CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA E PESQUISA
Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local
RONDERSON RODRIGUES DUARTE
O TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
QUE ATUAM COMO OFICINEIROS COM JOVENS,
EM ÁREAS DE VULNERABILIDADE SOCIAL, NO CONTEXTO DO
PROGRAMA DE CONTROLE DE HOMICÍDIOS “FICA VIVO!”
Belo Horizonte
2014
RONDERSON RODRIGUES DUARTE
O TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
QUE ATUAM COMO OFICINEIROS COM JOVENS,
EM ÁREAS DE VULNERABILIDADE SOCIAL, NO CONTEXTO DO
PROGRAMA DE CONTROLE DE HOMICÍDIOS “FICA VIVO!”
Dissertação apresentada ao Programa de
Mestrado Profissional em Gestão Social,
Educação e Desenvolvimento Local do
Centro Universitário UNA, como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre
em Educação Física.
Área de concentração: Inovações Sociais,
Educação e Desenvolvimento Local.
Linha
de
pesquisa:
Desenvolvimento Local.
Educação
Orientadora: Profa
Miranda Cadete.
Matilde
Belo Horizonte
Centro Universitário UNA
2014
Dra
e
Meire
À minha querida mãe, Joanita (in memoriam),
que possibilitou minha formação,
além de valores éticos e morais.
À minha noiva, Márcia,
pela compreensão, valorização, renúncia
e apoio durante esta jornada.
AGRADECIMENTOS
À Professora Dra Matilde Meire Miranda Cadete, pelo conhecimento
transmitido e, principalmente, pela disponibilidade, carinho, dedicação e muita
paciência.
Às professoras Dra Adilene Gonçalves Quaresma e Dr a Áurea Regina
Guimarães Thomazi, pelas contribuições no exame de qualificação.
A todos os professores e colegas do curso de Mestrado Profissional em
Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, pelas conversas e trocas de
experiências.
Aos oficineiros entrevistados, que possibilitaram a pesquisa.
Às técnicas e aos técnicos do Programa “Fica Vivo!”.
À Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS).
“Ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua
própria produção ou a sua construção.”
Paulo Freire.
RESUMO
Sabe-se que o esporte proporciona aos sujeitos que o praticam novas opções de
vida ao criar condições de superação das dificuldades, alternativas para afastarse das drogas e criminalidade, contribuindo, por conseguinte, para o
fortalecimento das suas características positivas e priorizando valores
construtivos como companheirismo, autocontrole, respeito às regras,
autossuperação e controle dos impulsos negativos e agressividade. Nesse
sentido, este trabalho aborda as ações desenvolvidas por profissionais de
Educação Física que atuam como oficineiros com jovens em situações de
vulnerabilidade social do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” A
pesquisa objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física que
atuam como oficineiros, sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou resultados
do Programa “Fica Vivo!”, com vistas ao desenvolvimento de contribuição técnica
voltada para o desenvolvimento local. A coleta dos dados se fez por meio de
entrevista semiestruturada, respondida por 14 sujeitos, atuantes em diversos
espaços do Programa “Fica Vivo!” e foram analisadas pela técnica de análise de
conteúdo indicada por Bardin (2010). Dos depoimentos emergiram cinco
categorias temáticas: significado de trabalhar no “Fica vivo!”; satisfaçãoinsatisfação de trabalhar no “Fica Vivo!”; processo educativo do Programa “Fica
Vivo!”; da participação à ação e capacitando-se para capacitar o outro. O estudo
permitiu reconhecer que as atividades educativas, por meio de oficinas do
esporte, demarcam mudanças qualitativas na vida dos jovens e, dessa feita,
obtêm-se resultados positivos tanto individual quanto coletivamente. Desvela-se
que os oficineiros vivem movimento pendular de satisfação com os progressos
vividos e narrados pelos jovens e de insatisfação com as condições de trabalho e
a própria formação para realização das oficinas. Este estudo configura-se como
uma etapa de apropriação do cotidiano do trabalho dos profissionais de Educação
Física no Programa “Fica Vivo” e que outras lacunas requisitam novas pesquisas
para se propor ações que o qualifiquem cada vez mais. Como forma de
contribuição para o programa apresenta-se um produto técnico com vistas a que
os profissionais de Educação Física/oficineiros consigam atingir conhecimentos
essenciais para o desenvolvimento de suas oficinas, aumentar a eficácia de suas
ações e contribuir de forma mais efetiva no seu trabalho e, consequentemente,
em relação à vida social e cidadã dos jovens, formação integral e promoção do
desenvolvimento local.
Palavras-chave: Vulnerabilidade Social. Educação Física. Educação. Políticas
Públicas.
ABSTRACT
It is known that sports provide new options and quality of life to those who practice
them through creating overcoming conditions to difficulties and obstacles, and
opportunities to get away from drugs and crime. Therefore, sports contributes to
strengthening one’s positive features and prioritizing constructive values such as
companionship, self-control, respect for the rules, self-overcoming and control of
negative impulses and aggression. Thus, this paper addresses the actions
developed by Physical Education professionals who act as workshop instructors
with young people in socially vulnerable situations of the Homicide Control
Program "Staying Alive!" The research aimed to analyze the perception of
Physical Education professionals who act as workshop instructors on the
effectiveness, development and/or outcomes of the "Staying Alive" program, with
emphasis to improving technical contribution towards local developments. The
data collection of this research was made through semi-structured interview, which
was answered by 14 subjects who work in various areas of the "Staying Alive"
program. The data collected was analyzed by content analysis technique indicated
by Bardin (2010). After analyzing the data collected from these 14 subjects, five
thematic variables were created: the meaning of working in the Staying Alive!
program; level of satisfaction-dissatisfaction to work in program; educational
process of the "Staying Alive" program; participation in the action and enabling
themselves in order to empower others. The study allowed us to recognize that
educational activities through sport workshops, demarcate qualitative changes in
the lives of young people, thus, we obtain positive outcomes both individually and
collectively. The research reveals that the workshop instructors live pendulum of
satisfaction with the progress experienced and narrated by young people and
dissatisfaction with working conditions and the training itself to conducting
workshops. However, the instructors show discontent with the working conditions
of the program and the training to conduct workshops provided. This study is
configured as a step of appropriation of everyday work of Physical Education
professionals in the program "Staying Alive" and show that other areas of the
program require new research in order create actions of improvement. As a
contribution to the program a technical product is presented to improve the
knowledge of the Physical Education/workshop instructors in order to reinforce
their performance, increase the effectiveness of their actions and contribute more
effectively in their work and consequently in relation to social and civic life of
young people, comprehensive training, and promoting local development.
Key words: Social Vulnerability. Physical Education. Education. Public Policy.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ASPROM
Associação Profissionalizante do Menor
BVS
Biblioteca Virtual de Saúde
CONFEF
Conselho Nacional de Educação Física
CPC
Centro de Prevenção à Criminalidade
CPEC
Coordenadoria de Prevenção à Criminalidade
CREF
Conselho Regional de Educação Física
CRISP
Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública
ECA
Estatuto da Criança e do Adolescente
ENEFD
Escola Nacional de Educação Física e Desportos
FUNDEP
Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa
GEPAR
Grupo Especializado de Áreas de Risco
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
LDB
Lei de Diretrizes e Bases
LDBEN
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
LILACS
Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da
Saúde
ONU
Organização das Nações Unidas
OSCIP
Organização Social Civil de Interesse Público
PBH
Prefeitura de Belo Horizonte
PCMG
Polícia Civil de Minas Gerais
PCN
Parâmetros Curriculares Nacionais
PMMG
Polícia Militar de Minas Gerais
SCiELO
Scientific Electronic Library Online
SEDS
Secretaria de Estado de Defesa Social
TCLE
Termo de Consentimento Livre Esclarecido
UFMG
Universidade Federal de Minas Gerais
Un-Habitat
Centro das Nações Unidas para Assentamentos Humanos
SUMÁRIO1
INTRODUÇÃO...............................................................................................
10
1 A ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA/OFICINEIROS
NO PROGRAMA “FICA VIVO!”: UMA REVISÃO TEÓRICA............................. 18
2 O SIGNIFICADO DO TRABALHO NO PROGRAMA “FICA VIVO!” NA
PERSPECTIVA DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA...................
47
3 PRODUTO TÉCNICO: CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O OUTRO!. 101
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................... 125
REFERÊNCIAS................................................................................................. 128
APÊNDICES.....................................................................................................
129
ANEXOS......................................................................................................
133
1
Este trabalho foi revisado de acordo com as novas regras ortográficas aprovadas pelo Acordo
Ortográfico assinado entre os países que integram a Comunidade de Países de Língua
Portuguesa (CPLP), em vigor no Brasil desde 2009. E foi formatado de acordo com a ABNT NBR
14724 de 17.04.2011.
10
INTRODUÇÃO
Em vários anos de atuação como professor de Educação Física em áreas
de vulnerabilidade social2, percebe-se que os jovens não têm locais para
realizarem atividades esportivas e lúdicas. Essas atividades podem ser
consideradas ferramenta de promoção para o desenvolvimento humano,
socialização, integração social e promoção da elevação dos níveis de qualidade
de vida, combatendo a ociosidade e, consequentemente, os jovens poderão ser
retirados de diversas situações que podem levá-los a elevados níveis de risco
social.
Tendo em vista o poder da massificação do esporte gerada pelos grandes
eventos esportivos no Brasil, tais como Copa do Mundo em 2014 e os Jogos
Olímpicos em 2016, que deixarão importantes legados em diversas áreas, tem-se
que pensar em maneiras de otimizar os programas sociais já existentes e
possibilitar a implantação de novos programas e de ações isoladas realizadas por
profissionais de Educação Física em áreas de vulnerabilidade social. Esses
profissionais exercem papel fundamental para o desenvolvimento dessas
atividades com conhecimento interdisciplinar para inferir e entender as
necessidades no contexto onde estão inseridos.
Nesse sentido, cabe destacar que o “Fica Vivo!” é um programa de controle
de homicídios no âmbito da segurança pública, desenvolvido pela Secretaria de
Estado de Defesa Social (SEDS). Uma de suas grandes especificidades é intervir
nas dinâmicas sociais da violência e criminalidade nas regiões, onde se encontra
inserido.
Nesse programa, que objetiva controlar e prevenir a ocorrência de
homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade violenta em
Minas Gerais, busca-se a melhoria da qualidade de vida da população, por meio
de oficinas de esporte, arte e cultura oferecidas aos jovens de 12 a 24 anos em
situação de risco social. Atualmente, o programa possui 30 Centros de Prevenção
à Criminalidade (CPC) em Belo Horizonte e região metropolitana, assim
2
Vulnerabilidade social: para Ximenes (2010, s/p) “é um conceito multidimensional que se refere à
condição de indivíduos ou grupos em situação de fragilidade, que os tornam expostos a riscos e a
níveis significativos de desagregação social”.
11
distribuídos: 14 na capital, dos quais 13 possuem o Programa “Fica Vivo!”, e 16
na região metropolitana (Betim, Contagem, Ribeirão das Neves, Sabará, Santa
Luzia, Vespasiano), sendo que, destes, 11 possuem o programa. No interior de
Minas Gerais encontram-se nas cidades de Ipatinga, Governador Valadares,
Montes Claros, Uberaba e Uberlândia, totalizando 13 CPCs. Contudo, apenas
seis deles possuem o Programa “Fica Vivo!”.
O Programa “Fica Vivo!” originou-se de um grupo de trabalho com
iniciativas do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da
Universidade Federal de Minas Gerais (CRISP/UFMG). Estavam também
presentes membros da Polícia Civil (PCMG) e Militar de Minas Gerais (PMMG),
do Ministério Público, juízes, pesquisadores, técnicos da Coordenadoria de
Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e empresários do setor privado.
Em 2002, por meio de pesquisas, a visibilidade ao elevado crescimento do
número de homicídios em Belo Horizonte se acentuou. A primeira pesquisa
trabalhou a temática de vitimização e a segunda realizou o processamento dos
dados fornecidos pelas Polícias Militar e Civil, por meio do georreferenciamento
dos mesmos e da produção de instrumentos dos diferentes tipos de crime na
cidade.
Pode-se dizer que:
A partir do processamento dos dados e da produção de informações,
sobre as ocorrências de homicídios na cidade de Belo Horizonte,
percebe-se a concentração espacial dos homicídios, a evidência da
proximidade de relações entre vítimas e autores [...], e, principalmente, a
composição do perfil jovem das vítimas e dos agentes de homicídios. [...]
O resultado da pesquisa de vitimização aponta para a convivência maior
com a violência, exatamente nas áreas de concentração dos homicídios
(ALVES, 2008, p. 107).
A análise espacial da ocorrência dos homicídios revelou que o fenômeno
concentrava-se, de forma marcante, em regiões de vulnerabilidade social e os
envolvidos eram, em sua maioria, jovens, negros, do sexo masculino e com idade
entre 15 e 29 anos. A pesquisa demonstrava que os homicídios eram resultantes
de conflitos entre os jovens (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS UFMG, 2002).
Também em 2002 a CRISP/UFMG propôs ao comandante encarregado do
Comando da Polícia na capital e da chefia de Polícia Civil e funcionários da
12
administração municipal e estadual a realização de um curso com vistas à
elaboração de um projeto de controle de homicídios, adaptado ao cenário de Belo
Horizonte. Nesse curso, foi utilizada a experiência do projeto “Ceasefire”, adotado
na cidade de Boston3, em 1996. Ao final do curso foram destacados quatro níveis
de problemas, sendo eles: institucional, organizacional, comunitário e individual e
estratégias de intervenção definidas para cada um desses. Dando forma ao
“Projeto de Controle de Homicídios”, grupos de trabalhos foram montados, tais
como o grupo de Ação Estratégica e o de Mobilização Social (MINAS GERAIS,
2003).
O projeto-piloto foi implantado no Aglomerado Morro das Pedras em agosto
de 2002. Em seis meses houve redução de 47% dos homicídios e isso levou à
institucionalização do programa pelo governo do estado com a gestão da SEDS
(SILVEIRA et al, 2010). Foi considerado como política de governo e, a partir de
2004, passou a ser expandido para outras áreas da região metropolitana de Belo
Horizonte e municípios do interior.
O Programa faz acompanhamento especializado e oferece cerca de 600
oficinas voltadas para o esporte, a arte e a cultura para jovens de 12 a
24 anos em situação de risco social. Desde sua criação, o Fica Vivo!
realizou, em média, 13 mil atendimentos por ano, reduzindo em 50% os
índices de homicídio nas regiões que abrange4” (MINAS GERAIS, 2013).
No Programa “Fica Vivo!”, considera-se que o desconhecimento sobre o
que se faz necessário para tornar mais eficaz a contribuição específica dos
profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros seja um
problema a ser analisado e solucionado. Entende-se que a identificação
das ações realizadas e efetivas poderá contribuir de forma significativa
para obtenção de melhores resultados5 do programa, bem como colaborar
para a redução de homicídios e, consequentemente, irá proporcionar o
desenvolvimento local da região onde os centros estão locados.
3
Ver relatório de pesquisa Reducing gun violence: the Boston gun Project’s Operation Ceasefire.
Disponível em: <https://www.ncjrs.gov/pdffiles1/nij/188741.pdf>.
4
Disponível em: <https://www.seds.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=
283&&Itemid=117>.
5
Destacam-se como resultados positivos: maior número de jovens atendidos, motivados e
incentivados através das atividades esportivas, que obtiveram transformações significativas
(retirados das drogas, da criminalidade) em suas atividades diárias, comportamentos e,
consequentemente, em sua rotina local, proporcionando melhores níveis de qualidade de vida e
oportunidades de desenvolvimento local.
13
Portanto, é nesse panorama que o tema desta pesquisa se insere, isto é,
profissionais de Educação Física atuando como oficineiros com jovens que se
encontram em áreas de vulnerabilidade social no contexto do programa.
Segundo Souza, Müller e Natali (2011, p. 1125):
Cabe aos sujeitos identificar em seus contextos o que lhe é negado
como direito, o que está injusto para todos e ir buscar coletivamente a
transformação de sua realidade, porém, esta identificação não se
apresenta instantaneamente, há que existir um estímulo para gerar o
sentimento de pertença e esse é um desafio, sobretudo, quando se trata
de crianças e adolescentes.
Acrescenta-se, ainda, que há atividades que não cumprem o proposto no
Programa “Fica Vivo!”, uma vez que trabalham mais a técnica, por exemplo, de
determinado esporte, e a dimensão social fica aquém do esperado. Essa
dicotomia torna ineficazes as atividades realizadas porque se focalizam em
apenas um aspecto do desenvolvimento dos jovens.
Para Souza, Müller e Natali (2011, p. 1125-1126):
O educador é o sujeito que vai transmitir e mediar as relações de
conhecimento e delega-se a ele, estar apropriado do conhecimento que
deve ser promovido pela formação política para que haja maiores
possibilidades de comprometimento com o contexto em que está
envolvido, promoção de troca de saberes com as crianças e
adolescentes e a comunidade e uma participação conjunta e eficaz nas
ações que pareçam importantes aos mesmos para a conquista de
determinados direitos.
E pode-se dizer, conforme salientam Natali e Müller (2009, p. 301), que:
A ação educativa é uma opção do educador, e envolve sua
compreensão de mundo, a orientação das suas atitudes, a orientação da
metodologia e a convicção ética. Os princípios apresentados almejam
uma ação educacional efetiva tanto para os educadores quanto para os
educandos [...].
Isso posto, tem-se como questão central da pesquisa: qual a percepção
dos profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia
ou os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios
“Fica Vivo!” e o que acreditam que se faz necessário para que a intervenção
educativa seja realmente eficaz para o controle de homicídios nas regiões onde o
programa está inserido?
14
Esta pesquisa baseou-se, para responder essa questão central, na
seguinte hipótese: os profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros, ao realizarem ações eficazes com os jovens do Programa de Controle
de
Homicídios
“Fica
Vivo!”,
podem
proporcionar
mudanças
realmente
significativas em suas vidas, desde que capacitados e retroalimentados
periodicamente.
É importante explicitar a distinção entre eficiência e eficácia neste estudo.
Entende-se como eficiência o número de jovens atendidos pelo programa e
eficácia o número de jovens atendidos que obtiveram desenvolvimento
significativo e que têm repercussão efetiva em suas vidas. Consideram-se
indicadores da eficácia a cooperação, amizade, solidariedade, fortalecimento
pessoal, interpessoal e político, autonomia e pertencimento.
Assim, o objetivo geral deste estudo foi analisar a percepção dos
profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou
os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica
Vivo!”, tendo em vista o desenvolvimento de uma contribuição técnica voltada
para o desenvolvimento local.
E como objetivos específicos pretendeu-se:
a) Descrever o trabalho de profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”.
b) Identificar o que tem possibilitado mais eficácia a determinadas
intervenções de profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa
de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”.
c) Relatar propostas para aumentar a eficácia das ações de Educação Física
no contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”
apresentadas por profissionais de Educação Física/oficineiros.
d) Elaborar um produto técnico em forma de cartilha informativa, detalhando
formas que potencializem ações realizadas nas oficinas e de como se
trabalhar com as oficinas.
A escolha do tema em pauta se justifica pela importância da Educação
Física e, mais especificamente, do esporte se constituir em uma ferramenta para
o desenvolvimento local em áreas de vulnerabilidade social. Portanto, “o
15
desenvolvimento local poderia criar um locus interativo de cidadãos, recuperando
a iniciativa e a autonomia na gestão do bem comum” (OLIVEIRA, 2001, p. 14).
Ademais, o atual momento esportivo, quando ainda se assistirá aos Jogos
Olímpicos, em 2016, mostra-se propício para a discussão do tema, a partir de
iniciativas concretas no campo da Educação Física, como uma estratégia de
inclusão social, tal como propõe o Programa “Fica Vivo!”.
O trabalho com os jovens que vivem em vulnerabilidade social tem que
gerar resultados que os ajudem a afugentar a ociosidade em que se encontram, a
evitar a criminalidade e a elevar sua qualidade de vida. A educação, tratada de
forma multidimensional, é fator relevante para a obtenção desses resultados, pois
por meio dessas transformações na realidade dos jovens é que se alcança o
desenvolvimento local.
Para Dowbor (2007, p. 76):
A ideia da educação para o desenvolvimento está diretamente vinculada
a essa compreensão e à necessidade de se formarem pessoas que
amanhã possam participar de forma ativa das iniciativas capazes de
transformar o seu entorno, de gerar dinâmicas construtivas.
Esta pesquisa, então, é relevante por propor formas de elevar a eficácia
das intervenções sociais e educativas na esfera desse Programa “Fica Vivo!”,
com vistas ao aumento da prevenção em regiões onde se encontra o programa, e
encontra respaldo no Decreto 43334/03.
O Decreto 43334/03 cria o Programa de Controle de Homicídios e define
seu objetivo: reduzir a incidência de homicídios dolosos, mediante ações
de prevenção e repressão, nas áreas de risco da região metropolitana de
Belo Horizonte e em outros municípios do estado cujos indicadores de
criminalidade violenta o justifiquem, contando, para sua execução, com a
ação integrada dos executivos federal, estadual e municipal, do Poder
Judiciário, do Ministério Público Estadual, bem como das organizações
não governamentais de atendimento ou assistência social e da
sociedade em geral (MINAS GERAIS, 2003, p. 79).
Acredita-se, também que aprofundar conhecimentos a respeito da
experiência vivida pelos profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa
“Fica Vivo!” poderá cooperar e se configurar como uma inovação social e ajudar a
aumentar a eficácia das intervenções desses profissionais no programa,
16
contribuindo, assim, para promover o desenvolvimento local, por meio de
atividades esportivas, culturais e oficinas, entre outras.
No que concerne ao profissional de educação, em 10 anos de trabalho
esportivo (voleibol e handebol) e oito anos como professor de Educação Física
em regiões de vulnerabilidade social, percebe-se que os jovens não têm locais
para realizarem atividades esportivas e lúdicas. Acredita-se, portanto, ser
extremamente necessário conhecer as diversas experiências vividas nesse
cenário com potencial alto risco social em que esses jovens estão inseridos. O
conhecimento das ações dos profissionais de Educação Física é, ainda, relevante
para o desenvolvimento profissional, porque na realidade na qual este
pesquisador atua elas podem ser reportadas e adaptadas, socializando seus
resultados positivos. Como a interação com os jovens é fator determinante para
que ocorram transformações significativas em suas vidas, é importante manter-se
atualizado e engendrar novas formas de trabalho.
Nota-se que o Programa “Fica Vivo!” é uma ferramenta para que jovens
tenham a oportunidade, por meio de diversas atividades, de momentos de
socialização, integração social e melhores níveis de qualidade de vida. Além de
outros fatores, a ociosidade pode ser entendida como uma das causas que levam
esses jovens aos níveis mais elevados de risco social. Uma das formas de
redução destes é oferecer-lhes atividades esportivas, com a intencionalidade de
contribuir para o seu desenvolvimento. As diversas atividades ofertadas, inclusive
oficinas esportivas, devem ser recebidas pelos jovens como um momento
prazeroso, que possibilite a construção ou o resgate de valores.
Esta dissertação tem em sua estrutura três capítulos: o primeiro apresenta
o referencial teórico e uma discussão sobre vulnerabilidade social, Educação
Física, educação e o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, que dará
subsídio referente ao tema proposto. O segundo relata a pesquisa de campo
cujos dados foram coletados em 11 CPCs por meio da entrevista semiestruturada
e analisados pela técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2008). No
terceiro capítulo faz-se uma síntese do referencial teórico e de dados oriundos da
pesquisa de campo que subsidiaram a elaboração do produto técnico. Este se
constitui na proposição de ações que potencializem as realizadas nas oficinas e
as formas de se trabalhar com oficinas. Nas considerações finais, retorna-se às
questões que deram origem a este estudo, descrevendo a percepção dos
17
profissionais de Educação Física/oficineiros e tecendo algumas contribuições na
formação integral dos jovens do Programa “Fica Vivo!”. Ainda nas considerações
finais apresenta-se uma súmula sucinta das conclusões da pesquisa, além, é
claro de sugestões para pesquisas futuras.
18
1 A ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA/
OFICINEIROS NO PROGRAMA “FICA VIVO!”: UMA REVISÃO
TEÓRICA
Ronderson Rodrigues Duarte16
Matilde Meire Miranda Cadete27
RESUMO
Este estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação
Física/oficineiros referente à vulnerabilidade social, Educação Física, educação e
o Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” no eixo da proteção social.
Fundamentou-se na pesquisa bibliográfica narrativa com levantamentos de
artigos nas bases de dados do SciELO, LILACS. Também foram pesquisados
livros, dissertações, teses e programas governamentais. Os descritores utilizados
foram: vulnerabilidade social, Educação Física, educação. De posse do material
identificado, passou-se à sua leitura e à seleção daquele que respondia ao
objetivo do estudo. Percebe-se que a situação de vulnerabilidade social leva os
jovens a mais momentos em que se encontram em risco social, não
acessibilidade aos serviços básicos e, consequentemente, reforça essa
vulnerabilidade. A Educação Física enquadra-se como ferramenta de inserção
social, contribuindo para o desenvolvimento integral dos sujeitos e possibilita-lhes
melhores níveis de qualidade de vida, pois os leva a ambientes saudáveis onde
interagem entre si, constroem relações afetivas e trocam experiências. A
educação possibilita a formação de jovens ativos, autônomos e cidadãos. No
contexto do programa, a aprendizagem e as mudanças comportamentais dos
sujeitos se fazem presentes e os potencializam como cidadãos e protagonistas,
contudo, diversos preceitos da educação são necessários para mais
esclarecimento e obtenção de resultados ainda mais eficazes e eficientes,
possibilitando, com isso, o desenvolvimento local.
Palavras-chave: Vulnerabilidade Social. Educação Física. Educação.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the perception of physical education professionals
regarding the social vulnerability, Physical Education, Education and Control
Program Homicide "Fica vivo!" at the social protection. The study was based on
surveys with narrative literature search of articles in databases SciELO, LILACS.
Books, dissertations, theses and government programs were also surveyed. The
1
2
Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e
Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA.
Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social,
Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA.
19
keywords used were: social vulnerability, Physical Education, Education.
Possession of the material identified, went to his reading and selection of the one
who responded to the study objective. It is noticed that the socially vulnerable
young people to take more moments where they are at social risk, inaccessibility
to basic services and thus reinforces this vulnerability. Physical education is
framed as a social inclusion tool, contributing to the integral development of
individuals and enables them to better levels of quality of life, because it leads to
healthy environments, which interact among themselves, build personal
relationships and exchange experiences. Education enables the formation of
young assets, and autonomous citizens. In the context of the program, learning
and behavioral changes of individuals are present and empower them as citizens
and protagonists, however, several precepts of education are needed to further
clarify and obtain more effective and efficient results, enabling it to the local
development.
Key words: Physical Education. Education. Social vulnerability.
1.1 INTRODUÇÃO
O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, desenvolvido pela
Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais, foi implantado como
projeto-piloto em agosto de 2002 e institucionalizado em 2003. Intervém nas
dinâmicas sociais da violência e criminalidade nas quais ele está implantado.
Objetiva controlar e prevenir a ocorrência de homicídios dolosos em áreas de
vulnerabilidade social, atendendo jovens de 12 a 24 anos que se encontram em
situação de risco social.
Abordar
vulnerabilidade
social
é
imprescindível,
apesar
de
sua
complexidade, uma vez que jovens que se encontram em situação de risco social
não possuem perspectivas para o desenvolvimento de alternativas, com vistas ao
desenvolvimento
pessoal,
e
consequentemente
contribuírem
para
o
desenvolvimento local. Abramovay et al. (2002) afirmam que as deficiências no
acesso de bens e serviços colaboram com a manutenção da situação de
vulnerabilidade social.
Os jovens, quando inseridos em projetos sociais como o Programa “Fica
Vivo!”, têm a oportunidade de vivenciar momentos importantes na sua existência,
a partir de experiências coletivas e individuais, de trocas entre si e os profissionais
de Educação Física/oficineiros, de idas e vindas, de avanços e retrocessos; de
desconstrução, construção e reconstrução de conhecimentos, valores e
sentimentos: é o preparar-se para a vida. Portanto, é necessário oferecer suporte
20
adequado para que esses jovens tenham clareza dos direitos, bens sociais,
deveres e ações sociais relevantes, como o intuito de buscarem soluções e
melhorarem significativamente sua qualidade de vida e possibilitar-lhes otimizar
seu tempo ocioso.
O esporte é visto como ferramenta de inserção social, tendo sua
contribuição específica para o desenvolvimento integral dos sujeitos e melhores
níveis de qualidade de vida, por meio de ambientes saudáveis. Auxilia no
processo de desenvolvimento educacional, social e de saúde, o que possibilita a
potencialização e preservação das capacidades físicas, emocional e psicossocial,
influenciando na formação da autoestima, credenciando-os para uma melhor ação
produtiva e participação na sociedade.
