Da crítica a educação física escolar
à educação física escolar crítica
Prof. Ms. Fábio Machado Pinto
Universidade Federal de Santa Catarina
(Brasil)
[email protected]
Profa. Mariana Lisboa Mendonça
Profa. Amanda Jacobs
Resumo
Este trabalho busca investigar o impacto da proposta pedagógica Crítico-superadora na Educação Física brasileira no período de 1992 a
2002. A proposta estudada foi elabora pelo Coletivo de Autores, através do livro Metodologia do Ensino de Educação Física, publicado no
contexto das proposições pedagógicas Críticas. O livro aborda uma concepção de sociedade dividida em classes, e onde a pedagogia é a
teoria e método que constrói discursos, explicações sobre a prática social e sobre a ação dos homens na sociedade. Discute uma proposta
curricular que busca ordenar a reflexão pedagógica do aluno. Com base na psicologia soviética, propõe uma estrutura curricular em ciclos de
escolaridade. Pretende, por meio da reflexão sobre a cultura corporal, potencializar a luta pela transformação educacional e democrática do
país. Esta pesquisa trabalha com quatro fontes de investigação: a análise dos anais e revistas do CBCE; entrevistas e depoimentos dos
autores; experiências de ensino correspondentes à proposta pedagógica; e a análise das principais obras que sustentam a proposta, divididas
em três tópicos interligados. Este estudo busca oferecer uma síntese do empenho teórico-metodológico da área decorrente das últimas
décadas, bem como oferecer subsídios para a consolidação de uma prática educativa em permanente exercício da crítica.
Unitermos:
Educação
Física
Escolar.
Metodologia
de
Ensino.
Marxismo.
Ponencia presentada en el IV Encuentro Deporte y Ciencias Sociales,
Buenos Aires, noviembre de 2002
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 9 - N° 60 - Mayo de 2003
1. Introdução
Esta pesquisa busca realizar um esforço reflexivo de síntese sobre uma das
principais propostas pedagógicas da Educação Física Escolar, surgidas no final
da década de oitenta e sistematizada pelo Coletivo de Autores1 , através do
livro METODOLOGIA DO ENSINO DA EDUCAÇÃO FÍSICA, publicado no âmbito
da coleção Magistério 20 GRAU - Série Formação de Professores. 2
Segundo o próprio Coletivo (1992), o primeiro encontro do grupo ocorreu
em agosto de 1990, em Campinas3 . Após meses de reflexão, estudos e
debates, foram realizados pelo menos três seminários orientados mais
fortemente pelas experiências de governos das Frentes Populares em
municípios dos estados de São Paulo e Pernambuco4 .
Além disso, a década de oitenta foi palco de um intenso debate acadêmico5
sobre o ensino da Educação Física Escolar, contextualizando-o no sistema
educacional, e este, na sociedade capitalista brasileira. A crítica recaiu
sobretudo nas práticas educativas corporais que priorizavam o desenvolvimento
da aptidão física e de habilidades motoras relacionadas ao esporte competitivo
e a caserna. Na maioria das vezes partindo de um referencial teórico de
orientação marxista, exercitaram a crítica contundente e a partir de diferentes
abordagens ampliaram a reflexão sobre a Educação Física e sua interação com
a sociedade.
Estávamos em plena abertura democrática6 , e em curso as primeiras
experiências de governos no campo da esquerda. Em Recife, tivemos um
intenso movimento de elaboração de uma proposta para Educação Física. Esta
proposta foi a base teórico metodológica de sustentação do que depois se
denominou Pedagogia Crítico Superadora.
Hoje, após dez anos de diálogo com a comunidade acadêmica podemos
perceber o quanto a Educação Física ampliou suas fronteiras, sendo o Coletivo
de Autores uma das suas principais referências. Para além, das abordagens
técnico-biologizantes muito se produziu no campo das ciências humanas e
sociais. O corpo passou a ser abordado pela antropologia, sociologia, filosofia e
história, entre outras. Enfim, a Educação Física consolidou-se enquanto um
campo acadêmico extremamente rico no que tange a necessidade de
articulação com as mais diferentes áreas do conhecimento, resultando por
exemplo, em novas propostas teórico/metodológicas para o ensino da
Educação Física Escolar.
