UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE JUSSARA LICENCIATURA EM HISTÓRIA IRISLÂNDIA LACERDA QUEIROZ LITERATURA, SEXUALIDADE E RAÇA: análise da obra “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha JUSSARA-GO 2012 IRISLÂNDIA LACERDA QUEIROZ LITERATURA, SEXUALIDADE E RAÇA: análise da obra “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha Monografia apresentada ao departamento de História como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em História, da Universidade Estadual de Goiás: Unidade Universitária de Jussara – Goiás, sob orientação do Professor Aruanã Antônio dos Passos. JUSSARA-GO 2012 IRISLÂNDIA LACERDA QUEIROZ LITERATURA, SEXUALIDADE E RAÇA: análise da obra “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha Monografia aprovada como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História na Universidade Estadual de Goiás – UEG, pela Banca Examinadora: Orientador: Prof. Aruanã Antônio dos Passos – UEG Prof. Geraldo Witeze Júnior – UEG Prof. Rodrigo Fernandes da Silva – UEG JUSSARA – GO 2012 DEDICATÓRIA O segredo de conseguir chegar até aqui, está em meus pais Maria Lacerda Queiroz, Francisco Joaquim Queiroz e meu marido Osmando Martins de Souza, amigos pessoais e classe, principalmente os que não moram em Jussara, pois vi neles força de vontade e coragem para realizar seus objetivos, pois mesmo em meio de tantas dificuldades ainda restam forças para estarem aqui todos os dias desses anos. Tudo isso me deu mais força ainda para chegar até aqui, seu que um dia todo esse esforço será de grande valor para mim. Obrigada a todos vocês. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por ter conseguido chegar até aqui, pois sem ele nada seria possível. Dedico deste momento a você meu maravilhoso pau que foi em você que pensei quando tudo estava dando errado e foi em você que consegui forças para continuar na minha caminhada, caminhada essa que durou quatro anos e você sempre estava perto de mim, me dando apoio e torcendo por mim, para que eu conseguisse finalizar essa etapa importante da minha vida; o término da faculdade. Agradeço também a você Professor Aruanã, por ter aceitado ser meu orientador ao longo dessa pesquisa, ter tido paciência em me orientar de acordo com as minhas necessidades, nesta jornada serei grata a você por muitos anos, valeu por tudo. Agradeço também aos meus familiares que desde o primeiro momento passaram para mim força e coragem para chegar até aqui. Em especial, agradeço a uma pessoa que me deu apoio e soube me compreender, meu esposo Osmando, o qual eu amo muito. Pois tiveram momentos ao longo dessa pesquisa em que pensei em desistir, e ele me incentivou argumentando que eu iria conseguir, pois eu seria capaz de realizá-la. Osmando sei que para você não foi fácil estar ao meu lado todos os momentos de estresse ao longo dessa jornada pois cada dia a insegurança aumentava, e foi em você que eu consegui me espelhar, pois você também passou por isso e fez dessas experiências momentos maravilhosos em sua vida, e foi assim que eu encontrei coragem para realizá-la, mas você soube me entender e me ajudar em tudo. Amo-te muito meu marido. Valeu por tudo meu grande amor. O corpo foi esquecido pela história e pelos historiadores. Ora, ele foi e continua a ser o ator de um drama. Jaques Le Goff Uma História do corpo na Idade Média RESUMO QUEIROZ, Irislândia Lacerda. Literatura, sexualidade e raça: análise da obra “BomCrioulo” de Adolfo Caminha. 2012. 46 p. Graduação em História. UEG- Universidade Estadual de Goiás. UnU Jussara. RESUMO: A presente pesquisa tem como foco verificar a relação existente na figura do negro e do homossexualismo em fins do século XIX, utilizando a História Cultural como forma de complemento para a pesquisa. Dessa forma, para o presente tema, foi escolhida a obra “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha. A obra em questão tem como tema principal o homossexualismo de um negro ex-escravo, e sua relação com um branco. O homossexualismo está presente na humanidade desde seus primórdios, e possui um valor diferente a cada cultura, valor que pode se modificar através dos tempos. Sabe-se que o negro foi escravizado no Brasil por muito tempo, da colonização até a lei da Abolição da Escravatura, em 1888. Como escravo, o negro era tido pelo branco como um objeto, que em muitos casos era usado pelo seu dono como forma de satisfação sexual, suportando relações hetero e homossexuais. O negro foi desumanizado, discriminado e vítima e preconceito. O homossexualismo, reprimido pela Igreja, foi associado aos negros, devido a cultura que muitos escravizados trouxeram de seus povos, já que a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo era considerada algo normal para alguns deles. PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Homossexualismo; Negro; Bom-Crioulo; História Cultural; ABSTRACT: This research focuses on verifying the existing relationship the figure of the black man and homosexuality in the late nineteenth century, using the Cultural History as a way to complement the research. In this way, for this theme was chosen the work "BomCrioulo" by Adolfo Caminha. The respective object has as main theme a black ex-slave homosexuality and his relationship with a white man. Homosexuality is present in humanity since its beginning, and has a different value to each culture, that value may change over time. It is known that the black man was enslaved in Brazil for a long time, until the law from colonization of the Slavery Abolition in 1888. As a slave, the black man was taken by the white man as an object that in many cases was used by its owner as a form of sexual satisfaction, supporting heterosexual and homosexual relationships. The black man was dehumanized, discriminated and victim of prejudice. Homosexuality, repressed by the Church, was of their people associated with black people, because of the culture that a lot of enslaved brought, as sexual relationship between persons of the same sex was considered something normal for some of them. KEY WORDS: Homosexuality; Black people; Bom-Crioulo; Cultural History; Literature. SUMÁRIO 8 INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 DO IMPÉRIO À REPÚBLICA: FATOS QUE MARCARAM O PAÍS EM FINS DO SÉCULO XIX 1.1 O Segundo Reinado (1840-1889): economia e sociedade 10 10 1.2 A abolição da escravatura 15 1.3 Proclamação da República 18 CAPÍTULO 2 O ROMANCE “BOM-CRIOULO” E A HISTÓRIA CULTURAL 20 2.1 Literatura e historiografia 20 2.2 Um percurso no enredo do romance “Bom-Crioulo” 24 2.3“Bom-Crioulo” e a presença do negro na literatura brasileira oitocentista 28 CAPÍTULO 3 SEXUALIDADE, RAÇA E PRECONCEITO 30 3.1 Sexualidade, repressão e homossexualismo 30 3.2 A associação do homossexualismo ao negro escravo como forma de preconceito 38 CONSIDERAÇÕES FINAIS 40 BIBLIOGRAFIA 43 INTRODUÇÃO A principal função da História é estabelecer relações com o presente e com o passado, oferecendo ao historiador temas como fatos ocorridos, os impactos que tiveram na sociedade de seu tempo, e os efeitos sentidos na atualidade que foram causados por acontecimentos passados. Em suma, estudar História é uma atividade que vai além de absorver informações sobre o passado; é analisá-las em seu contexto, buscando a finalidade dos documentos, assim como sua atuação no passado e no presente. O principal objeto de estudo da História é o documento histórico, sendo este qualquer material que permita um diálogo com o passado e que proporcione interesse para quem o analisa; “Um documento é dado como documento histórico em função de uma determinada visão de época [...] o documento existe em relação ao meio social que o conserva” (KARNAL; TATSCH apud LUCCA; PINSKI, 2009, p.21). Para um maior conhecimento do objeto de estudo, o historiador deve recorrer a diferentes fontes documentais, como obras literárias. Obras literárias podem ser ricas fontes de História Cultural, por trazerem características do meio em que foram criadas. A Literatura é uma arte produzida pela humanidade desde a Antiguidade, sendo continuamente transformada conforme a sociedade e a época em que se produz: [...] nas últimas décadas os textos literários passaram a ser vistos pelos historiadores como materiais propícios a múltiplas leituras, especialmente por sua riqueza de significados para o entendimento do universo cultural, dos valores sociais e das experiências subjetivas de homens e mulheres no tempo (FERREIRA apud LUCCA; PINSKI, 2009, p.61). Sendo assim, a Literatura é um grande campo de estudos para o historiador; em seu mundo de ficção traz consigo características da realidade da sociedade nas quais as obras foram criadas, assim como características pessoais de seu autor. A presente pesquisa tem como tema o homossexualismo1 e sua relação com o negro na sociedade brasileira em fins do século XIX. Esse estudo se complementa com a utilização da História Cultural, tendo a obra literária “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha como material de pesquisa. Este estudo considera a obra “Bom-Crioulo” como grande fonte literária de 1 Prática de atos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Rocha, Ruth. Minidicionário. 7.ed. Scipione: São Paulo, 1996. conhecimentos sócio-históricos acerca de padrões morais, dentre outras informações da sociedade brasileira em fins do século XIX. Acredita-se que o negro foi vítima de grande preconceito, mesmo após a abolição da escravatura, tendo sua raça ligada a elementos considerados como negativos pela sociedade, como o homossexualismo. Em seu embasamento teórico, a pesquisa se realiza através de obras de Michel Foucault, Clóvis Moura, Luiz Mott, Sérgio Buarque de Hollanda, Peter Burke, Alfredo Bosi, dentre outros. Pretende-se verificar a relação entre o negro e o homossexualismo, através de um estudo que se divide em três capítulos. No primeiro, serão analisados os principais fatores históricos ocorridos em fins do século XIX, destacando a exploração do trabalho escravo juntamente com a figura do negro no Brasil. Dentre esses fatores estão: o Segundo Reinado, considerando a economia, a industrialização e o trabalho assalariado na época; a abolição da escravatura; e a proclamação da República. No segundo capítulo será feita uma abordagem sobre a importância da História Cultural como fonte de conhecimento histórico, destacando a literatura como sendo uma produção fictícia que se produz com base na História. Logo após, será abordada a presença do negro na literatura brasileira, em seguida, será realizada breve análise sobre o enredo da obra “Bom-Crioulo”. No terceiro capítulo se realizará uma discussão sobre a relação existente entre homossexualidade e o indivíduo negro, abordando também a repressão do sexo, a repressão do homossexualismo, e a associação do homossexualismo ao negro escravo como forma de preconceito. Espera-se que ao final da pesquisa, seja possível verificar a relação de negro e homossexualidade em fins do século XIX, conhecendo os motivos dessa associação e encontrando-a na obra “Bom-Crioulo”. Outro objetivo da pesquisa é reconhecer na literatura um objeto de pesquisa histórica e ressaltar a importância do uso de diferentes fontes para a complementação de um conhecimento tido por meios de documentos históricos, utilizando da História Cultural para tal fim. CAPÍTULO 1 