A Educação Física constitui-se em uma das possibilidades de proporcionar
aos jovens a criação de novas opções de vida, de superação de dificuldades, de
alternativa para afastar-se das drogas e criminalidade, bem como fortalecer as
características positivas, com priorização dos valores construtivos, como:
companheirismo, autocontrole, respeito às regras, autossuperação, controle dos
impulsos negativos e agressividade. Possibilita, ainda, troca de informações,
capacitação, formação de novos valores e mudanças de comportamento,
desenvolvendo a personalidade e possibilitando formas diferenciadas de reflexão
e ação. Sendo assim, uma oportunidade de crescimento global da comunidade e
de seus integrantes a partir do desenvolvimento e envolvimento destes com
práticas esportivas.
Quando se trata da evolução da Educação Física no Brasil, pode-se dizer
que ocorreu uma conscientização em relação ao poder de socialização das
atividades esportivas, principalmente para jovens carentes de valores éticos e
morais. Eles encontram os incentivos necessários que os levam às conquistas
aliadas ao sentimento de cooperação e amizade; capazes de contribuir, mediante
suas relações, conexões e interdependência, para o bem-estar físico, psicológico
e social, promovendo saúde e cidadania.
A Educação Física faz parte da história da humanidade em diferentes
situações e necessidades, para o cumprimento do desenvolvimento corporal para
realização de diversas atividades, inclusive para sua sobrevivência. Sofreu
influências médicas e militares. Tornou-se obrigatória nas escolas do município da
Corte em 1851, a partir da Reforma Couto Ferraz. Passou por um momento em
21
que as atribuições eram fortalecer o trabalhador, melhorar a capacidade produtiva
e desenvolver a cooperação (BRASIL, 1997).
Em 1939 criou-se a Escola Nacional de Educação Física e Desporto
(ENEFD) (AZEVEDO; MALINA, 2004). A Educação Física foi influenciada pelas
mudanças da sociedade, mercado e cenário político, passando por várias
reformas e revisões, destacando-se o aprimoramento das forças físicas, morais,
psíquicas e sociais; o nacionalismo e a preparação para o trabalho; o
desenvolvimento motor (BRASIL, 1961).
No final do século XX, baseados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDBEN), ocorreu a regulamentação profissional da Educação Física
(BRASIL, 1998a). Por fim, nos dias atuais, busca-se uma Educação Física que
articule as múltiplas dimensões do ser humano, que vise ao fortalecimento
pessoal, interpessoal e político, o que proporciona autonomia e o sentimento de
pertencimento e, finalmente, o desenvolvimento integral dos sujeitos.
Do ponto de vista educacional, afirma-se que as desigualdades sociais que
acometem jovens no Brasil têm forte ligação com a educação. Na perspectiva da
vulnerabilidade social, a educação passa a ser um processo social, pois tem
relação com a socialização do indivíduo, agregando valores e a cultura local.
Possibilita a construção das relações sociais e tende a assumir o papel
transformador dos mesmos, levando-os as perspectivas.
Dessa forma, o tema deste estudo se foca, indiretamente, nos jovens
partícipes do Programa “Fica Vivo!”, uma vez que se busca conhecer o que a
literatura produziu a respeito da atuação dos profissionais de Educação Física
que assumiram o papel de oficineiros para que os jovens, em vulnerabilidade
social, se vejam como sujeitos cidadãos, façam escolhas conscientes, acreditem
em um futuro melhor para si e para sua comunidade e transcendam o aqui e
agora.
Nesse sentido, questiona-se: o que a literatura tem publicado a respeito da
atuação de profissionais de Educação Física com jovens que vivem em situações
de vulnerabilidade social, com vistas a ofertar-lhes uma educação integral?
Portanto, este estudo objetivou analisar as publicações mais recentes
relacionadas à vulnerabilidade social, Educação Física, educação e o Programa
de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”.
22
1.2 METODOLOGIA
A metodologia utilizada para a construção deste referencial teórico
fundamentou-se na pesquisa bibliográfica narrativa com levantamentos de artigos
na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), nas bases de dados da Scientific Electronic
Library Online (SciELO) e da Literatura Latino-Americana e do Caribe em
Ciências da Saúde (LILACS) a partir dos descritores: vulnerabilidade social,
Educação
Física,
educação
e
desenvolvimento
local. Também foram
pesquisados livros, dissertações, teses e programas governamentais que
possibilitaram que o aprofundamento teórico possibilitasse mais apreensão e
compreensão do fenômeno em pauta.
Segundo Gil (2010, p. 50), a pesquisa bibliográfica “é elaborada a partir de
material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e
atualmente com material disponibilizado na Internet”.
Permite o levantamento das pesquisas referentes ao tema estudado e
ainda o aprofundamento teórico que norteia a pesquisa. Gil (2010, p. 50) diz que:
A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir
ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais
ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Sua finalidade
é colocar o pesquisador em contato com o que já se produziu e se
registrou a respeito do tema de pesquisa. Tais vantagens revelam o
compromisso da qualidade da pesquisa.
Assim, buscaram-se autores que escreveram sobre vulnerabilidade social,
Educação Física, educação, Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” e
um pouco acerca do desenvolvimento local. De posse do material identificado,
passou-se à leitura e seleção daquele material que respondia ao objetivo deste
estudo.
1.3 REFERENCIAL TEÓRICO
Neste capítulo, buscou-se a apresentação de temas relacionados ao
fenômeno em estudo e que se interligam entre si para maior compreensão do
trabalho realizado pelos profissionais de Educação Física/oficineiros com jovens
participantes do Programa “Fica Vivo!”.
23
1.3.1 Vulnerabilidade social
Ao
discorrer
sobre
vulnerabilidade
social,
percebe-se
que
seu
entendimento parte da sua compreensão conceitual, ou seja, vulnerabilidade
social não se apresenta como tarefa fácil, uma vez que vem acompanhada de
diversas dimensões como a social, econômica, da saúde, entre outras. No
aspecto social, remete às questões sociais de fragilidade do indivíduo ou de
determinada comunidade. Constitui-se, também, como ferramenta para melhor
compreensão da situação de grupos tidos como vulneráveis, tais como: crianças,
jovens, mulheres e idosos. Para Monteiro (2011, p. 31) “os grupos de risco foram
delineados na sociedade com a visão focalizada no indivíduo e não no contexto
social que produziu a vulnerabilidade”.
O entendimento do conceito de vulnerabilidade, segundo Rado e Bonetti
(2009, p. 3611), pode ser ferramenta eficaz para compreender a situação dos
excluídos socialmente em sua amplitude, compreendendo as “vicissitudes” 8 e
“idiossincrasias”9 existentes em sua realidade.
Para Araújo (2010), a vulnerabilidade social é definida como nível de
acesso a aspectos básicos de cidadania, como moradia, serviço de infraestrutura
urbana, educação, trabalho, renda, assistência jurídica, serviços de saúde,
segurança alimentar e previdência social.
Pode-se dizer, conforme expressam Abramovay et al. (2002), que
vulnerabilidade social está relacionada à disponibilidade e ao acesso de
oportunidades sociais. E, de acordo com Correia (2008, p. 116), esse “conceito
está associado aos direitos civis e sociais e às condições de cidadania que, por
uma complexidade de fatores, deixam excluídos da condição de cidadãos
diversos sujeitos e comunidades”.
Percebe-se que a utilização desse termo está se ampliando, em
decorrência de diversas situações de risco social. Os conceitos de vulnerabilidade
social e risco social em diversas situações podem ser aplicados de forma
equivocada. Trata-se de conceitos distintos. Portanto, Yunes e Szymanski (2001
apud JANCZURA, 2012) fazem a distinção dos conceitos de risco e
8
Vicissitudes: circunstâncias consideradas contrárias e desfavoráveis. Disponível em:
<http://www.dicio.com.br/vicissitude/>
9
Idiossincrasias: é uma característica de comportamento peculiar de um indivíduo ou um
grupo. Disponível em: <http://www.significados.com.br/idiossincrasia/>
24
vulnerabilidade. O risco social refere-se a situações de grupos e populações,
enquanto a vulnerabilidade refere-se aos indivíduos e às suas suscetibilidades ou
predisposições a respostas ou consequências negativas, ou seja, a situação
fragilizada do indivíduo. Portanto, a vulnerabilidade tem efeito quando o risco está
presente em determinado grupo.
Tais enfoques, apesar de servirem à identificação dos setores mais
vulneráveis, não deram conta das complexas raízes desse fenômeno, já que se
baseavam apenas no uso de indicadores de renda ou carências que delimitam a
insatisfação de necessidades básicas (ABRAMOVAY et al., 2002).
Vulnerabilidade social, na visão de Abramovay et al. (2002, p. 31):
[...] decorre da sua utilidade para compreender como e por que
diferentes atores sociais se mostram mais suscetíveis a processos que
atentam contra sua possibilidade de ascender a maiores níveis de bemestar. Ela permite analisar o caso de grupos sociais, aos quais são
atribuídas grandes potencialidades, ativos valorizados em um dado
contexto de estruturas de oportunidades, mas que, contraditoriamente,
permanecem reclusos a um cenário de inseguranças, instabilidades e
marginalidade.
Monteiro (2011) refere que o termo vulnerabilidade está situado em
concepções distintas. A primeira concepção se dá pela atribuição do sujeito
vulnerável à submissão às condições perturbadoras. E a outra se dá pelo
potencial de risco do sujeito, considerando os elementos da realidade social. O
entendimento integral e completo do termo vulnerabilidade social é extremamente
importante para que se façam novos estudos que não sejam exclusivamente
focados na pobreza, e sim em outras formas de desvantagens sociais.
Baseado em Abramovay et al. (2002), pode-se dizer que situações de
vulnerabilidade social fazem referências a três elementos essenciais de
indivíduos, famílias ou comunidades. Com isso, a escassa disponibilidade desses
recursos ocasiona diversas desvantagens sociais. O primeiro elemento diz
respeito à posse ou controle de recursos, que permite aos diversos atores
desenvolverem-se em sociedade. O segundo refere-se às estruturas de
oportunidades que se vinculam em níveis de bem-estar, aos quais se pode
ascender em determinado tempo e território, podendo propiciar o uso mais
eficiente dos recursos. E, por fim, o terceiro elemento relaciona-se às estratégias
quanto ao uso que esses atores fazem de seu conjunto de recursos com vistas a
25
fazer frente às mudanças estruturais de um dado contexto social. A falta de
acesso à educação, trabalho, saúde, lazer e cultura diminui as chances de
aquisição e aperfeiçoamento desses recursos que são fundamentais para os
jovens.
De acordo com Abramovay et al. (2002, p. 14):
[...] a vulnerabilidade cresce quando aparecem algumas das situações a
seguir: falta de acesso à informação, aos serviços básicos de educação
e falta de confiança ou credibilidade na sustentação de estratégias de
ação. Evidencia-se, a partir desses aspectos, um deslocamento na
atribuição da condição de vulnerabilidade, que já não se constitui como
característica própria do indivíduo, mas como resultado da combinação
de determinados arranjos sociais e políticos que vão incidir sobre os
sujeitos.
O risco social aumenta devido aos acontecimentos das situações descritas
por Abramovay et al (2002) e, consequentemente, surge a vulnerabilidade, pois,
além do risco, tem-se a inabilidade de adaptar-se ativamente à situação e a
incapacidade de resposta.
2.3.1.1 Vulnerabilidade social e juventude
Ao recorrer ao termo juventude, percebe-se, várias vezes, que esta se
vincula à idade cronológica, ou seja, dos 15 aos 24 anos, faixa etária utilizada,
principalmente, pelos recortes de pesquisas como as realizadas pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 1996) e também pela Organização
das Nações Unidas – ONU (BRASIL, 2010, p. 23). Tecem considerações acerca
da natureza demográfica do segmento de jovens de 15 a 24 anos de idade, por se
tratar de uma faixa etário que requer especial atenção por parte dos responsáveis
diretos pelo planejamento nacional e até mesmo pela sua administração (IBGE,
1996). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como adolescência
a faixa etária entre 12 e 18 anos de idade, quando então se atinge a maioridade
legal (BRASIL, 1990). Já o Estatuto da Juventude define como jovem os sujeitos
entre 15 e 29 anos de idade (BRASIL, 2013).
Contudo, essa é uma fase arraigada por diversas concepções, que não são
consideradas apenas com a idade cronológica do indivíduo. De acordo com
Hurtado (2012, p. 17):
26
[...] a juventude é genericamente entendida como o período do
desenvolvimento humano que ocorre entre a infância e a vida adulta.
Entretanto, para falar de juventude é importante considerar que ela não é
apenas um fenômeno biológico e psicológico, mas também, histórico,
social e cultural. Tal percepção implica uma visão complexa e
multidisciplinar da juventude considerando-se seus múltiplos aspectos.
Ao considerar seus múltiplos aspectos é que se pensa e se propõe a
compreender a “juventude” que frequenta o Programa “Fica vivo!” como seres
humanos que trazem marcadas nas suas histórias de vida situações de risco
social que se configuram como possibilidades de serem trabalhadas pelos
oficineiros.
Quando inseridos em questões sociais, os jovens apresentam dois
aspectos importantes que demandam o apoio da sociedade e família. Primeiro,
em decorrência dos problemas de riscos sociais, como as drogas, a violência e
outros que demandariam medidas de enfrentamento. E o segundo aspecto, que
exigiria esforço, principalmente da família e da escola, no sentido de preparar o
jovem para ser um adulto socialmente ajustado e produtivo.
Torna-se necessário que a sociedade se organize para que possa oferecer
suporte adequado e ter clareza dos direitos, bens sociais e deveres dos jovens e
quais ações sociais são relevantes e urgentes para serem reivindicadas, com o
intuito de se buscar soluções e, logo, melhorar significativamente a qualidade de
vida desse grupo social. Vários fenômenos devem ser analisados, pois não é
possível separar os fenômenos psicológicos, individuais e sociais.
Hurtado (2012, p. 36) reporta:
[...] são diversos os impactos negativos da condição de vulnerabilidade
social na juventude, mas que, apesar disso, existe uma contrapartida
representada pelas possibilidades de superação desta condição. A
escola, a família, o estado, as organizações não governamentais podem
auxiliar na superação das adversidades encontradas por esses jovens,
funcionando como fonte de apoio relacional proporcionadoras de fatores
de resiliência e vulnerabilidades positivas.
As desigualdades sociais e os escassos recursos para a construção de
uma rede de proteção aos grupos populares vulneráveis se expressam por meio
da violência, que acaba se tornando um sério problema. Daí a importância de
programas como o “Fica Vivo!” e outros existentes.
27
Pode-se considerar que jovens oriundos de famílias carentes e de laços
frágeis com muitas demandas e/ou necessidades podem ser considerados em
situações de risco social, assumindo uma condição de vulnerabilidade social.
Silva (2008) explicita que essa situação acontece porque esses jovens não
acessam serviços básicos e essenciais e, logo, estão expostos ao risco social, à
iminente marginalidade.
Abramovay et al. (2002, p.13-14) justificam:
[...] a dificuldade dos jovens em acessar as estruturas de oportunidades,
apresenta-se um conjunto de dados secundários sobre a educação,
saúde, cultura, lazer e trabalho, insumos fundamentais para o
desenvolvimento dos recursos materiais e simbólicos. Esses dados
apontam para a existência de deficiências no acesso dos jovens a esses
bens e serviços, o que colabora com a manutenção da situação de
vulnerabilidade social.
Acredita-se que alternativas como lazer, atividades esportivas, culturais e
profissionalizantes possam contribuir no processo inicial de uma mudança
significativa na vida dos jovens. E, também, que esses momentos podem ser
considerados “privilegiados” para a construção de valores éticos e, por
conseguinte, possibilitam a formação de jovens socialmente diferenciados.
Conforme Abramovay et al. (2002, p. 53-54):
[...] o lazer constitui, por fim, uma importante dimensão a ser analisada,
tanto pelo destaque conferido às atividades recreativas, como pela
relevância de tais atividades no desenvolvimento pessoal e integração
social desses jovens. Por um lado, estudos demonstram que os jovens
possuem um imaginário associado ao prazer, expresso em atividades
recreativas.
Assim, é imperativa a implantação de políticas públicas voltadas para os
jovens. Não se pode esquecer de que o tempo em que permanecem nas escolas,
isso quando a frequentam regularmente, é curto em relação ao tempo em que
permanecem nas ruas. Muitos deles tentam sair da invisibilidade social, mas, em
muitos casos, acabam se infiltrando em situações de risco como as drogas, a
criminalidade, entre outras. Não se leva em consideração somente a ocupação do
tempo ocioso.
Tendo em vista o foco deste trabalho serem profissionais de Educação
Física do Programa “Fica vivo!”, torna-se pertinente adentrar um pouco a história
28
da Educação Física. Além do mais, cabe-lhes o desafio de resgatar jovens em
vulnerabilidade social e possibilitar-lhes participar de ações efetivas revestidas de
princípios básicos teórico-práticos.
2.3.2 História e evolução da Educação Física no Brasil
Ao longo dos anos, a atividade física sempre esteve presente na história da
humanidade, em diferentes situações e necessidades. Relatos históricos revelam
que o homem primitivo já praticava atividades físicas em diversas situações para
a sua sobrevivência nas condições de vida da época. Necessitavam da aptidão
física adequada para a realização de atividades de pesca, caça, construção de
moradias, entre outras, e nos momentos de lazer ou rituais religiosos. Então, a
Educação Física surgiu para o cumprimento do desenvolvimento corporal com
vistas à realização de diversas atividades.
A evolução da Educação Física, conhecida na atualidade, se deu
principalmente pelas fortes influências médicas e militares. A médica intervinha
em aspectos relacionados ao funcionamento do corpo e a militar no
desenvolvimento corporal para as necessidades da função e o entendimento e a
valorização do corpo, no que diz respeito à concepção da disciplina e suas
finalidades (ROSA; LETA, 2010).
A Reforma Couto Ferraz, ocorrida no ano de 1851, tornou obrigatória a
Educação Física nas escolas do município da Corte (BRASIL, 1997).
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN):
[...] em 1882, Rui Barbosa deu seu parecer sobre o Projeto 224 Reforma Leôncio de Carvalho, Decreto n. 7.247, de 19 de abril de 1879,
da Instrução Pública, que defendeu a inclusão da ginástica nas escolas e
a equiparação dos professores de ginástica aos de outras disciplinas. Foi
destacada a ideia sobre a importância de ter um corpo saudável para
sustentar a atividade intelectual, ou seja, o desenvolvimento integral do
ser humano (BRASIL, 1997, p. 20).
Na transição da primeira para a segunda metade do século XX, ocorreram
os principais marcos formadores da Educação Física no Brasil. Estes acontecem
principalmente em decorrência do desenvolvimento de força para o trabalho,
devido à existência de diversos aspectos resultantes da Revolução Industrial e da
necessidade de força para o enfrentamento de situações de guerra (BRASIL,
29
1997).
Apenas em 1937, com a elaboração da Constituição, a Educação Física foi
explicitada em textos constitucionais federais. Ela ganhou novas atribuições:
fortalecer o trabalhador, melhorando sua capacidade produtiva, e desenvolver o
espírito de cooperação em benefício da coletividade (BRASIL, 1997).
Com as necessidades profissionais da época, capazes de garantir o
desenvolvimento da força física, criou-se a escola de Educação Física. Em 1939,
por meio do Decreto-Lei nº 1.212, criou-se a Escola Nacional de Educação Física
e Desportos (ENEFD) e estabeleceram-se as diretrizes para a formação
profissional (AZEVEDO; MALINA, 2004).
A partir do surgimento de concepções influenciadas por mudanças na
sociedade, no mercado e no cenário político nacional, a Educação Física passou
por reformas que permitiram sua inclusão no sistema educacional (BRASIL,
1961).
Em 1945, a Educação Física passou por revisão curricular. Entre 1945 e
1968, a formação do professor ganhou atenção especial, o que se pode observar
nitidamente na Lei de Diretrizes e Bases – LDB nº 4.024/61 (BRASIL, 1961).
Albuquerque (2009) salienta que a reforma educacional proposta em 1964
foi pensada de acordo com o modelo econômico voltado para a entrada de capital
e das indústrias no Brasil. No cenário econômico a Educação Física foi vista como
uma ferramenta para o desenvolvimento técnico e físico do aluno, importantes
para interesses comerciais.
Nesse quadro, em 1968, com a Lei nº 5.540, e em 1971, com a Lei nº
5.692, a Educação Física teve seu caráter instrumental reforçado (BRASIL, 1997).
Como consta nos PCNs, a partir do Decreto nº 69.450 de 1971, a
Educação Física passou a ser considerada “a atividade que, por seus meios,
processos e técnicas, desenvolvem e aprimoram forças físicas, morais, cívicas,
psíquicas e sociais do educando” (BRASIL, 1998b, p. 21).
Como descrito nos PCNs, os médicos assumiram função higienista,
visando melhorar a condição de vida e modificando hábitos de saúde e higiene da
população. Já os militares assumiram uma filosofia positivista, em que era de
fundamental importância formar indivíduos fortes e saudáveis (BRASIL, 1998b).
Na década de 70, a Educação Física ganhou funções importantes para a
manutenção da ordem e do progresso, pautadas no esporte e nacionalismo. As
30
atividades esportivas foram consideradas fatores que poderiam colaborar na
melhoria da força de trabalho (BRASIL, 1998b).
Na década de 80, esse modelo foi contestado e o enfoque passou a ser o
desenvolvimento psicomotor do aluno. No final do século XX, com as publicações
da LDBEN nº 9.394/96, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da
Lei nº 9.696/98 com a regulamentação profissional da Educação Física, observouse um novo delineamento no campo da intervenção profissional da Educação
Física (BRASIL, 1998a).
Em 1o de setembro de 1998 criou-se a Lei nº 9.696, que dispõe sobre a
regulamentação da profissão de Educação Física e cria os respectivos Conselho
Federal (CREF) e Conselhos Regionais de Educação Física (CONFEF) (BRASIL,
1998a).
Os PCNs relacionados ao profissional de Educação Física estabelecem
que:
[...] esse professor é uma referência importante para seus alunos, pois a
Educação Física propicia uma experiência de aprendizagem peculiar ao
mobilizar os aspectos afetivos, sociais, éticos e de sexualidade de forma
intensa e explícita, o que faz com que o professor de Educação Física
tenha um conhecimento abrangente de seus alunos (BRASIL, 1997, p.
22).
Portanto, a partir dessas mudanças e evoluções na formação do
profissional de Educação Física, pode-se dizer que sua atuação como oficineiro
no Programa “Fica Vivo!” é relevante, devido ao contato próximo e dialógico que
tem com os alunos do programa. Sua formação lhe outorga articular as múltiplas
dimensões do ser humano e estabelecer com ele uma interação afetiva, próxima,
dialógica, ética e de transcendência.
Também, nos tempos atuais, desde o início do século XXI, o
desenvolvimento do conhecimento permitiu a formalização e estruturação de
princípios que visam ao desenvolvimento do corpo a fim de vislumbrar as mais
diversas necessidades humanas.
Nesse sentido, o trabalho dos profissionais de Educação Física gera, para
além da transmissão de informações e discussão de temas advindos do interesse
dos jovens, a participação ativa e operativa deles e sua aplicação no ambito social
e histórico com vistas às efetivas respostas à sua realidade. Dessa forma, o
31
profissional de Educação Física tem diversas atribuições.
2.3.2.1 Atribuições e papel do profissional de Educação Física
Diversos segmentos da Educação Física apresentam um dinamismo
inerente às novas concepções e conhecimentos; essa característica atual tem
exigido do profissional de Educação Física conhecimentos e habilidades mais
especializados para o desempenho de suas funções.
Desde a sua concepção, o profissional de Educação Física recebeu
diversas atribuições respaldadas pelos princípios que norteiam seu campo de
atuação. A legitimidade dada pela Lei nº 9.696, de 1 o de setembro de 1998, que
dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os
respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física,
descreve que:
“Art. 3o Compete ao profissional de Educação Física coordenar, planejar,
programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar
trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de
auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados,
participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar
informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de
atividades físicas e do desporto” (BRASIL, 1998a).
Ao longo do seu desenvolvimento, a Educação Física sofreu influências de
diversas ciências, como as ciências humanas e sociais, e estas ampliaram as
atribuições dadas aos profissionais de Educação Física. De acordo com Rosa e
Leta (2010), a ruptura da concepção médica da Educação Física permitiu a
valorização dos aspectos sociais e filosóficos dessa profissão, propiciando uma
nova realidade de atuação profissional.
A modernização mostrou que a educação deveria preocupar-se com os
valores morais, o tempo livre, o lazer e a educação integral dos jovens e crianças.
Essa evolução da Educação Física fez com que o caráter militarista desse lugar
ao desenvolvimento da corporeidade. Isso atribuiu à Educação Física uma
identidade destacada no cenário educacional. Segundo Silva et al. (2009) inferese que o entendimento para construção da identidade da Educação Física está
calcada exclusivamente na demonstração de modelos e no saber fazer.
Para Nunes, Votre e Santos (2012), no contexto em que a Educação Física
32
desempenha seu papel, entre outros ambientes, como no social, os métodos
pedagógicos estabelecem um modo de articulação dos saberes e conhecimentos
que objetiva o desenvolvimento social do indivíduo.
Vale salientar, conforme estabelecido pelo Código de Ética do Profissional
de Educação Física, que sua atuação deverá ser respaldada pelo princípio da
responsabilidade social. Esse princípio foi estabelecido por meio da Resolução nº
056, de 18 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Código de Ética dos
profissionais de Educação Física:
“Art. 4º - O exercício profissional em Educação Física pautar-se-á pelos
seguintes princípios:
I - o respeito à vida, à dignidade, à integridade e aos direitos do
indivíduo;
II - a responsabilidade social;
III - a ausência de discriminação ou preconceito de qualquer natureza;
IV - o respeito à ética nas diversas atividades profissionais;
V - a valorização da identidade profissional no campo da atividade física;
VI - a sustentabilidade do meio ambiente;
VII - a prestação, sempre, do melhor serviço, a um número cada vez
maior de pessoas, com competência, responsabilidade e honestidade;
VIII - a atuação dentro das especificidades do seu campo e área do
conhecimento, no sentido da educação e desenvolvimento das
potencialidades humanas, daqueles aos quais presta serviços”
(CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA - CONFEF, 2003).
Ao considerar a ação do princípio socializador da Educação Física, a
prática esportiva é reconhecida como canal de socialização ou de inclusão social.
Assim, o Programa “Fica Vivo!” assume caráter socializador. Destaca-se, ainda,
que o esporte é um meio importante de socialização, por conseguir atingir valores
como cooperação, amizade e solidariedade, que são relevantes para vencer as
adversidades da pobreza.
Baseado em Vianna e Lovisolo (2011), constata-se que a formação social,
como a sociabilidade e a responsabilidade, seja intrínseca ao esporte. As
influências da mídia e dos grandes eventos esportivos que acontecerão no Brasil
motivam e aumentam a participação de elevado número de sujeitos nos
programas e/ou projetos de atividade física regular.
Considerando as variáveis em que o esporte pode atuar, como recurso de
desenvolvimento social, o profissional de Educação Física tem o papel
fundamental de melhorar a condição de jovens em situação de risco social. Cabelhe, por meio de suas ferramentas de trabalho, delinear o método intervencionista
33
em sua tomada de decisão, com vistas à redução das mazelas decorrentes da
fragmentação social dos jovens.
Contudo, Correia (2008, p. 118) enfatiza que a ideia de intervenção do
profissional de Educação Física deve ser respaldada com as devidas
peculiaridades e complexidades de uma ação social. Para que a intervenção
social, por meio da Educação Física, por intermédio do esporte e do lazer,
obtenha êxito e cumpra seu papel transformador em regiões vulneráveis, “será
necessário que os mesmos sejam desenvolvidos e administrados com a mesma
seriedade e eficiência de uma empresa, porém com muita responsabilidade e
comprometimento social”.
Além das peculiaridades de projetos intervencionistas oriundos da prática
da atividade física e do esporte, vale ressaltar que o papel da Educação Física,
para Correia et al. (2010, p. 153):
[...] cabe à Educação Física, enquanto componente curricular, assumir
também um papel social e transformador, de uma prática educativa
comprometida com a formação de atitudes e valores para que, desta
forma, o educando possa perceber a importância das relações
interpessoais para a transformação de sua condição enquanto sujeito de
relações afetivas, cognitivas e, sobretudo, morais, para poder viver sem
agredir ou prejudicar o outro. Assim, estará contribuindo para a formação
de um sujeito crítico e emancipado, possibilitando um novo olhar no
modo de ser, ver e intervir no mundo.