2. Um passeio pela crítica à Educação Física
Em 1983, com A Educação Física cuida do corpo e... mente, Medina chama a
atenção para que a educação não se realizam de forma neutra e independente.
Não se tornam práticas educativas se distantes dos costumes, das classes
sociais, da política, de uma ética, de uma estética e, enfim, do contexto
existencial mais amplo que as envolvem. (P. 32) Para além de propor uma
classificação relacionada as perspectivas da época, propõe um projeto de
libertação onde a saída seria pela revolução, capaz de mudar consciências e
buscar subsídios novos para a transformação de nossas ações práticas,
utilizando-se de uma metodologia questionadora, crítica, combativa.
Em 1985, com Educação Física: competência técnica e consciência política
em busca de um movimento simétrico, Carmo vêm entender a Educação Física
como uma atividade transformadora (...) onde o professor pode encontrar a
sua identidade social a luz de uma visão histórico-cultural de classe e, no
interior de sua prática desportiva e/ou educativa, a emolução do espírito crítico,
da denúncia, do conflito, da contra-educação... p.45
Em 1986, com Concepções Abertas no Ensino da Educação Física, Hildebrant
& Laging apresentam uma metodologia bastante ousada para o ensino da
Educação Física. Pautados na experiência alemã, na crítica ao modelo
conservador/opressor das práticas corporais adestradoras, invertem o processo
colocando o aluno como centro do processo pedagógico. Buscam, desta forma,
capacitar os alunos para tratar de tal modo os conteúdos esportivos nas mais
diversas condições, dentro e fora da escola, que estejam em condições de
criar, no presente ou no futuro, sozinhos ou em conjunto, situações desportivas
de modo crítico, determinadas autonomamente ou em conjunto. (p. 05) O
Modelo de aula aberta prevê ainda uma metodologia direcionada a ampliar o
grau de possibilidades de co-decisão com os alunos, onde o planejamento do
professor dá lugar a uma orientação dos desejos e interesses dos estudantes,
como forma de ampliar a sua inserção nas aulas, na sociedade e, sendo assim,
no mundo.
Em 1991, os Grupos de Trabalho Pedagógico7 reúnem-se para elaborar uma
proposta tendo como base a teoria de aula de Educação Física aberta às
experiências dos alunos sob perspectiva didático-pedagógica, humana e política
e social. Assim, partem do diálogo com o pensamento pedagógico geral no
Brasil, representados pelos trabalhos de Freire (1983 a, b) Pedagogia do
Oprimido, educação como prática da liberdade, Gadotti (1984), Diálogo e
conflito, Saviani (1985) Democratização da escola e Libâneo (1986),
Democratização da Escola Pública. Buscam, sobretudo, uma formação para a
ação, segundo Hildebrandt (1985), apud GTP UFSM/UFPE (1991) pessoas que
possam atuar em diversos setores da sociedade, mas que, ao mesmo tempo,
estejam interessadas no desenvolvimento de uma sociedade democrática e que
sejam capazes de participar racionalmente na mudança desta sociedade.
É neste mesmo sentido, que Kunz publica em 1992 Educação Física: ensino
e mudanças. Elabora uma síntese da sua pesquisa8 sobre práticas educativas,
refletidas a partir dos conceitos de mundo vivido e de mundo de movimento
humano relacionados às identidades culturais e às implicações políticas e
sociais da atuação educativa. Partindo da crítica à Invasão cultural, as
domesticações tecnológicas, feitas originalmente por Freire (1970), e que
vieram ampliar a crítica ao adestramento do corpo humano, o autor busca
formular algumas perspectivas para a Educação Física e suas transformações
práticas. (P. 15). Este trabalho, vai se consolidar ao longo da década de 90,
servindo de leitura obrigatória para nos cursos de formação de professores, até
a publicação de transformação didático-pedagógica do esporte, em 1994. Mais
uma vez, presta grande contribuição a área ao apresentar uma proposta
didático-pedagógico centrada no ensino dos esportes.