DO IMPÉRIO À REPÚBLICA: FATOS QUE MARCARAM O PAÍS EM FINS DO SÉCULO XIX O presente capítulo desta pesquisa tem como objetivo retratar os principais fatos históricos ocorridos no Brasil em fins do século XIX, adquirindo suporte para compreender os fatores da época em que foi criado o livro “Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha. Dessa forma, primeiramente serão retratados os principais fatos históricos referentes ao período em que a o livro foi exposto aos leitores, em fins do século XIX, assim como a influência e as transformações que tais fatos causaram na sociedade. O estudo terá início pelos principais fatos ocorridos no Segundo Reinado e início da República brasileira. O Segundo Reinado foi um período marcante na sociedade, principalmente no que diz respeito à posição do negro no país. Durante esse período várias transformações ocorreram como o golpe da maioridade, que levou D. Pedro II a se tornar Imperador do Brasil; a abolição da escravatura; e amplo desenvolvimento econômico e industrial, além de forte urbanização ocorrida principalmente na província de São Paulo. O café foi nesse período o principal produto que sustentava a economia do país. Nas grandes fazendas de café do oeste paulista aos poucos o trabalho vindo de braços escravos foi abandonado, enquanto que no norte e nordeste do país a escravidão continuava. Quando foi declarada a abolição da escravatura, muitas das fazendas que ainda se mantinham sob trabalho escravo foram à falência; já se acostumaram ao trabalho assalariado não tiveram esforço para se adaptar à nova lei, e se desenvolveram economicamente. Tal fato promoveu o desenvolvimento, industrialização e urbanização paulista, que aos poucos se alastrou pelo país. Em seguida ocorreu a proclamação da República, trazendo ao país uma nova forma administrativa. 1.1 O Segundo Reinado (1840-1889): economia e sociedade Após as rebeliões ocorridas no Período Regencial (1831-1840) um dos mais agitados da história brasileira, a luta entre o conservadorismo e o liberalismo se tornava cada vez mais intensa. Os partidos políticos Liberal e Conservador eram grupos rivais, mas tinham em comum a busca pela manutenção do escravismo, fator introduzido no país pelos colonizadores portugueses, devido ao interesse financeiro: A escravidão do negro foi a fórmula encontrada pelos colonizadores europeus para o aproveitamento das terras descobertas. Na faixa tropical, a grande propriedade monocultora e escravista tornou-se a base da economia que girou em torno da exportação de produtos tropicais para as metrópoles de onde provinham os produtos manufaturados necessários à vida da Colônia. [...] Escravidão e Grande Lavoura constituíram em muitas áreas a base sobre a qual se ergueu o sistema colonial que vigorou por mais de três séculos (HOLLANDA, 2000, p.135). Dentre as rebeliões do Período Regencial, ocorreram: a Cabanagem no Pará, a Sabinada na Bahia, a Balaiada no Maranhão, e a Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul, que traziam consigo o choque de paixões políticas; “... entre o ideal de liberdade e a necessidade de se manter a ordem a todo custo...”(BASTOS; SILVA, 1976, p.107). Em meio às rebeliões mencionadas, a Farroupilha tornou-se motivação para agitação política no país devido, dentre outras causas, a sua longa duração; de 1835 a 1845. Para acalmar as agitações, durante a regência de Araújo Lima foram tomadas medidas centralizadoras, como a Lei Interpretativa do Ato Adicional apresentada por Bernardo Pereira de Vasconcelos, anulando a autonomia provincial. Os proprietários rurais, receosos da instabilidade política, buscavam algo que lhes permitisse a consolidação de seu poder, recorrendo então ao Golpe da Maioridade, declarando que D. Pedro II já podia ser considerado maior de idade, adulto, responsável legal por seus atos. Assim, em 23 de julho de 1840 aos 14 anos de idade, D. Pedro II foi coroado Imperador, o que afastava, ainda que temporariamente, os conservadores do poder: “A solução seria a Maioridade, pois se acreditava que a figura de prestígio de um Imperador anularia os interesses particulares, fazendo prevalecer a vitória da ordem escravista nacional” (BASTOS; SILVA, 1976, p.116). A Constituição concedia a D. Pedro II o direito de escolher os membros do gabinete. Dessa forma, o Imperador podia exercer diretamente o Poder Moderador, e ainda que indiretamente, o Poder Executivo. Em 1847 foi criado o cargo de presidente do Conselho de Ministros, causando o Parlamentarismo no país; A partir desse momento, o Imperador passou a nomear apenas o presidente do Conselho, cabendo a este a tarefa de escolher os ocupantes dos diversos Ministérios. Por outro lado, o presidente do Conselho escolhido pelo soberano deveria, necessariamente, ser aprovado pela Câmara dos Deputados. A esse sistema dá-se o nome de parlamentarismo (MICHALANY; RAMOS, 1986, p.246). Na escolha dos membros do gabinete, o Imperador optou em maioria pelos liberais, deixando os conservadores insatisfeitos com a situação. Com apenas um ministro, Aureliano Coutinho, o Partido Conservador conseguiu assumir o poder, suscitando em uma disputa armada entre liberais e conservadores conhecida como Revolução Liberal de 1842. Enquanto isso, a Revolução da Farroupilha continuava no Rio Grande do Sul. Após dois anos de batalha, o Partido Liberal venceu seu adversário: “Em 1844, o Partido Liberal retornou ao poder, desalojando os conservadores. Uma das primeiras medidas do novo governo foi anistiar os rebeldes presos, os quais voltaram a participar da vida política do país” (MICHALANY; RAMOS, 1986, p.248). Em 1848 ocorreu a Revolução Praieira em Pernambuco, decorrente da luta pelo poder entre liberais e conservadores: “A causa imediata da Revolução Praieira em Pernambuco foi a nomeação, para presidência da Província, de um conservador, o que ocasionou a sublevação da Ala urbana do partido liberal conhecido como Partido da Praia”(BASTOS; SILVA, 1976, p.119). Os revoltosos foram anistiados em 1852, iniciando um longo período de estabilidade no Império. As lutas entre conservadores e liberais foram pacificadas em 1853, devido a criação do Ministério da Conciliação. Porém, o Ministério foi instinto em 1858, e as lutas partidárias reiniciaram. Um grupo de liberais formou o Partido Radical em 1869, que originou o Partido Republicano em 1870. A partir de 1850, o Império passou por grande desenvolvimento e expansão da economia cafeeira, que foi o principal elemento responsável por grandes transformações no Brasil. O país, que antes tinha como principais produtos o açúcar, o algodão e o tabaco, passou por problemas econômico-financeiros na primeira metade do século XIX devido a concorrência internacional, a baixa produção, dentre outros fatores. O café foi a grande salvação para o país, pois inseriu a economia brasileira nos mercados internacionais causando a interação do Brasil com o exterior e gerando grandes lucros, tornando o território nacional em um país capitalista. Além do café, a produção de cacau, borracha e algodão contribuíram no crescimento econômico. A economia do país se alavancou com a cafeicultura, mas a partir desse período já não se sustentava somente com a agricultura; a industrialização ganhou espaço em território brasileiro assim como em outros países, e houve grande urbanização: Na segunda metade do século XIX, o Brasil conseguiu se libertar da crise econômica herdada do 1º Reinado; conheceu um processo de modernização e urbanização; desenvolveram-se os meios de transportes e comunicações; ampliou-se o sistema de crédito, com bancos, caixas econômicas, companhias de investimentos; surgiram companhias de navegação, de bonde, de iluminação a gás; implantaram-se indústrias no país; ampliou-se o mercado consumidor interno com imigração, etc. (BASTOS; SILVA, 1976, p.129). Como sugerem as interpretações feitas de diversas obras de Marx, as mudanças na sociedade civil são pouco provocadas pela ação jurídica, e a economia é o principal agente de transformação de uma sociedade (ARRUDA, 2007). Foram várias as mudanças que ocorreram em território brasileiro, estimuladas pela economia internacional, estando presentes não só na economia e industrialização, como também na cultura e sociedade, na busca pelo progresso: “[...] e foi se convertendo em um credo que os constantes avanços tecnológicos ratificavam ao criar produtos e serviços que se transformavam em objeto de desejo e símbolos do progresso”(DUPAS, 2006, p.13). Como resultado da Revolução Industrial, do uso da eletricidade, do desenvolvimento tecnológico, e do uso da energia a vapor, muitas coisas mudaram no país. Os velhos engenhos foram substituídos por usinas de açúcar; os caminhos pelos quais passavam comitivas com carros de boi e mulas no transporte de produtos, foram substituídos por estradas de ferro, nas quais passavam locomotivas capazes de transportar mais produtos que as antigas comitivas. Várias empresas agrícolas foram fundadas de 1850 a 1860: ... 62 empresas industriais, catorze bancos, três caixas econômicas, vinte companhias de navegação a vapor, 23 de seguros, quatro de colonização, oito de mineração, três de transporte urbano, duas de gás, oito de estradas de ferro (PRADO JÚNIOR, 1965, p.197). Por volta de 1850, devido a extinção do tráfico negreiro pela Lei Euzébio de Queirós, muitos traficantes passaram a aplicar seu capital em outras atividades econômicas, como a indústria. A partir de 1870, o capital vindo do setor cafeeiro promoveu outra fase de industrialização, juntamente com o desenvolvimento do mercado interno. O café chegou no Pará em 1720, e se propagou pelo restante do país, com maior intensidade em são Paulo: Quando o café ganha definitivamente as terras ricas do interior de São Paulo, a produção sofre uma aceleração extraordinária, tornando-se o oeste paulista – Campinas, Limeira, Jundiaí, Itu, Sorocaba, Ribeirão Preto – o principal centro produtor e exportador do país e o responsável maior pela recuperação final da economia brasileira no século XIX (MILLIET apud BASTOS; SILVA, 1976, p.137). Porém, ao passo que ocorria a expansão cafeeira, a mão de obra escrava tornava-se escassa, devido ao fato de não embarcarem mais escravos nos portos brasileiros e os cafezais terem como escravos somente os que já se encontravam no país até 1850. Com o crescimento da cafeicultura no país, tornou-se necessário aos cafeicultores mão de obra suficiente para a produção do café. Juntamente a essa situação ocorria no país a imigração de holandeses, franceses, espanhóis, hispano-americanos, europeus e outros. Atraídos pelo café, muitos estrangeiros europeus vieram ao Brasil para trabalhar como parceiros dos fazendeiros, num sistema econômico em que eles recebiam emprestadas terras para o plantio, e entregavam aos donos dessas terras cerca de metade do lucro da produção. Imersos em dívidas decorrentes da viagem para o país, dos empréstimos a juro, e os altos preços dos produtos vendidos nos armazéns das fazendas, o imigrante acabava por ser forçado a permanecer na colônia, se sujeitando a um regime de semi-escravidão. Assim, o problema da carência de escravos era solucionado pela mão de obra dos imigrantes que vinham ao país em busca de melhores condições de vida. Devido a insatisfação dos colonos, o sistema de parceria fracassou, fortalecendo a necessidade do trabalho escravo