UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO, EXTENSÃO E CULTURA PROPPEC
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAS E JURÍDICAS
PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO DE POLÍTICAS
PÚBLICAS - PMGPP
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES - CURITIBA:
ESPAÇO SUSTENTÁVAL DE INCLUSÃO SOCIAL
MARIA JOSEFINA KLOCK
ITAJAÍ (SC), 2011
UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO, EXTENSÃO ECULTURA PROPPEC
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAS E JURÍDICAS
PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO DE POLÍTICAS
PÚBLICAS - PMGPP
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES - CURITIBA:
ESPAÇO SUSTENTÁVEL DE INCLUSÃO SOCIAL
MARIA JOSEFINA KLOCK
Dissertação apresentada à Banca examinadora no
Mestrado Profissional em Gestão de Políticas da
Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, sob a
orientação do Prof. Dr. Flávio Ramos, como
exigência parcial para obtenção do título de Mestre
em Gestão de Políticas Públicas.
ITAJAÍ (SC), 2011
À Memória de meus pais e irmãos com os quais aprendi a
sempre ter fé, acreditar em Deus e confiar o amanhã será sempre melhor.
AGRADECIMENTOS
A Deus por me guiar.
Ao Professor Flávio Ramos pela orientação, confiança, e colaboração.
Aos demais professores do Mestrado em Gestão de Políticas Públicas da
UNIVALI pela acolhida, ensinamentos e amizade. Também aos secretários do
Mestrado,Tânia e Luiz, pela atenção e gentilezas.
Aos meus familiares pelas palavras animadoras e apoio afetivo.
A todos os colegas do SiBi-UFPR pela torcida e colaboração, aos da CFDA, com
quem convivo diariamente, pela paciência e estímulo, em especial ao Gladston
José Cordeiro, pelas contribuições em todas as etapas desse trabalho.
Ao idealizador e criador da Biblioteca Comunitária, Carlos Roberto Teles, e à rede
de membros-fundadores: Valdimê Alves Batista Ferreira, Kauanna Batista
Ferreira, José Antonio Ferreira, José Francisco A. Sanches, Silvana Rausis
Fcachenco e Sinval Zaidan Lobato Machado, pela oportunidade e cooperação,
com os quais muito aprendi e obtive elementos para esta dissertação.
À equipe: Ilda T. Michiuye, Uila S. Almeida e Débora R. Schnekemberg pelo
excelente trabalho na informatização da Biblioteca Comunitária.
Aos colegas de viagem: Marinez, Lucinha, Clóvis, Valter, José Claudio e Paulo
pelo carinho, apoio, companheirismo e alegria.
Ao mestre Alexandre Meira de Vasconcelos por nortear minha decisão na escolha
do tema.
A todos que colaboraram nas ações em prol da Biblioteca Comunitária da Vila das
Torres.
Vila das Torres por Adriane Lazaroto. (Quadro a óleo, 180 X 100 cm).
Essa é a Vila das Torres que eu conheço.
Migração, pessoas chegando, construindo uma história.
A origem é rural.
Aos poucos este verde vai sendo transformado em
lembranças, depois cores mais duras vão surgindo:o
asfalto, o desemprego, o concreto, o isolamento, a
violência, mas também o amor, a paixão, a luta pela vida.
Aos poucos a vila vai se tornando vertical. De longe a
vila parece um amontoado de habitações em construção,mas
ao caminhar por ela, vamos descobrindo flores, pequenos
encantos, que amenizam as tristezas que moram nela.
Já tive oportunidade de ver um por do sol maravilho na
vila, mas sei que há também noites escuras, noites de
preocupação, noites de insônia. Sei também que há pessoas
que cultivam intensamente sua espiritualidade.
Então, apesar de tantos e tantos problemas, um manto rosa
de oração cobre os telhados da vila.
[...]
DAVANSO (2004, p. 10) RESUMO
Este estudo apresenta a Biblioteca Comunitária da Vila das Torres – Curitiba/PR e
sua importância como espaço de inclusão social para a comunidade. O objetivo é
reconstituir a trajetória histórica, ampliar o acervo e organizar a biblioteca
comunitária, para facilitar à comunidade local o acesso à informação, à cultura, ao
lazer e à educação. Para a sua elaboração foi necessário conhecer o cenário no
qual a Biblioteca Comunitária está inserida, os agentes envolvidos e as dificuldades
de acesso à informação. Na realização do trabalho se utilizou metodologia
qualitativa e pesquisa de natureza aplicada; os resultados são apresentados de
forma descritiva e ilustrados por meio de fotografias e gráficos. O histórico e
trajetória da biblioteca foram realizados mediante informações coletadas em
entrevistas semi-estruturadas conforme roteiro e da observação, das conversas
informais e das fontes secundárias. A opção pela pesquisa aplicada possibilitou
realizar uma intervenção técnica, que resultou na organização, informatização e
ampliação do acervo por meio de campanha de doação de livros. A campanha
arrecadou 1922 livros e outros materiais. Os serviços técnicos e a informatização
foram realizados entre dezembro de 2010 e maio de 2011, período no qual
passaram por seleção 4068 livros destinados ao público adulto e infanto-juvenil.
Deste total, 2506 foram selecionados, preparados, organizados nas estantes e
tiveram seus dados inseridos na base bibliográfica do software gerenciador PHL,
estação monousuária, gratuita. Os 2664 livros infantis, por sua natureza não
receberam o mesmo tratamento; foram somente organizados nas estantes assim
como os 198 livros didáticos. Os 149 itens referentes aos materiais especiais foram
colocados em um armário para posterior seleção e preparo técnico. A apresentação
da Biblioteca organizada e informatizada às lideranças locais, autoridades e a
imprensa ocorreu em 19 de agosto do corrente ano.
Palavras-chave: Biblioteca comunitária. Comunitarismo. Inclusão social.
ABSTRACT
This study presents The Vila das Torres Community Library – Curitiba (PR) and its
importance as a space of social inclusion for the local community. The aim of this
research is to review the library’s history, expand its collection, and organize the
library to facilitate access to information, culture, entertainment and education, by the
local community. In order to carry out this study, it was necessary to explore the
context in which the Community Library is set, the agents involved, and some of the
difficulties in accessing information. The research methodology follows a qualitative
and applied approach, and the results are presented in a descriptive way, making
use of illustrations: photographs and graphs. Semi-structured interviews were used to
reconstruct the history of the library, as well as observations, informal conversations
and secondary sources. The option for an applied approach made it possible to
conduct a technical intervention in the library that resulted in the expansion of its
archive. A book donation campaign resulted in the library gaining 1922 books and
other materials, which were organized in a database. The technical services and the
organization of the library into a database were carried out from December 2010 to
May 2011, during which period 4068 books aimed at adults and teenagers were
selected, 2506 of which were prepared, organized on the shelves and added to the
bibliographic database of the free, licensed single-user administrative software PHL.
The 2664 children’s books did not receive the same treatment because of their
nature. Nevertheless, they were organized on the shelves, along with 198 text books.
The 149 items classed as special materials were placed in a closet and will be further
selected and prepared. The presentation of the reorganized Library to the local
community leaders, the press and other authorities took place on August 19th, 2011.
Key words: Community Library. Social Inclusion. Communitarianism.
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 -
Vila das Torres vista da Av. Comendadoror. Franco.................
FIGURA 2 -
Vila das Torres no contexto dos bairros: Rebouças, Prado
Velho e Jardim Botânico.............................................................
51
FIGURA 3 -
Vila das Torres: imagem de satélite...........................................
52
53
FIGURA 4 -
Exemplo da autoconstrução na Vila das Torres.........................
58
FIGURA 5 -
Rua com casebres no interior da Vilas das Torres....................
58
FIGURA 6 -
Rua da Vila das Torres: depósitos e carrinhos de recolher
papel...........................................................................................
FIGURA 7 -
58
Bairro Prado Velho, Vila das Torres, Rio Belém e Vila de
Ofícios.........................................................................................
60
FIGURA 8 -
Depósito e residência dos carrinheiros e suas famílias..............
62
FIGURA 9
Divisão da Vila das Torres segundo as gangues: a Vila de
cima e Vila de baixo...................................................................
Antiga Praça do Baleia, antes da revitalização da Vila das
FIGURA 10 -
66
Torres.........................................................................................
66
FIGURA 11 -
José Francisco A. Sanches no Museu da Vila das Torres.........
68
FIGURA 12 -
Projeto Comunidade em Cores na Vila das Torres....................
69
FIGURA 13 -
O muro da nova “Praça do Baleia” sendo pintado por um
morador de rua...........................................................................
71
FIGURA 14 -
Ciro José Madalena....................................................................
72
FIGURA 15 -
Trecho da Rua Manoel Martins de Abreu e a revitalização........
73
FIGURA 16 -
Biblioteca Comunitária da Vila das Torres..................................
74
FIGURA 17 -
Carlos Roberto Teles e José Francisco A. Sanches com o livro
nº. 1 do acervo: o primeiro retirado do lixo.................................
FIGURA 18 -
Rua Manoel Martins de Abreu em frente à Biblioteca
Comunitária em 2010,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,..................................
FIGURA 19 -
75
78
Rua Manoel Martins de Abreu em frente à Biblioteca
Comunitária em agosto de 2011................................................
79
FIGURA 20 -
Interior da Biblioteca Comunitária antes da organização...........
80
FIGURA 21 -
Uma das estantes com os livros de histórias infantis.................
80
FIGURA 22 -
Sede da Organização do Desenvolvimento do Potencial
84
Humano......................................................................................
FIGURA 23 -
A nova placa na fachada da Biblioteca Comunitária ................
FIGURA 24 -
Carlos Roberto Teles, idealizador e criador da Biblioteca
85
Comunitária................................................................................
86
FIGURA 25 -
Carlos Roberto Teles como “Sombra”........................................
86
FIGURA 26 -
Kauanna Batista Ferreira............................................................
89
FIGURA 27 -
Kauanna Batista Ferreira, a Jornalista Silvana Silvana Rausis
Fcachenco e o senador Flávio Arns, em Brasília.......................
90
FIGURA 28 -
José Francisco A. Sanches........................................................
90
FIGURA 29 -
Casal Valdimê e Jose Antonio Ferreira......................................
93
FIGURA 30 -
Marina Silva na Biblioteca Comunitária......................................
94
FIGURA 31 -
Gleisi Hofmann em visita à Biblioteca Comunitária....................
95
FIGURA 32 -
Prof. Dr. Flavio Ramos em visita à Biblioteca Comunitária........
95
FIGURA 33 -
Igleé Belisario Guevara em visita à Biblioteca Comunitária.......
97
FIGURA 34 -
Gladston José Cordeiro na doação do scanner a Biblioteca
Comunitária................................................................................
FIGURA 35 -
José Francisco A. Sanches e crianças no Museu da Vila das
Torres.........................................................................................
FIGURA 36 -
107
Kauanna entregando cartaz ao prefeito de Curitiba - Luciano
Ducci...........................................................................................
FIGURA 38 -
100
Cartaz utilizado para divulgar a campanha de doação de
Livros..........................................................................................
FIGURA 37 -
99
108
Cartaz utilizado para agradecer os livros recebidos durante a
campanha...................................................................................
110
FIGURA 39 -
Livros recebidos na campanha de doação de livros...................
112
FIGURA 40 -
Acervo (livros) em dezembro de 2010, antes da informatização
116
FIGURA 41 -
Material especial, dezembro de 2010.........................................
117
FIGURA 42 -
Computador da Biblioteca Comunitária com o sotfware PHL
instalado.....................................................................................
118
FIGURA 43 -
Colocação dos livros nas estantes.............................................
119
FIGURA 44 -
Layout atual da Biblioteca Comunitária......................................
128
FIGURA 45 -
Acervo informatizado nas estantes.............................................
129
FIGURA 46 -
Aparador de livros confeccionado com caixa de papelão..........
129
FIGURA 47 -
Aspecto físico dos livros.............................................................
131
FIGURA 48 -
Acervo: livro por categoria..........................................................
131
FIGURA 49 -
Quantidade de livros por tipo de usuário....................................
132
FIGURA 50 -
Acervo: Material especial............................................................
133
FIGURA 51 -
Acervo (livros) para adulto, dividido por área de conhecimento,
conforme a CDD.........................................................................
FIGURA 52 -
134
Acervo (livros) para adultos, segundo tabela de área de
conhecimentos do CNPq............................................................
135
FIGURA 53 -
Livro por data de publicação.......................................................
136
FIGURA 54 -
A autora da dissertação recebendo o “Certificado” das mãos
da Presidente do Clube de Mães União Vila das Torres..........
FIGURA 55 -
A autora da dissertação sendo cumprimentada por Carlos
Roberto Teles............................................................................
FIGURA 56 -
141
142
Fundadores, voluntários, usuários e convidados do evento da
Biblioteca Comunitária.............................................................................
143
LISTA DE QUADROS
QUADRO 1 -
Diferenças entre ação comunitária e projetos sociais..............
QUADRO 2 -
Tipo e quantidade de material arrecadado na campanha de
doação de Livros......................................................................
QUADRO 3 -
34
112
Períodos e respectivas ações realizadas para a organização
da Biblioteca Comunitária........................................................
122
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BBSs
Bulletin Board System
Caico
Centro de Apoio e Integração Comunitária da Vila Torres
CAV
Centro de Ação Voluntariado de Curitiba
CD
Compact Disc
CDD
Classificação Decimal de Dewey
CEBs
Comunidades Eclesiais de Base
CFDA
Coordenação de Formação e Desenvolvimento do Acervo
CIEP
Centros Integrados de Educação Pública
CNBB
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil
CNPJ
Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas
CNPq
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
COHAB-CT
Companhia de Habitação Popular de Curitiba
DVD
Digital Versatile Disc
FAZ
Fundação de Ação Social
FIEP
Federação das Indústrias do Estado do Paraná
FUNDACEN Fundação Instituto Tecnológico Industrial
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IEL
Instituto Euvaldo Lodi
IFLA
International Federation of Library Associations and Institutions
IPPUC
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba
ODPH
Organização do Desenvolvimento do Potencial Humano
ONG
Organização Não Governamental
ONU
Organização das Nações Unidas
Oscip
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
PAC
Programa de Aceleração do Crescimento
PHL
Personal Home Library
Pnad
Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios
PNLL
Plano Nacional do Livro e Leitura
PUCPR
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
RPC
Rede Paranaense de Comunicação
SENAI
Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SESI
Serviço Social da Indústria
SiBi
Sistema de Bibliotecas
Sipcep
Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria do Paraná
TICs
Tecnologias de Informação e de Comunicação
UFPR
Universidade Federal do Paraná
UNESCO
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura
UNIVALI
Universidade do Vale do Itajaí
VHS
Vídeo Home System
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO....................................................................................
16
ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS E A PROBLEMÁTICA
2
DA PESQUISA....................................................................................
21
2.1
COMUNITARISMO..............................................................................
27
2.2
COMUNIDADE....................................................................................
30
2.3
AÇÃO COMUNITÁRIA........................................................................
33
2.4
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA.............................................................
35
2.4.1
Origem, objetivos, conceitos e características..................................
35
2.4.2
A biblioteca comunitária e a democratização da informação..............
41
2.4.3
A biblioteca comunitária e a formação do hábito de leitura.................
44
3
VILA DAS TORRES: ESPAÇO DE ACOLHIMENTO.........................
51
3.1
LOCALIZAÇÃO, ORIGEM E ASPECTOS HISTÓRICOS....................
51
3.2
CARACTERÍSTICAS GERAIS DA VILA DAS TORRES.....................
57
3.2.1
Habitação e trabalho...........................................................................
59
3.2.2
Violência e tráfico de drogas...............................................................
63
3.2.3
Lazer e cultura.....................................................................................
66
3.2.4
Revitalização da Vila das Torres.........................................................
69
3.3
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES: ESPAÇO
3.3.1
DE INCLUSÃO....................................................................................
74
Origem, características e trajetória......................................................
74
Atores da comunidade que são destaques frente à Biblioteca
3.3.2
Comunitária.........................................................................................
86
3.3.3
Visitas ilustres à Biblioteca Comunitária..............................................
93
3.3.4
Dificuldades e perspectivas.................................................................
97
4
INTERVENÇÃO TÉCNICA REALIZADA NA BIBLIOTECA
COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES...........................................
102
4.1
INTRODUÇÃO E DIRETRIZES
102
4.2
CAMPANHA DE DOAÇÃO DE LIVROS INFANTIS E INFANTOJUVENIS PARA A BIBLIOTECA COMUNITARIA...............................
104
4.2.1
Apresentação......................................................................................
104
4.2.2
Planejamento.......................................................................................
105
4.2.3
Execução.............................................................................................
106
4.2.4
Resultados...........................................................................................
111
4.3
ORGANIZAÇÃO E INFORMATIZAÇÃO DA BIBLIOTECA
COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES............................................
114
4.3.1
Apresentação......................................................................................
114
4.3.2
Estratégias e dinâmica da organização e informatização...................
115
4.3.3
PHL: características e justificativa para a sua escolha.......................
123
4.3.4
O novo cenário de acesso à informação.............................................
124
4.3.4.1
Perfil do acervo: livro e material especial............................................
130
4.3.4.2
Serviços oferecidos à comunidade......................................................
137
4.3.5
Avaliação.............................................................................................
138
4.3.6
Comemoração de aniversário de dois anos e apresentação do
acervo catalogado, classificado e informatizado da Biblioteca
Comunitária........................................................................................
140
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................
144
REFERENCIAS..................................................................................................
153
ANEXO 1 – Convite para o Seminário Dia e Semana Nacional da Leitura.......
161
ANEXO 2 – Convite para o evento na Biblioteca Comunitária em 19/08/2011.
165
ANEXO 3 – Certificado por serviços prestados a Biblioteca Comunitária.........
166
APENDICE A – Roteiros para entrevistas.........................................................
167
5
APENDICE B – Propostas: da Missão, do Regulamento e da Política de
Formação e Desenvolvimento de Coleções.............................
170
16
1 INTRODUÇÃO
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, desde a sua criação, chamou a
atenção dos meios de comunicação e da população da cidade pela iniciativa e
criatividade de seu idealizador e criador, pela rede de membros-fundadores e pela
colaboração dos demais cidadãos da comunidade na formação, instalação e
manutenção de seu acervo e no atendimento aos usuários.
A autora desta dissertação é bibliotecária da Universidade Federal do
Paraná (UFPR), com atuação no Sistema de Bibliotecas (SiBi), mais precisamente
na Coordenação de Formação e Desenvolvimento do Acervo (CFDA) e, tão logo
soube da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, teve especial interesse, dada a
origem de seu acervo e características da comunidade.
A motivação inicial - colaborar na formação do acervo da Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres através do SiBi, com livros e outros materiais nasceu, em 2009, ao ler a reportagem “Uma Biblioteca Tirada do Lixo”, no jornal
Gazeta do Povo. O artigo referia-se à criação de uma biblioteca comunitária na Vila
das Torres, a partir de livros encontrados no lixo por catadores de papel (WALTER,
2009). A comunidade carente, localizada no coração de Curitiba, havia decidido e,
com os próprios meios, criado a primeira biblioteca na Vila das Torres.
No SiBi, a notícia causou impacto, especialmente na CFDA, cuja atividade é
a aquisição de material bibliográfico por doação e permuta e a doação ou o repasse
a outras bibliotecas de material excedente. A responsável pela CFDA e autora deste
trabalho resolveu conhecer a biblioteca recém-criada, idealizando uma maneira para
que o SiBi passasse a contribuir na formação do seu acervo. O contato inicial deu-se
por telefone com a então responsável pela biblioteca, Sra. Valdimê Alves Bastista
Ferreira, que demonstrou interesse nos livros ofertados e em fornecer informações
sobre a Biblioteca. Ainda em 2009, verificou-se a viabilidade legal e, em 2010,
iniciou-se o repasse do material bibliográfico, de forma gratuita.
Por acreditar no poder transformador da informação, nos ideais do seu
idealizador e criador, na rede de membros-fundadores da Biblioteca Comunitária e
na comunidade da Vila das Torres, que descobriu na informação um dos caminhos
para o crescimento individual e coletivo, a autora deste trabalho resolveu tornar-se
voluntária e contribuir para o desenvolvimento da Biblioteca, ao mesmo tempo em
que se propôs a realizar o presente trabalho.
17
Em 2010, nas visitas à biblioteca comunitária, foi possível conhecer sua
realidade e concluiu-se que tanto as expectativas dos agentes envolvidos como as
necessidades da biblioteca apontavam para a ampliação da coleção infantil e
infanto-juvenil e para a informatização do acervo e dos serviços básicos. Registrouse também o sonho dos dirigentes em formar uma seção, na Biblioteca, destinada
aos documentos e fotografias com vistas à preservação da memória da Vila.
A biblioteca, cujo acervo literalmente saiu do lixo, foi inaugurada oficialmente
em setembro de 2009 e rapidamente cresceu. Em 2010, era composta por 5163
exemplares, frutos do esforço dos voluntários da Vila e de colaboradores externos
que viam e vêem a educação, o conhecimento e a cultura como fatores decisivos
para a inclusão social.
As bibliotecas comunitárias são espaços públicos criados por pessoas da
própria comunidade, preocupadas com a exclusão social crescente. São atitudes
criativas e solidárias, nem sempre amparadas pelo Estado ou pela iniciativa privada.
Seu caráter principal é atender às necessidades informacionais da comunidade,
promover o hábito de leitura e contribuir para minimizar o analfabetismo. Além disso,
estas bibliotecas surgem em locais cujo acesso à informação, cultura, educação de
qualidade e serviços públicos muitas vezes é mínimo ou inexistente.
A Constituição de 1988 garante aos brasileiros o direito à informação. Neste
sentido, o presente estudo visa alertar as autoridades e a sociedade para a
necessidade do acesso à informação, à leitura, à cultura, enfim, ao aprimoramento
intelectual em comunidades carentes, com objetivo de diminuir a exclusão social,
reflexo da pobreza e da desigualdade de oportunidades.
Por outro lado, a divulgação da postura proativa do seu idealizador e criador,
da rede de membros-fundadores e dos colaboradores da Biblioteca Comunitária da
Vila das Torres constitui subsídio para a sociedade e o Estado repensarem, de
maneira urgente, a elaboração e a implementação de políticas públicas destinadas
às comunidades com elevado grau de violência, criminalidade, desemprego e
analfabetismo, num crescente que visa transformar a realidade.
A reflexão em torno da ação da comunidade da Vila das Torres como
resposta às demandas informacionais tem ainda o papel de ser exemplo para outras
comunidades carentes que, como esta, desejam, através da educação, da cultura e
do conhecimento, mudar a realidade e as condições sócio-econômicas de seus
membros.
18
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres distingue-se de outras da cidade
pelo histórico de sua criação, trajetória, atores sociais envolvidos e comunidade a
qual pertence. É esta distinção que essencialmente contribuiu para a sua escolha
como tema da presente dissertação, tendo em vista que estudos como este,
interdisciplinares por excelência, têm importância tanto para a área social, quanto
para a biblioteconomia e para a ciência da informação. A relevância acadêmica, na
ciência da informação e na biblioteconomia, dá-se em função do reduzido número de
trabalhos sobre bibliotecas comunitárias no Brasil, além de fornecer subsídios à
formação de acervos, à organização de bibliotecas comunitárias em comunidades
carentes e à prática de ações voluntárias.
O trabalho se justifica por relatar ações comprometidas com valores da
contemporaneidade, como responsabilidade e justiça social, ética, transparência,
sustentabilidade, além de obedecer a princípios e posturas como trabalho coletivo,
respeito à diversidade, empreendedorismo e construção solidária de um futuro justo
e comum para todos.
A problemática deste trabalho se relaciona às dificuldades enfrentadas na
Biblioteca Comunitária da Vila das Torres em proporcionar atendimento adequado à
comunidade. Informações colhidas revelaram que a coleção de livros infantis era
pequena em relação ao número de crianças usuárias, repercutindo negativamente
na formação do hábito de leitura. Faltava tratamento técnico no acervo destinado
aos usuários infanto-juvenis e adultos, dificultando o acesso às informações e
localização dos livros nas estantes. Ainda, os serviços básicos eram realizados
precariamente, não permitindo controle do material bibliográfico e subsídios para a
tomada de decisões. Estes são problemas característicos de bibliotecas montadas
sem o acompanhamento e orientação de um bibliotecário.
Diante das questões abordadas, para elaborar a presente pesquisa,
estabeleceu-se o seguinte objetivo geral: reconstituir a trajetória histórica da criação
e sistematização da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, bem como ampliar e
organizar o seu acervo para facilitar à comunidade local o acesso à informação, à
cultura, ao lazer e à educação, garantindo-lhe formação indispensável ao exercício
da cidadania.
A partir desse objetivo geral, formularam-se os objetivos específicos para
subsidiar o desenvolvimento e também facilitar a compreensão do trabalho:
19
Analisar o cenário no qual a Biblioteca Comunitária está inserida, as
estratégias para a sua criação e os atores sociais envolvidos;
Identificar o acervo, serviços oferecidos à comunidade e, segundo
descrição da atendente, o perfil dos usuários;
Elaborar proposta da Missão, Regulamento e Política de Formação
e Desenvolvimento de Coleções com vistas à organização;
Realizar campanha de doação de livros para ampliação da coleção
infantil e infanto-juvenil;
Providenciar ferramentas (software gerenciador gratuito e outros
materiais necessários) indispensáveis à organização da Biblioteca e
contratação de pessoal qualificado;
Preparar tecnicamente o acervo: selecionar, classificar, incluir os
dados dos livros no sistema gerenciador e informatizar do acervo;
Descrever as ações referentes à intervenção técnica e aos
resultados obtidos;
Apontar as diretrizes para a continuidade dos procedimentos
técnicos e ações que promovam a interação entre a biblioteca
comunitária e a comunidade.
O desenvolvimento da pesquisa pautada nesses objetivos contou com as
abordagens metodológicas apresentadas abaixo para direcionar o trabalho e atingir
os resultados propostos.
Trata-se de uma pesquisa indutiva, de natureza aplicada, por gerar
conhecimento para fins práticos; a abordagem é qualitativa em função de seus
objetivos – coletar informações no próprio ambiente e junto aos atores sociais
envolvidos com a biblioteca e com a comunidade. É também uma pesquisa
exploratória cujo embasamento valeu-se de investigação bibliográfica e documental.
Como instrumento de coleta de dados, partiu-se para entrevistas semi-estruturadas,
com perguntas abertas para explorar e esclarecer o processo de criação e trajetória
da Biblioteca Comunitária. Utilizaram-se também a observação e as informações
obtidas nas conversas informais. Os resultados são apresentados na forma
descritiva, por fotografias e gráficos.
20
Optou-se por dividir o texto em seis capítulos: a introdução, os aspectos
teórico-metodológicos e a problemática da pesquisa, o referencial teórico, a
contextualização, a intervenção técnica e as considerações finais.
O Capítulo um refere-se à introdução e apresentação do tema, da autora da
dissertação e, também, das motivações e relevâncias do trabalho, objetivo que se
pretende
alcançar,
problemática
do
objeto
da
pesquisa
e
características
metodológicas.
No capítulo dois, apresentam-se os aspectos teórico-metodológicos e a
problemática da pesquisa. O referencial teórico aborda os temas: comunitarismo,
comunidade e ação-comunitária. O tema chave, biblioteca comunitária, é largamente
debatido, inclusive sobre democratização da informação e formação do hábito de
leitura.
No capítulo três, expõem-se o histórico, as características e perspectivas da
Vila das Torres e o processo de criação da Biblioteca Comunitária. São explanadas
a origem, a trajetória, os atores, as dificuldades e as perspectivas.
O capítulo quatro apresenta a intervenção técnica realizada com vistas à
organização da Biblioteca Comunitária. Apresentam-se as ferramentas: Missão,
Regulamento e Política de Formação e Desenvolvimento de Coleções e descrevemse as etapas da campanha para ampliar o acervo. Também são explanadas as
ações para informatizar o acervo e os serviços básicos: as ferramentas, os recursos
humanos e os procedimentos biblioteconômicos. Ainda, são apresentados o novo
cenário, o perfil do acervo após a informatização e os depoimentos dos membros da
atual diretoria sobre a organização da biblioteca. Finalmente, no capítulo cinco, vêm
as considerações finais.
2
21
ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS E A PROBLEMÁTICA DA
PESQUISA
O trabalho que resultou na presente dissertação foi realizado entre julho de
2010 e agosto de 2011. O objeto de estudo é a Biblioteca Comunitária da Vila das
Torres e seus integrantes, sendo eles o idealizador e criador da Biblioteca e mais
sete pessoas da rede de membros-fundadores, duas delas externas à vila. A
fundamentação teórica é baseada em vários autores que se ocupam em tratar dos
temas “comunitarismo”, “comunidade” e “ação comunitária”. Os temas são
estritamente
relacionados
à
presente
pesquisa,
posto
que
as
bibliotecas
comunitárias são criadas em comunidades carentes. Foram escolhidos para
embasar o trabalho, entre outros, Zygmunt Bauman (2003), Marilena Chauí (1995),
Giovanni Semeraro (2001), Rudá Ricci (2010), Maria Luiza de Souza (1987), Paulo
Sertek (2006), Felipe C. Tavares (2010), Reginaldo Prandi e André Ricardo de
Souza (1998), Francisco P. de Melo Neto e César Froes (2001) e James L.
Barksdale (2008). Dos outros temas, nomeadamente “biblioteca comunitária”,
“democratização da informação” e “formação do hábito de leitura”, o primeiro foi
bastante experimental, haja vista que o subsídio em matéria de produção acadêmica
e número de estudiosos do campo é bastante restrito no Brasil. Para estes temas,
utilizaram-se livros, artigos científicos, dissertações e teses, alguns em meio digital.
Destacam-se os autores Luiz Milanesi (1983, 1986, 2002), Oswaldo Francisco de
Almeida Junior (1997, 2003), Elisa Campos Machado (2005, 2008, 2009), Geraldo
Moreira Prado (2009), Odila C. P. Rabello (1987), Maria das Graças Targino (1991),
James Campbell Jerez (2007), Emir J. Suaiden (2000), Heloisa Maria Vieira (2007),
Rosangela Madella (2010) e Maria de Fátima Oliveira Costa (2011), entre outros.
Para desenvolver o tópico “Biblioteca Comunitária e formação do hábito de
leitura”, utilizou-se material bibliográfico de autores consagrados na área da leitura
como Ezequiel Theodoro da Silva (1986), Marina Celeste Magro (1979), Jean
Foucambert (1994), Frei Betto (2009, 2010), Lucia Pimentel Góes (1991), Regina
Zilberman (1991), Zoaira Failla (2008), Galeno Amorin (2008), Moacyr Scliar (2008),
Jorge Werthein (2008), Jefferson Assumção (2008) e outros.
Sobre a Vila das Torres, a pesquisa bibliográfica e documental resultou em
farto material: trabalhos acadêmicos de especialização, mestrado e doutorado,
artigos em revistas científicas, reportagens em jornais, documentos de órgãos
22
públicos de Curitiba e da Associação de Moradores da Vila das Torres. Entretanto,
um único livro: “Como Ela É”, com depoimentos dos moradores da Vila, de autoria
de Adriane C. Lazaroto, Os autores mais citados são: Sonia Maria Davanso (2001,
2004); Adriane Cristina Lazaroto (2004) e Anne Warth e Fernando Jasper (2004).
Também a COHAB-CT, cuja atuação na Vila é relevante e divulgada em meio digital
e impresso.
Sobre a Biblioteca Comunitária, não foram encontrados livros, artigos
científicos, dissertações e teses a respeito. Assim, para reconstituir a sua criação e
trajetória utilizaram-se informações colhidas na pesquisa de campo e reportagens e
notícias em jornais.
A pesquisadora optou não só por conhecer e apresentar a realidade da
Biblioteca Comunitária como também realizar uma intervenção técnica, cujas ações
visavam solucionar a problemática da Biblioteca Comunitária: coleção infantil e
infanto-juvenil reduzida e acervo não organizado e informatizado. Contribuíram na
etapa pratica os autores: Elisa Campos Machado (2008), Oswaldo Francisco de
Almeida Junior (1997, Maria Rosa Sarti, Imalda Vicentini e Luiz Atílio Pimple (1985).
Também, Wanda Maria Maia da Rocha Paranhos (2004) e Elysio M. S. de Oliveira
(2011).
A metodologia utilizada na elaboração da dissertação dá-se em função das
ações expressas nos seus objetivos que visam solucionar a problemática
apresentada.
Minayo (2008, p. 47) ensina que a metodologia é “[...] o caminho do
pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade”. E Demo (1987)
coloca que a metodologia é o instrumento para desenvolver a pesquisa que não é
totalmente ensinada porque não é apenas técnica, é também arte, pois o cientista
criativo, tanto pode realizar a pesquisa conforme ordenação estabelecida, quanto na
forma inversa.
A abordagem desta dissertação é qualitativa em função de seus objetivos e,
especialmente, pelo trabalho com informações apreendidas do próprio espaço e
fornecidas por pessoas diretamente envolvidas no processo. Essa forma de
abordagem possibilita uma visão geral do objeto e dos atores sociais, ou seja,
ambienta-se numa realidade a ser interpretada, utilizando-se para a coleta dos
dados instrumentos que possibilitam a livre expressão do pensamento tendo no
pesquisador o instrumento chave. Para Minayo (2008, p.21), a abordagem
23
qualitativa “[...] trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das
aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes.” Demo (2000, p. 159), ao
referir-se à abordagem qualitativa, diz que:
[...] caracteriza-se pela abertura das perguntas, rejeitando-se toda resposta
fechada, dicotômica, fatal. Mais do que o aprofundamento por análise, a
pesquisa qualitativa busca o aprofundamento por familiaridade, convivência,
comunicação.
A pesquisa também tem um caráter investigativo de cunho indutivo, por se
utilizar do levantamento bibliográfico e documental para o seu embasamento.
Quanto à sua natureza, é uma pesquisa aplicada, por gerar conhecimentos para fins
práticos. Rodrigues (2006, p. 36) menciona que a pesquisa aplicada: “[...] objetiva a
produção de conhecimentos que tenham aplicação prática e dirigida à solução de
problemas reais específicos”. A característica desta pesquisa é a sua aplicação às
diferentes necessidades humanas (OLIVEIRA, 2007). E para Barros e Lehfeld (2007,
p. 93), a sua finalidade é “[...] operacionalizar os resultados do trabalho.” Eles
explicam:
A ‘pesquisa aplicada’ é aquela em que o pesquisador é movido pela
necessidade de conhecer para a aplicação imediata dos resultados.
Contribui para fins práticos, visando à solução mais ou menos imediata do
problema encontrado na realidade.
Enquanto na pesquisa teórica o pesquisador está voltado para satisfazer a
uma necessidade intelectual de conhecer e compreender determinados
fenômenos, na pesquisa aplicada, ele busca orientação prática à solução
imediata de problemas concretos do cotidiano.
A clara exposição dos autores sobre a questão valida a escolha por este tipo
de metodologia para a presente dissertação uma vez que os seus objetivos indicam
conhecer, para em seguida realizar ações cujo resultado seja um novo cenário, que
favoreça e facilite o encontro do livro com o leitor.
O ponto de partida para início deste trabalho foi a pesquisa de campo, cuja
etapa inicial deu-se em agosto e setembro de 2010, através da observação,
conversas informais e entrevistas semi-estruturadas, com perguntas abertas para
explorar e esclarecer o processo de criação e trajetória da Biblioteca Comunitária e,
oportunamente, colheu-se também informações sobre a Vila das Torres. As
entrevistas, nesse período, foram realizadas com seis pessoas, todas envolvidas
diretamente com a biblioteca desde sua fundação.
Nos meses seguintes, de setembro de 2010 a abril de 2011, mais quatro
pessoas foram entrevistadas, totalizando dez, sendo dois externos à Vila. Essas
24
entrevistas possibilitaram complementar as informações iniciais, subsidiando a
realização dos trabalhos teóricos e práticos que vinham sendo desenvolvidos. Os
roteiros para as entrevistas eram diferenciados e foram elaborados conforme o
status dos entrevistados. Utilizou-se o Roteiro A (vide apêndice A) para entrevistar o
idealizador e criador e um dos fundadores da Biblioteca Comunitária. Esse fundador
ajudou a retirar os primeiros livros do lixo, portanto, conhece bem a sua história e
trajetória até os dias de hoje.