Neste trabalho, aprofunda o vínculo com a Teoria Crítica da Sociedade, da
Escola de Frankfurt. Trata-se de aceitar e entender o "pessimismo teórico"
presente nos trabalhos de tendência crítica em Educação Física hoje, para se
alcançar um "otimismo prático" com reais possibilidades de mudanças na
prática pedagógica da mesma. (p. 08) A pedagogia Crítico-emancipatória busca
articular uma prática do esporte condicionada a sua transformação crítica no
interior da escola. Para isso, lança mão de uma pedagogia crítica vinculada a
uma didática comunicativa. Segundo Kunz (1994), o aluno enquanto sujeito do
processo de ensino deve ser capacitado para a sua participação na vida social,
cultural e esportiva, o que significa não somente a aquisição de uma
capacidade de ação funcional, mas a capacidade de conhecer, reconhecer e
problematizar sentidos e significados nesta vida, através da reflexão crítica. (p.
31)
3. Primeiros passos para uma Educação Física crítica
É neste contexto que o Coletivo de Autores publicam em 1992, a obra
Metodologia de Ensino da Educação Física. Reportando-se a questões teóricometodológicas da Educação Física Escolar apresentam um consistente debate
entre duas possibilidades no campo pedagógico, a Reflexão sobre a Cultura
Corporal ou Desenvolvimento da Aptidão Física.
Para tanto, os autores contextualizam já no primeiro capítulo a concepção
de sociedade e educação9 que irá nortear todo o trabalho. Entendendo a
sociedade dividida em classes, antagônicas e em permanente contradição,
apresentam os interesses imediatos e históricos que cada uma busca.
Articulados a estes, surge a concepção de educação, enquanto teoria e método
que constrói discursos, explicações sobre a prática social e sobre a ação dos
homens na sociedade, onde se dá a educação. Neste sentido, a reflexão
pedagógica será Diagnóstica, Judicativa e Teleológica. Ou seja, parte da
observação da realidade social concreta e contraditória, naquilo que ela tem de
singular ao universal - os alunos, a escola, a comunidade, a sociedade - para
então, interpretar, compreender, sintetizar e sistematizar cada situação, a fim
de encaminhar o processo pedagógico na direção dos seus interesses de
classe.
Enfatiza ainda, que a Educação Física é uma prática educativa inserida no
contexto escolar, portanto deve ser pensada no contexto do currículo. Pois
estes têm a função social de ordenar a reflexão pedagógica do aluno de forma
a pensar a realidade social desenvolvendo determinada lógica. Tendo como
pressuposto um contexto curricular ampliado, onde a lógica norteadora atende
aos princípios da dialética - totalidade, movimento, mudança qualitativa e
contradição - propõe uma dinâmica a fim de criar as condições para que se
dêem a assimilação e a transmissão do saber escolar.
Esta dinâmica curricular procura observar o trato com o conhecimento; a
organização escolar: do tempo e do espaço pedagógico, bem como a
normatização escolar: o sistema de normas, padrões, registros, etc. Com
destaque para os Princípios Curriculares no Trato com o Conhecimento, quais
sejam: a relevância social dos conteúdos; contemporaneidade dos conteúdos;
adequação as possibilidades sócio-cognoscitivas dos alunos; simultaneidade
dos conteúdos enquanto dados da realidade; espiralidade da incorporação das
referências do pensamento; e a provisoriedade do conhecimento.
Outra reflexão importante, busca a superação do currículo fragmentado em
séries de ensino, para uma proposta de ensino por ciclos de aprendizagem.
