CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA INSTITUTO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA E PESQUISA Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local RONDERSON RODRIGUES DUARTE O TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA QUE ATUAM COMO OFICINEIROS COM JOVENS, EM ÁREAS DE VULNERABILIDADE SOCIAL, NO CONTEXTO DO PROGRAMA DE CONTROLE DE HOMICÍDIOS “FICA VIVO!” Belo Horizonte 2014 RONDERSON RODRIGUES DUARTE O TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA QUE ATUAM COMO OFICINEIROS COM JOVENS, EM ÁREAS DE VULNERABILIDADE SOCIAL, NO CONTEXTO DO PROGRAMA DE CONTROLE DE HOMICÍDIOS “FICA VIVO!” Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação Física. Área de concentração: Inovações Sociais, Educação e Desenvolvimento Local. Linha de pesquisa: Desenvolvimento Local. Educação Orientadora: Profa Miranda Cadete. Matilde Belo Horizonte Centro Universitário UNA 2014 Dra e Meire À minha querida mãe, Joanita (in memoriam), que possibilitou minha formação, além de valores éticos e morais. À minha noiva, Márcia, pela compreensão, valorização, renúncia e apoio durante esta jornada. AGRADECIMENTOS À Professora Dra Matilde Meire Miranda Cadete, pelo conhecimento transmitido e, principalmente, pela disponibilidade, carinho, dedicação e muita paciência. Às professoras Dra Adilene Gonçalves Quaresma e Dr a Áurea Regina Guimarães Thomazi, pelas contribuições no exame de qualificação. A todos os professores e colegas do curso de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, pelas conversas e trocas de experiências. Aos oficineiros entrevistados, que possibilitaram a pesquisa. Às técnicas e aos técnicos do Programa “Fica Vivo!”. À Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS). “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Paulo Freire. RESUMO Sabe-se que o esporte proporciona aos sujeitos que o praticam novas opções de vida ao criar condições de superação das dificuldades, alternativas para afastarse das drogas e criminalidade, contribuindo, por conseguinte, para o fortalecimento das suas características positivas e priorizando valores construtivos como companheirismo, autocontrole, respeito às regras, autossuperação e controle dos impulsos negativos e agressividade. Nesse sentido, este trabalho aborda as ações desenvolvidas por profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com jovens em situações de vulnerabilidade social do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” A pesquisa objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros, sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa “Fica Vivo!”, com vistas ao desenvolvimento de contribuição técnica voltada para o desenvolvimento local. A coleta dos dados se fez por meio de entrevista semiestruturada, respondida por 14 sujeitos, atuantes em diversos espaços do Programa “Fica Vivo!” e foram analisadas pela técnica de análise de conteúdo indicada por Bardin (2010). Dos depoimentos emergiram cinco categorias temáticas: significado de trabalhar no “Fica vivo!”; satisfaçãoinsatisfação de trabalhar no “Fica Vivo!”; processo educativo do Programa “Fica Vivo!”; da participação à ação e capacitando-se para capacitar o outro. O estudo permitiu reconhecer que as atividades educativas, por meio de oficinas do esporte, demarcam mudanças qualitativas na vida dos jovens e, dessa feita, obtêm-se resultados positivos tanto individual quanto coletivamente. Desvela-se que os oficineiros vivem movimento pendular de satisfação com os progressos vividos e narrados pelos jovens e de insatisfação com as condições de trabalho e a própria formação para realização das oficinas. Este estudo configura-se como uma etapa de apropriação do cotidiano do trabalho dos profissionais de Educação Física no Programa “Fica Vivo” e que outras lacunas requisitam novas pesquisas para se propor ações que o qualifiquem cada vez mais. Como forma de contribuição para o programa apresenta-se um produto técnico com vistas a que os profissionais de Educação Física/oficineiros consigam atingir conhecimentos essenciais para o desenvolvimento de suas oficinas, aumentar a eficácia de suas ações e contribuir de forma mais efetiva no seu trabalho e, consequentemente, em relação à vida social e cidadã dos jovens, formação integral e promoção do desenvolvimento local. Palavras-chave: Vulnerabilidade Social. Educação Física. Educação. Políticas Públicas. ABSTRACT It is known that sports provide new options and quality of life to those who practice them through creating overcoming conditions to difficulties and obstacles, and opportunities to get away from drugs and crime. Therefore, sports contributes to strengthening one’s positive features and prioritizing constructive values such as companionship, self-control, respect for the rules, self-overcoming and control of negative impulses and aggression. Thus, this paper addresses the actions developed by Physical Education professionals who act as workshop instructors with young people in socially vulnerable situations of the Homicide Control Program "Staying Alive!" The research aimed to analyze the perception of Physical Education professionals who act as workshop instructors on the effectiveness, development and/or outcomes of the "Staying Alive" program, with emphasis to improving technical contribution towards local developments. The data collection of this research was made through semi-structured interview, which was answered by 14 subjects who work in various areas of the "Staying Alive" program. The data collected was analyzed by content analysis technique indicated by Bardin (2010). After analyzing the data collected from these 14 subjects, five thematic variables were created: the meaning of working in the Staying Alive! program; level of satisfaction-dissatisfaction to work in program; educational process of the "Staying Alive" program; participation in the action and enabling themselves in order to empower others. The study allowed us to recognize that educational activities through sport workshops, demarcate qualitative changes in the lives of young people, thus, we obtain positive outcomes both individually and collectively. The research reveals that the workshop instructors live pendulum of satisfaction with the progress experienced and narrated by young people and dissatisfaction with working conditions and the training itself to conducting workshops. However, the instructors show discontent with the working conditions of the program and the training to conduct workshops provided. This study is configured as a step of appropriation of everyday work of Physical Education professionals in the program "Staying Alive" and show that other areas of the program require new research in order create actions of improvement. As a contribution to the program a technical product is presented to improve the knowledge of the Physical Education/workshop instructors in order to reinforce their performance, increase the effectiveness of their actions and contribute more effectively in their work and consequently in relation to social and civic life of young people, comprehensive training, and promoting local development. Key words: Social Vulnerability. Physical Education. Education. Public Policy. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ASPROM Associação Profissionalizante do Menor BVS Biblioteca Virtual de Saúde CONFEF Conselho Nacional de Educação Física CPC Centro de Prevenção à Criminalidade CPEC Coordenadoria de Prevenção à Criminalidade CREF Conselho Regional de Educação Física CRISP Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública ECA Estatuto da Criança e do Adolescente ENEFD Escola Nacional de Educação Física e Desportos FUNDEP Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa GEPAR Grupo Especializado de Áreas de Risco IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LDB Lei de Diretrizes e Bases LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LILACS Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde ONU Organização das Nações Unidas OSCIP Organização Social Civil de Interesse Público PBH Prefeitura de Belo Horizonte PCMG Polícia Civil de Minas Gerais PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PMMG Polícia Militar de Minas Gerais SCiELO Scientific Electronic Library Online SEDS Secretaria de Estado de Defesa Social TCLE Termo de Consentimento Livre Esclarecido UFMG Universidade Federal de Minas Gerais Un-Habitat Centro das Nações Unidas para Assentamentos Humanos SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO............................................................................................... 10 1 A ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA/OFICINEIROS NO PROGRAMA “FICA VIVO!”: UMA REVISÃO TEÓRICA............................. 18 2 O SIGNIFICADO DO TRABALHO NO PROGRAMA “FICA VIVO!” NA PERSPECTIVA DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA................... 47 3 PRODUTO TÉCNICO: CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O OUTRO!. 101 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................... 125 REFERÊNCIAS................................................................................................. 128 APÊNDICES..................................................................................................... 129 ANEXOS...................................................................................................... 133 1 Este trabalho foi revisado de acordo com as novas regras ortográficas aprovadas pelo Acordo Ortográfico assinado entre os países que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em vigor no Brasil desde 2009. E foi formatado de acordo com a ABNT NBR 14724 de 17.04.2011. 10 INTRODUÇÃO Em vários anos de atuação como professor de Educação Física em áreas de vulnerabilidade social2, percebe-se que os jovens não têm locais para realizarem atividades esportivas e lúdicas. Essas atividades podem ser consideradas ferramenta de promoção para o desenvolvimento humano, socialização, integração social e promoção da elevação dos níveis de qualidade de vida, combatendo a ociosidade e, consequentemente, os jovens poderão ser retirados de diversas situações que podem levá-los a elevados níveis de risco social. Tendo em vista o poder da massificação do esporte gerada pelos grandes eventos esportivos no Brasil, tais como Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, que deixarão importantes legados em diversas áreas, tem-se que pensar em maneiras de otimizar os programas sociais já existentes e possibilitar a implantação de novos programas e de ações isoladas realizadas por profissionais de Educação Física em áreas de vulnerabilidade social. Esses profissionais exercem papel fundamental para o desenvolvimento dessas atividades com conhecimento interdisciplinar para inferir e entender as necessidades no contexto onde estão inseridos. Nesse sentido, cabe destacar que o “Fica Vivo!” é um programa de controle de homicídios no âmbito da segurança pública, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS). Uma de suas grandes especificidades é intervir nas dinâmicas sociais da violência e criminalidade nas regiões, onde se encontra inserido. Nesse programa, que objetiva controlar e prevenir a ocorrência de homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade violenta em Minas Gerais, busca-se a melhoria da qualidade de vida da população, por meio de oficinas de esporte, arte e cultura oferecidas aos jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social. Atualmente, o programa possui 30 Centros de Prevenção à Criminalidade (CPC) em Belo Horizonte e região metropolitana, assim 2 Vulnerabilidade social: para Ximenes (2010, s/p) “é um conceito multidimensional que se refere à condição de indivíduos ou grupos em situação de fragilidade, que os tornam expostos a riscos e a níveis significativos de desagregação social”. 11 distribuídos: 14 na capital, dos quais 13 possuem o Programa “Fica Vivo!”, e 16 na região metropolitana (Betim, Contagem, Ribeirão das Neves, Sabará, Santa Luzia, Vespasiano), sendo que, destes, 11 possuem o programa. No interior de Minas Gerais encontram-se nas cidades de Ipatinga, Governador Valadares, Montes Claros, Uberaba e Uberlândia, totalizando 13 CPCs. Contudo, apenas seis deles possuem o Programa “Fica Vivo!”. O Programa “Fica Vivo!” originou-se de um grupo de trabalho com iniciativas do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (CRISP/UFMG). Estavam também presentes membros da Polícia Civil (PCMG) e Militar de Minas Gerais (PMMG), do Ministério Público, juízes, pesquisadores, técnicos da Coordenadoria de Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e empresários do setor privado. Em 2002, por meio de pesquisas, a visibilidade ao elevado crescimento do número de homicídios em Belo Horizonte se acentuou. A primeira pesquisa trabalhou a temática de vitimização e a segunda realizou o processamento dos dados fornecidos pelas Polícias Militar e Civil, por meio do georreferenciamento dos mesmos e da produção de instrumentos dos diferentes tipos de crime na cidade. Pode-se dizer que: A partir do processamento dos dados e da produção de informações, sobre as ocorrências de homicídios na cidade de Belo Horizonte, percebe-se a concentração espacial dos homicídios, a evidência da proximidade de relações entre vítimas e autores [...], e, principalmente, a composição do perfil jovem das vítimas e dos agentes de homicídios. [...] O resultado da pesquisa de vitimização aponta para a convivência maior com a violência, exatamente nas áreas de concentração dos homicídios (ALVES, 2008, p. 107). A análise espacial da ocorrência dos homicídios revelou que o fenômeno concentrava-se, de forma marcante, em regiões de vulnerabilidade social e os envolvidos eram, em sua maioria, jovens, negros, do sexo masculino e com idade entre 15 e 29 anos. A pesquisa demonstrava que os homicídios eram resultantes de conflitos entre os jovens (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS UFMG, 2002). Também em 2002 a CRISP/UFMG propôs ao comandante encarregado do Comando da Polícia na capital e da chefia de Polícia Civil e funcionários da 12 administração municipal e estadual a realização de um curso com vistas à elaboração de um projeto de controle de homicídios, adaptado ao cenário de Belo Horizonte. Nesse curso, foi utilizada a experiência do projeto “Ceasefire”, adotado na cidade de Boston3, em 1996. Ao final do curso foram destacados quatro níveis de problemas, sendo eles: institucional, organizacional, comunitário e individual e estratégias de intervenção definidas para cada um desses. Dando forma ao “Projeto de Controle de Homicídios”, grupos de trabalhos foram montados, tais como o grupo de Ação Estratégica e o de Mobilização Social (MINAS GERAIS, 2003). O projeto-piloto foi implantado no Aglomerado Morro das Pedras em agosto de 2002. Em seis meses houve redução de 47% dos homicídios e isso levou à institucionalização do programa pelo governo do estado com a gestão da SEDS (SILVEIRA et al, 2010). Foi considerado como política de governo e, a partir de 2004, passou a ser expandido para outras áreas da região metropolitana de Belo Horizonte e municípios do interior. O Programa faz acompanhamento especializado e oferece cerca de 600 oficinas voltadas para o esporte, a arte e a cultura para jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social. Desde sua criação, o Fica Vivo! realizou, em média, 13 mil atendimentos por ano, reduzindo em 50% os índices de homicídio nas regiões que abrange4” (MINAS GERAIS, 2013). No Programa “Fica Vivo!”, considera-se que o desconhecimento sobre o que se faz necessário para tornar mais eficaz a contribuição específica dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros seja um problema a ser analisado e solucionado. Entende-se que a identificação das ações realizadas e efetivas poderá contribuir de forma significativa para obtenção de melhores resultados5 do programa, bem como colaborar para a redução de homicídios e, consequentemente, irá proporcionar o desenvolvimento local da região onde os centros estão locados. 3 Ver relatório de pesquisa Reducing gun violence: the Boston gun Project’s Operation Ceasefire. Disponível em: <https://www.ncjrs.gov/pdffiles1/nij/188741.pdf>. 4 Disponível em: <https://www.seds.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id= 283&&Itemid=117>. 5 Destacam-se como resultados positivos: maior número de jovens atendidos, motivados e incentivados através das atividades esportivas, que obtiveram transformações significativas (retirados das drogas, da criminalidade) em suas atividades diárias, comportamentos e, consequentemente, em sua rotina local, proporcionando melhores níveis de qualidade de vida e oportunidades de desenvolvimento local. 13 Portanto, é nesse panorama que o tema desta pesquisa se insere, isto é, profissionais de Educação Física atuando como oficineiros com jovens que se encontram em áreas de vulnerabilidade social no contexto do programa. Segundo Souza, Müller e Natali (2011, p. 1125): Cabe aos sujeitos identificar em seus contextos o que lhe é negado como direito, o que está injusto para todos e ir buscar coletivamente a transformação de sua realidade, porém, esta identificação não se apresenta instantaneamente, há que existir um estímulo para gerar o sentimento de pertença e esse é um desafio, sobretudo, quando se trata de crianças e adolescentes. Acrescenta-se, ainda, que há atividades que não cumprem o proposto no Programa “Fica Vivo!”, uma vez que trabalham mais a técnica, por exemplo, de determinado esporte, e a dimensão social fica aquém do esperado. Essa dicotomia torna ineficazes as atividades realizadas porque se focalizam em apenas um aspecto do desenvolvimento dos jovens. Para Souza, Müller e Natali (2011, p. 1125-1126): O educador é o sujeito que vai transmitir e mediar as relações de conhecimento e delega-se a ele, estar apropriado do conhecimento que deve ser promovido pela formação política para que haja maiores possibilidades de comprometimento com o contexto em que está envolvido, promoção de troca de saberes com as crianças e adolescentes e a comunidade e uma participação conjunta e eficaz nas ações que pareçam importantes aos mesmos para a conquista de determinados direitos. E pode-se dizer, conforme salientam Natali e Müller (2009, p. 301), que: A ação educativa é uma opção do educador, e envolve sua compreensão de mundo, a orientação das suas atitudes, a orientação da metodologia e a convicção ética. Os princípios apresentados almejam uma ação educacional efetiva tanto para os educadores quanto para os educandos [...]. Isso posto, tem-se como questão central da pesquisa: qual a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” e o que acreditam que se faz necessário para que a intervenção educativa seja realmente eficaz para o controle de homicídios nas regiões onde o programa está inserido? 14 Esta pesquisa baseou-se, para responder essa questão central, na seguinte hipótese: os profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros, ao realizarem ações eficazes com os jovens do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, podem proporcionar mudanças realmente significativas em suas vidas, desde que capacitados e retroalimentados periodicamente. É importante explicitar a distinção entre eficiência e eficácia neste estudo. Entende-se como eficiência o número de jovens atendidos pelo programa e eficácia o número de jovens atendidos que obtiveram desenvolvimento significativo e que têm repercussão efetiva em suas vidas. Consideram-se indicadores da eficácia a cooperação, amizade, solidariedade, fortalecimento pessoal, interpessoal e político, autonomia e pertencimento. Assim, o objetivo geral deste estudo foi analisar a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, tendo em vista o desenvolvimento de uma contribuição técnica voltada para o desenvolvimento local. E como objetivos específicos pretendeu-se: a) Descrever o trabalho de profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. b) Identificar o que tem possibilitado mais eficácia a determinadas intervenções de profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. c) Relatar propostas para aumentar a eficácia das ações de Educação Física no contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” apresentadas por profissionais de Educação Física/oficineiros. d) Elaborar um produto técnico em forma de cartilha informativa, detalhando formas que potencializem ações realizadas nas oficinas e de como se trabalhar com as oficinas. A escolha do tema em pauta se justifica pela importância da Educação Física e, mais especificamente, do esporte se constituir em uma ferramenta para o desenvolvimento local em áreas de vulnerabilidade social. Portanto, “o 15 desenvolvimento local poderia criar um locus interativo de cidadãos, recuperando a iniciativa e a autonomia na gestão do bem comum” (OLIVEIRA, 2001, p. 14). Ademais, o atual momento esportivo, quando ainda se assistirá aos Jogos Olímpicos, em 2016, mostra-se propício para a discussão do tema, a partir de iniciativas concretas no campo da Educação Física, como uma estratégia de inclusão social, tal como propõe o Programa “Fica Vivo!”. O trabalho com os jovens que vivem em vulnerabilidade social tem que gerar resultados que os ajudem a afugentar a ociosidade em que se encontram, a evitar a criminalidade e a elevar sua qualidade de vida. A educação, tratada de forma multidimensional, é fator relevante para a obtenção desses resultados, pois por meio dessas transformações na realidade dos jovens é que se alcança o desenvolvimento local. Para Dowbor (2007, p. 76): A ideia da educação para o desenvolvimento está diretamente vinculada a essa compreensão e à necessidade de se formarem pessoas que amanhã possam participar de forma ativa das iniciativas capazes de transformar o seu entorno, de gerar dinâmicas construtivas. Esta pesquisa, então, é relevante por propor formas de elevar a eficácia das intervenções sociais e educativas na esfera desse Programa “Fica Vivo!”, com vistas ao aumento da prevenção em regiões onde se encontra o programa, e encontra respaldo no Decreto 43334/03. O Decreto 43334/03 cria o Programa de Controle de Homicídios e define seu objetivo: reduzir a incidência de homicídios dolosos, mediante ações de prevenção e repressão, nas áreas de risco da região metropolitana de Belo Horizonte e em outros municípios do estado cujos indicadores de criminalidade violenta o justifiquem, contando, para sua execução, com a ação integrada dos executivos federal, estadual e municipal, do Poder Judiciário, do Ministério Público Estadual, bem como das organizações não governamentais de atendimento ou assistência social e da sociedade em geral (MINAS GERAIS, 2003, p. 79). Acredita-se, também que aprofundar conhecimentos a respeito da experiência vivida pelos profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa “Fica Vivo!” poderá cooperar e se configurar como uma inovação social e ajudar a aumentar a eficácia das intervenções desses profissionais no programa, 16 contribuindo, assim, para promover o desenvolvimento local, por meio de atividades esportivas, culturais e oficinas, entre outras. No que concerne ao profissional de educação, em 10 anos de trabalho esportivo (voleibol e handebol) e oito anos como professor de Educação Física em regiões de vulnerabilidade social, percebe-se que os jovens não têm locais para realizarem atividades esportivas e lúdicas. Acredita-se, portanto, ser extremamente necessário conhecer as diversas experiências vividas nesse cenário com potencial alto risco social em que esses jovens estão inseridos. O conhecimento das ações dos profissionais de Educação Física é, ainda, relevante para o desenvolvimento profissional, porque na realidade na qual este pesquisador atua elas podem ser reportadas e adaptadas, socializando seus resultados positivos. Como a interação com os jovens é fator determinante para que ocorram transformações significativas em suas vidas, é importante manter-se atualizado e engendrar novas formas de trabalho. Nota-se que o Programa “Fica Vivo!” é uma ferramenta para que jovens tenham a oportunidade, por meio de diversas atividades, de momentos de socialização, integração social e melhores níveis de qualidade de vida. Além de outros fatores, a ociosidade pode ser entendida como uma das causas que levam esses jovens aos níveis mais elevados de risco social. Uma das formas de redução destes é oferecer-lhes atividades esportivas, com a intencionalidade de contribuir para o seu desenvolvimento. As diversas atividades ofertadas, inclusive oficinas esportivas, devem ser recebidas pelos jovens como um momento prazeroso, que possibilite a construção ou o resgate de valores. Esta dissertação tem em sua estrutura três capítulos: o primeiro apresenta o referencial teórico e uma discussão sobre vulnerabilidade social, Educação Física, educação e o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, que dará subsídio referente ao tema proposto. O segundo relata a pesquisa de campo cujos dados foram coletados em 11 CPCs por meio da entrevista semiestruturada e analisados pela técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2008). No terceiro capítulo faz-se uma síntese do referencial teórico e de dados oriundos da pesquisa de campo que subsidiaram a elaboração do produto técnico. Este se constitui na proposição de ações que potencializem as realizadas nas oficinas e as formas de se trabalhar com oficinas. Nas considerações finais, retorna-se às questões que deram origem a este estudo, descrevendo a percepção dos 17 profissionais de Educação Física/oficineiros e tecendo algumas contribuições na formação integral dos jovens do Programa “Fica Vivo!”. Ainda nas considerações finais apresenta-se uma súmula sucinta das conclusões da pesquisa, além, é claro de sugestões para pesquisas futuras. 18 1 A ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA/ OFICINEIROS NO PROGRAMA “FICA VIVO!”: UMA REVISÃO TEÓRICA Ronderson Rodrigues Duarte16 Matilde Meire Miranda Cadete27 RESUMO Este estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física/oficineiros referente à vulnerabilidade social, Educação Física, educação e o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” no eixo da proteção social. Fundamentou-se na pesquisa bibliográfica narrativa com levantamentos de artigos nas bases de dados do SciELO, LILACS. Também foram pesquisados livros, dissertações, teses e programas governamentais. Os descritores utilizados foram: vulnerabilidade social, Educação Física, educação. De posse do material identificado, passou-se à sua leitura e à seleção daquele que respondia ao objetivo do estudo. Percebe-se que a situação de vulnerabilidade social leva os jovens a mais momentos em que se encontram em risco social, não acessibilidade aos serviços básicos e, consequentemente, reforça essa vulnerabilidade. A Educação Física enquadra-se como ferramenta de inserção social, contribuindo para o desenvolvimento integral dos sujeitos e possibilita-lhes melhores níveis de qualidade de vida, pois os leva a ambientes saudáveis onde interagem entre si, constroem relações afetivas e trocam experiências. A educação possibilita a formação de jovens ativos, autônomos e cidadãos. No contexto do programa, a aprendizagem e as mudanças comportamentais dos sujeitos se fazem presentes e os potencializam como cidadãos e protagonistas, contudo, diversos preceitos da educação são necessários para mais esclarecimento e obtenção de resultados ainda mais eficazes e eficientes, possibilitando, com isso, o desenvolvimento local. Palavras-chave: Vulnerabilidade Social. Educação Física. Educação. ABSTRACT This study aimed to analyze the perception of physical education professionals regarding the social vulnerability, Physical Education, Education and Control Program Homicide "Fica vivo!" at the social protection. The study was based on surveys with narrative literature search of articles in databases SciELO, LILACS. Books, dissertations, theses and government programs were also surveyed. The 1 2 Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. 19 keywords used were: social vulnerability, Physical Education, Education. Possession of the material identified, went to his reading and selection of the one who responded to the study objective. It is noticed that the socially vulnerable young people to take more moments where they are at social risk, inaccessibility to basic services and thus reinforces this vulnerability. Physical education is framed as a social inclusion tool, contributing to the integral development of individuals and enables them to better levels of quality of life, because it leads to healthy environments, which interact among themselves, build personal relationships and exchange experiences. Education enables the formation of young assets, and autonomous citizens. In the context of the program, learning and behavioral changes of individuals are present and empower them as citizens and protagonists, however, several precepts of education are needed to further clarify and obtain more effective and efficient results, enabling it to the local development. Key words: Physical Education. Education. Social vulnerability. 