Brinati et al. (2006) apresentam as dimensões alcançadas com a prática de
atividades físicas que promove o fortalecimento pessoal, interpessoal e político,
ou
seja,
autonomia,
sentimento
de
pertencimento
e
identificação
com
determinados grupos e segurança diante da sociedade.
A Educação Física é capaz de contribuir para o desenvolvimento social do
indivíduo, por meio do esporte e/ou atividade física, mantendo a relação dele com
os demais, bem como alcançar metas, previamente traçadas, por meio desse
desenvolvimento. Podem-se vislumbrar os seus objetivos, mostrando cada vez
mais que o empenho dos praticantes de atividades físicas poderá ajudar para que
eles possam sair de situações menos favoráveis.
A atuação dos profissionais de Educação Física no
âmbito de
vulnerabilidade social no Programa “Fica Vivo!” tem forte ligação com a educação,
que passa a ser um processo social, uma vez que possibilita a construção das
relações sociais e agrega valores. Por isso, adentra-se na Educação.
34
2.3.3 Educação
As desigualdades sociais vividas pelos jovens no Brasil têm forte ligação
com a educação; essa é percebida em dados que revelam reduzidos níveis
educacionais em classes menos favorecidas da sociedade. Contudo, as
discussões em torno da educação não se limitam às questões do acesso à
educação e à qualidade da mesma, mas como essa pode ser importante para o
desenvolvimento social do indivíduo.
A partir da promulgação da LDBEN nº 9.394 de 20 de dezembro 1996, que
estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, o papel da educação teve
sua contextualização com a realidade, dando o caráter de socializador ao sistema
educacional. Essa abrangência da educação é exposta no seguinte artigo:
“Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se
desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas
instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e
organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL.
1996).
Na perspectiva da vulnerabilidade social, a educação passa a ser um
processo social, pois se relaciona à socialização do indivíduo, agregando valores,
e à cultura local durante a história de vida deles. Stoco (2011) preleciona que a
educação é um processo político de permanência e mudança (preservar e
mudar), baseada em alguns princípios e finalidades.
A concepção de educação freireana realça que se deve conhecer a
realidade do sujeito e “a premissa básica daqueles que realizam o processo
educativo é proporcionar o fortalecimento pessoal dos seres humanos com quem
interagem, é ajudá-los a ajudar-se, fazê-los agente de sua transformação ”
(FREIRE, 1994 apud OLIVEIRA, 2011, p. 96).
Os profissionais de Educação Física do Programa “Fica Vivo!”, na
concepção de educação de Paulo Freire, conhecendo a realidade dos jovens,
devem trabalhar de tal forma com eles que os empoderem a sair do lugar comum
e a se acreditarem como seres de possibilidades e de transformação.
Conforme Klein (2011, p. 98):
35
[...] educação não é simplesmente a soma de diferentes experiências é,
sobretudo, a combinação de diferentes experiências que interagem entre
si e são significados pelo sujeito. O conceito amplo de experiência
indissociável da vida cotidiana nos possibilita compreender a educação
para além dos limites escolares.
Quaresma (2012, p.186) salienta que:
Na práxis educativa social, os objetivos e as intenções educacionais
integram todas as dimensões do desenvolvimento e da ação humana e,
também, as intenções individuais e coletivas; sendo o coletivo, o social; a
transformação social, o objetivo final, tendo em vista o bem de todos.
A educação possibilita a construção das relações sociais, redes de amigos
e contatos. Para Abramovay et al. (2002, p. 38), “a educação em conjunto com a
família constitui um dos espaços tradicionais de socialização entre os jovens”.
Dessa forma, a educação tende a assumir o seu papel de formador do indivíduo,
com perspectivas.
A educação atual deve se propor a construir conhecimentos, considerando
a diversidade dos sujeitos, independentemente da condição social, da
possibilidade de escolha e do posicionamento ético em seu caminho, pautado em
suas crenças e valores.
Pode-se observar que a limitação dos investimentos em educação e as
necessidades do mercado para promover a superação da vulnerabilidade e de
suas consequências não possibilitam o aumento da participação e valorização
das formas de organização e expressão do jovem, como estratégia de ação para
envolver a sociedade e seus recursos na busca de soluções para os problemas.
Desta forma, a educação desenvolve o seu papel ao contribuir para o
desenvolvimento
do
ser
humano
a
fim de
superar as condições de
vulnerabilidade.
Para Bueno (2001), a educação atualmente assume a função de formação
das novas gerações dos sujeitos em relação à formação do cidadão e de
constituição do sujeito social, além de possibilitar, por meio dela, a construção de
um espaço de convivência social que favoreça e estimule a formação e favoreça o
exercício da cidadania, assumindo o compromisso de mais participação dos
jovens.
As ações ofertadas para a educação, promovidas por meio das políticas
públicas, parecem desenvolver e ampliar as possibilidades de reduzir a exclusão
36
social, mas pontos relevantes como o desenvolvimento pessoal e a formação
para a vida são esquecidos.
Destaca-se que o Programa “Fica Vivo!” é uma política pública, propositiva
e convoca para a redução da criminalidade nas regiões atendidas; busca, por
intermédio de ações educativas, proporcionar melhores níveis de qualidade de
vida para os jovens inseridos no Programa, com ênfase no desenvolvimento
pessoal e formação para a vida.
O Programa “Fica Vivo”, por meio das oficinas, oferece atividades para os
jovens em diversas dimensões e de acordo, na maioria das vezes, com o desejo
deles e aptidão. Todavia, os profissionais de Educação Física/oficineiros não
devem focar apenas fundamentos técnicos ou táticos, quando se tratar de
modalidades
esportivas.
Deve-se
levar
também
em
consideração
o
desenvolvimento social, educacional, cultural e esportivo e valorizar as
experiências de cada e de todos, buscando-se resgatar e trabalhar valores
essenciais para esses jovens.
2.3.4 O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”
O Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” originou-se de reuniões
orientadas segundo a metodologia de “Solução de Problemas – Problem
Solving”10, por um grupo de trabalho com iniciativas do Centro de Estudos em
Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), com a presença de
membros da Polícia Civil (PCMG) e da
Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Ministério Público, juízes, pesquisadores,
técnicos da Coordenadoria de Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte e
empresários do setor privado (PEIXOTO; ANDRADE; AZEVEDO, 2007).
Os resultados de pesquisas realizadas no Programa “Fica Vivo!”
identificaram aumento da criminalidade nas regiões em vulnerabilidade social e
também constataram que os autores dos crimes e as vítimas eram jovens entre
12 e 24 anos e negros, surgindo, assim, encaminhamentos iniciais de
intervenção. É justamente nessa conturbada conjuntura que surge o Projeto de
10
Essa metodologia tem como estrutura a identificação de problemas, a análise destes, a
elaboração e implementação de soluções e a avaliação das soluções (PEIXOTO; ANDRADE;
AZEVEDO, 2007, p. 3).
37
Controle de Homicídios.
Reafirma-se que o Programa “Fica Vivo!” tem como foco a prevenção de
homicídios em regiões de vulnerabilidade social. É sabido que a prevenção por
meio do esporte pode potencializar ações que contribuam significativamente para
a redução dos índices de criminalidade, a fim de proporcionar o desenvolvimento
local de diversas regiões de vulnerabilidade social. O elevado número de
homicídios pode ser minimizado com a utilização dessa ferramenta, em que serão
trabalhados diversos conteúdos imprescindíveis, tais como o resgate de valores
perdidos ou adormecidos, possibilitando o alcance do objetivo principal do
programa que é prevenção social à criminalidade com vistas à diminuição dos
fatores de risco extrínsecos.
O Programa é acompanhado pela Coordenadoria de Prevenção à
Criminalidade (CPEC), no âmbito da Secretaria de Estado de Defesa Social
(SEDS). As contratações são realizadas por uma Organização Social Civil de
Interesse Público (OSCIP), o Instituto ELO, e as oficinas com recursos
provenientes do Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP) (FARIAS;
NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009).
Os grupos de trabalhos foram assim dispostos: um grupo de ação
estratégica e outro de mobilização social, como pode ser visto na FIG. 1:
FIGURA 1 - Eixos do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”
Fonte: Minas Gerais (2009).
O eixo de intervenção estratégica tem como objetivo articular e promover a
interação dos órgãos do Sistema de Defesa Social e Justiça Criminal. Realiza
38
estudos técnicos e capacitações para o grupo desse eixo, composto pela SEDS,
Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário (MINAS GERAIS,
2009). Segundo Mendes (2009, p. 222), nesse eixo os técnicos têm menos
contatos com os beneficiários do programa. O autor também diz que os técnicos
“trabalham com a identificação e a repressão dos focos de criminalidade e os
indivíduos relacionados com estes”.
O Grupo Especializado de Áreas de Risco (GEPAR), criado em 2004, faz
parte do eixo da intervenção estratégica e é formado por policiais militares que
promovem a familiaridade com a região de atuação e estabelecem um novo tipo
de relacionamento com as comunidades (MINAS GERAIS, 2009).
O eixo de proteção social tem sede nos Centros de Prevenção à
Criminalidade (CPC). Possui contato direto com a comunidade onde o Programa
de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” se insere. As ações de atendimento e de
trabalho em rede são realizadas pelo grupo, composto de gestor, técnicos,
estagiários e os oficineiros. Esses atendimentos são destinados aos jovens na
faixa etária de 12 a 24 anos (MINAS GERAIS, 2009). Esse eixo será enfatizado
neste estudo, tendo em vista seu objetivo prioritário.
Segundo Mendes (2009, p. 219-220), o Programa “Fica Vivo!”:
[...] através dos centros de base local, age a favor do empoderamento da
comunidade, contribuindo para o estabelecimento de laços e auxiliando
na criação de uma nova relação entre os moradores e o poder público,
mesmo que de forma acanhada. Apesar de não ser o objetivo final do
programa, a relação com a comunidade colabora com uma visão mais
positiva da comunidade por parte dos moradores, em virtude não só das
possíveis melhorias trazidas pelo programa, mas até da visibilidade dele.
O programa, para Ladeira e Rocha (2009, p. 197), “carrega em seus
princípios a função de dar lugar a esse público, assim como provocar no encontro
com a arte e o esporte a possibilidade deles se destacarem de outra maneira”.
No que diz respeito ao Centro de Referência, o Programa “Fica Vivo!”,
implantado na política de prevenção, funciona em CPCs. Eles se dividem em
centrais e de base local, relacionados com a forma de atuação dos programas de
prevenção. O programa é sediado em um centro de base local para oferecer
recursos de mobilização para as comunidades assistidas (MENDES, 2009).
Outra atividade que integra o programa são as oficinas. Estas são ações
visíveis do programa, devido ao contato com a comunidade assistida e, também,
39
por apresentar estratégias de aproximação e atendimento, pois articula aspectos
da singularidade dos jovens e o acesso aos direitos sociais, diante das
diversidades das áreas de abrangência dos centros, tais como: aspectos
criminais, culturais, sociais, históricos e geográficos. Cada CPC tem, em média,
25 oficinas, com a participação de 20 a 25 jovens em cada. Ressalva-se que,
neste estudo, será feito um recorte para as oficinas de esportes.
No Programa “Fica Vivo!”:
O que orienta a implantação das oficinas é a articulação entre a dinâmica
criminal - deve-se entender o termo “dinâmica criminal” como fatos e
fenômenos de natureza social, cultural, territorial e criminal que
interferem na incidência de crimes de uma determinada localidade -, a
demanda do jovem, os aspectos socioculturais e a seleção do oficineiro.
Assim como a seleção das oficinas, a escolha do oficineiro também não
é feita ao acaso; ser morador da comunidade, ter experiência no ofício a
ser ministrado, saber dialogar com o jovem e ter acesso a todos os
espaços do aglomerado são alguns dos pré-requisitos básicos para
seleção dos oficineiros (FARIAS; NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009).
As oficinas objetivam:
[...] prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação dos
jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir
aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional;
possibilitar a vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a
participação dos jovens em novas formas de grupos; trabalhar temas
relacionados à cidadania e aos direitos humanos; possibilitar a criação
de espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades (MINAS
GERAIS, 2009, p. 86).
Para Mendes (2009), existem dois pontos importantes nas oficinas. O
primeiro é o reforço à coesão social entre os beneficiários e a comunidade, que é
um importante fator de prevenção à criminalidade, porque é a partir dela que a
comunidade se identifica e cria laços de solidariedade. E afirma
E afirma que “a socialização promovida nas escolas não é o suficiente para
os jovens dessas comunidades, pois eles passam apenas parte do tempo
estudando” (MENDES, 2009, p. 220). Há necessidade de atividades prazerosas
ou de inclusão produtiva e valores, ou seja, que ocupem o tempo ocioso e
possibilitem superar a situação que vivem e deixem a invisibilidade social 11.
O segundo ponto importante das oficinas para o programa é o contato
11
Invisibilidade social: o termo que foi criado para designar as pessoas que se tornam socialmente
invisíveis, seja por preconceitos ou pelas indiferenças.
40
direto com o beneficiário. São os oficineiros que têm mais contato com os
beneficiários, permitindo que eles possam acompanhar com clareza as demandas
da comunidade e vejam o poder de intervenção na vida dos atendidos pelo
Programa “Fica Vivo!”.
O oficineiro deve apresentar um projeto de oficina. Se aprovado, cabe-lhe a
responsabilidade de atender a todos os objetivos das oficinas, ter habilidade para
trabalhar com jovens que se encontram envolvidos com a criminalidade e a
capacidade de compreender a metodologia que orienta o programa.
O oficineiro deve ser detentor de um saber específico, como uma
modalidade esportiva, uma linguagem cultural ou um tema de profissionalização.
Os oficineiros têm carga horária de 28 horas mensais, divididas em 20 horas de
oficinas, com flexibilidade de horários e diversidade de atividades e oito horas de
reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do programa (MINAS
GERAIS, 2009).
Farias, Noro Filho e Laczynski (2009) aduzem que os oficineiros lidam com
situações inusitadas e conduzem o comportamento dos jovens, tornando-se um
dos principais atores para o funcionamento do programa. Estes se articulam ao
programa para a execução das oficinas e outras formas de atendimento aos
jovens.
Conforme a metodologia do programa, os critérios a serem observados na
seleção dos oficineiros são:
Ser preferencialmente morador da área de abrangência do Centro de
Prevenção à Criminalidade; ter experiência no ofício a ser ministrado;
Saber dialogar com o jovem; ter acesso a diferentes espaços na área de
abrangência do Centro de Prevenção à Criminalidade; demonstrar
habilidade de trabalho com os jovens que se encontram envolvidos com
a criminalidade e capacidade para compreender a política de segurança
e a metodologia que orienta o programa (MINAS GERAIS, 2009, p. 8788).
Quanto aos deveres do oficineiro, tem-se que:
Criar vínculo entre os jovens e o programa a partir de suas diferentes
formas de atendimento; possibilitar espaços para discussões e fazer
mediações de conflitos entre os jovens; potencializar a autonomia dos
jovens; promover discussões sobre segurança pública, cidadania e
direitos humanos; permitir aos jovens o conhecimento, a valorização e
apropriação de elementos culturais; realizar encontros e eventos que
atendam aos objetivos do programa; elaborar mensalmente relatórios e
listas de presença dos jovens atendidos nas oficinas, fornecer lanche e
41
comprar os materiais necessários para as oficinas (MINAS GERAIS,
2009, p. 88-89).
Percebe-se, portanto, que as oficinas constituem uma das atividades
realizadas pelos oficineiros e que exigem critérios para sua materialidade, nos
espaços que abrigam jovens em vulnerabilidade social. .
O Programa “Fica Vivo!”, por meio de suas oficinas, pretende trabalhar com
os jovens de forma prazerosa e agradável. O espaço torna-se um local para o
fortalecimento dos laços de amizade, mais cooperação, interação e compreensão,
fazendo com que desperte o sentimento de pertencimento onde se encontram
inseridos. .
Suas ações, com ênfase em uma educação multidimensional, podem
proporcionar o desenvolvimento local nas regiões onde se encontram os CPCs.
Suas atividades estão voltadas para o desenvolvimento pessoal, interpessoal,
contribuindo para a formação desses jovens. Silveira et al. (2010), baseados nos
resultados do estudo realizado, sugerem que o Programa “Fica Vivo!” constitui-se
em uma importante alternativa de prevenção de homicídios em comunidades que
se encontram em situação de vulnerabilidade social.
Em 2006, o Programa foi escolhido como um dos 48 finalistas do Prêmio
Global de Excelência de Melhores Práticas para a Melhoria do Ambiente de Vida
– Prêmio Dubai, criado pelo Centro das Nações Unidas para Assentamentos
Humanos (UN-Habitat) em parceria com a municipalidade de Dubai, nos
Emirados Árabes Unidos.12
O Programa “Fica Vivo!” apresenta alguns indicadores de inovação social,
destacando-se a conciliação dos contrários, ideia de coletivo, adaptação do
contexto e compartilhamento de interesses diversos. A realidade é modificada de
forma sistêmica e com intencionalidades em atitudes, ideias, culturas, conteúdos
e modelos (CARBONELL, 2002).
2.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
No cenário de vulnerabilidade em que se encontram os jovens do
Programa “Fica Vivo!”, a compreensão desse conceito tornou-se imprescindível
12
Disponível em: <https://www.seds.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=
283&&Itemid= 117>.
42
para a aproximação teórica e prática na vida cotidiana com esses jovens. Diante
das diversas dimensões da vulnerabilidade, não se deve focar exclusivamente na
pobreza. Várias outras questões sociais devem ser consideradas, bem como o
nível de acesso aos aspectos básicos e oportunidades sociais, que são
imprescindíveis para o desenvolvimento desses jovens.
A falta de acesso à educação, saúde e trabalho proporciona a elevação do
estado de vulnerabilidade. Essa elevação deixa cada vez mais longe as
possibilidades de adaptação em diversas situações de risco social. Isso remete e
convoca a todos , para a necessidade de pensar, refletir e oferecer estruturas de
oportunidades aos jovens, com atividades educativas e mobilizadoras de
sentimentos de pertença, de cidadania, de autonomia, com capacidade de fazer
escolhas conscientes, sábias, ponderadas, com avaliação dos benefícios e riscos
sobrevindos dessas opções de vida escolhidas e postas em concretude.
No Programa “Fica Vivo!” a educação é um processo social importante
para a socialização dos indivíduos, agregando valores e potencializando a cultura
local. Possibilita a construção de relações sociais que estimulem a formação e o
exercício da cidadania em um espaço de convivência social, onde se propõe à
construção de conhecimentos e, com isso, tornam-se possíveis altos níveis de
participação social dos jovens. Isso se deu com a evolução da Educação Física,
que sofreu influências médicas e militares que intervinham no funcionamento do
corpo e no desenvolvimento do corpo para as necessidades da função.
Essa evolução permitiu que os profissionais de Educação Física se
conscientizassem do poder de socialização das atividades esportivas. Pois se
destaca que a atuação deve ser respaldada pelo princípio da responsabilidade
social, cuja prática esportiva é reconhecida como canal de socialização e de
inclusão social.
O programa oferece adequado suporte, que permite aos sujeitos terem
clareza dos seus direitos e deveres. As atividades esportivas contribuem no
processo inicial de mudança significativa na vida dos jovens. É uma política
pública voltada para os jovens, o que afirma sua relevância, considerando-se
seus objetivos de prevenção à criminalidade, acesso ao esporte, circulação dos
jovens,
inserção
social,
cidadania
e
formação
profissional
transformador que permite aos jovens sair da invisibilidade social.
de
caráter
43
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47
2 O SIGNIFICADO DO TRABALHO NO PROGRAMA “FICA VIVO!”
NA PERSPECTIVA DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
Ronderson Rodrigues Duarte113
Matilde Meire Miranda Cadete214
RESUMO
Este estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais de Educação Física
que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os desdobramentos e/ou
resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”. Realizou-se
estudo de caráter exploratório com abordagem qualitativa. Em campo, os dados
foram coletados com 14 profissionais de Educação Física/oficineiros dos Centros
de Prevenção à Criminalidade da capital e Grande Belo Horizonte, utilizando-se
como instrumento a entrevista semiestruturada. Esta evidenciou cinco categorias
temáticas: significado de trabalhar no “Fica vivo!”; satisfação-insatisfação de
trabalhar no “Fica Vivo!”; processo educativo do Programa “Fica Vivo!”; da
participação à ação; e capacitando-se para capacitar o outro. A análise mostrou
que o trabalho desenvolvido por meio de oficinas e atividades esportivas traz
mudanças significativas para as vidas dos jovens.
Palavras-chave: Educação Física. Educação. Vulnerabilidade Social. Políticas
Públicas.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the perception of physical education professionals
who act as workshop on the effectiveness or outcomes and/or results of the
Control Program Homicide "Fica Vivo!". We performed exploratory study with a
qualitative approach. Field data were collected with 14 Professional Physical
Education/workshop at the Centers for the Prevention of Crime of large capital
Belo Horizonte and, using a semi-structured interview as a tool. This highlighted
five thematic categories: meaning of work in “Fica Vivo!”; satisfactiondissatisfaction of working in "Fica Vivo!"; educational process of the "Fica Vivo!";
participation to action and empowering yourself to empower each other. The
analysis showed that the work developed through workshops and sports activities
bring significant changes to the lives of young people.
Key words: Physical Education. Education. Social Vulnerability. Public Policy.
131
142
Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e
Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA.
Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social,
Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA.
48
2.1 INTRODUÇÃO
A experiência de atuar como professor de Educação Física em áreas de
vulnerabilidade social revelou um cenário inóspito para os jovens: não têm locais
para a realização de atividades esportivas e lúdicas que poderiam ser ou se tornar
ferramentas de promoção para o seu desenvolvimento humano, de socialização,
de integração social e de promoção da saúde integral. A ociosidade impera entre
eles, o que pode deflagrar situações que podem levá-los a altos níveis de risco
social.
Foi assim que foram implantadas e materializadas as atividades realizadas
por profissionais de Educação no Programa de Controle de Homicídios “Fica
Vivo!”, que é uma política pública e objetiva controlar e prevenir a ocorrência de
homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade violenta em
Minas Gerais. O intuito é buscar a melhoria da qualidade de vida da população,
por meio de oficinas de esporte, arte e cultura, oferecidas aos jovens de 12 a 24
anos em situação de risco social.
O Programa “Fica Vivo!” originou-se de um grupo de trabalho com
iniciativas do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da
Universidade Federal de Minas Gerais (CRISP/UFMG). Também presentes nesse
grupo os membros da Polícia Civil (PCMG) e da Polícia Militar de Minas Gerais
(PMMG), do Ministério Público, juízes, pesquisadores, técnicos da Coordenadoria
de Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e empresários do setor
privado.
Atualmente, o programa possui 21 Centros de Prevenção à Criminalidade
(CPC) na região metropolitana de Belo Horizonte, assim distribuídos: 11 na
capital, um em Contagem, três em Betim, dois em Ribeirão das Neves, um em
Vespasiano, dois em Santa Luzia e um em Sabará. Possui seis centros nas
cidades do interior de Minas Gerais: dois em Montes Claros, um em Governador
Valadares, um em Ipatinga, um em Uberlândia e um em Uberaba.
Apesar de existir desde 2002, não se tem conhecimento de pesquisas que
abordem se as ações realizadas pelos profissionais de Educação Física no
Programa “Fica Vivo!” são efetivas e eficazes. Considera-se que esse
desconhecimento seja um problema a ser analisado e solucionado com vistas a
contribuir, de forma significativa, para obtenção de melhores resultados do
49
programa,
bem
como
colaborar
para
a
redução
de
homicídios
e,
consequentemente, proporcionar o desenvolvimento local da região onde os
centros estão locados.
O conhecimento das ações dos profissionais de Educação Física no
Programa “Fica Vivo!” é relevante para o desenvolvimento profissional deste
pesquisador, porque na realidade onde este atua elas podem ser reportadas e
adaptadas, socializando seus resultados positivos. Como a interação com os
jovens é fator determinante para que ocorram transformações significativas em
suas vidas, é importante manter-se atualizado e engendrar novas formas de
trabalho.
Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que o Programa “Fica Vivo!” é
uma ferramenta para que jovens tenham a oportunidade, por meio de diversas
atividades, de vivenciar momentos de socialização, integração social e melhores
níveis de qualidade de vida. A ociosidade pode ser considerada uma das causas
que levam esses jovens aos níveis mais elevados de risco social. Uma das
formas de redução desses riscos é oferecer-lhes atividades esportivas, com o
intuito de contribuir para o seu desenvolvimento. As diversas atividades ofertadas,
inclusive oficinas, devem ser consideradas um momento prazeroso, que
possibilitem a construção ou o resgate de valores.
Entre as atividades propostas pelo programa têm-se as oficinas, que são
ações concretas e palpáveis, uma vez que possibilita o contato face a face com a
comunidade e proporciona estratégias de atendimento, ao articular aspectos da
singularidade dos jovens e o acesso aos direitos sociais, diante das diversidades
das áreas de abrangência dos núcleos, tais como: aspectos criminais, culturais,
sociais, históricos e geográficos. Cada centro tem, em média, 25 oficinas, com a
participação de 20 a 25 jovens em cada. Ressalva-se que, neste estudo, será
feito um recorte para as oficinas de esportes.
Inicialmente, o oficineiro, para assumir sua função, deve apresentar um
projeto de oficina. Se aprovado, cabe-lhe a responsabilidade de atender a todos
os objetivos das oficinas, ter habilidade para trabalhar com jovens que se
encontram envolvidos com a criminalidade e a capacidade de compreender a
metodologia que orienta o programa. Ele deve ser detentor de um saber
específico, como uma modalidade esportiva, uma linguagem cultural ou um tema
de profissionalização.
50
Este estudo focará os profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros. Sua carga horária é de 28 horas mensais, divididas em 20 horas de
oficinas e oito horas de reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do
programa (MINAS GERAIS, 2009).
Na concepção de Farias, Noro Filho e Laczynski (2009), os oficineiros, ao
trabalharem com situações inusitadas, procuram gerir o comportamento dos
jovens e se tornam um dos principais atores para o funcionamento do programa.
O programa estabelece critérios na seleção dos oficineiros: de preferência,
que seja do próprio território de abrangência do CPC; que saiba, com
propriedade, do ofício a ser ofertado aos jovens bem como saber lidar com eles;
que saiba escutar e dialogar, além de ser hábil no manejo da metodologia que
norteia o programa (MINAS GERAIS, 2009).
Também se estabelecem os deveres do oficineiro: ele deve criar vínculo
entre os jovens e o programa, instituir espaços para discussões e mediar conflitos
entre os jovens, quando se fizerem presentes; gerar discussões sobre segurança
pública, cidadania e direitos humanos; potencializar a autonomia dos jovens, entre
outros valores. Deve, mensalmente, elaborar relatórios e listas de presença dos
jovens atendidos nas oficinas e, ainda, fornecer lanche e comprar os materiais
necessários para as oficinas (MINAS GERAIS, 2009).
Portanto, é nesse panorama que o tema desta pesquisa se inscreve e
abrange o trabalho de profissionais de Educação Física com jovens que se
encontram em áreas de vulnerabilidade social na esfera do Programa “Fica Vivo!”.
Ressalta-se que não há pesquisas publicadas, até o momento, a respeito do
trabalho desses profissionais que atuam como oficineiros no programa.
Nesse sentido, a questão que se fez presente foi: qual a percepção dos
profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou
os desdobramentos e/ou resultados do Programa de Controle de Homicídios “Fica
Vivo!” e o que acreditam que se faz necessário para que a intervenção educativa
seja realmente eficaz para o controle de homicídios nas regiões onde o programa
está inserido?
Dessa forma, este estudo objetiva analisar a percepção dos profissionais
de Educação Física/oficineiros do Programa “Fica Vivo!” acerca da eficácia e dos
resultados obtidos com os jovens frequentadores das oficinas.
51
2.2 DISCUSSÃO TEÓRICA
O Programa de Controle de Homicídios é desenvolvido pela Secretaria de
Estado de Defesa Social (SEDS) com foco na prevenção de homicídios em
regiões de vulnerabilidade social, atendendo jovens de 12 a 24 anos que se
encontram em risco social. Encontra-se no eixo da proteção social, inseridos nos
Centros de Prevenção à Criminalidade (CPC). Sua origem tem assentamento,
também, em dados de pesquisas realizadas em 2002, quando se detectou o
aumento do número de homicídios em Belo Horizonte. A análise espacial da
ocorrência destes desvelou que o fenômeno incidia, significativamente, em
regiões de vulnerabilidade social cujos protagonistas eram, em sua maioria,
jovens, negros, do sexo masculino e com idade entre 15 e 29 anos. A pesquisa
demonstrava que os homicídios eram resultantes de conflitos entre os jovens
(UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG, 2002).
