ISSN 2340-5457 Volumen II, Nº 2 (enero de 2014) http://www.monfragueresiliente.com/ OBJECTIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: A PRIMEIRA POLÍTICA PÚBLICA GLOBAL DO ANTROPOCENO Objetivos de Desarrollo Sustentable: Políticas Públicas La Primera Global del Antropoceno Paulo Castro Seixas ISCSP – CAPP – Universidade de Lisboa Revista Científica Monfragüe Resiliente. http://www.monfragueresiliente.com/ Editada en Cáceres, Dpto. Arte y Ciencias del Territorio de la Universidad de Extremadura. Elaborada conjuntamente con las Universidades de Lisboa y la Autónoma de México. Resumo: Este texto faz uma análise do agendamento de uma política pública global, a que procura estabelecer o quadro de ação pós-2015, pela elaboração e formulação dos ODS – Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. A análise é feita em função da leitura dos relatórios dos anos 2012 e 2013. Propõe-se que o agendamento poderia configurar uma primeira política pública global da governança da resiliência do Antropoceno mas os resultados atingidos parecem frágeis, colocandose a hipótese da própria governança se encontrar em experimentação no agendamento desta política pública global. Palavras-chave: política pública global, Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, quadro de ação pós-2015, governança da resiliência do Antropoceno. Resumen: Es trabajo que presentamos analiza el calendario de una política pública global, la que pretende establecer el marco de Acción pos-2015, por la elaboración y formulación de los ODS -Objetivos de Desarrollo Sustentable. El análisis se hace en función de la lectura de los informes de los años 2012 y 2013. Se propone que el calendario podría configurar una primera política pública global de la gobernanza de la Resiliencia del Antropoceno pero los resultados conseguidos parecen frágiles, por lo que se cuestiona si la hipótesis de la gobernanza como tal se encuentra en fase de experimentación en el cronograma de esta política pública global. Palabras clave: política pública global, Objetivos de desarrollo sustentable, marco de acción post2015, gobernanza de la resiliencia del antropoceno. 1. Introdução: ‘Mapear um novo caminho’ A primeira política pública global de desenvolvimento foi proposta com a “2000 Millennium Summit” que esteve na origem do MDG – Millenium Development Goals ou Objectivos do Milénio. Os ODM estabelecidos então foram 8: Erradicar a pobreza extrema e a fome; Alcançar a educação primária universal; Promover a igualdade de género e empoderar as mulheres; Reduzir a mortalidade infantil; Melhorar a saúde materna; Combater o VIH, a malária e as outras doenças; Garantir a sustentabilidade ambiental e criar uma Parceria global para o desenvolvimento. Tendo estes objectivos e as metas que lhe estavam associadas sido estabelecidos para o período 2000-2015, a agenda da nova política pública global de desenvolvimento está já em preparação e é tal agenda em processo que nos propomos analisar brevemente neste texto 1. Ainda que houvesse já documentos anteriores relativos Oas Objectivos de Desenvolvimento Sustentável para período pós-2015 (United Nations Secretary-General’s High-level Panel on Global Sustainability, 2012: 72), a agenda pós-2015 arrancou com a Conferência Rio+20 (13-22 Junho 1 Este texto foi elaborado a convite do colega e amigo Prof. Mora Aliseda, a quem agradeço, e foi escrito tendo em mente os meus alunos de Políticas Públicas Territoriais e Urbanas, uma vez que não é possível pensarmos em políticas públicas territoriais e urbanas em Portugal e na Europa sem também perceber os contornos da políticas públicas globais. 2012), em que os Estados Membros aceitaram definir Objectivos de Desenvolvimento Sustentável universalmente aplicáveis e lançaram o processo para a sua elaboração no documento que saiu da Conferência, intitulado ‘O Futuro que Queremos’ (The Future We Want). O desafio é de ‘Mapear um novo caminho’ e este esforço de definição de uma nova política pública global teria de ser coordenado com os trabalhos do ‘Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes para a Agenda de Desenvolvimento pós-2015’ (The Secretary-General's High-Level Panel of Eminent Persons on the Post-2015 Development Agenda), cuja constituição, o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, anunciou na mesma altura..(United Nations, General Assembly, 2012: 4) Esta nova política pública global é a primeira em que os alguns ‘limites planetários’ à vivência humana segura foram ultrapassados evidenciando uma nova era, o Antropoceno; em que a resiliência enquanto relação dinâmica entre antropogénese e ecogénese se tornou no elemento chave da sustentabilidade e em que a governança planetária se tornou o quarto pilar do desenvolvimento, para que uma ética e uma justiça integrando vários níveis territoriais possibilitem a condução da transformação planetária. Por tudo isto, esta é a primeira política global de desenvolvimento de base efectivamente territorial, colocando a Governança da Resiliência do Antropoceno no centro do debate. Para além disso, tal centralidade territorial é enfatizada pelo facto de vários relatórios colocarem as ‘Cidades e Agregados Humanos Sustentáveis’ como objectivos transsectorial central para a prossecução de tal política. Neste tempo na transição de uma política global para outra, por um lado, o grande desafio é continuar a lutar para atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio até 2015 e, por outro, é importante criar uma visão para além disso: um quadro pós-2015. Os Grandes desafios continuam a ser combater a Pobreza, promover o consumo e produção sustentável e gerir os recursos naturais do planeta em benefício de todos. Segundo o Relatório Económico e Social Mundial, apresentado em setembro