na lavoura: Era impossível conciliar os interesses do fazendeiro, habituado à rotina do braço escravo com os do colono, ansioso por adquirir propriedade, ascender na escala social. As queixas dos colonos e os conflitos surgidos desencorajaram novos sonhos de imigração e levaram os governos dos países europeus a proibirem ou desaconselharem a imigração para o Brasil. Por sua vez, a maioria dos fazendeiros escarmentados pelas infelizes experiências, desesperaram de substituir os negros pelos colonos e passaram a repetir o que diziam os mais céticos, que o trabalho escravo era o único compatível com a lavoura (HOLLANDA, 2000, p.161). Como aborda Hollanda (2000) na citação acima, muitos fazendeiros acreditavam que somente através do trabalho escravo era possível um melhor aproveitamento da terra. Com o fim do sistema de parceria, os grandes fazendeiros começaram a pagar ao colono um preço fixo por alqueire trabalhado, ou ainda, uma determinada quantia por mês, dando início ao trabalho assalariado. Dessa forma, o dono de uma propriedade extensa possuía em suas terras diversos trabalhadores, e a cada um era dada uma porção de terra para o trabalho que seria remunerado mensalmente ou por produção. Sendo os pequenos camponeses submissos ao fazendeiro, quanto mais trabalhadores houvesse em uma fazenda, maior seria o prestígio de seu dono. 1.2 A abolição da escravatura Os negros foram introduzidos no Brasil a partir do século XVI com a finalidade de atender a necessidade de mão de obra dos colonizadores brancos. Apegados a ideia de inferioridade racial, muitos defendiam que os negros deveriam servir aos brancos, o que sustentou a escravatura por séculos, fazendo com que os negros vivessem no Brasil em condições sub humanas: Até então, a situação dos escravos nas zonas rurais, tinha sido extremamente precária [...] A alimentação não variava: feijão, angu, farinha, às vezes um pedaço de charque ou toucinho, mas raramente inhame, mandioca, abóbora ou batata doce. Nas regiões açucareiras, o melado, a cachaça, nas zonas cafeeiras o café, complementavam a refeição. Nas fazendas mais pobres reduzia-as a feijão e um pouco de farinha de mandioca [...]. Mal nutridos, mal vestidos, minados pelas verminoses e pelas febres, pela tuberculose e a sífilis, epidemias de varíola, cólera e febre amarela, que assolavam o país de tempos em tempos, submetidos a um intenso horário de trabalho que atingia dezesseis a dezoito horas diárias [incluindo o serão da noite], os escravos morriam em grande número (HOLLANDA, 2000, p.145-146). O escravismo era o sustentáculo da posição econômica e social de vários senhores de terras, pois quanto mais terras, mais escravos eram necessários; quanto mais escravos maior o prestígio social de seu dono. Vários movimentos pela libertação dos escravos ocorreram a partir do século XVII, liderados em maioria pelos próprios negros. Com a já mencionada Lei Euzébio de Queirós em 1850, o tráfico negreiro foi proibido, o que dividia a opinião dos fazendeiros: ... fazendeiros abarrotados de escravos ou endividados com a compra deles, passavam a encarar com maior complacência a perspectiva da interdição do tráfico. Viram talvez nesse ato a valorização de sua propriedade. Os mais interessados em prosseguir eram os traficantes e os lavradores das zonas novas que ainda não contavam com braços suficientes para cultivar suas terras (HOLLANDA, 2000, p.145). Mesmo com a Lei Euzébio de Queirós, o tráfico continuou ainda que em menor escala. Em 1854 através da Lei Nabuco de Araújo foi imposta rígida fiscalização e severas penas aos traficantes de escravos, levando ao fim do tráfico: “O contrabando, porém, prosseguiu, em pequena escala, por mais alguns anos, mas acabou por cessar definitivamente. Os últimos desembarques de que se tem notícia datam de 1856”(HOLLANDA, 2000, p.145). A campanha abolicionista se fortaleceu após a Lei Euzébio de Queirós. As ideias abolicionistas eram defendidas pelos grupos sociais menos dependentes da escravidão, estando totalmente contra à abolição, os proprietários de terras: O movimento abolicionista foi essencialmente urbano, mesmo quando se estendeu às senzalas, levando à insurreição às massas escravas com o intuito de acelerar as reformas necessárias. A população rural permaneceu em geral, indiferente à sorte dos escravos (HOLLANDA, 2000, p.179). Uma das conquistas dos abolicionistas, a Lei do Ventre Livre, ocorreu em 28 de setembro de 1871, decretada pelo visconde do Rio Branco o ministro José Maria da Silva Paranhos. Todo filho de negros que nascesse no Brasil após a data de publicação de tal lei, era considerado livre. Porém, a criança nascida ficava sob responsabilidade do senhor de sua mãe até completar 8 anos. Nesse período, o senhor de sua mãe poderia decidir se daria a liberdade à criança, sendo indenizado pelo governo, ou se utilizaria do trabalho desse negro até que ele completasse 21 anos, idade em que lhe era garantida a liberdade: “Até 1885, entretanto, pouco mais de 10 000 haviam sido libertos em todo o Império pelo Fundo de Emancipação, enquanto as alforrias concedidas espontaneamente por particulares subiam a 60 000” (HOLLANDA, 2000, p.183). Dessa forma, a Lei do Ventre Livre não solucionava o problema do negro no país, pois a maioria dos senhores de escravos optava por utilizar do trabalho dos negros nascidos “livres”. Com a intensificação da campanha abolicionista, em 1880 foi criada a “Sociedade Brasileira Contra a Escravidão”, que junto a outras organizações como a “Associação Central Abolicionista”, era coordenada pela Confederação Abolicionista. Em 1884, as províncias do Ceará e do Amazonas decretaram a abolição da escravidão, sendo os pioneiros no país. Representantes liberais e conservadores se uniram em mais uma medida pela abolição; a Lei do Sexagenário, que decretava a alforria dos negros a partir dos 65 anos foi proposta pelo ministro liberal José Antônio Saraiva, e foi aprovada pelo ministro conservador Barão de Cotegipe em 1885, sendo também chamada de Lei Saraiva-Cotegipe. O crescimento da campanha abolicionista incentivava as fugas dos escravos, que estavam cada vez mais constantes. Nesse processo destacam-se os Caifases, grupos formados por indivíduos em geral brancos que promoviam as fugas dos escravos, e depois ameaçavam os senhores escravistas. Enquanto isso, o trabalho nas fazendas era prejudicado; Os abolicionistas desencadearam intensa campanha promovendo conferências, quermesses, festas beneficentes, comícios em praça pública. Mais violentas e eficazes eram as atividades de certos grupos que promoviam a fuga de escravos. Desorganizava-se o trabalho nas fazendas. Para reter os escravos os senhores viam-se obrigados a libertá-los com cláusulas de prestação de serviços (HOLLANDA, 2000, p.183-184). Cedendo a pressão abolicionista, o ministro conservador João Alfredo promoveu a votação da Lei Áurea, que determinava o fim da escravidão no Brasil. Tal lei foi assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Os aristocratas que se sustentavam com o regime escravista, foram à ruína através da Lei Áurea, e culparam o governo de sua situação econômica. Os cafeicultores que já haviam abandonado o trabalho escravo em suas terras, não foram afetados pela abolição da escravatura, pois já utilizavam de mão de obra livre e assalariada. Depois da Lei Áurea, alguns negros permaneceram no campo praticando uma economia de subsistência, enquanto outros buscaram as cidades, onde entraram num processo de marginalização e de não integração na sociedade. Marginalizados e desempregados, passaram a viver em barracos nos arredores das cidades. Em outras palavras, a liberdade jurídica não correspondeu às demais liberdades (BASTOS; SILVA, 1976, p.148). A Lei Áurea promoveu a liberdade imediata dos negros, mas como apontam Bastos e Silva (1976) a vida dos ex-escravos não se modificou de imediato, pois ainda assim eles continuaram a ser dependentes dos brancos, ou não se integravam na sociedade. De qualquer forma os negros não viviam como os brancos em terras brasileiras. Devido à Lei Áurea, vários fazendeiros entraram em crise financeira, houve o empobrecimento do aristocrata nordestino, e ao mesmo tempo, o enriquecimento do aristocrata do sul, região em que os fazendeiros já utilizavam da mão de obra remunerada antes da Lei Áurea ser assinada. Hélio Silva (2004) ressalta a vantagem que os cafeicultores paulistas que utilizavam da mão de obra assalariada, tinham sobre os tradicionais escravocratas: No segundo quartel do século 19 inicia-se, em São Paulo, a cultura do café com mão de obra assalariada. Operando em escala de produtividade maior do que os setores escravocratas, imediatamente se transfere para São Paulo o pólo dinâmico da economia brasileira. Esta transferência vai redundar, em última instância, no fortalecimento político deste setor no bloco do poder que mantém o controle do Estado monárquico (SILVA, 2004, p.14). Ressalta-se que a aristocracia nordestina possuía uma mentalidade escravista, enquanto que a aristocracia sulista tinha mentalidade empresarial, burguesa, atendendo às necessidades do mundo contemporâneo da época. Assim, enquanto no nordeste os fazendeiros se dedicavam às suas terras utilizando mão de obra escrava, os sulistas se desprendiam desse tipo de produção. Muitas mudanças ocorreram na economia que se diversificava, abrindo espaço para diversificações nas camadas urbanas: Ao lado das categorias ligadas aos empreendimentos industriais, surgiam outros grupos, representantes do que se poderia chamar pequena e média burguesia. Tratava-se de elementos ligados às atividades mercantis, às profissões liberais, à administração pública, aos meios de transporte, aos bancos etc., cujo número crescia progressivamente, dando origem a uma população urbana (COSTA, 1999, p.465). 