Com base na Psicologia Soviética10 , apresentam quatro ciclos de escolarização:
educação infantil a 3a série o ciclo de organização e identidade dos dados da
realidade; 4a a 6a série, o ciclo da iniciação a sistematização dos dados da
realidade; da 7a a 8a série, o ciclo da ampliação da sistematização do
conhecimento; e o ensino médio, o ciclo de aprofundamento da sistematização
do conhecimento.
Partindo destes pressupostos, os Autores buscam a superação da
Perspectiva para Educação Física Escolar, que historicamente vêm investindo
no desenvolvimento da aptidão física. Argumentam, que esta perspectiva
encontra-se na defesa dos interesses da classe no poder, mantendo a estrutura
da sociedade capitalista. Busca, por sua vez, educar o homem forte, ágil, apto,
emprendedor, que disputa uma situação social privilegiada na sociedade
capitalista. Enquanto que a perspectiva da Reflexão sobre a cultura corporal
busca contribuir para a firmação dos interesses das classes populares,
desenvolvendo uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas de
representação do mundo que o homem tem produzido no decorrer da história,
exteriorizadas pela expressão corporal. E ainda, está orientada de forma a
articular a Luta pela transformação educacional, democracia do país e Prática
transformadora.
A segunda parte do livro dedica-se a elaborar uma síntese histórica11
apontando tendências dominantes na Educação Física brasileira. Mostra, por
exemplo, como diferentes concepções apresentam diferentes respostas para
pergunta: o que é a Educação Física? Para o Coletivo de Autores, Educação
Física é uma prática pedagógica, que no âmbito escolar, tematiza formas de
atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, dança, ginástica, formas
estas que configuram uma área de conhecimento que podemos chamar de
cultura corporal.
A terceira e quarta parte do livro dedicam-se a apresentar uma proposta
teórico/metodológica para o ensino e avaliação na Educação Física escolar. Os
elementos principais deste programa apontam para o conhecimento de que
trata a disciplina; o tempo pedagogicamente necessário para o seu processo de
apropriação; e os procedimentos didático-metodológicos para ensina-los.
Tendo como princípio a democratização do conhecimento historicamente
acumulado, a pedagogia crítico-superadora aponta para a historicização dos
conteúdos, bem como para a tematização enquanto instrumento didático.12 A
crítica as práticas avaliativas e seus processos metodológicos são o objeto da
quarta e última parte. Para o Coletivo, a ênfase na busca do talento esportivo e
no aprimoramento da aptidão física vem condicionando, em parte, a aula e o
processo avaliativo. Considerando a avaliação como um dos aspectos essenciais
do projeto pedagógico, buscam encontrar nesta uma referência para a análise
da aproximação ou distanciamento do eixo curricular que norteia o projeto
pedagógico na escola.13
Desde então, a obra Metodologia do Ensino da Educação Física passa a ser
leitura obrigatório nos cursos de formação de professores de Educação Física.
Inúmeras experiências pedagógicas acontecem simultaneamente em diferentes
estados do Brasil. O próprio estado de Pernambuco, passa de orientador a
orientado pela nova proposta. 14 Uma análise prévia dos anais do Congresso
Brasileiro de Ciências do Esporte, dos anos de 1993 a 2001, evidenciou a
utilização da obra como referência bibliográfica em grande parte dos textos
apresentados e publicados.
Na década de noventa o debate sobre o ensino da Educação Física escolar é
partilhado com inúmeras outras polêmicas. Pergunta-se, por exemplo sobre
qual o estatuto epistemológico da Educação Física? Educação Física é ciência?
Buscando articular estas questões, entre outros que possam surgir no percurso
desta pesquisa, partiremos da análise e reflexão sobre o impacto desta obra,
de grande circulação acadêmica, seja no âmbito da produção do conhecimento,
ou ainda no trabalho pedagógico de professores de Educação Física. Ao mesmo
tempo em que nos propomos a um esforço de revisão das suas três principais
orientações teóricas, quais sejam: aspectos da Filosofia Marxista, da Pedagogia
Histórico Crítica e da Psicologia Soviética.
