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©2015 Michel Silva (Org.)
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permissão da editora e/ou autor.
S5861 Silva, Michel
Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade/Michel Silva (Org.).
Jundiaí, Paco Editorial: 2015.
280 p. Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-8148-876-9
1. Maçonaria 2. Processos históricos 3. Contribuição social I. Silva, Michel.
CDD: 360
Índices para catálogo sistemático:
Serviço social. Associações e instituições
360
Maçonaria
366.1
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal
Sumário
Apresentação.......................................................................................5
Capítulo 1
Michel Silva
Por uma história da Maçonaria no Brasil........................................7
Capítulo 2
Françoise Jean de Oliveira Souza
Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçônica:
fundamentos para a introdução aos estudos da Maçonaria.......17
Capítulo 3
Bruna Melo dos Santos
Hipólito José da Costa, a sociabilidade maçônica e a (re)
construção da memória...................................................................39
Capítulo 4
Thiago Werneck Gonçalves
A imprensa maçônica da Corte imperial brasileira na década
de 1870: alguns apontamentos........................................................57
Capítulo 5
Berenice Abreu de Castro Neves
A Maçonaria no Ceará: “Os intrépidos romeiros do
progresso”...........................................................................................75
Capítulo 6
Luaê Carregari Carneiro Ribeiro
A Maçonaria e a formação do Partido Republicano
Paulista............................................................................................103
Capítulo 7
Milena Aparecida Almeida Candiá
“A instrução do povo pelo povo”: a Maçonaria e o movimento
associativista pela expansão da educação popular no Brasil
(1870–1889)...................................................................................137
Capítulo 8
Marcelo Freitas Gil
Trabalhadores, Maçonaria e Espiritismo em Pelotas
(1877-1937).....................................................................................167
Capítulo 9
Marcos José Diniz Silva
“A democracia liberal em face das ideologias dissolventes”: a
Maçonaria cearense frente à Aliança Nacional Libertadora e
ao Integralismo em 1935...............................................................189
Capítulo 10
Tatiana Martins Alméri
A Maçonaria na ditadura militar brasileira (1964)....................211
Capítulo 11
Luiz Mário Ferreira Costa
A Maçonaria e a antimaçonaria no interior de Minas Gerais:
o “Culto ao Dever” em Rio Novo.................................................235
Referências......................................................................................251
Sobre os autores..............................................................................275
Apresentação
Este volume reúne um conjunto de textos que sistematizam
as mais recentes pesquisas acerca da Maçonaria realizadas em
âmbito acadêmico no Brasil, especialmente nas áreas de História, Educação e Sociologia. De forma geral, compõem a coletânea artigos que se utilizam dos resultados de pesquisas realizados em dissertações de mestrado e teses de doutorado, em
diferentes estados do país, abordando temas como a relação da
Maçonaria com diferentes governos, a atuação da instituição na
imprensa, suas possíveis relações com movimentos sociais, entre
outras temáticas.
O volume procura, principalmente, ser uma forma de difusão
dessas pesquisas, que guardam enorme importância para a história social e política do Brasil, na medida em que abordam as ações
de uma das mais antigas instituições atuantes no país. Por outro
lado, os textos evitam fazer uma propaganda ufanista da Maçonaria e, principalmente, estão longe de reproduzir os discursos que
demonizam a instituição.
Os autores, em sua maioria, são jovens pesquisadores que, ao
longo de sua atuação acadêmica, enfrentaram todos os problemas
possíveis em relação à pesquisa sobre a Maçonaria, seja a dificuldade em acessar documentos ou pessoas, seja o olhar curioso
de colegas e amigos que acreditam que falar em Maçonaria se
resume a investigar conspirações ultrassecretas que supostamente visam à tomada do poder mundial. Se este volume contribuir
para ajudar as pessoas a olharem a Maçonaria como um fenômeno sociopolítico inerente à sociedade moderna, e não como uma
seita ultrassecreta, terá cumprido um papel fundamental.
5
Michel Silva (Org.)
Este volume constitui-se em uma pequena contribuição que
tenta lançar algumas luzes para compreender essa complexa instituição, que, embora controversa, tem papel fundamental para a
História do Brasil.
Michel Silva
Blumenau, junho de 2014.
