UNIVE RS IDADE DO ES TADO DA BA HIA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMA NAS - CAMPUS I
PROG RAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS
J ONALVA SANTIAGO DA S ILVA
DO CORDEL À NA RRATIVA BIOGRÁF ICA :
A IN VENÇÃO DE BESO URO, O HERÓI DE CORP O FEC HADO
S ALVADOR – BA
2010
J ONALVA SANTIAGO DA S ILVA
DO CORDEL À NARRATIV A BIOGRÁFICA:
A INVENÇÃ O DE BESOURO, O HERÓI DE CORPO FECHA DO
Dis sertação apresentada ao Programa de
Pós-graduação em E stu do de Lingu age ns
da Univer s idade do Estad o d a Ba hia,
como requis ito p arcial para ob tenção do
títu lo de Mestre, sob a orient ação da
Profª Drª. Márcia Rio s da Silva
S ALVADOR – BA
2010
Ilustração da capa: Desenho de Carybe.
Extraído do livro O Jogo da capoeira. 24 desenhos de Carybé.K.Paulo Hebeisen.
(org). Coleção Recôncavo. Salvador, Livraria Turista, 1951.
S586
Silva , Jona lva Santiago da
Do cordel à na rrativa b io g ráfic a: A Invenção de Be souro
herói de corpo fech ado/ Jonalva Santiago da Silva- Salva dor,
2010.
126 f.:il
Orientador Prof.ª Dr.ª M árcia Rios da Silva
.
Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado da Bahia
DepartamentoCiê ncias Humanas - Campus I Programa
de Pós Graduação em Estudo de Linguagens.
1. Besouro Mangangá - Capoeira na literatura brasileira 2.Capoeira –
Bahia 3 .Capoeirista I. Titulo
CDD B869.00
Dedico este trab alho, in me mo riam,a
Jônatas Co nce ição d a S ilva. Tal qual
Besouro, lutou , resist iu e ho je tamb ém
brilha no céu. Virou estrela.
AG RADECIMENTOS
À minha especial orientadora, Profa. Dra. Márcia Rios da Silva, p ela
paciênc ia e cumplicidade no acomp anhame nto e construção deste texto ;
À Profa. Dra. Florent ina Souz a, desde o Exame de Qualificação, pela s
contrib uições valiosas à e laboração desta pesquisa;
Ao Prof. Dr. Sílvio Roberto de Oliveir a, d esde o Exame de Qu alificaç ão,
também pelas suge stões enr iquecedoras a este trabalho;
Ao s meus p ais, J osé e Marina lva r esponsá veis pelo meu exist ir e por sempre
me ince nt ivarem a cont inu ar cresce ndo ;
Ao s meus irmãos e em e sp ecia l às minhas d uas irm ãs, Lad ism ar e Adla po r
todo o ince nt ivo;
A Vad o e Igo r, família que co nstruí e que me fa z sempre buscar novo s ideais;
À Edna Viana pela ajud a na organização do texto final;
À p ro fessora Be atr iz Ribeiro, pela a juda em algumas correções do texto;
Às minhas gra nde s amiga s, irmãs do coração e anjos q ue enco ntre i, And réa e
Margarete, pela co nvivê ncia intelectual, o que me fez ama durecer para a vida
acadêmica;
À Hildete, bibliotecária do PP GEdu c, pelos textos int ere ss antes
conse guiu p ara qu e melhor fund amenta sse a minha pesquis a;
que
À A ntonio Re inaldo , Mestre Lamp ião, inca ns áve l p esquisado r sobre Besouro,
pelo acesso ao seu acer vo e disponibilidade;
À Profa. Zilda Paim, p elos deta lhes so bre as histó ria s de Be so uro e paciência
para contá-las;
Ao s professores do PPGEL, p elos ens ina mentos, em especial, Luc iano Lim a e
Edil Costa;
Às secret aria s de educação do Estado da Ba hia e Mu nicipal de S anto Amaro
pela conce ss ão d e lice nça, para a rea lizaç ão d este estudo ;
À m inha turma de mestrado, e ao meu grupo de estud o, Edna, Geraldo,
Elizab ete, Raquel por todas as trocas d e exper iências;
Ao s atenc ioso s secretár ios do PPGEL, Camila e Danilo;
À todo s aq ueles que, d e algu ma forma, contribuíram para a rea lização dess e
trabalho.
RESUMO
Este e studo tem por objet ivo analisar as ima gens ou representações sobre o
capoeirista Besouro Mangangá, tornad o um mito, produzidas na lit eratura de
cordel, de autoria de Antô nio Vie ira e de Victo r Alvim G arcia, e na narrat iva
de Marco Carvalho , como textos ficcio nais q ue se a lime nt am de u ma
textu alidade
popular.
Bu scando
artic ular
liter atura,
mito
e
história,
ente ndido s como discurso s, recorre-se a p esquisad o res que contribuem para
uma co mpreensão da co nstrução do mit o Besouro, cap oeirista ba iano que
nasce no co ntexto histórico da nova ordem republicana e pós -abolição, de
forte repressão, por instânc ias jurídicas, ao jogo da capoeira. As narrat iva s
ana lisadas co ntrib uem para amp liar uma tradição da literatura brasileira,
como textos ficc iona is que tensionam valo res das produções literária s
legit imadas.
Palavras-chave:
Besouro
Literatura Bras ileira
Mangangá.
Capo eira.
Textua lidad e
Popular.
RÉSUMÉ
Cette étude a comme objectif analyser les images ou les répresentations sur le capoeirista
Besouro Mangangá, qui est devenu un mito, produites dans la littérature de cordel, écrit par
Antônio Vieira et Victor Alvim Gárcia, et dans le récit de Marco Carvalho, comme des textes
de fiction que se nourrissent d’une textualité populaire. En cherchant articuler la littérature,
le mythe et l'histoire, compris comme des discours, il fait appel aux chercheurs qui
contribuent à une compréhension de la construction du mythe Besouro, capoeirista de Bahia
qui est né dans le contexte historique du nouvel ordre républicain et d’après l'abolition, de
forte répression, pour les cas juridiques, au jeu du capoeira. Les récits analysés contribuent
pour agrandir une tradition de la littérature brésilienne, comme des textes de fiction que
tensionnent les valeurs des productions littéraires légitimées.
Mots-Clés: Besou ro M angangá – capoeira – textualité popu laire – littérature
brésilienne
SUMÁR IO
1 INTRODUÇ ÃO
08
2 NO RECÔNCAVO DA BAHI A, NASC E UM HERÓI
17
3 OS “VOOS” DE BESOURO NA LITERATU RA DE CORDEL
46
4 MORTE E NAS CIMENTO DO HERÓI NEGRO EM FEIJ OADA
NO PARAÍSO
85
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
118
REFERÊNCIAS
120
ANEXO
126
8
1 INTRODUÇ ÃO
O capoeir ist a Be so uro Manga ngá na sceu prova velm ente no a no de
189 5, no municíp io de Santo Amaro , no Recô ncavo Baia no, vind o a fale cer
em 1924. Filho de negros es cravizad os que atravess aram o Atlâ nt ico, o
capoeirista viveu u ma época em que muitos d eles viram -se obrigados a u sar
seu co rpo como máquina na co lheit a e moagem da cana-de-açúcar, nas terra s
dos senhores d e engenhos. Co ntudo , apesar dessa vio lênc ia, fizer am do seu
corpo uma arte, no jogo da cap oeira – luta e dança –, síncop a que marca a
cadência, a firmando sua força, como resi stência, em p ro l d a abolição.
Manu el Henriqu e Pereira,
nome
civil
de
Beso uro
Manga ngá,
conhec ido ainda como Besouro Preto ou Besouro Cordão d e Ouro, viveu num
período de fo rte repressão à capoeira gem – entre final d o sécu lo XIX e
começo do século XX –, tempo em que muitos ne gros va gavam e vadiavam
pela s ruas de muitas c idad es da Ba hia, particularme nte a sua capit al e a s do
Recô nca vo, sem emprego fixo , e xplorados como mão -de-obra temporária. A s
ruas passam a s er palco de um jo go encenado po r muitos negros qu e
libertavam seu corpo inve nt ando modo s de viver e d e se relac ionar,
protagoniza ndo mu itas histórias, que ia m sendo retid as na m emó ria de sua
comunid ade.
De ntre as muit as histórias t ecid as com os fios do real e da
ima ginação, as histórias produzidas p or e sobre Besouro estão preservada s po r
uma trad ição oral, vindo a se const itu ir em uma te xtualid ade popular, que
passou a alimentar as páginas de a lgu ns gêneros lit erár ios, como o cordel, e,
rece ntemente, invadiu a s telas do cinema, s inaliza ndo a permanênc ia de um
mito, vind o a ser estudado por algu ns pesq uisadores, que constat am naqu ela
textu alidade um processo de co nstrução da figura d e um herói p opular.
A permanê nc ia des se mito gerou as inqu ietações dest e trabalho, de
auto ria de uma estud iosa negra, tamb ém filha de Sa nto Amaro da Purificação.
A minha vivência em um amb ient e soc ial imp re gnado da exp eriênc ia histórica
dos negros, no q ual compartilho os muit os “cau sos” sobre esse capoeir ist a,
levo u-me a indagar e a pesqu isar sobre a p ermanência do mito Be so ur o – tão
famo so, se guido s por ou tro s como Mestre Bimba e Mestre Pa st inha –, um
herói a fro -baiano , qu e nasceu em um est ado cujas oligarqu ias subju garam os
9
mod os de vida e de luta de u m expressivo segmento de d esce ndentes de
escravos.
Pelo tempo exí guo em u m Curso de Mestrado para desenvolver um
estudo qu e, como primeira et ap a, exigiria o le vantame nto das história s
contadas sobre Besouro pelos moradores do Recôncavo Baia no, o ptei po r
ana lisar produções literár ias sobre esse capoeirista: os textos d e cordel de
auto ria do santoamarense A ntô nio Vie ira, O encontro de Besouro co m o
valentão Doze Homen s (s/d) e A valentia justicei ra d e Besouro (2003), e do
poeta e capoeirista car ioca Victo r A lvim Itahim Gar c ia, Hi stórias e b ravuras
de Besou ro o va lente capoeira (20 06) e narrat iva d e Marco Carvalho,
Feijoada no para íso : a sa ga d e Besouro, o capo eira (2002). O objetivo
princip al deste estu do é ana lisar a s rep resentações sobre Be sou ro nes se s
texto s ficcio nais, cons iderando o co ntexto histórico em que viveu e ss e
capoeirista, no intuito de ente nder a permanê ncia desse mito.
Essas narrat iva s contam a história de um herói ne gro, que se
singulariza em relação aos heróis forjados pelas e lit es de u ma c ivilização, a
exemp los dos heróis gr e gos, pátria s o u nações modernas. Ao cont rár io, o
herói Besouro é protagonista de contranarrativas, de lu tas d e resistê ncia a um
sist ema opressor, de u m Brasil colo nial, imperia l e republic ano, que sempre
se nt enciou, mu itas vezes de forma cruel, o apagamento dos ne gros e
afrodescend ente s.
Na primeira seção desta Diss ertaç ão, No Recônca vo da Bahia nasce
um
herói,
realiza-se
uma
composição
b iográfica
d esse
capoeir ista,
articula ndo -a com o conte xto histórico, no intuito de pu xar os fio s da cu ltura
afro-baia na para se pensar a co nst itu içã o d o herói B e sou ro . Para compor a
pais agem histó ric a d o Brasil e da Bahia, particularme nte a d o Recônca vo
Baiano, e ntre fins do século XIX e iníc io do sécu lo XX, período tensionado
por conflitos so ciais, mud anç as d e regim e político e p ós -aboliç ão, recorre-se
aos estu d os de Walter Fra ga F ilho, Eu l Soo Pang e Antonio Ris ério, b em
como aos d e Almir Areia s, Adriana Dias, J osivald o Olive ira e Mu niz So dré.
Visando ent end er a co nstitu ição do heró i e sua m itificação, recorre -se
a M ircea E liade e Josep h Campbell. Como o estudo proposto trata de um
su jeito da his tória “e sq uecido” p ela historiografia ofic ia l, buscam -se a s
contrib uições de José G erald o Va sconc elos, Ecléa Bo si, para a qual a s
10
exp eriênc ias do passado são refe itas, reconstruídas, um trabalho d a memória,
e Lo iva Otero Fé lix, com sua noção de “memórias subterrânea s”. P elo
ente ndim ento d e qu e uma pesquisa se alime nta d e font es diversas, a lgumas até
desau torizad as pela academ ia, não se p ôde d esprezar a contrib uição da Profa.
Zilda Paim, conhecida como memoria lista, sobre o Recô nca vo Baia no.
Na se gu nd a seção, Os vôo s de Beso uro Man gangá na literatura de
cordel, são analisadas e int erpretadas a s narrat iva s d o co rd el de A ntônio
Vie ira e Victor Alvim Garcia, nas q uais se biografa a histó ria de Besouro
Mangangá. P ara t a nto, reco rre-se às cont ribu ições de Márcia Abreu, Antônio
Ara ntes e Doralice Alco fo rado, em seus estudos so bre o cordel, gê nero
produ zido por escritores do chamado segmento popular, aqu i ente nd idos como
su jeitos q ue se viram privados, historic ame nt e, dos direitos bás icos de
cidadania, à cultura letrada, ma s, ainda que numa inclusão degradada, como
ana lisada, e cr it icada, pelo sociólo go J osé d e Souza Martins 1, aprenderam a
ler e a escrever. Tal co nquist a possib ilit ou u ma escrit a que lhes permit iram
registrar histórias e so cializá- las, s ilenciadas pela História oficia l, e ntendida
aqu i, dentro do campo historio gráfico, como um d iscurso elabo rado p ela
perspectiva d a cultura dominante.
Na terce ira seção , Mo rte e nascimento de Besouro em Feijoa da no
paraíso , é analisada a narrat iva Feijoada no paraíso , de Marco Carvalho,
jornalist a e p ublicit ário , a qual tem como narrador e personagem centra l o
capoeirista Mangangá trazendo su a versão acerca d e mu itas histórias co ntada s
so bre ele próprio: sua morte, seu ap elido, seu nas cime nto, o jo go da capoeira,
relações d e amizade, bem como o enfrent amento à ordem republicana, com
relatos alinhavados por reflexões, digress ões ou comentário s.
Em Feijoada no paraíso, o jo go da capoeir a ganha destaque, como
uma prática cultur al e performát ica : a ginga d o corpo, seus golpes, a
ma ndinga, a p ro teção dos orixás são postos em rele vo. Em vista d is so , são
impo rtantes a s refle xões d e Stuart Ha ll so bre os rep ertórios culturais d os
negro s da diáspo ra, b em co mo a noção de performance, elabo rada por Paul
Zumthor, compreendida como co rporeidade e teatra lid ade.
1
Cf. MARTINS, José de Souza. A exclusão social e a nova desigualdade. São Paulo: Paulus, 1997. Apud
PEREGRINO, Mônica. www.anped.org.br/reunioes/25/monicaperegrinoferreirat06.rtf - Acesso em 21/05/2010.
11
A narrat iva d e Marco Carva lho inspirou u m longa-metra gem do
cinema nac io nal, Besou ro, da capoeira nasce um herói , que estreo u em 2009,
filme dir igido pelo renomado pub licit ário João Daniel Tikhom iroff. 2 A
película, bu scand o aproximação com a textualidad e popular tec ida sobre
Besouro, co nta a história d e Mangangá, c om uma superp ro dução qu e realiza o
es forço d e traduzir a visão heroicizada sobre o lendário capo eir ist a. Para
tanto , as ce nas de luta, marc adas po r efe ito s especiais, foram coreo grafada s
pelo chinês Huen Chiu Ku, o mesmo que dirigiu Kill Bill e O tigre e o
dragão . Rodado na Chapada Diama nt ina , na Ba hia, a produção cuidou de
trazer capoeirist as para atuarem, e Ailton Sa ntos, pr ofessor de capoeira, é
protagonista da história. 3 Destaq ue-se que em 1980 foi la nçado Besou ro
Capoeirista , do diretor Tato Tabo rd a, te ndo o ato r baia no Mário Gu smão
atuando como Besouro.
Os d iferent es sites que divu lgaram o la nçame nto do film e de João
Da niel T ikhom iroff destac aram a re levâ ncia de Be sou ro Cordão d e Ouro no
universo da cap oeiragem, re ss alta ndo se us fe itos extr ao rd inár ios, as fuga s
espetaculares, a sua agilid ade, denominando -o de heró i, de mito, u ma
refer ência para a arte da c apo eira. Tais rep resenta ções têm longa d ata, como
ima gens cint ila ntes na cultura afro -b aiana, particularmente no Recônca vo
Baiano e no universo da capoeira gem. O filme p rojeta Besouro nu m univer so
mais amplo, com a promessa d e torná -lo c onhecid o por um público ma ior, que
vive distante de um tempo em que o jogo da capoeira era t ido como uma
prática de “pretos”, “ vad ios” e “ ind ivíduos perigosos”, ou seja, d e ne gros que
ameaçavam a no va ordem republica na, até ser enquadrado como crime em
189 0, dois anos após a abolição da escr avatura.
Co mo este estudo tem a preo cup ação de articular literatura e
história, os p esquisado res e estudiosos que se fazem presente s na primeir a
seção desta dis serta ção são retomados nas d emais seções, para art icular suas
contrib uições com os te xtos ficcio nais que dramatizam a his tória de Besouro
Mangangá.
2
Disponível em http://www.interfilmes.com/filme_21174_Besouro-(Besouro).htlm. Acesso em 20/08/2009.
Cf.correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp2codigo=367048mdl=4http://www.cordaodeouromangalot.co
m.br/index.php?opt. Acesso em 07/10/2009.
3
12
As narrat ivas de A ntônio Vie ira, Victor Alvim Garc ia e Marco
Car valho,
insp iradas
na
textu alidad e
p opular,
trazem
traços
dess a
textu alidade, filiad a a “uma c lasse de narrat ivas que se apresent am como
fant ást ica s e qu e terminam co m uma aceitação do sobrenatural”, na visão de
Tzvetan
Todorov, 4
sem
uma
exp licação
ló gica
cau sa l.
Os
feito s
e
acontec ime ntos envo lve ndo o personagem Besouro, e até mesmo sua vida
cotid iana, são marcados pela presença do inusitado, do sobrenatural e de
metamo rfoses.
As sim,
o
personagem
c apoeirista
protago niza
situaçõe s
extraordinár ias: vira beso uro, um mangangá, vo a, tra nsforma-se em pla nta,
morre e rena sce, t em o corpo refratár io aos metais, enfrent a lobisomem,
convive com mundo sagrado dos orixás, retorna ao mundo dos vivos sem ser
visto e ainda se encar na no corpo d e outras pessoas. Muitas das situaçõe s
extraordinár ias ou metamo rfoses ocorrem quando se torna neces sário driblar
os
adversár ios,
es cap ar
dos
inim igos,
defe nder -se
ou
proteger
a lgum
injust içad o. Ainda d e aco rdo com Todoro v, no plano da recep ção ocorre “a
hes it ação e xperimentada p or um ser que só conhece as leis natura is, face a um
acontec ime nto aparent eme nte sob renatu ral” – d aí qu e o público ou le itor
dessas histórias v ai co nviver com o extr aordinár io, o insólito, o estranho , o
encantame nto e a ma gia e xperim enta ndo uma se nsação que o susp end e da vida
cotid iana.
As histórias cr iadas p or Antônio Vieira, Victor A lvim Garc ia e
Marco Carvalho p odem ser lidas como b iografemas, se gu nd o Ro land Bart he s,
traço acentuado em Feijoad a no paraíso , narrat iva em 1 ª. pessoa, em que o
persona gem Besouro assume o lugar de narrador. São lendas inve nt adas,
relatos biográ ficos ou ainda “inst antâ neos fotográficos”, que Barthes va i
designar d e b iogr afema s: “go sto de certos tra ços biográ ficos qu e, na vid a de
um escr ito r, me enca ntam ta nto qu anto certas fotografias; chame i es se s traços
de ‘bio grafemas’” 5
Todas elas se filiam a uma te xtualid ade popular, tecida por u ma
su perpo sição de fa las, voze s, te xtos, hist órias, “causos”, enfim, ficções sobre
4
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Trad. Maria Clara Correa Castelo. São Paulo:
Perspectiva, 2007. p. 58.
5
Cf. Roland BARTHES. A câmara clara; nota sobre a fotografia. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1984. p. 51.
13
uma lenda, também uma ficção, do Recônca vo Baia no, cuja história de vida,
marcada
pela
r ebeldia,
fertilizou
a
imagina ção
de
u ma
comunidade,
ampliand o -se continuamente. Tais fic ções devem ser ent e ndidas pe la noção de
fictí cio, apresentada p or Wolfgang Iser.
Questio nando a visão corrente d e que os te xtos ficc iona is se opõ em
aos te xtos factua is, Iser co ns idera q ue aqu eles não são “de todo is ento s de
realidade”. O texto ficc io nal “co ntém e lementos do real, sem qu e se esgo te na
descrição d este real”. As sim, co mo “o seu co mpo nente fictício não tem o
caráter de uma fina lidad e em s i mesma ”, é, “enquanto fingida, a prep aração
de um ima ginário”. 6 Segu ndo Iser, um text o ficcional guard a mu ita realidade,
de ordem socia l, sent iment a l e emo cio nal. Tais rea lidad es não são fic ções
nem se convert em nela s ao entr arem nos t exto s ficc io nais, pois não s e
repetem por efeito d e si mesma s.
A “repetiç ão é u m ato d e fingir, pelo qual aparecem fina lidad es que
não pertencem à rea lidad e repetida, daí que o ato d e fingir é uma transgre ss ão
de limit es”. Por isso, Iser propõ e sub stit uir o p ar oposit ivo fic ção/realidade
pela tríade “rea l, fictíc io e imaginár io”. Em relação ao imaginár io, “seu
caráter d ifuso é transfer ido para uma co nfiguraç ão determinada, q ue se impõe
num mund o dado como produto d e uma trans gres são de limit es”. Ou seja, no
ato de fingir, “o imaginário ga nha u ma determinação que não lhe é própria e
adquire, deste modo, um pred icad o de realid ade : po is a determinação é u ma
definição mínima do real”.
Para Iser, “as ficçõe s não e xistem só como textos ficcio nais :
desempenham papel importante tanto nas at ividades do conhec imento, da
ação, do compo rtamento, quanto no estabe lec imento d e instituições, de
so cied ades e de visões de mund o ”. Entend end o o texto literár io como um
mod o de temat iz ar o mundo, p ara Iser esse mod o não est á dado a priori.
As s im, é preciso qu e seja implantado, para se impor, o que “não s ignifica
imit ar as e struturas de organização previament e e nco ntrá ve is, mas sim
decompor”. Nessa d eco mpo sição ocorrem as seguintes o perações: a s eleção e
a comb inação .
6
ISER, Wolfgang. O ato de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da
Literatura e suas fontes. Vol. II. 2ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. p. 384-416.
14
A
sel eção ,
“nece ssár ia
a
cada
texto
ficcio nal,
d os
sistema s
contextua is pré-existentes, sejam e les de natu reza sócio -cultural o u mesmo
lit erár ia”, “é uma tra nsgre ss ão d e limites na medid a em que os elemento s
acolhidos pelo texto agora se d es vinculam d a estruturação semânt ica ou
sist emát ica dos sistemas de q ue foram tomados. Isso va le t anto para os
sist emas co nte xtua is, qu anto p ara os texto s literár ios a qu e os novo s te xt os s e
refer em”. Cont inu a: “O s elem ento s co ntextuais que o texto int egra não são em
si fictí cio s, ape na s a seleção é u m ato de fingir pelo q ual os sistemas, como
campos de referênc ia, são entr e s i d elimit ados, pois suas fro nte ira s são
trans gred id as”.
No ato d e seleção oco rre “uma perda d e articula ções preced ente s e
uma reint egração do s elementos es co lhidos em uma no va art icu lação”.
“Su prim ir, complementar, valorizar” vêm a ser, de acordo com Iser, operações
básica s da “produção de u m mundo”. A seleção , co mo ato de fingir, encontr a
su a
co rrespo ndência
intratextu al
na
combinação
–
o utra
operação
e
trans gres são de lim it es, d os e lem entos textu ais – , “que abrange t a nto a
combina lidade do significado verbal, o mund o introduzido no texto, quanto os
esquemas responsá veis pela organização de personage ns e ações”.
Co mo ocorre quase sempre, se gundo Iser, no s t exto s narrativos são
acentuados “os espaços sem ânt icos const ituído s a p artir de elemento s
se lec ionad os das realidades extrat e xtuais , que se re velam p ela ap rese nt aç ão
esquemática das personage ns do romance (caractere s po sit ivos e ne gat ivos) ”.
No s relac ionamentos intr ate xtua is, ocorre u m rompimento d e fronteiras, p ois
a ficção a grega, em um ú nico esp aço, “uma var iedade d e lingu age ns, d e ní vei s
de foco s, de pontos de vista, que ser iam co ntraditórios noutras e sp écie s de
discurso, organizadas quanto a u m fim empírico particu lar”.
Co mpo ndo uma te xtualidade p opular, as história s sob re Besou ro –
elaboradas a partir da se leção de ele mentos da realidad e extrate xtual,
se guidas da comb inaç ão intert e xtual, e na ruptu ra d e fronteiras – são
contra narrat ivas q ue põ em em xeque um modelo d e nação , um dese nho
ident itár io homogene izador do Brasil, segu ndo Florentina Souza, tecido po r
um gru po so cial, a saber, as elit es do país. Para a pe squisad ora, este de se nho
ident itár io,
15
in di vi dual o u col eti vo, consist e nu m pr ocesso d e co nst r uç ã o
si mbó lica utiliza do como p onto de r ef er ê nci a e auto -afir maçã o
d o g r up o ou i ndi ví du o. As fr at ur as, dú vi d as, deslizes,
h et er og en ei da des so fr em um p r ocesso d e e s ma eci m ent o p ar a
q ue seja gar a nti da a co nst ruçã o d e u m d es en ho u ni for me,
u nitá ri o e t otaliza nt e, a ci ma d e q ualq u er susp eita q ua nt o à
p r opri eda de o u plausib ili da de. L egiti mad o p ela imp osiçã o d e
u m gr up o so cial, p el as r ep etiçõ es de fi g uras r etó ricas, o
d es enho ser á ratifi cad o e reti fi ca do p ela tr adição e ar vora r -s eá cap az de defi nir e si ngul ari zar indi ví du os e/ ou g r up o s
so ci ais. 7
O capoeirist a Be so uro viveu uma ép oca em que esta va em curso o
projeto de consolidação do Estad o-naç ão brasile iro , traça ndo seu desenho
ident itár io, e a literatura e a história, inst itucio nalizadas co mo disciplinas e
domínio
do
conhecime nto,
vão
se
ir manar
em
tal projeto.
Enqu anto
produ ções, ambas vão co ntrib uir, em s ua maioria, na construção de um
discurso ident itár io homoge neizador.
A i denti d ad e, pa ra os i nt el ect uais dos “pri mó r di os” da naçã o,
estava li ga da à necessi d ad e de co nstru çã o de um país, d e um a
históri a, u ma cult ura, atra vés
dos
q uais t o dos s e
r eco nh ecesse m si mu ltaneam ent e se mel ha nt es e di fer ent es da
M et ró p ol e ( co ntr adiçõ es de col o ni zad o...). Ó r gãos sã o cria do s,
u m p r oj et o liter ári o é delin ea do, escrit or es, est udi oso s,
artistas e p olíti co s articula m-s e; t o das as ener gias i nt el ect uai s
diri ge m-s e e co n cen tra m-s e no es forço de “i n ventar ” o Brasil.
É pr ecis o i nvent ar o país, pr een cher os v ácuo s da m emóri a
com aq uil o q u e nã o pr o pi ci e co nstra ngi ment os mai or es q ue o
d e ser uma ex- colô ni a.
Co mo con str uçã o si mbó lica q u e é, a i d entid ad e cu ltural
b rasil ei ra vai gan ha r p er fis mais ou men os ot i mistas de a cor d o
com as i déias, pri n cíp i os e val or es hege mô ni cos de ca d a
ép o ca. 8
Para F lorentina S ouza, o s intelectuais brasile iro s têm à fre nt e um
desafio, cerca ndo -os de constrangime ntos : “Como forjar u ma id ent idade d igna
se o imaginár io já t inha cr ista lizad o como verdadeira a ‘ind ignidade’ d e dois
se gme ntos ét nicos [o índio e o negro ] da população ?” 9. Segund o a autora, o
7
SOUZA, Florentina. Imagens e contra imagens do negro. In.: Congresso ABRALIC, Anais... Rio de Janeiro.
1988.p. 243. Nesse trabalho, a autora analisa a série Cadernos Negros, um periódico criado por escritores
afrodescendentes, em fins de 1970. Segundo a autora, Cadernos Negros, “produzidos com intenção expressa de
abalar a autoridade do discurso do saber e do poder, podem ser vistos como tentativa de constituir uma
suplementariedade à cultura oficial brasileira; buscam inventar uma contra-imagem que desautorize a
unanimidade proposta pela imagem instituída”. p. 245.
8
Id., p. 243-244.
9
Id., p. 244.
16
“processo
de
co nstrução
simbólica
nã o descarta
as significações p ré -
exist entes”.
Desse modo, no processo de construção da identid ade nac io na l
brasileir a, pelas elites do paí s, de cunho ho mogene izant e, a trad ição ocident al
desempenhará um p apel fu ndame ntal, uma vez que tece “narrat ivas sob re o
Ou tro [o índio e o ne gro] de acord o co m o seu projeto de dominação”,
incu lcando -as “ no imaginár io do próprio colonizad o d e modo qu e o m esmo
che ga a acred itar na verac idade do texto.” 10 Ass im, o “p erfil d o Outro
inve ntado pela tradição ocident al presc inde d e ser comprovado ou organizado
logicame nte, a repetição garante a sua validade”. 11
Na contr amão d e um dese nho id ent itário ho mogene izad or, u ma
textu alidade popu lar emerge quest ionando -o , com histórias qu e têm Besouro
como herói, à reve lia da História oficia l. Tais narrat ivas são elaborad as por
su jeitos que enco ntram nes se c apo eirista a referência de uma luta e
res istência ao processo de colo nização , que subju gou os ne gros, colocand o -os
num lugar inferio r, em diver sos ní veis, naquele desenho, a despeito de sua
inegáve l co ntr ibuição na construção do país. Assim, u m refrão ins ist e,
“furando” tal des enho, em riste: “zum zum zum, zum zum zum, cap o eira mat a
um”.
10
11
Id., loc. cit.
Id., p. 244.
Fonte: CARNEIRO, Edison - Caderno de Folclore 1 – Capoeira, 1977
17
2 NO RECÔNCAVO DA BAHIA, NASCE UM HERÓ I
Qu and o eu morr er
Nã o qu er o gri t o e ne m mi st éri o
Qu er o u m beri mbau
Toc and o n a p ort a d o c e mi t éri o
Com u ma fi t a a ma rel a
Gra vad a c o m o n ome d el a
Ai nd a d ep oi s d e mort o
Bes our o é c o rd ã o d e our o
Como é o n o me?
Cord ão de Ou ro. 12
Vida breve, longa histó ria
Manu el Henr ique Pereira é o nome c ivil do mestre de capoeir a
Besouro Manga ngá, ou Besou ro Cordão de Ouro. A d ata provável d e s eu
nascimento tem como referênc ia o processo movido em 1918 , pelo Exército
Brasile iro, que resulto u na sua e xpulsão da corporação, no mesmo ano , po r
“incapacidade moral”, conforme o fício do Ministér io d a Gu erra, 13 no qual se
atest a que o acusado tinha 2 3 anos à época. Beso uro Mangangá nasce no
quilombo Urup y, Olive ira d os Campinho s, distrito de Santo Amaro da
Purificação, na região denominada Recô ncavo Ba iano, 14 filho d e J oão Martins
12
Letra da canção Cordão de ouro, do mestre Traíra de Santo Amaro, o José Ramos do Nascimento. Capoeirista
famoso da Bahia, marcou época e ganhou notabilidade ímpar na arte das “rasteiras” e “cabeçadas”. No disco
fonográfico, produzido pela Editora Xauã, intitulado "Capoeira", hoje uma preciosidade para os estudiosos e
adeptos dessa arte, tem presença marcante envolvendo os ouvintes. Sobre a beleza e periculosidade do seu jogo,
assim se referiu Jorge Amado: "Traíra, um caboclo seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de
capoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competir
com ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontra na Escola
de Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade". Mestre Traíra também teve
importante participação no filme "Vadiação", de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto a outros
grandes capoeiristas baianos, como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim Disponível em:
http://sites.br.inter.net/capueirameialua. Acesso em 06/06/2009.
13
Cf. VASCONCELOS, José Gerardo. Etnocenologia e história: percorrendo indícios da vida de Manoel
Henrique Pereira, vulgo “Besouro” (1895-1924). p. 25. In: MATOS, Kelma Socorro L. de. VASCONCELOS,
José Gerardo. (Orgs.). Registros de pesquisas na educação. Fortaleza: LC-UFC, 2002. p. 27. Na Seção Judiciária
do Arquivo Público Municipal de Santo Amaro (Data limite: 1920 – 1927: Subsérie: Tentativa de Homicídio:
Cx. 4; Nº. 104: Vol. 18), tem-se o seguinte registro, de 04/02/1922, no auto de perguntas dirigidas à vítima
Caetano José Diogo: “um homem moderno de cor escura quase preto”.
14
O Recôncavo abrange a região Bahia de Todos os Santos, com 23 municípios, incluso o de Salvador. Partindo
do litoral, onde começam as dunas e praias do Litoral-Norte, a linha limite inflete para o Oeste, para o interior,
passando ao Norte de São Sebastião do Passé, até alcançar o norte do município de Santo Amaro, e encontrar
Humildes, onde seu traçado curva-se para o Sul, correndo paralela ao sentido do litoral, atravessando os leitos
dos rios Jacuípe e Paraguaçu, envolvendo os municípios de São Gonçalo dos Campos, Cachoeira, Conceição da
Feira e Cruz das Almas; deste, a fronteira retorna em direção à costa, passando por Santo Antônio de Jesus,
apontando em linha reta para o mar, margeando as Matas do Sul, passando abaixo de Nazaré, Aratuípe e
Jaguaribe, até encontrar a praia, nas alturas da Ponta do Garcez, ao norte da Barra do Jequiriçá. Cf. COSTA,
Pinto. Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. In. BRANDÃO, Maria de Azevedo et al. Recôncavo
18
Pereira e Maria Auta Pereira 15. Zilda Paim, conhec ida como memo ria list a
sa ntoamare nse, traz a lgu ns dados biográ ficos desse capoeirista, fa lec ido em
192 4:
Nasceu em Sa nt o Amar o. Filh o de J oão Mat os P er eira e Mari a
José. O mais la di n o e mali ci os o cap o ei rista da Ba hia. Mestr e
d e cap oei ra no E xér cito, d e o nde s e desli gou dep ois da gu err a.
Nã o conh ecia o medo, ven cia a p olí ci a da nd o p er na das e r ab o s
d e arr aia, co m seus fa mo sos salt os acr ob áti cos. F oi fria e
cov ar dement e g olp ea do em Mara ca ng al ha, n o l uga r d e nom e
Qui mb eca. V eio pa ra Sa nt o Amar o em ca noa , fi ca nd o no Port o
em fr ent e a L oja N ov a, até q ue foi t ra nsp o r tado para a Sa nt a
Casa d a Misericór di a, o nde fal eceu a os 32 an os de i da de. 16
O capoeirista Be so uro M angangá d á continuidade a uma p rática, a
capoeira, que chegou ao Brasil desde o início d a colo nização. Segu ndo
Car ibé, os capoeirist as chegaram à Ba hia “ no bo jo de p au dos ant igos ve leiros
do século X VI. Eram negros da A ngola, talvez guerreiros jogadores dessa luta
em q ue pés e cabeç a têm m ais importância e qu e as mãos pass am a segu ndo
da Bahia Sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Academia de Letras
da Bahia; UFBA, 1998. p. 103-105.
15
Não há informações precisas sobre a data de nascimento de Besouro. Segundo Vasconcelos, “só foi possível
desvendar a sua origem mediante a certidão de óbito do seu irmão Caetano Cícero Pereira”. O autor ainda cita
relato de João Pequeno, citando-o em seu livro: “Besouro morreu com vinte e tantos anos ou trinta. To ouvindo
falar que ele morreu em 1924”. Cf. Etnocenologia e história: percorrendo indícios da vida de Manuel Henrique
Pereira, vulgo “Besouro” (1895-1924). p. 29-32. In: Matos, Kelma Socorro Lopes de. VASCONCELOS, José
Gerardo. Orgs. Registros de Pesquisas na Educação. Fortaleza: LCR – UFC, 2002. O autor transcreve na íntegra
a certidão de óbito, expedida pela Santa Casa da Misericórdia de Santo Amaro, em 1925, a pedido do Dr. João
de Cerqueira e Souza, promotor público da Comarca de Santo Amaro, para o arquivamento do processo movido
contra o capoeirista por Caetano José Diogo em 1922, em virtude do seu falecimento em 1924. C.f.; certidão de
óbito em anexo. “A Santa Casa da Misericórdia de Santo Amaro, mantenedora do Hospital Nossa Senhora da
Natividade, é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos que presta serviços de saúde de urgência/emergência,
há cerca de 235 anos, a toda a população santoamarense e de cidades circunvizinhas, tendo como finalidade
principais o atendimento aos mais carentes. “O objetivo maior da Santa Casa da Bahia, como de todas as Santas
Casas, desde sua criação, era praticar a caridade cristã, observando o estatuto, “a lei escrita da Misericórdia”,
chamado de Compromisso. A Santa Casa da Bahia seguia o Compromisso datado de 1516, que regia a Santa
Casa de Lisboa. O Compromisso prescrevia as quatorze ações ou ‘obras de misericórdia’ que concretizavam a
prática caritativa, sendo sete Espirituais  ensinar aos ignorantes; dar bom conselho; consolar os infelizes;
perdoar as injúrias recebidas; suportar as deficiências do próximo; orar a Deus pelos vivos e pelos mortos  e
sete compromissos Corporais  resgatar os cativos e visitar prisioneiros; tratar os doentes; vestir os nus;
alimentar os famintos; dar de beber aos sedentos; abrigar os viajantes e os pobres; sepultar os mortos”.
SANTANA, A. C. S. de. Santa Casa de Misericórdia da Bahia e sua prática educativa, 1862-1934. 227f. Tese
(doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, UFBA, Salvador, 2008.p. 44.
16
PAIM, Zilda. Relicário popular. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo: EGBA, 1999. p 53. Conhecida
pela divulgação da cultura santoamaresense, a autora nasceu em 1919 e iniciou o magistério, em Santo Amaro,
de 1937 até 1988. Foi vereadora pelo PDC e MDB nas legislaturas de 1959-1963 e 1997-1982, presidente do
Legislativo de Santo Amaro entre 1980 e 1982. Seu grupo folclórico Maculelê de Santo Amaro atravessou
fronteiras para ser aplaudido por cariocas, paulistas, mineiros e paraibanos. In: Isto é Santo Amaro. 3ª ed.
Salvador Academia de Letras, 2005. Zilda Paim apóia-se na memória popular para referir-se ao nome da mãe de
Besouro como Maria José, enquanto na certidão de seu irmão Caetano Cícero Pereira, consta Maria Auta Pereira.
19
plano”. 17 São d etentores d e uma cultura que co ntrib uiu para formar a cultura
afro-brasileir a, fortalecendo o combate à opressão, uma arte que usa da
“ginga” “para disfarçar a luta, d and o -lhe um caráter lúdico ino fe ns ivo e
cadenciad o, de certa forma, à loco moção e preparação dos ataques e
defesas”. 18
Nas história s sob re Besouro, que compõem uma textualidade
pop ular, sobressa i-se a im agem do capoeirista como um indivíduo alt ivo,
destem ido, rebelde, corajoso, va lente, audacio so, ju stice iro, representa nte d os
se gme ntos oprimid os num p eríodo d e pó s-abolição e mudança de regime
polít ico . Beso uro torna-se uma le nda, mit o , acima do bem e do mal pelo poder
de que se invest e e é investid o, para enfr entar a elite econô mica e polít ica da
terra de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano.
