A Prática da Agricultura em Espaços Urbanos: A Ação do CEPAGRO em Comunidades Periféricas de Florianópolis-SC1 Morgana Celina Alves Graduanda do curso de Geografia - Universidade Federal de Santa Catarina Walquiria Krüger Corrêa Professora do Departamento de Geociências - Universidade Federal de Santa Catarina Resumo: A agricultura urbana (AU) é uma atividade importante para moradores de comunidades periféricas, muitos destes oriundos de áreas rurais. A AU pode ser praticada em espaços domésticos, terrenos baldios ou áreas públicas. Em Florianópolis este trabalho é executado pela ONG CEPAGRO (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo), em bairros do sul da Ilha e do continente. Com esse estudo, busca-se compreender a relação entre os processos de modernização agrícola e de urbanização no Brasil, bem como, os fatores que movem a difusão da agricultura urbana, analisando sua importância para as comunidades periféricas de Florianópolis-SC. Os procedimentos metodológicos pautaram-se em pesquisa de gabinete em materiais bibliográficos que abordam a temática. A criação de hortas comunitárias e quintais domiciliares em comunidades de baixa renda traz benefícios sociais e ambientais e melhora a alimentação dos participantes, podendo também ser uma alternativa de renda. A AU pode contribuir para resgatar a cultura e a identidade do grupo que a pratica, promovendo o desenvolvimento local e a valorização das comunidades periféricas urbanas, requerendo para isso maior apoio de políticas públicas. 1 As reflexões aqui apresentadas foram adaptadas do Relatório Final do Projeto de Pesquisa da Bolsa Permanência - Agricultura Urbana-, realizado junto ao Departamento de Geociências/UFSC e ao CEPAGRO/UFSC. 'Olhares sobre o processo investigativo' Palavras – Chave: Crescimento das Cidades, Comunidades Periféricas, Agricultura Urbana, Florianópolis-SC. Introdução: Nas últimas décadas, ocorreram notáveis transformações no espaço urbano e periurbano das grandes cidades, expondo áreas antes predominantemente agrícolas ao impacto da urbanização. Num mundo cingido pela urbanização, o crescimento populacional das cidades superou largamente o da população rural, sendo alimentado em grande medida pelo êxodo rural. Neste contexto, surgem novas demandas e necessidades relacionadas ao espaço rural que extrapolam o aspecto da produção de alimentos e matérias-primas, sobressaindo-se de um lado a valorização do rural para o desenvolvimento de atividades não agrícolas relacionadas, por exemplo, ao lazer, que requerem serviços específicos. Por outro lado, a agricultura, antes considerada uma atividade exclusiva da zona rural passa a ser praticada também nos espaços urbanos. Assim, fala-se da emergência de um novo mundo rural, de urbanidades no rural, mas também de ruralidades no meio urbano, instigando-nos a participar do debate que envolve a agricultura urbana. A agricultura urbana (AU) torna-se uma prática alternativa para moradores de comunidades periféricas urbanas que, com ela, podem melhorar sua alimentação, obter renda e melhorar a qualidade de vida de suas famílias. Observa-se que uma parcela dos produtores excluídos do meio rural está produzindo alimentos no espaço urbano, complementando a produção do campo. Com esse estudo, busca-se compreender a relação entre os processos de modernização agrícola e de urbanização no Brasil, bem como, os fatores que movem a difusão da agricultura urbana, analisando sua importância para as comunidades periféricas de Florianópolis/SC. Os procedimentos metodológicos pautaram-se em pesquisa de gabinete em materiais bibliográficos que abordam a temática. Aspectos da modernização agrícola e do crescimento das cidades no Brasil As transformações políticas e econômicas globais provocaram mudanças profundas na sociedade emergindo novas estruturas produtivas no espaço geográfico, vinculadas a acumulação capitalista. Dentro deste contexto, após a Segunda Guerra Mundial se desenhou uma nova estratégia para modernizar o setor agropecuário, 'Olhares sobre o processo investigativo' alicerçado nos preceitos da Revolução Verde - ideário produtivo centrado em um “pacote tecnológico” para modernizar agricultura. A meta, segundo Altieri (1998) era aumentar a produção e a produtividade do setor agropecuário, tendo por base o uso intensivo de insumos químicos, variedades de sementes geneticamente melhoradas de alto rendimento, sistema de irrigação e, também, na intensa