UNIVERSIDADE PAULISTA AS REPRESENTAÇÕES MIDIÁTICAS: UM ESTUDO SOBRE COMO A MÍDIA ABORDA O FATOR DA SUSTENTABILIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP para a obtenção do título de mestre em Comunicação. DANILO SANTIAGO GOMES VALENTIM SÃO PAULO 2014 UNIVERSIDADE PAULISTA AS REPRESENTAÇÕES MIDIÁTICAS: UM ESTUDO SOBRE COMO A MÍDIA ABORDA O FATOR DA SUSTENTABILIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP para a obtenção do título de mestre em Comunicação. Orientadora: Profa. Dra. Carla Reis Longhi. DANILO SANTIAGO GOMES VALENTIM SÃO PAULO 2014 Valentim, Danilo Santiago Gomes. As Representações midiáticas: um estudo sobre como a mídia aborda o fator da sustentabilidade na sociedade contemporânea / Danilo Santiago Gomes Valentim. - 2014. 103 f.: il. color. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Comunicação da Universidade Paulista, São Paulo, 2014. Área de Concentração: Comunicação e Cultura Midiática. Orientadora: Profª.Drª. Carla Reis Longhi. 1. Mídia impressa. 2. Sustentabilidade. 3. Agenda Setting. 4. Análise de Conteúdo. I. Longhi,Carla (orientadora). II. Título DANILO SANTIAGO GOMES VALENTIM AS REPRESENTAÇÕES MIDIÁTICAS: UM ESTUDO SOBRE COMO A MÍDIA ABORDA O FATOR DA SUSTENTABILIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista – UNIP para a obtenção do título de mestre em Comunicação. Aprovado em ____________________ BANCA EXAMINADORA _____________________________________________ Orientadora: Profa. Dra. Carla Reis Longhi Universidade Paulista – UNIP _____________________________________________ Profa. Dra. Carla Montuori Universidade Paulista – UNIP _____________________________________________ Profa. Dra. Elizabeth Gonçalves Universidade Metodista de São Paulo DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho aos meus pais Leni Gomes e Messias Rezende Valentim, pelo apoio e incentivo aos estudos. Aos meus sobrinhos Sara e Vitor, que proporcionam alegrias todos os momentos, e à minha Tia Nice (in memorian). AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço a Deus e a meus pais – pela vida e oportunidades que me proporcionaram – e à minha família que continua unida com laços fortes. À minha orientadora Profa. Dra. Carla Longhi por acreditar em mim e na minha pesquisa, na realização desse sonho, e que, com muita atenção e sabedoria, guiou-me pelos caminhos da academia. Em especial aos convidados da banca examinadora Profa. Dra. Carla Montuori e Profa. Dra. Elizabeth Gonçalves que com seus apontamentos permitiram melhoria nessa pesquisa. A todos os professores da Unip que fizeram parte da minha formação, ajudando nos aspectos mais importantes deste trabalho. Aos amigos Ícaro Freire Pina, Fabio Vizotto, Jarbas Santos, Camilla La Femina, Alexandre Fernandes, Roberto Almeida, Vâner Lima, Fábio de Oliveira, Fábia Gomes, Luciana Fátima, Renata Correa, Fernando Jardim, Luiz Dario dos Santos, que muito ajudaram nessa empreitada; aos professores e hoje colegas Prof. Dr. Carlos Gonçalves, por permitir na discência e na docência os caminhos do Ensino; ao Prof. Dr. Edson Correia, pela costumeira ajuda; ao Prof. Dr. Eric de Carvalho, que propiciou fomento dos meus conhecimentos; à Profa. Ms. Júlia Lúcia, que me proporcionou tremenda oportunidade; à Profa. Ms. Ana Lúcia Silva da Rocha, que abriu as portas e à Marli, que ajudou no primeiro passo. A todos os amigos do programa de Mestrado. A todos os funcionários da secretaria da Universidade Paulista. “Às vezes parecia que era só improvisar E o mundo então seria um livro aberto Até chegar o dia em que tentamos ter demais Vendendo fácil o que não tinha preço” Dado Villa-Lobos / Renato Russo RESUMO A temática Sustentabilidade ocupou um espaço de destaque nas duas últimas décadas, tanto nas discussões governamentais, quanto econômicas e sociais. O termo tornou-se conceito e, nos dias atuais, é falado indistintamente por diferentes públicos, em diferentes conjunturas sociais e adquirindo até significados diversos, cujo entendimento abrange conflitos e correntes de interesses. Procurou-se averiguar esse panorama por meio do corpus de estudo deste trabalho, que é a mídia impressa e o suporte utilizado o jornal Folha de S. Paulo – foi analisado no período de janeiro a julho de 2012. O referencial teórico para análise de conteúdo foi Laurence Bardin e Roque Moraes, como apoio. Sendo assim, analisaram-se alguns dos principais eventos sobre sustentabilidade, tais como: Clube de Roma (1968), Conferência da ONU (1972), Rio 92 (1992) e Rio+20 (2012); também os documentos Relatório o Futuro que Queremos (1968), Relatório Nosso Futuro Comum (1972), Agenda 21 (1992), Agenda 21 Brasileira (1992), Agenda 21 Local – São Paulo (1992), O Futuro que