grande e bonita a natureza.
Pois eu vos digo, Coronel, em meu ofício tenho comprovado que a força de um
desses minúsculos animais é algo sem igual, pois em sua ação deletéria é capaz de
matar um homem milhões de vezes maior do que ele. Lutar contra semelhante
inimigo - meu caro Coronel Matias - é a luta que trava a ciência e travo eu em minha
diária labuta.
Coronel — Vê-se que vós sois um amante de vossa arte.
Epaminondas — Sem a ciência médica, meu caro, não há salvação, já devia ter
dito Hipócrates. Se não o disse, digo-o em seu nome, e creio não estar cometendo
nenhum deslize, não.
Coronel — Eu vos chamei aqui, doutor Epaminondas, porque preciso saber sobre
Peregrino.
Epaminondas — Roubaram-lhe a cabeça, toda a cidade está sabendo. Em minha
modesta opinião, se a enterraram, fizeram muito bem, Coronel, é uma medida
profilática. O senhor há de concordar comigo sobre a obviedade do que está posto:
um morto não está vivo, sendo assim, apodrece. Apodrecendo, empesteia o ar,
torna-o viciado e propício a outros males, e eu já não sou o rapaz de outrora, bem
vedes, não dou conta de correr atrás de tanta doença que se me aparece a cada
instante. Mas, como eu ia dizendo, Coronel, deve-se enterrar as cabeças. Por outra
não fosse a razão, ao menos nos restaria a razão estética. Sabeis, Coronel, que a
beleza atua no humor, de maneira a tornar agradável o sentido das cousas que se
vêem, provocando imediato bem estar nas glândulas pineal e pituitária, que assim
provocadas, destilam no sangue melhor liquido, concorrendo para o bem estar de
quem a beleza aprecia. Agora, o espetáculo que se vê em nossas ruas, caro
Coronel, é dantesco. Eu disse isto hoje mesmo à minha senhora.
Coronel — Caro doutor, deixemos de lado esses detalhes. Eu pedi para que
viésseis. Estava desejando vos falar a respeito de Peregrino.
Epaminondas — Era um rapaz muito saudável.
Coronel — Tinha uma doença.
Epaminondas — Acompanhei-o desde a infância, O máximo que nele pude tratar
foram alguns resfriados.
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Coronel — Um certo spleen. Foi o que confessou o Gonzaga.
Epaminondas — Ah, sim, sim, sim, bem me lembrais, Coronel. De fato, o pobre
Peregrino sofria desse mal... Melancolia... Doença jovem nos manuais de medicina.
Uma estranha alteração de humor que parece vir do baço, a víscera glandular
situada no hipocôndrio esquerdo, de maneira que projeta a sua vítima em tal tristeza
e descrença com a vida, que a morte se lhe aparenta uma alegria. A tendência do
paciente é andar pelos cantos escuros, por lugares sombrios, cemitérios e
subúrbios, alternando a apatia com a exaltação tenebrosa, ou de alguma idéia que
se lhe meta na cabeça... Ou de alguma outra cousa.
Coronel — Quem mais sofria ou sofre de semelhante mal?
Epaminondas — Deixai-me ver... O poeta Gonzaga... Sim, ele também. Uma cousa
curiosa, Coronel, é que a tal doença ataca quem sente algum arrebatamento
estético.
Capitão — É a ação do Demônio a favor dessa gente pervertida.
Coronel — Qual é a cura?, doutor Epaminondas?
Epaminondas — Não há, Coronel. É uma doença misteriosa.
Capelão — Não pode haver cura na medicina para quem foi atacado pelo sopro do
maligno.
Epaminondas — Sabeis, Capitão, as doenças são geradas por fermentações no
sangue e por putrefações misteriosas que produzem nebulosas Contagia. Para
combatê-las, costumo usar ácido carbólico ou permanganato de potássio ou mesmo
o cloro e o alcatrão. O intrigante, senhores, é que nada faz efeito quando se trata
dessa nova doença, parecendo algo que atinge, sobretudo, a alma do paciente.
Capelão — Vede, Coronel, eu tenho razão. Tudo o que eu vos disse confirma agora
o doutor Epaminondas, a voz da ciência.