de 2013, em 2010 reduziuse a pobreza para metade, houve grandes avanços na melhoria do acesso a água, na luta contra a malária e a tuberculose, na melhoria das condições de vida nos bairros de lata urbanos, no número de crianças a frequentar a educação primária e na melhoria de vida das mulheres. Ao mesmo tempo afirma-se que o progresso foi desigual entre países e dentro de cada um deles e insuficiente com a sustentabilidade ambiental ameaçada, crescimento acelerado das emissões de CO2 e perda de biodiversidade. Mais de 1 bilião de pessoas vive ainda na pobreza extrema, sofrendo quase na totalidade de fome. Erradicar a pobreza é assim, o centro da agenda. O Relatório fornece um quadro de ações concretas para o Desenvolvimento Sustentável, identificando a Sustentabilidade Urbana, a Segurança Alimentar e o Acesso a Serviços Energéticos Modernos como principais aspectos transsectoriais a ter em conta. Para atingir um desenvolvimento sustentável, o Relatório afirma serem necessárias ações globais realizando as aspirações legitimas de maior progresso social e económico, requerendo crescimento e emprego e reforçando a proteção ambiental. Para além disso, o desenvolvimento sustentável deve ser inclusivo, tendo em conta as necessidades dos mais pobres e vulneráveis. As estratégias devem ser ambiciosas, orientadas para a ação e colaborativas, adaptando-se a diferentes níveis de desenvolvimento. Será necessário uma mudança sistemática nos padrões de produção e consumo, significativas correções nos preços, encorajar a preservação do ambiente natural, reduzir a desigualdade e aumentar a governança económica. Segundo o Relatório de 2013, há três áreas trans-sectoriais centrais: cidades sustentáveis; segurança alimentar e transformação energética. No entanto, estas três áreas de ação direta só aparentemente poderão ser simples de entender. De facto, elas implicam uma nova visão que, porventura, só podem ser compreendidas em função da compreensão dos próprios relatórios como a experiemntação da Governança da Resiliência do Antropoceno. 2. A Governança Resiliência do Antropoceno da Os cientistas identificaram que “três dos nove ‘limites planetários’ (perda de biodiversidade, mudança climática e o ciclo de nitrogéneo) tinham ultrapassado para lá de ‘um espaço operacional seguro para a humanidade’” (Mori, 2013: 2) e em resposta Ban Ki-Moon na abertura da reunião Rio-20, de junho de 2012, apresentou um pequeno clip de video intitulado “Welcome to the Anthropocene” (id, 2013:2). Uma nova era geológica na história do planeta Terra, intitulada Antropoceno, está em discussão (Zalasiewicz, 2008; Zalasiewicz, Williams, Haywood e Ellis, 2011). O Antropoceno enquanto conceito foi recuperado pelo prémio nobel Paul Crutzen, em 2002, sucedendo ao termo ‘Antropozoico’ cunhado pelo geólogo italiano Antonio Stoppani em 1871-73 e a ideias de antropogenese das mudanças na natureza referidas por Paul Marsh em 1864 Zalasiewicz, Williams, Haywood e Ellis, 2011: 835). O Antropoceno remete especificamente para as mudanças produzidas pela humanidade desde o início da revolução industrial (nos dois últimos séculos) e que foram sumarizadas por Zalasiewicz (Zalasiewicz, 2008: 5-6) nos seguintes quatro pontos: mudanças na sedimentação fisica; perturbação no ciclo do carbono e na temperatura; mudança biótica e mudanças oceânicas. O Antropoceno apresenta a influência do ser humano sobre a geologia do planeta, estabelecendo, assim, os limites fisicos do planeta. Assim, os limites ecológicos sucedem-se aos limites económicos que já o Clube de Roma (criado em 1968) em 1972 tinha estabelecido na célebre obra ‘Os Limites do Crescimento’. O século XXI é, assim, o século em que o ser humano tem de gerir efectivamente o planeta. É neste quadro que surgem Políticas Públicas Globais propondo uma Parceria Global para o Desenvolvimento (o 8º Objectivo dos ODM Objectivos de Desenvolvimento do Milénio) e agora instituindo a Governança como o 4º pilar do Desenvolvimento Sustentável no quadro já dos ODS – Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. O Desenvolvimento Sustentável foi definido no Relatório Brundtland (Our Common Future) , em 1987, e que foi o resultado da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada em 1983 pela Assembleia das Nações Unidas. Em 1992, na Conferência da Terra, a Declaração do Rio e, essencialmente, a Agenda 21 transformaram o desenvolvimento sustentável num conceito político e com um programa de ação, instituindo-se as três dimensões ou pilares do desenvolvimento sustentável: o ambiental, o económico e o social. No entanto, a relação entre os três pilares do desenvolvimento sustentável foi sempre controversa, não sendo claro se seria possível a substituição mutua permitindo que o desenvolvimento de um pilar compensasse a deteriorização de outro, passando-se a referir tal situação como sustentabilidade ‘fraca’ por oposição à sustentabilidade ‘forte’ quando a sustentabilidade é positiva em todos os pilares. Por outro lado, tornou-se claro, já depois da Cimeira do Milénio e da Declaração do Milénio, estabeleceno os ODM, as dificuldades institucionais de monitorização das metas. O Relatório do Painel de Alto Nível do Secretário Geral para a Sustentabilidade Global (em Janeiro de 2012), por um lado remetia exactamente para as insuficiências de monitorização de forma compreensiva que abrangesse análise intersoctorial; sinergias e trade-offs, assim como oportunidades e perigosos ‘tipping points’ e que possibilitassem aconselhamento em áreas de ação transversais à agenda do desenvolvimento sustentável (2012: 73). Por outro lado, afirmava de forma perentória que “no século XXI o que é necessário é uma arquitectura institucional” para o “fortalecimento da governança internacional do desenvolvimento