O Roteiro B (vide apêndice A) para quatro fundadores, também voluntários
com atuação direta e constante, mais a atendente, contratada e moradora da Vila.
O Roteiro C (vide apêndice A) para pessoas que exercem ou exerceram
atividades na Vila, conhecem a cultura da comunidade e muitos moradores, são
eles: a presidente de uma ONG, uma professora aposentada de uma das escolas
públicas da Vila e um engenheiro da COHAB-CT com atuação na Vila, portanto, um
morador da Vila e dois externos.
As entrevistas versavam sobre o contexto histórico da Biblioteca
Comunitária, trajetória, objetivos, organização, acervo, usuários, serviços à
comunidade, dificuldades, perspectivas e importância como espaço de inclusão
social, informacional e cultural para a comunidade.
Durante as entrevistas e mesmo nas conversas informais, constataram-se
depoimentos contraditórios, sendo necessário realizar averiguações posteriores.
Sobre alguns fatos, datas e nomes, retornou-se a conversar com as pessoas para
esclarecimentos.
Tornou-se comum, durante as entrevistas ou conversas informais sobre a
Biblioteca Comunitária, as pessoas falarem também sobre a Vila das Torres:
histórico, trajetória, conflitos e demais assuntos que dizem respeito à vida da
comunidade sendo as informações aproveitadas para contextualizar o item referente
à Vila das Torres. A duração prevista, de cinqüenta minutos, no máximo, em
nenhuma ocorreu nesse tempo; ou foi interrompida por algum imprevisto e
continuada em outro dia ou estendeu-se por mais de uma hora e meia, passando a
outros
assuntos.
Observou-se
que
nas
conversas
informais
obtinham-se
informações relevantes, ditas em voz baixa, porém úteis. Os entrevistados foram
esclarecidos sobre a finalidade da pesquisa, o não recebimento de qualquer
benefício em troca das informações e o consentimento para a sua realização.
25
Quase todas as entrevistas contaram com equipamento de áudio para captar
as informações e dados com precisão. Algumas foram realizadas conforme a
oportunidade se apresentou nas várias visitas à Vila, sendo as informações
anotadas e posteriormente transcritas. Uma começou pessoalmente e foi concluída
por telefone devido a pouca disponibilidade de tempo por parte da pessoa e
relevância dos dados para a fase da pesquisa.
As informações obtidas com as observações, entrevistas, conversas
informais e pesquisa em jornais, resultaram na formação do histórico da Biblioteca
Comunitária e propiciaram conhecer a sua realidade, estabelecer os objetivos e
planejar as ações para solucionar a sua problemática. Também, serviram de
subsídios para descrever as características da Vila das Torres e das pessoas.
Visando preservar a memória dos fatos e identidade dos agentes envolvidos
na sua criação e desenvolvimento, optou-se por apresentar na dissertação tanto
nomes como imagens, mediante autorização. A pesquisa documental e a
bibliográfica subsidiaram o trabalho de campo e auxiliaram no desenvolvimento do
referencial teórico e da contextualização. Durante o período em que a dissertação foi
realizada,
todas
as
oportunidades
para
obtenção
de
informações
foram
aproveitadas, de conversas informais às notícias veiculadas nos diversos meios de
comunicações. Aproveitaram-se informações de profissionais como taxistas e
comerciantes que residem ao lado da Vila e também de outros profissionais que
atuaram ou ainda atuam na Vila. Essas pessoas conhecem os moradores, seus
problemas e necessidades, bem como a realidade vivenciada na área.
Os artigos de jornais e noticiários, impressos, falados e televisionados,
possibilitaram complementar informações obtidas com as entrevistas e checar datas
e fatos passados e atuais da comunidade. Enfim, todos estes materiais e subsídios
foram essenciais para revelar os atores e os cenários e apontar a forma de conduzir
os trabalhos na Biblioteca com segurança tanto para a pesquisadora como para a
equipe encarregada das atividades técnicas uma vez que se trata de uma
comunidade considerada violenta. Aqui pode-se citar Gil (2008, p.5), para o qual
“nas ciências sociais o pesquisador mais que um observador objetivo: é um ator
envolvido no fenômeno.” Ressalta-se o fato da pesquisadora ter conhecido a
Biblioteca Comunitária e seus dirigentes antes de decidir realizar o presente estudo,
pois o SiBi – UFPR, no qual ela trabalha, passou a colaborar na formação do seu
acervo.
26
Assim, com informações suficientes relacionadas aos agentes, usuários e
acervo da biblioteca comunitária, a pesquisadora deu início à etapa prática: a
intervenção técnica demandada pela problemática da Biblioteca Comunitária. O
início deu-se em outubro de 2010 com a realização e apresentação aos dirigentes
das seguintes ferramentas: Missão, Regulamento e Política de Formação e
Desenvolvimento de Coleções da Biblioteca Comunitária, sob a forma de proposta
(APÊNDICE B).
Paralelamente realizou-se uma campanha para arrecadar livros infantis e
infanto-juvenis a fim de ampliar a coleção destinada às crianças e adolescentes e,
na sequência, a selecionar, classificar, catalogar e informatizar os livros, resultando
no trabalho de atualização de todo o acervo da Biblioteca.
A campanha para arrecadar livros realizou-se no período de 23 de setembro
a 12 de outubro de 2010 pela autora da dissertação com a colaboração de amigos.
A cooperação deu-se na arte final dos dois cartazes utilizados: um para solicitar
material e divulgar a campanha e o outro para agradecer e informar o resultado.
Também para recolher e levar o material doado à Biblioteca Comunitária.
Para ilustrar os cartazes com fotografias das crianças que freqüentam a
Biblioteca, Valdimê Alves Batista Ferreira, na época uma das pessoas a frente da
Biblioteca Comunitária e ODPH, encarregou-se de obter dos responsáveis a
autorização para o uso das respectivas imagens.
Para processar tecnicamente e informatizar o acervo, a pesquisadora
contratou uma bibliotecária e duas auxiliares, permanecendo na coordenação dos
trabalhos, que foram realizados no período de dezembro de 2010 a maio de 2011.
Os procedimentos e os resultados das ações referentes à intervenção técnica
encontram-se no tópico quatro. Os dados referentes ao acervo são da segunda
quinzena de junho do ano em curso
As fotografias que ilustram a dissertação, aproximando o texto da realidade,
foram realizadas ao longo dos trabalhos e algumas fornecidas por um dos
fundadores, conforme indicado. Aquelas realizadas após o preparo técnico e
informatização, mostram os livros com as etiquetas nas lombadas, bem como a
sinalização nas bandejas - números de classificação e assuntos - para orientar os
usuários (FIGURA 45). A apresentação do novo cenário à comunidade externa e a
imprensa ocorreu no dia 19 de agosto no mesmo evento em que se comemorou o
aniversário de dois anos da Biblioteca Comunitária
27
2.1 COMUNITARISMO
O comunitarismo é uma corrente de pensamento com base no bem comum,
no valor da comunidade, cuja importância reside no social. É sinônimo de mais
poder para a comunidade, é a corrente dos que promovem o coletivo e não o
individual. Esta corrente surgiu no final do século XX, mais precisamente nos anos
1970 nos Estados Unidos como uma reação ao projeto de liberalismo de J. Rawls
lançado em seu livro A teoria da justiça, publicado em 1971 (MACEDO, 2007, p. 2).
Os debates em torno do direcionamento para minimizar as desigualdades no
mundo atual, ou seja, realizar a justiça social na sociedade contemporânea, deram
origem às correntes comunitarista e liberal. Segundo Semeraro (1999, p. 259):
[...] “a onda” comunitarista se apresenta como uma crítica ao individualismo,
da dissolução dos vínculos familiares, comunitários e nacionais, e ataca
toda visão contratualista e mercantilista introduzida na sociedade atual pelo
projeto da modernidade.
Gonçalves (1998, p. 2) explica que os filósofos defensores do comunitarismo
colocam que a teoria
[...] propõe que o indivíduo seja considerado membro inserido numa
comunidade política de iguais. E, para que exista um aperfeiçoamento da
vida política na democracia, se exija uma cooperação social, um
empenhamento público e participação política, isto é, formas de
comportamento que ajudem no enobrecimento da vida comunitária.
Conseqüentemente, o indivíduo tem obrigações éticas para com a finalidade
social, deve viver para a sua comunidade organizada em torno de uma só
idéia substantiva de bem comum.
As teorias comunitaristas reforçam a questão do bem comum, das ações
que fortalecem a vida em comunidade, da solidariedade, da cooperação, valorizam o
grupo, em oposição ao individualismo da teoria liberal que prioriza os direitos
individuais e valoriza o indivíduo. Para os comunitaristas, conforme Tavares (2010,
p. 5461), “[...] os homens são sempre moldados por valores e pela cultura da
comunidade onde vivem [...].” Entretanto, Tavares (2010, p. 5459) menciona que os
liberais
[...] defendem uma teoria fundamentada na filosofia kantiana, onde os
direitos civis devem ser preservados e respeitados. Acreditam na
necessidade de se estabelecer princípios de justiça social que possam lidar
com o pluralismo contemporâneo, mas entendem que tais princípios devem
28
levar em consideração o homem universal, despido de qualquer
característica cultural.
Semeraro (1999, p. 262) explica que as teorias comunitaristas costumam
apresentar-se como propostas solidárias que não visam diretamente ao poder e ao
lucro. Ao contrário, “alimentam uma visão humanitarista, intersubjetiva e integrativa
das relações sociais. Por isso acreditam que os ideais comunitários irão prevalecer,
naturalmente, sobre as leis do mercado e a lógica da política”.
O retorno do comunitarismo à sociedade nos países capitalistas conforme
Macedo (2007, p. 1), “está associado à questão do risco social crescente nas
sociedades modernas, bem como, o desenraizamento do homem cosmopolita.”
Sobre essa questão, Bauman (2003, p. 55, grifo do autor) coloca que o homem atual
pertencente ao “novo cosmopolitismo dos bem sucedidos”, ou seja, pertence à “nova
elite”, que vive a individualidade, parece não precisar e é contra a comunidade. O
autor acrescenta, ainda, que “[...] ’a bolha’ em que a elite cosmopolita global dos
negócios e da indústria cultural passa a maior parte de sua vida é – repito – uma
zona livre de comunidade.”
Entretanto, Bauman (2003, p. 57, grifo do autor) salienta que:
Os ‘poderosos e bem sucedidos’ podem ressentir-se, ao contrário dos
fracos e derrotados, dos laços comunitários – mas da mesma forma que os
demais homens e mulheres podem achar que a vida vivida sem
comunidade é precária, amiúde insatisfatória e algumas vezes assustadora.
Liberdade e comunidade podem chocar-se ou entrar em conflito, mas uma
composição a que faltem uma ou outra não leva a uma vida satisfatória.
Semeraro (1999, p. 260) argumenta que para os comunitaristas “a plena
realização da liberdade ocorre quando os cidadãos estão compromissados com o
bem comum e com a liberdade de todos.” De acordo com Sertek (2006, p. 79), para quebrar os procedimentos que
levam ao individualismo acentuado em função da globalização dos mercados e
competitividade acirrada sem respeito às pessoas, “a participação social vem sendo
estimulada por organismos internacionais, tais como Unesco e ONU”. Ele cita
também o papel do terceiro setor no fomento a integração, solidariedade e solução
de problemas da comunidade e alerta:
A passividade das pessoas, o individualismo, a indiferença ao bem comum,
a falta de conhecimentos para o exercício da cidadania, a concorrência
exacerbada, as dificuldades para constituir grupos de interesse etc, afetam
a qualidade de vida em sociedade.
29
No Brasil, o comunitarismo foi sinônimo de resistência democrática nos anos
da ditadura militar (RICCI, 2010, p. 1). Para Ricci (2010, p. 1-2):
As CEBs inspiravam e reafirmavam a solidariedade mecânica, onde a
consciência coletiva supera a individual, onde um simples olhar é
reconhecido como uma senha pelos membros daquela comunidade, onde a
fidelidade é o que importa como elo de confiança e relacionamento social. O
mundo comunitário é mais objetivo, simples, direto. Mas limita-se a si
mesmo.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) apareceram no Brasil a partir de
1963, primeiro na área rural por iniciativa da Confederação Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) lideradas por padres e freiras e, posteriormente, proliferaram também
nas cidades. A partir de 1975, as CEBs ganharam impulso com os encontros intereclesiais e seu auge deu-se entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, época
das mobilizações populares contra a ditadura militar (PRANDI; SOUZA, 1998).
Segundo Ricci (2010, p. 3), o comunitarismo cristão dos anos 80 acabou
enfraquecido nos anos 90, a partir da Constituição Federal com a instituição do
“‘participacionismo’, ou seja, a cidadania ativa, em que o eleitor possui o direito de
governar com o eleito.”
Colaboraram
também
para
o
seu
desaparecimento
as
garantias
constitucionais e leis instituídas nas áreas da saúde – assistência social, proteção à
criança e ao adolescente que minimizaram o número de cidadãos pobres. Ainda, o
fato de o comunitarismo ser incapaz de elaborar um projeto público e recusar a
política como jogo (RICCI, 2010). Esse autor (2010, p.5) complementa: “o
comunitarismo não deitou raízes no imaginário social ou mesmo nos elementos
constitutivos da representação social dos brasileiros. Nem mesmo dos brasileiros
mais pobres.”
Porém, Semeraro (1999, p. 259) menciona que as práticas liberais
empregadas no Brasil nas últimas décadas do século XX se contrapõem às teorias
do terceiro setor que têm a pretensão de se apresentarem como “um corretivo das
visões liberais tradicionais cujos princípios originários acentuam a excessiva
autonomia do mercado e a burocratização do poder estatal”, gerando distanciamento
perigoso da vida real. Semeraro diz ainda:
[...] há outra corrente hoje que dirige à sociedade civil com um discurso que
visa a recuperar as relações humanas e incentivar a integração social das
pessoas, distanciando-se de qualquer concepção liberal, abstrata e
universalista: o comunitarismo (ou neocomunitarismo).
30
Percebe-se que o debate para melhor nortear a realização da justiça social
pode fazer surgir novas correntes, entretanto, conforme Tavares (2010, p. 5467), [...]
”todas as correntes acreditam na democracia como única forma possível de se viver
em sociedade, de onde pode se extrair que o caminho que leva à justiça pode até
ser tortuoso, mas a direção, ainda bem, está correta.”
2.2 COMUNIDADE
A palavra comunidade, além do significado, guarda sensações. O termo
remete a coisa boa, isto é, ter ou estar em uma comunidade, indica algo bom. De
acordo com Bauman (2003, p. 7), “[...] a comunidade é um lugar ‘cálido’, um lugar
confortável e aconchegante. É um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada,
como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado.” O autor
supracitado (2003, p. 9) menciona, também:
O que essa palavra evoca é tudo aquilo de que precisamos para viver
seguros e confiantes. Em suma, ‘comunidade’ é o tipo de mundo que não
está, lamentavelmente, a nosso alcance – mas no qual gostaríamos de viver
e esperamos vir a possuir.
Para Chaui (1995, p. 296):
Uma comunidade é um grupo ou uma coletividade onde as pessoas se
conhecem, tratam-se pelo primeiro nome, possuem contatos cotidianos cara
a cara, compartilham os mesmos sentimentos e ideias e possuem um
destino comum.
E Fernandes (2002, p. 34) acrescenta que:
[...] a ‘comunidade’ é formada por um conjunto de famílias e circunscreve a
um lugar de moradia. Está perto de casa e, ao menos nos centros urbanos,
longe dos locais de trabalho. Não é assim nos meios rurais, onde casa e
trabalho costumam compor um espaço diferenciado, porém contínuo. Em se
tratando de cidade, no entanto o gosto pela ‘comunidade’ acompanha um
certo distanciamento do assim chamado “mundo do trabalho”.
Conforme Barksdale (2001, p.99), pode-se ainda definir comunidade “como
um agrupamento de indivíduos alinhados em torno de um interesse comum.” Assim,
por comunidade entende-se um grupo de pessoas vivendo em um mesmo local,
tendo o mesmo governo, cultura, história e perspectivas.
Bauman (2003, p. 133), ao mencionar que “somos todos interdependentes
neste
nosso
mundo
que
rapidamente
se
globaliza
e,
devido
a
essa
31
interdependência, nenhum de nós pode ser senhor de seu destino por si mesmo”,
passa a ideia de que, nenhum homem, pode viver bem sem pertencer a uma
comunidade, sem integrar-se, interagir e participar. Embora distintas e sem fronteiras
bem demarcadas, as comunidades são basicamente formadas por cidadãos
comprometidos com um objetivo comum.
Covey (1998, p. 62-63, grifo do autor) sugere quatro elementos para compor
uma comunidade ideal: 1) “Um padrão: bondade centrada em princípios”. As
pessoas procuraram viver de forma íntegra, conforme princípios, respeito à lei e à
ordem. “É uma comunidade de portas abertas e poucas trancas.” Honestidade é
apreciada, roubo, mentiras e trapaças punidas e os problemas sociais reais
centrados “nos princípios de uma visão compartilhada e de uma abordagem
sinérgica.”; 2) “Um coração: visão e direção”. Valor à dedicação, à obediência
verdadeira e não à conformidade. As pessoas são conscientes da importância do
ambiente social para o desenvolvimento econômico, sabem que “os problemas da
comunidade se transpõem para os negócios.” Percebem que os segmentos da
sociedade devem atingir certo nível de independência antes de deslanchar e tornarse independente; “a vitória privada precede a vitória pública.”; 3) “Uma mente:
propósito, missão e unidade, não uniformidade; unicidade, não identidade”. A
comunidade tem uma declaração de missão da comunidade e todos procuram
desenvolvê-la ao longo de um período de tempo; 4) “Igualdade econômica: nenhum
pobre entre eles”. O princípio é que “as comunidades saudáveis e ricas ajudam as
comunidades doentes e pobres.”
Há uma preocupação com o ambiente, com os problemas sociais antes que
eles se disseminem e arruínem toda a sociedade. Covey (2001, p. 64) completa
afirmando que “nenhuma comunidade é perfeita, portanto, nenhum modelo é
perfeito, mas muitos servem de exemplos vivos para a comunidade do futuro.” Ele
cita algumas comunidades: a de Maurício na Costa oriental da África, a nação
indígena Oneida em Wisconsin, Kauai no Havaí e Columbus em Indiana. Na visão
de Gaudiani (1998, p. 71):
Comunidades bem sucedidas compartilham uma história comum e um
conjunto comum de credos tanto quanto partilham um conjunto comum de
metas ou atividades. Seus membros compartilham uma forma de pensar,
um sistema de valores que lhes permite prever e geralmente respeitar as
ações dos outros.
32
Macedo (2007, p. 4) salienta que no Brasil, nos anos de 1970 e 1980, “o
destaque em termos do entendimento de comunidade é dado pelo movimento das
chamadas ‘Comunidades Eclesiais de Base’ da Igreja Católica.” A autora
complementa que devido à redemocratização do país no final dos anos 80, ocorreu
também o declínio das CEBs, acentuando-se nos anos 90 devido à formulação e
execução das políticas sociais públicas.
As comunidades de hoje buscam novos caminhos e novas formas para bem
viver. Nas últimas décadas, com o advento da tecnologia da informação, surgiram as
comunidades virtuais, espaços virtuais destinados à comunicação à distância, que
reúnem pessoas com interesses ou objetivos comuns e que trocam experiências e
informações. As comunidades virtuais se utilizam de fóruns, chats, listas de
discussão, redes sociais, entre outros, aproximando os relacionamentos, em todas
as áreas. Para Rheingold (2001, p. 120-121): Uma comunidade virtual é um grupo de pessoas que pode ou não se
encontrar face a face e que troca palavras e idéias através de BBSs e
redes. Quando essas trocas começam a envolver amizades e rivalidades
entrelaçadas e dão margem à casamentos, nascimentos e mortes reais
unindo as pessoas em um outro tipo de comunidade, elas começas a afetar
as vidas dessas pessoas no mundo real. Como qualquer outra comunidade,
uma comunidade virtual é também um conjunto de pessoas que aderem a
certos contratos sociais (frouxos) e que compartilham certos interesses
(ecléticos). Ela geralmente tem um foco geograficamente local e uma
conexão comum um domínio muito mais amplo.
As comunidades, reais ou virtuais, são agrupamentos de pessoas
interessadas em se comunicar, aprender, participar e espera-se, cooperar. Os
relacionamentos propiciam aos homens maiores conhecimentos sobre si mesmos,
pois, segundo Hesselbein et al (2001, p. 9) “é tão somente em nosso relacionamento
com os outros que conseguimos nos ver com clareza.” E quanto ao futuro da
comunidade no mundo, o autor diz:
A comunidade global do futuro será, na melhor das hipóteses, uma série de
comunidades interdependentes e diversificadas, abrangendo diferenças,
liberando energia e promovendo coesão. Em seu sentido mais amplo, será
fortalecida pela saúde das muitas comunidades menores que compõem o
todo. Os habitantes de cada comunidade definem a comunidade geral.
De uma forma ou de outra, as pessoas unem-se em grupo para realizar o
que não conseguem individualmente.
33
2.3 AÇÃO COMUNITÁRIA
Ação comunitária conforme Souza (1987, p.28) “é uma prática de ajuda
mútua e cooperação que se articula e se opera a partir da comunidade.” Ainda
segundo Souza (1987) há diferença entre a ação comunitária como processo
espontâneo e como processo técnico metodológico. Como processo espontâneo, a
ação comunitária ocorre na comunidade em decorrência de problemas comuns de
cunho social ou causado pela natureza. Para enfrentar esses problemas e
solucioná-los, as pessoas buscam a cooperação para resolver essas dificuldades
comuns, que afetam a comunidade. Como processo técnico metodológico, a ação
comunitária acontece quando é utilizada na cooperação e organização das camadas
populares. Por essa razão, certas formas de cooperação são contraditoriamente
também buscadas, dando-se a elas o nome de ação comunitária. Souza (1987, p.
30, grifo do autor) enfatiza que:
[...] a ação comunitária conserva a característica básica da sua origem, que
é a organização e cooperação conscientes para enfrentamento de
problemas e objetivos comuns. Nisto também se distingue de outros
processos sociais, fazendo-se esses elementos básicos para uma reflexão
crítica sobre as ações ditas comunitárias, mas que, na verdade, têm como
conseqüências a dissimulação dos problemas reais da população e o seu
envolvimento em interesses e objetivos que em essência são antagônicos.
Entretanto, no âmbito empresarial contemporâneo, como exercício da
responsabilidade social nas empresas, Melo Neto e Froes (2001, p. 29, grifo dos
autores) comentam que:
As ações comunitárias correspondem à participação da empresa em
programas e campanhas sociais realizadas pelo governo, entidades
filantrópicas ou por ambas. Tal participação ocorre por meio de doações,
ações de apoio e trabalho voluntário de seus empregados.
Dentre as ações comunitárias mais comuns estão à adoção de escolas,
creches, postos de saúde, praças e jardins, ruas e avenidas, doações para
campanhas sociais.
Diferentes
das
ações
comunitárias,
os
projetos
sociais
são
empreendimentos voltados à solução de dificuldades enfrentadas por grupos sociais,
cujos problemas, se não resolvidos no devido tempo, agravam-se e acabam por
exigir soluções imediatas. Nesse contexto, os autores apresentam um quadro
sintetizando as diferenças entre ação comunitária e projetos sociais como prática da
responsabilidade social nas empresas:
34
AÇÕES COMUNITÁRIAS
PROJETOS SOCIAIS PRÓPRIOS
Ação indireta sobre a comunidade.
Ação direta sobre a comunidade.
Transferência/repasse de recursos para
entidades.
A gestão é feita por terceiros.
Aplicação direta de recursos.
São ações de doação e apoio.
São ações de fomento ao
desenvolvimento social.
Geram retorno social e de mídia
institucional.
Geram retorno tributário, social e
institucional.
Não demandam ações de marketing
social.
A gestão é feita pela própria empresa.
Demandam ações de marketing social
QUADRO 1 – Diferenças entre ação comunitária e projetos sociais
FONTE: Melo Neto e Froes (2001)
As transformações sócio-econômicas das últimas décadas afetaram
profundamente o comportamento das empresas, que até então visavam somente o
lucro. Novas medidas para o setor – como maior transparência nos negócios –
obrigaram as empresas a adotar uma postura mais ética, promovendo o
desenvolvimento sustentável pelo exercício da responsabilidade social cuja
concretização se dá também nas ações comunitárias. Nesse contexto Pinchot (1998,
p. 135) assegura que:
Para que uma organização consiga prosperar na era da informação, seus
membros devem ter um forte senso de comunidade que despedace as
barreiras da burocracia e os motive a fazer doações de tempo e
conhecimento através das fronteiras da organização.
A ação comunitária é o resultado do esforço cooperativo de uma
comunidade em articular-se para resolver seus problemas. Para Souza (1987, p.
30), “essa força social se faz presente dentro e fora da comunidade tendo como
aliados todos aqueles comprometidos com seus interesses fundamentais.” Tornouse comum, em nosso país, as instituições públicas, particulares, religiosas,
empresas e outras se engajarem em campanhas e outras práticas que beneficiam
comunidades e pessoas que buscam, na cooperação, a oportunidade de satisfazer
suas necessidades e objetivos. Chamam atenção iniciativas individuais, muitas
vezes de pessoas menos favorecidas, pela criatividade e importância que suas
ações adquirem para a comunidade. É relevante a quantidade de pessoas que
cooperam com as ações comunitárias em todos os lugares, como se constata pela
35
mídia sempre que uma nova tragédia acontece, não importando a causa. Sertek
(2006, p. 80) alerta que esse não é um fenômeno recente:
O voluntariado não é um fenômeno novo, sempre fez parte do
comportamento civilizado. O que é novo é o enfoque estratégico da
atividade de voluntariado como meio para ampliar os recursos, abordar os
problemas mundiais e melhorar a qualidade de vida de todos.
Toda pessoa tem a oportunidade de contribuir e fazer a diferença no papel
de voluntário e tem alguma liderança ou responsabilidade na melhoria da
comunidade (COVEY, 1998). Todas as iniciativas, tanto as que partem da própria
comunidade como as vindas de fora atraídas por ela, têm sempre o mesmo objetivo:
acabar com a pobreza e fazer com que as comunidades assumam cada vez mais
uma posição de protagonistas dos seus próprios interesses e de seu próprio destino.
2.4 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA
2.4.1 Origem, conceitos, objetivos e características
A história da biblioteca, de forma ampla, retrata a evolução pela qual passou
o mundo. Ela não só acompanhou e armazenou o conhecimento como também se
utilizou dele para evoluir, acompanhar o progresso da humanidade através dos
tempos. Para Milanesi (2002, p. 77), a biblioteca definiu-se como acervo durante
séculos. A coleção de impressos preservava o conhecimento da humanidade, sendo
transferida de geração a geração com as devidas atualizações. Com o tempo,
surgiram outros tipos de materiais - revistas e jornais e, posteriormente, os
audiovisuais. No século XX, as mudanças acentuaram-se e o acervo deixou de ser a
razão da biblioteca. Surgiram os serviços de informações, voltados aos grupos
específicos e a transferência do real para o virtual. Isso fez o livro e seu conteúdo
ser depositado em máquinas e utilizado ao infinito. O autor diz ainda que “a
biblioteca, para exercer a sua função, deixa de ser o acervo milenar passivo e passa
a ser um serviço ativo de informação.” Nas últimas décadas, o mundo da informação
encontrou novos caminhos, porém, conforme Machado (2005, p. 115):
A grande transformação tecnológica de nossa era não superou a
importância da leitura como um instrumento fundamental para a inclusão
36
social, é um fator preponderante para o desenvolvimento social, cultural e
econômico da humanidade. A leitura hoje é fruto de vários suportes, que
vão desde a permanência do papel até os mais variados artifícios virtuais, e
a biblioteca contemporânea não pode prescindir de nenhum destes
instrumentos para realizar o seu papel formador.
A história da educação brasileira demonstra que o Estado pouco contribuiu
para o desenvolvimento das bibliotecas e da leitura. Suaiden (2000, p. 55) diz:
A reforma do ensino, elaborada seguidas vezes na história brasileira, nunca
deu prioridade a questão da leitura e da biblioteca. As famílias que
possuíam melhor poder aquisitivo adquiriam os livros que consideravam
importantes no processo de educação de seus filhos.
A Lei de Diretrizes e Bases, promulgada no início dos anos de 1970,
decretou oficialmente a pesquisa nas escolas de primeiro e segundo graus e a
biblioteca passou a ser procurada pelos estudantes. Entretanto, como os
professores não estavam preparados para utilizar a pesquisa como instrumento
pedagógico e também não tinham a pesquisa como hábito, os alunos apenas
passaram a realizar cópias de livros e de verbetes de enciclopédias. Pretendeu-se
mudar, por decreto, o que só a prática, ao longo do tempo, poderia conseguir
(MILANESI,1983; ALMEIDA JUNIOR, 1987).
A partir da década de 1970, tiveram início, no Brasil, os movimentos
comunitários, a formação de associações e as articulações em torno dos direitos à
cidadania. Era, conforme Rabelo (1987, p. 32), “[...] a ação das comunidades
eclesiais de base (CEBs) e suas pastorais, que passam a assessorar e incentivar
movimentos comunitários.” Esses movimentos populares se fortaleceram nos anos
seguintes com a redemocratização do país, com reflexos em todas as áreas. Este
novo tempo motivou mudanças na biblioteca e nos profissionais da informação,
conforme explicação e advertência de Silva (1986, p. 2):
A biblioteca brasileira passa por um momento de profundas transformações,
acompanhando o movimento em direção à democratização plena da
sociedade. E não poderia deixar de ser assim à medida que
questionamento e critica, quando conquistados pela população e uma vez
expressos, afetam indistintamente a todos, pressionando velhas estruturas
e impondo a necessidade de mudanças. Quem não sair da toca, quem não
for à luta, quem não se sensibilizar para as necessidades da nova ordem
social, vai ficar “balangando o beiço” e é bem possível que jamais fique
curado dessa epidemia chamada “alienação”.
A biblioteca pública manteve-se alheia à comunidade conforme alguns
autores, porém, seu conceito e objetivos envolvem a comunidade. De acordo com
Prado (1992, p. 21):
37
As bibliotecas públicas são instituições básicas para o processo de
educação, cultura e informação de um povo. Seus objetivos principais são:
estimular, nas comunidades, o hábito de leitura e preservar o acervo
cultural.
Entretanto, a biblioteca pública, como vinha sendo conduzida pelos
profissionais da informação e poder público, não cumpria o seu papel integralmente.
Para estudiosos da área, o problema residia na sua forma tradicional de atuação,
caracterizando-se pela não interação com a comunidade, conforme relata Almeida
Junior (1997, p. 57):
Os textos publicados sobre bibliotecas públicas insistem em entendê-la
como desvinculada da população, com atividades, trabalhos, serviços e, até
atitudes que não atendem a comunidades a qual deve servir. Descrevem a
biblioteca como uma instituição voltada para si mesma; passiva,
acomodada; atendendo apenas uma íntima parcela da sociedade.
Esse cenário, entretanto, começou a mudar a partir do final dos anos 1960 e
início dos 1970, quando surgem propostas de mudanças e transformações, que
foram aceitas por poucas bibliotecas públicas da época. Dentre as propostas de
bibliotecas públicas com a pretensão de atuar de maneira diversa da biblioteca
pública tradicional, inclusive com nova postura e concepções de mediação da
informação, surgiram bibliotecas alternativas dentre as quais a comunitária
(ALMEIDA JUNIOR, 2003). O objetivo era mudar a forma de atuação da biblioteca
pública, porém mantendo as suas concepções básicas.
Para Rabelo (1987, p. 40), o modelo de biblioteca pública tradicional
implantada em nosso país não conseguiu aproximar a população da biblioteca
porque era autoritária, centralizadora, “de cima para baixo”. Era uma biblioteca ideal
só no imaginário do bibliotecário, conflitando com o real da sociedade que fez surgir
as bibliotecas populares, estruturadas de ”baixo para cima”. Rabelo (1987, p. 41)
explica ainda:
A idéia de biblioteca popular, e sua prática, aproximou a biblioteca das
camadas populares, procurou estruturá-la de <<baixo para cima>>, criou
condições para torná-la participativa. A biblioteca passou a acompanhar seu
tempo, inseriu-se na história, ofereceu uma contribuição renovadora para a
área.
O termo “biblioteca comunitária” apareceu na literatura da área, pela primeira
vez em 1978, em um artigo de Carminha Nogueira de Castro Ferreira com o título
“Biblioteca Pública é Biblioteca Escolar?” Tal artigo foi publicado na Revista
Brasileira de Biblioteconomia e Documentação (ALMEIDA JUNIOR, 1997).
38
Atualmente o termo biblioteca comunitária é também usado como sinônimo
de biblioteca popular e teve sua origem em substituição ao termo “biblioteca
popular”, com o objetivo de suavizar as propostas dessas bibliotecas, tornando-as
mais aceitáveis pela classe dominante. O termo foi designado para as que atuavam
junto aos segmentos mais pobres das grandes cidades, em bairros da periferia; na
prática, em nada diferenciando das públicas tradicionais (ALMEIDA JUNIOR, 1997).
O termo “biblioteca comunitária”, de acordo com Machado (2008) vem sendo
utilizado pelo poder público, sociedade civil e contexto acadêmico como sinônimo de
biblioteca pública ou popular. O termo biblioteca comunitária carrega, além de
significados e sentimentos, ideologias assim como o termo popular relacionado a
biblioteca expressa o desejo de trabalhar, de disponibilizar serviços. Esses termos
são empregados na literatura para qualificar uma biblioteca, dependendo da época,
localização e ideologia. Entretanto, Machado (2008, p. 62) considera o termo
biblioteca comunitária
[...] mais apropriado para identificar o que consideramos ser
empreendimentos sociais que surgem do desejo e da necessidade de um
determinado grupo de pessoas em ter acesso ao livro, à informação e à
pratica da leitura, num real exercício de cidadania.
Na reflexão em torno do termo “biblioteca popular”, percebe-se que não se
refere a uma determinada classe social, como os trabalhadores e, sim, para toda a
população. Como também o termo “biblioteca comunitária” remete à comunidade,
participação e solidariedade.
Para Almeida Junior (1997, p. 107) a biblioteca comunitária não é um tipo
específico de biblioteca. Ela possui os mesmos objetivos e geralmente oferece os
mesmos serviços que a pública tradicional. Ele explica:
O adjetivo comunitário estaria sendo empregado com o intuito de destacar
essa proposta de outras tantas existentes, tornando-a mais atraente,
inclusive para a sociedade que, em função dessa nova designação, pode
imaginá-la tratando-se de uma instituição diferente da biblioteca pública
sobre a qual já possui um estereótipo formado. Assim a biblioteca
comunitária passaria para a sociedade, por uma nova entidade, não
carregando preconceitos e idéias preconcebidas que prejudicariam sua
atuação.
Por outro lado, Machado (2009, p. 89-90) argumenta que as bibliotecas
públicas e comunitárias diferenciam-se por diversos fatores:
[...] a biblioteca comunitária como se apresenta hoje na sociedade brasileira,
pode ser considerada um outro tipo de biblioteca, pois vem sendo criada
seguindo os princípios da autonomia, da flexibilidade da articulação local, o
39
que amplia as possibilidades de atuação e de inserção na sociedade. Outro
fator que nos leva a considerá-las diferente é pela forma de atuação estar
muito mais ligada a ação cultural do que aos serviços de organização e
tratamento da informação. Estes princípios podem ser considerados
qualidades essenciais destas bibliotecas, os quais as diferenciam das
demais, tornando-as únicas e que, destroem sua essência.
Referindo-se ao conceito de biblioteca comunitária, Machado (2009, p. 90)
enfatiza: “[...] no Brasil remete a uma categoria de entidades que possui o mesmo
significado, ou seja, espaços físicos abertos ao público local, de acesso à
informação e às diversas formas de leitura, onde a ação cultural é fortemente
implementada.”
