A UIVERSIDADE E A ESCOLHA PROFISSIOAL PARA OS JOVES ESTUDATES DE UMA ISTITUIÇÃO ICLUSIVA. Flávia Maria Feroldi Ferreira – (UFMS/Mestrando em Educação) – [email protected] Sonia da Cunha Urt – UFMS/CCHS/DCH/PPGEdu – [email protected] RESUMO Considerando que a escolha profissional faz parte do projeto de vida de uma pessoa e se constrói a partir de um contexto social, econômico e político específico, o presente trabalho analisa dados de um projeto desenvolvido sobre Orientação Profissional. O local em que foi desenvolvido este projeto é uma Instituição Inclusiva voltada para jovens e adultos, que tem o intuito de prepará-los para o processo seletivo nas universidades. As informações contidas neste trabalho trazem as opiniões de jovens a respeito da universidade e da escolha profissional. Este trabalho se fundamenta na Psicologia Histórico-Cultural de Vygotsky e no diálogo com estudiosos que consideram o sujeito se constituindo nas relações sociais. Ao trazer e analisar os dados levantados durante o projeto, este trabalho consistiu em possibilitar uma reflexão a cerca da visão do jovem diante do vestibular, diante do ato de estudar e diante da escolha por uma profissão através do Ensino Superior. Palavras-chave: Escolha Profissional; Jovem; Universidade. 2 O trabalho apresentado traz um diálogo acerca de atividades desenvolvidas no Projeto de Orientação Profissional em uma Instituição Inclusiva. Tal Instituição atende cerca de 150 alunos com idade entre 17 e 40 anos que já concluíram o Ensino Médio. A proposta desta Instituição é de inclusão, voltada para jovens e adultos carentes, em especial os provenientes das minorias sociais como afro-descendentes, índios e portadores de necessidades especiais. Seu objetivo é exclusivamente o ingresso na Universidade. O projeto contou com a participação de aproximadamente 20 alunos. Os procedimentos iniciais foram: 1-Divulgação do projeto; 2- Inscrição dos interessados (70 inscrições); 3- Termo de Consentimento para participação no projeto devidamente assinado pelos responsáveis e pelos alunos; 5- Início dos encontros. O objetivo principal do Projeto de Orientação Profissional foi proporcionar uma reflexão acerca da escolha profissional, considerando os determinantes histórico-sociais, auxiliando os alunos na obtenção de uma visão crítica em relação às questões atuais do mundo do trabalho, da profissão e da escolha. Para a organização e desenvolvimento deste trabalho partimos das idéias da abordagem da Psicologia Histórico-Cultural, que considera a importância dos fatores sociais, econômicos e culturais na constituição do sujeito, imprimindo-lhe uma visão e leitura crítica da sociedade em que vive. Além de contribuir para incorporar novos aspectos (determinações) à reflexão que os orientandos fazem com a finalidade de escolher a profissão, ajuda na eliminação de preconceitos, superando análises superficiais e restritivas, possibilitando, enfim, uma leitura mais complexa e completa da realidade na qual estão imersos. (BOCK, 2002 p. 177). Tal perspectiva, fundamentada nos estudos de Vigotski1, tem como questão central a aquisição de experiências pela interação do sujeito com o meio; a constituição desse sujeito nas relações sociais que estabelece, na troca com outros sujeitos e consigo próprio. Assim se processa a internalização de conhecimentos, papéis e funções sociais, mediadas pelos símbolos, sobretudo pela linguagem. Segundo Oliveira (1993) Vigotski construiu sua teoria tomando por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento, considerando o jovem como parceiro social, com uma outra visão deste no momento de escolha. 1 Não há consenso na grafia do sobrenome de Lev Semyonovitch Vygotsky. Neste trabalho, opta-se pela grafia com dois “is”, preservando-se a grafia empregada pelos diferentes autores e editores nas citações. 3 [...] o jovem não é algo “por natureza”. Como parceiro social, está ali, com suas características, que são interpretadas nessas relações; tem, então, um modelo para sua construção pessoal. Construídas as significações sociais, os jovens têm então a referência para a construção de sua identidade e os elementos para a conversão do social em individual. (AGUIAR; BOCK; OZELLA apud OZELLA,2003, p.9, grifo do autor) Partindo desta concepção de jovem o projeto se desenvolveu a partir de encontros na própria Instituição, semanalmente, com uma hora de duração. As tarefas foram desenvolvidas pelos alunos do 5º ano de Psicologia, supervisionados pela mestranda em Educação Flávia Maria F.Ferreira e sob a orientação da Profª Dr.