Epaminondas — O pudor impede-me de concordar com o que dizeis, meu caro
Capelão. Mas, ao mesmo tempo, sinto que seria orgulho — esse tão desagradável
sentimento — não assentir com o vosso pensamento.
Coronel — Confirmais, doutor Epaminondas, o que as minhas investigações davam
como suspeita. Havia em Peregrino mais do que um sentimento revolucionário.
Havia uma corrupção dos sentidos.
Epaminondas — Proporcionado, talvez, por um baço afetado.
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Capelão — Ou por um pacto com o Diabo.
Epaminondas — Ou por outra não sei que má sorte. Contraria contrariis curantur, é
o que reza a medicina clássica.
Cena 12
(Na masmorra)
Guigui — Sou um tocador de violão, Coronel, não sei porque foram me buscar em
casa daquela maneira, deixando os meninos no canto assustados... A mulher... A
quase arrancar os cabelos.
Coronel — Conhecias Peregrino de Carvalho?
Guigui — Quem não o conhecia? É pequena a nossa cidade.
Coronel — O que é Os Amantes da Lua?
Guigui — O meu grupo de seresteiros.
Capelão — Parece-me, Coronel, que, por trás disso, há muito mais cousas. Os
amantes da Lua não devem ser um inocente grupo de vagabundos noctívagos,
como esse velho quer fazer crer.
Guigui — Acreditai, Capelão, é apenas isso.
Capelão — Queres fazer-me de idiota? Coronel, dissestes que Eurídice havia dito
que se encontra na Lua Negra. Vedes que há uma estranha coincidência em tudo
isso. Os ímpios aos poucos vão revelando os seus segredos. Sabeis, Coronel, que
a Lua Negra é símbolo do aniquilamento e das paixões tenebrosas e maléficas, de
energias hostis e do vazio absoluto, com seu poder assustador de atrair e absorver
as potências humanas. Reza a lenda que o ser marcado pela Lua Negra prefere
renunciar ao mundo se não atingir o seu objetivo, mesmo que ao preço de sua
própria destruição, donde se pode concluir perfeitamente que alguém que participe
de qualquer culto ou seita que tenha essa finalidade é um réprobo por natureza,
possuidor de uma perversidade latente, defensor de uma amoralidade perniciosa à
sociedade. Tenho certeza que é o caso desse velho.
Guigui — Senhor, não entendo o que estais falando. Sou apenas um seresteiro.
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Coronel — Trabalhas na casa daquela madame Ceci?
Guigui — É o meu ofício.
Capelão — Um lugar de mulheres pervertidas.
Coronel — Ensinastes ao Peregrino a tocar algum instrumento?
Guigui — Nunca vi em minha vida numa só pessoa tanto talento.
Coronel — Levaste-o para as tuas serestas?
Guigui — Ele pagaria para participar delas.
Coronel — Onde está a sua cabeça?
Guigui — Lamento não estar sobre os seus ombros, Coronel.
Capelão — Vede, Coronel, o que eu vos digo. Além do mais, é impertinente, o
velho.
Guigui
— Capelão, não posso querer que Peregrino não esteja vivo. Se
houvésseis compartilhado de sua companhia, saberíeis que poucas são as pessoas
boas desse mundo, e entre elas, Peregrino era a primeira. Sou um homem pobre,
vivo num casebre com minha família. O violão que toco não é apenas a companhia
de minhas horas tristes. Não conto as vezes em que eu voltava para casa com os
bolsos vazios. Eu me sentava à mesa, fazia as contas, via o que havia em dinheiro,
o que devia fiado na bodega, o que ganharia com as serestas e as noitadas na casa
de dona Ceci e, quando eu menos esperava, somando e subtraindo o pouco
dinheiro, mais tirando do que pondo na matemática apertada, via que, ao fim, o que
sobravam eram noves fora nada. Padre, o senhor não tem menino, não sabe o que
é olhar para os bichinhos e não ter como pôr na boca deles uma colher de farinha.