No Brasil, as bibliotecas comunitárias tornaram-se conhecidas somente
depois da ditadura militar ou mais precisamente nas últimas duas décadas (PRADO,
2009). Embora recentes, todos os dias tem-se notícia de novas bibliotecas
comunitárias sendo criadas em comunidades que clamam pela atenção do poder
público. Porém, estas são ainda insuficientes, dadas as condições de exclusão
social em nosso país. Ocasionalmente, elas contam, com o apoio da Igreja, do
Terceiro Setor e das instituições públicas ou privadas.
Em 2006, o Instituto Ecofuturo contabilizou a existência de aproximadamente
nove mil centros de leitura no país, construídos por associações de trabalhadores,
igrejas e organizações de bairro (VIEIRA, 2006).
As comunidades nas quais essas bibliotecas comunitárias surgem
caracterizam-se pela exclusão social; são carentes na sua infraestrutura, no
atendimento a saúde, educação, cultura, esporte, lazer e outros fatores necessários
à qualidade de vida. Localizam-se em bairros e vilas próximas às grandes cidades
ou em cidadezinhas distantes. As bibliotecas comunitárias ali instaladas são frutos
da iniciativa e criatividade de pessoas ou grupos organizados que lutam pela
igualdade e justiça social e neste local percebem um clima favorável, de
receptividade e cooperação para instalar um projeto dessa natureza. Segundo
Jesus, (2007, p. 2-3):
Bibliotecas comunitárias são instituições voltadas para disseminar
informação e cultura em locais de carência econômica. Na chamada
sociedade da informação, ainda existem pessoas desinformadas, não pela
opção de não quererem fazer parte desse processo, mas porque se vêem
privadas do direto de participação. Isso se deve ao fato de que a informação
só está acessível a quem pode pagar por ela, pois a informação está
contida em suportes informacionais como: Internet, livros, revistas, etc., cujo
valor ultrapassa o poder aquisitivo de grande parcela da população.
40
As comunidades carentes são cerceadas no seu direito de acesso a
serviços, bens materiais, culturais e informacionais e a biblioteca comunitária, ao
democratizar a informação, visa agregar novos conhecimentos às pessoas,
minimizando a exclusão social e possibilitando melhores oportunidades. Costa
(2011a, p. 5) endossa essa argumentação ao dizer:
O objetivo que essa biblioteca pretende atingir é proporcionar a leitura a
toda a comunidade e dar uma contribuição ao indivíduo, integrando-o no
contexto sócio, político e cultural, com condições elevar o nível da
população, principalmente as mais desfavorecida visando enriquecer as
discussões a respeito da sobrevivência humana, que possam esclarecer e
colaborar com empenho as necessidades e interesses informacionais de
seu público.
As bibliotecas comunitárias constituem espaços de interação, integração e
convivência para a comunidade ao disponibilizar produtos e serviços de interesse e
adequados a sua real necessidade e demanda. A biblioteca comunitária é criada
pela comunidade, destina-se a ela e deve responder aos seus questionamentos;
deve formar o hábito de leitura, motivar para a reflexão, pesquisa e lazer na forma
de leitura, atividades culturais e outras que desenvolvam suas potencialidades,
proporcionando uma nova visão do mundo, contribuindo para melhorar a sua
condição de ser humano e cidadão.
Políticas públicas de educação, cultura e informação continuam ausentes em
muitas comunidades, excluindo cidadãos do seu direito de acesso ao conhecimento,
que é o passaporte para uma vida melhor. As bibliotecas comunitárias lutam com
dificuldades, na formação de um acervo de qualidade, na organização, atualização,
disseminação e disponibilização à comunidade. Conforme Costa (2011, p. 9), “a
instalação e manutenção competentes das bibliotecas continua sendo uma
estratégia ímpar na realização do homem enquanto cidadão.” A biblioteca
comunitária é um espaço social de cultura, informação e integração cuja proposta é
alterar pensamentos e comportamentos, imprimindo uma nova mentalidade à
comunidade.
41
2.4.2 A biblioteca comunitária e a democratização da informação
Conforme Manifesto da IFLA/UNESCO (1994):
A liberdade, a prosperidade e o desenvolvimento da sociedade e dos
indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando
os cidadãos estiverem na posse da informação que lhes permita exercer os
seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade. A
participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem
tanto de uma educação satisfatória, como de um acesso livre e sem limites
ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação.
A Constituição brasileira (BRASIL, 1998, p. 6), em seu art. 5º, inciso XIV,
determina: “É assegurado a todos o acesso à informação [...].” O cidadão tem os
seus diretos garantidos, tanto por Organizações internacionais como pela Carta
Magna; resta, entretanto, que sejam cumpridos, que todos possam ir à luta em
igualdade de condições, buscando seus direitos, a compreensão dos seus deveres,
contribuindo para o desenvolvimento de sua comunidade e de seu país. De acordo
com Targino (1991, p. 155), “a informação é um bem comum, que pode e deve atuar
como fator de integração, democratização, igualdade, cidadania, liberdade,
dignidade pessoal.” As bibliotecas públicas tradicionais incorrem em falhas,
contribuindo na exclusão do cidadão. Elas não alcançam os objetivos a que se
propõem no que diz respeito à democratização da informação, ou seja, possibilitar o
acesso para todos de todo tipo de informação, porém, os profissionais dessas
bibliotecas discordam. Para Almeida Junior (2003, p. 77) há “um fosso entre o
discurso e a prática” e, ao se referir à formação do acervo e atendimento, acrescenta
que
[...] percebe-se que o trabalho e a preocupação dos profissionais estão
voltados para uma “média de interesse e de necessidade dos usuários”,
levantada a partir de uma idealização do público, de uma pré-concepção
dos usuários. Não são feitos estudos de usuários ou de comunidade para
definir o perfil daqueles que utilizarão a biblioteca. Parte-se, ao contrário, de
uma idéia de usuário presente na literatura ou em estudos desenvolvidos
por outras bibliotecas.
No que diz respeito às Bibliotecas Comunitárias, Almeida Junior (2002, p.
77) entende que “[...] principalmente por trabalharem e determinarem o público que
servirão, podem focar suas ações especificamente para eles, inclusive introduzindo
serviços diferenciados e direcionados para esses usuários.”
42
Para Costa (2011a, p. 2), a democratização da informação só existe quando
o acesso é para todos, indistintamente: público, facilitado, disponibilizado de várias
maneiras e suportes:
A democratização da informação acontece quando o acesso ao
conhecimento é facilitando para todos, com biblioteca, centros de cultura
públicos, possibilitando palestras abertas a comunidades diversas,
exposições de livros, além de ações mais amplas, variadas, que contribuem
para a conscientização e engrandecimento do povo [...].
Costa (2011a, p.6) enfatiza ainda que a biblioteca deve ser um espaço
atrativo para o usuário, onde ele se sinta acolhido:
Acredita-se que a busca pela biblioteca é a busca pelo crescimento,
principalmente através de livros, e por isso ela deve está dotada de espaços
receptivos, proporcionando momentos de prazer, tornando uma relação de
cumplicidade entre livro leitor, serviços, acervos, e público em geral,
disponibilizando a informação em qualquer suporte (tradicional ou virtual)
visando o bem estar e a satisfação da comunidade.
E segundo Almeida Junior (1997, p. 59), a democratização da informação só
existe, de fato, quando toda a população tem real acesso a ela, ou seja,
[...] o acesso somente se dá quando o usuário consegue entender, apropriase do conteúdo da informação, mesmo que integralizando essa informação
ao seu conhecimento, a partir do seu enfoque, a partir do seu ponto de
vista, a partir do seu interesse. O acesso, portanto concretiza-se não pelo
simples e inócuo contato do usuário com um suporte de informação; ao
contrário, é preciso e necessário que o conteúdo, levando-o a relacioná-lo
com seu conhecimento e permitindo-lhe um posicionamento e entendimento
do mundo, da sociedade e das relações sócias, diferenciando daquele que
possuía antes do acesso àquela informação.
Nesse sentido, a biblioteca comunitária é um instrumento inclusivo por
formar novos leitores e melhorar as condições dos analfabetos funcionais,
possibilitando a esses cidadãos melhores oportunidades pelo acesso a informações
no seu dia a dia, tornando-os aptos a buscar melhores oportunidades, a interagir, a
integrar-se e participar do mundo que os cercam. Entretanto, para a formação do
hábito de leitura, explica Campbell Jerez (2007, p. 12, tradução nossa), a
complementação entre biblioteca e educação se faz necessária:
A biblioteca por si só não é capaz de fomentar o hábito de leitura em uma
comunidade. Necessita do sistema educativo formal e informal para que
suas ações a favor do hábito leitor tenham o êxito desejado e de fato se
converta no complemento do sistema educativo formal.
Em nosso país, nas últimas décadas, a educação recebeu significativa
atenção por parte do poder público. Entretanto, os governantes continuam em dívida
43
com grande parcela da população, que contínua desassistida no que diz respeito à
educação formal de qualidade, o que produz índices ainda elevados nas taxas de
analfabetismo e analfabetismo funcional. Essa parte da população, geralmente,
encontra-se no nicho populacional com menor poder aquisitivo. Conforme Costa
(2011, p. 08),
O silêncio a esse respeito por parte das autoridades e lideranças não é mais
aceitável, principalmente nos segmentos de educação e cultura, que podem
contribuir fortemente na formação do infanto-juvenil, desde as creches,
escolas e bibliotecas, pelo que seria possível afastar o jovem e a criança da
marginalidade, acabando ou reduzindo a violência e a desventura da
delinqüência.
Targino (1991, p. 155) assegura que a educação infantil
[...] está diretamente vinculada à concepção de cidadania, pois o objetivo da
educação durante a infância é formar o adulto em perspectiva.
Consideraríamos não o direito da criança à escola, mas o direito do cidadão
adulto ter sido educado e informado. [...] Tudo isto dentro de um processo
global de desenvolvimento de capacidade física, intelectual e moral do ser
humano, com vistas a sua melhor integração individual e social, o que
pressupõe de imediato, o acesso a informação.
O conhecimento tornou-se primordial nos dias de hoje. O mundo já não
reconhece e aceita pessoas despreparadas, pois o mercado tornou-se cada vez
mais exigente e competitivo. Barrozo (1998, p. 15), assim descreve a dimensão da
educação na vida dos cidadãos:
É consenso, em nossos dias, que o acesso à educação vinculada a todas
as dimensões de vida, ministrada sob diferentes formas e escalonada no
tempo, representa aspecto fundamental à participação do indivíduo no
processo sócio-cultural e político do seu tempo. A educação não é mais
considerada como indispensável à preparação para a vida, mas como uma
dimensão da vida, por se caracterizar pela aquisição contínua de
conhecimentos e pelo reexame incessante de conceitos.
Educação é cidadania, é inclusão. Milanesi (1986, p. 182), ao referir-se aos
cidadãos excluídos do acesso aos livros, alerta:
Aí estão incluídos os analfabetos, os semi-analfabetos e todos que pela sua
condição de classe deixam de usufruir dos benefícios da cultura registrada
que é, em suma, um patrimônio da humanidade, ao qual todos têm o direito
de acesso.
A prioridade da biblioteca comunitária é o combate ao analfabetismo, o
incentivo à leitura, o acesso aos livros. Silva (1986, p. 22) destaca que “a biblioteca
foi e continua sendo citada na literatura como uma instituição social, com
responsabilidades em relação à comunidade.” O acesso à informação permite
44
ilimitadas possibilidades. De acordo com Milanesi (1983, p. 53) “[...] é um exercício
de liberdade que se desdobra infinitamente. No conhecimento não há nada
definitivo, nem o professor e nem os livros. Tudo está para ser reescrito
constantemente.”
2.4.3 A biblioteca comunitária e formação do hábito de leitura
A coleção da biblioteca comunitária é basicamente formada de doações da
comunidade em geral, empresas, instituição públicas e particulares. A coleção
infantil é utilizada nas atividades relacionadas à leitura. Os livros são, também,
emprestados às crianças para serem lidos, em casa, uma vez que as famílias são,
em sua maioria, de baixa renda, impossibilitando-as de comprar livros e outros
materiais impressos que possam servir de incentivo à leitura. Conhecedor da política
educacional e cultural de nosso país, das comunidades carentes e da realidade
vivenciada por diversas famílias, Frei Betto (2010a) diz em um de seus artigos:
O amor pelos livros nasce na infância. Criança que jamais viu os pais lerem
ou vive numa casa desprovida de livros terá, com certeza, dificuldade de
adquirir gosto pela literatura. Felizmente, há, pelo Brasil afora, bibliotecas
montadas por iniciativas voluntárias, cujos acervos dependem de doações.
A contribuição da biblioteca comunitária às comunidades carentes é
reconhecida principalmente na formação das crianças e adolescentes, no
desenvolvimento de suas potencialidades, como coadjuvante na alfabetização e
formação intelectual, tanto que Góes (1991, p. 34), em uma de suas obras escreve:
Na biblioteca, crianças que tiveram tantas dificuldades em seus lares,
principalmente as dos meios com poucos recursos, poderiam se
desenvolver. Essas crianças encontrariam, então, no livro, sua entrada para
um mundo mais amplo. Teriam a oportunidade, também, do encontro com
adultos diferentes dos do seu convívio habitual: outros pais, funcionários,
professores, etc.
As crianças devem contar com livros que correspondam as suas exigências,
que sejam adequados a sua idade e ao contexto em que vivem. Sobre a função da
literatura infantil, Góes (1991, p. 22) afirma:
A função primeira do livro infantil é a estético-formativa, a educação da
sensibilidade, pois reúne a beleza da palavra e a beleza das imagens. O
essencial é a qualidade de emoção e sua ligação verdadeira com a criança.
Há emoções poéticas que, presentes ou não no livro infantil, são
diretamente acessíveis a todas as crianças.
45
O fato de as crianças, ainda bem pequenas, de famílias menos favorecidas
frequentarem bibliotecas é positivo, uma vez que começam a familiarizar-se com os
livros e com a leitura. Zilberman diz que “a criança conhece o livro antes de saber lêlo, da mesma maneira que descobre a linguagem antes de dominar o seu uso.”
(1991, p. 83). Descobrir o livro e aprender a ler é descobrir um tesouro. Entretanto,
ainda conforme Zilberman, só “ler por ler nada significa. A leitura é um meio, um
instrumento, e nenhum instrumento vale por si só, mas pelo bom emprego que dele
cheguemos a fazer.” (1991, p. 105).
Para o bom uso do livro é necessário o claro entendimento do que o autor
pretende transmitir, assim, se faz necessário o desenvolvimento satisfatório da
habilidade da leitura que possibilita entender, compreender e apreender. No
entendimento de Foucambert (1994, p.5), o ato de ler significa:
[...] ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas
respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a
essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas
informações ao que já se é.
Magro (1979, p. 08), em sua obra ensina que é necessário aprender
realmente a ler, pois nos níveis de estudos mais elevados é necessário saber captar
a ideia do autor. “Você não pega mais o livro para aprender a ler, e sim para
aprender, entender e reter o que está lendo.” De nada adiantam os programas de
inclusão social e cultural se as pessoas não dominam habilidades como a leitura e a
escrita por conta principalmente de um ensino público deficiente, como acontece em
nosso país, cujo principal problema está nas escolas distantes e precárias, situadas
em comunidades carentes, em zonas rurais e nas periferias das grandes cidades.
Nesses locais, as escolas não têm bibliotecas ou quando as têm, as coleções são
antigas, desatualizadas, por isso não despertam interesse nos alunos.
O pleno exercício da cidadania liga-se ao domínio das competências básicas
da leitura e da escrita, sem as quais o cidadão não consegue se inserir na
sociedade, participar do mundo globalizado e competitivo – a cada dia mais
exigente. A leitura como fator de inclusão social é uma fonte de conhecimento e
informação que capacita para o mercado de trabalho, permite se informar sobre a
vida, a saúde, o meio ambiente e outros saberes que possibilitam qualidade de vida
e cidadania. Werthein (2007, p. 43) tem a seguinte visão a este respeito:
46
Leitura e cidadania têm tudo a ver. É um binômio correto, objetivo, que
anuncia a estreita relação entre uma ação de governo e sua conseqüência
na vida dos nacionais. Ao tempo da colônia, o governante proibia a leitura e
a difusão do conhecimento. O propósito era não formar cidadãos, privilégio
admitido apenas aos membros da elite. O País democrático, que abre
espaço para que os cenários convivam em paz dentro do mesmo espaço
político, precisa oferecer mais e mais oportunidades a todos para aprender,
conhecer, ler e, por intermédio desse caminho, se transformar cidadãos de
fato e de direito.
Failla (2008, p. 104) coloca que tanto as crianças como os jovens gostam de
ler, porém, não gostam de ler quando é por obrigação, especialmente na escola.
Assim, a questão reside em cativá-los para serem leitores por prazer, após deixarem
a escola. “A leitura e a escrita são ferramentas indispensáveis ao domínio do meio
sociocultural e ao processo do conhecimento e compreensão do mundo”. Também
Lázaro e Beauchamp (2008, p. 74) estudiosos do tema, com base em pesquisas
chamam atenção para o fato de as pessoas lerem menos após deixarem a escola:
[...] as políticas de acesso ao livro e de promoção da leitura têm importância
fundamental para reduzir as desigualdades regionais e de classe. É na
escola que se lê mais, os mais jovens lêem mais e é na infância que se
forma o leitor. Entretanto, depois da escola, o brasileiro lê menos. A escola
não está formando o leitor, mas dando acesso à leitura. A prática da leitura
continua sendo um privilégio de classe.
Nos
últimos
anos,
várias
ações,
políticas
públicas
e
programas
governamentais vêm sendo implementados para facilitar o acesso aos livros e
despertar o gosto pela leitura, como, por exemplo, a “Lei do Livro”, de 2003, cujo
objetivo é estimular o hábito da leitura e o “Plano Nacional do Livro e Leitura
(PNLL)”, de 2006, criado para constituir-se em política de Estado para a área, dando
origem a uma série de projetos, programas, atividades e eventos relacionados ao
livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas. Um dos o objetivos do PNLL é:
[...] criar condições necessárias e apontar diretrizes para a execução de
políticas, programas, projetos e ações continuadas por parte do Estado em
suas diferentes esferas de governo e também por parte das múltiplas
organizações da sociedade civil, lastreada em uma visão republicana de
promoção da cidadania e inclusão social e segundo estratégias gerais para
o desenvolvimento social e de construção de um projeto de Nação que
suponha uma organização social mais justa. (2006, p. 25)
Recentemente, em 24 de maio de 2010, foi publicada mais uma lei que
propicia o acesso ao livro, à leitura e à biblioteca. A Lei nº. 12.244/2010 determina a
instalação de Bibliotecas nas instituições de ensino, públicas e privadas, de todos os
sistemas de ensino do País. O ponto que merece mais atenção é o prazo
47
estabelecido para essa adequação, que será realizada em 10 anos, muito tempo,
em termos de bibliotecas. Também foram estabelecidas, ao longo dos anos, várias
datas comemorativas alusivas ao livro, à leitura e à biblioteca. Estas têm como
objetivo principal realizar eventos que resultem em ações práticas, formadoras de
novos hábitos. Iniciativas governamentais fazem crer que o país entrou numa fase
de valorização do livro, da leitura, da biblioteca e dos cidadãos e caminha no sentido
de implantar mais políticas voltadas à área cultural e educacional, tão necessárias
em nosso país.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad)
realizada até setembro de 2009 e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Estatística
(IBGE), em setembro de 2010, um em cada cinco brasileiros de 15 anos ou mais
(20,3%) é analfabeto funcional, ou seja, tem menos de quatro anos de estudo. A
Pnad também mostra que a escolarização no Brasil aumentou desde 2008; “Mais de
96% das crianças de 6 a 14 anos estão na escola em todas as regiões do Brasil e,
entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o número é superior a 90%.” Já entre os
jovens de 18 a 24, somente 38,5% frequentaram uma instituição de ensino em 2009
(ESTADÃO, 2010).
O índice de analfabetos funcionais, 20,3%, confirma que uma parcela da
população brasileira continua na pobreza socioeconômica e cultural e entre os
jovens há falta de incentivo ou de condições socioeconômicos para ingressar na
Universidade. A transformação dessa realidade é lenta, apesar da implantação das
políticas públicas dos últimos governos que, significativamente, têm contribuído para
aumentar a renda familiar, manter as crianças na escola e facilitar o acesso dos
jovens ao ensino superior.
As condições socioeconômicas da família influenciam na formação do leitor;
nem sempre a aquisição de livros e outros materiais ou mesmo frequentar uma
biblioteca dependendo do local que a família reside é possível; e nem sempre a
escola tem Biblioteca e disponibiliza boas coleções, conforme já foi citado. Madela
(2010, p. 64) concorda com essa reflexão ao dizer “a ausência de material escrito no
dia a dia das pessoas, que instigue a leitura, é o empecilho mais concreto para a
construção de uma sociedade leitora. Ser leitor não é uma questão de opção, mas
sim de oportunidade.”
48
A obra “Retratos da Leitura no Brasil”, AMORIN (2008, p. 201), no que se
refere a quem mais influenciou os leitores a ler, apresenta pesquisa com o seguinte:
resultado:
- Mãe (ou responsável mulher): 49%;
- Professora: 36%;
- Pai (ou responsável homem): 30%
A pesquisa aponta ainda outros percentuais bem menores; de parente,
colega e outros. Entretanto, enfatiza que 73% das crianças citam as mães, sendo a
influência delas maior no Norte (59%) e Nordeste (56%). É informado que a resposta
foi estimulada e podiam-se escolher duas alternativas, sendo respondida só por
leitores que dizem gostar de ler.
O índice de 49% da mãe e 30% do pai retrata uma grande influência familiar
nos hábitos de leitura, entretanto, a maioria das crianças e jovens em nosso país
tem acesso ao livro por meio da escola, independente da classe social. Pesquisas
também informam que ao deixar a escola o brasileiro lê menos, o que comprova que
a escola não está formando leitores, apenas concedendo acesso à leitura. Por outro
lado, sendo as mães quem mais influenciam para a leitura, há de se pensar em
programas que as envolvam de forma que o hábito de leitura seja por elas adquirido
e transmitido aos filhos.
Para Silva (1986) a formação do leitor se dá basicamente em casa, com a
família e na escola. A influência da família dá-se pelo exemplo; se pai e mãe não
lêem por trabalhar muito ou por falta do hábito, o cenário é de exclusão do livro e da
leitura, entretanto, se o ambiente for de leitura, com certeza se formará um leitor. Na
escola, porque lá a criança é alfabetizada, aprende a ler e a escrever e inicia a
prática da leitura. Também Foucambert (2008, p. 94) aborda a questão da influência
da família e a forma como isso acontece. Para ele, a criança desde muita pequena
vê os membros da família e colegas mais velhos lerem os mais diversos tipos de
impressos e, embora possa mais facilmente passar despercebido que a fala, essa
ação é benéfica quando se diz à criança o que está escrito, quando se folheia com
ela um livro e se fala sobre a história que a criança reconstitui a partir das imagens.
Destaca o autor que “toda a significação funcional da leitura está presente para a
criança desde seu nascimento: a leitura, em seu valor afetivo e relacional, é um
constituinte de seu meio de vida; como a fala.”
Frei Betto (2010b) referindo-se à importância da leitura em casa ensina:
49
Não basta apenas ler a história. É preciso interagir com a criança: mostrar
figuras, fazer perguntas, reproduzir sons sugeridos, imitar personagens etc.
Vale recordar que assimilamos 90% de tudo que é importante aprender para
fazer de cada um de nós um ser humano até os seis anos de idade: comer,
andar, falar, distinguir pessoas e relações de parentesco, discernir ocasiões
de perigo ou risco, aprimorar o instinto de sobrevivência etc.
Crianças que escutam histórias desde cedo enriquecem seu vocabulário e
desenvolvem a capacidade de compreensão e aprendizado. Pesquisas
comprovam que o hábito da leitura em casa possibilita melhor
aproveitamento escolar.
Depois da mãe, como a pesquisa evidencia, é na escola que acontece o
incentivo para a leitura, motivo pelo qual a escola é apontada como importante no
desenvolvimento da leitura por diversos autores, entre eles Silva (1981, p. 31), ao
mencionar que:
A atividade de leitura se faz presente em todos os níveis educacionais das
sociedades letradas. Tal presença, sem dúvida marcante e abrangente,
começa no período de alfabetização, quando a criança passa a
compreender o significado potencial de mensagens registradas através da
escrita.
Mais adiante, em função da importância do livro como meio que preserva e
transmite o conhecimento, Silva (1981, p. 31) completa:
Em verdade, seria difícil conceber uma escola onde o ato de ler não
estivesse presente – isto ocorre porque o patrimônio histórico, cultural e
científico da humanidade se encontra fixado em diferentes tipos de livros.
Assim, o acesso aos bens culturais, proporcionado por uma educação
democrática, pode muitas vezes significar o acesso aos veículos onde
esses bens se encontram registrados – entre eles, o livro.
Nesse contexto, as bibliotecas, sejam escolares, públicas ou comunitárias,
são as facilitadoras do encontro de leitores com os livros. Nas bibliotecas escolares,
através de uma série de atividades específicas, as crianças e adolescentes são
gradativamente introduzidas ao mundo da informação, formando a base cultural.
Família, escola e biblioteca desempenham um importante papel na formação
do hábito de leitura, na formação de leitores que, ainda são poucos em nosso país.
Assumção (2008, p. 92, grifo do autor) argumenta que no Brasil não existe em
escala suficiente fatores qualitativos e quantitativos necessários para a existência de
leitores em um país e diz:
Os fatores qualitativos são:
- O livro deve ocupar um destaque no imaginário nacional.
- Devem existir famílias de leitores
- Deve haver escolas que saibam formar leitores
Os quantitativos:
- O acesso ao livro (suficientes bibliotecas e livrarias, entre outros
aspectos).
50
- O preço do livro.
Nas bibliotecas, crianças ou adultos descobrem novos horizontes, novas
formas de vida, de viver e de como viver. Enfim, ao terminar um livro, o leitor não é
mais o mesmo. Dias (2009, p. 20), em seu artigo sobre leitura e formação do leitor é
bem claro a esse respeito:
O ato de ler traz a compreensão de que podemos ser muitos, mesmo sendo
um só. Mostra-nos o quanto o ser humano pode ser divino e maravilhoso,
mas também revela a sua face mais monstruosa e sórdida. [...]. A leitura da
literatura nos ensina, dialeticamente, que nossas dores e nossas alegrias,
ao mesmo tempo que são nossas, são ancestrais e futuras, que a vida pode
ficar com cara de absurdo, mas também que o absurdo não precisa ser a
última palavra. Dá-nos a clarividência de que as alegrias, tristezas, dores,
delícias, raiva, compaixão, amores, ódios, melancolias, saudades, amizades
e todos os demais sentimentos, até mesmo os não ditos, são possibilidades
plausíveis na existência de todas as pessoas. A grande questão não está
em experimentar tais sentimentos, mas em saber o que fazemos com eles,
ou melhor, o que permitimos que eles façam conosco.
Pela reflexão realizada até então, finaliza-se este tópico com o pensamento
de Sclair (2008, p. 40), um apaixonado pelo livro:
A casa da leitura tem muitas portas, e a porta do prazer é das mais largas e
acolhedoras. O simbolismo que envolve a leitura mudou muito ao longo dos
milênios: simbolismo religioso, simbolismo mágico, simbolismo de poder.
Mas a leitura continua sendo um ato simbólico. Simboliza aquilo que a
humanidade tem de melhor.
51
3 VILA DAS TORRES: ESPAÇO DE ACOLHIMENTO
FIGURA 1 - Vila das Torres vista da Avenida Comendador Franco.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
A Figura 1 retrata parte da Vila das Torres, cujas características têm
chamado a atenção de pesquisadores e da imprensa. Contextualizar a Vila das
Torres é fundamental para a compreensão da realidade dos moradores na qual se
insere a Biblioteca Comunitária, objeto deste trabalho, cuja origem, trajetória,
agentes envolvidos, dificuldades e perspectivas são apresentadas na sequência.
3.1 LOCALIZAÇÃO, ORIGEM E ASPECTOS HISTÓRICOS
A Vila das Torres localiza-se na área central da cidade de Curitiba, a 2 km
do centro, no perímetro do bairro Prado Velho. O espaço no qual se encontra era
inicialmente conhecido como Favela do Capanema, depois passou a ser chamado
de Vila Pinto e, a partir de 1995, Vila Torres (COHAB-CT, 2005). Para a Associação
dos Moradores, seu nome correto é Vila das Torres, como denominada nessa
dissertação.
Em artigo de Fernandes (2011), com dados da Companhia de Habitação
Popular de Curitiba (COHAB-CT), consta que a Vila das Torres ocupa uma área de
52
199,4 mil m², possui uma população de 8,5 mil pessoas, 2.480 famílias e 1.028
domicílios. A renda familiar é de dois a três salários mínimos. 79,8% são
alfabetizados e 20,2% não freqüentaram a escola.
A origem do nome inicial, Vila Capanema, segundo Urban (2004) é atribuída
ao Barão de Capanema que, no século XIX, comprou uma gleba de terras onde se
situam hoje o Jardim Botânico, o Mercado Municipal e a Rodoferroviária, entretanto,
não há registro de quando as terras foram adquiridas. E em 1916, um mapa mostra
a região do Capanema inabitada sendo loteada, perdida, portanto, pelo barão.
Quanto ao nome Vila Pinto, de acordo com um antigo morador da Vila, foi
atribuído porque um dos proprietários dessa área tinha o sobrenome Pinto. Já o
nome atual, Vila das Torres, surgiu pela proximidade com a Avenida Comendador
Franco, a popular Avenida das Torres, na qual as altas torres de energia elétrica
ficam no canteiro central.
A Vila cresceu às margens do Rio Belém entre os bairros Prado Velho,
Jardim Botânico e Rebouças, conforme o mapa a seguir, que ilustra artigo de
Fernandes (2006, p. 4) sobre a Vila das Torres e seus habitantes (FIGURA 2).
FIGURA 2 - Vila das Torres no contexto dos bairros: Rebouças, Prado Velho e Jardim Botânico.
FONTE: Fernandes, J. C. - Gazeta do Povo (08/01/2006).
53
Os bairros Prado Velho e Jardim Botânico circundam a Vila, a qual também
faz divisa com o bairro Rebouças e com a Pontifícia Universidade Católica do
Paraná (PUCPR). Nas proximidades também estão a rodovia BR 116, o campus
Jardim Botânico da Universidade Federal do Paraná e dois colégios particulares, a
Escola Nossa Senhora da Esperança e o Colégio Nossa Senhora Medianeira, além
do
Centro
Integrado
de
Empresários
e
Trabalhadores
do
Paraná;
FIEP/SESI/SENAI/CIEP/IEL. Também são relativamente próximos à Vila dois pontos
turísticos conhecidos nacionalmente, o Jardim Botânico e o Teatro Paiol (FIGURA
3).
FIGURA 3 - Vila das Torres: imagem de satélite
FONTE: Google Earth (2010).
A Vila é cortada pela perimetral urbana Rua Guabirotuba e, a partir de 2011,
também pela Rua Chile. A Rua Manoel Martins de Abreu é a principal da Vila. Suas
origens remontam à antiga favela do Capanema, resultado de antigas ocupações
irregulares em terrenos particulares e áreas de preservação ambiental. O começo
data dos anos 1940, iniciando-se com pessoas da zona rural, desempregadas, que
54
vinham a Curitiba em busca de emprego, de escolas melhores para os filhos ou
ainda tratamento médico. Essas pessoas não retornavam ao seu local de origem por
falta de recursos (DAVANSO, 2001). Para a COHAB-CT (2005):
Não há dados precisos quanto à data em que se deu a chegada das
primeiras famílias à área. Os relatos mais freqüentes se referem à década
de 60, mas, segundo técnicos da Cohab, há fotos aéreas da região datadas
dos anos 50 que mostram o que seriam os primeiros barracos.
O local, na década de 1960, é descrito como insalubre devido ao Rio Belém,
constituindo um “vazio urbano” no qual os proprietários da área não pareciam
interessados em construir. Entretanto, devido à localização próxima ao centro da
cidade, a área atraiu o interesse de pessoas pobres em busca de um local para se
instalarem (WARTH; JASPER, 2004). O relato de uma moradora, segundo Lazarotto
(2004, p. 60), ilustra essa descrição:
A Vila era cheia de mato e banhado, só tinha morro. As casas eram
barraquinhos feitos de lona preta e minha família morava na beira do rio
Belém. Não tinha água encanada, nem luz, usava lamparina de querosene
para iluminar.
O jornalista Raul Urban (2004, p.21-22) refere-se à Vila da seguinte forma:
A velha e tradicional Vila Capanema, já existente no apagar das luzes de
1950, contrastava com as transformações urbanas locais, [...]. Nos anos
1970, proliferaram barracos numa área sem qualquer urbanização, de má
fama, onde a segurança pública é precária. A Vila Capanema é alcançável
apenas por uma trilha precária. No lado inverso da trilha, devagar, nasce a
Vila Pinto.
Para o IPPUC (2009, p. 53), as primeiras favelas surgidas em Curitiba foram
a do Valetão (atual Vila Parolin) e a da Vila Pinto em 1970, descritas como
“aglomerados que abrigam centenas de famílias.”
Antes de 1992, o bairro Jardim Botânico chamava-se “Capanema” dando
origem tanto ao nome “Vila Capanema”, como à “favela do Capanema” que ali se
instalou. A favela do Capanema era um complexo formado por várias ocupações
irregulares que ia desde o que é hoje à Rodoferroviária, acompanhando o curso do
Rio Belém, até a Vila das Torres. No final dos anos 1960 e no decorrer dos anos
1970, grande parte das famílias que moravam na parte mais alta do Capanema, no
morro onde hoje é a FIEP, foi transferida para conjuntos habitacionais construídos
na periferia da cidade entre os quais a Vila Nossa Senhora da Luz, na Cidade
Industrial e o Jardim Paranaense, no Alto Boqueirão. As famílias que não aceitaram
ser transferidas ou retornaram se mudaram para a parte mais baixa, próxima ao Rio
55
Belém, aumentando a população e o número de barracos daquela área que
manteve, por algum tempo, o nome de favela Capanema e depois passou a
denominar-se Vila Pinto. Por ser próximo ao Rio Belém, local insalubre, a população
desse espaço não foi inicialmente muito pressionada para se mudar, porém, depois
também passou a sofrer com os despejos (WARTH; JASPER, 2004). Muitas famílias
transferidas para os conjuntos na periferia da cidade, insatisfeitas, retornaram à Vila
e junto às que conseguiram permanecer, articularam-se para enfrentar os problemas
decorrentes da pressão pela desocupação do local, aumento populacional e falta de
infraestrutura (DAVANSO, 2001).
A remoção das famílias da então favela Capanema ocorreu nas gestões de
Jaime Lerner e de Saul Raiz à frente da prefeitura de Curitiba entre os anos de 1971
e 1979. As ações autoritárias obrigaram os favelados a se organizar para a
resistência, que se fortaleceu no final da década de 1970 com o apoio de três irmãs
religiosas, alguns políticos e de futuros políticos (WARTH; JASPER, 2004).
Ainda conforme esses autores, o apoio das três irmãs do Colégio Esperança
à população da favela foi decisivo para a permanência de muitas famílias na Vila,
assim como para que se organizasse a resistência. Inicialmente, as irmãs residiam
no Colégio Esperança, localizado próximo à favela, porém, passaram a se interessar
pela vizinha Vila Pinto e, depois de algum tempo, resolveram se mudar para uma
casa simples no seu interior, pois gostavam dos moradores e cada vez mais se
envolviam com os problemas deles. O apoio à comunidade ia desde os conselhos
espirituais, aos problemas de saúde e à resolução de conflitos, resistência aos
despejos, mortes e incêndios constantes, pois não havia eletricidade na Vila, e o uso
de velas e lampiões a gás favorecia acidentes. As irmãs ajudavam na reconstrução
dos barracos e na resistência à desocupação do local, que era um projeto da
Prefeitura Municipal.
