1 MATEMÁTICA E MÚSICA: RELAÇÕES E SUAS IMPLICAÇÕES NO ENSINO DE MATEMÁTICA Luciana Gastaldi Sardinha Souza1 Dari Toginho2 Fernando Hiroki Kozu3 Karina Tiemi de Melo4 Thais Marcelle de Andrade5 Daiane Gomes6 Ercolle Martelli7 Victor Martins Pedrassoni8 Resumo Este trabalho visa divulgar modos como as relações entre a Matemática e a Música se mostram, com ênfase na produção do som, nas suas relações com as Funções Trigonométricas e na construção das escalas Pitagórica e Temperada. Palavras - chave: Matemática. Música. Som. Introdução e Justificativa Há muito tempo matemáticos se interessam por música e músicos se interessam por matemática. Pitágoras e Bach podem ser tomados como exemplo desse interesse: Pitágoras criou uma escala musical por meio de divisões sucessivas de uma corda; Bach escreveu obras repletas de simetria. Este mini-curso visa apontar novas práticas pedagógicas para auxiliar a exploração da música no processo de ensino-aprendizagem. [email protected] UEL [email protected] UEL 3 [email protected] UEL 4 [email protected] UEL 5 [email protected] UEL 6 [email protected] UEL 7 [email protected] UEL 8 [email protected] UEL 1 2 2 Gardner foi o primeiro pesquisador a propor uma visão pluralista da mente, pois defendia a idéia que as manifestações de inteligência compõem um amplo espectro de competências, incluindo, além das dimensões lingüística e lógico-matemática, a musical, a corporal-cinestésica, a espacial, a intrapessoal e a interpessoal. Com referência à relação música/matemática, Gardner (1994) coloca que esta esteve presente na época medieval e volta à tona no século XX: Na época medieval, o estudo cuidadoso da música partilhou muitas características com a prática da matemática, tais como um interesse em proporções, padrões recorrentes e outras séries detectáveis. ... Novamente no século XX _ primeiramente na esteira da música dodecafônica, e mais recentemente, devido ao amplamente difundido uso de computadores _ o relacionamento entre as competências musical e matemática foi amplamente ponderado. A meu ver, há elementos claramente musicais, quando não de “alta matemática” na música: estes não deveriam ser minimizados. (GARDNER, p. 98) Machado (1995), complementa o espectro de competências de Gardner (1994) acrescentando uma oitava componente, a componente pictórica. Incluindo esta componente, a inteligência pictórica, Machado propôs um novo espectro de competências ampliado, o qual se encontra representado a seguir. Figura 1 - Espectro de Competências Ampliado – Machado (1995) Este minicurso abordará a ligação Musical-Lógico-Matemática enfatizando os seguintes tópicos: • A produção do som e sua relação com as funções trigonométricas; • A construção das escalas Pitagórica e Temperada. 3 A produção do Som e as Funções Trigonométricas O som é o resultado de uma vibração, que se transmite ao meio de propagação, provocando zonas de maior compressão de partícula e zonas de menor compressão (zonas de rarefação) de partículas, originando uma onda sonora. Se quisermos ouvir o som de uma corda, deveremos pinçá-la para que esta saia de sua posição de equilíbrio e realize movimentos vibratórios, em um certo intervalo de tempo. Figura 2 - Corda Vibrante. A amplitude do deslocamento desta corda ao ser pinçada é comparável ao da ordenada de um ponto P ao percorrer uma circunferência no sentido anti-horário. Figura 3 - Representação de um ponto P percorrendo uma circunferência. Este movimento é descrito pela função seno. sen rad x = ordenada de P Figura 4 - Função Seno. 4 No entanto, a função que buscamos deve representar uma relação entre o deslocamento e o tempo. Desse modo, se um ponto P percorrer uma circunferência f vezes em um segundo, teremos que a função y = sen x poderá ser representada por: y = sen 2πft Como exemplo, vejamos o gráfico de um som de frequência 15hz: Figura 5 - Representação gráfica de y = sen 30πt A construção das escalas