Ao depois que Peregrino voltou do Recife em alferes graduado, não conto às vezes
em que estando em casa, somando ou dormindo para me preparar para a noitada,
sem uma moeda no fundo da calça, sem saber o que fazer para botar na mesa o
comer, Peregrino chegava como quem não queria nada, tirava do bolso uma parte
do soldo e dizia: “Mestre, não é caridade, não é emprestado, é pagamento atrasado
pelas lições que me foram dadas”. “Peregrino, não faças isso comigo. As lições que
tomaste já mas pagaste em noitadas”, eu dizia, mas de nada adiantava, ele insistia,
rogava: “aceite, eu peço, pelos meninos”.
Capelão — Isto não vem ao caso, seresteiro. Andei consultando os meus
palimpsestos, Coronel, e descobri cousas que muito se assemelham ao que ocorre
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em nossa cidade nesses dias tristes que nós vivemos. Saibais, meu Coronel, que
a lua é o primeiro morto, segundo uma certa lei de variação periódica inventada
pelos antigos. Considera-se que os mortos adquirem uma nova modalidade de
existência. A lua é o símbolo dessa passagem da vida à morte e o seu contrário,
sendo, ao mesmo tempo, a porta do céu e do inferno. Não bastando essas
evidências perfeitamente coerentes com o que me relatastes sobre o caso de
Peregrino, digo-vos, Coronel, que o teorema proposto estende uma parte do seu
mistério até esse bode velho.
(Faz-se um silêncio).
Coronel — O que dizes, velho?
Guigui
— Capelão, com todo o respeito, nem sei do que estais falando, não
entendo o latinório de que sois experimentado, sou apenas tocador, da noite
seresteiro, ganho a vida a embalar fantasias de namorados, nada mais sou, nada
mais sei, além do que eu disse e falei.
Capelão — És o perfeito filho do Cão, manhoso e de astúcia fácil, mas eu sei como
quebrar esses artifícios: tenho cá comigo os instrumentos de persuasão. Posso
lançar mão, Coronel?
Coronel — Sede breve, Capelão, que já me impacienta essa procura... Atormenta-me a maldita cabeça.
Capelão — Sargento! metei nos ferros o prisioneiro, haverei de tratar-te do modo
como cuida Satanás aos que chegam no inferno ( Ri com crueldade).
Guigui - (Sendo arrastado. Aos gritos) — Eu sou inocente, Coronel. Não sei do que
me acusais, Capelão.
Capelão — Prepara o enxofre, o óleo fervente, o piche em fogo e a cera derretidos
conjuntamente...
(Os gritos de Guigui se prolongam no espaço).
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Cena 13
(A mesma masmorra. Guigui está morto. Gonzaga entra como que jogado).
Gonzaga — (Assustado) O que eu sei, Coronel, que vós próprio não sabeis?
Coronel — Quero saber de Peregrino onde está sua cabeça?
Gonzaga — A cabeça de um homem, Coronel, é um labirinto em que está
escondido o seu destino. Peregrino perdera Eurídice, já vos contei. O que eu vos
não disse foi que logo em seguida foi constituído o governo provisório sob o
comando do Coronel de milícia Amaro Gomes Coutinho. Peregrino apareceu na
manhã em que os patriotas entraram vitoriosos. Era ele somente o único homem
triste em meio a euforia da soldadesca. Conduziu a sua tropa sem demora para a
casa de João Alves Sanches Massa, chegando à rua no justo instante em que o
carro fúnebre levava o féretro ao cemitério.
(O retorno do tempo)
Peregrino — Senhor, quem conduzis nesta carroça negra?
João Alves — O corpo de minha filha, Eurídice, morta.
Peregrino — Abri o esquife.
João Alves - O que quereis, alferes? Não vos basta havê-la ofendida e maculada a
honra de sua família?
Peregrino — Senhor, ontem matei um capanga de vossa casa e posso agora vos
mandar com a vossa filha ao cemitério. Abri, eu vos ordeno. (Ele retira o corpo de
Eurídice, rodopia segurando-o em prantos, enlouquecido) Por que, ó maldito, não foi
a mim que quisestes? Por que a Eurídice? Por que a senhora dos meus
pensamentos?