1.3 Proclamação da República O Brasil passou por diversas transformações econômicas e sociais no Segundo Reinado, além de um processo de modernização, de urbanização e o surgimento de uma nova aristocracia; a aristocracia cafeeira do Oeste Paulista. Os interesses da aristocracia cafeeira se chocavam com os da antiga aristocracia escravista, levando a sociedade à contradição entre os velhos e novos valores. Como visto anteriormente, se antes a elite escravocrata dominava a política, agora, após a abolição da escravidão, as classes que tinham os negros como suporte de seu prestígio já não possuíam o mesmo valor na sociedade: Na Monarquia eram ainda os fazendeiros escravocratas e eram filhos de fazendeiros, educados nas profissões liberais, quem monopolizava a política, elegendo-se ou fazendo eleger seus candidatos, dominando os parlamentos, os ministérios, em geral todas as posições de mando, e fundando a estabilidade das instituições nesse incontestado domínio. Tão incontestado, em realidade, que muitos representantes da classe dos antigos senhores puderam, com freqüência, dar-se ao luxo de inclinações antitradicionalistas e mesmo de empreender alguns dos mais importantes movimentos liberais que já se operaram em todo o curso de nossa história. A eles, de certo modo, também se deve o bom êxito de progressos materiais que tenderiam a arruinar a situação tradicional, minando aos poucos o prestígio de sua classe e o principal esteio em que descansava esse prestígio, ou seja, o trabalho escravo (HOLLANDA, 1995, p.37). Portanto, a Crise do Império e a Proclamação da República podem ser consideradas as consequências das mudanças econômicas e sociais ocorridas no país. Além da abolição da escravidão, outros fatores como a questão militar e a questão religiosa influenciaram na queda do Império Brasileiro. Tratando-se da questão religiosa, a Igreja era submissa ao Estado pela primeira Constituição, de 1824. O imperador tinha o direito de intervir em situações como nomeação de sacerdotes, preenchimento de cargos eclesiásticos, e criação de igrejas. Além disso, qualquer atitude do Vaticano dirigida ao Brasil, só poderia entrar em vigor após consentimento imperial. Isso influenciou a necessidade da separação entre Igreja e Estado. O exército brasileiro participou de um grande confronto na América Latina; a Guerra do Paraguai (1864-1870), sendo fundamental para a vitória brasileira. Durante a guerra o exército foi de suma importância para a vitória brasileira, mas findada a guerra os militares foram colocados em segundo plano pelo Estado. Os militares pediam maior participação na vida política do Brasil, originando a luta entre o militar e o político civil: “Inicia-se então uma luta entre o militar e o político civil, definida como uma luta entre o ‘Homem-de-farda’ e o ‘Homem-de-casaca’”(BASTOS; SILVA, 1976, p.152). O Império já estava enfraquecido perante a sociedade devido a sua incapacidade de solucionar os novos problemas da nação, assim como sua incapacidade de permanecer no país juntamente com a modernidade e a industrialização. Sem apoio da Igreja e da elite que agora eram em maioria os cafeicultores paulistas, o país deixou de ser governado pelo Império. Da união da aristocracia cafeeira com militares e outros grupos que clamavam pelo poder, nasceu a República brasileira. Em relação ao setor dos cafeicultores paulistas; “Fortalecido, este setor passou a lutar por sua hegemonia no bloco, buscando para isso o apoio de outras classes e frações que não participavam do poder (SILVA, 2004, p.14). Após golpe militar liderado por Deodoro da Fonseca, no dia 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República: “Na tarde do dia 15 de novembro, reuniram-se na Câmara do Rio de Janeiro alguns republicanos civis, entre eles José do Patrocínio e Lopes Trovão; e assim foi redigida a Ata da Proclamação” (BASTOS, SILVA, 1976, p.158). O início da República no Brasil é chamado República Velha (1889-1930), e divide-se em República da Espada (18891894) e República das Oligarquias (1894-1930). Proclamada a República, o Brasil foi governado primeiramente pelo eleito Presidente Prudente de Moraes, e depois pelo Marechal Deodoro da Fonseca, e em seguida pelo Marechal Floriano Peixoto, constituindo a República da Espada. Em seguida o país foi liderado por elementos da classe dominante, proprietários de terra, formando a República das Oligarquias, que vai da eleição de Prudente de Moraes até a Revolução de 1930 sob liderança de Getúlio Vargas. Assim, temos os principais fatos históricos ocorridos em fins do século XIX, obtendo os subsídios necessários para compreender a situação econômica, política e social do país naquele período, inclusive no que diz respeito a figura do negro no Brasil, após muitos anos de exploração do trabalho escravo. CAPÍTULO 2 O ROMANCE “BOM-CRIOULO” E A HISTÓRIA CULTURAL Após realizada breve análise dos principais fatos históricos ocorridos no Brasil em fins do século XIX, é possível que tenhamos as ferramentas necessárias para compreender um indivíduo da época, como o escritor Adolfo Caminha, podendo assim, aprofundar os conhecimentos à respeito de sua obra “Bom-crioulo” e os conceitos transmitidos por ele na mesma. Este capítulo objetiva a análise da obra “Bom-crioulo”, em busca de maior compreensão da mesma, procurando a imagem do negro no romance de Caminha, para a seguir, utilizá-la como fonte documental para análise da figura do negro relacionada ao homossexualismo exposto pelo autor Adolfo Caminha. Dessa forma, se faz uso da História Cultural, buscando complementar os conhecimentos à respeito da sociedade através das artes, no caso, a arte literária. A literatura do período (fins do século XIX) é chamada de Realista, por retratar através da ficção, fatos da realidade do cotidiano da sociedade brasileira. Devido as obras literárias realistas trazerem consigo elementos reais em meio a ficção, nota-se que podem ser utilizadas para estudo de diversos temas, como o homossexualismo e o negro em fins do século XIX. 2.1 Literatura e historiografia A principal função da história é estabelecer relações entre o presente e o passado, oferecendo ao historiador temas como fatos ocorridos, os impactos que tiveram na sociedade de seu tempo, e os efeitos sentidos na atualidade que foram causados por acontecimentos passados. Em suma, estudar história é uma atividade que vai além de absorver informações sobre o passado; é analisá-las em seu contexto, buscando a finalidade dos documentos, assim como sua atuação no passado e no presente. O principal objeto de estudo da história é o documento histórico, sendo este qualquer material que permita um diálogo com o passado e que proporcione interesse para quem o analisa; “Um documento é dado como documento histórico em função de uma determinada visão de época [...] o documento existe em relação ao meio social que o conserva” (KARNAL; TATSCH in LUCCA; PINSKI, 2009, p.21). A cultura que envolve os fatos ocorridos e a sociedade em que ocorreram, é algo determinante para o enriquecimento do estudo histórico. Para Burke, “a ideia de cultura implica a ideia de tradição, de certos tipos de conhecimentos e habilidades legados por uma geração para a seguinte [...]”(BURKE, 2008, p.38-39). A História Cultural é uma parte da história, que pode ser utilizada na compreensão da história total, como afirma Burke: “É simplesmente uma parte necessária do empreendimento histórico coletivo[...] essa abordagem com o passado dá uma contribuição indispensável à nossa visão da história como um todo, ‘história total’, como dizem os franceses” (BURKE, 2008, p.163). As produções culturais do ser humano, trazem consigo suas características e as características de tempo e espaço que o envolvem, sendo então, uma grande fonte de informações. Segundo Magalhães (2012), o reconhecimento e a utilização da História Cultural ocorreram graças ao pensamento moderno. Antes disso, os fatores históricos eram tidos apenas por meio de fatores políticos, diplomáticos e bélicos. Magalhães (2012) ainda afirma que no ano de 1929, a Escola dos Annales, importante centro de estudo e propagação da História, promoveu a integração dos fatores políticos, diplomáticos e bélicos com as ciências humanas sociais na formação do conhecimento histórico, realizando uma revolução documental. Os documentos que antes não tinham valor para estudo foram valorizados, dentre eles a música, a literatura, peças teatrais, pinturas, dentre outros. A partir da década de 1980, novos métodos na historiografia facilitaram o estudo da História Contemporânea, ocasionando a chamada “linguistic turn”, ou “virada cultural”, como exemplifica Burke: No caso da história, alguns acadêmicos que construíram sua reputação escrevendo história política, como John Elliott em seu Revolt of the Catalans [1963], deram uma virada cultural; Elliott, em particular, o fez colaborando com um historiador da arte, Jonathan Brown, em A Palace for a King [1980], um estudo sobre a construção e a decoração do palácio Buen Retiro, perto de Madri, como local de exibição do poder dos Habsburgo (BURKE, 2008, p.45). Através do estudo realizado, pode-se afirmar que a História Cultural possui grande valor em âmbito acadêmico, pois através dela é possível que se tenha uma visão mais ampla sobre determinado tema, podendo servir de complemento para a “história total”. A literatura como produção artística humana, pode ser uma grande fonte de História Cultural, trazendo informações históricas em meio a ficção. Para um maior conhecimento do objeto de estudo, o historiador pode recorrer a diferentes fontes documentais, como obras literárias. A literatura é uma forma de expressão da sociedade, que traz consigo seus conflitos, e traços de todo o contexto em que foi criada. Pode-se utilizar da pergunta feita por Leennhardt e Pesavento; “Ler a história como literatura, ver na literatura a história se escrevendo, isto é possível?” (LEENNHARDT; PESAVENTO, 1998, p.9). Estudos de literatura e história têm em comum a textualidade em que são apresentados, mas enquanto a literatura tem espaço para usar-se da ficção, a história se baseia em acontecimentos que fazem ou que fizeram parte da humanidade. Segundo Aristóteles: Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que, bem poderiam ser postas em versos as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser História, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro, as que poderiam suceder (ARISTÓTELES, 1953, p.451). Sendo assim, a literatura é uma produção humana, através da qual o homem reproduz traços de seu mundo, sua sociedade, seu eu. A literatura é uma arte produzida pela humanidade desde a Antiguidade, sendo continuamente transformada conforme a sociedade e a época em que se encontra; [...] nas últimas décadas os textos literários passaram a ser vistos pelos historiadores como materiais propícios a múltiplas leituras, especialmente por sua riqueza de significados para o entendimento do universo cultural, dos valores sociais e das experiências subjetivas de homens e mulheres no tempo (FERREIRA apud LUCCA; PINSKI, 2009, p.61). Portanto, é possível utilizar a literatura para o conhecimento da história, e como o fator destacado acima por Ferreira (2009), a literatura pode transmitir ao leitor dados da história cultural em que a obra foi criada. Até mesmo no ensino de História, a literatura é valorizada por muitos como Leandro Karnal, que considera essa arte como uma forma de vencer os limites impostos pelos textos didáticos: “Também tem me incomodado a ideia de que os textos didáticos apresentam cada vez menos cuidado com a escrita e cada vez mais síntese de conteúdo, sendo, por isso mesmo, textos frios. O uso da literatura pode ser uma superação dessa limitação”(KARNAL, 2010, p. 136). A literatura, apresentando a história cultural de um povo e de uma época pode não ser ampla o suficiente para ser o único objeto de estudo em uma pesquisa, mas contribui como complemento de outras fontes. Como diz Burke: ...na verdade, não acredito que a história cultural seja a melhor forma de história. É simplesmente uma parte necessária do empreendimento histórico coletivo. Com suas vizinhas – história econômica, política, intelectual, social e assim por diante –, essa abordagem do passado dá uma contribuição indispensável à nossa visão da história como um todo, “história total”, como dizem os franceses (BURKE, 2008, p.163). Sendo assim, a literatura é um grande campo de estudos para o historiador; em seu mundo de ficção traz consigo características da realidade da sociedade nas quais as obras foram criadas, assim como características pessoais de seu autor, como na obra literária “Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha. Alfredo Bosi discute sobre a importância da literatura para a História, e a sua utilização pelo historiador moderno como forma de aprofundar seus conhecimentos: O historiador moderno, particularmente o historiador das colônias [...] desejaria ir mais fundo, isto é, estudar e conhecer as motivações internas, a sensibilidade; tudo quanto faz com que o ser humano seja essa coisa plástica, imprevisível, que a historiografia sociológica e a historiografia economicista reduziram a certos parâmetros. [...] Este momento é meio embriagador; embriagador no sentido de se tentar o enriquecimento dos conteúdos, o aprofundamento até o nível da sensibilidade, aquele nível que é tratado normalmente pela psicologia, pela psicanálise, pela antropologia. Esse nível é também o nível ficcional [...] se ele quer comprovar que realmente no século XVII havia tais e tais tendências no campo da afetividade, ele vai à literatura e tira dela os testemunhos que lhe interessam, para compor uma história complexa, rica, que abrace o externo mas também o interno (BOSI, 1993, p.139). “Bom-Crioulo” é uma obra literária do Realismo, seguindo a tendência do Naturalismo. O Realismo, como o nome já diz, aborda a realidade da sociedade, tratando de temas comuns da maneira como eles ocorrem no dia a dia. Tal período literário se iniciou no século XIX, época em que o Brasil passou por importantes mudanças, como a abolição dos escravos, o fim do Imperialismo e início da República, dentre outros fatos envolvidos no contexto da realidade da sociedade brasileira, como alguns dos apresentados por Alfredo Bosi: De fato, a partir da extinção do tráfico, em 1850, acelerara-se a decadência da economia açucareira; o deslocar-se do eixo de prestígio para o Sul e os anseios das classes médias urbanas compunham um quadro novo para a nação, propício ao fermento de ideias liberais, abolicionistas e republicanas [...] Os anos 60 tinham sido fecundos como preparação de uma ruptura mental com o regime escravocrata e as instituições políticas que o sustentavam (BOSI, 2006, p.163). O Naturalismo foi uma tendência que se desenvolveu a partir do Realismo, e aborda o comportamento humano como fruto de suas características biológicas; “... no interior do movimento Realista podemos distinguir uma tendência chamada ‘Naturalismo’, que via o comportamento humano como uma reação condicionada pela influência do meio social e pelas características físicas e psicológicas hereditárias” (SARMENTO, 2004, p.95). Obras literárias podem trazer traços da realidade de um povo em uma época. Tratandose do período Imperialista até o nascimento da República brasileira, é possível analisar nesse espaço-tempo diversos temas, dentre eles o homossexualismo e sua relação com o negro na sociedade brasileira em fins do século XIX, dentre outros fatores, o que será feito a seguir nesta pesquisa. 2.2 Um percurso no enredo do romance “Bom-Crioulo” O romance “Bom-Crioulo” foi publicado por Adolfo Caminha em janeiro de 1895. Segundo a cronologia do autor apresentada (CAMINHA, 2006, p.121-122) Adolfo Caminha, autor da obra “Bom Crioulo” nasceu em 1867, no município de Aracati, no Ceará. Em 1883, contando com 16 anos Caminha mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Naval. Em 1886 viajou para os Estados Unidos e Antilhas na Marinha de Guerra, tornou-se segundotenente em 1888, voltou para o Ceará e foi protagonista de um grande escândalo: apaixonouse pela esposa de um oficial da Marinha, ela abandonou o marido e foi morar com Caminha. Devido a esse fato, Caminha foi expulso da Marinha Brasileira. Em 1890 passou a trabalhar na Tesouraria da Fazenda, sendo transferido em 1893 para o Rio de Janeiro. Faleceu vítima de tuberculose com 29 anos, em 1897. Caminha presenciou o acontecimento de fatos históricos, como a libertação dos escravos, que se iniciou no Ceará em 1884 quando ele tinha 17 anos e a proclamação da República, em 1889. O autor escreveu várias obras, como “No país dos ianques”, “A normalista”, “O cortiço”, “Cartas literárias”, a obra em análise “BomCrioulo”, e outras. A obra em análise se desenvolve de maneira detalhada. Em 12 capítulos o narrador descreve os fatos ocorridos e faz uma pausa para explicar o motivo de seu acontecimento. Diante da narrativa, podem-se destacar como personagens principais, Amaro, Aleixo e Dona Carolina. O enredo ocorre no período do Imperialismo, após a abolição da escravatura. No entanto, o período antes a abolição é mencionado quando é apresentada a história do personagem principal. O personagem, negro, passou por várias dificuldades devido a escravidão, fase da História do Brasil em que os negros quando em fuga eram caçados como animais como é mencionado neste trecho: Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando BomCrioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, [...] ignorando as dificuldades por que passa todo homem de cor num meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte – ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas consequências da fuga. Nesse tempo, o “negro fugido” aterrava as populações de um modo fantástico. Dava-se caça ao escravo como animais, de espora e garrucha, mato a dentro, saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando montanhas... (CAMINHA, 2006, p.24). Caminha inicia com a descrição da corveta – ou pequeno navio. Nessa corveta trabalham homens que servem à Marinha brasileira. Dentre eles encontra-se um homem com cerca de 30 anos, o negro e ex-escravo Amaro, mais chamado de Bom-Crioulo, destacando-se dentre os colegas devido sua cor, sua força e seu corpo alto e forte: Dias e dias correram. A bordo, todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o vira, nu, uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-se num banho salgado – foi um clamor! Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, o quadril, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma ideia de força física sobre-humana [...] Desde então Bom-Crioulo passou a ser considerado um ‘homem perigoso’... (CAMINHA, 2006, p.28). Bom-Crioulo tinha dificuldade em se relacionar com mulheres, não se sentia atraído por mulher alguma, e após duas tentativas de ter relações sexuais com mulheres se frustrou e não pensou mais nisso. Logo no início da narrativa Bom-Crioulo conhece Aleixo, um rapaz de boa aparência. Aleixo destacava-se entre os demais por sua beleza e juventude. O narrador apresenta-o durante toda obra como um menino ingênuo, inocente, humilde; ... com um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos. Era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito assentar praça em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho (CAMINHA, 2006, p.31). O jovem grumete de 15 anos, branco e de olhos azuis encanta Bom-Crioulo à primeira vista: Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho (CAMINHA, 2006, p.30). Pode-se notar o grande contraste entre negro e branco na descrição dos personagens principais; Amaro, era forte e negro, já Aleixo, branco, louro dos olhos claros, repetidamente adjetivado de “bonito” durante a narrativa. Bom-Crioulo se aproximou do rapaz e se tornaram amigos. Aleixo deixou o negro excitado como nenhuma mulher o deixara antes, e então Bom-Crioulo contou seus desejos para Aleixo, e o rapaz, deixando-se levar por um senso de aventura, se entregou, e eles tiveram sua primeira relação sexual: Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade... __ Ande logo! Murmurou apressadamente, voltando-se. E consumou-se o delito contra a natureza (CAMINHA, 2006, p.43). Amaro e Aleixo se tornaram íntimos, e quando a corveta chegou à terra, no Rio de Janeiro, alugaram um quarto na pensão de Dona Carolina, na Rua da Misericórdia: D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de ‘certa ordem’, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor, e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito (CAMINHA, 2006, p.50). Dona Carolina era gorda, “meio idosa” e muito branca. Era uma velha amiga de Amaro, já havia alugado um quarto para o negro em outra ocasião. Tinha relações sexuais vez ou outra com o açougueiro que em troca trazia carne para sua pensão. Na pensão de D. Carolina Amaro e Aleixo se encontravam e repousavam na mesma cama em todos os dias de folga. A situação dos amantes se tornou esta: durante o trabalho se viam como amigos no navio, e nos dias de folga se entregavam à luxúria em seu quarto na pensão: “Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona...” (CAMINHA, 2006, p.55). Até que Bom-Crioulo foi mandado para trabalhar em outro navio, e os dois não folgavam mais nos mesmos dias, e assim deixaram de se encontrar na pensão. O jovem Aleixo foi seduzido aos poucos por D. Carolina, a velha portuguesa que queria se envolver com um rapaz jovem e logo se apaixonou pelos olhos azuis de Aleixo. Aleixo não vira Amaro por muito tempo, e se envolveu com D. Carolina, que o conquistou como um homem conquista uma mulher: “Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele se deixava estar imóvel, muito admirado para esta mulherhomem que o queria deflorar ali mesmo, torpemente, como um animal (CAMINHA, 2006, p.68)”. Já envolvido com D. Carolina, Aleixo passou a sentir-se arrependido por ter se envolvido com um homem, um homem bruto e negro como Amaro. Amaro foi impedido de ir à terra pelo comandante do navio, e se desesperou pois estava com muita vontade de ver seu amado, queria por tudo encontrar Aleixo. Fugiu do navio mas não o encontrou na pensão. Achou que Amaro estaria lá, o esperando. Então, movido pela cólera de não encontrar Aleixo, Bom-Crioulo bebeu, envolveu-se em uma briga e como consequência foi castigado à bordo de seu navio com várias chibatadas, devido as quais que teve de ser internado em um hospital para marujos. Por meses não aparecia mais na pensão. Dona Carolina e Aleixo estavam cada vez mais envolvidos, e quanto a Amaro, achavam que ele estava preso, ou que tinha se esquecido do rapaz. No hospital, Bom-Crioulo sentia-se abandonado, tinha medo de Aleixo ter se envolvido com outro homem, e decidiu enviar um bilhete ao amado para que o fosse ver na enfermaria. Quando o bilhete chegou na pensão, foi lido por D. Carolina, que ficou trêmula ao lêlo, temendo o retorno de Amaro, pois se descobrisse que ela e Aleixo estavam vivendo como marido e mulher, poderia matá-los. Quando Aleixo viu o bilhete, ficou receoso, porém não queria deixar D. Carolina. Amaro, ao saber que Aleixo se envolveu com D. Carolina, se enfureceu com a traição, e fugiu da enfermaria. Próximo da pensão, ao encontrar Aleixo na rua, Bom-Crioulo avançou sobre ele como um animal seguindo seus instintos, e o matou: Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, um corpo mole, a cabeça pendida pra trás, roxo, com os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados (CAMINHA, 2006, p.118). Várias pessoas se juntaram ao redor dos marinheiros com curiosidade. Após BomCrioulo ter matado seu amado, foi embora triste do local, as pessoas se espalharam e tudo voltou ao normal: “...a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, té cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém” (CAMINHA, 2006, p.118). Assim o romance se encerra. Em “Bom-Crioulo”, faz-se presente o movimento artístico-cultural Realismo, isto é, sua obra aborda a realidade da sociedade de determinada época. Além disso, segue a tendência do Naturalismo, um movimento literário que aborda o ser humano como fruto de suas características biológicas e resultado do meio social em que vive, como aponta Sarmento “no interior do movimento Realista podemos distinguir uma tendência chamada ‘Naturalismo’, que via o comportamento humano como uma reação condicionada pela influência do meio social e pelas características físicas e psicológicas hereditárias” (SARMENTO, 2004, p.95). Os fatos narrados ocorrem em dois espaços distintos; no mar e na terra, mais precisamente em um navio da Marinha e no Rio de Janeiro. O navio onde a história e o envolvimento entre os personagens Aleixo e Amaro se inicia é chamado de corveta, mas trechos da história acontecem em outro navio, para onde o personagem principal (Amaro) é enviado à serviço da Marinha. No Rio de Janeiro a história se passa em uma pensão na Rua da Misericórdia, onde acontece um relacionamento entre os personagens já citados e entre Aleixo e Dona Carolina, a dona da pensão. O romance termina na mesma rua, com o assassinato de Aleixo em frente à pensão. 