ª Sônia C. Urt nas seguintes atividades: aquecimento e relaxamento, aplicação e discussão de dinâmicas, de textos, de músicas e poemas, sempre encerrando com um fechamento do tema trabalhado em cada encontro. Diante da proposta de uma Orientação Profissional que colocasse em discussão os determinantes para uma escolha bem ancorada, foram propostos momentos que denominamos Eixos Temáticos, sendo esses: Auto-conhecimento; Escolhas; Trabalho e Profissões. Dentre as atividades desenvolvidas em cada eixo, foram selecionadas duas atividades pela representatividade da proposta do projeto e da riqueza de informações fornecidas pelos participantes. Considerando ainda a relevância das discussões acerca dos dados levantados sobre o ato de estudar, a universidade e sobre a escolha de uma profissão para jovens estudantes de uma Instituição Inclusiva. As atividades selecionadas fazem parte do Eixo Temático “Escolhas”, têm como título: “Eu, o Mundo e minhas Escolhas” e “Fazendo Escolhas”. A atividade “Eu, o Mundo e minhas Escolhas” propôs aos alunos um questionário contendo 10 frases, sendo essas incompletas, e o exercício feito pelos alunos era de completá-las, e em seguida apresentar para o grupo as respostas, promovendo discussões. As frases foram: 1- Eu sempre gostei de... 7- Não consigo me ver fazendo... 2- Meus pais gostariam que eu... 8- Quando penso na Universidade eu... 3- Imagino-me no futuro fazendo... 9- Para escolher minha profissão, levo em 4- Quando criança queria ser... consideração... 5- Meus professores pensam que eu... 10- No mundo em vivemos, vale mais a 6- Se não estivesse estudando eu estaria... pena... Categorizando as respostas por cada frase, os temas que surgiram foram: Frase 1: Eu sempre gostei de... Família, amigos 5 4 Estudo Lazer (assistir tv, dormir, ficar em casa) Frase 1: Eu sempre gostei de... Frase 3: “Imagino-me no futuro...” Frase 4: “Quando criança queria ser...” 5 5 Atividades Culturais (música e dança) 4 Trabalho 1 Total de respostas 20 Estudasse Tivesse uma profissão Fosse bem sucedido Fizesse o que gostasse Trabalhasse Sem resposta Total de respostas Realizado pessoalmente no que gosto 9 4 3 2 1 1 20 7 Cursando a Universidade 6 Conquistado sucesso profissional após a Universidade 6 Sem resposta 1 Total de respostas 20 Professor 5 Veterinário 3 Médico 3 Advogado 2 Policial 2 Dançarino 1 Jogador de futebol 1 Motorista de ônibus 1 Modelo 1 Psicólogo 1 Total de respostas 20 Tenho futuro (universidade, profissão) Frase 5: “Meus professores pensam que eu...” Sou estudioso 10 4 Sou persistente 3 Sou tímido 1 5 Sou comunicativo 1 Sem resposta 1 Total de respostas 20 Trabalhando 12 Sem atividade 6 Procurando emprego 1 Sem resposta 1 Total de respostas 20 Coisas que não gosto 6 Exatas (matemática, física, química) 4 Medicina 3 Humanas (direito, jornalismo) 2 Algo errado 2 Nada 2 Agropecuária 1 Total de respostas 20 Realização pessoal 11 Realização profissional 3 Medo 3 Projeto para o futuro 3 Total de respostas 20 O que gosto 12 Mercado de trabalho 4 Frase 9: “Para escolher minha profissão, levo Remuneração 1 em consideração...” Sem reposta 2 O bem estar social 1 Total de respostas 20 Felicidade 10 Respeito 2 Honestidade 2 Estudo 2 Sucesso profissional 2 Frase 6: “Se não estivesse estudando eu estaria... Frase 7: “ão consigo me ver fazendo...” Frase 8: “Quando penso na Universidade...” Frase 10: “o mundo em que vivemos, vale mais a pena...” 6 Amor 1 Ajudar as pessoas 1 Total de respostas 20 Analisando as respostas, percebe-se a importância dada pelos alunos aos estudos. A idealização de sucesso, realização pessoal e profissional através de uma universidade. Nas frases 2, 3 e 4, que tratam sobre o que gostaria de ser, o que os pais gostariam que o filho fosse e ainda sobre os sonhos de criança quanto a profissão e o futuro, cursar uma universidade vem sempre em primeiro lugar, mostrando a ênfase dada pelos pais sobre o estudo e ter uma profissão. As profissões, as quais se referem os alunos e os pais, são aquelas alcançadas através do curso superior, uma vez que aparecem nas respostas das frases 3, e 4, sendo a mais citada na frase 3 - universidade, e na frase 4 as mais citadas remetem a profissões de curso superior. Outra questão interessante que fica em evidência neste questionário são as influências nas escolhas, nas frases 7 e 9, os alunos disseram que não conseguem se ver fazendo algo que não gosta e que para fazer sua escolha profissional o mais importante é escolher aquilo que gosta. Tal opinião dividiu espaço com a questão do sucesso profissional e estabilidade econômica, em que a segunda frase mais citada sobre a escolha profissional foi o mercado de trabalho, indicando a preocupação destes com a situação da profissão escolhida diante da economia e das possibilidades que o país possa oferecer. Essa questão tomou mais força quando depois de respondido todo o questionário e lidas as respostas para o grupo, a discussão centrou-se em o que as pessoas costumam considerar mais no momento