(O tempo presente).
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Gonzaga — “Peregrino”, eu lhe disse, “deixa seguir o enterro, vamos ao palácio,
forma-se nesse instante o governo provisório”.
Coronel — Sabes mais do que dizes, ó rapaz. Tem cuidado com a tua sorte.
Sargento — O que faço com o defunto, Coronel?
Coronel — Entregue-o à família para que providencie o enterro.
Gonzaga — Sei apenas o que todo mundo sabe. Sei que Peregrino foi tomado de
tão grande tristeza e tão profundo abatimento que a vitória parecia nada significar,
ele que fora o seu entusiasta de primeira hora. De sorte que o seu ânimo começou a
preocupar ao Coronel Amaro Gomes Coutinho, que o sabia de coração magnânimo.
Por isso, ordenou que Peregrino se armasse de homens e naus e fosse ao norte
conquistar Natal.
Coronel — Muito bem, meu rapaz, vejo que não queres colaborar com a nossa
inquirição. Haverás de confessar por outros meios.
Gonzaga — Eu vos disse tudo o que é do meu conhecimento.
Coronel — Há alguma cousa além dos simples acontecimentos. Não dissestes tudo
o que eu queria.
Gonzaga — O que quereis de mim ainda?
Coronel — Saber da estranha confraria.
Gonzaga — A da gameleira?
Coronel — Esta mesma. Trata-se de alguma sociedade secreta?
Gonzaga - Não, senhor, eu já vos disse o que era.
Coronel — Mas não estou convencido. Capelão, vós que sois conhecedor de
endiabramentos e bruxarias, tratai de interrogar o rapaz, mas não o mateis, atenção,
eu o quero vivo e consciente, algo me diz que ele é mais importante do que se faz
inocente. (Gonzaga é amarrado à mesa de tortura onde, até pouco antes, estivera o
Mestre Guigui) Muito bem, meu rapaz, eu serei indulgente contigo, quero somente
que me respondas onde estavas ontem a noite, na hora em que foi morto o soldado.
Gonzaga — Na casa da madame Ceci.
Coronel — Tens certeza? Eu irei confirmar. Mas aviso desde já: se lá não
estiveste...
Gonzaga — Estive. Depois, sai.
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Coronel — Para onde?
Gonzaga — Pelas ruas.
Coronel — Chovia.
Gonzaga — Eu sei. Mas tinha a alma inquieta. Não conseguia parar de pensar em
Peregrino. Bebi em sua honra quatro doses de cachaça. A cidade enfeitada de
forma tão macabra. Eu via na chuva dançando as horas que juntos passamos. Não
havia viva alma nas ruas. Nos quintais, os cachorros latiam, mas não como de seu
natural, antes, era um lamento, um choro medonho, eu não sei explicar, era um
uivar lúgubre como se eles também estivessem sentindo um ar pesado e tétrico.
Coronel — Andaste para o lado da igreja do Senhor Bom Jesus?
Gonzaga — Não. (Um gesto do Coronel e o Sargento aperta a roldana da mesa de
tortura onde Gonzaga está preso. Um grito lancinante do torturado) Sim, andei.
Coronel — Viste a cabeça de Peregrino e o guarda que a vigiava?
Gonzaga — (Sob tortura cada vez mais intensa) Vi.
Coronel - Quem o matou?
Gonzaga - Estava escuro, não vi direito.
Coronel — Quem o matou?
Gonzaga — Estava escuro.
Coronel — Com quem tu pensas que estás lidando? Gira a roldana.
Gonzaga - (Gira. No extremo de suas forças, grita) Eu vi.
Coronel — Quem foi? Quem foi? Dize!
Gonzaga — Foi Vicência, foi de Vicência a mão que assassinou... (Desmaia).
Coronel - Onde está a cabeça de Peregrino? Onde está...
Capitão! Vamos sem demora à casa de Peregrino.
Cena 14
(Casa de Peregrino. Há um esquife com o corpo morto do avô).