2.3“Bom-Crioulo” e a presença do negro na literatura brasileira oitocentista O negro faz parte da sociedade brasileira desde a colonização do Brasil no século XVI, porém, tem presença nas obras literárias somente após a abolição dos escravos. Algo surpreendente, visto que os negros realizavam funções importantes na sociedade desde sua chegada ao país, como afirma Brookshaw (1983). Segundo Brookshaw (1983), assim que o negro passou a ser personagem da literatura brasileira, já foi incluído nesse espaço como um ser estereotipado, cujas características são predefinidas por sua raça, conservando o preconceito racial. Os negros que poderiam ser diferentes às características preestabelecidas, assim o eram por serem considerados como portadores de uma alma branca, ou seja, como se um negro não fosse capaz de apresentar as mesmas características que um branco: [...] a afirmação do eu e a negação do outro, a dialética inerente ao preconceito, permanece intacta. Tampouco rompe a dicotomia o negro que é aceito, pois a personalidade preconceituosa vê nele uma exceção, um “negro com alma branca”, e assim preserva sua noção da categoria do outro (BROOKSHAW, 1983, p. 12). O negro foi inserido na Literatura Brasileira, precisamente em 1856. Época em que a abolição da escravatura ainda não havia sido assinada, mas a escravidão já não era tão presente no país como antes, e a ideia de liberdade aos negros se fazia presente por todo o país. A obra “O Comendador”, de Pinheiro Guimarães, foi a primeira obra a ter um personagem negro, como aponta Bosi (2006). Em seguida, outros romances trataram do negro em seu enredo, como “A Escrava Isaura” de Bernardo Guimarães, “Til” de José de Alencar, “Sítio do Pica-pau Amarelo” dentre outras obras de Monteiro Lobato, “Relíquias de Casa Velha” de Machado de Assis, “BomCrioulo” de Adolfo Caminha, dentre outros. Em todas as obras surgidas em fins do século XIX e início do século XX nas quais o negro se faz presente, o mesmo é tratado pelo branco com preconceito, o que se deve ao domínio que a cultura européia exercia sobre a cultura africana. De acordo com a dominação cultural européia, a cor branca remetia a pureza, enquanto a cor preta ou negra, era sinal de sujeira, imoralidade. Tal contraste fazia com que os negros fossem vistos como seres imorais, já que a “[...] incompatibilidade remota ao simbolismo original inerente às cores, a equação branco-pureza, e portanto moralidade versus preto-perversidade, logo imoralidade” (BROOKSHAW, 1983, p. 17). Adolfo Caminha apresenta o negro como personagem principal em sua obra “Bom-Crioulo”, e lhe remete características homossexuais, como será abordado em seguida. CAPÍTULO 3 SEXUALIDADE, RAÇA E PRECONCEITO Após feita a análise da obra “Bom-Crioulo” no capítulo anterior, é possível constatar que há uma profunda atmosfera erótica envolvendo toda a trama. O principal tema abordado é o homossexualismo, e temos como um segundo tema um triângulo amoroso que envolve dois homens completamente diferentes e uma mulher. O autor apresenta o homossexualismo como uma relação cheia de dificuldades, sendo no início da trama reprimida inutilmente pelo personagem principal: “E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?” (CAMINHA, 2006, p.34). Apesar de a obra tratar o homossexualismo como uma situação repleta de dúvidas e preconceitos, mostra-a como algo comum entre os marinheiros, como nota-se neste trecho que mostra as dúvidas de Amaro quanto ao desejo que sentia por uma pessoa do mesmo sexo: Tudo isso fazia-lhe confusão no espírito, baralhando ideias, repugnando os sentidos, revivendo escrúpulos. – É certo que ele não seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir... Mas – instinto ou falta de hábito – alguma coisa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o convés... (CAMINHA, 2006, p.34). Este capítulo tem como objetivo verificar as relações entre sexualidade e raça existentes na obra “Bom-Crioulo”, considerando o período no qual se encontrava o autor (período que foi retratado no Capítulo I da presente pesquisa), buscando dessa forma, aprofundar os conhecimentos à respeito da ligação entre negro e homossexualismo. 3.1 Sexualidade, repressão e homossexualismo Como aponta Foucault em “História da sexualidade 2” (1984), nas sociedades gregas ou romanas da Antiguidade, o sexo possuía uma imagem positiva, era considerado como fonte de cultura e conhecimento. Há grandes diferenças na imagem do sexo para a Antiguidade (período anterior ao cristianismo), e para a sociedade cristã. A diferença maior é gerada no paganismo e no cristianismo. Enquanto que para o paganismo o sexo era livre, o cristianismo o condenava: [...] o cristianismo o teria associado ao mal, ao pecado, à queda, à morte, ao passo que a Antiguidade o teria dotado de significações positivas. [...] poderse-ia acrescentar o alto valor moral e espiritual que o cristianismo, diferentemente da moral pagã, teria atribuído à abstinência rigorosa, à castidade permanente e à virgindade (FOUCAULT, 1984, p.21). A partir da Idade Média tudo que fosse contrário ao cristianismo romano-latino do Ocidente, era considerado um erro, ou mesmo um pecado. A Igreja Católica era tida como ponto de referência dessa civilização ocidental, ditando leis e costumes a serem seguidos. O sexo foi condenado pela sociedade por muito tempo, principalmente através da intervenção da religião, o que se acentuou no Ocidente. É possível encontrar textos produzidos no início do cristianismo que relacionam as práticas sexuais ao mal, e induzem os jovens a crerem que através da “...perda de sêmen, carregam em todos os hábitos do corpo a marca da caducidade e da velhice; eles se tornam relaxados, sem força, entorpecidos, estúpidos, prostrados, curvados, incapazes de qualquer coisa...” (FOUCAULT, 1984, p.22-23). Até mesmo a exaltação de Maria, mãe de Jesus, que ocorre nas religiões cristãs, está relacionada à sua virgindade, e é utilizada como exemplo para outras mulheres, impondo a virgindade como padrão de dignidade, como aborda Marlise Silva: A figura de Maria, do cristianismo, traz a valorização da mulher, mas não da mulher-fêmea, sem invólucros de santidade. A figura de Maria vem emoldurar o arquétipo da mulher, que sobretudo a sociedade ocidental de tradição cultural judaico-cristã valoriza: a mulher que se funda nos atributos da virgindade, da santidade e da maternidade. Esse arquétipo reafirma as dicotomias que dividem as mulheres em puras e impuras, honestas e desonestas, santas e putas (SILVA, 1992, p.72). Muitos acreditavam que o sexo deveria ser praticado somente para a procriação, com o objetivo de conservar a espécie humana, sendo uma lei da natureza à qual todos os animais, assim como o homem, deveriam seguir. Assim, qualquer prática fora dessa intenção, poderia ser considerada um erro. Todas as expressões que lembrassem o sexo, músicas, desenhos, literaturas, eram oprimidas. Até mesmo falar sobre sexo era difícil, tornando-se um ato censurado principalmente no século XVII, como diz Michel Foucault: ... seria o início de uma época de repressão própria das sociedades chamadas burguesas, e da qual talvez ainda não estivéssemos completamente liberados. Denominar o sexo seria, a partir desse momento, mais difícil e custoso. Como se, para dominá-lo no plano real, tivesse sido necessário primeiro, reduzi-lo ao nível da linguagem, controlar sua livre circulação no discurso, bani-lo das coisas ditas e extinguir as palavras que o tornam presente de maneira demasiado sensível. Dir-se-ia mesmo que essas interdições temiam chamá-lo pelo nome. Sem mesmo ter que dizê-lo, o pudor moderno obteria que não se falasse dele, exclusivamente por intermédio de proibições que se completam mutuamente: mutismos que, de tanto calar-se impõe o silêncio. Censura (FOUCAULT, 1988, p.23). Para Foucault havia uma “hipótese repressiva” (1998, p.21) em relação ao sexo. Tal conceito era denominado de hipótese por ser uma ideia defendida por fatores que estão em constante modificação, que podem se aplicar ou não em determinada época, além de se modificarem por diferentes pontos de vista; e a hipótese foi considerada repressiva devido ao fato de que o sexo passou por várias repressões na humanidade. Tais repressões poderiam estar relacionadas ao poder, sendo que os mecanismos que o possuíam controlavam o sexo na sociedade, para evitar sua prática fora das regras já ditadas pelos que tinham esse poder, como a Igreja, por exemplo. Segundo o autor, a partir do século XVIII, como resposta à grande repressão sobre o tema, a sociedade se deparou com a necessidade de discursar sobre o sexo, levando a valorização do mesmo, gerando a “vontade de saber”, acompanhado de uma intensificação de discursos cada vez maior; Não penso tanto, aqui, na multiplicação provável dos discursos “ilícitos”, discursos de infração que denominam o sexo cruamente por insulto ou zombaria aos novos pudores; o cerceamento das regras de decência provocou, provavelmente, como contra-efeito, uma valorização e uma intensificação do discurso indecente. [...] incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vez mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir falar e a fazê-lo falar ele próprio sob a forma da articulação explícita e do detalhe infinitamente acumulado (FOUCAULT, 1988, p.24). Foucault ainda apresenta como responsável pela proliferação do discurso sobre o sexo, o próprio poder, através da igreja, da escola, da família, e até mesmo do consultório médico. Supõe-se que tais instituições não tinham como objetivo proibir ou reduzir a prática do sexo, mas controlar o indivíduo e a população usando-o como arma, como pode-se observar no seguinte trecho: Através de tais discursos multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões menores, anexou-se a irregularidade sexual à doença mental; da infância à velhice foi definida uma norma do desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizados todos os desvios possíveis; organizaram-se os controles pedagógicos e tratamentos médicos; em torno das mínimas fantasias, os moralistas e, também e sobretudo, os médicos... (FOUFAULT, 1988, p.43). A repressão sobre o sexo ainda acompanha a sociedade moderna devido a valorização ocorrida, sendo que “O que é próprio das sociedades modernas não é o terem condenado, o sexo, a permanecer na obscuridade, mas sim o terem-se devotado a falar dele sempre, valorizando-o