Queremos (2012). A contribuição deste trabalho consiste em observar como a mídia abordou o tema Sustentabilidade; especificamente, o caso da extinção das sacolas plásticas, na cidade de São Paulo, e quais foram os agentes que tiveram vozes no jornal. Palavras-chave: Mídia impressa, Sustentabilidade, Agenda Setting, Análise de Conteúdo. ABSTRACT Sustainability theme occupied a prominent space in the last two decades, both in government discussions, as economic and social. The term has become concept, nowadays, is spoken interchangeably by different audiences, in different social settings, getting up, many meanings, which understanding covering conflicts of interest and current. We sought to investigate this aspect by means of corpus study of this work, which is the print media and the media used the Folha de S. Paulo newspaper. It was analyzed in the period from January to July 2012. The theoretical framework for content analysis was Laurence Bardin and Moraes as support. Therefore, we analyzed some of the main events on sustainability, such as the Club of Rome (1968), the UN Conference (1972), Rio 92 (1992) and Rio +20 (2012); Also the documents The Future We Want Report (1968), Our Common Future Report (1972), Agenda 21 (1992), Brazilian Agenda 21 (1992), Local Agenda 21 - Sao Paulo (1992), The Future We Want (2012). The contribution of this work is to observe how the media addressed the theme Sustainability; Specifically, the case of the extinction of plastic bags in the city of São Paulo, and what the agents who had voices in the newspaper were. Keywords: Print media, Sustainability, Agenda Setting, Content Analysis. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Imagem da capa do documento Limites do Crescimento ......................... 17 Figura 2 – Primeira conferência da ONU em Estocolmo na Suécia. ......................... 18 Figura 3 – Imagem da capa do Relatório Nosso Futuro Comum .............................. 19 Figura 4 – Logotipo da Rio 92. .................................................................................. 20 Figura 5 – Imagem da Capa da Agenda 21 Global. .................................................. 21 Figura 6 – Logotipo da Agenda 21 Brasileira ............................................................ 24 Figura 7 – Capa da Agenda 21 local da cidade de São Paulo .................................. 26 Figura 8 – Logotipo da Conferência Rio+20 .............................................................. 29 Figura 9 – Mídia Dados, 2013 ................................................................................... 38 Figura 10 – Mídia Dados, 2013. ................................................................................ 39 Figura 11 – Mídia Dados, 2013. ................................................................................ 40 Figura 12 – Gráfico das matérias sobre o Meio Ambiente sem subtemas ................ 44 Figura 13 – Intervalos de tempo do Agenda Setting ................................................. 51 Figura 14 – Intervalos de tempo das matéria sobre a “Rio+20” ................................ 51 Figura 15 – Agenda de Mídia e Agenda o Público .................................................... 52 Figura 16 – Agenda de Mídia e Agenda o Público .................................................... 53 Figura 17 – Matéria Folha de S. Paulo – 03/06/2012 ................................................ 54 Figura 18 – Matéria Folha de S. Paulo – 17/01/2012 ................................................ 61 Figura 19 – Matéria Folha de S. Paulo – 19/01/2012 ................................................ 62 Figura 20 – Matéria Folha de S. Paulo – 20/01/2012 ................................................ 64 Figura 21 – Matéria Folha de S. Paulo – 22/01/2012 ................................................ 65 Figura 22 – Matéria Folha de S. Paulo – 23/01/2012 ................................................ 67 Figura 23 – Matéria Folha de S. Paulo – 25/01/2012 ................................................ 68 Figura 24 – Matéria Folha de S. Paulo – 25/01/2012 ................................................ 69 Figura 25 – Matéria Folha de S. Paulo – 26/01/2012 ................................................ 71 Figura 26 – Matéria Folha de S. Paulo – 31/01/2012 ................................................ 73 Figura 27 – Matéria Folha de S. Paulo – 02/02/2012 ................................................ 75 Figura 28 – Matéria Folha de S. Paulo– 04/02/2012 ................................................. 76 Figura 29 – Matéria Folha de S. Paulo – 05/02/2012 ................................................ 