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Capítulo 1
Por uma história da Maçonaria no Brasil
Michel Silva
Na década de 1990, as pesquisas acerca da Maçonaria ganharam força, devido ao crescimento na quantidade de trabalhos realizados e à qualidade apresentada por estes, geralmente de caráter
regional, procurando utilizar como fontes ou jornais ou outros
documentos produzidos pela Maçonaria que estivessem com
acesso livre em acervos públicos. Assim, se na década de 1990 as
pesquisas buscaram identificar a participação da Maçonaria no
interior dos movimentos de mudança política no século XIX, na
década seguinte, os pesquisadores procuraram analisar o papel da
Maçonaria como agente político público em diferentes espaços de
sociabilidade, como a imprensa, o movimento operário ou mesmo a política institucional do século XX1. O período também está
marcado pelo surgimento de historiadores dentro da própria Maçonaria, mesmo que não tenham alcançado expressão acadêmica2.
No Brasil, entre os escritores maçons que se dedicaram à narrativa histórica, destaca-se nome de José Castellani, autor de uma
vasta obra, dentre as quais se destaca História do Grande Oriente
do Brasil, originalmente publicada em 1993. Essa obra aborda a
1. Entre outros, são destacáveis os seguintes trabalhos produzidos nas Ciências Humanas: Azevedo (2010), Barata (1999), Barata (2006), Colussi (1998) e Silva (2007).
Entre os trabalhos acadêmicos não publicados, pode-se destacar Alméri (2007), Costa (2009), Gonçalves (2012) e Santos (2012).
2. Podemos destacar entre os trabalhos produzidos por pesquisadores maçons, todos
com diferentes formações acadêmicas e profissionais: Castellani (2001), Castellani;
Carvalho (2009), Costa (1999) e Schüler Sobrinho (1998).
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Michel Silva (Org.)
trajetória da Maçonaria brasileira nos séculos XIX e parte do XX,
podendo ser considerado um dos trabalhos mais completos publicados a respeito da Maçonaria no Brasil. Nessa obra narram-se os eventos que marcaram a trajetória do Grande Oriente do
Brasil (GOB), obediência maçônica nacional mais antiga do país,
fundada em 1822, e sua atuação em importantes acontecimentos
políticos e sociais, como a Independência do Brasil (1822), Abolição da Escravatura (1888), a Proclamação da República (1889), a
ascensão do governo de Getúlio Vargas (1930) e o golpe civil-militar (1964). Pode ser considerada uma espécie de “história oficial” do GOB, o qual, inclusive, detém os direitos de publicação.
José Castellani, falecido em 21 de novembro de 2004, exerceu
os cargos de Secretário de Cultura e Relações Públicas no Grande
Oriente de São Paulo. No GOB foi Secretário-Geral de Educação
e Cultura e Presidente do Conselho Federal de Cultura. Fundou
a Associação Brasileira de Imprensa Maçônica e a Academia Maçônica de Artes, Ciências e Letras. Entre muitos outros textos,
escreveu os livros A ciência maçônica e as antigas civilizações
(1980), Os maçons na independência do Brasil (1993) e A ação
secreta da maçonaria na política mundial (2001).
Em História do Grande Oriente do Brasil, Castellani apresenta
os acontecimentos considerados mais relevantes desde a criação
das primeiras lojas maçônicas no Brasil, antes mesmo da fundação do GOB, a consolidação dessa obediência e sua atuação
política nos séculos XIX e XX, mostrando (e destacando) a participação da Maçonaria em diferentes segmentos da sociedade
brasileira. Em sua narrativa utiliza um tom bastante eloquente e
apaixonado, evidenciando seu estreito vínculo com a obediência,
que, nas palavras de José Castellani, foi “partícipe dos grandes
acontecimentos político-sociais da história do Brasil” (Castellani;
Carvalho, 2009, p. 20).
Castellani se preocupa em narrar os acontecimentos que considera “portadores de futuro” relacionados ao GOB, bem como
8
Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade
sua dinâmica sociopolítica interna e a relação estabelecida entre
as lojas maçônicas e delas com o restante da sociedade. Segundo
o próprio Castellani, a obra não “se limita aos fatos e atos internos”, também “analisando os externos, ou seja, aqueles advindos
da atividade político-social dos maçons”. O autor também afirma
que entende a Maçonaria como “uma instituição eminentemente
política, atuando dentro de padrões éticos, consubstanciados na
própria essência sociológica da política, no sentido da manutenção
das grandes conquistas sociais da Humanidade e da defesa do liberalismo e das ideias libertárias” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 15).
Pode-se perceber a estruturação da narrativa em dois eixos
paralelos. De um lado, descreve-se o desenvolvimento do GOB
enquanto obediência maçônica nacional, citando e transcrevendo
documentos como atas, discursos, boletins, relatórios, publicações,
entre outros. Por outro lado, identifica-se de que forma a Maçonaria atuou em processos políticos relevantes para as mudanças na
situação política do Brasil, como a Proclamação da República.