1.1 INTRODUÇÃO O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais, foi implantado como projeto-piloto em agosto de 2002 e institucionalizado em 2003. Intervém nas dinâmicas sociais da violência e criminalidade nas quais ele está implantado. Objetiva controlar e prevenir a ocorrência de homicídios dolosos em áreas de vulnerabilidade social, atendendo jovens de 12 a 24 anos que se encontram em situação de risco social. Abordar vulnerabilidade social é imprescindível, apesar de sua complexidade, uma vez que jovens que se encontram em situação de risco social não possuem perspectivas para o desenvolvimento de alternativas, com vistas ao desenvolvimento pessoal, e consequentemente contribuírem para o desenvolvimento local. Abramovay et al. (2002) afirmam que as deficiências no acesso de bens e serviços colaboram com a manutenção da situação de vulnerabilidade social. Os jovens, quando inseridos em projetos sociais como o Programa “Fica Vivo!”, têm a oportunidade de vivenciar momentos importantes na sua existência, a partir de experiências coletivas e individuais, de trocas entre si e os profissionais de Educação Física/oficineiros, de idas e vindas, de avanços e retrocessos; de desconstrução, construção e reconstrução de conhecimentos, valores e sentimentos: é o preparar-se para a vida. Portanto, é necessário oferecer suporte 20 adequado para que esses jovens tenham clareza dos direitos, bens sociais, deveres e ações sociais relevantes, como o intuito de buscarem soluções e melhorarem significativamente sua qualidade de vida e possibilitar-lhes otimizar seu tempo ocioso. O esporte é visto como ferramenta de inserção social, tendo sua contribuição específica para o desenvolvimento integral dos sujeitos e melhores níveis de qualidade de vida, por meio de ambientes saudáveis. Auxilia no processo de desenvolvimento educacional, social e de saúde, o que possibilita a potencialização e preservação das capacidades físicas, emocional e psicossocial, influenciando na formação da autoestima, credenciando-os para uma melhor ação produtiva e participação na sociedade. A Educação Física constitui-se em uma das possibilidades de proporcionar aos jovens a criação de novas opções de vida, de superação de dificuldades, de alternativa para afastar-se das drogas e criminalidade, bem como fortalecer as características positivas, com priorização dos valores construtivos, como: companheirismo, autocontrole, respeito às regras, autossuperação, controle dos impulsos negativos e agressividade. Possibilita, ainda, troca de informações, capacitação, formação de novos valores e mudanças de comportamento, desenvolvendo a personalidade e possibilitando formas diferenciadas de reflexão e ação. Sendo assim, uma oportunidade de crescimento global da comunidade e de seus integrantes a partir do desenvolvimento e envolvimento destes com práticas esportivas. Quando se trata da evolução da Educação Física no Brasil, pode-se dizer que ocorreu uma conscientização em relação ao poder de socialização das atividades esportivas, principalmente para jovens carentes de valores éticos e morais. Eles encontram os incentivos necessários que os levam às conquistas aliadas ao sentimento de cooperação e amizade; capazes de contribuir, mediante suas relações, conexões e interdependência, para o bem-estar físico, psicológico e social, promovendo saúde e cidadania. A Educação Física faz parte da história da humanidade em diferentes situações e necessidades, para o cumprimento do desenvolvimento corporal para realização de diversas atividades, inclusive para sua sobrevivência. Sofreu influências médicas e militares. Tornou-se obrigatória nas escolas do município da Corte em 1851, a partir da Reforma Couto Ferraz. Passou por um momento em 21 que as atribuições eram fortalecer o trabalhador, melhorar a capacidade produtiva e desenvolver a cooperação (BRASIL, 1997). Em 1939 criou-se a Escola Nacional de Educação Física e Desporto (ENEFD) (AZEVEDO; MALINA, 2004). A Educação Física foi influenciada pelas mudanças da sociedade, mercado e cenário político, passando por várias reformas e revisões, destacando-se o aprimoramento das forças físicas, morais, psíquicas e sociais; o nacionalismo e a preparação para o trabalho; o desenvolvimento motor (BRASIL, 1961). No final do século XX, baseados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), ocorreu a regulamentação profissional da Educação Física (BRASIL, 1998a). Por fim, nos dias atuais, busca-se uma Educação Física que articule as múltiplas dimensões do ser humano, que vise ao fortalecimento pessoal, interpessoal e político, o que proporciona autonomia e o sentimento de pertencimento e, finalmente, o desenvolvimento integral dos sujeitos. Do ponto de vista educacional, afirma-se que as desigualdades sociais que acometem jovens no Brasil têm forte ligação com a educação. Na perspectiva da vulnerabilidade social, a educação passa a ser um processo social, pois tem relação com a socialização do indivíduo, agregando valores e a cultura local. Possibilita a construção das relações sociais e tende a assumir o papel transformador dos mesmos, levando-os as perspectivas. Dessa forma, o tema deste estudo se foca, indiretamente, nos jovens partícipes do Programa “Fica Vivo!”, uma vez que se busca conhecer o que a literatura produziu a respeito da atuação dos profissionais de Educação Física que assumiram o papel de oficineiros para que os jovens, em vulnerabilidade social, se vejam como sujeitos cidadãos, façam escolhas conscientes, acreditem em um futuro melhor para si e para sua comunidade e transcendam o aqui e agora. Nesse sentido, questiona-se: o que a literatura tem publicado a respeito da atuação de profissionais de Educação Física com jovens que vivem em situações de vulnerabilidade social, com vistas a ofertar-lhes uma educação integral? Portanto, este estudo objetivou analisar as publicações mais recentes relacionadas à vulnerabilidade social, Educação Física, educação e o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. 22 1.2 METODOLOGIA A metodologia utilizada para a construção deste referencial teórico fundamentou-se na pesquisa bibliográfica narrativa com levantamentos de artigos na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), nas bases de dados da Scientific Electronic Library Online (SciELO) e da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) a partir dos descritores: vulnerabilidade social, Educação Física, educação e desenvolvimento local. Também foram pesquisados livros, dissertações, teses e programas governamentais que possibilitaram que o aprofundamento teórico possibilitasse mais apreensão e compreensão do fenômeno em pauta. Segundo Gil (2010, p. 50), a pesquisa bibliográfica “é elaborada a partir de material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e atualmente com material disponibilizado na Internet”. Permite o levantamento das pesquisas referentes ao tema estudado e ainda o aprofundamento teórico que norteia a pesquisa. Gil (2010, p. 50) diz que: A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato com o que já se produziu e se registrou a respeito do tema de pesquisa. Tais vantagens revelam o compromisso da qualidade da pesquisa. Assim, buscaram-se autores que escreveram sobre vulnerabilidade social, Educação Física, educação, Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” e um pouco acerca do desenvolvimento local. De posse do material identificado, passou-se à leitura e seleção daquele material que respondia ao objetivo deste estudo. 1.3 REFERENCIAL TEÓRICO Neste capítulo, buscou-se a apresentação de temas relacionados ao fenômeno em estudo e que se interligam entre si para maior compreensão do trabalho realizado pelos profissionais de Educação Física/oficineiros com jovens participantes do Programa “Fica Vivo!”. 23 1.3.1 Vulnerabilidade social Ao discorrer sobre vulnerabilidade social, percebe-se que seu entendimento parte da sua compreensão conceitual, ou seja, vulnerabilidade social não se apresenta como tarefa fácil, uma vez que vem acompanhada de diversas dimensões como a social, econômica, da saúde, entre outras. No aspecto social, remete às questões sociais de fragilidade do indivíduo ou de determinada comunidade. Constitui-se, também, como ferramenta para melhor compreensão da situação de grupos tidos como vulneráveis, tais como: crianças, jovens, mulheres e idosos. Para Monteiro (2011, p. 31) “os grupos de risco foram delineados na sociedade com a visão focalizada no indivíduo e não no contexto social que produziu a vulnerabilidade”. O entendimento do conceito de vulnerabilidade, segundo Rado e Bonetti (2009, p. 3611), pode ser ferramenta eficaz para compreender a situação dos excluídos socialmente em sua amplitude, compreendendo as “vicissitudes” 8 e “idiossincrasias”9 existentes em sua realidade. Para Araújo (2010), a vulnerabilidade social é definida como nível de acesso a aspectos básicos de cidadania, como moradia, serviço de infraestrutura urbana, educação, trabalho, renda, assistência jurídica, serviços de saúde, segurança alimentar e previdência social. Pode-se dizer, conforme expressam Abramovay et al. (2002), que vulnerabilidade social está relacionada à disponibilidade e ao acesso de oportunidades sociais. E, de acordo com Correia (2008, p. 116), esse “conceito está associado aos direitos civis e sociais e às condições de cidadania que, por uma complexidade de fatores, deixam excluídos da condição de cidadãos diversos sujeitos e comunidades”. Percebe-se que a utilização desse termo está se ampliando, em decorrência de diversas situações de risco social. Os conceitos de vulnerabilidade social e risco social em diversas situações podem ser aplicados de forma equivocada. Trata-se de conceitos distintos. Portanto, Yunes e Szymanski (2001 apud JANCZURA, 2012) fazem a distinção dos conceitos de risco e 8 Vicissitudes: circunstâncias consideradas contrárias e desfavoráveis. Disponível em: <http://www.dicio.com.br/vicissitude/> 9 Idiossincrasias: é uma característica de comportamento peculiar de um indivíduo ou um grupo. Disponível em: <http://www.significados.com.br/idiossincrasia/> 24 vulnerabilidade. O risco social refere-se a situações de grupos e populações, enquanto a vulnerabilidade refere-se aos indivíduos e às suas suscetibilidades ou predisposições a respostas ou consequências negativas, ou seja, a situação fragilizada do indivíduo. Portanto, a vulnerabilidade tem efeito quando o risco está presente em determinado grupo. Tais enfoques, apesar de servirem à identificação dos setores mais vulneráveis, não deram conta das complexas raízes desse fenômeno, já que se baseavam apenas no uso de indicadores de renda ou carências que delimitam a insatisfação de necessidades básicas (ABRAMOVAY et al., 2002). Vulnerabilidade social, na visão de Abramovay et al. (2002, p. 31): [...] decorre da sua utilidade para compreender como e por que diferentes atores sociais se mostram mais suscetíveis a processos que atentam contra sua possibilidade de ascender a maiores níveis de bemestar. Ela permite analisar o caso de grupos sociais, aos quais são atribuídas grandes potencialidades, ativos valorizados em um dado contexto de estruturas de oportunidades, mas que, contraditoriamente, permanecem reclusos a um cenário de inseguranças, instabilidades e marginalidade. Monteiro (2011) refere que o termo vulnerabilidade está situado em concepções distintas. A primeira concepção se dá pela atribuição do sujeito vulnerável à submissão às condições perturbadoras. E a outra se dá pelo potencial de risco do sujeito, considerando os elementos da realidade social. O entendimento integral e completo do termo vulnerabilidade social é extremamente importante para que se façam novos estudos que não sejam exclusivamente focados na pobreza, e sim em outras formas de desvantagens sociais. Baseado em Abramovay et al. (2002), pode-se dizer que situações de vulnerabilidade social fazem referências a três elementos essenciais de indivíduos, famílias ou comunidades. Com isso, a escassa disponibilidade desses recursos ocasiona diversas desvantagens sociais. O primeiro elemento diz respeito à posse ou controle de recursos, que permite aos diversos atores desenvolverem-se em sociedade. O segundo refere-se às estruturas de oportunidades que se vinculam em níveis de bem-estar, aos quais se pode ascender em determinado tempo e território, podendo propiciar o uso mais eficiente dos recursos. E, por fim, o terceiro elemento relaciona-se às estratégias quanto ao uso que esses atores fazem de seu conjunto de recursos com vistas a 25 fazer frente às mudanças estruturais de um dado contexto social. A falta de acesso à educação, trabalho, saúde, lazer e cultura diminui as chances de aquisição e aperfeiçoamento desses recursos que são fundamentais para os jovens. De acordo com Abramovay et al. (2002, p. 14): [...] a vulnerabilidade cresce quando aparecem algumas das situações a seguir: falta de acesso à informação, aos serviços básicos de educação e falta de confiança ou credibilidade na sustentação de estratégias de ação. Evidencia-se, a partir desses aspectos, um deslocamento na atribuição da condição de vulnerabilidade, que já não se constitui como característica própria do indivíduo, mas como resultado da combinação de determinados arranjos sociais e políticos que vão incidir sobre os sujeitos. O risco social aumenta devido aos acontecimentos das situações descritas por Abramovay et al (2002) e, consequentemente, surge a vulnerabilidade, pois, além do risco, tem-se a inabilidade de adaptar-se ativamente à situação e a incapacidade de resposta. 2.3.1.1 Vulnerabilidade social e juventude Ao recorrer ao termo juventude, percebe-se, várias vezes, que esta se vincula à idade cronológica, ou seja, dos 15 aos 24 anos, faixa etária utilizada, principalmente, pelos recortes de pesquisas como as realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 1996) e também pela Organização das Nações Unidas – ONU (BRASIL, 2010, p. 23). Tecem considerações acerca da natureza demográfica do segmento de jovens de 15 a 24 anos de idade, por se tratar de uma faixa etário que requer especial atenção por parte dos responsáveis diretos pelo planejamento nacional e até mesmo pela sua administração (IBGE, 1996). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como adolescência a faixa etária entre 12 e 18 anos de idade, quando então se atinge a maioridade legal (BRASIL, 1990). Já o Estatuto da Juventude define como jovem os sujeitos entre 15 e 29 anos de idade (BRASIL, 2013). Contudo, essa é uma fase arraigada por diversas concepções, que não são consideradas apenas com a idade cronológica do indivíduo. De acordo com Hurtado (2012, p. 17): 26 [...] a juventude é genericamente entendida como o período do desenvolvimento humano que ocorre entre a infância e a vida adulta. Entretanto, para falar de juventude é importante considerar que ela não é apenas um fenômeno biológico e psicológico, mas também, histórico, social e cultural. Tal percepção implica uma visão complexa e multidisciplinar da juventude considerando-se seus múltiplos aspectos. Ao considerar seus múltiplos aspectos é que se pensa e se propõe a compreender a “juventude” que frequenta o Programa “Fica vivo!” como seres humanos que trazem marcadas nas suas histórias de vida situações de risco social que se configuram como possibilidades de serem trabalhadas pelos oficineiros. Quando inseridos em questões sociais, os jovens apresentam dois aspectos importantes que demandam o apoio da sociedade e família. Primeiro, em decorrência dos problemas de riscos sociais, como as drogas, a violência e outros que demandariam medidas de enfrentamento. E o segundo aspecto, que exigiria esforço, principalmente da família e da escola, no sentido de preparar o jovem para ser um adulto socialmente ajustado e produtivo. Torna-se necessário que a sociedade se organize para que possa oferecer suporte adequado e ter clareza dos direitos, bens sociais e deveres dos jovens e quais ações sociais são relevantes e urgentes para serem reivindicadas, com o intuito de se buscar soluções e, logo, melhorar significativamente a qualidade de vida desse grupo social. Vários fenômenos devem ser analisados, pois não é possível separar os fenômenos psicológicos, individuais e sociais. Hurtado (2012, p. 36) reporta: [...] são diversos os impactos negativos da condição de vulnerabilidade social na juventude, mas que, apesar disso, existe uma contrapartida representada pelas possibilidades de superação desta condição. A escola, a família, o estado, as organizações não governamentais podem auxiliar na superação das adversidades encontradas por esses jovens, funcionando como fonte de apoio relacional proporcionadoras de fatores de resiliência e vulnerabilidades positivas. As desigualdades sociais e os escassos recursos para a construção de uma rede de proteção aos grupos populares vulneráveis se expressam por meio da violência, que acaba se tornando um sério problema. Daí a importância de programas como o “Fica Vivo!” e outros existentes. 27 Pode-se considerar que jovens oriundos de famílias carentes e de laços frágeis com muitas demandas e/ou necessidades podem ser considerados em situações de risco social, assumindo uma condição de vulnerabilidade social. Silva (2008) explicita que essa situação acontece porque esses jovens não acessam serviços básicos e essenciais e, logo, estão expostos ao risco social, à iminente marginalidade. Abramovay et al. (2002, p.13-14) justificam: [...] a dificuldade dos jovens em acessar as estruturas de oportunidades, apresenta-se um conjunto de dados secundários sobre a educação, saúde, cultura, lazer e trabalho, insumos fundamentais para o desenvolvimento dos recursos materiais e simbólicos. Esses dados apontam para a existência de deficiências no acesso dos jovens a esses bens e serviços, o que colabora com a manutenção da situação de vulnerabilidade social. Acredita-se que alternativas como lazer, atividades esportivas, culturais e profissionalizantes possam contribuir no processo inicial de uma mudança significativa na vida dos jovens. E, também, que esses momentos podem ser considerados “privilegiados” para a construção de valores éticos e, por conseguinte, possibilitam a formação de jovens socialmente diferenciados. Conforme Abramovay et al. (2002, p. 53-54): [...] o lazer constitui, por fim, uma importante dimensão a ser analisada, tanto pelo destaque conferido às atividades recreativas, como pela relevância de tais atividades no desenvolvimento pessoal e integração social desses jovens. Por um lado, estudos demonstram que os jovens possuem um imaginário associado ao prazer, expresso em atividades recreativas. Assim, é imperativa a implantação de políticas públicas voltadas para os jovens. Não se pode esquecer de que o tempo em que permanecem nas escolas, isso quando a frequentam regularmente, é curto em relação ao tempo em que permanecem nas ruas. Muitos deles tentam sair da invisibilidade social, mas, em muitos casos, acabam se infiltrando em situações de risco como as drogas, a criminalidade, entre outras. Não se leva em consideração somente a ocupação do tempo ocioso. Tendo em vista o foco deste trabalho serem profissionais de Educação Física do Programa “Fica vivo!”, torna-se pertinente adentrar um pouco a história 28 da Educação Física. Além do mais, cabe-lhes o desafio de resgatar jovens em vulnerabilidade social e possibilitar-lhes participar de ações efetivas revestidas de princípios básicos teórico-práticos. 2.3.2 História e evolução da Educação Física no Brasil Ao longo dos anos, a atividade física sempre esteve presente na história da humanidade, em diferentes situações e necessidades. Relatos históricos revelam que o homem primitivo já praticava atividades físicas em diversas situações para a sua sobrevivência nas condições de vida da época. Necessitavam da aptidão física adequada para a realização de atividades de pesca, caça, construção de moradias, entre outras, e nos momentos de lazer ou rituais religiosos. Então, a Educação Física surgiu para o cumprimento do desenvolvimento corporal com vistas à realização de diversas atividades. A evolução da Educação Física, conhecida na atualidade, se deu principalmente pelas fortes influências médicas e militares. A médica intervinha em aspectos relacionados ao funcionamento do corpo e a militar no desenvolvimento corporal para as necessidades da função e o entendimento e a valorização do corpo, no que diz respeito à concepção da disciplina e suas finalidades (ROSA; LETA, 2010). A Reforma Couto Ferraz, ocorrida no ano de 1851, tornou obrigatória a Educação Física nas escolas do município da Corte (BRASIL, 1997). Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): [...] em 1882, Rui Barbosa deu seu parecer sobre o Projeto 224 Reforma Leôncio de Carvalho, Decreto n. 7.247, de 19 de abril de 1879, da Instrução Pública, que defendeu a inclusão da ginástica nas escolas e a equiparação dos professores de ginástica aos de outras disciplinas. Foi destacada a ideia sobre a importância de ter um corpo saudável para sustentar a atividade intelectual, ou seja, o desenvolvimento integral do ser humano (BRASIL, 1997, p. 20). Na transição da primeira para a segunda metade do século XX, ocorreram os principais marcos formadores da Educação Física no Brasil. Estes acontecem principalmente em decorrência do desenvolvimento de força para o trabalho, devido à existência de diversos aspectos resultantes da Revolução Industrial e da necessidade de força para o enfrentamento de situações de guerra (BRASIL, 29 1997). Apenas em 1937, com a elaboração da Constituição, a Educação Física foi explicitada em textos constitucionais federais. Ela ganhou novas atribuições: fortalecer o trabalhador, melhorando sua capacidade produtiva, e desenvolver o espírito de cooperação em benefício da coletividade (BRASIL, 1997). Com as necessidades profissionais da época, capazes de garantir o desenvolvimento da força física, criou-se a escola de Educação Física. Em 1939, por meio do Decreto-Lei nº 1.212, criou-se a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD) e estabeleceram-se as diretrizes para a formação profissional (AZEVEDO; MALINA, 2004). A partir do surgimento de concepções influenciadas por mudanças na sociedade, no mercado e no cenário político nacional, a Educação Física passou por reformas que permitiram sua inclusão no sistema educacional (BRASIL, 1961). Em 1945, a Educação Física passou por revisão curricular. Entre 1945 e 1968, a formação do professor ganhou atenção especial, o que se pode observar nitidamente na Lei de Diretrizes e Bases – LDB nº 4.024/61 (BRASIL, 1961). Albuquerque (2009) salienta que a reforma educacional proposta em 1964 foi pensada de acordo com o modelo econômico voltado para a entrada de capital e das indústrias no Brasil. No cenário econômico a Educação Física foi vista como uma ferramenta para o desenvolvimento técnico e físico do aluno, importantes para interesses comerciais. Nesse quadro, em 1968, com a Lei nº 5.540, e em 1971, com a Lei nº 5.692, a Educação Física teve seu caráter instrumental reforçado (BRASIL, 1997). Como consta nos PCNs, a partir do Decreto nº 69.450 de 1971, a Educação Física passou a ser considerada “a atividade que, por seus meios, processos e técnicas, desenvolvem e aprimoram forças físicas, morais, cívicas, psíquicas e sociais do educando” (BRASIL, 1998b, p. 21). Como descrito nos PCNs, os médicos assumiram função higienista, visando melhorar a condição de vida e modificando hábitos de saúde e higiene da população. Já os militares assumiram uma filosofia positivista, em que era de fundamental importância formar indivíduos fortes e saudáveis (BRASIL, 1998b). Na década de 70, a Educação Física ganhou funções importantes para a manutenção da ordem e do progresso, pautadas no esporte e nacionalismo. As 30 atividades esportivas foram consideradas fatores que poderiam colaborar na melhoria da força de trabalho (BRASIL, 1998b). Na década de 80, esse modelo foi contestado e o enfoque passou a ser o desenvolvimento psicomotor do aluno. No final do século XX, com as publicações da LDBEN nº 9.394/96, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da Lei nº 9.696/98 com a regulamentação profissional da Educação Física, observouse um novo delineamento no campo da intervenção profissional da Educação Física (BRASIL, 1998a). Em 1o de setembro de 1998 criou-se a Lei nº 9.696, que dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho Federal (CREF) e Conselhos Regionais de Educação Física (CONFEF) (BRASIL, 1998a). Os PCNs relacionados ao profissional de Educação Física estabelecem que: [...] esse professor é uma referência importante para seus alunos, pois a Educação Física propicia uma experiência de aprendizagem peculiar ao mobilizar os aspectos afetivos, sociais, éticos e de sexualidade de forma intensa e explícita, o que faz com que o professor de Educação Física tenha um conhecimento abrangente de seus alunos (BRASIL, 1997, p. 22). Portanto, a partir dessas mudanças e evoluções na formação do profissional de Educação Física, pode-se dizer que sua atuação como oficineiro no Programa “Fica Vivo!” é relevante, devido ao contato próximo e dialógico que tem com os alunos do programa. Sua formação lhe outorga articular as múltiplas dimensões do ser humano e estabelecer com ele uma interação afetiva, próxima, dialógica, ética e de transcendência. Também, nos tempos atuais, desde o início do século XXI, o desenvolvimento do conhecimento permitiu a formalização e estruturação de princípios que visam ao desenvolvimento do corpo a fim de vislumbrar as mais diversas necessidades humanas. Nesse sentido, o trabalho dos profissionais de Educação Física gera, para além da transmissão de informações e discussão de temas advindos do interesse dos jovens, a participação ativa e operativa deles e sua aplicação no ambito social e histórico com vistas às efetivas respostas à sua realidade. Dessa forma, o 31 profissional de Educação Física tem diversas atribuições. 2.3.2.1 Atribuições e papel do profissional de Educação Física Diversos segmentos da Educação Física apresentam um dinamismo inerente às novas concepções e conhecimentos; essa característica atual tem exigido do profissional de Educação Física conhecimentos e habilidades mais especializados para o desempenho de suas funções. Desde a sua concepção, o profissional de Educação Física recebeu diversas atribuições respaldadas pelos princípios que norteiam seu campo de atuação. A legitimidade dada pela Lei nº 9.696, de 1 o de setembro de 1998, que dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física, descreve que: “Art. 3o Compete ao profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto” (BRASIL, 1998a). Ao longo do seu desenvolvimento, a Educação Física sofreu influências de diversas ciências, como as ciências humanas e sociais, e estas ampliaram as atribuições dadas aos profissionais de Educação Física. De acordo com Rosa e Leta (2010), a ruptura da concepção médica da Educação Física permitiu a valorização dos aspectos sociais e filosóficos dessa profissão, propiciando uma nova realidade de atuação profissional. A modernização mostrou que a educação deveria preocupar-se com os valores morais, o tempo livre, o lazer e a educação integral dos jovens e crianças. Essa evolução da Educação Física fez com que o caráter militarista desse lugar ao desenvolvimento da corporeidade. Isso atribuiu à Educação Física uma identidade destacada no cenário educacional. Segundo Silva et al. (2009) inferese que o entendimento para construção da identidade da Educação Física está calcada exclusivamente na demonstração de modelos e no saber fazer. Para Nunes, Votre e Santos (2012), no contexto em que a Educação Física 32 desempenha seu papel, entre outros ambientes, como no social, os métodos pedagógicos estabelecem um modo de articulação dos saberes e conhecimentos que objetiva o desenvolvimento social do indivíduo. Vale salientar, conforme estabelecido pelo Código de Ética do Profissional de Educação Física, que sua atuação deverá ser respaldada pelo princípio da responsabilidade social. Esse princípio foi estabelecido por meio da Resolução nº 056, de 18 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Código de Ética dos profissionais de Educação Física: “Art. 4º - O exercício profissional em Educação Física pautar-se-á pelos seguintes princípios: I - o respeito à vida, à dignidade, à integridade e aos direitos do indivíduo; II - a responsabilidade social; III - a ausência de discriminação ou preconceito de qualquer natureza; IV - o respeito à ética nas diversas atividades profissionais; V - a valorização da identidade profissional no campo da atividade física; VI - a sustentabilidade do meio ambiente; VII - a prestação, sempre, do melhor serviço, a um número cada vez maior de pessoas, com competência, responsabilidade e honestidade; VIII - a atuação dentro das especificidades do seu campo e área do conhecimento, no sentido da educação e desenvolvimento das potencialidades humanas, daqueles aos quais presta serviços” (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA - CONFEF, 2003). Ao considerar a ação do princípio socializador da Educação Física, a prática esportiva é reconhecida como canal de socialização ou de inclusão social. Assim, o Programa “Fica Vivo!” assume caráter socializador. Destaca-se, ainda, que o esporte é um meio importante de socialização, por conseguir atingir valores como cooperação, amizade e solidariedade, que são relevantes para vencer as adversidades da pobreza. Baseado em Vianna e Lovisolo (2011), constata-se que a formação social, como a sociabilidade e a responsabilidade, seja intrínseca ao esporte. As influências da mídia e dos grandes eventos esportivos que acontecerão no Brasil motivam e aumentam a participação de elevado número de sujeitos nos programas e/ou projetos de atividade física regular. Considerando as variáveis em que o esporte pode atuar, como recurso de desenvolvimento social, o profissional de Educação Física tem o papel fundamental de melhorar a condição de jovens em situação de risco social. Cabelhe, por meio de suas ferramentas de trabalho, delinear o método intervencionista 33 em sua tomada de decisão, com vistas à redução das mazelas decorrentes da fragmentação social dos jovens. Contudo, Correia (2008, p. 118) enfatiza que a ideia de intervenção do profissional de Educação Física deve ser respaldada com as devidas peculiaridades e complexidades de uma ação social. Para que a intervenção social, por meio da Educação Física, por intermédio do esporte e do lazer, obtenha êxito e cumpra seu papel transformador em regiões vulneráveis, “será necessário que os mesmos sejam desenvolvidos e administrados com a mesma seriedade e eficiência de uma empresa, porém com muita responsabilidade e comprometimento social”. Além das peculiaridades de projetos intervencionistas oriundos da prática da atividade física e do esporte, vale ressaltar que o papel da Educação Física, para Correia et al. (2010, p. 153): [...] cabe à Educação Física, enquanto componente curricular, assumir também um papel social e transformador, de uma prática educativa comprometida com a formação de atitudes e valores para que, desta forma, o educando possa perceber a importância das relações interpessoais para a transformação de sua condição enquanto sujeito de relações afetivas, cognitivas e, sobretudo, morais, para poder viver sem agredir ou prejudicar o outro. Assim, estará contribuindo para a formação de um sujeito crítico e emancipado, possibilitando um novo olhar no modo de ser, ver e intervir no mundo. Brinati et al. (2006) apresentam as dimensões alcançadas com a prática de atividades físicas que promove o fortalecimento pessoal, interpessoal e político, ou seja, autonomia, sentimento de pertencimento e identificação com determinados grupos e segurança diante da sociedade. A Educação Física é capaz de contribuir para o desenvolvimento social do indivíduo, por meio do esporte e/ou atividade física, mantendo a relação dele com os demais, bem como alcançar metas, previamente traçadas, por meio desse desenvolvimento. Podem-se vislumbrar os seus objetivos, mostrando cada vez mais que o empenho dos praticantes de atividades físicas poderá ajudar para que eles possam sair de situações menos favoráveis. A atuação dos profissionais de Educação Física no âmbito de vulnerabilidade social no Programa “Fica Vivo!” tem forte ligação com a educação, que passa a ser um processo social, uma vez que possibilita a construção das relações sociais e agrega valores. Por isso, adentra-se na Educação. 