D. Jacinta — O que quereis, senhor? Ainda hoje cedo viestes em descortês visita.
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Será a minha casa parada obrigatória de toda a tropa que ronda a cidade? Será
isto aqui a cloaca de vossa caserna? O meu pai está morto, Coronel, morreu de
desgosto o meu pobre velho, não suportou o espetáculo que foi a cabeça do seu
neto e dos companheiros sendo exibidas na cidade com tamanho alarde, e ainda
achando pouco o que fizeram, plantaram em nossa esquina as mãos de Peregrino.
Meu pai, ao ouvir o decreto do tribunal, ao ver a carroça com a sinistra carga a
distribuir pelas ruas os troféus dos realistas, sentiu uma tão forte dor no peito que
não mais conseguiu se manter em pé. Deitou na cama e foi definhando
rapidamente. O meu pai, pouco antes de dar o último suspiro, disse-me, como se
fosse a vingança possível: “roubaram a cabeça de Peregrino, graças a Deus”. Em
seguida, morreu. Vede, o meu pai está morto. Coronel! matai-me, se esta é a vossa
missão. Não hesiteis em cumpri-la, eu vos suplico, matai-me, a vida já não tem mais
razão.
Coronel — Senhora! aceitai as minhas condolências, bem como a de meu
regimento. O que trago à vossa presença é assunto delicado. Trata-se da cabeça do
vosso filho.
D. Jacinta — Imaginei. Ainda não foi achada.
Coronel — Não, mas sabemos com certeza que se encontra em vossa casa.
D. Jacinta — Isto não pode ser. Coronel, eu sou uma mulher sozinha. Está morto o
meu pai, preso o meu marido, e o meu filho, além de condenado, está sendo
vilipendiado. Agora eu vos pergunto, Coronel, onde está a graça da brincadeira? Já
não vos basta tanta sujeira?
Coronel — Senhora, eu não tenho tempo vão para estabelecer convosco qualquer
discussão. O que eu vim fazer em vossa casa foi cumprir uma missão, e eu a
cumprirei dessa maneira: abri o caixão.
D. Jacinta — Não.
Coronel — Por que razão?
D. Jacinta — É mais um morto a ser desonrado.
Coronel — Desonrada é a vossa casa, que abriga assassinos.
D. Jacinta — O senhor não pode dizer isso de Peregrino.
Coronel — Não falo, dessa vez, do vosso filho.
D. Jacinta — Mas de quem, então?
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Coronel — Da vossa escrava (aponta para Vicência, no canto da sala). Matou o
soldado de madrugada, roubou a cabeça de Peregrino e eu tenho certeza:
escondeu-a no caixão.
D. Jacinta — Não pode ser.
Coronel — Antes, eu diria a mesma coisa. A experiência ensina-me que o que não
pode ser, é. Abri o caixão, eu vos ordeno. Lá dentro estará a cabeça de Peregrino.
D. Jacinta — Não! (atira-se sobre o ataúde).
Capitão — Tirem-na dai. (Os soldados arrastam D. Jacinta com certa violência)
Abram!
(Decepção, por não encontrarem a cabeça de Peregrino).
Coronel — Isto é uma maldição! Mas eu não voltarei ao quartel sem cumprir a
minha missão. (Vai até Vicência e bate-lhe com violência) Onde está a cabeça de
Peregrino?
Vicência — Num sei, nhozinho.
Coronel — Sabe e vai confessar agora ou morrerá de pancada.
D. Jacinta — Parai, Coronel, eu vos suplico. Se quiserdes matar alguém, se esta é
a vossa missão, matai-me, eu já vos disse.
Coronel — Sargento! levai essa negra ao regimento.
Vicência — Eu vou mais vossência. Mas deixa eu fazer premero uma precisão.
Coronel — Acompanhe-a, Sargento.
D. Jacinta - Traístes a minha confiança, Coronel, permitindo que Peregrino fosse
condenado.
Coronel — Senhora! não sou eu quem aplica tais sentenças.
D. Jacinta - Não foi o que me prometeste quando viestes aqui para que eu
intercedesse na luta armada.
(O retorno do tempo)
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Coronel — Senhora, eu quero evitar uma tragédia.
Augusto — De que maneira?