O texto de José Castellani foi escrito com bastante fluidez.
Sua narrativa estabelece uma clara diferenciação entre o cotidiano da Maçonaria e a política profana, embora procure perceber
de que forma a ordem está inserida em cada um dos contextos
específicos. Mostra-se, por exemplo, que o GOB não saiu ileso do
golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart, no
ano de 1964, ao qual se seguiu vinte anos de ditadura. Embora a
posição majoritária dentro do GOB, tenha sido de defesa ao movimento golpista, aderindo ao discurso de que estava em marcha
uma tentativa golpista por parte dos comunistas, havia maçons
progressistas que defendiam as reformas de base e a política de
desenvolvimento econômico baseada na intervenção estatal, propostas pelo presidente João Goulart.
Por outro lado, durante a própria ditadura, o imaginário anticomunista que permeou a sociedade brasileira desde a década de
1920, também se fez sentir na Maçonaria. Um dos antecedentes
9
Michel Silva (Org.)
da cisão de 1973, considerada uma das mais longas da maçonaria
brasileira e que deu origem à Confederação Maçônica Brasileira
(Comab), foi justamente a acusação de “infiltração comunista”
no GOB. Em 1970, José Castellani, então Secretário de Educação
e Cultura do GOB, levou ao público maçom um conjunto de efemérides, dentre as quais os aniversários de nascimento de Friedrich Engels e Vladmir Lênin, líderes do movimento comunista de
suas respectivas épocas. Esse documento motivou a impetração
de inquérito policial, o que afetou a intimidade das lojas sem que
os resultados almejados pelos acusadores fossem alcançados, na
medida em que foi provada a inexistência da suposta infiltração.
Percebe-se na obra de Castellani a predominância de uma
concepção tradicional de História, na forma de historia magistra
vitae, ou seja, da história como “mestra da vida”. Inclusive, o livro
traz como epígrafe uma frase de Marco Túlio Cícero, que afirma:
“a História é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da
memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 13). Nessa concepção, criticada desde
pelo menos o século XIX, “a história seria um cadinho contendo
múltiplas experiências alheias, das quais nos apropriamos com
um objetivo pedagógico”, ou seja, “a história deixa-nos livres para
repetir sucessos do passado, em vez de incorrer, no presente, nos
erros antigos” (Koselleck, 2006, p. 42).
Essa compreensão da História por parte do autor se evidencia de diferentes formas, como no entendimento de que os documentos possibilitariam conhecer a verdade acerca do passado.
Para José Castellani, “diante do complexo drama da história, o
historiador deve, muito humildemente, compreender e explicar a
documentação dos arquivos. Fora daí, ele será apenas intelectual
ou escritor literário” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 14). Para o
autor, os documentos não são fragmentos que, ao trazerem informações acerca de acontecimentos passados, possibilitam ao
historiador contar uma narrativa o mais verossímil possível. Para
10
Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade
Castellani, os documentos utilizados como fontes são eles próprios o passado, cabendo ao historiador apenas reproduzir o que
eles contam. Castellani toma como ponto de partida o desejo de
escrever a verdade, como se os fatos falassem por si, pressupondo
que citar uma quantidade abundante de documentos seria garantir uma escrita fiel ao que “realmente aconteceu”. Segundo Castellani, sua obra “apenas registra os fatos e suas consequências,
sem pretender fazer julgamento dos atos ou dos homens que desfilam por suas páginas” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 14).
Em sua obra constrói uma narrativa linear, pressupondo que
a organização cronológica dos documentos e dos fatos garanta
que a escrita histórica não distorça o passado que se pretende resgatar. Portanto, o livro acaba se tornando uma crônica que enumera alguns acontecimentos relacionados ao GOB, narrando os
fatos tidos como “portadores de futuro” e apresentando uma série
de documentos que visam provar a veracidade do que é dito. Não
é, portanto, uma obra histórica que visa problematizar a constituição e consolidação do GOB enquanto obediência maçônica ou
a atuação da Maçonaria na política brasileira, mas uma tentativa
de contar a história de forma panorâmica e neutra, utilizando-se
da citação fiel de documentos e da narrativa linear que se limita a
apresentar os acontecimentos.