34 2.3.3 Educação As desigualdades sociais vividas pelos jovens no Brasil têm forte ligação com a educação; essa é percebida em dados que revelam reduzidos níveis educacionais em classes menos favorecidas da sociedade. Contudo, as discussões em torno da educação não se limitam às questões do acesso à educação e à qualidade da mesma, mas como essa pode ser importante para o desenvolvimento social do indivíduo. A partir da promulgação da LDBEN nº 9.394 de 20 de dezembro 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, o papel da educação teve sua contextualização com a realidade, dando o caráter de socializador ao sistema educacional. Essa abrangência da educação é exposta no seguinte artigo: “Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL. 1996). Na perspectiva da vulnerabilidade social, a educação passa a ser um processo social, pois se relaciona à socialização do indivíduo, agregando valores, e à cultura local durante a história de vida deles. Stoco (2011) preleciona que a educação é um processo político de permanência e mudança (preservar e mudar), baseada em alguns princípios e finalidades. A concepção de educação freireana realça que se deve conhecer a realidade do sujeito e “a premissa básica daqueles que realizam o processo educativo é proporcionar o fortalecimento pessoal dos seres humanos com quem interagem, é ajudá-los a ajudar-se, fazê-los agente de sua transformação ” (FREIRE, 1994 apud OLIVEIRA, 2011, p. 96). Os profissionais de Educação Física do Programa “Fica Vivo!”, na concepção de educação de Paulo Freire, conhecendo a realidade dos jovens, devem trabalhar de tal forma com eles que os empoderem a sair do lugar comum e a se acreditarem como seres de possibilidades e de transformação. Conforme Klein (2011, p. 98): 35 [...] educação não é simplesmente a soma de diferentes experiências é, sobretudo, a combinação de diferentes experiências que interagem entre si e são significados pelo sujeito. O conceito amplo de experiência indissociável da vida cotidiana nos possibilita compreender a educação para além dos limites escolares. Quaresma (2012, p.186) salienta que: Na práxis educativa social, os objetivos e as intenções educacionais integram todas as dimensões do desenvolvimento e da ação humana e, também, as intenções individuais e coletivas; sendo o coletivo, o social; a transformação social, o objetivo final, tendo em vista o bem de todos. A educação possibilita a construção das relações sociais, redes de amigos e contatos. Para Abramovay et al. (2002, p. 38), “a educação em conjunto com a família constitui um dos espaços tradicionais de socialização entre os jovens”. Dessa forma, a educação tende a assumir o seu papel de formador do indivíduo, com perspectivas. A educação atual deve se propor a construir conhecimentos, considerando a diversidade dos sujeitos, independentemente da condição social, da possibilidade de escolha e do posicionamento ético em seu caminho, pautado em suas crenças e valores. Pode-se observar que a limitação dos investimentos em educação e as necessidades do mercado para promover a superação da vulnerabilidade e de suas consequências não possibilitam o aumento da participação e valorização das formas de organização e expressão do jovem, como estratégia de ação para envolver a sociedade e seus recursos na busca de soluções para os problemas. Desta forma, a educação desenvolve o seu papel ao contribuir para o desenvolvimento do ser humano a fim de superar as condições de vulnerabilidade. Para Bueno (2001), a educação atualmente assume a função de formação das novas gerações dos sujeitos em relação à formação do cidadão e de constituição do sujeito social, além de possibilitar, por meio dela, a construção de um espaço de convivência social que favoreça e estimule a formação e favoreça o exercício da cidadania, assumindo o compromisso de mais participação dos jovens. As ações ofertadas para a educação, promovidas por meio das políticas públicas, parecem desenvolver e ampliar as possibilidades de reduzir a exclusão 36 social, mas pontos relevantes como o desenvolvimento pessoal e a formação para a vida são esquecidos. Destaca-se que o Programa “Fica Vivo!” é uma política pública, propositiva e convoca para a redução da criminalidade nas regiões atendidas; busca, por intermédio de ações educativas, proporcionar melhores níveis de qualidade de vida para os jovens inseridos no Programa, com ênfase no desenvolvimento pessoal e formação para a vida. O Programa “Fica Vivo”, por meio das oficinas, oferece atividades para os jovens em diversas dimensões e de acordo, na maioria das vezes, com o desejo deles e aptidão. Todavia, os profissionais de Educação Física/oficineiros não devem focar apenas fundamentos técnicos ou táticos, quando se tratar de modalidades esportivas. Deve-se levar também em consideração o desenvolvimento social, educacional, cultural e esportivo e valorizar as experiências de cada e de todos, buscando-se resgatar e trabalhar valores essenciais para esses jovens. 2.3.4 O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” originou-se de reuniões orientadas segundo a metodologia de “Solução de Problemas – Problem Solving”10, por um grupo de trabalho com iniciativas do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com a presença de membros da Polícia Civil (PCMG) e da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Ministério Público, juízes, pesquisadores, técnicos da Coordenadoria de Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte e empresários do setor privado (PEIXOTO; ANDRADE; AZEVEDO, 2007). Os resultados de pesquisas realizadas no Programa “Fica Vivo!” identificaram aumento da criminalidade nas regiões em vulnerabilidade social e também constataram que os autores dos crimes e as vítimas eram jovens entre 12 e 24 anos e negros, surgindo, assim, encaminhamentos iniciais de intervenção. É justamente nessa conturbada conjuntura que surge o Projeto de 10 Essa metodologia tem como estrutura a identificação de problemas, a análise destes, a elaboração e implementação de soluções e a avaliação das soluções (PEIXOTO; ANDRADE; AZEVEDO, 2007, p. 3). 37 Controle de Homicídios. Reafirma-se que o Programa “Fica Vivo!” tem como foco a prevenção de homicídios em regiões de vulnerabilidade social. É sabido que a prevenção por meio do esporte pode potencializar ações que contribuam significativamente para a redução dos índices de criminalidade, a fim de proporcionar o desenvolvimento local de diversas regiões de vulnerabilidade social. O elevado número de homicídios pode ser minimizado com a utilização dessa ferramenta, em que serão trabalhados diversos conteúdos imprescindíveis, tais como o resgate de valores perdidos ou adormecidos, possibilitando o alcance do objetivo principal do programa que é prevenção social à criminalidade com vistas à diminuição dos fatores de risco extrínsecos. O Programa é acompanhado pela Coordenadoria de Prevenção à Criminalidade (CPEC), no âmbito da Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS). As contratações são realizadas por uma Organização Social Civil de Interesse Público (OSCIP), o Instituto ELO, e as oficinas com recursos provenientes do Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP) (FARIAS; NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009). Os grupos de trabalhos foram assim dispostos: um grupo de ação estratégica e outro de mobilização social, como pode ser visto na FIG. 1: FIGURA 1 - Eixos do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” Fonte: Minas Gerais (2009). O eixo de intervenção estratégica tem como objetivo articular e promover a interação dos órgãos do Sistema de Defesa Social e Justiça Criminal. Realiza 38 estudos técnicos e capacitações para o grupo desse eixo, composto pela SEDS, Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário (MINAS GERAIS, 2009). Segundo Mendes (2009, p. 222), nesse eixo os técnicos têm menos contatos com os beneficiários do programa. O autor também diz que os técnicos “trabalham com a identificação e a repressão dos focos de criminalidade e os indivíduos relacionados com estes”. O Grupo Especializado de Áreas de Risco (GEPAR), criado em 2004, faz parte do eixo da intervenção estratégica e é formado por policiais militares que promovem a familiaridade com a região de atuação e estabelecem um novo tipo de relacionamento com as comunidades (MINAS GERAIS, 2009). O eixo de proteção social tem sede nos Centros de Prevenção à Criminalidade (CPC). Possui contato direto com a comunidade onde o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” se insere. As ações de atendimento e de trabalho em rede são realizadas pelo grupo, composto de gestor, técnicos, estagiários e os oficineiros. Esses atendimentos são destinados aos jovens na faixa etária de 12 a 24 anos (MINAS GERAIS, 2009). Esse eixo será enfatizado neste estudo, tendo em vista seu objetivo prioritário. Segundo Mendes (2009, p. 219-220), o Programa “Fica Vivo!”: [...] através dos centros de base local, age a favor do empoderamento da comunidade, contribuindo para o estabelecimento de laços e auxiliando na criação de uma nova relação entre os moradores e o poder público, mesmo que de forma acanhada. Apesar de não ser o objetivo final do programa, a relação com a comunidade colabora com uma visão mais positiva da comunidade por parte dos moradores, em virtude não só das possíveis melhorias trazidas pelo programa, mas até da visibilidade dele. O programa, para Ladeira e Rocha (2009, p. 197), “carrega em seus princípios a função de dar lugar a esse público, assim como provocar no encontro com a arte e o esporte a possibilidade deles se destacarem de outra maneira”. No que diz respeito ao Centro de Referência, o Programa “Fica Vivo!”, implantado na política de prevenção, funciona em CPCs. Eles se dividem em centrais e de base local, relacionados com a forma de atuação dos programas de prevenção. O programa é sediado em um centro de base local para oferecer recursos de mobilização para as comunidades assistidas (MENDES, 2009). Outra atividade que integra o programa são as oficinas. Estas são ações visíveis do programa, devido ao contato com a comunidade assistida e, também, 39 por apresentar estratégias de aproximação e atendimento, pois articula aspectos da singularidade dos jovens e o acesso aos direitos sociais, diante das diversidades das áreas de abrangência dos centros, tais como: aspectos criminais, culturais, sociais, históricos e geográficos. Cada CPC tem, em média, 25 oficinas, com a participação de 20 a 25 jovens em cada. Ressalva-se que, neste estudo, será feito um recorte para as oficinas de esportes. No Programa “Fica Vivo!”: O que orienta a implantação das oficinas é a articulação entre a dinâmica criminal - deve-se entender o termo “dinâmica criminal” como fatos e fenômenos de natureza social, cultural, territorial e criminal que interferem na incidência de crimes de uma determinada localidade -, a demanda do jovem, os aspectos socioculturais e a seleção do oficineiro. Assim como a seleção das oficinas, a escolha do oficineiro também não é feita ao acaso; ser morador da comunidade, ter experiência no ofício a ser ministrado, saber dialogar com o jovem e ter acesso a todos os espaços do aglomerado são alguns dos pré-requisitos básicos para seleção dos oficineiros (FARIAS; NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009). As oficinas objetivam: [...] prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação dos jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional; possibilitar a vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a participação dos jovens em novas formas de grupos; trabalhar temas relacionados à cidadania e aos direitos humanos; possibilitar a criação de espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades (MINAS GERAIS, 2009, p. 86). Para Mendes (2009), existem dois pontos importantes nas oficinas. O primeiro é o reforço à coesão social entre os beneficiários e a comunidade, que é um importante fator de prevenção à criminalidade, porque é a partir dela que a comunidade se identifica e cria laços de solidariedade. E afirma E afirma que “a socialização promovida nas escolas não é o suficiente para os jovens dessas comunidades, pois eles passam apenas parte do tempo estudando” (MENDES, 2009, p. 220). Há necessidade de atividades prazerosas ou de inclusão produtiva e valores, ou seja, que ocupem o tempo ocioso e possibilitem superar a situação que vivem e deixem a invisibilidade social 11. O segundo ponto importante das oficinas para o programa é o contato 11 Invisibilidade social: o termo que foi criado para designar as pessoas que se tornam socialmente invisíveis, seja por preconceitos ou pelas indiferenças. 40 direto com o beneficiário. São os oficineiros que têm mais contato com os beneficiários, permitindo que eles possam acompanhar com clareza as demandas da comunidade e vejam o poder de intervenção na vida dos atendidos pelo Programa “Fica Vivo!”. O oficineiro deve apresentar um projeto de oficina. Se aprovado, cabe-lhe a responsabilidade de atender a todos os objetivos das oficinas, ter habilidade para trabalhar com jovens que se encontram envolvidos com a criminalidade e a capacidade de compreender a metodologia que orienta o programa. O oficineiro deve ser detentor de um saber específico, como uma modalidade esportiva, uma linguagem cultural ou um tema de profissionalização. Os oficineiros têm carga horária de 28 horas mensais, divididas em 20 horas de oficinas, com flexibilidade de horários e diversidade de atividades e oito horas de reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do programa (MINAS GERAIS, 2009). Farias, Noro Filho e Laczynski (2009) aduzem que os oficineiros lidam com situações inusitadas e conduzem o comportamento dos jovens, tornando-se um dos principais atores para o funcionamento do programa. Estes se articulam ao programa para a execução das oficinas e outras formas de atendimento aos jovens. Conforme a metodologia do programa, os critérios a serem observados na seleção dos oficineiros são: Ser preferencialmente morador da área de abrangência do Centro de Prevenção à Criminalidade; ter experiência no ofício a ser ministrado; Saber dialogar com o jovem; ter acesso a diferentes espaços na área de abrangência do Centro de Prevenção à Criminalidade; demonstrar habilidade de trabalho com os jovens que se encontram envolvidos com a criminalidade e capacidade para compreender a política de segurança e a metodologia que orienta o programa (MINAS GERAIS, 2009, p. 8788). Quanto aos deveres do oficineiro, tem-se que: Criar vínculo entre os jovens e o programa a partir de suas diferentes formas de atendimento; possibilitar espaços para discussões e fazer mediações de conflitos entre os jovens; potencializar a autonomia dos jovens; promover discussões sobre segurança pública, cidadania e direitos humanos; permitir aos jovens o conhecimento, a valorização e apropriação de elementos culturais; realizar encontros e eventos que atendam aos objetivos do programa; elaborar mensalmente relatórios e listas de presença dos jovens atendidos nas oficinas, fornecer lanche e 41 comprar os materiais necessários para as oficinas (MINAS GERAIS, 2009, p. 88-89). Percebe-se, portanto, que as oficinas constituem uma das atividades realizadas pelos oficineiros e que exigem critérios para sua materialidade, nos espaços que abrigam jovens em vulnerabilidade social. . O Programa “Fica Vivo!”, por meio de suas oficinas, pretende trabalhar com os jovens de forma prazerosa e agradável. O espaço torna-se um local para o fortalecimento dos laços de amizade, mais cooperação, interação e compreensão, fazendo com que desperte o sentimento de pertencimento onde se encontram inseridos. . Suas ações, com ênfase em uma educação multidimensional, podem proporcionar o desenvolvimento local nas regiões onde se encontram os CPCs. Suas atividades estão voltadas para o desenvolvimento pessoal, interpessoal, contribuindo para a formação desses jovens. Silveira et al. (2010), baseados nos resultados do estudo realizado, sugerem que o Programa “Fica Vivo!” constitui-se em uma importante alternativa de prevenção de homicídios em comunidades que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Em 2006, o Programa foi escolhido como um dos 48 finalistas do Prêmio Global de Excelência de Melhores Práticas para a Melhoria do Ambiente de Vida – Prêmio Dubai, criado pelo Centro das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat) em parceria com a municipalidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.12 O Programa “Fica Vivo!” apresenta alguns indicadores de inovação social, destacando-se a conciliação dos contrários, ideia de coletivo, adaptação do contexto e compartilhamento de interesses diversos. A realidade é modificada de forma sistêmica e com intencionalidades em atitudes, ideias, culturas, conteúdos e modelos (CARBONELL, 2002). 2.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS No cenário de vulnerabilidade em que se encontram os jovens do Programa “Fica Vivo!”, a compreensão desse conceito tornou-se imprescindível 12 Disponível em: <https://www.seds.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id= 283&&Itemid= 117>. 42 para a aproximação teórica e prática na vida cotidiana com esses jovens. Diante das diversas dimensões da vulnerabilidade, não se deve focar exclusivamente na pobreza. Várias outras questões sociais devem ser consideradas, bem como o nível de acesso aos aspectos básicos e oportunidades sociais, que são imprescindíveis para o desenvolvimento desses jovens. A falta de acesso à educação, saúde e trabalho proporciona a elevação do estado de vulnerabilidade. Essa elevação deixa cada vez mais longe as possibilidades de adaptação em diversas situações de risco social. Isso remete e convoca a todos , para a necessidade de pensar, refletir e oferecer estruturas de oportunidades aos jovens, com atividades educativas e mobilizadoras de sentimentos de pertença, de cidadania, de autonomia, com capacidade de fazer escolhas conscientes, sábias, ponderadas, com avaliação dos benefícios e riscos sobrevindos dessas opções de vida escolhidas e postas em concretude. No Programa “Fica Vivo!” a educação é um processo social importante para a socialização dos indivíduos, agregando valores e potencializando a cultura local. Possibilita a construção de relações sociais que estimulem a formação e o exercício da cidadania em um espaço de convivência social, onde se propõe à construção de conhecimentos e, com isso, tornam-se possíveis altos níveis de participação social dos jovens. Isso se deu com a evolução da Educação Física, que sofreu influências médicas e militares que intervinham no funcionamento do corpo e no desenvolvimento do corpo para as necessidades da função. Essa evolução permitiu que os profissionais de Educação Física se conscientizassem do poder de socialização das atividades esportivas. Pois se destaca que a atuação deve ser respaldada pelo princípio da responsabilidade social, cuja prática esportiva é reconhecida como canal de socialização e de inclusão social. O programa oferece adequado suporte, que permite aos sujeitos terem clareza dos seus direitos e deveres. As atividades esportivas contribuem no processo inicial de mudança significativa na vida dos jovens. É uma política pública voltada para os jovens, o que afirma sua relevância, considerando-se seus objetivos de prevenção à criminalidade, acesso ao esporte, circulação dos jovens, inserção social, cidadania e formação profissional transformador que permite aos jovens sair da invisibilidade social. de caráter 43 REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Miriam et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. Brasília: UNESCO, BID, 2002. ALBUQUERQUE, Luís Rogério. A constituição histórica da Educação Física no Brasil e os processos da formação profissional. In: IX CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EDUCERE, III ENCONTRO SUL BRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA. Anais..., PUC/PR. 26 a 29 de outubro de 2009. ARAÚJO, Lucirley Guimarães de Souza. Relação entre comportamento na infância e a vulnerabilidade social na cidade de Belo Horizonte- MG. 2010. 121 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2010. AZEVEDO, Ângela Celeste Barreto de; MALINA, André. Memória do currículo de formação profissional em Educação Física no Brasil. Revista Brasileira de Ciências e Esporte. Campinas, v. 25, n. 2, p. 113-128, jan./2004. BRASIL. Direitos da população jovem: um marco para o desenvolvimento. 2. ed., Brasília: UNVPA - Fundo de População das Nações Unidas, 2010. Disponível em: <http://www.unfpa.org.br/Arquivos/direitos_pop_jovem.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Lei nº 4.024, de 20 de dezembro 1961. Fixa as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4024.htm>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 16 jun. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. Disponível em: <http://portal.mec. gov.br/seed/arquivos/pdf/tvescola/leis/lein9394.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Lei nº 9.696, de 01 de setembro de 1998. Dispõe sobre a regulamentação da Profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física. Diário Oficial da União, Brasília, 2 set. 1998a. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/L9696.htm>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1998b. 114 p. ______. Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE. Diário 44 Oficial da União, Brasília, 6 ago. 2013. Disponível <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12852.htm>. Acesso em: 16 nov. 2013. em: ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1997. 96 p. BRINATI, Alberto Bauer et al. O papel da Educação Física na inclusão social. In: IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE SOCIEDADE INCLUSIVA - PROPOSTAS E AÇÕES INCLUSIVAS: IMPASSES E AVANÇOS. Anais..., PUC/Minas. 17 a 20 de outubro de 2006. BUENO, José Geraldo Silveira. Função social da escola e organização do trabalho pedagógico. Educar, Curitiba, n. 17, p. 101-110, 2001. CARBONELL, Jaume. A aventura de inovar: a mudança na escola. Porto Alegre: ARTMED, 2002. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA (CONFEF). Resolução CONFEF nº 056/2003. Dispõe sobre o Código de Ética dos Profissionais de Educação Física registrados no Sistema CONFEF/CREFs. Conselho Federal de Educação Física, Rio de Janeiro, 18 ago. 2003. Disponível em: <http://www.confef.org.br/extra/resolucoes/conteudo.asp?cd_resol=103>. Acesso em: 9 nov. 2013. CORREIA, Marcos Miranda. Projetos sociais em Educação Física, esporte e lazer: reflexões e considerações para uma gestão socialmente comprometida. Arquivos em Movimento, v. 4, n. 1, p. 114-126, jan./jun. 2008. CORREIA, Mesaque Silva et al. O papel da Educação Física escolar diante do fenômeno da violência na escola. Integração VER CIDADE, v. 16, n. 61, p. 149154, abr./jun. 2010. FARIAS, Renato Romero Toledo; NORO FILHO, Marcos Augusto; LACZYNSKI, Patrícia. Relatório Final: Projeto Conexão Local. Programa de Controle de Homicídios – Fica Vivo! 2009. Disponível em: <http://gvpesquisa.fgv.br/ sites/gvpesquisa.fgv.br/files/1_-_fica_vivo.pdf>. Acesso em: 9 set. 2013. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed., 3. reimp. São Paulo: Atlas, 2010. HURTADO, Daniela Hartel. Projetos de vida e projetos vitais: um estudo sobre projetos de vida de jovens estudantes em condição de vulnerabilidade social da cidade de São Paulo. 2012. 170 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Educação). Faculdade de Educação - Universidade de São Paulo (USP), 2012. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). População jovem no Brasil: a dimensão demográfica. 1996. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/populacao_jovem_brasil/com entario1.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2013. 45 JANCZURA, Rosane. Risco ou vulnerabilidade social? Textos & Contextos, v. 11, n. 2, p. 301-308. 2012. KLEIN, Ana Maria. Projetos de vida e escola: a percepção de estudantes do ensino médio sobre a contribuição das experiências escolares aos seus projetos de vida. 2011. 292 p. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação Universidade de São Paulo (USP), 2011. LADEIRA, Joanna Ângelo; ROCHA, Rafael Lacerda Silveira. Plano B. In: OLIVEIRA, Kris Brettas; OLIVEIRA, Gleiber Gomes de. (org.). Olhares sobre a prevenção à criminalidade. Belo Horizonte: Instituto Elo, 2009. MENDES, Igor Adolfo Assaf. Fica Vivo! Proteção, mobilização e intervenção. In: OLIVEIRA, Kris Brettas; OLIVEIRA, Gleiber Gomes de. (org.). Olhares sobre a prevenção à criminalidade. Belo Horizonte: Instituto Elo, 2009. MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de defesa Social. Superintendência de Prevenção à Criminalidade. Prevenção Social à Criminalidade: a experiência de Minas Gerais. Belo Horizonte, dez. 2009. MONTEIRO, Simone Rocha da Rocha Pires. O marco conceitual da vulnerabilidade social. Sociedade em Debate, v. 17, n. 2, p. 29-40, jul./dez. 2011. NUNES, Marcello Pereira; VOTRE, Sebastião Josué; SANTOS, Wagner dos. O profissional em Educação Física no Brasil: desafios e perspectivas no mundo do trabalho. Motriz, v. 18, n. 2, p. 280-90, abr./jun. 2012. OLIVEIRA, Juliana Rodrigues Ferreira de. Saberes e práticas de mulheres no cuidado de si: contribuições ao cuidado de enfermagem em uma perspectiva educativa, RJ. 2011. 129 p. Dissertação (Mestrado em Enfermagem). Programa de Pós-graduação e Pesquisa em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2011. PEIXOTO, Betania Totino; ANDRADE, Monica Viegas; Azevedo, João Pedro Wagner. Avaliação do Programa Fica Vivo no município de Belo Horizonte. In: XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA. Anais..., ANPEC. 2007. QUARESMA, Adilene Gonçalves. A práxis social como perspectiva na concepção de educação de Paulo Freire. In: MACHADO, Lucília Regina de Souza; AFONSO, Maria Lucia Miranda (orgs). Gestão social, educação e desenvolvimento local: instrumentos para a transformação social. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. ROSA, Suely; LETA, Jacqueline. Tendências atuais da pesquisa brasileira em Educação Física Parte 1: uma análise em periódicos nacionais. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 24, n.1, p.121-134, jan./mar. 2010. RADO, Sonia Cristina; BONETTI, Lindomar Wessler. A juventudeem condições de vulnerabilidade social e as políticas públicas de acesso à educação. In: IX CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EDUCERE, III ENCONTRO SUL 46 BRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA. Anais..., PUC/PR. 26 a 29 de outubro de 2009. SILVA, Algéria Valéria da. Juventude e vulnerabilidade social: no contexto intraurbano de Natal, RN. 2008. 171 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Centro De Ciências Humanas, Letras e Artes - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), 2008. SILVA, Ana Márcia et al. A formação profissional em Educação Física e o processo político social. Pensar a Prática, v. 12, n. 2, p. 01-16, maio./ago. 2009. SILVEIRA, Andréa Maria et al. Impacto do Programa Fica Vivo! na redução dos homicídios em comunidade de Belo Horizonte. Revista Saúde Pública. v. 44, n.3, p. 496-502, 2010. STOCO, Sergio. Família, educação e vulnerabilidade social: o caso da Região Metropolitana de Campinas, SP. 2011. 208 p. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação - Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2011. VIANNA, José Antônio; LOVISOLO, Hugo Rodolfo. A inclusão social através do esporte: a percepção dos educadores. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 25, n. 2, p. 285-296, abr./jun. 2011. 47 2 O SIGNIFICADO DO TRABALHO NO PROGRAMA “FICA VIVO!” NA PERSPECTIVA DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA Ronderson Rodrigues Duarte113 Matilde Meire Miranda Cadete214 RESUMO Este estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. Realizou-se estudo de caráter exploratório com abordagem qualitativa. Em campo, os dados foram coletados com 14 profissionais de Educação Física/oficineiros dos Centros de Prevenção à Criminalidade da capital e Grande Belo Horizonte, utilizando-se como instrumento a entrevista semiestruturada. Esta evidenciou cinco categorias temáticas: significado de trabalhar no “Fica vivo!”; satisfação-insatisfação de trabalhar no “Fica Vivo!”; processo educativo do Programa “Fica Vivo!”; da participação à ação; e capacitando-se para capacitar o outro. A análise mostrou que o trabalho desenvolvido por meio de oficinas e atividades esportivas traz mudanças significativas para as vidas dos jovens. Palavras-chave: Educação Física. Educação. Vulnerabilidade Social. Políticas Públicas. ABSTRACT This study aimed to analyze the perception of physical education professionals who act as workshop on the effectiveness or outcomes and/or results of the Control Program Homicide "Fica Vivo!". We performed exploratory study with a qualitative approach. Field data were collected with 14 Professional Physical Education/workshop at the Centers for the Prevention of Crime of large capital Belo Horizonte and, using a semi-structured interview as a tool. This highlighted five thematic categories: meaning of work in “Fica Vivo!”; satisfactiondissatisfaction of working in "Fica Vivo!"; educational process of the "Fica Vivo!"; participation to action and empowering yourself to empower each other. The analysis showed that the work developed through workshops and sports activities bring significant changes to the lives of young people. Key words: Physical Education. Education. Social Vulnerability. Public Policy. 131 142 Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. 48 2.1 INTRODUÇÃO A experiência de atuar como professor de Educação Física em áreas de vulnerabilidade social revelou um cenário inóspito para os jovens: não têm locais para a realização de atividades esportivas e lúdicas que poderiam ser ou se tornar ferramentas de promoção para o seu desenvolvimento humano, de socialização, de integração social e de promoção da saúde integral. A ociosidade impera entre eles, o que pode deflagrar situações que podem levá-los a altos níveis de risco social. Foi assim que foram implantadas e materializadas as atividades realizadas por profissionais de Educação no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, que é uma política pública e objetiva controlar e prevenir a ocorrência de homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade violenta em Minas Gerais. O intuito é buscar a melhoria da qualidade de vida da população, por meio de oficinas de esporte, arte e cultura, oferecidas aos jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social. O Programa “Fica Vivo!” originou-se de um grupo de trabalho com iniciativas do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (CRISP/UFMG). Também presentes nesse grupo os membros da Polícia Civil (PCMG) e da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), do Ministério Público, juízes, pesquisadores, técnicos da Coordenadoria de Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e empresários do setor privado. Atualmente, o programa possui 21 Centros de Prevenção à Criminalidade (CPC) na região metropolitana de Belo Horizonte, assim distribuídos: 11 na capital, um em Contagem, três em Betim, dois em Ribeirão das Neves, um em Vespasiano, dois em Santa Luzia e um em Sabará. Possui seis centros nas cidades do interior de Minas Gerais: dois em Montes Claros, um em Governador Valadares, um em Ipatinga, um em Uberlândia e um em Uberaba. Apesar de existir desde 2002, não se tem conhecimento de pesquisas que abordem se as ações realizadas pelos profissionais de Educação Física no Programa “Fica Vivo!” são efetivas e eficazes. Considera-se que esse desconhecimento seja um problema a ser analisado e solucionado com vistas a contribuir, de forma significativa, para obtenção de melhores resultados do 49 programa, bem como colaborar para a redução de homicídios e, consequentemente, proporcionar o desenvolvimento local da região onde os centros estão locados. O conhecimento das ações dos profissionais de Educação Física no Programa “Fica Vivo!” é relevante para o desenvolvimento profissional deste pesquisador, porque na realidade onde este atua elas podem ser reportadas e adaptadas, socializando seus resultados positivos. Como a interação com os jovens é fator determinante para que ocorram transformações significativas em suas vidas, é importante manter-se atualizado e engendrar novas formas de trabalho. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que o Programa “Fica Vivo!” é uma ferramenta para que jovens tenham a oportunidade, por meio de diversas atividades, de vivenciar momentos de socialização, integração social e melhores níveis de qualidade de vida. A ociosidade pode ser considerada uma das causas que levam esses jovens aos níveis mais elevados de risco social. Uma das formas de redução desses riscos é oferecer-lhes atividades esportivas, com o intuito de contribuir para o seu desenvolvimento. As diversas atividades ofertadas, inclusive oficinas, devem ser consideradas um momento prazeroso, que possibilitem a construção ou o resgate de valores. Entre as atividades propostas pelo programa têm-se as oficinas, que são ações concretas e palpáveis, uma vez que possibilita o contato face a face com a comunidade e proporciona estratégias de atendimento, ao articular aspectos da singularidade dos jovens e o acesso aos direitos sociais, diante das diversidades das áreas de abrangência dos núcleos, tais como: aspectos criminais, culturais, sociais, históricos e geográficos. Cada centro tem, em média, 25 oficinas, com a participação de 20 a 25 jovens em cada. Ressalva-se que, neste estudo, será feito um recorte para as oficinas de esportes. Inicialmente, o oficineiro, para assumir sua função, deve apresentar um projeto de oficina. Se aprovado, cabe-lhe a responsabilidade de atender a todos os objetivos das oficinas, ter habilidade para trabalhar com jovens que se encontram envolvidos com a criminalidade e a capacidade de compreender a metodologia que orienta o programa. Ele deve ser detentor de um saber específico, como uma modalidade esportiva, uma linguagem cultural ou um tema de profissionalização. 