Graças a u ma tradição oral, pode -se recont ar a su a história,
praticame nte ausente das páginas da lit eratu ra canonizad a, e xc eção feit a a
Jo rge Amado, que o ap resenta em Ma r Morto , publicado em 1936, u m ano
depois de Jubiabá, narrat iva qu e elege um ne gro o herói da trama. Em Mar
Morto, o escritor faz uma home nagem a Manga ngá, no capítulo int itu lado
“Viscondes, condes, m arqueses e Besouro”. Na trama, Be sou ro Cordão de
Ou ro , um “ne gro valente”, é o save irista am igo de Guma, personagem dest a
narrat iva:
E ssa ci da de d e Sa nt o Ama r o, on de G uma es tá co m o sav eir o,
foi p átri a de mu ito ba rão d o i mp éri o, visco ndes , con des,
ma rq ueses, mas foi t a mb ém de gent e do cais, a p át ria d e
Bes our o. P or ess e moti vo, so ment e p o r esse mo ti vo, não é p o r
p r oduzi r a çú car, con des, viscond es, ba rõ es, marq ueses,
ca cha ça, q u e Sa nt o Ama ro é u ma ci d ade ama da d os ho mens d o
cais. Mas foi al i q ue nasceu Bes our o, co rr eu n aq u el as ru as, ali
d err a mo u s an gue, esfaq ueou, atir o u, l ut ou cap oeir a, cant o u
sa mb as. Foi ali p ert o em Mar acan galh a, q ue o cort ar a m
to di n ho a facão, foi ali q ue s eu sa ng ue corr e u e ali b ril ha a s ua
estrel a, cl ara e gra nd e [...] ele vir ou estr ela, qu e foi um negr o
v al ent e [...]. Bes ou r o nun ca caso u, alé m de ma ríti mo el e er a
jagu nç o, alé m d o r emo ti n ha u m ri fl e, além da fa ca d e
ma ri n hei r o tinha uma n aval ha. [...] a estr el a de B es our o p isc a
n o cé u. É cla ra e gra nd e. As mul h er es di z em q u e el e est á
espia ndo os mal feit os dos ho mens (barõ es, co ndes, vis con des,
17
Cf. CARIBÉ, op. cit., Zilda Paim em Relicário Popular, transcreve essas mesmas informações no corpo do seu
texto, porém não cita a fonte pesquisada. op. cit.; p. 47.
18
AREIAS, Almir, O que é capoeira. 3 ed. Brasiliense. (sd), p.24.
20
ma rq ueses) de Sa nt o Ama r o. E stá vend o to das as i nj ustiça s
q ue os maríti mos so frem. Um di a volt ar á para s e vi ngar. 19
Beso uro se metamorfoseia, torna -se u ma estrela, “clara e grand e” –
depois de ter vivido como “marítimo” e “ jagu nço” –, atento às injust iças d os
pod erosos do Recôncavo, como os barões, co ndes, visconde s e marqueses.
As s im como o persona gem Macu naíma, de Mário de Andrade, que tamb ém
“vira e strela”, Beso uro faz parte de uma const e lação, organizad a pelo
pensame nto mít ico, const itutivo dos homens, em difere ntes épocas ou
so cied ades, vis and o d ar sent ido e reflet ir “so bre a exist ênc ia, os cosmos, as
situaçõ es de ‘estar no mundo’ ou as relações soc iais”. 20
Ao se rememorar a vida de Besouro, de ve-s e cons iderar que “a
lembranç a é a sobrevivência d o passado. O passado, conser va ndo -se no
espírito de cad a s er humano, aflora à co nsc iênc ia na forma de im age ns lembranç a”. 21 Portanto, o ato de lembrar acontec ime ntos qu e se tra nsformam
em história vivifica s ituações e p erpetua o seu aprendizado. Assim são as
história s sobre Besouro Cordão de Ouro, idea lizadas em ima gens elaboradas
pela m emória de quem as conta. S e gund o Ecléa Bosi, “o instrumento
so cializado r da memória é a lingua gem. Ela reduz, unific a e ap ro xima no
mesmo espaço histó rico e cultu ral a imagem do sonho, a ima gem lembrada e
as ima gens da vigí lia atual”. 22
As
narrativas
so bre
Besouro
Manga ngá
são
produzidas
num
momento histórico e so cial e ta is aco ntecime ntos, num processo d e se leção e
combina ção, são memo rizado s, contado s e reco nt ado s, dispens ando -se ass im
uma cobrança aos seu s narrad ores quanto a dado s históricos p recisos, p ois a
impo rtância da narrat iva está no p erso nagem vetor do acontec im ento narrad o.
Co mo
representa nt e
de u m e xpress ivo
segmento
populac ional
afrodescend ente, a histó ria des se capoeirista, que Car ibé destaca, d entr e
vários nomes da capoeiragem, co mo “bom faquista angola, mas jogado r
19
AMADO, Jorge. Mar Morto. 36ª ed. São Paulo, Martins, 1973. p. 123-127.
ROCHA, Everardo. O que é mito. São Paulo, Brasiliense, 1991. 5ª. edição. P. 7. De acordo com o autor, o
mito, presente em todas as épocas, “não possui sólidos alicerces de definições. Não possui verdade eterna e é
como uma construção que não repousa no solo. O mito flutua. Seu registro é o do imaginário. Seu poder é a
sensação, a emoção, a dádiva. Sua possibilidade intelectual é o prazer da interpretação. E interpretação é jogo e
não certeza. Id., p. 95.
21
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembrança de velhos. 9ª ed. São Paulo Companhia das Letras, 2001. p.
53.
22
Id.; p. 56.
20
21
escasso”, 23 foi, como a de ta ntos ou tro s, “esquecid a” pela História oficial,
comprometida co m o projeto ident itár io das elit es d o p aís, na co nstrução de
um Bras il europeizado. Por isso, a au sê ncia de documentos escr itos, d eve ndo
o pesqu isador reco rrer à memória oral p ara elaborar uma histór ia da cap oeira,
pela importância do s afr ica nos na co nstrução da memória do país. Ao
considerar o traço livre e quase o nírico da memória, Bosi afirma o se guinte :
[...] lemb rar nã o é r evi ver, mas r efa zer, reco nstr ui r, r ep ens ar,
com i ma gens e i déias d e hoj e, as exp eriên cias do p assad o. A
me mó ria nã o é s on ho, é tr abal ho. S e assi m é, deve -se duvi da r
d a s ob r evi vên cia do p assado, “t al como foi ” e q ue se daria n o
in co ns ci ent e de ca da suj eit o. A l emb ran ça é u ma i ma ge m
con str uí da p el o s mat eri ais q u e est ã o a gor a à no ssa dis p osiçã o,
n o co nj u nt o de rep r esenta çõ es q ue p ov oam noss a cons ciê nci a
atual. 24
Transmit idas d e ger ação a geração, há quase um século, as
narrat ivas so bre Besouro são fios de uma “memória subterrânea ”, te ce ndo
outros tranç ados, a fim de evit ar o seu esquecime nto.
E stu dar memó ria é falar nã o ap enas de vi da e de p er p et u aç ã o
d a vi da at ra vés d a histó ri a; é falar, ta mb ém, de s eu rever so, d o
esq ueciment o, dos silênci os, d os n ão dit os e, ai nda, de um a
fo r ma i nter medi ária, q ue é a p er man ênci a de m emó ria s
su bterrân ea s ent re o esq ueci ment o e a memóri a s ocial. E n o
ca mp o d as memó rias subt er râ neas, é falar tamb é m na s
me mó rias do s ex cl uíd os, d aq u el es q u e a fr ont eir a do p o de r
lanç ou à ma r gi nali da de d a históri a, a um o utr o tipo d e
esq ueciment o ao l hes r eti ra r o es pa ço ofi c ial ou r egu lar da
ma ni fest açã o d o di r eit o à fala e ao r econ he ci men t o d a
p r es en ça social. 25
Por
esse
e ntendime nto,
tais
histórias
são
reco nstruídas,
ressignificada s pelo traba lho da memória, que se efetu a p elas operações de
lembrar e esquecer. Toda vez qu e um acontecimento é narrado, ou tras
performances são colocadas e tra zidas do inconscie nte e, num misto de real e
ima ginár io, confluem para o mesmo ponto, ou seja, a recria ção das “façanhas ”
ou feitos realizados por Besouro, nu m país que fez do negro o seu Outro, um
23
CARIBÉ. Op.cit.;
Ibid.; p. 55.
25
FÉLIX, Loiva Otero. Política, memória e esquecimento. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de memórias.
(Política, Educação e Identidade). Universidade de Passo Fundo. RS – Brasil. 2002, p. 31.
24
22
estranho a quem se “podia” maltratar, ao ignorar que se trata de um ser
humano .
Segu ndo Vas concelos, ao tratar da impo rtâ ncia d a memória para a
so lidific ação d a história, “ se o esquecimento nos protege das do res, não
impedirá que os ho mens s intam sau dade ou rememorem seus mitos, s ímbo los
e ima ge ns”. 26 As sim, ao se prop or um estudo sobre o capoeirista Besou ro, não
se tem a intenção de esquecer as do res que certamente viveu . Ao contrário,
busca-se e ntender as razõ es pelas qu ais esse p ro tagonista é rememorado co mo
um mito, um símbolo, rep rese ntant e de um segmento so cial mar gina lizad o.
Para
se
ente nder
o
lugar
que
Besouro
M angangá
ocupa
no
ima ginár io p opular, é neces sár io co ntextua lizar o período em q ue viveu,
marcado por mudanças soc iais e p olít icas do Brasil do fina l do sé culo XIX e
iní cio do século XX. A abo lição da es cravatura, com a as sinatura d a Le i
Áu rea em 13 de maio de 1888 , e a Primeira República, que começa a vigo rar
com a sua proclamação, em 15 de novembro de 1889, p elo Marecha l Deodoro
da Fo nseca, at é 1930, criam a espera nça de trans formar o Bras il em um novo
país.
Nesse perío do, o Recôncavo Ba iano é o princip al veto r das relaçõe s
econômica s com o plant io e a colhe ita da ca na -d e-açúcar, e os engenhos s ão
os p rincipa is núc leos para o s co ntatos . A maioria do s engenhos e sta va
loca lizada em Santo Amaro da Pu rificaçã o, terra de Besou ro Cordão de Ouro.
Para Z ilda P aim, “o Recôncavo tornou -se em pouco tempo o mais imp ortant e
ce ntro agrícola da era colo nia l”. 27 Ainda p ara a autora, Santo Amaro “fo i, s em
dúvid a, o município que mais e scra vos p ossuiu. Seu s prime iro s povoado res,
os p ortu gueses, dado às ave nturas, ávido s de lucros, qu eriam t irar da terra o
má ximo que ela pud esse dar”. Dest acam -s e a inda o s agru pamento s ne gros que
vieram para Santo Amaro:
[...] os ha ussás h ab itav am o Sudã o C entr al, a o nort e d os ri o s
Nig er e Bi n ue. F or mav am a naçã o mais i mp orta nt e de t o das a s
n eg ríti cas su dan es as. Os malês eram a frican os islami za dos,
p oss ui do r es de med i ana cult ura e p ort a do r d e ofí ci os d e
26
27
VASCONCELOS, José Gerardo. op. cit.; p. 24.
PAIM, Zilda. Isto é Santo Amaro. 3 ed. Salvador. Academia de Letras, 2005, p.51.
23
p edr ei r o e ca rpi nteir o, óti mos a gri cul tor es, exer cen d o
in fl uê ncia s ob re es cravos d e di versas pr oced ênci as. 28
No p eríodo em que Besouro viveu , preva leciam “ra nço s” muito
fortes do regime mo nárqu ico no país, e a ab olição era ainda uma s ituação a
ser ac eita por muitos ex-do nos de escravos. Segundo o historiad or baiano
Walter Fra ga F ilho, “ nos últ imos anos do século XIX, o Recôncavo era a
região econo micame nt e mais imp ortante da pro vínc ia. Era também a mais
densame nt e povoad a e a que concentra va maior número de escravos”. 29 E para
Antô nio Risér io a sociedade que s e formou na “cid ade da Bahia” e s eu
Recô nca vo esteve marcada po r um processo contí nu o de mest iça gem, apesar
de to das as desigu aldades entre os gru pos que a co nstitu íram. 30
Co m essa composição pop ulacio nal s ingularizando o Recôncavo
Baiano e a cidade do Salvador no s primeiros a nos da Repú blica, as e lite s
loca is vão fazer uso do s capo eirista s. De acordo com Ris ério, “a c lass e
dirigente baia na se opôs, até quando is so foi possível, à mu danç a de regime
polít ico ”, e a Ba hia foi a ú lt ima província do império a ad er ir à Repúb lica.
Ris ério destaca que a elite b aiana, p or seu conservadorismo, de “fund as e
contorcidas raízes”, via no no vo regime o sinô nimo da anarquia e, tanto a
elite po lítica quanto o empresariad o agromerca nt il, cons idera vam que, com a
alt eração do r egime, só ter iam a perder o poder adqu irido du rante anos de
domínio senhorial. 31
As sim, com a Prime ira Repúb lica, surge a figura d o coronel, que va i
atuar co mo “escudo” das forças política s vigent es, cabe ndo -lhe, po r mu itas
vezes,
escolher
o s líderes
loca is
ou
formar
novas
parcerias,
pois
a
so brevivê nc ia do sistem a político d ependia do contínuo e da manipu lação do
pod er pela s o ligarquias trad iciona is.
Para o histo riador coreano Eul Soo Pang, a Bahia, “devido ao seu
tamanho fí sico e demográfico e sua imp o rtâ ncia eco nômic a, era o ma ior e
28
Id. Ibid., p. 45- 48.
FILHO, Walter Fraga. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos libertos na Bahia (1870-1910).
Campinas/SP. UNICAMP, 2006. p. 34.
30
RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2 ed. Versal, 2004. p. 103. Segundo, Josivaldo Pires de
Oliveira, Salvador, “capital da Bahia”, é, historicamente, conhecida como uma cidade de muitos nomes. “Cidade
da Bahia”, “São Salvador”, “Cidade do Salvador” ou “Bahia de Todos os Santos”, principalmente quando se
trata da cidade da primeira metade do século XX.
31
RISÉRIO, Antonio. op. cit., p. 404-405.
29
24
mais poderoso estado do Nordeste do Bras il e os seu s coronéis c hegaram a
particip ar d e campanhas m ilitares ao lado de determinados grupos polít icos
estadu ais e nacio na is. 32 Ainda com Eul Soo Pang, o co ro nelismo tem como
base p atriarca l, soc ial e eco nô mica os e nge nhos de açúcar do século XVI, e a
su a principal fu nção era a hábil u tiliz ação do pod er privado acumulado pelo
patriarca de um clã ou uma famí lia ma is ext ens a. 33 J osivaldo Oliveira e ntende
o coronelismo como “fruto de situ ações históric as e specífica s em u ma
so cied ade, inclus ive em soc iedades urbanas, a exe mplo de Salvador na
Primeira República”. 34
Dest aque-se qu e o pod er senhor ia l d o int erior do Brasil a ind a
ma nteve a sua força até a s egunda met ade do século XX, como afirm am
Vilaça e Albu querqu e, “tendo, portanto, sobrevivido por mais de meio século
a seus precursores, o s coronéis do açúcar”. 35 Nes se co ntexto, muitos
capoeiras, assim tamb ém conhec idos, ho mens fortes e destemidos, aptos a
todo tipo d e ser viço, vão trabalhar co mo “capa nga s” ou homens de co nfiança
dos coronéis – uma espécie d e s eus protetores particulares e de suas terras – e
vão ter os coronéis como seus protetores.
Segu ndo Muniz Sodré, “desde pouco antes da Abolição e durante a
Primeira República”,
os cap o ei ristas p ass ar am a s er usad os, s ob r et u do no Rio d e
Ja neiro co mo ca pa ngas (às vez es contr a os p róp rios n eg r os, o u
con tra os rep ubli can os ) p o r p olíti cos e p ess oas d e i nfl uê nci a.
Nã o s en do ess e o cas o, o cap oeirista er a fr eq ü ent em ent e
32
PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias. 1899-1934. A Bahia na Primeira República Brasileira. Trad.
Vera Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9. No período em que viveu Besouro
Mangangá, a divisão geopolítica do Brasil estava demarcada por duas regiões: Norte e Sul. O “termo nordeste é
usado inicialmente para designar a área de atuação da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS),
criado em 1919. Neste discurso institucional, o Nordeste surge como a parte do Norte sujeita às estiagens e, por
essa razão merecedora de especial atenção do poder público federal. [...] Em 1920, a separação Norte e Nordeste
ainda está se processando; só neste momento começa a surgir nos discursos a separação entre a área amazônica e
a área ‘ocidental’ do norte, provocada principalmente pela preocupação com a migração de ‘nordestinos’ para a
extração de borracha e o perigo que isto acarreta para o suprimento de trabalhadores para as lavouras tradicionais
do Nordeste”. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2 ed.
Recife: FJN, Ed. Massangana; São Paulo: Cortez, 2001. p. 68-69.
33
PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias. 1899-1934. A Bahia na Primeira República Brasileira. Trad.
Vera Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9.
34
OLIVEIRA, Josivaldo Pires. No tempo dos valentes: os capoeiras na cidade da Bahia. Salvador: Quarteto,
2005. p. 90.
35
VILAÇA, Marcos Vinicius; ALBURQUEQUE, Roberto Cavalcante de. Coronel, coronéis. Apogeu e declínio
do Coronelismo no Nordeste. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 23.
25
ap o nta do co mo a ut o r d e t r op eli as e des or den s, sus cit a ndo mai s
u ma vez medi das l egislati vas esp ecí fi cas. 36
Aind a co m Sodré, “a crônica da cap oeira até qu ase o fim d o Império
reve la d ispo sições permanente s de re sist ênc ia marc ia l aos dispositivos
repress ivos d e ordem escra vagist a”. As sim, no final do século XIX, o jogo da
capoeira começa a so frer forte repress ão socia l e polic ia l, tanto na capit al da
Repúb lica, o Rio de Janeiro, qu anto na Bahia e seu Recô nca vo, decorrente da
insurgênc ia dos negro s ao sistema polític o vigente. Nos primei ros anos pósmonárquicos e d e Repúb lica Velha (1889 -1930), a capo eira vem a se r
considerada crime, com o Código Pena l de 1890.
De acordo com M anuel Querino, no Rio de J ane iro “o cap oeira
const ituía u m elemento perigoso, torna ndo -se ne cess ário que o gover no , p ela
portaria de 3 1 de outubro d e 1821, estabele ce ss e cast igo s corpo rais e
providê nc ias ou tras, relat ivas ao caso” . 37 Os t ipos, então d escr itos nas
narrat ivas,
podem
bem
representar
caricaturas
do
siste ma
soc ial
da
épo ca.Desse mo do, domina nt es e dominad os lideravam um conflito freqüente.
Afirma Edil Co sta :
P rati cada p el os a fr o-br asil eir os como um j ogo, u ma for ma d e
di verti ment o q ue dis farç ava uma luta p eri g os a, a cap o ei r a
p ar ece nã o t er d ei xa do de s er p rati cad a em mo men t o al g um d e
su a história, ap esar da r ep r ess ão p oli ci al viol ent a q u e s ofr eu .
Ao cont rári o, ga nh ou forç a enq u ant o sin al d e r esistência e d e
d es cob ert a da negrit ud e. E m u m mo m en t o segu i nt e, fi r mou - s e
como l uta e, mes mo p rati cad a ent re os negr os, nã o hav en d o
comb at e dir et o entr e o opri mi do so cia l me nt e e o s eu op ressor,
o comb at e simbó li co esta va estab el eci do : jo gar cap o ei r a
sig ni fi ca va a fi r mar-s e co mo negr o, her deir o da tr a diç ã o
a fri ca na e faz er fr en t e e r esistê ncia a os valor es so ciais d o
b ran co. 38
A repressão ao jo go da capoeira não s e estendia à s e lites, que
faziam uso da fo rça e da valent ia dos cap oeirista s. Se gundo Almir das Areia s,
o Código Pena l de 1890 confere à capoeir agem um tratamento esp ecífico:
36
SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida; por um conceito de cultura no Brasil. 3ª ed. DPA editora. Rio de Janeiro,
2005. p. 155.
37
QUERINO, Manuel. A Bahia de outrora. Salvador. Progresso, 1955. p. 80.
38
COSTA, Edil Silva. Comunicação sem reservas. Ensaios de malandragem e preguiça. 2005 (236 p) Tese
(Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo 2005.
p.88.
26
– F az er nas r uas e p ra ças p ú bli cas exer cí ci os d e agili dad e e
d estr eza cor p oral con heci d os p ela d eno mi nação cap oeira gem;
s erá o autu ad o p uni d o com dois mes es d e p ris ã o.
– É co nsi der ada ci rcun stâ nci a a gra vant e p ert encer o cap oei ra a
algu ma ba nd a o u malt a.
– Aos ch ef es e cab eças se i mp or á a p en a em d ob ro.
– No cas o d e r ei n ci dê ncia s erá apli cad a ao cap oeir a, no gr a u
má xi mo, a p ena do arti go 400 .
– Se for estran geir o, s erá dep orta do d ep ois de cu mp rir p en a.
– Se n ess es exercí cios de cap oeir a gem p erp etra r ho mi cí di o,
p rati car al guma l es ão co rp oral, ultr aja r o p oder pú bli co e
p arti cul ar, e p ert urba r a or d em, a tra nqü ilida de o u a segu ra nç a
p úb li ca
ou
for
enco ntr a do
co m
ar mas,
incorr er á
cumul ati va ment e nas p en as comi nadas p ara t ais cri mes. 39
Tal código é destituído em 1937, na Rep ública No va, com o então
presidente Getúlio Var gas, e a capo eira t orna-se um esporte, inst itucionaliza se, como um modo de contro lar a at uação dos cap oeirista s, atra vés da
organização de academ ias para o seu ens ino. 40 De acordo com Walde loir
Rego,
a cap o ei ra foi i nv en tad a co m a fi nalida de de di verti ment o, ma s
n a r eali dade funci onav a co mo faca de dois gu mes. Ao lado d o
n or mal e do q uoti di an o, qu e era di vertir, er a lut a ta mbém n o
mo ment o op o rtuno. N ão h avia Acad emi as d e Cap o eir a, ne m
a mbi ent e fecha do, pr emedita da ment e p ara jog ar ca p o eir a.
Anti gament e h avia cap o ei ra, ond e ha vi a uma quitan da o u um a
v en da d e ca ch aça, com u m l ar go b em em fr ent e, p r opí ci o a o
jo go. Aí, aos domi ng os, feri a dos e dias s ant os, ou ap ós o
trabal ho s e r euni a m os cap oeiras mais famo sos a ta garelar em,
b eb er em e j ogar em cap oei ra. 41
Co m a ass inatura d a Lei Áu rea, mu itos n e gros libertos cont inuaram
a trabalhar em tro ca de salários ou arrenda ndo terras dos seus ex-senhores,
se gundo Walt er Fraga Filho :
É p r eciso lembr ar q u e a pop ul açã o q u e emer gi u da es cr a vi dã o
era b asta nt e di fer encia da i nt er na ment e. A p oss e d e al gun s
b ens, o dir eit o d e acess o à t er ra, o do mí ni o de u ma pr ofissã o
esp eci aliza da, a p osi ção de feit or d e ser vi ço, estab el ecera m
39
AREIAS, Almir das. O que é capoeira. 3 ed. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983. p. 43. Em A verdade seduzida,
Muniz Sodré, em nota de rodapé, afirma o seguinte: “O Código Penal de 1890 previa desterro e castigos
corporais para quem praticasse a capoeira. Exemplos célebres de desterro: Manduca da Praia, Juca Reis,
mandados para a Ilha de Fernando de Noronha, durante o primeiro governo republicano; de castigos corporais:
as chicotadas aplicadas pelo famoso Major Vidigal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, no início do século XIX
Cf. SODRÉ, Muniz. Op. cit.; p. 155.
40
OLIVEIRA, Josivaldo. op. cit., p. 31.
41
RÊGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapoã, 1968, p. 35-36.
27
algu ma s di fer en ças dentr o do conti n gent e escravo, d efi nir a m
es col has e po der d e b ar ga nh a fr ent e aos ex -s enh or es. 42
Antes e scra vos, agora o s negros passam a const itu ir u m exp ress ivo
se gme nto de exc luídos, deixados à própria sorte. Como a grande maio ria não
teve a ce sso à cultu ra letrada, restava - lhes fazer parte do gra nde cont inge nt e
de-mão-de obra barata e desqualific ada que povo ava as c idad es do Recônc avo
Baiano e do Brasil.
Para
a
historiadora
Adria na
D ias,
mu itos
negros
“eram
trabalhado res braçais, como carregadores, estivado res, engraxates, cap anga s,
polic iais”, 43 e a rua era o p rincipa l ce nário de co nflito s constantes, p ois
muito s trab alha vam esporad icam ente, e lu gar do jo go da capoeira. Ne sse
contexto, negros e “me st iços” são c las sificados de “vadios”, “ vale ntões,”
“deso rd eiros” ou ainda pobres “vicio sos ”. 44
Aind a s egu ndo Adriana D ias,
[...] n o fi nal do sécul o XIX, muit os vi vi am de o cup aç õ es
esp or á di cas t end o um rit mo de vi da b asta nt e ir r eg ul ar, o q u e
lh es pr op o r ci o nava fr eqü ent es p erí od os d e oci osi da d e
ent r emead os p or mo m en tos d e div ersão q uas e s empr e
a compan ha dos de mu itos ‘ gol es de cachaça’ e, lógi co, muit a s
b rigas e pr o vocaçõ es. 45
As sim, como afirma Walt er Fraga, justamente por suas hab ilidades
ou p ro fiss ão esp ecia lizad a, os negros do pós -abolição u sam seu poder de
barga nha junto à s e lites, e os capoeiristas t amb ém vêm a ne goc iar sua s
hab ilidades, ao serem usado s como capangas p or “polít icos e pes so as de
influência”, como também analisa Muniz Sodré.
A capoeira, misto de arte e lu ta, compõe o repertório cultural do
negro , u ma estraté gia cr iada em sua d efesa e est ab elec ime nto de poder entr e
outros negro s. No Rio d e J ane iro , após a abolição, um enorme cont ingent e de
ex-escra vos também va gueava p elas ru as, “resid indo nos morros e na s
42
FILHO, Walter Fraga. Op. cit., p. 232.
DIAS, Adriana Albert. Mandinga, manha & malícia; uma história sobre os capoeiras na capital da Bahia
(1910-1925). Salvador: EDUFBA, 2006. p. 70.
44
Ibid., p. 26.
45
Ibid., p. 17
43
28
periferias, circu la ndo normalmente nos locais de ma ior movim ento d a cidade
[...], mal co ns eguia m um trabalho qu e lhe s garant isse a sobrevivênc ia”. 46
Entregues à próp ria sorte, por co nta de um passado que não
esco lheram, e nvolviam-s e em as sa ltos, cr imes e emboscadas. Por is so,
vad iavam pe la cidade – “dividind o -se e o rganizando -se em grup os, os ne gros
caminhavam cada vez mais para a mar ginalidade. Surgem as famo sa s ma lta s
de capoeira”. 47 Em relação a es sas malta s, Edson Carneiro afirma o segu inte:
As maltas d a Bahi a fo ra m d es or ganiza das po r ocasião da
g uer ra do Par a guai: o g ov er no da p r ovín ci a r ecr ut ou à força o s
cap oeir as, q u e fez segu ir pa ra o S ul co mo “v o l u nt ári os d a
P átria”. Ma nu el Q ueri no co nt a q ue mu it os de les s e disti n guia m
p or at os de br av ur a no ca mp o de bat al ha. 48
Ao reconst ituir um p ercurso histó rico da capoeira gem, Líb ano
Soares destaca que, antes
d e s er ‘ des cob ert a’ p el os hist ori ador es, há p oucas dé ca das, a
cap oeir a já ti nha vi vi d o su as a vent uras nas p ági nas d a
literat u ra, d os cr o nist as, dos me mo ri ali stas do p assa d o
i mp erial d o Rio d e Jan eir o. E ant es mes mo d est es – e d e for m a
mu it o mais fr eqü ent e -, nu m p assa do remot o, a cap o ei ra só er a
test emun had a p el os es cri vã es d e P olí cia. 49
Aluís io d e Aze ved o, em O co rtiço , (1890) e M anoel A ntônio de
Alm eida, em Memórias de um sargento d e milícias, (1854 ) registram na s
páginas d esses ro mance s episódios envo lvend o p erso nagens capo eir ist as, os
quais co ntr ibuem para ente nder a dinâmic a socia l do Rio de Janeiro, no século
XIX, p eríodo qu e marca a passagem da o rd em imp erial para a o rd em
repub licana.
Co nt inua Líbano Soares:
[...] junt o co m ra mei ras, p r ostit utas, v agab u nd os, esti va dor es,
mal andr os, b oêmi os, p oli ci ais, os cap o ei ras fa zia m p art e d a
b uliç osa fau na das r uas da C ort e, q ue ass ustava as ca ma da s
mé di as e tamb é m a elit e diri gent e. P ersegu idos p el o apa rat o
46
Cf. AREIAS, op. cit., p. 29
Id., p. 29.
48
CARNEIRO, Edson. Capoeira. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1977. 2 ed. Cadernos de Folclore. V. 1.
49
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A capoeira escrava e outras tradições no Rio de Janeiro. (1808-1850). 2
ed. Campinas, São Paulo: Unicamp, 2004. p. 35-36.
47
29
p oli ci al os cap o ei ras fora m p res en ça fr eqü ente nas pá gi n as d o
cri me do sécul o XIX. 50
Co nco mitante aos ep isódio s da Corte Imp erial no Rio de Janeiro,
envolve ndo indivídu os desses s egmento s sociais, a Ba hia e s eu Recôncavo
também p ossuem os seu s “vadios”, “valentões”, “d esordeiros” ou ainda
“pobres e vic iosos”. S egundo Jo siva ldo Olive ira, na cidade de Sal vad or das
primeiras décadas repu blica nas a capo eiragem ass im era vista :
Co nfi gu r ou-s e de forma apr oxi ma da a o Par á r ep ub li ca no. O s
cap oeir as eram ass oci ad os à v agab und ag em e a outr os tip o s
so ci ais do uni v ers o das ru as, a exe mp l o do cap an ga p olíti co e
d o sol da do de p olí ci a, mas t a mb ém a o trab al ha do r na s
p rincipais ocup aç õ es das camad as p op ula r es: p ed r ei r o,
carr ega dor, car r oceiro, maríti mo, p ei xeir o, et c. 51
Para Muniz Sodré, a cap oeira imp licava, como toda estraté gia
cultu ral dos negro s no Bra sil, um jogo d e res istê ncia e acomodação .
L ut a co m ap ar ên ci a d e dan ça, danç a qu e apa r ent a combat e,
fa ntasi a d e l uta, va di açã o, ma ndi n ga, a capo eira s ob revi v eu
p or ser u m jog o cu ltural. Um j ogo d e destr eza e ma lí cia e m
q ue s e fi ng e l ut ar, e fi ng e-s e t ã o b em q u e o co n cei t o d e
v er d ade da l uta se diss ol ve aos ol hos d o esp ect ad or e – ai del e
– do ad vers ári o desa visa do. 52
Sodré traz uma descrição p rimorosa dessa arte :
V adia çã o e brin cad eira sã o outr os n omes com q ue os n eg ro s
d esi gnav am n a Ba hia o j og o d a cap oeir a. Capo eir a s e l uta,
jo ga, bri nca, é al g o q ue s e faz en tre ami gos o u co mp an heiros.
Co mo ? Pri m ei r o, for ma -se uma r oda co mp ost a p or um ou mai s
to ca do res de b eri mba u (a rco r et esad o p or um fi o de aço,
p er cuti do p o r uma vareta e a o q ual s e p r en de uma cabaç a
cap az de fun ci o na r como cai xa de r ess onâ ncia), p an deir os,
ca xi xis o u r eco -r eco s. E m segu ida, dois h omen s en tra m n o
cí r cul o, abaix an do-s e n a fr ent e d os mú sicos, ao so m do s
instru ment os e de ca nçõ es (c hu las) esp ecí fi cas. 53
50
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição. Os capoeiras na Corte Imperial 1850-1890. Rio
de Janeiro: Access, 1999. p. 3. Segundo o autor, os feitos dos capoeiras no Rio de Janeiro – capital da República
– Bahia e seu Recôncavo vinham desde o período monárquico, o que validava a sua coibição. Por conta disso, o
Código Penal de 1890 passa a ser o principal recurso de punição para esse tipo de luta.
51
OLIVEIRA, Josivaldo. op. cit.; p. 33.
52
SODRÉ, Muniz. Capoeira, um jogo de corpo. op. cit.; p. 155. Grifos do autor.
53
Id. p. 153. Grifos do autor.
30
E nt ão, mo biliza m-s e t ot al men t e os corp os d os j o ga dor es.
Mãos, p és, joel ho s, b ra ços, cal ca nhar es, cot ov el os, dedos,
cab eç as combi na m-s e di na mi cament e em esq ui v as e g olp es, d e
n omes va riad os: aú, rast eir a, meia -lua, m eia -lua de co mpass o,
ma rt el o, r ab o- de- ar raia, b enç ão, chap a- de-p é, chib ata, t eso ur a
e muit os outr os. 54
Em sua cartogra fia d a cap oeiragem baiana, J os ivaldo Oliveir a
mapeia os princ ipais loca is de conflitos dos capoeiristas, ruas, logradouros, e
a mo radia de muitos dos indivíduo s ident ific ado s co mo capoeiras. 55 As e lite s
so teropolita nas
cons ider a vam
esses
locais
espaços
suscet íveis
à
crimina lidad e.
O “cotid ia no da ru a na Cidade d o Salva dor, inclu sive nas obscu ras
e embriagadas noit es, urgia atenção especial por parte das autoridades e os
edito ria is dos principa is jorna is da época cob ravam das auto ridades polic iais
melhor seguranç a e ordenação pú blica ”. 56 Co ntudo, a despeito da forte
repressão, os capo eir ist as ma nt iver am clandest inam ente o jogo, pratica ndo -o
nos quint a is, na s praias, nos terre iro s e nos arredores da cidad e, ao tempo em
que transm it iam seus e ns inamento s à s ger açõ es fu turas. 57
A ginga e ma lícia d a capoeira estavam nas ruas, fert ilizando a
ima ginação de segm ento s so ciais e lit izad os, amedrontados com as possíveis
agressões, endossa ndo a má xima de q ue o capoeir ista é “ ma la ndro”, um
detentor de artimanhas, aprimo radas a cada luta e, princ ipalm ente, na roda da
capoeira.
Nesse cont exto histórico, co meça a sa ga d e Besouro Manga ngá, cuja
fama alcançada é ass im compreend id a po r Pedro Abib:
No i ma gi n ári o d a cap oeira gem e d os cap oei ras nã o exi s t e
fi g ura mais r ep r esent ati va d o q u e B es ou r o Ma nga ng á. [...] na
me mó ria dos mais a nti gos morad or es do R ecô n ca vo, a fi g ur a
d e B eso ur o, viv e e pr ot a goniza um s em- nú mer o de histó rias e
“caus os” en vo lv en do su as p eripé cias
e astú cias
no
enfr entam ent o co m a p ol í cia, s ua valentia ao bri ga r e b at er e m
v ári os op on ent es a o mes mo t emp o [...]. 58
54
55
Id. p. 153-154.
Id. p. 41. O autor destaca a importância das crônicas e da literatura urbana para os estudos africanistas e a
etnografia, vigorando até os anos 1930, por contribuírem com a reconstituição do cotidiano dos capoeiras
baianos que viveram em Salvador nas primeiras décadas do século XX. Cf. OLIVEIRA, Josivaldo. p. 39-40.
56
Id. p. 45.
57
Cf. AREIAS, p. 61.
58
ABIB, Pedro. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. Campinas, SP. Unicamp/
CMU; Salvador: EDUFBA, 2005. p. 160.
31
Ao sair de ca sa com 13 anos de idade, Besouro vai para a sede do
distrito em qu e mo rava, S anto Amaro da Pu rificação, vindo a res idir no ba irro
do Trapiche d e Baixo , zona su burbana da cidade qu e passa a s er a sua escola.
Ap rende a jo gar capoeira com o “tio Alí pio” e trab alha em diversos o fíc ios :
vaq ueiro, amansador de burros, sa ve irista, num temp o de conflito entr e
“maltas”, disputas a nava lha, capa ngas ele itorais e repres são do Estado
repub licano ao jogo da capoeira.
É nesse período conturbado do país, em espec ial a Ba hia e o seu
Recô nca vo, cu ja at ividade econômica, em seus mo dos e relação de produção,
não abriu mão da fo rça de trabalho dos negros, m esmo com a aboliç ão da
escravatura, q ue passam a comp or predominanteme nte os segmentos p opulares
que Besouro ganha evidê ncia com seus feitos que d esafiam a ordem vigent e.
Naquele universo da capoeiragem baia na, muitos cap oeirista s s e
tornaram notáveis. Contu do, Besouro Cord ão de Ouro lid era o período, com
maestria, sí ncopa, qu alificad a por Muniz Sodré co mo um esp aço a ser
preenchido com o corpo 59 e, nesse ca so, o corpo do negro : em mo vimentos
rítmicos, envolvido pela música e a ginga da cap oeir a, qu ase um b ailado que
hip no tiza o adversár io. Edson Car ne iro o destaca : o “ma is famoso d os
capoeiras na cionais era natura l de Santo Amaro, na zo na cana vieira, e tinha o
apelido de Besouro Ve nenoso. Era inve ncí vel e inigualá vel. Ainda agora a s
chu las de capo eira cantam as suas proezas lendár ias”. 60
Beso uro Mangangá ens inou a outros o que aprendeu com o seu
velho mestre, a inda garoto . Nesse ap re ndizado começa a co nhecer o corpo
como eleme nto agre gad or para fortalecer a arte da então “capoeira escr ava”, 61
um instrume nto para defes a e ataq ue, uma das e straté gias dos escravos para
59
SODRÉ, Muniz, Samba, o dono do corpo. 2 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998. p. 11. De acordo com Walnice
Nogueira Galvão, a síncopa é “uma espécie de padrão rítmico em que um som é articulado na parte fraca do
tempo ou compasso, prolongando-se pela parte forte seguinte”. “Um corpo sincopado valoriza mais intensa e
expressivamente o tempo fraco da música. E isso se reflete de diversas maneiras. Porque rompendo com a
hegemonia do tempo forte, esse corpo se fraseia de um outro jeito: é como se ele tomasse a liberdade de brincar
se expressando. Conectado com o espírito da música esse corpo tanto ginga por dentro como por fora; saracoteia,
deixa-se tomar por trejeitos, por negaças, remelexos, balanços, meneios, volteios, suíngues...”. A síncopa “se
traduz no corpo e o corpo traduziria o ritmo caso ele fosse dessincompado. É como se no tempo fraco o corpo
pudesse exprimir certas sutilezas para as quais o tempo forte não dispõe de duração suficiente. Pois o tempo forte
nos prende ao chão enquanto o fraco nos liberta dele: o tempo forte é peso, o tempo fraco é leveza”. Cf.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Grandeza e encanto de Naturalmente, de Antônio Nóbrega. Disponível em
http://www.conectedance.com.br/matéria.php?id=9
60
CARNEIRO, Edson. op. cit., loc., cit.
61
Denominação usada por Carlos Líbano Soares para a capoeira jogada no século XIX. In: A capoeira escrava e
outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 2004.
32
lidar com a brutalidad e do poder escra vista.
Segund o Almir das Areias, “a
capoeira surge no Brasil como arma, em função da necessidade d o escravo de
se defender dos maltratos e cast igo s dos seu s opressores e, ao mesmo tempo,
como folgu edo, p ara express ão e manife st ação dos seus se nt ime ntos”. 62
As sim, a cap oeira era u ma prática ne ce ss ária a um segm ento da
pop ulação
afro -b aiana,
cada
vez
mais
oprimid a e
marginalizada.