Gostaríamos ainda de proporcionar um reencontro dos autores com a sua
obra. A fim de provocar um diálogo que nos ajudasse a entender o contexto da
elaboração do texto. Respondendo, por exemplo, quais foram as principais
polêmicas? Quais questões ficaram de fora e quais sobreviveram ao intenso
debate? Quais foram os critérios definidores da escolha dos autores? Outras
questões referentes ao período que sucede a sua publicação: como
acompanharam a apropriação da proposta pela comunidade acadêmica? Quais
experiências se destacaram neste período? E ainda, questões relativas a nossa
conjuntura: depois de dez anos qual a atualidade da obra? O que pode ser feito
deste importante trabalho no presente momento histórico?
Após dez anos, a Pedagogia auto-denominada crítico-superadora nos
proporciona elementos para a reflexão sobre: concepção de homem/sociedade,
currículo/ciência, educação - teórico/metodológica problematizadas pelo
Coletivo de Autores. Em que pesem os anos da sua publicação, seja no campo
da pesquisa ou ainda intervenção pedagógica ainda estamos dando os
primeiros passos. Vale ressaltar que o debate sobre as teorias pedagógicas da
Educação Física ainda apresenta muitas lacunas, que só poderão ser
preenchidas à medida que aprofundemos o estudo sobre cada uma das
proposições, explicitando seus limites e seus projetos para a Educação e a
Educação Física brasileira.
4. Intenções metodológicas de pesquisa
Esta pesquisa engendra o projeto acadêmico do Núcleo de Estudos e
Pesquisa Corpo Educação e Sociedade - NUPECES / MEN / CED / UFSC. Nossa
intenção ao desenvolver este trabalho é a de trazer novos elementos para
pensar uma teoria sobre a educação do corpo em ambientes educacionais, em
específico os relacionados com a Escola Pública brasileira. Para isso, buscamos
uma articulação com o grupo de pesquisa da Universidade Estadual de
Pernambuco, os quais vêm desenvolvendo pesquisas sobre a proposta Críticosuperadora. Assim, inscreve-se na mesma perspectiva da obra estudada, que
dez anos atrás buscou articular estudiosos de diferentes estados brasileiros
para pensar uma Educação Física voltada aos interesses da sociedade
brasileira, em específico dos trabalhadores e seus filhos, na maioria
freqüentadores das escolas públicas brasileiras.
Nosso objetivo é investigar e refletir sobre a obra Metodologia de Ensino da
Educação Física, proposta pelo Coletivo de Autores, em 1992, bem como seu
impacto na área de Educação Física nos dez anos que seguem a sua
publicação. Assim, buscaremos nos próximos meses: identificar e refletir sobre
os pressupostos teóricos utilizados pelo Coletivo de Autores, com ênfase nas
polêmicas ocorridas que desdobraram em questões presentes e ausentes na
obra; identificar na fala dos sujeitos do Coletivo de Autores, aspectos da
história, do contexto social, político e do debate acadêmico no período que vai
da sua publicação até os nossos dias; verificar e Analisar o conjunto de
publicações - anais de congressos e periódicos - que tenham como referência
ou dialoguem com a proposta do Coletivo de Autores e; observar, Analisar e
refletir trabalhos pedagógicos implementados no âmbito dos estados,
municípios e/ou escolas públicas brasileiras que tenham como referência
principal a pedagogia crítico-superadora. Esta pesquisa insere-se no contexto
de uma proposta investigativa que tem como orientação, por um lado a
Pesquisa Matricial relacionada ao estudo das Práticas Corporais e Cuidados com
o corpo em Ambientes Educacionais, do Núcleo de Pesquisa e Estudos Corpo,
Educação e Sociedade / MEN /CED /UFSC, e por outro lado, busca uma
articulação com o grupo de pesquisa da Universidade Estadual de Pernambuco.