Esses pesquisadores relatam ainda que em 1976, por meio de mutirão, os
moradores construíram o Centro Comunitário Nossa Senhora Aparecida e os
primeiros banheiros públicos cujo material foi conseguido de forma clandestina, ou
seja, retirado de construções abandonadas, com a ajuda das irmãs. Em 1979, a
comunidade fundou a primeira associação representante dos moradores da Vila, a
Associação Comunitária Nossa Senhora Aparecida, sendo, mais tarde, substituída
pela Associação Comunitária dos Moradores da Vila Pinto.
56
Na década de 1970, a região do Capanema ganhou nova configuração.
Além da transferência de famílias para outros bairros, ocorreu a construção da
Avenida Comendador Franco, mais conhecida como Avenida das Torres, ficando a
então favela da Vila Pinto margeando a nova avenida, como é hoje (URBAN, 2004).
Em 1979, a Associação Comunitária dos Moradores da Vila Pinto deu início
à medição dos terrenos da Vila e sua distribuição aos moradores. Foram redefinidos
os limites dos terrenos e feita a previsão para o traçado das ruas, em conseqüência,
muitos barracos tiveram de mudar de local para adequação aos padrões de
urbanização da cidade. A regularização, entretanto, iniciou-se em 1996 com uma
nova medição dos terrenos determinada pelo poder público (DAVANSO, 2001).
Em 1985, Roberto Requião elegeu-se prefeito de Curitiba, acendendo
esperanças junto aos moradores da Vila Pinto de que poderiam logo tornar-se donos
dos lotes onde moravam. Logo depois, teve início a ação da COHAB-CT na Vila
para conhecer as reais condições da favela (WARTH; JASPER, 2004).
A regularização fundiária e urbanização da Vila tiveram início no final da
década de 1980, com a COHAB-CT atuando no local, promovendo melhorias como
a instalação das redes de água, coleta e tratamento de esgoto, energia elétrica e
drenagem, pavimentação de ruas e construção de equipamentos comunitários
(COHAB-CT (2005). Warth e Jasper (2004), assim relatam:
O processo de regularização fundiária da maior parte da Vila durou quatro
anos. Durante este período, os moradores tiveram que fazer um contrato
com a Cohab, pelo qual eles teriam direito a comprar o terreno mais tarde
desde que, até lá, pagassem uma taxa de ocupação. Enquanto isso, a
prefeitura fazia a gradual desapropriação dos terrenos particulares e
estabelecia qual seria o loteamento definitivo, que precisava cumprir uma
série de normas urbanísticas. Esse processo, no entanto, só poderia ser
concluído depois que a “lei de desafetação e urbanização da Vila Pinto”
fosse aprovada pela Câmara Municipal.
Embora o processo tenha sido demorado, foi aprovado na gestão de Jaime
Lerner, no período de 1989-1992. Em 1995, o então prefeito - Rafael Grega entregou as primeiras 208 escrituras definitivas aos moradores da Vila Pinto. Na
ocasião, também foram entregues 559 contratos de compra e venda (WARTH;
JASPER, 2004). Atualmente, cerca de 90% dos moradores da Vila das Torres têm
título de propriedade dos lotes e a urbanização da área também está consolidada
(COHAB-CT, 2011).
Fernandes (2008) refere-se à Vila Torres da seguinte forma:
57
Fala-se muito que a Torres é uma zona de perigo. Mas se comenta pouco
que ali se desenvolveu um dos mais importantes modelos de organização
popular e comunitária da cidade. Em certo sentido, a vila é o pai-de-todos.
Por ser uma das primeiras ocupações da capital, nascida na sombra da
extinta Vila Capanema, acabou exportando moradores para diversos
bairros, como o Boqueirão, Sítio Cercado ou a CIC, por onde disseminou
também suas práticas associativas.
3.2 CARACTERÍSTICAS DA VILA DAS TORRES
Conforme a Associação dos Moradores da Vila das Torres, a comunidade
conta hoje com o apoio de catorze organizações não-governamentais, além de três
associações de moradores, onze igrejas, duas escolas públicas, uma Biblioteca
Comunitária, uma escolinha de futebol e duas unidades de saúde: o Posto de
Saúde-PUC-PR e a Unidade de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Atualmente a Vila tem o mesmo aspecto de outros bairros pobres da periferia de
Curitiba e seu comércio atende às necessidades básicas da população. Conta com
supermercados, farmácias, panificadoras, mercearias, açougue, distribuidora de gás,
algumas lojas, vários depósitos de papel e um restaurante destinado aos
carrinheiros e suas famílias cuja refeição custa um real. Esse restaurante é uma
iniciativa de lideranças da Vila, funciona com alimentos recebidos de forma gratuita.
Trata-se de um projeto do Centro de Apoio ao Trabalhador Ambiental (CATA), uma
ONG da Vila das Torres destinada a assistir os trabalhadores ligados à coleta de
material reciclável em suas necessidades.
O aspecto geral da Vila clama por benfeitorias; as residências próximas à
Avenida das Torres apresentam melhor aspecto, entretanto, no interior da Vila são
encontradas poucas residências em bom estado; a maioria é inacabada e sem
pintura, característica da autoconstrução (FIGURA 4).
As ruas são mal pavimentadas e sem calçadas, quase invadidas pelos
depósitos de papel, denunciando a falta de organização neste tipo de comércio; em
alguns trechos há lixo e entulhos. (FIGURAS 5 e 6).
58
FIGURA 4 – Exemplo de autoconstrução na Vila das Torres.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011).
FIGURA 5 – Rua com casebres no interior da Vila das Torres
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
FIGURAS 6 – Rua da Vila das Torres: depósitos e carrinhos de recolher papel
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
59
Conforme reportagem de Luciana Cristo (2008) para o sítio virtual Paraná
Online, as pessoas que nasceram e sempre viveram na Vila querem mudanças, um
dos moradores, de 37 anos, declarou:
Nossa comunidade parece estar parada no tempo. Vi bairros nascerem
depois e se desenvolverem mais rápido. Nós aqui também pagamos IPTU e
somos tratados de maneira diferente. Não há justificativa para essa
morosidade.
Entretanto, um engenheiro, servidor de um órgão público com atuação na
Vila, durante entrevista mencionou:
A Vila já recebeu muitas melhorias e no que se refere à violência também já
melhorou bastante. No início para entrar aqui, mesmo para realizar as
benfeitorias, era só com autorização de determinados chefões. As
perspectivas para a Vila são boas, há projetos em andamento valorizando
as moradias e o espaço.
Atualmente a Vila das Torres está sendo revitalizada, trata-se do projeto
“Comunidade em Cores” da COHAB-CT em parceria com a Prefeitura Municipal de
Curitiba e a empresa Tintas Coral, iniciado no segundo semestre de 2010 e
realizado em etapas. O item 3.3.3 desta dissertação apresenta a descrição das
melhorias e andamento do projeto.
3.2.1 Habitação e trabalho
Ao longo do tempo, programas foram lançados visando melhorar o sistema
habitacional na Vila. Em 1994, na gestão de Rafael Greca - prefeito de Curitiba, foi
lançado o programa “Vila de Ofícios”, desenvolvido pela Fundação de Ação Social
(FAS) e a COHAB-CT sendo a então Vila Pinto selecionada pela prefeitura como
local de implementação do plano piloto (BERLOTTO, 2008). Em 1995, na Vila Pinto,
foram construídos os primeiros 21 sobradinhos da primeira Vila de Ofícios de
Curitiba, às margens do Rio Belém, abrigando famílias que viviam numa área
degradada e ocupada irregularmente (MOURA, 1997). Segundo Warth e Jasper
(2004, p. 42), a construção da Vila de Ofícios foi promessa de campanha eleitoral de
Rafael Grega em 1992. Quando candidato à prefeitura de Curitiba, em 1995, no
discurso de inauguração da Vila de Ofícios ele pronunciou:
60
Estamos dando moradia e trabalho para vocês. Com isso, estamos
ampliando nosso trabalho de resgate da cidadania, dando igualdade de
oportunidades para todos. Conciliar habitação decente e oportunidade de
trabalho é caminho traçado para darmos mais qualidade de vida para os
curitibanos.
No ano seguinte, ficaram prontos mais 34 sobradinhos que juntos aos 21
totalizam 56, completando a Vila de Ofícios. Os sobrados da Vila de Ofícios foram
construídos com dois pavimentos – o superior destinado à moradia e o térreo à
prestação de serviços ou comércio (MOURA, 1997) (FIGURA 7).
Ainda conforme Moura (1997, p. 53):
[...] o projeto mudou completamente a paisagem local: os barracos deram
lugar aos coloridos sobrados e às margens do rio receberam tratamento
ambiental especial. As famílias que moravam no local e que, em sua
maioria, garantiam o próprio sustento trabalhando como catadores de papel
foram treinadas para a prática de alguma atividade profissional, recebendo
subsídio para montar sua própria oficina.
FIGURA 7 – Bairro Prado Velho - Vila das Torres e Rio Belém [com os sobradinhos da Vila de
Ofícios] - Vista Aérea - Slide arquivo IPPUC. Foto: Zig Koch
FONTE:<http://www.ippuc.org.br/BancoDeDados/Curitibaemdados/albumfotos.php?N2=24&pagina
=2> Acesso em 20/12/2010.
Este programa buscava, além da recuperação e urbanização da área,
também melhorar a qualidade de vida das famílias, entretanto, o local escolhido para
construção dos sobradinhos, próximo ao Rio Belém, não colaborou para que o
projeto obtivesse o sucesso esperado. Uma rua pouco transitada por pedestres e
61
automóveis, que levou o comércio a fechar as portas, e a proximidade com o Rio
Belém muito poluído, foram alguns dos motivos apontados para o fracasso do
projeto. Os moradores que permaneceram no local explicam as causas, para
Lazaroto (2004, p. 69), uma senhora diz: “Por causa do rio, dentro da minha casa
tem mau cheiro, enche de pernilongo, moro de frente para o “mar” (risos). Quando
chove a situação é pior.” Outra senhora, conforme Lazaroto (2004, p. 49) declara:
Não gosto de morar desse lado dos predinhos (Vila de Ofícios). O nosso
lado é ruim porque depois que fizeram a ponte, misturou todas as pessoas.
Eu e metade dos moradores dos predinhos não aceitamos a Vila de Ofícios.
Nós não ganhamos nem escritura. Pagamos por quatro anos uma prestação
pelo predinho, mas deixaram de cobrar e até hoje não falaram mais nada.
Nas últimas décadas, com a crença da cidade modelo que a mídia passou a
divulgar de Curitiba, chegaram migrantes de todas as regiões do país, o que fez a
população aumentar significativamente e os menos favorecidos engrossarem a
população das favelas e vilas. Na Vila das Torres, a população gira em torno de 8,5
mil pessoas conforme informação da COHAB-CT. Dado semelhante consta em
artigo de Barros (2008) no Jornal Comunicação (jornal do Laboratório do Curso de
Jornalismo da UFPR): “Dos quase nove mil moradores da Vila estima-se que 1,5 mil
sejam catadores de papel e que 70% da comunidade tenha sua renda ligada à
coleta de material reciclável.” Conforme Warth e Jasper (2004, p. 60), um dos
médicos da Unidade de Saúde Capanema deu o seguinte depoimento sobre as
pessoas que residem na Vila das Torres:
Um dos tipos mais característicos que nós temos aqui é o migrante, que não
encontrou nenhum lugar que tivesse acolhida em sua cidade de origem ou
mesmo aqui em Curitiba. Porque nós temos o morador tradicional, aquele
do tempo da favela, mas boa parte dos moradores é uma população de
recém-migradas. Elas chegam à cidade e não tem onde ficar, porque vêm
sem nenhuma condição de emprego, de moradia, quase sem recursos.
Então ficam perambulando e alguém indica o albergue, que fica aqui perto.
No albergue, [...] no fim do prazo eles tem que sair. E eles voltam a ter o
problema de não ter onde trabalhar e não ter para onde ir. Normalmente,
eles ficam sabendo que aqui na Vila tem os depósitos de catadores de
papel, locais que, na verdade, desempenham o papel social de acolher
essas pessoas migrantes que não tem o que fazer e dar a elas uma
ocupação – catador de papel. Porque esses locais têm um local para
dormir, uma pequena habitação, de dois ou três metros, e ali vai morar a
família toda, que vai dormir e cozinhar no mesmo local, que vai ter uma
instalação sanitária coletiva para todos que moram no depósito. É
interessante do ponto de vista social porque o depósito é, ao mesmo tempo,
um local de moradia, de trabalho, de convivência, e é onde eles aprendem
também as novidades da cidade, que são o uso de drogas, a prostituição...
Mas o depósito acaba sendo o único lugar que acolhe as pessoas para
resolver os seus problemas de moradia, trabalho e sustento. É onde elas
passam a produzir, algumas retornam, outras permanecem, uns conseguem
se desenvolver, outros ficam estagnados.
62
Moradores confirmam que muitos dos carrinheiros alugam os carrinhos dos
donos de depósitos e também os quartos onde residem com as famílias em
condições precárias (FIGURA 8).
FIGURA 8 – Depósito e residência dos carrinheiros e suas familias
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010)
A Vila das Torres pode ser considerada “espaço dos carrinheiros”. Esses
trabalhadores são homens e mulheres muito pobres, que ali residem e se dedicam à
atividade de coletar papel, plástico e metais para reciclagem. Em geral, essas
pessoas têm nível de escolaridade baixo ou nenhum; algumas delas não têm
documentos, e a sua sobrevivência depende dessa atividade informal. Os
carrinheiros percorrem as ruas da cidade puxando seus carrinhos, sendo comum a
mãe levar seu bebê e outros filhos maiores para ajudar na coleta. Nas ruas do
centro da cidade é possível avistar carrinheiros trabalhando ou mesmo dormindo em
seus carrinhos em meio ao material coletado, tanto durante o dia quanto à noite, no
verão ou no frio inverno de Curitiba. Trata-se de um trabalho pesado, no qual os
homens, as mulheres e as crianças arriscam suas vidas diariamente no trânsito e na
própria Vila, pelas condições que vivem e se expõem.
63
3.2.2 Violência e tráfico de drogas
A Vila das Torres sempre foi considerada violenta. Tanto que muitos
cidadãos curitibanos evitam utilizar a Rua Guabirotuba, que faz a ligação entre os
bairros Prado Velho e Jardim Botânico, ou a Avenida Comendador Franco (Avenida
das Torres) no trecho ao longo da Vila. Em determinados horários, são constantes
os assaltos, acidentes com animais e brigas por motivos diversos, inclusive
relacionados à venda e tráfico de drogas.
A Vila das Torres tornou-se referência para o tráfico de drogas há muito
tempo, porém, ninguém da comunidade sabe precisamente quando iniciou. Um
morador relata que esse comércio existe desde os tempos da antiga favela
Capanema. Um dos primeiros traficantes teria sido um homem, dono de uma casa
comercial localizada na metade do aclive do Capanema, que vendia bebidas
alcoólicas e drogas. Entretanto, para uma senhora, os traficantes teriam chegado à
Vila das Torres quando se iniciou a abertura das ruas e a divisão dos lotes: abriram
muitos bares, surgiram as drogas, as gangues e as brigas entre elas, as mortes e o
medo entre os moradores. (WARTH; JASPER, 2004).
Um morador antigo se refere ao assunto dizendo que a prática desse
comércio ilícito na Vila data dos anos 1970 e que a droga continua sendo vendida à
luz do dia por meninos de 12 a 15 anos. Esses meninos são os “laranjas”, que
entregam a droga, que matam e morrem nas brigas entre as gangues rivais. Os
verdadeiros donos dos negócios, os traficantes da Vila, não são apontados por
ninguém e seus nomes também não são ditos; a população tem medo.
A Vila das Torres é considerada uma área de risco, tanto que são comuns as
noticias em jornais da capital sobre a violência no local. Essa característica negativa
afasta pessoas bem intencionadas, que por medo deixam de realizar trabalho
voluntário. Os constantes assaltos nas ruas próximas a Vila depõem contra os
moradores. Um senhor, morador da Vila, no final de 2010 desabafou:
A maioria desses assaltantes nem moram na Vila, entram aqui para se
esconder da polícia e acabam denegrindo a imagem das pessoas que só
trabalham e sempre moraram aqui, nós todos acabamos levando uma fama
ruim, que não temos. Aqui dentro há violência também, mas se você não se
meter com esse pessoal da droga, eles não se metem com você.
A reportagem de Cristo (2008) apresenta a justificativa de um servidor da
prefeitura sobre a reduzida atuação do órgão público naquele local:
64
Poder público, organizações não-governamentais e moradores concordam
que hoje o principal problema enfrentado pela Vila das Torres é a violência
e a convivência com o tráfico de drogas. Essa briga atrapalha inclusive os
serviços da administração pública que são feitos na região. {...} O
administrador da Regional Matriz, que atende a Vila das Torres, admite que
a Prefeitura tem dificuldade inclusive em mandar pessoas para trabalhar no
local. "Os funcionários enfrentam a mesma insegurança do cidadão comum.
A Prefeitura poderia estar fazendo mais, mas tem dificuldades, como as
pessoas de um lado da vila que não vão até o posto de saúde porque
precisam atravessar terreno hostil", afirmou.
Intervenções por parte da polícia na Vila das Torres ocorrem de tempos em
tempos e inibem a violência por um período. No dia 31 outubro de 2008, cerca de 50
policiais civis e militares iniciaram uma grande operação na Vila, com o objetivo de
garantir a segurança da comunidade e das pessoas que circulam pelo local.
Entretanto, com o fim da ação policial, a antiga prática recomeçou.
As constantes brigas entre as gangues e os sucessivos assassinatos
amedrontam a população e impõem silêncio sobre o assunto. O inicio de 2011 foi
marcado por vários crimes. Segundo o jornalista Fernandes (2011), a situação de
terror imposta à comunidade vigorou nos últimos quinze anos. Entretanto, a partir de
10 de abril último, os líderes das duas gangues rivais selaram um acordo de paz que
deixou a população feliz e aliviada, pois até então a Vila era dividida em Vila de
Cima e Vila de Baixo, sendo utilizada a Rua Guabirotuba como linha divisória
(FIGURA 9). Com o acordo de paz firmado, a Vila ficou em festa e comemorou,
passou a ser possível as visitas a parente e amigos, pois antes era perigoso os
moradores de um lado passar para o outro. Ainda conforme Fernandes, uma
liderança da comunidade informou que nesses quinze anos cerca de 60 jovens
foram assassinados nas divisas da comunidade. Essa liderança completou: “Afetou
o direito de ir e vir. Muita coisa ficou pelo caminho por causa disso. Desde as 6 da
manhã tem alguém rezando para isso acabar. Acho que acabou.”
65
FIGURA 9 – Divisão da Vila das Torres segundo as gangues rivais: Vila de cima e Vila de baixo.
FONTE: Fernandes, J. C. - Gazeta do Povo (18/04/2011).
A nova situação anima lideranças da Vila que acreditam obter agora mais
colaboração por parte da comunidade externa, uma vez que a divulgação da paz na
comunidade encoraja as pessoas a comparecer e investir nos projetos das
lideranças da Vila.
A continuidade dos projetos na forma de lazer e atividades culturais voltados
às crianças e adolescentes são os que mais animam as lideranças, pois contribuem
para combater a violência e diminuir a exclusão social. Destaca-se também a
capacitação de jovens e adultos para o emprego formal, o que possibilita melhorar o
padrão de vida e integrar a Vila aos bairros vizinhos e à cidade. Na Vila das Torres,
as brigas das gangues e as mortes cessaram e os moradores circulam pelas ruas
mais tranquilos. Passaram-se cinco meses e até os mais céticos começam a
acreditar que a Vila pode sim, mudar. Porém, o comércio de drogas continua
funcionando a luz do dia, os assaltos e outros atos violentos nas imediações da Vila
também, tanto na Rua Guabirotuba como na Avenida das Torres, amedrontando as
pessoas que são obrigadas a passar pelo local.
66
3.2.3 Lazer e cultura
Poucas são as opções no que diz respeito ao lazer, cultura e atividades ao
ar livre. A Vila conta com a Praça Mário Vendramel, na qual, em setembro de 2010,
foi inaugurada uma academia ao ar livre com aparelhos destinados à musculação e
alongamento e a Praça Plínio Tourinho, que também possibilita a prática de
esportes. Até março de 2011 existia a antiga “Praça do Baleia”, nas cores verde e
amarela, na rua Manoel Martins de Abreu, em frente à Biblioteca Comunitária e ao
“Bar do Baleia”, construída por José Francisco A. Sanches, o popular “Baleia”, um
dos fundadores da Biblioteca Comunitária e conhecido como grande incentivador da
cultura e do lazer na Vila. Na praça havia uma placa onde se lia “VILA DAS
TORRES: VOCÊ CONSEGUE”. Nas palavras dele, o objetivo era “motivar a
comunidade a participar dos eventos, dos projetos e colaborar com a limpeza das
ruas e das casas para deixar a Vila mais bonita e alegre.” (FIGURA 10).
FIGURA 10 – Antiga Praça do Baleia, antes da revitalização da Vila das Torres.
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
Nos meses seguintes, a COHAB-CT construiu uma nova praça, no mesmo
lugar, maior e melhor aparelhada, com bancos de madeira e floreiras, sendo o muro
nas cores verde e amarelo, como a anterior. O lema “VILA TORRES, VOCÊ
67
CONSEGUE”, assim como outras frases e as bandeiras de Curitiba, do Paraná e do
Brasil foram pintadas no muro por um morador de rua a pedido de José Francisco A.
Sanches, que passou a cuidar do novo local público de lazer (FIGURA 13).
Contudo, a cultura e o acesso à informação ainda são precários. Em 2009 foi
criada uma Biblioteca Comunitária por iniciativa dos moradores da Vila cujos livros
para formar o acervo saíram do lixo que os catadores de papel recolhem para
reciclagem. No dia 21 de junho de 2009, Carlos Roberto Teles, mais conhecido
como “Chameguinho” realizou, na Vila, com a colaboração da comunidade e
pessoas externas, uma festa denominada “Dia da cultura Vila das Torres”. Segundo
Carlos Roberto, o objetivo era integrar a comunidade, ser dada posse à nova
diretoria do “Projeto Jovem Cidadão para crianças e adolescentes”, projeto por ele
fundado, e anunciar a criação da Biblioteca Comunitária. A festa aconteceu na
“Praça do Baleia” e contou com a apresentação de talentos da Vila, de Curitiba
como a cantora Mara Lima, autoridades, políticos, lideranças comunitárias, pessoas
da comunidade de Curitiba ligadas à arte e à cultura que foram convidadas e
compareceram, colaborando para o sucesso da festa. As pessoas da comunidade
tiveram oportunidade de apresentar suas habilidades, representar, recitar, cantar,
tocar instrumentos, fazer humor e outras modalidades de entretenimento.
Kauanna Batista Ferreira em depoimento sobre o assunto declara:
Foi o dia em que os talentos da comunidade se apresentaram e puderam
ser valorizados por ela. Foi um dia de integração em que as pessoas
cantaram, dançaram, fizeram comédia, etc. Um dia em que cada um teve a
oportunidade, inclusive, de se conhecer melhor e descobrir que dentro de si
havia uma riqueza de pessoa capaz de conquistar sonhos desde que
corressem atrás e buscassem com força. O pessoal amou. Todos ajudaram
como puderam. Foi um dia muito lindo, em que todos foram amigos e
irmãos, sem nenhuma diferença. Vale ressaltar, inclusive, a integração da
Comunidade com a Polícia Militar, algo importantíssimo e até certo ponto
inédito para uma Comunidade conhecida por elevada taxa de violência.
Carlos Roberto faz questão de registrar sua participação no evento:
Eu organizei a festa para a comunidade participar, se integrar, se conhecer
melhor e passar a se ajudar, ver que há perspectivas e se pode vencer as
dificuldades com criatividade e trabalho. Muitos colaboraram e grande parte
das pessoas da Vila compareceu. A cantora Mara Lima, na época também
vereadora, participou, foi lindo e emocionante.
Carlos Roberto relata que ao anunciar a criação de uma biblioteca
comunitária na Vila foi muito aplaudido e cumprimentado. Pela reação das pessoas
percebeu que o novo projeto era bem vindo e vinha de encontro às necessidades e
68
desejo de muitos moradores. Portanto, estava lançado mais um empreendimento em
favor da vida, da educação, da cultura e da cidadania. Para ele, a biblioteca “é um
local de convivência, de integração da comunidade, de encontro com o
conhecimento e com a cultura.” A festa “Dia da Cultura Vila das Torres” 2009 foi um
sucesso, tanto que será realizada novamente no segundo semestre de 2011.
Acontecimentos dessa natureza são positivos e divulgados pela mídia como
exemplos de trabalho da comunidade, pela comunidade.
Junto ao “Bar do Baleia”, em uma sala pequena, José Francisco Sanches,
instalou o Museu da Vila das Torres cujo acervo é formado pelos mais variados
objetos e documentos, indo desde máquina de escrever antiga a relógios e quadros
a óleo, tudo trazido pelos carrinheiros. Nas paredes, fotografias antigas e atuais da
Vila e dos moradores e outras de artistas e políticos consideradas interessantes pelo
criador do museu (FIGURAS 11).
FIGURA11 - José Francisco A. Sanches no Museu da Vila das Torres
FONTE: O autor (2011)
O cinema para as crianças funciona junto ao Centro de Apoio e Integração
Comunitária da Vila Torres (Caico) por iniciativa de uma das lideranças da
comunidade. Há também diversos bares e quatro times de futebol.
69
3.2.4 Revitalização da Vila das Torres
A partir do segundo semestre de 2010, a Vila das Torres passou a receber
melhorias através de projeto coordenado pela COHAB-CT. Conforme notícias
publicadas em sua página eletrônica em 2010 e 2011, a revitalização vem
acontecendo em etapas de acordo com projetos implantados e parcerias
estabelecidas. No final de agosto de 2010, moradores da Vila das Torres
começaram a participar de “oficinas” para capacitação em pintura e outros tipos de
serviços visando melhorar o aspecto da Vila. Tratava-se da primeira fase do projeto
“Comunidade em Cores” da COHAB-CT, em parceria com a Prefeitura Municipal de
Curitiba e empresa Tintas Coral, responsável pelo projeto “Tudo de Cor para Você”,
que a empresa realiza em todo o país. Na Vila das Torres, a empresa capacitou
moradores para pintar as residências e muros sob a supervisão de pintores da
COHAB-CT e doou 920 litros de tinta para pintar as casas de 66 famílias
selecionadas para esta etapa do projeto (FIGURA 12).
FIGURA 12 – Projeto Comunidade em Cores na Vila das Torres
FONTE: COHAB-CT (2010)
O projeto “Comunidade em Cores” é uma intervenção da COHAB-CT nas
áreas já urbanizadas, proporcionando mudanças no visual tornando os espaços
mais agradáveis, incluindo melhorias nas edificações existentes e reconstruindo as
mais precárias. A população é envolvida desde o início, reforçando o vínculo dos
70
moradores com os espaços garantindo os efeitos do projeto a médio e longo prazo
(COHAB-CT, 2011). No início dos trabalhos (COHAB-CT, 2010a), o prefeito de
Curitiba, Luciano Ducci e o presidente da Associação de Moradores da Vila Torres
Marcos Eriberto dos Santos, manifestaram-se com entusiasmo sobre a implantação
do projeto. Segundo o prefeito:
A Vila Torres vai ganhar uma nova cara e isso vai estimular os moradores a
cuidarem melhor do lugar onde vivem. Após a intervenção, cada cidadão vai
sentir maior responsabilidade em manter sua casa em ordem, para estar
integrado ao restante do bairro [...].
E, para o presidente da Associação de Moradores da Vila Torres, o projeto
“vai mudar a autoestima dos moradores, pois o local vai ganhar outra cara. Nos
sentiremos mais cidadãos." Também, conforme noticiado pela COHAB-CT, o
representante da Tintas Coral, Antônio Augusto do Nascimento, ligado ao programa
“Comunidade em Cores”, declarou: "A nossa missão é levar cor para a vida das
pessoas. Tenho certeza que além de embelezar as casas, ainda aprenderam uma
profissão.“ (COHAB-CT, 2010b). O encerramento dessa primeira etapa do projeto
deu-se em 18 de setembro de 2010 com a inauguração de uma academia de
ginástica ao ar livre, com recursos da COHAB-CT, na Praça Mário Vendramel.
A segunda etapa do projeto “Comunidade em Cores” iniciou-se em janeiro
de 2011 com o mapeamento das moradias para receber melhorias ou
reconstruções. O projeto passou a contar com recursos do Programa de Aceleração
do Crescimento - 2ª fase (PAC 2), e a empresa de tintas Coral comprometeu-se a
fornecer tinta para pintar mais 240 moradias de famílias das ruas Comendador
Franco (Avenida das Torres), Manoel M. de Abreu, Josefina Zanier, Sérgio Dudeck,
Dorival Alvir Zagonel, Esperandio Domingos Foggiato e Aquelino Baglioli. Nas ações
previstas, estão incluídas pintura nas fachadas, reforço de estrutura, construção de
muros, substituição de coberturas, esquadrias e portas, recuperação da faixa de
preservação do rio Belém, paisagismo, readequação do alinhamento predial,
realização de oficinas para treinamento de mão de obra em pintura e de técnicas
artísticas para pintura de muros e painéis (COHAB-CT, 2011).
A terceira etapa do projeto está prevista para beneficiar 349 famílias
envolvendo a reconstrução de moradias muito precárias. Contará também com
recursos do PAC 2. Conforme informação de moradores, as mudanças na Rua
Manoel Martins de Abreu, endereço da Biblioteca Comunitária, iniciaram-se em
71
março com a reconstrução das fachadas das casas, muros, calçadas, “Praça do
Baleia”, rede de água e esgoto, asfalto e pintura das moradias mudando
completamente o visual da principal Rua da Vila. Os comentários dos moradores são
de aprovação, eles sonham com melhores moradias e outras melhorias e aguardam
ansiosos que as ruas secundárias também sejam beneficiadas.
O engajamento da comunidade no projeto da COHAB-CT demonstra o amor
pelo seu território, tanto que a “Praça do Baleia” após reconstruída (FIGURA 12)
voltou a ter o lema “VILA TORRES, VOCÊ CONSEGUE” pintado no muro, assim
como outras frases e as bandeiras de Curitiba, do Paraná e o Brasil. A iniciativa foi
de José Francisco A. Sanches, o qual solicitou o serviço de pintura a um morador de
rua que prontamente o executou. As tintas foram fornecidas pela COHAB-CT
(FIGURA 13).
FIGURA 13 – O muro da nova “Praça do Baleia” sendo pintado por um morador de rua.
FONTE: Gladston José Cordeiro (2011)
A habilidade e alegria de Ciro José Madalena ao pintar o muro da “Praça do
Baleia” mostra que a maneira como algumas pessoas vivem é fruto da falta de
oportunidades. Ciro explicou:
72
Eu sei pintar sim, tenho jeito pra isso, só não tenho como começar a
trabalhar nisso, falta recurso pra tudo. Olha, pode colocar o meu nome e a
minha fotografia ai nessa sua pesquisa que eu vou ficar é muito feliz. Esse
trabalho de pintar é uma coisa que eu gosto de fazer e gostaria de trabalhar
nisso sempre, muito obrigado.
O pintor parecia feliz em demonstrar a sua habilidade. (FIGURA 14).
FIGURA 14 – Ciro José Madalena.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
Na figura seguinte se vê a Rua Manoel Martins de Abreu em fase final de
revitalização, no trecho em frente à Biblioteca Comunitária, Museu da Vila das
Torres e a esquerda, a “Praça do Baleia” (FIGURA 14).
73
FIGURA 15 – Trecho da Rua Manoel Martins de Abreu sendo revitalizada
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro
Embora não concluída a revitalização na Vila das Torres, o projeto
Comunidades em Cores vem cumprindo a sua finalidade: embelezar e valorizar o
território e o cidadão. A vila expõe diferentes realidades sociais em um mesmo
espaço geográfico. É uma comunidade antiga, carente e considerada perigosa, um
campo de interação social permeado de problemas entre os quais a exclusão
informacional, foco deste trabalho, mas privilegiada no contexto geográfico da
cidade.
A iniciativa da COHAB-CT, Prefeitura Municipal e Tintas Coral oportunizam a
Vila das Torres a galgar mais um degrau rumo ao desenvolvimento de seu território
que, aos poucos, deixa de ser só um espaço que acolhe para transformar-se em um
espaço que também oferece qualidade de vida.
74
3.3 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES: ESPAÇO DE INCLUSÃO
FIGURA 16 – Fachada da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres em 2010.
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
3.3.1 Origem, características e trajetória
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres (FIGURA 16) foi idealizada e
criada por Carlos Roberto Teles, artista de rua, mais conhecido por “Chameguinho”.
Segundo ele:
A ideia de criar a biblioteca comunitária surgiu em 2008 porque eu via
muitos e muitos livros nos depósitos de papel para reciclagem enquanto as
crianças da Vila ficavam pela rua sem ter o que fazer e onde ir, aí pensei,
porque não criar uma biblioteca? Afinal, o livro tem o poder de transformar
uma vida, uma comunidade, um país. É mil vezes melhor criar hoje uma
biblioteca na Vila do que pedir para instalarem uma delegacia amanhã.
Colocar essas crianças dentro de uma biblioteca é mostrar para elas uma
outra vida, um futuro muito melhor.
Tão logo teve a idéia, Carlos Roberto procurou seu amigo José Francisco A.
Sanches, vulgo “Baleia”, também morador da comunidade, que na época era
proprietário de um depósito de material para reciclagem, e explanou sua intenção.
75
José Francisco não só gostou da ideia como se mostrou disposto a colaborar,
iniciando no mesmo instante, conforme relata:
Logo que o “Chameguinho” me falou dessa idéia eu disse: vamos fazer uma
biblioteca pra Vila sim, pode contar comigo e já começamos a separar os
livros para fazer a biblioteca. Nessa época eu tinha depósito de papel e já
tinha retirado alguns livros do lixo e guardado porque tinha achado
interessante, daí juntamos tudo e ainda continuei comprando mais dos
catadores, depois falei com eles, expliquei e eles passaram a doar os livros
pra Biblioteca.
Segundo José Francisco, os primeiros 280 livros foram gradativamente
retirados do lixo e colocados em uma sala junto aos objetos do Museu da Vila das
Torres – outra criação sua, situada ao lado do bar de sua propriedade. O material
guardado foi o embrião do acervo da futura Biblioteca Comunitária. O primeiro livro
salvo da reciclagem por ambos, após a decisão de formar uma coleção para a
comunidade, encontra-se hoje incorporado ao acervo, seu título é “Nossas
Bandeiras” (FIGURA 17).
FIGURA 17 - Carlos Roberto Teles e José Francisco A. Sanches com o livro n.1 do acervo: o primeiro
retirado do lixo.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
Segundo Carlos Roberto, a população da Vila das Torres tomou
conhecimento de sua a iniciativa no dia 21 de junho de 2009, na festa intitulada “Dia
da Cultura Vila das Torres”, também por ele criada e realizada com a colaboração da
comunidade e de artistas e pessoas externas à Vila.
76
Ao ser divulgada, a ideia de Carlos Roberto tomou corpo ao juntarem-se a
ele, além de José Francisco, mais um grupo de pessoas, constituindo uma rede de
membros-fundadores composta por Valdimê Alves Batista Ferreira, Kauanna Batista
Ferreira, Claudio Santos e José Antônio Ferreira, moradores da Vila das Torres; e
Silvana Rausis Fcachenco e Sinval Zaidan Lobato Machado, ambos externos à Vila.
Essas pessoas uniram-se, planejaram e conseguiram arrumar um local mais
adequado para instalar a futura biblioteca. A locação do espaço, a reforma, a
montagem das estantes, os móveis e equipamentos, enfim, a adequação geral foi
realizada por seu idealizador e criador e pelo grupo de fundadores, possibilitando o
recebimento dos livros, crescimento do acervo e atendimento aos usuários.
A Fundação Instituto Tecnológico Industrial (FUNDACEN), presidida pelo Dr.