Inclusive, a proposta de trabalhar uma história de quase dois
séculos, procurando narrar eventos que poderiam “eternizar” os
homens que os realizaram, pouco dialoga com as inovações historiográficas das últimas décadas. Além disso, tal proposta não expressa os avanços nas pesquisas a respeito da Maçonaria no Brasil
realizadas por historiadores maçons ou profanos, destacando-se
nomes como o de Alexandre Mansur Barata e Eliane Lucia Colussi.
Nesse sentido, o próprio Castellani alerta que “esta obra não pretende esgotar um assunto presumidamente inesgotável, deixando
campo aberto para outras, mais abrangentes e específicas. Por isso,
ela é sintética, panorâmica” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 15).
11
Michel Silva (Org.)
Em âmbito acadêmico, uma síntese da produção bibliográfica
dessas últimas décadas pode ser encontrada no livro O poder da
maçonaria, escrito pelos historiadores Marco Morel, doutor em
História pela Universidade de Paris, e Françoise Jean de Oliveira
Souza, doutora em História do Brasil pela UERJ. Nessa obra, os
autores procuram descrever a trajetória da Maçonaria na história
do Brasil, principalmente nos séculos XIX e XX, enfatizando em
especial sua atuação política nesse período, “para compreender a
maçonaria não de uma maneira isolada da sociedade, mas como
forma de associação presente em diferentes situações históricas”
(Morel; Souza, 2008, p. 9-10). Trata-se, segundo os autores, de
uma pesquisa histórica destinada ao leitor que tenha curiosidade
sobre tema, ao público maçom e a pesquisadores universitários.
O livro estrutura-se em sete capítulos. O primeiro está dedicado à discussão das possíveis “origens” da Maçonaria, mostrando, principalmente, a impossibilidade de delinear um momento
em que surge essa associação e, em especial, como se misturam
nessa discussão elementos míticos e literários. Nesse capítulo são
discutidas as tradições esotéricas antigas, as práticas dos pedreiros-livres das corporações medievais, o surgimento das primeiras lojas entre os séculos XVII e XVIII, a formação da Grande
Loja de Londres, as perseguições da Igreja Católica, os mitos dos
complôs relacionados à Maçonaria, a constituição de narrativas
antimaçônicas a partir do século XVIII e, nesse período, a iniciação maçônica tanto de nobres e monarcas como de filósofos e
revolucionários.
Nos capítulos seguintes discute-se a inserção da Maçonaria
no Brasil. Os autores discutem, por exemplo, a polêmica de que
Tiradentes era maçom e de que a Inconfidência Mineira teria sido
um projeto maçônico de emancipação. O terceiro capítulo é dedicado à discussão acerca da Independência do Brasil, no qual
os autores realizam uma revisão historiográfica, demonstrando
a presença de diversas “maçonarias”, suas contradições políticas
12
Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade
expressas nas divergências entre lideranças como José Bonifácio
de Andrada e Gonçalves Ledo, além da proliferação de lojas e
de Grandes Orientes (instituições que reuniam várias lojas) e da
iniciação de Dom Pedro. Os autores também destacam Muniz
Barreto, um personagem do movimento de independência pouco conhecido, que, diferente dos membros mais conservadores da
Maçonaria, também foi pioneiro na luta contra a escravidão. Este
personagem, segundo os autores, “não foi coberto de glória, nem
em vida, nem pela posteridade: sofreu, após 1822, prisão, perseguições e perseverou na pregação maçônica, mesmo quando esta
se encontrava proibida” (Morel; Souza, 2008, p. 105).
Os autores discutem as atividades maçônicas em associações
políticas, filantrópicas, educacionais e econômicas, bem como nas
próprias lojas maçônicas que, entre outras coisas, possibilitavam
condições para a ascensão social de mulatos e descendentes de
escravos que entravam para a Ordem3. Os autores também observam o acirramento das divergências políticas dentro da própria
Maçonaria, ao longo do século XIX. Em 1831, conforme destacam
os autores, registrou-se a existência de cinco Grandes Orientes.
Entre essas instituições, a principal foi o Grande Oriente do Brasil,
fundado em 1822, em funcionamento ainda hoje. Outros Grandes
Orientes se constituíram nas décadas seguintes, como o Grande
Oriente do Vale dos Beneditinos, sob a liderança de Saldanha Marinho, em 1863. No interior dessas associações confrontavam-se,
de um lado, republicanos, abolicionistas e radicais e, de outro,
conservadores e defensores da neutralidade política dos maçons.