da escolha: o aspecto econômico, social ou pessoal. Assim as opiniões foram: Pessoal e/ou social 11 Econômico 7 Indecisão 2 Total 20 A outra atividade selecionada foi “Fazendo Escolhas”, que consistiu em trazer três situações nas quais os alunos divididos em pequenos grupos, deveriam tentar solucionar o problema, trazendo suas opiniões e debatendo-as com os grupos restantes. As situações foram: 7 Questão 1: Otávio trabalha em uma empresa de publicidade, tem uma ótima posição dentro desta e seu salário é muito bom, mas seu sonho sempre foi fazer psicologia. No semestre passado ele prestou vestibular em Psicologia e passou em duas universidades, uma privada e a outra pública. Na universidade pública o curso é integral, o que o obrigaria a deixar seu emprego, no entanto, na universidade privada o curso é somente um período, e com seu salário na empresa de publicidade ele poderia pagar a mensalidade e ainda lhe sobraria um pouco de dinheiro. Discussão do grupo: Os alunos chegaram à conclusão de que Otávio deveria optar por deixar o emprego e cursar psicologia na universidade pública, pois nesta, ele vai ter que estudar muito e não vai lhe restar tempo para trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Além de que publicidade não tem nada a ver com Psicologia, ele pode estar no emprego só pelo dinheiro e pode ser que nem goste deste. Uma aluna do grupo discordou do restante, argumentando que Otávio deveria cursar Psicologia na universidade particular e continuar com o emprego, pois “se fosse um empreguinho como caixa de supermercado, até poderia largar, mas como lutou para estar naquele emprego e ganhar bem, deve permanecer nele”. Questão 2: Fernando gostaria de cursar filosofia, mas seus pais o incentivam a optar por engenharia, afirmando que tal curso oferece uma maior possibilidade de atuação no mercado de trabalho. Discussão: Os alunos deste grupo chegaram à conclusão de que Fernando deve cursar filosofia, pois compensa muito mais fazer algo que goste. Tem muita gente que tem muito dinheiro e é infeliz, mas também tem muita gente que tem pouco dinheiro e é feliz. As pessoas se desenvolvem por suas próprias escolhas, logo temos que fazer o que gostamos e desejamos e não o que os outros desejam. Uma aluna disse que quando fazemos algo que gostamos, e sendo bom no que se propõe a fazer, pode-se ganhar dinheiro. Questão 3: Luciana está no quarto ano de medicina e pretende se especializar em pediatria. Na última semana surgiu a oportunidade de dois estágios, sendo um com remuneração e o outro sem remuneração, podendo optar somente por um. O primeiro é na área de obstetrícia com remuneração, já o segundo é na área que ela pretende se especializar, porém não é remunerado. 8 Discussão: Os alunos deste grupo foram unânimes em dizer que Luciana deveria optar por fazer o estágio na área em que deseja se especializar, ou seja, optar pelo estágio não remunerado, pois dessa forma ela poderá descobrir se a pediatria é realmente a área em que deseja se especializar. COSIDERAÇÕES FIAIS Pode-se observar diante do questionário e das discussões que para os alunos o mais importante é fazer aquilo que deseja, ou seja, realizar os sonhos. Mesmo quando questionados sobre os problemas econômicos que podem surgir, permaneceram firmes, pois ao fazerem o que gostam a probabilidade de se obter sucesso é muito maior, e consequentemente obter retorno financeiro. Diante dessas informações verificamos que estudar, cursar uma universidade é para esses jovens a forma de se atingir sucesso profissional e, sobretudo, pessoal. Em todos os momentos do projeto as questões sobre a importância do estudo e optar por aquilo que gosta sempre ficou em foco, gerando muita discussão e mostrando ao longo dos encontros a maturação das idéias, e a consciência da realidade do país tanto em relação às profissões existentes quanto à situação econômica individual e nacional. Cabe ressaltar o local e a população com que trabalhamos, jovens carentes, provenientes das minorias, dentro de uma Instituição totalmente gratuita, que incentiva a educação e a inclusão social, contribuindo com a formação do pensamento crítico. Assim, verifica-se o valor adquirido pela universidade e pela educação superior, sendo essas, segundo tais jovens, o caminho para atingir seus objetivos pessoais e profissionais, combatendo a exclusão social, partilhando tais idéias com os ideais da instituição. REFERÊCIA BIBLIOGRÁFICA BOCK, S. D. Orientação Professional: a abordagem sócio-histórica. 2ª. Edição. São Paulo: Cortez, 2002. OLIVEIRA, M. K. Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento Sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1993. OZELLA, S. (org.). Adolescências Construídas: a visão da Psicologia Sócio-Histórica. São Paulo: Cortez, 2003.