Para Ladeira e Rocha (2009, p. 197), o programa “carrega em seus
princípios a função de dar lugar a esse público, assim como provocar no encontro
com a arte e o esporte a possibilidade deles se destacarem de outra maneira”.
Segundo Mendes (2009), o Programa “Fica Vivo!”, por meio dos centros de
base local, possibilita o empoderamento da comunidade, na qual são criados
laços e uma relação mais próxima com o poder público. Sabe-se que esse não é
o seu objetivo principal, mas a comunidade começa a avistar as melhorias e
visibilidades trazidas pelas oficinas oferecidas a esses jovens.
O Programa “Fica Vivo!” apresenta alguns indicadores de inovação social.
Destacam-se a conciliação dos contrários, ideia de coletivo, adaptação do
contexto e compartilhamento de interesses diversos. A realidade é modificada de
forma sistêmica e com intencionalidades em atitudes, ideias, culturas, conteúdos
e modelos.
Por falar em vulnerabilidade social, é imprescindível o entendimento do seu
conceito, pois o Programa “Fica Vivo!” insere-se nesse panorama. Para Monteiro
(2011, p. 31), “os grupos de risco foram delineados na sociedade com uma visão
focalizada do indivíduo e não no contexto social que produziu a vulnerabilidade”.
Vulnerabilidade social é definida por Araújo (2010) como o nível de acesso
a aspectos básicos de cidadania, como moradia, serviço de infraestrutura urbana,
educação, trabalho, renda, assistência jurídica, serviços de saúde, segurança
52
alimentar e previdência social.
Pode-se dizer, com base em Abramovay et al. (2002), que a
vulnerabilidade social está relacionada à disponibilidade e ao acesso de
oportunidades sociais. E, conforme Correia (2008, p. 116), esse “conceito está
associado aos direitos civis e sociais e às condições de cidadania que, por uma
complexidade de fatores, deixam excluídos da condição de cidadãos diversos
sujeitos e comunidades”. Percebe-se que a utilização desse termo está se
ampliando em decorrência de diversas situações de risco social.
Prosseguindo, Abramovay et al. (2002, p. 31) afirmam que vulnerabilidade:
[...] decorre da sua utilidade para compreender como e por que
diferentes atores sociais se mostram mais suscetíveis a processos que
atentam contra sua possibilidade de ascender a maiores níveis de bemestar. Ela permite analisar o caso de grupos sociais, aos quais são
atribuídas grandes potencialidades, ativos valorizados em um dado
contexto de estruturas de oportunidades, mas que, contraditoriamente,
permanecem reclusos a um cenário de inseguranças, instabilidades e
marginalidade.
Ainda de acordo com Abramovay et al. (2002), vulnerabilidade não é
atribuída ao indivíduo, mas ao resultado de determinados arranjos sociais e
políticos que incidirão sobre os sujeitos. Portanto, a falta de acessos à
informação, aos serviços básicos e estratégias de ações proporcionaram o
crescimento da situação de vulnerabilidade social.
Nesse momento, traz-se à tona o que Hurtado (2012) diz ao discorrer
acerca de juventude: deve-se considerar seus múltiplos aspectos, o que implica
que vários fenômenos devem ser analisados, pois não é possível separar os
fenômenos biológicos, psicológicos, históricos, sociais e culturais.
Hurtado (2012, p. 36) acrescenta:
[...] são diversos os impactos negativos da condição de vulnerabilidade
social na juventude, mas que, apesar disso, existe uma contrapartida
representada pelas possibilidades de superação desta condição. A
escola, a família, o estado, as organizações não governamentais podem
auxiliar na superação das adversidades encontradas por esses jovens,
funcionando como fonte de apoio relacional proporcionadoras de fatores
de resiliência e vulnerabilidades positivas.
Torna-se necessário que a sociedade se organize para que possa oferecer
suporte adequado e ter clareza dos direitos, bens sociais e deveres dos jovens e
53
quais ações sociais são relevantes e urgentes para serem reivindicadas, com o
intuito de se buscar soluções e, consequentemente, melhorar significativamente a
qualidade de vida desse grupo social.
As desigualdades sociais e os escassos recursos para a construção de
uma rede de proteção aos grupos populares vulneráveis se expressa por meio da
violência, que acaba se tornando um sério problema nessa nesse âmbito. Daí a
importância de programas como o “Fica Vivo!” e outros existentes.
Abramovay et al. (2002, p.13-14) justificam, assinalando que:
[...] a dificuldade dos jovens em acessar as estruturas de oportunidades,
apresenta-se um conjunto de dados secundários sobre a educação,
saúde, cultura, lazer e trabalho, insumos fundamentais para o
desenvolvimento dos recursos materiais e simbólicos. Esses dados
apontam para a existência de deficiências no acesso dos jovens a esses
bens e serviços, o que colabora com a manutenção da situação de
vulnerabilidade social.
Acredita-se que alternativas como lazer, atividades esportivas, culturais e
profissionalizantes possam contribuir no processo inicial de uma mudança
significativa na vida dos jovens. E, também, que esses momentos podem ser
considerados “privilegiados” para a construção de valores éticos e, por
conseguinte, possibilitam a formação de jovens socialmente diferenciados.
Conforme Abramovay et al. (2002), essas atividades são relevantes para o
desenvolvimento pessoal e possibilitam mais interação social dos jovens.
Entre, portanto, as atividades oferecidas aos jovens, têm-se diversas
oficinas que objetivam:
[...] prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação dos
jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir
aos jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional;
possibilitar a vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a
participação dos jovens em novas formas de grupos; trabalhar temas
relacionados à cidadania e aos direitos humanos; possibilitar a criação
de espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades (MINAS
GERAIS, 2009, p. 86).
Mendes (2009) destaca a existência de dois pontos importantes nas
oficinas. O primeiro é o reforço à coesão social entre os beneficiários e a
comunidade, que é um importante fator de prevenção à criminalidade, porque é a
partir dela que a comunidade se identifica e cria laços de solidariedade. O outro é
54
referente ao encontro face a face com o beneficiário, tendo em vista que o
oficineiro tem mais proximidade com ele e constrói vínculos, o que lhe permite
acompanhar suas expectativas e necessidades e ver o poder de intervenção na
vida dos atendidos pelo Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”.
A implantação das oficinas deve ser orientada pela articulação entre a
dinâmica criminal, entendida como fatos e fenômenos de natureza social, cultural,
territorial e criminal, intervindo na incidência de crimes de determinada localidade,
e a demanda do jovem, os aspectos socioculturais e a seleção do oficineiro
(FARIAS; NORO FILHO; LACZYNSKI, 2009). Assim como a seleção das oficinas,
a escolha do oficineiro também não é feita ao acaso. Devem ser cumpridos
determinados critérios: ser morador da comunidade, ter experiência no ofício a ser
ministrado, saber dialogar com o jovem e ter acesso a todos os espaços do
aglomerado.
A priori, já se percebe a necessidade de atividades prazerosas ou de
inclusão produtiva e valores, ou seja, que os jovens participantes das oficinas
ocupem o tempo livre e busquem superar a situação em que vivem e deixem a
invisibilidade social.
Neste estudo, o foco recai nos profissionais de Educação Física que atuam
como oficineiros. Sua carga horária é de 28 horas mensais, divididas em 20 horas
de oficinas e oito horas de reuniões coletivas e/ou individuais com os técnicos do
Programa (MINAS GERAIS, 2009).
Cabe lembrar que, no final do século XX, com as publicações da LDBEN nº
9.394/96, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e da Lei nº 9.696/98
com a regulamentação profissional da Educação Física, observou-se novo
delineamento no campo da intervenção profissional da Educação Física (BRASIL,
1998a).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) relacionados ao profissional
de Educação Física afirmam que esta possibilita aos professores uma interação
mais intensa e explícita com seus alunos, mobilizando diversos aspectos
(BRASIL, 1997; BRASIL, 1998b).
Desde a sua concepção, os profissionais de Educação Física receberam
diversas atribuições respaldadas pelos princípios que norteiam seu campo de
atuação. A legitimidade dada pela Lei nº 9.696, de 1 o de setembro de 1998, que
dispõe sobre a regulamentação da profissão de Educação Física e cria os
55
respectivos Conselho Federal e Conselhos Regionais de Educação Física,
descreve que:
o
“Art. 3 Compete ao profissional de Educação Física coordenar, planejar,
programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar
trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de
auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados,
participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar
informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de
atividades físicas e do desporto” (BRASIL, 1998a).
Vale salientar, conforme estabelecido pelo Código de Ética do Profissional
de Educação Física, que sua atuação deverá ser respaldada pelo princípio da
responsabilidade social. Esse princípio foi estabelecido por meio da Resolução nº.
056 de 18 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Código de Ética dos
profissionais de Educação Física:
“Art. 4º - O exercício profissional em Educação Física pautar-se-á pelos
seguintes princípios:
I - o respeito à vida, à dignidade, à integridade e aos direitos do
indivíduo;
II - a responsabilidade social;
III - a ausência de discriminação ou preconceito de qualquer natureza;
IV - o respeito à ética nas diversas atividades profissionais;
V - a valorização da identidade profissional no campo da atividade física;
VI - a sustentabilidade do meio ambiente;
VII - a prestação, sempre, do melhor serviço, a um número cada vez
maior de pessoas, com competência, responsabilidade e honestidade;
VIII - a atuação dentro das especificidades do seu campo e área do
conhecimento, no sentido da educação e desenvolvimento das
potencialidades humanas, daqueles aos quais presta serviços”
(CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA – CONFEF, 2003).
Contudo, Correia (2008, p. 118) realça que a ideia de intervenção do
profissional de Educação Física deve ser respaldada com as devidas
peculiaridades e complexidades de uma ação social. Para que a intervenção
social, por meio da Educação Física e do esporte e do lazer, obtenha êxito e
cumpra seu papel transformador em regiões vulneráveis: “será necessário que os
mesmos sejam desenvolvidos e administrados com a mesma seriedade e
eficiência
de
uma
empresa,
porém,
com
muita
responsabilidade
e
comprometimento social”.
Além das peculiaridades de projetos intervencionistas oriundos da prática
da atividade física e do esporte, conforme mencionam Correia et al. (2010), vale
56
ressaltar que a Educação Física deve assumir papel social e transformador
comprometido em proporcionar atitudes e valores aos educandos. E, dessa forma
que percebam a importância das relações interpessoais e se tornam sujeitos
críticos e capazes de visualizar novas perspectivas.
Não se pode desvincular a educação nesse processo educativo do
Programa “Fica Vivo!”. Com isso, Oliveira (2011) explicita, com base em Paulo
Freire, que se deve conhecer a realidade do sujeito. E que “a premissa básica
daqueles que realizam o processo educativo é proporcionar o fortalecimento
pessoal dos seres humanos com quem interagem, é ajudá-los a ajudar-se, fazêlos agente de sua transformação” (FREIRE, 1994 apud OLIVEIRA, 2011, p. 96).
Conforme Klein (2011), a educação é a soma de várias experiências que
se interagem e significam o sujeito.
Quaresma (2012, p.186) salienta que:
Na práxis educativa social, os objetivos e as intenções educacionais
integram todas as dimensões do desenvolvimento e da ação humana e,
também, as intenções individuais e coletivas; sendo o coletivo, o social, a
transformação social, o objetivo final, tendo em vista o bem de todos.
A educação possibilita a construção das relações sociais, redes de amigos
e contatos. Para Abramovay et al. (2002, p. 38), “a educação em conjunto com a
família constitui um dos espaços tradicionais de socialização entre os jovens”.
Assim, a educação tende a assumir o seu papel de formador do indivíduo, com
perspectivas.
A educação atual deve se propor construir conhecimentos, considerando a
diversidade dos sujeitos, independentemente da condição social, da possibilidade
de escolha e do posicionamento ético em seu caminho, pautado em suas crenças
e valores.
2.3 METODOLOGIA
A questão a ser respondida é: o que se faz necessário para que a
intervenção educativa no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!” dos
profissionais de Educação Física que atuam como oficineiros seja realmente
eficaz?
57
Esse questionamento dirigiu nossa intencionalidade de trabalhar com
profissionais de Educação Física/oficineiros no Programa “Fica Vivo!”, por meio
de uma relação face a face, indo ao local onde se encontram, para ouvir deles o
que pensam, sentem e esperam obter com o seu saber fazer. Isso remeteu à
pesquisa de campo de abordagem qualitativa.
Conforme explicita Minayo (2011), o trabalho de campo aproxima o
pesquisador da realidade da pergunta a ser respondida. Acredita-se que ele
permite conhecer a matéria-prima e o modus operandi da intervenção educativa
no
Programa
“Fica
Vivo!”,
realizada
pelos
profissionais
de
Educação
Física/oficineiros.
O cenário da pesquisa foram os CPCs que possuíam o Programa “Fica
vivo!”. Inicialmente foram feitos contatos por telefone e e-mail com os(as)
técnicos(as) para identificação dos oficineiros graduados no curso de Educação
Física. Após a identificação, os(as) técnicos(as) enviaram a relação com os
nomes dos oficineiros, respectivas oficinas ministradas, tempo de atuação,
telefone e e-mail. Com esses dados realizou-se o contato com os oficineiros que
possuíam mais tempo de atuação, sendo feito um recorte para aqueles com mais
de quatro anos, para agendarem-se as entrevistas.
Foram identificados 29 profissionais de Educação Física graduados e
atuantes nos 30 CPCs da capital e Grande BH. Pautando-se, ainda, nos critérios
previamente estabelecidos para inclusão dos sujeitos nesta pesquisa, quais
sejam: a) serem graduados no curso de Educação Física; b) ministrar oficinas de
atividades esportivas; c) com mais tempo de atuação no programa, isto é, mínimo
de três anos, deu-se início aos contatos com os oficineiros, por ordem aleatória de
CPC.
Os oficineiros expressaram forte interesse em colaborar e ser sujeito do
estudo. Apenas um oficineiro da amostra marcou três vezes a entrevista e, no dia
de sua ocorrência, desmarcava-a, alegando impedimento de última hora. A partir
da terceira desistência, optou-se por não mais procurá-lo, entendendo que se
negava a colaborar, mas não quis declarar sua recusa verbalmente.
Com base no critério de repetitividade das falas, foram entrevistados 14
profissionais
de
Educação
Física.
Todos
responderam
à
entrevista
semiestruturada (APÊNDICE A) após aquiescência, agendada de acordo com a
disponibilidade de cada um, bem como do local onde seria realizada. Foi
58
requerida a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e,
posteriormente, solicitou-se a assinatura no mesmo, conforme determinações do
Conselho Nacional de Saúde. A fim de manter o sigilo nominal e respeito aos
princípios éticos da confidencialidade e fidelidade dos resultados, os sujeitos
foram codificados com a letra E de entrevista e pelo número ordinal de acordo
com a sequência de captação dos dados.
As entrevistas foram transcritas tendo-se em vista a gravação delas para
fidedignidade dos depoimentos e passaram pela análise temática de conteúdo
proposta por Bardin (2008). Alguns depoimentos requereram várias leituras para
apreensão do significado atribuído pelo sujeito e, numa dinâmica circular e
pendular, buscou-se elucidar e interpretar os dados.
Nesse movimento de idas e vindas, as falas dos sujeitos iluminaram o
fenômeno em estudo e as convergências dos dizeres permitiram construir cinco
categorias de análise: significado de trabalhar no Programa “Fica Vivo!”;
satisfação-insatisfação de trabalhar no Programa “Fica Vivo!”; processo educativo
do Programa “Fica Vivo!”; da participação à ação; e capacitando-se para capacitar
o outro.
Registra-se que este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UNA,
sob o CAAE n° 27817514.1.0000.5098.
2.4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
A apresentação e análise dos dados foram elaboradas por meio de um
paralelo e diálogo entre o discurso dos 14 sujeitos da pesquisa e as
considerações de diversos autores, bem como a visão do pesquisador.
2.4.1 Categoria 1: significado de trabalhar no Programa “Fica Vivo!”
Envolver-se com os jovens é primordial para o bom desenvolvimento das
atividades e o alcance dos objetivos propostos pelo Programa de Controle de
Homicídios “Fica Vivo!”. Reafirma-se que seu objetivo é controlar e prevenir a
ocorrência de homicídios dolosos em áreas com altos índices de criminalidade
violenta em Minas Gerais. Nessa conjuntura, para os profissionais de Educação
Física/oficineiros e oriundos da própria comunidade, trabalhar no programa
59
significa poder contribuir com o seu panorama, criando e recriando momentos de
lazer por meio do esporte, além de proporcionar novos conhecimentos, com vistas
ao desenvolvimento social para os jovens atendidos.
Como se sabe, os jovens residentes em comunidades vulneráveis são, na
sua grande maioria, desprovidos de bens mínimos para sua subsistência aliados
à má qualidade do ensino e de cultura. Gregório (2011, p. 35) salienta que:
[...] o não acesso aos bens básicos, como educação de qualidade,
serviços de saúde eficientes e eficazes, estabilidade no trabalho,
moradia própria e lazer, diminuem as chances de ascensão social,
diminuem a possibilidade de mobilização e competição dos sujeitos
menos favorecidos com aqueles que possuem seus direitos básicos
assegurados pelo capital. Essa exposição a riscos, a falta de mobilidade
social e a dificuldade de acesso a determinados insumos dificultam,
assim, as oportunidades de acesso oferecidas pelo Estado, pelo
mercado e pela sociedade, que acaba levando os sujeitos que estão
vivendo em condições vulneráveis a se protegerem da sociedade, e essa
forma de proteção aparece, muitas vezes, por meio da violência [...].
Portanto, atuar como oficineiro no programa é uma forma de possibilitar
que os jovens consigam abrir os olhos, sair da miopia cotidiana e enxergar além
do cenário no qual se encontram inseridos, de muita criminalidade, drogas, entre
outros riscos sociais. Eles percebem que possuem direitos e podem ser cidadãos
bem-sucedidos socialmente. Os profissionais de Educação Física/oficineiros
assumem importante papel na transformação social dos jovens.
Conforme explicita Klein (2011), a experiência educativa possibilita a
percepção das relações entre fatos, elementos e acontecimentos de forma
contínua, resultando na extensão ou aquisição do conhecimento. Pode ser
considerada essencial para enriquecer os conhecimentos e trazer significado à
vida dos sujeitos.
O trabalho no “Fica Vivo!” ganha sentido, uma vez que possibilita,
diretamente, dar significado à vida dos jovens, valendo-se do esporte como
ferramenta de socialização. Afinal, ao atender os jovens envolvidos com as
diversas situações de risco, fazem que consigam ver além do mundo que os
circunda, reduzindo o impacto das mazelas enfrentadas por eles, minimizando o
envolvimento com as drogas, com a criminalidade e, consequentemente,
ocasionando a diminuição do número de homicídios onde vivem.
Vianna e Lovisolo (2011, p. 286) enfatizam que “o esporte aparece como a
atividade alternativa dominante à rua. O suposto é que as crianças e jovens
60
gostam do esporte e que, portanto, participarão dos projetos”.
Sabe-se que o esporte proporciona aos sujeitos que o praticam novas
opções de vida ao criar condições de superação das dificuldades, alternativas
para afastar-se das drogas e criminalidade, contribuindo, por conseguinte, para o
fortalecimento das suas características positivas e prioridade dos valores
construtivos,
como:
companheirismo,
autocontrole,
respeito
às
regras,
autossuperação e controle dos impulsos negativos e agressividade. Outra
característica relevante é a contribuição para a redução da evasão escolar e
repetência, melhorando os níveis de concentração dos alunos.
As unidades de registro corroboram essa visão:
[...] tirar ou atender o menino que tem envolvimento direto com a
criminalidade. A gente sabe que nas áreas de risco os meninos tão
acessíveis com muita facilidade a todo tipo de droga, arma e violência.
Mais quando a gente consegue acessar e ter êxito em tirar o menino de
alguma situação de vulnerabilidade ou pelo menos orientá-lo aquilo
(E1).
[...] é uma forma, em primeiro lugar, de trazer um benefício pra minha
comunidade, ou seja, de trazer um conhecimento novo. [...] expandir os
horizontes desses jovens, evitando assim que eles tenham contato, não
que não tem contato, mas que eles tenham opções de ver outros
horizontes além do dia-a-dia que eles veem nas ruas da comunidade
(E4).
Significa dar mais oportunidades aos jovens que vivem nessa,
abrangência de vulnerabilidade social, [...] tentar levar pra eles outros
nortes o qual eles não têm. Eh, em questão de educação, de lazer,
como cidadãos, dos direitos. Fazer valer pra eles os direitos de
cidadãos deles (E6).
[...] é uma responsabilidade muito grande. [...] tentar influenciá-lo
positivamente, de mostrar pra ele que ele tem outras opções (E10).
[...] poder contribuir, principalmente, na mudança no cenário onde estão
inseridos os nossos jovens, que é exatamente, a vulnerabilidade social,
a criminalidade. Então, inserir através do esporte uma perspectiva de
mudança desse cenário (E11).
Nessa acepção, Abramovay et al. (2002, p. 38) expõem que a educação “é
considerada o principal instrumento para a elevação dos níveis de capital humano
e para promover o bem-estar de jovens e adolescentes”.
A troca de informações, capacitação, formação de novos valores e
mudanças de comportamento desenvolvem-lhes o sentido de cidadania e
possibilitam-lhes formas diferenciadas de reflexão e ação. Oportuniza aos jovens
em situação de vulnerabilidade social possibilidades de mudança em seu cenário.
61
Geber (2010, p. 79) tem como referência:
[...] a constatação dos oficineiros como personagens educativos que
valorizam uma educação ampla, não restringindo sua ação à
transmissão de um saber, e que reconhecem as oficinas como um
momento de socialização e discussão de valores, é possível notar certa
semelhança desses sujeitos com a perspectiva educativa da educação
social, que também define que a educação não se restringe à
transmissão de conteúdos, mas sim como um espaço de formação
humana.
Entende-se como significado do trabalho no Programa “Fica Vivo!” essa
contribuição por meio da prática esportiva, da colaboração para a formação
integral e crítica do ser humano, indo muito além da fundamentação técnica e
tática, com priorização de outros aspectos como cooperação, participação,
solidariedade e qualidade de vida.
Freire (1987, p. 48) relata que:
[...] o trabalhador social que atua numa realidade, a qual, mudando,
permanece para mudar novamente, precisa saber que, como homem,
somente pode entender ou explicar a si mesmo como um ser em relação
com esta realidade; que seu que fazer nesta realidade se dá com outros
homens, tão condicionados como ele pela realidade dialeticamente
permanente e mutável e que, finalmente, precisa conhecer a realidade
na qual atua com os outros homens.
As assertivas dos sujeitos desta pesquisa legitimam a importância da
educação, da interação entre jovens e profissionais, do resgate da cidadania e de
ser um ser em constante transformação. É valorizar a vida, acreditar no potencial
humano e, assim, motivá-los à busca de novos horizontes:
[...] incentivo de levá-los a algum lugar. Esse lugar, futuramente,
visando um profissional ali dentro. É levar eles pra um estudo, orientar
pra trabalho, alguma coisa assim (E3).
[...] poder possibilitar aos jovens, aos educandos ao qual eu desenvolvo
o trabalho uma... [momento de silêncio] uma troca de experiência,
dentro do que eu já vivi, dentro do que eu conheço, dentro da prática
esportiva. E ao mesmo tempo uma busca pela valorização da vida, que
é o que eu acredito. Que o esporte possibilita muito isso. Você
diferenciar muita coisa dentro da vida. Que, às vezes, uma ação
cotidiana que acontece dentro de uma atividade, de um jogo, mesmo
em si, ela tem tudo a ver, com a rotina diária, a rotina cotidiana. E
praticar um esporte é também tomar decisões. E a vida é assim. É
tomar várias decisões, seja elas, boas ou ruins (E7).
[...] uma responsabilidade muito grande [...] dar mais um dia de vida [...]
pra esses jovens [...] contribuir de alguma forma pra que afaste esse
62
menino de uma situação de risco de ser morto; de poder galgar futuro,
enxergar e começar ter possibilidade de crescer e de chegar ter uma
família. Aproveitar um pouco mais a vida (E9).
[...] tentar recuperar esses jovens envolvidos e proporcionar assim, um
momento de lazer pra eles também (E13).
Essas unidades de registro dimensionam que a motivação é também um
elemento indispensável à recuperação do jovem. Nesse movimento circular, em
que o profissional se sente motivado e motiva o jovem, é possível alcançar o
objetivo maior: o jovem se sentir cidadão e ciente dos riscos a que está exposto e
de sua liberdade de fazer escolhas assentadas em patamares consistentes e
conscientes do vir a ser. Com isso, o jovem motivado participa das oficinas de
modo eficiente e eficaz, pois as atividades que lhe são ofertadas não se
constituem em uma carga, uma tarefa a ser cumprida, mas um prazer e um
momento de trocas intersubjetivas e de aprendizagem.
Apesar do pensamento de Godoi (2009, p. 241) se referir, principalmente,
ao mundo do trabalho e da empresa, ele é pertinente aqui quando ele diz que “[...]
a motivação é uma esfera interna, singular inerente ao espaço da individualidade,
relacionada à história de vida, à estrutura social, aos desejos do indivíduo e à
recuperação do sentido do trabalho”. Pode-se aqui acrescentar “ao sentido do
trabalho” e complementar com “ao sentido da vida”.
2.4.2 Categoria 2: satisfação-insatisfação de trabalhar no Programa “Fica
Vivo!”
2.4.2.1 Satisfação em trabalhar no Programa “Fica Vivo!”?
O trabalho no Programa “Fica Vivo!” é valorizado como uma questão
importante nas vivências dos profissionais de Educação Física/oficineiros.
Acreditam poder mudar a realidade dos jovens e, de forma gradativa, contribuir
também para o desenvolvimento local. Destaca-se que esses profissionais visam
ao desenvolvimento da comunidade e buscam criar oportunidades expressas por
meio da defesa da construção de uma capacidade de ação autônoma.
O desafio de realizar um trabalho que transforma as vidas dos jovens por
meio de conhecimentos tem valor incalculável e grande satisfação para os
63
sujeitos desta pesquisa. Os depoimentos mostram, de forma clara e objetiva, o
desejo de realização de um trabalho eficaz e eficiente. Ademais, percebe-se que
há respeito pela autonomia dos jovens, na medida em que se procura capacitá-los
para agirem com mais autonomia, como se apreende das unidades de registro:
[...] Olha, o meu objetivo de trabalhar no programa [...] é tentar atuar de
maneira positiva na vida dos jovens da minha comunidade (E4).
[...] apresentar pros jovens as possibilidades que eles têm que às vezes
não é do conhecimento dele, de acesso à educação, à saúde (E5).
[...] um dos motivos é o contato com os jovens e de acreditar que eu
poderia mudar um pouco a comunidade em si. [...] eu entrei no Fica
Vivo! com o objetivo de mudar essa visão e de mostrar pros meninos,
pros jovens, que eles têm outras oportunidades. Não é só as coisas
ruins da comunidade que tem. Que existem coisas boas, que eles
podem, também, ter esses momentos positivos (E10).
Nesse sentido, Oliveira, Carneiro e Rossi (2012) acentuam que a
satisfação no trabalho é uma variável que atua sobre o comportamento e
influencia o desenvolvimento de suas atribuições. Apropriando-se do pensamento
de Merhy (1998) relativo ao encontro profissional de saúde/usuário, pode-se dizer
que o encontro oficineiro/jovens se constitui em uma relação na qual se
desenvolve um jogo de expectativas e produções, tendo em vista que implica a
intervenção de um sujeito sobre o outro de tal modo que, enquanto um busca a
solução de seu problema, o outro procura dar algum encaminhamento a essa
demanda por meio de um "trabalho vivo em ato".
Os
profissionais
de
Educação
Física/oficineiros
devem
manter-se
motivados. Como essa motivação está diretamente ligada aos resultados obtidos,
é importante identificar as demandas e expectativas dos jovens que estão
frequentando a oficina. Conforme explicitam Vianna e Lovisolo (2011, p. 287):
[...] os professores devem ser agentes de transformação social, e muitos
defendem tal posição, eles são influenciados pelo meio social em que
vivem. E podem trazer consigo uma bagagem social construída a partir
de estereótipos estabelecidos ao longo dos anos de formação
acadêmica e social, que orientarão a sua intervenção educacional, que
pode não corresponder com as expectativas dos alunos - foco principal
do processo.
Isso permite inferir que os oficineiros devem se desvincular de qualquer
estereótipo construído durante sua formação acadêmica e vivências sociais, uma
64
vez que a realidade dos jovens do Programa “Fica Vivo!” e respectivas
perspectivas e necessidades são a matéria-prima a ser trabalhada para se
alcançar os objetivos almejados: jovens protagonistas, cidadãos, autônomos e
com vistas a um futuro melhor.