77 Figura 30 – Matéria Folha de S. Paulo – 09/03/2012 ................................................ 79 Figura 31 – Matéria Folha de S. Paulo – 15/03/2012 ................................................ 80 Figura 32 – Denúncia feita pelo Idecom – 28/03/2012 .............................................. 81 Figura 33 – Matéria Folha de S. Paulo – 05/04/2012 ................................................ 83 Figura 34 – Matéria Folha de S. Paulo– 22/05/2012 ................................................. 84 Figura 35 – Matéria Folha de S. Paulo– 26/06/2012 ................................................. 86 Figura 36 – Aparições das categorias ....................................................................... 91 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Descrição comparativa do fator meio ambiente entre as décadas de 1970 e 1990 ....................................................................................................................... 16 Tabela 2 – Objetivos propostos pela Agenda 21 ....................................................... 28 Tabela 3 – Índice de Desenvolvimento Humano no Brasil de 1980 a 2012. ............. 32 Tabela 4 – Tabela geral das matérias sobre o Meio Ambiente sem subtemas ......... 44 Tabela 5 – Matérias sobre a Rio+20 ......................................................................... 49 Tabela 6 – Categorias e Subcategorias .................................................................... 60 Tabela 7 – Quantidade de aparições das categorias ................................................ 91 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 12 1 OS ANTECEDENTES DO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE ..................... 14 1.1 Sustentabilidade ......................................................................................... 14 1.2 Agenda 21 Brasileira ................................................................................... 24 1.3 Agenda 21 Local ......................................................................................... 26 1.4 A globalização e as influências na sustentabilidade ................................... 32 2 ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS NO ÂMBITO DA MÍDIA IMPRESSA .................... 38 2.1 Jornal no Brasil ........................................................................................... 38 2.2 Folha de S. Paulo........................................................................................ 42 2.3 Metodologia ................................................................................................ 43 3 ANÁLISE DE CONTEÚDO DO CASO REFERENTE ÀS SACOLAS PLÁSTICAS NA FOLHA DE SÃO PAULO .................................................................................... 56 3.1 Análise de Conteúdo ................................................................................... 56 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 89 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 93 ANEXOS ................................................................................................................... 96 ANEXO 1 – Projeto de Lei PL 612 ......................................................................... 96 ANEXO 2 – Termo de Ajustamento de Conduta .................................................... 99 12 INTRODUÇÃO A mídia pode ser considerada um instrumento de formadores de opinião, nesse caso, responsável pela construção, emissão e pauta das mensagens e temas discutidos pela sociedade. O papel dos meios de comunicação é pesquisado e amplamente debatido em diversos estudos que buscam analisar a influência da comunicação nos grupos sociais. A mídia busca mostrar para as pessoas os acontecimentos e dimensionar as informações. Portanto, tem-se o uso dos recursos midiáticos através dos meios de comunicação diariamente no controle das informações que são divulgadas; e, na contemporaneidade, a sociedade aceita a mídia como intercessor da realidade. É a mídia que valoriza e distribui as informações para a sociedade. Este trabalho discute como o tema sustentabilidade é representado pelos meios de comunicação de diversas maneiras. Neste caso, é importante compreender como o jornal aborda o tema na sociedade contemporânea. Segundo o filósofo brasileiro Leonardo Boff (2012), “sustentabilidade é a ação que procura devolver o equilibro à Terra e aos ecossistemas para que a casa comum possa continuar habitável e para que possamos salvar a vida humana e nossa civilização”. Neste tocante, o autor procura, em certo aspecto, explicar em sua obra o que é e o que não é o termo sustentabilidade, em termos filosóficos: O conjunto de processos e ações que se destinam a manter a vitalidade e