sustentável” (2012: 75-77). Por fim, a consciência do Antropoceno é concomitante da necessidade de respostas societais globais a tal situação. Tickell (2011) considera, exactamente, que tais respostas societais implicam criar os meios institucionais necessários para lidar com os problemas globais (crescimento populacional, economia de consumo, problema energético, desestabilização climática, perda da biodiversidade) num mundo em que a sociedade é mais interdependente do que alguma vez foi. Todos estes aspectos remetem para uma necessidade de governança no quadro do desenvolvimento sustentável. No entanto considerar tal como um quarto pilar não foi simples. A discussão em torno de um 4º pilar do desenvolvimento ao longo dos últimos anos, principalmente desde 2012, é uma evidência da consciência da necessidade de uma política pública global e das preocupações com o sua agenda. De facto no quadro da discussão do 4º pilar do desenvolvimento sustentável várias possibilidades surgiram: a ciência e a tecnologia; a sociedade civil global, avaliação integradora; paz e governança e educação e cultura (Mori, 2012: 2). Para além destes, um quadro institucional para o desenvolvimento sustentável poderia também ser o quarto pilar ou mesmo os SDG (Sustainable Development Goals) poderiam ser o quarto pilar, um ‘pilar ético que reflectisse os três outros pilares e as suas interrelações (id, 2012: 3-4). Curiosamente, o Relatório feito em Junho de 2012 para o Secretário Geral feito pela UN System Task Team on post-2015 UN Development Agenda, remetia um quarto pilar para a “Paz e Segurança”. Esta estranha aparente polivalência do quarto pilar do desenvolvimento sustentável pode, porventura, ser melhor compreendida pela noção de ‘governança adaptativa’ adequada a um ‘pensamento da resiliência’ (Pisano, 2012). A resiliência, conceito criado nos anos 70 a partir dos estudos de ecologia de C. S. Holling, pode ser definida como “a capacidade de um sistema absorver perturbações e ainda assim manterem a mesma função e estrutura” ou “a capacidade de mudar de forma a manter a mesma identidade” (Walker and Salt, 2006 e Folke et al., 2010, cit in Pisano, 2012: 6). Seguindo Pisano, uma vez que os seres humanos vivem em sistemas sociais em interdependência com os sistemas ecológicos, a resiliência serve-nos para pensar o sistema socio-eco-lógico. O ‘pensamento da resiliência’ implica uma série de conceitos centrais como limiares, ciclo adaptativo, panarquia, resiliência, adaptabilidade e transformabilidade. O que Pisano nos diz é que se os sistemas socio-ecológicos são resilientes, ao pretendemos governar tais sistemas, temos de adoptar um pensamento de resiliência no quadro dessa mesma governação: “A perspectiva da resiliência muda as políticas daquelas que aspiram a controlar as alterações nos sistemas que se assumem como estáveis, para a gestão da capacidade dos sistemas sócio-ecológicos de se acomodar a; adaptar-se a, e moldar a mudança” (Pisano, 2012: 6). Pisano diz ser este o pensamento necessário ao desenvolvimento sustentável: “This exposes the strong need for SD governance to embrace resilience thinking. It is not only about being transdisciplinary and avoiding partial and one-viewpoint solutions; what is needed to solve today’s problems – and especially those linked to sustainable development – is a new approach that considers humans as a part of Earth’s ecosystems, and one in which policies can more effectively cope with, adapt to, and shape change.” (id,2012: 7). É neste quadro que a ‘governança adaptativa’ deve ser adoptada: “In this scenario, the concept and key characteristics of the so-called ‘adaptive governance’ seem to be a practical mean for societies to deal with the complex issues that social-ecological systems are confronted with. Therefore, adaptive governance is best understood as an approach that unites those environmental and natural resource management approaches that share some or all of the following principles: polycentric and multi-layered institutions, participation and collaboration, selforganization and networks, and learning and innovation” (id,2012: 7). Estas referências de Pisano servemnos para propor, por uma lado, que o que estamos a aprender no século XXI é a governança da resiliência do Antropoceno, entendido como socio- eco-lógica e que, por outro lado, o agendamento da primeira política pública global do Antropoceno nos pode, exactamente, evidenciar essa aprendizagem. 3. Os documentos da agenda pós-2015 As Nações Unidas lançaram em 2012 uma discussão global sobre as prioridades de uma nova agenda de desenvolvimento. Uma série de consultas, a um nível nacional, regional e global, à população de cerca de 100 países e, através de uma plataforma de media digital, mais de um milhão de pessoas partilharam as suas perspectivas sobre ‘o mundo que queriam’ (United Nations – General Assembly. 2013: 3). 2013 é já um ano de arranque na transição de um modelo de desenvolvimento globala baseado nos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) para um outro baseado nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esta mudança está na origem de uma série de documentos desta transição e da agenda de desenvolvimento pós2015. Em Janeiro de 2012 um relatório produzido pelo Alto Painel para a Sustentabilidade Global utiliza de forma clara o conceito de resiliência como central. O título é, em si mesmo, uma evidência disso: “Pessoas Resilientes, Planeta Resiliente: Um Futuro que Vale a Pena Escolher”. A reunião Rio+20, em junho de 2012, deu também origem a um documento importante para a agenda pós-2015: “O Futuro que Queremos. A Nossa Visão Comum”. Este documento coloca a preocupação com as cidades sustentáveis como primeiro ponto da agenda, tendo os parágrafos 134 