mecanização das atividades produtivas. Como em outros países em via de desenvolvimento, o Brasil absorveu o padrão de desenvolvimento da Revolução Verde e, desde então, as atividades agropecuárias estão experimentando notáveis transformações, face ao emprego de tecnologias. Este fenômeno apoiado por mecanismos políticos, normativos e financeiros criados pelo Estado, adquiriu intensidade na década de 1970, modificando-se a estrutura da produção e a dinâmica das atividades agrárias. Como assinala Galvão (1996), a modernização da agricultura se torna provavelmente, o evento de maior impacto sócio-econômico, tecnológico, cultural, ambiental e político, afetando os espaços rural e urbano do país. Esta modernização, apropriadamente chamada de conservadora, assumiu formas singulares em cada uma das regiões do país. A mudança tecnológica na agricultura não foi homogênea, nem no tempo nem no espaço. Ela se mostrou mais intensa na região Centro-Sul do que no Norte-Nordeste e afetou mais os cultivos de exportação e as matérias-primas agrícolas industriais em detrimento dos produtos alimentares básicos. Por fim, também foi seletiva, privilegiou a categoria dos médios e grandes produtores rurais, aprofundando as desigualdades sócio-econômicas no rural brasileiro, tanto a nível local como regional. A falta de acesso a terra e aos benefícios agrícolas, a redução do emprego agrícola permanente e a inexistência de alternativas econômicas no meio rural brasileiro impulsionou o êxodo rural, que se intensificou a partir da década de 1970. Situação diversa caracterizou os países desenvolvidos (Europa, EUA e Japão) onde a agricultura familiar foi o núcleo da modernização agrícola, como bem demonstraram Abramovay (1991) e Veiga (1991). Em que pese às diferenças, as relações campo cidade passaram por mudanças notáveis e a migração para as cidades tornou-se uma alternativa para uma importante parcela dos excluídos, haja vista a possibilidade de emprego e melhoria das condições de vida. Contudo, grande parte dos migrantes apenas teve acesso ao trabalho informal, passando a sobreviver em áreas periféricas em meio a situações de 'Olhares sobre o processo investigativo' pobreza e miséria. Como assinala Santos (2005), o campo brasileiro moderno repele os pobres, e os trabalhadores da agricultura capitalizada vivem cada vez mais nos espaços urbanos. Segundo Miranda (2008), em 1940 no Brasil, os moradores das cidades somavam 12,9 milhões de habitantes (cerca de 30% do total da população do país). Esse percentual cresceu aceleradamente e em 1970 mais da metade dos brasileiros já viviam nas cidades (55.9%). Dados do IBGE (2000) evidenciam que a população brasileira é, agora, majoritariamente urbana (81.2%), sendo que de cada dez habitantes do Brasil, oito moram em cidades. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 2005 o Brasil tinha uma taxa de urbanização de 84.2% e, de acordo com algumas projeções, até 2050, a porcentagem da população brasileira que vive em centros urbanos deve aumentar para 93.6%. Em termos absolutos, serão 237.751 milhões de pessoas morando nas cidades do país na metade deste século. Por outro lado, a população rural terá reduzido de 29.462 milhões para 16.335 milhões entre 2005 e 2050. Caracterização geográfica do município de Florianópolis O município de Florianópolis está localizado no litoral do estado de Santa Catarina, entre os paralelos de 27°22’45’’ e 27°50’10’’ de latitude sul e os meridianos de 48°21’37’’ e 48°34’49’’ de longitude oeste (Figura 1), tem área de 436,5 Km² (IBGE/1996), estando localizado na mesorregião da Grande Florianópolis. É a capital do estado de Santa Catarina e cidade-pólo do aglomerado urbano formado pelos municípios de Florianópolis, Biguaçu, Palhoça e São José, tendo uma população estimada de 402.346 habitantes (IBGE, 2008). 'Olhares sobre o processo investigativo' Nas últimas décadas, Florianópolis caracterizou-se por ser uma das cidades de Santa Catarina que mais atraiu migrantes oriundos de várias regiões do estado e do país. Este município passou por uma importante renovação, marcada pelo expressivo crescimento populacional (Tabela 1) alimentado em grande medida pelo êxodo rural, acompanhando a tendência do estado e do país. Tabela 1: Distribuição da população urbana e rural de Florianópolis (1960–2000) Ano População Total População Urbana (%) População Rural (%) 1960 97.827 77.585 79.3 20.242 20.7 1970 138.717 121.026 87.2 17.311 12.8 1980 187.871 161.773 86.1 26.098 13.9 1991 255.390 239.996 94.0 15.394 6.0 2000 342.315 332.185 97.0 10.130 3.0 Fonte: Sostizzo (2008) Segundo Sugai (2009), o crescimento médio anual da população de Florianópolis no período 1991-2000 foi de 3.34% (IBGE, 2000), número muito superior à média do crescimento populacional brasileiro, que no mesmo período foi de 1.63% ao ano. Nesse processo, formaram-se comunidades periféricas urbanas de baixa renda, marcadas pela ocupação desordenada do solo e pela falta de infra-estrutura. 