Envelhescência: do social ao intrapsíquico Flávia Maria de Paula Soares A velhice e a envelhescência A velhice pode ser definida – enquanto objeto e circunstância psíquica – como um desencontro entre o inconsciente atemporal e o corpo, âmbito da temporalidade ou, por um encontro da alma sem idade com o corpo que envelhece (Berlinck, 2000). Esse encontro-desencontro constitui uma discrepância com efeitos traumáticos cuja complexidade situa-se no arranjo entre o corpo, a subjetividade e o social, justamente na intersecção desses campos, aprisionando o sujeito por seu corpo, sua estrutura psíquica e por seu lugar no social que é assimilado e atuado pelo velho. Essa crise traumática exige um trabalho psíquico: a envelhescência. A envelhescência, termo cunhado por Berlinck (2000), é Puro reconhecimento deste estranho encontro que adquire um efeito de significante. A envelhescência é um significante como o ato falho, o sonho ou o dito espirituoso. Talvez seja até mais do que isso, pois supõe necessariamente um trabalho do eu, enquanto o sonho, o ato falho, o dito espirituoso, podem se resumir num sintoma que se repete interminavelmente sem produzir jamais um efeito de subjetivação, a envelhescência é um ato de subjetivação! Ela é o trabalho psíquico de recriar a vivência da velhice, tornando-a uma experiência enriquecedora da subjetividade. A envelhescência está além do processo de envelhecimento, pois se a velhice é um fato universal estabelecido por um dado biológico elementar, ela é vivida por cada um de maneira particular. Ao ser considerada como um significante pode circular por significações diversas e consequentemente estabelecer diferentes saídas psíquicas do sujeito da velhice. Caroline, Irina, Ivone... Algumas histórias: três saídas psíquicas diferenciadas diante da velhice em que nos deteremos na relação do sujeito da velhice e modos de relação com o Outro - representante do social, reproduzido em transferência -, que possibilitam a envelhescência, sua tentativa de realização, ou seu fracasso manifestado por psicopatologias de efeitos mórbidos. Caroline é um caso descrito por Settlage (1997) de um processo de análise de uma senhora poeta e escritora que se inicia quando ela tem 94 anos durando aproximadamente três meses. Nessa ocasião, solicita análise ao psicanalista por ele ser alguém de suas relações próximas. Sente-se confusa, desorientada experimentando uma forte tontura e medo de cair. Seu marido havia falecido havia poucos meses e seus sintomas começaram aproximadamente três semanas após sua morte. Caroline sentia-se culpada por ter desejado que a doença do marido terminasse logo. Ela não se permitia manifestações de raiva e à medida que se esclarecia a pertinência de viver tal afeto, os sintomas desapareceram. Ela produz, no ano seguinte, cerca de quarenta poesias em um evidente trabalho de luto. Após cinco anos reinicia o processo de análise que durou até a sua morte aos 104 anos. Sentia palpitações graves e intermitentes sem alteração orgânica. Esses cinco anos a deixaram fisicamente mais debilitada mas permanecia lúcida. Caroline associa essas palpitações com sua preocupação com a morte, com o medo de seu desaparecimento. A temática de sua análise gira em torno de sua raiva e de seu desejo de intimidade frustrado durante toda a sua vida e, no percurso da análise emergem na transferência. A manifestação de raiva era vivenciada por ela como um risco de rompimento de uma relação amorosa. À medida que a análise prosseguia e portanto ocorria a resolução de conflitos, Caroline percebeu que a expressão de raiva tinha maior possibilidade de ajudá-la a manter relações de que destruí-las. O tema a propósito de seu desejo de intimidade frustrado durante a vida se atualiza manifestando-se por afetos eróticos na relação transferencial com o analista. Ela pede garantias a ele da continuidade de sua análise, sugerindo que ele controle os efeitos do amor de transferência, pedido que ele consegue sustentar. Os sintomas cessam e sua análise continua até a sua morte. Irina, uma senhora russa de 86 anos foi atendida por mim em uma instituição asilar. Foi internada por causa de dores na coluna e em evidente estado de descuido corporal. Tinha sido ginasta na juventude e casou-se com seu treinador. Na época de seu internamento