Sinval Zaidan Lobato Machado, colaborou desde o início através de sua política de
responsabilidade social, destinando uma verba para o pagamento do aluguel do
imóvel e outras despesas. Entretanto, com a criação da Organização do
Desenvolvimento do Potencial Humano (ODPH) no final de 2009, os recursos
passaram a ser direcionados a essa organização, à qual a biblioteca Comunitária
esteve vinculada até inicio de julho de 2011. A colaboração da FUNDACEN nesse
período constituiu motivo para o nome de seu presidente constar junto ao da
Biblioteca, conforme aparece na placa fixada na fachada da Biblioteca (FIGURA 16).
A FUNDACEN é uma entidade civil sem fins lucrativos que colabora e
mantém Projetos Sociais e Culturais. É a mantenedora do Colégio Técnico Industrial
(CTI), com cursos de ensino fundamental, médio e técnico nas áreas de Mecânica,
Eletrônica, Eletrotécnica, Alimentos, Meio Ambiente, Segurança do Trabalho,
Informática, Mecatrônica e Química Industrial.
Montado o espaço, a Biblioteca Comunitária deu início às atividades no dia 7
de julho de 2009, sendo Carlos Roberto o presidente e os demais fundadores
colaborando. O acervo era pequeno, mas aumentou rapidamente, devido as
doações. A dedicação das voluntárias no atendimento aos usuários, em especial a
jovem Kauanna Batista Ferreira e sua mãe, Valdimê Alves Batista Ferreira, cativou
as crianças, que logo passaram a frequentar a Biblioteca Comunitária. A freqüência,
tanto das crianças quanto dos adultos, era em número elevado. Posteriormente, foi
contratada também uma pessoa da comunidade para auxiliar nas atividades
cotidianas. Desde que começou a atender a população até a inauguração, 45
77
usuários inscreveram-se para emprestar livros e havia frequência de cerca de 20
crianças por turno (manhã e/ou tarde), para as atividades de reforço escolar.
A inauguração oficial ocorreu em 03 de setembro de 2009, com um acervo
de cerca de dois mil livros, sendo notícia nos jornais locais. Inclusive, chegou a ser
citada no Senado em Brasília, através do pronunciamento do então senador Flavio
Arns e notícia da Agência Senado, disponibilizado no Portal de Notícias do dia 08 de
setembro:
Em pronunciamento ao final da sessão desta terça-feira (8), o senador
Flávio Arns (PR) prestou sua homenagem a um grupo de catadores da Vila
das Torres, em Curitiba, que reuniu 2 mil livros jogados no lixo pelos
moradores da cidade e inaugurou uma biblioteca na comunidade.[...].
"Agora, a Vila das Torres monta sua biblioteca, e quem lê tem o que dizer",
diz o texto lido pelo senador.
- Que essa iniciativa fique como inspiração para todos nós - disse Flávio
Arns.
A divulgação da mídia chamou a atenção das pessoas; as reportagens sobre
a Biblioteca Comunitária e seus principais atores fizeram com que o número de
doações aumentasse, assim como as visitas de pessoas públicas: políticos,
jornalistas, professores e pessoas anônimas interessadas em conhecer a biblioteca
e contribuir.
Os livros retirados do lixo pelos carrinheiros continuaram sendo doados,
contribuindo na formação do acervo, tornando-se comum as doações dessa
natureza conforme pôde ser observado em 2010 pela autora deste trabalho. São os
seguintes os objetivos da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, segundo Carlos
Roberto Teles e os fundadores:
Propiciar, através da informação, a inclusão social da comunidade;
Colaborar na formação de crianças e jovens da comunidade;
Contribuir na formação do hábito de leitura das pessoas da comunidade,
especialmente, as crianças;
Afastar as crianças e adolescentes das drogas e da violência;
Trabalhar a imaginação e a criatividade das crianças;
Disponibilizar material bibliográfico de boa qualidade;
Contribuir para a alfabetização de crianças e jovens;
Facilitar o acesso ao material bibliográfico;
Atender a comunidade nas suas necessidades informacionais;
78
Propiciar o cumprimento da função social da biblioteca comunitária,
aproximando e integrando os membros da comunidade através de
eventos culturais;
Divulgar a biblioteca, seu acervo e serviços realizados na comunidade e
fora dela.
Carlos Roberto, por motivos de saúde, afastou-se da Biblioteca Comunitária
e de suas atividades por aproximadamente um ano, retornando em meados do
primeiro semestre de 2011. Nesse período permaneceu à frente da Biblioteca
Comunitária Valdimê e sua filha Kauanna, com o apoio dos demais fundadores.
A Biblioteca Comunitária é bem localizada no contexto da Vila. Fica no
número 430 da Rua Manoel Martins de Abreu, a alguns metros da Rua Guabirotuba.
É vizinha ao “Bar do Baleia”, ao Museu da Vila das Torres, a “Praça do Baleia”, a
ODPH, a residências, depósitos de papel e demais casas de comércio. Mesmo
antes da revitalização da Vila das Torres, o trecho da rua no qual a biblioteca se
encontra, se destacava pelo colorido. (FIGURA 18).
FIGURA 18 - Rua Manoel Martins de Abreu em frente à Biblioteca Comunitária em 2010
FONTE: Gladston José Cordeiro (dezembro 2010)
A partir de março de 2011, a Rua Manoel Martins de Abreu passou a receber
melhorias, resultado do projeto “Comunidade em Cores”, da COHAB-CT, Prefeitura
de Curitiba e Tintas Coral. No trecho em frente à Biblioteca Comunitária, as reformas
ainda não foram concluídas, entretanto, a diferença é grande, como se pode conferir
nas imagens (FIGURAS 18 e 19). Na calçada em frente à Biblioteca foi colocado um
79
banco de madeira; as floreiras foram feitas em alvenaria, nas cores verde e amarelo.
A fachada da Biblioteca será em breve renovada, porém a cor laranja deve
permanecer (FIGURA 19).
FIGURA 19 – A Rua Manoel Martins de Abreu em frente à Biblioteca Comunitária em agosto de 2011.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
A Biblioteca Comunitária encontra-se instalada em uma área de 40m²
aproximadamente, no andar térreo de um imóvel pertencente a José Francisco A.
Sanches, locado para abrigar a Biblioteca. O espaço tem duas salas, uma maior e
outra menor, e um toalete. A sala maior abriga o acervo, as mesas e as cadeiras
destinadas aos usuários e a menor, uma mesa de trabalho e o computador e alguns
objetos e móveis empilhados. Esse imóvel seria locado para um açougue,
entretanto, dada a importância da Biblioteca para a comunidade, destinou-se à
Biblioteca Comunitária. As estantes são de madeira, pintadas de branco e dispostas
ao longo das paredes; quanto às mesas, são duas maiores e uma mais baixa e
redonda, destinada às crianças menores. Espaço e mobiliário são insuficientes para
o número de crianças que frequentam a biblioteca diariamente.
Quanto à organização do acervo, os livros foram colocados nas estantes
sem qualquer preparo técnico que possibilitasse a sua recuperação. Os dicionários,
enciclopédias e outras coleções ficavam separadas assim como o material didático e
especial (FIGURA 20). O material destinado às crianças: livros de histórias infantis,
em estantes diferentes. (FIGURA 21).
80
FIGURA 20 - Interior da Biblioteca Comunitária antes da organização.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010).
FIGURA 21 – Uma das estantes com os livros de histórias infantis.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010).
Em meados de 2010, ao visitar a Biblioteca Comunitária, a autora da
dissertação constatou que o acervo era formado por obras gerais; dicionários,
enciclopédias, manuais, de diversas áreas; Direito, Literatura, Administração,
Medicina, Historia, Geografia, Artes, Auto-ajuda, Filosofia, e outros, bem como os
livros infantis e didáticos. Dentre os livros da área literária, encontram-se de autores
nacionais como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Sérgio
Buarque de Holanda, Clarice Lispector, entre outros, além de vários autores
81
estrangeiros. Segundo Kauanna, os livros de ficção são diariamente procurados e
emprestados, principalmente por mulheres. “Romances como os de Sidney Sheldon
e similares são procurados sempre, também os de auto-ajuda e de cunho religioso”.
Nessa ocasião, Kauanna explicou que, após a inauguração oficial da Biblioteca, em
setembro de 2009, as doações aumentaram em função da sua divulgação nos meios
de comunicação. Entretanto, o material bibliográfico destinado ao público infantil e
infanto-juvenil necessitava de um reforço, pois a média diária de crianças girava em
torno de 40. Ela enfatizou que também o número de adultos inscritos cresceu, assim
como os atendimentos mensais, que passaram a variar entre 50 e 100. A média
diária de crianças, em torno de 40 também exigia maior disponibilidade de material.
Constatou-se a realização do cadastro para os usuários, bem como o
empréstimo dos livros, sendo geralmente o material devolvido, mas às vezes com
alguma demora. Emprestam-se até três livros por usuário por um prazo de 15 dias.
Para atender à demanda dos usuários infantis, em setembro de 2010,
realizou-se uma campanha para arrecadar esse tipo de material junto à comunidade
curitibana, que colaborou, aumentando a coleção infantil e infanto-juvenil em 888
novos livros. Esclarece-se que esse tipo de material exige renovação constante em
virtude do manuseio diário, para estimular as crianças a ler. Cadernos para colorir e
joguinhos têm vida curta e também implicam renovação periódica.
O local no qual a Biblioteca se encontra instalada é pequeno, tanto para o
número de usuários como para a quantidade de livros recebidos. No mês de
setembro de 2010 já beirava os cinco mil exemplares, dispostos nas estantes sem
nenhum tratamento técnico, separação
por
assunto,
classe
ou
área
de
conhecimento, dificultando a busca pela informação desejada. Constatou-se que tal
acervo, para bem atender a comunidade, deveria receber tratamento técnico
adequado, devendo passar também por criteriosa seleção. A declaração da
atendente da Biblioteca em novembro de 2010 expõe essa realidade:
Quando as pessoas querem um determinado livro é bem difícil de encontrar
porque é necessário ir procurando pelas estantes, estão todos misturados.
Os adultos, principalmente as mulheres, procuram os livros de literatura, os
romances. Os alunos das escolas querem livros para fazer os trabalhos,
mas nem sempre a gente acha. Os livrinhos de historinhas das crianças
ficam ali, separados, e eles mesmos procuram o que desejam ler e
emprestar para lerem em casa. O material didático também está separado,
é fácil de pegar.
82
Valdimê diz que um de seus sonhos é ver a Biblioteca organizada para
melhor atender à comunidade:
Eu sei que apenas ter uma grande coleção não é ter uma biblioteca, para
ser mesmo uma biblioteca é necessário que seja organizada, que as
pessoas encontrem o que procuram. Nós temos um grande acervo mas o
nosso problema tem sido este, quem organize tudo isto. Livros chegam
todos os dias, os melhores nós colocamos nas estantes, os ruins; velhos,
sujos, de assuntos que não são de interesse, nós separamos para
reciclagem, pois necessitamos de dinheiro para comprar material para as
atividades com as crianças e isso ajuda. Também, estamos pensando em
começar a repassar livros para outras comunidades para que organizem as
suas bibliotecas também. Aqui a Kauanna faz o que pode, arruma toda a
biblioteca, os livros nas estantes, atende as pessoas da comunidade,
empresta os livros, orienta as crianças, recebe a imprensa, as visitas de
fora, faz a divulgação da biblioteca, até aí tudo bem, o nosso problema tem
sido exatamente este, organizar a coleção.
Segundo a atendente, uma usuária da Vila, que sempre empresta livros
falou: “gostaria que meus filhos passassem a gostar de ler como eu gosto.”
A autora da dissertação observou que, no período da tarde, os usuários são
mulheres em busca de livros de literatura; adolescentes para trabalhos escolares e
em quantidade maior, crianças para as atividades oferecidas, nomeadamente,
reforço escolar, leituras, desenhos e outras que contribuem para a criatividade,
alfabetização e formação do hábito de leitura. Também há crianças em busca de
livros de historinhas para ler em casa. As atividades com as crianças, até junho de
2011, eram realizadas por Kauanna e pela atendente, na Biblioteca Comunitária ou
dependências da Organização do Desenvolvimento do Potencial Humano (ODPH),
localizada na casa em frente. O número de usuários na Biblioteca varia, pois, na
realidade, sofre a influência de vários fatores sendo o relacionado ao “clima” da Vila,
questão da violência e da falta de segurança, o principal.
Apesar
de
Carlos
Roberto
figurar
como
presidente
da
Biblioteca
Comunitária, a diretoria não é legalmente constituída, pois o projeto foi criado para
permanecer vinculado a uma das entidades da Vila. Carlos Roberto declarou: “Eu
criei a Biblioteca Comunitária como extensão do ‘Projeto Jovem Cidadão para
Crianças e Adolescentes’ [...]”. Em novembro de 2009, foi criada a ODPH pelo
mesmo grupo que criou a Biblioteca Comunitária. Valdimê e seu marido José
Antonio passaram a fazer parte da diretoria do novo órgão e no cargo de presidente
ficou uma pessoa externa à Vila. Segundo Valdimê, a Biblioteca Comunitária foi de
imediato vinculada a essa organização, com a anuência de Carlos Roberto.
83
A ODPH nasceu com o objetivo de constituir-se organização da sociedade
civil de interesse público (OSCIP) e desenvolver projetos e ações em benefício da
comunidade. Tornou-se, de fato, pessoa jurídica somente em junho de 2011 em
função dos procedimentos legais demandados, ficando impedida no ano de 2010 e
até junho de 2011 de buscar parcerias e participar de projetos, conforme se
pretendia. Quanto aos motivos que levaram a criação da ODPH, Kauanna atribui,
em parte, às necessidades geradas a partir da própria Biblioteca Comunitária. Ela
explica que tão logo a biblioteca abriu as portas à comunidade, as crianças
passaram a frequentá-la em número elevado, até vinte por período, tornando-se
necessário encontrar um local maior para o desenvolvimento de atividades e
atendimento às crianças, especialmente aquelas com problemas psicológicos.
Também tornou-se necessária a captação de recursos para as despesas
decorrentes das atividades realizadas com os pequenos, gastos com pessoal
contratado e manutenção geral da Biblioteca. Sem o apoio de uma organização ou a
transformação da própria biblioteca em pessoa jurídica, o recebimento de doações e
captação de recursos por meio de projetos esbarrava na questão legal. Assim, a
nova organização tanto serviu para apoiar a Biblioteca Comunitária como para
atender a outras demandas da comunidade.
Segundo Kauanna, a ODPH foi criada para administrar dois projetos:
Biblioteca Comunitária e Casa de Apoio; a biblioteca para facilitar o acesso da
população da Vila das Torres à informação, ao conhecimento, ao lazer e à cultura,
estimulando o gosto pela leitura; a Casa de Apoio para atender necessidades gerais
da comunidade destacando-se as atividades de reforço escolar e atendimento
psicológico às crianças com problemas, cursos de informática à noite para adultos,
distribuição de alimentos doados por pessoas e instituições às pessoas carentes da
comunidade, apoiar eventos festivos na comunidade como à festa “Dia da Cultura
Vila das Torres”, além de realizar bazares. Para o funcionamento da ODPH, alugouse uma casa quase em frente à Biblioteca Comunitária, na Rua Manoel Martins de
Abreu nº. 405 (FIGURA 22) com o apoio financeiro da FUNDACEM, que passou a
contribuir mensalmente com uma verba para o aluguel dos imóveis das duas
entidades. O gerenciamento da verba ficou a cargo da ODPH.
84
FIGURA 22 - Sede da Organização do Desenvolvimento do Potencial Humano
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
Carlos Roberto, ao retornar às atividades em abril de 2011, após período de
afastamento por problemas de saúde, decidiu reassumir a Biblioteca Comunitária,
bem como proceder a sua desvinculação da ODPH por entender que a Biblioteca
Comunitária deve constituir-se pessoa jurídica ou vincular-se a uma associação
legalmente constituída, porém, voltada para a cultura e formação dos jovens e
crianças da comunidade. Ele declarou:
[...] Nós temos de prestar serviços à comunidade que ainda não são
realizados como a preparação dos jovens para o mercado de trabalho e
falo também da apresentação física mesmo, das roupas, como se portar,
onde procurar emprego, onde se qualificar, essas coisas. As atividades da
Biblioteca são as relacionadas à cultura, ao conhecimento, aos programas
de leitura, de alfabetização, essas coisas e devem ser lá realizadas. A
biblioteca também deve funcionar sem qualquer vínculo com partido
político ou religião.
Assim, conforme Valdimê, após algumas reuniões, decidiu-se pela
desvinculação da Biblioteca Comunitária da ODPH ficando, a partir de 29 de junho
de 2011, ela e seu marido José Antonio na ODPH, uma vez que fazem parte de sua
diretoria, e Carlos Roberto, na Biblioteca Comunitária. Entretanto, segundo ela; “eu e
minha família continuaremos colaborando com a Biblioteca Comunitária como
sempre fizemos”.
Ao desvincular-se da ODPH, a Biblioteca Comunitária ficou sem apoio
financeiro e, não sendo uma instituição legalmente constituída, tem poucas chances
de sucesso na captação de recursos. Por isso, em julho do corrente ano, passou a
85
estar vinculada ao Clube de Mães União Vila das Torres, organização que passou a
apoiar a biblioteca provisoriamente. Segundo informações da presidente do Clube
de Mães, Irenilda Arruda, essa vinculação deve perdurar até a “Associação Jovem
Cidadão de Mãos Dadas com Você” ser criada e constituir-se pessoa jurídica para
fornecer o suporte que a Biblioteca Comunitária necessita.
Atualmente, as despesas de aluguel, luz, telefone e demais gastos são
pagos com o apoio do Clube de Mães União Vila das Torres, doações recebidas e
recursos captados através de rifas e outras práticas semelhantes, entretanto,
contatos estão sendo realizados junto a empresários visando conseguir um novo
patrocinador. O atendimento aos usuários é realizado por uma voluntária.
Conforme informação de Carlos Roberto em agosto de 2011: “vamos criar
nos próximos meses a ONG ‘Associação Jovem Cidadão de Mãos Dadas com
Você’, à qual a Biblioteca Comunitária será vinculada em definitivo”. Ainda segundo
ele, essa nova ONG é uma transformação do antigo “Projeto Jovem Cidadão para
Crianças e Adolescentes”.
Com essas mudanças, a Biblioteca Comunitária entra em nova fase, tanto
que até de nome mudou. Na placa mantida até julho de 2011, constava “Biblioteca
Comunitária Dr. Sinval Zaidan Lobato Machado Vila Torres – ODPH” (FIGURA 16).
A nova placa passou a exibir apenas “Biblioteca Comunitária Vila Torres” (FIGURA
23).
FIGURA 23 – A nova placa na fachada da Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
86
3.3.2 Atores da comunidade que são destaques frente à Biblioteca Comunitária
Carlos Roberto Teles, o “Chameguinho” (FIGURA 24), é morador da Vila das
Torres há oito anos. É um artista reconhecido, destacando-se no âmbito social por
suas iniciativas. Segundo ele, no ano de 2003 lançou, na Vila das Torres o “Projeto
Jovem Cidadão para Crianças e Adolescentes” e em 2008 deu inicio ao acervo da
Biblioteca Comunitária, concretizando a sua fundação, com o apoio de uma rede de
membros-fundadores em 2009.
FIGURA 24 - Carlos Roberto Teles, idealizador e criador da Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
FIGURA 25 – Carlos Roberto Teles como “Sombra”.
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
87
.
Como artista, criou o personagem “Sombra” (FIGURA 25), tornando-se
conhecido por suas apresentações na Rua XV de novembro, próximo à Boca Maldita
e, ao longo do tempo, passou a receber convites para realizar shows, também, em
outras localidades. Carlos Roberto conta que foi menino de rua e aos sete anos,
depois de ter apanhado do pai por estar envolvido com drogas, fugiu para São
Paulo. Após tentativa de assalto, foi parar em um colégio interno onde estudou
teatro. De volta a Curitiba, com aproximadamente 10 anos, começou a vender
balões para contribuir com a renda familiar e logo depois iniciou suas apresentações
como palhaço e artista de rua, não parando mais.
Pela criação e apresentação do personagem “Sombra” recebeu o prêmio
Top of Mind, destinado a premiar marcas mais lembradas. Da Câmara Municipal de
Curitiba recebeu “Votos de Louvor”, um pela sua atuação junto ao “Projeto Jovem
Cidadão”, e outro por seu trabalho como artista de rua. O “Projeto Jovem Cidadão” é
mantido sem fins lucrativos. Atualmente, encontra-se tramitando matéria referente a
mais um “Voto de Louvor” pela fundação da Biblioteca Comunitária. Em 2004,
participou de um encontro promovido pela Comissão Antidrogas em Brasília. Em
2006, lançou o DVD; “Sombra a favor da vida”, vendido a quinze reais no qual relata
a trajetória de sua vida. Ele afirma, “assim como alguém me ajudou quando eu era
menino de rua, hoje faço a minha diferença”. Em 2009, como Presidente da
Biblioteca Comunitária, foi convidado a participar, em Brasília, no Senado Federal,
do evento “Seminário Dia e Semana Nacional da Leitura e Literatura” nos dias 14 e
15 de outubro de 2009. Esse seminário foi promovido pela Comissão de Educação,
Cultura e Esporte do Senado Federal e Instituto Ecofuturo, sendo o convite para a
palestra Biblioteca do lixo (ANEXO 1). Entretanto, não pôde comparecer por
problemas de saúde, participando Kauanna, também convidada e a frente da
Biblioteca Comunitária nesta época.
Carlos Roberto diz que sua preocupação constante são as crianças e os
jovens, principalmente os que vivem na rua e cita como exemplo a manifestação por
ele organizada em dezembro de 2008. Ele relata que no dia 10 de dezembro, Dia
Internacional do Palhaço, organizou e liderou uma manifestação na Rua XV de
Novembro em Curitiba, onde, com outros artistas, distribuiu panfletos à população
alertando sobre o perigo do uso de drogas entre as crianças. Também lançou a
campanha “Dê um minuto de atenção ao seu filho antes que a droga o adote”, como
88
parte do Projeto Jovem Cidadão. Teles conta que viaja pelo país inteiro realizando
palestras de prevenção às drogas em escolas e também apresentações artísticas.
Planeja ainda realizar outros projetos na Vila e que suas atuais preocupações
recaem sobre os jovens da comunidade, a quem deseja apoiar e direcionar para o
mercado de trabalho. São comuns, na internet, artigos e comentários a respeito de
Carlos Roberto, sendo um dos últimos encontrados, de 05 de abril de 2011, por
Claudia Wasilewski:
O palhaço Chameguinho e a Biblioteca
Conheço Carlos Roberto Teles, o Palhaço Chameguinho, desde que era
criança. Foi menino de rua. Uma mente privilegiada. Adolescente vivia as
voltas com os livros.
Fui visitar a Valéria Prochmann, quando era Diretora da Biblioteca Pública
do Paraná, e lá estava ele pedindo uma “cesta básica” de livros para a Casa
do Pequeno Jornaleiro.
Em janeiro deste ano, me encontrou na Boca Maldita e veio me contar da
sua vida. Foi só emoção, ver aquele menino, se transformar em um homem
de bem.
Há dois anos criou uma Biblioteca Comunitária na Vila Torres. Convenceu
catadores de papel, a doarem os livros encontrados no lixo. O preço pago
pelo “papel” era insignificante. E com sua lábia que não é fraca, estabeleu
uma relação importante entre catadores e livros. A biblioteca está lá e
qualquer hora vou conhecer. [...].
Encontram-se, na Internet, inúmeras reportagens, não só sobre o idealizador
e criador da Biblioteca Comunitária, mas também sobre seus fundadores como a
jovem Kauanna Batista Ferreira e o morador José Francisco A. Sanches, por suas
ações em benefício da comunidade.
Kauanna (FIGURA 26) é moradora da Vila, fundadora da Biblioteca
Comunitária e filha dos também fundadores Valdimê e José Antonio Ferreira. A
família pertence à Diretoria da Biblioteca Comunitária e ODPH. A jovem tem se
destacado frente à Biblioteca Comunitária sendo colaboradora desde que Carlos
Roberto
anunciou
à
comunidade
a
criação
da
Biblioteca
Comunitária.
Posteriormente, ela passou a coordenar as atividades e tornou-se responsável pelo
seu funcionamento até junho de 2011.
89
FIGURA: 26 - Kauanna Batista Ferreira
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010)
Kauanna tinha apenas 17 anos quando passou a colaborar na Biblioteca.
Hoje estuda Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e,
por
sua
atuação
na
comunidade,
foi
destaque
no
Prêmio
Voluntariado
Transformador 2009. Este prêmio foi idealizado pelo Centro de Ação Voluntariado de
Curitiba (CAV). A jovem, além das atividades administrativas, vem realizando várias
atividades junto à Biblioteca Comunitária, como o reforço escolar às crianças.
Também dispõe de um blog para divulgar as atividades da biblioteca, de outras
organizações que atuam na Vila, de eventos envolvendo principalmente as crianças
e as notícias que são destaque na Vila.
Apesar de muito jovem, Kauanna tornou-se conhecida e respeitada na
comunidade e fora dela por seu trabalho junto à Biblioteca, tanto que ela participou
em Brasília, no Senado Federal, no evento Seminário Dia e Semana Nacional da
Leitura e Literatura, nos dias 14 e 15 de 2009, a convite do então senador Flávio
Arns. O seminário foi promovido pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do
Senado Federal e Instituto Ecofuturo. As passagens aéreas para Kauanna foram
custeadas pela Cooperativa dos Pescadores e Maricultores de Guaraqueçaba e
Vale do Ribeira e, por ser menor de idade, ela foi acompanhada da jornalista Silvana
Rausis Fcachenco, também fundadora e colaboradora da Biblioteca Comunitária
(FIGURA 27).
90
FIGURA 27 - Kauanna Batista Ferreira, a Jornalista Silvana Silvana Rausis Fcachenco e o senador
Flávio Arns, em Brasilia.
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010).
Para Kauanna: “A biblioteca vem facilitar o acesso da comunidade a cultura
e ao conhecimento.”
José Francisco A. Sanches (FIGURA 28), mais conhecido como “Baleia” é
conhecido em toda a comunidade e apresentado como um dos principais
incentivadores da cultura na Vila.
FIGURA: 28 - José Francisco A. Sanches.
FONTE: O autor (2011)
Engajado na iniciativa do amigo Carlos Roberto em criar a Biblioteca
Comunitária, não só doou os livros que havia retirado do lixo e guardado, mas
também deu continuidade ao processo, comprando livros dos catadores de papel e
91
destinando ao acervo da futura biblioteca, sendo por isso reconhecido como um dos
fundadores da Biblioteca Comunitária. José Francisco é um antigo morador da Vila,
dotado de espírito empreendedor. Chegou à Vila em 1969, ainda criança. Ele veio
com a família do Norte do Paraná, fugindo da pobreza e na esperança de encontrar
na cidade grande uma vida melhor. Porém, conforme depoimento a Lazaroto (2004,
p. 57):
[...] aqui, a coisa foi mais difícil ainda. Mendigamos comida, inclusive no
Quartel General da Policia Militar. Nessa época, começamos a catar papel.
Nunca estudamos, “só pedimos”. Meu pai carpia, limpava jardim, cuidava de
carros no campo de futebol.
José Francisco e os irmãos começaram a trabalhar aos 12 e 13 anos em
empresas onde eram registrados como se tivesse mais idade e, na década de 90,
foram trabalhar no Japão. Ele trabalhou no Japão por quase dois anos e quando
retornou decidiu aplicar o dinheiro ganho na própria Vila. Montou um açougue, uma
mercearia e um depósito de papel. Diz ele: “de catador de papel, virei comprador”.
Seus irmãos ainda moram no Japão, seu pai faleceu e sua mãe mora na Vila. Ele diz
que “não sai da Vila por nada”. É dono de imóveis, ali criou os filhos e agora vê os
netos crescerem. Preocupa-se muito com as crianças, com a violência e com as
drogas. Ele tem um sonho: construir um imóvel para instalar o Museu da Vila das
Torres.
Por enquanto, o Museu da Vila das Torres encontra-se instalado em uma
sala, ao lado do “Bar do Baleia”. No Museu encontram-se várias peças antigas e
atuais, inteiras ou um pouco danificadas, objetos, vários quadros, alguns pintados a
óleo, tudo resgatado pelos carrinheiros. Nas paredes, fotografias novas e antigas, da
Vila e dos moradores, do passado e de hoje, resgatando a história da comunidade.
José Francisco é proprietário de um terreno localizado em frente à Biblioteca
Comunitária, no qual pretende construir um imóvel para abrigar o Museu e também
realizar atividades que contribuam para o crescimento do ser humano como cidadão.
Sua intenção é disponibilizar espaços para atividades, em especial para as crianças:
sala para cinema, jogos, palestras e outras. Entretanto, falta parceria para a
construção do imóvel. Segundo ele (2010):
As crianças da Vila merecem e precisam de mais locais assim, voltados ao
lazer, à educação, às práticas saudáveis dessa idade e nada melhor do que
as boas leituras, os bons filmes, como aqueles mais antigos, os esportes
que favorecem a convivência saudável, a camaradagem, sem drogas e sem
vícios, assim eles vão crescer querendo ter uma vida melhor e vão estar
preparados para lutar e conseguir.
92
Ele já montou para a comunidade uma área de lazer denominada “Praça do
Baleia”, em frente ao seu bar, na qual pneus viraram mesas e pedras, apoio para
sentar. Há também bancos de madeira, tudo pintado nas cores verde e amarelo.
Como lema para a Vila, uma placa na qual se lê: “Vila das Torres, você consegue”
(FIGURAS 13). A praça passou a ser utilizada por crianças e adultos para conversar,
brincar e para a leitura de uma forma bastante prazerosa: ao ar livre.
No primeiro semestre de 2011, em função da revitalização da Vila das
Torres com o projeto da COHAB-CT, o “Comunidade em Cores”, a “Praça do Baleia”
foi demolida e reconstruída, ganhando novo visual e dando continuidade a sua
função: propiciar lazer de forma saudável. José Francisco diz lamentar divergências
entre voluntários dos projetos, pois as ações são realizadas com mais facilidade
quando há união. Ele mostra as mãos e diz:
Olha, se você bater palmas usando somente um ou dois dedos contra a
palma da outra mão, não ecoa, ninguém escuta, mas se você usar as duas
mãos inteiras e bater assim, ai sim, o resultado é o esperado. Assim é na
vida, para conseguir o que queremos temos de nos unir, um ajudar o outro,
trabalhar juntos, eu aprendi isso quando trabalhei no Japão, e nunca
esqueci. O meu lema é colaboração, é união, sei que trabalhando desse
jeito dá certo.
Apesar de não aparecerem na mídia como os demais agentes acima, o
casal Valdimê e José Antonio Ferreira, pais de Kauanna, são conhecidos e
respeitados na Vila por suas ações em benefício da comunidade (FIGURA 29). O
casal, juntamente com a filha Kauanna, faz parte da rede de membros-fundadores
da Biblioteca Comunitária. Valdimê e o marido, desde o inicio, realizavam tanto às
atividades cotidianas como às administrativas, incluindo as financeiras. Com a
criação da ODPH e a vinculação da Biblioteca Comunitária a essa organização, o
casal passou a administrar a Biblioteca Comunitária e a ODHP, pois faz parte da
diretoria da ODPH.
Na Biblioteca, Valdimê e o marido passaram a cuidar desde a conservação
geral até a manutenção das portas abertas à comunidade quando a atendente
contratada encontrava-se impossibilitada. Eles também atendiam em horário além
do habitual, no recebimento das doações.
O casal tem dois filhos e é proprietário de um supermercado na Vila. José
Antônio passou a residir na Vila a partir dos anos 80, trata-se de um homem sempre
disposto a colaborar, deixando por vezes seu comércio fechado para atender a
93
Biblioteca. Valdimê mora ali desde criança, trata-se de uma líder, uma pessoa
determinada, que se dedica às causas sociais com prazer e alegria. É carinhosa
com as crianças e se preocupa com o futuro delas, destinando grande parte de seu
tempo ao planejamento e realização de atividades voltadas ao desenvolvimento
sadio de crianças e adolescentes, junto à Biblioteca e à ODPH. Trata-se de uma
família cuja ação e prática comunitária são exemplos à comunidade e à cidade.
FIGURA 29 - Casal Valdimê Alves Batista Ferreira e Jose Antonio Ferreira.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010)
Pelo trabalho desse grupo de agentes pode-se dizer que as lideranças da
Vila das Torres preocupam-se com os menos favorecidos, excluídos dos bens
básicos necessários à sobrevivência com dignidade. Essas pessoas estão
conscientes de que o acesso a uma vida melhor passa pela aquisição do
conhecimento, o qual oportuniza e favorece a obtenção de melhores empregos.
3.3.3 Visitas ilustres à Biblioteca Comunitária
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres destaca-se por seu histórico e
trajetória. O trabalho e a dedicação dos agentes envolvidos na sua fundação e
manutenção serve de exemplo ao Estado a quem cabe a responsabilidade por criar
e manter bibliotecas públicas. A iniciativa desses agentes tem chamado a atenção,
tanto que a Biblioteca Comunitária recebe visitas de pessoas interessadas em
94
conhecer, doar material bibliográfico, realizar pesquisa ou matéria para jornal ou
televisão. São pessoas comuns, estudantes, políticos, professores e jornalistas da
mídia impressa, falada, on-line e televisionada. Estas visitas deixam felizes muitos
dos moradores que ali pretendem continuar e sonham com menos violência e
melhores condições de vida. Uma moradora antiga declarou:
[...] continuo morando aqui porque gosto dessa Vila, é bem localizada, no
centro, gosto de gente. Antigamente era por necessidade e fui me
acostumando, e depois tenho meus pais aqui e desejo ver tudo isso se
transformar, melhorar ainda mais, se integrar de fato à cidade. Tenho essa
esperança sim, isso já melhorou muito.
Dentre as pessoas de destaque que visitaram a Biblioteca Comunitária no
período em que se realizou esta dissertação, destaca-se Marina Silva, à época da
campanha à Presidência da República (FIGURA 30). Ela visitou a Vila e na
Biblioteca foi recepcionada por seu criador - Carlos Roberto, por Kauanna e pelos
demais fundadores e dirigentes da biblioteca e da ODPH, além de colaboradores e
pessoas da Vila. Marina recebeu de presente desenhos realizados pelas crianças,
entregues por elas próprias.
FIGURA 30 - Marina Silva na Biblioteca Comunitária
FONTE:Acervo: Gladston José Cordeiro (2010)
Em setembro de 2010, também esteve na Vila das Torres, quando da
campanha eleitoral ao senado, a atual ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.
Ela visitou o Museu da Vila das Torres e a Biblioteca Comunitária e, ao tomar
95
conhecimento da campanha para arrecadar livros para a Biblioteca, realizada
naquele período, prometeu colaborar (FIGURA 31).
FIGURA 31 - Gleisi Hofmann em visita à Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
É comum a visita de professores de outros estados. Em outubro de 2010, o
Prof. Dr. Flávio Ramos, da Universidade do Vale do Itajaí-SC (Univali), veio
especialmente conhecer a Biblioteca Comunitária e conheceu também o Museu da
Vila das Torres, junto ao “Bar do Baleia” (FIGURA 32).
FIGURA 32 - Prof. Dr. Flávio Ramos em visita à Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Marinez da Silva.
96
A Biblioteca Comunitária contou ainda com a visita de estudantes de outros
países, como os participantes do programa de intercâmbio da escola de inglês
Interamericano, interessados em conhecer a Vila e a experiência de uma biblioteca
nascida do lixo.
Em maio de 2011, Egleé Belisário Guevara, bibliotecária venezuelana
(FIGURA 33), em visita a Curitiba conheceu a Biblioteca Comunitária, sendo
recebida por Valdimê e Carlos Roberto, que se prontificou a mostrar a comunidade
para ela. Igleé conheceu o Clube de Mães União Vila das Torres e se surpreendeu
pelo dinamismo, organização e produção de artigos que são, inclusive, exportados.
A bibliotecária fez questão de deixar o seu depoimento sobre a Vila das Torres e
sobre a Biblioteca Comunitária:
É uma vantagem poder acompanhar certas realidades sociais, muitas vezes
ignoradas por muitos profissionais da biblioteconomia.