“À s
esco ndidas, os capo eiras, nos qu int ais, nas pra ias, no s terreiros e no s
arredores da c id ade, exerc ita va m a s ua prática e tra nsmit iam os seus
ens inamentos à s geraçõe s futuras”. 63 Nes sa p rática, tem-se u m jogo de corpo
que marca um movimento d e res ist ência, o scila ndo entre a re volt a e o emb ate
direto às forças da ordem.
Besouro Cordão de Ouro, um heró i d a cultura afro -brasileira
Onç a pr et a foi l á e m cas a/ t u m t u m t u m
bat eu na port a/ M e ch a mou pr a
con ver sar/ Te m u m n eg o q ue é u m
t ou r o/ Vi aj an d o p ara cá/ Us a c ord ão d e
ou r o/ Cal ça ch ap éu e ab adar/ U sa bri n c o
e p at uá/ On ça pret a foi l á em cas a/ Zu m
zu m zu m boat o c orr e/ É B es our o
Man g an gá 64
Zu m, zu m, zu m, Besou ro M an gan g á
Bat en d o n os s ol d ad os d a p ol í ci a mi l i t ar
Zu m, zu m, zu m, Besou ro M an gan g á
Que m n ão pode c o m mand i n ga n ã o
carr e ga pat u á 65.
Quem é o herói Beso uro? Que narrat iva protagoniz a? Em su a
trajetória, não abraço u uma nob re mis são, como os heróis das ep opéia s
cláss icas: r epresentar grand iosame nte a s ua p átria ou nação ou a humanidade.
Besouro va i compor a galer ia de ou tra tradição, a do heró i popu lar, erguid o na
contramão do s valo res de uma cultura hegemô nica. Por ess e ent e ndimento,
são tidos co mo ant i- heróis, marginais ou pic aresco s.
No Ocid ente, as narrat ivas so bre os feitos e xtraordinár ios d os
heróis começam na Gré cia, a s q uais re gistram histórias d e personagens que
62
AREIAS, Almir. O que é capoeira. 1 ed. Brasiliense, São Paulo: 1983, p. 22
Id. p.60-61.
64
Cantiga de capoeira identificada por Areias, de autoria de Dado. In. O que é capoeira. p. 55.
65
Cantiga de domínio público.
63
33
enfrentaram s ituações d es afiado ras de sua condição humana. O herói des sa s
narrat ivas é jovem, corajoso e destemido, que vive ncia incríveis façanha s.
As s im os heró is são figuras imorta lizad as como sem ideuses, p ersona gens de
narrat ivas mít icas p ovoando o ima giná rio do s ind ivíd uos em diferente s
cultu ras. De acordo com Massaud Mo isé s, até o século XVIII,
[...] grosso mod o a épi ca cara ct eri zo u- se p or u m t o m
maj est os o e mes mo r eli gi os o, e p or cont er as s ub li me s
faça nh as du m h erói q ue si mb oli za va as gr a ndezas de sua p át ri a
e mes mo d e t o da a Hu ma ni dad e: n um mu nd o estrati fi ca do,
h avia l u gar cert o p ara o herói. C om o ad vent o d o R omantis m o
e a cons eqü ent e d err ub ad a das car comi das e tra di ci onai s
estrut ur as, des ap ar ece o h erói e nas ce o não - heró i o u o anti h eró i, pois no mund o n ov o d ei x ou de haver esp aç o p ara a s
con cepçõ es míti cas segu ndo o a nti g o fi gu ri n o. 66
O herói das narrat ivas ocide ntais é uma espéc ie de su per -homem,
um semi-deus, daí a amb igüidade, o que mantém sua co nd ição hu mana. Na s
epopéias gregas, o herói ap rese nta uma fac eta bélica, protagonizando u ma
história de conflitos, qu e tem o seguinte e nredo : “a prep aração (aprese ntação
do herói e descrição das armas); o comb ate (peripécias, espect ado res,
proezas); o dese nlac e vito rio so (despojos, injúria aos cadáveres inimigos,
jogos fúnebres)”. 67
Beso uro, herói de extr ação popular, é protagonista da epop éia
dolorosa dos negros no Bras il, tornando -se um p erso nagem d a história que va i
alime ntar, aind a hoje, mu itas narrativ as sobre suas aventuras. O capoeirist a
rasura a noção de herói como a elaborada por uma conceituação tradicio nal do
gênero épico, vindo simbo lizar a rebeldia dos negros, como resposta ao
sist ema escra vocrat a no país.
O e nfre nt amento dos negros es cra vizados ao s istema d omina nt e
sempre foi vigiad o, controlad o, objeto de punições se vera s, se ja atravé s de
cód igos criados pelos se nhores escravist as, seja atravé s de leis elaboradas
pelo campo ju rídico, qu e inc lusive dá respaldo àqueles có digos. Em seu
estudo acer ca do papel dos negros na desagre gação da ordem escravist a no
66
MASSAUD, Moisés. A criação literária. 4 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1971, p. 70.
Cf. E-Dicionário de Termos Literários. http://www2.fcsh.unl.pt/edtl//verbetes/H/heroi.htm. Acesso em
01/05/2010.
67
34
Brasil, a historiado ra Lane La ge Lima ana lisa a aliança entre a campanha
abo licio nist a e a rebeldia negra. 68
Para a auto ra, a insurreição “const itui a respo sta do escra vo à
violê ncia d o s istema de dominação imposto p elo branco. Vio lênc ia traduzida
por precárias co ndições d e subsistênc ia, aliadas à co mpulsão a um trab alho
exte nua nte e a lie nador, através de me ca nismos de coerção particularme nt e
viole ntos e legitim ado s, legal e ideolo gica mente, na consc iênc ia do senhor”. 69
A
autora
co nstat a
os
limites
d essa
reb eldia,
co mo
suas
possib ilid ades. Limitad a, porque “não se abrem p ara o escr avo perspectiva s
de atuação política dentro d o sistema, que condena o ne gro rebelde à
marginalidade e à vio lê ncia sem e xpressão so cial”, como se apresentam
“dificuldad es
mater iais
vigiada”
sobretudo,
e,
de
mobilizaçã o
“imp ossib ilidade
de
uma
de
o
classe
escravo
co nst anteme nt e
at ingir
u ma
consc ient ização mais ampla de s i me smo e do sistem a qu e o oprime”. 70
P or ém, d ois fat or es vão p ossib ilitar a o negr o ultr ap ass ar o s
li mit es d essa r eb el dia fech ad a em si m es ma. E m p ri meir o
lu gar, a pr eser va çã o da r eli gi ão e cult ura a fr ica nas; n a med i da
em q u e nã o só a gl utin am e or gani za m os n eg ros p el a
r epr od uç ão d e hi er arq ui as tr a nspla nt a das da Á fri ca, mas,
p rincipalm ent e,
p er mit em-l hes
a ut ocon ceb erem-se
com o
p ess oas, dotad as d e i ndi vi duali da de p róp ria , fora d o sist em a
es cr a vista, q u e p assa a s er vist o, d e for ma glob aliza nt e, com o
u m todo cu lt ur al q ue l he é h ostil.
E , em s egun do l u gar, o apr ov eita ment o das co nt urb açõ e s
so ci ais s ur gi das nos mom en t os d e crise do s istema, q uan do o s
n eg r os
ca naliza m
s ua
r ev olta
p ara
os
mo vi ment o s
r evol ucio ná ri os qu e agitam esses p erí odos, co mo for ma,
68
LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra & abolicionismo. Rio de Janeiro: s/d. A pesquisadora elenca os
movimentos de insurreição no país, principalmente os ocorridos no século XIX, momento em que o sistema
escravocrata apresenta sinais de crise, isto é, quando o trabalho escravo inviabiliza a expansão do capitalismo. A
autora destaca a rebeldia do negro em movimentos de cunho político, como a Conspiração dos Alfaiates, na
Bahia, em 1798, a Cabanagem, no Pará, a Balaiada, no Maranhão, a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul,
a Sabinada, na Bahia, no século XIX, e de cunho religioso, como as insurreições dos Malês, na Bahia, também
no século XIX.
69
Idem, p. 153.
70
Id. p. 154. Segundo a autora, esses limites, “por sua vez, são determinados pela estrutura de produção
brasileira, que, ao integrar a produção para mercado à de subsistência, alia num só núcleo o lar e a empresa,
permeando com relações pessoais as relações de produção”. De acordo com Lana Lima, nas relações pessoais,
senhor e escravo, de base patriarcal, no âmbito da esfera privada, o negro se percebe em sua condição humana,
enquanto pelas relações econômicas, patrão e empregado, é colocado como instrumento de produção, portanto,
coisificado, o que conduz o escravo a “auto-representar-se como não pessoa, destituído de vontade própria, posto
que submetido ao arbítrio do senhor”. Isso limita “no escravo a capacidade de identificar o sentido real das
relações de produção do sistema escravista, percebido apenas do ângulo particular, vivenciado no cotidiano da
fazenda. Assim, a atuação divergente do negro restringe-se à revolta parcial e imediatista contra as situações de
opressão que povoam o seu dia-a-dia”. Cf. LIMA, loc. cit.
35
con sci ent e o u não, de ampli ar s uas p ossibili da des de exp r essã o
so ci al. 71
A preservação da religião e cu ltu ra africanas p ossib ilita ao s ne gro s
uma integra ção entre s i. A p rática d a religião do cando mblé, trazido ao Brasil
pelo s sacerdotes afr icanos e scra vizados, as se gura a permanênc ia do idioma e
da cultura dos negro s. No cand omblé, são cultuad os o s d euses – orixás,
vod uns, inqu ices –, preservados em ritu ais sagr ad os, com vestim enta s
próprias, danças, cânt icos, o ferend as, home nagens, int egrando -se à vida
cotid iana, a d espeito da proib ição est abele cida p ela Igreja Cató lic a ou
gover nant es. 72
Para
La na
Lima,
é
no
s éculo
X IX
que
a
ampliação
das
possib ilid ades d e expres são so cial d os negros alcança seu limite má ximo, com
o
movimento
abo lic io nis ta,
que
“absorve,
fu ncio nand o
como
age nt e
catalizador, u ma rebeldia sempre manife sta”, com a promessa de um mu ndo
difer ente da marginalidade em que viviam.
Mas, ao alia r-s e à r eb el dia negra, utilizand o- a para pr essi on ar e
d es gastar o sist ema [ es cr a vocr ata], o ab oli cionismo i mpõ e -l h e
s eus p róp ri os li mit es, enq ua nt o i deol o gia nas cid a de i nt eresse s
esp ecí fi cos, q u e dep ois da a b oliçã o o negr o p er ceb e nã o
coi n ci dir e m exat ament e com os seus. Tr ans fo r ma das as rel aç õ es
d e pr od uç ão, nã o se modi fi ca o l ug ar ocup a do p el o negr o n o
p ro cesso pr odu tivo, e desfeitas as ali a nç as, seu co mp orta me nt o
di verg en t e vai s er n ova men te r elega do a mer a qu estão p olici al. 73
Nasc ido no contexto de pó s-abolição, tempo de alianças desfe itas,
portanto, o capoeir ist a Besou ro const itui-se, e nquanto su jeito, num ambie nt e
quilombola, d e negros reb eldes à d ominação, preserva ndo a religião do
ca ndomblé, q ue se expande com a abolição da escravatura, b em como a
cultu ra africana. A inda menino, conhec e o mestre Alíp io, que lhe transmit e,
na prática, os ens inam ento s da capo eira, uma arte, um fazer que se aprimora
inco rporand o a religios idad e – de “religare”, ou seja, ligar de no vo –, de
int egração ao mundo d e seu s a nce strais . Para tanto, cre nça s e va lores da
71
Id. p. 154-155.
Informações disponíveis em:
http://www.turismoreligioso.org.br/system=news&action=read&id=88.
73
Id. p. 155.
72
36
religião do candomblé vão co nst itu ir o eth os dos capoeirist as, com rituais
próprios e princípios ét ico s.
Os cap oeiras não presc indiam d e su as crenças, da proteção e
orientação d e seus orixá s, do atendime nt o a su as qu izilas, pois aprenderam,
com o so frime nto, os limites da co ndição huma na. O capoeirista Besouro,
protegido d e Ogum, deve atender a s su as quizila s – co mo não passar po r
baixo de cerca de arame farpado , não ter relações se xuais em dia de jogo –,
respeit ar as proibições d e seu santo e cumprir suas ob rigações (o brigaçõe s
dizem resp eito às cer imônias internas, a serem cumpridas pelo “iniciado”,
preparadas para o seu orixá) . Caso co ntrár io, so frerá punições. 74
As sim, Beso uro encontra forças e alt ivez para quest ionar u ma
estrutura socia l perversa, joga ndo capoeir a, lu ta ndo , zombando, como um
herói pícaro, do mund o da ordem senhoria l, const ituído d e ment alidade
escravocrata, me sm o co m a Aboliç ão. Em su a rebeldia, valent ia e ginga
aprimorada, ele vai se to rnand o conhecid o e reconhec ido, princip alme nte no
universo d a capoeira.
Segu ndo Abib, “no imaginár io da capoeira gem e dos capo eiras não
exist e figura mais e xpres siva e represent at iva do que Besouro Mangangá”.
75
Ainda com o autor, a fama e a admira ção nu tridas pela memó ria co let iva
so bre as façanhas e p ro ezas de mitos como Besouro Manga ngá, de certa
forma, explicam a insistênc ia de alguns mestres e m marc ar sua ligação com
es se s mito s, a exemp lo d e Cobrinha Ver de, que diz t er co meçad o a cap oeira
com Besouro aos quatro anos de id ade.
Segu ndo
Cobrinha,
“Besouro
ens inava
cap oeira
ao s
alu nos
esco ndido da polícia, p orque a polícia perse gu ia muito . No dia qu e esta va
aperriado qu and o a p olícia vinha para a cab ar, e le se re voltava, mandava os
alu nos fu girem e d ava t est a a po lícia sozinho”. 76 Ainda, “qu and o Besouro
74
Quizilas são proibições rituais, referentes a alimentação, mas não se restringem a ela; dizem respeito também a
ações cotidianas. A desobediência à quizila de um santo provocará sanções. Cada um deles tem suas preferências
e repulsas e desobedecê-las significa tornar-se suscetível a sanções. São as chamadas quizilas de santo, que é
tudo aquilo que o orixá rejeita, causando uma reação negativa que atinge as pessoas.
De acordo com o antropólogo Vilson Caetano, toda “iniciação ao candomblé passa por tabus alimentares. As
quizilas são proibições rituais que têm uma única função: lembrar ao iniciado a sua relação com aquele ancestral.
Seguir essas restrições é uma forma de reforçar a identidade com o seu orixá”, explica o antropólogo. Disponível
em http://www.iroin.org.br/onl/clip.php?sec=clip&id=326. Acesso em 22/05/2010.
75
ABIB, Pedro. Capoeira angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. p. 160.
76
ABIB. op.cit. p. 163. apud SANTOS, Marcelino dos. Capoeira e mandingas: Cobrinha Verde/Marcelino dos
Santos. Salvador: A Rasteira, 1991.
37
ens ina va aos seus discípulo s e via que o aluno estava preparado, testava o
aprendiz, fecha ndo -se em uma sala com o d iscípulo, para o qu al diz ia : ‘ vamos
tro car fac as com uma toalha amarrada na c intura dos dois, p ra um não fugir
do outro ’. 77
Tamb ém o mestre J oão Pequ eno de Past inha afirma que, desde
me nino, queria aprender capoeira para ser “vale ntão” como Besouro.
78
Esse
capoeirista e ndo ssa u ma vis ão mit ific ada de Manga ngá, dotado de poderes
so brenaturais, ao afirmar que seu pai, primo do capoeirista s antoamarense
Cordão de Ouro, lhe co ntava histórias sobre ele, q ue tinha o poder d e se
esco nder de alguém, to rnar - se invisí ve l, em qualquer lugar, a a lguma s
pessoas.
Abib menc iona qu e João Pequ eno diz ia ser o seu pai, assim como
Besouro, “prep arado” de oração e revest ido do poder de se tornar invisí ve l:
“Ele a nda ndo assim, num caminho e quando avist a va uma pessoa qu e ele não
queria que visse e le, a pessoa não via me smo não”. 79 Segund o o estudioso, tal
“fenômeno” “re vela muito do ethos dos cap oeiras d e ant igamente e m esmo
dos cap oeiras de ho je - por mais que se e vitem ta is comparações, quando se
busca as so ciar a cap oeira com valores ma i s ace ito s socia lme nte”. 80
Para J osef Campbell, o herói “é o homem ou mulher qu e co nse guiu
vencer a s suas limita ções histórica s p esso ais e locais e alc ançou formas
verdadeirament e válida s, hu manas ”. 81 Ne ss e se nt ido, os fe ito s e atr ibutos de
Besouro Mangangá, guard ados na memória do s ma is velhos e renovad os po r
uma tradição oral, vão construir a figura do herói, as sim como o seu ap elido,
“Besouro Manga ngá”, que s imb oliza a sua história d e luta e r es istê ncia. Jos é
Raimu ndo Când ido apresenta uma explicação para essa a lcu n ha:
Qu anto a o ap eli d o “B eso ur o Ma ng angá”, co nta -s e q u e sur gi u
q ua ndo, ap ós arr umar mais uma en cr enca co m a p olí ci a,
d esap areceu
mist eri osam en t e.
At or do ad o,
um
p oli cial
p er g unt o u p ara um d os q ue assistir am à cen a: “Vo cê vi u p r á
o nd e foi aq uel e negr o?” “Vi, si m senh or. El e vir ou b eso ur o e
77
Cf. SANTOS, Marcelino dos. Capoeira e mandingas: Cobrinha Verde/Marcelino dos Santos. Salvador: A
Rasteira, 1991. apud ABIB. op. cit. p. 163.
78
.Id. p. 163-164.
79
Id. p. 164.
80
Id. p. 164-165.
81
CAMPBELL, Josef. O herói de mil faces. Trad. Adail Ubirajara Sobral. 11 reimp. da 1 ed. de 1989. São
Paulo: Pensamento, 2007. p. 28.
38
saiu vo and o. “Man ga ngá” é u m tip o de b es ou r o cuja pi cad a é
mu it o p eri gos a e às v ez es fatal. 82
As te ss ituras qu e compõem a bio grafia de Beso uro, d a o rigem do
seu epíteto às suas façanhas, co nstituem-se po r uma aliança entre real e
ima ginár io num te xto fic ciona l, num processo de “seleção” e “co mbinação”
dos ele me ntos textua is, reais e ima giná rio s. No processo de heroic ização
destacam -se os feitos de Beso uro Manga ngá, com suas fuga s espetacu lare s,
sem d eixar vestí gios. Adro aldo Rib eiro Costa, jo rnalista baiano, em texto
pub licado no jo rnal A Ta rde, em 1951, relata uma dess as fu gas, p rese nciada
por seu pai:
Na ma r gem do ri o Sub aé, Ma nuel H en riq ue se vi u cer cad o p o r
oit o p r aç as arma dos com sab r es. El e s e desv en cil ha va do s
g olp es com s eu gi ng ad o d e cap o eirist a e, de v ez em q uan d o
g ritava: ‘Vo u tir ar s eu q uep e, ma ca co !’ ia l á e tirav a o q uep e
d o sol da do, s em o men or feri m ent o. At é que a certa alt ura,
a cuad o na p o nt e, s ub iu no p ar ap eit o, deu um s alt o mortal e
merg ul h ou n o ri o, s ob os apla us os da multi dã o q u e já se ha vi a
a gl o mer ad o. 83
Tamb ém J oão Moniz em artigo public ado em 1949, citado po r
Ad ria na J acob, descreve Besouro Mangangá como sendo
d on o de uma cor ag em p ess oal q u e p ar ecia l o ucur a, tal vez p el a
cert eza d e s er i mb atí vel, e rev el a q u e el e g ost ava de ‘ b ulir ’
com a p olí cia. Não r ar o, descr ev e, ‘ ex pl odia u m turu nd u ndu m
em fr ent e à cad eia vel ha’, situa da n o r és do chão da Casa d a
Câ mara de S ant o Amaro. Era Bes ouro q ue n oit e v el ha, ha vi a
a cor da do o desta ca ment o p ar a um b ri nq u ed o, q u e s e
p r ol on ga va em cor r eri as e ti r os, e d e q ue ele saí a il eso e
s emp re s or ri nd o, como entr ava. 84
A co ragem e a invencibilidade de Be sou ro Manga ngá são atribu tos
reco rrentes na co nstrução da ima gem de ss e herói p elo imaginár io popular,
tido co mo marginal, um desordeiro, pelas elites e o Estado republicano. Para
Ped ro Abib,
82
SILVA, José Raimundo Cândido da. Besouro Mangangá. Zumbidos Da Resistência. Irohin – jornal on-line. ed.
19. Disponível em http//www.irohin.org.br/. Acesso em 26/07/2009.
83
COSTA, Adroaldo Ribeiro,apud JACOB, Adriana. op. cit.; p. 5.
84
MONIZ João. apud JACOB, Adriana. id. p. 5. A jornalista cita o artigo de João Muniz, traz os comentários do
autor, mas não informa o periódico de publicação.
39
Beso ur o r eú ne um p ou co daq uil o que p oder ia ser consi d er a do
atrib ut o do h er ó i margi nal, um mit o q ue p o vo a o i ma gi nári o do s
cap oeiras, assim como P edr o Mal asa rt es e J oão Gril o,
mal a ndros d efi ni d os p or suas traj etó ri as to rtu osas, q u e, a
exe mp l o de B eso ur o, ta mb ém p o voa m a consci ên ci a p op ula r. 85
O temido Besouro Manga ngá trab alho u para o corone l J osé Antô nio
Rodrigues Te ixeira, “Zeca Teixe ira”, e ntão proprietário do Enge nho Santo
Antô nio do Rio Fundo . Ness e local, o capo eirista pas sa os últ imos anos da sua
vida, quando aí che gou pedind o proteção, fugido da polícia por desacato a um
polic ial c ivil em uma d elegac ia na capit al baiana. Na época, 1918 , Besouro
fez praça no E xér cito Bras ileiro, conforme Vasco nce los e Adriana Ja cob , que
compara o “valent e” cap oeir ista a Lampião , o “rei d o cangaço”. 86
Segu ndo Adriana Jacob, “sua fama cruzou o s limit es do recôncavo,
che gou à capital baiana, ao resta nte do país e alc ançou os qu atro cantos do
mundo”. 87 A jornalista r es sa lta que hoje nã o há nome m ais cantado nas rodas
de capoeira: inspirou a músic a Lapinha , de Baden Powell e Paulo César
Pinhe iro , venc edo ra do Festival de Música da TV Record, na vo z da ca ntora
Elis Regina, com um refrão qu e enalt ece Besou ro Manga ngá:
Qu an do eu mor r er me en terr e n a Lapi n ha
Qu an do eu mor r er me en terr e n a Lapi n ha
Calça, cul ot e, palitó al mo fad i nha
Calça, cul ot e, palitó al mo fad i nha
Ad eu s Ba hia, zu m- z um-z um
Cor dão de our o
E u vo u p artir p orq ue ma tara m meu b es our o 88
Ao tratar da const itu ição heróica e mít ica d o capoeirista Ma nga ngá,
Vasconc elos o associa aos heróis o limpianos, imorta is, que apenas cumprem
um ritual de passage m e, ao me smo tempo, este ndem a própria morte ao
const a nte reiníc io, 89 ao terem seu s feitos narrados, descritos ou reinve nt ado s
através de difere nt es gê neros textu ais.
Os relatos produzidos em to rno de Besouro o tornam uma figur a
lend ár ia, cercad a de m ist ér ios, algu ns, t idos como su rreais. O ep isódio
85
ABIB, Pedro. op. cit. p. 161.
Nessa reportagem, a jornalista ressalta o caráter heróico e mítico desse capoeirista. In. JACOB, Adriana. O
Lampião da capoeira. Correio da Bahia. p. 3-7. 06/06/2004.
87
op. cit.; p. 3.
88
Disponível em: http://letras.terra.com.br/mariana-leporace/1245717.Acesso em 07/01/2009.
89
VASCONCELOS, José Gerardo de. op.cit.; p. 24.
86
40
conhec ido co mo o “do Largo da Cruz” é considerado um marco d o he roísmo
de Besouro, envolve ndo o cabo Jo sé d a Co sta e seu s dez soldados, os quais
tinham uma m issão qu ase impossí vel, tend o em vist a a sa gac idad e de
Besouro: prendê-lo vivo ou mo rto , acusado de obrigar um soldado a b eber
vários litros d e aguardente, u ma b eb ida alcoólica.
[...]Qua nd o ouvi u os g rit os e s e viro u, Ma noel H enriq u e vi u
diant e de si os 11 ho mens, a go ra com o lh ar es sedent os d e
vi ng ança, com ar mas e mp un ha das, pr ont os a atir ar. Só t e v e
temp o d e, encost ad o na cruz d e mad ei ra, ab ri r os b ra ços, num a
ent r ega dest e mida à exe cu çã o, cor ajos o at é o fi m. N ã o s e
o uvi u nem mesmo a r espira çã o d as almas vi vas q ua ndo ab rir a m
fo go s obr e a q uel e q u e er a o hom em ma is temi do d e to do o
r ecô ncav o, o ú ni co cap az de es va zia r r uas e f ei ras p el o si mpl es
men cio na r d e s eu no me. B es ou ro Man ga ngá jazia no chã o d o
L ar go da C r uz. Mas q ual nã o foi a s urp resa qu an do o s pr aça s
s e apr oxi ma ram e vir am Ma noel se l eva nt ar, tão vi vo q ua nt o
a nt es, e corr er, em mov i ment os ág eis, p el o b eco q ue l eva à
p ont e do X ar é u. S em hesita r, p ul ou da p on t e, faz en do q u as e
u m vô o, e fu gi u p el o mat o. Atr ás de si, dei xo u p oliciais co m
u ma ex pr essão mista d e r ai va e s urp resa e u m p o vo, q ue ca da
v ez ma is, se con v en ci a d e q ue est ava dian te não ap enas d o
mel hor e mais t emi d o cap o ei rista de t odos o s t emp os, o ú ni co
com cor a ge m su fici ent e par a – mais d o q ue enfr entar – at é
d eb ochar da p olí ci a. 90
Nesse relato, destaca- se a inve ncibilidade do herói, ho mem de
movimentos ágeis, s alto espetacu lar, “quase um voo”. Besouro, o “melho r e
mais temido capo eir ist a de todos os te mpos”, é aplau dido sobretudo po r
desdenhar da le i, ao “d ebochar da p olícia ”, tornar -se mito, decorrente d e um
processo de ident ific ação.
Em to das as ép ocas e so b vár ias formas, os m itos realizam
operaçõ es q ue transpo rtam os ind ivíd uos ao tempo e ao mund o imaginár io das
“orige ns” em q ue os sere s e a s r azõ es d a cr iaç ão do exist e nte t iveram lu gar,
foram est abelecid os. Lo go, o homem é cons iderado centro da sua própria
exist ência e do seu mundo e, como mito, desloca-se p ara fora da história de
su a própria hominiza ção , po ndo em seu lugar a a ção d a natureza, dos sere s
so brenaturais, das forças má gica s.
90
Cf. JACOB, Adriana. O Lampião da Capoeira. Correio da Bahia. 06/06/2004. p. 3-7. Esse episódio foi
relatado à repórter por Aloísio Lima, conhecido no distrito de Maracangalha como “Seu Belo”. À época da
publicação dessa matéria, Aloísio Lima estava com 92 anos de idade e declarou ainda ter visto a cruz de madeira
na qual Besouro se “escorou”, ou seja, se apoiou e hoje não existe mais, cravejada de balas.
41
Besouro Ma ngangá: um herói de corpo fechado
Eu sou B es ou r o Pr et o/ Bes our o
de Man gan gá/ An d o c om o c orp o
fech ad o/ C arre go meu p at u á/
Que m é voc ê qu e ac a ba d e
ch e gar 91
Os poderes sobrenaturais atribuído s a Besouro Manga ngá, u m herói
negro , advêm d a crença de qu e todo capoeir ista t em o “corpo fec had o”, o que
contribu i para a construção desse mito. No cand omblé, ter o corpo fechado
signific a ser protegido por uma ent id ade dessa re ligião . Em Jogo da
capoeira , Caribé info rma o segu inte:
(...) nomes l eg en dári os su r gir am; hom en s q u e tinha m o corp o
fech ado às b alas, às ar mas br an cas e q ue desafi a vam p el otõ e s
int ei r os da p olí ci a, homens q u e ti n ha m tr ato co m man di ng a,
p at uás p od er osos; q ue vi rav am o p é n o mat o n as ho ras de ap ert o
e dep ois ap ar eciam em Ca choei ra e Sa nt o Amar o. Hom en s q u e
d esafi a va m q ualq uer cil a da o u cer co a g olp es d e rab o d e a rraia,
rast ei ras e cab eç adas, no mes fica ra m na hist ó ria dos valent es da
cap oeira. 92
O autor destaca aspectos impo rtantes da c ap oeiragem “ma landra” do
iní cio do século XX no Recô ncavo Baia no: o capoeirista deve t er o corpo
fechado e ser mandingue iro, para ass egurar su a força e invencibilidade.
Besouro tinha o “corpo fechado ” por ser f ilho de Ogum e Oxos si, ent idades
do cand omblé, que protegiam e sse capo eirista, tornando -o invulnerável a
qualquer tipo de instrumento de meta l. Em e ntrevist a à Adriana J acob, Do na
Cic i d o Ilê A xé Opô Aganju afirma que Besouro era “preparado” atravé s da
“mand inga”, por isso, t inha o corpo fec hado. 93 De acord o com Adria na Dias, a
ma ndinga é
(...) uma cara ct erísti ca ess en ci al da cap oeira. E m Sal va dor,
d es de o sé cu lo X IX, a p alav ra man di nga er a usa da co m o
sinô ni mo de cap oei ra. Consi der ada uma das prin ci p ais ar ma s
d e d efesa e at aq ue do s s eus pr ati cant es, el a p o de ser ob ser va da
n o j eit o d e corp o do j oga do r, nas exp r es sõ es faci ais, no s
g olp es apli cad os e cel eb rad a ou i nv ocad a em muita músi ca s
91
Letra da canção Besouro Preto, do compositor Olho de Gato. Disponível em:
http://vagalume.uol.com.br/abada-capoeira/besouro-preto.html. Acesso em 07/09/2009.
92
CARIBÉ, op. cit. Mais uma vez, ressalto que a professora Zilda Paim retoma o trabalho desse artista e utiliza
essa passagem no seu livro Relicário popular. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo. EGBA: 1999. op. cit.
p.47, mas opto em privilegiar a data mais antiga de publicação.
93
Matéria publicada em 06/06/ 2004, p. 6, intitulada O Lampião da capoeira.
42
ca ntad as nas r odas. Atual m ent e o b om cap oei ra é o i n di ví d u o
ma ndi n gu eir o q ue sab e dis farçar, enga na r o ad vers ári o, q u e
g an ha o j o go atra vés da esp erteza da “art e d a falsi da de”, d o
fi n gi m en t o. 94
Para o s capo eir ist as, ter o corpo fecha do era uma forma de se
proteger dos perigos, e, no caso de Besouro, outros preceitos deviam se r
observados: “ não podia passar embaixo de cerca de arame farpado e nem ter
relações se xua is em dia de jo go”. 95 Segundo Ped ro Abib, ter o “corpo
fechado ” foi sempre uma crenç a no universo mítico da capoeira. 96 O auto r
também destaca o aspecto mágico e m ister ios o, conhecid o no univer so da
capoeira gem como “mand inga”, cons iderad o por esse e stud io so outro traço
fundame nt al d o eth os da cap oeira ango la, já Adria na Dias ana lis a a forte
relação
do s
capoeiristas
com
o
candomblé,
u ma
“famí lia
cu ltural” :
capoeiristas, b atuqu eiros, sambist as e candomblez eiros, eram, segu ndo a
pesqu isadora, aqui apoiad a em Mestre P astinha, tudo “coisa de preto , de
escravo”. 97
Aind a segu ndo Abib, cita ndo Wald eloir Rego, a provável origem da
exp ressão “ma ndinga” vem do fato de que, entre os afr icanos traz idos para o
Brasil, ha via a crença de qu e na regiã o Mandinga, na Áfr ica O cident al,
banhad a pelos rios Níger, Senega l e Gâmb ia habitavam muitos fe it iceiros. 98
Abib d estaca o depoime nto do mestre Va ldemar da Liberd ade, para
o qual os mestres daqu ele temp o “tinham muita mandinga, viravam folha,
94
DIAS, Adriana Albert. Mandinga, Manha & Malícia.op. cit.; p. 17.
Cf. entrevista de Zilda Paim na matéria O Lampião da Capoeira. Correio Da Bahia. p. 3-7. Jun/ 2004. Na
religião do candomblé, há uma lenda sobre a disputa entre Nana, uma das orixás mais antigas, e Ogum, o criador
dos metais, proprietário do chumbo, ferro e cobre. Segundo a lenda, Nanã não reconhece a superioridade de
Ogum ao declarar que não usaria mais nada fabricado por Ogum e, mesmo assim, tudo poderia realizar. Por isso,
os filhos de Nanã não usam faca de metal para sacrificar um animal, mas um pedaço de madeira afiado, em
forma de faca, evocando, assim, a disputa entre Ogum e Nanã. Cf. ATOTÔ. Cartilha de prevenção as DST/AIDS
dirigida aos participantes dos cultos afro-brasileiros. Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco Diretoria de
Epidemiologia e Vigilância Sanitária Programa Estadual de DST/AIDS. 2001.
96
ABIB, op. cit. p. 190.
97
Segundo Pastinha, citado por Adriana Dias, o capoeirista “[...] vem da mesma religião que vem o candomblé,
tem um batuque, tem um samba, ela tem a mesma parcela, é da mesma parcela. Agora com uma modificação,
um pouquinho diferente, o manifesto é um pouquinho diferente, mas a parcela é a mesma, [...]. O capoeirista é o
mesmo feiticeiro, mas ele abandona uma parte por outra. Nós acompanhamos o feiticismo, nós acompanhamos o
candomblé, se fosse assim, nós não iria em casa de candomblé, nós não ia, mas nós somos [...] e da mesma
parcela [...]. Agora um que gosta mais de uma finalidade do que da outra [...]. Um corre mais pra o capoeirismo e
outro corre para o feiticismo. Cf. DIAS, 2006. Segundo a autora, a entrevista foi realizada em 1964 por uma
antropóloga da Finlândia, cujo nome não foi identificado, na academia de Mestre Pastinha, Pelourinho, Salvador.
Ainda informa que o texto na íntegra encontra-se no acervo particular do pesquisador sobre capoeira, Frederico
José de Abreu.
98
Id. p. 190.
95
43
viravam bic ho. Aquilo era p róprio para baru lho. Besouro era um grande
capoeirista, ma s tudo deb aixo d a oração ”. 99 O autor co nclu i a firmand o que “a
mandinga de Be sou ro Mangangá – qu e, segu ndo Mestre Bimba, ‘er a cap aiz d i
sartá d i costa i caí d e vórta dentro dus chinélu ’ –, de mestre Noronha e de
tantos outros capoeiras antigos, cons iderados ‘mand ingue iro s’ e que povo am
o ima ginário p opular d e Sa lvado r e do Recôncavo , está além das ‘qualidad es’
de d esordeiros e va lentõ es ”. 100
Ao tratar d a arte d a mandinga e do preceito do “co rpo fec hado”,
Ad ria na D ias co loca que “no passad o a ma ndinga ou a arte d a fals idade e da
malíc ia era talve z a principa l arma do cap oeira, e che ga va a se sobrep or à
força fí s ica”. Logo, a malí c ia era espec ial por fazer parte d o jogo d e corpo do
capoeira. Para a autora, entre os capoeiristas, “ma ndinga” se referia “tanto
aos pod eres mágicos de alguns deles, co mo também se fundia co m a idéia de
malandragem, no sentid o de arte da esperteza, da malíc ia e da trucagem”.
101
A mand inga fa z parte do jogo d a capoeira, a mar car um estilo
rítmico, segundo Muniz Sodré:
O estilo rít mi co do j o go nã o se con fun d e, ent r et a nt o, com o
estilo i ndivi du al do j o gad or. Este se defi n e ini ci al men t e p el a
gi ng a, o b alanç o i n cess a nt e e man ei r os o d o corp o, q ue faz co m
q ue s e esq ui v e e da nce a o mesmo t emp o, t u do iss o
comp o rtand o u ma mand ing a ( feitiç ari a, en ca nta ment o, malí cia )
d e g est os, fir ul as, sorris os, capa zes d e des vi ar o ad vers ári o d e
s eu cami nh o pr evist o, isto é, de s ed uz i-l o. 102
Nas histó ria s sob re Besouro, todas apresentam o component e
mítico -religioso ,
aqui ent endid o
como
elemento
agre gador da
arte da
malandragem, da mand inga e ma gia. As histórias sobre Besouro Co rd ão de
Ou ro contribuem para se compreender o conte xto soc iocu ltural d a Ba hia no
iní cio da P rimeir a Repú blica, época em qu e a vida d e muitos desses home ns
“est a va sempre em perigo , em função do meio social em que viviam, das
brigas em que se e nvo lviam, d a persegu ição polic ia l e das arr iscadas ro das de
99
ABIB, op. cit. p.196.
Id. p. 190-191.
101
DIAS, Adriana. op. cit., p. 156-157.
102
SODRÉ. op. cit. p. 154. Grifo do autor.
100
44
capoeira de rua e como não eram indivíduos muito confiáveis t inham u ma
grande preocup ação em ter o ‘corpo fechado’”.
103
Para Adriana D ias,
n ão era à t oa q ue os cap o ei ras a nti gos não i am a uma ro da d e
cap oeir a d e corp o ab ert o, s em p rot eç ão. C om o expli cou Mestr e
Gig ante, el es era m h om en s “p r ep ar ad os,” tinh am “pr eceit os”,
o u s ej a, alé m de an dare m ar ma do s, s er e m esp ert os e s e
g ar a ntir em no j og o de p er na, ta mb ém f azia m t atuag en s,
con he cia m r ezas fort es de “S ão Sal omão e Sã o Cip ri ano ”,
carr ega va m p at uá e pr ep ar a vam ma nd i nga p ara se pr ot egere m
d e q u alq uer “ma ldad e”, real ou i magi ná ria, no j og o d e
cap oeir a e da vi da 104
Tais preceito s são produzidos na es fera da re ligiosid ade, com
su perstições e cr end ices.
O u ni verso das sup erstiçõ es dos cap oei ras talv ez expliq u e
p orq u e al g uns del es us avam a p al a vr a ‘ mandi nga’ com o
sinô ni mo de cap oeira. Nesta ép o ca, o feitiço er a vist o co m o
algo malé fi co e amed ro nt a va muitas p ess oas; as ‘ mal dades ’
d os cap o ei ras ta mb ém ass ustav am e r eal ment e p odia m ca us ar o
mal a outr em. A ‘falsi d ad e’ do cap o eir a est ava ass ociad a ta nt o
às p eq u en as p er versi dad es do j o go, q ua nt o aos feitiç os q u e
algu ns cost umav am p repa rar para v en cer ou der r uba r o
a dv ersári o”. 105
Forte protetora de Be so uro, a “ma ndinga” t ambém foi ut ilizad a
contra es se herói, crença rep et ida nos relatos analisados, expondo a sua
vulnerabilidade. Em Santugri, tem-se um relato da embo scada contra o
capoeirista sa ntoamare nse, filho de Ogu m, o qual não es capou da sua
condição de humano:
O mestre mo rr eu? B em, nesta t erra fi no u, si m, ca mar a d a. Vi
tu do – as tr aiçõ es, as co var dias, t udo. Primei r o o fo go do s
mo rceg os, mas el e n ão foi seq uer t ocado. Q ue n em ma ng ang á,
n o r umo d o v ent o, escap uli u das bal as. Na pr essa d eu as co sta s
a E usébi o da Qui ba ca, p a u man da do de faz end ei r o, q ue o
atingi u co m u ma fa ca [...] filho il ustr e d e O gu m nã o ia morr e r
p el o fer r o. Mas com a lâ mi n a d a pal mei ra, á r vor e de mistéri o,
foi fei o o cort e, foi coisa fat al [...]. 106
103
DIAS, Adriana. op. cit. p. 151.
Id. p. 154.
105
Id. p.159.