a integridade da Mãe Terra, a preservação de seus ecossistemas como todos os elementos físicos, químicos e ecológicos que possibilitam a existência e a reprodução da vida, o atendimento das necessidades da presente e das futuras gerações, e a continuidade, a expansão e realização das potencialidades da civilização em suas várias expressões. (BOFF, 2012, p.14) Na realidade, para ele, sustentabilidade significa pensar no presente e no futuro, sendo que é necessário o equilíbrio entre a economia, o social e o meio ambiente, de forma a se obter esse objetivo, de fato. Portanto, a sustentabilidade que será analisada neste trabalho é a sustentabilidade ambiental. A gravidade da escassez dos recursos naturais é de extrema importância para a sobrevivência humana, dando ênfase ao desenvolvimento sustentável do planeta. Portanto, percebe-se uma série de movimentos que propõem discutir um conjunto de metas para equilibrar o crescimento econômico com a preservação 13 ambiental e com a redução da pobreza, ou seja, minimizar a exclusão social. Daí a importância da comunicação de massa na propagação desse assunto. Como corpus de estudo, selecionou-se a mídia impressa e o suporte para análise, o jornal Folha de S. Paulo. A escolha deste deu-se pela forma hegemônica que esse tipo de mídia apresenta, e por ser um jornal consolidado e que tem a segundo maior tiragem nacional, de acordo com o Índice de Veiculação e Circulação – IVC, 2014. Isso instigou a pesquisa para saber: Como o jornal articula essas matérias? Quais foram as vozes que tiveram mais espaço? Em quais cadernos? Qual foi o discurso do jornal? Essas foram algumas das questões que motivaram esta pesquisa e deram origem ao estudo desse assunto. Assim, estabeleceu-se o objetivo deste trabalho, que é analisar como a mídia impressa abordou o tema sustentabilidade. Para responder as perguntas acima, a dissertação foi dividida em três capítulos. O capítulo 1 – Os Antecedentes do conceito de sustentabilidade – possui um cunho mais conceitual; traçou-se um percurso histórico sobre os principais eventos que discutiram questões ambientais, e como se deu o conceito de sustentabilidade. No Capítulo 2 – A sustentabilidade e a mídia impressa –, foram exploradas as hipóteses do Agenda Setting e da Espiral do Silêncio, para compreensão do objeto deste estudo, dando enfoque para a conferência Rio+20, na Folha de S. Paulo Finalmente, no Capítulo 3 – O caso da extinção das sacolas plásticas no Estado de São Paulo ganha ênfase –, estuda-se o caso no jornal Folha de S. Paulo, por meio de análise dos conteúdos das matérias, devidamente separadas em categorias distintas, para a identificação do que prevaleceria. 14 1 OS ANTECEDENTES DO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE 1.1 Sustentabilidade Pode-se dizer que a preocupação com o meio ambiente é tão antiga quanto o período de existência do ser humano no planeta Terra, datando desde o início do surgimento das cidades, com o crescimento da população, o qual teria ocasionado os primeiros impactos ambientais diagnosticáveis. Com o avanço do desenvolvimento tecnológico, a partir das primeiras descobertas científicas e suas inevitáveis aplicações no campo da indústria, surge uma serie de invenções, inovações e aparatos que impulsionam na transformação do mundo da natureza. De acordo com Sevcenko (2012), considerando-se desde o período de origem da espécie humana até os dias atuais, é possível se verificar que 80% dessas descobertas aconteceram nos últimos 100 anos. De fato, não seria possível discutir o tema Sustentabilidade antes dessa época, pois quanto maior é o desenvolvimento industrial, consequentemente, tanto maiores são os impactos e danos causados ao meio ambiente. Sevcenko (2012, p.15) aponta como aspecto importante no crescimento vertiginoso desse impacto o processo de desenvolvimento tecnológico, no qual diversos estudos e pesquisas contribuíram para a exploração e desenvolvimento durante o processo de produção em alta escala. Sendo que este processo teria ocorrido a partir de 1870, com a Revolução Científico-Tecnológica, quando houve o desenvolvimento da eletricidade, o surgimento dos motores de combustão e, consequentemente – mais tarde –, o aparecimento dos primeiros automóveis e motocicletas, além da invenção dos produtos de plástico e de outros derivados de petróleo. Esse ciclo teria se completado com a criação das usinas siderúrgicas e as indústrias químicas, o que teria repercutido no desenvolvimento de máquinas operacionais, no avanço dos meios de transporte e de comunicação, transformando assim, definitivamente, todos os recursos de produção industrial moderna. 