Constato com satisfação que há ideias relacionadas com a organização das
bibliotecas, especialmente aquelas localizadas em locais carentes, que
geralmente não são alcançados pelas práticas e políticas culturais locais
concebidas pelos governos, embora eu deva esclarecer: eu já vi no Brasil,
especialmente em Curitiba, práticas sociais que visam melhorar a qualidade
de vida dos habitantes desta cidade, por exemplo: o sistema de separação
de resíduos para reciclagem, transportes públicos e à variedade de centros
culturais, onde partilham a biblioteca tradicional como um lugar para leitura,
juntamente com os recursos tecnológicos oferecidos pela Internet, são
práticas altamente positivas para a vida na atualidade. Em Curitiba há,
certamente, uma grande variedade de centros destinados a fomentar a
criatividade, a cultura e a educação no desejo de dar o melhor para a
população.
Na Vila das Torres Vejo dois aspectos importantes: primeiro, é o povo da
Vila que tem buscado soluções para as suas necessidades educacionais,
culturais e de trabalho. O segundo aspecto é a participação de agentes
públicos e particulares no apoio ao desenvolvimento adequado dessas
práticas realizadas na comunidade da Vila (tradução nossa).
Sobre a Biblioteca Comunitária, como passou algumas horas observando o
término dos trabalhos referentes à informatização do acervo, seu depoimento a
respeito encontra-se no item “4.3.5”. Atualmente a Sra. Guevara trabalha no Museo
Galería de Arte Nacional (Caracas-Venezuela).
97
FIGURA 33 - Igleé Belisario Guevara em visita à Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro
3.3.4 Dificuldades e perspectivas
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres nasceu da percepção de um
cidadão e esforço de um grupo empenhado em oportunizar à comunidade o acesso
ao livro e outros materiais com o propósito de minimizar a exclusão social, fruto das
desigualdades geradas por desemprego, violência, pobreza e drogas.
A Biblioteca Comunitária tem sido alvo de reportagens constantes, tornandose conhecida de políticos e autoridades. Entretanto, para realizar as atividades
necessárias, continua contando somente com os membros fundadores, como de
início. A contribuição de voluntários externos é pontual, ou seja, para determinadas
atividades e geralmente por um período. O atendimento da Biblioteca, incluindo as
atividades de reforço escolar, era realizado por uma moça contratada e por
Kauanna. Entretanto, a partir de março de 2011, Kauanna assumiu um estágio do
curso de jornalismo que frequenta, permanecendo na supervisão dos trabalhos.
Assim, a jovem continuou colaborando nas horas em que suas atribuições
permitiam.
Os dirigentes pretendem contatar autoridades municipais e estaduais,
visando o encaminhamento de pessoal mantido pelo Estado para o atendimento. A
partir da organização e informatização do acervo é necessário um profissional da
área para a continuidade dos trabalhos técnicos e orientação aos auxiliares.
Doações recebidas através da ODPH, organização a qual a Biblioteca Comunitária
era vinculada até junho de 2011, restringem-se a materiais para manutenção dos
98
imóveis e dos móveis, televisão, computador, scanner, roupas e objetos para o
bazar e materiais para as aulas de reforço escolar, além de tinta para pintura das
paredes.
Segundo Kauanna, são muitas as dificuldades e poucos os voluntários.
Datas comemorativas como Dia das Crianças, Páscoa, Natal e outras têm sido
realizadas com a ajuda de voluntários, que presenteiam as crianças. Um exemplo
recente foi o Natal de 2010, cuja festa foi realizada pelo vereador Juliano Borgethi,
que teve distribuição de presentes às crianças. Também o Dia das crianças de 2010
contou com uma festa realizada pelo pessoal do programa “PLUG”, da Rede
Paranaense de Televisão (RPC). A equipe realizou uma reportagem e patrocinou a
festa, além de distribuir brinquedos às crianças.
Os dirigentes da Biblioteca trabalham no sentido de alcançar, em médio
prazo, as seguintes metas: abrigar a Biblioteca Comunitária em imóvel próprio;
conseguir apoio, através de parcerias, projetos ou mesmo do Estado para ampliar o
quadro de pessoal e contratar, principalmente, profissionais qualificados para
atender às crianças no contra turno (reforço escolar), dar atendimento psicológico e
bibliotecário; desenvolver projetos e parcerias em prol da comunidade; formar, junto
à Biblioteca Comunitária a “Memória da Vila das Torres”; realizar, na Biblioteca
Comunitária, atividades inerentes aos seus objetivos: funcionar também como um
centro de cultura, de integração da comunidade com eventos que atraiam as
pessoas, estimulem o convívio com os livros, desenvolvam a criatividade e o desejo
de crescer como ser humano e cidadão.
O resgate da memória da Vila das Torres é necessário por contribuir para a
história da própria cidade. Trata-se de formar a coleção dos registros orais, escritos
e fotográficos da Vila e de seus moradores, incluindo a produção acadêmica
realizada ao longo do tempo, também as reportagens dos jornais e revistas, enfim,
todo o material impresso e digital que contribua para a história da Vila não se perder.
Além disso, é preciso recuperar e preservar a memória, contribuir para o
reconhecimento e o fortalecimento dos laços da comunidade por meio da
identificação com seu passado. Este resgate começou a tomar forma, tanto que para
a sua realização a Biblioteca recebeu um scanner, de forma gratuita, do Sr. Gladston
José Cordeiro, colaborador da Biblioteca. A foto abaixo registra a entrega do
scanner a Valdimê e José Francisco. Ele, criador do Museu, ficou interessado no
assunto, pois pretende preservar as fotos e documentos da Vila (FIGURA 34).
99
FIGURA 34 - Gladston José Cordeiro na doação do scanner a Biblioteca Comunitária.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2010)
São inúmeros os artigos e trabalhos acadêmicos de mestrado e doutorado
sobre a Vila das Torres e seus habitantes. Entretanto, até a presente data, a
produção editorial resume-se a dois livros: um com depoimentos dos moradores,
cujo título é “Como ela é”, organizado por Adriane Lazaroto e outro de poesia com o
título “Fabra Morata”, de Sonia Davanso. Sobre os trabalhos acadêmicos realizados
sobre a Vila, um morador declarou:
“[...] olha, eu não gosto da academia não, eu mesmo já dei tanta
informação, tanta entrevista, já contei tanta coisa, já fizeram tanta pesquisa
sobre essa comunidade, mas, ajudar as pessoas que é bom nada. Essas
pessoas vêm aqui, escutam, gravam, gravam e vão embora. Nós
precisamos é que venham somar com nós, colaborar no sentido prático.
Ajudar a melhorar as coisas. É isso”.
Entretanto, os trabalhos acadêmicos são pesquisas que resgatam a história
da Vila e de seu povo. No futuro, espera-se que a Biblioteca Comunitária reúna essa
produção e possa responder aos moradores questões referentes às suas raízes.
José Francisco tem a mesma preocupação com o passado, tanto que, sempre que
tem oportunidade, procura mostrar e falar às crianças a respeito dos acontecimentos
e pessoas que aparecem nas fotografias do Museu, preservando a memória e
transmitindo a cultura (FIGURA 35).
100
FIGURA 35 – José Francisco A. Sanches e crianças no Museu da Vila das Torres
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
Para Valdimê, o que se pretende alcançar em médio prazo é perfeitamente
possível porque, segundo ela, a Vila já melhorou muito, tem o privilégio de ser bem
localizada e contar com uma população que, na sua grande maioria, luta por
melhores oportunidades e qualidade de vida para os seus familiares e para a
comunidade em geral, Ela completa:
Dificuldades existem em todos os lugares, aqui não seria diferente até
porque é uma comunidade carente, estigmatizada, mas que já evoluiu muito
e tem muito gente trabalhadora, por isso mesmo vale a pena investir,
principalmente nessas crianças que vão tocar essa Vila amanhã. Eu gosto
daqui e vou continuar lutando por dias melhores para todos.
Um dos sonhos do idealizador e criador, dos fundadores e também da
comunidade usuária da Biblioteca Comunitária, concretizou-se recentemente. De
dezembro de 2010 a maio de 2011 realizou-se a organização da Biblioteca
Comunitária. Atualmente, seu acervo de livros encontra-se informatizado, assim
como os serviços básicos, conforme comprometimento da autora da dissertação. Na
fase de informatização adotou-se o software PHL - Personal Home Library,
aplicação web, desenvolvida para administração de coleções e serviços de
bibliotecas e centros de informações, gratuito para ambiente monousuário. O
trabalho técnico foi realizado por uma equipe contratada e sob supervisão da autora
desta dissertação, contando também com a cooperação de voluntários envolvidos e
sensibilizados pela iniciativa e criatividade da comunidade da Vila das Torres.
101
O trabalho técnico, assim como as demais atividades envolvendo a parte
bibliotecária, continuará sob a responsabilidade da autora desta dissertação até
dezembro de 2011. Carlos Roberto, com o apoio do Clube de Mães da Vila das
Torres, decidiu realizar no dia 19 de agosto comemoração referente ao aniversário
de dois anos da Biblioteca. Nesta ocasião, apresentou à comunidade externa o novo
cenário: livros catalogados e classificados, bem como a informatização do acervo. A
realização da festividade ficou condicionada ao término da revitalização da Rua
Manoel Martins de Abreu que dá acesso a Biblioteca, motivo pelo qual o evento
alusivo ao aniversário não foi realizado no dia 07 de julho, data em que a Biblioteca
abriu as portas à comunidade.
102
4 INTERVENÇÃO TÉCNICA REALIZADA NA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA
VILA DAS TORRES
4.1 INTRODUÇÃO E DIRETRIZES
A missão básica de uma biblioteca é organizar, preservar e disseminar a
informação. O presente capítulo tem por objetivo relatar as etapas referentes à
organização e informatização do acervo da Biblioteca Comunitária da Vila das
Torres, com vistas ao cumprimento dos seus objetivos: democratizar a informação
para minimizar a exclusão social. Pode-se dizer que a organização geral dessa
Biblioteca teve seu início no momento em que a autora desse trabalho conheceu a
sua realidade, seus pequenos usuários, seus dirigentes e suas expectativas. O
sonho deles passou a ser também o seu.
Na Vila das Torres, a maior parte da população está à margem das
oportunidades e das escolhas, relegadas ao destino de cidadãos excluídos,
tornando-se necessário mostrar outra realidade, principalmente às crianças, o que
pode ser feito com bons livros, que educam e conscientizam, fazendo com que se
tornem cidadãos aptos a dirigir a própria vida e exercitar a plena cidadania.
O acervo da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres originou-se do lixo e
das
doações,
cresceu
rapidamente,
mas
sem
nenhuma
organização
e
acompanhamento de profissional da área, tornando-se, praticamente, um depósito
de livros. Milanese (2002, p. 21) enfatiza que “o homem registra para reter, e o
registro não encontrável, na prática, é igual ao inexistente.” A percepção inicial sobre
a realidade da Vila das Torres e a pesquisa posterior sobre a Biblioteca Comunitária
apontaram a necessidade de uma intervenção técnica visando à organização de seu
acervo uma vez que atende ao público infantil e a estudantes do ensino básico,
médio e superior, contribui no combate ao analfabetismo, colabora na formação do
hábito de leitura, é fonte de lazer e responde aos questionamentos informacionais da
comunidade.
Partindo dessa realidade decidiu-se não só planejar, mas também executar
as ações, contemplando a população da Vila com um espaço informacional
organizado e informatizado por profissional da área e um moderno sistema
gerenciador de bibliotecas e centros de documentação, para favorecer e facilitar o
103
acesso aos livros uma vez que o objetivo não é manter os livros nas estantes e sim
fazer com que sejam utilizados. A reflexão em torno da questão apontou para a
realização de projeto com o objetivo de organizar a Biblioteca Comunitária, tendo
como eixo central a inclusão social da comunidade a partir da informação e ênfase
ao material infantil e infanto-juvenil, dado o objetivo da biblioteca e características da
comunidade. Com vistas ao seu melhor funcionamento, planejou-se a execução das
seguintes ações:
1. Elaborar proposta da Missão, do Regulamento e da Política de Formação
e Desenvolvimento de Coleções;
2. Realizar uma campanha para arrecadar livros infantis e infanto-juvenis;
3. Realizar a seleção e o processamento técnico dos livros – classificação e
catalogação - bem como informatizar a coleção e os principais serviços.
Foram elaboradas e apresentadas aos dirigentes da Biblioteca Comunitária
as
propostas:
da
Missão,
do
Regulamento
e
da
Política
Formação
e
Desenvolvimento de Coleções (APÊNDICE. B). Esses documentos estão sendo
utilizados conforme propostos uma vez que as discussões visando às alterações
cabíveis não foram concluídas. Assim, para realizar a seleção dos livros com vistas
ao processamento técnico foram utilizados os critérios constantes nessa proposta de
Política de Formação e Desenvolvimento de Coleções (APÊNDICE B, PROPOSTA
C).
O regimento interno não foi elaborado devido às mudanças pretendidas pelo
presidente da Biblioteca Comunitária: desvincular da ODPH e criar a “Associação
Jovem Cidadão de Mãos Dadas com Você”, à qual a Biblioteca Comunitária deverá
ser vinculada em definitivo. As ações realizadas pela autora desta dissertação
visavam ampliar a coleção, organizar a biblioteca e informatizar o acervo e serviços
básicos.
104
4.2 CAMPANHA DE DOAÇÃO DE LIVROS INFANTINS E INFANTO-JUVENIS
PARA A BIBLIOTECA COMUNITÁRIA
4.2.1 Apresentação
A campanha para arrecadar livros infantis e infanto-juvenis para a Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres originou-se na análise do acervo da Biblioteca e no
número de usuários infantis e infanto-juvenis que a frequentam. Os registros
confirmavam cerca de 80 usuários infantis inscritos na Biblioteca Comunitária, com
uma frequência diária de até 20 crianças por turno para uma coleção em torno de
500 livros, incluindo livros de historinhas, gibis, cadernos para colorir e outros do
gênero. Constatou-se que a coleção existente era insuficiente uma vez que os livros
são utilizados nas atividades diárias e também emprestados às crianças.
A campanha realizou-se no período de 23 de setembro a 12 de outubro de
2010 com o objetivo de arrecadar livros e outros materiais para o desenvolvimento
de atividades de apoio à alfabetização e formação do hábito de leitura,
principalmente no público infantil e infanto-juvenil da comunidade. Foram solicitados
gibis, livros com temática infantil, juvenil e infanto-juvenil, novos e usados, em bom
estado. Também foram solicitados livros para colorir, papel sulfite, DVDs e CDs para
as crianças. Outro objetivo da campanha foi divulgar a Biblioteca Comunitária,
visando eliminar progressivamente a imagem negativa que a Vila das Torres ainda
tem na cidade. As lideranças da Vila trabalham para que a população local adquira
melhor nível educacional, com vistas à inclusão socioeconômica e cultural,
equiparando-se aos bairros vizinhos.
A arrecadação de livros infantis e infanto-juvenis, com o objetivo de ampliar
e enriquecer o acervo da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres se justifica pelo
número de usuários que ali iniciam atividades que contribuem na alfabetização e
formação do hábito de leitura. Educadores e estudiosos ensinam que a leitura
colabora para ampliar a visão de mundo da criança, desenvolve a sua imaginação, a
sua criatividade, a auto-estima, essenciais ao seu pleno desenvolvimento. O livro
infantil e infanto-juvenil tem a finalidade de entreter e educar, gerar a integração
entre criança e livro, despertar o prazer da leitura, auxiliar na alfabetização, estimular
o gosto pelo estudo, pela pesquisa e pela informação. Enfim, entende-se que o
105
hábito da leitura se desenvolve por convívio, contato e experimentação sendo
necessário disponibilizar as ferramentas para o seu desenvolvimento. A campanha
constituiu também trabalho social por contribuir com uma biblioteca comunitária,
fruto da ação colaborativa de um grupo de pessoas que lutam pelo acesso à
informação e à leitura. No total, foram desenvolvidas três etapas: planejamento,
execução e apresentação dos resultados.
4.2.2 Planejamento
Nessa etapa foram definidas a ação, o objetivo principal, o cronograma e as
estratégias para a sua execução.
1. Ação: arrecadar, através de campanha, gibis, livros com temática infantil, juvenil e
infanto-juvenil, novos e usados em bom estado. Também livros para colorir, papel
sulfite, DVDs e CDs para crianças.
2. Objetivo principal: ampliar a coleção infantil e infanto-juvenil da Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres visando aproximar os usuários mirins e infantojuvenis do livro, despertando o gosto pela leitura, contribuindo com a alfabetização e
formação do hábito de leitura.
3. Cronograma:
Ano/período: 2010 - segundo semestre.
Preparação da campanha: 22 de agosto a 22 de setembro;
Execução: 23 de setembro a 12 de outubro;
Entrega do material à Biblioteca Comunitária: Semana de 12 a 16 de
outubro;
Divulgação dos resultados: 17 a 25 de outubro.
4. Estratégias:
Analisar acervo da Biblioteca Comunitária;
Realizar reuniões com os dirigentes e demais pessoas envolvidas com a
Biblioteca Comunitária;
Contatar amigos com experiência e/ou habilidades para colaborar;
Escolher, para divulgar a campanha, meios que alcancem grande
número de pessoas;
106
Contatar estabelecimentos bem localizados e com bom fluxo de pessoas
para centralizar a coleta das doações;
Levantar custos do material para divulgação: confecção de cartazes, sua
arte-final e reprodução e transporte do material bibliográfico recebido,
caso não se consiga gratuitamente, mediante colaboração.
4.2.3 Execução
A empresa Viva Academia, espaço destinado à prática de exercícios físicos,
foi o local escolhido para receber o material doado devido a sua localização central,
na Rua XV de novembro, próximo ao Teatro Guaira e à UFPR, além do fácil acesso,
grande número de pessoas que a frequentam e disposição do proprietário em
colaborar. Como meio de comunicação e divulgação da campanha, utilizou-se cartaz
ilustrado, sendo a arte final realizada gratuitamente pelo Sr. Gladston José Cordeiro.
Os gastos decorrentes da impressão e reprodução dos cartazes foram custeados
pela autora da dissertação e responsável pela campanha. No cartaz para divulgação
da campanha, além das ilustrações constam: o nome da Biblioteca solicitante, os
tipos de materiais solicitados, o local de recolhimento e as datas de início,
encerramento e entrega do material à Biblioteca Comunitária. (FIGURA 36).
107
FIGURA 36 - Cartaz utilizado para divulgar a campanha de doação de livros.
FONTE: O autor e Gladston José Cordeiro ( 2010).
108
Foram impressos 105 cartazes, em tamanho A-3, fixados em instituições
públicas e particulares, restaurantes, associações, estabelecimentos comerciais,
enfim, locais onde circula grande número de pessoas. O material foi também
entregue pessoalmente e enviado por e-mail a diversos políticos, uma vez que a
campanha coincidiu com o período da campanha eleitoral e vários candidatos
visitaram a Vila. Para a divulgação via correio eletrônico utilizou-se o próprio cartaz
como fundo de e-mail que foi sonorizado com a música “Criança Feliz” para chamar
atenção. As mensagens foram enviadas a pessoas-chave para ser reenviadas e
assim atingir um número expressivo de pessoas e alcançar seu objetivo.
Também os moradores da comunidade, envolvidos com a Biblioteca
Comunitária, contribuíram na sua divulgação. Enviaram e-mails a conhecidos e
voluntários, fixaram cartazes nos estabelecimentos comerciais locais e entregaram a
autoridades que, neste período, estiveram na área. Na figura seguinte vê-se
Kauanna entregando um cartaz da campanha ao prefeito de Curitiba, Luciano Ducci,
quando do encerramento da primeira etapa do projeto “Comunidade em Cores”, em
setembro de 2010 (FIGURA 37).
FIGURA: 37 - Kauanna entregando cartaz ao prefeito de Curitiba - Luciano Ducci.
FONTE: Acervo: Kauanna Batista Ferreira (2010)
A data de 12 de outubro foi escolhida como dia do encerramento das
doações para chamar a atenção, uma vez que nesta data comemoram-se o Dia da
Criança, o Dia Nacional da Leitura e se inicia a Semana Nacional da Leitura e da
Literatura, sendo os dois últimos eventos ainda desconhecidos por muitas pessoas.
109
Para ilustrar o cartaz utilizaram-se fotos da biblioteca para sua divulgação. Na parte
inferior constam o nome da bibliotecária responsável pela campanha e as
logomarcas das empresas que colaboraram: Academia Viva, a ODPH e a
FUNDACEN. Para encerrar a campanha, divulgar o resultado e agradecer os
doadores decidiu-se elaborar novo cartaz. Este substituiu o anterior e as cópias
foram fixadas nos mesmos locais. Também foi utilizado como fundo de e-mail, com
som – como o anterior – para enviar aos endereços da mala direta, utilizada na
solicitação. No cartaz de agradecimento constam o total de livros arrecadados, o
endereço da biblioteca, o convite para a comunidade curitibana conhecer a
Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, o nome da responsável pela campanha e
as logomarcas dos envolvidos com a biblioteca e com a campanha (FIGURA 38).
110
FIGURA 38 – Cartaz utilizado para agradecer os livros recebidos durante a campanha
FONTE: Fonte: autora e Gladston José Cordeiro (2010)
111
Infelizmente, a entrega do material arrecadado não foi possível na Semana
Nacional da Leitura e da Literatura, de 12 a 16 de outubro, conforme previsto, devido
à morte de uma criança na Vila. Assim, a entrega deu-se no dia 18/10, na semana
seguinte. Estavam presentes o presidente e criador da Biblioteca Comunitária,
dirigentes da ODPH, colaboradores da Biblioteca, a autora da campanha e as
crianças que normalmente frequentam a Biblioteca. A coleção infantil, a infantojuvenil e os livros didáticos da Biblioteca Comunitária são utilizados nas atividades
realizadas na biblioteca, na ODPH, além de ser emprestados para leitura em casa.
O recebimento do material bibliográfico na Biblioteca foi motivo de alegria
por parte dos pequenos usuários que, curiosos, ajudaram na separação e contagem
do material, além de demonstrarem interesse pelo conteúdo dos livros. Esse
envolvimento é positivo, uma vez que familiariza a criança com o livro no seu espaço
de leitura e lazer. Em ambos os cartazes, de solicitação e agradecimento, utilizaramse fotografias da fachada e dos pequenos usuários para ilustrar e divulgar a
Biblioteca Comunitária. Para utilizar as fotografias com as crianças, os dirigentes da
Biblioteca Comunitária e ODPH encarregaram-se do contato e assinatura dos
documentos dos responsáveis pelas crianças para cessão de imagem.
4.2.4 Resultados
A campanha de doação de livros permitiu que a Biblioteca Comunitária da
Vila das Torres renovasse e ampliasse a sua coleção infantil e infanto–juvenil, além
da coleção para adultos. A campanha contou com a colaboração da população de
Curitiba, que demonstrou ser sensível às causas sociais e deseja que desigualdades
e injustiças sociais sejam minimizadas, pois investir na criança de comunidade
carente é creditar dividendos à sociedade. Como a campanha para arrecadar livros
realizou-se em pleno período de campanha eleitoral para presidente, governador,
deputados estadual e federal, a Vila foi alvo de inúmeras visitas por parte de
políticos, o que contribuiu para a divulgação da campanha.
Foram arrecadados os seguintes materiais e respectivas quantidades
(QUADRO 2):
112
MATERIAL BIBLIOGRÁFICO E ESPECIAL ARRECADADO NA
CAMPANHA DE DOAÇÃO DE LIVROS.
Tipo de material
Quantidade
CDs
21
Fitas de vídeo em VHS
93
Ilustrações
1000
Jogos
200
Lápis de cera
03 caixas
Lápis de cor
03 caixas
Livros infantis, infanto-juvenis e gibis
888
Livros das diversas áreas
1034
Resmas (papel sulfite)
02
QUADRO 2 – Tipo e quantidade de material arrecadado na campanha de doação de livros
FONTE: O autor (2010)
Como foram recebidos livros de várias áreas, além dos usuários infantis e
adolescentes, os adultos também foram beneficiados. O resultado da campanha foi
considerado muito bom pelo presidente da Biblioteca Comunitária, membros da
diretoria da ODPH e demais agentes envolvidos, não só pela quantidade, mas
também pelo tipo e estado do material recebido, ou seja, novos ou em bom estado
como se pode constatar (FIGURA 39).
FIGURA 39 – Livros recebidos na campanha de doação de livros
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2009)
113
Carlos Roberto afirma que:
Essa contribuição maravilhosa dos Curitibanos não me surpreendeu porque
sempre que a população foi chamada a contribuir mostrou-se solidária,
basta ver a quantidade de livros que temos recebido. Também não
podemos reclamar das autoridades porque se a gente se esforça e vai
atrás, explica as nossas necessidades, somos atendidos. O negócio é
buscar parcerias mesmo, pessoas que colaborem conosco como você.
Valdimê completa:
Além de livros que temos recebido para a Bibloteca, foram doados também
aparelhos de DVD e televisão, equipamentos indispensáveis a realização
das atividades com as crianças. Recebemos também computadores, não
novos, mas bons, além disso, bolachas e outras coisas assim para o lanche
das crianças e tudo contribui para que o projeto de desenvolva e cresça.
As
pessoas
manifestavam-se
de
forma
positiva.
José
Francisco,
empreendedor e incentivador das atividades culturais na Vila, feliz com o resultado
da campanha também se manifestou:
É uma beleza ver nossas crianças assim entusiasmadas, longe da rua,
ajudando a separar os livros, folheando, querendo ler, isso é educação, boa
formação, quando fizemos a biblioteca pensamos nisso mesmo, que elas
gostassem de ficar aqui, ir para a escola, estudar, quisessem ser alguém.
Valdimê, orgulhosa do elevado número de crianças que frequentam a
Biblioteca, da repercussão da campanha e do resultado alcançado, diz: “tenho
certeza de que todos esses livros serão lidos e vão contribuir para que nossas
crianças continuem lendo e estudando. É disso que nossa comunidade precisa.”
Uma pedagoga voluntária no ano de 2010 se admirou do resultado e registrou seu
agrado dizendo:
Com os novos livros, essas ilustrações e os jogos, as crianças ficam mais
animadas, as novidades despertam a atenção, constitui uma fonte de
estímulo à leitura. Há muitos livros bons aqui, bem ilustrados e isso contribui
para despertar a criatividade deles, até os pequeninos estão curiosos.
As crianças, admiradas e curiosas diante dos novos livros e outros materiais,
não se cansavam de dizer: “esse eu não li ainda, olha que figuras bonitas, viu esse
aqui? Quanto livrinho novo! Vamos logo poder levar pra casa?” E assim por diante.
114
4.3 ORGANIZAÇÃO E INFORMATIZAÇÃO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA
VILA DAS TORRES
4.3.1 Apresentação
A organização da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres ocorreu em
parte no momento da sua informatização, uma vez que os modernos sistemas de
gerenciamento de bibliotecas facilitam este trabalho. A estruturação do acervo
iniciou-se com a separação do material bibliográfico por tipo, assunto e posterior
seleção conforme critérios fixados, visando tanto à organização quanto à
implantação da informatização da coleção. Por isso a etapa é bastante importante.
Mais adiante, descrevem-se os procedimentos e características do software
escolhido para gerenciar a coleção e os serviços.
As atividades referentes à organização e informatização da Biblioteca
Comunitária foram realizadas conforme projeto elaborado com essa finalidade, no
qual se delinearam estratégias para alcançar os objetivos estabelecidos. Definiramse os equipamentos, o sistema de gerenciamento de bibliotecas, a equipe
(profissionais da área e auxiliares), os materiais e custos, agentes de apoio,
metodologia, cronograma e demais providências que favorecessem a sua
efetivação. Estudiosos da biblioteconomia e da informática alertam que, para o êxito
da implantação de projetos de informatização em bibliotecas, se faz necessário que
haja um correto diagnóstico das suas circunstâncias e características que levem à
escolha do software escolhido, dos equipamentos, da rede de comunicação e do
processamento técnico do material, cujas informações constituem a base de dados
bibliográfica para suporte dos serviços aos usuários.
Não se concebe mais a organização de bibliotecas e centros de informação
e/ou documentação sem a utilização das tecnologias de informação e de
comunicação (TICs), largamente utilizadas nessas unidades de informação a partir
das últimas décadas do século XX. Conforme Paranhos (2004, p. 15):
Quando se cogita de informatização de bibliotecas, a associação inicial
inevitável se refere aos aspectos tecnológicos de uso de programas de
computador (software) e de equipamentos (hardware). É fato que o
processo de informatização de bibliotecas inclui decisões e
encaminhamentos quanto a estes dois primeiros elementos das chamadas
115
TICs, mas está longe de se limitar a eles, tanto por considerações de ordem
técnica da prática biblioteconômica, quanto de ordem econômica-financeira.
São inúmeras as vantagens trazidas pelas chamadas TICs, tanto para
bibliotecários como para usuários. As novas ferramentas proporcionam melhorias na
qualidade e na quantidade de serviços e produtos ofertados, com economia de
tempo, espaço e pessoal, além de precisão nos dados. A esse respeito, Paranhos
(2004, p. 27) menciona: ”a informatização das bibliotecas eleva a auto-estima dos
operadores e usuários, propicia oferta de serviços mais amplos e qualificados e
contribui para a maior visibilidade da instituição no cenário local, regional e
internacional.”
4.3.2 Estratégias e dinâmica da organização e informatização
No decorrer da pesquisa para elaboração dessa dissertação, procurou-se
preparar os dirigentes da Biblioteca Comunitária para as mudanças promovidas na
biblioteca com vistas à sua organização e informatização. Enfatizaram-se pontos
como redução do acervo em função da seleção no material bibliográfico,
necessidade de equipamentos, treinamento de pessoal, mudança no layout da sala,
benefícios e cuidados necessários tanto na fase de realização dos trabalhos como
na posterior, em função da ordenação dos livros nas estantes. Como há dirigentes
com nível superior ou estão realizando curso universitário e frequentam e/ou
conhecem bibliotecas informatizadas, as explicações eram compreendidas e houve
cooperação desde o início dos trabalhos. A coleção da Biblioteca, no início de
dezembro de 2010, totalizava 5163 livros. O quadro seguinte apresenta os tipos e
respectivas quantidades (FIGURA 40).
116
AC E R VO (L IVR O S ) E M D E ZE MB R O D E 2010,
ANT E S D A INF O R MAT IZAÇ ÃO
3078
1565
210
ib
is
G
in
fa
nt
il
123
Li
te
ra
tu
ra
in
fa
nt
oju
ve
ni
l
Li
te
ra
tu
ra
D
id
át
ic
os
187
N
as
di
ve
rs
as
ár
ea
s,
d
ici
on
.e
en
ci
cl
op
.
QUANTIDADE / EXEMPLARES
3100
3000
2900
2800
2700
2600
2500
2400
2300
2200
2100
2000
1900
1800
1700
1600
1500
1400
1300
1200
1100
1000
900
800
700
600
500
400
300
200
100
0
TIPO
FIGURA 40 - Acervo (livros) em dezembro de 2010, antes da informatização
FONTE: O autor (2011)
Os materiais especiais eram em número reduzido: CDs, fitas de vídeo VHS e
fitas cassetes totalizavam 114 (FIGURA 41).
117
ACERVO - MATERIAL ESPECIAL DEZEMBRO DE 2010
93
QUANTIDADE
100
21
C
D
Fi
ta
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TIPO
FIGURA 41 - Material especial, dezembro de 2010
FONTE: O autor (2011)
Os periódicos não foram contabilizados por serem antigos, em número
reduzido e utilizados somente nas atividades de colagem com as crianças. Cadernos
para colorir e similares eram poucos e empregados também naquelas atividades.
Para informatizar a coleção de livros e principais serviços da Biblioteca Comunitária,
adotou-se o PHL - Personal Home Library, um software desenvolvido para gerenciar
acervo e serviços em bibliotecas e centros de informações, gratuito para ambiente
monousuário (FIGURA 42).
118
FIGURA. 42 - Computador da Biblioteca Comunitária com o sotfware PHL instalado
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
Para a realização dos procedimentos de informatização foi contratada uma
equipe composta por uma bibliotecária e duas auxiliares, permanecendo a autora da
dissertação na coordenação dos trabalhos, bem como assumindo o ônus pela
contratação das pessoas e compra dos materiais necessários. É importante destacar
que a bibliotecária contratada, Sra. Ilda Teixeira Michiuye, reduziu seus honorários
por se tratar de trabalho voluntário em comunidade carente. Tal atitude possibilitou a
sua contratação por todo o período. O processamento técnico dos livros e demais
procedimentos, bem como a organização da biblioteca em decorrência desse
trabalho, iniciou-se em 06 de dezembro de 2010 e foi concluído na primeira semana
de maio de 2011, com as atividades operacionais estruturadas da seguinte forma:
seleção do material; classificação; catalogação e inclusão dos dados dos livros no
sistema; preparação física e organização nas estantes.
Dos 4068 livros destinados ao público adulto e infanto-juvenil, foram
selecionadas e preparadas 2506 obras. Esta etapa compreendeu o tombamento, a
classificação, a catalogação e a inserção dos dados na base bibliográfica do PHL.
Em seguida, foi feita a preparação física dos livros (carimbos de identificação e
etiquetas), a colocação ordenada nas estantes e a sinalização indicando os números
de classificação e assuntos nas respectivas bandejas. (FIGURA 43).
119
FIGURA 43 – Colocação dos livros nas estantes.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
A primeira semana de maio destinou-se à revisão e sinalização das
estantes, de acordo com a classificação recebida, de modo a orientar os usuários
quanto aos livros procurados. Para organizar a coleção e classificar cada livro
conforme o assunto, utilizou-se a Classificação Decimal de Dewey – CDD, e para a
autoria do livro, a Tabela Cutter-Sanborn. Esses caracteres, junto a outros que
individualizam a obra, formam o número de chamada, que determina a localização
do livro na estante. Inicialmente, realizou-se uma seleção no acervo destinado ao
público adulto com o objetivo de eliminar duplicatas e outros materiais não
condizentes com o objetivo da biblioteca. Para a seleção dos livros utilizaram-se os
seguintes critérios, conforme a Política de Formação e Desenvolvimento de
Coleções (APÊNDICE B, PROPOSTA C):
Autoria;
Área e pertinência do assunto;
Qualidade do conteúdo;
Atualidade do livro;
Demanda;
120
Valor histórico para a Biblioteca/área;
Acessibilidade da língua;
Estado físico de conservação.
Das duplicatas encontradas, como dicionários e enciclopédias gerais, além
das coleções de áreas específicas, permaneceu a obra mais atual. Dos demais
livros, os títulos recomendados para o vestibular. O material bibliográfico excedente
foi encaminhado a outras comunidades carentes. Os livros infectados por fungos,
ácaros, mofo e cupins ou os desatualizados, além dos que tinham conteúdo
impróprio, foram descartados e vendidos para reciclagem, conforme decisão dos
dirigentes da biblioteca. A seleção dos livros de literatura infantil foi realizada após o
encerramento da campanha de doações de livros, conforme foram sendo recebidos,
e contou com a participação de pedagoga voluntária e dos dirigentes da biblioteca e
ODPH. A participação desses voluntários foi muito importante, pois conhecem as
crianças, suas aptidões, estágios em termos de alfabetização e leitura, bem como o
seu meio familiar e social. Assim, puderam contribuir para a formação de uma
coleção infantil adequada. Além desses fatores básicos observou-se também:
Assunto do livro: corresponder ao mundo da criança e dos seus
interesses;
Linguagem: (vocabulário) adequada; o texto não deve conter erros
ortográficos e de concordância verbal e nominal;
Mensagem: informação objetiva, clara e correta, pois contribui para a
formação da criança;
Valores: transmitir noção de valores, sentimentos de respeito e dignidade
pelo ser humano e pela natureza. Valores sociais, de justiça, paz,
liberdade, igualdade e solidariedade;
Ilustração: corresponder ao texto, ser de bom gosto, contribuir para o
desenvolvimento e criatividade da criança.