106
SODRÉ, Muniz. Santugri: histórias de mandinga e capoeiragem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.p.23
104
45
Beso uro Mangangá, e ou tro s capo eiras ou tipos mala ndros como
eram c lassificados, transforma um período da capoeira gem baia na, co nforme
seus estu diosos, protagonizando histórias const itutivas de um mito da cultura
afro-baia na. P ara M ircea E liad e, “o mito é co nsid erado uma história
verdadeira po rque se r efere a rea lidades”. 107 Quest ionando se seria po ssí vel
encontrar uma únic a definição capaz de cobrir todos os tipo s e as fu nções do
mito, em qualquer sociedade, se ja arcaica, seja trad ic iona l, E liade conclu i
afirmando qu e o mito é uma realid ade cultural e é a narrat iva d e uma cr iação,
do modo p elo qual a lgo foi produzido e começou a ser. 108 Aind a, “toda
história mít ica que relata a origem d e alguma coisa pressupõe e prolo nga a
cosmo gonia ”. 109
De aco rdo com Gerardo Vasconcelo s, a p reser vação de algu ns m itos
e símbo los, quase esq uecidos pela Histór ia oficia l, ocorre não só pela tradiç ão
oral, como também por parte d a lit e ratura. 110 Enquanto nos discursos
produ zidos pelas e lites do país os capoeiristas são desqu alificad os, u ma
memória oral cuidou d e preservar a im agem de um ho mem que pôs em xeque
um regime vige nt e no país, como também tra ns gred iu os valores e regras de
uma sociedade escravocrata. A ss im, a nar rativa mít ica so bre Besouro Co rd ão
de Ouro é tec ida com os fio s dos texto s da cultura afro -baiana, marcada p ela
oralidade, por sujeitos co m modos próprios de viver, s ent ir e p ens ar o seu
estar no mund o.
Co mo todo heró i, Besouro tem um po nto vulneráve l, por isso não
pôd e escapar de uma “lâm ina de palmeira” – a “faca d e ticum” –, e sua morte
vem s elar a constitu ição de u m mito. As histórias então recr iadas t end em a
exa ltar a su a irrever ênc ia, frente a dive rsas s ituações, o que revela a sua
singularidade e o tra ns fo rmam em heró i e mito . Ao e ntreter com a malí cia e a
sincopa os adversários, Besouro Mangangá leva a reflexões so bre um p eríodo
da história d o país, const ituída tamb ém d e histórias da c apoeiragem no
Recô nca vo e na Bahia.
107
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1991. p. 12.
Cf. ELIADE, Mircea. op. cit. p. 10.
109
ELIADE, Mircea. op. cit. p. 26.
110
VASCONCELOS, José Gerardo. op. cit. p.25.
108
tc CARNEIRO, Edison - Caderno de Folclore 1 – Capoeira, 1977
Fonte:
46
3 OS “VOOS” DE BESOURO NA LITERATURA DE CORDE L
O en contro de Besouro co m o valentão Do ze Homens e A valentia
justiceira de Beso uro , do poeta baiano A ntô nio Vieir a, b em como Histórias e
bravu ras de Besouro o va lente capo eira , do poeta e capoeirista carioca Victor
Alvim Ita him Garcia, são produções textu ais inser idas no gê nero literatura de
cordel, mod alidade narrat iva atrib uída à chamada cultura popular.
A lit eratu ra de cordel é um gênero muito cultivado na re gião
No rd este d o p aís, passando p or modulações que atestam sua sobrevivência,
em meio às inova ções tecno ló gica s que afet aram as p ublicações. Tal gê nero,
conforme estudio sos, tem d atad a a sua marca: final do século XIX e final da
década de 1920. 111 Se gundo Márcia Abreu, “a lit eratura de folhetos nordestina
aprese nta- se co mo peça importante para a ve iculação do panorama cultural do
rural que se d irecio na à s cid ades próxim as e ao s grand es centros urbanos”.
Dest aca :
No fi nal d os a nos oit ocen t os, p art e do u ni verso p oético da s
ca nt ori as co meç a a ga nh ar for ma i mp r essa, g uard an d o
ent r et ant o fort es mar cas de orali da de. Não s e sab e q uem foi o
p ri meir o a ut or a i mp ri mir seus po emas, mas s eg uram ent e,
L ea ndr o G omes de Bar ros foi o r esp o ns áv el p el o i ní ci o da
p ub li ca çã o sist emáti ca. E m fol h et o edita do em 1 907 , el e
a fir ma va es crever p oe mas desd e 1 88 9. 112
111
ABREU, Márcia. Histórias de cordéis e folhetos. Campinas. São Paulo. Mercado de Letras. 1999, p. 19. Para
a autora, a denominação “cordel” prende-se ao fato de os folhetos serem expostos ao público pendurados em
cordéis ou, como diz Nicolau Tolentino, em “O bilhar”, “a cavalo num barbante”. Em suas pesquisas, Abreu
pode verificar que os primeiros poetas costumavam anotar suas composições em tiras de papel ou em cadernos
como forma de registro de seus poemas, sem intenção de editá-los. Acredita-se que muitos rejeitavam a
publicação para deixar os seus textos exclusivamente para apresentações orais, e um número considerável de
poetas fizeram da poesia único meio de sobrevivência, o que salienta o poder social desses versos: “Os livrinhos
poderiam também ser encomendados pelo correio, ou comprados em livrarias, como a pequena loja de livros
usados e folhetos aberta por Francisco das Chagas Batista, em 1911. Entretanto, grande parte do comércio era
realizado em viagens feitas pelos autores ou por revendedores, percorrendo fazendas e vilarejos, vendendo
trabalhos próprios e de colegas, distribuindo folhetos tanto pelas cidades quanto na região agrícola”. Id. p. 92.
112
Id. p. 91. No que tange à feitura dos folhetos, segundo Antônio A. Arantes, dividem-se com relação ao estilo e
ao tamanho, escritos em sextilhas ou em septilhas, embora haja exceção à regra. Classes de cordéis como
discussão, peleja e embolada são escritas segundos padrões próprios às várias modalidades de desafio
improvisado de que derivam. O bendito se diferencia da oração por ser rimado e, consequentemente, próprio
para se cantar. As canções são compostas de acordo com outros padrões métricos. [...] Na banca do folheteiro,
em sua “maleta” ou mesmo nas folheterias, os folhetos são dispostos de acordo com o que se chama “tamanho”.
Os folhetos, sempre impressos in quarto, são, por sua vez, arrumados conforme número de páginas. Há três
categorias: “folheto pequeno”, usualmente de 8 páginas, mas inclui os de 4 a 12 páginas, e “folheto grande”,
subdividido em duas categorias: “os folhetos de 16 páginas”, também chamados “meio-romance, unindo os de
24 a 48 páginas. Alguns romances são impressos em dois ou mais volumes.Cf. ARANTES, Antonio A. O
Trabalho e a fala. (estudo antropológico sobre os folhetos de cordel). São Paulo: Editora Kairós/FUNCAMP,
1982. p. 53.
47
Para Márcia Abreu ,
[...] a fix aç ão da for ma i mp r ess a nã o eli min ou a orali da de co m o
r efer ên ci a p ar a essas comp osi çõ es. Os p o et as p op ul ar e s
n or destin os es creve m co mo s e esti vess em co ntand o u ma históri a
em voz alt a. O pú bli co, mes mo q uan do a lê, pr efi g ura u m
n arr ad or or al, cuja v oz se p o de ouvir. Desta for ma as exig ên ci a s
p erti nent es às co mp osi çõ es orais p er man ec em, m es mo q u and o s e
trata d e um t ext o es crito. P ortant o, p o de-se ent en der a lit erat ur a
d e fol het os nor d esti na como medi a dora ent re o oral e o
escrit o. 113
De a cordo com Do ralice A lcoforad o, a literatura de cord el, “como
uma exp ressão popular da cultura brasileira, retrata a me mória armazenada e
o registro comunit ário do imaginár io do Nordeste, levado para outras regiõe s
através d a diáspora nordestina”. Na p as sa gem d o oral ao escr ito , acresce nt a,
“o verso , que preserva e e xplora d e forma mais exp ress iva o ritmo, a rima, as
pau sas, recursos diret ament e r elacionados à dicção vocal, ao ser substituído
pela prosa, molda-se, através da cap acid ade narrativa do co ntado r, a uma
dicção mais próxim a do contar, das conversas em ro da de amigos”. 114
Para a autora, a “tra ns ição de um mu ndo oralme nte configurado,
ouvid o e co mpartilhado de forma comu nit ár ia, para um mundo lid o em
silê ncio e a só s” tem re gistro em Homero, “cujo s poemas se guem regra s
formulares caract eríst icas da composição o ral, documentando o iní cio dessa
parceria oral/escr ito”. Se gund o Alcofora do, tal p arceria se consolid a com a
“c irculação ma is ampla do texto impres so ”, em decorrência da t ipo grafia. A
pesqu isadora ressa lta o interesse d e estudiosos do cordel, que começam a s e
volt ar, a partir dos anos 1 990, para as discus sões sobre “as relaçõe s
oral/escrito,
culto/popular”,
de
modo a
interp retar
esses “cruzamento s
int erculturais e interdiscip linares na produção simbólic a moderna, buscando
113
Id. p. 118. O traço fortemente oral dessa produção nordestina, seja na composição, seja na transmissão, deu-se
com Agostinho Nunes da Costa, que viveu entre 1797 e 1858, na Paraíba, de onde saíram os mais importantes
poetas do século XIX: Nicandro e Ugulino, seus filhos, Romualdo da Costa Manduri, Bernardo Nogueira,
Germano da Lagoa, Francisco Romano, Silvino Pirauá, conhecidos como “grupo do Teixeira” e responsáveis
pelas primeiras composições de que se conhecem os autores. Com referência à impressão dos primeiros folhetos,
são precursores Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. (p. 74).
114
ALCOFORADO, Doralice. A estratégia discursiva do cordel prosificado. p.2. Neste artigo, a autora destaca a
prosificação do cordel – gênero consagrado por uma veiculação impressa em verso – que passa a ganhar forma
de conto, em alguns folhetos, promovendo acomodações próprias ao gênero.
48
ente nder, no confronto de culturas, a ‘modulação p rópria’ operad a com essa
‘hibridização’”. 115
Aind a na pas sa gem d o ora l ao escrito, busca -se preser var a
coerênc ia e unidade, ce ntrando -se no dese nrolar d e uma ação, desenvo lvida
em termos de causas e conseq üênc ias. As história s s ão compostas se gund o um
“roteiro” de história desembaraçada, sem muita complicação , e com vár ios
episódio s. 116 Para ta nto, os cordelista s evita o acúmulo d e persona ge ns,
preserva ndo o verso, um recurso mnemônico de gra nde valia.
Muniz Sod ré d estaca a importância do traço oral do cordel, o que
as se gura a sua permanê ncia : “mesmo escrito , o texto é moldad o p ela
oralidade, est a se impõe como forma”. 117 No âmbito da produ ção da cultura
pop ular, o cordel vem a ser o veícu lo de e xpress ão de se gmentos sociais à
margem d a cu ltu ra letrada, “produz seu u niverso especí fico, no qual se
defrontam D eus e o Diabo, reis e band idos, cantores pop e rústica s donze la s,
pavões e ncantados e o ma is comum dos mortais”. 118 Assim, ne ss e universo,
Ped ro Malasartes e João Grilo, os heróis mais conhec idos da cultura popular
brasileir a, t idos como pícaros, vão ter suas a ventu ras verse jada s p ela lavra de
muito s cordelist as.
Atribui-se a Sí lvio Romero e a Luiz Câmara Ca scudo o p ione irismo
nos e stu dos sistemáticos sobre a cu ltura popular brasileira ao inventariarem
produ ções oriundas dos segme ntos socia is de baixo p oder aq uisit ivo . Sílvio
Romero , sergipano, publica O elemen to popular na litera tura do Brasil e
Cantos popu lares d o Brasil. Câmara Cascudo, potiguar, é autor do Dicioná rio
do Folclore Bra sileiro (1952) e Conto s tradicionais do Brasil (1946).
Embora sejam reco nhec idas suas pesquis as p elo inventár io d e tais
produ ções, recaem sobre eles, como folc lo ristas, se ver as crít icas, por terem,
na busca de “aute nt icidade” e “p ureza” da cultura popular, d a ess ência de
brasilidade, idealizando o “popular”. A idealização d eco rre do apego a um
passado que não existe ma is.
O folc lorista p otiguar, segu ndo Albu querque,
115
Id. op. cit., loc. cit.;
Apud ABREU, Márcia. op. cit.; p 115.
117
SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida; por um conceito de cultura no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: DP&A,
2005. p. 148.
118
Id. p. 149.
116
49
s e d estaca q ua nt o à i d eali za çã o do p op ular. Câmara C as cu do,
em seus tr ab al h os, ad ota a visã o estáti ca, mus eoló gi ca d o
el e ment o fol cló ri co. S eus est udos, lo nge de fazer uma an ális e
históri ca e s oci oló gi ca do da do fol cló ri co, se constit u em e m
v er d adei ras col et â neas de mat eriais r efer e nt es à so ci eda d e
r ural, p atriar cal e p ré -capitalista do N ord est e, ven do o fol cl or e
como um el em ent o decisi vo na d ef esa da a ut enti ci da d e
r egi o nal, co nt ra os fl u xos cult urais cos mop ol itas. 119
Por esse ent endime nto, a cultura popu lar vê -s e vulner áve l a
apropriações d iver sa s, a inter esses d ist intos, sempre incorporada à produção
artíst ic a das e lites. P ara Durval A lbuq uerque Ju nior, a literatura de cordel
fo r nec e u ma estrut ura narr ati va, uma li ng ua gem e um có di g o
d e v al or es q u e s ão incorp o rad os, em vári os mo ment os, na
p r oduçã o artísti ca e cult ural n or desti na. C omo a p ro du çã o d o
cor d el se ex er ce p ela pr áti ca da vari açã o e r eat ualizaçã o do s
mesmos enu nci a dos, i ma gens e t emas, fo rmas col eti va s
enr aiza das n uma pr áti ca p r oduti va e mat eri a l coleti va, est e s e
assemel ha a um gra nd e t ex t o o u vast o i nt ert ext o, em q ue o s
mo del os nar rati vos se r eit era m e se i mbri cam e séri es
enu nci ati vas r emet em às outr as. [...] Esta pr oduçã o p op ula r
fu nci ona como um r ep ositóri o de i mag ens, enun cia dos e
fo r mas d e exp ressã o q ue ser ão agenci adas p or out ra s
p r oduçõ es “er u ditas ”, co mo a lit erat ur a, o t eat ro, o ci n em a
et c. 120
A lit eratu ra de co rd el produzida por Antonio Vie ira e Victor Alvim
Itahim G arcia sobre Besouro Mangangá reúne essas e sp ec ific idades do
gênero, como um rep ositó rio de imagens, enu nciad os e formas de express ão,
em que as estruturas so ciais se apresent am p elo binarismo bem x mal,
tomando -se o partido dos oprimidos: o p erso nagem Beso u ro é um herói,
enfrenta os pod erosos, ou seja, coronéis e agent es da lei. As narrat iva s em
aná lise rep etem, p ortanto, os temas d o bem co ntra o mal, em su a var iaç ão,
119
Segundo Durval Albuquerque, a chamada região Nordeste foi inventada politicamente no final dos anos 20 do
século XX, antes, o Brasil era dividido geograficamente pela oposição Norte/Sul, este, capitalista, urbano,
industrial, aquele, rural, arcaico, pré-capitalista. Para esse historiador, as elites intelectuais e artísticas
nordestinas se apropriam da cultura popular no momento em que os grupos dominantes desse espaço vão
defender seus interesses, reivindicar recursos financeiros e representações junto às esferas do poder, a nível
nacional. Assim, formulam uma identidade para o Nordeste, continua Albuquerque, “para ‘ver’ e ‘dizer’ a região
‘como ela era’”. Os autores nordestinos do “romance de trinta”, como também teriam feito os folcloristas, vão
“estabelecer um estilo regional que beberá nestas fontes populares”, idealizando o popular, visando fortalecer e
legitimar essa região, do ponto de vista político, econômico e cultural. ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval
Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009. 4. edição revista.
120
Ibid. p. 129.
50
atualizam a figura d o herói, como às veze s reforçam valores da o rd em
institu íd a.
Nos texto s de A ntônio Vieir a, a gregam-se reminiscê ncia s do po eta,
ele dec lara, com histórias e “ cau sos” ouvidos na “ve nda” 121 do seu pai,
escr it as com o propósito d e denunciar a vio lê ncia e exp or o descaso dos
pod erosos contra os se gme ntos sociais menos favorecid os. Mediant e o uso de
uma linguagem s imples e co ntempo rânea, suas histó ria s e seus personage ns
retratam a forma de viver cr iativa e peculiar do povo brasileiro. Nessa ótica,
os seus versos sobre Beso uro bu scam ate ntar para o seu asp ecto de heró i
malandro, às aves sa s, que instaura as su as re gr as d e conduta sobre quaisquer
aspectos, um legít imo representa nt e de um mod elo de resist ê ncia. Victo r
Alvim It a him Gar cia co nta a história de Besouro Manga ngá, po r ser a maio r
exp ressão da capo eira angola, caracte riz ada pela luta-defe sa-at aq ue, na
se gunda metade do século XIX e iníc io do século XX. A sua narrat iva é
aprese ntada d e forma linear, seqüencial. O cordelista traça u m p erfil
biográ fico d esse capoeir ist a fazendo uso de uma linguagem ma is rebuscada
para compor o perfil de Besouro como u m herói com caract eríst icas mít icas.
Em O enco ntro d e Besouro co m o valentão Doze Homens, de
Antô nio Vie ira, o centro d o enred o é o confro nto entre os capoeira s que d ão
título à histó ria, ocorrido na cid ade d e Santo Amaro . Essa p ro sa ve rsificada
traz referências à geografia desse lu gar, ao so lo de massapê e a flo ra, e a
força dos b raços ne gros e mestiços para a economia da região 122.
Somam-se às r epresentaçõ es mít icas s ignificaçõe s histó ricas e
cultu rais, como recurso para o co meço da narr ativa:
E sta é u ma histó ria
D e nat ur eza bahi ana
Qu e env ol ve o r ecô nca vo
O mass ap ê e a ca na
O eng en ho, a usi na,
O can deeir o d e ma nga,
O car r ei ro qu e cond uz
A j u nta de b oi d e can ga
121
Nome dado a pequenas casas comerciais no Norte e Nordeste.
Cf. VIEIRA, Antônio. O encontro de Besouro com o valentão Doze Homens. Secretaria Municipal de Cultura
e Turismo de Santo Amaro s/d. Sem pontuação para marcar os versos, essa narrativa traz 48 estrofes,
predominando as oitavas ou estrofes de oito versos, com variação nas estrofes 47 e 48, em que se apresentam a
se(p)tilha e a sextilha, com sete e seis versos, respectivamente.
122
51
O fa cã o d e fo l ha lar ga
A enx ada e a estro venga
A foi ce de roçar o p ast o
O p au-d e-a rara e a venda
A fu ndi ção de Pitan ga
A cal d ei ra e a moen da
A can dei a q ue al umi a
P ara vovó fazer rend a
(...)
A can oa, o vap o r
O motri z o sav eir o
O tr em p ar a Mont e Az ul
O mel q ue tr oux e o mel eiro
O b ond e p ux ado a b urr o
Carr eg and o o pass ag ei r o
O trole q u e vi nha at rás
Co m P opó de mo t or neir o (p.1 -2)
(...)
O poeta permeia e ss e u niver so d e imagens que d estacam elemento s
da cultura afro -baiana e, ao fazê- lo, reit era narrat iva s mít icas acerca de
Besouro, veicu land o va lores, cre nças, costumes, modos de viver e se nt ir a
vida em seu tempo:
O chá de er va ci dr ei ra
O raizeir o e a cr enç a
A fol ha d e b om p ra t udo
O cura dor d e d oen ças
O sab ug uei ro, o mil ho
P ara ca ch umb a ou p ap ei ra
P eg and o meni no à b eça
Mamãe B eb é, a part ei ra
(...)
O can domb lé nos terr ei r os
T udo q ua nt o é sa grad o
Os ori x ás e os sa nt os
Os eb ós enco mend ad os
As pr o cissõ es, as i gr ejas
P romessas e b ati zad os
D ep ois d e muit a p el ej a
O sincr etis mo arra nj a do (p .2-3 )
Nesses ver sos ide nt ific a-se o que Everardo Ro cha destac a em
relação ao mito: “este seria capaz de revelar o pensame nto de uma sociedade,
a su a concepção da existê ncia e da s relações que os home ns devem mant er
entre si e com o mundo qu e os cerca”. 123
Co nt inua o cordelista :
123
ROCHA, Everardo, O que é mito. São Paulo: Brasiliense, 1999. Coleção Primeiros Passos; 151. 1999, p.2.
52
(...)
E la [a históri a] envol ve uma ci da de
Bem antig a d a Ba hia
Um de s eus p rotag onist as
A el a é q u e p ert encia
M e r efi ro a S ant o Amar o
A ci da de de B es ouro
N egr o v al ent e, da na do
Qu e n ão l eva va desafor o (p . 4)
A
apresentação
de
Besou ro
ressa lt a
seu
fenót ipo
e
sua
persona lidade: “Negro valente, da nad o/Que não leva desaforo”. É esse homem
alt aneiro que será p rotagonist a de uma “pele ja” com outro capoeirista,
conhec ido co mo Doze Homens, no “Bar de Bu bu”, o nde se encontra va
Besouro a contar a to dos os ouvinte s, ext asiados e atentos, suas a ventura s
épicas e s eu s amores:
(...)
Bes ouro esta va senta do
Dentr o do b ar d e B ub u
Toman do su a cacha ça
Nu m dia d e céu az ul
Era u m d omi ngo à ta r de
Suas histórias de b ri ga
Muitas já tin ha cont ad o
F ala va das a vent u ras
Das mul heres q ue el e ti nh a
Do ca vaq ui nho q u e t oca va
Do saveir o e da rinha
Do samb a que a cab ara
Lá p ras bandas de Can deias
Do panaço de fa cão
Qu e d eu em C hi co L a mp r ea
F ala va da av ers ão
Qu e tin ha p ela p olí cia
Não p odi a v er s ol da do
Ou qualq uer u m d a milí cia
(...)
De r ep en t e, eis que s ur ge
Saíd o não sei de on de
Um ci da dão arr og ant e,
Vindo... talv ez lá d o Con de
Qu e apó s olhar p ra t o do s
E est ud ar o ambi ent e
Pedi u a o d ono do bar
Duas dos es de ag uard ad ent e
(...)
53
Esse ao ver a cacha ça
No cop o, sobr e o bal cã o
Olhou det al hada men te
Pra q uem estava no s al ã o
E co m ar de aut ori da de
Tod o cheio de r az ão
Apont ou o i ndi ca dor
Para um cert o ci da dã o
E co m o dedo em rist e
Ele disse: - venha cá!
Para a pess oa ap onta da
Qu er end o l he co mand ar
Dep ois lhe mo st r ou o cop o
E fal o u qu as e a g ritar:
- Essa ca ch aça é sua,
É para v ocê t omar! (p . 4-5)
(...)
A at itud e de Doze Homens er a comum entre os capoeiras, mo do de
marcarem presença e poder. Destaque -se aqu i a alcunha “Do ze Homens”,
hipérb ole que sublinha sua força extra ordinár ia, p odendo int imid ar pelo
apelido. Nesse universo, oferecer bebid a vem como provocação. Se o
desafiado recusass e, s ignifica va “desfeita”, “p irraça”. Aceit ando, tinha -s e
uma prova de medo.
O p r et ext o mais comu m
Era o fer ecer cacha ça
Se o out ro r ecusass e
Era d es feita e p irra ça
A ca chaç a ia, na ca ra
Nego fi ca va cabr eir o
Ou partia p ara a b ri g a
Ou saía so rrat eir o
Se o ca br a aceita va
Era h umil haç ão, na cert a
Era u ma pr ov a d e m ed o
Era g ozaç ão à b eç a
Aí não ti nha r emé di o
Nem p edi do de t er cei r o
Tomav a tapa na ca ra
E po ntap é n o tr asei r o (p .8 )
(...)
Dest aca- se ne ssa at itude um código moral a ser respeitado: er a
muito importante o ind ivíduo ser va lente, desafiador e não fugir do adversário
em q uaisquer circunst âncias. Embora não estive ss e prescrito, é po ssíve l
54
infer ir, pe las narrat ivas sob re tais desa fi os, que os contendo res dever iam s e
digladiar at é a exaustão , med iante o olhar atônito dos expectadores.
Inter es sa nt e observar q ue, na luta des crit a ne ss e texto de cordel, o
anta gonist a d e Besouro é me ncio nado na mat ér ia jo rnalí stica de Ad ria na
Jacob como u m do s amigos de Manga ngá, por um do s entrevist ado s p ela
jornalist a: “Ne ss a época, Manoel Henrique vivia na área do Trap iche de
Baixo, até ho je a parte mais po bre d e Santo Amaro. Era lá qu e costumava
fazer suas festas, ao lad o dos companheir os Paulo Barroq uinha, Bo ca de S iri,
No ca de Jacó, Do ze Ho mens e Ca nár io Pardo, todos mo radores do mesmo
loca l”. 124 Desse modo, como destaca Muniz Sodré, o jogo da capoeira tamb ém
é luta encenada, entre amigos, exercício que os manter iam preparado s para
situaçõ es adver sa s.
Segu ndo Olive ira, os capo eir ista s “ est avam expo stos às situaçõe s
geradas p elas re laçõ es co tidiana s no espaço público, em muitas des sa s, era
necessár io usar da força e da violê ncia para d emarcar esp aço e afirma r
valo res
socia is”. 125
Lo go,
a
bu sca
por
es se
t ip o
de
afirmação
ou
reco nhe cime nto se dava com o intuito de fazer p re va lecer o poder de
determinados grupos entre os cap oeiras. Vieir a ilustra es sa situação:
(...)
No rmalmente os valentões
Para mos trar val en tia
On de nã o er a conh eci do
On de s eu nom e n ão ia
Semp re acha va um p r et ext o
Pegav a u m e bati a
Surra va al gu ém do tr ec ho
Brigav a e s empr e venci a (p.7 )
Em toda a narrat iva de Vieira, tem -se a e xaltação do heró i p opular,
Besouro é um homem “vale nt e e destemido ”. Sem pro fis são definida e
vive ndo de trabalho s esporádicos, o capoeir ista é aprese ntado como “va le nt e
de p ro fiss ão”:
(...)
Besour o Cor dã o d e O ur o
Valent e d e p r ofiss ã o
Qu e muit as vezes usa ra
124
125
Cf. JACOB, Adriana. Correio da Bahia.
OLIVEIRA, Josivaldo Pires de. p. 40.op. cit.
55
A mesma p r ovo caçã o
Diant e daq u ela or dem
Arr et ou-s e e então
Respon deu p ro forast eiro
– Não p edi ca chaç a, nã o! ( p. 7)
(...)
Ao recusar a bebida oferecida p or Doze Homens, Besou ro o
convida, ess e é o código, ao co mbate sem hora para terminar. O desa fiado
então se apresent a d e modo a amedrontá -lo, sem cons egu ir e ss e ob jetivo :
(...)
O sujeit o diss e: - cabr a,
Eu vo u l h e dizer meu n ome
Pra você s e b orr a [t er me do ] to do
Se arr ep end er d e s er h om em
Mal cri aç ão dess e j eit o
No meu fa cã o é fom e
Saib a q uem está fala nd o
É seu p atrã o D oz e H om e ns !
Aq uela apr esent açã o
Foi a gota q ue faltav a
Pra Beso ur o s e irritar
Sair e vi r pra calça da
Arr etar-se de uma vez
E diz er: - eu l he en ca r o.
Venha cá p r a conh ec er
Besour o de Sant o Amar o! (p. 9)
(...)
E os dois s e eng al fi n hara m
Nu ma l uta de gi gantes
O tinido dos facõ es
Podi a s e o uv ir dista nt e
O p ovo est up efat o
Assistia a cont en da
Sem s ab er qu em venc eri a
Aq uel a lut a h orr end a
(... )
Uma p ess oa grit ou:
– Vem p olí ci a, vo u corr er !...
Besour o nã o s e assu st o u
Mas Doz e H o mens cor reu
E Besou ro só foi p res o
Porqu e ali p er ma ne ceu ( p .1 0)
(... )
O narrador descre ve u ma cena que se d es enrola em la nce s épicos. O
herói Besouro Cordão de Ouro reage com “pernada”, co m o uso do facão e da
56
vale nt ia q uem ousa desa fiá - lo. Mangangá e Doze Home ns e ntram em comb ate,
“nu ma luta horrenda”, a companhad a por um “povo estup efato”. A narrat iva
põe em destaque a inve ncib ilid ade desse herói de corpo fechado, p ara quem é
preferí ve l ser p reso a co rrer da políc ia, como fez Doze Homens, o q ue poderia
ser visto como covardia.
Em meados do século XIX e início do século XX, as bata lhas entr e
capoeiras aco nteciam em loca is púb licos, indep end ente de horár ios. O s
conflitos eram int e nsos e todos possu íam armas para at aqu e e defesa, como
informa Areia s:
[ o negr o cap oeira] p ara q ualq uer event uali da de ma is sé ria n u m
con flit o, ti nha uma nav al ha, ou u ma faq ui nh a feita de osso d e
ca nela de defu nt o, mat eri a l resist ent e e q ue di fi cult ava a
ci cat rizaçã o, pr ov ocan do gr av e i nfecçã o na víti ma. També m
u ma outr a fa ca feita d e madei ra de t u cu m (ár vo re es pi nh os a
q ue p r od uz a fr ut a d o co co do M ané V ei o, e q u e s e a cr edit a va
p oss ui r p od er es má gi cos contr a ma ndi nga ), in co rp ora va-s e à s
ar mas dos ca p o eir as, assi m como o “p et róp olis”- b engal a
g r ossa esculp i da, i mitaç ão do cass et et e fab rica do p el o s
al emã es de P etró p olis. Essas facas e nav al ha s er am escon di da s
n or mal men t e entr e os ca b el os e o d ors o d as n egras q u e o s
a compan ha va m e r eq uisit adas no mo ment o necess ári o. 126
A chegada d a polícia, o agente da le i, p ara dar fim à contenda entr e
Besouro Cordão de Ouro e Doze Ho mens vem at ender à ma nute nção da o rd em
no no vo regime. À época, o presid ent e D eo doro da Fonsec a, para cumprir seu
programa sem e ventu ais intempér ie s, com base no Código Pe nal de 1 890,
estabe lece p or meta principa l o exter mínio dos “vad ios e turbulentos
capoeiras”. 127 De aco rdo com Letícia Reis, a imp la ntaç ão vem aplacar o
se nt ime nto de medo qu e os capoeiras d esperta vam nas elites. 128
No cordel de Vieira, finda essa co ntend a, a narrat iva toma outro
rumo. Besouro, po r não ter conseguido ve ncer a p eleja, d rib la a políc ia para
vingar-s e de Doze Ho mens, fato que mantém o capoeirista santo amarense no
lugar d e herói invencí ve l:
126
AREIAS, Almir. O que é capoeira, 1983, p. 30-31.
Cf. AREIAS. op. cit.; p. 42.
128
Cf. REIS, Letícia Vidor de Souza. O mundo de pernas para o ar. A capoeira no Brasil. São Paulo. Publisher
Brasil, 1987. p. 67.
127
57
Besou ro ia es colt ado
Bem no mei o d a p atr ul h a
Mas n a p onte das mo rin gas
Deu uma nega, [ en ga no u ] fez fir ula [ fi ngi u]
A polí ci a n ão esp er ava
A rea çã o e só vi u
Quan do B es ouro salt ou
Da po nt e dent r o d o ri o
(...)
Conta m q ue o tal s ol da do
Qu e q ueri a vê-lo p r es o
Tent ou p uxar a pistol a
Mas r ecu ou, teve m ed o
Besou ro feri u-l h e a mão
Bateu com o cot ov el o
Deu-l h e mais um safa nã o
Quas e l he arr an ca o d ed o
(...)
Mas Beso ur o não esq u ec eu
Da luta com Doze H omen s
Qu eri a vê-l o de no vo
Passar a limp o o seu n ome
E quas e q ue pass a fo me
Anda nd o a sua p ro cu ra
Mas n unca mais conse gui u
Encontrar ess a fi gur a. (p .12-1 3)
(...)
O narrad or exalt a a s habilidades de Be sou ro Manga ngá – “deu u ma
nega”, “fe z firula” –, um exím io jo gador, que sabe dis s imular, portanto , é
perigo so, e tem na destreza do jo go/luta/danç a a certeza de que venc erá
qualquer opone nte. Daí o lance espetacular do capoeirista ao jogar -se da
ponte ao r io, p ara a surpresa dos policia is que o escoltavam, e o seu drible,
com “co toveladas” “pernadas” e “ sa fanõe s”, em um policia l q ue queria detê lo. Além disso, como afirma Sod ré, Besou ro tem a malícia do capoeira que,
sabendo qu e não ve ncerá o adversár io, foge.
Na história de Vieira, a fuga do bravo herói Besouro é justificada
para que “passe a limpo o seu nome”, outro va lor d e um cód igo moral entre o s
capoeiras, e nfre ntando Doze Home ns e saind o ve ncedor ao reencontrá -lo.
Essa era a le i que deveria p revalecer no universo da capoeiragem: lutar para
vencer. O salto d e Besouro na ponte é um ep isód io consta nt ement e reiterado,
em difer ente s narrat ivas, o qu e contribui para a preservaç ão desse mito.
Para Ernst Cassir er, “os m itos não podem ser descritos como u ma
simples emoção por serem estes exemplo s vivos de crenças e t ambém de
58
se nt ime ntos de u m povo”. 129 O s alto espetacu lar dess e heró i pres er va a sua
força, pela plast icidade da imagem, na memória da cultura popular do
Recô nca vo,
co nvert ido
em
gesto
que
ena ltece
um
se gme nto
social
marginalizado, que se projeta, po r id entificação, no herói de corpo fechado.
Os versos finais do cordel d e Vieira d ão destaq ue a uma dentre a s
várias versões da emboscada qu e levo u o notável capoeirista à morte, algum
tempo depois da lu ta co m Doze Homens:
(...)
Dep ois de dei xar p r á lá
Dar o caso en cer ra do
Voltou à vi da no rmal
Trab al han do con tratad o
Tocan do seu cav aq ui nh o
No sav ei r o emba rcad o
De vaq ueir o, na faz en da
Ama nsan do b urr o b r ab o
Mas u m dia n uma s ed e
Da Usi na Ma ra ca ng al h a
[Bes ouro ] Ass umi u u ma p ost u ra
Que l he valeu a mortalha
Pra punir um desa for o
Apli car uma li çã o
Fez mont ar nu m b urr o b r ab o
O filho d e s eu patr ão
E o rapa z q ue nã o ti nh a
Traq uej o com mo nt aria
Mal mo nt o u e foi pr o chã o
Era assi m q u e a co nt e ci a
(...)
O rapaz ad oec eu
Seu p ai fi co u irrit ad o
Não atir ou em B eso ur o
Pois tinha o corp o fech ad o
Entã o tra mo u s ua mor te
Com jag un ço contr ata do
Não demo ro u o ser viç o
Foi logo ex ecuta do ( p .13-1 6)
(...)
Beso uro vai trab alhar na fa ze nda do coronel Zeca Teixe ira como
vaq ueiro e ama nsado r de animal. Por nã o ace itar ordem que não viesse do
dono da faz enda, Be so uro recorre à vingança, ao aplicar u m cast igo no filho
do co ro nel. Des sa at itude, surge uma das versões para a sua morte, a de que
teria s ido vítim a de um crime d e ma ndo, “encomend ado ” pelo ex-patrão, o q ue
129
CASSIRER, Ernest. O Mito do estado. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Códex, 2003. p. 63.
59
é ne gad o por seu neto : “meu tio soub e que Beso uro estava b ebendo na vila e
faze ndo arruaça, então mandou chamá- lo. Não se sabe e xatame nt e o que
disseram um ao ou tro na discuss ão, qu ais as ame aça s d os do is lados – o certo
é que Orland o che gou a pegar um rifle para impor respeito. No dia s eguint e
Besouro
ha via
as sa ss inado”.
partido
para
Maracangalha.
Pouco
tempo
d epo is
ser ia
130
O a ss as sinato de Besou ro é d estacado p elo narrador co mo u ma
fat alidade, posto que vítim a de uma traição numa emboscada, foi pego,
portanto, de surpresa, um ato que não elimina des se herói seu atribu to maior:
a invenc ib ilidade. Por isso, na narrat iva, Besouro Cordão de Ouro é ce lebrado
como um herói d a res ist ê ncia, “irrevere nt e e brabo ”:
(.. .)
Poré m, na r eali d ad e
Ele [B eso ur o] foi assas sinad o
Aquil o era vi ng ança po r s eu casti go p esa do
A honr a est a va lav ada
Fora mo rt o à traiç ão
Mas se fo sse o contrári o
Qu em vin ga va era o facã o
(...)
Viv eu a s ua man eira
Irr ever ente e brab o
Egr ess o d o massap é
Int elig ent e, a rr eta do
Reconca voment e fo i
Altamen t e a ut enti ca do 131. (p. 1 6)
A irreverê ncia, a força, inte ligência e valentia são exa lt adas em um
homem, u m capoeirista que “reco nca vomente foi/a lta me nte autent ic ado” pelo
cordelista, por ter desafiado a lei, va lores sociais e hierarquias.
A valentia justicei ra de Besouro é outro fo lheto de Antônio Vieir a
que ver sa sobre o s feitos de Be so uro. 132 Ne le, o cordelista t ece u ma crít ic a aos
historiadores qu e, na maior ia d as vezes , ocultam os fe itos de home ns da
cultu ra popu lar, como Besouro Manga ngá, herói au se nte da galeria de home ns
130
Cf. JACOB, Adriana. O lampião da capoeira. Correio da Bahia. p. 3-7. Salvador. 06/06/ 2004.
Esta estrofe é construída em acróstico com o sobrenome do poeta: VIEIRA, recurso muito utilizado pelos
cordelistas para autenticarem a escrita.
132
VIEIRA, Antônio. A valentia justiceira de Besouro. Disponível em: <http://www.portaldocordel.com.br >. p.
1-7. Acesso em 12/05/2008. É uma narrativa composta de 63 versos, sendo 61 deles se(p)tissilábicos e duas
sextilhas (versos 62 e 63).
131
60
“ilustres”, exaltad os p ela História oficial – uma “gra nde narrat iva”, u ma
totalidade que, paradoxalmente, só cons idera os feito s dos domina nt es. A
“va lentia just ic eira” vem corrigir um erro do Estado q ue aband onou à própria
so rte um express ivo segmento social do país.
A narra t iva começa tra zendo argumentos nobres, insp irado s no id eal
de liberdade, para d efend er, e até mesmo cobrar uma reparação, a his tória de
um capo eirista de feitos grandiosos, não reconhecid os p elas elit es. O narrado r
inicia do segu int e modo a su a história:
Eu diss e q ue a lib erd ad e
É bem co mo é a vi da
Tent ar tir á-la do home m
É uma cois a d es cabi d a
Nã o s e p od e cer ceá -l a,
I mp edi-l a, su focá-la
O h omem p or el a bri ga
(...)
É co mu m a q u em es creve
A histó ri a o fi ci al
E xaltar a q ue m d omi na
E ex cl uir d e s eu t od o
Al g uém s aí d o d o po vo
M es mo um ex cep ci onal
(...)
Out ro er r o cla mo ro so
Co meti do p el a histó ria
É deneg ri r a i mag em
Daq u el e q ue est á de for a
(...)
A r eação nat ur al
Co ntr a esse tip o de ab us o
V em e m for ma de ap ati a
O p ovo al h ei o co nfus o
O anti - herói, o co nt rast e
Vira P edr o mal azart e
Um mala ndr o ab su rd o! ( p.1 -2)
O narrador d estaca os erros cometid os pela História ofic ial, po r
“e xcluir de seu todo/Alguém saíd o do povo /Mesmo um excepc ional” /,
“dene gr ir a im agem/ Daq uele q ue está de fora”. P ara o narrado r, os sujeitos da
história são plurais, de origens sociais diver sa s, como Manuel He nr ique
Pereira, Be so uro Cordão d e Ouro ou Besou ro Mangangá.