50 Este estudo focará os profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros. Sua carga horária é de 28 horas mensais, divididas em 20 horas de oficinas e oito horas de reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do programa (MINAS GERAIS, 2009). Na concepção de Farias, Noro Filho e Laczynski (2009), os oficineiros, ao trabalharem com situações inusitadas, procuram gerir o comportamento dos jovens e se tornam um dos principais atores para o funcionamento do programa. O programa estabelece critérios na seleção dos oficineiros: de preferência, que seja do próprio território de abrangência do CPC; que saiba, com propriedade, do ofício a ser ofertado aos jovens bem como saber lidar com eles; que saiba escutar e dialogar, além de ser hábil no manejo da metodologia que norteia o programa (MINAS GERAIS, 2009). Também se estabelecem os deveres do oficineiro: ele deve criar vínculo entre os jovens e o programa, instituir espaços para discussões e mediar conflitos entre os jovens, quando se fizerem presentes; gerar discussões sobre segurança pública, cidadania e direitos humanos; potencializar a autonomia dos jovens, entre outros valores. Deve, mensalmente, elaborar relatórios e listas de presença dos jovens atendidos nas oficinas e, ainda, fornecer lanche e comprar os materiais necessários para as oficinas (MINAS GERAIS, 2009). Portanto, é nesse panorama que o tema desta pesquisa se inscreve e abrange o trabalho de profissionais de Educação Física com jovens que se encontram em áreas de vulnerabilidade social na esfera do Programa “Fica Vivo!”. Ressalta-se que não há pesquisas publicadas, até o momento, a respeito do trabalho desses profissionais que atuam como oficineiros no programa. Nesse sentido, a questão que se fez presente foi: qual a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” e o que acreditam que se faz necessário para que a intervenção educativa seja realmente eficaz para o controle de homicídios nas regiões onde o programa está inserido? Dessa forma, este estudo objetiva analisar a percepção dos profissionais de Educação Física/oficineiros do Programa “Fica Vivo!” acerca da eficácia e dos resultados obtidos com os jovens frequentadores das oficinas. 51 2.2 DISCUSSÃO TEÓRICA O Programa de Controle de Homicídios é desenvolvido pela Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS) com foco na prevenção de homicídios em regiões de vulnerabilidade social, atendendo jovens de 12 a 24 anos que se encontram em risco social. Encontra-se no eixo da proteção social, inseridos nos Centros de Prevenção à Criminalidade (CPC). Sua origem tem assentamento, também, em dados de pesquisas realizadas em 2002, quando se detectou o aumento do número de homicídios em Belo Horizonte. A análise espacial da ocorrência destes desvelou que o fenômeno incidia, significativamente, em regiões de vulnerabilidade social cujos protagonistas eram, em sua maioria, jovens, negros, do sexo masculino e com idade entre 15 e 29 anos. A pesquisa demonstrava que os homicídios eram resultantes de conflitos entre os jovens (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG, 2002). Para Ladeira e Rocha (2009, p. 197), o programa “carrega em seus princípios a função de dar lugar a esse público, assim como provocar no encontro com a arte e o esporte a possibilidade deles se destacarem de outra maneira”. Segundo Mendes (2009), o Programa “Fica Vivo!”, por meio dos centros de base local, possibilita o empoderamento da comunidade, na qual são criados laços e uma relação mais próxima com o poder público. Sabe-se que esse não é o seu objetivo principal, mas a comunidade começa a avistar as melhorias e visibilidades trazidas pelas oficinas oferecidas a esses jovens. O Programa “Fica Vivo!” apresenta alguns indicadores de inovação social. Destacam-se a conciliação dos contrários, ideia de coletivo, adaptação do contexto e compartilhamento de interesses diversos. A realidade é modificada de forma sistêmica e com intencionalidades em atitudes, ideias, culturas, conteúdos e modelos. Por falar em vulnerabilidade social, é imprescindível o entendimento do seu conceito, pois o Programa “Fica Vivo!” insere-se nesse panorama. Para Monteiro (2011, p. 31), “os grupos de risco foram delineados na sociedade com uma visão focalizada do indivíduo e não no contexto social que produziu a vulnerabilidade”. Vulnerabilidade social é definida por Araújo (2010) como o nível de acesso a aspectos básicos de cidadania, como moradia, serviço de infraestrutura urbana, educação, trabalho, renda, assistência jurídica, serviços de saúde, segurança 52 alimentar e previdência social. Pode-se dizer, com base em Abramovay et al. (2002), que a vulnerabilidade social está relacionada à disponibilidade e ao acesso de oportunidades sociais. E, conforme Correia (2008, p. 116), esse “conceito está associado aos direitos civis e sociais e às condições de cidadania que, por uma complexidade de fatores, deixam excluídos da condição de cidadãos diversos sujeitos e comunidades”. Percebe-se que a utilização desse termo está se ampliando em decorrência de diversas situações de risco social. Prosseguindo, Abramovay et al. (2002, p. 31) afirmam que vulnerabilidade: [...] decorre da sua utilidade para compreender como e por que diferentes atores sociais se mostram mais suscetíveis a processos que atentam contra sua possibilidade de ascender a maiores níveis de bemestar. Ela permite analisar o caso de grupos sociais, aos quais são atribuídas grandes potencialidades, ativos valorizados em um dado contexto de estruturas de oportunidades, mas que, contraditoriamente, permanecem reclusos a um cenário de inseguranças, instabilidades e marginalidade. Ainda de acordo com Abramovay et al. (2002), vulnerabilidade não é atribuída ao indivíduo, mas ao resultado de determinados arranjos sociais e políticos que incidirão sobre os sujeitos. Portanto, a falta de acessos à informação, aos serviços básicos e estratégias de ações proporcionaram o crescimento da situação de vulnerabilidade social. Nesse momento, traz-se à tona o que Hurtado (2012) diz ao discorrer acerca de juventude: deve-se considerar seus múltiplos aspectos, o que implica que vários fenômenos devem ser analisados, pois não é possível separar os fenômenos biológicos, psicológicos, históricos, sociais e culturais. Hurtado (2012, p. 36) acrescenta: [...] são diversos os impactos negativos da condição de vulnerabilidade social na juventude, mas que, apesar disso, existe uma contrapartida representada pelas possibilidades de superação desta condição. A escola, a família, o estado, as organizações não governamentais podem auxiliar na superação das adversidades encontradas por esses jovens, funcionando como fonte de apoio relacional proporcionadoras de fatores de resiliência e vulnerabilidades positivas. Torna-se necessário que a sociedade se organize para que possa oferecer suporte adequado e ter clareza dos direitos, bens sociais e deveres dos jovens e 53 quais ações sociais são relevantes e urgentes para serem reivindicadas, com o intuito de se buscar soluções e, consequentemente, melhorar significativamente a qualidade de vida desse grupo social. As desigualdades sociais e os escassos recursos para a construção de uma rede de proteção aos grupos populares vulneráveis se expressa por meio da violência, que acaba se tornando um sério problema nessa nesse âmbito. Daí a importância de programas como o “Fica Vivo!” e outros existentes. Abramovay et al. (2002, p.13-14) justificam, assinalando que: [...] a dificuldade dos jovens em acessar as estruturas de oportunidades, apresenta-se um conjunto de dados secundários sobre a educação, saúde, cultura, lazer e trabalho, insumos fundamentais para o desenvolvimento dos recursos materiais e simbólicos. Esses dados apontam para a existência de deficiências no acesso dos jovens a esses bens e serviços, o que colabora com a manutenção da situação de vulnerabilidade social. Acredita-se que alternativas como lazer, atividades esportivas, culturais e profissionalizantes possam contribuir no processo inicial de uma mudança significativa na vida dos jovens. E, também, que esses momentos podem ser considerados “privilegiados” para a construção de valores éticos e, por conseguinte, possibilitam a formação de jovens socialmente diferenciados. Conforme Abramovay et al. (2002), essas atividades são relevantes para o desenvolvimento pessoal e possibilitam mais interação social dos jovens. Entre, portanto, as atividades oferecidas aos jovens, têm-se diversas oficinas que objetivam: [...] prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação dos jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional; possibilitar a vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a participação dos jovens em novas formas de grupos; trabalhar temas relacionados à cidadania e aos direitos humanos; possibilitar a criação de espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades (MINAS GERAIS, 2009, p. 86). Mendes (2009) destaca a existência de dois pontos importantes nas oficinas. O primeiro é o reforço à coesão social entre os beneficiários e a comunidade, que é um importante fator de prevenção à criminalidade, porque é a partir dela que a comunidade se identifica e cria laços de solidariedade. O outro é 54 referente ao encontro face a face com o beneficiário, tendo em vista que o oficineiro tem mais proximidade com ele e constrói vínculos, o que lhe permite acompanhar suas expectativas e necessidades e ver o poder de intervenção na vida dos atendidos pelo Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. A implantação das oficinas deve ser orientada pela articulação entre a dinâmica criminal, entendida como fatos e fenômenos de natureza social, cultural, territorial e criminal, intervindo na incidência de crimes de determinada localidade, e a demanda do jovem, os aspectos socioculturais e a seleção do oficineiro (FARIAS; NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009). Assim como a seleção das oficinas, a escolha do oficineiro também não é feita ao acaso. Devem ser cumpridos determinados critérios: ser morador da comunidade, ter experiência no ofício a ser ministrado, saber dialogar com o jovem e ter acesso a todos os espaços do aglomerado. A priori, já se percebe a necessidade de atividades prazerosas ou de inclusão produtiva e valores, ou seja, que os jovens participantes das oficinas ocupem o tempo livre e busquem superar a situação em que vivem e deixem a invisibilidade social. Neste estudo, o foco recai nos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros. Sua carga horária é de 28 horas mensais, divididas em 20 horas de oficinas e oito horas de reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do Programa (MINAS GERAIS, 2009). Cabe lembrar que, no final do século XX, com as publicações da LDBEN nº 9.394/96, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da Lei nº 9.696/98 com a regulamentação profissional da Educação Física, observou-se novo delineamento no campo da intervenção profissional da Educação Física (BRASIL, 1998a). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) relacionados ao profissional de Educação Física afirmam que esta possibilita aos professores uma interação mais intensa e explícita com seus alunos, mobilizando diversos aspectos (BRASIL, 1997; BRASIL, 1998b). Desde a sua concepção, os profissionais de Educação Física receberam diversas atribuições respaldadas pelos princípios que norteiam seu campo de atuação. A legitimidade dada pela Lei nº 9.696, de 1 o de setembro de 1998, que dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os 55 respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física, descreve que: o “Art. 3 Compete ao profissional de Educação Física coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto” (BRASIL, 1998a). Vale salientar, conforme estabelecido pelo Código de Ética do Profissional de Educação Física, que sua atuação deverá ser respaldada pelo princípio da responsabilidade social. Esse princípio foi estabelecido por meio da Resolução nº. 056 de 18 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Código de Ética dos profissionais de Educação Física: “Art. 4º - O exercício profissional em Educação Física pautar-se-á pelos seguintes princípios: I - o respeito à vida, à dignidade, à integridade e aos direitos do indivíduo; II - a responsabilidade social; III - a ausência de discriminação ou preconceito de qualquer natureza; IV - o respeito à ética nas diversas atividades profissionais; V - a valorização da identidade profissional no campo da atividade física; VI - a sustentabilidade do meio ambiente; VII - a prestação, sempre, do melhor serviço, a um número cada vez maior de pessoas, com competência, responsabilidade e honestidade; VIII - a atuação dentro das especificidades do seu campo e área do conhecimento, no sentido da educação e desenvolvimento das potencialidades humanas, daqueles aos quais presta serviços” (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA – CONFEF, 2003). Contudo, Correia (2008, p. 118) realça que a ideia de intervenção do profissional de Educação Física deve ser respaldada com as devidas peculiaridades e complexidades de uma ação social. Para que a intervenção social, por meio da Educação Física e do esporte e do lazer, obtenha êxito e cumpra seu papel transformador em regiões vulneráveis: “será necessário que os mesmos sejam desenvolvidos e administrados com a mesma seriedade e eficiência de uma empresa, porém, com muita responsabilidade e comprometimento social”. Além das peculiaridades de projetos intervencionistas oriundos da prática da atividade física e do esporte, conforme mencionam Correia et al. (2010), vale 56 ressaltar que a Educação Física deve assumir papel social e transformador comprometido em proporcionar atitudes e valores aos educandos. E, dessa forma que percebam a importância das relações interpessoais e se tornam sujeitos críticos e capazes de visualizar novas perspectivas. Não se pode desvincular a educação nesse processo educativo do Programa “Fica Vivo!”. Com isso, Oliveira (2011) explicita, com base em Paulo Freire, que se deve conhecer a realidade do sujeito. E que “a premissa básica daqueles que realizam o processo educativo é proporcionar o fortalecimento pessoal dos seres humanos com quem interagem, é ajudá-los a ajudar-se, fazêlos agente de sua transformação” (FREIRE, 1994 apud OLIVEIRA, 2011, p. 96). Conforme Klein (2011), a educação é a soma de várias experiências que se interagem e significam o sujeito. Quaresma (2012, p.186) salienta que: Na práxis educativa social, os objetivos e as intenções educacionais integram todas as dimensões do desenvolvimento e da ação humana e, também, as intenções individuais e coletivas; sendo o coletivo, o social, a transformação social, o objetivo final, tendo em vista o bem de todos. A educação possibilita a construção das relações sociais, redes de amigos e contatos. Para Abramovay et al. (2002, p. 38), “a educação em conjunto com a família constitui um dos espaços tradicionais de socialização entre os jovens”. Assim, a educação tende a assumir o seu papel de formador do indivíduo, com perspectivas. A educação atual deve se propor construir conhecimentos, considerando a diversidade dos sujeitos, independentemente da condição social, da possibilidade de escolha e do posicionamento ético em seu caminho, pautado em suas crenças e valores. 2.3 METODOLOGIA A questão a ser respondida é: o que se faz necessário para que a intervenção educativa no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros seja realmente eficaz? 57 Esse questionamento dirigiu nossa intencionalidade de trabalhar com profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa “Fica Vivo!”, por meio de uma relação face a face, indo ao local onde se encontram, para ouvir deles o que pensam, sentem e esperam obter com o seu saber fazer. Isso remeteu à pesquisa de campo de abordagem qualitativa. Conforme explicita Minayo (2011), o trabalho de campo aproxima o pesquisador da realidade da pergunta a ser respondida. Acredita-se que ele permite conhecer a matéria-prima e o modus operandi da intervenção educativa no Programa “Fica Vivo!”, realizada pelos profissionais de Educação Física/oficineiros. O cenário da pesquisa foram os CPCs que possuíam o Programa “Fica vivo!”. Inicialmente foram feitos contatos por telefone e e-mail com os(as) técnicos(as) para identificação dos oficineiros graduados no curso de Educação Física. Após a identificação, os(as) técnicos(as) enviaram a relação com os nomes dos oficineiros, respectivas oficinas ministradas, tempo de atuação, telefone e e-mail. Com esses dados realizou-se o contato com os oficineiros que possuíam mais tempo de atuação, sendo feito um recorte para aqueles com mais de quatro anos, para agendarem-se as entrevistas. Foram identificados 29 profissionais de Educação Física graduados e atuantes nos 30 CPCs da capital e Grande BH. Pautando-se, ainda, nos critérios previamente estabelecidos para inclusão dos sujeitos nesta pesquisa, quais sejam: a) serem graduados no curso de Educação Física; b) ministrar oficinas de atividades esportivas; c) com mais tempo de atuação no programa, isto é, mínimo de três anos, deu-se início aos contatos com os oficineiros, por ordem aleatória de CPC. Os oficineiros expressaram forte interesse em colaborar e ser sujeito do estudo. Apenas um oficineiro da amostra marcou três vezes a entrevista e, no dia de sua ocorrência, desmarcava-a, alegando impedimento de última hora. A partir da terceira desistência, optou-se por não mais procurá-lo, entendendo que se negava a colaborar, mas não quis declarar sua recusa verbalmente. Com base no critério de repetitividade das falas, foram entrevistados 14 profissionais de Educação Física. Todos responderam à entrevista semiestruturada (APÊNDICE A) após aquiescência, agendada de acordo com a disponibilidade de cada um, bem como do local onde seria realizada. Foi 58 requerida a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e, posteriormente, solicitou-se a assinatura no mesmo, conforme determinações do Conselho Nacional de Saúde. A fim de manter o sigilo nominal e respeito aos princípios éticos da confidencialidade e fidelidade dos resultados, os sujeitos foram codificados com a letra E de entrevista e pelo número ordinal de acordo com a sequência de captação dos dados. As entrevistas foram transcritas tendo-se em vista a gravação delas para fidedignidade dos depoimentos e passaram pela análise temática de conteúdo proposta por Bardin (2008). Alguns depoimentos requereram várias leituras para apreensão do significado atribuído pelo sujeito e, numa dinâmica circular e pendular, buscou-se elucidar e interpretar os dados. Nesse movimento de idas e vindas, as falas dos sujeitos iluminaram o fenômeno em estudo e as convergências dos dizeres permitiram construir cinco categorias de análise: significado de trabalhar no Programa “Fica Vivo!”; satisfação-insatisfação de trabalhar no Programa “Fica Vivo!”; processo educativo do Programa “Fica Vivo!”; da participação à ação; e capacitando-se para capacitar o outro. Registra-se que este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UNA, sob o CAAE n° 27817514.1.0000.5098. 2.4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS A apresentação e análise dos dados foram elaboradas por meio de um paralelo e diálogo entre o discurso dos 14 sujeitos da pesquisa e as considerações de diversos autores, bem como a visão do pesquisador. 2.4.1 Categoria 1: significado de trabalhar no Programa “Fica Vivo!” Envolver-se com os jovens é primordial para o bom desenvolvimento das atividades e o alcance dos objetivos propostos pelo Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. Reafirma-se que seu objetivo é controlar e prevenir a ocorrência de homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade violenta em Minas Gerais. Nessa conjuntura, para os profissionais de Educação Física/oficineiros e oriundos da própria comunidade, trabalhar no programa 59 significa poder contribuir com o seu panorama, criando e recriando momentos de lazer por meio do esporte, além de proporcionar novos conhecimentos, com vistas ao desenvolvimento social para os jovens atendidos. Como se sabe, os jovens residentes em comunidades vulneráveis são, na sua grande maioria, desprovidos de bens mínimos para sua subsistência aliados à má qualidade do ensino e de cultura. Gregório (2011, p. 35) salienta que: [...] o não acesso aos bens básicos, como educação de qualidade, serviços de saúde eficientes e eficazes, estabilidade no trabalho, moradia própria e lazer, diminuem as chances de ascensão social, diminuem a possibilidade de mobilização e competição dos sujeitos menos favorecidos com aqueles que possuem seus direitos básicos assegurados pelo capital. Essa exposição a riscos, a falta de mobilidade social e a dificuldade de acesso a determinados insumos dificultam, assim, as oportunidades de acesso oferecidas pelo Estado, pelo mercado e pela sociedade, que acaba levando os sujeitos que estão vivendo em condições vulneráveis a se protegerem da sociedade, e essa forma de proteção aparece, muitas vezes, por meio da violência [...]. Portanto, atuar como oficineiro no programa é uma forma de possibilitar que os jovens consigam abrir os olhos, sair da miopia cotidiana e enxergar além do cenário no qual se encontram inseridos, de muita criminalidade, drogas, entre outros riscos sociais. Eles percebem que possuem direitos e podem ser cidadãos bem-sucedidos socialmente. Os profissionais de Educação Física/oficineiros assumem importante papel na transformação social dos jovens. Conforme explicita Klein (2011), a experiência educativa possibilita a percepção das relações entre fatos, elementos e acontecimentos de forma contínua, resultando na extensão ou aquisição do conhecimento. Pode ser considerada essencial para enriquecer os conhecimentos e trazer significado à vida dos sujeitos. O trabalho no “Fica Vivo!” ganha sentido, uma vez que possibilita, diretamente, dar significado à vida dos jovens, valendo-se do esporte como ferramenta de socialização. Afinal, ao atender os jovens envolvidos com as diversas situações de risco, fazem que consigam ver além do mundo que os circunda, reduzindo o impacto das mazelas enfrentadas por eles, minimizando o envolvimento com as drogas, com a criminalidade e, consequentemente, ocasionando a diminuição do número de homicídios onde vivem. Vianna e Lovisolo (2011, p. 286) enfatizam que “o esporte aparece como a atividade alternativa dominante à rua. O suposto é que as crianças e jovens 60 gostam do esporte e que, portanto, participarão dos projetos”. Sabe-se que o esporte proporciona aos sujeitos que o praticam novas opções de vida ao criar condições de superação das dificuldades, alternativas para afastar-se das drogas e criminalidade, contribuindo, por conseguinte, para o fortalecimento das suas características positivas e prioridade dos valores construtivos, como: companheirismo, autocontrole, respeito às regras, autossuperação e controle dos impulsos negativos e agressividade. Outra característica relevante é a contribuição para a redução da evasão escolar e repetência, melhorando os níveis de concentração dos alunos. As unidades de registro corroboram essa visão: [...] tirar ou atender o menino que tem envolvimento direto com a criminalidade. A gente sabe que nas áreas de risco os meninos tão acessíveis com muita facilidade a todo tipo de droga, arma e violência. Mais quando a gente consegue acessar e ter êxito em tirar o menino de alguma situação de vulnerabilidade ou pelo menos orientá-lo aquilo (E1). [...] é uma forma, em primeiro lugar, de trazer um benefício pra minha comunidade, ou seja, de trazer um conhecimento novo. [...] expandir os horizontes desses jovens, evitando assim que eles tenham contato, não que não tem contato, mas que eles tenham opções de ver outros horizontes além do dia-a-dia que eles veem nas ruas da comunidade (E4). Significa dar mais oportunidades aos jovens que vivem nessa, abrangência de vulnerabilidade social, [...] tentar levar pra eles outros nortes o qual eles não têm. Eh, em questão de educação, de lazer, como cidadãos, dos direitos. Fazer valer pra eles os direitos de cidadãos deles (E6). [...] é uma responsabilidade muito grande. [...] tentar influenciá-lo positivamente, de mostrar pra ele que ele tem outras opções (E10). [...] poder contribuir, principalmente, na mudança no cenário onde estão inseridos os nossos jovens, que é exatamente, a vulnerabilidade social, a criminalidade. Então, inserir através do esporte uma perspectiva de mudança desse cenário (E11). Nessa acepção, Abramovay et al. (2002, p. 38) expõem que a educação “é considerada o principal instrumento para a elevação dos níveis de capital humano e para promover o bem-estar de jovens e adolescentes”. A troca de informações, capacitação, formação de novos valores e mudanças de comportamento desenvolvem-lhes o sentido de cidadania e possibilitam-lhes formas diferenciadas de reflexão e ação. Oportuniza aos jovens em situação de vulnerabilidade social possibilidades de mudança em seu cenário. 61 Geber (2010, p. 79) tem como referência: [...] a constatação dos oficineiros como personagens educativos que valorizam uma educação ampla, não restringindo sua ação à transmissão de um saber, e que reconhecem as oficinas como um momento de socialização e discussão de valores, é possível notar certa semelhança desses sujeitos com a perspectiva educativa da educação social, que também define que a educação não se restringe à transmissão de conteúdos, mas sim como um espaço de formação humana. Entende-se como significado do trabalho no Programa “Fica Vivo!” essa contribuição por meio da prática esportiva, da colaboração para a formação integral e crítica do ser humano, indo muito além da fundamentação técnica e tática, com priorização de outros aspectos como cooperação, participação, solidariedade e qualidade de vida. Freire (1987, p. 48) relata que: [...] o trabalhador social que atua numa realidade, a qual, mudando, permanece para mudar novamente, precisa saber que, como homem, somente pode entender ou explicar a si mesmo como um ser em relação com esta realidade; que seu que fazer nesta realidade se dá com outros homens, tão condicionados como ele pela realidade dialeticamente permanente e mutável e que, finalmente, precisa conhecer a realidade na qual atua com os outros homens. As assertivas dos sujeitos desta pesquisa legitimam a importância da educação, da interação entre jovens e profissionais, do resgate da cidadania e de ser um ser em constante transformação. É valorizar a vida, acreditar no potencial humano e, assim, motivá-los à busca de novos horizontes: [...] incentivo de levá-los a algum lugar. Esse lugar, futuramente, visando um profissional ali dentro. É levar eles pra um estudo, orientar pra trabalho, alguma coisa assim (E3). [...] poder possibilitar aos jovens, aos educandos ao qual eu desenvolvo o trabalho uma... [momento de silêncio] uma troca de experiência, dentro do que eu já vivi, dentro do que eu conheço, dentro da prática esportiva. E ao mesmo tempo uma busca pela valorização da vida, que é o que eu acredito. Que o esporte possibilita muito isso. Você diferenciar muita coisa dentro da vida. Que, às vezes, uma ação cotidiana que acontece dentro de uma atividade, de um jogo, mesmo em si, ela tem tudo a ver, com a rotina diária, a rotina cotidiana. E praticar um esporte é também tomar decisões. E a vida é assim. É tomar várias decisões, seja elas, boas ou ruins (E7). [...] uma responsabilidade muito grande [...] dar mais um dia de vida [...] pra esses jovens [...] contribuir de alguma forma pra que afaste esse 62 menino de uma situação de risco de ser morto; de poder galgar futuro, enxergar e começar ter possibilidade de crescer e de chegar ter uma família. Aproveitar um pouco mais a vida (E9). [...] tentar recuperar esses jovens envolvidos e proporcionar assim, um momento de lazer pra eles também (E13). Essas unidades de registro dimensionam que a motivação é também um elemento indispensável à recuperação do jovem. Nesse movimento circular, em que o profissional se sente motivado e motiva o jovem, é possível alcançar o objetivo maior: o jovem se sentir cidadão e ciente dos riscos a que está exposto e de sua liberdade de fazer escolhas assentadas em patamares consistentes e conscientes do vir a ser. Com isso, o jovem motivado participa das oficinas de modo eficiente e eficaz, pois as atividades que lhe são ofertadas não se constituem em uma carga, uma tarefa a ser cumprida, mas um prazer e um momento de trocas intersubjetivas e de aprendizagem. Apesar do pensamento de Godoi (2009, p. 241) se referir, principalmente, ao mundo do trabalho e da empresa, ele é pertinente aqui quando ele diz que “[...] a motivação é uma esfera interna, singular inerente ao espaço da individualidade, relacionada à história de vida, à estrutura social, aos desejos do indivíduo e à recuperação do sentido do trabalho”. Pode-se aqui acrescentar “ao sentido do trabalho” e complementar com “ao sentido da vida”. 2.4.2 Categoria 2: satisfação-insatisfação de trabalhar no Programa “Fica Vivo!” 2.4.2.1 Satisfação em trabalhar no Programa “Fica Vivo!”? O trabalho no Programa “Fica Vivo!” é valorizado como uma questão importante nas vivências dos profissionais de Educação Física/oficineiros. Acreditam poder mudar a realidade dos jovens e, de forma gradativa, contribuir também para o desenvolvimento local. Destaca-se que esses profissionais visam ao desenvolvimento da comunidade e buscam criar oportunidades expressas por meio da defesa da construção de uma capacidade de ação autônoma. O desafio de realizar um trabalho que transforma as vidas dos jovens por meio de conhecimentos tem valor incalculável e grande satisfação para os 63 sujeitos desta pesquisa. Os depoimentos mostram, de forma clara e objetiva, o desejo de realização de um trabalho eficaz e eficiente. Ademais, percebe-se que há respeito pela autonomia dos jovens, na medida em que se procura capacitá-los para agirem com mais autonomia, como se apreende das unidades de registro: [...] Olha, o meu objetivo de trabalhar no programa [...] é tentar atuar de maneira positiva na vida dos jovens da minha comunidade (E4). [...] apresentar pros jovens as possibilidades que eles têm que às vezes não é do conhecimento dele, de acesso à educação, à saúde (E5). [...] um dos motivos é o contato com os jovens e de acreditar que eu poderia mudar um pouco a comunidade em si. [...] eu entrei no Fica Vivo! com o objetivo de mudar essa visão e de mostrar pros meninos, pros jovens, que eles têm outras oportunidades. Não é só as coisas ruins da comunidade que tem. Que existem coisas boas, que eles podem, também, ter esses momentos positivos (E10). Nesse sentido, Oliveira, Carneiro e Rossi (2012) acentuam que a satisfação no trabalho é uma variável que atua sobre o comportamento e influencia o desenvolvimento de suas atribuições. Apropriando-se do pensamento de Merhy (1998) relativo ao encontro profissional de saúde/usuário, pode-se dizer que o encontro oficineiro/jovens se constitui em uma relação na qual se desenvolve um jogo de expectativas e produções, tendo em vista que implica a intervenção de um sujeito sobre o outro de tal modo que, enquanto um busca a solução de seu problema, o outro procura dar algum encaminhamento a essa demanda por meio de um "trabalho vivo em ato". Os profissionais de Educação Física/oficineiros devem manter-se motivados. Como essa motivação está diretamente ligada aos resultados obtidos, é importante identificar as demandas e expectativas dos jovens que estão frequentando a oficina. Conforme explicitam Vianna e Lovisolo (2011, p. 287): [...] os professores devem ser agentes de transformação social, e muitos defendem tal posição, eles são influenciados pelo meio social em que vivem. E podem trazer consigo uma bagagem social construída a partir de estereótipos estabelecidos ao longo dos anos de formação acadêmica e social, que orientarão a sua intervenção educacional, que pode não corresponder com as expectativas dos alunos - foco principal do processo. Isso permite inferir que os oficineiros devem se desvincular de qualquer estereótipo construído durante sua formação acadêmica e vivências sociais, uma 64 vez que a realidade dos jovens do Programa “Fica Vivo!” e respectivas perspectivas e necessidades são a matéria-prima a ser trabalhada para se alcançar os objetivos almejados: jovens protagonistas, cidadãos, autônomos e com vistas a um futuro melhor. A satisfação no trabalho pressupõe motivação e disposição para se dedicar às oficinas de forma efetiva e em consonância com os objetivos do Programa “Fica Vivo!”