15 Posteriormente a esse período, observa-se uma crescente evolução nos meios tecnológicos de produção, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando, nesse momento, são desenvolvidos outros aparatos tecnológicos, tais como os radares e os novos produtos fabricados a partir do plástico. Após a segunda guerra mundial, os Estados Unidos decidem articular um plano para apoiar outras economias da Europa, África, Ásia e América Latina, na tentativa de recuperação de suas economias, buscando consolidar seu papel de liderança econômica no cenário mundial, por meio da internacionalização do dólar americano como moeda comum para a realização de negócios e transações em comum – o que permitiu, consequentemente, a estabilização dos mercados e a minimização de crises econômicas graves. Todo esse engajamento resultou em um crescimento econômico e industrial, que cresceu 6% ao ano, no período de 1953 e 1975 (SEVCENKO, 2012). Desse modo, tais acontecimentos promoveram uma cadeia de mudanças tecnológicas com grande impacto no processo de produção, o que originou crescimento econômico, bem como desenvolvimento acelerado e desordenado das organizações em busca de altos lucros, as quais, para atingir metas arrojadas, teriam passado a aproveitarse, de forma demasiada, do uso excessivo de energia e de recursos naturais tidos como inesgotáveis, não se prevendo as consequências futuras que esse uso exagerado dos recursos poderia acarretar às gerações posteriores. Esse novo cenário de produção de massa, aceleração do crescimento econômico e abuso dos recursos naturais é que teria começado a trazer diversos problemas ambientais – os quais se tornaram cada vez mais visíveis. O que teria impulsionado crescente preocupação com a questão da sobrevivência da espécie humana e, um desejo amplo de se estabelecer critérios para a visão de um desenvolvimento sustentável do planeta, considerando-se o meio ambiente como chave essencial desse princípio de equilíbrio necessário. Conforme exposto por meio do quadro a seguir, percebe-se que a abordagem do meio ambiente passa a ter uma grande mudança de enfoque, principalmente a partir dos anos 70, quando se iniciam questões específicas relacionadas a preocupações ambientais, tendo em vista os primeiros problemas locais decorrentes, em que as empresas figuravam como elemento principal dessa 16 questão. Verifica-se também que, até então, o desejo em relação ao crescimento era zero, pois o foco empresarial tinha viés negativo em relação ao meio ambiente. Já a partir de 1990, as questões passam a não ser mais pensadas, de forma peculiar, uma vez que estas são, então, inseridas dentro do contexto das questões ambientais, econômicas e sociais. O foco geográfico passa a ser global, pois as empresas são vistas, a partir desse momento, como parcerias para buscar soluções em relação ao crescimento sustentável, em que se torna necessária a inter-relação entre empresas, sociedade e meio ambiente. Tabela 1 – Descrição comparativa do fator meio ambiente entre as décadas de 1970 e 1990 Fonte: Peattie e Charter (2005 p.519 apud Dias, 2009 p. 12). É possível perceber que acontece uma grande mudança de enfoque entre as décadas de 1970 e 1990, conforme salientado. Dessa forma, nas duas últimas décadas, a preocupação com o meio ambiente ocupa espaço de destaque, tanto nas discussões governamentais, quanto econômicas e sociais. A seguir, são apresentados, nesta dissertação, alguns dos principais encontros de cúpula mundial, nos quais se reuniram governos, empresários, pesquisadores entre outros, para discutir os danos que o meio ambiente tem sofrido recentemente. 17 No caso desta dissertação, foram selecionados quatro encontros de relevância: o Clube de Roma e mais três Conferências das Nações Unidas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento. Neste caso, foi escolhida, a princípio: a primeira reunião de 1972, realizada em Estocolmo, na Suécia; a segunda, realizada em 1992 no Rio de Janeiro e; a terceira de 2012, também no Rio de janeiro. Figura 1 – Imagem da capa do documento Limites do Crescimento Fonte: Relatório Limites do Crescimento Um encontro bastante relevante, realizado na Itália, na cidade de Roma, na Academia dei Lincei, com o intuito de discutir questões ambientais recebeu o nome de “Clube de Roma” e foi fundado em abril de 1968. Era composto por várias personalidades de cunho mundial, formado por “cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários públicos de nível nacional ou internacional” (CLUBE DE ROMA, 1976), os quais se uniram para tratar assuntos relacionados ao meio ambiente, política internacional e economia, sendo que deste encontro formularam um relatório chamado “limites do crescimento”, conforme assinalado a partir da imagem do documento acima, sendo que este relatório previa um desastre ambiental nos próximos 100 anos, afirmando o seguinte: Se as atuais tendências de crescimento da população mundial – industrialização, poluição, produção e uso dos recursos naturais – continuarem, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. (CLUBE DE ROMA, 1976). 