como o segredo” (FOUCAULT, 1988, p.42). O conceito de sexo pré-estabelecido pela sociedade se modificou através dos tempos, deixando de ser algo sobre o qual era imoral se comentar, para se tornar algo sujeito a um discurso aberto. Porém, ciência e religião definiram o sexo ou a relação sexual como uma atitude a ser praticada por dois seres de sexos diferentes, sendo um macho e uma fêmea, como aponta Foucault sobre as mudanças ocorridas em relação ao sexo nos séculos XVIII e XIX: “Em primeiro lugar, um movimento centrífugo em relação à monogamia heterossexual. Evidentemente, o campo das práticas e dos prazeres continua a apontá-lo como sua regra interna” (FOUCAULT, 1988, p.45). Assim, o que se distanciasse desse padrão, poderia ser considerado anormal, ou “contra-natureza”; “... o que se interroga é a sexualidade das crianças, a dos loucos e dos criminosos; é o prazer dos que não amam o outro sexo; os devaneios, as obsessões, as pequenas manias ou as grandes raivas” (FOUCAULT, 1988, p.46). A repressão da sociedade – principalmente oriunda do poder – se enfocam no controle do sexo, reprimindo com maior intensidade tudo o que for considerado como anormal. Entre as situações consideradas anormais no campo do sexo, e reprimidas pelo poder, destaca-se o homossexualismo. O homossexualismo pode ser definido como uma relação sexual e/ou afetiva entre indivíduos do mesmo sexo. O tema é um grande tabu para a sociedade moderna, apesar de estar presente na história da humanidade desde seus primórdios. Assim como já fora apresentado através da perspectiva de Michel Foucault, o sexo ganhou grande espaço no discurso, é propagado com demasiada atenção, como um “segredo” que deve ser propagado para que seja conservado, merecendo especial atenção. Acompanhando o sexo, o homossexualismo é visto como imoral por muitos, e algo pecaminoso pelo cristianismo. Mas essa aversão ao homossexualismo não existia na Antiguidade. Em povos como Grécia e Roma, o homossexualismo era algo comum e aceitável. Foucault abrange o tema em “Uma relação problemática” (FOUCAULT, 1984, p.237), um dos textos de sua obra “História da Sexualidade 2”. Para Foucault, ao se tratar da homossexualidade nos gregos, é necessário que saibamos que para eles o termo “homossexualismo” não se apresentava com grande destaque, pois possuíam um sistema diferente do nosso: De fato, a noção de homossexualidade é bem pouco adequada para recobrir uma experiência, formas de valorização e um sistema de recortes tão diferentes do nosso. Os gregos não opunham, como duas escolhas excludentes, como dois tipos de comportamento radicalmente diferentes, o amor ao seu próprio sexo e ao amor pelo sexo oposto. As linhas de demarcação não seguiam uma tal fronteira (FOUCAULT, 1984, p.237). Como aborda Foucault (1984), as mulheres eram consideradas na cultura grega, como inferiores aos homens. Os homens gregos tinham portanto, maior prestígio que as mulheres, e para sua sociedade era normal que se relacionassem com outros homens e com outras mulheres, sendo que o homossexualismo entre homens era considerado algo normal, mas a mesma atitude entre mulheres era vista com rejeição. Na cultura grega, usado como fonte de sabedoria, o sexo entre dois homens deveria realizado entre dois que tivessem idades diferentes, sendo que o mais jovem seria penetrado pelo mais velho, para que seu conhecimento e suas qualidades lhes fossem transmitidas através de seu sêmen. Além dos jovens, os homens mais velhos poderiam ter relações sexuais com mulheres e escravos. Na concepção grega, a prática do sexo com homens e com mulheres, não era considerada o que é para nós a bissexualidade, ao menos não no sentido que atribuímos à palavra, como explica Foucault: Bissexualidade dos gregos? Se quisermos dizer com isso que um grego podia, simultânea ou alternadamente, amar um rapaz ou uma moça [...] então, pode-se muito bem dizer que eles eram “bissexuais”. Mas se quisermos prestar atenção à maneira pela qual eles refletiam sobre essa dupla prática, convém observar que eles não reconheciam nela duas espécies de “desejos”, “duas pulsões”, diferentes ou concorrentes, compartilhando o coração dos homens ou seus apetites (FOUCAULT, 1984, p.238). O termo “bissexualidade” se aplica aos gregos no que se refere a sua livre escolha entre os dois sexos, que seria somente o resultado do desejo sexual de cada um, qualquer que seja o sexo do indivíduo desejado, ou dos que se desejam. Os gregos reconheciam que o sexo entre pessoas de sexos diferentes era algo natural, que poderia ser usado para a procriação, mas não desmoralizavam o homossexualismo, como defendido por Platão: ... Platão opõe muito claramente a relação “conforme a natureza”, que liga o homem e a mulher para os fins da geração e a relação “antinatural” do macho com o macho, da fêmea com a fêmea. Entretanto, essa oposição, por mais que seja marcada em termos de natureza, é referida por Platão à distinção mais fundamental entre a continência e a incontinência: as práticas que contravêm à natureza e ao princípio da procriação não são explicadas como efeito de uma natureza anormal ou de uma forma particular de desejo; elas nada mais são do que a consequência do desmesurado: “é a intemperança no prazer” que está na sua origem (FOUCAULT, 1982, p.58). Através do cristianismo, dentre outros fatores, até mesmo em países onde antes a homossexualidade não encontrava repressão, esta passou a ser tida como um grande pecado. A Igreja afirmava que o sexo deveria ser praticado somente para fins de reprodução. Enquanto isso, na América Latina, o homossexualismo era existente antes da chegada dos europeus, presente nas tribos indígenas, como aponta o Professor Luiz Mott: Também entre os aborígenes do Brasil e das partes mais meridionais da América do Sul abundam evidências de que os amores homossexuais faziam parte das alternativas eróticas socialmente aceitáveis antes da chegada dos conquistadores portugueses. Entre os Tupinambá, que ocupavam a maior parte da costa brasileira, os índios gays eram chamados de tibira, e as lésbicas de çacoaimbeguira (MOTT, 1994, p.4). Por meio do domínio europeu, que trouxe consigo sua cultura e religião, as sociedades do Ocidente que mantinham a homossexualidade livre, tiveram-na reprimida. A Igreja, como poder maior na colônia brasileira, realizava seus julgamentos, sendo muitos resultantes em mortes, que condenavam os considerados “atos imorais”, fora do padrão pré-estabelecido pelo clero: Eram os visitadores da Igreja ou os arautos do Santo Ofício que anunciavam, à porta das igrejas, nos domingos e dias santificados, quais condutas deviam ser delatadas às autoridades. Mas era a população colonial, livre ou escrava, branca ou mestiça, rica ou desvalida, que, por medo do Poder ou dele cúmplice, acorria a delatar vizinhos, parentes, desafetos, rivais. Fazia-o _ e isto é o que mais importa frisar _, porque todos estavam sempre a se vigiar mutuamente, murmurando sobre a vida alheia, mexericando sobre o que viam ou ouviam, favorecidos pela escassa privacidade que caracterizava a vida íntima de cada um (VAINFAS, 2007, p.228). Como fora abordado por Vainfas acima, o “Poder” estava sempre incentivando as denúncias à respeito das relações sexuais consideradas ilícitas. Diante desse fato, faz-se necessário retornar à “hipótese repressiva” levantada por Michel Foucault (1998, p.21), onde o sexo é dominado pelo poder, sendo forçado a cumprir suas regras. Os europeus que viviam no Brasil, assumindo poder superior aos índios e logicamente, aos seus escravos, usavam-nos como agentes passivos em práticas homossexuais, como levantado por Clóvis Moura: Favorecido pela imensidão das terras e pela falta de controle policial e moral beneficiados com a situação que conferia ao branco o direito legítimo de usar (e abusar) dos negros e índios escravos, e finalmente considerando o desequilíbrio dos sexos, o Brasil era ambiente favorável ao desenvolvimento do homossexualismo (MOURA, 2004, p.191). Para outros estudiosos, a repressão em relação ao homossexualismo é tida como uma relação de poder e controle, assumindo a posição política acima de qualquer religião, como afirma Spencer: O historiador da corte de Justiniano, Procópio, alegava que a motivação dessa legislação (impopular e que pouco fez para deter o comportamento homossexual) era política e não religiosa, já que prisões sob essa acusação eram um método conveniente para afastar pessoas indesejáveis (SPENCER, 1999, p.74). Na obra “Bom-Crioulo”, o homossexualismo é por muitas vezes discriminado pelo narrador, que o mostra como um ato sujo, pecaminoso, contra a natureza, como na passagem em que os personagens Amaro e Aleixo tem sua primeira relação sexual: “E consumou-se o delito contra a natureza” (CAMINHA, 2006, p.43). Na atualidade, se discute se o homossexualismo surge como um desvio do comportamento, ou se ele é pré-definido ainda na formação uterina do indivíduo, devido a carga de hormônios que ele recebe. Muitos acreditam que o homossexualismo é natural até mesmo na natureza, como o biólogo Bruce Bagemihl, que ...publicou este ano em seu livro ‘Biological Exuberance – Animal Homossexuality and Natural Diversity’ [Exuberância Animal – Homossexualidade Animal e Diversidade Natural] onde apresentou provas mais do que convincentes e irrefutáveis de que existe homossexualidade e vasta diversidade de comportamento sexual entre os bichos (BRITO, 2000, p.48). Na procriação, como afirma Spencer (1999), há muitos animais que recorrem ao homossexualismo devido ao excesso de sêmen, já que em muitas espécies os machos são selecionados para acasalarem com as fêmeas, e os que são rejeitados por motivos de porte físico, idade ou por outro motivo, necessitam liberar o excesso de sêmen, que é produzido continuamente, através de “... atividades homossexuais, heterossexuais, exibicionista e masturbatórias” (SPENCER, 1999, p.17). A preferência do indivíduo por outro do mesmo sexo deve ser considerada em seu contexto global, incluindo fatores políticos e sociais, tendo o ser humano como um ser total, pois o mesmo não deve ser definido apenas pela sua opção sexual, mas sim como um ser humano comum, como qualquer outro, assim como defende Vidal: Isto é, o ser humano deve ser visto como um ser total e não apenas voltado para o sentido sexual, afinal o ser humano não se define apenas e somente a partir de sua forma de expressar sua sexualidade: é alguém completo, total, um ser portador de desejos, vontades, vida e sonhos, e não apenas sua forma de ser e se comportar sexualmente (VIDAL apud MENDES, 2007, p.252). 