a 137, exactamente sobre “Cidades e Agregados Humanos Sustentáveis” estado na origem do documento da UNHabitat “Sustainable Cities and Human Settlements in the Post2015 UN Development Agenda”. Um painel estabelecido em Julho de 2012 pelo secretário-geral para apresentar propostas concretas sobre a agenda global de desenvolvimento, Pós-2015 e co-presidido pelo presidente da Indonesia Susilo Bambang Yudhoyono, a presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf e o Primeiro Ministro do Reino Unido David Cameron efectuou um relatório, entregue em maio de 2013, conhecido como ‘Relatório do Painel de Alto Nível’. O Sustainable Development Solution Network elaborou também um relatório intitulado “An Action Agenda for Sustainable Development”, o qual esteve disponível para consulta e comentários entre os dias 7 e 22 de Maio de 2013. Um outro relatório com data de julho de 2013 foi presentado à Assembleia-geral em setembro de 2013. Tratou-se do Relatório do Secretário-Geral – “A life of Dignity for all” (Uma vida de dignidade para todos) -sobre o progresso feito para alcançar os ODMs e sobre a nova agenda de desenvolvimento Pós-2015 e apresentando-se como “uma agenda que integre crescimento económico, justiça social e proteção ambiental; universal que requer transformações profundas e uma parceria global”. Em setembro de 2013, compilando os resultados de consultas populares em todas as regiões do mundo, apresenta-se o relatório “O Mundo que queremos: um milhão de vozes”. A 25 de setembro de 2013 apresenta-se ainda o Documento final da sessão especial da Assembleia-geral da ONU sobre ODMs e agenda de desenvolvimento Pós-2015. Quadro I – Relatórios da agenda de desenvolvimento pós-2015 2012 Janeiro Relatório do High Level Panel on Global Sustainability – Resilient People Resilient Planet. A Future Worth Choosing http://www.un.org/gsp/sites/default/files/attachments/GSP_Report_w eb_final.pdf Junho Relatório da UN System Task Team on the Post-2015 UN Development Agenda - Realizing the Future We Want for All – Report to the SecretaryGeneral http://www.un.org/millenniumgoals/pdf/Post_2015_UNTTreport.pdf Junho Documento final da Rio+20, conferência das nações unidas sobre desenvolvimento sustentável– “The Future We Want. Our Comon Vision” – junho 2012 http://sustainabledevelopment.un.org/futurewewant.html Concept Note da UNHabitat (2012). “Sustainable cities and human settlements in the post-2015 UN development agenda. Concept note. http://sustainabledevelopment.un.org/content/documents/1653Sustai nableCities.pdf 2013 Maio Relatório do SDSN – “An Action Agenda for Sustainable Development” http://unsdsn.org/files/2013/11/An-Action-Agenda-for-SustainableDevelopment.pdf Maio Relatório do Painel de Alto Nível- A New Global Partnership: Eradicate Poverty And Transform Economies Through Sustainable Development. United Nations. http://www.post2015hlp.org/wpcontent/uploads/2013/05/UN-Report.pdf Julho World Economic and Social Survey – 2013 http://www.un.org/en/development/desa/policy/wess/wess_current/ wess2013/WESS2013.pdf Setembro O Mundo que queremos: um milhão de vozes http://www.worldwewant2015.org/millionvoices Setembro Statistics and Indicators for the Post-2015 Development Agenda http://www.un.org/en/development/desa/policy/untaskteam_undf/U NTT_MonitoringReport_WEB.pdf (elaborado em Julho) Setembro Relatório do Secretário-Geral – “A life of Dignity for all” (Uma vida de dignidade para todos) (entregue em Julho) Setembro http://www.un.org/en/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/68/202 Documento final da sessão especial da Assembleia-geral da ONU sobre ODMs e agenda de desenvolvimento Pós-2015 http://post2015.iisd.org/guest-articles/leaving-no-one-behindtowards-a-post-2015-development-agenda/ 3.1. Dos ODM aos ODS: A Agenda de Mudança É importante compreendermos o que vai estando em causa no agendamento político que leva à passagem dos ODM aos ODS. A análise dos processo segundo os quais os relatórios foram realizados é uma evidência da própria agenda que se está a preparar para os próximos anos. É neste sentido que neste ponto damos alguma atenção aos processos disponíveis para consulta do agendamento desta política pública global de desenvolvimento que configura os ODS. Analisaremos, neste ponto, o que os contributos dos mais importantes relatórios. Através dessa análise percebemos avanços e recuos, ambições programáticas extensivas nuns casos e outras mais genéricas e esquemáticas noutros. De uma ou de outra forma, o que porventura se pode aferir em todo o processo é a dificuldade de estabelecer uma política pública global ao mesmo tempo que as respostas apresentadas são todas elas importantes enquanto processos de socialização da máquina política de preparação de políticas públicas globais. Ainda antes da Conferência Rio+20 de Julho de 2012, o Relatório “Pessoas Resilientes, Planeta Resiliente. O Futuro que Vale a Pena Escolher”, de Janeiro de 2012, abordava já os ODS (pgs 72-73). Os ODS são entendidos como uma continuação e intensificação dos ODM (Objectivos do Milénio) que permitam “galvanizar a ação”, baseando-se na experiência dos aspectos bem sucedidos dos ODM, complementando-os e preparando um quadro de ação para o pós-2015. O relatório apresenta os princípios que deveria sustentar o quadro dos objectivos do desenvolvimento sustentável: a) deve ser de caracter universal, cobrindo os desafios de todos os países e não apenas os das nações em desenvolvimento; b) deve evidenciar uma estratégia global para o desenvolvimento sustentável, largamente aceite; c) deve incorporar o conjunto das áreas chave que não foram completamente cobertas nos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, tais como a segurança alimentar, água, energia, empregos ‘verdes’, emprego