. Vários fatores motivam esses oficineiros, podendo-se destacar o desafio, como explicitado na fala a seguir: “Oh, o motivo pelo qual eu iniciei no programa, é exatamente pelo desafio. Porque a gente trabalha com um público que normalmente eles são rejeitados por outras instituições, seja elas de ensino e outros mecanismos de proteção” (E11). Percebe-se que a mudança na forma de pensar dos jovens, sobre direitos básicos, pode ser considerada a efetivação do trabalho que está sendo realizado. Isso se presentifica na possibilidade de ver os jovens progredindo, sentindo-se e sendo cidadãos, constituindo família, crescendo profissionalmente e com melhores níveis de qualidade de vida. Para Valente (2013, p. 32), “a satisfação profissional pode ser interpretada também como uma emoção ou reação afetiva/emocional, relativa a diferentes facetas da atividade profissional de um indivíduo”. A convivência com os jovens é vista como momentos de grande satisfação, além de uma afetividade que acomete tanto os oficineiros como os jovens. Como relata E11: “é um trabalho que traz uma satisfação pessoal muito interessante, muito positiva.” Essa satisfação no trabalho refere-se aos sentimentos das pessoas em relação aos seus diferentes aspectos. É primordial que os oficineiros mantenhamse motivados, pois a motivação está relacionada às ações e aos resultados que serão obtidos no desenvolvimento do seu trabalho durante as oficinas e, consequentemente, mais satisfação. Para Nunes et al. (2010, p. 254), a satisfação no trabalho pode ser definida como: [...] a somatória de diferentes elementos que compõem o mundo pessoal e profissional, bem como o resultado da avaliação que o trabalhador tem acerca de seu trabalho. Destacando-se um conjunto de elementos que contribuem para que haja satisfação, como: o reconhecimento, a felicidade, o respeito, o ambiente de trabalho e as condições de trabalho. 65 Portanto, a união de vários elementos interagindo entre si cria para a pessoa e para o profissional o sentir-se bem com o seu fazer. Essa assertiva está demonstrada nos fragmentos a seguir: [...] o que me agrada é [...] esse carinho que [...] você vai construindo com os jovens, essa amizade e fazendo com que isso, eles pensem diferente. [...]. Isso dá uma satisfação muito grande (E6). [...] eu estou muito satisfeito, porque eu vejo muitos jovens que eu conheci no programa [...] hoje, tão assim, eh, numa situação de social muito melhor, eh, psicológico melhor. [...] a gente vê que a gente contribuiu um pouco, 0,01% para que esses jovens aí, eles tenham um caminho melhor do que outros (E9). [...] o quê me agrada, é esse contato com os jovens [...] eu ver o resultado do meu trabalho. Eu observar que um jovem saiu da minha oficina porque conseguiu um emprego. [...] observar que o jovem me procura pra saber se ele faz faculdade [...] me agrada no Fica Vivo! são os resultados que eu obtenho a partir do meu trabalho (E10). Entende-se, portanto, que ações simples como o carinho, o ser presente, escutar e respeitar o jovem na sua singularidade geram relações afetivas, estar bem psicologicamente, conseguir emprego e o retorno para confidenciar desejos. Evidenciam-se aspectos positivos advindos dessa relação horizontal e pautados, possivelmente, nas condições de vida de cada jovem. 2.4.2.2 Insatisfação de trabalhar no “Fica Vivo!” Dialeticamente, apreende-se a existência de pontos positivos e negativos no fenômeno estudado. Aliado à satisfação com o programa há desagrados também. Estes se relacionam às estruturas físicas, pois não possuem apoio para a aquisição de locais para instalação das oficinas. A falta de apoio para as atividades fora das oficinas (atividades culturais, entre outras) também desagrada, inclusive no quesito financeiro, tendo em vista que a verba recebida deve abranger diversos aspectos como a aquisição de materiais para a realização das oficinas e a compra de lanches para os jovens nos dias das oficinas, além da falta de parcerias. Os sujeitos, acerca da insatisfação, pontuam: [...] as estruturas físicas, [...] o apoio de todos os lados. [...] infelizmente, a verba do Fica Vivo! não dá pra cobrir o que a gente quer fazer (E2). 66 Eu acho que o programa ainda é um pouco limitado no que se diz respeito, principalmente, a recursos. E isso muito das vezes limita a atuação nossa na ponta (E4). [...] o programa [...] deixa desejar um pouquinho aí no sentido de apoiar um pouco mais os oficineiros (E8). [...] é a falta de parcerias, é algo que desagrada. Porque, às vezes, você tem que fazer um trabalho muito sozinho (E10). Apura-se, contudo, que os fatores ligados à insatisfação, em termos quantitativos, são extremamente menores que os ligados à satisfação. Marqueze e Moreno (2009) destacam que a satisfação para o trabalho constitui-se como fator essencial para os trabalhadores. Os jovens perdidos para a criminalidade ou para as drogas desagradam bastante. Considera-se que é uma parte do trabalho realizado que não deu certo. Nunca será possível obter 100% de efetividade nas ações, devido à complexidade que envolve esses jovens em situação de vulnerabilidade social. O grande envolvimento que acontece entre os oficineiros e os jovens leva à obtenção de valores próximos do máximo. Com isso, os sujeitos declaram: [...] a gente vê que alguns jovens que a gente viu, desde pequeno, frequentando a oficina, frequentando a comunidade, a gente não conseguiu, é, ganhar esse briga pro tráfico e ver esse menino indo pro tráfico (E1). [...] infelizmente, a gente não conseguiu atingir, contribuir muito, acabou falecendo ou indo pra um mundo que eles acabaram [...] perdendo tempo na vida (E9). 2.4.3 Categoria 3: processo educativo do Programa “Fica Vivo!” 2.4.3.1 Atividades desenvolvidas Entre as atividades desenvolvidas pelos profissionais de Educação Física/oficineiros, podem-se destacar as dinâmicas relacionadas aos temas pertinentes à realidade dos jovens, como a criminalidade da região e diversos fatores de risco que podem se infiltrar e sequestrar a vida desses jovens quanto ao viver com dignidade e cidadania. 67 Atividades como rodas de conversa, diálogos e debates relacionados aos acontecimentos do dia-a-dia são realizadas. Os diálogos acontecem de acordo com as necessidades surgidas, tanto em grupo quanto individualmente, para se tentar solucionar ou prevenir possíveis problemas, com discussões que abarcam valores e regras, com vistas ao encontro de uma convivência tranquila e, consequentemente, com melhoria nas relações interpessoais. Cocco e Lopes (2010, p. 157) descrevem que para “compreender esses diferentes aspectos do cotidiano dos jovens e seus contextos é pressuposto imprescindível para se conhecer as situações de vulnerabilidade e de proteção frente ao fenômeno da violência”. As unidades de registro destacam as atividades realizadas: Além do trabalho do ofício em si [...]. A gente desenvolve diálogos e dinâmicas com os meninos. Mais a principal arma que a gente tem no Fica Vivo! hoje é o diálogo, de mostrar para os meninos que tem outras oportunidades, outros caminhos (E1). [...] dinâmica uma vez por mês que é relacionado à prevenção, à criminalidade. Aí, é drogas; sexo e sexualidade; escola; eh, projeto de vida; conflitos entre eles, como resolver ou não resolver, deixar pra lá, a gente faz algumas dinâmicas. [...] campeonatos são mais usados pros jovens permanecer na oficina. [...]. Aí tem cinema com o objetivo de interação (E2). [...] desenvolvo atividades ligadas ao [...] desenvolvimento das técnicas utilizadas no jogo, [...] valores. Tentando trabalhar valores com os meninos, através de dinâmicas diárias, através de conversas, rodas de conversas e através do dia-a-dia. Então trabalhamos nessas duas vertentes, tanto trabalho a parte técnica ligada ao esporte, quanto à parte relacional, também, no contato direto com os jovens (E4). [...] o principal objetivo lá é trabalhar regras [...] de convivência. Tentar dialogar com eles. [...]. É usar [...] como ferramenta mesmo, pra aproximar esses jovens, conversar sobre segurança pública. Mostrar pra eles ali, se eles conseguem ali, eh, se organizar. [...] respeitar um ao outro. Resolver sem ser de forma agressiva. Ter um pouco de bom senso [...]. Então, eles podem levar isso pra fora (E9). Dessa forma, todo o trabalho é realizado por meio de oficinas e, neste estudo em específico, detectou-se que o trabalho é feito somente com as oficinas de atividades esportivas. Para Afonso (2010, p. 9): A oficina é um trabalho estruturado com grupos, independentemente do número de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o grupo se propõe a elaborar, em um contexto social. A elaboração que se busca na oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas envolve os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir. 68 Acredita-se que o trabalho dito, de fato, segue os pressupostos da oficina, quando se percebe nas unidades de registro que os oficineiros buscam não apenas a reflexão teórica da técnica do esporte ofertado, mas buscam integrar os adolescentes entre si, entre as pessoas da comunidade e da escola e do próprio pensar, sentir e agir. Além das atividades que se propõem a atender aos objetivos do Programa “Fica Vivo!”, são desenvolvidas atividades esportivas em diversas modalidades, em que são trabalhados o desenvolvimento técnico, tático e físico, além do desenvolvimento lúdico e da qualidade de vida. Não é enfatizado o desenvolvimento de atletas de rendimento, e sim a formação integral do cidadão. Com isso, efetivam-se atividades de interação, integração e socialização, ressaltando-se os campeonatos, olimpíadas do “Fica Vivo!” e jogos amistosos. Esses eventos possibilitam interação e integração com públicos diversificados, inseridos em outros contextos, tais como o público que se encontra em outra conjuntura e não está em situação de vulnerabilidade social. Essa socialização contribui de forma muito positiva para o desenvolvimento integral dos jovens do programa e é promovida com o intuito de mostrar-lhes a existência de outras possibilidades de viver. O entendimento de Monteiro e Cruz (2011, p. 401) faz eco ao que os sujeitos deste estudo abstraem como uma de suas funções: “o desporto é uma oficina da manifestação humana e o desportista pode ser considerado como um artesão por excelência numa conjuntura local e prática de realizações e de sublimações.” Entre as atividades esportivas há a confirmação dessa concepção nas seguintes unidades de registro: [...] levar esse jovem mesmo pra campeonato fora com outros times e com o nosso time também (E3). [...] desenvolvo com eles o futsal, mais não com intuito de fazê-los jogadores, eh, é mais na questão social mesmo, essa questão de tarem resolvendo conflitos entre eles, de saber, às vezes, resolver um conflito [...] é mais nesse sentido de indicá-los a outros, a outros caminhos aí (E6). Dentro das atividades, da oficina de futsal, nós temos as atividades que envolvem os treinos mesmo [...] participação em torneios. [...] é trazido, alguma temática pra gente desenvolver debates [...] uma temática cotidiana ou algo que aconteceu dentro da comunidade. [...] momentos de fazer visita a um teatro, de parar pra poder assistir vídeos, que [...] 69 nós assistimos e debatemos o quê que isso ali tem a ver com o dia-adia de cada um. O quê que tem a ver com a realidade no qual cada um sobrevive hoje. Ih, a oficina, ela não para, meramente, no jogar bola. Ela tem que ter algo diferente (E7). Eh! As atividades são diversas. [...] algum evento esportivo [...] pra promover mesmo, a circulação desses jovens; conhecer novos bairros; novas pessoas; interagir com outros jovens de outros lugares, de outras cidades. [...] várias atividades com o objetivo de promover mesmo a circulação (E8). Monteiro e Cruz (2011, p. 399) afirmam que: O desporto, como forma de educação, não fica imune às dificuldades e aos desafios que nos são impostos pela atualidade, porém essa atividade, dado o seu alto significado humano, cultural, educativo, social e axiológico, tem a possibilidade de registrar experiências que marcam a formação do homem. Esses autores acrescentam: Na vida prática, o desporto ensina como portar-se no mundo, como reagir ante as circunstâncias imprevistas, como lidar com as diferenças e as dificuldades, como encarar a vida de modo otimista e superior, como olhar os desafios como um projeto de autoconhecimento e como ser a exposição prática dos valores da pessoa humana (MONTEIRO; CRUZ, 2011, p. 405) Conforme Souza et al. (2011), a prática educativa com utilização do esporte como ferramenta de ação pode construir cidadãos e capacitá-los para conhecer e refletir, de modo que possam transformar sua realidade de forma critica e consciente. Outras falas afirmam a visão anteriormente citada: [...] algumas técnicas relacionadas ao voleibol, e a partir de situações dentro do esporte, discutir algumas questões temáticas. Então, principalmente, que é a dificuldade deles. [...] faz um diálogo muito mais individualizado e quando necessário, faz um diálogo coletivo. [...] a atividade não funciona só no horário do vôlei, só no horário da oficina. Eu acho que ela ultrapassa, um pouco também, os muros da atividade em si (E10). [...] é o ofício do esporte. [...] mais junto com isso, trazer discussões relacionadas à criminalidade, relacionado à própria comunidade e de como o jovem, ele observa essa sua comunidade, seja, valorizando-a e seja também mudando algum cenário que ele observa que não é um cenário positivo (E11). Além dos ofícios propriamente ditos, o fundamento tático, fundamento técnico. A gente desenvolve muito, eh, o assunto que está no ar. Eh, 70 conversa muito com eles sobre as drogas. Conversa muito sobre a criminalidade (E12). [...] a atividade que eu trabalho é o coletivo, a gente faz uma discussão, converso muito com os jovens essa discussões sempre assim, às vezes, individual mesmo (E13). Natali e Müller (2009, p. 301) salientam que é preciso: [...] acreditar em um mundo com maior justiça social, esse é o mundo melhor e o sujeito melhor: aquele sujeito a quem são oferecidas oportunidades iguais na vida concreta, mas aquele que, não as tendo, tem condições de compreender o que faz que a vida se caracterize assim e tenha condições de lutar para mudá-la. Essa luta é mais eficaz quando realizada cooperativamente. Conforme Maraschin, Chassot e Gorczevski (2006, p. 292), “a atividade e o conteúdo necessitam ter ligação. A técnica deve ser usada a favor do tema, e não só como técnica pela técnica”. Com o intento de ilustrar o que denominam de atividade e respectivas formas de trabalhá-las, elaborou-se o QUADRO 1. QUADRO 1 - Atividades desenvolvidas no Programa “Fica Vivo!” ATIVIDADES DESENVOLVIDAS/ COMO FAZÊ- LAS Atividades Meios de realização Eventos esportivos (torneios, - Atividades esportivas campeonatos e jogos amistosos) Modalidades: futsal, futebol, voleibol, Fundamentos técnicos e fundamentos handebol, basquetebol, tênis táticos - Dinâmicas Diálogos Temas diversos: valores, Rodas de conversa criminalidade, drogas, sexualidade, Debates relações interpessoais Cinema - Eventos culturais Teatro Passeios Fonte: dados da pesquisa, 2014. 2.4.3.2 Ações eficazes A identificação de ações eficazes não se constitui em uma tarefa simples. Souza e Souza (2009) especificam que os bons resultados do Programa “Fica Vivo!” devem-se à aposta de que os jovens são capazes de repensar sua 71 trajetória de vida e proporcionar a si mesmos mudanças significativas no seu viver. O Programa “Fica Vivo!” é uma maneira de educação não formal. Na perspectiva de Gohn (2010), é uma ferramenta no processo de formação e construção da cidadania. E Araújo e Luvizotto (2012, p. 77) complementam que esse processo é “entendido pelo desenvolvimento com coletivos e preocupado com a construção de aprendizagens e saberes”. Todos os CPCs e as oficinas possuem suas particularidades, independentemente do público-alvo se encontrar em vulnerabilidade social, ou seja, inseridos em um determinado contexto distinto. Portanto, algumas ações são comuns entre si e podem ser trabalhadas, independentemente do âmbito do CPC, da oficina ou da comunidade. É importante destacar algumas ações que foram citadas como eficazes e potencializam os resultados do programa. As atividades esportivas desenvolvidas aliam-se de forma efetiva ao processo de educação e à formação dos jovens. Então, de acordo com os profissionais entrevistados, podem-se destacar diversas atividades que eles consideram eficazes. Os campeonatos, torneios, eventos culturais e eventos esportivos são momentos que, além de atrair os jovens para as oficinas, possibilitam que esses jovens saiam de sua realidade e convivam em outras circunstâncias e com grupos diferentes; conheçam outras formas e possibilidades para o seu desenvolvimento pessoal, ou seja, ampliem seus horizontes. Pode-se, ainda, dizer que transcendem o presente e se sentem capazes e motivados para buscar seus objetivos. Os profissionais de Educação Física/oficineiros, segundo Gohn (2009), devem atuar com uma proposta socioeducativa de produção de saberes em relação à situação, reconstrução e ressignificação de valores, de forma tematizada e confrontando com novas possibilidades. As unidades de registro expressas pelos sujeitos deste estudo confirmam essa concepção: [...] aliar o esporte e a educação. [...]. Essas coisas se juntar tudo facilita muito mais pra conseguir esse resultado que o Fica Vivo! Espera (E2). [...] a gente leva os jovens pra teatro [...] são campeonatos que a gente faz. Campeonatos fora [...] (E3). 72 Eu acho que as ações que a gente faz aqui na comunidade, como torneios, eventos culturais, mostras culturais, exposição de grafite e a circulação do jovem, não só aqui na comunidade, como a gente sai com eles para outros lugares (E5). O que eu percebo, as ações, e quando a gente faz eventos. Quando têm eventos eles comparecem sim, participam (E8). Registra-se que o diálogo possibilita que os jovens consigam compreender seus direitos e deveres como cidadãos e, consequentemente, proporciona mudanças de hábitos que impactarão diretamente no seu convívio social e nas suas relações interpessoais, propiciando oportunidades futuras de se tornar um cidadão bem-sucedido, adaptado e com suas demandas atendidas. A busca do diálogo e ações efetivas depende da participação da família, pois essa participação “é um dos caminhos para conhecer os problemas da realidade local das crianças e adolescentes, principalmente, daqueles que moram em área de grande vulnerabilidade social” (TEMPONI; MACHADO, 2011, p. 571). O diálogo é reconhecido como uma ferramenta incondicional no caminho de conquista dos jovens para que eles adquiram sua cidadania e se tornem protagonistas. Veja-se: [...] é o fato de dialogar com esse jovem. Não expor, não acabar, se expondo o jovem a todo o momento. Demonstrando pra ele que existe várias outras possibilidades do que só a que ele enxerga a todo momento. E essas ações passa pelo fato de, conversar, eh, sair com ele fora da comunidade pra jogar num local fora, no caso, a participação em competições. [...] é trabalhar a autonomia do jovem a todo o momento. [...] trabalhar a todo momento esse protagonismo juvenil. [...] é fazer com que o jovem entre em evidência (E7). As ações principais acho que é o diálogo, o convívio com o grupo (E12). Para Gohn (2009, p. 33): O diálogo, tematizado – não é um simples papo ou conversa jogada fora, é sempre o fio condutor da formação. Mas há metodologias que supõem fundamentos teóricos e ações práticas - atividades, etapas, métodos, ferramentas, instrumentos etc. [...] deve ter: princípios, métodos e metodologias de trabalho. Nessa linha de raciocínio, Souza e Souza (2009, p.132) explicitam que o programa tem como objetivo: 73 [...] dialogar com os jovens envolvidos com a criminalidade e, por meio do diálogo, construir ações passíveis de inclusão nas instituições responsáveis pela execução de políticas públicas que lhes são de direito, como educação, saúde, inclusão produtiva, lazer, esporte, etc. O direito à voz e de ser escutado faz parte das diretrizes do Programa “Fica Vivo!”. Dizer o próprio pensar e ser compreendido é uma condição existencial e que permite ao ser humano se sentir um ser de pertença e de respeito. Assim, os jovens devem ser tratados com respeito, expressando suas ideias, crenças e valores e criando um vínculo com o profissional de Educação Física/oficineiro. Ao se considerarem pertencentes à comunidade, às oficinas e ao mundo, poderão alcançar objetivos que inicialmente avaliavam como inatingíveis. Isso se faz, também, associado à criação de um ambiente saudável, democrático e ético. Araújo e Luvizottto (2012, p. 76) salientam que “o educador social cumpre o papel de facilitar a trajetória de cada jovem e do coletivo juvenil na direção do desenvolvimento pessoal e social, contribuindo para a criação de um ambiente educativo, participativo e democrático”. As seguintes unidades de registro corroboram essa visão: [...] as ações que a gente julga eficazes são as ações que a gente desenvolve o dia-a-dia, que são, eh, esse convívio, esse ouvir o jovem e o desenvolvimento ali. Através desse desenvolvimento do esporte ampliar os horizontes desses jovens. [...] eles podem disputar torneios. Então eles conhecem outras localidades, têm convívio com outros jovens, têm convívio com outro universo, que é diferente do dia-a-dia deles ali (E4). [Silêncio] Primeiramente, é tratá-los, eh, com respeito. Isso aí faz uma diferença muito grande. A partir daí, eh, você consegue trazê-los pro seu lado ali e, então, aí você consegue conduzi-los (E6). [...] é primeiro tentar que esse jovem crie um vínculo com algum espaço. Com algum lugar. Então, as oficinas é o lugar que a gente quer que eles criem vínculo, porque eles não têm vínculo com nada. [...] criar espaços onde sejam adequados pra atender à realidade deles. [...]. Então assim, pra gente ter uma prevenção contra esses riscos desses jovens, eh, muitas vezes, por terem um comportamento inadequado, a gente tem que entender a família em primeiro lugar. E pros jovens que já estão em situação de risco eles precisam ser inseridos nos espaço que ele sinta reconhecido naquele lugar, talvez as oficinas do Fica Vivo!, porque lá, sintam reconhecidos (E9). Eu acho que a principal ação é o vínculo do oficineiro com o jovem. Porque, eh, a partir desse vínculo, seja na parte de comunicação, na observação com o jovem. Nessa relação que a gente vai conseguir saber o que ele necessita e a partir daí criar uma relação, criar um 74 vínculo e trabalhar com o jovem pra atender àquela demanda dele (E10). Acho que a primeira coisa é você dá o acesso. Acesso à prática. E com isso você oportunizar ao jovem. Dá ele condições pra mostrar o potencial. Dá oportunidade dele se expressar e ele sentir que ele também é parte importante, principalmente, dentro da sua comunidade (E11). Depreende-se de todas as unidades de registro que criar vínculos é condição sine qua non para o jovem se sentir inserido nas oficinas, no “espaço”. Sentindo-se acolhido, ele se abre ao mundo e mostra seu potencial, fala de suas expectativas, necessidades e se sente “importante na comunidade”. Baquero, Lemes e Santos (2011, p. 347) asseveram que se busca certa autonomia dos jovens, mostrando que são responsáveis pelas suas decisões e que elas podem trazer diversas possibilidades, positivas ou negativas. O protagonismo juvenil é algo a ser conquistado, mas os jovens se deparam com algumas diversidades, pois “na sociedade capitalista, o jovem passa a ser incluído pelo que tem e não pelo poder de transformação e radicalização da vida. Esse é um dos pontos fortes que levam tantos jovens de periferia a se aventurarem pelo mundo da criminalidade”. Silveira et al. (2010, p. 502) opinam que: As intervenções preventivas bem-sucedidas fundam-se no conhecimento das dinâmicas sociais locais que desencadeiam essas mortes violentas. São também necessárias intervenções intersetoriais que fortaleçam a presença do estado nas áreas mais acometidas, articulando ações de saúde educação e segurança pública com mobilização e participação da população no planejamento, monitoramento e avaliação das ações executadas. 2.4.3.3 Participação dos jovens Os jovens chegam às oficinas em busca de algo novo, diferente da sua realidade, seja em busca do esporte em si ou em busca de um local onde possam interagir; cada jovem chega com a sua particularidade/especificidade. Eles são frequentes, bem motivados, prestativos e participativos durante as dinâmicas ofertadas, reconhecendo as oficinas como um local onde podem externar suas necessidades, vontades. O esporte no Programa “Fica Vivo!” tem importante 75 significado na vida desses jovens. Para Vianna e Lovisolo (2009, p. 150) “trata-se de um esporte significado a partir das interações locais”. As unidades de registro confirmam essa afirmativa: Os jovens que são envolvidos [...] estão sempre presentes nas oficinas, lá (E1). No esporte eles são frequentes. Eles se mostram, eh, com vontade de fazer aquilo. Empolgados nas dinâmicas, uma parte. Alguns mais velhos têm uma preguiça sim [...]. Mais faz da mesma forma [...]. E os mais novos sempre são prestativos pra tudo e faz uma diferença muito grande pra eles (E2). [...] Então, os jovens, eles chegam em busca de algo. [...] do esporte. Então, a gente percebe esses jovens que chegam com seus conflitos, [...] cada um com sua particularidade. [...] (E4). Os jovens são muitos motivados (E6). Bem ativos. No! Uma energia. Eh, então assim, são jovens bem frequentes. [...] a oficina começa às 17 horas. Duas horas e meia já tão lá e ficam até o final mesmo (E13). Alguns jovens estão presentes nas oficinas em busca de novas amizades e novos vínculos, principalmente em momentos em que se encontram fragilizados devido a diversas situações em sua residência, na escola ou na comunidade. E outros estão presentes nas oficinas pelo lanche que lhes é fornecido nos dias das oficinas, devido à necessidade que passam em suas casas. Os fragmentos de discurso a seguir desvelam essa realidade: Tem determinados momentos que eles tão bastante envolvidos. Tem determinado momento que eles tão mais fragilizados, então [...] não se envolvem tanto. Fragilizados devido às diversas demandas [...]. Então, eles acabam oscilando. Mais sempre estão presentes. [...] sempre justificando o fato deles não terem vindo, e eu acho isso crucial. [...]. Ao mesmo tempo eles dão conta de ter a maturidade de compreender que era importante eles tarem aqui no espaço. De depois conseguir trazer a demanda pra nós conversamos um pouco (E7). Eu percebo que alguns jovens vão mesmo pra participar, outros vão mesmo pra fazer amizade. Alguns vão mesmo, somente pra lanchar, porque [...] falta esse alimento na casa deles [...] a violência na comunidade deles, às vezes, tem uma semana que tá tenso. Então, esse jovem some. A gente fica preocupado. Então, quando ele tá lá presente é um alívio pra gente (E8). [...] eu percebo que os jovens assim, na oficina, é um espaço que eles [...] colocam um pouco pra fora as necessidades deles [...] um pouco da realidade [...] eu percebo que eles gostam muito. Frequentam. [...] se apropriam ali mesmo e se tivesse mais dias eles iriam. Assim, acho que é um lugar que ele sai do meio deles. Esse meio de tá com medo, tá 76 muitas vezes, sempre tá esperando algo acontecer com eles (E9). Eu tenho jovens que não gostam do vôlei em si, mais que eles estão presente todos os dias na oficina, muito pela relação com os demais jovens. Então, eh, eu tenho jovens que tão pelo ofício do vôlei. Mais eu tenho jovens que tão ali por causa do local, do vínculo com os demais jovens. [...] eu acho que a presença [...] tá sendo uma presença constante e ela varia tanto pelo interesse do ofício do voleibol quanto pela relação dos jovens que ali tem. Que é a questão da amizade, do vínculo (E10). [...] eles já estão ali, porque gostam do ofício. [...] eles já vão ali com interesse de participar da oficina (E12). Thomassim e Stigger (2011) tipificam a participação dos jovens em projetos sociais, na qual se descarta apenas a participação compulsória. No Programa “Fica Vivo!” encontra-se a participação como interesse, como convívio e como projeto ou investimento. É analisada participação como interesse quando se buscam vínculos em atividades em que jovens possuem interesse em conhecer, aprender ou praticar. Outro tipo é a participação como convívio, que se relaciona aos estímulos coletivos e conjunturais. A presença carrega componentes simbólicos, estabelecidos segundo critérios próprios das relações, como os vínculos duradouros de amizade. E, ainda, a participação como projeto ou investimento na qual se espera algum retorno específico (THOMASSIM; STIGGER, 2011). Para ilustrar a presença dos jovens nas oficinas, o QUADRO 2 mostra os indicadores da presença dos jovens nas oficinas. QUADRO 2 - Indicadores da presença dos jovens nas oficinas de atividades esportivas no Programa “Fica Vivo!” INDICADORES DE PRESENÇA Busca de algo novo Socialização Motivação Fragilidade familiar MOTIVOS DA PRESENÇA - Conteúdo - Ambiente diferenciado - Novas amizades - Vínculos afetivos - Formas de desenvolver-se profissional e pessoalmente - Busca de uma afetividade que não se encontra no meio familiar - Busca de uma referência Fonte: dados da pesquisa, 2014. 77 De acordo com a E5, “[...] cada jovem tem sua particularidade. [...] chegam, conversam. [...]. Cada um tem sua marca de registrada.” Pode-se dizer que cada jovem participa das oficinas em busca de objetivos que podem ser diferenciados. Stigger (2002 apud THOMASSIM; STIGGER, 2009, p. 8) refere que: [...] ainda que se possa afirmar que todo o esporte contém determinados componentes que o caracterizam como tal, esta atividade é praticada por indivíduos que dão a cada um destes elementos um peso na constituição da sua prática esportiva particular. A presença dos jovens nas oficinas pode ser confirmada pela TAB. 1, que mostra o número de jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!”, nos últimos anos. TABELA 1 - Número de jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!” nos últimos anos (2009 - mar./2014) ANO 2009 2010 2011 2012 2013 2014 MÉDIA ANUAL DE JOVENS ATENDIDOS NO PROGRAMA “FICA VIVO!” 14.728 14.537 13.586 12.166 11.437 10769* (*período de janeiro a março de 2014) Fonte: dados da pesquisa, 2014. Uma leitura, ainda preliminar, assinala que o número de jovens participantes das oficinas, no primeiro semestre de 2014 é de mais de 10.000 jovens. Espera-se que esse número supere os anos anteriores, tendo em vista os jovens partícipes delas até março. 2.4.4 Categoria 4: da participação à ação 2.4.4.1 Mudanças no comportamento, atitudes e relações Em relação às mudanças perceptíveis de comportamento dos jovens do Programa “Fica Vivo!”, várias foram detectadas e são consideradas oriundas do trabalho realizado nas oficinas de modalidades esportivas. Reafirma-se ser o 78 esporte a ferramenta utilizada nessas oficinas. Nesse sentido, vale lembrar os dizeres de Thomassim e Stigger (2009, p. 7): [...] o esporte possibilita a vivência de valores para a vida; muitas pesquisas e reflexões têm defendido que não se pode atribuir aos esportes apenas valores positivos ou apenas valores negativos, porque, em primeiro lugar, o esporte se apresentaria de forma heterogênea, isto é, com múltiplos valores ou sentidos a ele associados pelos seus praticantes. Complementando, Matos e Andrade (2011) mencionam que as intervenções por meio do esporte transferem-se para a vida e para o cotidiano dos sujeitos em risco social, permitindo que tenham mais oportunidades e se tornem cidadãos dignos. Aludem, ainda, que por meio de uma prática consciente proveniente de aprendizagens e descobertas, que por sua vez podem gerar novas dificuldades, os jovens se conscientizam da importância do respeito que se deve ter para com o outro, como ser humano. Tal assertiva vem ao encontro das mudanças operadas na existência dos jovens do Programa “Fica Vivo!”