3.2 A associação de homossexualismo ao negro escravo como forma de preconceito O negro foi desumanizado desde sua chegada na colônia, em tempos de escravidão, e discriminado pelos brancos. O homossexualismo esteve presente como uma atitude livre em diferentes povos, em diferentes culturas, inclusive em povos indígenas no Brasil como fora discutido, porém, após a colonização portuguesa, os brancos sendo os donos do poder impunham seu regime sob índios e negros escravos. Do século XVI até o século XIX, vários negros oriundos de diferentes países africanos, foram trazidos ao Brasil como escravos. Tais negros traziam consigo sua cultura, sendo que os países africanos possuíam cultura diversificada. Para alguns países africanos, como o Congo e a Angola, relação sexual com indivíduos do mesmo sexo era algo comum, e tal relação não apresentava-se como pecaminosa como defendia o regime da colônia a qual eles seriam destinados a servir, como aponta Moura: “O autor da História Geral das Guerras Angolanas revela que ‘há entre os gentios de Angola muita sodomia, tendo uns com os outros suas imundícies e sujidades, vestindo como mulheres...’” (MOURA, 2004, p.191). O arqueólogo Pedro Funari, também aborda o fato, reforçando que para os negros, manter relação sexual com pessoas do mesmo sexo era algo normal: Não havia homossexualidade nessa época. Manter relações sexuais com homens e mulheres não indicava opção sexual. Na África, entre o Congo e Angola, a relação sexual de homens com homens era comum e nada tinha de homossexual (FUNARI apud FIUZA, 2009, p.1). Quando Funari diz que não havia homossexualidade, se refere ao preconceito, e a demasiada atenção que era dada a tal prática, de forma que para os africanos tais conceitos eram nulos. Muitos europeus ao chegarem nas terras africanas, se depararam com homens que se vestiam como mulheres, tinham um parceiro como marido, e praticavam sexo com ele: Essas práticas por parte de negros angolanos são confirmadas por missionários como Fernão Guerreiro, quando estiveram em Angola [...] Acharam os padres por aqui, muitos a que chamam chibados (ou chibandos), que são grandíssimos feiticeiros, e sendo homens andam vestidos de mulheres, e tapados de contínuos (embuçados)[...] e tem maridos como mulheres (MOURA, 2004, p.192). Além de trazer em sua cultura a liberdade para o homossexualismo, muitos negros se vestiam como mulheres, denominados na atualidade como travestis. Em uma terra dominada pela Igreja Católica, um homem vestido de mulher era algo inusitado, diferente, sendo que esta atitude foi tomada primeiramente por um negro: “O primeiro homossexual travesti que temos notícias no Brasil foi um negro natural do Congo, Francisco Manicongo, escravo de um sapateiro, residente em Salvador, denunciado na Visitação de 1591” (MOTT, 1994, p.8). Este fato pode ter reforçado ainda mais a imagem entre homossexualismo e negros, imagem já defendida por muitos que conheciam pouco da cultura africana, como os brancos que estiveram na África. A discriminação que partia do branco para o negro é visível até mesmo nas condenações pela Santa Inquisição. No Brasil, em período colonial, os julgados por praticarem o homossexualismo ou sodomia, não eram condenados à morte na fogueira ou de outra forma. Mas alguns tiveram esse fim, e dentre esses poucos homossexuais, estavam um índio e um negro; Embora nenhum sodomita destes presos pelo Santo Ofício tenha sido condenado à morte na fogueira, há registro da execução de dois homossexuais no Brasil colonial: em 1613, em São Luís do Maranhão, por ordem dos invasores franceses, instigados pelos missionários capuchinhos, um índio Tupinambá, publicamente infamado e reconhecido como tibira, foi amarrado na boca de um canhão sendo seu corpo estralhaçado com o estourar do morteiro, “para purificar a terra de suas maldades”. Em 1678, um segundo mártir homossexual é executado na Capitania de Sergipe del Rei: um jovem negro, escravo, “foi morto de açoites por ter cometido o pecado de sodomia” (MOTT, 1994, p.7-8). Ressalta-se que a prática homossexual sempre foi praticada por diferentes povos, inclusive entre os brancos europeus, mesmo que sob censura do poder da Igreja. Assim, muitos brancos usavam seus escravos como parceiros sexuais: Acostumados a ver nos escravos bens pessoais, os senhores, mesmo que pobres, estendiam seu senhorio à esfera sexual, de maneira que não seria exagero dizer que a escravidão não raro implicava a possibilidade do concubinato, de chamegos entre amos e cativas, e por vezes de relações homossexuais com os cativos, segundo indica Luiz Mott em estudo sobre a sodomia entre senhores e escravos (VAINFAS, 2007, p.234). Os negros foram tratados com escravos até sua libertação. Como escravos, deveriam satisfazer a vontade de seus donos, fossem elas o trabalho braçal ou outra como os prazeres sexuais. O negro era tratado como um objeto, e ao serem julgados como homossexuais poderiam ser considerados como um objeto que perdera o valor: Como se vê, os senhores de valia, ao praticarem o homossexualismo eram denunciados, punidos e a sua propriedade confiscada. Quanto aos negros escravos, ao serem denunciados pela mesma prática, por serem mercadorias, mesmo quando pertenciam à Igreja, eram vendidos como um objeto de uso desvalorizado (MOURA, 2004, p.192). Pode-se afirmar, que o homossexualismo, embora não seja exclusivamente praticado pelos negros, foi ligado à sua imagem durante o período da escravidão no Brasil, mesmo sendo praticado também por brancos: De acordo com os processos, de um total de 135 sodomias, foi possível identificar a cor de apenas 67: quarenta brancos, dez mulatos, seis pretos, quatro mamelucos, três índios, três morenos e um mourisco. O pequeno número de relações intra-raciais entre sodomitas de cor é explicado, por Luiz Mott, pelo menor controle social a que essas populações subalternas estavam sujeitas (MOURA, 2004, p.191). Devido ao fato de ser um ato considerado por muitos como pecaminoso, o homossexualismo esteve ligado à imagem do negro como forma de preconceito, que resultava da união de suas raízes culturais à discriminação por sua cor. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da presente pesquisa é possível concluir que as produções artísticas trazem consigo características do ambiente em que foram criadas, mantendo importantes traços de sua sociedade natal. Tempo, espaço, cultura, dentre outras características, podem compor a produção artística, fazendo com que ela se torne, além de uma arte, uma importante fonte de conhecimentos históricos. A História Cultural se faz a partir desse contexto, em que se buscam conhecimentos que podem estabelecer relações entre presente e passado, complementando os conhecimentos adquiridos a partir do chamado “documento histórico”. Sendo assim, a literatura pode nos trazer importantes informações a respeito da sociedade de determinado período, reforçando e complementando os conhecimentos históricos, e em muitos casos, auxiliando na compreensão dos mesmos. O romance “BomCrioulo” de Adolfo Caminha, escrito em 1895, é uma importante fonte de História Cultural, pois retrata o meio em que o autor viveu, e aborda a homossexualidade, que na obra é praticada entre um negro e um branco. No Brasil, desde sua colonização o homossexualismo é visto com grande rejeição pela sociedade, inclusive no período histórico foco da pesquisa. A cultura do país se formou a partir de várias outras, como a de povos africanos que foram escravizados, a dos indígenas que já habitavam o país, e a dos europeus. No que se refere ao sexo, em meio a toda essa miscigenação cultural, prevaleceu a cultura dos que mantinham o poder; o homem branco, dirigido pela Igreja. Assim, condenada pela Igreja, qualquer manifestação homossexual era um crime. O homossexualismo era discriminado pelo poder, sendo reprimido, sem direito de defesa ou manifestação. Os fatos históricos ocorridos em fins do século XIX foram bastante impactantes para a sociedade, dentre os fatores que ocorreram, sem dúvida, o que mais se destacou foi a Abolição da Escravatura em 1888. A partir desse momento a utilização dos escravos negros – que já estava se tornando escassa – tornou-se mínima, quase que inexistente, e o negro exescravo, era visto como um objeto desvalorizado, não deixando de ser tido como alvo de discriminação e preconceito. “Bom-Crioulo”, como pertencente a literatura naturalista, apresentou fatos do cotidiano, da vida real da sociedade. Foi uma das obras brasileiras que se enquadrou na proliferação de discursos à respeito do sexo, respondendo a intensa “vontade de saber” apontada por Foucault (1988), fazendo do homossexualismo tema principal do romance, como afirma Leonardo Mendes: “O naturalismo brasileiro, egresso da periferia nordestina, foi capaz de transformar a ‘vontade de saber’ em um movimento que mapeou as sexualidade de um ponto de vista descentralizante” (MENDES apud BEZERRA, 2006, p.99). Considerando o período histórico em que a obra foi criada, é possível afirmar que o negro sofria grande discriminação pela sociedade, apesar de liberto, continuava sendo considerado inferior, sendo visto com uma imagem negativa, como diz Fanon: O negro, no imaginário das sociedades colonizadas, geralmente está associado ao animal, imagem que se modela a partir das ideias de selvageria, fortaleza e sexualidade exacerbada. Daí se pode deduzir que as imagens do negro viril, definido por musculatura exuberante, acabam por retomar alguns dos signos do “negro genital” (FANON apud FONSECA, 2006, p.106). Devido a imagem negativa que o negro representava na sociedade da época, o homossexualismo, sendo condenado por muitos, foi associado ao negro. Negro e homossexualismo eram discriminados, vítimas de preconceito. Após a realização da pesquisa, foi possível perceber que mesmo sendo um ato que não possui raça ou etnia específica, foi associado ao negro no Brasil Colonial, e em períodos posteriores, refletindo inclusive, no tempo foco da pesquisa, o século XIX. Isso se deve a cultura que muitos negros escravizados trouxeram de seu povo, sendo que para muitos, a homossexualidade era algo normal, enquanto que para os povos cristãos, era algo pecaminoso, visto com rejeição. Esta associação entre negro e homossexualismo pode ser notada em todo o romance em questão, pois o narrador revela a homossexualidade do personagem Amaro como um desejo inevitável, vindo do próprio sangue. Amaro assume atitudes que indicam sua homossexualidade desde o início do romance. Ele não possui facilidade de se relacionar com mulheres, e sente-se atraído por Aleixo. Outro fator que chama a atenção na narrativa, é que Aleixo – o jovem branco, inocente – é apresentado como uma vítima do negro. Na relação, o rapaz faz papel de mulher, tornando-se o sujeito passivo: “Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonarse-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...” (CAMINHA, 2006, p.43). Depois, Aleixo se arrepende de ser se relacionado com Amaro, e se interessa por uma mulher, enquanto que Amaro continua interessado por ele. É fato que em “Bom-Crioulo”, juntam-se o negro discriminado ao homossexualismo reprimido, como se a homossexualidade fosse característica própria do negro. Tal pesquisa foi de grande importância para aprofundamento do conhecimento à respeito da relação entre homossexualismo e negros que existia no período do século XIX, sendo que a partir dela foi possível compreender tal ligação. A utilização da obra “BomCrioulo” como fonte de pesquisa, foi de suma importância, pois através da mesma foi possível uma maior compreensão do tema. BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES: Poética. In.: Os Pensadores: vol. IV. 2.ed. São Paulo: Abril, 1953. ARRUDA, Pedro Fassoni. Liberalismo, direito e denominação da burguesia agrária na Primeira República brasileira (1889-1930). 1. ed. São Paulo: Ponto e Vírgula, 2007. BASTOS, Pedro Ivo A.; SILVA, Francisco Assis. História do Brasil: Colônia, Império e República. 1.ed. São Paulo: Moderna, 1976. BEZERRA, Carlos Eduardo. 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