Assim, tomamos como princípio teórico-metodológico a obra Crítica da
Razão Dialética, mais especificamente Questões de Método15 . Para Sartre
(2002:33) "O princípio que preside a pesquisa é o de procurar o conjunto
sintético, cada fato, uma vez estabelecido, é interrogado e decifrado como
parte de um todo; é sobre ele, pelo estudo de suas carências e de suas sobresignificações que se determina, a título de hipótese, a totalidade no seio da
qual voltará a encontrar a sua verdade".
Procuramos através da revisão da literatura da obra pesquisada, refletir
sobre a articulação de três abordagens citadas: a filosóficas, a psicológica e a
pedagógica. Sendo referências teóricas, no campo filosófico alguns aspectos
abordados por Marx e posteriormente, em Gramsci; no campo psicológico,
algumas contribuições da escola soviética, através do trabalho central de
Vigotski, mas também de Davydov, Lúria, e Leontiev; e no campo pedagógico,
as teses desenvolvidas por Saviani, Libâneo e Freitas, entre outros, como
Enguita, Pistrak e Snyders.
Destas abordagens podemos antecipar algumas possíveis categorias de
análise: sobre a concepção de homem / sociedade: refletir, por exemplo, o
processo de delimitação da concepção, o debate interno, as incertezas, as
tensões, as sínteses possíveis, frente a consideração dos mesmos por estudos e
intervenções posteriores que tiveram como base a proposta. Refletir a
coerência teórica dos trabalhos realizados e os possíveis distanciamentos e
aproximações da relação teoria e prática. Sobre a concepção currículo / ciência:
refletir, por exemplo, as possíveis tentativas de implementação da proposta, e
suas diferentes manifestações: desde as formas desarticuladas / desintegradas
da totalidade do projeto educacional ou não. Sobre a concepção de trabalho
pedagógico: refletir, por exemplo, as limitações da proposta que não dão conta
de aprofundar aspectos relacionados a historicização e tematização dos
conteúdos, os princípios curriculares no trato com o conhecimento - em
específico a relação entre a cultura primeira e o conhecimento científico - bem
como das práticas avaliativas. O encontro dos autores com sua obra busca
alimentar o debate em torno da construção de uma teoria pedagógica para
Educação Física. Os principais instrumentos metodológicos à serem utilizados
nesta atividade seria a entrevista semi-estruturada, aplicada na forma de
seminário aberto a participação pública, registrado em vídeo, bem como a
análise histórica e teórica do debate realizado.
Já a pesquisa sobre os trabalhos realizados pós Coletivo de Autores, tendo
como referência o mesmo, concentra-se nas publicações dos anais dos
Conbraces de 1993 a 2001 e nas revistas do RBCE. Visto que grande parte dos
trabalhos de mestrado e doutorado tem vazão neste importante evento
acadêmico. A metodologia utilizada na análise das publicações obedece a um
roteiro semi-estruturado - identificação, caracterização e opção teórico
metodológica do texto - com análise vinculada as categorias extraídas do
processo investigativo.
Por fim, a Investigação sobre os principais trabalhos pedagógicos em
desenvolvimento que tenham como referência a obra, utilizará os instrumentos
metodológicos elaborados pelos professores do NUPECES, ao longo dos últimos
anos, na realização de projetos de ensino vinculados a disciplina Prática de
Ensino de Educação Física escolar, bem como a Pesquisa Intitulada Cuidados
com Corpo em Ambientes Educacionais.
Notas:
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
Carmem Lúcia Soares, Celi Nelza Zülke Taffarel, Elizabeth Varjal, Lino Castellani Filho, Micheli
Ortega Escobar e Valter Bracht.