. Aqueles que começaram a frequentar as oficinas amadureceram no decorrer das atividades realizadas, tornando-se menos agressivos, agindo de forma mais cordial, sem dificuldades de demonstrar o carinho mútuo, o que antes não era evidenciado. O comportamento mais cordial proporcionou a mudança de hábitos, originando interação e socialização entre eles, eles e os oficineiros, familiares, tornando seu comportamento mais receptivo e dialogando e circulando mais dentro da comunidade. Esses avanço e progresso detectados em graus diversos, porque em pessoas singulares, ocasionam relacionamentos interpessoais afetivos e respeitosos. Pode-se destacar que esses jovens tornam-se mais responsáveis, confiantes em si e comprometidos. As unidades de registro confirmam as mudanças descritas anteriormente: É, principalmente, a questão de resolver um conflito. [...] não brigam pra resolver o problema, [...] matavam aula e os diretores já vieram falar que depois que eles entravam no projeto, eles pararam. [...] alguns pararam de usar drogas. Na oficina mesmo, não tem ninguém que usa. Mais quem entrou usando parou [...] (E2). [...] eu percebo várias mudanças, e em cada jovem com o seu grau. [...] alguns mais arredios, outros, eh, mais indisciplinados ou com muita energia e à medida que a gente vai desenvolvendo esse trabalho eles vão tomando consciência de uma série de comportamentos. [...] tem impacto, muita das vezes positivos, na personalidade, no 79 desenvolvimento, no relacionamento com os outros jovens, com os professores. [...] relatos também, até de melhoria, na escola. Os pais também já fizeram alguns relatos que o jovem era mais agressivo, até no comportamento dentro de casa, depois com o passar do tempo, convívio ali na oficina, ele se torna um jovem com um comportamento um pouco, eh, menos agressivo, mais cordial (E4). [...] muitos jovens que, que eram, às vezes, conflituosos, que viviam discutindo por coisa boba, hoje em dia são muito tranquilos. Até ajudam a organizar a oficina. [...]. E na escola a diretora falou que o comportamento de muitos melhorou bastante, em termo de disciplina [...] (E6). [...] a gente percebeu que eles tão amadurecendo. Outros não tinham emprego, hoje, já estão trabalhando. [...]. Alguns foram promovidos a oficineiros do Programa Fica Vivo! (E8). Possivelmente, houve, na vida dos jovens, uma descoberta incitadora de transformações vivenciais: da percepção do ser nada para ser cidadão; de autoimagem negativa para autoestima elevada; do impossível ao possível; da descrença em si mesmo para o acreditar que posso e quero. Assim, ao se tornarem cordiais, receptivos, parceiros e tendo voz, eles também alcançam outros objetivos: sair da droga, conseguir um emprego e serem protagonistas da própria vida. A unidade de registro confirma essa mudança: “eh, esses jovens eram muito, falavam muitos palavrão. Eram muito agressivos no início. [...] esses jovens melhoraram muito [...] no início deram trabalho, agora já não dão mais” (E12). Os jovens mudam a concepção de que estão reféns da criminalidade e das drogas e conseguem perceber que podem alcançar diversos objetivos e que possuem acesso às necessidades básicas, como a educação. Muitos deles começam a ver que fazer curso superior é uma realidade possível e, consequentemente, podem crescer profissionalmente, o que possibilitaria seu desenvolvimento pessoal. A mudança de comportamento no ambiente escolar foi notada pelas direções das escolas onde estudam esses jovens que frequentam as oficinas. Diante dessas mudanças que acontecem na vida desses jovens, Gohn (2009, p. 34) acredita que: [...] é uma força que alavanca mentes e corações, impulsiona para a busca de mudanças. A esperança-fundamental aos seres humanos reaviva-se quando trabalhamos com cenários do imaginário desejado, com os sonhos e os anseios de um grupo. 80 Segundo Thomassim e Stigger (2009, p. 8), não se trata apenas da educação moral, pois o aprendizado de valores e significados orienta a conduta em diversas circunstâncias. E “o aprendizado de uma conduta não agressiva no contexto de um projeto deveria ser transferido, automaticamente, para orientar a conduta em todos os lugares fora do projeto”. Esses dizeres revelam que o aprender valores transcende o espaço do aqui para o acolá, ou seja, o aprender valores é internalizá-los para a vida. Assim, os jovens começam a ter mais respeito pelo próximo e por si mesmos e pensam em relacionar-se melhor com os outros, advindo dessa convivência harmônica um conviver social de forma mais agradável. Para afirmar essa concepção, destacam-se as seguintes falas: [...] a linguagem dele era [...] de palavras desagradáveis o tempo todo. E ele começa a mudar isso. [...] começa a ter cuidado na hora de conversar com você [...] ter cuidado ao conversar com o colega. [...] começa a enxergar que ele pode estudar, que ele pode trabalhar. Que ele não tá fadado à morte. Não tá fadado ou é a criminalidade ou é o dinheiro ali, que vem aí de forma ilícita. Que pra ele conseguir, ele pode conseguir de outras maneiras. [...]. Não existia regra no espaço. Eles não conseguiam se organizar. Hoje, eles já conseguem se organizar. [...] percebe que [...] tem mais jovens procurando a universidade. [...]. Jovens que, às vezes, tinha dificuldade de demonstrar o carinho. [...] ficaram mais carinhosos, mais receptíveis, dialogam mais. [...] eu consigo dialogar com todo mundo. Era impossível no começo (E9). [...] a gente observa mudanças de hábitos e informações adicionais que melhoram até mesmo a formação desse jovem, voltando a ter acesso aos mecanismos de educação, de ensino. E também, até o mercado de trabalho (E11). Quando eu entrei lá os jovens tinham muita dificuldade, sabe, de relacionar-se. Então, eh... [momento de silêncio], e assim, eu tinha uns que [...] eram muitos envolvidos. Então a mudança que eu percebi é o seguinte [...]. A relação entre eles, assim, o conviver social, acho que melhorou também. [...] são jovens que hoje, eu vejo, tem mais objetivo [...]. Eh, alguns, já assim, me parecer que já, eh, já pararam. Porque eu já conversei. Tem uns que já [...]. Tinha jovens que quando eu entrei lá eram tão envolvidos, mais tão envolvidos, eh, que receberam até ameaça de morte. Hoje são jovens assim, que estão casados, já têm filhos (E13). Infere-se que houve visada de consciência por parte dos jovens. Conseguem se desvencilhar de uma vida não projetada e arrebatada pelas condições inóspitas para uma vida sopesada por condições mais humanas, dignas e saudáveis. Desconstroem empecilhos, criam condições de vida que lhes 81 permitem construir famílias, voltar ao ensino formal, circular no bairro e criar afetos, entre outros. No que se refere à circulação dos jovens, Vianna e Lovisolo (2009, p. 154) afirmam que esta é necessária para que adquiram mais identidade com o contexto, pois “o deslocamento pelas ruas da comunidade amplia o círculo dos conhecidos e as possibilidades de se apropriarem dos códigos e sinais que lhes indicam segurança ou risco nos momentos de tranquilidade ou conflito na comunidade”. Aquino (2010, p. 138) cita que diante de uma boa condução dos profissionais de Educação Física, o esporte: [...] pode ser um guia para o conhecimento do ser humano. Ele traz consigo ensinamentos que podem ser levados para a vida, e agrega valores como confiança, respeito, cooperação, responsabilidade, entre outros. A interação com novas pessoas pode provocar mudanças a nível pessoal e coletivo. Nesse sentido, afirma-se que as atividades esportivas propõem um desenvolvimento que não seja meramente técnico e/ou tático, mas consiga revelar novos valores, como o desenvolvimento de atitudes que tenham impactos positivos no decorrer de suas vidas. Muitos jovens que frequentavam as oficinas foram retirados do envolvimento com as drogas, devido a vários fatores como o acesso às informações de acesso básico. Pararam de usar drogas e deixaram de seguir a vertente da criminalidade e buscaram um caminho no qual veem possibilidade de um emprego, de fazer cursos de formação, curso superior, fazer parte de uma equipe de ponta e constituir e manter uma família de forma lícita. A oficina se constitui, por conseguinte, em ferramenta e espaço para ultrapassar o fazer/pensar reiterativo para um pensar/fazer diferente assentado em criação e criticidade. Para Soares et al. (2009, p. 196), “a oficina é um instrumento potente para que os sujeitos - agentes e coprodutores do processo educativo - participem com a finalidade de transformar a práxis reiterativa em práxis criativa”. Diante dessa assertiva, apresentam-se alguns fragmentos de discurso: [...] vários jovens quando entrou na oficina mesmo, mexia com droga ou os familiares mexem com drogas. [...] tinha a vertente de não seguir uma vida mais correta [...] ou então, seguir esta vida mesmo, da 82 criminalidade. Hoje em dia tenho vários jovens que chegam depois da minha oficina e falam: o fessor, tô trabalhando, o fessor, passei na ASPROM (E3). [...] jovens que através do programa fizeram cursos. Eh, e através dos cursos foram encaminhados para trabalho (E5). Nós já tivemos situações aqui, de jovens, de tomarem a decisão de parar de fazer o uso. E conseguir se manter, fora do uso, de entorpecentes. Nós tivemos situações de jovens [...] de decidir de não matar um ao outro [...]. Mais a partir do desenvolvimento, como as coisas aconteciam. Pelo fato, eu acredito, do relacionamento. [...] os jovens se relacionam comigo e uns com os outros, que os ajudaram tomar a decisão [...] (E7). [...] a maioria dos meninos que eu perdi foi pro lado positivo da vida. [...] meninos que eram totalmente rebeldes, agressivos, que respondiam, falavam palavrões e hoje eles têm uma relação totalmente diferente. [...] tem uma interação, uma socialização melhor, uma fala menos agressiva. [...] o respeito dos meninos melhorou. Eu tenho meninos que hoje tão fazendo faculdade. [...] eu percebo que há mudança nas atitudes, na questão de responsabilidade, na questão de busca de objetivos, na questão de poder circular na própria cidade. Coisa que alguns não faziam. Nem na comunidade circulavam. E hoje circulam. Questão de constituição familiar. Então, eu tenho ex-alunos e alunas que já se casaram, tem filhos e que cria certa responsabilidade. Então, eu vejo assim, que há um processo, uma evolução, mudança muito grande nos jovens, em questão de comprometimento, de responsabilidade (E10). Apesar do Programa “Fica Vivo!” não ter como objetivo a formação de atletas, muitos jovens que possuem desenvolvimento técnico e/ou tático em nível compatível com os de atletas de rendimento foram encaminhados para equipes de ponta do estado, conforme se apreende nas falas a seguir: Tem um aluno meu que jogou no Vila Nova, dois anos. Tem aluno meu que passou no Betim, que é o antigo Ipatinga que virou Betim e agora voltou a ser Ipatinga. [...] um jovem que passou no Atlético, treina no Atlético hoje (E3). [...] tem casos de jovens minhas que saíram da oficina e entraram num time de futsal, que foi o Atlético (E5). Com essa convivência fora de onde esses jovens estão inseridos, possibilita-se uma interação e torna-se um exemplo bem-sucedido da efetividade do programa, ou seja, demonstra a formação integral desses jovens. Além dessa formação, vários jovens encontram-se melhores, em aspectos sociais e psicológicos, para enfrentarem as adversidades encontradas no decorrer de suas vidas. São preparados para a vida. Na acepção de Thomassim e Stigger (2009, p. 8), a educação por meio do esporte: 83 [...] significa bem mais do que a recepção ou assimilação passiva de supostas virtudes próprias do esporte. São as relações sociais, em cada contexto, que dão significados ao esporte; e não o raciocínio contrário, ou seja, de que estes significados estejam, de antemão, imbuídos no esporte, independente do contexto em que ele é praticado. Apesar de se conhecer todos os benefícios provenientes do esporte, sua assimilação é individual e coletiva. Ao mesmo tempo em que o sujeito tem o direito de escolhas e de trilhar por caminhos que lhe são mais aprazíveis no seu pensar e agir, essa escolha pode ser contrária aos pressupostos e objetivos de qualquer programa. Não se escolhe pelo outro, o outro é quem escolhe para si. A assimilação dos benefícios é considerada coletiva na medida em que a comunidade se desenvolve, os jovens mudam comportamentos, saem da criminalidade, tornam-se protagonistas de ações positivas e motivam outros jovens para também operarem mudanças. Os sujeitos deste estudo relatam que também “perdem” os jovens para o mundo da criminalidade ou não conseguem tirá-los dele. Destacam, assim, que alguns que frequentam as oficinas não foram alcançados pelo programa e se perderam na criminalidade ou no tráfico. A gente percebe dois tipos de mudança [...] o jovem que a gente consegue dialogar, conversar, intervir e mostrar para ele que há outros caminhos. E tem as mudanças pro mal. Que a gente vê que alguns jovens que a gente viu, desde pequeno, frequentando a oficina, frequentando a comunidade, a gente não conseguiu, eh, ganhar essa briga pro tráfico e ver esse menino indo pro tráfico. [...] acho que a nossa quantidade de acerto é muito maior que a quantidade de erro (E1). Diante dessas mudanças destacadas pelos sujeitos, Thomassim e Stigger (2009, p. 8) salientam que: [...] a crença instalada socialmente é de que valores, hábitos e ensinamentos morais, ao serem vivenciados nas atividades dos projetos sociais, podem contribuir para transformar as relações na sociedade, marcadas pelo desrespeito, indiferença e pela violência. 2.4.4.2 Mais dificuldades no trabalho com os jovens Diversas dificuldades na realização do trabalho nas oficinas são descritas. Segundo Matos e Andrade (2011), as intervenções realizadas por meio do 84 esporte podem servir para a vida e para o cotidiano dos jovens, conscientizandoos de suas atividades e valores. Para potencializar esse, trabalho as dificuldades encontradas necessitam ser resolvidas. Dificuldades são encontradas no cotidiano das atividades efetivadas nas oficinas. Destaca-se a estrutura física, principalmente, no momento da instalação das oficinas, pois cabe ao oficineiro a responsabilidade de encontrar o espaço físico onde estas serão realizadas. Isso não é tarefa fácil, pois existem muitas dificuldades em conseguir parceiros. São considerados parceiros todos os comerciantes, empresários, entre outros, que possibilitam o funcionamento da oficina, disponibilizando espaços e, em outras situações, ajudando em relação ao lanche e deslocamento desses jovens para determinados eventos. Outra dificuldade é relativa à questão financeira, uma vez ser também o oficineiro o responsável pela compra de todo o material necessário para a realização da oficina e de fornecer aos jovens lanche nos dias dos encontros. Para Matos e Andrade (2011, p. 138-139), “as políticas públicas relacionadas a projetos sociais, sob o ponto de vista ideal, devem proporcionar condições mínimas para tornar efetiva a igualdade de direitos”. Essa responsabilidade instituída para os oficineiros, que devem se responsabilizar pela escolha dos espaços e pela compra dos materiais e lanches, contradiz a política/objetivos do Programa “Fica Vivo!” e as políticas públicas de projetos sociais. O facilitador/mediador/oficineiro tem atividades outras que são afeitas às compras e, ressalta-se, com o próprio salário. Não contam com espaços para realizar o trabalho para o qual foi contratado. É importante trazer à tona que a verba existe para resolução dessas dificuldades, devido aos altos valores repassados para o Instituto ELO, OSCIP que, por meio de um termo de parceria, foi celebrado com a SEDS, em 2005, e seguido de vários termos aditivos. Os profissionais que atuam na ponta, diretamente ligados aos jovens, deveriam dispor de um montante maior de recursos para a realização eficiente e eficaz do seu trabalho ou, melhor dizendo, o programa deveria disponibilizar toda a infraestrutura de logística para a efetivação do trabalho com os jovens. Para confirmar essas dificuldades, vejam as seguintes unidades de registro: 85 O problema é estrutura física e financeira [...] (E2). Eh, uma das dificuldades, eh, questão estrutural. Eh, sempre é um fator, eh, limitante, a questão de recursos (E4). A dificuldade maior que eu tenho é questão de estrutura, pra trabalhar (E6). Uma delas, eh, é dificuldade de material, que nós temos demais. [...] quero desenvolver minha oficina, eu tenho que conseguir esse espaço pra poder desenvolver. [...] percebo que, às vezes, o Programa, ele gera uma falha, nesse início, que ele também, poderia auxiliar o oficineiro a conseguir essa demanda de espaço. Não só o oficineiro apresentar (E7). Outra dificuldade detectada é o desejo de inibir ou amenizar a situação dos jovens envolvidos com o tráfico e que querem, o tempo todo, se submergir em algum tipo de confusão. É sabido que atividades esportivas auxiliam no controle da agressividade. Contudo, esse controle não acontece da noite para o dia. É um processo de conquista e que inicialmente deve haver o envolvimento do oficineiro com os jovens, criação de vínculos e de respeito mútuo. Dessa forma, o oficineiro consegue ter acesso aos jovens e, de alguma forma, iniciar um processo de aproximação e de possibilitar a transformação nas suas vidas. Diante da problemática percebida pelos oficineiros, Matos e Andrade (2011, p.140) alegam que: [...] o esporte pode proporcionar benefícios psicológicos aos jovens, pois pode ser articulador de ações educativas através de atividades que enfatizam a saúde, a arte e o apoio à escolarização. Além disto, oferece ao jovem um espaço protetor, esportivo, educador, lúdico e socializador. Estas ações educativas fornecem ao jovem um ambiente promotor de saúde e de desenvolvimento de diversas habilidades. Outra dificuldade apreendida diz respeito à abordagem de certas temáticas, consideradas temas polêmicos relacionados ao cotidiano dos jovens, principalmente em determinados momentos, como conflitos e guerras. Soares et al. (2009, p. 190) relatam que: [...] pressupõem que trabalhadores de instituições sociais, participantes das oficinas – ao menos em sua maioria – sentem-se despreparados para abordar essa temática com os jovens, e quando o fazem, tendem a apoiar-se em uma perspectiva que coloca, sobre o jovem, a responsabilidade pelo envolvimento com as drogas e pelos prejuízos que podem daí advir, atribuindo-lhe, também, a responsabilidade pela mudança. 86 Instaura-se, a partir desses dizeres, reflexões e descobertas de que, em determinados momentos, há oficineiros que podem não estar capacitados para o exercício do seu fazer. Como agir com o outro se não se sente preparado para tal? Responsabiliza-se pela busca da própria capacitação ou delega ao jovem, unicamente, o não querer se implicar e mudar? Avizinhar-se de certos temas e trazê-los para a oficina é uma dificuldade sentida, conforme depoimentos dos oficineiros: Você conseguir manter o jovem na oficina, eu acho, que é uma das maiores dificuldades. [...] eu vejo que, às vezes, você abordar certas temáticas também é algo um pouco mais difícil (E10). A grande dificuldade, às vezes, é você falar de temas tão polêmicos que estão relacionados no cotidiano do jovem. [...] fazer com que ele compreenda que existe outro panorama que ele pode, de repente, observar e, de repente, seguir. Que não é o que ele está vendo na comunidade (E11). [...] eu acho, principalmente, quando está entre conflito, falar com quem é envolvido desses conflitos. [...]. Porque quando, eh, há esses conflitos as pessoas ficam muito alteradas, muito agitadas. Eh, costuma ir na oficina e não ficar o tempo todo. Então, a gente tem que pegar sempre em pequenos grupos. Tentar falar que da forma que está não pode continuar (E12). Esses depoimentos mostram que os protagonistas das oficinas, em alguns encontros, não são os jovens no tocante às discussões levantadas. Em vez dos jovens se tornarem ativos, dizerem, refletirem sobre o próprio agir, pensar e sentir, parece que o oficineiro dita sua concepção de “tenta falar que da forma que está não pode continuar”. Quem deve se conscientizar dessa situação? Quem deve se abrir para as mudanças? Elas são internas ou são impostas? A rotatividade dos jovens também é considerada um fator que influencia diretamente o desenvolvimento e a evolução do trabalho que está sendo realizado. Pode-se considerar que é uma dificuldade manter os jovens dentro das oficinas, visto que a juventude vive de modismos e pode ser influenciada e levada a outros caminhos. Cabe ao oficineiro estar atento para oportunizar aos jovens que frequentam sua oficina atividades dinâmicas e que os motivem de forma positiva, além de lhes dar voz. As unidades de registro expressas pelos sujeitos confirmam essa dificuldade: 87 A maior dificuldade hoje é o comportamento dos jovens que são envolvidos com tráfico. [...]. Os caras têm disposição o tempo todo pra querer brigar, pra poderem fazer bagunça, pra poder ir pro enfrentamento. A maior dificuldade é a gente poder inibir ou acabar ou amenizar o jovem que quer ir o tempo todo pro enfrentamento com outros jovens da comunidade (E1). A grande dificuldade assim, que a gente enfrenta talvez, é a rotatividade. O programa é muito rotativo. [...] o jovem [...] ele vem, fica um tempo, algum tempo ele desaparece, volta. [...] a maior dificuldade que a gente tem é a descontinuidade. [...] a gente tem uma dificuldade grande [...] é com os espaços. [...] questão de pareceria. As parcerias são muito complicadas (E9). Há dificuldades que são do próprio contexto de vulnerabilidade onde vivem os jovens. A ausência dos jovens nas oficinas devido a fatores advindos da comunidade, como homicídio, períodos de guerra são dificuldades enfrentadas pelos oficineiros. Apesar de esses momentos serem considerados pelos oficineiros uma dificuldade, isso está muito distante de ser controlado, devido ao local onde as oficinas se concretizam. Essa situação vivida pela comunidade em determinados momentos dificulta o trabalho dos oficineiros, o que pode ser conferido nas seguintes falas: A maior dificuldade que eu tenho aqui pra dar oficina é quando ocorre algum homicídio, quando tá em guerra, que os jovens não conseguem circular na própria comunidade. Então eles não descem para a oficina (E5). E, talvez, o jovem tenha essa dificuldade de deslocar também, da casa dele pra oficina, mais a dificuldade mesmo no sentido aí, da violência, de o jovem não poder vir. Que isso que eu percebo como um empecilho pra atrapalhar o funcionamento da oficina (E8). Há também dificuldades relativas à realização de oficinas com grande número de jovens. Falta uma equipe maior para que o número de jovens beneficiados seja maior, pois para atingir esses jovens de forma mais efetiva, seria necessário estar mais próximo e também trabalhar com suas famílias. A falta de envolvimento com as famílias reduz o número efetivo das mudanças e transformações que se busca com os jovens. Vejam-se os relatos: Maior dificuldade é ser um só. [...] acho que o mais difícil é você conseguir realizar a atividade, sendo uma pessoa só e ter que fazer tantas outras atividades ao seu redor. Isso é o mais complicado (E3). [...] a questão de um acompanhamento. Eh, de uma equipe, assim, maior. De tá indo, às vezes, mais na oficina. [...] falta um pouco da 88 questão financeira também, tipo assim, de deslocamento com os jovens pra poder participar de campeonatos. Isso ajudaria proporcionar o lazer a eles (E13). O QUADRO 3 indica as maiores dificuldades encontradas pelos profissionais de Educação Física/oficineiros e suas causas. QUADRO 3 - Dificuldades enfrentadas no Programa “Fica Vivo!” e suas causas DIFICULDADES Estrutura física Questão financeira Inibir e/ou amenizar confusões Rotatividade dos jovens Ausência dos jovens CONTEXTO - O oficineiro é responsável pelas parcerias. - Espaço físico inadequado - O oficineiro é responsável pela aquisição do material, lanche e deslocamentos. - A agressividade dos jovens - Muita influência negativa - Modismo - Falta de acesso dos jovens - Homicídios - Período de guerra Abordar temas polêmicos, principalmente em momentos específicos (conflitos) - Aceitação dos jovens Envolvimento com a família - Falta de envolvimento com a família dos jovens. Fonte: dados da pesquisa, 2014. Vianna e Lovisolo (2009) sugerem que as instituições públicas e privadas parecem supor que essas atividades realizadas são suficientes para que os sujeitos tenham uma vivência de socialização positiva e de cidadania. Essas atividades, apesar de serem uma grande ferramenta de socialização que visa proporcionar mais cidadania, não podem ser consideradas como solução para um problema de maior amplitude. 2.4.5 Categoria 5: capacitando-se para capacitar o outro A necessidade de capacitar-se para capacitar o outro é imprescindível, pois os oficineiros precisam dispor de um conhecimento interdisciplinar, devido à grande diversidade pessoal e social e, desta forma, conseguir contribuir de forma mais efetiva na vida dos jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!”. De acordo com Brito et al. (2013, p. 70): 89 A capacitação, que envolve treinamento e desenvolvimento, são fatores importantes numa estratégia de desenvolvimento organizacional. O treinamento possibilita o desenvolvimento da equipe de trabalho, a resolução de problemas, o rendimento com mais eficácia, mudanças de comportamento, desenvolvimento de habilidades e atitudes, itens importantes para o desenvolvimento organizacional. Em relação ao ofício da modalidade que é trabalhado nas oficinas, os profissionais não recebem qualquer tipo de capacitação. Pode-se inferir que o ofício é realizado com base em conhecimentos próprios, individuais, construídos no dia-a-dia, sem uma sustentação teórica, possivelmente. Deduz-se que a oficina se processa com erros e acertos, mas também com ganhos e perdas. A intuição instaura o acontecer em grupo e os jovens participantes usufruem o que lhes é ofertado. Nesse encontro grupal, vínculos se constroem, diálogos se fazem, questões se levantam, respostas são dadas. Mas poderia se ter uma reflexão mais crítica, um conhecimento mais elaborado, um inquirir-se mais contundente e diretivo, um fazer orientado pela teoria e esta retroalimentada, isto é, ação, reflexão e ação. Acredita-se que seriam muito relevantes as capacitações para os profissionais de Educação Física, facilitadores das oficinas, visto que o conteúdo de como trabalhar oficinas não faz parte da grade da graduação do curso de Educação Física e, também para os demais oficineiros, pois o critério de seleção não descreve a necessidade da formação no curso de Educação Física para ministrar as oficinas. Portanto, seria uma forma de aperfeiçoar o trabalho desses oficineiros que já atuam e não possuem a qualificação devida nesse contexto. Anualmente é realizado o encontro dos oficineiros. Trata-se de um momento de integração e de trocas de experiências relacionais e técnicas, o que possibilita otimização do seu trabalho com os jovens. As unidades de registro corroboram essas assertivas: Anualmente, a gente participa de um encontro de oficineiros e algumas vezes já recebemos curso de capacitação promovido pela Secretaria de Defesa Social, sim (E1). [...] o Programa, eh, por algumas vezes, já promoveu algumas capacitações, mais nessa parte relacional, não na parte técnica em si. Eh, na parte técnica de conteúdo esportivo, eh, ainda carece de algumas, de o Programa ter algum tipo de capacitação (E4). Específicas assim, do tema das oficinas, não. Mais a gente tem capacitações, eh, de, tipo assim, com temáticas específicas assim [...]. 90 Território, eh, jovens com envolvimento, [...] (E5). As falas de E1, E4 e E5 significam que a capacitação é carente de alguns conteúdos, principalmente relativos à parte técnica esportiva. Há direcionalidade de formação nos temas de território, cursos de primeiros socorros e temáticas pontuais concernentes a algum evento a ser realizado. Há revelação de que, tempos atrás, as capacitações aconteciam mais vezes e, hoje, uma vez ao ano: Havia um número maior de momentos com formação. Já tivemos, na minha área, já tivemos formações na área de esporte. Apesar, de acontecer somente próximo a alguns eventos, principalmente, olimpíadas. Tivemos já algumas capacitações, envolvendo, eh, cursos de primeiros socorros, algumas oficinas de desenvolvimento de atividades mesmo, com jovens. Mais hoje dentro do Programa, não acontece isso, tão continuamente, como acontecia antes. Há um tempo atrás isso era. Eh... [momento de silêncio]. Mais contínuo (E7). A gente recebe. Uma vez no ano tem essa capacitação, geralmente, ela é em dezembro [...] (E8). Nós recebemos. Eh, normalmente, acontece alguns encontros com os oficineiros, pelo menos, uma vez ao ano, onde é possível haver uma troca de experiências e nós também temos reuniões individuais com nossa equipe técnica, onde também recebemos orientações e auxílio em determinadas situações que houver necessidade (E11). Devido à complexidade do Programa “Fica Vivo!”, mais capacitações externas deveriam ser realizadas, levando-se em consideração as demandas emergenciais de determinados CPCs ou de ações isoladas que sejam relevantes. Acredita-se que apenas uma ao ano não seja suficiente para suprir a necessidade do programa nem das pessoas que o materializam na prática. Destaca-se que apenas 46,15% dos sujeitos da pesquisa afirmam receber poucas capacitações externas; os mesmos 46,15% não recebem capacitações internas realizadas nas reuniões; e apenas 7,7% declaram não ter capacitações, de acordo com o E3: “o Fica Vivo! mesmo não tem essa capacitação não”. Considera-se que quanto maior o número de capacitações externas, maior será o desenvolvimento das atividades mediatizadas pelos seus responsáveis, pois a troca de experiências destes é extremamente relevante para o encontro de ações positivas e o encontro de alternativas para aquelas consideradas frágeis. A TAB. 2 mostra o quantitativo de capacitações verbalizadas pelos respectivos sujeitos. 91 TABELA 2 - Os oficineiros e as capacitações no Programa Fica Vivo! Situação Sujeitos (oficineiros) Nº de oficineiros % Não Recebem E3 CAPACITAÇÕES Recebem Poucas (Externas) Capacitações Internas (Reuniões) E1, E4, E6, E7, E8, E12 E2, E5, E9, E10, E11, E13 1 6 6 7,7% 46,15% 46,15% Fonte: dados da pesquisa, 2014. Brito et al. (2013, p. 78) salientam que a capacitação é uma “ferramenta para melhoria do desempenho profissional individual e organizacional”. Gil (2011, p. 39) preleciona: “não são apenas as máquinas e os equipamentos que se tornam obsoletos; os conhecimentos e as habilidades também. Mais do que em qualquer outra época, portanto, o trabalhador qualificado é que passa a ser a diferença”. Em consonância com a metodologia do Programa “Fica Vivo!”, é dever do técnico durante as reuniões “capacitar, orientar e supervisionar o trabalho do oficineiro, bem como discutir com o mesmo os atendimentos realizados na oficina ou em outros espaços da região onde o programa está implantado” (MINAS GERAIS, 2009, p. 89). As reuniões realizadas são consideradas capacitações internas, sendo que todos os sujeitos entrevistados afirmam participar de todas as reuniões e, consequentemente, das capacitações que acontecem durante essas reuniões. Conforme consta nos Relatórios Gerenciais do Programa, os técnicos e gestores do programa recebem capacitação. Brito et al. (2013) adverte que a acessibilidade e disponibilidade de capacitações devem ser observadas com atenção. As unidades de registro legitimam essa concepção: As atividades de dinâmicas que são mais relacionadas ao projeto, o Programa Fica Vivo!, a gente tem uma reunião, uma vez por mês [...]