Pitagórica e Temperada A escala Pitagórica tem esse nome por conta de seu criador, Pitágoras ( VI a. C.). Esta escala foi construída a partir da divisão de uma corda em duas, três e quatro partes iguais. Provavelmente a escolha destas divisões deve-se à influência dos números 1,2,3 e 4 (Tetractys), números estes que, de acordo com a crença dos Pitagóricos, poderiam construir o universo. Devido a essas divisões, os primeiros intervalos obtidos, a partir do som fundamental (consideremos o dó3, por exemplo), foram, nesta ordem: a oitava (metade da corda), a quinta (dois terços da corda) e a quarta (três quartos da corda), que estão representadas a seguir pelas notas dó4, sol e fá, respectivamente, na notação atual: As outras notas da escala podem ser obtidas a partir de uma progressão de quintas. 5 A freqüência do som produzido para cada nota é proporcional ao inverso do comprimento da corda, a partir da freqüência da nota fundamental. Para as notas obtidas anteriormente, e considerando a freqüência do som fundamental igual a 1, as freqüências serão: Se continuarmos com a progressão de quintas, obteremos a escala cromática Pitagórica, reduzindo-se sempre os intervalos compostos a intervalos simples. Um intervalo composto é aquele que ultrapassa o limite de uma oitava9. DÓ3 f = 1; SOL3 3 3 = ; 2 2 3 3 9 f = × ÷2= ; 2 2 8 9 3 27 f = × = ; 8 2 16 27 3 81 f = × ÷2 = ; 16 2 64 81 3 243 f = × = ; 64 2 128 243 3 729 f = × ÷2= ; 128 2 512 RÉ 3 LÁ 3 MI3 SI3 FÁ 3# 9 f = 1× Uma oitava é o intervalo entre oito notas sucessivas de uma escala. 6 729 3 2187 × ÷2 = ; 512 2 2048 2187 3 6561 f = × = ; 2048 2 4096 6561 3 19683 f = × ÷2= ; 4096 2 16384 19683 3 59049 f = × = ; 16384 2 32768 59049 3 177147 f = × ÷2 = ; 32768 2 131072 177147 3 531441 f = × = ; 131072 2 262144 DÓ3# f = SOL3# RÉ3# LÁ3# MI3# SI3# A freqüência de Si3# deveria ser equivalente à de Dó4, posto que existe meio tom entre a nota si e a nota dó, ou seja, si# deveria ser equivalente à dó. No entanto, Si3#→ f = 531441 ≅ 2,027286 262144 Dó4→ f = 2 A diferença entre elas, que equivale à relação 2,027286 = 1,013643 , 2 dá-se o nome de coma pitagórico. Dessa forma, podemos concluir que a escala pitagórica, baseada nos intervalos de quintas e quartas, não "fecha" seus valores em algumas notas, como pode-se ver claramente no caso da oitava, onde o valor da freqüência do som está 1,36 % acima do valor desejado. Tal limitação foi percebida pelos músicos e estudiosos da antiguidade, e algumas alternativas foram propostas. Uma alternativa encontrada foi construir uma escala igualmente distribuída em 12 partes no intervalo de oitava, a qual foi denominada de escala temperada. Para obter as suas freqüências, foram inseridos 12 termos geométricos entre o som fundamental e a sua oitava, equivalentes às 12 notas da escala. Para obter a razão, toma-se as freqüências da primeira 7 (nota dó1, frequência=1) e da última nota da escala (nota dó2, freqüência=2). Pela fórmula do termo geral de uma PG, temos que: Para se obter a freqüência dos sons sucessivos da escala, portanto, multiplica-se a freqüência, a partir do som fundamental, por 12 2. A tabela a seguir mostra a freqüência de algumas notas nas escalas pitagórica e temperada. Notas Pitagórica Temperada DÓ 1 1 RÉ 1,125 1,122 MI 1,265 1,259 FÁ 1,333 1,334 SOL 1,5 1,489 LÁ 1,687 1,681 SI 1,898 1,887 DÓ 2 2 As músicas ocidentais são, em sua maioria, escritas na escala temperada. Esta utilização foi necessária para unificar a afinação dos instrumentos. Esperamos que este minicurso estimule os estudantes a buscarem uma maior compreensão das relações entre a matemática e a música. Referências Bibliográficas GARDNER, H. Estruturas da Mente: a Teoria das Inteligências Múltiplas. Trad.Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. MACHADO, N.J. Epistemologia e Didática: as concepções de conhecimento e inteligência e a prática docente Cortez Editora. São Paulo, 1995.