'Olhares sobre o processo investigativo' Como demonstra Sugai (2009), o processo histórico da região conurbada de Florianópolis apresentou três momentos em que a ocupação do solo pela população pobre se tornou mais evidente. Primeiramente, no final do século XIX, após a abolição da escravatura, quando começou a ocupação das áreas do Maciço do Morro da Cruz e do sitio central da cidade. O segundo momento caracterizou-se pela intensificação do processo de migração rural-urbano, que se consolidou principalmente depois de 1960. A população pobre ocupou as encostas do maciço central e também as regiões periféricas, no continente. O terceiro momento foi registrado na década de 1990, sendo marcado por um aumento expressivo de migrantes que se instalaram em diversas comunidades do município. Em decorrência disso ampliaram-se as desigualdades sociais e os problemas relacionados ao crescimento urbano sem o devido planejamento. A densidade demográfica de Florianópolis, em 2000, correspondia a 760,10 hab/km2, seu produto interno bruto totalizava R$ 4.201 milhões e com o PIB per capita de R$ 12.292, participava com 0,42% na produção total do estado (IBGE, 2000). Além de abrigar as sedes do governo estadual e das representações de órgãos e entidades federais, Florianópolis detém um centro comercial e de serviços bastante desenvolvido e diversificado, sobressaindo-se nas atividades bancárias, educacionais e de saúde. Destacam-se, também, as atividades relacionadas ao turismo e ao lazer que promovem a dinamização da economia local, contribuindo para o aumento da renda per capita. O setor secundário está se desenvolvendo, sobressaindo-se indústrias relacionadas ao vestuário, alimentos, móveis, bebidas e microinformática. Quanto às atividades primárias, destacam-se poucos cultivos como a cana-de-açúcar, mandioca, banana e milho. A maricultura (especialmente a criação de mexilhões e ostras) é atualmente uma importante atividade econômica, transformando-se em alternativa de reconversão e de renda para os pescadores artesanais. Além disso, a agricultura também vem se constituindo como alternativa para os moradores das comunidades periféricas urbanas. Construindo o conceito de agricultura urbana A Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) é um conceito multi dimensional que inclui a produção, o agro extrativismo e a coleta, a transformação e a prestação de serviços, para gerar produtos agrícolas (hortaliças, frutas, ervas medicinais, plantas 'Olhares sobre o processo investigativo' ornamentais, etc.) e pecuários (animais de pequeno, médio e grande porte). Estes produtos estão voltados ao auto-consumo, trocas e doações ou comercialização, (re) aproveitando-se, de forma eficiente e sustentável, os recursos e insumos locais (solo, água, resíduos sólidos, mão-de-obra, saberes etc.) (LOVO, 2007; SANTADREU, 2007). Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 1996, 800 milhões de pessoas estavam engajadas na prática da agricultura urbana ao redor do mundo, sendo a maioria delas habitantes de cidades asiáticas. Desses agricultores, 200 milhões são considerados produtores comerciais, empregando 150 milhões de pessoas em tempo integral (CEPAGRO, 2008). No Brasil, o projeto de Agricultura Urbana faz parte do Programa Fome Zero do Governo Federal e possibilita a produção de alimentos de forma comunitária com uso de tecnologias de bases agroecológicas em espaços urbanos e peri-urbanos ociosos. Com o apoio do poder público, ONGs estão atuando na organização comunitária e estimulando a formação de hortas, lavouras, viveiros, pomares, canteiros de ervas medicinais e criação de pequenos animais. Os alimentos produzidos são destinados para auto-consumo, abastecimento de restaurantes populares, cozinhas comunitárias e venda de excedentes no mercado local, resultando em inclusão social, melhoria da alimentação e nutrição e geração de renda (CEPAGRO, 2008). De