61
Reco rrendo à metalinguagem, o narrador chama a atenção para a
função socia l d a literatu ra de cord el, veículo de comunic ação responsá vel po r
divu lgar a his tória de su jeitos anô nimo s:
(...)
M uit os fat os i mp ort ant es
T em se p er di d o ao léu
E m fun çã o d e n ossa histó ria
Nã o cumpri r seu p ap el
D e r egist ra r só o fato
I n da b em q ue esse at o
F az o b ar do, no co rd el
Nã o foss e iss o eu não sei
Co mo s eri a, ent ã o
Qu e a mai ori a do p ov o
S obr et ud o do sert ão
T omaria con he ci men t o,
D e p ess oas e event os
D e p o uca div ul g aç ão
A i mag em do herói
No co nceit o p op ul ar
É di fer ent e daq uela
Qu e a elit e q u er passar
O anti - herói é pr o p ov o
A esp er a nç a, al go nov o
P orq u e é seu si mil ar. (p. 3)
O e nalt ecime nto do herói popular vem p or merecime nto a um sujeito
destituído de poder po lítico, que defend e outros suje ito s na mesma co ndiç ão
de marginalizado s, se gund o o bardo santoamarense. Com o seu co rpo
int elige nt e, Be sou ro questiona o sist ema vigente, a le i, o qu e o torna a
“esperança, a lgo no vo”, aind a qu e a elite queira detratá -lo, ao enq uadrar
como crime a prática da capoeira.
(...)
D essa for ma ele enfr en t ava
Qu em l he fazia a gr ess ão
Capo eir as d el ega dos
P olí cia e val ent ão
M eti a facão pr a dent r o
Da va p ern ada em sa r gent o
Batia até em pat rão
Uma coisa q ue o d ei x ava
M uit o ful o [ir ritad o] co m a p olí cia
E ra vê -l o p rati ca r
62
Qu alq u er tip o de i nj ustiç a
Aí el e entr a va dur o
P ontap é, facão e mur r o
Us ava a s ua malí cia (p. 6 -7 )
(...)
A at itud e do capoeiris ta está respald ada na Lei de Ta lião, express a
no provérbio “olho por o lho, dente p or d ente”, prática m ile nar a inda p resent e,
particularme nte no No rd este, em que as leis criadas p elo Estado não
conse guiram mudar costu mes tão arraigado s. 133 O narrador ressalta e end ossa
a at itud e de Besouro, é a bravu ra do heró i, qu e usa dos mesmos artifício s do
seu opone nt e como forma de d efes a e de justiça, p ois aquele q ue agride
também deve ser agredido. Embora não haja re latos de qu e Beso uro tenha
cometido algum as sassinato, muito s capo eiras “desa fia vam as autoridades
const ituídas e com suas navalhadas e cab eçadas colo cavam muitos p or terra,
às vezes sem vida”. 134
A valen tia ju sticeira d e Besouro expõe a e xploração do trabalhado r
rural, numa época de instabilidade do novo re gime, o republica no, a qu al só
será reparada aplicand o a Lei d e Talião:
(...)
Um lav rad or cert o di a
L he disse: - “fui eng an ad o,
Cort ei can a, n a usi n a
Mas nã o fui remun er ad o
Qu an do cha ma ram m eu nom e
Nã o r esp ond i ao home m
M eu salári o nã o foi p ag o!”
(...)
Bes our o ao ouvir aq uilo
Na mes ma hora traç ou
Um pla no pr a r eceb er
A gr ana do lav rado r
P eg a o fa cão e s e ma nda
Vai par a o cort e da ca na
On de o out r o trab al h ou (p .7-8 )
133
Essa expressão está registrada num dos 282 artigos do Código de Hamurábi (1792-1750 A.C). Hamurabi
instituiu a vingança como preceito jurídico no Império Babilônico. É baseada também na lei de Talião que está
presente em livros da Bíblia e prescreve ao transgressor a pena igual ao crime que praticou. Esse princípio ainda
é utilizado em muitos países do Oriente. Disponível em: http//.www.sitedoescritor.com.br/sitedoescritor_
expressões_00003_olho_dente.html.Ace ss o em0 8/ 0 8/ 2 00 9.
134
Cf. OLIVEIRA, Josivaldo Pires. op. cit. p. 63.
63
À época, e a inda hoje s em dúvid a, o s trabalhadores à época são
vít imas de uma economia do Nordeste que enr iquecia o s prop rietários de terra
às custa s da mão -d e-obra mal r emu nera da e até mesmo avilt ada. S em lei s
trabalhista s para proteger - se, resta va ao trabalhad or da zona ru ral reco rrer aos
justic eiros, e os capoeiristas, revestid os de força e coragem, cu mpriam ess e
pap el em solidariedade ao s vit im ados, ao tempo em qu e dão demonstração de
força. O narrador prosse gue, e nalte cendo a int eligênc ia de Besouro no
enfrentame nto da situ ação:
S uj eit o, eu fiz d e p r opó sit o
Nã o r ecebi o cha mado
S omen t e p ra conferir
O q ue me ti nh am fala do
Ag ora eu a cr edit o
No q ue m e h aviam dit o
Vo cê é mesmo safa do !
Vá trat a ndo de me da r
O meu di n hei ro co nt a do
Qu er o r eceb er també m
Aq uele q u e n ão foi pa go
A u m co mpa nh eir o meu
Qu e t a mb ém nã o r esp ond eu
Na ho ra q u e fo i ch amad o !
E o ger en t e, q ue estav a
P or B es ou r o sufocad o
P edi u com di fi cu l da de:
-M e s olt a q u e eu l h e p a go!
Qu an do B eso ur o o s olt ou
E le, fun do, respir ou
Ab ri u o cofr e ap r ess a do (p . 9-10 )
(...)
O justiceiro Beso uro enfr e nta uma so cied ade oligárquica e e lit ist a
daqueles primeiros a nos do século XX na Ba hia, q uando os dominante s
ma nipula vam, de acordo com os seu s int eresses, sujeitos dest ituídos de poder.
Esse t ec ido histórico, compreendido p ela Prime ira República, co ntava com a
forte presença d o co ro nel, símbo lo do poder do novo sist ema político.
Segu ndo Maria de Lourdes M. J anotti, como “represent a ntes da
oligarq uia a gríco la-merca nt il, os coronéis co ntrola vam o pod er público e
orienta vam suas decisões no se nt ido de afasta r a s demais clas ses do poder e
64
ma nterem s eus p rivilé gios”. 135 Essa época na Bahia, as sim como em ou tras
regiõe s d o Brasil,
(...) foi mar cad a p o r eb uliçõ es s oci ais e p ol íticas. O p ro cess o
d e con soli da çã o r ep ub li ca na cust o u car o às lidera nç as políti ca s
e à s ocieda de ci vil como um t o do, p ois r eg istra m-s e r evolta s
u rba nas e r eb eliõ es no camp o nas duas p ri meir as dé ca da s
r ep ubli ca nas, comp r ometend o a estabili da de p olíti ca do no v o
r egi me. 136
Josiva ldo Oliveir a d estaca que, dos conflitos sociais e políticos
ocorrido s na Bahia ness e período, como forma de resistência ao s ist ema
vige nte, mere cem destaque a Gu erra de Canudos (1897), o Bo mbardeio de
Salvador (1912), as Greves de 1918 e 1919 e a Revolta Sert a neja (1919). 137 A
narrat iva de Vieira, pub licad a no sécu lo XXI, man tém-s e fiel a uma memória
oral q ue registra um Bras il arca ico fe it o po r ind ivíd uos “esq uecidos” p ela
História Oficia l, a exemplo dos que p ro tagonizaram tais r eb eliões e revo lta s
no estado da Bahia.
Outro episó dio relat ado em A valentia do justicei ro Besouro ilustr a
o “senso de justiça”, às ve ze s feita com “as próprias m ãos”:
(...)
Um dia, um ci dad ão
Ch eg ou em um ar maz ém
Co mp r ou a çú car, fari nh a
Macarr ã o, mil ho x eré m
E fez com isso uma ca rg a
Capaz d e s er emb arcad a
Nu m cami nh ão ou n um t r em!...
Mas p ra s urp r esa de t odos
T est emun ha s d o abs ur do
O suj eit o car r egou
T udo num l omb o de um b ur ro
E ss e, qua nd o r eceb eu
O p es o t o do ced eu
E scan ch ou-s e, d an do ur r os
O d ono do ani mal
Nã o t eve o q u e fa zer
135
JANOTTI, Maria de Lourdes M. O coronelismo uma política de compromissos. Coleção Tudo é História. 8ª
ed. Brasiliense Editora. São Paulo,1992. p.9.
136
OLIVEIRA, Josivaldo Pires. op. cit. p. 89.
137
Idem. ibid. p.89.
65
V end o o b urr o caí d o
S em co ndi çõ es de se erg uer
P eg ou u ma ta ca tra nç ad a
F az en do mu ita z oad a
S e p ôs, no b urr o a b at er
(...)
F oi q uan do Bes our o, ent ão
Qu e p res en ci ara t ud o
S alto u pr a ci ma do h omem
F oi em d ef esa do b ur r o
T omou- l he a taca da mão
D eu-l he um fort e p escoç ão
E co mp let ou co m u m mur r o (p .10 -1 2 )
A atitude de Besouro, aplaudida pelos “test emunhos”, expõe um
exercício de arb itrariedad e para co rrigir uma ação decorrente de um ato
insano do dono do anima l. O cord elista prossegu e dand o d etalhes de como
Besouro livrou o burro da estu pidez e cast igou o seu dono:
(...)
[B eso ur o] Aí grit o u: - ajo el h a!
F ique aq ui d e q uatro p és
Vo u l he b ot ar ess a ca r ga
S em l he pa gar um mil r és
O q ue ess e b urr o s ofr eu
E por p ouco n ão mo rreu
Vo u multipli car p or dez!
O h omem ob ed eceu
Bes our o ap ro veit ou
T iro u a ca r ga do b ur r o
E m s eu l omb o col oco u
D ep ois, meteu-l h e o rel ho
E le fi co u b em ver mel ho
E quas e q ue d es mai o u
Qu an do B eso ur o s enti u
Qu e ti n ha dad o a liçã o
D esat ou o nó das co rdas
O h omem s e erg ueu d o chão
A car g a fi cou n a r ua
A culp a foi t o da sua
P or nã o t er co mp ree nsão! (p .12)
(...)
A “va lent ia just ice ira” de Besouro ganha re levo , como um grand e
atributo d esse capoeira re vest ido d e coragem, co mo um heró i pícaro:
66
(...)
b riga va por tu do
P or cois a séri a ou b anal
Nã o tol er ava i nsult o
Nu nca corri a d o pa u
Um dia em sal v ad or
Co m a p olí cia bri go u
P or causa dum b eri mb au
(...)
Co nt ou- me um sant o-amar ens e
Qu e foi s eu cont er râneo
“A b ri ga nã o p r ocu rav a
Nã o er a ess e o s eu pl a no
Co nt ud o não enj eita va
Qu em co m el e se en gr aç ava
E m b reve tav a ap a nhan do” (p.1 3)
(...)
O narrador tamb ém e nalt ece o capo eir ista audacioso, capaz de
enfrentar os podero sos. Ainda :
(...)
D e r evi dar a gr ess ã o
D e exi gir s eus di reit os
D e ir co ntr a a r ep r essã o
Ra cis mo, p ers eg ui çã o
Ap art hei d, p r econc eit o (p.1 3)
Ga nha destaqu e também a dese nvo ltura de Besouro, po r seu je ito de
corpo, dad a a agilidade para driblar s ituaç ões de perigo :
(...)
Vári as vezes se livra ra
D e bala d e ar cab uz
Ao en fr enta r a p olí cia
No anti go L ar go da Cru z
E a chu va d e b alaço s
Riscava o ar, como l uz (p.1 4 )
(...)
O jeito de corpo de Besou ro , tão permead o d e ginga e ma líc ia, faz
com qu e se destaque aqu i a impo rtância do co rpo como co nstrução social,
organizado como sistema de signos. Besouro conse gue fugir de balas,
enfrentar a políc ia e p oderosos, utiliza nd o sua p rincipal arma, o corpo, o qual
reflet e o esquema corporal de um dado grupo socia l. A memória se entr anha
67
nes se corpo e vivifica a res istê ncia de um gru po contra a opressão, e a
capoeira é a b ase qu e determina essa res istência.
Na p assa gem de co rd el citad a, atualiza-se a ima gem do heró i
combatente, ao torná-lo um milita nt e d a luta contra o racis mo, o apartheid e o
preconceito 138, uma representação que não se encontra no ima ginário popular,
como também não se faz presente no ou tro cordel de Vie ira nem no de Victo r
Garcia.
Na história do cordelist a sa ntoamare nse, fica em se gu ndo p lano a
capoeira como jogo, danç a, bailado, destacando -se por ser arma d e ataq ue e
defesa
que
Beso uro
possuía
para
reparar
injust iças.
Também
o
seu
aprendizado, ainda me nino, com o tio Alíp io, e os ofícios de Besouro –
vaq ueiro, saveir ista, ama nsador de burros – são ressaltado s.
O áp ice da narrat iva ocorre com a descrição da morte de Besouro,
desde a suposta “tocaia” d e q ue fo ra vítim a, à sua agonia final, dep ois de
passar quinz e dias no Ho spita l Sa nt a Cas a da M iser icórd ia em Sa nto Amaro,
vindo a falecer 139. Também ne ss e cordel rep ete-s e a ver são mais recorrent e de
su a morte: a do crime de mando, de autoria do co ro nel Zeca Te ixeira. No
universo d os coronéis, os cr ime s de mando ou por vinga nça eram u ma p rática
comum, encome ndad os aos seu s capa nga s ou ho mens de confia nça. Os ver sos
abaixo descre vem as circunstânc ias da morte de Besouro, cruel, e ntregue ao
desamparo:
(...)
At é qu e u m cert o di a
Diz em q u e u m s enho r ma nd ou
P repa rar u ma t ocai a
E m casa de um l avra dor
F izeram um “sa mb a de tr eita”
A man di n ga foi desfeita
E pau mand ad o o fur ou
S eu fat o v ei o pr a for a
D emo r ar am a so co r rer
138
A incorporação de temas atuais em sua produção literária, como o racismo, o apartheid e o preconceito – que
fazem parte da agenda política dos movimentos negros, revela um cordelista em sintonia com seu tempo. Em
2003, Antônio Vieira publicou um trabalho, denominado “O Cordel Remoçado”, no intuito de renovar esse
gênero, no qual une música e literatura popular numa linguagem contemporânea.
139
Embora seja comprovada a existência da certidão de óbito expedida pelo enfermeiro do hospital informando o
dia de internamento e hora de falecimento de Besouro (Cf. cópia anexa), a memória oral criou um mito acerca
desse fato; daí as várias versões existentes. Grifos do autor.
68
L eva ram pr a Sant o Amar o
O ferime nt o a do er
E ali, na Sa nta Cas a
Miseri có r dia, q ue na da!
D ei xa ram à mí ng ua, mo rrer. (p.14 )
A histó ria se encerra mar cada pela ind ignação do narrador com a
morte do heró i capoeira:
(...)
Nã o v enceu B es ou r o, n ão
T iro u foi su a vi da
Ob ed ecen do o p atrão
Na da ti nha a ver com el e
I n co er ên ci a a dele
O p eg ou a trai ção
V ei o to do p r ep ar ad o
I nt er essad o em p r opi na
E co m a faca d e ti cum
I n falí vel pra ma ndi nga
Rasgou ventr e d e Bes our o
Aq uela foi s ua sina.
(p.1 7)
O cordelista denu nc ia a arbitrar iedade das oligarq uias ao afirma r
que o atentado co ntra Beso uro aco nteceu a mand o d e pod erosos. A morte do
herói é uma fatalidade que aconteceu, vit imado pela “faca d e ticum”, com seu
pod er de esvaziar a força da mand inga.
O cordel Histórias e bravuras d e b esouro o va lente capoeira , de
Victor
Alvim
Itahim
Garcia,
conhecido
por
Lob isomem,
também
vai
ena ltecer, como su gere o título, a coragem e a audácia do herói negro do
Recô nca vo Baiano. 140 O autor, também capoeirista, dec lara ter se enc antado
com a his tória de Besouro ouvindo as mús icas ca ntad as nas rodas de cap oeira,
bem como os causos, que trazem as faça nhas d e Mangangá.
D esd e q ue me en t end o p or cap o eirist a, venh o ou vi n do a s
mú si cas, histó rias e “ca us os” s ob r e u m t al h omem, da ci da d e
d e Sant o Amar o da P uri fi caçã o na Ba hi a, qu e en fr enta va a
p olí ci a ou q ualq uer o utr o ad versári o e s em pr e s aía v en cedo r.
Al é m d e t er o co rp o fecha do, o s uj eito ai n da con hecia oraçõ es
p od er os as e uma ma ndi nga q ue o tr ansfo rm a va nu m b eso ur o
p r et o e veneno so, q ue saí a voa nd o nas h oras de gra nde p eri go.
140
GARCIA, Victor Alvim Itahim. Histórias e bravuras de Besouro o valente capoeira. Rio de Janeiro, Abadá
Edições, 2006. Essa narrativa é composta por 200 versos e 31 páginas. Também capoeirista, Garcia é carioca,
nascido no ano de 1973. De acordo com o autor, começou a jogar capoeira em 2003. O apelido de Lobisomem,
segundo ele, foi sugerido pelo capoeirista Pantalona.
69
E st e homem, o tal cap oeirist a d e Sa nt o Ama r o, er a conh eci d o
como B es our o Man ga ngá, Bes ou r o Cor dão d e Our o ou B eso ur o
P ret o. 141
As sim começa Hi stórias e bravura s de besou ro o valente capoeira :
(...)
Vo u fala r de um p erso na gem
Da histó ria da cap oeir a
M uit os ai nd a du vi d am
S e a históri a é v er da deira
D ess e home m b ati zad o
Man oel Henriq u e P er eira
A histó ri a d est e h omem
D e mist érios é cer cada
M uita gent e ai nd a p ensa
Qu e é uma l end a in ventad a
Mas a su a existên cia
Já foi mais q u e co mpr ov ada ( p. 3)
(...)
O texto começa co nstruindo outra narrat iva mítica sob re Besouro
Mangangá, ma s negand o ser “lenda inve nt ad a”, visand o val idar a existência
de u m persona gem tão importante. No deco rrer da histó ria, est ão em primeiro
plano o s feitos heróicos de Besouro Co rd ão de Ouro, com matize s su rreais,
entremeados com aconte cime ntos comuns de sua vida. Se gundo Victor Garcia,
seu texto é result ado de um trabalho de pesquisa sobre as histórias d a vida de
Besouro, preservadas po r u ma tradição oral.
O narrador prosse gue com o relato, dando exp licações so bre a
bravu ra do herói e sua singu lar idade, confirmad a pelos apelid os:
(...)
Diz em q u e era v al ent e
E brav o como um t o ur o
O cha ma va m “B es ou r o Pr et o”
Bes our o “C or d ão de Ou r o”
D e “B eso ur o Man ga ngá ”
Ou si mpl es me nt e “B eso ur o”
(...)
Man ga ngá é u ma esp éci e
D e b eso ur o d a cor escura
141
GARCIA, Victor Alvim Itahim. A bravura de se contar histórias sobre Besouro. Trecho do texto em que o
autor expõe sobre o seu encantamento ao escrever sobre Besouro. Disponível em: http://www.docstoc.com.
Acesso em março de 2010.
70
Qu e fur a q ualq u er mad eir a
S ej a ela a mais d ur a
Mad eir a b oa, de l ei
O Man gan gá vai e fura (p. 3 -4)
(...)
O nome Besouro Mangangá vem a ser uma imagem qu e agrega um
paradoxo : o capoeirista é conhecid o por sua agilidad e no sa lto , a sua le veza, o
seu voo , d aí receber o nome d esse inseto, como também ganhou fa ma po r sua
precisão e firm eza nos gestos, nos go lpes de capoeira, e su a resistê ncia, daí a
força p ara enfre nt ar os mais d uros obstáculo s, po r ser um “mangangá”.
O herói tem uma famí lia, a despeito d e não ter um registro civil,
não há uma cert idão de nascime nto, fat o qu e contribui para a tes situra da
lend a:
(...)
Mil e oitocent os e
No venta e ci nco era o a no
Qu e di zem nas ce u B es our o
Mas p o de ha ver eng an o
P ois a certi dão su mi u
No R ecô ncav o b ai a no
Do na Mari a Jos é
E João Matos P er ei ra
E ra m os pais d o l endá ri o
Bes our o da cap oei ra
Das ter ras de Sa nt o Amar o
Nas ban das d e C a ch oeira (p. 4 )
O narrador põe em destaque os atributo s posit ivos do heró i – forte,
destem ido, inve ncí vel, hábil – e va loriza o ap rendizado qu e este teve com o
“tio Alípio ”, u m sábio a fricano que, como um grande me stre, foi ge nero so
com seu discípu lo ao ens inar - lhe “basta nt e do que sabia” :
(...)
No t emp o em q u e B eso ur o
E ra ap en as um men i no
Um dia ho uve um enco ntr o
T ra ça do p el o desti no
Do vel ho a fri ca no Alíp i o
E aq uel e r ap az fr anzi no
T io Alípi o er a u m neg r o
D e muit a sab edoria
Qu e ensi no u pa ra B eso ur o
Bastante do q u e sabi a
71
E tudo q u e el e ensi na va
Bes our o semp r e apr endi a (p.5 )
(...)
A narrat iva de Victor Garcia su blinha a importância da cap oeira
para a mit ificação d e Besouro Mangangá. Daí a va lorização de um jogo qu e é
arte, luta e ofíc io ens inado pelo ve lho mestre d e capoeira.
(...)
Ap rendi a os s egr ed os
Da vel ha cap o eir ag em
Os mistéri os desta
A malí ci a, a mala nd ra gem
As man di ng as, arti man has
A d est r eza e a cor a gem
D entr o d os ca na vi ais
No mei o das pl a nta çõ es
Bes our o ouvia at en t o
A t o das essas liçõ es
Do j ogo da cap o eira
Das fa cas e o raçõ es
(...)
Bes our o foi b o m al un o
Dis cíp ul o ob edi ent e
F oi cres cend o e se t or no u
Capo eir a exp oent e
O meni no ag or a er a
F ort e, ágil, valent e (p.5 )
O jo go d a capoeira, com seu s s egred os, ensinado “dentro dos
ca navia is” e marcado p ela malí cia, m ala ndragem, mandinga, art im anha s,
destreza, coragem, fac as e oraçõ es, reves te-se d e magia, reve la a riq ueza de
uma cultura pop ular de matriz a fr ica na, dese nvolvida como uma astúcia, na
reinve nção do cotidia no, como pensado por Miche l de Certeau, dos ne gro s
escravizad os. 142 Como “discípu lo atento”, Besouro Cordão de Ouro dá o salto
e se torna mes tre, e sua inve ncibilidade é traduzida na ginga d o corpo, na
beleza da luta, o que o faz se tornar um mito no ima ginário p opular,
confirm ado na memó ria do Recônc avo Ba iano .
142
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, vol 1, 1994; vol. 2 1996.
72
O co rd el de Victor Alvim também não ignora a au dácia de Besouro
ao d esafiar a le i zombando do s agent es policia is:
(... )
Nu ma out ra ocasiã o
Bes our o an dava a p é
P ass ea ndo p ela marg em
L á d o Ri o S ub aé
A p olí ci a lh e ab or d ou
-M e di ga você q uem é ?
E os sol da dos não sabia m
On de estav am s e met end o
A casa de ma ri mb ond o
E m q ue est avam mex end o
P ior q u e p an el a quent e
Ch ei a de ág ua fer vend o
Bes our o se esq ui va va
Dos g olp es nega cean do [ enga na nd o]
Z omb ava d os oit o praças
D e “ma ca co s” o cha ma nd o
T omou o ch ap éu de um deles
E dep ois fug i u na da nd o (p. 9 )
(...)
O desafio é enaltec ido, como ocorre em muitos outro s relato s, at é
porqu e ess e cap oeir ista ousou um confronto com os representa ntes da le i,
quando servia ao Exército Bras ileiro. De acordo com Adriana D ias,
(...) se e m al gu ma s o casiõ es os cap oeir as est a va m no l ugar d e
r epr esent a nt es da lei, em mu itas o utras esta va m no l u ga r do s
q ue so fri a m o p es o da l ei. N a r eali da de hav ia um ó di o mú t u o
ent r e cap oei ras e ag en t es da o rd em. Para os cap oeir as, bri ga r
com a p olí cia er a moti v o de or gul ho e p r ova de valentia, fat o
q ue é de con h eci ment o geral e transp ar ece até em s ua s
ca nti gas: ‘Nã o est udei p ara ser p a dr e nem tamb é m p ra s e r
d outô; est u dei a cap oeira, pra bat er no i nsp et ô ( cor o)’. 143
Em relaç ão ao ingre sso dos ne gros em corporações militar es, Walt er
Fraga
F ilho
afirma
qu e,
no
pós-abolição,
os
negros
t idos
como
insubordinados, por não se su bmeterem à autoridad e se nho r ia l, recusarem -se
ao trabalho nas p lantaçõ es de ca na, eram convo cad os a fazer parte dessa s
corporaçõ es.
143
DIAS, Adriana Albert. op. cit. p. 113.
73
Ao l o ngo dos an os d e 18 88 e 188 9, os del ega dos das ci da des
d o Recô ncav o r emet er a m pa ra a cap ital di versos i ndi ví duo s
a cus ados d e vagab u nda gem e vadiag em. [...] Na verd ad e, ess a
era u ma t entativa de con tr ol ar e limita r a lib erd ad e do s
egr ess os da es cra vi dão d e es col h er em o nde e q uan do tra bal ha r
e d e cir cula r em b us ca d e out ras alter nati vas d e
sob r evi vê ncia. 144
Mesmo se ndo um praça do Exército , o destem ido B esou ro não s e
int imida va nem com as mais alt as patentes, conforme o narrador:
(...)
P odia s er q ualq uer um
P aisana o u p oli cial
F osse s ol da do, sar gent o
Cor onel ou general
Qu em s e m et ess e co m el e
No cert o s e d ava mal
Nã o tin ha h omem val ent e
Qu e el e n ão derr otasse
Nã o tin ha fa ca, facão
Qu e o seu corp o p er fu r asse
N em b ala de q u alq uer ar ma
Qu e a o s eu co rp o al ca nçass e
Mas s e o cer co ap ertass e
Nu nca p a ga va pra ver
S e tr a ns for ma va em i ns et o
P ara desapa recer
E o ini mi go fi ca va
S em co ns eg uir ent en d er (p. 6)
(...)
Aind a no s versos ac ima, o narrador traz para a trama mais um fio : a
sa gac idad e de Beso uro, po ndo em destaque uma inte ligência que calcula o
perigo : “Mas se o cerco ap ertasse/Nu nca p aga va pra ver/S e tra ns fo rmava em
inseto/Para
desaparecer”.
É
sublinhada
a
fo rça
da
ma ndinga
para
o
capoeirista. 145
O co rd el História s e bravura s de b esouro o valente capoeira
também re gistr a o episódio p ro tago niza do por Besouro Cordão de Ouro,
quando ainda servia ao Exército :
144
FILHO, Walter Fraga. Encruzilhadas da liberdade. Histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910).
Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2006, p. 156-157.
145
Cf. REIS, Letícia Vidor. O mundo de pernas para o ar. A capoeira no Brasil. São Paulo, Publisher, Brasil,
1997. p. 217.
74
(...)
M e g ar a ntiram q u e el e
Nã o er a ar ruacei r o
Qu e s ó er a v al ent ã o
E cui dava d e u m sa veiro
E tamb é m q ue foi sol da do
No ex ér cito brasil eir o
(...)
M es mo enq uant o B eso ur o
Ao ex ér cito s er vi a
No T ri gési mo P ri meir o
Batal hão de I nfant ari a
Nã o mud ava o seu j eit o
N em a sua val en tia (p.7 )
(...)
(...)
E m Sã o Ca et a no ha via
Um p ost o p olicial
N ess e domi ng o, Beso ur o
P assou em fr ent e ao l ocal
E en cost ou-se à janela
Da par ed e p ri n cip al 146
P el a jan el a do p ost o
E le olh ou lá d e for a
Ar mas ap r eend idas
Avist o u na mes ma ho ra
Mas um outr o obj et o
Nã o o dei xou ir emb ora
No mei o d e ta nt as a r mas
O q ue ch amou -l h e at en çã o
Nã o foi n en hu ma faca
Ar ma d e fog o o u muniç ão
F oi u m b eri mbau q u e esta va
Jo gad o ali p el o chã o (p.1 0)
O desp rezo dado ao berimbau, instru mento considerado sagrado
pelo s capoeiristas, dese ncadeia um confronto :
147
(...)
Bes our o entã o cha mou
Ao sol da do d e p lantão
146
São Caetano é um bairro periférico da cidade de Salvador.
Para Charlles Robson dos Santos, “Mestre Pastinha expressa bem o valor do instrumento berimbau para o
capoeirista: ‘Muita desordem que capoeirista fazia não era propriamente por ele. Era também provocado. Porque
se estavam numa vadiação, num grupo com berimbau na mão, eles entendiam de querer tomar pra querer
quebrar... Aí inflamava. O íntimo do capoeirista não queria perder seu instrumento, então tinha que brigar’". Cf.
SANTOS, em O Berimbau e a Capoeira (SP, junho de 2005). Charlles Robson dos Santos é, fotógrafo,
compositor, músico e professor de capoeira Angola da Escola de Capoeira Angola Raiz Negra de São José dos
Campos. Disponível em http://www.capoeira.jex.com.br. Acesso em 12/05/2009.
147
75
Ar geu Clá udi o de S o uz a
O n ome d o ci dadão
Qu e er a p raça da Bri ga da
Do Pri mei r o Batal hã o
Olh and o p ara o s ol dado
Bes our o l he disse assi m
–Me dê ess e b eri mb a u
Qu e d el e eu fiq uei afi m!
O sol dad o diss e: – isso
Não é decis ão prá mi m
(...)
– Sem o sub d el ega do
Na da p oss o d eci dir
E obj et o n en hu m
Qu e o senh or vi er p edir
N em ar ma, nem b eri mba u
Daq ui não ir ão sair ! (p .10 )
(...)
Bes our o entro u n o p ost o
Co mo s e foss e u ma i nv asão (p1 0 )
(...).
Bes our o ap ro xi mou-s e
D e C erq u eir a e d e Ageu
O “kép e” d e C erq uei ra
Bes our o o susp end eu
Diss e: - Recr ut a, vo cê
Nã o sab e o nd e s e meteu! (p .11)
(...)
Bes our o sai u p ra for a
S ab re des en b ai n ha do
T rês ami gos d e B eso ur o
O agu ar da va m a o la do
Do p ost o p oli ci al
Qu e el e h avia ent rad o
E os ami gos d e B eso ur o
Ju nt ara m- s e ao comp a nh eir o
E nt rar a m t a mb ém na bri g a
Co m espírit o g uerr eir o
P ois també m er am s ol d ados
Do E xércit o b rasil ei r o. (p.11 )
(...)
A retirada do “kepe” de Cerqueira denota um desafio à autoridade,
parte para o confro nto, apo iado pelos comp anheiros, e são aped rejado s pelos
moradores do bairro, unid os ao escrivão e a dois soldados do posto p olicia l.
Como revide, o capoeirista reú ne trinta soldados do Exérc ito e retorna ao
76
posto. Sucede-se grande co nfusão, que só tem fim co m a chegada do
comandante da guard a po licial e o genera l responsável pe lo qu artel onde
Besouro estava lotado.
O historiado r Antônio Lib erac P ire s traz o relato, do cumentado, das
vít imas e dos acusados, no processo aberto pelo Minist ério da Guerra p ara a
apuração desse fato, o qu e, co mo já foi visto, culm inou na e xpulsão de
Besouro da corpo ração:
[...] mais uma vez fez j ustiç a a su a fama: foi o ‘t err or’ d o
exé r cit o b aia no. [...] Aos 2 3 an os de i d ad e, foi p res o e
p r ocessado no a rti g o 30 3, po r t er p ro vo ca do lesõ es em Ar g eu
Cláudi o de S o uza, a gent e da p olí cia ci vil d e S al va dor. O
a cont eci ment o o co rr eu em 8 de set emb ro de 1 91 8. 148
O relato do cordel retoma es sa ver são, na qual se co nst atou a culpa
de Besou ro , por parte dos “poderes competente s”, e o capoeirista foi punid o:
(...)
Man da ra m B es ouro Pr et o
Dir et o pa ra a ca dei a
P ra n ão ar mar al g az ar ra
N em z omba r da vida al heia (p.1 1)
(...)
Para Josiva ldo Oliveira, “o s confronto s e ntre Beso uro e polic iais
não ficaram restr itos ao univer so do ‘mito p opular’ ”. 149 No episó dio do
cordel, Be so uro, membro da corporação do Exército Brasileiro, enfre nt a
“recrutas da polícia civil”, invest id o d e autoridade, em defes a d a capoeira,
vez que o co nflito foi desencad eado pelo desprezo ao berimbau.
Subentende-se aind a um co nfronto político, po is Besouro rep resent a
as forças federais em co nfro nto com a estadual. “E le crit ic a o go ver no do
Estado da Bahia po r financ iar o s policia is e afirma sua posição ao lado de
representant e das forças federais.” S egundo Pires, “Manu el He nr iq ue perd eu
148
Cf. PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. Movimentos da cultura afro-brasileira. A formação histórica
da capoeira contemporânea. 1890-1950. 2001. 453f . Tese (Doutorado em História). Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. 2001.
p. 227.
149
OLIVEIRA, Josivaldo. op. cit. p. 39. O autor se apóia nas informações do historiador Antônio Liberac Pires,
que encontrou dois processos crimes movidos contra Mangangá, um deles, na cidade do Salvador em 1918
(época em que Besouro serviu ao Exército e foi expulso por conta desse episódio) e o outro em Santo Amaro, em
1921. Cf. p. 44.
77
esta cau sa e fo i expulso d o Exército Br as ileiro. Be sou ro de Manga ngá, no
enta nto ganho u certame nt e mais uma histó ria para engra ndecer sua fama”. 150
Para Olive ira, os co nfrontos e ntr e a p olícia e os capoeiras, tid os
como “personagens perigosos” – e xpressão u tiliz ada pela e lit e baia na em
meados do século X IX – eram freq üentes, o qu e comprova a valent ia d os
capoeiristas. De corriam da principa l preocupação co m o policiame nto das
ruas de Salvado r, para “tranqüilizar a população em re lação aos desatino s
causados po r homens e mulhere s desordeiros acusado s d e serem parte do
perigo que a rua representava”. O “(...) p rimeiro atributo p ara um homem
pod er ser u m bom capoeira era, por consegu inte, a vale nt ia, ou seja, a
coragem d e encarar o perigo , de não ter med o de brigar, e specia lmente se o
adversár io fosse u m agente de o rd em ou um inimigo tirado a vale ntão”. 151
No cord el de Alvim Victor Garc ia, o narrado r rememo ra os fe itos
desse “herói” valentão que, ao sair da p risão , enco ntrou guarida, graças à sua
fama, no Engenho Sant’A ntônio do Rio Fundo, prop riedad e do coronel José
Antô nio Rodrigu es Te ixeira, “Zeca Teixeira”, aco ntec imento present e t amb ém
no co rdel d e Anto nio Vie ira. O narrador destaca o episódio com o filho do
coronel:
(...)
P ra ci da de da Ba hia
S eu Zeca fo i vi ajar
E nq u ant o esta va ausent e
Col ocou n o s eu l ug ar
S eu filh o cha ma do Orla nd o
P ra faz enda el e cui dar
(...)
L he con tara m q ue B es ou ro
Na Vila esta va b eb endo
Arr uman do co nf usão
E alg az ar ra fazend o
Orla ndo ent ão or deno u:
– Tragam ele aq ui corr en do !
(...)
Bes our o entã o foi chamad o
P ara vir s e expli ca r
Orla ndo l he p erg unt ou:
– Onde é q ue q u er chegar
Co m to da essa b eb edeir a
On de você v ai p ar ar ? (p.1 9-20 )
150
Cf. tese de doutorado. PIRES, Antonio Liberac. op. cit. p. 223.
DIAS, Adriana Albert. Mandinga, Manha & Malícia. 2005, p.135.
151
78
(...)
Bes our o l he resp on deu:
“– Orla ndo está eng anad o
M eu p atrã o n ão é v ocê
S eu mo l eq ue ma l cria do
M eu p atrã o é o seu p ai
E prov e s e est ou err ad o!
– E ainda t em outr a cois a
Qu e esq ueci d e l h e dizer:
D e ri fle nã o t enh a med o
É mel hor v ocê esq uecer
P ois senã o d ou-l h e u ma s ur ra
Qu e t u vai se ar r ep ender !
– E agora eu vou - me emb or a
E aq ui nã o v ou mais v olta r
Nu nca mais nest a fa zenda
E u volt o a trabal har
Dê l embr a nç as a s eu p ai
Assi m q ue el e ch eg ar (p. 2 0-21 )
(...)
Tão lo go sa i des se e nge nho, o capo eirista pass a a trab alhar par a
outro fazendeiro, o qu e confirma a importância des se p ro fis sio nal p ara os
coronéis, qu e mesmo com os riscos, d epe ndem de indivíd uos destemido s na
proteção de suas prop riedad es. Eis uma pas sa ge m da narrat iva que ilustra ta l
dep end ênc ia:
(...)
Co m a fama de Man ga ngá
S eu Héli o er a r eceos o
S empr e ouvia q ue B es ou ro
E ra um cab ra p eri gos o
Um faq uis ta a rru aceir o
Um ho me m muito ti nh os o
M es mo assi m seu H elio doro
Res ol veu foi ar riscar
Co ntr ato u B eso ur o P ret o
P ra s eis bu rros aman sa r
E logo a d es confi a nç a
Qu e ti n ha v ei o acab ar (p .25 )
(...)
Em toda a narrat iva, é destacada não só a ho nest idad e de Besouro ,
um homem avesso às injust iç as, como também se exa lta o heró i imb atí vel.
79
Para o narrad or, o nome Besouro Manga ngá tornar ia e ss e capo eira um imortal,
como ocorre co m todo herói:
(...)
Nã o tin ha n em tri nta an os
Já tinha vivi do tanto
Cada coisa q u e até n el e
Às vezes ca us ava esp ant o
P eri gos que s e li vra ra
S omen t e p or seu encant o
Das vez es q ue se li vr ou
D e tir os e d e fa ca das
F or am t a ntas emb os ca das
Mas s emp r e sai u il es o
D e tod as as enras cad as
(...)
A canti ga q ue di zia
Qu e n o di a em q ue mo rr ess e
O q ue el e mais q ueria
Qu e ni ngu ém s e esq uecess e
E ra q u e d ep ois de mo r to
S eu nome sob r evi vess e (p.26 - 27)
(...)
O herói que sobrevive no nome marca s ua posição de capoeir ist a
notá vel, capaz de int imidar os adversários:
(...)
A b ri ga conti nua va
E ra m set e con tra um
Bes our o en fu r eci do
D er ruba va um p or u m
E no fi m, dos set e h om en s
E m p é não sob r ou nenhu m.
Bes our o se ap r umou
E pagou o q ue b eb eu
Olh ou os homen s no chã o
P enso u no q u e a co nt eceu
E ant es de ir emb ora
Um r ecad o ai nda deu:
“H omem pr a bri ga r co mi g o
N essa t err a aq ui nã o há
P odem vir t ent ar a sort e
Mas a vis o qu e não dá
S e q uerem sab er q uem so u
S ou Bes our o Ma nga ng á” (p. 23 -24 )
80
Em
Histórias
e
Bravuras
de
Besouro
est á
e ndossada
u ma
representação mítica d e Beso uro M angangá, u m ser qu e trans ita pelo mu ndo
so brenatural, atr avés de sonhos, habit a do po r d ivindades, seus orixás de
proteção:
(...)