decente e inclusão social, consumo e produção sustentáveis, cidades sustentáveis, mudança climática, biodiversidade e oceanos, assim como redução do risco de desastres e resiliência; d) deve ser compreensivo, refletindo equitativamente as dimensões económica, social e ambiental do desenvolvimento sustentável, assim como as relações entre elas; e) deve incorporar comparações de curto prazo ao mesmo tempo que deve ter um âmbito de longo prazo, tendo uma perspectiva talvez até 2030; f) deve comprometer todos os actores na implementação e mobilização de recursos, incluindo comunidades locais, sociedade civil e o sector privado, tal como os governos; g) deve incluir indicadores medíveis do progresso assim como metas precisas de forma a focar a atenção pública e potenciar os resultados do desenvolvimento e reflectir as diferentes prioridades e condições do desenvolvimento nos diferentes países e regiões; h) deve possibilitar um âmbito de revisão dos objectivos no quadro do desenvolvimento de evidência científica. Como já se referiu previamente, este relatório enfatiza também a necessidade do fortalecimento da governança do desenvolvimento sustentável como elemento chave. O Relatório da UN System Task Team on the Post-2015 UN Development Agenda, elaborado para o Secretário Geral e intitulado “Realizing the Future We Want for All”, de junho de 2012 propõe, logo no resumo, que o formato da agenda pós-2015 deve ser baseada em objectivos e metas concretos, seguindo um dos pontos fortes dos ODM, mas deve ser reorganizada em três princípios chave (Direitos Humanos, Igualdade e Sustentabilidade) e em quatro dimensões de uma perspectiva mais holística: 1) desenvolvimento social inclusivo; 2) desenvolvimento económico inclusivo; 3) sustentabilidade ambiental e 4) paz e segurança. Assim, a quarta dimensão não aparece aqui como a da governança mas antes como a Paz e Segurança, ainda que tal denominação inclua uma série de indicadores relativos à governança. Para além dos princípios e das dimensões, o relatório propõe ‘facilitadores’, considerando que não há planos óbvios mas um processo de experimentação e adaptação continuos mas que têm de se regular segundo uma coerência política global, regional, nacional e subnacional (2012: 22) A resolução adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas de 27 de Julho de 2012 66/288 constitui-se como o relatório ‘The Future We Want’. Neste relatório propõe-se uma “quadro institucional para o desenvolvimento sustentável” baseado a) no fortalecimento das três dimensões do desenvolvimento sustentável; b) no fortalecimento dos programas de ação intergovernamentais para o desenvolvimento sustentável através da Assembleia Geral, do Conselho Económico e Social, do Forum Político de Alto Nível; c) na importânica do pilar ambiental no desenvolvimento sustentável; d) na importância das instituições financeiras internacionais e actividades operacionais das Nações Unidas e na e) importância dos níveis regional, nacional, sub-nacional e local para a efectiva tradução das políticas de desenvolvimento sustentável. O relatório apresenta depois um quadro de ação e de seguimento baseado em 26 áreas temáticas e aspectos transsectoriais. Sobre os ODS, só o final do relatório os refere, considerando a sua importância e indicando a criação de um grupo de trabalho com 30 elementos representativos das cinco regiões representadas nas Nações Unidas, tendo ficado este grupo de trabalho incumbido de fazer uma proposta relativa aos ODS na 68ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas para ação apropriada. A 68ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas teve lugar a 17 de Setembro de 2013 e o grupo de trabalho criado neste relatório é o Painel de Pessoas Eminentes que deram origem ao Painel de Alto Nível entregue em Maio de 2013. Quadro II – Quadro integrado para a realização do ‘Futuro que queremos para todos’ na agenda pós-2015 (adaptado do relatório, pg 24) Facilitadores Facilitadores -Sistema de comércio global justo e estável -Financiamento adequado para o desenvolvimento e sistema financeiro estável -Acessibilidade à tecnologia e conhecimento -Possibilitar energia sustentável para todos -Politicas macroeconómicas e de desenvolvimento coerentes que sustentem o crescimento incluvivo e ecológico -Usos sustentáveis dos recursos naturais (clima, oceanos, florestas, biodiversidade) e gestão dos desperdicios -Gestão do risco de catástrofe e melhoria da resposta a desastres Sustentabilidade Ambiental Proteger a biodiversidade Clima estável Resiliência face a desastres naturais Desenvolvimento Económico Inclusivo Direitos Humanos Erradicar rendimentos de pobreza e fome Reduzir as desigualdades Garantir trabalho decente e emprego produtivo Facilitadores -Alimentação sustentável e segurança nutricional -Acesso universal a cuidados de saúde de qualidade -Acesso universal a educação de qualidade -Sistemas de proteção social de inclusão -Gestão das dinâmicas demográficas -Regras justas de gestão da migrações Igualdade Paz e Segurança Sustentabilidade Fim à violência, conflito e abuso Acesso aos recursos naturais sem conflito Desenvolvimento Social Inclusivo Alimentação adequada para todos Educação de qualidade para todos Redução da mortalidade e morbilidade Igualdade de género Acesso universal a água potavel e Saneamento O relatório do SDSN (Sustainable Development Solutions Network) foi desenvolvido tendo como base 12 grupos temáticos, cada um deles tendo de responder às mesmas 5 questões, questões essas que nos indicam por si próprias a agenda que está em causa: 1) Quais são os principais riscos do Bussiness as Usual (de tudo continuar na mesma)? Facilitadores -Mecanismos de governança global democrátiicos e coerentes -Boas práticas de governança baseadas na lei -Prevenção do conflito e mediação -Proteção dos Direitos Humanos -Empoderamento das mulheres 2) Quais são os caminhos críticos para o desenvolvimento sustentável? Quais são os principais obstáculos que devem ser superados? Há exemplos em que esses obstáculos foram superados e que lições podem ser aprendidas? 