acordo com a FAO (2005) devido ao rápido crescimento das cidades no mundo, o interior e a periferia das áreas urbanas passam a desempenhar um papel cada vez mais importante na alimentação de sua população. A população do planeta nos próximos 30 anos estará concentrada nas áreas urbanas dos países em desenvolvimento. Isso significa que em torno de 60% da população mundial viverá nas cidades. Para Abreu (2006) a produção agrícola nas cidades é um fenômeno em expansão no mundo, principalmente nos países em desenvolvimento, onde a possibilidade de acesso aos alimentos é muito desigual e o sistema de abastecimento inadequado. Bicalho (1992) destaca que, diferente de regiões tipicamente agrícolas, onde as atividades agropecuárias são exploradas em propriedades de dimensões consideráveis, distantes dos centros urbanos, a agricultura praticada próximo às grandes cidades apresenta particularidades que lhe confere uma identidade no conjunto da organização espacial da atividade agrícola. Esta particularidade é 'Olhares sobre o processo investigativo' resultante da estrutura fundiária, dos tipos de produtos cultivados, das relações de trabalho e das formas de comercialização da produção. Segundo Roese (2003), o principal aspecto no qual a agricultura urbana difere da rural, é o ambiente, podendo a agricultura urbana ser realizada em qualquer ambiente intra-urbano ou peri-urbano. Para Mougeot (2006), a definição de agricultura urbana pode ser construída através da análise de uma série de determinantes, como a escala e a destinação da produção, a localização (urbana ou peri-urbana) e ao tipo de área onde a agricultura é praticada, além de outros fatores também apresentados (Figura 2). Mougeot (2006, p.5) destaca que: a agricultura urbana é a praticada dentro (intra-urbana) ou na periferia (periurbana) dos centros urbanos (sejam eles pequenas localidades, cidades ou até megalópolis), onde cultiva, produz, cria, processa e distribui uma variedade de produtos alimentícios e não alimentícios, (re)utiliza largamente os recursos humanos e materiais e os produtos e serviços encontrados dentro e em torno da área urbana, e, por sua vez, oferece recursos humanos e materiais, produtos e serviços para essa mesma área urbana. 'Olhares sobre o processo investigativo' Ainda segundo Mougeot (2006), a característica principal que diferencia a agricultura urbana da agricultura rural é sua integração no sistema econômico e ecológico urbano, não sendo o fator principal dessa diferenciação a localização, e sim o fato de que a AU está integrada, interagindo com o ecossistema urbano (Figura 3). Roese (2003) destaca diversos motivos e vantagens para se praticar a agricultura urbana, como: produção de alimentos (maior quantidade e qualidade de alimentos disponíveis para consumo próprio); reciclagem de lixo (utilização de resíduos e rejeitos domésticos, diminuindo seu acúmulo, na forma de composto orgânico para adubação; utilização racional de espaços (melhor aproveitamento de espaços ociosos, evitando o acúmulo de lixo e entulhos ou o crescimento desordenado de plantas daninhas; desenvolvimento local (valorização da produção local de alimentos e outras plantas, como medicinais e ornamentais, fortalecendo a cultura popular e criando oportunidades para o associativismo); manutenção da biodiversidade, através da construção de um quintal agroecológico; diminuição da pobreza, com a produção de alimentos para consumo próprio ou comunitário (em associações, escolas, etc.); e eventual receita da venda dos excedentes. Explorada de forma planejada, a agricultura urbana promove melhoria na estrutura social de uma região, pois favorece o diálogo e a integração entre os moradores das comunidades que a praticam, assim como estimula o trabalho comunitário e coletivo, servindo também como recreação (SIAU & YURJEVIC apud ABREU 2006). Por fim, 'Olhares sobre o processo investigativo' outro aspecto relevante é fazer o aproveitamento dos quintais para gerar uma fonte de renda, com a venda dos alimentos excedentes ao consumo familiar. Segundo Abreu (2006, p.11), “a agricultura urbana, se praticada sem a utilização de agrotóxicos para o controle de pragas e doenças e não utilizando adubos químicos sintéticos, pode ser considerada uma prática agroecológica”. Na concepção de Altieri (2002, p.26), a agroecologia geralmente representa uma abordagem agrícola que incorpora cuidados especiais relativos ao ambiente, assim como os