18 Desse modo, fazia-se uma alerta urgente em relação à capacidade industrial, à intenção de crescimento da população e à falência dos recursos naturais no planeta em escala global. Figura 2 – Primeira conferência da ONU em Estocolmo na Suécia. Fonte: <www.revistabrasil.gov.br>Acesso em: 01/07/2013. A Conferência da Organização das Nações Unidas – ONU –, acerca do meio ambiente, realizada na cidade de Estocolmo, na Suécia, em 1972, foi o primeiro encontro em âmbito mundial, que reuniu representantes de 27 países para tratar de assuntos ambientais globais. Conforme a declaração da ONU, durante a Conferência de 1972, proclamouse o primeiro princípio essencial na relação homem e meio ambiente: O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca, o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem adquiriu o poder de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes, tudo que o cerca. Os dois aspectos do meio ambiente humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o direito à vida mesma. Esse primeiro encontro organizado pela ONU, na Suécia, chamou a atenção para a capacidade do homem de prosperar pelo constante incremento de benefícios proporcionados à população, a partir do desenvolvimento tecnológico e econômico e 19 da capacidade de buscar maiores resultados satisfatórios, ao explorar a natureza com o uso da tecnologia para intensificar o processo de produção industrial, para se obter lucros assombrosos. No entanto, percebeu-se que esta busca desenfreada de acúmulo de riqueza e conforto material, sem cuidado ou critério, pode comprometer os recursos naturais do planeta, sendo, portanto, a obrigação do homem a sua sensatez de preservar a natureza, como afirma o Relatório da Conferência da ONU em 1972 “O Homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio”. Sendo assim, o homem é também responsável pelo uso dos recursos naturais e da preservação deles. Os problemas de maior destaque apresentados foram questões específicas de preocupação ambiental, como a poluição nos grandes centros, conforme, mostra o quadro acima, sendo a noção de sustentabilidade considerada a fonte de suporte intelectual, cabendo à empresa a responsável pela preservação e/ou degradação ambiental. Nesse sentido, havia um princípio de ênfase no meio ambiente, pensando-se o aspecto ambiental, tal como se observou no quadro citado anteriormente, referente à visão geral dos anos 70. Figura 3 – Imagem da capa do Relatório Nosso Futuro Comum Fonte: Relatório Nosso Futuro Comum Após 10 anos da Conferência de Estocolmo, realizada no ano de 1983, a Organização das Nações Unidas, criou a Comissão Mundial sobre o meio ambiente, visando estudar e observar o assunto, sendo indicada pela ONU a então primeira 20 ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, para presidir e chefiar esta mesma comissão. Em 1987, tal comissão elaborou o famoso “Relatório de Brundtland”, o qual se tornou também conhecido como “Nosso Futuro Comum”, que tinha como objetivo discutir assuntos ambientais e determinar ações positivas de diversos âmbitos. Para isso, propôs-se o termo “Desenvolvimento Sustentável”, que, de acordo com o Relatório de Brundtland (1987), significava “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas necessidades”, garantindo assim a qualidade de vida da atual bem como das futuras gerações. É, portanto, a partir desse período que a visão de “Desenvolvimento Sustentável” ganha maior relevância. Ao criar esse termo, os conferencistas propuseram, em sua base conceitual, os chamados “três pilares do Desenvolvimento Sustentável”: os fundamentos econômicos, sociais e ambientais, sendo que a ênfase principal, segundo eles, deveria se concentrar nos sistemas sociais e econômicos, considerando-se questões ambientais de âmbito global, como o buraco na camada de ozônio e a poluição do ar, relacionando-se, consequentemente, o “crescimento sustentável” ao desenvolvimento econômico. Logo no primeiro documento citado neste trabalho, apresenta-se a seguinte afirmação: “a proteção e o melhoramento do meio ambiente é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro” (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS, 1972, p.1). A partir desse momento, as autoridades passam a dirigir o seu pensamento substancialmente para qualidade de vida dos povos, no uso dos recursos naturais, bem como no desenvolvimento