N ess e dia ao dor mir
Al g o est ra nho acont ec eu
Bes our o t ev e um s on ho
L ogo assi m q ue ad or meceu
No so nho en co ntr ou Og um
Qu e u m a vis o l h e d eu .
No so nho O gum falo u:
“-B es ou r o t enha cui da do
E sto u a l he p r ot eger
E vi vo sempr e a o s eu la do
Mas vo cê deve ma nt er
O seu corp o fech ad o.
“E to me mu it o cui da do
Co m as mul heres que a nda
T enha s emp re fé em Deus
Qu e v en ce q ualq u er deman da
O b om fil ho s emp re faz
Aq uil o q ue o p ai man da” (p.2 4)
O s inal de alerta do orixá a Be so uro vem reiterar a força mític a no
universo cultural do capoeira, o que, segundo Eliade, “implica em u ma
exp eriênc ia verd adeira me nte “re ligiosa”, pois ela se dist ingue da experiência
ordinária da vida quotidiana”.
152
Prossegu e o narrador :
E nt ão B es our o a co rd ou
Do so nho mei o assusta do
T enta nd o l emb rar daq uil o
Qu e O gu m ti n ha lhe fal a do
Mas nã o l embr ava d e t u do
E lev ant o u p reocup ado
(...)
Naq u el e di a Bes ouro
L embr ou de su a vi da int eira
T ambé m l e mb r ou d a canti ga
Das ro das d e cap oeir a
Aq uela q u e mais g ost ava
E ca nta va a s ua ma neir a
A canti ga q ue di zia
152
Idem. Ibidem, 1991, p. 22.
81
Qu e n o di a q u e morr ess e
O q ue el e mais q ueria
Qu e ni ngu ém s e esq uecess e
E ra q u e d ep ois de mo r to
S eu nome sob r evi vess e. (p25 - 26)
(...)
Tal pres sá gio é interpretado, qu and o che ga a vigí lia, com o anú ncio
de sua mo rte, o que faz o capo eirist a dese jar, se gu nd o o narrado r, a
imortalid ade, conquistada com o nome. O sonho é sacram entado na histó ria de
Victor Garcia:
(...)
E qua nd o a pri meir a estrela
L á n o céu ent ã o b rilh ou
Bes our o fechou os ol h os
E as du as mãos ju nt ou
F az en do u ma ora çã o
E m v oz baix a el e fal ou:
-N o di a em q ue eu mor r er
Nã o q uer o ni n gué m cho r and o
Qu er o q ue o b eri mbau
E st eja s emp re t ocan do
E o meu nome nas r od as
Al g uém est ej a ca nt an do
-M eu co rp o p ode dormir
P ode at é des ap ar ecer
Mas o n ome d e B es our o
Nin gué m i rá esq uecer
Minha fa ma a ca da dia
M uit o mais irá cr escer (p . 27-2 8)
(...)
As pala vras “oração”, “berimb au” e o codino me Besou ro compõem a
teia tecid a p ara transformar um heró i em mito. A o ração é o elo e ntre o
homem e o sobrenatural, o b erimbau é o instrumento que desencad eia o to m, a
musica lidad e para jogo d a capoeira.
No dese nrolar d a história, Garcia narra a mo rte de Besouro
Mangangá, r elato que compreende episódios prosaico s da vid a do heró i, quase
um d eus, que também vive o seu co tidiano :
(...)
Besour o pass ou em casa
Pra p oder se arr u mar
82
T omou u m b an ho e foi
Uma mul h er encontr ar
Bem cedo v ei o acor dar
(...)
L ogo q ue a ma nh ec eu
Bes our o ent ão s e vesti u
Daq u el a linda mul her
Man ga ngá s e d esp edi u
Col ocou o s eu chap é u
E pel os fu nd os sai u (p . 28)
(...)
As estrofe s a s eguir dão conta d e como o capoeirista fo i vítim a de
uma cilada:
(...)
D eci di u ent ã o sair
L á p or detr ás do roça do
P assou emb ai x o da cer ca
F eita de ar a me farp a do
D ep ois d e p assar l emb r o u
Do q ue ha via s onh ad o
Mas nesse mes mo i nstant e
Um ho me m p or det rás chegou
Uma fa ca de ati cu m
Na bar ri ga l h e enfi ou
Bes our o nem t eve t emp o
D e ol h ar q u em l he emb oscou
Mas s ab ia q ue era tar de
Qu e ch ega ra a sua h ora
A s ua missão no pla neta
Ch eg ava a o fi m ag or a
P artiria p ara A rua nda
E ra t emp o de ir emb o ra (p. 2 8-29 )
(...)
O h omem sai u and an do
Bes our o cai u no ch ão
N em sabia q uem havi a
L he feit o esta trai ção
E nq u ant o o sa ngu e d es cia
L embr ou -se de uma or aç ão
Man ga ngá san gr av a muit o
O sol já bril hava fort e
Bes our o tinha vi vi do
Uma vi da de muit a sort e
Mas p ar ec e q ue ch eg ara
A h or a d e s ua mort e (p . 29 )
(...)
83
A narrat iva prosse gue discorrendo sob re a remo ção do capoeirist a à
Santa Casa da M iser icórdia em Santo Amaro. Como todo herói, Besouro
também t inha o seu ponto vulneráve l, p ar a marcar a sua co ndiç ão hu mana. O
herói burlou um preceito, o qu e o deixou co m o co rpo aberto. Co ntudo , a
traição que sofrera não o retira da condição de herói. Ao contrário, a morte o
engra ndece, firma ndo -se o pacto com o mítico – o ho mem que se trans forma
em herói – e o místico – o homem que busca o divino, o sobrenatural.
Besouro “partiria para Aruanda”, 153 ao encontro dos o rixás d a rel igião
afr icana.
Os versos fina is do cordel de Garcia trazem uma homena gem do seu
auto r, capo eirista, de “corpo e alma també m”, a Besouro Cordão de Ouro.
(...)
Mas q u em é cap oeirist a
D e corp o e alma també m
Qu em co nh ec e os s eg r ed os
E quem realm ent e tem
No sa ng ue a cap oeira
M e ent end er á muito b em
A emoçã o q ue eu si nt o
Qu an do es cut o al g ué m cont ar
Uma histó ria d e B eso ur o
Ou q ua nd o eu vo u cantar
Canti g as de cap o ei ra
P ara l he homenag ea r ( p.30 -31)
(...)
No q ue dep end er de mi m
S erá pr a s emp re exalta do
Nas ro das q ue eu ca nta r
Bes our o ser á l emb r ado
E qua nd o eu for j o gar
E le esta rá a o meu lad o
E el e está mais p ert o
Do q ue p o de i ma gi nar
Bes our o é u ma est r ela
Out ras vezes s e tr ans for ma
E as rodas vem visitar
Ch eg a em fo r ma de ca nti ga
Ou do so m d o b eri mb au
153
Aruanda (banto) (LP)-s. a África mítica, termo que aparece freqüentemente em cânticos rituais e do folclore
afro-brasileiros, como nos versos “Quando eu vim de Aruanda” ou “Eu sou negro de Aruanda”. In: CASTRO,
Yeda Pessoa. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro, Topbooks, 2005, p.
158.
84
E u si nt o a s ua pr es ença
E ner gi a s em i gu al
E ten ho a pl ena cert ez a
Qu e B eso ur o é i mort al (p . 31)
Os sent im entos d o cordelist a c imentam es sa narrat iva mít ica, um
discurso “capaz de rep resent ar a vid a e a morte, o tudo e o na da, o pleno e o
vaz io, o visí ve l e o invisí vel, o d ito e o inefáve l, o mistér io da exist ênc ia”.
154
Besouro torna-se imortal, tra ns fo rma-se em u ma es tre la d a co nst elaç ão de
mitos da cultura popular.
As histórias inventadas pelos co rdelist as so bre Besouro Co rdão de
Ou ro
são
traduçõ es
e
ress ignificaçõ es
de
um
mito
construído
po r
determinados segmentos socia is, marcadas por va lores produ zidos em u ma
épo ca, em qu e ainda se fazem potentes co ntemporaneamente. Besouro
Mangangá, como ícone d a capoeira, s imboliza a r es istência ao s dispositivo s
repress ivos p roduzid os e u sados por u ma menta lidad e escravagist a no Bras il,
desde os temp os d a co lonização.
154
LUZ, Marco Aurélio. Agadá; dinâmica da civilização africano-brasileira. 2.ed. Salvador: EDUFBA, 2000. p.
21.
Fonte: CARNEIRO, Edison - Caderno de Folclore 1 – Capoeira, 1977
85
4 MORTE E NASCIMENTO DO HERÓI NEGRO EM FEIJOADA N O
PAR AÍSO
Feijoada no paraíso tem como personagem centra l o capoeir ist a
Besouro Mangangá. O romanc e retoma algumas história s e “c ausos” já
contado s a respeito desse personagem. Na abertura do livro , int itulada
“Memórias de u m capoeira”, ass inada por Marco Carvalho , tem -se demarc ado
o recorte na composição dessa teia fic cional:
E sta é a histó ria de M ano el H en riq ue, fil h o de Mari a Hai fa e
Jo ão Gr oss o, co nta da p or el e m esmo desd e a nt es e at é d ep oi s
d o t emp o em q ue vi r ou B eso ur o, cap oeirist a famo so d e Sa nt o
Amar o de N ossa s enh or a da P uri fi ca çã o, na Bahia. Não é a
históri a t oda p orq u e s ua vi da nã o é cois a q ue caib a mesmo e m
n en hu m li vr o. Sã o fra gm en t os, cas os, histó rias, nar ra çõ es d e
su a sag a t a nt o n est e mu ndo q uant o no outr o. Nã o s e encon tr ar á
n estas pá gi n as as pr etensõ es de u ma bi ogr afia. M es mo p orq u e
tu do o q ue diz em sob r e el e é e ser á s empr e, de u ma for ma o u
d e outr a, l en da e fa nt asia. El e é um man di ng ueir o q u e s e
tra ns for mou ai n da em vi da n o mit o q u e é até hoj e. E é u m
suj eit o mu it o mai or d o q ue q ualq uer lit era tur a. É cla ro q u e
n em t ud o o q ue se co nt a sobr e el e está aq ui, porq u e a memó ri a
d e B eso ur o já s e esp al h ou d ent ro e for a da su a cab eça entr e o s
cap oeir as. E se p or acas o u ma ou outra histó ria d est e li vr o n ã o
tiv er a co nt eci do do j eit o q u e B eso ur o o con t a, azar o dela. ( p.
9 ). 155
Chama ate nção o se gu inte comentário : “[...] não se encontrar á
nest as páginas a p retensão de uma b iografia”, e ntend ida aqui nos moldes de
uma biografia tradicio nal, em su a prete nsão de co nt ar a história de um
indivíd uo em su a totalid ade, se guind o uma cronolo gia. Ao contrár io, Feijo ada
no pa raíso traz “fragme ntos, casos, histórias”, como uma co lcha de retalhos,
que vai compor a saga de Be sou ro “tanto nest e mund o quanto no outro”.
Dest acando a grand eza des se capoerista, tem-se ainda na abertura do
livro a declara ção de qu e Besouro é “um suje ito muito maior do qu e qualquer
lit eratura”, visto que o escrito não comporta toda uma experiê ncia de mu ndo,
o vivido. Por isso, abd ica -se d e bu scar uma história verdad eira: “Mesmo
155
CARVALHO, Marco. Feijoada no paraíso, a saga de Besouro, o capoeira. Rio de Janeiro. São Paulo: Record,
2002. Doravante, as referências a essa narrativa virão sucedidas da indicação de páginas.
86
porqu e tudo o que dizem sobre ele é e será sempre, de uma forma ou de outra,
lend a e fa nt as ia”.
Nesse p risma, ao percorrer o “movediço mundo d a literatura”, 156
tecendo uma lenda do herói, Marco Carvalho recorre a te xtos de uma tr adiç ão
oral, histórias, “cau sos” sob re Besouro, mito da cultura afro -baia na, para
ma nter viva uma memória. Retoma ndo Wo lfgang Iser, ent end e-se que os
“causos” – ou vidos p elo autor, como d eclara, a lgu ns, através das letras de
músicas compo stas por capoeiristas –, sejam de o rdem sent imenta l, sejam de
ordem social, vão s e tornar matér ia-prima d essa fab ulaç ão, num processo de
se leção e combina ção .
Essa narrat iva traz u m persona gem - narrado r, Besouro, conta ndo sua
morte, seu apelido, seu nasc ime nto, o jogo da capo eira, relaçõe s de amizad e e
contend as com a políc ia e jagu nço s, a ma ndo dos coronéis d o Rec ô ncavo
Baiano. Reto rna, portanto , bo a parte dos episódios fic ciona lizados por
Antô nio
Vieir a e Victo r Alvim Garcia, desta cando -se nos textos d os
cordelista s um narrador em terceira pesso a.
No texto de M arco Carvalho , as e xper iência s, atra vés d e relatos
entremeados de refle xões, expres sam t ambém lutas de resistênc ia, e são
acrescentados algu ns episódio s que não se e ncontram no s texto s de A ntônio
Vie ira e Victor Alvim G arcia, como o nascime nto do neto de Besouro na
cidade do Rio de Janeiro.
Estruturad a em fo rma de novela, gênero liter ár io que se caracter iza
por
agregar
diversos
episódios
ou
contos,
vividos
ou
envo lvendo
o
persona gem c entral, Fei joada no para íso reúne vinte e um capítulos, como
quadros ou telas, em qu e Besouro rememora a sua história e as hist órias d os
moradores da cidad e de Santo Amaro d a Purificação , no Recô nca vo Baia no, e
so bre elas conjectura, divaga. Como estã o reunidos, os capítulos podem ser
lidos de modo ind epende nte, 157 e a narrat iva contribu i p ara uma co mpreensão,
numa perspectiva histó rica e soc ial, da histó ria dos negros no país.
Feijoada no para íso co nfere ao jo go da cap oeira uma visibilidade
maior, s e co mparada aos textos de cordel, co mo prátic a e luta inc es sa nte de
156
Expressão empregada por Muniz Sodré quando a apresentação do livro Feijoada no paraíso.
Títulos dos capítulos: Cilada, Fama, Tio Alípio, Apelido, Mangangá, Palavra de homem, Fuzuê, Feira, São
João, Encruzilhada, Quando eu morrer..., Anjo não, Magia, Enterro, Roda de rua, Madames, Padre Vito,
Babuíno, Sorte, Nascimento e Feijoada no Paraíso.
157
87
res istência, que compõe, segundo S tu art Hall, os rep ertórios cultura is d os
negro s, estraté gias “capazes de efetu ar diferenças e d e deslocar as disposiçõe s
do poder”, como entende Ha ll ao trata r, no contexto contempo râneo, da
questão da visibilidade dos negros na cultura, a qual, historicame nt e, é
“regulada e segre gad a” na cu ltura he gemônica. 158
Aind a que se trate de uma história criada po r outro, de autoria de
Marco Car va lho, tamb ém capoeirista, que co ncede voz ao p erso nagem
Besouro, Feijoada no paraíso toma p artido dos oprimid os, ao d ramatizar, do
seu lu gar d e fa la, aqui ainda apoiada em Ha ll, a “e xperiê ncia histórica do
povo negro na diáspora”, cujas lutas sobrevivem atra vés d a “est ét ica negr a
(repertórios culturais próp rio s a partir do s quais fo ram produzidas a s
representaçõ es popu lares) e das contranar rativas negras”. 159
A narrat iva é tecida por leveza e d inamis mo , ao contar os ep isód ios,
com uma lingua gem mar cada pela o ralidade e coloquialidad e, d aí as frase s
entrecortad as, pensame ntos int erromp idos, às veze s reco rrendo ao d iscurso
indir eto livre. O personagem Besouro se a presenta como um sujeito refle xivo,
ao narrar, come ntar e faz er especulações sob re suas ações, os valores de sua
cultu ra, de sua tradição e a s e lite s p olíticas e eco nômic as, repres entadas pelos
coronéis e senhores de enge nhos de açú car.
Co mo a narrativa não ob edece a uma ordem crono lógica, o
nascimento d o capoeirista Be so uro é trazido à altura da p ágina 149 do livro,
de um to tal de 158 páginas, no cap ítu lo “Nascim ento ”, episó dio evocado
quando nasce seu neto , no Rio de Janeiro.
Nin gué m nã o s e l embr a do di a em q ue nas ceu . Não con heç o
u m. S ab em s ó o q ue foi cont ad o. E lamb a. Qu an do n as ci t ev e
r ojão de fest a e j ogo de faca no fi m da feira, mas nem fo i na d a
d e marr a n ão. F oi só por q u e T o nha do R olo quis pô r r esp eit o
n um desav er go nha do q u e fol gou com ela. O s ol b en zeu o s
ca naviais co m s ua l uz e s ecou o mi ol o d e p o te d a mori nga q u e
a mi n ha mãe deix av a na sal a p ar a as visitas. Pel o menos er a
essa a des cu lpa q ue J oão G r oss o, meu p ai, da va pa ra ca da u m
q ue vi nh a sab er n otí ci a do p art o, enq u ant o s ervia a gua r dent e
d a cai a na no lu gar da águ a. Porq ue o n as ci ment o do men i n o
mere cia uma fest ejação. A pr eta Zul mi ra veio da r a n otí ci a a
meu p ai. O vel ho b ab alaô ti nh a j o ga do os bú zi os. Vi u o
d estino. Cacho rr os lati ram nas r uas emp o ei ra das de S a nt o
158
Cf. HALL, Stuart. Da diáspora; identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003. p.339.
Idem, p. 344.
159
88
Amar o. O p ad re n ão q uis dar s ua b ençã o. Disse q ue n ão i a
b atizar o fil ho d e O gum q ue eu er a, a não s er q u e meu s pai s
r enegass em a su a fé d e ori g em, o q u e meu p ai e min ha mã e s e
n eg ara m a faz er. Um b es ou ro en tro u no ouvi do d o pa dr e ness a
h ora e ele i mpr eco u p or isso em vig or os o italia no ta nt o d o
p ala vr ã o q ue deix ou suas b eatas co m to dos os ol ho s
arr eg al a dos e co m as b o cas ab ertas. Q ua ndo n as ci foi assi m.
P el o meno s foi o q u e cont ar am. (p . 150 ).
O re lato re gistra a prepo tênc ia d a Igre ja cató lica, q ue não aceit a
nem reconhece os p rece itos d a religião afr ica na, num período em qu e o
ca ndomblé era u ma prática cultu ra l crim inalizada p elas elites do país. Daí a
recu sa do p adre para dar a “benção”. Mas o personagem centr a l da história,
tenta ndo organizar o vivido no período do pó s-abolição e trans ição entr e
Império e República, p ara e ntendê- lo, troca seu no me, Manoe l He nr ique
Pereira,
de
origem
portuguesa,
por
aquele
que
melhor
trad uz
a sua
const itu ição como suje ito: Besouro Mangangá o u Besouro.
A
história
dos
ne gros
escraviz ados
diz
de
uma
lu ta
p ela
so brevivê nc ia, contra o e xtermí nio de vidas mar cadas por so frime nto e
privação, como a do capoeirista Besouro, que cultua suas crenças d ivinas, de
mod o a buscar proteção frente a um Brasil desigu al e host il aos ne gros. Po r
isso, o p erso nagem evoca momentos de sua vida que ilustram mo dos de
res ist ir a um regime opressor e a uma mentalidade escra vocrata:
M es mo q uem nun ca mor r eu a nt es p od e mo rrer u m dia. Ma s
isso eu não i a ap r en der hoj e nã o. Só b em dep ois da n oit e e m
q ue cruzei o med onh o. S ou ho me m de s or te, me a credit e o
s enhor. M es mo q ua ndo o d estino s e es m er a d e es vazi ar p ar a
es frega r o co nt rári o no meu na riz, mesmo aí, ai n da é ma i s
q ua ndo eu a cr edit o que s ou um cabra mu ito agra ci a do p o r
D eus e p el os s ant os d e to dos os r ecô n ca vos da Bahi a. S o u
cab eç a q u e ori xá fu ndo u falan ge e din astia . Foi si m s emp r e
Og um q u e me r ei no u. Mas ta mb ém so u h omem g over na do a
cor açã o, p orq ue cr esci cri a do a ma ngalô co m l eit e, q ue mi n ha
tia me dav a na sol ei ra da p o rta t odo di a, p ara mi m e p ar a a s
o utr as cri anças. N o cor açã o d a fé e da mal dad e q u e era a noss a
vi da de m eni no, mora va ess a mãe d e u m p ri mo q ue m e
ali men tava, co m feijão -d e-p or co e coent r o, e com a p oesia das
lend as dos a nti g os. Mas mi nha fome era d e esp ert eza d e
encar ar o cã o q ue er a o mun do d os pr et os naq u el e te m p o. (p.
1 43 ).
89
A luta pela so brevivênc ia co nfere - lhe um reconhecimento , atest ado
pelo nome Besouro Mangangá, o que é significat ivo na sua const ituição como
su jeito :
T udo n a vi da e d ep ois d el a l eva t e mp o. Tud o tar da. H oj e s ei
q ue t ud o passa e tu do fi ca em al gu m q ui ntal da memó ria, ju nt o
com b i ch os e ab acat eiros, on de t emp o nen h um nã o r ei na e
ap enas um q ue ou tr o t em o dir eit o de i r vadiar. Mas q ue m
a nda, faz, s e comov e é q ue i mpri me n o t emp o e cri a
eng en dr am ent os, dei xa mar ca. Fa ma q u e ficou p ar a tr ás é
rastro. C omi go m es mo fo i assi m. Aco mp an he. Só dep ois d e
mu it os feit os e desfeit os foi q ue mi nha fam a v ei o a cr escer e
ench er ma is q ue b ex i ga em fest a d e car na val. [...] Fa m a
eng or da e cr es ce, t a nt o q ua nt o g en t e, e a mi nh a foi fi can do tã o
fo rte e viaj ei ra de modo q ue p ass ou a chega r em a nt es d e mi m
em muit os l ugar es, ri nhas, b rig as, festas e tocaias. E deu d e
custar de mu ito a ir emb ora, mes mo dep ois d e eu já t er i do.
Mas foi só isso. O r est o é o p o vo e q u e i n ve nta e au menta. E u,
h ei n ? Mas nun ca q ue b ri gu ei uma t ar de a fora co m ni n gu é m
n ão, meu s enho r, nu nca car eceu u ma coisa dessa. Best a gem.
Iss o é t u do falastri ce dessa gen t e. O nd e j á se vi u al guém vir a r
d es vira r cois a, to co, b i ch o, assi m s em mais p recis ã o o u
justifi cati va. Iss o é coisa de encan tament o. Não é p ar a
q ualq uer um nã o. (p . 17 -1 8).
O gosto por confusão veio depois. Já quando vencia o largo em minha vida o
tempo em que o perigo é que tinha medo de mim. Porque já se pronunciava
o nome de Besouro com respeito no final das feiras, nas rodas e festas de
largo, como é hoje em dia, para meu orgulho e devoção. (p. 144).
A fama vem no no me, e no caso de Be sou ro , este a carrega como
uma se nha que o pro tege da ordem escra vocrata, pois, mesmo vivendo em um
país de negros libertos, torna-se uma referência p ara o univer so da capo eira e
da cultura afro -baia na o u afro -brasile ira. O personagem reflete sobre o
se nt ido de seu apelid o, que sub linha a sua fam a, aceito, nes se caso, como
res istência aos valores da cu ltu ra europ éia, b ranc a e cristã.
O nom e é a p rim eira i mp osi ção q u e a p essoa r eceb e p el a s
fu ças a dent r o, como assi m para o vi vent e já ir se acost uman d o
às o ut ras tant as que a vi da há d e faz er ou d ei x ar de fa zer só
p ar a mostr ar q u e é el e, o d esti no, q uem ma nd a e d es ma nd a e
to ca na ban da. T er um ap eli do é resisti r. E m Sant o Amar o
q uase t od o mu nd o t em um. S er chama do p or o utr o n om e é s e r
r eco nh eci do p ela di ferenç a q ue se mpr e exist e ent r e o n ome q u e
o mun do dá p ar a qu alq uer J osé, Nest or, Vi r gulino ou P edr o
Al cânt ar a, e o q u e ele t em no cor açã o, entr e as p er nas, ou n a
cab eç a desmi ola ra da de nã o p rest ar atenção n a vi da nã o. [...] E
os ap eli dos sã o tant o assi m um res umo com o, às vezes, só o
90
com eço da histó ri a daq uel e um q u e at end e p or aq uel e nom e
cari n ho so, en gra ça do ou esq uisit o. É n om e conq uista do p o r
mere ciment o, n ão é coisa h er da da n ão. É m ais. T er a p elid o é
mu itas vezes mel hor d o qu e só t er o n om e [...] (p. 3 1).
O apelido está relac ionad o à vida e às experiências pessoais, “no me
conquistado po r merecim ento ”, ao co ntrário do nome civil, imposto por leis
so ciais e que, na maior ia d as vez es, traz uma origem diversa do seu dono . No
caso de Besouro, o nome de batismo e c ivil é de o rigem portuguesa, o que
demarca uma d omina ção: “Sou Manoel. Manoe l Henr iqu e. Mas sou Besouro.
Nasc i de Maria Haifa t end o po r pai Jo ão Grosso e fu i b at izado com no me
sa nto”. (p . 32).
A criação da alcu nha atesta, a ss im, a sua notoriedade:
O gri ng o co nversa va com o p ad re na s omb ra das árv or es d o
q ui nt al da casa de Amáli a. E n o mei o da con v ers a el e, q ue er a
u m h omem est udad o, diss e q ue um b eso ur o, foss e p elas l eis d a
físi ca ou q u alq uer outra ra ça de l ei, er a um b icho q ue ti n ha
tu do p ara não v oar, muit o p el o cont rári o.. . e q ue, no ent a nt o,
v oa va g raci os o e vel oz. F oi aí q u e eu m e a feiç oei d e ser u m
ma nga ng á p ela vez p ri mei ra. Q uas e end oi deci d e l o uva r e
cump rir p r eceit o nos dias seguint es p ar a apr en der a art e
d aq uel es bi chi nh os. [.. .] Min ha d edi ca çã o a esse ap rend iza do,
d ura nt e t o dos os a nos d essa mi nha vi d a só nã o foi mai or q u e o
meu fa s cí ni o. Dep ois já co m o ti o Alípi o, ar deu foi v ela e m
mu itas q u ar esmas e eu encan tad o com aq uel e dom. (p . 51 5 2). 160
O fas cí nio por movime ntos qu e desafiam a le i d a gravidade, como
ocorre com um b esouro qu e “tinha tudo para não voar”, e co m o corpo no jogo
da cap oeira, condu z Manoel He nr ique a um aprendizado inc es sa nt e, com
sa ltos leve s e firmes, um corpo bailando no ar. Es se ap rend izado requer
“dedicação”, d isc ip lina e observação da “arte daqueles bichinhos ” e não
prescind e de intuição. Por isso, afirma o personagem: “Ma s não ap rendi nada
disso co m luneta, régua, mapa , não. Foi tudo no respeito, na reverênc ia, na
cadência, com tento apenas no que fosse pé pisando certo nos errant es do
mundo”. (p . 52).
160
Mangangá, de origem banto, pode significar pessoa importante, o manda-chuva, o maioral. Cf. CASTRO,
Yeda Pessoa. Falares africanos na Bahia. Um vocabulário Afro-Brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks,
2005. p. 275.
91
Aind a o ap elido va i marc ar uma id ent idade, importante para dribla r
o co ntrole sobre o s indivíduos:
T er ap eli do é muitas vezes mel hor do q ue t er só o n om e,
p orq u e s e ni ng ué m nã o assi na a p eli d o em p ap el de escritur a
n em e m ca rtóri o, n em q uan do os mor ceg o s procur a m, é s ó
p orq u e aí, p elas con veni ê ncias, a gent e só se sab e p el o n ome,
como ci da dã o de r esp eit o, mas q ua nd o é p r eciso mesmo,
q ua ndo as coisas fi ca m q uent es e os mo r cegos v êm co m a
ca valari a, a gent e só s e r eco nh ece p el o escorr eg adi o do s
ap eli dos. (p .32). 161
Percebe-se na pas sagem a cima q ue o apelido é o que lhe co nfer e
respeito, princ ipalm ente no universo da capo eiragem : “To do mundo sabe. Na
capoeira ent ão é lei todo mundo ter um no me d e fé. Um nome só para b ater e
levar porrada.” (p. 32).
Aind a o narrador apresenta su a ver são p ara o reconhecimento da
força e do poder do apelido, um “segu ndo nome”.
P ois foi distr aíd o na vi da, d e ai n da dar asas a ess e en ca nt o,
q ue a no s mais t ar de, vi nha descend o a estrada d o
Mara ca ng al ha p ela mi nh a mã o dir eita. Esb arrav a p or on de o
mat o era uns dois p al mos do ch ão, a mod o d e me escon de r
lo go, ant es de p r ecisar vir ar pla nta se a ja gun ça da de No ca d e
Antô ni a mais os mo rceg os de del ega do Vel oso vi ess em mesm o
p ar a me da r a ca ça. D e fato q uiser am m e s urp reen der n a
encr uzil ha da, e q uas e q u e cons egui ra m s e n ão tiv ess e eu mai s
su rp r eendi d o el es n a mo nt a gem da to cai aç ão. Ta nt o distraí d o
q ue eu estav a que n em d eu t emp o d e p r oferir p or int ei r o a
encan tação q u e tio Alíp io m e ensi no u p ar a u ma ocasi ão dessas.
[...] Corri n a di reção d el es gritan do e na cert ez a q ue o fil ho d e
Og um q ue eu era nã o ha verá de morr er p or nenhu m fer r o q u e
el es tat eass em nos seus emb or nais não. Ne m fi gurei o t emp o
q ue l evou aq uil o, só s ei q u e a cad a mais que eu corri a i a
fi can do tant o e t a nt o l ev e e a escap ada menos i mpr o váv el .
Qu an do ass ust ei, j á voa va livr e s obr e os p rag ueja m ent o s
espa nt ad os d os cabr a r ui m de N oca de Antô ni a. Ant es q u e
d ess em p el o q u e o corr eu, eu j á a vo ava solt o. B eso ur ava.
Man ga ngá é v oad or. Nunca me ab u sei dess e d om. Mas escol hi
o ol ho esq uer do de No ca e ar di el e até i nchar. Fiz isso p ar a
q ue s oub ess em q ue s ou o esp írit o daq uel e um q ue fer r oa o s
b eiç os d os b ez err os n ovo s q u e ai nd a nã o apr ender am a n ã o
fo ci n har o v er d e de certas mo itas na seca. Se assu nt em. Qu e m
ma ndo u p ers eg uir em um pr ot egi d o? (p. 5 3-54 ).
161
“Morcego” era o apelido dos homens que estavam sob as ordens dos coronéis, para procurar os negros tidos
pelo aparelhamento policial como “vadios” e “perigosos”.
92
Para o personagem, Besouro é “o espírito daqu ele u m que ferroa os
beiços d os bezerros novo s que ainda não ap renderam a não focinhar o verde
de certas moit as na seca ”. Seu apelido ident ific a, ass im, alguém que aprend eu
a arte da capo eira – “já avoava so lto”, “besourava” –, marcada pela agilidade,
impre visib ilidade e ma lí cia, a liadas à p ro teção do seu orixá, O gu m. No
episódio descrito, a proteção sa grada, vind a d esse deus, traduz a força do
so brenatural, q ue emerge em muitas ou tras situações. Por isso, ne ss a
narrat iva, traço s marca ntes do que se conve ncio nou chamar de lit eratura
fant ást ica,
prese ntes
naqueles
“cau sos”
e
histó ria s
sob re
Besouro,
permane cem e são mais e xp lorados: o extraordinár io, o insó lito , a magia, o
encantame nto e o sobrenatural.
Em Feijoada no para íso tem-se uma trama que conduz o leitor ao
ente ndim ento de que Besouro conta su as histó rias depo is d e morto, como
também reto rna ao mundo dos vivos, vindo a partic ipar de diferente s
situaçõ es, se m s er visto . As sim, a mo rte, ou as mortes, do capoeirista Besouro
é narrada como u m ep isód io que não só encontra várias versões, como escapa
à norma lid ade, um a vez que está envolt a em mist ér io, cercada pelo
so brenatural, sem u ma e xplic ação lógica c ausal.
A primeira his tória d a narrat iva, int itula da “Cilada”, começa p ela
morte, contraria ndo, de iní cio , o esboço de u ma b iografia convenc io nal,
marcada pela linear idade e s equ ênc ia cronológica, po dendo -se encontr ar ne ss a
narrat iva ecos do escritor Machado de Assis, em Memória s pó stumas de Brás
Cubas, que também começa pela a morte do persona gem. A ss im começa
“Cilada”: “Qua ndo mo rri pela p rimeira vez já era noite, t i nha pas sado o dia
nas folgas com a mulata Do ralice entr e as p ilhas de açúcar do coronel
Ju vencino”. (p. 13).
A referência a “pela primeira ve z” s ina liza os diferent es mo mento s
em qu e o capo eirista e nfre ntou situ açõ es de p erigo, muitas dela s, co nforme
relatos orais, provocadas pelos senhores do engenho de açúcar no Recônc avo
Baiano, qu e inst ituíram a ser vidão aos ne gros no Brasil colo nial. As sim, a
ce na amorosa protagonizada p elo personagem expõe de modo irônico a
exp loração do negro pelo sistema es cravocra ta. As “pilhas de açúcar”,
produ zidas pe los braços dos desce nde ntes de afr icanos, à custa de suor, labo r
93
e tortura, são cenário s para dias e tardes de id ílio s entre Be sou ro e Do ralice,
como uma vingança p razero sa :
Am ei muit o aq uela cab ro ch a s ob r e o s d oces em q u e
tra ns for mava m no eng enh o t oda a cana ma du ra d e
Mara ca ng al ha. Ter min áv amos s emp re mel ados ain da d e mai s
mel. [...] No t emp o em q ue va di ar era gran de, muitas veze s
a dor me ce mo s ab ra ça dos entr e fer ram entas, fa zendo sacos e
rap a duras de t ra vess ei r o, só a cor da ndo mes mo p or medo d o
p eri g o ou pa ra ap ro veit ar mais a tar d e e o t emp o p ara ama r
mais n o m ei o do mel d e eng en ho esparr a ma do no chã o ent r e o s
p ot es d e b ar r o. (p . 13 ).
“Cilada” expõe o perigo vivido pelo personagem Besouro, ao
retornar de u m desses mome ntos d e “vad iação” 162, alegorizando as te nt at iva s
de ap agame nto, real ou simbólico – engendrado pela cu ltura européia – das
cultu ras d e matriz afr icana.
Qu as e tar de, entã o estr a nhei o sil ênci o. E stanq uei. Al gu m a
cois a p iscou rápi d o e a zulad o lá p ar a os l o nges das moit as, j á
p ert o do cr uz eir o. Estra nh ei. P odi a ser v ag a-l ume. N ão, nã o
p odi a, d uvi d ei. Va ga-lu me m es mo só pis ca q ua ndo j á t e m
estrel as p en dura das fir mes no b r eu do cé u, g ostam de ri valizar.
[...] Aq u el e bril ho b em p o di a s er d o ca no de algu ma ar ma do s
h omen s d o cor on el, o u o b ril ho d os ol h os do cois a -r ui m. O u o s
d ois, qu em ha ver á d e s ab er. [...] (p. 1 4-15 ).
O personagem ident ifica s igno s qu e o colocam frent e ao risco,
leva ndo -o a prep arar-se contra um possí ve l ataq ue.
A noit e vei o sem est rel as e s em vag a-l u mes, mas co m r uí do s
estranh os, d e ho mens apr een si v os, esp an tan do muriço cas,
q uebr an do grav et os, coraçõ es b at end o. Mais e mais b ar ul ho s e
faz q u an do s e t enta fa zer silên ci o. S ei nota r. Situaçã o di fí cil
p ar a el es t a mb ém. Qu as e ti v e p ena, mas n e m nã o ti ve, q ue eu
n ão er a tamb é m p assari nh o. Es col hi um, dep ois d e muit o
esp erar, e fui chegan do com t od o o cuid ad o, pa ra n ão faze r
b ar ul ho, q ue eu não er a cob ra nem gat o naq uel a h or a. Est e u m
só me n ot o u q ua ndo já era t ar de, ne m t ev e t emp o de fa ze r
alard e, avisa r ni nguém. Tir ei el e de comb ate. Bot ei só p ar a
d or mi r, nem tir ei a a rma dele. N ão mat ei n ão , qu e nu nca fu i d e
mat ar ni nguém assi m s em ma is, s em p reci sã o. T irei foi s eu
su rrã o d e co ur o gast o e vesti n el e m eu m el ho r p al etó , q u e
162
Expressão empregada no texto com o sentido de “brincar”, “divertir-se”. In: Novo Dicionário Aurélio da
língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: editora Nova Fronteira, 1986. À época em que Besouro viveu, a
expressão também era usada numa referência ao jogo da capoeira.
94
estava um p ou co s uj o d e ba rr o. Mas eu er a, p odem a cr edit ar,
meu mel ho r paletó. V esti s eu sur rão p ar a me prot eger da n oit e
e de o utras co isas tr aiç oei ras, e sent ei q ui eto na fr ent e del e.
E sp er ar é a rt e. Silênci o de t ocaia é gr an de e p esa n o ar.
Co m astúcia e inteligê ncia, Beso u ro consegue se livr ar da “toca ia”,
vest indo a roupa do manda nte do coronel: “Enquanto corria, vi pas sar po r
mim d ois, três, d ez, sei lá, não fiqu ei pra co nt ar”. (p. 16). Tranqu ilo p or ter
escapad o da emboscad a, o p erso nagem não se se nte culpad o pelo delito :
“Che gue i em casa antes do sol, a roup a suja de barro seco, a alm a limpa como
os lençó is q ue a avó botava para quarar sobre as abobreiras” (p. 16).
Feijoada no pa raíso tradu z a visão do cando mblé sob re a mo rte, um
rito sagrado, carregad o de enca ntam ento. O p erso nagem relata o seu fu neral,
em que se fa z prese nte a O yá Ians ã, 163 em sua proteção:
O ent err o s e deu d ep ois da ch uv ar ada. Só mais q ua nd o a s
ci gar ras vi era m s e consu mi r na d oi d ei ra d e ch ama r o s ol, q u e
v ei o d ep ois tr azend o o ar co-íris, r esp lend or da n at ureza, aí é
q ue me abal ei com a serp ent e encant ada a r ast ejar no li g ei r o,
ent r e a cor e a l uz. I ansã v ei o entã o se mi rar nas p o ças q u e
r efl etia m as cor es d a cobr a. Meu ol har se es barr ou com o del a
justo no fun do da á gua mor na p ar a da da ch uva q ue ela ti n h a
cho vi do e v ent ado a nt es O q u e estav a se p assand o co mi g o?
P oder ol har, ol ho no ol ho, a d ona das nu vens es cu ras hav er á
d e t er al gu m senti d o mas d ur ou muitíssim o pa ra eu fig ura r
q ual foss e. Mes mo abr a nda do p el o r efl exo n as á gu as q ue el a
cap ri ch os amen t e emp oçou enq u ant o v ent ava a temp est a de, o
s eu ol har severo e p od er oso. A senh or a dos p anos v er m el ho s
me a cena va. Por cert o ha ver á de t er al g uma coisa a me diz er.
P or isso estav a ali. Mas o q uê? (p. 1 10).
O cortejo é acompanhad o ao so m dos berimbaus e lad ainha s
ento adas em ho menagem àquele que partira para o mundo divino .
F oi Qui ncas [ era og ã] q uem s ust en iu o b eri mba u no velóri o,
q ue duro u noit e a dentr o, a nt es, e o r est o do dia at é n o ent err o.
[...] O sino do ú ni co camp a ná rio da i gr ej a d e Noss a S enh or a d a
Oliv eira d o Campi nh o t ocou as v ésp eras. Vi n do, só ag ora s ei
d e o nde, o s om do gã v ei o ro mp en do e r omp en do, fer r o co ntr a
fer ro, um ar q u e foi s e ab ri nd o nu ma fend a p or ond e ent rara m
os grav es t oq ues dos atab aq ues. [...] Q uem e ra d e b at er cab eç a
163
Oiá: nome de Iansã menina, uma das três mulheres de Xangô. Cf. Oba.Yor. Oyá., deusa do rio Niger, na
Nigéria.Iansã (kwa) (BR) –s.f. orixá do fogo, trovão tempestade, [...] mulher corajosa e destemida, a única
aiabá a quem é permitido dançar qualquer toque consagrado às outras divindades. Cores: vermelha e rosa. Cf.