problemas sociais, enfocando não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica do sistema de produção. De acordo com Assis (2003), a agricultura urbana com base agroecológica é uma prática apropriada para o interior do espaço urbano ou para o entorno das cidades, pois os sistemas de produção orgânicos são viáveis à agricultura em pequena escala, como é o caso da produção familiar. Veenhuizen (2007) lembra que a agricultura urbana pode trazer importantes contribuições em termos sociais, econômicos e ecológicos, atendendo aos princípios do discurso hegemônico da sustentabilidade. Entretanto, observa-se que muitos agricultores urbanos em vários países do mundo operam as suas atividades com pouco ou nenhum reconhecimento formal de seu principal meio de vida, sem o apoio estrutural de legislação e políticas municipais adequadas. Novas regras e regulamentos adequados são necessários para otimizar e realizar o potencial da agricultura urbana e, também para reduzir os seus eventuais riscos. O desafio é fazer com que a agricultura urbana integre o desenvolvimento sustentável das cidades e seja avaliada como um benefício social, econômico e ambiental. Para isto é importante que agricultura urbana torne-se alvo do planejamento das cidades, já que engloba diversos setores e atores da sociedade, que requerem controle e avaliação pelos governos locais. Como assinala Pessôa (2005), na medida em que a AU se desenvolve, maior é a necessidade de se estabelecer regras, para evitar os possíveis problemas que podem 'Olhares sobre o processo investigativo' ser ocasionados com o manejo inadequado de produções agrícolas ou pecuárias dentro da zona urbana. A prática da agricultura urbana em Florianópolis-SC: Na região da Grande Florianópolis, a agricultura urbana mobiliza 11 grupos, sendo estes assessorados pelo CEPAGRO (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo) - ONG vinculada ao Centro de Ciências Agrárias da UFSC, fundada em 1990 por um grupo de pequenos agricultores e técnicos com o objetivo de promover a agricultura de grupo e fortalecer o produtor familiar. Em Florianópolis, os núcleos de agricultura urbana foram formados em comunidades do sul da Ilha, nos bairros da Armação, Areias do Campeche, Morro das Pedras, Tapera e Trevo do Erasmo; e no continente, na comunidade Chico Mendes que faz parte do bairro Monte Cristo. As comunidades que aderiram à prática da agricultura urbana vivenciam vários problemas relacionados ao crescimento urbano desordenado. As comunidades Chico Mendes e Tapera são as que apresentam os maiores índices de pobreza e violência, sendo a maioria dos seus moradores provenientes do interior do estado e de outras regiões do país. Nestas comunidades, a infra-estrutura é precária ou inexistente. Como exemplo, cita-se a falta de pavimentação nas ruas. Nos dias de chuva as ruas ficam alagadas, dificultando o acesso das pessoas para fora de suas casas; não há coleta seletiva do lixo nas residências; a distribuição de água tratada é realizada pela CASAN (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento), mas muitas vezes a população fica sem água para necessidades básicas como higiene e alimentação. Há ainda problemas relacionados ao saneamento, o esgoto corre “a céu aberto” o que pode provocar, além do mau cheiro, acidentes e até mesmo doenças na população. É, portanto, em comunidades como estas que o CEPAGRO vem implementando o projeto de Agricultura Urbana, cujas ações são mantidas por convênios firmados com entidades como o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Fundação Interamericana (IAF) e a Misereor (Agência de Desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha), sendo as duas últimas, entidades internacionais que coordenam projetos de cooperação e desenvolvimento em países da América Latina. Em Florianópolis, a prática da AU se manifesta em espaços públicos como terrenos de escolas e creches onde foram formadas hortas didáticas (agroecológicas); em hortas comunitárias, formadas por grupos de moradores do bairro em terrenos 'Olhares sobre o processo investigativo' baldios. Além disso, algumas famílias fazem o aproveitamento dos reduzidos quintais de suas residências. O enfoque do projeto de Agricultura Urbana desenvolvido pelo CEPAGRO é direcionado à educação ambiental, em práticas relacionadas com a construção e manutenção de composteira, produção de mudas e plantio nos canteiros das hortas agroecológicas. Nas