3) Quais são as "questões mais difíceis" que precisam ser resolvidos? 4) Quais são as "soluções" disponíveis para os setores público e privado para uma ação precoce? Que soluções são necessárias para uma rápida implementação e que não estão a ser usadas? Como podem tais soluções ser implementadas ou desencadeadas? 5) Quais são os principais indicadores de desenvolvimento sustentável que devem ser desenvolvidos e monitorados? Em que medida os ODM nos forneceu os dados necessários para apoiar a tomada de decisões para o desenvolvimento sustentável? Os 12 ‘grupos temáticos’ remetem, também, para uma agenda dos próprios problemas mundias: 1: Macroeconomics, Population Dynamics, and Planetary Boundaries; 2: Reducing Poverty and Building Peace in Fragile Regions; 3: Challenges of Social Inclusion: Gender, Inequalities, and Human Rights; 4: Early Childhood Development, Education, and Transition to Work; 5: Health for All; 6: Low-Carbon Energy and Sustainable Industry; 7: Sustainable Agriculture and Food Systems; 8: Forests, Oceans, Biodiversity, and Ecosystem Service; 9: Sustainable Cities: Inclusive, Resilient, and Connected; 10: Good Governance of Extractive and Land Resources; 11: Global Governance and Norms for Sustainable Development; 12: Redefining the Role of Business for Sustainable Development. Este documento propõe 10 SDG (Sustainable Development Goal), segundo ‘as quatro dimensões’ do desenvolvimento sustentável (Quadro III): Quadro III – Os Dez Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (tradução do autor) Desenvolvimento Económico e Erradicação da Pobreza Terminar com a pobreza extrema e empoderar todos os cidadãos para serem produtivos. Inclusão Social Sustentabilidade Ambiental Governança Reduzir a desigualdade, aumentando os rendimentos e o estado nutricional dos da parte inferior da curva Reduzir a pressão sobre o ambiente que é parcialmente impulsionada pela pobreza (por exemplo, a agricultura de queimada e a alta fertilidade) Objectivo 2: Alcançar o desenvolvimento dentro das fronteiras do planeta A norma global de convergência ou "direito ao desenvolvimento" apoiará o crescimento económico em todos os países O crescimento económico oferece oportunidades para investor nos pobres fortalecendo a inclusão social Promover a sustentabilidade ambiental combinando o "direito ao desenvolvimento" para todos com o com o respeito pelos limites planetários Objectivo 3: Assegurar aprendizagem efectiva para todas as crianças e juventude pela vida e pelo sustento A aprendizagem eficaz é fundamental para a criação de oportunidades de emprego e meios de subsistência para as pessoas em todas as idades, o que, por sua vez, promove desenvolvimento econômico Mobilizar e capacitar todos os membros da sociedade para desenvolvimento económico, aumentando assim produtividade e os rendimentos A Saúde e bem-estar pessoal são pré-requisitos e contributos centrais para o desenvolvimento da economia e erradicação da pobreza A aprendizagem eficaz é crítica para a criação de oportunidades de emprego e meios de subsistência para as pessoas em todas as idades, o que por sua vez promove a inclusão social A melhoria do ensino e consciência, incluindo a educação no desenvolvimento sustentável, irá gerar inovação e liderança para a sustentabilidade ambiental Concentrar-se em melhorar a governança e prestação de serviços, especialmente em países de baixos rendimentos e países vulneráveis, incluindo os que têm conflitos O reconhecimento dos direitos e aspirações de todos os países para perseguir o desenvolvimento econômico fortalecerá a parceria mundial para o desenvolvimento sustentável Cidadãos educados e informados contribuirá para manter e boa governação Promove a inclusão social As populações excluídas são muitas vezes deixadas ao forrageio em áreas de floresta, causando danos ambientais Seguir a lei, o mrespeito pelos direitos humanos, uma segurança melhorada e a participação são componentes centrais da boa governança A Saúde e bem-estar pessoal são centrais para alcançar egualdade de género e aumentar a inclusão social A melhoria da saúde terá de, designadamente, enfrentar as causas ambientais (por exemplo, a poluíção do ar e água); um comportamento saudável promove a sustentabilidade ambiental Serviços eficazes e ageis são um componente essencial da boa governação Objectivo1: Fim à pobreza extrema incluindo a fome Objectivo 4: Alcançar Igualdade de Género, Inclusão Social, e Direitos Humanos Objectivo 5: Alcançar saúde e Bem-estar em todas as idades Objectivo 6: Melhorar os sistemas agrículas e aumentar a Prosperidade Rural Aumentar os outputs agrícolas ajudará a reduzir a pobreza extrema, lutar contra a fome e promover o crescimento económico Objectivo 7: Empoderar cidades inclusivas, Produtivas e resilientes Cidades produtivas conduzem ao crescimento económico, aceleram a mudança tecnológica, produzem empregos e reduzem a pobreza extrema Objectivo 8: Refrear as mudanças climáticas induzidas pela humanidade e garantir energia limpa para todos A contenção das mudanças climáticas pode ter custos económicos de curto-prazo, os quais são fortemente compensados pelos beneficios económicos de longo-prazo, em função de um clima estável e oportunidades de curto prazo para um ‘crescimento verde’ Ecossistemas saudáveis e a biodiversidade possibilitará responder às necessidades dos pobres e ser uma fundação importante para a prosperidade económica Uma boa governança publica e