A Coleção magistério - 20 grau proposta e desenvolvida nos anos 1985-88, pela Coordenadoria
para Articulação com Estados e Municípios do Ministério da Educação com apoio da PUC/SP e
do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras. Os 25 livros didáticos da Coleção,
abrangem disciplinas do núcleo comum e da habilitação Magistério, contribuindo
significativamente na formação do professor do ensino fundamental ao médio, oferecendo
material didático com conteúdo pautado pelo seu caráter científico e sistemático, em estreita
ligação com exigências metodológicas do ensino e da aprendizagem.
Destacamos aqui a articulação coordenada por Lino Castellani Filho ao propor incorporação ao
seu documento Diretrizes Gerais para o Ensino de 20 grau: núcleo comum, Educação Física,
elaborado em 1988, de toda experiência acumulada ao longo do tempo de sua exposição as
críticas dos especialistas da área.
Uma das contribuições vêm do estado de Pernambuco, com a publicação em 1989 do livro
Contribuições ao debate do currículo em Educação Física: uma proposta para a escola pública,
organizado por Michele Ortega Escobar na companhia de professores da rede estadual e da
universidade do estado e de outras localidades.
Medina (1983, 1986), Oliveira (1983, 1984), Cavalcanti (1984), Taffarel (1985), Bracht (1986),
Hildebrant, R & Laging, R. (1986), Castellani Filho (1988), Tani (1988) e Kunz (1991).
Movimento iniciado durante o regime militar, a partir de 1974 e sob a presidência de Ernesto
Geisel e que se fortalece no início da década de 80 com o crescimento dos movimentos
populares. Busca-se o fim da ditadura militar, da repressão e pela redemocratização do país.
Na Educação Física, surge por exemplo o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte e ainda, o
Encontro Nacional de Estudantes de Educação Física.
Trata-se do grupo da UFPE - professores Celi Nelza Z. Taffarel, Eliane de Abreu Moraes, Merca
do Carmo Andrade, Michele Ortega Escobar, Vera Luis Lins Costa e, do grupo da UFSM professores Amauri ª Bassóli de Oliveira, Carlos Luiz Cardoso (org), Dr. Reiner Hildebrandt e
Wenceslau Virgílio C. L. Filho.
Este trabalho resulta da tese de doutorado realizado na República Federal da Alemanha, na
Universidade de Hannover, concluído em 1987.
Neste sentido, a concepção de sociedade e educação predominante na obra fundamenta-se em
autores que buscam uma orientação no marxismo, como PISTRAK (2002), GRAMSCI (1984),
ENGUITA (1989), SNYDERS (SD), e outros como, LIBÂNEO (1985), FREITAS (1987) e SAVIANI
(1991).
10. A Psicologia soviética, também auto-denominada de Histórico-Cultural, cuja principal referência
é a obra de L. S. VYGOTSKY (1988), é ainda resultado de inúmeros trabalhos de autores como
LEONTIEV (1981), DAVYDOV (1981), entre outros.
11. Foram referências para o estudo da história da Educação Física, os trabalhos de ESCOBAR
(1989), HOBSBAWN, (1981), SOARES (1990), MEDINA (1983), GHIRALDELLI JÚNIOR (1988),
CASTELLANI FILHO (1991) e BETTI (1991).
12. Aqui encontramos traços das propostas de TAFAREL (1985), HILDEBRANDT e LAGING (1996),
ESCOBAR (1989), GTP - UFPE/UFSM (1991), KUNZ (1991), entre outros.
13. Foram referência para o estudo das práticas avaliativas SOUZA (1986), MEDIANO E LUDKE
(1989), LUCKESI (1986), WAISELFISZ (1990), entre outros.
14. Informação concedida por Marcílio Souza Júnior, professor da Universidade Estadual de
Pernambuco, que se dedica atualmente à uma revisão do texto após dez anos da sua
publicação.
15. Obra escrita por Jean Paul Sartre, em 1960, com o título original de Critique la raison
dialectique precede de Questions de Méthode, e traduzida em 2002, por Guilherme João de
Freitas.
Bibliografía
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