A satisfação no trabalho pressupõe motivação e disposição para se dedicar
às oficinas de forma efetiva e em consonância com os objetivos do Programa
“Fica Vivo!”. Vários fatores motivam esses oficineiros, podendo-se destacar o
desafio, como explicitado na fala a seguir: “Oh, o motivo pelo qual eu iniciei no
programa, é exatamente pelo desafio. Porque a gente trabalha com um público
que normalmente eles são rejeitados por outras instituições, seja elas de ensino e
outros mecanismos de proteção” (E11).
Percebe-se que a mudança na forma de pensar dos jovens, sobre direitos
básicos, pode ser considerada a efetivação do trabalho que está sendo realizado.
Isso se presentifica na possibilidade de ver os jovens progredindo, sentindo-se e
sendo cidadãos, constituindo família, crescendo profissionalmente e com
melhores níveis de qualidade de vida.
Para Valente (2013, p. 32), “a satisfação profissional pode ser interpretada
também como uma emoção ou reação afetiva/emocional, relativa a diferentes
facetas da atividade profissional de um indivíduo”.
A convivência com os jovens é vista como momentos de grande satisfação,
além de uma afetividade que acomete tanto os oficineiros como os jovens. Como
relata E11: “é um trabalho que traz uma satisfação pessoal muito interessante,
muito positiva.”
Essa satisfação no trabalho refere-se aos sentimentos das pessoas em
relação aos seus diferentes aspectos. É primordial que os oficineiros mantenhamse motivados, pois a motivação está relacionada às ações e aos resultados que
serão obtidos no desenvolvimento do seu trabalho durante as oficinas e,
consequentemente, mais satisfação. Para Nunes et al. (2010, p. 254), a
satisfação no trabalho pode ser definida como:
[...] a somatória de diferentes elementos que compõem o mundo pessoal
e profissional, bem como o resultado da avaliação que o trabalhador tem
acerca de seu trabalho. Destacando-se um conjunto de elementos que
contribuem para que haja satisfação, como: o reconhecimento, a
felicidade, o respeito, o ambiente de trabalho e as condições de trabalho.
65
Portanto, a união de vários elementos interagindo entre si cria para a
pessoa e para o profissional o sentir-se bem com o seu fazer. Essa assertiva está
demonstrada nos fragmentos a seguir:
[...] o que me agrada é [...] esse carinho que [...] você vai construindo
com os jovens, essa amizade e fazendo com que isso, eles pensem
diferente. [...]. Isso dá uma satisfação muito grande (E6).
[...] eu estou muito satisfeito, porque eu vejo muitos jovens que eu
conheci no programa [...] hoje, tão assim, eh, numa situação de social
muito melhor, eh, psicológico melhor. [...] a gente vê que a gente
contribuiu um pouco, 0,01% para que esses jovens aí, eles tenham um
caminho melhor do que outros (E9).
[...] o quê me agrada, é esse contato com os jovens [...] eu ver o
resultado do meu trabalho. Eu observar que um jovem saiu da minha
oficina porque conseguiu um emprego. [...] observar que o jovem me
procura pra saber se ele faz faculdade [...] me agrada no Fica Vivo! são
os resultados que eu obtenho a partir do meu trabalho (E10).
Entende-se, portanto, que ações simples como o carinho, o ser presente,
escutar e respeitar o jovem na sua singularidade geram relações afetivas, estar
bem psicologicamente, conseguir emprego e o retorno para confidenciar desejos.
Evidenciam-se aspectos positivos advindos dessa relação horizontal e pautados,
possivelmente, nas condições de vida de cada jovem.
2.4.2.2 Insatisfação de trabalhar no “Fica Vivo!”
Dialeticamente, apreende-se a existência de pontos positivos e negativos
no fenômeno estudado. Aliado à satisfação com o programa há desagrados
também. Estes se relacionam às estruturas físicas, pois não possuem apoio para
a aquisição de locais para instalação das oficinas. A falta de apoio para as
atividades fora das oficinas (atividades culturais, entre outras) também desagrada,
inclusive no quesito financeiro, tendo em vista que a verba recebida deve
abranger diversos aspectos como a aquisição de materiais para a realização das
oficinas e a compra de lanches para os jovens nos dias das oficinas, além da falta
de parcerias.
Os sujeitos, acerca da insatisfação, pontuam:
[...] as estruturas físicas, [...] o apoio de todos os lados. [...] infelizmente,
a verba do Fica Vivo! não dá pra cobrir o que a gente quer fazer (E2).
66
Eu acho que o programa ainda é um pouco limitado no que se diz
respeito, principalmente, a recursos. E isso muito das vezes limita a
atuação nossa na ponta (E4).
[...] o programa [...] deixa desejar um pouquinho aí no sentido de apoiar
um pouco mais os oficineiros (E8).
[...] é a falta de parcerias, é algo que desagrada. Porque, às vezes, você
tem que fazer um trabalho muito sozinho (E10).
Apura-se, contudo, que os fatores ligados à insatisfação, em termos
quantitativos, são extremamente menores que os ligados à satisfação. Marqueze
e Moreno (2009) destacam que a satisfação para o trabalho constitui-se como
fator essencial para os trabalhadores.
Os jovens perdidos para a criminalidade ou para as drogas desagradam
bastante. Considera-se que é uma parte do trabalho realizado que não deu certo.
Nunca será possível obter 100% de efetividade nas ações, devido à complexidade
que envolve esses jovens em situação de vulnerabilidade social. O grande
envolvimento que acontece entre os oficineiros e os jovens leva à obtenção de
valores próximos do máximo.
Com isso, os sujeitos declaram:
[...] a gente vê que alguns jovens que a gente viu, desde pequeno,
frequentando a oficina, frequentando a comunidade, a gente não
conseguiu, é, ganhar esse briga pro tráfico e ver esse menino indo pro
tráfico (E1).
[...] infelizmente, a gente não conseguiu atingir, contribuir muito, acabou
falecendo ou indo pra um mundo que eles acabaram [...] perdendo
tempo na vida (E9).
2.4.3 Categoria 3: processo educativo do Programa “Fica Vivo!”
2.4.3.1 Atividades desenvolvidas
Entre as atividades desenvolvidas pelos profissionais de Educação
Física/oficineiros, podem-se destacar as dinâmicas relacionadas aos temas
pertinentes à realidade dos jovens, como a criminalidade da região e diversos
fatores de risco que podem se infiltrar e sequestrar a vida desses jovens quanto
ao viver com dignidade e cidadania.
67
Atividades como rodas de conversa, diálogos e debates relacionados aos
acontecimentos do dia-a-dia são realizadas. Os diálogos acontecem de acordo
com as necessidades surgidas, tanto em grupo quanto individualmente, para se
tentar solucionar ou prevenir possíveis problemas, com discussões que abarcam
valores e regras, com vistas ao encontro de uma convivência tranquila e,
consequentemente, com melhoria nas relações interpessoais.
Cocco e Lopes (2010, p. 157) descrevem que para “compreender esses
diferentes aspectos do cotidiano dos jovens e seus contextos é pressuposto
imprescindível para se conhecer as situações de vulnerabilidade e de proteção
frente ao fenômeno da violência”.
As unidades de registro destacam as atividades realizadas:
Além do trabalho do ofício em si [...]. A gente desenvolve diálogos e
dinâmicas com os meninos. Mais a principal arma que a gente tem no
Fica Vivo! hoje é o diálogo, de mostrar para os meninos que tem outras
oportunidades, outros caminhos (E1).
[...] dinâmica uma vez por mês que é relacionado à prevenção, à
criminalidade. Aí, é drogas; sexo e sexualidade; escola; eh, projeto de
vida; conflitos entre eles, como resolver ou não resolver, deixar pra lá, a
gente faz algumas dinâmicas. [...] campeonatos são mais usados pros
jovens permanecer na oficina. [...]. Aí tem cinema com o objetivo de
interação (E2).
[...] desenvolvo atividades ligadas ao [...] desenvolvimento das técnicas
utilizadas no jogo, [...] valores. Tentando trabalhar valores com os
meninos, através de dinâmicas diárias, através de conversas, rodas de
conversas e através do dia-a-dia. Então trabalhamos nessas duas
vertentes, tanto trabalho a parte técnica ligada ao esporte, quanto à
parte relacional, também, no contato direto com os jovens (E4).
[...] o principal objetivo lá é trabalhar regras [...] de convivência. Tentar
dialogar com eles. [...]. É usar [...] como ferramenta mesmo, pra
aproximar esses jovens, conversar sobre segurança pública. Mostrar
pra eles ali, se eles conseguem ali, eh, se organizar. [...] respeitar um ao
outro. Resolver sem ser de forma agressiva. Ter um pouco de bom
senso [...]. Então, eles podem levar isso pra fora (E9).
Dessa forma, todo o trabalho é realizado por meio de oficinas e, neste
estudo em específico, detectou-se que o trabalho é feito somente com as oficinas
de atividades esportivas. Para Afonso (2010, p. 9):
A oficina é um trabalho estruturado com grupos, independentemente do
número de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central
que o grupo se propõe a elaborar, em um contexto social. A elaboração
que se busca na oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas
envolve os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir.
68
Acredita-se que o trabalho dito, de fato, segue os pressupostos da oficina,
quando se percebe nas unidades de registro que os oficineiros buscam não
apenas a reflexão teórica da técnica do esporte ofertado, mas buscam integrar os
adolescentes entre si, entre as pessoas da comunidade e da escola e do próprio
pensar, sentir e agir.
Além das atividades que se propõem a atender aos objetivos do Programa
“Fica Vivo!”, são desenvolvidas atividades esportivas em diversas modalidades,
em que são trabalhados o desenvolvimento técnico, tático e físico, além do
desenvolvimento lúdico e da qualidade de vida. Não é enfatizado o
desenvolvimento de atletas de rendimento, e sim a formação integral do cidadão.
Com isso, efetivam-se atividades de interação, integração e socialização,
ressaltando-se os campeonatos, olimpíadas do “Fica Vivo!” e jogos amistosos.
Esses eventos possibilitam interação e integração com públicos diversificados,
inseridos em outros contextos, tais como o público que se encontra em outra
conjuntura e não está em situação de vulnerabilidade social. Essa socialização
contribui de forma muito positiva para o desenvolvimento integral dos jovens do
programa e é promovida com o intuito de mostrar-lhes a existência de outras
possibilidades de viver.
O entendimento de Monteiro e Cruz (2011, p. 401) faz eco ao que os
sujeitos deste estudo abstraem como uma de suas funções: “o desporto é uma
oficina da manifestação humana e o desportista pode ser considerado como um
artesão por excelência numa conjuntura local e prática de realizações e de
sublimações.”
Entre as atividades esportivas há a confirmação dessa concepção nas
seguintes unidades de registro:
[...] levar esse jovem mesmo pra campeonato fora com outros times e
com o nosso time também (E3).
[...] desenvolvo com eles o futsal, mais não com intuito de fazê-los
jogadores, eh, é mais na questão social mesmo, essa questão de tarem
resolvendo conflitos entre eles, de saber, às vezes, resolver um conflito
[...] é mais nesse sentido de indicá-los a outros, a outros caminhos aí
(E6).
Dentro das atividades, da oficina de futsal, nós temos as atividades que
envolvem os treinos mesmo [...] participação em torneios. [...] é trazido,
alguma temática pra gente desenvolver debates [...] uma temática
cotidiana ou algo que aconteceu dentro da comunidade. [...] momentos
de fazer visita a um teatro, de parar pra poder assistir vídeos, que [...]
69
nós assistimos e debatemos o quê que isso ali tem a ver com o dia-adia de cada um. O quê que tem a ver com a realidade no qual cada um
sobrevive hoje. Ih, a oficina, ela não para, meramente, no jogar bola. Ela
tem que ter algo diferente (E7).
Eh! As atividades são diversas. [...] algum evento esportivo [...] pra
promover mesmo, a circulação desses jovens; conhecer novos bairros;
novas pessoas; interagir com outros jovens de outros lugares, de outras
cidades. [...] várias atividades com o objetivo de promover mesmo a
circulação (E8).
Monteiro e Cruz (2011, p. 399) afirmam que:
O desporto, como forma de educação, não fica imune às dificuldades e
aos desafios que nos são impostos pela atualidade, porém essa
atividade, dado o seu alto significado humano, cultural, educativo, social
e axiológico, tem a possibilidade de registrar experiências que marcam a
formação do homem.
Esses autores acrescentam:
Na vida prática, o desporto ensina como portar-se no mundo, como
reagir ante as circunstâncias imprevistas, como lidar com as diferenças e
as dificuldades, como encarar a vida de modo otimista e superior, como
olhar os desafios como um projeto de autoconhecimento e como ser a
exposição prática dos valores da pessoa humana (MONTEIRO; CRUZ,
2011, p. 405)
Conforme Souza et al. (2011), a prática educativa com utilização do
esporte como ferramenta de ação pode construir cidadãos e capacitá-los para
conhecer e refletir, de modo que possam transformar sua realidade de forma
critica e consciente.
Outras falas afirmam a visão anteriormente citada:
[...] algumas técnicas relacionadas ao voleibol, e a partir de situações
dentro do esporte, discutir algumas questões temáticas. Então,
principalmente, que é a dificuldade deles. [...] faz um diálogo muito mais
individualizado e quando necessário, faz um diálogo coletivo. [...] a
atividade não funciona só no horário do vôlei, só no horário da oficina.
Eu acho que ela ultrapassa, um pouco também, os muros da atividade
em si (E10).
[...] é o ofício do esporte. [...] mais junto com isso, trazer discussões
relacionadas à criminalidade, relacionado à própria comunidade e de
como o jovem, ele observa essa sua comunidade, seja, valorizando-a e
seja também mudando algum cenário que ele observa que não é um
cenário positivo (E11).
Além dos ofícios propriamente ditos, o fundamento tático, fundamento
técnico. A gente desenvolve muito, eh, o assunto que está no ar. Eh,
70
conversa muito com eles sobre as drogas. Conversa muito sobre a
criminalidade (E12).
[...] a atividade que eu trabalho é o coletivo, a gente faz uma discussão,
converso muito com os jovens essa discussões sempre assim, às
vezes, individual mesmo (E13).
Natali e Müller (2009, p. 301) salientam que é preciso:
[...] acreditar em um mundo com maior justiça social, esse é o mundo
melhor e o sujeito melhor: aquele sujeito a quem são oferecidas
oportunidades iguais na vida concreta, mas aquele que, não as tendo,
tem condições de compreender o que faz que a vida se caracterize
assim e tenha condições de lutar para mudá-la. Essa luta é mais eficaz
quando realizada cooperativamente.
Conforme Maraschin, Chassot e Gorczevski (2006, p. 292), “a atividade e o
conteúdo necessitam ter ligação. A técnica deve ser usada a favor do tema, e não
só como técnica pela técnica”.
Com o intento de ilustrar o que denominam de atividade e respectivas
formas de trabalhá-las, elaborou-se o QUADRO 1.
QUADRO 1 - Atividades desenvolvidas no Programa “Fica Vivo!”
ATIVIDADES DESENVOLVIDAS/ COMO FAZÊ- LAS
Atividades
Meios de realização
Eventos esportivos (torneios,
- Atividades esportivas
campeonatos e jogos amistosos)
Modalidades: futsal, futebol, voleibol,
Fundamentos técnicos e fundamentos
handebol, basquetebol, tênis
táticos
- Dinâmicas
Diálogos
Temas diversos: valores,
Rodas de conversa
criminalidade, drogas, sexualidade,
Debates
relações interpessoais
Cinema
- Eventos culturais
Teatro
Passeios
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
2.4.3.2 Ações eficazes
A identificação de ações eficazes não se constitui em uma tarefa simples.
Souza e Souza (2009) especificam que os bons resultados do Programa “Fica
Vivo!” devem-se à aposta de que os jovens são capazes de repensar sua
71
trajetória de vida e proporcionar a si mesmos mudanças significativas no seu
viver.
O Programa “Fica Vivo!” é uma maneira de educação não formal. Na
perspectiva de Gohn (2010), é uma ferramenta no processo de formação e
construção da cidadania. E Araújo e Luvizotto (2012, p. 77) complementam que
esse processo é “entendido pelo desenvolvimento com coletivos e preocupado
com a construção de aprendizagens e saberes”.
Todos
os
CPCs
e
as
oficinas
possuem
suas
particularidades,
independentemente do público-alvo se encontrar em vulnerabilidade social, ou
seja, inseridos em um determinado contexto distinto. Portanto, algumas ações são
comuns entre si e podem ser trabalhadas, independentemente do âmbito do CPC,
da oficina ou da comunidade. É importante destacar algumas ações que foram
citadas como eficazes e potencializam os resultados do programa. As atividades
esportivas desenvolvidas aliam-se de forma efetiva ao processo de educação e à
formação dos jovens.
Então, de acordo com os profissionais entrevistados, podem-se destacar
diversas atividades que eles consideram eficazes.
Os campeonatos, torneios, eventos culturais e eventos esportivos são
momentos que, além de atrair os jovens para as oficinas, possibilitam que esses
jovens saiam de sua realidade e convivam em outras circunstâncias e com grupos
diferentes; conheçam outras formas e possibilidades para o seu desenvolvimento
pessoal, ou seja, ampliem seus horizontes. Pode-se, ainda, dizer que
transcendem o presente e se sentem capazes e motivados para buscar seus
objetivos.
Os profissionais de Educação Física/oficineiros, segundo Gohn (2009),
devem atuar com uma proposta socioeducativa de produção de saberes em
relação à situação, reconstrução e ressignificação de valores, de forma
tematizada e confrontando com novas possibilidades.
As unidades de registro expressas pelos sujeitos deste estudo confirmam
essa concepção:
[...] aliar o esporte e a educação. [...]. Essas coisas se juntar tudo facilita
muito mais pra conseguir esse resultado que o Fica Vivo! Espera (E2).
[...] a gente leva os jovens pra teatro [...] são campeonatos que a gente
faz. Campeonatos fora [...] (E3).
72
Eu acho que as ações que a gente faz aqui na comunidade, como
torneios, eventos culturais, mostras culturais, exposição de grafite e a
circulação do jovem, não só aqui na comunidade, como a gente sai com
eles para outros lugares (E5).
O que eu percebo, as ações, e quando a gente faz eventos. Quando
têm eventos eles comparecem sim, participam (E8).
Registra-se que o diálogo possibilita que os jovens consigam compreender
seus direitos e deveres como cidadãos e, consequentemente, proporciona
mudanças de hábitos que impactarão diretamente no seu convívio social e nas
suas relações interpessoais, propiciando oportunidades futuras de se tornar um
cidadão bem-sucedido, adaptado e com suas demandas atendidas.
A busca do diálogo e ações efetivas depende da participação da família,
pois essa participação “é um dos caminhos para conhecer os problemas da
realidade local das crianças e adolescentes, principalmente, daqueles que moram
em área de grande vulnerabilidade social” (TEMPONI; MACHADO, 2011, p. 571).
O diálogo é reconhecido como uma ferramenta incondicional no caminho
de conquista dos jovens para que eles adquiram sua cidadania e se tornem
protagonistas. Veja-se:
[...] é o fato de dialogar com esse jovem. Não expor, não acabar, se
expondo o jovem a todo o momento. Demonstrando pra ele que existe
várias outras possibilidades do que só a que ele enxerga a todo
momento. E essas ações passa pelo fato de, conversar, eh, sair com
ele fora da comunidade pra jogar num local fora, no caso, a participação
em competições. [...] é trabalhar a autonomia do jovem a todo o
momento. [...] trabalhar a todo momento esse protagonismo juvenil. [...]
é fazer com que o jovem entre em evidência (E7).
As ações principais acho que é o diálogo, o convívio com o grupo (E12).
Para Gohn (2009, p. 33):
O diálogo, tematizado – não é um simples papo ou conversa jogada fora,
é sempre o fio condutor da formação. Mas há metodologias que supõem
fundamentos teóricos e ações práticas - atividades, etapas, métodos,
ferramentas, instrumentos etc. [...] deve ter: princípios, métodos e
metodologias de trabalho.
Nessa linha de raciocínio, Souza e Souza (2009, p.132) explicitam que o
programa tem como objetivo:
73
[...] dialogar com os jovens envolvidos com a criminalidade e, por meio
do diálogo, construir ações passíveis de inclusão nas instituições
responsáveis pela execução de políticas públicas que lhes são de direito,
como educação, saúde, inclusão produtiva, lazer, esporte, etc.
O direito à voz e de ser escutado faz parte das diretrizes do Programa
“Fica Vivo!”. Dizer o próprio pensar e ser compreendido é uma condição
existencial e que permite ao ser humano se sentir um ser de pertença e de
respeito.
Assim, os jovens devem ser tratados com respeito, expressando suas
ideias, crenças e valores e criando um vínculo com o profissional de Educação
Física/oficineiro. Ao se considerarem pertencentes à comunidade, às oficinas e ao
mundo, poderão alcançar objetivos que inicialmente avaliavam como inatingíveis.
Isso se faz, também, associado à criação de um ambiente saudável, democrático
e ético.
Araújo e Luvizottto (2012, p. 76) salientam que “o educador social cumpre
o papel de facilitar a trajetória de cada jovem e do coletivo juvenil na direção do
desenvolvimento pessoal e social, contribuindo para a criação de um ambiente
educativo, participativo e democrático”.
As seguintes unidades de registro corroboram essa visão:
[...] as ações que a gente julga eficazes são as ações que a gente
desenvolve o dia-a-dia, que são, eh, esse convívio, esse ouvir o jovem e
o desenvolvimento ali. Através desse desenvolvimento do esporte
ampliar os horizontes desses jovens. [...] eles podem disputar torneios.
Então eles conhecem outras localidades, têm convívio com outros
jovens, têm convívio com outro universo, que é diferente do dia-a-dia
deles ali (E4).
[Silêncio] Primeiramente, é tratá-los, eh, com respeito. Isso aí faz uma
diferença muito grande. A partir daí, eh, você consegue trazê-los pro
seu lado ali e, então, aí você consegue conduzi-los (E6).
[...] é primeiro tentar que esse jovem crie um vínculo com algum espaço.
Com algum lugar. Então, as oficinas é o lugar que a gente quer que eles
criem vínculo, porque eles não têm vínculo com nada. [...] criar espaços
onde sejam adequados pra atender à realidade deles. [...]. Então assim,
pra gente ter uma prevenção contra esses riscos desses jovens, eh,
muitas vezes, por terem um comportamento inadequado, a gente tem
que entender a família em primeiro lugar. E pros jovens que já estão em
situação de risco eles precisam ser inseridos nos espaço que ele sinta
reconhecido naquele lugar, talvez as oficinas do Fica Vivo!, porque lá,
sintam reconhecidos (E9).
Eu acho que a principal ação é o vínculo do oficineiro com o jovem.
Porque, eh, a partir desse vínculo, seja na parte de comunicação, na
observação com o jovem. Nessa relação que a gente vai conseguir
saber o que ele necessita e a partir daí criar uma relação, criar um
74
vínculo e trabalhar com o jovem pra atender àquela demanda dele
(E10).
Acho que a primeira coisa é você dá o acesso. Acesso à prática. E com
isso você oportunizar ao jovem. Dá ele condições pra mostrar o
potencial. Dá oportunidade dele se expressar e ele sentir que ele
também é parte importante, principalmente, dentro da sua comunidade
(E11).
Depreende-se de todas as unidades de registro que criar vínculos é
condição sine qua non para o jovem se sentir inserido nas oficinas, no “espaço”.
Sentindo-se acolhido, ele se abre ao mundo e mostra seu potencial, fala de suas
expectativas, necessidades e se sente “importante na comunidade”.
Baquero, Lemes e Santos (2011, p. 347) asseveram que se busca certa
autonomia dos jovens, mostrando que são responsáveis pelas suas decisões e
que elas podem trazer diversas possibilidades, positivas ou negativas. O
protagonismo juvenil é algo a ser conquistado, mas os jovens se deparam com
algumas diversidades, pois “na sociedade capitalista, o jovem passa a ser incluído
pelo que tem e não pelo poder de transformação e radicalização da vida. Esse é
um dos pontos fortes que levam tantos jovens de periferia a se aventurarem pelo
mundo da criminalidade”.
Silveira et al. (2010, p. 502) opinam que:
As intervenções preventivas bem-sucedidas fundam-se
no
conhecimento das dinâmicas sociais locais que desencadeiam essas
mortes violentas. São também necessárias intervenções intersetoriais
que fortaleçam a presença do estado nas áreas mais acometidas,
articulando ações de saúde educação e segurança pública com
mobilização e participação da população no planejamento,
monitoramento e avaliação das ações executadas.
2.4.3.3 Participação dos jovens
Os jovens chegam às oficinas em busca de algo novo, diferente da sua
realidade, seja em busca do esporte em si ou em busca de um local onde possam
interagir; cada jovem chega com a sua particularidade/especificidade. Eles são
frequentes, bem motivados, prestativos e participativos durante as dinâmicas
ofertadas, reconhecendo as oficinas como um local onde podem externar suas
necessidades, vontades. O esporte no Programa “Fica Vivo!” tem importante
75
significado na vida desses jovens. Para Vianna e Lovisolo (2009, p. 150) “trata-se
de um esporte significado a partir das interações locais”.
As unidades de registro confirmam essa afirmativa:
Os jovens que são envolvidos [...] estão sempre presentes nas oficinas,
lá (E1).
No esporte eles são frequentes. Eles se mostram, eh, com vontade de
fazer aquilo. Empolgados nas dinâmicas, uma parte. Alguns mais velhos
têm uma preguiça sim [...]. Mais faz da mesma forma [...]. E os mais
novos sempre são prestativos pra tudo e faz uma diferença muito
grande pra eles (E2).
[...] Então, os jovens, eles chegam em busca de algo. [...] do esporte.
Então, a gente percebe esses jovens que chegam com seus conflitos,
[...] cada um com sua particularidade. [...] (E4).
Os jovens são muitos motivados (E6).
Bem ativos. No! Uma energia. Eh, então assim, são jovens bem
frequentes. [...] a oficina começa às 17 horas. Duas horas e meia já tão
lá e ficam até o final mesmo (E13).
Alguns jovens estão presentes nas oficinas em busca de novas amizades e
novos vínculos, principalmente em momentos em que se encontram fragilizados
devido a diversas situações em sua residência, na escola ou na comunidade. E
outros estão presentes nas oficinas pelo lanche que lhes é fornecido nos dias das
oficinas, devido à necessidade que passam em suas casas. Os fragmentos de
discurso a seguir desvelam essa realidade:
Tem determinados momentos que eles tão bastante envolvidos. Tem
determinado momento que eles tão mais fragilizados, então [...] não se
envolvem tanto. Fragilizados devido às diversas demandas [...]. Então,
eles acabam oscilando. Mais sempre estão presentes. [...] sempre
justificando o fato deles não terem vindo, e eu acho isso crucial. [...]. Ao
mesmo tempo eles dão conta de ter a maturidade de compreender que
era importante eles tarem aqui no espaço. De depois conseguir trazer a
demanda pra nós conversamos um pouco (E7).
Eu percebo que alguns jovens vão mesmo pra participar, outros vão
mesmo pra fazer amizade. Alguns vão mesmo, somente pra lanchar,
porque [...] falta esse alimento na casa deles [...] a violência na
comunidade deles, às vezes, tem uma semana que tá tenso. Então,
esse jovem some. A gente fica preocupado. Então, quando ele tá lá
presente é um alívio pra gente (E8).
[...] eu percebo que os jovens assim, na oficina, é um espaço que eles
[...] colocam um pouco pra fora as necessidades deles [...] um pouco da
realidade [...] eu percebo que eles gostam muito. Frequentam. [...] se
apropriam ali mesmo e se tivesse mais dias eles iriam. Assim, acho que
é um lugar que ele sai do meio deles. Esse meio de tá com medo, tá
76
muitas vezes, sempre tá esperando algo acontecer com eles (E9).
Eu tenho jovens que não gostam do vôlei em si, mais que eles estão
presente todos os dias na oficina, muito pela relação com os demais
jovens. Então, eh, eu tenho jovens que tão pelo ofício do vôlei. Mais eu
tenho jovens que tão ali por causa do local, do vínculo com os demais
jovens. [...] eu acho que a presença [...] tá sendo uma presença
constante e ela varia tanto pelo interesse do ofício do voleibol quanto
pela relação dos jovens que ali tem. Que é a questão da amizade, do
vínculo (E10).
[...] eles já estão ali, porque gostam do ofício. [...] eles já vão ali com
interesse de participar da oficina (E12).