CASTRO, Yeda Pessoa. Op. cit.. p. 247-305.
95
o u t amb or b at eu e a gu ar do u o i ní ci o d a ce ri mô ni a r eser va d a
ap enas aos mais chegad os. (p. 1 11-1 12).
Alm ir de Are ias as sim descreve es se r ito:
[...] sej a q ual fo r o moti v o da mo rt e de u m cap o eirista, el a é
s emp re, t a mb ém, fest a e união e u m mot ivo p ar a q u e o s
cap oeiristas p ensem ma is d o q ue nun ca no se nti do da vi d a e n o
g ost o de vi v er, q u e, muitas vezes, mesmo dent r o d e uma r o d a
d e cap oeira, tamb é m j á senti mos. [...] A n otí ci a corr e, a d or e
a trist eza s ã o i men sas. Poré m n ess e mo m ent o o amor e a
solidari eda de fl or es cem mais do q u e n un ca no uni vers o d e
ca da cap oeirista. E m um t err ei r o de cap oeir ag em o seu corp o
s erá vel ad o. T od os, or gul hos ament e v esti dos d e br a nco e co m
s eus b eri mb aus em p un ho, en feitad os de fit as col ori das, o
esp era m. O corp o ch ega, o silê nci o e a p r eens ão for ma m o
cli ma do mom ent o, a orq uest ra de b eri mba us, ao t oq u e b el o e
mel ancóli co d a lú na o r eceb e. O corp o é col ocad o n o cent r o da
r o da, a r od a on de ele s e mp re est ev e e na qu al t ev e os s eu s
mai or es mo men t os de êxt as e e delíri o. 164
Nessa descrição, Areias traduz a carga metafórica d o fu nera l d e um
capoeirista, comparando -o, por sua belez a, à “corte de Macunaíma, o herói
sem car áter, se guida do seu séqüito de araras colorida s, em d ireção ao reino
cint ila nt e d as estre las”. 165 Quanto ao personagem Be sou ro , herói de corpo
fechado , ao d irigir - se ao mundo mítico, teve a companhia da rainha d os
egu ns, Ia nsã e o seu ve lhe m estre Alíp io:
Oiá dan ça va sua da nç a dep ois da ch uva, os b raç os est en di do s
p ar a fr ent e a esp antar os eguns. Dia de fo r ças p o derosas foi
aq u el e. Nã o s ei s e o q ue gi ro u em mim foi pri meir o a cab eç a
o u o corp o. S ei q ue r ompi o terr eir o t odo varr en do el e e m
rastei ras, em arma das e fl o rei os di v ers os . Semp r e com a
cab eç a r ent e ao chã o, semp r e r esp eit os o. A dama do al fan g e
encan tad o me ol ho u no ol ho. [...] N essa ho r a é q ue vi q ue o s
o utr os t od os er a m ta mb ém egun s dan ça ndo à r o da d el a e
estanq uei. Foi aí q ue com ec ei a ent end er. E gu m bab a mais s e
a mansa e s e cria mes mo é na b arr a das saias d e Ia ns ã. S ó
a cor dei q ue ti nha mor ri do naq uela hor a. (p. 1 12 -1 13).
A mão fi r me de tio Alíp i o pr od uzia em mim uma cons umi çã o
d anad a d e da nç ar e dançar p ela pri mei ra vez ent r e m eu s
a ncestrais p ara sa udar a esp osa de X a ngô q ue já r ei n ava n o
terr eir o. O olho d e Ia nsã, d es via do das á guas emp o ça das,
p r ocur ou em mi m o r esp eit o. E enc ontr ou mais o fil ho d e
164
AREIAS, Almir das. O que é capoeira. São Paulo: Brasiliense, [sd]. p. 109. 3 ed. (Coleção Primeiros Passos).
Id. Ibid. p 109.
165
96
Og um cu mpri do r de s eus d ev er es q u e ti o Al ípio me ensi no u a
s er. (p. 11 2).
As sim, em Feijo ada no para íso , o jogo da capoeira ganha dest aque
em d ifere ntes situ açõ es, sendo também uma p rática qu e é ob jeto de refle xão,
por p arte do personagem -narrador, vinda s como lição, um saber acumu lado
pelo tempo. Assim ent ende o personagem:
Capo eir a é cois a d e se ap rend er de cada vez um p ou co at é o
fi m de n ossos dias, é art e de bi cho de plan ta, d e p edra, si m.
[...] Capoei ra é a vadiaç ão, a r oda. É ser o b ich o, um b eso ur o,
u m ca mal eã o q ue ma mo u na mul a e t em p é p esad o, gi nga mol e,
d ol ê nci a e a p regu iça a q ue q ualq u er um t e m di r eit o, or a s e.
[...] Capo ei ra é magi a g ra nd e. [...] cap oei ra é art e. (p. 52 ).
Qu em con hece sab e q u e a cap o eir a é um ri to d e co rp o. Ma s
q ue deve s er p r ati cad a p or q uem ti v er es pírito fo rte e nã o
d ev er a os sa nt os. At enta r n o i mp r ováv el é a r oti na d o ar dil os o.
[...](p . 60).
Capo eir a é l eveza e p an deir a da. (p. 8 7).
O persona gem Besouro ressalta a força mít ica e mí st ica do
capoeirista, que exerce uma profissão d e fé, como u m malandro, aqu i de modo
posit ivad o, por su a astúcia, esperteza, em sua irreverê ncia, com um saber que
só a exper iênc ia, o vivido, pode propic iar. Para o p erso nagem, as tát ica s
criad as p elos cap oeir ist as, com a finalida de de driblar os inim igos, vêm a s e
const itu ir em saberes que devem s er preservados, de modo a fortalecê - los no s
combates. E esse ap rendizado e conhec im ento se revest em d e encantame nto e
ma gia. Ass im Besouro reflete sobre u ma d essa s tát ic as, ao se preparar p ara o
enfrentame nto com os jagunços do co ro nel:
M ei o -dia é hora q u e nã o s e t em n em vestígi o. Seja p or q u e n ã o
tem s ombr a, s eja p orq u e não s e dei xa r ast r o. D e noit e é só
b r eu o u a l u z morti ça de al gu ma l ua mist ur a ndo nossa s omb r a
com os out ros es cu ros. T udo cu mp r e. Mas a mel ho r h or a d e s e
fazer al g uma cois a s em s er vist o, s em ni ngu ém notar ou se da r
p or p er cebi d o é q ua nd o nin guém esp era. Iss o apr en di nas r oda s
d a vida. A g ent e p o de a gir no con tral uz, mas aí tem q ue s e r
rápi d o co mo q ue m r ouba. S emp r e q ue esti ver de um la do, vai
ter uma s omb ra d o out ro t e d enu nci an do. Um cap oei ra q u an d o
é bom ca mi n ha macii nh o dent r o dela, na s ua di r eção, n o s eu
s entido, s em s er n ot a do, e a ge depr essa mes mo , b e m
d ep r essin ha, s em da r ne m t e mp o d e a s ombr a a co mp a n ha r
g est o nenh u m nã o. T ud o isso fui apr en d end o assi m n o
97
r ema ns o, na vi v ên ci a, no cad a di a. Por is so esp er ei aq uel e
tant o p ela h or a certa e me es cafed i. (p. 1 03).
Para livrar- se d a emb oscada do coronel, Beso uro se esco nde nu ma
plantação d e b ana na, invocand o o “do no do ardil, o q ue mata um pássaro
ontem com a pedra que atiro u ho je. Laroiê. E ele ve ntou nas fo lhas das
banane iras a rezaç ão de fec hamento que faz sempre os meus inimigos terem
pés que não me alc ançam, mão s que não me tocam e olhos de não me ver ”. 166
(p. 105 ). Assim, metamorfoseia -se, “fen ômeno” reco rrente na textualidade
pop ular, confund indo -se com uma bana neir a: “Então fui me enc anta ndo de
ficar ali no meu q uieto, p aradinho, de pé, sem nem fa lar nem re spirar, po rq ue
planta ne nhuma não respira, dei xando até o ve nto faz er car inho no meu cabelo
como na s folhas das banane iras”. (p. 105 ).
Pro tegido por Ogum, invencí vel, portanto , aos metais, invoca u ma
força má gica, mist er iosa, que o mantém d e corpo fechado, como recit a na
oração: “E qu anta s sejam semp re facas e espad as, sou filho de Ogu m e todas
se quebram sem o meu corpo tocar, cordas e corrente s arrebenta m sem o meu
corpo amarrar, e a ss im me vest iu com as suas roupas e as suas armas po rque
so u filho do senhor da guerra”. (p. 105 ).
Besouro
evoca sua
r elação
com
o
mestre
A lípio,
fazendo
u ma
reverê ncia a e le p or ser mais ve lho, valor cultivado nas culturas africanas,
pelo s e nsinamentos da magia da capoeira, pois este lhe e ns inou que capoeira é
um rito d e corpo. Desde a infânc ia de Besouro, Tio Alípio compõ e sua
famí lia, não p ela consagu inidade, da ordem do b iológico, mas p elo sent imento
e am izad e, d a ordem do simbólico, como uma referência de va lores na sua
formação.
T io Alípi o me en si n ou de t ud o um muit o. Com a cal ma d o
p art ei r o dos a nos q u e a et er ni da de é q u e eng end r a. El e er a u m
n eg r o, daq uel es uns q ue ol ha ram b em fund o no ol ho d a
mal dad e e vir a m a ú ni ca fo r ma de sair vi v o de lá. A cap oeira é
art e d o d ono do corp o e de outr os ta nt os. (p . 24 ).
T io Alíp i o er a já vel ho q u an do conh eci el e, mas p ar ecia t e r
sid o assi m d es de semp r e. And ava l eve, p isan d o maci o no ch ã o
feit o b i ch o gat o. [...] Tio Alíp i o, meu pai e meu mestre q u e foi
e q u e era, me fez o fil ho q ueri do dos s egr ed os, me i ni ci o u na s
166
Laroiê (Kwa) (Ls). Exp. Saudação para Exu. Var. Laroi. Yor. Làároyè. Cf. CASTRO, Yeda Pessoa. op. cit. p.
263.
98
art es, na mandi ng ada, n o co ra çã o da mal dade, na p o esia d o
corp o, nas lend as dos a nti gos, e na cap o eir a. Ele s ab ia b em d e
p or d en tro o p ass ad o, e fala va do fut ur o co mo q u em co m
sa uda de. ( p. 2 5-26 ).
Com essas l emb r anças, Besouro vai comp ondo uma memória afet iva,
tec ida pelo místico e o sagrado: tio Alípio “me fez o f ilho qu erido dos
se gredo s”. Ainda, “T io Alípio era, foi e é ancestral. Egum bab a. Coisa de
preto, de b ranco, de gent e da arte da cap oeiragem. Não sei explicar não
se nho r”. (p.30). 167 O “não s ei exp licar ” traduz experiências q ue escapam a
uma racio nalidade q u e só va loriza o que pode ser e ntendido pela pa lavra, pelo
discurso. Ao contrário, a co nvivência com o seu mestre lhe ens inou que o
vivido esc apa às palavras, p odendo ser verbalizad o pela linguagem d o corpo,
como o do capoeirista. Há uma eco nomia de palavra , qu e tem seu lugar e
valo r na capoeiragem.
Para Besouro, ter e mant er a pala vra são muito mais imp ortante s do
que a posse de bens, como ocorre no episó dio da chegada de um homem
estranho à “ venda de Amaro ”, um bar, na qu al se e ncontra va Besouro. Esse
estranho veio a mando de um co ro nel, cuja filha foi “visitad a pela ousad ia de
Samuel Quero Qu ero”, um amigo de Besouro, que também se encontra va no
bar. O persona gem - narrado r d escreve o compo rtamento desse d es conhec id o no
int erior do recinto:
E nco sto u no bal cã o, fez u m sinal p ar a o Amar o como q ue m
p ed e uma dos e. [...] D eu a v olt a p el o meu lado direit o [ d e
Bes our o], cami n hou só uns mais tr ês ou q uat r o p assos j u nt o a o
b al cão on de o b o m A mar o ser vi a agu ar d en te par a os o ut r os q u e
estavam na v en da, e p erg unto u p ar a el es assi m de chap ad a
p orq u e di ab os se p recis a va de palmas, ca nt ori a, b erimb a u,
atabaq ues e p an dei ros, aq u el e t a nt o d e p r esepa da, só p ara u m
n eg r o amassa r a ca ra d o outr o e o outro amas sar a ca ra de um ?
P alh aç ada. Negr o é t ud o raça de fi ngi dos, que i n vent ara m a
cap oeir a só p ara met er med o em fr ou xo. Um ci rco [...] (p . 55).
167
Na religião do Candomblé, os Egungun concretizam um valor característico da cultura negra, que é a busca da
expansão da existência pelo homem negro através das homenagens e lembrança eterna mantida pelos seus
descendentes [...] se constituem em protetores da comunidade, guardiões da tradição e da moralidade. Seu culto
inspira adoração, respeito e temor. Os Egum Agba ou Baba-Egum são os Egun mais velhos Esses Eguns não
possuem voz. A voz de Egum é um atributo especial, pois sua palavra sagrada pronunciada tem poder de
realização, revelação e força de lei. Guardiões da tradição dos valores da comunidade, os Egun são também
realizadores dos princípios da justiça, continuidade e expansão. In: LUZ, Marco Aurélio. Agadá: dinâmica da
civilização africano-brasileira. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2000. p. 83-84.
99
Reprodu zindo
e
endossa ndo
o
p reconceito
sobre
uma
etnia
int egra nt e d a cu ltu ra brasileira – “Ne gro é tudo raça de fingidos” – , produzida
pelo imaginár io escra vocrat a, o ma nda nte do coro nel lança palavras que so am
como provocação, assim int erpretadas por Besouro:
[...] É mais n ess a h ora q u e as coisas t o ma m ti no. Pala vr as
r o uba m s en ti dos de o ut r os dizer es, de outr os lu gares. Caç a m
u m ru mo no mei o d o at or doam en t o, ap en as p or q u e o meu
estranh ar esp anto u o s enti do mor n o e p regui çoso d e o nde el a s
mo ra va m e aí elas fi cam naq uel e alv or oç o de fo r mi g as a nt e s
d a chu va, pr o cu ra nd o e p r o cura nd o um j u ízo q u e elas n ã o
tin ha m a nt es não. J á n em estr an ho mesmo m ais a h or a em q u e
mat o sem n em faca o si gni fi cad o do q ue ai nd a nã o ti nh a si d o
fi g urad o p el o ol ho de u m s en tid o. Diss e assi m ent ão p ara o
h omem, d e r ep ent e, a nt es de q u alq uer co n versa. Cap o eir a é
art e, eu fal ei. E cal ei d ep ois. N em b em s ei po r q ue fui di ze r
u ma coisa d aq uel a assi m s em mais. Um ho me m co mo eu n ã o
p r ofer e p ala vra o ci osa n ão. Um cap oeira mesmo s emp r e
cump r e o q ue a pal avr a pr o met e, de um j eit o o u de o utr o q u e
n un ca ni ng uém ti nh a p ens ad o, mas cu mp re. Tud o isso ap r endi
assi m da cadê nci a, tira nd o do juí z o. (p. 56).
O manda nte d o coronel lhe la nça um desafio, afirma Besou ro:
“Se nt i seu olho na m inha nuca ma s não me abalei”. (p. 57). O gra nd e
capoeirista de Santo Amaro ass im descre ve, reflet indo, a situação vivid a:
Nu nca li u ma letr a de li vr o ou d e ca rtaz d e r eclam e, mas d e
esp ert eza eu en t en do. L i a del e n um trisco. E a nt es q u e
p iscass e uma v ez q ue fo ss e, q ualq uer mal dad e co nt ra Sa mu el
o u co ntra mi m, in au gurei u m so rriso e erg ui u m bri n de ao s
estrang eir os de t odas as t err as. Aos gri ng os de t o das a s
eur op as e outr os confi ns. D os q ui nt os q u e vi es s em s emp r e
h av erá d e s e rec eb er b em os estra nh os na Bahi a. [...] Amar o
tro uxe a pi nga q ue o ab usa do ti nha p edi d o n os d ed os a nt es,
mas isso só fez pi ora r o ar d ent ro d a vend a. Tod os fo ra m s e
d esa fastan do co m seus cop os. Uns n a direçã o da p orta, out ro s
s em di r eção nenhu ma. Fi camos só nós três na venda. E u,
S amuel Q u er o Q uero e o nari z do caç ad or de ar reli a. [...] Aí
foi t u do muit o ráp id o. O estra nho caç ou u m fer r o dentr o d o
casa co e eu só ti ve t emp o de j ogar Sa mu el com co p o d e b eb i da
n a mão e t ud o p ara trás do b al cão, a nt es d o dedo d o estr an h o
coç ar o trab u co e man dar car o ço. Foi muit o tiro q ue pass ou n o
v azi o d as min has fir ul as at é eu acert ar uma c ab eçad a b em da da
n o m ei o do b i go de de mer ca do r de encr en ca. [...] Chut ei s ua
b un da até a r ua. Lá d e tr ás d o b al cã o, den tr o da vend a, Sa muel
s e l eva nt o u co m o cop o chei nh o na mão, e tamb é m v ei o p ar a
fo ra ca nt a nd o uma cantig a d e cap o eir a. T ive q ue b at er p al ma.
Capo eir a é art e. Nã o fal ei ? S ó n ão t e m p al ha ço. Ma s
eq uilibrista t em si m, meu camara di n ho. (p . 57 -5 8)
100
Co m esse re vide, Besouro bu sca re verter a desq ualificação ao jogo
da capoeira e a seus prat icant es. Em sua tra jetória social, movimentava -s e
entre a ordem e a deso rdem, rejeita ndo, as sim, o mundo social ta l qu al se
aprese ntava, 168 tra nsformand o seu corpo em instrum ento de lu ta e resist ência
ao co ntrole. Ao tratar da capoeira co mo uma cultura de corpo, Muniz Sodré
faz a se gu inte afirmação :
As cultu ras cost uma m defi ni r-se p ela tô ni ca do so ma ( corp o )
o u d o si gno ( es crita ). A cu ltur a o ci d ental é p r ed omi na nt emen t e
síg ni ca, p orq ue fez da es crita e do conc eit o os ei x os d a su a
u ni v ers alid ade, do s eu p od er d e ir radi aç ão pla netári o. [. ..]
Nu mer os as cult u ras tr a di cio nais, como a s asiáti cas e a s
a fri ca nas, são b asi camen t e si mb óli cas, o q ue eq ui val e a dize r
“cor p orais”, p ois p art em do co rp o pa ra se r elaci ona r com o
mu ndo . O sí mb ol o, di fer en t em en t e do sig no, n ão s e
u ni v ers aliza nem s e redu z ao con ceit o. Pr ecis a-s e do aq ui- ea gor a de uma sit ua çã o da co ncr et ud e co rp or al para i nt erp r etá lo e vi vê -l o. Po de até mes mo utili zar al g uma let ra, mas vi ve d a
o rali dade, nã o como m er o r ecur so técni co, e si m co mo o
ar cab o uç o d e um relaci on amen t o com o mu ndo, q ue i ncl ui a
r espir aç ão, a vitali dad e físi ca, a força de r ealizaçã o, a
mo vi ment açã o n o esp aç o, o cult o à tra ns cen d ên cia. 169
As sim é o corpo do capoeirista Besou ro qu e, em cad ênc ia com a
me nte, marca um único co mpasso e transce nde a palavra. Essa u nicidade
também se apresenta em outras situações e vem traduzir a presenç a do
mara vilhoso -fant ást ico. Feijoada no paraíso traz um episódio em que o orixá
Exu ga nha corpo e e ntra em lu ta com Be so uro, no jogo d a capoeira, marcado
pela fé e e nca ntamento dos corpo s, em estado de pura estesia e intuição:
Nin gué m nã o vi v e s em u ma fé. P ode s er em um d eu s ou e m
d ez. Nã o s ei. Nu nca fiz men çã o d e cont ar não. T em q u e m
a credit e em b r ev es, fi gas, t erç os. T em os q ue s e ap ega m co m
sa nt os, r ez as, pr om essas. A man di n ga está na fala ou na s ol a
d e u m p é. O q ue se mp r e me v al eu foi a i nt uiçã o. Ma ndi nga da é
a a rt e de mant er o ti no j ust o n o i mp r ováv el. A ho r a do b eso ur o
é i ncerta e vi gor osa. E ai daq uel e q ue deix ar o ol ho n o
ca mi nh o d o p est e. B es ou r o a rd e de fi car ro xo! Cap o eir a é
ma gi a gra nd e. S emp re fui hom em cu mp rid or das min ha s
ob ri ga çõ es. A mim nin gu ém nã o at enta. Eu é qu e s ou o cap eta !
(p . 69 ).
168
Cf.DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio
de Janeiro, Rocco, 1997. p. 263.
169
SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba Corpo de mandinga. Rio de Janeiro, Manati, 2002. p. 16.
101
Nesse
cap ítu lo,
Besouro
enfr enta
E xu,
e nt idade
podero sa
do
ca ndomblé, “o senhor de todos o s caminhos, o trave st i do tempo, o enganado r.
O qu e comand a o passado com as artes que ainda va i aprontar”. (p. 72 ). Tal
confro nto ocorreu no dia d a feira, em cons eq uência d a deso bediência do
feirante Chico Feio, ex-capo eir ista e am igo de Besouro.
A feira era ar mad a t od o dia de sáb a do nu m i ntri n ca d o
cr uzamen t o de ru as on de v ez q ue o ut ra s e d ei xava m a s
o fer enda s pa ra o q ue com e p ri meir o. Não era r ar o o s
b arr aq ueir os ch eg ar em na ma dr u gad a com seus cai xot es e
b alai os de pita ng a, caj u, r ap a dur a e en co nt rar em ai nd a a rd en d o
em velas a fé d o p ovo do s ant o, d a gent e do ca ndo mb l é. Ha vi a
n ess es di as q ue se p ed ir licença em ant es de mo nta r a s
b arr a cas e exibir as mer ca dori as. Porq ue er a d a tradição, er a
d a l ei, s e t emer e r esp eitar o q u e co m s ua gran de b oca com e d e
tu do q ue há. Foi just ament e iss o q ue C hico F ei o n ão fe z
n aq uel e dia, vexa do q ue estava co m o p es o d os p ei x es em s eu
b alai o. F oi o s eu err o. (p. 6 9-70 ).
Apó s consegu ir livrar esse amigo da pu nição de Exu, Besouro, sob a
proteção de Ogu m, parte para o enfrentamento no jogo d a capo eira, com
aqu ele
orixá,
ass im
descr ito
pelo
personagem- narrad or:
“O
homem
ma gríss imo baixou já no fim da feira, co m uma argola no nariz e, na c abeça,
um gorro comprid o que só. Uns olhos vermelhos, a modo até que ele
pertencesse a um lugar o nde nem pagão não erra enquanto lhe bater um
coração no peito”. (p. 70).
A luta é descr ita pelo persona gem como de grande beleza: “Tudo
isso era a capoeira mais e nca ntante que jam ais jogue i em q ualqu er tard e na
vida”. (p. 73). Na versão de Beso uro, qu e se d istraiu com a chegada do
De legado Veloso e s eu s “ acapangad os”, nesse mo mento Exu “ ficou rindo com
seus dent es do urado s todas as maldades que poderia fa zer a nt es de term inar a
briga. Não me fez porqu e simp atizou com minha o usadia, ou reco nheceu o
Ogum q ue me protege. Quem va i saber”. (p. 74).
De acordo com M uniz Sodré, o anta gonismo se faz pres ente na
cultu ra religiosa do candomblé.
Nas r ela çõ es dos hom ens co m os ori xás, d estes ent r e si, do s
a ni mais co m os hom en s, do pri ncípi o mas cu li no co m o
fe mi ni no, há s emp r e a di m en são de l uta ( ijá em n agô ). N a
v er d ade, as cois as só exist em p or mei o da luta q ue s e p o d e
tra va r contr a elas (E x u, o ri xá r esp onsá vel p elo di na mis mo da s
102
cois as, é ta mb ém ch ama d o de Pai da L uta). Nã o é a vi olênci a
o u a fo rç a d as ar mas q u e en tram em j ogo aq ui (a gu err a é u m
asp ect o p eq u eno e episó dico da l uta ), mas as arti ma nhas, a
astú cia, a co rage m, o p oder de r ealizaçã o ( ax é) i mpli cad os. 170
A at itu de de Exu, suspendendo a lu ta, traduz-se num gesto de
cumplicid ade, quand o o Dele gad o Ve loso , rep resent ante da Lei, che ga como
um intruso , que pod eria interro mper um momento de consagração entr e o
cósmico e o terrestre, o divino e o hu mano. Para evitar que isso ocorra, o
capoeirista e E xu enfrent am o delegado: “S ó depois fo i que avo ei Besouro no
meio da cap angada”. (p. 75).
Na história int itu lada “E ncru zilhada”, Be sou ro traz uma versão para
a su a morte contesta ndo outra, a de qu e ter ia s ido as sa ss inado pela “ho nra
traída do marido de Isaura”, co m quem se envo lveu. A pala vra “e ncruz ilhad a”
designa mistér io, por tratar -se de um cruzame nto de cam inhos que dificult a o
contro le a ser disp ens ado a uma situação de perigo. Ao d escartar a versão de
que sua morte decorreu de motivos pes so ais, a vingança do marido traído, o
persona gem, coloca ndo -se como o vit im ado, qualific a o s autores do crime.
Besouro relata o aconte cimento :
A tr op a da g ua rda, t endo à frent e d e s eus b o rra b otas o cab o,
me a guar da va desd e a noite a nt eri or, u m p ou co a fastad a d a
encr uzil ha da. Mas ap en as o bast a nt e p ara p o der em ab rir sob r e
meu l omb o, ai n da de l ong e, o fogo de seus b a ca mart es. Fazi a m
isso p or faz er, mais p o r obri gaçã o. P orq u e já sabia m q ue nada,
n em ch u mb o n em b ala, haver a d e fura r o p r ot egi do dos sant o s
q ue eu er a. (p. 8 2).
Beso uro é atingido p ela fac a de tucu m, uma palmeira, “árvore que
guard a assim como só uma game leira tam bém sab e, segred os e e nca ntações. ”
(p. 83), que atrave ssou o abdômen do capo eirista, deixand o suas vís cera s
exp ostas na encruzilhada. Segundo o p erso nagem, o o corrido foi um acid ent e:
o cigano Tadeu Come Gato, “pela es trada que partia d a encruzilhada na
direção da cidade”, trazia em sua carro ça uma carga de madeira, evita ndo
transportar armas para que não ho uvess e problemas com a polícia; t inha,
170
SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. Por um conceito de cultura no Brasil. 3ª ed. Rio de janeiro, DP&A,
2005. p. 108.
103
contudo, “duas facas de tu cum espetadas em duas varas que, de comp ridas que
eram, atravessa vam os lados da carroça”. (p. 8 2).
Nesse í nter im, ap arece a “jagunçada do coronel Ve nâncio” para
atacar Besouro, quando o ciga no se aproxim a com a carroça. Segundo o
persona gem - narrado r, Tadeu Co me Gato
[...] teve ap en as o cui da do de desviar de mim com su a carr oça.
D e mo do q ue o q u e me a cer t ou mes mo for a m somen t e as fa ca s
d e t ucum q ue furav am o pan o, p el o lad o de fo ra da car r oç a.
P rimei ro u ma, d ep ois a out ra. Cort e fu nd o . F iquei caí d o n a
encr uzil ha da. A n otí cia s e espalh ou ma is d ep r essa q u e fo go e m
ca navial. (p . 84 ).
Nos
culto s
religiosos
afro -brasile iros,
uma
encruzilhada,
cruzame nto de caminho s, tem uma carga semâ nt ica muito forte: cada lugar da
natu reza, como cachoeiras, mares, rio s, monta nhas, e stradas etc, tem sua
força correspondente. A e ncruzilhad a rep resenta um sinal, a viso, e ntrada e
saída de tudo, quatro cantos, um apontando para cada ponto cardeal. O centro
é a conver gê ncia, o núcleo d e ener gia acu mulada naquele local. Na religião do
ca ndomblé, os “traba lhos” e oferendas e ntregu es em encruzilhadas visam ao
encantame nto para ab ertura de caminhos e têm sempre muita força. 171
Em seu estudo sobre os orixás, Marco s A urélio Luz afirma qu e Exu,
irmão de Ogu m e Oxo ss i, é o responsá vel pelas e ncruzilhadas. 172 Exu
transporta as ofere ndas r ituais, faz circu lar o axé, que dinam iza o c iclo vital,
ao recebê-lo d as mãos da hu manidad e, e rest itu í -lo a Olorum 173 e aos orixás,
que, de novo forta lec idos, poderão, p or su a vez, e xpa ndir a humanidade.
Besouro, ao ser ferid o numa encru zilhada, é rec ebid o por Exu, que o
trans forma nu ma ofere nda aos o rixás e, a o mesmo tempo, o fo rtalece com a s
ener gias do orum, 174 fazendo com que ele co nduza seu so fr ime nto e o
ressignifiqu e:
171
Disponível
em
http://cade.search.yahoo.com/search?p=significado+de+encruzilhada+no+Candombl%C3%A9+e+umbanda&fr=
ush-news&xargs=0&pstart=1&b=131. Acesso em 17/01/2010.
172
LUZ, Marco Aurélio. Agadá.: dinâmica da civilização africana-brasileira. Salvador: EDUFBA, 2000. p. 50-51
173
Termo (kwa) (LS). Deus Supremo. Nomes: Alaiê, Eledá,, Oba-Orum, Olodumarê,, Olofim, Olua. Cf.
CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia. Um vocabulário afro-brasileiro. 2ª ed. Academia
Brasileira de Letras. Topbooks. p. 306.
174
O mesmo que céu, o sol (kwa). Cf. CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia. Um
vocabulário afro-brasileiro. 2 ed. Academia Brasileira de Letras. Topbooks. p. 310.
104
F iquei ali naq uela en cr uzil ha da entre a vi da e a mort e d ura nt e
u m t emp o s em p er der a co nt a. Mais dep ois eu mes mo col oq uei
mi nhas t rip as p ar a d en tr o, r ej unt ei o t al h o co m as mã os e
fiq uei lá a guar da ndo o socor r o até a noit e desaba r sob r e as
n oss as cab eças. (p. 85 -86).
Segu ndo Antônio Liberac P ires, “Be souro era p ossuidor de u ma
ma ndinga ant i-mo rte, seu corpo teria s id o fechado po r milhar es de babalaôs,
enfim, um homem p ro tegid o por todos os santos.” 175 Feijo ada no pa ra íso
reforça uma vis ão mítica sobre o capoeirista de Sa nto Amaro , homem de
corpo fec hado que, na e ncru zilhada – lugar de liberação d e fo rça ou de sua
perda –, to rnou-se vu lnerável, de fro ntando -se com os limit es d a condição
humana.
O personagem expres sa u m desejo a ser r ea lizad o com a su a morte:
que se ja reconhecido o legado das culturas afr ica nas, como o jogo da cap oeira
e o samba, práticas ind issociá veis à sua época.
A cap o ei ra é l evez a e pa ndeir ada. S o u criat ura q ue i nsisti p o r
vi ver o di v ers o o envi esad o. S o u ho mem e s ou B eso ur o.
Man ga ngá é vo ad or e p ara mim a vo ar não é fals ear com o
s egur o. È coisa das art es da cap oeira gem, e ni ngu ém d uvi d e
q ue é m el ho r q u e cap engar no i ncert o, q u alq uer pass ari n h o
sab e diss o. M as q ue m s amba t ambé m a voa, só q uem é mesm o
d o b at uq ue é q u e s ab e. S ei ri ma e s ei man di ng a p orq ue sa mb a
ta mb ém p od e s er dema nd a, me u camara do. Ap r en di iss o na
vi da. Qu an do eu morrer m e ent errem nu m te rreiro . / E deixe m
meu bra ço d e fo ra pa ra eu b ater no seu pan deiro . (p. 87 .
Gri fos do aut or ).
No iníc io do século XX, era muito forte a aliança entre o sa mba e a
capoeira, pois “ samba também avoa”, é “demanda”. Em entr e vist a fe ita a um
velho capoeirista de Santo Amaro da Pu rificação, No ca d e J acó , Liberac Pire s
informa o seguinte :
No ca de Jacó a cab o u d es corti na ndo o mei o d a cap oei ra n a
ép o ca e men ci o nou q u e el es faziam r euniõ es, mata va m um a
g alin ha p ara co mer e conv i da vam os cap o ei r as. S egu nd o el e, a
p art e lú di ca da cap oei ra est ava p r esent e, pois tin ha festa. 176
175
Cf. PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. Movimentos da cultura afro-brasileira. A formação histórica da
capoeira contemporânea. 1890-1950. 2001. 453f Tese (Doutorado em História). Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. 2001.p. 220.
176
PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. op. cit.; p. 223. Cf. entrevista de Liberac a Ernesto Ferreira da
Silva, conhecido por “Noca de Jacó”, morador de Santo Amaro da Purificação, nas mesmas imediações de
Besouro, no bairro do Trapiche de Baixo. Foi seu aprendiz. À época da entrevista, era o maior informante sobre
a vida desse capoeira, pois, como afirma Liberac Pires, “guardou contos e casos na memória, acompanhou de
105
Co nt inua Liberac P ires, transcreve ndo a fala d e Noca de J acó:
T inha demo nstraç ão, não us ava golp e p ar a acert ar, faz bri n ca r
e não b ri gar. Recebi a con vit e, matav a galinha, fa zia aq uel a
g alin ha da, ia b ri n car. O mest r e ia a dmi nistrand o a alt eração. O
mesmo q u e o Bat uq ue. Bat uq ue era o sa mb a de for m a
g r osseir a, p an deiro, vi ola ou ca vaq ui n ho, dav a aq uel a
sapatiada, d ava um rab o d e ar rai a. 177
Numa louvação ao samba, o personagem -narrador evoca, de forma
nostálgica e prazerosa, os mome ntos e lu gares em qu e a capoeira e o samba
estavam irma nado s: “De noit e, roda para ser boa tem qu e ter samb a. É de lei.
Debaixo de berimb au e atab aqu e, pob res, pretos e mulatos também vazam seus
versos. Pisam o chão com outra manha, sem desfe it ear nem ‘firu la’, nem
mulher de ninguém não”. (p. 87 ). É um apelo para que se reconheç a s e ve nere
o samb a, adornado de enca ntos, “o dono do corpo”. Ass im, Besouro aprend eu
com Tio Alípio “a pisar mundo na c adência rema nhosa de le co m o mesmo pé
que andou na cap oeira” e p as sara a s lições para o seu afilhado Serafim, do
qual se tornou tutor após a morte de seus compad res Chico Feio e Florinda.
Um a das histórias de Feijoada no paraíso , intitulada “Qua ndo eu
morrer...”, é entremeado de versos de letra s de samba, que teriam s ido
compostas por Besou ro . O d estaque ao ap rendizado desse r itmo, transmit ido
de pai p ara filho, também é co nstant e. Besouro ap rende a cad ênc ia com Tio
Alíp io e propaga a outros “filhos” que a vida lhe der, como Serafim, que
propaga o ritmo por o utros cantos do país, e o “espírito ” de Besouro o
acompanha, repenteando o samba que la nçara no mundo, para que semp re se
lembrem dele : “ Quando eu morrer/ Não qu ero guru fim/ quero berimbau de
ouro, ca vaquinho e ta mbo rim. /Quando eu morrer m e enter rem na L apinha. /
Calça, culote, paletó e almofadinha ”. (p. 93).
Para os negros ou afrod escende nt es, o samb a, assim como a
capoeira, e xtrapola a função d e entrete ni me nto, como visto pela cu ltu ra d os
brancos. O seu rit mo é uma forma de libertação d o corpo, resistênc ia contr a a
opressão e o preconceito, vindo, desse modo, a const itu ir um co njunto de
perto a vida do mestre, nos momentos mais calmos, mais íntimos, quando estava a trabalho, na lancha “Deus me
Guie”, nas “galinhadas” e nas rodas da capoeira”. [...] p. 225.
177
Id. Ibid. p. 223.
106
práticas e va lores da cultura ne gra. Ao co nceber o samba como o “dono do
corpo ”, ass im Sod ré o interp reta:
O “encontr ã o”, da do ger al men t e com o u mbi g o ( semb a, e m
dial et o a ng ol an o) mas també m co m a p ern a, s erviri a p ar a
cara cteri za r esse rito de da nça e b at uq ue, e mais tar d e dar -l h e
u m n om e gené ri co: sa mba . Nos q uil omb os, n os eng en hos, na s
p lantaç õ es, nas ci da des, ha via sa mba ond e est ava o negr o,
como u ma in eq uí v oca de mo nstr aç ão d e r esistên cia a o
i mp erati v o so cial (es cr avagist a) d e r ed ução d o co rp o negr o a
u ma máq ui na pr od uti va e como u ma afir maç ão de co nti n ui da d e
d o u ni verso cult ural a fri ca no [...] Os b at uq ues mo di fi ca va m- s e
o ra p ar a se i ncorp orar em às festas p op ular es de ori ge m b ra nca,
o ra p ar a s e adap tar em à vida urb a na. As músi cas e d ança s
a fri ca nas tr ansfor mav am-se, p erd en do alg uns el ement os e
a dq uiri nd o o utr os, em fun çã o d o a mb ient e s oci al. 178
Os versos “Quando eu morrer / Não quero gurufim/ q uero berimbau
de ou ro, ca vaquinho e tamborim” evocam batuqu es no adeu s ao capoeirista,
marcando a passagem de Besouro para outro mundo, carregado de mistér ios.
Marcam a sua trans ição p ara um reino em que o herói destem ido fará sua
história, dessa vez, não só como o capo eira va lente, m as um rep rese ntante da
cultu ra negra, com direito a se fixar no panteão dos d euses afr icanos,
cultu ados por seus ancestra is desce nde nt es. A narrat iva de Marco Carvalho
ce lebra essa p assa gem :
T udo co rr eu b o nit o e de co nf or me d ur an te t od o o t emp o
p r eciso. E mes mo os cap oeir as q ue vi er am de l o ng e atend en d o
a os cha ma dos d a fé o u d a tra di ção j o ga ram e cel eb ra ra m mi n h a
me mó ria n a raça e no r esp ei t o. P or iss o é q u e ni ng ué m vi u
q ua ndo um b es ouro fu r ou de atr evi do a t err a fr es ca d o
ce mité rio ant es da vig ési ma p rim ei ra noit e d esp encar s eu s
n eg r umes p or sobr e o R ecô nca vo e ai nd a dar b em umas d ua s
p iruetas ant es de va za r o ar es cu ro e p ou sa r su ave no b e ri mb a u
d e Q ui ncas entr e as fitas q ue el e ti nh a amarra do no mei o d a
v er g a, e fi car lá at é o a ma nh ec er lav ar o céu, os cor açõ es e a
me mó ria de t od os em S a nt o Amar o d e Noss a S enh or a da
P uri fi ca çã o. (p . 114 ).
O babalo rixá Pai Raimundo , do Centro do Caboclo Est rela Gu ia, em
Santo Amaro, tem su a interp retação para o tempo na religião do candomblé:
A cont ag em d o t emp o no Cand omblé diz r esp eit o ao s
mo ment os de pr epa ro de um ya ô p ara yalo ri xá ou b ab al ori x á. É
178
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2 ed. Rio de Janeiro, Mauad, 2007. p. 12-13.