Coronel — Vinde comigo ao lugar onde ele se encontra. Vós sois o pai, usai de
vossa autoridade, exigi que Peregrino deponha as armas.
Avô - O que pedis, Coronel, é uma infâmia.
Coronel — Amais ao vosso neto, senhor?
Augusto — Isto não vem ao caso.
Coronel — Quereis vivo o vosso filho, senhora?
D. Jacinta — O que tendes a propor?
Coronel — Isto que acabais de ouvir: a vida do vosso filho. Sabeis que Peregrino é
culpado de grave crime. A pena para o seu caso é o laço de uma corda. Está em
vossas mãos apertar ou afrouxar em seu pescoço o nó.
Avô - Que motivos vos trazem aqui para pôr em nossas mãos o destino de
Peregrino?
Coronel - Humanitário, senhor.
Avô - Tendes medo de enfrentá-lo. Sabeis de sua coragem e valentia, e que os
homens sob o seu comando seguem-no com fiel abandono. Quereis evitar não uma
tragédia, mas a vossa derrota militar.
Coronel — Sois um velho decrépito. EI-rei, D. João, não perderá um só palmo do
seu império, muito menos para um fedelho sem prumo certo como é o vosso neto.
Avô — Se é assim, porque não ides com o vosso exército onde se encontra o
menino?
D. Jacinta — Parai, meu pai, detende a vossa língua. Senhor, prometeis a vida de
Peregrino?
Coronel — Prometo-a, senhora. Desde que vós ou o vosso marido façam-no depor
as armas e encerrar esta aventura sem sentido.
D. Jacinta—Vai, Augusto, segue o Coronel, salva o nosso filho.
Avô - Minha filha, estás entregando o cutelo que irá decepar de Peregrino a cabeça.
D. Jacinta — Parai, meu pai, eu vos peço. O Coronel nos apresenta uma saída
para a loucura por Peregrino cometida. Que outra há? Dizei-me sem demora.
Avô — Deixa o teu filho lutar.
Coronel — Senhora, esta é a última chance, outra não mais haverá, é vir comigo e
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por um fim à guerra, ou esperar para ver o que acontecerá.
D. Jacinta — Vai, Augusto.
Avô — Não, minha filha.
D. Jacinta — Parai, meu pai, sois velho e somente a morte vos aguarda. Vai,
Augusto, eu te peço.
Augusto — Vou, Coronel, confiando em vossa promessa.
D. Jacinta — Vai, Augusto, e leva contigo este crucifixo.
(O tempo presente).
D. Jacinta — Era tudo mentira. Nada pretendíeis fazer pelo meu Peregrino. Assim
mesmo, Augusto foi... Antes, nunca tivesse ido...
(O retorno do tempo. Campo de batalha).
Peregrino — Meu pai, o que fazeis entre dous exércitos que se preparam para a
peleja? O que fazeis com esse crucifixo arrancado da parede da nossa sala?
Augusto — Meu filho, esta é a minha arma. Vim com ela para te levar para casa.
Peregrino — Sabeis melhor do que ninguém que eu só voltarei se ganhar essa luta.
Augusto — Peregrino, a revolução está perdida. A armada real tomou o Recife. A
Parahyba já está tomada. Tu és o único líder armado, não poderás resistir a uma
empreitada. Depõe as armas, eu te digo, para que o imperador seja indulgente
contigo.
Peregrino — Meu pai, não posso depor sem trair os meus princípios.
Augusto — Depõe, meu filho. A vida é mais importante do que qualquer preceito.
Peregrino — Meu pai, sem eles, pode um homem viver direito?
Augusto - Pode.
Peregrino — Meu pai, sem ordenamentos morais, pode um homem viver em paz?
Augusto — Pode.
Peregrino — Não foi o que me dissestes durante toda a vida. Agora vindes pedir,
para minha vergonha, que eu entregue ao inimigo o único pelotão capaz de
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enfrentá-lo. Vindes a mim com um crucifixo, pedindo em nome da paz, vós que
sabeis que a paz que prometem para vos enganar será a minha morte, outra não
haverá.