Thomassim e Stigger (2011) tipificam a participação dos jovens em
projetos sociais, na qual se descarta apenas a participação compulsória. No
Programa “Fica Vivo!” encontra-se a participação como interesse, como convívio
e como projeto ou investimento.
É analisada participação como interesse quando se buscam vínculos em
atividades em que jovens possuem interesse em conhecer, aprender ou praticar.
Outro tipo é a participação como convívio, que se relaciona aos estímulos
coletivos
e
conjunturais.
A
presença
carrega
componentes
simbólicos,
estabelecidos segundo critérios próprios das relações, como os vínculos
duradouros de amizade. E, ainda, a participação como projeto ou investimento na
qual se espera algum retorno específico (THOMASSIM; STIGGER, 2011).
Para ilustrar a presença dos jovens nas oficinas, o QUADRO 2 mostra os
indicadores da presença dos jovens nas oficinas.
QUADRO 2 - Indicadores da presença dos jovens nas oficinas de atividades
esportivas no Programa “Fica Vivo!”
INDICADORES DE
PRESENÇA
Busca de algo novo
Socialização
Motivação
Fragilidade familiar
MOTIVOS DA PRESENÇA
- Conteúdo
- Ambiente diferenciado
- Novas amizades
- Vínculos afetivos
- Formas de desenvolver-se profissional e pessoalmente
- Busca de uma afetividade que não se encontra no meio
familiar
- Busca de uma referência
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
77
De acordo com a E5, “[...] cada jovem tem sua particularidade. [...] chegam,
conversam. [...]. Cada um tem sua marca de registrada.” Pode-se dizer que cada
jovem participa das oficinas em busca de objetivos que podem ser diferenciados.
Stigger (2002 apud THOMASSIM; STIGGER, 2009, p. 8) refere que:
[...] ainda que se possa afirmar que todo o esporte contém determinados
componentes que o caracterizam como tal, esta atividade é praticada por
indivíduos que dão a cada um destes elementos um peso na constituição
da sua prática esportiva particular.
A presença dos jovens nas oficinas pode ser confirmada pela TAB. 1, que
mostra o número de jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!”, nos últimos
anos.
TABELA 1 - Número de jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!” nos últimos
anos (2009 - mar./2014)
ANO
2009
2010
2011
2012
2013
2014
MÉDIA ANUAL DE JOVENS ATENDIDOS NO
PROGRAMA “FICA VIVO!”
14.728
14.537
13.586
12.166
11.437
10769* (*período de janeiro a março de 2014)
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
Uma leitura, ainda preliminar, assinala que o número de jovens
participantes das oficinas, no primeiro semestre de 2014 é de mais de 10.000
jovens. Espera-se que esse número supere os anos anteriores, tendo em vista os
jovens partícipes delas até março.
2.4.4 Categoria 4: da participação à ação
2.4.4.1 Mudanças no comportamento, atitudes e relações
Em relação às mudanças perceptíveis de comportamento dos jovens do
Programa “Fica Vivo!”, várias foram detectadas e são consideradas oriundas do
trabalho realizado nas oficinas de modalidades esportivas. Reafirma-se ser o
78
esporte a ferramenta utilizada nessas oficinas. Nesse sentido, vale lembrar os
dizeres de Thomassim e Stigger (2009, p. 7):
[...] o esporte possibilita a vivência de valores para a vida; muitas
pesquisas e reflexões têm defendido que não se pode atribuir aos
esportes apenas valores positivos ou apenas valores negativos, porque,
em primeiro lugar, o esporte se apresentaria de forma heterogênea, isto
é, com múltiplos valores ou sentidos a ele associados pelos seus
praticantes.
Complementando,
Matos
e
Andrade
(2011)
mencionam
que
as
intervenções por meio do esporte transferem-se para a vida e para o cotidiano
dos sujeitos em risco social, permitindo que tenham mais oportunidades e se
tornem cidadãos dignos. Aludem, ainda, que por meio de uma prática consciente
proveniente de aprendizagens e descobertas, que por sua vez podem gerar novas
dificuldades, os jovens se conscientizam da importância do respeito que se deve
ter para com o outro, como ser humano.
Tal assertiva vem ao encontro das mudanças operadas na existência dos
jovens do Programa “Fica Vivo!”. Aqueles que começaram a frequentar as oficinas
amadureceram no decorrer das atividades realizadas, tornando-se menos
agressivos, agindo de forma mais cordial, sem dificuldades de demonstrar o
carinho mútuo, o que antes não era evidenciado. O comportamento mais cordial
proporcionou a mudança de hábitos, originando interação e socialização entre
eles, eles e os oficineiros, familiares, tornando seu comportamento mais receptivo
e dialogando e circulando mais dentro da comunidade. Esses avanço e progresso
detectados em graus diversos, porque em pessoas singulares, ocasionam
relacionamentos interpessoais afetivos e respeitosos. Pode-se destacar que
esses jovens tornam-se mais responsáveis, confiantes em si e comprometidos.
As unidades de registro confirmam as mudanças descritas anteriormente:
É, principalmente, a questão de resolver um conflito. [...] não brigam pra
resolver o problema, [...] matavam aula e os diretores já vieram falar que
depois que eles entravam no projeto, eles pararam. [...] alguns pararam
de usar drogas. Na oficina mesmo, não tem ninguém que usa. Mais
quem entrou usando parou [...] (E2).
[...] eu percebo várias mudanças, e em cada jovem com o seu grau. [...]
alguns mais arredios, outros, eh, mais indisciplinados ou com muita
energia e à medida que a gente vai desenvolvendo esse trabalho eles
vão tomando consciência de uma série de comportamentos. [...] tem
impacto, muita das vezes positivos, na personalidade, no
79
desenvolvimento, no relacionamento com os outros jovens, com os
professores. [...] relatos também, até de melhoria, na escola. Os pais
também já fizeram alguns relatos que o jovem era mais agressivo, até
no comportamento dentro de casa, depois com o passar do tempo,
convívio ali na oficina, ele se torna um jovem com um comportamento
um pouco, eh, menos agressivo, mais cordial (E4).
[...] muitos jovens que, que eram, às vezes, conflituosos, que viviam
discutindo por coisa boba, hoje em dia são muito tranquilos. Até ajudam
a organizar a oficina. [...]. E na escola a diretora falou que o
comportamento de muitos melhorou bastante, em termo de disciplina
[...] (E6).
[...] a gente percebeu que eles tão amadurecendo. Outros não tinham
emprego, hoje, já estão trabalhando. [...]. Alguns foram promovidos a
oficineiros do Programa Fica Vivo! (E8).
Possivelmente, houve, na vida dos jovens, uma descoberta incitadora de
transformações vivenciais: da percepção do ser nada para ser cidadão; de
autoimagem negativa para autoestima elevada; do impossível ao possível; da
descrença em si mesmo para o acreditar que posso e quero. Assim, ao se
tornarem cordiais, receptivos, parceiros e tendo voz, eles também alcançam
outros objetivos: sair da droga, conseguir um emprego e serem protagonistas da
própria vida. A unidade de registro confirma essa mudança: “eh, esses jovens
eram muito, falavam muitos palavrão. Eram muito agressivos no início. [...] esses
jovens melhoraram muito [...] no início deram trabalho, agora já não dão mais”
(E12).
Os jovens mudam a concepção de que estão reféns da criminalidade e das
drogas e conseguem perceber que podem alcançar diversos objetivos e que
possuem acesso às necessidades básicas, como a educação. Muitos deles
começam a ver que fazer curso superior é uma realidade possível e,
consequentemente, podem crescer profissionalmente, o que possibilitaria seu
desenvolvimento pessoal. A mudança de comportamento no ambiente escolar foi
notada pelas direções das escolas onde estudam esses jovens que frequentam
as oficinas.
Diante dessas mudanças que acontecem na vida desses jovens, Gohn
(2009, p. 34) acredita que:
[...] é uma força que alavanca mentes e corações, impulsiona para a
busca de mudanças. A esperança-fundamental aos seres humanos
reaviva-se quando trabalhamos com cenários do imaginário desejado,
com os sonhos e os anseios de um grupo.
80
Segundo Thomassim e Stigger (2009, p. 8), não se trata apenas da
educação moral, pois o aprendizado de valores e significados orienta a conduta
em diversas circunstâncias. E “o aprendizado de uma conduta não agressiva no
contexto de um projeto deveria ser transferido, automaticamente, para orientar a
conduta em todos os lugares fora do projeto”.
Esses dizeres revelam que o aprender valores transcende o espaço do
aqui para o acolá, ou seja, o aprender valores é internalizá-los para a vida. Assim,
os jovens começam a ter mais respeito pelo próximo e por si mesmos e pensam
em relacionar-se melhor com os outros, advindo dessa convivência harmônica um
conviver social de forma mais agradável. Para afirmar essa concepção,
destacam-se as seguintes falas:
[...] a linguagem dele era [...] de palavras desagradáveis o tempo todo.
E ele começa a mudar isso. [...] começa a ter cuidado na hora de
conversar com você [...] ter cuidado ao conversar com o colega. [...]
começa a enxergar que ele pode estudar, que ele pode trabalhar. Que
ele não tá fadado à morte. Não tá fadado ou é a criminalidade ou é o
dinheiro ali, que vem aí de forma ilícita. Que pra ele conseguir, ele pode
conseguir de outras maneiras. [...]. Não existia regra no espaço. Eles
não conseguiam se organizar. Hoje, eles já conseguem se organizar.
[...] percebe que [...] tem mais jovens procurando a universidade. [...].
Jovens que, às vezes, tinha dificuldade de demonstrar o carinho. [...]
ficaram mais carinhosos, mais receptíveis, dialogam mais. [...] eu
consigo dialogar com todo mundo. Era impossível no começo (E9).
[...] a gente observa mudanças de hábitos e informações adicionais que
melhoram até mesmo a formação desse jovem, voltando a ter acesso
aos mecanismos de educação, de ensino. E também, até o mercado de
trabalho (E11).
Quando eu entrei lá os jovens tinham muita dificuldade, sabe, de
relacionar-se. Então, eh... [momento de silêncio], e assim, eu tinha uns
que [...] eram muitos envolvidos. Então a mudança que eu percebi é o
seguinte [...]. A relação entre eles, assim, o conviver social, acho que
melhorou também. [...] são jovens que hoje, eu vejo, tem mais objetivo
[...]. Eh, alguns, já assim, me parecer que já, eh, já pararam. Porque eu
já conversei. Tem uns que já [...]. Tinha jovens que quando eu entrei lá
eram tão envolvidos, mais tão envolvidos, eh, que receberam até
ameaça de morte. Hoje são jovens assim, que estão casados, já têm
filhos (E13).
Infere-se que houve visada de consciência por parte dos jovens.
Conseguem se desvencilhar de uma vida não projetada e arrebatada pelas
condições inóspitas para uma vida sopesada por condições mais humanas,
dignas e saudáveis. Desconstroem empecilhos, criam condições de vida que lhes
81
permitem construir famílias, voltar ao ensino formal, circular no bairro e criar
afetos, entre outros.
No que se refere à circulação dos jovens, Vianna e Lovisolo (2009, p. 154)
afirmam que esta é necessária para que adquiram mais identidade com o
contexto, pois “o deslocamento pelas ruas da comunidade amplia o círculo dos
conhecidos e as possibilidades de se apropriarem dos códigos e sinais que lhes
indicam segurança ou risco nos momentos de tranquilidade ou conflito na
comunidade”.
Aquino (2010, p. 138) cita que diante de uma boa condução dos
profissionais de Educação Física, o esporte:
[...] pode ser um guia para o conhecimento do ser humano. Ele traz
consigo ensinamentos que podem ser levados para a vida, e agrega
valores como confiança, respeito, cooperação, responsabilidade, entre
outros. A interação com novas pessoas pode provocar mudanças a nível
pessoal e coletivo.
Nesse sentido, afirma-se que as atividades esportivas propõem um
desenvolvimento que não seja meramente técnico e/ou tático, mas consiga
revelar novos valores, como o desenvolvimento de atitudes que tenham impactos
positivos no decorrer de suas vidas. Muitos jovens que frequentavam as oficinas
foram retirados do envolvimento com as drogas, devido a vários fatores como o
acesso às informações de acesso básico. Pararam de usar drogas e deixaram de
seguir a vertente da criminalidade e buscaram um caminho no qual veem
possibilidade de um emprego, de fazer cursos de formação, curso superior, fazer
parte de uma equipe de ponta e constituir e manter uma família de forma lícita.
A oficina se constitui, por conseguinte, em ferramenta e espaço para
ultrapassar o fazer/pensar reiterativo para um pensar/fazer diferente assentado
em criação e criticidade. Para Soares et al. (2009, p. 196), “a oficina é um
instrumento potente para que os sujeitos - agentes e coprodutores do processo
educativo - participem com a finalidade de transformar a práxis reiterativa em
práxis criativa”.
Diante dessa assertiva, apresentam-se alguns fragmentos de discurso:
[...] vários jovens quando entrou na oficina mesmo, mexia com droga ou
os familiares mexem com drogas. [...] tinha a vertente de não seguir
uma vida mais correta [...] ou então, seguir esta vida mesmo, da
82
criminalidade. Hoje em dia tenho vários jovens que chegam depois da
minha oficina e falam: o fessor, tô trabalhando, o fessor, passei na
ASPROM (E3).
[...] jovens que através do programa fizeram cursos. Eh, e através dos
cursos foram encaminhados para trabalho (E5).
Nós já tivemos situações aqui, de jovens, de tomarem a decisão de
parar de fazer o uso. E conseguir se manter, fora do uso, de
entorpecentes. Nós tivemos situações de jovens [...] de decidir de não
matar um ao outro [...]. Mais a partir do desenvolvimento, como as
coisas aconteciam. Pelo fato, eu acredito, do relacionamento. [...] os
jovens se relacionam comigo e uns com os outros, que os ajudaram
tomar a decisão [...] (E7).
[...] a maioria dos meninos que eu perdi foi pro lado positivo da vida. [...]
meninos que eram totalmente rebeldes, agressivos, que respondiam,
falavam palavrões e hoje eles têm uma relação totalmente diferente. [...]
tem uma interação, uma socialização melhor, uma fala menos
agressiva. [...] o respeito dos meninos melhorou. Eu tenho meninos que
hoje tão fazendo faculdade. [...] eu percebo que há mudança nas
atitudes, na questão de responsabilidade, na questão de busca de
objetivos, na questão de poder circular na própria cidade. Coisa que
alguns não faziam. Nem na comunidade circulavam. E hoje circulam.
Questão de constituição familiar. Então, eu tenho ex-alunos e alunas
que já se casaram, tem filhos e que cria certa responsabilidade. Então,
eu vejo assim, que há um processo, uma evolução, mudança muito
grande nos jovens, em questão de comprometimento, de
responsabilidade (E10).
Apesar do Programa “Fica Vivo!” não ter como objetivo a formação de
atletas, muitos jovens que possuem desenvolvimento técnico e/ou tático em nível
compatível com os de atletas de rendimento foram encaminhados para equipes
de ponta do estado, conforme se apreende nas falas a seguir:
Tem um aluno meu que jogou no Vila Nova, dois anos. Tem aluno meu
que passou no Betim, que é o antigo Ipatinga que virou Betim e agora
voltou a ser Ipatinga. [...] um jovem que passou no Atlético, treina no
Atlético hoje (E3).
[...] tem casos de jovens minhas que saíram da oficina e entraram num
time de futsal, que foi o Atlético (E5).
Com essa convivência fora de onde esses jovens estão inseridos,
possibilita-se uma interação e torna-se um exemplo bem-sucedido da efetividade
do programa, ou seja, demonstra a formação integral desses jovens. Além dessa
formação, vários jovens encontram-se melhores, em aspectos sociais e
psicológicos, para enfrentarem as adversidades encontradas no decorrer de suas
vidas. São preparados para a vida. Na acepção de Thomassim e Stigger (2009, p.
8), a educação por meio do esporte:
83
[...] significa bem mais do que a recepção ou assimilação passiva de
supostas virtudes próprias do esporte. São as relações sociais, em cada
contexto, que dão significados ao esporte; e não o raciocínio contrário,
ou seja, de que estes significados estejam, de antemão, imbuídos no
esporte, independente do contexto em que ele é praticado.
Apesar de se conhecer todos os benefícios provenientes do esporte, sua
assimilação é individual e coletiva. Ao mesmo tempo em que o sujeito tem o
direito de escolhas e de trilhar por caminhos que lhe são mais aprazíveis no seu
pensar e agir, essa escolha pode ser contrária aos pressupostos e objetivos de
qualquer programa. Não se escolhe pelo outro, o outro é quem escolhe para si. A
assimilação dos benefícios é considerada coletiva na medida em que a
comunidade se desenvolve, os jovens mudam comportamentos, saem da
criminalidade, tornam-se protagonistas de ações positivas e motivam outros
jovens para também operarem mudanças.
Os sujeitos deste estudo relatam que também “perdem” os jovens para o
mundo da criminalidade ou não conseguem tirá-los dele. Destacam, assim, que
alguns que frequentam as oficinas não foram alcançados pelo programa e se
perderam na criminalidade ou no tráfico.
A gente percebe dois tipos de mudança [...] o jovem que a gente
consegue dialogar, conversar, intervir e mostrar para ele que há outros
caminhos. E tem as mudanças pro mal. Que a gente vê que alguns
jovens que a gente viu, desde pequeno, frequentando a oficina,
frequentando a comunidade, a gente não conseguiu, eh, ganhar essa
briga pro tráfico e ver esse menino indo pro tráfico. [...] acho que a
nossa quantidade de acerto é muito maior que a quantidade de erro
(E1).
Diante dessas mudanças destacadas pelos sujeitos, Thomassim e Stigger
(2009, p. 8) salientam que:
[...] a crença instalada socialmente é de que valores, hábitos e
ensinamentos morais, ao serem vivenciados nas atividades dos projetos
sociais, podem contribuir para transformar as relações na sociedade,
marcadas pelo desrespeito, indiferença e pela violência.
2.4.4.2 Mais dificuldades no trabalho com os jovens
Diversas dificuldades na realização do trabalho nas oficinas são descritas.
Segundo Matos e Andrade (2011), as intervenções realizadas por meio do
84
esporte podem servir para a vida e para o cotidiano dos jovens, conscientizandoos de suas atividades e valores. Para potencializar esse, trabalho as dificuldades
encontradas necessitam ser resolvidas.
Dificuldades são encontradas no cotidiano das atividades efetivadas nas
oficinas. Destaca-se a estrutura física, principalmente, no momento da instalação
das oficinas, pois cabe ao oficineiro a responsabilidade de encontrar o espaço
físico onde estas serão realizadas. Isso não é tarefa fácil, pois existem muitas
dificuldades em conseguir parceiros. São considerados parceiros todos os
comerciantes, empresários, entre outros, que possibilitam o funcionamento da
oficina, disponibilizando espaços e, em outras situações, ajudando em relação ao
lanche e deslocamento desses jovens para determinados eventos. Outra
dificuldade é relativa à questão financeira, uma vez ser também o oficineiro o
responsável pela compra de todo o material necessário para a realização da
oficina e de fornecer aos jovens lanche nos dias dos encontros.
Para Matos e Andrade (2011, p. 138-139), “as políticas públicas
relacionadas a projetos sociais, sob o ponto de vista ideal, devem proporcionar
condições mínimas para tornar efetiva a igualdade de direitos”.
Essa responsabilidade instituída para os oficineiros, que devem se
responsabilizar pela escolha dos espaços e pela compra dos materiais e lanches,
contradiz a política/objetivos do Programa “Fica Vivo!” e as políticas públicas de
projetos sociais. O facilitador/mediador/oficineiro tem atividades outras que são
afeitas às compras e, ressalta-se, com o próprio salário. Não contam com
espaços para realizar o trabalho para o qual foi contratado.
É importante trazer à tona que a verba existe para resolução dessas
dificuldades, devido aos altos valores repassados para o Instituto ELO, OSCIP
que, por meio de um termo de parceria, foi celebrado com a SEDS, em 2005, e
seguido de vários termos aditivos. Os profissionais que atuam na ponta,
diretamente ligados aos jovens, deveriam dispor de um montante maior de
recursos para a realização eficiente e eficaz do seu trabalho ou, melhor dizendo, o
programa deveria disponibilizar toda a infraestrutura de logística para a efetivação
do trabalho com os jovens.
Para confirmar essas dificuldades, vejam as seguintes unidades de
registro:
85
O problema é estrutura física e financeira [...] (E2).
Eh, uma das dificuldades, eh, questão estrutural. Eh, sempre é um fator,
eh, limitante, a questão de recursos (E4).
A dificuldade maior que eu tenho é questão de estrutura, pra trabalhar
(E6).
Uma delas, eh, é dificuldade de material, que nós temos demais. [...]
quero desenvolver minha oficina, eu tenho que conseguir esse espaço
pra poder desenvolver. [...] percebo que, às vezes, o Programa, ele gera
uma falha, nesse início, que ele também, poderia auxiliar o oficineiro a
conseguir essa demanda de espaço. Não só o oficineiro apresentar
(E7).
Outra dificuldade detectada é o desejo de inibir ou amenizar a situação dos
jovens envolvidos com o tráfico e que querem, o tempo todo, se submergir em
algum tipo de confusão. É sabido que atividades esportivas auxiliam no controle
da agressividade. Contudo, esse controle não acontece da noite para o dia. É um
processo de conquista e que inicialmente deve haver o envolvimento do oficineiro
com os jovens, criação de vínculos e de respeito mútuo. Dessa forma, o oficineiro
consegue ter acesso aos jovens e, de alguma forma, iniciar um processo de
aproximação e de possibilitar a transformação nas suas vidas.
Diante da problemática percebida pelos oficineiros, Matos e Andrade
(2011, p.140) alegam que:
[...] o esporte pode proporcionar benefícios psicológicos aos jovens, pois
pode ser articulador de ações educativas através de atividades que
enfatizam a saúde, a arte e o apoio à escolarização. Além disto, oferece
ao jovem um espaço protetor, esportivo, educador, lúdico e socializador.
Estas ações educativas fornecem ao jovem um ambiente promotor de
saúde e de desenvolvimento de diversas habilidades.
Outra dificuldade apreendida diz respeito à abordagem de certas
temáticas, consideradas temas polêmicos relacionados ao cotidiano dos jovens,
principalmente em determinados momentos, como conflitos e guerras.
Soares et al. (2009, p. 190) relatam que:
[...] pressupõem que trabalhadores de instituições sociais, participantes
das oficinas – ao menos em sua maioria – sentem-se despreparados
para abordar essa temática com os jovens, e quando o fazem, tendem a
apoiar-se em uma perspectiva que coloca, sobre o jovem, a
responsabilidade pelo envolvimento com as drogas e pelos prejuízos que
podem daí advir, atribuindo-lhe, também, a responsabilidade pela
mudança.
86
Instaura-se, a partir desses dizeres, reflexões e descobertas de que, em
determinados momentos, há oficineiros que podem não estar capacitados para o
exercício do seu fazer. Como agir com o outro se não se sente preparado para
tal? Responsabiliza-se pela busca da própria capacitação ou delega ao jovem,
unicamente, o não querer se implicar e mudar?
Avizinhar-se de certos temas e trazê-los para a oficina é uma dificuldade
sentida, conforme depoimentos dos oficineiros:
Você conseguir manter o jovem na oficina, eu acho, que é uma das
maiores dificuldades. [...] eu vejo que, às vezes, você abordar certas
temáticas também é algo um pouco mais difícil (E10).
A grande dificuldade, às vezes, é você falar de temas tão polêmicos que
estão relacionados no cotidiano do jovem. [...] fazer com que ele
compreenda que existe outro panorama que ele pode, de repente,
observar e, de repente, seguir. Que não é o que ele está vendo na
comunidade (E11).
[...] eu acho, principalmente, quando está entre conflito, falar com quem
é envolvido desses conflitos. [...]. Porque quando, eh, há esses conflitos
as pessoas ficam muito alteradas, muito agitadas. Eh, costuma ir na
oficina e não ficar o tempo todo. Então, a gente tem que pegar sempre
em pequenos grupos. Tentar falar que da forma que está não pode
continuar (E12).
Esses depoimentos mostram que os protagonistas das oficinas, em alguns
encontros, não são os jovens no tocante às discussões levantadas. Em vez dos
jovens se tornarem ativos, dizerem, refletirem sobre o próprio agir, pensar e
sentir, parece que o oficineiro dita sua concepção de “tenta falar que da forma que
está não pode continuar”. Quem deve se conscientizar dessa situação? Quem
deve se abrir para as mudanças? Elas são internas ou são impostas?
A rotatividade dos jovens também é considerada um fator que influencia
diretamente o desenvolvimento e a evolução do trabalho que está sendo
realizado. Pode-se considerar que é uma dificuldade manter os jovens dentro das
oficinas, visto que a juventude vive de modismos e pode ser influenciada e levada
a outros caminhos. Cabe ao oficineiro estar atento para oportunizar aos jovens
que frequentam sua oficina atividades dinâmicas e que os motivem de forma
positiva, além de lhes dar voz.
As unidades de registro expressas pelos sujeitos confirmam essa
dificuldade:
87
A maior dificuldade hoje é o comportamento dos jovens que são
envolvidos com tráfico. [...]. Os caras têm disposição o tempo todo pra
querer brigar, pra poderem fazer bagunça, pra poder ir pro
enfrentamento. A maior dificuldade é a gente poder inibir ou acabar ou
amenizar o jovem que quer ir o tempo todo pro enfrentamento com
outros jovens da comunidade (E1).
A grande dificuldade assim, que a gente enfrenta talvez, é a
rotatividade. O programa é muito rotativo. [...] o jovem [...] ele vem, fica
um tempo, algum tempo ele desaparece, volta. [...] a maior dificuldade
que a gente tem é a descontinuidade. [...] a gente tem uma dificuldade
grande [...] é com os espaços. [...] questão de pareceria. As parcerias
são muito complicadas (E9).
Há dificuldades que são do próprio contexto de vulnerabilidade onde vivem
os jovens. A ausência dos jovens nas oficinas devido a fatores advindos da
comunidade, como homicídio, períodos de guerra são dificuldades enfrentadas
pelos oficineiros. Apesar de esses momentos serem considerados pelos
oficineiros uma dificuldade, isso está muito distante de ser controlado, devido ao
local onde as oficinas se concretizam. Essa situação vivida pela comunidade em
determinados momentos dificulta o trabalho dos oficineiros, o que pode ser
conferido nas seguintes falas:
A maior dificuldade que eu tenho aqui pra dar oficina é quando ocorre
algum homicídio, quando tá em guerra, que os jovens não conseguem
circular na própria comunidade. Então eles não descem para a oficina
(E5).
E, talvez, o jovem tenha essa dificuldade de deslocar também, da casa
dele pra oficina, mais a dificuldade mesmo no sentido aí, da violência,
de o jovem não poder vir. Que isso que eu percebo como um empecilho
pra atrapalhar o funcionamento da oficina (E8).
Há também dificuldades relativas à realização de oficinas com grande
número de jovens. Falta uma equipe maior para que o número de jovens
beneficiados seja maior, pois para atingir esses jovens de forma mais efetiva,
seria necessário estar mais próximo e também trabalhar com suas famílias. A
falta de envolvimento com as famílias reduz o número efetivo das mudanças e
transformações que se busca com os jovens. Vejam-se os relatos:
Maior dificuldade é ser um só. [...] acho que o mais difícil é você
conseguir realizar a atividade, sendo uma pessoa só e ter que fazer
tantas outras atividades ao seu redor. Isso é o mais complicado (E3).
[...] a questão de um acompanhamento. Eh, de uma equipe, assim,
maior. De tá indo, às vezes, mais na oficina. [...] falta um pouco da
88
questão financeira também, tipo assim, de deslocamento com os jovens
pra poder participar de campeonatos. Isso ajudaria proporcionar o lazer
a eles (E13).
O QUADRO 3 indica as maiores dificuldades encontradas pelos
profissionais de Educação Física/oficineiros e suas causas.
QUADRO 3 - Dificuldades enfrentadas no Programa “Fica Vivo!” e suas causas
DIFICULDADES
Estrutura física
Questão financeira
Inibir e/ou amenizar confusões
Rotatividade dos jovens
Ausência dos jovens
CONTEXTO
- O oficineiro é responsável pelas parcerias.
- Espaço físico inadequado
- O oficineiro é responsável pela aquisição do
material, lanche e deslocamentos.
- A agressividade dos jovens
- Muita influência negativa
- Modismo
- Falta de acesso dos jovens
- Homicídios
- Período de guerra
Abordar temas polêmicos,
principalmente em momentos
específicos (conflitos)
- Aceitação dos jovens
Envolvimento com a família
- Falta de envolvimento com a família dos
jovens.