Por outro lado, na década de 1870, a Maçonaria agregaria à sua
história a oposição da hierarquia da Igreja Católica, quando esta
resolveu punir os sacerdotes católicos maçons, episódio conhecido
como Questão Religiosa. Nesse processo colocava-se outro campo
de confronto, afinal “a luta maçônica contra o conservadorismo
3. Essa temática da iniciação maçônica de mulatos e descentes de escravos é discutida em Azevedo (2010).
13
Michel Silva (Org.)
católico acabou por ganhar a simpatia dos segmentos liberais da
sociedade, o que atraiu muitos desses homens para a iniciação”
(Morel; Souza, 2008, p. 160). Paralelamente, “do lado católico conservador, importantes setores das camadas populares sensíveis à
pregação clerical ultramontana passaram a compartilhar a repulsa
à maçonaria” (Morel; Souza, 2008, p. 160).
Os dois últimos capítulos tratam da Maçonaria brasileira
na República, período no qual, segundo os autores, a Maçonaria “tornou-se guardiã da ordem e do progresso” (Morel; Souza,
2008, p. 179). Uma das consequências disso, na década de 1960,
se manifestou no que os autores chamam de “guinada conservadora” da Maçonaria (Morel; Souza, 2008, p. 228-36). Trata-se não
apenas dos esforços de participar das instituições do Estado, mas
também de intervir politicamente na própria sociedade, seja por
meio da filantropia, como vinha fazendo desde o século XIX, seja
pelo diálogo com ideologias das mais diversas, difundidas nas
primeiras décadas do século XX, como o anarquismo, o comunismo, o integralismo e as diversas expressões do autoritarismo.
Por outro lado, certas elaborações nacionalistas produzidas no
seio da Maçonaria levaram membros da ordem a se aproximarem do discurso conservador das Forças Armadas e da Doutrina
de Segurança Nacional (DSN) no contexto da Guerra Fria, como
Golbery do Couto e Silva, maçom e principal ideólogo da Escola
Superior de Guerra (ESG)4. Em função dessa guinada conservadora, procurou-se reforçar o cuidado com o perigo de uma possível “infiltração comunista” nas lojas.
O livro de Morel e Souza apresenta uma contribuição fundamental ao campo da historiografia ao apresentar alguns elementos de estudo acerca da atuação política da Maçonaria no século
XX, temática pouco estudada nas pesquisas acadêmicas. Muitos
dos acontecimentos conhecidos desse período foram narrados
4. Embora não seja citada por Morel e Souza, essa discussão é realizada de forma
mais aprofundada por Alméri (2007).
14
Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade
de dentro da Maçonaria, especialmente por meio dos textos com
pretensões historiográficas, como os de José Castellani.
O livro de Morel e Souza, ao ser escrito a partir de uma perspectiva acadêmica e externa à Maçonaria, conforme esclarecem
seus autores nas primeiras linhas do livro, consegue escapar da
narrativa ufanista e parcial escrita por maçons, na qual todas as
ações empreendidas pelos maçons são encaradas como algo positivo, mesmo que seja, por exemplo, o golpe de 1964. Os livros
de Castellani conseguem dar um olhar um pouco mais crítico
às ações maçônicas, contudo sua narrativa se limitava ao apoio
aberto a certas tendências políticas internas da Maçonaria, da
qual era simpático, principalmente a partir da cisão que deu origem à Confederação Maçônica Brasileira (COMAB), em 1973.
José Castellani manteve-se como membro do Grande Oriente do
Brasil durante toda a sua vida maçônica.
Essas duas obras, seja pelo panorama produzido de dentro
da Maçonaria, seja pela síntese acadêmica, contribuem para as
pesquisas acerca da Maçonaria. Uma, por apresentar fatos e documentos aos quais os historiadores acadêmicos não possuem
acesso. Quanto à outra, organiza e sistematiza os avanços das
pesquisas da Maçonaria, especialmente a partir das análises que
tomam como ponto de partida os conceitos de sociabilidade e
cultura política. Com isso, os historiadores mais jovens podem
dar novos passos de modo a enriquecer a história da Maçonaria
no Brasil, não se limitando a descrever os acontecimentos “portadores de futuro”, como pretendia Castellani, mas problematizando os diferentes processos sociais e políticos e as diferentes forças
que neles atuaram.
Nesse sentido, compreendendo os limites de seu texto, o próprio José Castellani afirmou: “Outras obras virão. Outros autores.
A aprofundar a análise dos fatos antigos e a relatar os novos. Porque a história não para!” (Castellani; Carvalho, 2009, p. 15). Essa
escrita da História, que nos últimos anos possibilitou a numero15
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