. Que elas são pra, como se fosse um curso de capacitação mesmo (E2). [...] a gente tem capacitação. [...]. A equipe técnica sempre tá trazendo algo novo pra gente tá discutindo, principalmente, eh, dependendo do momento que a gente tá vivendo no território, assim, tentam [...] fazer essas conversas, diálogos; trazer alguém que às vezes tem uma experiência com esse tipo de situações. A gente tem capacitação constante [...] . As reuniões, muitas vezes, eram temáticas, pelo menos uma vez no mês a gente fazia uma capacitação com, ou dentro mesmo da equipe ou convidando alguém de fora pra vir falar (E9). 92 Olha, eh, às vezes, poderia até acontecer mais, às vezes, mais algumas palestra com alguns temas que a gente acha um pouco difícil é falar no dia-a-dia, principalmente pelo Programa que envolvem muito com pessoas de risco, envolvidos na criminalidade (E12). Eh, umas reuniões também, que envolvem todos os Fica Vivo! da região metropolitana. [...]. A gente senta em grupo, discute. Eh, cada oficineiro relata suas dificuldade, suas experiências da oficina. Então, a gente faz muita troca, assim, de informações (E13). Portanto, devem repassar os conhecimentos adquiridos durante as capacitações, tendo em vista a frequência dos oficineiros nas reuniões. No QUADRO 4 as unidades de registro confirmam essa presença: QUADRO 4 - Presença dos oficineiros nas reuniões do Programa Fica vivo! “Eu participo sempre.” “Eu participo de todas as reuniões.” “[...] eu participo de todas.” “Eh, sim, participo”. “Eu participo sempre”. “A gente participa”. “Eu participo”. “[...] eu participo das reuniões semanais”. “Participo. Todas. Dificilmente eu falto”. E1 E2 E3 E4 E6 E9 E11 E12 E13 Fonte: dados da pesquisa, 2014. Para Maraschin, Chassot e Gorczevski (2006, p. 294): O fazer-se oficineiro e a prática da oficina se constituem em uma tensão entre o fora da oficina: público-alvo, comunidade [...]. Esse “fora” consiste em agentes perturbadores que levam a diferentes posições e negociações no grupo, capazes de fazer operar mudanças em seus modos de atuar. O público das oficinas é uma das principais razões de existir o trabalho dos oficineiros. O público usual dos oficineiros são jovens considerados “vulneráveis” ou “em situação de risco”, e as oficinas são frequentemente vistas [...] como formas de oferecer alternativas a este jovem, afastando-o das drogas, do crime, aumentando seu envolvimento com a comunidade, sua autoestima, estimulando a criatividade, a crítica social. De acordo com os dados coletados, foram identificados alguns assuntos e atividades discutidos durantes as reuniões do Programa fica Vivo!. As unidades de registro relatam essas discussões: [...] as discussões são: orientação para poder fazer uma intervenção [...] 93 com esses jovens (E1). [...] passam os informes [...] e a gente sempre apresenta como se fosse um trabalho mesmo. [...] às vezes, a gente tem reunião com os parceiros (E2). São vários temas que eles trazem pra nós. [...] sempre traz algo novo, a gente faz uma dinâmica (E3). [...] durante as reuniões a gente trabalha alguns casos específicos de algum problema que tiver acontecido em algumas das oficinas, e desenvolvemos, eh, discussões sobre a dinâmica criminal dentro da nossa região e como as diversas formas de enfrentamento dessa dinâmica criminal e como a gente pode potencializar os trabalhos da oficina e do núcleo como um todo (E4). [...] a gente discute nessas reuniões é um pouco o que o jovem traz pra gente dentro da oficina, a realidade deles, a gente não vai pra reunião com uma temática específica, através do que os jovens passa pra nós oficineiros, a gente coloca na pauta da reunião de oficineiros (E5). Eh, os assuntos são variados, do ofício do oficineiro, há algumas demandas institucionais mesmo, do próprio Estado ou do Instituto ELO, que é hoje quem gerencia o Programa Fica Vivo! [...] demandas de dentro da comunidade. [...] como nós podemos debater esse assunto. Para que todos se interajam e consigam ajudar o jovem (E7). [...] a gente traz essas discussões, reuniões, falando, fazendo avaliação da oficina, fazendo avaliação do grupo ali. [...]. Entender um pouco o que tá acontecendo pra tomar as ações de prevenção. [...]. Eh, pensar também quais ações, que efeito que tá causando (E9). As discussões, elas acontecem tanto nas questões administrativas de fluxo de trabalho, tanto nas questões dos acontecimentos que estão tendo na comunidade. De ações intersetoriais com os oficineiros. [...] um evento [...] os parceiros que podem auxiliar a gente no trabalho naquela comunidade. Essa mais na questão geral, nas reuniões gerais. [...] ações que são feitas em conjunto. [...] nas reuniões individuais, são aspectos mais individuais mesmo [...] dificuldades. Eh, se tem alguma demanda de um jovem específico. [...]. Quais são as ações pra um trabalho mais em conjunto com o CPC (E10). Eles servem tanto para a troca de experiências, quanto também pra passar algumas informações decorrentes de possíveis ações na comunidade e também uma forma de uma orientação técnica, que é passada através de nossas superiores (E11). [...] é debate em tudo (E12). Eh, as reuniões se trabalha temas diversos. Como lidar com esses jovens que fazem uso de drogas, eh, às vezes vem oficineiro de outro, com fala, outro bairro, outro núcleo pra poder vir contar suas experiências. Então, assim, cada semana é um tema diferente, sabe, que a gente aborda. Eh, eventos que a gente vai realizar com os jovens (E13). O QUADRO 5 sintetiza as diversas discussões que são realizadas durante as reuniões que acontecem tanto para discutir os informes gerais para o 94 desenvolvimento das oficinas quanto para proporcionar momentos de capacitação para que os oficineiros se tornem mais qualificados no desenvolvimento de suas atribuições. QUADRO 5 - Discussões realizadas durante as reuniões realizadas no Programa Fica Vivo! DISCUSSÕES DAS REUNIÕES: Assuntos e Atividades trabalhadas - Informes gerais - Organizações de eventos desenvolvidos nos CPCs - Dinâmica criminal / território - Debates com temas diversificados - Dinâmicas - Ações intersetoriais - Ações de prevenção - Demandas da comunidade, e principalmente dos jovens - Avaliação das oficinas - Assuntos cotidianos dos oficineiros - Formas de intervenção e/ou encaminhamentos para os jovens que necessitam - Relatos de ações bem-sucedidas que possam ser repassadas - Formas de potencializar o trabalho dos oficineiros - Reuniões com os parceiros Fonte: dados da pesquisa, 2014. Destaca-se que diversos temas são abordados nas capacitações e em consonância com o dia-a-dia das atividades educativas realizadas pelos oficineiros. Chama, contudo, a atenção para quem atua como oficineiro não ter recebido qualquer capacitação acerca de como realizar uma oficina. Ao basear-se nessas capacitações e reuniões realizadas relacionadas ao desenvolvimento local desse contexto nos quais esses jovens estão inseridos, Temponi e Machado (2011, p. 562) propõem que o “desenvolvimento local é aqui entendido como aquele que se organiza e se regula pela base da sociedade e que vai além dos aspectos econômicos, implicando mudança de foco, por estar centrado nas pessoas e no seu ambiente”. 2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Programa “Fica Vivo!” apresenta resultados positivos, por meio de um trabalho voltado para o desenvolvimento pessoal e interpessoal dos jovens, sendo 95 atendidos, em média, mais de 13 mil jovens por ano. As atividades esportivas realizadas pelos profissionais de Educação Física/oficineiros ressignificam sua prática educativa, pois se acredita que a transformação se processa pela ação dos sujeitos, a partir de uma relação de horizontalidade e libertação. Os profissionais de Educação Física/oficineiros comentam que para os jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!” as atividades desenvolvidas nas oficinas, além de possibilitarem momentos agradáveis que proporcionam socialização, interação e qualidade de vida, também fazem com que eles vejam novas alternativas e se acreditem como seres de possibilidades e que podem fazer escolhas e operar mudanças significativas em suas vidas, mesmo diante das adversidades. Apesar das particularidades, essas mudanças acontecem, trazendo resultados positivos para a formação integral desses jovens. O acesso às diversas questões básicas, que anteriormente era considerado distante, longe de sua realidade, torna-se oportunidade possível. A frequência dos jovens nas oficinas gera contato face a face com os oficineiros, aproximando-os e criando vínculos que, consequentemente, permitem aos profissionais de Educação Física obter melhores resultados com o seu trabalho. Infelizmente, em momentos críticos (guerra, homicídio) na comunidade há redução dessa frequência, fazendo um corte no desenvolvimento pessoal, social e intersubjetivo dos jovens. Contudo, nesse cenário nebuloso, uma luz se acende no fundo, quando a infrequência se faz por conta de situações de crescimento pessoal do jovem: conseguiu emprego ou ser aluno de um curso. O contato direto dos jovens/jovens e jovens/oficineiros, por meio das atividades das oficinas, evoca mais entusiasmo, envolvimento e trocas entre eles. A partir do levantamento e expressão das suas demandas, efetivam-se atividades que os atendem. Desenvolvem, assim, capacidades necessárias para a solução de determinada situação de vulnerabilidade. As mudanças propiciadas pelos profissionais de Educação Física são significativas, processando-se o desenvolvimento integral dos indivíduos. Agregase, ainda, a melhoria da qualidade de vida ao assumir caráter social com papel transformador, cujos sujeitos acreditam nas possibilidades de transformação. Diante dessas mudanças, esses jovens se tornam protagonistas em suas vidas, sendo mais conscientes dos seus direitos aos acessos básicos, tais como educação, saúde e lazer, bem como de seus deveres de cidadãos. 96 REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Miriam et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. Brasília: UNESCO, BID, 2002. AFONSO, Maria Lúcia Miranda. (org) Oficinas em dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. AQUINO, Giselle Braga de. O esporte como elemento socializador e formador de crianças e jovens. Revista Científica da FAMINAS. v. 6, n. 2, p. 125-140, mai./ago., 2010. ARAÚJO, Joselaine de; LUVIZOTTO, Caroline Kraus. Educação não formal: a importância do educador social na construção de saberes para a vida em coletividade. Colloquium Humanarum, Presidente Prudente, v. 9, n. 2, p. 73-78, jul./dez., 2012. ARAÚJO, Lucirley Guimarães de Souza. Relação entre comportamento na infância e a vulnerabilidade social na cidade de Belo Horizonte-MG. 2010. 121 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2010. BAQUERO, Rute Vivian Angelo; LEMES, Marilene Alves; SANTOS, Eliene Amorimdos. Histórias de vida de jovens egressos de medidas socioeducativas: entre a margem e a superação. Educação, Porto Alegre, v. 34, n. 3, p. 341-350, set./dez., 2011. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: 70, 2008. BRASIL. Lei nº 9.696, de 01 de setembro de 1998. Dispõe sobre a regulamentação da Profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física. Diário Oficial da União, Brasília, 2 set. 1998a. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9696.htm>. Acesso em: 16 nov. 2013. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1998b. 114 p. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1997. 96 p. BRITO, Marcia Yassunaga et al. Estudo sobre a importância da capacitação do servidor administrativo do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás. Revista de Administração Hospitalar, v. 10, n. 2, p. 65-77, mai./ago., 2013. COCCO, Marta; LOPES, Marta Julia Marques. Violência entre jovens: dinâmicas Sociais e situações de vulnerabilidade. Revista Gaúcha de Enfermagem (Online), v. 31, n.1, p. 151-159, 2010. 97 CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA (CONFEF). Resolução CONFEF nº 056/2003. Dispõe sobre o Código de Ética dos Profissionais de Educação Física registrados no Sistema CONFEF/CREFs. Conselho Federal de Educação Física, Rio de Janeiro, 18 ago. 2003. Disponível em: <http://www.confef.org.br/extra/resolucoes/conteudo.asp?cd_resol=103>. Acesso em: 9 nov. 2013. CORREIA, Marcos Miranda. Projetos sociais em Educação Física, esporte e lazer: reflexões e considerações para uma gestão socialmente comprometida. Arquivos em Movimento, v. 4, n. 1, p. 114-126, jan./jun. 2008. CORREIA, Mesaque Silva et al. O papel da Educação Física escolar diante do fenômeno da violência na escola. Integração VER CIDADE, v. 16, n. 61, p. 149154, abr./jun. 2010. FARIAS, Renato Romero Toledo; NORO FILHO, Marcos Augusto; LACZYNSKI, Patrícia. Relatório Final: Projeto Conexão Local. Programa de Controle de Homicídios – Fica Vivo! 2009. Disponível em: <http://gvpesquisa.fgv.br/sites/ gvpesquisa.fgv.br/files/1_-_fica_vivo.pdf>. Acesso em: 9 set. 2013. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GEBER, Saulo Pfeffers. Jovens educadores no contexto de uma ação pública voltada para juventude na periferia de Belo Horizonte. 2010. 147 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2010. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/FAEC-87CGJM/1/ Disserta_o_de_mestrado_de_saulo_pfeffer_geber.pdf>. Acesso em 9 set. 2013. GIL, Antonio Carlos. Gestão de pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2011. GODOI, Christiane Kleinubing. Passado, presente e futuro das teorias motivacionais. Revista de Administração de Empresas, v. 49, n. 2, p. 240-241, abr./jun., 2009. GOHN, Maria da Glória. Educação não formal e o educador social: atuação no desenvolvimento de projetos sociais. São Paulo: Cortez, 2010. GREGÓRIO, Míriam Kelly de Souza Venâncio. A influência das expectativas de uma professora em relação à aprendizagem da escrita de alunos que vivem em situação de vulnerabilidade social. 2011. 183 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2011. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital. ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS8MHHRY/disserta__o___cd_fae.pdf ?sequence=1 HURTADO, Daniela Hartel. Projetos de vida e projetos vitais: um estudo sobre projetos de vida de jovens estudantes em condição de vulnerabilidade social da 98 cidade de São Paulo. 2012. 170 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Educação). Faculdade de Educação - Universidade de São Paulo (USP), 2012. KLEIN, Ana Maria. Projetos de vida e escola: a percepção de estudantes do ensino médio sobre a contribuição das experiências escolares aos seus projetos de vida. 2011. 292 p. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação Universidade de São Paulo (USP), 2011. LADEIRA, Joanna Ângelo; ROCHA, Rafael Lacerda Silveira. Plano B. In: OLIVEIRA, Kris Brettas; OLIVEIRA, Gleiber Gomes de. (org.). Olhares sobre a prevenção à criminalidade. Belo Horizonte: Instituto Elo, 2009. MARASCHIN, Cleci; CHASSOT, Carolina Seibel; GORCZEVSKI, Deisimer. Saberes e práticas de oficineiros: análise de uma cognição situada. Psico, v. 37, n. 3, p. 287-296, 2006. MARQUEZE, Elaine Cristina; MORENO, Claudia Roberta de Castro. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicologia em Estudo, v. 14, n. 1, p. 75-82, 2009. MATOS, Joana Bastos; ANDRADE, Alexandro. Intervenção do profissional de Educação Física em jovens em situação de risco social: a contribuição da Psicologia do Esporte. CONEXÕES: Revista da Faculdade de Educação Física da UNICAMP, v. 9, n. 2, 2011. MENDES, Igor Adolfo Assaf. Fica Vivo! Proteção, mobilização e intervenção. In: OLIVEIRA, Kris Brettas; OLIVEIRA, Gleiber Gomes de. (org.). Olhares sobre a prevenção à criminalidade. Belo Horizonte: Instituto Elo, 2009. MERHY, Emerson Elias. A perda da dimensão cuidadora na produção da saúde: uma discussão do modelo assistencial e da intervenção no seu modo de trabalhar a assistência. In: CAMPOS, C.R. et al. Sistema Único de Saúde em Belo Horizonte: reescrevendo o público. São Paulo: Xamã, 1998. MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Defesa Social - Superintendência de Prevenção à Criminalidade. Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo!: Sistematização da Metodologia do Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo! Belo Horizonte, jun. 2009. MINAYO, Maria Cecília de Souza; DESLANDES, Suely Ferreira; GOMES, Romeu. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2011. MONTEIRO, Simone Rocha da Rocha Pires. O marco conceitual da vulnerabilidade social. Sociedade em Debate, v. 17, n. 2, p. 29-40, jul./dez. 2011. MONTEIRO, Alberto de Oliveira; CRUZ, Lucas Lopez da. Educare (tê): O desporto como expressão de valores. Revista da Educação Física/UEM, v. 22, n. 3, p. 399-409, 2011. 99 NATALI, Paula Marçal; MÜLLER, Verônica Regina. Jogos cooperativos: olhando a teoria e escutando a prática. Revista da Educação Física/UEM, v. 20, n. 2, p. 291-303, 2009. NUNES, Carina Marina et al. Satisfação e insatisfação no trabalho na percepção de enfermeiros de um hospital universitário. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 12, n. 2, p. 252-257, 2010. OLIVEIRA, Juliana Rodrigues Ferreira de. Saberes e práticas de mulheres no cuidado de si: contribuições ao cuidado de enfermagem em uma perspectiva educativa, RJ. 2011. 129 p. Dissertação (Mestrado em Enfermagem). Programa de Pós-graduação e Pesquisa em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2011. OLIVEIRA, Maciel Júnior de; CARNEIRO, Tânia; ROSSI, Vilma Elenice Contatto. Principais motivos de satisfação e insatisfação dos auxiliares e técnicos de enfermagem da ala masculina de um hospital psiquiátrico. Ciência et Praxis, v. 5, n. 10, p. 37-42, 2013. QUARESMA, Adilene Gonçalves. A práxis social como perspectiva na concepção de educação de Paulo Freire. In: MACHADO, Lucília Regina de Souza; AFONSO, Maria Lucia Miranda (orgs). Gestão social, educação e desenvolvimento local: instrumentos para a transformação social. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. SOARES, Cássia Baldini et al. Juventude e consumo de drogas: oficinas de instrumentalização de trabalhadores de instituições sociais, na perspectiva da saúde coletiva. Interface [online], v. 13, n. 28, p 189-199, 2009. SOUZA, Ângela Maria Dias Nogueira; SOUZA, Robson Sávio Reis. Juventude e violência: novas demandas para a educação e a segurança pública. Cadernos da Escola do Legislativo, Belo Horizonte: Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, v. 11, n. 17, p. 123-148, jul./dez., 2009. SOUZA, Edison Roberto et al. Projeto de educação pelo esporte: estudo de caso sobre a contribuição do brinca mané na formação discente. Pensar a Prática, v. 14, n. 1, p. 01-12, jan./abr., 2011. SILVEIRA, Andréa Maria et al. Impacto do Programa Fica Vivo na redução dos homicídios em comunidade de Belo Horizonte. Revista de Saúde Pública [online], v. 44, n. 3, p. 496-502, 2010. TEMPONI, Flávia; MACHADO, Lucília Regina de Souza. Políticas de educação em tempo integral, de intersetorialidade e de desenvolvimento local: um diálogo possível? Revista Brasileira de Política e Administração da Educação, v. 27, n. 3, p. 361-588, set./dez., 2011. THOMASSIM, Luís Eduardo Cunha; STIGGER, Marco Paulo. Superoferta de projetos sociais esportivos: superando as imagens públicas idealizadas sobre essas ações. In: SEMINÁRIO NACIONAL POLÍTICA & SOCILOGIA UFPR 1. 2009, Curitiba. Anais... Curitiba: UFPR, 2009. Disponível em: 100 <http://www.humanas.ufpr.br/site/evento/SociologiaPolitica/GTs-ONLINE/GT9%20 online/super-oferta-projetos-sociais-Luis-Thomassim.pdf>. Acesso em: 03 jul. 2014. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG). Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP). Diagnóstico da criminalidade violenta na região metropolitana de Belo Horizonte: estudo – espaço temporal do período 1986-2001. 2002. Disponível em: <http://www.crisp.ufmg.br>. Acesso em 10 nov. 2013. VALENTE, João Pedro Oliveira. Satisfação profissional dos enfermeiros de um hospital da região centro. 2013. Dissertação (3º Curso de Mestrado em Enfermagem Médico-Cirúrgica) - Instituto Politécnico de Viseu - Escola Superior de Saúde de Viseu, Viseu, 2013. Disponível em: <http://repositorio.ipv.pt/ bitstream/10400.19/2059/1/VALENTE%2c%20Jo%C3%A3o%20Pedro%20Oliveira %20-%20Disserta%C3%A7%C3%A3o%20mestrado.pdf>. Acesso em 28 jun. 2014. VIANNA, José Antônio; LOVISOLO, Hugo Rodolfo. Projetos de inclusão social através do esporte: notas sobre a avaliação. Movimento, Porto Alegre, v. 15, n. 3, p. 145-162, 2009. VIANNA, José Antônio; LOVISOLO, Hugo Rodolfo. A inclusão social através do esporte: a percepção dos educadores. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 25, n. 2, p. 285-296, abr./jun., 2011. 101 3 PRODUTO TÉCNICO: CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O OUTRO! Ronderson Rodrigues Duarte115 Matilde Meire Miranda Cadete216 RESUMO Trata-se de produto técnico construído a partir de dissertação de mestrado. O objetivo foi capacitar os profissionais de Educação Física/oficineiros para a realização de oficinas de forma efetiva e à promoção do desenvolvimento local. Para tanto, foi ofertada capacitação por meio de três módulos e ainda uma cartilha instrucional que pode ser consultada em qualquer tempo e espaço. Procurou-se, assim, o desenvolvimento de oficinas mais efetivas com vistas à obtenção de resultados positivos em prol dos jovens em vulnerabilidade social e promoção do desenvolvimento local. Palavras-chave: Oficinas. Educação Física. Educação. ABSTRACT This technical product was developed based on a Master’s dissertation. The major goal of this reasearch was to empower the Physical Education/workshop instructors to manage workshops effectivelly and promotion of local developments. Therefore, it was offered training through three modules and an instructional booklet that can be consulted at any time. We aimed on developingf more effective workshops with a view to achieving positive results for young people in social vulnerability and promoting local development. Key words: Workshops. Physical Education. Education 1 2 Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA 102 3.1 INTRODUÇÃO Neste capítulo, descreve-se uma proposta de trabalho com oficinas de capacitação para os profissionais que as realizam no Programa “Fica Vivo!”, em específico aqueles graduados em Educação Física. Isso porque os dados da pesquisa realizada com eles abalizaram a necessidade de se buscar capacitação no desenvolvimento de oficinas, uma vez que o conteúdo ligado ao esporte e à técnica para sua execução é de domínio profissional. Junta-se a essa assertiva expressa pelos sujeitos desta pesquisa o testemunho deste pesquisador, pois como graduado em Educação Física, afirma-se que faltam conteúdos teóricos práticos no concernente à realização de oficinas. Registra-se, portanto, que os profissionais de Educação Física/oficineiros, em sua trajetória acadêmica, não receberam conhecimentos específicos que os habilitassem à preparação e execução de oficinas, conforme explicitado por estudiosos dessa metodologia de atuação (AFONSO, 2010a; BASTOS, 2010; SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014). Argumenta-se, assim, a necessidade de transpor essa lacuna na formação acadêmica e trabalhar conjuntamente com os oficineiros atuais e ativos o conhecimento que deve sustentar o desenvolvimento das oficinas que, certamente, agregará ao esporte realizado mais ação reflexão e ação, além, é óbvio, de resultados mais abrangentes e efetivos. Outro destaque é que as oficinas, além de possibilitarem a aprendizagem em grupo, que ultrapassa apenas a aquisição de conteúdos, permitem pensar a própria experiência de vida e também fazer escolhas conscientes. Inclui-se, nesse salto de qualidade nas tarefas realizadas, os deveres exigidos para os oficineiros: criar vínculo entre os jovens e o programa, instituir espaços para discussões e mediar conflitos entre os jovens, quando se fizerem presentes; gerar discussões sobre segurança pública, cidadania e direitos humanos; potencializar a autonomia dos jovens, entre outros valores; elaborar relatórios e listas de presença dos jovens atendidos nas oficinas e, ainda, fornecer lanche e comprar os materiais necessários para as oficinas (MINAS GERAIS, 2009). No Programa “Fica Vivo!” são realizadas diversas atividades, por meio das quais os jovens vivenciam momentos de socialização, integração social, além de propiciar melhores níveis de qualidade de vida. As oficinas realizadas no 103 programa objetivam prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação dos jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional; possibilitar a vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a participação dos jovens em novas formas de grupos; trabalhar temas relacionados à cidadania e aos direitos humanos; possibilitar espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades (MINAS GERAIS, 2009). Percebe-se, portanto, que as oficinas constituem uma das atividades realizadas pelos oficineiros e que exigem critérios para sua materialidade, principalmente quando se trata de espaços que abrigam jovens em vulnerabilidade social. São consideradas estratégia metodológica de ensino que busca incentivar a cooperação e a participação de todos do grupo no processo de aprendizagem e transformação proposto pelo Programa “Fica Vivo!”, que por meio do esporte oferece fatores de exposição e trocas de experiências. A partir dos pressupostos estabelecidos por Afonso (2010b), oficina é um trabalho estruturado com grupos, com foco comum, em determinado quadro social. Pode-se inferir que no Programa “Fica Vivo!” o foco é reduzir o índice de homicídios dolosos entre os jovens de 12 a 24 anos. Isso posto, Moreira e Gonçalves (2014) ponderam que as oficinas educativas têm como estratégia a formação de sujeitos com pensamentos críticos, por meio de um modelo participativo. E isso contribui para a redução desse índice de homicídios. Na concepção de Pichon-Rivière, um grupo com objetivos comuns, participação criativa e crítica, por meio de relações grupais, apresenta-se como um instrumento de transformação da realidade (BASTOS, 2010). Para que aconteça essa formação de sujeitos críticos e participativos, é primordial que os profissionais sejam qualificados e capacitados para a realização das oficinas. Sabe-se que a seleção dos oficineiros, conforme a metodologia do programa, segue os seguintes critérios: de preferência, que seja do próprio território de abrangência do Centro de Prevenção à Criminalidade; que saiba, com propriedade, o ofício a ser ofertado aos jovens bem como lidar com eles; que saiba escutar e dialogar, além de ser hábil no manejo da metodologia que norteia o programa (MINAS GERAIS, 2009). 104 Diante desse processo dinâmico e flexível das oficinas, é imprescindível o conhecimento sobre todo o processo grupal e as etapas essenciais para o seu desenvolvimento eficiente e eficaz. O trabalho dinâmico e a flexibilidade para realizar as mudanças no desenvolvimento do trabalho é fator extremamente relevante para estabelecimento do vínculo necessário para a efetividade do oficineiro. Bastos (2010) enfatiza que a internalização do vínculo, que é uma estrutura complexa, possibilita ao sujeito construir formas de interpretação da realidade. Portanto, neste capítulo apresenta-se o produto técnico cujo objetivo é capacitar os profissionais de Educação Física/oficineiros com vistas à realização de oficinas de forma efetiva e à promoção do desenvolvimento local. Com isso, propõe-se capacitação e uma cartilha instrucional dividida em três módulos, que serão detalhadas no próximo capítulo. 4.2 ABORDANDO O PRODUTO TÉCNICO As oficinas são consideradas uma estratégia metodológica de ensino que busca incentivar a cooperação e a participação de todos do grupo no processo de aprendizagem e transformação proposto pelo Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” que, por meio do esporte, oferece fatores de exposição e experiências. Afonso (2010b, p. 9) conceitua oficina como: [...] um trabalho estruturado com grupos, independentemente do número de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o grupo se propõe a elaborar, em um contexto social. A elaboração que se busca na oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas envolve os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir. Dessa forma, as oficinas podem ser utilizadas em diferentes contextos e têm como uma de suas premissas a implicação dos seus participantes em todo o processo. No Programa “Fica Vivo!”, o âmbito no qual se realizam as oficinas é de vulnerabilidade social, com jovens vivenciadores de situações de risco, em todas as dimensões do existir humano. Nesse espaço, é imperativo que aconteçam trocas dialógicas que permitam aos jovens sair da invisibilidade social, pensar e construir novas experiências sobre a realidade e a possibilidade de contribuir para 105 o desenvolvimento local. “A oficina pretende realizar um trabalho de elaboração sobre a inter-relação entre cultura e subjetividade” (AFONSO, 2010a, p. 34). Spink, Menegon e Medrado (2014) ressaltam o potencial das oficinas em propor um espaço de trocas, discussão em grupo em relação ao contexto, gerando novos pontos de vistas construtivos com vista à transformação. As oficinas educativas têm como estratégias a formação de sujeitos com pensamentos críticos, por meio de um modelo participativo (MOREIRA; GONÇALVES, 2014). Esses autores mencionam que: Trata-se de um método de intervenção que possui uma dimensão terapêutica, incentivando os sujeitos a terem espaço para a fala e a escuta, podendo expressar seus sentimentos, possuindo um caráter pedagógico de troca de informações em que os participantes aprendem e ensinam uns aos outros (MOREIRA; GONÇALVES, 2014, p. 724). Para Duarte (2011, p. 115), “a aprendizagem nas oficinas torna-se um processo dinâmico ao possibilitar mudanças em toda a estrutura e dinâmica do grupo”. A autora acrescenta que a partir de novas formas de sentir e pensar as oficinas proporcionam novas reflexões e ampliam os horizontes, sempre pautadas em uma transformação contínua. O sujeito estimula processos criativos e críticos por meio da integração e do seu reconhecimento (AFONSO; VIEIRA-SILVA; ABADE, 2009). O entendimento da definição de grupo torna-se necessária, pois ele é parte importante no processo de desenvolvimento das oficinas. Nas oficinas define-se grupo como “um conjunto de pessoas unidas entre si porque se colocam objetivos e/ou ideias em comum e se reconhecem interligadas por esses objetivos e/ou ideias” (AFONSO, 2013, p. 27). Afonso (2010b) também relata que esses grupos se constituem em uma rede de relações e não um agrupamento de sujeitos sem interesses em comum. Bastos (2010, p. 164) preconiza: Na concepção de Pichon-Rivière, o grupo apresenta-se como instrumento de transformação da realidade, e seus integrantes passam a estabelecer relações grupais que vão se constituindo na medida em que começam a partilhar objetivos comuns, a ter uma participação criativa e crítica e a poder perceber como interagem e se vinculam. Durante a formação dos grupos devem-se observar alguns elementos 106 básicos que são relevantes no processo (QUADRO 1). QUADRO 1 – Elementos básicos no processo de formação dos grupos 1- Demanda em relação ao grupo e o contexto. 2- Objetivos (motivações) do grupo. 3- Identidade ou “sentimento de nós” no grupo em um ambiente de aceitação mútua, respeitosa e democrática. 4- Organização diante dos objetivos. 5- Os padrões de interação, comunicação e participação estão relacionados com a capacidade do grupo de enfrentar as dificuldades. 6- Oscilação entre a individualização e grupalização para obter crescimento. 