ele estava em cadeira de rodas e ficou em casa. Ela sofria quedas e ele não tinha como ajudá-la. Não tinham um bom relacionamento, ele pouco a visitava pois dizia sofrer de velhice. Logo que a conheci, propus que tivéssemos um espaço para conversarmos nos dias em que eu estaria na instituição. Ela aceitou prontamente, e passamos a tem nossas “palestras”. Ela se dirigia a mim como “minha menininha” ou “minha pequena querida”, formas carinhosas no diminutivo, peculiares do idioma russo. Irina é uma sobrevivente da revolução russa que após a morte de seu pai foge com sua mãe e irmãos para a China. Ela fala quatro idiomas: inglês, chinês, português e russo, a sua língua materna. O início de seu internamento é sentido como uma possibilidade de descanso e de ser cuidada de suas dores, mas logo em seguida foi vivenciado como restrição de sua liberdade, sofrendo com as regras da instituição. Paralelamente surge uma construção delirante com uma temática persecutória em relação a perseguições ao seu marido. Eu a ouvia e ela descrevia as nossas palestras à moda de Freud e Breuer, como uma “limpeza de cabeça”, através da qual se sentia aliviada. Passava a falar em russo, expressando-se fluentemente. Às vezes eu lhe pontuava isto, e, em outras, apenas a escutava, já que se tratava de uma língua verdadeiramente estrangeira para mim, compreendendo, no entanto, a função estruturante do seu falar em transferência, quando a minha função se resumia em uma presença de escuta, de um olhar, de um rosto ao qual ela pudesse se dirigir, e não propriamente na significação de seu texto oral. Enfim, percebia a necessidade da existência de alguém que lhe desse a consistência da presença do humano como interlocutor, alguém que lhe desse suporte para construir um trabalho psíquico. Conversávamos por várias horas- era necessário que assim o fosse – para que o discurso ora delirante paranóico, ora metonímico se compusesse a partir de resgates de sua história e desse lugar tanto a um discurso organizado até a reorganização de sua postura corporal e vitalidade. O estilo de Irina era muito particular. Ela demonstrava um movimento ativo na direção de manter seus investimentos objetais. Ela também, como Caroline, construiu laços eróticos, não correspondidos, com um senhor da instituição, e na ocasião da minha saída ela estabelece transferência com a outra psicóloga e, alternado momentos de delírios e lucidez continua mantendo um laço possível uma interlocução, tentando realizar, por uma saída psicopatológica a envelhescência. Ivone, uma senhora de origem polonesa de 76 anos, chegou à instituição para ficar até se recuperar da queda que a fez quebrar o osso da bacia e inviabilizava sua permanência em casa, pois estava dependente. Ela chega à instituição muito confusa, agressiva e persecutória. Após a medicação psiquiátrica mostra-se uma mulher carinhosa e atenciosa o que possibilitou a reorganização de suas relações. Tem uma história de vida árida, com muitas perdas de laços de forma violenta, assassinatos e abandonos. Após um curto período de tempo na instituição, Ivone começa a pedir para voltar para casa. Não queria mais ficar ali. Iniciou uma greve de fome que só cessou após um acordo entre ela e a família testemunhado por mim, de que logo que ficasse boa – começasse a andar – voltaria para casa. Em um mês Ivone estava independente, participando das refeições no refeitório, bem humorada e com apetite. A família, passou a se ausentar, e eu lhes telefonava sugerindo sua visita e tentando reiterar a promessa que fora feita a Ivone. A família se recusa a levá-la para casa alegando falta de condições para cuidar dela. Na constatação do abandono, e da recusa da família em cumprir sua promessa, no período de aproximadamente 10 dias, Ivone passou de seu bom humor e recuperação para vômitos, sonolência e dores nas pernas. Dizia sentir-se muito sozinha. Disse-me que não tinha vontade de falar e eu apenas ficava ao seu lado. Após quatro dias estava apática, muda, com o olhar esvaziado e anoréxica. Pediu ao médico para ir para casa mas por seu estado físico que se tornara debilitado foi para um hospital geral onde morreu. Como compreender o percurso e saída psíquica de cada uma? O que possibilitou Caroline realizar a envelhescência, Irina tentá-la e consegui-la parcialmente