Os livros didáticos e os materiais especiais - fitas cassetes, CDs e fitas de
vídeo VHS - ficaram separados sendo que os materiais especiais serão inseridos na
base do PHL nos próximos meses. De dezembro de 2010 a março de 2011 foram
recebidas várias caixas de doações, sendo grande parte deixada na porta da
biblioteca. Não há estatística do total do material recebido pela atendente e
dirigentes da biblioteca, que procederam a uma primeira triagem separando os livros
121
considerados adequados no conteúdo e aspecto em número de 780. No mês de
março, a equipe responsável pela informatização submeteu esse material à seleção,
conforme os critérios acima e os selecionados foram preparados e incorporados ao
acervo. Os demais foram descartados.
O cronograma estabelecido no projeto para a organização e informatização
da Biblioteca Comunitária não foi obedecido. O prazo inicial previa o término para
março, porém, devido ao clima de insegurança na Vila no mês de fevereiro, por
conta de crimes ocorridos, a comunidade, as lideranças e as autoridades
permaneceram em alerta, desencorajando visitas constantes à Biblioteca. O quadro
seguinte apresenta as ações desenvolvidas para organizar e informatizar a
Biblioteca Comunitária bem como períodos em que foram realizadas para atingir o
objetivo proposto (QUADRO 5).
122
ORGANIZAÇÃO E INFORMATIZAÇÃO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA
VILA DAS TORRES
Período
Outubro-2010
Novembro-2010
Dezembro-2010
a
abril-2011
Maio-2011
Ações
- Realização do Regimento Interno e Política de formação e
Desenvolvimento do acervo;
- Reuniões com os dirigentes da ODPH com vistas à informatização
do acervo;
- Elaboração do projeto de informatização:
- Levantamento dos softwares gerenciadores de bibliotecas,
gratuitos, disponíveis.
- Pesquisa sobre os softwares selecionados junto a colegas da
área;
- Levantamento dos custos dos materiais necessários:
- Análise do custo e da disponibilidade de um bibliotecário e de dois
auxiliares;
- Contratação da equipe;
- Realização de reunião para apresentação do PHL à equipe
- Definição das estratégias para a realização dos trabalhos;
- Compra dos materiais: etiquetas, papel sulfite, cartucho para
impressora, papel contact, luvas, máscaras e outros materiais
necessários;
- Apresentação da equipe contratada aos dirigentes e à atendente
da Biblioteca Comunitária;
- Definição do local para a realização do processamento técnico
dos livros. - Realização das atividades técnicas: seleção do material
bibliográfico, separação por tipo, classificação e inclusão dos dados
dos livros na base bibliográfica do PHL;
- Treinamento da jovem Kauanna;
- Treinamento da atendente da biblioteca;
- Organização do acervo da biblioteca, conforme sistema de
classificação utilizado.
- Sinalização das estantes;
- Atualização dos dados no PHL instalado na Biblioteca;
- Registro, mediante fotografia, do resultado da nova organização
da Biblioteca.
- Apresentação da biblioteca devidamente organizada aos
dirigentes da Biblioteca Comunitária;
- Orientação quanto à organização dos livros infantis, gibis, material
didático e os materiais especiais, CDs, Fitas de vídeo VHS e fitas
cassetes não incluídos no PHL nessa etapa.
QUADRO 3 – Períodos e respectivas ações realizadas para a organização da Biblioteca
Comunitária
FONTE: O autor (2011)
123
4.3.3 PHL: características e justificativas para a sua escolha
Dentre os vários softwares para informatização de bibliotecas disponíveis no
mercado, optou-se pelo PHL - Personal Home Library, uma aplicação web
desenvolvida para gerenciar coleções, serviços de bibliotecas e centros de
informações, disponibilizado, de forma gratuita, para estações monousuárias. O PHL
passou a ser utilizado por centenas de bibliotecas desde 2001, tanto na forma
gratuita, estação monousuária, quanto na licenciada, em rede. A página eletrônica
do PHL disponibiliza também a seguinte informação fornecida por seu criador,
Oliveira (2011):
Foi concebido como uma alternativa moderna e eficiente às bibliotecas e
usuários com poucos recursos (financeiro e de pessoal) e que pretendem
organizar suas coleções, automatizar rotinas e serviços e/ou disponibilizar e
compartilhar seus catálogos através da Web.
O PHL utiliza interface de uso intuitivo, não requerendo de seus usuários
nenhum tipo especial de treinamento.
O padrão do registro utilizado pelo PHL se baseia no formato
UNISIST/Unesco [...]e proporciona aos bibliotecários a descrição eficiente e
precisa de qualquer tipo de informação independemente de seu suporte.
O PHL é compatível com qualquer sistema operacional: Windows, Linux,
FreeBSD, HP-UX e outros e com qualquer navegador conhecido: Netscape, Mozilla,
Opera, Internet Explorer e outros. Funciona em ambiente de rede, proporcionando
aos usuários da biblioteca consulta remota ao catálogo e serviços, permitindo
efetuar buscas, reservas e renovações on-line. Ele integra, através da rede, e em
tempo real, os serviços e rotinas de aquisição, tombamento, catalogação, kardex,
relatórios, estatísticas, empréstimo, renovação, reservas, disseminação seletiva da
informação, etc. Na Biblioteca Comunitária da Vila das Torres implantou-se a versão
gratuita do PHL, com interface monousuário, em função das características da
comunidade
e
parcos
recursos
financeiros
para
o
seu
licenciamento
e
funcionamento em ambiente de rede. Além disso, o fato de a população da Vila ser
constituída, na sua maioria, de pessoas de baixa renda, predominando as famílias
dos carrinheiros, catadores de papel, deixa claro que são poucas as residências com
acesso à internet.
Contribuíram também para a escolha desse sistema, as informações obtidas
de profissionais da área que o utilizam, visitas às bibliotecas gerenciadas pelo PHL,
testes realizados pela autora da dissertação e pela equipe contratada, por ser
124
gratuito para ambiente monousuário e sua interface de uso intuitivo não requerer
nenhum tipo especial de treinamento de seus usuários. Ainda, suas especificações
são compatíveis com os equipamentos da Biblioteca Comunitária, possibilita
utilização por pessoas com pouco conhecimento em sistemas de informação como é
o caso dos voluntários da Biblioteca Comunitária, além de facilitar o acesso aos
livros e proporcionar melhorias quanto ao gerenciamento das atividades da
biblioteca referentes aos processos de catalogação, circulação de materiais
(empréstimo e consulta) e geração de relatórios. A opção pelo software PHL deve-se
também à formação profissional de seu criador, Elysio Mira Soares de Oliveira,
bibliotecário, cujos conhecimentos e vivências profissionais traduzem com maior
facilidade as necessidades bibliotecárias para os termos computacionais.
A implantação de um sistema do porte do PHL na Biblioteca Comunitária a
habilita, no futuro, a se colocar nos padrões de importantes bibliotecas do país.
Espera-se que a comunidade e a Biblioteca Comunitária cresçam juntas e passem,
em breve, a se beneficiar da internet, cuja tecnologia propicia consultar o catálogo
da Biblioteca, reservar os livros e renová-los. Pode ainda expandir o espaço físico
para o virtual, possibilitando a pesquisa e a aquisição de conhecimentos extra
Biblioteca Comunitária.
4.3.4 O novo cenário de acesso à informação
Conforme a literatura da área, o ambiente da biblioteca deve ser agradável,
satisfazer os aspectos funcionais e estéticos, acomodar bem a coleção, os usuários
e o pessoal que ali trabalha. Essas características passam ao largo da maioria das
bibliotecas comunitárias brasileiras, principalmente as formadas a partir de iniciativas
isoladas, sem projeto e parceria e instaladas em qualquer espaço. Essas pessoas
ignoram recomendações, padrões e técnicas bibliotecárias, mas reconhecem no
livro o instrumento de luta pela inclusão social e se preocupam em disponibilizar as
informações que a leitura propicia. São iniciativas, individuais ou de um grupo, que
atraem leitores e voluntários. Muitas acabam transformadas em bibliotecas
assistidas por profissionais da área, disponibilizando conhecimento e lazer a uma
parcela da população que, sem tais ações, continuariam sem o acesso aos livros
devido à falta de condições econômicas. Machado (2008, p. 145) expõe, com
125
clareza, a questão do acesso á informação e da realidade econômica de nosso país,
ao mencionar que:
[...] as bibliotecas comunitárias que surgem no processo que chamamos
natural é resultado da forma sócio-política de reivindicação e luta da
sociedade pelo direito à informação, à leitura e ao livro. É a prática social
resultante da carência educacional e cultural vivenciadas por grande parte
da população brasileira. Cabe lembrar que os grupos com maior poder
aquisitivo têm outras formas de cobrir esse déficit. Seu poder de compra lhe
dá acesso à leitura e aos “bens” informacionais ofertados pelo mercado.
Suas crianças e jovens freqüentam instituições de ensino privado que
possuem bibliotecas escolares ricas em acervo e conduzidas por
profissionais que desenvolvem serviços direcionados às necessidades de
seus usuários. O fato de termos grupos com disparidades tão grandes em
relação ao acesso à informação, à leitura e ao livro evidencia que o princípio
da isonomia, no qual todos têm direitos iguais perante a lei, previsto na
Constituição Brasileira, não está sendo respeitado.
A Vila das Torres traduz esse cenário de desrespeito e desigualdades. A
Biblioteca criada pela comunidade vem obtendo sucesso e conta hoje com uma rede
de voluntários, dentre eles a bibliotecária autora dessa dissertação e os dirigentes
do espaço. Todos trabalham no sentido de ampliar a área física, a coleção e os
serviços oferecidos, para melhor adequar à comunidade para a qual foi criada.
O acervo cobre boa parte das áreas do conhecimento, entretanto, apresenta
falhas como a falta de guias informativos, catálogos; atlas geográficos, históricos e
científicos; jornais; revistas, mapas e material sobre a própria Vila das Torres e seus
moradores (formação da memória da Vila). Todas essas fontes de informações são
necessárias e devem ser atualizadas constantemente para que os usuários tenham
retorno correto e seguro das informações procuradas
Em maio de 2011, para atender aos usuários nos serviços de consulta ao
acervo, empréstimo dos livros e atividade com as crianças, a Biblioteca Comunitária
contava com duas moças sendo uma contratada e a outra voluntária e também
fundadora da biblioteca. Entretanto, em tempo integral permanecia no atendimento
só a contratada. A voluntária e fundadora trabalhava somente nos horários e dias
em que suas atribuições particulares permitiam.
Ressalta-se que essas pessoas não são capacitadas na área educacional e
sabe-se
que
atividades
com
crianças
exigem
pessoas
conhecedoras
de
metodologias e práticas inerentes, enfim, que sejam detentoras de conhecimentos
especializados. Em 2010, as crianças contaram com a orientação de uma pedagoga,
porém tratava-se de trabalho voluntário por um período determinado. Observa-se
mudança frequente da pessoa contratada para o atendimento aos usuários, o que
126
acarreta problemas, pois há necessidade de novo treinamento, entrosamento com
os usuários, conhecimento do acervo, entre outros. Além do problema relacionado
ao pessoal para o atendimento destaca-se também o referente ao espaço físico. A
área total da Biblioteca Comunitária é de, aproximadamente, 40m², pequena para o
seu acervo, para as doações que recebe constantemente, para os serviços que
realiza e para os usuários que atende. Dependendo do número de crianças e das
atividades desenvolvidas, torna-se necessário utilizar a sala da ODPH, localizada
próxima. Sobre o planejamento de bibliotecas comunitárias, Sarti, Guiraldeli e
Vicentine (1984, p.16, grifo do autor) propõem padrões mínimos no que se refere à
área física e acervo:
Área mínima: 100m²
Ideal 250m²
Acervo: 3.000/5.000
Distribuição por tipo de coleção:
Referência
10%
Empréstimo
75%
Col. Estudo e Pesquisa
15%
Entretanto, esses padrões, com ênfase na circulação do acervo, foram
formulados para o planejamento de bibliotecas comunitárias paulistas, que não
funcionam aos sábados e domingos e onde a população gasta a maior parte de seu
tempo no trabalho e transporte, restando pouco tempo para ir à Biblioteca; assim, o
acervo destinado ao empréstimo constitui a maior parte. Essa característica invalida
a aplicação desses padrões para a Biblioteca Comunitária da Vila das Torres, cuja
população reside em torno da biblioteca e seu público é constituído, na maior parte,
por crianças e adolescentes, tanto que seu acervo é voltado a esse segmento e os
serviços oferecidos são referentes à pesquisa escolar, consulta ao acervo,
empréstimo, atividades de apoio à alfabetização e formação do hábito de leitura.
Trata-se de uma realidade onde as crianças são o foco, pois muitas acompanham os
pais na dura vida de catador de papel, acostumando-se desde muito cedo a trilhar o
mesmo caminho. Embasando a questão, Almeida Junior (1997, p. 101) afirma:
[...] cada biblioteca é única, já que atende e presta serviços a uma
comunidade que, por sua vez, também é única. A biblioteca deve se
adequar ao perfil da comunidade que atende, utilizando técnicas
bibliotecárias e padronizações preexistentes, apenas no caso em que elas
se coadunem com aquele perfil, colaborando na prestação de serviços e
informações necessárias para os membros dessa comunidade.
127
A decisão em organizar a Biblioteca Comunitária da Vila das Torres
utilizando técnicas bibliotecárias e moderno sistema de gerenciamento é devido à
perspectiva de melhorias nas suas deficiências em curto espaço de tempo,
necessidade da população no acesso às informações e formação das crianças e
adolescentes. A organização realizada pouco mudou o layout da Biblioteca
Comunitária, devido às limitações da área. Como as estantes são de madeira, fixas
nas paredes e insuficientes para o volume de material existente, procurou-se
aproveitar todo o espaço, até mesmo colocando o material nas primeiras bandejas.
Nessas bandejas, as mais altas, foram colocadas as obras gerais, retiradas e
recolocadas pela atendente da biblioteca, quando solicitadas. As demais obras são
geralmente retiradas da estante pelos próprios usuários e, posteriormente,
recolocadas pela atendente.
O computador, antes na sala maior, foi mudado para a salinha dos fundos
para facilitar o acesso dos usuários ao acervo, disposição das mesas e a circulação.
O material didático e o destinado ao público infantil: livros de literatura
infantil, gibis, jogos e os materiais especiais; fitas de vídeo VHS, CDs, fitas cassetes
para o público adulto e para o infantil foram concentrados em um espaço lateral, à
direita, próximo às mesas onde normalmente são realizadas as atividades com as
crianças (FIGURA 44).
128
FIGURA 44 – Layout atual da Biblioteca Comunitária
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
Observou-se que o material infantil: gibis, livros de histórias, cadernos de
colorir, de montagem e outros materiais da mesma natureza, têm vida curta em
função do uso constante. Assim, decidiu-se separar por tipo e, com os livros de
histórias e gibis, realizar uma relação numerada, possibilitando o controle, a
circulação e os subsídios para a tomada de decisão. A ideia inicial era deixar esse
material somente nas bandejas mais baixas facilitando o acesso, porém, a falta de
espaço obrigou a utilização de todas as bandejas. Os materiais especiais, CDs, fitas
cassetes e fitas em VHS ficaram próximos ao material infantil, em um armário
fechado, em cima do qual se encontra a TV pequena, com aparelho para reprodução
de fitas de vídeo VHS. A sede da ODPH, próxima à biblioteca, dispõe de uma TV
grande e um aparelho de DVD onde também são reproduzidas fitas às crianças.
No que diz respeito ao acervo, a falta de espaço é um limitador na
manutenção de exemplares, ordem da coleção e crescimento geral da coleção tanto
que na organização dos livros nas estantes, em algumas classes, não foi possível
deixar espaço para inserir novos livros. (FIGURA 45).
129
FIGURA 45 - Acervo informatizado nas estantes
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
Entretanto, onde foi possível deixar espaço para separar as classes, inserir
novos livros e manter os livros na posição correta, improvisou-se aparadores feitos a
partir de caixas de papelão conforme se observa a seguir (FIGURA 46).
FIGURA 46 - Aparador de livros confeccionado com caixa de papelão
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
130
Ao visualizar esses aparadores, Carlos Roberto disse:
Olha, não vamos comprar aparadores não, eles saem caro e depois esses
aí feitos a partir de caixas de papelão são a cara da nossa Vila. Aqui tudo
gira em torno do reaproveitamento, da reciclagem, do improviso e da
criatividade, a idéia não poderia ser mais representativa, vai é ficar assim
mesmo!
E assim ficou decidido: não só continuar com a utilização, mas também
programar para isso ser uma das atividades das crianças; além de cortar e montar,
elas também podem decorar com desenhos e assim manter os livros em ordem nas
estantes, de forma prazerosa e exercitando a criatividade peculiar, nesta fase da
vida.
4.3.4.1 Perfil do acervo: livro e material especial
Para que uma biblioteca cumpra a sua função é fundamental possuir um
acervo variado, atualizado e de qualidade, pois sobre esta base material são
realizados os serviços meio e fim em uma biblioteca. Entretanto, acervo com essas
características em bibliotecas comunitárias criadas e mantidas pelas próprias
comunidades percorre um longo caminho até ser considerado adequado. Apesar do
preconceito com que os acervos dessas bibliotecas são tratados, o da biblioteca em
questão apresenta bom aspecto físico (FIGURA 47) e contempla quase todas as
áreas, com ênfase nas mais procuradas e objetivos imediatos da Biblioteca:
contribuir para a alfabetização, formar o hábito da leitura, colaborar na formação das
crianças e adolescentes e, de maneira geral, contribuir com o lazer e responder aos
questionamentos da comunidade.
131
FIGURA 47.- Aspecto físico dos livros.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro (2011)
O acervo de livros da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres totaliza 5368
obras, conforme as categorias e as quantidades apresentadas a seguir (FIGURA
48).
ACERVO: LIVRO
2438
2275
231
FIGURA 48 - Acervo: livro por categoria
FONTE: O autor (2011)
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Li
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Li
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CATEGORIA
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226
198
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QUANTIDADE - EXEMPLARES
2500
2400
2300
2200
2100
2000
1900
1800
1700
1600
1500
1400
1300
1200
1100
1000
900
800
700
600
500
400
300
200
100
0
132
Os gráficos demonstram que o acervo da Biblioteca Comunitária da Vila das
Torres desenvolveu-se conforme o seu objetivo, com o foco nas crianças e nos
adolescentes (FIGURA 49).
ACERVO - LIVRO: PÚBLICO ADULTO, INFANTOJUVENIL E INFANTIL
2900
2800
2700
2600
2500
2400
2300
2200
2100
2000
1900
1800
1700
1600
1500
1400
1300
1200
1100
1000
900
800
700
600
500
400
300
200
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ul
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QUANTIDADE - EXEMPLARES
2895
TIPO DE USUÁRIO
FIGURA 49 - Quantidade de livros por tipo de usuário
FONTE: O autor (2011)
Os materiais especiais, fita de vídeo VHS, CDs, e fitas cassetes, destinados
ao público adulto e às crianças são em menor número, totalizam 149 (FIGURA 50). 133
ACERVO: MATERIAL ESPECIAL
200
QUANTIDADE
125
100
21
3
ca
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e
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VH
S
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TIPO
FIGURA 50 - Acervo: Material especial
FONTE: O autor (2011)
Constatou-se que, principalmente, a coleção de literatura-infanto-juvenil,
gibis e materiais especiais deve aumentar em virtude da procura. Ressalta-se que
atualmente uma biblioteca deve reunir recursos de diferentes tipos como texto,
imagem, som e movimento para, além da tradicional leitura linear, realizar também a
leitura hipertextual e interativa.
Os livros de literatura infanto-juvenil são procurados também por crianças de
bairros vizinhos, conforme constatação da autora da dissertação que, ao conversar
com a mãe de uma menina na Biblioteca Comunitária, ouviu:
[...] nós moramos no outro lado do rio e lá já é Rebouças, mas esta
biblioteca tem mais livros do que a biblioteca do colégio dela e como ela
gosta muito de ler e sempre está lendo alguma coisa, temos vindo aqui e
olha que esses daí ela já leu quase todos. Eu também aproveito e hoje
estou levando esses para mim, um deles é sobre como educar os filhos,
parece bom.
O quadro abaixo apresenta a distribuição do acervo, destinado ao público
adulto e a pesquisas escolares, por área do conhecimento, segundo a Classificação
Decimal de Dewey – CDD, totalizando 2275 livros (FIGURA 51).
134
ACERVO (LIVRO) PARA ADULTO POR ÁREA DE
CONHECIMENTO CONFORME A CDD
838
900
QUANTIDADE - EXEMPLARES
800
700
600
500
419
400
300
200
100
167
218
196
141
130
72
44
50
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ÁREA DO CONHECIMENTO
FIGURA 51 – Acervo (livros) para adulto, dividido por área de conhecimento, conforme a CDD.
FONTE: O autor (2011)
A área referente à literatura é a que concentra mais títulos, sendo também a
que tem maior procura para empréstimo domiciliar entre o público adulto. Os
usuários são, em grande parte, mulheres que procuram por livros de ficção, segundo
a atendente da biblioteca. Nessa classe encontram-se também os livros de poesia,
contos, teatro, lendas, aventuras, entre outros. Todas as áreas devem ser
enriquecidas, porém, como o acervo é formado por doações, torna-se difícil
favorecer o crescimento nas mais deficitárias ou nas mais procuradas. Aconselha-se
disponibilizar material bibliográfico atualizado contendo informação utilitária sobre
saúde, emprego, legislação, educação, lazer, moradia, meio ambiente. A seguir é
apresentado o quadro com o acervo destinado ao público adulto e pesquisa escolar,
totalizando 2275 livros, divididos conforme a tabela de área de conhecimento do
CNPq (FIGURA 52).
135
ACERVO (LIVRO) PARA ADULTO CONFORME
TABELA DE ÁREA DE CONHECIMENTO DO CNPq
1000
928
QUANTIDADE - EXEMPLARES
900
800
710
700
600
500
400
300
170
200
100
63
162
126
44
61
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ÁREA DO CONHECIMENTO
FIGURA 52 – Acervo (livros) para adultos, segundo tabela de área de conhecimentos do CNPq.
FONTE: O autor (2011)
Nessa divisão, a maior concentração dos títulos é na área de Linguística,
Letras e Artes, cujo reforço vem dos títulos de literatura, em maior quantidade.
Dentre os livros de literatura brasileira encontram-se os de autores consagrados
como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Clarice Lispector,
Érico Veríssimo, Lygia Fagundes Teles e também de autores como João Ubaldo
Ribeiro, Marina Colasanti, Moacyr Scliar, entre outros. Na literatura estrangeira,
entre os clássicos pode-se citar William Faulkner, Ernest Hemingway, Edgar Allan
Poe, Eugene O’Neil, Morris West e também os mais procurados pelo grande público
como os livros de Agatha Christie, Harold Robbins, Dan Brown, Khaled Hosseini.
A área de ciências humanas também se destaca e nela encontram-se vários
assuntos, como Filosofia, Psicologia, Religião, Educação, Assistência Social,
Folclore, Historia, Geografia e outros.
136
No tocante à idade dos livros, tem-se o resultado a seguir, por período
(FIGURA 53).
LIVROS POR DATA DE PUBLICAÇÃO
900
831
800
695
QUANTIDADE
700
575
600
500
400
293
300
200
95
100
4
9
4
20
10
-
19
40
-1
94
9
19
50
-1
95
9
19
60
-1
96
9
19
70
-1
97
9
19
80
-1
98
9
19
90
-1
99
9
20
00
-2
00
9
0
PERÍODOS
FIGURA 53 – Livro por data de publicação
FONTE: O autor (2011)
Como se pode visualizar, trata-se de material bibliográfico publicado nas
últimas décadas, muitos doados ou encontrados no lixo, ainda com a embalagem
plástica, o que comprova que não foram lidos, constituindo uma coleção nova
também no aspecto visual, na grande maioria. Grande parte dos dicionários data da
década de 1990, assim como as enciclopédias cuja doação tornou-se comum. Em
geral, atribui-se à internet o declínio de sua manutenção, entretanto, essas fontes de
conhecimentos não são substituídas pelas informações disponibilizadas na web. Na
Biblioteca Comunitária, esses materiais são procurados principalmente para as
pesquisas escolares.
137
4.3.4.2 Serviços oferecidos à comunidade
Organizou-se a Biblioteca comunitária da Vila das Torres para facilitar a
interação entre material bibliográfico e usuário, bem como otimizar os serviços
oferecidos. Implantou-se a informatização para atender, com maior eficiência,
questões cotidianas como:
Pesquisa para localizar livro e/ou assunto especifico no acervo;
Pesquisa escolar;
Empréstimos;
Relatórios para acompanhamentos e tomada de decisões no que diz
respeito ao acervo, serviços oferecidos e outras realizações no âmbito da
Biblioteca Comunitária, com reflexos nos usuários.
A atenção maior é dedicada ao público infantil e infanto-juvenil com as
atividades de apoio à alfabetização, formação do hábito de leitura e outras práticas
voltadas ao desenvolvimento intelectual das crianças. Atualmente o usuário não tem
acesso ao computador para realizar a consulta no PHL, sendo esse procedimento
restrito ao pessoal da Biblioteca. O usuário expõe a sua necessidade informacional e
a consulta é formulada, e se o material desejado consta no acervo, é encontrado e
disponibilizado para a pesquisa e/ou empréstimo.
O empréstimo é informatizado. Para realizar o cadastro o usuário deve
apresentar o Cartão de Identidade e o comprovante de endereço. É estipulado um
prazo para a devolução da obra, entretanto, se o livro retorna com atraso, o usuário
é somente advertido, não se cobra multa ou se aplica qualquer outra penalidade.
Nesse sentido, faz-se necessário que as pessoas envolvidas no atendimento aos
usuários, sejam elas contratadas ou voluntárias, tenham conhecimentos dos
serviços oferecidos, saibam realizar os procedimentos junto ao sistema gerenciador
PHL, conheçam o Regulamento da Biblioteca Comunitária, mas saibam também se
utilizar dessas práticas flexíveis, condizentes com a realidade local, para cativar e
manter o leitor. Observou-se a necessidade da manutenção de uma pessoa da
comunidade na Biblioteca Comunitária, treinada para desenvolver as tarefas que
atendam às demandas, mesmo que haja voluntários externos. As pessoas da
comunidade se conhecem, o que encoraja o diálogo, permanência por mais tempo
no local e também o seu retorno.
138
A Biblioteca Comunitária abre tanto pela manhã quanto à tarde, atendendo à
população da Vila e bairros vizinhos, cumprindo o seu papel de mediadora e difusora
do conhecimento.
4.3.5 Avaliação
A organização da Biblioteca Comunitária modificou ambiente, acervo e
serviços. O novo cenário da Biblioteca Comunitária deixa para trás o clima de
depósito, com estantes lotadas de livros sem nenhum arranjo e renasce pronta para
colocar o livro nas mãos dos usuários e ajudar nas pesquisas escolares, no
esclarecimento de dúvidas, no fornecimento de informações, na contribuição para a
alfabetização, na formação do hábito de leitura ou propiciando lazer.
As pessoas envolvidas com as atividades da Biblioteca Comunitária
ganharam um aliado nas suas atribuições: o que antes era complicado, como saber
se tinha determinado livro ou assunto, agora, com um clique, tem-se a resposta.
Porém, tornou-se evidente a necessidade de um profissional da área para dar
continuidade aos trabalhos técnicos a partir de 2012, uma vez que a autora dessa
intervenção técnica permanecerá realizando os trabalhos até dezembro de 2011.
A reunião dos livros pelos respectivos assuntos, característica do sistema de
classificação CDD, permite ao leitor encontrar os livros do mesmo assunto reunidos,
facilitando também a consulta direta ao acervo. A expectativa com a organização
implantada é a satisfação em oferecer ao usuário um local dinâmico no qual o livro,
por meio de recurso tecnológico, está preparado para ser encontrado, consultado,
emprestado e, pelos conhecimentos que transmite, formar um novo cidadão.
Conforme a atendente da Biblioteca Comunitária, os comentários dos usuários são
de contentamento com a nova organização. Sobre o assunto, Igleé Belisário
Guevara, bibliotecária do Museu Galeria de Arte Nacional, Caracas-Venezuela,
declarou:
Iniciativas como a sua, orientadas para a seleção, organização e
informatização dos livros na biblioteca da Vila são dignos de destaque como
modelos para os bibliotecários, pois esta pequena biblioteca vai se ampliar
e fortalecer ao longo do tempo com apoio local, governamentais,
institucionais e privados, bem como o objetivo primordial da biblioteca
pública (bem como populares, comunitárias) que promovem a leitura
através de:
- Empréstimo de livros para crianças, jovens e adultos;
139
- Ler histórias para as crianças e realizar atividades que complementem
esta atividade;
- Agendamento de círculos de leitura convidando jovens e adultos;
- Projeção de filmes;
- Convidar conferencistas que possam contribuir para a promoção da leitura.
A presença de um bibliotecário seria apropriada para dar a projeção que a
promoção da leitura na comunidade requer, sendo também essencial para
levar a comunidade a participar ativamente em todos os trabalhos
relacionados com a Biblioteca da Vila das Torres (tradução nossa).
Dada a recente finalização da organização da Biblioteca Comunitária, em
torno de dois meses, não é possível realizar uma avaliação confiável quanto ao uso
da coleção, pois nesse ínterim houve a substituição da atendente sendo que a nova
necessitou de treinamento e certo período de adaptação por não ter familiaridade
com os serviços de biblioteca. Entretanto, os seguintes agentes envolvidos com a
Biblioteca Comunitária registraram seus depoimentos: Silvana Rausis Fcachenco,
jornalista e fundadora da Biblioteca Comunitária:
O trabalho que você realizou junto a Biblioteca é muito importante, não só
por facilitar a população da Vila o acesso à informação, mas pelo
estabelecimento do elo entre a academia e a comunidade, considerando os
recursos do setor público e as necessidades da sociedade civil.
Kauanna, fundadora e responsável pelas atividades diárias com as crianças
até junho:
Conheci a Maria após ela já ter tido uma conversa com minha mãe a VAL,
assim conversamos e me apresentei, falei sobre meu trabalho na Biblioteca
e minhas expectativas e a mesma também comentou suas idéias.
Uma vez por semana ela ia ao nosso espaço com sua equipe, observar e
pensar em algo para a melhoria do local e do acervo e a cada dia foi
realizando o trabalho de recuperação e catalogação de livros, foi uma época
ótima, pois todo nosso trabalho estava sendo valorizado e estávamos tendo
uma ajuda muito inesperada e linda. Que estava oferecendo um melhor
atendimento a toda comunidade.
E hoje podemos confirmar que esta parceria teve sucesso e foi de grande
importância não só para nós, mas para toda os moradores da Vila das
Torres que hoje podem usufruir de uma cervo belo e novo.
Valdimê, também fundadora e a frente da Biblioteca com a filha Kauanna
desde que a Biblioteca Comunitária deu inicio as atividades até 29 de junho deste
ano:
Todo o trabalho realizado dentro da Biblioteca era sempre acompanhado
pela mídia.
A senhora Maria J. Klock tomou conhecimento via internet, e resolveu fazer,
uma doação de livros para aumentar o nosso acervo.
Através de um dialogo no seu local de trabalho expliquei a ela, qual seria o
nosso objetivo, que era ter uma biblioteca informatizada e com livros em
melhores condições, ela teve a idéia de fazer uma campanha para
arrecadarmos mais livros na área infantil.
140
Ela precisava fazer um trabalho para seu mestrado. Assim veio de encontro
as nossas necessidades, então começou a fazer organização de nosso
acervo uma vez por semana, ela vinha com sua equipe e ficava com a
nossa equipe toda tarde.
Fizemos um acordo depois da conclusão dos trabalhos ela faria 50 livros
por mês catalogados. O resultado de todo nosso esforço foi uma grande
parceria para beneficiar principalmente as crianças e jovens da nossa
comunidade.
Os nossos agradecimentos, portanto, pela contribuição para consolidar o
nosso ideal.
Carlos Roberto, idealizador e criador:
Seu trabalho representa progresso para a nossa comunidade porque é
através da leitura, do conhecimento, da cultura que nossas crianças e
jovens vão tomar gosto pelo conhecimento, pelo estudo e vão encontrar
melhores oportunidades de trabalho. É dessa forma também que nossos
jovens vão se livrar das drogas, vão esquecer a violência e passar a ter
orgulho da nossa comunidade. Ter esses livros catalogados, classificados e
no computador era um sonho, agora não é mais e vamos continuar e
esperamos que você continue nos dando apoio, a comunidade toda
agradece muito.
Uma professora que lecionou numa das escolas públicas da Vila diz:
Em me aposentei e não tenho ido mais a Vila, mas em minha opinião a
biblioteca pode fazer muito pelas pessoas de lá, basta saber se aproximar,
usar o jeito certo, não impor nada, respeitar os seus limites, ir conquistando
devagarzinho. Eles são trabalhadores sem qualificação, ganham pouco ou
nada, muitos filhos e sofrem muito, vivem em qualquer quartinho de lona e
papelão, enfim, são carentes de tudo, inseguros. Uma das coisas que vocês
poderiam fazer é pedir para as crianças trazerem a mãe e o pai, ou um dos
dois para conhecer a biblioteca e se vier atribuir importância a visita, tratar
como igual, eles vão voltar. Pode ser uma boa tática.
4.3.6 Comemoração: aniversário de dois anos e apresentação da organização e
informatização da Biblioteca Comunitária.
No dia 19 de agosto realizou-se na Biblioteca Comunitária, comemoração
referente ao aniversário de dois anos completados no dia 07 de julho e aproveitouse para apresentar a comunidade externa e a imprensa, o acervo catalogado,
classificado e informatizado. Realizou-se o evento nessa data devido à revitalização
da Rua Manoel Martins de Abreu, onde a Biblioteca Comunitária encontra-se
localizada. A reforma nesse trecho da rua foi somente agora concluída. Para
confeccionar os convites (ANEXO 2) para o evento, o presidente da Biblioteca
Comunitária obteve patrocínio e o Clube de Mães União Vila das Torres do qual
Irenilda Arruda é a presidente, colaborou na organização geral do evento.
141
Aproveitou-se para divulgar a Biblioteca Comunitária, as inovações
realizadas e atrair voluntário uma vez que sobrevive da ação colaborativa. No dia 16
de agosto o jornal Gazeta do Povo apresentou reportagem de Tavares (2011) com o
titulo “Biblioteca comunitária é modelo para outras ações”, tendo boa repercussão.
Foram convidados e compareceram cidadãos da comunidade, lideranças, políticos,
representantes de autoridades, a imprensa e demais pessoas envolvidas com a
Biblioteca Comunitária. A comemoração foi simples, porém, os voluntários foram
homenageados e receberam um “Certificado” pelos trabalhos realizados junto a
Biblioteca Comunitária. A autora da dissertação é uma dessas pessoas (FIGURA 54)
e (ANEXO 3).
FIGURA 54 - A autora da dissertação recebendo o “Certificado” das mãos da Presidente do Clube de
Mães União Vila das Torres.
Fonte: Acervo: Gladston José Cordeiro.
Carlos Roberto, idealizador e criador da Biblioteca Comunitária, também
cumprimentou e agradeceu a colaboração bem como solicitou continuidade no
trabalho argumentando que livros em doação chegam diariamente. (FIGURA 55).
142
FIGURA 55 – A autora da dissertação sendo cumprimentada por Carlos Roberto Teles
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro.
A imprensa compareceu, reportes de dois canais de televisão realizaram
entrevistas com o idealizador e criador da Biblioteca, com os fundadores presentes,
políticos e com a autora da dissertação acerca do trabalho realizado, sendo, as
reportagens veiculadas nos telejornais locais, no dia seguinte. No decorrer do evento
foram recebidas em doação caixas com livros e um estudante da PUC-PR
apresentou-se como voluntário para trabalhar na Biblioteca Comunitária durante a
semana
por
algumas
horas.
Amigos
da
autora
da
dissertação
também
compareceram, pois no último ano foram envolvidos nas ações por ela realizadas e
passaram a freqüentar a Biblioteca Comunitária e contribuir para o seu crescimento.