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
Vianna e Lovisolo (2009) sugerem que as instituições públicas e privadas
parecem supor que essas atividades realizadas são suficientes para que os
sujeitos tenham uma vivência de socialização positiva e de cidadania. Essas
atividades, apesar de serem uma grande ferramenta de socialização que visa
proporcionar mais cidadania, não podem ser consideradas como solução para um
problema de maior amplitude.
2.4.5 Categoria 5: capacitando-se para capacitar o outro
A necessidade de capacitar-se para capacitar o outro é imprescindível, pois
os oficineiros precisam dispor de um conhecimento interdisciplinar, devido à
grande diversidade pessoal e social e, desta forma, conseguir contribuir de forma
mais efetiva na vida dos jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!”.
De acordo com Brito et al. (2013, p. 70):
89
A capacitação, que envolve treinamento e desenvolvimento, são fatores
importantes numa estratégia de desenvolvimento organizacional. O
treinamento possibilita o desenvolvimento da equipe de trabalho, a
resolução de problemas, o rendimento com mais eficácia, mudanças de
comportamento, desenvolvimento de habilidades e atitudes, itens
importantes para o desenvolvimento organizacional.
Em relação ao ofício da modalidade que é trabalhado nas oficinas, os
profissionais não recebem qualquer tipo de capacitação. Pode-se inferir que o
ofício é realizado com base em conhecimentos próprios, individuais, construídos
no dia-a-dia, sem uma sustentação teórica, possivelmente. Deduz-se que a
oficina se processa com erros e acertos, mas também com ganhos e perdas. A
intuição instaura o acontecer em grupo e os jovens participantes usufruem o que
lhes é ofertado. Nesse encontro grupal, vínculos se constroem, diálogos se
fazem, questões se levantam, respostas são dadas. Mas poderia se ter uma
reflexão mais crítica, um conhecimento mais elaborado, um inquirir-se mais
contundente e diretivo, um fazer orientado pela teoria e esta retroalimentada, isto
é, ação, reflexão e ação.
Acredita-se que seriam muito relevantes as capacitações para os
profissionais de Educação Física, facilitadores das oficinas, visto que o conteúdo
de como trabalhar oficinas não faz parte da grade da graduação do curso de
Educação Física e, também para os demais oficineiros, pois o critério de seleção
não descreve a necessidade da formação no curso de Educação Física para
ministrar as oficinas. Portanto, seria uma forma de aperfeiçoar o trabalho desses
oficineiros que já atuam e não possuem a qualificação devida nesse contexto.
Anualmente é realizado o encontro dos oficineiros. Trata-se de um
momento de integração e de trocas de experiências relacionais e técnicas, o que
possibilita otimização do seu trabalho com os jovens. As unidades de registro
corroboram essas assertivas:
Anualmente, a gente participa de um encontro de oficineiros e algumas
vezes já recebemos curso de capacitação promovido pela Secretaria de
Defesa Social, sim (E1).
[...] o Programa, eh, por algumas vezes, já promoveu algumas
capacitações, mais nessa parte relacional, não na parte técnica em si.
Eh, na parte técnica de conteúdo esportivo, eh, ainda carece de
algumas, de o Programa ter algum tipo de capacitação (E4).
Específicas assim, do tema das oficinas, não. Mais a gente tem
capacitações, eh, de, tipo assim, com temáticas específicas assim [...].
90
Território, eh, jovens com envolvimento, [...] (E5).
As falas de E1, E4 e E5 significam que a capacitação é carente de alguns
conteúdos, principalmente relativos à parte técnica esportiva. Há direcionalidade
de formação nos temas de território, cursos de primeiros socorros e temáticas
pontuais concernentes a algum evento a ser realizado. Há revelação de que,
tempos atrás, as capacitações aconteciam mais vezes e, hoje, uma vez ao ano:
Havia um número maior de momentos com formação. Já tivemos, na
minha área, já tivemos formações na área de esporte. Apesar, de
acontecer somente próximo a alguns eventos, principalmente,
olimpíadas. Tivemos já algumas capacitações, envolvendo, eh, cursos
de primeiros socorros, algumas oficinas de desenvolvimento de
atividades mesmo, com jovens. Mais hoje dentro do Programa, não
acontece isso, tão continuamente, como acontecia antes. Há um tempo
atrás isso era. Eh... [momento de silêncio]. Mais contínuo (E7).
A gente recebe. Uma vez no ano tem essa capacitação, geralmente, ela
é em dezembro [...] (E8).
Nós recebemos. Eh, normalmente, acontece alguns encontros com os
oficineiros, pelo menos, uma vez ao ano, onde é possível haver uma
troca de experiências e nós também temos reuniões individuais com
nossa equipe técnica, onde também recebemos orientações e auxílio
em determinadas situações que houver necessidade (E11).
Devido à complexidade do Programa “Fica Vivo!”, mais capacitações
externas deveriam ser realizadas, levando-se em consideração as demandas
emergenciais de determinados CPCs ou de ações isoladas que sejam relevantes.
Acredita-se que apenas uma ao ano não seja suficiente para suprir a necessidade
do programa nem das pessoas que o materializam na prática.
Destaca-se que apenas 46,15% dos sujeitos da pesquisa afirmam receber
poucas capacitações externas; os mesmos 46,15% não recebem capacitações
internas realizadas nas reuniões; e apenas 7,7% declaram não ter capacitações,
de acordo com o E3: “o Fica Vivo! mesmo não tem essa capacitação não”.
Considera-se que quanto maior o número de capacitações externas, maior
será o desenvolvimento das atividades mediatizadas pelos seus responsáveis,
pois a troca de experiências destes é extremamente relevante para o encontro de
ações positivas e o encontro de alternativas para aquelas consideradas frágeis. A
TAB. 2 mostra o quantitativo de capacitações verbalizadas pelos respectivos
sujeitos.
91
TABELA 2 - Os oficineiros e as capacitações no Programa Fica Vivo!
Situação
Sujeitos
(oficineiros)
Nº de
oficineiros
%
Não Recebem
E3
CAPACITAÇÕES
Recebem Poucas
(Externas)
Capacitações Internas
(Reuniões)
E1, E4, E6, E7, E8, E12 E2, E5, E9, E10, E11, E13
1
6
6
7,7%
46,15%
46,15%
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
Brito et al. (2013, p. 78) salientam que a capacitação é uma “ferramenta
para melhoria do desempenho profissional individual e organizacional”. Gil (2011,
p. 39) preleciona: “não são apenas as máquinas e os equipamentos que se
tornam obsoletos; os conhecimentos e as habilidades também. Mais do que em
qualquer outra época, portanto, o trabalhador qualificado é que passa a ser a
diferença”.
Em consonância com a metodologia do Programa “Fica Vivo!”, é dever do
técnico durante as reuniões “capacitar, orientar e supervisionar o trabalho do
oficineiro, bem como discutir com o mesmo os atendimentos realizados na oficina
ou em outros espaços da região onde o programa está implantado” (MINAS
GERAIS, 2009, p. 89). As reuniões realizadas são consideradas capacitações
internas, sendo que todos os sujeitos entrevistados afirmam participar de todas as
reuniões e, consequentemente, das capacitações que acontecem durante essas
reuniões. Conforme consta nos Relatórios Gerenciais do Programa, os técnicos e
gestores do programa recebem capacitação. Brito et al. (2013) adverte que a
acessibilidade e disponibilidade de capacitações devem ser observadas com
atenção. As unidades de registro legitimam essa concepção:
As atividades de dinâmicas que são mais relacionadas ao projeto, o
Programa Fica Vivo!, a gente tem uma reunião, uma vez por mês [...].
Que elas são pra, como se fosse um curso de capacitação mesmo (E2).
[...] a gente tem capacitação. [...]. A equipe técnica sempre tá trazendo
algo novo pra gente tá discutindo, principalmente, eh, dependendo do
momento que a gente tá vivendo no território, assim, tentam [...] fazer
essas conversas, diálogos; trazer alguém que às vezes tem uma
experiência com esse tipo de situações. A gente tem capacitação
constante [...] . As reuniões, muitas vezes, eram temáticas, pelo menos
uma vez no mês a gente fazia uma capacitação com, ou dentro mesmo
da equipe ou convidando alguém de fora pra vir falar (E9).
92
Olha, eh, às vezes, poderia até acontecer mais, às vezes, mais algumas
palestra com alguns temas que a gente acha um pouco difícil é falar no
dia-a-dia, principalmente pelo Programa que envolvem muito com
pessoas de risco, envolvidos na criminalidade (E12).
Eh, umas reuniões também, que envolvem todos os Fica Vivo! da região
metropolitana. [...]. A gente senta em grupo, discute. Eh, cada oficineiro
relata suas dificuldade, suas experiências da oficina. Então, a gente faz
muita troca, assim, de informações (E13).
Portanto, devem repassar os conhecimentos adquiridos durante as
capacitações, tendo em vista a frequência dos oficineiros nas reuniões. No
QUADRO 4 as unidades de registro confirmam essa presença:
QUADRO 4 - Presença dos oficineiros nas reuniões do Programa Fica vivo!
“Eu participo sempre.”
“Eu participo de todas as reuniões.”
“[...] eu participo de todas.”
“Eh, sim, participo”.
“Eu participo sempre”.
“A gente participa”.
“Eu participo”.
“[...] eu participo das reuniões semanais”.
“Participo. Todas. Dificilmente eu falto”.
E1
E2
E3
E4
E6
E9
E11
E12
E13
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
Para Maraschin, Chassot e Gorczevski (2006, p. 294):
O fazer-se oficineiro e a prática da oficina se constituem em uma tensão
entre o fora da oficina: público-alvo, comunidade [...]. Esse “fora”
consiste em agentes perturbadores que levam a diferentes posições e
negociações no grupo, capazes de fazer operar mudanças em seus
modos de atuar. O público das oficinas é uma das principais razões de
existir o trabalho dos oficineiros. O público usual dos oficineiros são
jovens considerados “vulneráveis” ou “em situação de risco”, e as
oficinas são frequentemente vistas [...] como formas de oferecer
alternativas a este jovem, afastando-o das drogas, do crime,
aumentando seu envolvimento com a comunidade, sua autoestima,
estimulando a criatividade, a crítica social.
De acordo com os dados coletados, foram identificados alguns assuntos e
atividades discutidos durantes as reuniões do Programa fica Vivo!. As unidades
de registro relatam essas discussões:
[...] as discussões são: orientação para poder fazer uma intervenção [...]
93
com esses jovens (E1).
[...] passam os informes [...] e a gente sempre apresenta como se fosse
um trabalho mesmo. [...] às vezes, a gente tem reunião com os
parceiros (E2).
São vários temas que eles trazem pra nós. [...] sempre traz algo novo, a
gente faz uma dinâmica (E3).
[...] durante as reuniões a gente trabalha alguns casos específicos de
algum problema que tiver acontecido em algumas das oficinas, e
desenvolvemos, eh, discussões sobre a dinâmica criminal dentro da
nossa região e como as diversas formas de enfrentamento dessa
dinâmica criminal e como a gente pode potencializar os trabalhos da
oficina e do núcleo como um todo (E4).
[...] a gente discute nessas reuniões é um pouco o que o jovem traz pra
gente dentro da oficina, a realidade deles, a gente não vai pra reunião
com uma temática específica, através do que os jovens passa pra nós
oficineiros, a gente coloca na pauta da reunião de oficineiros (E5).
Eh, os assuntos são variados, do ofício do oficineiro, há algumas
demandas institucionais mesmo, do próprio Estado ou do Instituto ELO,
que é hoje quem gerencia o Programa Fica Vivo! [...] demandas de
dentro da comunidade. [...] como nós podemos debater esse assunto.
Para que todos se interajam e consigam ajudar o jovem (E7).
[...] a gente traz essas discussões, reuniões, falando, fazendo avaliação
da oficina, fazendo avaliação do grupo ali. [...]. Entender um pouco o
que tá acontecendo pra tomar as ações de prevenção. [...]. Eh, pensar
também quais ações, que efeito que tá causando (E9).
As discussões, elas acontecem tanto nas questões administrativas de
fluxo de trabalho, tanto nas questões dos acontecimentos que estão
tendo na comunidade. De ações intersetoriais com os oficineiros. [...]
um evento [...] os parceiros que podem auxiliar a gente no trabalho
naquela comunidade. Essa mais na questão geral, nas reuniões gerais.
[...] ações que são feitas em conjunto. [...] nas reuniões individuais, são
aspectos mais individuais mesmo [...] dificuldades. Eh, se tem alguma
demanda de um jovem específico. [...]. Quais são as ações pra um
trabalho mais em conjunto com o CPC (E10).
Eles servem tanto para a troca de experiências, quanto também pra
passar algumas informações decorrentes de possíveis ações na
comunidade e também uma forma de uma orientação técnica, que é
passada através de nossas superiores (E11).
[...] é debate em tudo (E12).
Eh, as reuniões se trabalha temas diversos. Como lidar com esses
jovens que fazem uso de drogas, eh, às vezes vem oficineiro de outro,
com fala, outro bairro, outro núcleo pra poder vir contar suas
experiências. Então, assim, cada semana é um tema diferente, sabe,
que a gente aborda. Eh, eventos que a gente vai realizar com os jovens
(E13).
O QUADRO 5 sintetiza as diversas discussões que são realizadas durante
as reuniões que acontecem tanto para discutir os informes gerais para o
94
desenvolvimento das oficinas quanto para proporcionar momentos de capacitação
para que os oficineiros se tornem mais qualificados no desenvolvimento de suas
atribuições.
QUADRO 5 - Discussões realizadas durante as reuniões realizadas no Programa
Fica Vivo!
DISCUSSÕES DAS REUNIÕES: Assuntos e Atividades trabalhadas
- Informes gerais
- Organizações de eventos desenvolvidos nos CPCs
- Dinâmica criminal / território
- Debates com temas diversificados
- Dinâmicas
- Ações intersetoriais
- Ações de prevenção
- Demandas da comunidade, e principalmente dos jovens
- Avaliação das oficinas
- Assuntos cotidianos dos oficineiros
- Formas de intervenção e/ou encaminhamentos para os jovens que necessitam
- Relatos de ações bem-sucedidas que possam ser repassadas
- Formas de potencializar o trabalho dos oficineiros
- Reuniões com os parceiros
Fonte: dados da pesquisa, 2014.
Destaca-se que diversos temas são abordados nas capacitações e em
consonância com o dia-a-dia das atividades educativas realizadas pelos
oficineiros. Chama, contudo, a atenção para quem atua como oficineiro não ter
recebido qualquer capacitação acerca de como realizar uma oficina.
Ao basear-se nessas capacitações e reuniões realizadas relacionadas ao
desenvolvimento local desse contexto nos quais esses jovens estão inseridos,
Temponi e Machado (2011, p. 562) propõem que o “desenvolvimento local é aqui
entendido como aquele que se organiza e se regula pela base da sociedade e
que vai além dos aspectos econômicos, implicando mudança de foco, por estar
centrado nas pessoas e no seu ambiente”.
2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Programa “Fica Vivo!” apresenta resultados positivos, por meio de um
trabalho voltado para o desenvolvimento pessoal e interpessoal dos jovens, sendo
95
atendidos, em média, mais de 13 mil jovens por ano. As atividades esportivas
realizadas pelos profissionais de Educação Física/oficineiros ressignificam sua
prática educativa, pois se acredita que a transformação se processa pela ação
dos sujeitos, a partir de uma relação de horizontalidade e libertação.
Os profissionais de Educação Física/oficineiros comentam que para os
jovens atendidos pelo Programa “Fica Vivo!” as atividades desenvolvidas nas
oficinas, além de possibilitarem momentos agradáveis que proporcionam
socialização, interação e qualidade de vida, também fazem com que eles vejam
novas alternativas e se acreditem como seres de possibilidades e que podem
fazer escolhas e operar mudanças significativas em suas vidas, mesmo diante
das adversidades. Apesar das particularidades, essas mudanças acontecem,
trazendo resultados positivos para a formação integral desses jovens. O acesso
às diversas questões básicas, que anteriormente era considerado distante, longe
de sua realidade, torna-se oportunidade possível.
A frequência dos jovens nas oficinas gera contato face a face com os
oficineiros, aproximando-os e criando vínculos que, consequentemente, permitem
aos profissionais de Educação Física obter melhores resultados com o seu
trabalho. Infelizmente, em momentos críticos (guerra, homicídio) na comunidade
há redução dessa frequência, fazendo um corte no desenvolvimento pessoal,
social e intersubjetivo dos jovens. Contudo, nesse cenário nebuloso, uma luz se
acende no fundo, quando a infrequência se faz por conta de situações de
crescimento pessoal do jovem: conseguiu emprego ou ser aluno de um curso.
O contato direto dos jovens/jovens e jovens/oficineiros, por meio das
atividades das oficinas, evoca mais entusiasmo, envolvimento e trocas entre eles.
A partir do levantamento e expressão das suas demandas, efetivam-se atividades
que os atendem. Desenvolvem, assim, capacidades necessárias para a solução
de determinada situação de vulnerabilidade.
As mudanças propiciadas pelos profissionais de Educação Física são
significativas, processando-se o desenvolvimento integral dos indivíduos. Agregase, ainda, a melhoria da qualidade de vida ao assumir caráter social com papel
transformador, cujos sujeitos acreditam nas possibilidades de transformação.
Diante dessas mudanças, esses jovens se tornam protagonistas em suas
vidas, sendo mais conscientes dos seus direitos aos acessos básicos, tais como
educação, saúde e lazer, bem como de seus deveres de cidadãos.
96
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101
3 PRODUTO TÉCNICO: CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O
OUTRO!
Ronderson Rodrigues Duarte115
Matilde Meire Miranda Cadete216
RESUMO
Trata-se de produto técnico construído a partir de dissertação de mestrado. O
objetivo foi capacitar os profissionais de Educação Física/oficineiros para a
realização de oficinas de forma efetiva e à promoção do desenvolvimento local.
Para tanto, foi ofertada capacitação por meio de três módulos e ainda uma
cartilha instrucional que pode ser consultada em qualquer tempo e espaço.
Procurou-se, assim, o desenvolvimento de oficinas mais efetivas com vistas à
obtenção de resultados positivos em prol dos jovens em vulnerabilidade social e
promoção do desenvolvimento local.
Palavras-chave: Oficinas. Educação Física. Educação.
ABSTRACT
This technical product was developed based on a Master’s dissertation. The
major goal of this reasearch was to empower the Physical Education/workshop
instructors to manage workshops effectivelly and promotion of local developments.
Therefore, it was offered training through three modules and an instructional
booklet that can be consulted at any time. We aimed on developingf more effective
workshops with a view to achieving positive results for young people in social
vulnerability and promoting local development.
Key words: Workshops. Physical Education. Education
1
2
Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social, Educação e
Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA.
Orientadora e Professora Doutora do Programa de Mestrado Profissional em Gestão Social,
Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA
102
3.1 INTRODUÇÃO
Neste capítulo, descreve-se uma proposta de trabalho com oficinas de
capacitação para os profissionais que as realizam no Programa “Fica Vivo!”, em
específico aqueles graduados em Educação Física. Isso porque os dados da
pesquisa realizada com eles abalizaram a necessidade de se buscar capacitação
no desenvolvimento de oficinas, uma vez que o conteúdo ligado ao esporte e à
técnica para sua execução é de domínio profissional. Junta-se a essa assertiva
expressa pelos sujeitos desta pesquisa o testemunho deste pesquisador, pois
como graduado em Educação Física, afirma-se que faltam conteúdos teóricos
práticos no concernente à realização de oficinas.
Registra-se, portanto, que os profissionais de Educação Física/oficineiros,
em sua trajetória acadêmica, não receberam conhecimentos específicos que os
habilitassem à preparação e execução de oficinas, conforme explicitado por
estudiosos dessa metodologia de atuação (AFONSO, 2010a; BASTOS, 2010;
SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014).
Argumenta-se, assim, a necessidade de transpor essa lacuna na formação
acadêmica e trabalhar conjuntamente com os oficineiros atuais e ativos o
conhecimento que deve sustentar o desenvolvimento das oficinas que,
certamente, agregará ao esporte realizado mais ação reflexão e ação, além, é
óbvio, de resultados mais abrangentes e efetivos.
Outro destaque é que as oficinas, além de possibilitarem a aprendizagem
em grupo, que ultrapassa apenas a aquisição de conteúdos, permitem pensar a
própria experiência de vida e também fazer escolhas conscientes. Inclui-se, nesse
salto de qualidade nas tarefas realizadas, os deveres exigidos para os oficineiros:
criar vínculo entre os jovens e o programa, instituir espaços para discussões e
mediar conflitos entre os jovens, quando se fizerem presentes; gerar discussões
sobre segurança pública, cidadania e direitos humanos; potencializar a autonomia
dos jovens, entre outros valores; elaborar relatórios e listas de presença dos
jovens atendidos nas oficinas e, ainda, fornecer lanche e comprar os materiais
necessários para as oficinas (MINAS GERAIS, 2009).
No Programa “Fica Vivo!” são realizadas diversas atividades, por meio das
quais os jovens vivenciam momentos de socialização, integração social, além de
propiciar melhores níveis de qualidade de vida. As oficinas realizadas no
103
programa objetivam prevenir a criminalidade; promover e/ou facilitar a circulação
dos jovens e os seus acessos aos serviços e aos espaços públicos; garantir aos
jovens o acesso ao esporte, lazer, cultura e formação profissional; possibilitar a
vivência do direito de ir e vir; favorecer a inserção e a participação dos jovens em
novas formas de grupos; trabalhar temas relacionados à cidadania e aos direitos
humanos; possibilitar espaços de discussão e resolução de conflitos e rivalidades
(MINAS GERAIS, 2009).
Percebe-se, portanto, que as oficinas constituem uma das atividades
realizadas pelos oficineiros e que exigem critérios para sua materialidade,
principalmente
quando
se
trata
de
espaços
que
abrigam
jovens
em
vulnerabilidade social. São consideradas estratégia metodológica de ensino que
busca incentivar a cooperação e a participação de todos do grupo no processo de
aprendizagem e transformação proposto pelo Programa “Fica Vivo!”, que por meio
do esporte oferece fatores de exposição e trocas de experiências.
A partir dos pressupostos estabelecidos por Afonso (2010b), oficina é um
trabalho estruturado com grupos, com foco comum, em determinado quadro
social.
Pode-se inferir que no Programa “Fica Vivo!” o foco é reduzir o índice de
homicídios dolosos entre os jovens de 12 a 24 anos. Isso posto, Moreira e
Gonçalves (2014) ponderam que as oficinas educativas têm como estratégia a
formação de sujeitos com pensamentos críticos, por meio de um modelo
participativo. E isso contribui para a redução desse índice de homicídios.
Na concepção de Pichon-Rivière, um grupo com objetivos comuns,
participação criativa e crítica, por meio de relações grupais, apresenta-se como
um instrumento de transformação da realidade (BASTOS, 2010).
Para que aconteça essa formação de sujeitos críticos e participativos, é
primordial que os profissionais sejam qualificados e capacitados para a realização
das oficinas. Sabe-se que a seleção dos oficineiros, conforme a metodologia do
programa, segue os seguintes critérios: de preferência, que seja do próprio
território de abrangência do Centro de Prevenção à Criminalidade; que saiba, com
propriedade, o ofício a ser ofertado aos jovens bem como lidar com eles; que
saiba escutar e dialogar, além de ser hábil no manejo da metodologia que norteia
o programa (MINAS GERAIS, 2009).
104
Diante desse processo dinâmico e flexível das oficinas, é imprescindível o
conhecimento sobre todo o processo grupal e as etapas essenciais para o seu
desenvolvimento eficiente e eficaz.
O trabalho dinâmico e a flexibilidade para realizar as mudanças no
desenvolvimento
do
trabalho
é
fator
extremamente
relevante
para
estabelecimento do vínculo necessário para a efetividade do oficineiro. Bastos
(2010) enfatiza que a internalização do vínculo, que é uma estrutura complexa,
possibilita ao sujeito construir formas de interpretação da realidade.
Portanto, neste capítulo apresenta-se o produto técnico cujo objetivo é
capacitar os profissionais de Educação Física/oficineiros com vistas à realização
de oficinas de forma efetiva e à promoção do desenvolvimento local.
Com isso, propõe-se capacitação e uma cartilha instrucional dividida em
três módulos, que serão detalhadas no próximo capítulo.
4.2 ABORDANDO O PRODUTO TÉCNICO
As oficinas são consideradas uma estratégia metodológica de ensino que
busca incentivar a cooperação e a participação de todos do grupo no processo de
aprendizagem e transformação proposto pelo Programa de Controle de
Homicídios “Fica Vivo!” que, por meio do esporte, oferece fatores de exposição e
experiências.
Afonso (2010b, p. 9) conceitua oficina como:
[...] um trabalho estruturado com grupos, independentemente do número
de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o
grupo se propõe a elaborar, em um contexto social. A elaboração que se
busca na oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas envolve
os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir.
Dessa forma, as oficinas podem ser utilizadas em diferentes contextos e
têm como uma de suas premissas a implicação dos seus participantes em todo o
processo. No Programa “Fica Vivo!”, o âmbito no qual se realizam as oficinas é de
vulnerabilidade social, com jovens vivenciadores de situações de risco, em todas
as dimensões do existir humano. Nesse espaço, é imperativo que aconteçam
trocas dialógicas que permitam aos jovens sair da invisibilidade social, pensar e
construir novas experiências sobre a realidade e a possibilidade de contribuir para
105
o desenvolvimento local. “A oficina pretende realizar um trabalho de elaboração
sobre a inter-relação entre cultura e subjetividade” (AFONSO, 2010a, p. 34).
Spink, Menegon e Medrado (2014) ressaltam o potencial das oficinas em
propor um espaço de trocas, discussão em grupo em relação ao contexto,
gerando novos pontos de vistas construtivos com vista à transformação.
As oficinas educativas têm como estratégias a formação de sujeitos com
pensamentos críticos, por meio de um modelo participativo (MOREIRA;
GONÇALVES, 2014). Esses autores mencionam que:
Trata-se de um método de intervenção que possui uma dimensão
terapêutica, incentivando os sujeitos a terem espaço para a fala e a
escuta, podendo expressar seus sentimentos, possuindo um caráter
pedagógico de troca de informações em que os participantes aprendem
e ensinam uns aos outros (MOREIRA; GONÇALVES, 2014, p. 724).
Para Duarte (2011, p. 115), “a aprendizagem nas oficinas torna-se um
processo dinâmico ao possibilitar mudanças em toda a estrutura e dinâmica do
grupo”. A autora acrescenta que a partir de novas formas de sentir e pensar as
oficinas proporcionam novas reflexões e ampliam os horizontes, sempre pautadas
em uma transformação contínua.
O sujeito estimula processos criativos e críticos por meio da integração e
do seu reconhecimento (AFONSO; VIEIRA-SILVA; ABADE, 2009).
O entendimento da definição de grupo torna-se necessária, pois ele é parte
importante no processo de desenvolvimento das oficinas. Nas oficinas define-se
grupo como “um conjunto de pessoas unidas entre si porque se colocam objetivos
e/ou ideias em comum e se reconhecem interligadas por esses objetivos e/ou
ideias” (AFONSO, 2013, p. 27). Afonso (2010b) também relata que esses grupos
se constituem em uma rede de relações e não um agrupamento de sujeitos sem
interesses em comum.
Bastos (2010, p. 164) preconiza:
Na concepção de Pichon-Rivière, o grupo apresenta-se como
instrumento de transformação da realidade, e seus integrantes passam a
estabelecer relações grupais que vão se constituindo na medida em que
começam a partilhar objetivos comuns, a ter uma participação criativa e
crítica e a poder perceber como interagem e se vinculam.
Durante a formação dos grupos devem-se observar alguns elementos
106
básicos que são relevantes no processo (QUADRO 1).
QUADRO 1 – Elementos básicos no processo de formação dos grupos
1- Demanda em relação ao grupo e o contexto.
2- Objetivos (motivações) do grupo.
3- Identidade ou “sentimento de nós” no grupo em um ambiente de aceitação
mútua, respeitosa e democrática.
4- Organização diante dos objetivos.
5- Os padrões de interação, comunicação e participação estão relacionados com
a capacidade do grupo de enfrentar as dificuldades.
6- Oscilação entre a individualização e grupalização para obter crescimento.
7- Pensar no grupo como um processo.
Fonte: Afonso (2013b).
Após o entendimento de grupo, torna-se pertinente compreender todo o
processo grupal. Schossler e Carlos (2006, p. 166) opinam que o processo grupal
“é uma realidade especifica de transformações, que somente é visível por seus
efeitos, entre eles, a produção de discursos subjetivos e unidades identitárias,
entre as quais a própria noção de grupo”.