107
o p erí odo q u e s e fi ca e m reti r o no roncó r ece b endo o sacri fí ci o
até q ue o Ori xá se ma ni fest e e di g a o s eu n ome na ceri mô ni a
d o Abaçá. Esse t e mp o p ode s er set e, q u at o rz e ou vi nt e u m
dias. C om vi nt e e u m di as acon t ece a ceri mô nia d o Ax ex ê, q u e
é a r etira da do egum da casa e t ambé m a de sig naçã o de q ue m
fi cará co m o sant o ou Ori x á. 179
O capítulo sub linha a força míst ica d e Besouro, que se transporta
para um temp o mítico, eternizando -se. O jo vem mestre res surge a ntes da
cerimônia final d e e nvio da sua alma para o Oru m, como um anima l, um
besou ro , a voar pelo mu ndo defende ndo os ho mens e o s valores nos qu ais
acredit a. Desse mod o, sacraliza -s e esse herói, qu e, não send o ve ncid o p ela
morte, ao contrário, torna -se imortal, vivo na memó ria do povo de santo e dos
ant igos morado res do Recônca vo Baia no, como tamb ém nas ro das d e capoeira,
que sempre invocam o seu nome.
A narrat iva de M arco Carva lho co ntribui para se ent ender o sent ido
da morte entre os povo s africa nos, c eleb rada como uma fest a. Para o
historiador b aiano J oão J osé Reis, em seu estudo sobre a morte no sécu lo
XIX, “os temas fúnebres ocu pavam lugar de destaque no ima ginário da Ba hia
de o utrora”.
Co mo er a comu m n as so ci edad es tr adici on ais, nã o ha vi a
s epa ra ção r adi cal, como hoj e t emos, ent r e a vid a e a mort e,
ent r e o s agr ado e o p r ofa no, ent r e as ci dad es dos vi vos e a do s
mo rt os. Nã o é q ue a mo rt e e os mo rt os nun ca i nsp irasse m
temor. T emia-s e, e muit o, a mo rt e se m a vis o, sem pr epa ra ção,
r ep enti na, trá gi ca e s ob ret ud o s em fu n eral e sep ult ur a
a deq u ad os. 180
179
Antônio Raimundo da Silva, o Pai Raimundo cultua o candomblé da nação Angola Tumpajussara.
Atualmente com 54 anos. Desde os 9 “é feito no santo.” Em entrevista a esta pesquisadora, em 03/02/2010, esse
babalorixá explicou o significado de alguns vocábulos da religião do candomblé.: Roncó: Local no terreiro onde
os (as) yaôs ficam em retiro para fazerem o santo. Abaçá: Kwa) (PS) - s.m. sala de entrada, geralmente o maior
cômodo da casa onde se realizam as cerimônias públicas festivas; varanda, espaço aberto de chão batido ou
acimentado, reservado para determinadas cerimônias. Cf. CASTRO, Yeda Pessoa de. Op. cit.; p. 1 35. Segundo
Pai Raimundo, em seu terreiro, Abaçá é a cerimônia de revelação do nome do santo após a yaô sair do retiro no
roncó.Axexe: ( Kwa) (PS) Candomblé funerário, preliminar à missa de sétimo dia. Ver. Sirrum, zarrim.
Cf.intambe, xorrum. Yor. Ìjeje, cerimônia fúnebre do sexto dia. Cf. CASTRO Yeda Pessoa de. p. 16.
180
Cf. REIS, p. 74. O historiador confirma suas conclusões apoiado em Thomas Lindley, que afirmara: “Dentre
os principais ‘divertimentos dos cidadãos’ se contavam os ‘suntuosos funerais’ e as festas da Semana Santa,
celebrados ‘com grandes cerimônias, concerto completo e frequentes procissões’”passim; Lindley, Narrative, p.
275, In. REIS, João José. A morte é uma festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. 5 ed.
São Paulo, Companhia das Letras, 2009. p. 137.Reis também destaca o texto de Juana E. Dos Santos &
Deoscoredes M Santos. “O culto dos ancestrais na Bahia”, in C. Moura, org., Oloorisa (São Paulo, 1981), p. 15862, 170. Segundo Santos & Deoscoredes, “Na ilha de Itaparica existe uma sociedade egungun de culto dos
ancestrais, cuja origem pode remontar à primeira metade do século XIX, quando grande número de iorubás aqui
aportaram como escravos nagôs. Baseados na tradição oral dos candomblés da Bahia,esses autores citados por
Reis, afirmam ainda ter identificado cinco terreiros dedicados a esse culto, todos fundados naquelas décadas.
108
Outros aspectos d a ce lebraç ão da morte naquele perío do também se
fazem importantes. Jo ão Reis descreve o ritu al dos “e nterros afr icanos de
afr icanos”, não sendo “concebível aos ca ndomblés que se formaram na Ba hia
escravocrata [qu e] falta ssem ritos e m ito s fúnebres especí ficos”. Segu ndo o
pesqu isador, muitos costu mes mo rtu ários da Á frica foram ma nt idos pelos
escravos no Brasil,
[...] ap es ar d as muda nç as q ue neles s e fora m op er an do a o
lo ng o da escravi dão, in cl usi v e os empr ésti mos d o ceri mo nial
católi co. [.. .] H oj e em di a – e esta tr adiç ão está b em fi nca da
n o p assado –, as p ess oas de cand omblé sã o e nt err a das s egun d o
n or mas católi cas e norma s a fri ca nas, com o sa cri fí ci o da s
missas e d os ani mais. 181
Feijoada no pa raíso alegoriza permanê ncia da cu ltura negr a,
relata ndo um ep isód io em que Besouro reto rna, depo is de morto, ao
Recô nca vo Baiano e acompanha, d e lo nge, do telhado de uma casa, u m jogo
de capoeira, inter ferindo no momento em que o mendigo entra na ro da do jogo
e é molest ado.
E ra fi nzi nho da ta r de. Na b eira da r ua, b eri mba u t ocou. O q u e
p ar ecia o mais vel ho s e b en zeu, s au dou o b e rimb au e t ambé m,
p orq u e era da fé, o atab aq ue e, agacha do j unt o ao s
instru ment os, la nç ou um ol har p ara o alt o e outro at ent o a t o da
v olta, d ep ois abri u a r oda. – I êêêê!... – e co meço u a ca nta r
u ma la dain ha senti da. (p . 115 )
No relato des se episó dio, ganha imp ortânc ia o ritu al do jogo da
capoeira, com a rod a, as ladainha s, o berimbau e o s corpos mand ingu eiros
alt ernando -se na cadência do s toqu es. Let ícia Reis comenta o se nt ido da roda
de capoeira:
Esses templos, em sua maioria, se localizavam em Itaparica. Assim, em 1836 a Bahia teria vários centros
especializados no culto dos mortos e de ancestrais africanos, ou já baianos. p. 160.
181
Id. Ibid. p. 160. Reis chama atenção para a ausência de registros de funerais africanos na Bahia, excetuandose as anotações do formado em Medicina, Antônio José Alves (pai do poeta Castro Alves), em 1841, o qual
afirma que “os funerais africanos em Salvador eram freqüentes, muitos participantes e grande a ‘algazarra’ que
faziam. Os numerosos archotes que iluminavam esses cortejos, uma vez enterrado o morto, eram queimados na
rua em grandes fogueiras” ao contrário dos funerais cariocas de negros e escravos libertos, e afirma que neles, no
velório à porta da igreja, predominavam os elementos africanos. Reis destaca um estudo sobre funerais de negros
libertos, o de Oliveira, que considera tais funerais representações de um “ritual de nivelamento social”. A morte
era uma das poucas chances, e a última, de estabelecer simbolicamente a igualdade entre brancos e negros,
escravos e senhores, ricos e pobres. Viver mal, mas morrer bem seria o lema. O pobre que consumia economias
ou entrava numa irmandade para ser enterrado com dignidade talvez desejasse se igualar aos poderosos, pelo
menos uma vez na vida.
109
O jog o de cap oei ra acon t ece no i nt eri o r d e um cí r cul o de 2,5
met ros de rai o, circun da do p or out r o. Ent r e amb os há um a
distância de 0,10 centí metr os d e lar gu ra. Os dois cír cul o s
con cê ntri cos sã o con h eci dos p el os cap oeir istas co mo ro da .
E ss e é o p al co pri vil egia do d e exp ressã o d os jo ga do res, pois é
o lug ar on de el es p odem mo st ra r t u do o q u e sab em: su a
d estr eza co rp oral e pri ncipalment e su a ma ndin ga , isto é, a
cap aci da de q u e tê m de s ed uzi r o a dversár io, ilu di -l o e, s e
q uis er ( o u p u der), d err ot á -l o. 182
Aind a nesse episódio , Beso uro retorna para o mund o dos vivos,
seduzido pela lad ainha e pe lo jogo qu e c hamam po r seu nome. Mant ém -s e
exta siado pelos movimentos, chega ndo a int er vir frente a u ma situ ação que
considera abusiva, dese ncadeada por um dos integra ntes da rod a:
[...] os alu no s s e s uced i am u ns ao s out ros em a r ma das,
ma rt el os, mei as -l uas, e er a q uei xa da, p ont ei ra, b enção, pisã o
d e fr ente, t udo assi m n um fl or ei o de confo rme e b o nit o. D e
r ep ent e u m mendi g o co mp r ou j og o e aí q u em j oga va amar ra v a
a cara e fez p ou co . Nã o s ei s e er a al uno. R oda de r ua é assi m,
tem de tu do. S ei q ue o t al emp urr ou, b ot ou p ara fo ra o
mendi g o. N essa hora é q ue me o f en di. O m estr e també m n ã o
g ost ou mas ne m pis co u o l an ce, p u xa va a ca nti ga. O cor o
r ep eti a é Man ga ng á, é Man ga ngá. R es ol vi dar uma li çã o n o
ab usa do. (p.1 17-1 1 8). 183
O capoeirist a Besouro, que já se encontra va próximo à roda,
envolvido em sua m agia, sem s er visto , e ntra no jo go no momento em que um
me ndigo está prestes a ser agredido. Besouro resolve faz er just iç a, dando u ma
lição no agres sor, em mo vime ntos que acompanham a cad ênc ia do jo go:
182
REIS, Letícia Vidor de Souza. O mundo de pernas para o ar. A capoeira no Brasil. São Paulo. Publisher,
Brasil, 1997. p. 200-201.
183
Armada: Golpe giratório e traumatizante em que o capoeirista, partindo da ginga, gira em torno do seu
próprio eixo, sem tirar os pés do chão, ficando de costas para o companheiro. A perna que, com o giro ficou em
posição anterior, é lançada em direção ao companheiro, de modo a descrever um círculo, atingindo-a com a
lateral externa do pé e retornando à posição de partida; Martelo: Golpe traumatizante em que o capoeirista,
partindo da ginga, gira os quadris para o lado interno do corpo, ao mesmo tempo que o pé de base realiza uma
rotação externa e eleva uma das coxas com a perna flexionada, estendendo-a em direção ao companheiro, de
modo a atingi-lo com o peito do pé. Meia-lua: Golpe giratório e traumatizante em que o capoeirista, partindo da
ginga, inclina o tronco para o lado da perna em posição posterior e, encaixando as mãos entre as pernas, lança a
perna posterior em direção ao oponente, de modo a descrever um círculo, retornando à posição de partida.
Queixada: o capoeirista fica de lado para o oponente e gira a perna em sua direção para atingi-lo na cabeça com
a face lateral externa do pé; Ponteira: Golpe linear e traumatizante em que o capoeirista, partindo da ginga,
eleva a perna flexionada, impulsionando-a em direção ao companheiro, de modo a atingi-lo com a parte superior
da planta do pé; Benção: Golpe linear e traumatizante em que o capoeirista, partindo da ginga, eleva a perna
flexionada, impulsionando-a em direção ao companheiro, de modo a atingi-lo com a planta do pé. Cf. ANJOS,
Eliane Dantas dos. Glossário terminológico ilustrado de movimentos e golpes da capoeira: um estudo términolinguístico. Dissertação de mestrado. São Paulo, USP. 2003.
110
Beri mb au é i nstr um en to p od er oso, a cr edit em v ocês, e naq uel e
dia acab ei d e cr er que o cor o, as pal mas, tud o e pa nd eir o
ta mb ém é. R ecebi n o p eit o a vib ra ção. Aq u ilo t udo e mais a
cab eç a d o mend i go q u e me ch up o u par a den tro da r oda co m o
s e eu foss e u m mi ol o d e jab uti cab a. O co rp o do mend i go d eu ,
só ness a h or a, uma estr eme cida li g eir a mas el e co nti nu o u
gi ng and o em falso e err an do às vezes o p é, co mo se estiv esse o
tant o de bêb a do q ue est ava mesmo. Mas nã o, já er a eu fi ngi n d o
n a car a do ab usa do. D ei x ei el e cr es cer, jo guei p eq ueno e, o
q ue foi mais di fí cil, tort o p or u ns ci nco mi nutos mas n e m
assi m nã o dei xei el e en co st ar não. Quan do deu p or si é q ue eu
já tinha p ux ado a p er na d el e na rast eir a. (p . 11 8).
Co m manha, ginga e malí cia, Besou ro literalment e toma corpo no
jogo, com a vibração dos atab aques, b erimbau e “a cabeça do mendigo que me
chu pou p ara d entro da roda como se eu foss e um miolo de jabuticaba”.
Segu ndo Ed il Costa, “ma s do que fo rça fí s ica, o que conta na
capoeira é a agilida de a ssoc iada à rapid ez, ou seja, a ginga, o jogo de
corpo ”. 184 Agilidad e e destreza são meio s mais do que suficie ntes para o
capoeirista tornar -se um líder na rod a. Ass im, ocorre no episódio da rod a de
rua a descr ição d a união perfeita e ntre “a lma” e co rpo. A “a lma ” de Besouro
adentra o corpo do mendigo e o transforma em exím io jo gador, com agilidade
e manha,
vencendo, assim, a contenda, mesmo com a resistê ncia do
adversár io.
Mas ar r ogâ ncia nã o q uis p ar ar aí nã o. V ei o de no vo,
d esab us a do e se m r esp eit o. C orri u ma volta int ei ri n ha na r o d a
tro ca nd o as p er nas, p isa ndo e m fals o só e pirraça. O m estr e
ma ndo u r ei ni ci ar o j ogo, e o p é daq uele cois a, rui m ma l edu ca do est ev e a dois dedo s d o meu n ari z p or du as vezes, ma s
p orq u e fui eu q ue m b ot ou o nariz lá só pa ra ab usa r el e. Dep oi s
a cert ei foi u ma p ont eir a nas cost elas e d ei uma cal can har za d a
n a cab eça só par a t er cert ez a q ue el e i a nã o ia l evant ar tã o
cedo. C ob ra r ui m a gent e t em q ue a cert ar log o a cab eça, m eu
mest r e me ensin ou assi m. (p . 118 -119 ).
Mais u ma vez a ginga, aliada ao encanto do jogo, é o combustíve l
para a liment ar uma rod a de capo eira, um ato performático, que ganha espaço
maior na narrat iva de Marco Carvalho, até por su a ext ensão, se co mparado
com as narrat ivas d e cordel de A ntônio Vieira e Victor Garcia . Ass im, o
184
COSTA, Edil Silva. Comunicação sem reservas. Ensaios de malandragem e preguiça. Pontifícia
Universidade Católica. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Programa de Estudos
Pós-graduados em Comunicação e Semiótica. São Paulo, 2005. p. 86.
111
corpo no jo go da capoeira, a ginga d o corpo, pode ser entend ida a partir da
noção de performan ce elabo rada po r Paul Zumtho r. Em sua aná lise acerca da
leitura como ato performático, p ara a qual lhe importa mais o leitor, Zumtho r
destaca a importânc ia da voz, dos ge stos, do mo vime nto do corpo, elementos
não textuais, const itu int es do s atos perfo rmáticos, e ente nde o conceito de
performa nce
a
partir
do s
p ro ced imentos
de
voca liz aç ão,
p róprio s
às
representaçõ es das cu ltu ras o rais.
A
“performa nce
rea liza,
concret iza,
faz
pas sar
algo
que
eu
reco nhe ço, da virtualidade à atualid ade”; situ a-se em u m “conte xto ao mesmo
tempo
cultural
e
situacional:
nesse
contexto
ela
aparece
co mo
u ma
‘emer gência’, um fe nômeno que sai do cont e xto ao mesmo temp o em que nele
encontra
lugar”, 185
comunic and o
ela
“não
o
é
marca”.
s imple smente
Ainda,
é
um
um
meio
de
co municaç ão:
comportamento
re iterat ivo,
inde finidamente, sem ser redundante. 186
A performa nce é um comportamento que reitera um mater ia l
tradicio nal, atu aliza ndo -o na cu ltu ra, uma forma dinâmica da qual o conteúdo
não se abstrai, m as, ao contrár io, compõe com ela um todo indivisível. N a
performa nce, há uma forma, “nem fixa nem est ável, uma forma-força, um
dinamis mo formalizado” 187, que produz energia e é sempre recr iada.
Zumtho r ident ifica d ois traços fundament ais aos atos p erformáticos,
a corporeidade e a teatralidade.
M eu co rp o é a mat eri aliz aç ão daq uil o q ue me é p ró p ri o,
r eali d ad e vi vi da e q u e det ermi na mi n ha relação co m o mun do .
Dot ado de uma si gni fi ca çã o i ncomp ar áv el, el e exist e à i ma ge m
d e meu s er: é el e q ue eu viv o, p ossu o e s ou, p ar a o mel hor e
p ar a o pi or. Conju nt o de t eci d os e ór gã os, sup ort e da vi d a
p síqui ca, s ofr endo també m as p r essõ es do so cial, d o
institu ci o nal, do j urí di co, os q uais, sem dú vi da, p er vert e m
n el e seu i mp uls o pri mei r o... Eu m e es f orço, menos pa r
apr een dê -l o do q ue para es cut á -l o, no ní vel do t ext o, d a
p er cep çã o coti di a na, ao so m d os seus ap etit e s, d e s uas p en as e
al egri as: contr açã o e d es co ntr aç ão dos mú scul os; tensõ es e
r elax amen t os i nt er nos, s ensa çã o de va zi o, de p l en o, d e
tur gescên ci a, mas també m um ar d or o u s ua q ueda, o
s enti men t o de uma amea ça ou, ao co ntr ár io, de segu r anç a
185
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. [Tradução: Jerusa Pires Ferreira; Suely Fenerich]. São
Paulo: EDUC, 2000. P. 33.
186
Id., p. 37.
187
Id., p. 33.
112
ínti ma, ab ert ura ou d obr a afetiv a, op a ci da de ou tr a nspa rê ncia,
al egri a ou p ena pr ovi ndas de uma di fusa r ep r es ent ação d e si
p rópri o. 188
A teatralidade gara nt e q ue, no momento performático, o co rp o e
su as ema nações susp endam a vida ordinária. Ass im, “a performa nce não
apena s se liga ao corpo mas, p or ele, ao espaço. Esse laço se valo riza po r u ma
noção, a d e teatralidade [...]”, que rompe com o “real”. 189 A p erformance
implica competência e est a é ent e ndida do seguint e mod o: “saber -ser”, que
“imp lica e comanda uma presença e uma cond uta, um Dasein co mportando
coord enadas espaço -temporais e fis iopsíquicas concretas, uma ordem de
valo res e ncar nad a em um corpo vivo”. 190
As sim, o corpo do capo erista Besouro, com seu saber -ser, é um
corpo qu e dança, se co ntorce, vibra, em co mpasso e em movimento s
repetitivos, luta, ritmado ao so m de instru mentos, como o berimbau , ou d os
acordes do samba. É o corpo ne gro p erformatizado , histórico, marcad o p ela
ginga, carregado de lingu agem, que significa, enquanto estét ica, memória e
tradição, liberad o d a opressão a que est ivesse sub metid o, como máqu ina de
produ ção do regime o pressor.
Na capoeira, a ginga gara nt e o jogo de corpo, a destreza, com
cadência, o que fic a além da va lent ia dos conte ndores. Letícia Re is afirma o
se guinte :
A gi nga é rit mad a p el o so m d o b eri mbau, s end o p or s eu
int er médi o q u e o co rp o dos cap o eiristas descr ev e cír cul os n o
espa ço ci r cul ar da r oda. S eu co r p o dança, a co mp an han do a
cap oeir a do lú di co. P or p er mitir a u m só t emp o q u e o corp o
lut e da nçan do e da nce l utan do, a gin ga r e met e a cap o eir a a
u ma zo na i nter medi ári a e a mb í gua sit uada entre o lú di co e o
comb ati vo. 191
Beso uro consegue aliar esses compone ntes e, “encar nado” no
me ndigo , ve ncer o outro jogador, para fazer justiç a, demonstrand o qu e, em
roda d e capoeira, a força fí s ica não é importante. Ao contrário, o que
determina o sucesso do vencedor é sua astú cia e sua ginga, seu movimento,
também na d efes a do s inju st içados.
188
Idem, p. 28-29.
Idem, p. 47.
190
Id., p. 35-36.
191
REIS, Letícia Vidor de Souza. op. cit.; p. 215.
189
113
Co mo nos te xtos de A ntônio Vie ira e Victor Garc ia, Feijoada no
paraíso apresent a uma imagem de Bes ouro co mprometido com a justiça,
defe nsor de suas crenças, idéias e valores. Mesmo não pertence ndo mais ao
mundo terrestre, o capoeirista cont inua a combater a op ressão e a defend er o s
indivíd uos
desqu alificad os
trabalhado res de
so cialmente:
os
mendigos,
prostitu tas,
ganho, e nfim, u ma grande p arce la d a população
do
Recô nca vo rep ublica no.
Car valho trança e ss es re latos d and o d estaque à bravu ra e heroísmo
de Besouro, aco mpanhados de senso de just iça, ensiname nto da religião do
ca ndomblé:
“Sou
vers ad o
tamb ém
nessa
arte.
Co nfusão,
pancadar ia,
exemp lação. Tudo isso é o terr itório por onde o meu Ogum vaga cert e iro e
ate nto” (p. 127) – afirma o personagem, herói da cultu ra ne gra. Ess e heró i
construiu seu código de ética, que orient a as suas p rát ica s e re lações so ciais.
Por terem construído seus próprios códigos, que transgrid em as
normas criadas pelas e lit es do país, esses heróis foram d esqu alificad os,
denominados
de
ma la ndros.
O
estu do
de
Edil
Costa
contribu i
para
ressignificar positivame nte essa adjet ivação. A pesqu isadora cons idera o
se guinte :
Os h eró is malan dr os sã o ca ract erizad os p el a mal eab ili da de e
fa cili d ad e d e r omp er co m as n or mas co mu ns de co ndu ta s oci al,
crian do el es su as pró p rias
n or mas.
Mal andr ag em é
mal eabili da de, é j og o. O ma lan dr o nã o t oma con heci men t o d o
có di go s oci al vi g ent e e só r esp eita o n ovo códi go i n au gur a d o
p or el e m es mo. El e cria o j og o, in venta r egra s e, p or iss o, sa b e
b em j og ar. Com su a mal eab ili da de, o mal an dr o p o de mu da r a s
r egr as do j og o já ex ist ent es, s empr e a s eu fav or. Cla r o est á
q ue, par a agir nas ma rg ens, o h erói t em qu e con he cer p o r
d en tr o (e mu ito b em) o có di go do mi nant e, pois é p or dent r o
q ue el e vai minan do -o, muitas vez es fi ngi n do ob edecê -l o. 192
É o mundo da ordem e desordem qu e, na busca d o equ ilíb rio , apóia se nos s eus heróis qu e intermedeiam as s ituações entre dominantes e
dominad os, fazendo com que estes bu squem alt er nat ivas na reso lu ção de
conflitos ou continuem em confronto com o pod er.
Feijoada no paraíso traz u m episó dio vivid o entre o mundo da
ordem e desordem, envolve ndo um segme nto so cial alt ame nt e marginaliz ado,
192
COSTA, Edil. op. cit.; p.129.
114
prostitu tas e tra vest is, no bairro da Lapa, no Rio de J aneiro. Esse s
persona gens do “sub mundo” têm na capoeira a fo rça para se defend erem da s
agressões fí sicas e morais, arma emprega da contra o preconceito. Para isso, a
ma gia e o encanto tornam -se fu ndamentais.
Magi a é desti no. Var ei mun do e r aimun do s atrás de um p ar a
a caba r de cr er q ue o meu a xé v em de muit o lo nge, das t erra s
d os r eis nagôs. T o do ess e encant o me atr a vess a vi das p el o
temp o afor a e chega na cena no ex at o mo ment o de ser a
r esp osta pa ra um g est o q u e ai n da nã o fi z. Magi a é veneno.
L ogu nedé é d e dois. M eta metá. Uma t ri nda de p agã. U m
cab ocli nh o das águ as, da macu mb a, e n ão de qualq u er sant eri a.
A cap o ei ra é a art e do í ndi o feiti ceir o. Mui tas ma ndi ngas m e
v êm des de o Dao mé e do t emp o d o p ri m eir o ala fi m d e O yó . 193
A
magia,
o
enca nto
e
a
força
da
religião
do
candomblé,
estruturadores da formação psíquica e cultural do personagem, são decisivo s
na proteção dos suje itos desqualificad os p elo ima ginário escra vocrata e
católico. Na a gres são so fr ida pelo s travestis e prostitutas Malaquias (ou
Da lva), Esterzinha e Madame S atã, a cap oeir a se to rna a arma p ara combater a
violê ncia. 194 Besouro, também já dist a nte d o mundo do s mo rtais, va i intervir
na s ituação, atra vés do corpo do travest i Dalva (ou Malaquias), para a defes a
e ataque no conflito inst aurado pela po líc ia:
Roq u e [ o p oli ci al] ass unt ou a moç a- dama em voz alta, s e
fazend o a co mp anh ar d o o utr o s ol d ad o, ta mb ém de cáq ui e
cap acete. Tamb é m s e diri gi u a ela naq uel es ter mos. Diri gir é
assi m mei o q u e u m modo d e falar, porq ue el e foi l o g o
d es cen do a b orra ch a, no q u e t ev e o adj utó rio pr esti mos o d o
o utr o meg an ha [...] Ester zi n ha g rit ou, ganiu es ga ni çado co m o
193
CARVALHO, Marco. op.cit. p. 121.Significação dos vocábulos: Logunedé: (kwa) (°PS) –sm. Divindade
queto, filho de Oxóssi e Oxum, rege os navegantes é representado pelo cavalo-marinho e equivale a São
Expedito. Tem a capacidade de ser homem durante seis meses, então é valente caçador. Come carne. Nos outros
seis meses, vira mulher, passa a viver nas águas, torna-se doce e manso, alimentando-se de peixe; Cf. CASTRO,
Yeda Pessoa de. op. cit. p. 266. Metametá: (kwa) (LS) – adv. Meio a meio. Yor. mE’tame’ta,por três. Id.ibid. p.
883. alafim de oyó (kwa) (LS) título hierárquico do queto. Yor. ALáàfin o `yE. Id.ibid. p.149.
194
Cf. Luciano Milani. “Madame Satã, pernambucano de nome civil João Francisco dos Santos (1900-1976), o
mítico Madame Satã, ficou conhecido como “um bandido chique”. Dizia ser filho de Iansã e Ogum e devoto da
cantora americana Josephine Baker. Homossexual assumido em plenos anos 1930, reinava como camareiro,
cozinheiro, transformista, leão-de-chácara e ladrão no submundo da Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro.
Negro, pobre e analfabeto, João dos Santos ganhou o apelido de Madame Satã por causa de uma fantasia que
usou no bloco carnavalesco Caçadores de Veados em 1942. Ao todo, João Francisco contabilizou 27 anos e oito
meses de cadeia, 29 processos, 3 homicídios e cerca de 3 mil brigas. Ágil lutador de capoeira e mestre no
manuseio da navalha – contam que ele sempre trazia uma presa na sola do sapato –, Madame Satã só recorria ao
revólver em situações extremas, a exemplo da vez em que desfechou um tiro num soldado, na esquina da rua do
Lavradio com a avenida Mem de Sá. Dizia que não brigava, se defendia.”. Disponível em
http://www.portalcapoeira.com/Curiosidades/madame-sata. Acesso em 07/02/2010.
115
o ani mal zin ho b uliç os o mesmo q ue er a. [.. .] F oi n essa ho ra q u e
chega r am corr en do o tal u m de ca misa lis trada e a mor en a
Dal va. El es est a va m muit o r ev olt ad os com a co va rdia co m a
su a ami ga. At é eu q ue n ão ti n ha na da com o p ei x e, tamb é m
estava. (p . 125 -126 ).
O persona gem se s ens ib iliza com os a gredid os, afirma ndo : “Nunca
gostei de covardias ”. Busca ndo fazer just iça, alia-se a Madame Satã e, juntos,
vencem a co nte nda, mu ito frequ ente à épo ca da repressão ao s capoeir istas,
derrotando a po lícia. O corpo to rna-se o lu gar d a sacra liza ção de valo res
religiosos e d e fé. Ante s de tomar o corpo de Dalva, o persona gem - narrado r
justifica a sua esco lha :
[...] Não s ei p or que mas meu espí rito se en ca nt ou mais co m
Dal va, tal vez p orq u e ela era fil h a q u eri d a de L ogu nedé, com o
Mal aq uias e at é fr eq uent avam um t err eir o n o sub úrbi o. T al ve z
p orq u e o meu O gu m esti v ess e de fr ent e. Q uem vai sab er. O u
q uem sab e s e p o rq ue na na ção dos b ant os L o gun ed é é O gu m.
Nã o s ei. S ei q u e fo i a p ri meira vez q ue desci sem s er in vo ca d o
p or u m b eri mbau. (p. 1 27).
Na narrat iva, o corpo do ne gro deixa de ser dó cil, disciplinado
como máquina do sist ema escravocrata, p ara se erguer como lu gar sa grado,
que abriga as e xperiê ncia s e crenç as, como afirma Leonardo Tavares Mart ins:
“O ser hu mano, imerso no rec into sagrado, sente qu e, ali, o mu ndo p ro fa no é
transce ndido e o corpo passa a ser o lu gar de passa gem d essa e xperiê ncia. É
uma relaç ão corporal e transce ndente”. 195
A narrat iva d e Feijoada no pa raíso se encerra com o p erso nagem
evo ca ndo o dia em que nas ceu , ju sto no momento em qu e nasce o seu neto no
morro de Do na Marta, uma favela do Rio de J aneiro.
Mas só muit o mais tar d e na vi da, só quan do já o utr o s ol
com eçou a d err ama r s eus r ai os p el os alt os do mor r o de S ã o
Jo ão, com aq uela s ed e de lamb er l o go com su a lu z a ma rela o s
b ran co s d os ma us ol é us do cemitéri o lá emb ai xo, é q ue l embr ei
d o dia e m q ue nasci, ou do q ue me co nta ra m. No alt o do morr o
d e D ona M art a, o uvi o ch or o da cria nça en ch er a ma nh ã d e
vi da e os galos da fa vela r esp on dera m o chor o co m s eu s
b at er es de as a e co co r ocós. [... ] Uma l u fa da de ar fr es co subi u
p elas vi el as d o mor r o s em avis o b em na h or a em q ue nascia o
195
MARTINS, Leonardo Tavares. O corpo e o sagrado. O Renascimento do sagrado através do discurso da
corporeidade. Dissertação de mestrado. Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas.
[sn], 2003. p. 30.
116
meni no meu net o. T odos b at eram p al mas e fest ejara m”. (p .
1 52 -1 53 ).
Tal a contecimento traz mu it a a legr ia para Besouro e o transporta
para a cid ade de Santo Amaro :
O s ol ro ub ou as so mb ras das l áp id es d e már mor e e fi co u
ol ha ndo o cemité ri o d e S ã o Jo ão Batista d e ci ma. Er a mei o dia. El e ilu min ou com fo rça as ma ngas b i ca d as de pass ari n h o
caí das no chã o. [... ] Foi u m dia d an ado d e en ca nta do aq uel e
em q ue nasceu o m eu n et o. Uma g an a de fest ejação m e
arr ep i ou t o do e vi m descen d o o mor ro de Do na Ma rta em mei o
a os q ue não me vi a m, já n ão q uer en do mais me d es mist u ra r da s
g en t es. Nã o s e nas ce e m d es cend en te t odo dia n ão. Ancestr al
sab e disso. E ra de se co me mor ar então. E cr uz ei q ue m s ub ia o
mo rr o de t ênis e ca mis a de l oj a, o u d e chin el o, ai nda q u e
ni ng uém me viss e. S empr e a ndei descal ç o e nun ca me acan hei
n o esp ert o. Cap o eir a n ão é q u em se ass usta. S empr e estiv e e m
dia co m o i n usitad o. (p . 153 ).
Descend o o morro de Do na Marta, o persona gem é atraído pelo
che iro de alimento, vindo de algum restau rante, o que dese ncadeia uma sér ie
de lembranças:
Uma b risa r evir o u e leva nt o u d o ch ão umas fol has, deva ga r
assi m co mo na mi n ha me mó ria. E lemb r ei q ue vi v er é i n vent a r
fa ntasi a. Um cheir o b o m d e t emp er os foi atr av ess and o a s
fol has, q u e a o se revi ra r ia m escrevend o no ar u mas p iru et a s
p r eg ui çosas. O ch eir o q uent e en ch eu o a r de B ot afo go d e
lemb ran ças e p ro messas. 196 (p. 1 54).
Rememora o tempo em que vivia em sua terra - “Morrer é s e
espalhar em mil lembranç as. Pois então ond e vivo hoje é se não somente no s
lugare s q ue vis ito em minha memó ria” (p. 156 ), afirma o personagem, vindo a
compor uma memória afet iva : o temp o em que tinha o car inho e a proteção da
su a tia, que preparava o alimento , o “feijãozinho corriqu eiro” com “muito
fato, costela, lombo , toucinho, orelha de porco, lingü iça, paio e temperos
variados como coentro, cominho, alho, hortelã , u mas folhas frescas de louro,
pime nta”. Recorda-se a inda da “fe ijo ada da mu lata comadre Amália a que
tira va o p adre [Vito] d o seu sério. Nada s e comparava. Não se cansa va e le de
196
Botafogo é um bairro da cidade do Rio de Janeiro.
117
repetir, tanto os elogios quanto mais e m ais p ratos d e feijão p ela tard e afo ra.
Depois as redes, os lico res, o s c harutos...”. (p. 155 -156 ).
Na e vocação d esse t empo, marcada por ima gens sine sté sicas – “o
che iro quente enc heu o ar d e Botafogo ”, “fui cheirand o minhas lembranças”,
“vinha o che iro mo rno d e minha s reco rd ações”, “c heiro ant igo ” –, o
persona gem entra no restaurant e de onde vinha o cheiro da feijoada: “Pro curei
o rumo daq uele che iro ant igo no meio do s carros d e Botafogo”. (p. 156).
Os q ue est a va m no r est a ur ant e p ar eci am t er p ressa n en hu m a
n ão. Vi a satisfa çã o e a fa r ofa la mb uzan do a b oca do v el h o e
n ão me cab i d e i nv ej a. Estaq uei diant e da su a mes a co m s eu
p rat o e sua cer veja. Só el e me vi u. Mas n ão p ass ou r eci b o d e
espa nt o p orq ue er a de fé. N em eu estran hei. Ele ap en as p edi u
a o gar ço m p rimei ro uma dose, dep ois outro prat o de feij oada.
O home m de gra vata-b orb ol eta est ran hou a p enas q ua nd o el e
ma ndo u l eva r d e v olta os tal h er es. O v el h o arr u mo u t ud o muit o
cui d ad os amen t e na s ua frent e, na outr a b or d a da mesa, e fe z
u m gest o me co nv idan do a t o mar ass ento . Poucos tiver a m
temp o de estr an har o s eu g est o. Por, s em q u e ni n gué m viss e,
evap o rei tu do o q u e est ava no p rat o e sa ud ei as lemb ran ça s
q ue me con su mi a m d es de a hor a em q ue d es ci d o mo rro. [. ..]
P ara mi m o p ar aíso s emp re foi em S ant o Amar o, mas, a cab ei
d e cr er, tinh a u ma fili al em uma ru a q ualq ue r de B otafog o. (p.
1 58 ).
Nessa desc ida pelo morro, quando do na sc imento do neto , alguma s
décad as depois – como se p ode ver pela referência ao t ipo d e calçado de
algu ns transeu nte s, ao movimento dos automóve is –, Besouro voa pelo Rio de
Janeiro, também um lugar que marca a resistênc ia de mu ito s escravos e
negro s.
As sim, o Recônca vo Baia no e o Rio de J aneiro estão unificados, não
por serem territórios geogr áficos, mas por serem territórios cu lturais,
grafad os de exp eriênc ias históricas do s ne gros, que têm no jogo da cap oeira,
dentre tant as práticas, o lugar que marca, em difere nça, a rebeld ia, com seus
golpe s inc isivo s – “armada”, “marte lo”, “meia -lua”, “q ueixada”, “ponte ira”,
“benç ão” –, uma luta étnico -racial no Brasil, desd e tempos colo niais.
118
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta
pesquisa
t eve
por
objet ivo
a nalisar
as
repres entaçõe s
elaboradas so bre o capoeir ista Besouro Mangangá, privilegiand o os textos
ficcionais q ue se ins erem na chamada literatura de cordel, dos autores
Antô nio Vie ira e Victor A lvim Garcia, bem como a narrat iva b iográ fica de
auto ria d e Marco Car va lho, no intuito de ente nder a co nst ituiç ão desse mito
da cultura afro -baiana.
Co mo a singular idade de Besouro, enquanto su jeito, está m arcada
por sua visibilidade no u niver so da capoeira, foi fundame nt al analisar a sua
trajetória p es soal, a su a história de vid a, articu land o -a com o contexto
histórico baia no no pós-abo lição . Ao final desse estudo, acredito que uma parte
significativa da história de Besouro Mangangá (Manuel Henrique Pereira) tenha sido
trazida através dos textos ficcionais pesquisados. São narrativas que, cada uma ao
seu modo, estab elecem u m diálo go com a textua lid ade popu lar, produzida por
uma memória o ral, p ondo em questiona mento u ma grande narrat iva o riunda
das elit es do país.
O capoeirista de corpo fechado, que se destacou em sua época, foi trazido
nos versos de cordel de Antonio Vieira e Victor Alvim Garcia, narrativa biográfica
de Marco Carvalho, tecidos com os fios da imaginação, como um homem valente,
justiceiro, rebelde, que soube, com a ginga do corpo, desestabilizar a ordem vigente,
e por isso tornar-se herói.
Os textos literários analisados nesta pesquisa aproximam-se por se
constituírem em narrativa mítica, que destacam a morte e o nascimento do herói
negro. A morte pressupõe novos nascimentos de Besouro, pois esse herói tem o corpo
fechado, por ser protegido pelos fortes orixás, e sua irreverência o coloca ao lado de
heróis pícaros, por protagonizar histórias que podem ser tidas como inconsequentes
na ótica do dominante.
O objeto de estudo eleito terminou por exigir uma incursão na geografia
da capoeira, como jogo, luta e dança, na Bahia e no Recôncavo, durante o final da
Monarquia e a Primeira República, para se desenhar um painel sócio-histórico, e, a
partir dele, perceber e entender o processo de transformação pelo qual passou o
negro em nosso país.
119
Outro aspecto que vislumbrou esse trabalho diz respeito à tentativa de se
explicar o corpo negro, que entra em cena todas as vezes em que a “ginga” e
“malícia” se fazem presentes numa roda de capoeira, mediante um viés ficcional, o
que propiciou pensar e escrever sobre Besouro, ou “besourar”, como diz Marco
Carvalho em Feijoada no paraíso. Certifica-se o aqui dito através do título desse
trabalho: inventar Besouro traduz, assim, muito além do que enveredar pelas teias da
ficção; destaca-se a tentativa de engendrar nos liames históricos para favorecer o
aparecimento de um indivíduo que não se insere no perfil clássico de herói nacional,
igual a tantos outros, mas que reflete outros tantos escondidos pela capa do silêncio e
do preconceito, prontos para serem descobertos.
A exploração do viés mítico e heróico nessas histórias, como a relação
da capoeira ao candomblé, com todo o seu panteão de deuses africanos, também foi
uma preocupação no decorrer do trabalho. Com isso, abriu -se a possibilidade de dar
seqüência a essa pesquisa, para analisar o traço mítico e heróico de Besouro nas
canções ou ladainhas de capoeira cantadas ou repenteadas até hoje no Recôncavo.
Essas ladainhas, compondo uma textualidade popular, sinalizam a
repercussão de um mito, que se constitui validando uma cultura ancestral, e conferem
a Besouro Mangangá um lugar de destaque no panteão dos heróis afro-brasileiros,
legitimando assim a afirmação do negro.
120
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ANEXO
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