A aproximação com os fundadores, demais colaboradores e usuários da Biblioteca
Comunitária, resultou em amizade e companheirismo (FIGURA 56). Parcerias assim
favorecem a inclusão social: eleva o nível educacional e econômico aproximando e
integrando a Vila ao bairro e a cidade da qual é parte.
143
FIGURA 56 – Fundadores, voluntários, usuários e convidados do evento da Biblioteca Comunitária.
FONTE: Acervo: Gladston José Cordeiro.
São oito os responsáveis pela fundação da Biblioteca Comunitária, desses,
seis são cidadãos da Vila, pessoas simples, lutadoras e preocupadas com o destino
da comunidade. Tal comportamento condiz com a observação de um dos
convidados, o mestre João Manuel Cardoso Martins: “Todo ser humano deve ter
como princípios: cuidar de si, dos seus e ter alguma preocupação social.“
144
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intenção inicial da autora desse trabalho, ao ler a respeito da Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres, era contribuir para a formação de seu acervo
através da Coordenação de Formação e Desenvolvimento do Acervo (CFDA) do
Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Paraná (SiBi-UFPR), entretanto,
ao conhecer a biblioteca, os dirigentes e usuários, transformou-se em determinação:
ser voluntária e ajudar a realizar o sonho dos seus fundadores e comunidade
usuária, facilitar o encontro do livro com o leitor. Essa perspectiva norteou o
planejamento
e
o
desenvolvimento
do
trabalho
realizado.
As
bibliotecas
Comunitárias são espaços públicos surgidos em comunidades carentes cujo acesso
à informação é restrito ou inexistente, características da Biblioteca Comunitária da
Vila das Torres.
O Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Paraná (SiBi-UFPR), a
partir de 2010, contribui no desenvolvimento do acervo da Biblioteca Comunitária da
Vila das Torres, doando material bibliográfico excedente, recebido de forma gratuita
e para assegurar a continuidade, o procedimento passou a fazer parte do
Planejamento
Estratégico
do
Sistema
de
Bibliotecas,
Gestão
2010/2014,
constituindo a “38ª ação: Contribuição do SiBi no Desenvolvimento da Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres”. (UFPR, 2010, p. 53). Esta ação assegura a doação
do material bibliográfico e apoio para a sua disponibilização à comunidade usuária.
A literatura sobre bibliotecas comunitárias confirma ser do engajamento dos
voluntários a sobrevivência da maioria desses espaços. Vieira (2007, p.151), por
exemplo, ressalta que “[...] considerando os elementos históricos da criação das
bibliotecas comunitárias, podemos perceber, nos vários relatos, que o fio que
entrelaça e sedimenta as iniciativas comunitárias é o trabalho voluntário.”
De maneira geral, em nosso país, as iniciativas em benefício das
comunidades menos favorecidas caminham a passos lentos e são pontuais. As
empresas ainda não apresentam um saldo relevante no que diz respeito ao
cumprimento de políticas de responsabilidade social, por conta do individualismo de
muitos empresários que ignoram princípios que conferem ao outro uma vida livre de
privações. O Estado por vezes prefere ser paternalista ao invés de fornecer ao
cidadão as condições para que ele, por suas aptidões e meios, tenha acesso aos
145
bens e serviços necessários a uma existência digna: saúde, educação, trabalho e
moradia.
Comunidades carentes como a Vila das Torres junto às cidades, são
inúmeras e a transformação dessa realidade demora. A busca para a soluções dos
problemas partem geralmente das lideranças, das associações da comunidade com
a ajuda de agentes externos, pessoas que trabalham para realizar justiça social com
respeito à diversidade cultural. Ao propiciar mais e melhores oportunidades de
trabalho, a qualidade de vida melhora, toda a comunidade se fortalece, passa a ter
condições não só de cumprir seus deveres e buscar seus direitos, mas também de
se articular, expressar sua vontade e de se fazer ouvir.
Uma sociedade na qual o bem comum seja um dos objetivos exercita
princípios comunitaristas, teoria que valoriza e fortalece a comunidade, defende um
Estado atuante e o envolvimento do cidadão com o espaço e com as pessoas que
com ele convivem, visando o bem de todos. Nela, direitos individuais e
responsabilidade social devem estar equilibrados para, individuo e comunidade,
crescerem juntos. Nesse contexto, as Bibliotecas Comunitárias ao congregar e
integrar a comunidade e propiciar a sua inclusão social por meio da informação
fornece as condições para a comunidade toda se instruir, discutir e definir pelo
melhor para o grupo. O fortalecimento da comunidade passa pela conscientização,
pela liberdade que o conhecimento outorga.
A criação da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres pela comunidade da
Vila é um exemplo de união e força de pessoas que lutam pela inclusão social das
pessoas da Vila e cabe a sociedade curitibana colaborar e ao Estado implementar
as políticas públicas necessárias porque só dessa forma será eliminada a miséria, a
droga e a violência que amedronta. Os princípios humanistas de fraternidade e
igualdade norteiam as ações colaborativas e são inerentes aos cidadãos partidários
do comunitarismo, com base humanitária. Estudiosos do tema advertem que o
individualismo aprisiona o indivíduo em si mesmo, enfraquece os laços entre as
pessoas e leva ao isolamento.
Para realizar essa dissertação, a autora valeu-se de uma rede de
colaboradores formada por amigos e colegas de trabalho resultando em rapidez nos
procedimentos e custos menores. Os objetivos desse trabalho e a metodologia
empregada demandaram a realização de várias ações dentre as quais o transporte
de livros, de materiais diversos, fotografias dos espaços, a realização de trabalho
146
técnico e outros. A colaboração pautou-se na crença da importância da Biblioteca
Comunitária como espaço cultural e informacional para as pessoas da comunidade
da Vila das Torres no seu próprio território, favorecendo o acesso à matéria prima
indispensável à formação do cidadão e gosto pela leitura: o livro, esse poderoso
instrumento que encanta, instrui, ensina, educa, descreve o mundo e faz leitores
novos e antigos sonharem.
Os contatos iniciais com os principais agentes da Biblioteca Comunitária da
Vila das Torres apontaram a problemática da biblioteca que passou a ser também
dessa dissertação: disponibilizar um espaço organizado, no qual livros e outros
materiais de interesse fossem facilmente localizados. A Biblioteca Comunitária foi
criada e montada pela própria comunidade, sem acompanhamento e orientação de
um profissional da área resultando em livros das diversas áreas na mesma estante.
Visando solucionar a problemática apresentada e realizar a presente
dissertação, a autora decidiu utilizar metodologia com fins práticos; valeu-se da
pesquisa aplicada que objetiva resolver, quase de imediato, os problemas concretos
do cotidiano. O estabelecimento do objetivo geral do trabalho: reconstituir a trajetória
histórica da criação e sistematização da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres,
bem como ampliar o acervo e organizar a Biblioteca, demandaram a realização dos
seguintes objetivos específicos: conhecer a realidade e os atores envolvidos na
criação da Biblioteca Comunitária para reconstituir o seu histórico e trajetória conhecer o acervo e o perfil dos usuários - realizar a proposta da Missão, do
Regulamento e da Política de Formação e Desenvolvimento de Coleção - ampliar o
acervo de livros infantis e infanto-juvenis por meio de campanha de doação de livros
- realizar o processamento técnico da coleção utilizando sistema de informação
gratuito - apontar as ações para continuidade dos procedimentos técnicos a partir de
2012 e promover maior interação entre a biblioteca e a comunidade.
A dissertação e as ações práticas demandadas (ampliação, organização e
informatização do acervo e principais serviços) foram realizadas de julho de 2010 a
agosto de 2011 e a apresentação à comunidade externa em 19 de agosto, junto às
comemorações de dois anos da Biblioteca. O trabalho de pesquisa e intervenção
técnica realizada resultou no histórico da Biblioteca Comunitária reconstituído, no
acervo ampliado, enriquecido e organizado de acordo com o sonho dos dirigentes da
Biblioteca, características da comunidade, usuários e, conforme normas e padrões
biblioteconômicos e moderno sistema de gerenciamento de bibliotecas e centros de
147
documentação, em curto prazo, dada à necessidade. A descrição da intervenção
técnica e os resultados constituem o capítulo 5 e são também apresentados no
decorrer desse tópico.
O histórico da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres é peculiar: seu
acervo nasceu a partir de livros retirados do lixo, seu idealizador e criador é um exmenino de rua, semi-analfabeto, porém, seu poder de articulação possibilitou formar
uma rede de membros-fundadores composta por sete pessoas, duas externas à
Vila. Essas pessoas uniram-se e promoveram o desenvolvimento da primeira
biblioteca pública da Vila das Torres. A inauguração ocorreu em três de setembro de
2009 com um acervo em torno de dois mil livros, merecendo matéria nos principais
jornais e noticiários da Capital, chamando a atenção da população curitibana e
autoridades, pela iniciativa e criatividade. Para ampliar o acervo, foi realizada no
segundo semestre de 2010 uma campanha para arrecadar livros, atingindo o
objetivo. Foram recebidos 1922 livros no total, em bom estado, alem de outros
materiais como papel sulfite, ilustrações, jogos, fitas de vídeo em VHS, CDs, lápis de
cor e de cera. Também, alcançou o nível de divulgação da biblioteca na cidade
conforme se pretendia tanto que outra campanha, da mesma natureza, realizada
posteriormente pelo Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria do Paraná
(Sipcep), destinou parte dos livros arrecadados à Biblioteca Comunitária da Vila das
Torres. Também, muitas pessoas continuaram encaminhando livros infantis e para
adultos ao local de trabalho da autora da dissertação para intermediar a doação à
Biblioteca Comunitária.
No período de dezembro de 2010 a maio de 2011 foi realizada a
organização da Biblioteca Comunitária, iniciada com o encaminhamento da proposta
da Missão, do Regulamento Interno e da Política de Formação e Desenvolvimento
de Coleções aos dirigentes da Biblioteca Comunitária. Posteriormente, foi realizada
a separação do material bibliográfico, seleção bem como o processamento técnico e
demais atividades relacionadas à preparação física dos livros e sua localização nas
estantes e, por último, o treinamento do pessoal da biblioteca no PHL - software
gerenciador.
No período de dezembro de 2010 a maio de 2011 passaram pela seleção
4068 livros, dos quais processados tecnicamente 2506 destinados ao público adulto
e infanto-juvenil. Os dados bibliográficos foram inseridos na base bibliográfica do
PHL. Esse trabalho foi realizado por uma equipe formada por um bibliotecário e dois
148
auxiliares ficando a autora desta dissertação no planejamento e supervisão dos
trabalhos. O material bibliográfico destinado aos usuários infantis, livros de histórias
e gibis em número de 2664, os cadernos para colorir, jogos e outros do gênero, cuja
vida é curta, foram somente separados e numerados. A seleção desse material foi
realizada pela autora da dissertação, pedagoga voluntária e pelos dirigentes da
Biblioteca, após o encerramento da campanha de doações de livros e também ao
longo do período dos trabalhos técnicos, conforme foram recebidos. Os livros
didáticos em número de 198 e os materiais especiais, fitas de vídeo VHS, CDs, fitas
cassetes para o público adulto e infantil, totalizando 149, foram, nesta primeira
etapa, somente, separados e guardados próximos ao equipamento de reprodução.
A organização geral do novo cenário permite, via atendente da biblioteca,
consultar se o livro desejado faz parte da coleção, localizar na estante com
facilidade, emprestar e renovar com rapidez.
Para realizar o presente trabalho foram obtidas informações por meio de
entrevistas com o idealizador e criador, rede de membros-fundadores, pessoas da
comunidade e demais agentes conhecedores daquela realidade. Também, através
da observação, conversas informais e pesquisas em diversas fontes, impressas e
on-line: livros, jornais, portais e documentos. Pode-se dizer, que das informações
colhidas, embasamento teórico realizado e metodologia empregada, surgiu um novo
cenário; preparado para socializar o acesso aos bens culturais e informacionais e
congregar o entretenimento de caráter solidário.
O trabalho realizado representa os primeiros passos para tornar a Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres um espaço de acesso à informação e integração da
comunidade com vistas ao desenvolvimento humano e social. A continuidade desse
trabalho depende do esforço de seus dirigentes, da sociedade em continuar
colaborando e também do Estado em contribuir por meio das instâncias
competentes. A autora da dissertação continuará respondendo pelos trabalhos
técnicos até dezembro de 2011. Trata-se de trabalho prático cuja divulgação pode
subsidiar a organização e informatização de outras bibliotecas comunitárias,
servindo também para análise e estudo na área de biblioteconomia. A admiração por
essa biblioteca, por parte de políticos, autoridades e sociedade em geral, faz supor
que pouco falta para que consiga o apoio necessário para funcionar conforme os
objetivos desse tipo de unidade de informação.
149
Com o objetivo de contribuir para manutenção, crescimento e maior
interação Biblioteca Comunitária / comunidade, sugere-se algumas ações.
Entretanto, para a realização daquelas referentes à captação de recursos,
estabelecimento de parcerias ou concretização mediante projeto, é necessário que a
Biblioteca se constitua pessoa jurídica, ou se apóie em uma entidade legalmente
constituída, ou seja, inscrita no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ).
Para facilitar a execução das atividades cotidianas, sugere-se:
Realizar manual dos procedimentos para subsidiar a execução das
atividades;
Contratar e treinar pessoas da Vila para atender na Biblioteca,
reforçando a ação local, oferecendo oportunidade à população da
comunidade.
Para
fomentar
a
interação
comunidade
–
Biblioteca
Comunitária,
recomenda-se:
Formar a diretoria da Biblioteca Comunitária com membros da
comunidade, de diferentes famílias, para, de fato, articular-se em torno
de ações participativas, que disseminem livros e serviços relacionados
aos interesses da população da Vila;
Estabelecer contato com os professores das escolas públicas da Vila
para programar as atividades de apoio na biblioteca de acordo com as
disciplinas ministradas em sala de aula;
Divulgar a coleção da Biblioteca Comunitária na Vila através de catálogo
impresso com as principais obras disponíveis, convidando a comunidade
a conhecer a Biblioteca. Deixar o documento nos estabelecimentos
comerciais, igrejas, ONGs, e outros lugares com bom fluxo de pessoas;
Solicitar às empresas privadas, bancos e outras instituições apoio
financeiro para a contratação de pessoal e locação de um espaço maior
e mais adequado para o acervo, atendimento aos usuários e realização
de atividades envolvendo a comunidade como cursos, palestras, oficinas,
festas, reuniões e outros.
Estabelecer contato com os professores das escolas públicas da Vila
para programar atividades de apoio na biblioteca, de acordo com as
disciplinas ministradas em sala de aula;
150
Estabelecer parcerias com a UFPR e outras instituições de ensino
superior com cursos de pedagogia para, através de projeto de extensão,
realizar atividades relacionadas ao desenvolvimento da leitura, utilizando
metodologias como: roda de histórias, produção de livros artesanais,
cópia e recitação de poesia, saraus de leitura, atividade composta de
leitura e música, encenação de historinhas e outros. Também, curso de
alfabetização para jovens e adultos nos finais de semana e à noite;
Formar parcerias com as instituições de ensino superior com curso de
informática, para realizar cursos de informática básica;
Pleitear, junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Curitiba e
Fundação de Ação Social (FAS), apoio para criar, junto à biblioteca, um
espaço destinado aos documentos, publicações e realização de
atividades referentes ao meio ambiente, separação e reciclagem de lixo,
informações e instruções aos carrinheiros, valorizando a atividade
predominante na Vila;
Organizar palestras com temas de interesse da comunidade com
professores e outros profissionais que atuam junto aos órgãos públicos;
Dotar a biblioteca com assinatura cortesia de jornais e revistas locais e
nacionais bem como solicitar às redações de jornais locais e instituições
de ensino, colégios, faculdades, universidades uma quantidade de
exemplares de jornais, revistas e informativos que editam para
distribuição gratuita à população via Biblioteca para incentivar a leitura e
propiciar a atualização do cidadão;
Solicitar junto à Seção Memória do SiBi-UFPR e da Biblioteca Central da
PUC-PR e de outras Instituições de ensino superior de Curitiba,
levantamento e cópia, impressa ou em meio digital, de documentos sobre
a Vila das Torres constantes em seus acervos: artigos, trabalhos de
conclusão de cursos, dissertações, teses, e outros. Também, junto aos
moradores antigos da Vila, documentos e fotografias para escanear e
junto às redações dos jornais locais, fotocópias de artigos publicados,
para formar a Memória da Vila na Biblioteca Comunitária.
No que diz respeito à continuidade dos serviços técnicos:
151
Solicitar apoio junto à Secretaria Municipal de Educação de Curitiba –
Gerência dos Faróis do Saber, uma vez que não há unidade dessa rede
no local. Tal opção é necessária caso os dirigentes da Biblioteca
Comunitária não consigam apoio financeiro junto a empresas para a
contratação de um bibliotecário que dê continuidade às atividades
técnicas a partir de janeiro de 2012 uma vez que até dezembro de 2011 a
autora desse trabalho realizará essa atividade.
Solicitar, ao Curso de Biblioteconomia da UFPR, quando de seu reinício,
apoio através de projeto de extensão para realização de atividades
inerentes à biblioteca.
O Curso de Museologia, a ser implantado na UFPR também poderá
contribuir por meio de projeto de extensão, na organização do Museu da Vila das
Torres, criado e mantido por Sanches, que busca parceiros. O trabalho em conjunto,
de profissionais da biblioteconomia, pedagogia, artes e outras áreas, propicia o
desenvolvimento de atividades diversificadas atraindo maior número de pessoas,
fazendo da Biblioteca Comunitária um espaço democrático. Também, o intercâmbio
de ideias com pessoas da comunidade familiariza os profissionais que atuam na
biblioteca com a cultura da comunidade. Eventos e atividades junto à biblioteca
resgatam a sua função social, colocam o cidadão em um ambiente de
oportunidades, pois a informação dota o indivíduo dos conhecimentos necessários
para cumprir seus deveres e reivindicar seus direitos, sejam civis, políticos ou
sociais.
A formação de crianças e adolescentes é motivo de preocupação por parte
dos dirigentes da Biblioteca Comunitária, motivo pelo qual priorizam atividades para
os pequenos, especialmente as voltadas à formação do hábito de leitura, o que é
compreensível, pois, de acordo com Targino (1991, p.154), “[...] o objetivo da
educação durante a infância é formar o adulto em perspectiva.” Ao organizar a
Biblioteca Comunitária da Vila das Torres pretendeu-se, de forma ampla, atuar na
educação da população, na qualidade de vida, minimizando as desigualdades
socioeconômicas, a violência, a criminalidade, o desemprego, enfim, nos fatores
responsáveis pela discriminação dessa população tão sofrida e estigmatizada. Ao
disponibilizar a informação deu-se o primeiro passo; a aproximação, o envolvimento,
a interação com a comunidade constitui a meta seguinte. A continuidade desse
trabalho depende também do Estado a quem cabe implementar na Vila das Torres
152
políticas públicas nas áreas de educação, cultura, informação e segurança. Ao
disponibilizar pessoal qualificado para a Biblioteca Comunitária, o Estado estará
assumindo a sua responsabilidade, pois, a criação e manutenção de Bibliotecas e
Museus é obrigação do Estado e no caso da Vila das Torres, o Estado está em
débito com a comunidade. Também a colaboração das Universidades, por meio de
estágios e cursos de extensão, beneficiaria tanto a Biblioteca Comunitária como os
agentes das práticas biblioteconômicas e de outras áreas envolvidas. A experiência
nesse tipo de biblioteca e comunidade propicia a formação de profissionais mais
conscientes quanto aos cenários, recursos e usuários menos favorecidos, aos quais
se devem facilitar o acesso a informação para, através do conhecimento adquirido,
conseguir melhores oportunidades junto ao mercado de trabalho o qual exige
pessoas qualificadas.
Na Vila das Torres, as lideranças têm noção das necessidades da
comunidade, articulam-se e trabalham no sentido de melhorar as condições da
população e do território para integrar a Vila das Torres à cidade considerada
modelo. A Biblioteca Comunitária é fruto da criatividade e esforço das pessoas da
Vila: foi criada pela comunidade a partir dos livros encontrados no lixo, desenvolveuse graças à união, ação participativa e trabalho voluntário, tornando-se um dos
principais instrumentos na luta contra a exclusão social da comunidade. Portanto,
pode-se dizer que as ações realizadas para resolver os problemas de acesso à
informação na Biblioteca Comunitária da Vila das Torres constituem um somatório
de conquistas. Para os dirigentes e usuários, o trabalho realizado é produto de uma
parceria da qual resultou uma biblioteca pronta para exercer as funções de cunho
informacional, educacional e social. Para a autora da dissertação, evidencia o
bibliotecário como autor de mudanças sociais por meio da difusão do conhecimento
na comunidade.
153
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161
ANEXO 1 – Convite para Seminário Dia e Semana Nacional da Leitura
162
163
164
165
ANEXO 2 – Convite para evento na Biblioteca Comunitária em 19/08/2011.
166
ANEXO 3 – Certificado por serviços prestados a Biblioteca Comunitária
167
APÊNDICE A - Roteiros para entrevistas
ROTEIRO A
Roteiro para entrevistar o idealizador e criador e um dos fundadores da
Biblioteca Comunitária.
01- Como e quando surgiu a ideia de criar uma biblioteca comunitária e como foi a
sua trajetória desde o inicio até os dias atuais?
02- Você contou com o apoio de alguém? Quem?
03- Quando e como a comunidade tomou conhecimento que a Vila teria uma
biblioteca? Qual a reação das pessoas? E a inauguração?
04- Como foi realizada sua instalação e como é organizada?
05- Desde o inicio, quem cuida e atende os usuários na biblioteca?
06- E a questão financeira? Tem mantenedor? É vinculada a órgãos públicos,
ONGs, ou instituições particulares?
07- Qual o papel da ODPH? Quem a criou? Por quê?
08- Quais os planos com relação ao futuro da Biblioteca? Crescimento do acervo,
manutenção, atendimento?
09- Na sua visão, como a comunidade vê a biblioteca?
10 Para você, as atividades realizadas na biblioteca retiram as crianças da rua,
estimulam o gosto pela leitura e contribuem para minimizar o analfabetismo
possibilitando melhor futuro?
168
ROTEIRO B
Roteiro para entrevistar quatro fundadores, três dos quais envolvidos
cotidianamente com as atividades na Biblioteca Comunitária e para entrevistar
também a atendente da biblioteca.
01- Como e quando se deu a fundação da Biblioteca Comunitária?
02- Quando foi inaugurada oficialmente? Como era o acervo? Sua origem?
03- Você tem algum cargo e/ou atribuição específica junto à Biblioteca?
04- A Biblioteca é muito frequentada? Por quem? Qual o perfil dos usuários?
05- Como a biblioteca é organizada? Os livros são facilmente localizados?
06- O acervo infantil e infanto-juvenil é condizente com o número de usuários e
atividades desenvolvidas?
07- O acervo atende plenamente às necessidades da comunidade?
08- Que atividades são realizadas? Por quem?
09- Para você, as atividades realizadas na biblioteca retiram as crianças da rua,
estimulam o gosto pela leitura e contribuem para minimizar o analfabetismo
possibilitando melhor futuro?
169
ROTEIRO C:
Roteiro para entrevistar três pessoas, nenhuma envolvida diretamente com a
Biblioteca Comunitária, porém, familiarizadas com a comunidade.
01- Qual a sua visão geral da comunidade?
02- Você conhece a Biblioteca Comunitária da Vila? E os fundadores?
02- Você acredita que a Biblioteca Comunitária pode contribuir, por meio de
atividades com as crianças e adolescentes, para mudar a difícil realidade da Vila?
03- Você acredita que por meio das crianças podem-se atrair os pais para a
Biblioteca?
170
APÊNDICE B – Propostas: da Missão, do Regulamento e da Política de
Formação e Desenvolvimento de Coleções, para a Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres.
PROPOSTA A
MISSÃO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES:
Democratizar o acesso à informação, favorecer a inclusão social da
comunidade e contribuir para a formação de crianças e adolescentes.
171
PROPOSTA B
REGULAMENTO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES
Rua Manoel Martins de Abreu, n. 430
Vila das Torres, Curitiba, PR.
Tel.: 3262-0219
1 FINALIDADE
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres é uma instituição cultural sem fins
lucrativos que servirá como centro de informação cultural e lazer para a Vila das
Torres.
2 HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO
De segunda a sexta-feira das 9h às 12h e de 13h30 h às 17h.
3 INSCRIÇÕES
Para ter direito aos serviços oferecidos pela biblioteca, todo usuário deverá
fazer sua inscrição.
3.1 DOCUMENTOS EXIGIDOS:
a) Carteira de Identidade;
b) Comprovante de residência (talão de água, luz, telefone).
172
4 SERVIÇOS OFERECIDOS À COMUNIDADE
4.1 EMPRÉSTIMOS DOMICILIARES
- Livros de literatura e materiais bibliográficos, exceto obras de referência:
(enciclopédias, dicionários, almanaques, atlas, etc.).
4.2 PRAZO
Conforme o tipo de livro:
a) Literatura e de pesquisa, para adulto: 15 dias;
b) Literatura infanto-juvenil: 15 dias;
c) Literatura infantil: 03 dias ou conforme o número de páginas dos livros.
d) Todos os livros são renováveis por igual período, desde que o material não
tenha sido solicitado por outro usuário.
4.3 QUANTIDADE
03 obras de cada vez.
4.4 PESQUISAS E ATIVIDADES
Utilização do espaço da biblioteca para leitura, pesquisas e atividades somente
nos dias e horários estipulados acima ou, extraordinariamente, com autorização dos
dirigentes da Biblioteca Comunitária.
4.5 ATIVIDADES
173
A biblioteca deverá ser utilizada para atividades didáticas ministradas por
pessoas incumbidas dessa tarefa e/ou professor, bibliotecário ou escritor ou outra
pessoa, porém com autorização dos dirigentes.
4.6 RESERVA DE MATERIAIS
O usuário que não encontrar a obra procurada, por estar emprestada, poderá
entrar para a lista de reserva que obedecerá à ordem cronológica e manterá a obra
em reserva por um prazo de 24 horas.
5 DOS DIREITOS DOS USUÁRIOS
a) Ser atendido com presteza e educação;
b) Ter acesso aos serviços oferecidos pela biblioteca bem como a solicitação
de serviços especiais inerentes às atividades do atendente.
6 DOS DEVERES DOS USUÁRIOS
a) Ser educado ao solicitar serviços e informações, não insistindo em questões
que contrariem este regulamento;
b) Não utilizar os livros sem lavar as mãos;
c) Não fumar na biblioteca;
d) Respeitar as normas e os prazos estabelecidos neste regulamento;
e) Manter tom de voz baixo, dentro da biblioteca, para não prejudicar a leitura
de outros usuários e/ou atividades realizadas;
f) Zelar pelos materiais da biblioteca;
g) Devolver o material emprestado e, em caso de perda, comunicar à
Biblioteca e, se possível, repor o livro ou outro, semelhante;
h) Portar sempre a carteirinha da biblioteca que será a sua identificação de
usuário;
174
i) Entregar ao funcionário da biblioteca o material utilizado ou deixar em uma
das mesas, não o recolocando na estante;
j) Assinar lista de presença.
DISPOSIÇÕES FINAIS
O não cumprimento do disposto neste regulamento pode implicar impedimento
de acesso às dependências da Biblioteca Comunitária e utilização de seu acervo.
Qualquer situação omissa neste regulamento é da competência da Diretoria da
Biblioteca Comunitária da Vila das Torres.
175
PROPOSTA C
POLÍTICA DE FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE COLEÇÕES DA
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES
1 INTRODUÇÃO
A Política de Desenvolvimento de Coleções é uma ferramenta básica para a
tomada de decisão contendo critérios pré-estabelecidos necessários para nortear o
planejamento, a seleção, a aquisição, a avaliação e também orientar na indicação do
material que deve ser descartado, possibilitando o crescimento racional e equilibrado
do acervo.
A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres objetiva disponibilizar uma
coleção em bom estado e útil à comunidade nas suas necessidades informacionais
e lazer.
A manutenção e a atualização do acervo se darão por meio do material
recebido gratuitamente, tanto da comunidade da Vila como da comunidade externa.
2 OBJETIVOS
Permitir e promover o crescimento racional e equilibrado do acervo
conforme a missão e objetivos da Biblioteca;
Estabelecer diretrizes para o recebimento gratuito e seleção dos
materiais;
Determinar critérios para duplicação de títulos;
Estabelecer as prioridades para solicitação e recebimento de doações;
Estabelecer as diretrizes para a avaliação do acervo;
Estabelecer as diretrizes para o descarte.
176
3 FORMAÇÃO DO ACERVO
A Coleção da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres será composta por
material bibliográfico e especial em todas as áreas, com ênfase à coleção destinada
ao público infantil e infanto-juvenil.
A coleção abrange:
a) Obras de referência: almanaques; censos; guias; estatísticos; dicionários
linguísticos, literários, bibliográficos e especializados; enciclopédias; mapas
geográficos e históricos; atlas e outros que respondam de pronto aos
questionamentos da comunidade;
b) Livros;
c) Periódicos: jornais e revistas;
d) Multimeios; fitas de vídeo, DVDs, CDs;
e) Material destinado à formação da Memória da Vila das Torres.
4 SELEÇÃO
Consiste na escolha dos materiais que vão formar o acervo.
4.1 CRITÉRIOS
4.1.1 Livros – público adulto, infanto-juvenil e infantil
a) Autoria;
b) Área e pertinência do assunto;
c) Qualidade do conteúdo;
d) Atualidade do livro;
e) Demanda;
f) Valor histórico para a Biblioteca/área;
g) Acessibilidade da língua;
h) Estado físico de conservação.
177
4.1.2 Livros – público infantil: além dos fatores acima, observar também:
a) Assunto do livro: corresponder ao mundo da criança e dos seus
interesses;
b) Linguagem: (vocabulário) adequada; o texto não deve conter erros
ortográficos e de concordância verbal e nominal;
c) Mensagem: informação objetiva, clara e correta, pois contribui para a
formação da criança;
d) Valores: transmitir noção de valores, sentimentos de respeito e
dignidade pelo ser humano e pela natureza. Valores sociais, de justiça,
paz, liberdade, igualdade e solidariedade;
e) Ilustração: corresponder ao texto, ser de bom gosto, contribuir para o
desenvolvimento e criatividade da criança.
4.2 SELEÇÃO QUALITATIVA
A Seleção dos títulos ficará a cargo de comissão formada por um
bibliotecário,
um
atendente
da
Biblioteca,
um
representante
dos
usuários/comunidade, um dos membros da diretoria.
4.3 SELEÇÃO QUANTITATIVA
4.3.1 Livros
Será dada preferência ao material em língua portuguesa.
4.3.2 Coleção de Referência
Deverá ser atualizada com frequência em função das características
próprias do material.
178
4.3.3 Periódicos
O acervo de periódicos será composto por jornais e revistas. As revistas
informativas e nas diversas áreas assim como os jornais deverão ser solicitados aos
respectivos editores, em cortesia.
4.3.4 Multimeios
Deverá ser observada a conveniência do formato.
5 AQUISIÇÃO
5.1 COMPRA
A aquisição de material bibliográfico nesta modalidade ocorrerá se houver
disponibilidade financeira e obedecerá aos critérios de seleção apontados no item
4.1
5.2 DOAÇÃO
5.2.1 Doações solicitadas pela Biblioteca
A Biblioteca poderá solicitar material em doação às editoras, aos órgãos
públicos, às empresas, às Universidades e às Instituições religiosas.
5.2.2 Doações oferecidas à Biblioteca
179
No caso das doações espontâneas devem ser aplicados os critérios de
seleção descritos no item 4.1.
As doações recebidas podem ser incorporadas ao acervo, doadas a outras
bibliotecas comunitárias de comunidades carentes ou descartadas e vendidas para
reciclagem.
Para o doador que se identificar e solicitar, será emitido o Termo de Doação
(ANEXO), com dados do doador, relação do material recebido e informação de que
tal material poderá ou não ser incorporado ao acervo conforme os critérios de
seleção da Política de Desenvolvimento de Coleção da Biblioteca .
6 REPOSIÇÃO DE DOCUMENTOS
Para reposição de livro ou outro documento extraviado deverá ser
observado:
a) Procura;
b) Importância e Valor;
c) Existência de outros exemplares;
d) Cobertura do assunto por outros títulos.
A reposição poderá ocorrer:
a) Através do recebimento de obra similar em doação;
b) Pelo usuário responsável pelo seu extravio e neste caso o usuário será
orientado a repor obra idêntica e, não sendo possível, um título similar
indicado pela biblioteca.
7 AVALIAÇÃO DA COLEÇÃO
A avaliação periódica da coleção é necessária para estabelecer diretrizes
para seleção, aquisição e descarte de material.
180
Para a avaliação da coleção da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres
deverão ser empregados métodos quantitativos e qualitativos sendo os resultados
comparados e analisados.
Deverão ser utilizados os seguintes critérios:
a) Distribuição percentual por área permitindo identificar as áreas de maior
crescimento do acervo e áreas deficitárias;
b) Estatísticas de utilização que permitem verificar, por meio do número de
consultas e empréstimos, os materiais que necessitam de duplicação, as
áreas e assuntos mais procurados e aqueles pouco utilizados;
c) Sugestões dos usuários sobre o nível e o tipo das informações
necessárias ao desenvolvimento das suas pesquisas, respostas aos seus
questionamentos e lazer.
8 DESCARTE
O descarte do material do acervo deverá ser feito de dois em dois anos após
criteriosa avaliação levando-se em consideração:
8.1 LIVROS:
a) Obras desatualizadas;
b) Obras
em
condições
físicas
irrecuperáveis
(sujas,
deterioradas, faltando páginas);
c) Obras não consultadas há mais de 5 anos;
d) Conteúdo inadequado.
8.2 PERIÓDICOS
a) Coleções não correntes que não apresentem demanda;
b) Periódicos recebidos em duplicata;
c) Periódicos de interesse temporário e informativo;
infectadas,
181
d) Periódicos em condições físicas ruins: sujo, rasgado ou infectado.
9 REVISÃO E ALTERAÇÃO DA POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO DE
COLEÇÕES
A política de desenvolvimento de coleções deve ser flexível, dinâmica e
revista periodicamente visando adequar o acervo às necessidades, interesses dos
usuários e objetivos da Biblioteca. Assim, fixou-se em quatro anos o prazo para as
revisões e atualizações.
182
ANEXO
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DA VILA DAS TORRES
Rua Manoel Martins de Abreu, n. 430
Vila das Torres, Curitiba, PR. Tel.: 3262-0219
RECEBIMENTO DE MATERIAL BIBLIOGRÁFICO EM DOAÇÃO
A diretoria da Biblioteca Comunitária da Vila das Torres esclarece que a(s) publicação(ões)
recebida(s) será(ão) avaliada(s) segundo a Política de Desenvolvimento de Coleções em
vigor. As publicações oferecidas em doação e não selecionadas para compor o acervo
serão repassadas a outras bibliotecas comunitárias da região ou encaminhadas para
reciclagem. A Biblioteca Comunitária reserva-se o direito de não restituir ao doador às
obras não selecionadas para o seu acervo.
Obs.: Preencher o formulário, anexar relação rubricada do material e entregar à Biblioteca
Comunitária juntamente com as obras a serem doadas. Após a conferência, o responsável
pela Biblioteca Comunitária vai rubricar a relação do material em anexo, datar, carimbar,
assinar e entregar ou enviar uma via desse documento ao doador.
TERMO DE DOAÇÃO DE PUBLICAÇÕES
Doador: Declaro ter tomado ciência e estar de acordo com a política adotada pela Biblioteca
Comunitária da Vila das Torres em relação a doações de publicações.
Nome completo:.........................................................................................................................
Endereço:...................................................................................................................................
Tel.:........................................................E-mail:.........................................................................
Assinatura:................................................................................Em:....../........./.............
Presidente ou Responsável pela Biblioteca: A Biblioteca Comunitária da Vila das Torres
recebeu do doador acima especificado o material relacionado em anexo.
Curitiba,
de
2011
____________________________
Nome e assinatura
(Carimbo da Biblioteca)