econômico, conforme observado no quadro citado anteriormente. Figura 4 – Logotipo da Rio 92. Fonte: Revistabrasil.gov.br 21 Em 1992, no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, precisamente entre os dias 03 e 14 de junho, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), com a participação de mais de 170 países, em que houve uma mudança de perspectiva da relevância das questões ambientais, definindo-se um novo panorama mundial de preocupações crescentes, tendo em vista se equilibrar o acelerado crescimento da economia com a preservação do meio ambiente. Tal conferência notabilizou-se como “ECO 92” e “Rio 92” e serviu para alertar a humanidade, dentro de uma dimensão global, em relação às ameaças ambientais catastróficas, buscando-se a necessidade de união entre os países e suas principais lideranças, para pensarem conjuntamente na proteção necessária ao meio ambiente, em termos mais práticos. Acresce-se que foi somente após esta conferência que houve a popularização do termo “Desenvolvimento Sustentável”, o qual adquiriu então destaque mundial. A partir desse contexto, surgiram vários documentos fundamentais como a Agenda 21 – considerada como a Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento; a Convenção da Biodiversidade; e a Carta da Terra. Dentro deste trabalho, enfatizar-se-á, sobretudo, o documento Agenda 21, dada a relevância que a ONU atribuiu a ele. Figura 5 – Imagem da Capa da Agenda 21 Global. Fonte: Documento Agenda 21 Global 22 A Agenda 21 contém 40 capítulos que tratam de questões sociais, econômicas e ambientais, combate à pobreza, padrão de consumo, saúde humana, educação ambiental, combate ao desflorestamento, fortalecimento do papel do comércio e da indústria, recursos e mecanismos de financiamento. Esse documento estabelece uma possibilidade de esforços integrados, em âmbito mundial, visando tratar de temas que favoreçam o desenvolvimento sustentável, a justiça social e a economia mundial. Todavia, a Agenda 21 estabelece que cada país tem de possuir uma Agenda Nacional e que cada cidade ou município precisa ter uma Agenda Local. Nesta pesquisa foram estudados os seguintes documentos: a Agenda 21 Global, a Agenda 21 brasileira e a Agenda Local da cidade de São Paulo, ambas as quais serão explicadas, em separado, a seguir. “A Agenda 21 é, ao mesmo tempo, mapa e roteiro para construção de uma sociedade sustentável” (AGENDA 21, p. 11). Esse pensamento expõe, portanto, uma concepção diferente, pois prevê que, além das questões ecológicas, outros desafios devem ser igualmente enfrentados, tais como: a pobreza e os direitos humanos. No preâmbulo do primeiro capítulo do documento Agenda 21, afirma-se que, para alcançar os objetivos da Agenda 21, é necessário principalmente: “um fluxo de recursos financeiros novos e adicionais para os países em desenvolvimento, destinados a cobrir custos incrementais necessários às ações que estes países deverão empreender” (AGENDA 21), ou seja, prontamente, no início deste documento, aparecem questões econômicas que reforçam a cooperação entre as nações para se alcançar o chamado Desenvolvimento Sustentável, pois “tanto as políticas econômicas dos países individuais como as relações econômicas internacionais têm grande relevância para o desenvolvimento sustentável. A reativação e aceleração do desenvolvimento exigem um ambiente econômico e internacional.” (AGENDA 21, p. 13) Nesse sentido, ressalta-se que é necessária uma parceria mundial que preveja empenho de todos envolvidos: governos e organizações dos setores públicos e privados, de modo a enfrentarem juntos os desafios ambientais para se fortalecerem, conforme as recomendações feitas por intermédio da Agenda 21 (idem, p.13), pois há, decisivamente, a “necessidade de atingir uma economia em 23 nível mundial mais eficiente e equitativa, sem perder de vista a interdependência crescente da comunidade das nações”. Considera-se, então, de grande relevância o fortalecimento dos governos para se atingir tal objetivo, conforme os termos idealizados pelo acordo da Agenda 21. Percebe-se que as relações econômicas, políticas e sociais entre os países possuem grande importância mediante a forma com que são tratados durante a exposição dessa conferência, pois se observa que: A reativação e a aceleração do desenvolvimento exigem um ambiente econômico e internacional e ao mesmo tempo dinâmico e propício, juntamente com políticas firmes. Ausência de qualquer dessas exigências determinará o fracasso. (AGENDA 21, p. 13) Sendo assim, o fortalecimento da economia bem como o artifício da política é imprescindível para o alcance do Desenvolvimento Sustentável, segundo o que também se atesta a partir do mesmo documento (idem): A