privada, um adequado desenvolvimento financeiro e uma parceria global são transformações essenciais para o crescimento económico e a erradicação d apobreza extrema Objectivo 9: proteger o Ecossistema, a Biodiversidade e a Boa Gestão de Recursos Naturais Objectivo 10: Transformar a Governança para o Desenvolvimento Sustentável Melhorar a vida dos pequenos agricultores fortalecerá a inclusão social, incluindo a igualdade de género; o fornecimento de alimentação sustentável low-cost aumentará o poder de compra dos pobres urbanos e rurais Cidades inclusivas promovem a inclusão social nas áreas urbanas (ex.: ao melhorarem as vidas dos habitantes de bairros de lata, ao criar empregos decentes e ao promover a igualdade de género) Sem controlo, a mudança climática causará danos graves à subsistência e à vida dos pobres A agricultura sustentável reduzirá a pressão sobre os ecossistemas (ex. extração de água) e sobre os limites planetários da agricultura (ex.: menos emissões de gas com efeitos de estufa, melhoria nos cilos de netrogénio e de fósforo) O acesso universal a serviços infraestruturais básicos nas áreas rurais é um componente central da boa governação Cidades sustentáveis garantem ar e água limpos, o uso eficiente do solo e dos recursos, a redução da emissão de gases com efeito de estufa e aumentam a resiliência a desastres e à mudança climática Governos urbanos fecicientes, participativos e transparentes ajudam a garantir transformações urbanas rápidas e equitativas Responder à mudança climática é um dos desafios ambientais (e económicos) centrais que o mundo enfrenta Uma resposta global e efectiva às mudanças climáticas é central para manter a confiança e a cooperação necessárias para fortalecer a parceria global Sem controlo, o colapso da biodiversidade causará graves danos à sobrevivência e à vida dos pobres Garantir a sustentabilidade dos ecossistemas e da biodiversidade é fundamental para a sustentabilidade ambiental Atenção à boa governança pelos atores publicos e privados em relação aos recursos do solo e subsolo Fortalecer a inclusão social e combater a discriminação requer uma boa governança publica e privada A transformação da governança, incluindo a parceria global em torno dos bens públicos tal como um clima estável e uma boa governança publica/privada são centrais para garantir uma sustentabilidade ambiental Uma boa governança do setor publico e privado, uma parceria global O Relatório do Painel de Alto Nível- A New Global Partnership: Eradicate Poverty And Transform Economies Through Sustainable Development. (Maio, 2013) apresenta um ‘Roadmap’ para a passagem dos ODM para os ODS. O Painel propôs que os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável para o pós-2015 se constituam numa Agenda Universal a qual deve ser conduzida no sentido de possibilitar cinco grandes viragens transformativas (five big transformative shifts): • • • Não Deixar Ninguém para Trás. Depois de 2015, devemos passar da redução para o fim da pobreza extrema, em todas as suas formas. Devemos assegurar que a nenhuma pessoa – independentemente da etnicidade, género, geografia, deficiência, raça ou outro estatuto – sejam negados oportunidades económicas básicas e direitos humanos. Colocar o Desenvolvimento Sustentável no Centro. Temos de integrar as dimensões social, económica e ambiental da sustentabilidade. Devemos actuar agora para diminuir o ritmo alarmante da mudança climática e da degradação ambiental, que coloca ameaças sem precedentes para a humanidade. Transformar Economias para o Emprego e o Crescimento Inclusivo. Uma • • transformação económica profunda pode acabar com a pobreza extrema e melhorar os meios de subsistência, pelo fortalecimento da inovação, tecnologia e do potencial dos negócios. Economia mais diversificadas, com igualdade de oportunidades para todos, pode levar à inclusão social, especialmente para os jovens, e potenciar padrões de consumo e produção sustentáveis. Construir a Paz e a Instituições Efectivas, Abertas e Transparentes para Todos. Libertação do conflito e violência é o mais fundamental direito humano e um fundamento essencial para a construção de sociedades prosperas e pacíficas. Ao mesmo tempo, as pessoas de todo o mundo têm como expectativa que os seus governos sejam honestos, transparentes e capazes de responder às suas necessidades. Estamos a clamar por uma mudança fundamental – reconhecer a paz e a boa governança como elemento central de bem estar e não um extra opcional. Criar uma Nova Parceria Global. Um novo espirito de solidariedade, cooperação e transparência entre todos deve pontuar a agenda pós2015. Esta nova parceria deve basear-se numa compreensão comum da nossa humanidade partilhada, baseada no mutuo respieto e mutuo benefício. Deve centrar-se nas pessoas, incluindo aqueles afectados pela pobreza e exclusão, mulheres, juventude, os mais idosos, as pessoas com deficiência e os povos indigenas. Deve incluir as organizações da sociedade civil, instituições multilaterais, governos nacionais e locais, a comunidade académica e científica, negócios e a filantropia privada. Esta Visão dada por estas 5 viragens transformativas é complementada por um conjunto ilustrativo de objectivos e metas. No entanto o Painel recomenda que o número de objectivos e metas a adopter na agenda pós-2015 seja limitado e SMART (específicos, mensuráveis,alcançáveis, relevantes e calendarizados.) “SMART: specific, measurable, attainable, relevant and time-bound” (2013: 13). A preocupação do relatório parece ter sido neste aspecto mais metodológica, sendo os objectivos apresentados meramente ilustrativos. Assim, o relatório afirma que os objectivos devem: a) resolver um assunto critico e ter um forte impacto no desenvolvimento sustentável em função da pesquisa