por meio de uma psicopatologia e o insucesso de Ivone? Algumas considerações sobre a clínica permitem constatar que o trabalho psíquico só terá eficácia simbólica, ou seja, só terá função organizadora de sustentação psíquica se corroborada pelo social, ao se enlaçar a modalidades socializadas de gozo. Uma das condições necessárias para a realização da envelhescência é a relação do idoso com o social em diferentes níveis: desde a sua pertença (filiação) ao social mais amplo – Outro -, passando pela manutenção da continuidade dos laços libidinais com o outro pela transferência, até a permanência abstrata do interlocutor íntimo (Fédida, 2002). A subjetividade é sustentada pelo enlaçamento ao social, pela continuidade das atividades, quando o sujeito mantém seu lugar na família e no social – por meio, por exemplo do trabalho – ou pela via psicopatológica em que pelos sintomas o sujeito tenta resgatar o laço com o outro que mais do que um semelhante, é um representante do Outro. Segundo Bianchi (1989) o efeito estruturante da crise edípica é que um laço pode se transformar, e um objeto pode ser substituído por outro e mais outro. Há, nesse percurso, a relativização do enlaçamento próprio da vida adulta, que se estabelece por estilos particulares em cada sujeito, mas que remontam as relações àqueles objetos primeiros. A possibilidade de substituir os objetos de investimento é uma condição indispensável para poder enfrentar a vida, e quando isso não se mostra possível, pode haver uma tragédia psíquica. Em termos econômicos, a dimensão dos laços se dirige à possibilidade de investimento e substituições de objeto. O imperativo de enlaçamento não parece diminuir com o decorrer do tempo, já que é uma exigência pulsional, mas é necessário que haja objetos a serem investidos.(...) A manutenção de uma subjetividade está no exercício dos investimentos libidinais que dependem dos enlaçamentos ao objeto, suas possibilidades de substituição ou de fixação. Caroline além de buscar o enlaçamento com o analista, escolhe o seu interlocutor, ressaltando a importância de sua familiaridade. Esse laço se estabelece como amor de transferência, apontando com toda a clareza a erotização da relação entre o analista e a analisanda. Esse caráter erótico de investimento ocorre também com Irina ao tentar fazer laço com o senhor da instituição. Ela substitui os objetos, tornando-os privilegiados ou seja, tornando-os objetos psíquicos. É notável a sua capacidade de substituição dos laços, dos investimentos que tenta sempre renovar, investindo erotismo em suas relações, na busca da manutenção do interlocutor interno. O lugar na transferência que Caroline destina ao lugar dado ao psicanalista assemelha-se ao lugar destinado a mim por Irina, pois eu fazia parte de sua subjetividade tornando-me, em alguns momentos, a sua única saída em pedidos desesperados de presença constante em que eu me tornava abandonadora. Com Ivone eu fiquei como espectadora assistindo impotente o desfecho mortal. Para Ivone os únicos objetos significativos eram os familiares com uma impossibilidade de substituição dos objetos perdidos. Ao contrário, atua uma saída psíquica depressivo-melancólica. Diante da fragilidade psíquica dada pela vivência de desamparo e abandono e o corpo já enfraquecido pelo processo de envelhecimento, Ivone perde sua condição defensiva e chega ao limite da morte. O declínio biológico é motivado pelo desenlaçamento aos objetos significativos e eu, impotente, assisti ao triste fim de Ivone. O objeto presente no exterior tem como seu correspondente um interlocutor íntimo (Fédida,, 2002.), que configura o Outro abstraído, com quem se dialoga no exercício de realização do trabalho psíquico, pois está sustentado internamente numa certa consistência do objeto. Observa-se, na velhice, diferentes graus de rupturas dolorosas e de perdas de objetos de interlocução externa. Entretanto, parece se demonstrar uma fragilidade da abstração do Outro na velhice. A consistência do Outro, na velhice, precisa ser suportada por um outro concreto, de carne e osso, para sustentar a transferência e simultaneamente o interlocutor interno, que tem sua abstração dificultada. As relações com o semelhante não se restringem a uma relação direta, dual e recíproca, mas é atravessada pelo