comunidades do sul da Ilha, nos bairros da Armação, Areias do Campeche, Morro das Pedras, e Trevo do Erasmo, algumas escolas e creches são atendidas pelo projeto. Assim, semanalmente crianças recebem aulas de educação ambiental através de atividades na horta escolar, podendo perceber a importância de processos como a reciclagem e o cultivo de alimentos orgânicos. Nessas escolas, busca-se com a criação e manutenção das hortas, aproximar os alunos não só às práticas de plantio e manuseio da horta, mas também de educação ambiental, mostrando que eles também podem melhorar as condições do meio ambiente e do local onde eles vivem. Através do cultivo sem agrotóxicos, há uma melhor qualidade no que é consumido na merenda escolar e o conhecimento que os alunos adquirem nas aulas pode ser ensinado aos pais, aos vizinhos e à comunidade, reproduzindo novas idéias que são aprendidas ali. Na comunidade Chico Mendes o projeto de agricultura urbana envolve a Creche Chico Mendes, a Escola América Dutra Machado e o Lar Fabiano de Cristo. Assim, os espaços públicos e os reduzidos quintais de algumas famílias produzem alimentos sem aditivos químicos. É importante salientar que na Creche, há uma horta didática, acompanhada periodicamente pelos técnicos do CEPAGRO. Já no Lar Fabiano de Cristo organizou-se uma horta comunitária, buscando contribuir não só para a subsistência das famílias participantes, mas também para abastecer a cozinha da entidade. Na Tapera, a horta ocupa um terreno ao lado do Centro Comunitário de Saúde do bairro. Além da horta comunitária, alguns moradores vêm transformando seus quintais através da produção de alimentos. Com a consolidação da prática da agricultura urbana, segundo o CEPAGRO (2008) pode-se perceber uma melhoria da qualidade de vida e da alimentação das famílias envolvidas com a atividade, registrada no consumo de alimentos mais saudáveis (sem agrotóxicos) e diversificação da alimentação. Ocorre, também, um aumento no grau 'Olhares sobre o processo investigativo' de consciência ambiental dos participantes, através da aproximação dos agricultores com a terra e a natureza. As famílias oriundas da área rural resgatam o vínculo de suas origens, criando uma atividade de lazer, que também possibilita uma complementação de renda. A atividade também viabiliza uma maior aproximação entre os moradores da comunidade, produtores e consumidores, proporcionando também uma melhoria na paisagem urbana e nos ambientes locais. Além disso, a AU pode contribuir para reduzir problemas relacionados ao acúmulo de lixo/entulhos e a impermeabilização do solo, diminuindo os riscos de ocorrência de enchentes nessas áreas. Considerações finais: A agricultura urbana em comunidades de baixa renda além de assegurar uma alimentação mais saudável, contribui para melhorar a paisagem, possibilitando uma maior aproximação entre produtores e consumidores. Através dos princípios da agroecologia, as iniciativas da AU tentam garantir um ambiente mais equilibrado, educação ambiental, segurança alimentar e geração de renda. Atuando junto a instituições como escolas, creches, centros de saúde e associações pode-se trabalhar com a população mais jovem, atingindo, assim diretamente as famílias da comunidade. Com a produção de alimentos agroecológicos nos quintais urbanos e espaços comunitários, famílias podem ter acesso a alimentos mais saudáveis, garantindo a sua segurança alimentar e também gerando renda. A estas vantagens soma-se a valorização de conhecimentos tradicionais e culturais de uma vida rural e agrícola, mesmo habitando espaços urbanos. Criam-se, assim, oportunidades para promover o desenvolvimento local e a valorização das comunidades periféricas urbanas não apenas em Florianópolis, mas em todas as cidades do país em que esta forma de agricultura seja praticada. Por tudo isso, é vital que o Estado e, também, a sociedade civil percebam que há formas de se produzir alimentos e obter renda com a agricultura orgânica não só no meio rural, mas também em áreas urbanas. Esta tem sido uma tendência, tornandose princípio de gestão que merece destaque dentro das discussões sobre o planejamento e o desenvolvimento urbano e maior apoio através de políticas públicas. 'Olhares sobre o processo investigativo' Referências bibliográficas: ABRAMOVAY. Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo: Hucitec,1992.275 p. ABREU, Marcos. José de. 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