Ressaltam-se três fases do processo grupal: a) a formação de sentimento
e identidade de grupo; b) o aparecimento de diferenças e construção de
condições de produtividade do grupo; c) e o final de grupo: elaboração do luto e
avaliação do processo grupal.
A formação de sentimento e identidade de grupo é a primeira fase e iniciase com a identificação dos objetivos, construindo uma coesão entre os
participantes. Isso facilita a formação do sentimento de grupo que estimula a
comunicação e as trocas de experiência. Dessa forma, “a interação é uma ação
social, na medida em que envolve mais de um sujeito, em que a ação de cada um
é dirigida para o outro ou decorrente da ação deste” (BASTOS, 2010, p. 162).
Na segunda fase, destaca-se o aparecimento das diferenças e a
construção de condições de produtividade do grupo, pois cada um tem o desejo
do reconhecimento, sem que seja necessário abrir mão de suas singularidades.
São evidenciados seus pontos de vistas, sendo papel do coordenador enfatizar o
107
que é pertinente, além de incentivar a independência do grupo e fortalecer a rede
de
estabelecimento
de
transferências, e
oferecer
momentos para
que
participantes reflitam sobre o como pensavam antes e como estão pensando após
as oficinas e como tentarão agir, tendo em vista sua nova concepção.
A última fase é o final do grupo, na qual os participantes devem elaborar o
luto e a avaliação do processo grupal. Nessa fase associam-se sentimentos de
satisfação ou insatisfação e ressalta-se a importância de perceber seus
sentimentos e seu crescimento, que serão utilizados para realização desse
processo.
Para Afonso (2010b, p. 49-50), a comunicação e os processos
intersubjetivos na oficina ocorrem porque “existe uma relação entre o campo
grupal e social e porque, no processo de comunicação do grupo, há um constante
trabalho que inter-relaciona linguagem e identidade”
É preciso identificar o que impede a comunicação. Pois, como salienta
Afonso (2010b, p. 51):
A comunicação só se realiza através da interação, o que implica em
buscar determinações de contexto, papéis e expectativas sobre as
subjetividades dos participantes e suas relações, para que possam
refletir sobre as censuras impostas à sua comunicação.
Nesse processo grupal, o trabalho no grupo interliga a linguagem e a
identidade, realçando-se:
[...] a identidade é uma construção. Como construção ela se faz
linguagem. Ou seja, aparece como uma narrativa que fazemos de nós,
isto é, uma forma de contar para nós mesmos e para os outros quem
somos. Finalmente, como narrativa, podemos dizer que a identidade tem
uma dimensão simbólica e uma imaginária; uma consciente e uma
inconsciente (AFONSO, 1997 apud AFONSO, 2010b, p. 53).
Ainda para Afonso (2010b), no processo grupal a progressão acontece a
partir de uma relação dialética. A relação entre o vínculo afetivo e o vínculo social
é essencial no trabalho de oficinas, no processo de expressão, sistematização,
desconstrução e reconstrução de significados do grupo. Destaca-se que é preciso
passar de maneira explícita e implícita pelos outros focos do processo grupal
(QUADRO 2).
108
QUADRO 2 – Focos do processo grupal
1- Sensibilização sobre as experiências dos participantes em seu contexto.
2- Esclarecimento e sistematização dos participantes sobre suas experiências.
3- Elaboração da experiência na medida para mobilizar as narrativas e após
sistematizadas.
4- Desconstrução e reconstrução de representações e identidades sociais.
5- Processos de decisão em relação às relações interpessoais e sociais.
Fonte: Afonso (2010b).
As técnicas utilizadas no desenvolvimento das oficinas devem ser
escolhidas de acordo com as necessidades do grupo e após a avaliação do
profissional, para a aplicação da técnica adequada.
Nas oficinas entende-se que a técnica “favorece a sensibilização, a
expressão e a comunicação, a reorganização das narrativas no campo grupal, a
possibilidade de sistematização e comparação dos pontos de vistas, o trabalho
com conflitos e diferenças” (AFONSO, 2010b, p. 56). Essas técnicas devem ser
adaptadas ao grupo, uma vez que lhe compete ampliar o conhecimento do grupo
e possibilitar novas interações.
O desenvolvimento das oficinas é respaldado pelas seguintes etapas
iniciais: a análise da demanda; a pré-análise do problema de determinado grupo
dentro de um contexto; identificação dos temas-geradores e definição do foco;
enquadre para organização da oficina; e planejamento flexível para a
transformação significativa e contínua (AFONSO, 2010b).
Na FIG. 1 encontram-se descritas as diversas etapas para a construção
das oficinas.
109
FIGURA 1 - Etapas para a construção das oficinas
“TEMAS-
PRÉ-ANÁLISE
DO PROBLEMA
GERADORES”
FOCO
ANÁLISE DA DEMANDA
“ENQUADRE”
PLANEJAMENTO
FLEXÍVEL
Fonte: Afonso (2010b).
Cruz e Abade (2009) afirmam que essas etapas não são rígidas e
sequenciais e a verificação da demanda permeia todo o processo. Essa afirmativa
é de fundamental importância, principalmente para quem trabalha em situações
de vulnerabilidade social, em que a dinâmica criminal pode mudar a qualquer
momento, interferindo diretamente na demanda do desenvolvimento das oficinas.
Nesse processo de construção das oficinas, a análise da demanda:
[...] é um ponto complexo na Psicologia social, pois é conhecido o
processo pelo qual os grupos e indivíduos fazem uma primeira
“encomenda” ao profissional para, em seguida, ir definindo, com maior
ou menor dificuldade, outras demandas implícitas ou inconscientes
(ENRIQUEZ, 1997 apud AFONSO, 2010, p. 31).
A identificação da demanda é primordial para que o profissional de
Educação Física/oficineiro consiga desenvolver seu trabalho nas oficinas e que
seja significativo o suficiente para proporcionar as mudanças almejadas e
atendam às necessidades ditas pelos jovens.
De acordo com Afonso (2010a), o profissional precisa analisar a
necessidade em um contexto sociocultural, considerando elementos sociais,
culturais e subjetivos, visto que a demanda pode estar além dos pedidos
explícitos de determinado grupo e propor um trabalho a partir de uma negociação
com o grupo. “É importante que a análise da demanda esteja articulada com a
110
análise da produção dessa demanda” (ROCHA; DEUSDARÁ, 2010, p. 61).
Na etapa da pré-análise, realiza-se o levantamento de dados e aspectos
importantes da demanda. O coordenador deve inteirar-se do problema, para
discutir, refletir, estudar, coletar dados e informações. Destaca-se que não se
forma um programa fechado, e sim a preparação para execução da oficina
(AFONSO, 2010a).
Na sequência do processo de construção da oficina o foco é o tema geral
da oficina. Os temas-geradores mobilizam os grupos em relação aos seus
conflitos e possibilidades e despertam para mais participação e trocas de
experiências. O enquadre diz respeito à estrutura para o trabalho, desde os
participantes aos recursos disponíveis (AFONSO, 2010a). Isso possibilita o
acesso, participação e interação (CRUZ; ABADE, 2009).
O planejamento deve ser flexível e relacionar-se ao foco e à discussão dos
temas-geradores.
Cada
encontro
pode
proporcionar
mudanças
no
seu
planejamento. É interessante que cada encontro tenha o momento inicial para a
preparação do grupo; um momento intermediário para envolver os participantes e
o último momento de sistematização e avaliação do trabalho realizado (AFONSO,
2010a).
No Programa “Fica Vivo!”, o profissional de Educação Física/oficineiro
assume o papel de coordenador da oficina e atua como facilitador do processo
social, por meio de técnicas de sensibilização, dinamização, comunicação e
reflexão que promova a comunicação, interação, formação de vínculos,
integração e o relacionamento do grupo dentro de um determinado contexto
(CARVALHO; RODRIGUES; MEDRADO, 2005).
Segundo Afonso (2010a, p. 35-36), o coordenador deve sempre recusar a
postura de detentor do saber, assumindo postura de dinamizador e facilitador do
processo grupal. E deve “ser sensível a esta dinâmica, mas restrito quanto à
interpretação, para não levantar conflitos de forma indiscriminada na estrutura
defensiva dos participantes e do grupo”.
3.3 DESCRIÇÃO DETALHADA DO PRODUTO TÉCNICO
Propõe-se uma capacitação e uma cartilha instrucional intituladas:
“Capacitando-se para capacitar o outro”, que tem como tema: o desenvolvimento
111
e as formas de ministrar uma oficina. A capacitação será desenvolvida por meio
de oficinas divididas em três módulos, com duração de três horas cada, de acordo
com o apresentado a seguir:
O módulo 1 apresenta conceitos básicos para se abordar a metodologia
“oficina”, ressaltando os fatores relevantes a serem observados no Programa
“Fica Vivo!”. Também esclarece o conceito de grupo e seus elementos básicos. É
relevante apresentar as fases e os focos do processo grupal. O objetivo primordial
é apresentar e discutir o conceito de oficina, grupo e a compreensão do processo
grupal.
CAPACITANDO-SE PARA CAPACITAR O OUTRO
“Como desenvolver e as formas de ministrar uma oficina?”
Conceitos básicos de oficina e grupo
Módulo 1
EMENTA
Conceitos e elementos básicos de oficinas e grupos. Pontos relevantes a serem
observados. Elementos básicos de um grupo. Fases do processo grupal. Focos
do processo grupal.
OBJETIVOS
Apresentar e discutir o conceito de oficina e grupo.
CONTEÚDO
 O que é uma oficina?
 O que é um grupo?
 Elementos básicos de um grupo
 Fases do processo grupal
 Focos do processo grupal
METODOLOGIA
Exposição dialogada e discussões dialógicas e participativas.
112
RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS
Datashow, revistas e tesouras para recorte e papel craft para montagens.
O módulo 2 objetiva detalhar o processo de construção das oficinas e
esclarecer todas as etapas, evidenciando e elucidando a sua construção.
Ressaltam-se os pontos relevantes a serem observados em cada uma das
etapas.
Construindo a oficina
Módulo 2
EMENTA
Evidenciar e elucidar as etapas para a construção das oficinas. Os pontos
relevantes a serem observados em cada uma das etapas. O como se realiza uma
oficina.
OBJETIVOS
– Discutir o processo de construção das oficinas.
– Esclarecer suas etapas e apresentar os pontos relevantes que devem ser
observados em cada uma das etapas.
– Realizar uma oficina proposta pelo grupo.
CONTEÚDO
 Etapas para construção das oficinas
 Análise da demanda
 Pré-análise do problema
 Foco / enquadre
 Planejamento flexível
METODOLOGIA
Discussões dialógicas e realização de uma oficina.
RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS
Datashow, revistas, pincéis, papel craft, entre outros.
113
No módulo 3 é realizada uma discussão para apresentação de ações
eficazes no Programa “Fica Vivo!”, além da proposição de novas ações que
possam potencializar as mudanças significativas que acometem os jovens.
Ações eficazes e novas propostas de ações no
Programa “Fica Vivo!”
Módulo 3
EMENTA
Ações eficazes no Programa “Fica Vivo!”. Novas ações que potencializem as
mudanças significativas.
OBJETIVOS
Apresentar e discutir as ações eficazes no Programa “Fica Vivo!” e propor
novas ações que potencializem as mudanças significativas em jovens.
CONTEÚDO
 Ações eficazes no Programa “Fica Vivo!”
 Discussão de casos bem-sucedidos
 Novas ações que possam potencializar as mudanças significativas
METODOLOGIA
Oficinas expositivas, dialógicas e participativas.
RECURSOS DIDÁTICOS / MATERIAIS NECESSÁRIOS
A partir de um caso bem-sucedido, realizar uma oficina.
Veicular a oferta da capacitação, recursos materiais e a reprodução do
material serão de responsabilidade da SEDS e do Instituto ELO. O profissional
responsável pela capacitação deverá fornecer cópia do material a ser utilizado
para a reprodução e ministrar a capacitação.
Avaliar a necessidade de se repetir conteúdos e dinâmicas que o grupo
demandar.
114
115
116
117
118
119
120
121
122
123
3.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Espera-se que, por meio dessa capacitação e da cartilha instrucional, os
profissionais de Educação Física/oficineiros sintam-se mais confiantes e com
propriedade
para
assumirem
o
desenvolvimento
de
suas
oficinas
e,
consequentemente, alcancem resultados mais efetivos e propiciem que os jovens
busquem sair da situação de vulnerabilidade social, sintam-se cidadãos de
direitos e deveres, acreditem-se como sujeitos ativos e autônomos para o alcance
e realização de sonhos e tenham, portanto, uma formação integral.
Diante da necessidade de um conhecimento teórico e prático sobre
oficinas, a proposta de intervenção apresentada poderá subsidiar os profissionais
de Educação Física/oficineiros para o desenvolvimento do trabalho de forma
complementar à sua formação. Que vejam e sintam que essa capacitação lhes
municiará com relevantes contribuições que irão potencializar o número de ações
eficientes e eficazes no Programa “Fica Vivo!”.
Sabe-se que apenas essa capacitação proposta em três módulos não se
esgota em si mesma. No dia-a-dia, é preciso alimentar-se de conhecimentos
teóricos e práticos para o exercício comprometido, ético e cidadão da nossa
profissão e nossa atuação como educadores.
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124
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SCHOSSLER, Alexandre Baldasso; CARLOS, Sergio Antonio. Por uma
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SPINK, Mary Jane; MENEGON, Vera Mincoff; MEDRADO, Benedito. Oficinas
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ético-políticas. Psicologia e Sociedade. [online], v. 26, n. 1, p. 32-43, 2014.
125
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente dissertação objetivou analisar a percepção dos profissionais de
Educação Física que atuam como oficineiros sobre a eficácia ou os
desdobramentos
e/ou
resultados
do
Programa
“Fica
Vivo!”,
com
foco
prioritariamente nas atividades desenvolvidas por esses profissionais, tendo em
vista o esporte se constituir em ferramenta para o desenvolvimento local em áreas
de vulnerabilidade social.
Esse tema de pesquisa emergiu, entre outros motivos, por se conhecer a
vivência dos jovens que frequentam esse programa bem como o trabalho dos
oficineiros. Sabe-se que na situação de vulnerabilidade em que se encontram os
jovens do programa “Fica Vivo!”, o nível de acesso deles aos aspectos básicos e
oportunidades sociais é extremamente relevante para seu desenvolvimento
pessoal e interpessoal.
A revisão da literatura confirmou que a falta de acesso à educação, saúde,
moradia, serviços de infraestrutura urbana, segurança alimentar, previdência
social e trabalho é fator que potencializa o estado de vulnerabilidade social que
acomete os jovens em determinadas regiões. Ademais, sabe-se, também, que a
vulnerabilidade social está associada aos direitos civis, sociais e de cidadania. A
literatura mostrou o percurso evolutivo da formação do profissional de Educação
Física, sua atuação atual e nas oficinas e o esporte como veículo agregador de
uma formação integral e para a cidadania. E, obviamente, a educação como
alicerce para a construção das relações sociais, redes de amigos e espaços de
formação do jovem com vistas a um futuro promissor com base em escolhas
éticas, valores e crenças. Não se podia deixar de explicitar que o jovem do
programa, quer esteja vivendo sua adolescência ou juventude, é um ser humano
em formação e que traz incrustadas na sua história de vida situações de risco
social.
A análise dos dados das entrevistas com os profissionais de Educação
Física revelou que estes oferecem suporte e informação para que os jovens
tenham clareza dos seus direitos e deveres como cidadãos a partir do diálogo
franco e da criação de vínculos, obtendo, portanto, significativos resultados com o
126
trabalho nas oficinas, com vistas ao desenvolvimento local, o que gera momentos
de grande satisfação.
O Programa “Fica Vivo!”, por meio de suas oficinas, em um processo
educativo e social possibilita a construção das relações sociais que lhes
acarretam momentos de integração, interação, socialização e cooperação,
intensificando suas relações interpessoais.
Contudo, algumas unidades de registro desvelam a necessidade de
capacitações relacionadas a temas específicos trazidos tanto pelos jovens quanto
pelos oficineiros. Apreende-se do dito e não dito de suas falas que as
capacitações já oferecidas pelo programa conectam-se mais com as políticas
públicas que o campeiam e as técnicas relativas ao esporte, entre outras. Não há
explicação, em qualquer depoimento, de que foram habilitados para a realização
de oficinas. Nessa vertente, torna-se essencial que os profissionais de Educação
Física/oficineiros se apropriem de conhecimentos que os atualizem para o
cumprimento de suas atribuições e, desta maneira, consigam mobilizar, de forma
segura e adequada, o como fazer oficina e, assim, trabalhar os temas trazidos
pelos jovens, em qualquer situação. É a construção coletiva, em que todos são
protagonistas e todos encontram caminhos e alternativas de solução ou, pelo
menos, de ajustamento.
Dessa
forma,
as
capacitações
fornecerão
subsídios
sobre
o
desenvolvimento das oficinas, bem como as formas mais eficientes e eficazes de
desenvolvê-las com vistas - volta-se a frisar - à obtenção de melhores resultados
no seu trabalho no Programa “Fica Vivo!”.
Espera-se que a partir das capacitações o objetivo do programa - que é
prevenir e controlar o número de homicídios dolosos em áreas de vulnerabilidade
social - seja, de fato, alcançado com mais eficácia e efetividade e contribua para o
desenvolvimento integral dos jovens que se inserem nesse contexto.
Tendo em vista a trajetória acadêmica dos profissionais de Educação
Física/oficineiros,
assegura-se
a
relevância
dessa
capacitação
para
o
aprimoramento deles em relação ao desenvolvimento e às formas de ministrar as
oficinas, o que disponibilizará conteúdos básicos sobre oficina e grupo, as etapas
para sua construção, as ações eficazes e a proposição de novas ações que visem
ao desenvolvimento integral dos jovens e contribuam para o desenvolvimento
local.
127
No que diz respeito à cartilha, ela será uma ferramenta de apoio rápido e
de lembranças vivas para os oficineiros. Seus conteúdos são a síntese da
capacitação via módulos/oficinas, mas que traduzem pontos relevantes e de fácil
acesso caso dúvidas aconteçam no início do trabalho com oficinas.
Por fim, registra-se que este trabalho é uma pequena etapa de construção,
de aprendizagem e de mudanças de paradigma, em primeiro lugar para o
pesquisador e, posteriormente, para os oficineiros. Deste estudo, várias
interrogações afloraram e demandam futuras pesquisas no futuro próximo. Tratase de um começo promissor! É preciso muito ainda avançar.
128
REFERÊNCIAS
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processos sociais à inovação da política pública: a experiência do Fica Vivo!
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Homicídios
Fica
Vivo!
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teoria e escutando a prática. Revista da Educação Física/UEM, v. 20, n. 2, p.
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SOUZA, Cléia Renata Teixiera; MÜLLER, Verônica Regina; NATALI, Paula
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do período 1986-2001. 2002. Disponível em: <http://www.crisp.ufmg.br>. Acesso
em 10 nov. 2013.
129
APÊNDICES
APÊNDICE A - ROTEIRO DE ENTREVISTA
O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros com jovens, em áreas de vulnerabilidade social, no
contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”
Nome:
Idade:
Centro:
Oficina:
Nº de alunos beneficiados:
Instituição onde concluiu a graduação:
Ano de conclusão da graduação:
Tempo de atuação no “Fica Vivo!”:
1- O que significa, para você, trabalhar no Programa de Controle de
Homicídios “Fica Vivo!”?
2- Por que você trabalha no Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”?
Está satisfeito? O que lhe agrada e desagrada?
3- Que tipo de atividades você desenvolve com os jovens no Programa de
Controle de Homicídios “Fica Vivo!”? Quais são os objetivos dessas
atividades?
4- Você percebeu mudanças no comportamento, nas atitudes e nas relações
desses jovens no dia-a-dia? Quais?
5- Como percebe a presença dos jovens nas atividades?
6- Vocês recebem algum tipo de capacitação para as atividades propostas?
7- Quais ações você considera eficazes o suficiente para proporcionar
mudanças significativas na vida desses jovens?
8- Quais são as maiores dificuldades que você encontra na realização do seu
trabalho com os jovens?
9- Você participa das reuniões semanais? Que discussões acontecem nessas
reuniões?
10- Gostaria de acrescentar mais alguma informação a respeito de seu trabalho
com os jovens?
130
APÊNDICE B - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Centro Universitário UNA
Título da Pesquisa: O Trabalho de Profissionais de Educação Física que atuam
como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade Social, no Contexto do
Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”
Nome do Pesquisador: Ronderson Rodrigues Duarte
Nome da Orientadora: Dra. Matilde Meire Miranda Cadete
Esclarecimentos sobre a pesquisa:
1. Natureza da Pesquisa: o(a) Sr.(a) (nome do entrevistado) está convidado(a) a
participar desta pesquisa que tem como finalidade analisar o que se faz
necessário para que a intervenção educativa no Programa de Controle de
Homicídios “Fica Vivo!” dos profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros obtenham resultados positivos, tendo em vista o desenvolvimento de
contribuição técnica na área de gestão social voltada para o desenvolvimento
local e com características de inovação social.
2. Participantes da pesquisa: profissionais de Educação Física que atuam como
oficineiros, sejam eles com formação completa ou incompleta no curso de
graduação de Educação Física, que atuam com atividades esportivas no
Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”.
3. Envolvimento na pesquisa: ao participar deste estudo, o(a) Sr.(a) permitirá
que o pesquisador colete dados que ofereçam subsídios para fundamentar a
pesquisa. O(A) Sr.(a) tem liberdade de se recusar a participar e ainda se recusar
a continuar participando em qualquer fase da pesquisa, sem qualquer prejuízo
131
para o(a) Sr.(a). Sempre que quiser pedir mais informações sobre a pesquisa,
pode fazê-lo por meio do telefone do pesquisador do projeto e, se necessário,
pelo telefone do Comitê de Ética em Pesquisa ou da orientadora do projeto.
4. Sobre as entrevistas: você responderá a algumas perguntas e não existe
certo ou errado nas suas respostas, uma vez que o que nos importa é o seu
pensar e fazer no Programa Fica Vivo.
5. Riscos e desconfortos: a participação nesta pesquisa não traz complicações
legais. Pode haver certo constrangimento/desconforto diante de alguma pergunta.
Nesse caso, é de sua livre escolha responder ou não à pergunta, podendo,
inclusive, cancelar sua participação na pesquisa no decorrer da entrevista.
6. Confidencialidade: seu nome será mantido em segredo e todas as
informações coletadas neste estudo são estritamente confidenciais. Somente o
pesquisador e a orientadora terão conhecimento dos dados.
7. Forma de acompanhamento e assistência: caso você queira nos procurar ou
tirar dúvidas após participar desta pesquisa, colocamo-nos à sua inteira
disposição. Pode também telefonar caso queira saber em que momento se
encontra nosso trabalho.
8. Benefícios: ao participar desta pesquisa o(a) Sr.(a) não terá qualquer benefício
direto. Entretanto, esperamos que este estudo possa trazer contribuições
importantes para a construção de conhecimentos acadêmicos a respeito da
temática em questão, na perspectiva da gestão social e inovação, com vistas ao
desenvolvimento local.
9. Pagamento: o(a) Sr.(a) não terá qualquer tipo de despesa para participar desta
pesquisa, bem como nada será pago por sua participação.
Após esses esclarecimentos, solicitamos o seu consentimento de forma livre para
participar desta pesquisa. Portanto preencha, por favor, os itens que se seguem.
Obs.: não assine este termo se ainda tiver dúvidas a respeito.
132
CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Tendo em vista os itens acima apresentados, eu, (nome do profissional), de forma
livre e esclarecida, manifesto meu consentimento para participar da pesquisa.
Declaro que recebi cópia deste termo de consentimento e autorizo a realização da
pesquisa e a divulgação dos dados obtidos neste estudo.
Nome do(a) Participante da Pesquisa
Assinatura do Participante da Pesquisa
Assinatura do Pesquisador
Assinatura da Orientadora
Pesquisador: Ronderson Rodrigues Duarte
Rua xxxxxxxxx – Belo Horizonte-MG, Telefone: (31) xxxx / (31) xxxx
Orientadora: Matilde Meire Miranda Cadete
Telefone: (31) xxxx (31) xxxx
Comitê de Ética em Pesquisa
Rua Guajajaras, 175, 4º andar – Belo Horizont-MG, telefone: (31) xxxx
Contato: [email protected]
133
ANEXOS
ANEXO I - AUTORIZAÇÃO PARA COLETA DE DADOS
Eu, ________________________________________________, ocupante do
cargo
de
_______________________
do(a)
________________________,
AUTORIZO a coleta de dados do projeto: O Trabalho de Profissionais de
Educação Física que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de
Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios
“Fica Vivo!”, realizado pelo pesquisador Ronderson Rodrigues Duarte, sob a
orientação da Professora Dra. Matilde Meire Miranda Cadete, para fins de
pesquisa
do
Mestrado
Profissional
em
Gestão
Social,
Educação
e
Desenvolvimento Local, nas instalações físicas nos Centros de Prevenção à
Criminalidade do Programa de controle de Homicídios “Fica Vivo!” após a
aprovação do referido projeto pelo CEP do Centro Universitário UNA.
Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___.
______________________________________________
ASSINATURA
CARIMBRO
134
ANEXO II - TERMO DE COMPROMISSO DE CUMPRIMENTO DA RESOLUÇÃO
Nº 466/2012
Eu, Ronderson Rodrigues Duarte, RG. MG-10.368.214, CPF 013.626.036-51
responsável pela pesquisa intitulada O Trabalho de Profissionais de Educação
Física
que
atuam
como
oficineiros
com
Jovens,
em
Áreas
de
Vulnerabilidade Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios
“Fica Vivo!” declaro que:

Assumo o compromisso de zelar pela privacidade e pelo sigilo das
informações que serão obtidas e utilizadas para o desenvolvimento da
pesquisa;

Os materiais e as informações obtidas no desenvolvimento deste trabalho
serão utilizados para se atingir o(s) objetivo(s) previsto(s) na pesquisa;

O material e os dados obtidos ao final da pesquisa serão arquivados sob a
nossa responsabilidade;

Os resultados da pesquisa serão tornados públicos em periódicos científicos
e/ou em encontros, quer sejam favoráveis ou não, respeitando-se sempre a
privacidade e os direitos individuais dos sujeitos da pesquisa, não havendo
qualquer acordo restritivo à divulgação;

Assumo o compromisso de suspender a pesquisa imediatamente ao perceber
algum risco ou dano, consequente à mesma, a qualquer um dos sujeitos
participantes, que não tenha sido previsto no termo de consentimento;

O CEP do Centro Universitário UNA será comunicado da suspensão ou do
encerramento da pesquisa, por meio de relatório apresentado anualmente ou
na ocasião da interrupção da pesquisa;

As normas da Resolução 466/96 serão obedecidas em todas as fases da
pesquisa.
Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___.
______________________________________________
Ronderson Rodrigues Duarte
RG: MG- 10.368.214 - CPF: 013.626.036-51
135
ANEXO
III - TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DE IMAGEM E
DEPOIMENTOS
Eu
____________________________,
RG_______________,
depois
de
conhecer
CPF
e
entender
____________,
os
objetivos,
procedimentos metodológicos, riscos e benefícios da pesquisa, bem como de
estar ciente da necessidade do uso de minha imagem e/ou depoimento,
especificados no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE),
AUTORIZO, através do presente termo, ao pesquisador Ronderson Rodrigues
Duarte, sob a orientação da Professora Dra. Matilde Meire Miranda Cadete do
projeto de pesquisa intitulado: O Trabalho de Profissionais de Educação Física
que atuam como oficineiros com Jovens, em Áreas de Vulnerabilidade
Social, no Contexto do Programa de Controle de Homicídios “Fica Vivo!”, a
realizar as fotos e/ou vídeos que se façam necessários e/ou a colher meu
depoimento sem quaisquer ônus financeiros a nenhuma das partes.
Ao mesmo tempo, libero a utilização destas fotos e/ou vídeos (seus respectivos
negativos ou cópias) e/ou depoimentos para fins científicos e de estudos (livros,
artigos, slides e transparências), em favor do pesquisador da pesquisa, acima
especificado, obedecendo ao que está previsto nas Leis que resguardam os
direitos das crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente –
ECA, Lei nº 8.069/1990), dos idosos (Estatuto do Idoso, Lei n° 10.741/2003) e das
pessoas com deficiência (Decreto nº 3.298/1999, alterado pelo Decreto nº
5.296/2004).
Belo Horizonte, ______ de ____________________ de 201___.
________________________________________
Participante da pesquisa
________________________________________
Pesquisador responsável pelo projeto
136
ANEXO IV - PARECER CONSUBSTANCIADO DO CONSELHO DE ÉTICA E
PESQUISA
137
138
139
Download

DUARTE, Ronderson Rodrigues. O TRABALHO DE