7- Pensar no grupo como um processo. Fonte: Afonso (2013b). Após o entendimento de grupo, torna-se pertinente compreender todo o processo grupal. Schossler e Carlos (2006, p. 166) opinam que o processo grupal “é uma realidade especifica de transformações, que somente é visível por seus efeitos, entre eles, a produção de discursos subjetivos e unidades identitárias, entre as quais a própria noção de grupo”. Ressaltam-se três fases do processo grupal: a) a formação de sentimento e identidade de grupo; b) o aparecimento de diferenças e construção de condições de produtividade do grupo; c) e o final de grupo: elaboração do luto e avaliação do processo grupal. A formação de sentimento e identidade de grupo é a primeira fase e iniciase com a identificação dos objetivos, construindo uma coesão entre os participantes. Isso facilita a formação do sentimento de grupo que estimula a comunicação e as trocas de experiência. Dessa forma, “a interação é uma ação social, na medida em que envolve mais de um sujeito, em que a ação de cada um é dirigida para o outro ou decorrente da ação deste” (BASTOS, 2010, p. 162). Na segunda fase, destaca-se o aparecimento das diferenças e a construção de condições de produtividade do grupo, pois cada um tem o desejo do reconhecimento, sem que seja necessário abrir mão de suas singularidades. São evidenciados seus pontos de vistas, sendo papel do coordenador enfatizar o 107 que é pertinente, além de incentivar a independência do grupo e fortalecer a rede de estabelecimento de transferências, e oferecer momentos para que participantes reflitam sobre o como pensavam antes e como estão pensando após as oficinas e como tentarão agir, tendo em vista sua nova concepção. A última fase é o final do grupo, na qual os participantes devem elaborar o luto e a avaliação do processo grupal. Nessa fase associam-se sentimentos de satisfação ou insatisfação e ressalta-se a importância de perceber seus sentimentos e seu crescimento, que serão utilizados para realização desse processo. Para Afonso (2010b, p. 49-50), a comunicação e os processos intersubjetivos na oficina ocorrem porque “existe uma relação entre o campo grupal e social e porque, no processo de comunicação do grupo, há um constante trabalho que inter-relaciona linguagem e identidade” É preciso identificar o que impede a comunicação. Pois, como salienta Afonso (2010b, p. 51): A comunicação só se realiza através da interação, o que implica em buscar determinações de contexto, papéis e expectativas sobre as subjetividades dos participantes e suas relações, para que possam refletir sobre as censuras impostas à sua comunicação. Nesse processo grupal, o trabalho no grupo interliga a linguagem e a identidade, realçando-se: [...] a identidade é uma construção. Como construção ela se faz linguagem. Ou seja, aparece como uma narrativa que fazemos de nós, isto é, uma forma de contar para nós mesmos e para os outros quem somos. Finalmente, como narrativa, podemos dizer que a identidade tem uma dimensão simbólica e uma imaginária; uma consciente e uma inconsciente (AFONSO, 1997 apud AFONSO, 2010b, p. 53). Ainda para Afonso (2010b), no processo grupal a progressão acontece a partir de uma relação dialética. A relação entre o vínculo afetivo e o vínculo social é essencial no trabalho de oficinas, no processo de expressão, sistematização, desconstrução e reconstrução de significados do grupo. Destaca-se que é preciso passar de maneira explícita e implícita pelos outros focos do processo grupal (QUADRO 2). 108 QUADRO 2 – Focos do processo grupal 1- Sensibilização sobre as experiências dos participantes em seu contexto. 2- Esclarecimento e sistematização dos participantes sobre suas experiências. 3- Elaboração da experiência na medida para mobilizar as narrativas e após sistematizadas. 4- Desconstrução e reconstrução de representações e identidades sociais. 5- Processos de decisão em relação às relações interpessoais e sociais. Fonte: Afonso (2010b). As técnicas utilizadas no desenvolvimento das oficinas devem ser escolhidas de acordo com as necessidades do grupo e após a avaliação do profissional, para a aplicação da técnica adequada. Nas oficinas entende-se que a técnica “favorece a sensibilização, a expressão e a comunicação, a reorganização das narrativas no campo grupal, a possibilidade de sistematização e comparação dos pontos de vistas, o trabalho com conflitos e diferenças” (AFONSO, 2010b, p. 56). Essas técnicas devem ser adaptadas ao grupo, uma vez que lhe compete ampliar o conhecimento do grupo e possibilitar novas interações. O desenvolvimento das oficinas é respaldado pelas seguintes etapas iniciais: a análise da demanda; a pré-análise do problema de determinado grupo dentro de um contexto; identificação dos temas-geradores e definição do foco; enquadre para organização da oficina; e planejamento flexível para a transformação significativa e contínua (AFONSO, 2010b). Na FIG. 1 encontram-se descritas as diversas etapas para a construção das oficinas. 109 FIGURA 1 - Etapas para a construção das oficinas “TEMAS- PRÉ-ANÁLISE DO PROBLEMA GERADORES” FOCO ANÁLISE DA DEMANDA “ENQUADRE” PLANEJAMENTO FLEXÍVEL Fonte: Afonso (2010b). Cruz e Abade (2009) afirmam que essas etapas não são rígidas e sequenciais e a verificação da demanda permeia todo o processo. Essa afirmativa é de fundamental importância, principalmente para quem trabalha em situações de vulnerabilidade social, em que a dinâmica criminal pode mudar a qualquer momento, interferindo diretamente na demanda do desenvolvimento das oficinas. Nesse processo de construção das oficinas, a análise da demanda: [...] é um ponto complexo na Psicologia social, pois é conhecido o processo pelo qual os grupos e indivíduos fazem uma primeira “encomenda” ao profissional para, em seguida, ir definindo, com maior ou menor dificuldade, outras demandas implícitas ou inconscientes (ENRIQUEZ, 1997 apud AFONSO, 2010, p. 31). A identificação da demanda é primordial para que o profissional de Educação Física/oficineiro consiga desenvolver seu trabalho nas oficinas e que seja significativo o suficiente para proporcionar as mudanças almejadas e atendam às necessidades ditas pelos jovens. De acordo com Afonso (2010a), o profissional precisa analisar a necessidade em um contexto sociocultural, considerando elementos sociais, culturais e subjetivos, visto que a demanda pode estar além dos pedidos explícitos de determinado grupo e propor um trabalho a partir de uma negociação com o grupo. “É importante que a análise da demanda esteja articulada com a 110 análise da produção dessa demanda” (ROCHA; DEUSDARÁ, 2010, p. 61). Na etapa da pré-análise, realiza-se o levantamento de dados e aspectos importantes da demanda. O coordenador deve inteirar-se do problema, para discutir, refletir, estudar, coletar dados e informações. Destaca-se que não se forma um programa fechado, e sim a preparação para execução da oficina (AFONSO, 2010a). Na sequência do processo de construção da oficina o foco é o tema geral da oficina. Os temas-geradores mobilizam os grupos em relação aos seus conflitos e possibilidades e despertam para mais participação e trocas de experiências. O enquadre diz respeito à estrutura para o trabalho, desde os participantes aos recursos disponíveis (AFONSO, 2010a). Isso possibilita o acesso, participação e interação (CRUZ; ABADE, 2009). O planejamento deve ser flexível e relacionar-se ao foco e à discussão dos temas-geradores. Cada encontro pode proporcionar mudanças no seu planejamento. É interessante que cada encontro tenha o momento inicial para a preparação do grupo; um momento intermediário para envolver os participantes e o último momento de sistematização e avaliação do trabalho realizado (AFONSO, 2010a). No Programa “Fica Vivo!”, o profissional de Educação Física/oficineiro assume o papel de coordenador da oficina e atua como facilitador do processo social, por meio de técnicas de sensibilização, dinamização, comunicação e reflexão que promova a comunicação, interação, formação de vínculos, integração e o relacionamento do grupo dentro de um determinado contexto (CARVALHO; RODRIGUES; MEDRADO, 2005). Segundo Afonso (2010a, p. 35-36), o coordenador deve sempre recusar a postura de detentor do saber, assumindo postura de dinamizador e facilitador do processo grupal. E deve “ser sensível a esta dinâmica, mas restrito quanto à interpretação, para não levantar conflitos de forma indiscriminada na estrutura defensiva dos participantes e do grupo”. 3.3 DESCRIÇÃO DETALHADA DO PRODUTO TÉCNICO Propõe-se uma capacitação e uma cartilha instrucional intituladas: “Capacitando-se para capacitar o outro”, que tem como tema: o desenvolvimento 111 e as formas de ministrar uma oficina. A capacitação será desenvolvida por meio de oficinas divididas em três módulos, com duração de três horas cada, de acordo com o apresentado a seguir: O módulo 1 apresenta conceitos básicos para se abordar a metodologia “oficina”, ressaltando os fatores relevantes a serem observados no Programa “Fica Vivo!”. Também esclarece o conceito de grupo e seus elementos básicos. É relevante apresentar as fases e os focos do processo grupal. O objetivo primordial é apresentar e discutir o conceito de oficina, grupo e a compreensão do processo grupal. CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O OUTRO “Como desenvolver e as formas de ministrar uma oficina?” Conceitos básicos de oficina e grupo Módulo 1 EMENTA Conceitos e elementos básicos de oficinas e grupos. Pontos relevantes a serem observados. Elementos básicos de um grupo. Fases do processo grupal. Focos do processo grupal. OBJETIVOS Apresentar e discutir o conceito de oficina e grupo. CONTEÚDO O que é uma oficina? O que é um grupo? Elementos básicos de um grupo Fases do processo grupal Focos do processo grupal METODOLOGIA Exposição dialogada e discussões dialógicas e participativas. 112 RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS Datashow, revistas e tesouras para recorte e papel craft para montagens. O módulo 2 objetiva detalhar o processo de construção das oficinas e esclarecer todas as etapas, evidenciando e elucidando a sua construção. Ressaltam-se os pontos relevantes a serem observados em cada uma das etapas. Construindo a oficina Módulo 2 EMENTA Evidenciar e elucidar as etapas para a construção das oficinas. Os pontos relevantes a serem observados em cada uma das etapas. O como se realiza uma oficina. OBJETIVOS – Discutir o processo de construção das oficinas. – Esclarecer suas etapas e apresentar os pontos relevantes que devem ser observados em cada uma das etapas. – Realizar uma oficina proposta pelo grupo. CONTEÚDO Etapas para construção das oficinas Análise da demanda Pré-análise do problema Foco / enquadre Planejamento flexível METODOLOGIA Discussões dialógicas e realização de uma oficina. RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS Datashow, revistas, pincéis, papel craft, entre outros. 113 No módulo 3 é realizada uma discussão para apresentação de ações eficazes no Programa “Fica Vivo!”, além da proposição de novas ações que possam potencializar as mudanças significativas que acometem os jovens. Ações eficazes e novas propostas de ações no Programa “Fica Vivo!” Módulo 3 EMENTA Ações eficazes no Programa “Fica Vivo!”. Novas ações que potencializem as mudanças significativas. OBJETIVOS Apresentar e discutir as ações eficazes no Programa “Fica Vivo!” e propor novas ações que potencializem as mudanças significativas em jovens. CONTEÚDO Ações eficazes no Programa “Fica Vivo!” Discussão de casos bem-sucedidos Novas ações que possam potencializar as mudanças significativas METODOLOGIA Oficinas expositivas, dialógicas e participativas. RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS A partir de um caso bem-sucedido, realizar uma oficina. Veicular a oferta da capacitação, recursos materiais e a reprodução do material serão de responsabilidade da SEDS e do Instituto ELO. O profissional responsável pela capacitação deverá fornecer cópia do material a ser utilizado para a reprodução e ministrar a capacitação. Avaliar a necessidade de se repetir conteúdos e dinâmicas que o grupo demandar. 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 3.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Espera-se que, por meio dessa capacitação e da cartilha instrucional, os profissionais de Educação Física/oficineiros sintam-se mais confiantes e com propriedade para assumirem o desenvolvimento de suas oficinas e, consequentemente, alcancem resultados mais efetivos e propiciem que os jovens busquem sair da situação de vulnerabilidade social, sintam-se cidadãos de direitos e deveres, acreditem-se como sujeitos ativos e autônomos para o alcance e realização de sonhos e tenham, portanto, uma formação integral. Diante da necessidade de um conhecimento teórico e prático sobre oficinas, a proposta de intervenção apresentada poderá subsidiar os profissionais de Educação Física/oficineiros para o desenvolvimento do trabalho de forma complementar à sua formação. Que vejam e sintam que essa capacitação lhes municiará com relevantes contribuições que irão potencializar o número de ações eficientes e eficazes no Programa “Fica Vivo!”. Sabe-se que apenas essa capacitação proposta em três módulos não se esgota em si mesma. No dia-a-dia, é preciso alimentar-se de conhecimentos teóricos e práticos para o exercício comprometido, ético e cidadão da nossa profissão e nossa atuação como educadores. REFERÊNCIAS AFONSO, Maria Lúcia M. et al. (org) Oficinas em dinâmica de grupo na área da saúde. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013. AFONSO, Maria Lúcia M. O diálogo com a intervenção psicossocial. In: AFONSO, M.L.M. Produto 2: revisão bibliográfica sobre metodologias de trabalho social com famílias e análise do “estado da arte” do emprego das mesmas. Trabalho apresentado ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, a partir do Termo de Referência 132028 do PNUD. Brasília: PNUD, p. 93-116, 2010a. AFONSO, Maria Lúcia M. (org). Oficinas em dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010b. AFONSO, Maria Lúcia Miranda; VIEIRA-SILVA, Marcos; ABADE, Flávia Lemos. O processo grupal e a educação de jovens e adultos. Psicologia em Estudo [online], v. 14, n. 4, p. 707-715, 2009. CRUZ, Jaíza Pollyanna Dias; ABADE, Flávia Lemos. Intervenção psicossocial 124 com oficinas em dinâmica de grupo: reflexões sobre o fazer com grupos de crianças e adolescentes. In: XV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL - ABRAPSO. Psicologia social e políticas de existência: fronteiras e conflitos. Anais..., Maceió, 2009. DUARTE, Karinne Regis. Oficinas em dinâmica de grupo com mulheres vítimas de violência doméstica: contribuições metodológicas aos estudos sobre violência de gênero. Revista OPSIS, v. 11, n. 1, p. 111-124, 2011. MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Defesa Social - Superintendência de Prevenção à Criminalidade. Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo!: Sistematização da Metodologia do Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo! Belo Horizonte, jun. 2009. MOREIRA, Aline Carlezzo; GONCALVES, Claudia Giglio de Oliveira. A eficiência de oficinas em ações educativas na saúde auditiva realizadas com trabalhadores expostos ao ruído. Revista CEFAC [online], v. 16, n. 3, p. 723-731, 2014. ROCHA, Décio; DEUSDARÁ, Bruno. Contribuições da análise institucional para uma abordagem das práticas linguageiras: a noção de implicação na pesquisa de campo. Cadernos de Letras da UFF - Dossiê: Letras, linguística e suas interfaces, v. 40, p. 47-73, 2010. SCHOSSLER, Alexandre Baldasso; CARLOS, Sergio Antonio. Por uma visualização do processo grupal. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 2, p. 159-167, maio/ago. 2006. SPINK, Mary Jane; MENEGON, Vera Mincoff; MEDRADO, Benedito. Oficinas como estratégia de pesquisa: articulações teórico-metodológicas e aplicações ético-políticas. Psicologia e Sociedade. [online], v. 26, n. 1, p. 32-43, 2014. 125 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente dissertação objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa “Fica Vivo!”, com foco prioritariamente nas atividades desenvolvidas por esses profissionais, tendo em vista o esporte se constituir em ferramenta para o desenvolvimento local em áreas de vulnerabilidade social. Esse tema de pesquisa emergiu, entre outros motivos, por se conhecer a vivência dos jovens que frequentam esse programa bem como o trabalho dos oficineiros. Sabe-se que na situação de vulnerabilidade em que se encontram os jovens do programa “Fica Vivo!”, o nível de acesso deles aos aspectos básicos e oportunidades sociais é extremamente relevante para seu desenvolvimento pessoal e interpessoal. A revisão da literatura confirmou que a falta de acesso à educação, saúde, moradia, serviços de infraestrutura urbana, segurança alimentar, previdência social e trabalho é fator que potencializa o estado de vulnerabilidade social que acomete os jovens em determinadas regiões. Ademais, sabe-se, também, que a vulnerabilidade social está associada aos direitos civis, sociais e de cidadania. A literatura mostrou o percurso evolutivo da formação do profissional de Educação Física, sua atuação atual e nas oficinas e o esporte como veículo agregador de uma formação integral e para a cidadania. E, obviamente, a educação como alicerce para a construção das relações sociais, redes de amigos e espaços de formação do jovem com vistas a um futuro promissor com base em escolhas éticas, valores e crenças. Não se podia deixar de explicitar que o jovem do programa, quer esteja vivendo sua adolescência ou juventude, é um ser humano em formação e que traz incrustadas na sua história de vida situações de risco social. A análise dos dados das entrevistas com os profissionais de Educação Física revelou que estes oferecem suporte e informação para que os jovens tenham clareza dos seus direitos e deveres como cidadãos a partir do diálogo franco e da criação de vínculos, obtendo, portanto, significativos resultados com o 126 trabalho nas oficinas, com vistas ao desenvolvimento local, o que gera momentos de grande satisfação. O Programa “Fica Vivo!”, por meio de suas oficinas, em um processo educativo e social possibilita a construção das relações sociais que lhes acarretam momentos de integração, interação, socialização e cooperação, intensificando suas relações interpessoais. Contudo, algumas unidades de registro desvelam a necessidade de capacitações relacionadas a temas específicos trazidos tanto pelos jovens quanto pelos oficineiros. Apreende-se do dito e não dito de suas falas que as capacitações já oferecidas pelo programa conectam-se mais com as políticas públicas que o campeiam e as técnicas relativas ao esporte, entre outras. Não há explicação, em qualquer depoimento, de que foram habilitados para a realização de oficinas. Nessa vertente, torna-se essencial que os profissionais de Educação Física/oficineiros se apropriem de conhecimentos que os atualizem para o cumprimento de suas atribuições e, desta maneira, consigam mobilizar, de forma segura e adequada, o como fazer oficina e, assim, trabalhar os temas trazidos pelos jovens, em qualquer situação. É a construção coletiva, em que todos são protagonistas e todos encontram caminhos e alternativas de solução ou, pelo menos, de ajustamento. Dessa forma, as capacitações fornecerão subsídios sobre o desenvolvimento das oficinas, bem como as formas mais eficientes e eficazes de desenvolvê-las com vistas - volta-se a frisar - à obtenção de melhores resultados no seu trabalho no Programa “Fica Vivo!”. Espera-se que a partir das capacitações o objetivo do programa - que é prevenir e controlar o número de homicídios dolosos em áreas de vulnerabilidade social - seja, de fato, alcançado com mais eficácia e efetividade e contribua para o desenvolvimento integral dos jovens que se inserem nesse contexto. Tendo em vista a trajetória acadêmica dos profissionais de Educação Física/oficineiros, assegura-se a relevância dessa capacitação para o aprimoramento deles em relação ao desenvolvimento e às formas de ministrar as oficinas, o que disponibilizará conteúdos básicos sobre oficina e grupo, as etapas para sua construção, as ações eficazes e a proposição de novas ações que visem ao desenvolvimento integral dos jovens e contribuam para o desenvolvimento local. 127 No que diz respeito à cartilha, ela será uma ferramenta de apoio rápido e de lembranças vivas para os oficineiros. Seus conteúdos são a síntese da capacitação via módulos/oficinas, mas que traduzem pontos relevantes e de fácil acesso caso dúvidas aconteçam no início do trabalho com oficinas. Por fim, registra-se que este trabalho é uma pequena etapa de construção, de aprendizagem e de mudanças de paradigma, em primeiro lugar para o pesquisador e, posteriormente, para os oficineiros. Deste estudo, várias interrogações afloraram e demandam futuras pesquisas no futuro próximo. Tratase de um começo promissor! É preciso muito ainda avançar. 128 REFERÊNCIAS ALVES, Márcia Cristina. Programas de prevenção à criminalidade: dos processos sociais à inovação da política pública: a experiência do Fica Vivo! 2008. 186 p. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas). Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho - Fundação João Pinheiro (FJP), 2008. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: 70, 2008. DOWBOR, Ladislau. Educação e apropriação da realidade local. Estudos Avançados. [online], v. 21, n. 60, p. 75-90, 2007. MINAS GERAIS. Decreto n. 43.334, de 20 de maio de 2003. Cria o Programa Controle de Homicídios do Estado de Minas Gerais. Minas Gerais. Diário do Executivo, Belo Horizonte, 21 mai. 2003. ______. Secretaria de Estado de defesa Social. Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo! Disponível em: <https://www.seds.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=283& Itemid=117>. Acesso em 09 set. 2013. NATALI, Paula Marçal; MÜLLER, Verônica Regina. Jogos cooperativos: olhando a teoria e escutando a prática. Revista da Educação Física/UEM, v. 20, n. 2, p. 291-303, 2009. OLIVEIRA, Francisco de. Aproximações ao enigma: o que quer dizer desenvolvimento local? São Paulo, Pólis: Programa Gestão Pública e Cidadania/EAESP/FGV, 2001. SILVEIRA, Andréa Maria et al. Impacto do Programa Fica Vivo! na redução dos homicídios em comunidade de Belo Horizonte. Revista Saúde Pública. v. 44, n.3, p. 496-502, 2010. SOUZA, Cléia Renata Teixiera; MÜLLER, Verônica Regina; NATALI, Paula Marçal. Possibilidades de formação para além da escola: educação social e política pública. In: X CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EDUCERE, I Seminário Internacional de Representações Sociais, subjetividade e Educação SIRSSE. Anais..., PUC/PR. 07 a 10 de novembro de 2011. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG). Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP). Diagnóstico da criminalidade violenta na região metropolitana de Belo Horizonte: estudo – espaço temporal do período 1986-2001. 2002. Disponível em: <http://www.crisp.ufmg.br>. Acesso em 10 nov. 2013. 129 APÊNDICES APÊNDICE A - ROTEIRO DE ENTREVISTA O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com jovens, em áreas de vulnerabilidade social, no contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” Nome: Idade: Centro: Oficina: Nº de alunos beneficiados: Instituição onde concluiu a graduação: Ano de conclusão da graduação: Tempo de atuação no “Fica Vivo!”: 1- O que significa, para você, trabalhar no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”? 2- Por que você trabalha no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”? Está satisfeito? O que lhe agrada e desagrada? 3- Que tipo de atividades você desenvolve com os jovens no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”? Quais são os objetivos dessas atividades? 4- Você percebeu mudanças no comportamento, nas atitudes e nas relações desses jovens no dia-a-dia? Quais? 5- Como percebe a presença dos jovens nas atividades? 6- Vocês recebem algum tipo de capacitação para as atividades propostas? 7- Quais ações você considera eficazes o suficiente para proporcionar mudanças significativas na vida desses jovens? 8- Quais são as maiores dificuldades que você encontra na realização do seu trabalho com os jovens? 9- Você participa das reuniões semanais? Que discussões acontecem nessas reuniões? 10- Gostaria de acrescentar mais alguma informação a respeito de seu trabalho com os jovens? 130 APÊNDICE B - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Centro Universitário UNA Título da Pesquisa: O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” Nome do Pesquisador: Ronderson Rodrigues Duarte Nome da Orientadora: Dra. Matilde Meire Miranda Cadete Esclarecimentos sobre a pesquisa: 1. Natureza da Pesquisa: o(a) Sr.(a) (nome do entrevistado) está convidado(a) a participar desta pesquisa que tem como finalidade analisar o que se faz necessário para que a intervenção educativa no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros obtenham resultados positivos, tendo em vista o desenvolvimento de contribuição técnica na área de gestão social voltada para o desenvolvimento local e com características de inovação social. 2. Participantes da pesquisa: profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros, sejam eles com formação completa ou incompleta no curso de graduação de Educação Física, que atuam com atividades esportivas no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. 3. Envolvimento na pesquisa: ao participar deste estudo, o(a) Sr.(a) permitirá que o pesquisador colete dados que ofereçam subsídios para fundamentar a pesquisa. O(A) Sr.(a) tem liberdade de se recusar a participar e ainda se recusar a continuar participando em qualquer fase da pesquisa, sem qualquer prejuízo 131 para o(a) Sr.(a). Sempre que quiser pedir mais informações sobre a pesquisa, pode fazê-lo por meio do telefone do pesquisador do projeto e, se necessário, pelo telefone do Comitê de Ética em Pesquisa ou da orientadora do projeto. 4. Sobre as entrevistas: você responderá a algumas perguntas e não existe certo ou errado nas suas respostas, uma vez que o que nos importa é o seu pensar e fazer no Programa Fica Vivo. 5. Riscos e desconfortos: a participação nesta pesquisa não traz complicações legais. Pode haver certo constrangimento/desconforto diante de alguma pergunta. Nesse caso, é de sua livre escolha responder ou não à pergunta, podendo, inclusive, cancelar sua participação na pesquisa no decorrer da entrevista. 6. Confidencialidade: seu nome será mantido em segredo e todas as informações coletadas neste estudo são estritamente confidenciais. Somente o pesquisador e a orientadora terão conhecimento dos dados. 7. Forma de acompanhamento e assistência: caso você queira nos procurar ou tirar dúvidas após participar desta pesquisa, colocamo-nos à sua inteira disposição. Pode também telefonar caso queira saber em que momento se encontra nosso trabalho. 8. Benefícios: ao participar desta pesquisa o(a) Sr.(a) não terá qualquer benefício direto. Entretanto, esperamos que este estudo possa trazer contribuições importantes para a construção de conhecimentos acadêmicos a respeito da temática em questão, na perspectiva da gestão social e inovação, com vistas ao desenvolvimento local. 9. Pagamento: o(a) Sr.(a) não terá qualquer tipo de despesa para participar desta pesquisa, bem como nada será pago por sua participação. Após esses esclarecimentos, solicitamos o seu consentimento de forma livre para participar desta pesquisa. Portanto preencha, por favor, os itens que se seguem. Obs.: não assine este termo se ainda tiver dúvidas a respeito. 132 CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Tendo em vista os itens acima apresentados, eu, (nome do profissional), de forma livre e esclarecida, manifesto meu consentimento para participar da pesquisa. Declaro que recebi cópia deste termo de consentimento e autorizo a realização da pesquisa e a divulgação dos dados obtidos neste estudo. Nome do(a) Participante da Pesquisa Assinatura do Participante da Pesquisa Assinatura do Pesquisador Assinatura da Orientadora Pesquisador: Ronderson Rodrigues Duarte Rua xxxxxxxxx – Belo Horizonte-MG, Telefone: (31) xxxx / (31) xxxx Orientadora: Matilde Meire Miranda Cadete Telefone: (31) xxxx (31) xxxx Comitê de Ética em Pesquisa Rua Guajajaras, 175, 4º andar – Belo Horizont-MG, telefone: (31) xxxx Contato: [email protected] 133 ANEXOS ANEXO I - AUTORIZAÇÃO PARA COLETA DE DADOS Eu, ________________________________________________, ocupante do cargo de _______________________ do(a) ________________________, AUTORIZO a coleta de dados do projeto: O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, realizado pelo pesquisador Ronderson Rodrigues Duarte, sob a orientação da Professora Dra. Matilde Meire Miranda Cadete, para fins de pesquisa do Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, nas instalações físicas nos Centros de Prevenção à Criminalidade do Programa de controle de Homicídios “Fica Vivo!” após a aprovação do referido projeto pelo CEP do Centro Universitário UNA. Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___. ______________________________________________ ASSINATURA CARIMBRO 134 ANEXO II - TERMO DE COMPROMISSO DE CUMPRIMENTO DA RESOLUÇÃO Nº 466/2012 Eu, Ronderson Rodrigues Duarte, RG. MG-10.368.214, CPF 013.626.036-51 responsável pela pesquisa intitulada O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” declaro que: Assumo o compromisso de zelar pela privacidade e pelo sigilo das informações que serão obtidas e utilizadas para o desenvolvimento da pesquisa; Os materiais e as informações obtidas no desenvolvimento deste trabalho serão utilizados para se atingir o(s) objetivo(s) previsto(s) na pesquisa; O material e os dados obtidos ao final da pesquisa serão arquivados sob a nossa responsabilidade; Os resultados da pesquisa serão tornados públicos em periódicos científicos e/ou em encontros, quer sejam favoráveis ou não, respeitando-se sempre a privacidade e os direitos individuais dos sujeitos da pesquisa, não havendo qualquer acordo restritivo à divulgação; Assumo o compromisso de suspender a pesquisa imediatamente ao perceber algum risco ou dano, consequente à mesma, a qualquer um dos sujeitos participantes, que não tenha sido previsto no termo de consentimento; O CEP do Centro Universitário UNA será comunicado da suspensão ou do encerramento da pesquisa, por meio de relatório apresentado anualmente ou na ocasião da interrupção da pesquisa; As normas da Resolução 466/96 serão obedecidas em todas as fases da pesquisa. Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___. ______________________________________________ Ronderson Rodrigues Duarte RG: MG- 10.368.214 - CPF: 013.626.036-51 135 ANEXO III - TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DE IMAGEM E DEPOIMENTOS Eu ____________________________, RG_______________, depois de conhecer CPF e entender ____________, os objetivos, procedimentos metodológicos, riscos e benefícios da pesquisa, bem como de estar ciente da necessidade do uso de minha imagem e/ou depoimento, especificados no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), AUTORIZO, através do presente termo, ao pesquisador Ronderson Rodrigues Duarte, sob a orientação da Professora Dra. Matilde Meire Miranda Cadete do projeto de pesquisa intitulado: O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, a realizar as fotos e/ou vídeos que se façam necessários e/ou a colher meu depoimento sem quaisquer ônus financeiros a nenhuma das partes. Ao mesmo tempo, libero a utilização destas fotos e/ou vídeos (seus respectivos negativos ou cópias) e/ou depoimentos para fins científicos e de estudos (livros, artigos, slides e transparências), em favor do pesquisador da pesquisa, acima especificado, obedecendo ao que está previsto nas Leis que resguardam os direitos das crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei nº 8.069/1990), dos idosos (Estatuto do Idoso, Lei n° 10.741/2003) e das pessoas com deficiência (Decreto nº 3.298/1999, alterado pelo Decreto nº 5.296/2004). Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___. ________________________________________ Participante da pesquisa ________________________________________ Pesquisador responsável pelo projeto 136 ANEXO IV - PARECER CONSUBSTANCIADO DO CONSELHO DE ÉTICA E PESQUISA 137 138 139