Augusto — Meu filho, em nome da tua mãe e do meu próprio, entregues as armas.
Peregrino — Não vejo motivo para isso, mas se quereis, sois o meu pai, não vos
desapontarei perante a tropa, embora não tenhais noção do sacrifício a que me
submetereis. Serei, talvez, escarnecido pelos homens atrás de mim perfilados. Serei
humilhado perante toda a gente, como se fosse eu não um soldado, mas um paria,
um covarde que não travou a última batalha. Serei numa forca pendurado. Eis, meu
pai, em suma, o que me pedis nesse instante delicado.
Augusto — Meu filho, peço-te que deponhas as armas, tão somente.
Peregrino — Pedis que eu negue os princípios com os quais me criastes.
Augusto — Peço-te paz, paz para a nossa casa.
Peregrino — Pedis que do homem que me fizestes, em verme eu me transforme,
pedis para que eu assine a minha sentença derradeira. Pois muito bem, meu pai.
Uma vez eu vos disse, lembro-me como se fosse hoje, que jamais eu seria capaz de
compreender o universo. Por amor, penetrei a magia e a terra me abriu os seus
abismos. Não temo a morte nem a sua escuridão macabra, porque é lá que se
encontra Eurídice. (Peregrino atira aos pés do pai a sua própria espada).
(O tempo presente).
Sargento — (Entra apressado) Coronel! Coronel? A escrava fugiu.
Coronel — Como assim?
Sargento — Ela foi ao quintal, abriu a porta do quartinho. “Vou fechar, por
decência”, disse-me. Eu concordei, Coronel, não é nenhuma dona que dê vontade
de se olhar à intimidade. Foi o meu erro. A negra demorou a sair. Chamei duas, três
vezes. Por fim, desconfiado, abri a porta na pancada. Havia uma outra do outro
lado, por onde a escrava se havia evadido. Atravessei a segunda porta e vi, já ao
longe, rapidamente, a negra correndo com um saco de estopa embaixo do braço.
Na privada, ficara o cheiro de salmoura com que se conservam as carnes mortas.
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Coronel — Sargento! se crerdes em Deus, rezeis para que encontremos a
cabeça de Peregrino, caso contrário, eu não responderei pelo destino da vossa.
Cena 15
(Num canto do palco, Vicência, como que mergulhada na água, levanta a cabeça
embrulhada na estopa, como se estivesse fazendo uma oferenda. Em outro, surge
Peregrino, conduzido por um escravo, a corda no pescoço, subindo ao cadafalso.
Entra o Coronel e os seus soldados).
Coronel — Vicência, estás cercada. Sai da água. Acabou a caçada, encontrei a
assassina do soldado e a cabeça roubada. Agora vem para cá, devolve-a a mim.
Hei de colocá-la de volta onde estava, antes mesmo que a luz do sol se apague,
enfim.
Vicência — Não, coroné, daqui a cinco passo o rio não dá mais pé. Se vossência
quiser a cabeça de Peregrino, vai ter que buscar lá embaixo.
Coronel — Vicência, não a jogue, eu te ordeno.
Vicência — Num vou jogar, coroné, vou botar de volta ao elemento.
Coronel — Por que tu a roubaste?
Vicência — O motivo, coroné, num é do seu entendimento.
Coronel — Devolva-me a cabeça e eu prometo-te a alforria.
Vicência — Ela não é do seu pertencimento.
Coronel — Devolva-a em nome de el-rei... Se atirá-la ao rio, não sairás viva dessa
água. Pelotão! Preparar! Vicência, tu preferes morrer por causa de uma cabeça
apenas? (Vicência a levanta ainda mais, como que finalizando a oferenda) Agora,
venha, devagar... (Vicência atira a cabeça para longe. O Coronel ordena) Fogo!... (o
pelotão dispara. No outro ponto, Peregrino é atirado do cadafalso).
Capitão — E agora, Coronel? O que faremos?
Coronel — Voltemos ao quartel. Estou cansado, Capitão, e tenho febre.
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(Todos saem. Apenas o corpo de Peregrino fica pendurado no cadafalso).
FIM
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Paulo Vieira – O PEREGRINO