campo terceiro, inconsciente, organizador das relações inter-subjetivas e intrapsíquicas. Quando há o atravessamento do simbólico na relação dual, o imaginário está a serviço do simbólico e há possibilidade de envelhescência. (Soares, 2004) Trauma, reconstrução da história e capacidade de sonhar O trauma pode propiciar uma saída subjetivante se for elaborado, mas pode também colocar o sujeito em risco em relação à sua vida psíquica, desencadeando um estado de desamparo no qual o sujeito, ao ficar sem imunidade psíquica, é aniquilado. A noção de insuficiência imunológica psíquica, proposta por Berlinck (2000) está diretamente associada ao trauma. Ela implica um impacto traumático vivenciado pelo ego/sujeito e seus efeitos destruidores, quando o sujeito não conta com recursos defensivos para lidar com os ataques vindos tanto do interior, como do exterior. O aparelho psíquico considerado corpo e vida subjetiva, é o território a ser defendido daquilo que o ameaça. Se a transferência é o veículo para o processo de envelhescência se efetivar, a reconstrução da história é referência da existência do sujeito pois afirma a existência de uma vida. A história, sua revisão e reconstrução possuem função organizadora da subjetividade porque possibilitam o reaparecimento dos suportes referenciais para o que já havia sido conquistado pelo sujeito durante a vida e que se empobreceram na velhice. Caroline e seu analista constatam a função de reconhecimento, no simbólico, da problemática psíquica que é corroborada pelo desvanecimento dos sintomas após terem sido transformados em palavra – em transferência. A reconstrução da história é por Caroline recriada em poesia, transformada em capacidade de sonhar. Para Irina, as manifestações psicopatológicas tais como delírios e confusões mentais tinham função de tentativa de envelhescência, buscando ativamente construir fragmentos de história, e não uma desorganização mórbida. A envelhescência é dificultada pelo ambiente, normas e pouca circulação de libido na instituição. A história árida de Ivone, marcada por rupturas dolorosas, é atualizada no abandono da família nuclear. O seu esvaziamento discursivo revelou a pobreza de seu recurso simbólico que não circulou por meio das palavras e não encontrou acesso transferencial culminando no fracasso da envelhescência. A psicopatologia – depressão – adquire caráter mórbido desorganizador do psiquismo. Ela não encontrou acesso ao sonho, não encontrou possibilidade de substituir objetos significativos o que retira sua possibilidade de defesa psíquica e entrega à morte. Para concluir, a complexidade da clínica com idosos consiste na sobredeterminação que o campo social adquire na saídas psíquicas dos idosos sobre os aspectos psicológicos e biológicos. A necessidade na velhice de um interlocutor “de carne e osso” para a realização da envelhescência destaca a função de sustentação psíquica simbólica graças ao seu testemunho que confere juízo de existência à história avalizando que de fato há vida. A história é o elo entre o sujeito, sua realidade psíquica e o Outro – campo do social. A circulação da palavra propicia a mobilidade psíquica que, em transferência, por meio dos laços sociais implicam o sujeito em suas reconstruções, em sua história e em seus sintomas. Se a construção da história em psicanálise possui função simbolizadora, e portanto ganha estatuto de trabalho psíquico, é porque na relação dual do velho com o outro semelhante, por onde se veicula a “contagem” da história, atravessa um outro campo, simbólico, garantindo a sustentação simbólica intrapsíquica do sujeito. Referências bibliográficas BERLINCK, Manoel Tosta. Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Escuta, 2000. BIANCHI, Henri. La question psychanalytiques. Paris: Bordas,1989. du vieillissement: perspectives FÉDIDA, Pierre . Dos benefícios da depressão: elogio da psicoterapia. São Paulo: Escuta, 2002. SOARES, Flávia Maria de Paula. Envelhescência e pathos: o lugar simbólico das psicopatologias na velhice. Dissertação de mestrado. São Paulo: PUC-SP, 2004. SETTLAGE, Calvin F. Transcendendo a velhice: criatividade, desenvolvimento e psicanálise na vida de uma centenária. Boletim de Novidades da livraria Pulsional Centro de Psicanálise. São Paulo, ano X – n. 101, p. 56-74, set. 1997.