existente; b) Encapsular uma mensagem convincente sobre as questões e energizar pessoas, empresas e governos; c) Ser fácil de compreender e comunicar, sem jargão; d) Ser mensuráveis, utilizando indicadores internacionalmente credíveis e comparáveis, assim como métricas e dados, sendo objecto de monitoramento; e) Ser amplamente aplicáveis em países com diferentes níveis de rendimentos, e naqueles que emergem de conflitos ou recuperam de desastres naturais; f) Ser sustentado na voz do povo, e as prioridades identificados durante as consultas, especialmente a crianças, juventude, mulheres e grupos marginalizados e excluídos; g) Ser baseado em consenso, sempre que possível, construído sobre acordos existentes dos Estados-Membros da ONU, ao mesmo tempo em que se esforçam para ir além dos acordos anteriores para fazer as pessoas viver melhor. Baseados nestes critérios metodológicos e ainda no que uma agenda de desenvolvimento não deve ser, o Painel apresentou 12 objectivos e 54 metas. No entanto, vários assuntos não são respondidos por um único objectivo mas por uma conjunto de objectivos: é o caso da Paz, da Desigualdade, das Alterações Climáticas, das Cidades, das Preocupações dos Jovens, Meninas e Mulheres, e Padrões de Produção e Consumo Sustentável. Os 12 grandes objectivos e ainda assim objectivos práticos (como refere o painel) são os que se seguem no quadro IV Quadro IV - Exemplos de Impacto Potencial (tradução do autor) Em 2030 o mundo teria: Menos 1,2 bilião de pessoas que passam fome e em situação de pobreza extrema; Mais 100 milhões de crianças que de outra forma teriam morrido antes de chegarem aos cinco anos de idade; Mais 4,4 milhões de mulheres que de outra forma teriam morrido durante a gravidez ou o parto; Mais 1,3 bilião de toneladas de alimentos por ano salvas de ir para o lixo; Mais 470 milhões de trabalhadores com bons empregos e meios de subsistência; Mais 200 milhões de pessoas de jovens empregados com as habilitações necessárias para obter um bom trabalho; Mais 1,2 bilião de pessoas com eletricidade; Mais 190-240,000,000 hectares de cobertura florestal 4. Últimas considerações O Relatório do Secretário Geral, de Julho de 2013 e apresentado em Setembro, intitulado ‘Dignity for All’ enfatiza que “a nova era pós-2015 requer uma nova visão e um quadro de resposta. O desenvolvimento sustentável – conseguido pela integração do crescimento económico, justiça social e vigilância ambiental – tem de tornar-se o princípio orientador global e o padrão operacional”. No entanto, o que nos fica do percurso que fizémos por estes dois anos de agendamento de uma nova política global, a dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, é a de uma incompletude. Alguns relatórios procuraram ir longe em termos programáticos, como por exemplo o do UN System Task Team on the Post2015 UN Development Agenda, elaborado para o Secretário Geral e intitulado “Realizing the Future We Want for All” ou o do SDSN (Sustainable Development Solutions Network). Por outro lado, outros relatórios surgem como muito mais cautelosos e menos programáticos, como é o caso paradigmático do último relatório analisado, o Relatório do Painel de Alto Nível- A New Global Partnership: Eradicate Poverty And Transform Economies Through Sustainable Development. Podemosnos enganar mas o que parece ao analisarmos o processo de agendamento da política pública global que os ODS configuram é a de que a máquina governamental global em ação está num processo de experimentação e adaptação, procurando socializar-se e ganhar espaço para a responsabilidade e a partilha de responsabilidades que a tarefa hercúlea implica. A fase de agendamento da política pública global que os ODS configuram é, assim, uma fase de agendamento da própria Organização das Nações Unidas numa nova fase. O estranho caso do quarto pilar do desenvolvimento sustentável e da sua indecisão e o facto da Paz e Segurança e/ou a governança do desenvolvimento sustentável terem sido mais ou menos adoptados é, porventura, um sinal revelador. O Antropoceno caracteriza-se pela instabilidade que implica que a contínua resiliência e governança sejam de facto eixos centrais da sua topologia em ação. O agendamento da política pública global dos ODS parece ser uma experimentação da ‘governança adaptativa’ por parte da ONU, necessária à gestão da resiliência. Bibliografia Mori, Katsuhiko (2012). Following Up Rio+20: The Fourth Pillar Debate. International Christian University. Em linha: http://www.unachina.org/webrms/wwwroot/wnachina/upload/Attach/default/ 270198.pdf. Consultado a 7 de Dezembro 2013 Pisano, Umberto. 2012. Resilience and Sustainable Development: Theory of resilience, systems thinking and adaptive governance. ESDN Quaterly report, nº 26. 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Consultado a 8 de Dezembro 2013 United Nations Secretary-General’s High-level Panel on Global Sustainability (2012). Resilient People, Resilient Planet: A Future worth Choosing. New York: United States. Em linha: http://www.un.org/gsp/sites/default/files/attachments/GSP_Report_web_final.p df. Consultado a 7 de Dezembro 2013 United Nations – General Assembly . (2013). A life of dignity for all: accelerating progress towards the Millennium Development Goals and advancing the United Nations development agenda beyond 2015 - Report of the Secretary-General. 26 July 2013. Em linha: http://www.un.org/en/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/68/202. Consultado a 7 de Dezembro 2013 UN System Task Team on the Post-2015 UN Development Agenda. Realizing the Future We Want for All. Report to the Secretary-General. New York, june 2012. Em linha: http://www.un.org/millenniumgoals/pdf/Post_2015_UNTTreport.pdf. 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