Cooperação internacional nessa área deve ser concebida para complementar e apoiar políticas econômicas internas saudáveis para que possa haver um avanço mundial no sentido do desenvolvimento sustentável. A princípio, não se pode negar que as variáveis da economia e da política estejam enraizadas dentro da visão do processo de Desenvolvimento Sustentável, pois, de acordo com o documento Agenda 21, essa tríade indissociável – política, economia e desenvolvimento sustentável – precisa estar intimamente interrelacionada, para que exista melhoria global nas atitudes e, assim, se garantir para que se possa proteger o meio ambiente, para o sucesso de implantação do Desenvolvimento Sustentável. Desse modo, os esforços econômicos e políticos devem ser inseridos como objetivos principais correlatos para a sustentabilidade. É necessário que fique claro que um dos objetivos deste trabalho é justamente trazer à tona as perspectivas de alguns documentos como citado anteriormente, e traremos a seguir apontamentos da Agenda 21 e a forma com que isso sucedeu na prática de incorporação cotidiana. O documento – cuja imagem está apresentada a seguir – foi criado originalmente nos moldes globais, e prevê a implantação da Agenda 21 nacional, 24 que deve ser implantada em cada país e Agenda 21 local, que deve ser implantada em cada cidade ou locais que precisam promover a sustentabilidade ambiental e a economia, para preservar-se a qualidade de vida das futuras gerações. Figura 6 – Logotipo da Agenda 21 Brasileira Fonte: Agenda 21 Brasileira 1.2 Agenda 21 Brasileira Os países que participaram da conferência das Nações Unidas durante a chamada “Rio 92” assumiram um pacto de inserir nas políticas públicas diversos compromissos com o desenvolvimento sustentável e, tendo como base a Agenda 21 Global, foi elaborada a Agenda 21 nacional do Brasil – denominada de Agenda 21 Brasileira. Conforme informações institucionais coletadas do Ministério do Meio Ambiente, afirma que o documento agenda brasileira é sem dúvida: [...] um processo e instrumento de planejamento participativo para o desenvolvimento sustentável e que tem como eixo central a sustentabilidade, compatibilizando conservação ambiental, a justiça social e o crescimento econômico. Na Agenda 21 Brasileira percebe-se claramente o alinhamento com a Agenda 21 Global, especialmente no que diz respeito aos quesitos econômicos e políticos, tais como: “adequar as propostas de políticas públicas de acordo aos novos arranjos políticos, econômicos e sociais e ambientais do país”. O documento Agenda 21 Brasileira defende, dessa maneira, o conceito fundamental de sustentabilidade, apoiando o fomento da participação de diversos grupos que devem estar comprometidos com um pacto firmado de mútua 25 cooperação, uma vez que “tantos em termos de mobilização dos grupos sociais serão afetados pelas políticas de desenvolvimento sustentável” (idem). Percebe-se que diversas ações práticas estão previstas para afetar grupos sociais organizados. Todavia, para que o Brasil haja de modo competente nessa agenda nacional, é necessário arrojar-se no campo da educação ambiental, pois as empresas precisam comprometer-se em relação às questões sociais e ambientais, havendo maior participação da sociedade, e o governo também tem de ajudar no sentido de minimizar a desigualdade social, empregando recursos financeiros adequados para viabilizar projetos voltados ao desenvolvimento sustentável. É bom lembrar que a elaboração da Agenda 21 Brasileira demorou seis anos para ser concluída, considerando-se que “esse processo, que se deu de 1996 a 2002, foi coordenado pela Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável, teve o envolvimento de cerca de 40 mil pessoas de todo o Brasil” (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2013). De acordo com o documento, a “elaboração da Agenda 21 Brasileira é a mais ampla experiência de planejamento participativo desenvolvido no país, posterior à Constituição Federal der 1988”. A Agenda 21 destaca a importância no que diz respeito à “alocação de recursos escassos, que podem ter usos alternativos, em diferentes programas e projetos, assim como a distribuição de seus custos e benefícios entre diversas pessoas e grupos sociais são decisões de natureza eminentemente política” (AGENDA 21 BRASILEIRA, p.86). Pretende-se que esses grupos sejam estimulados a compartilhar ações impostas ou aconselhadas pelo governo e empresas, os quais determinarão tais ações para que os grupos sociais possam contribuir efetivamente em relação ao meio ambiente, pois logo, estes grupos – que agem em diversas instâncias – poderão vislumbrar claramente as consequências das ações políticas desencadeadas com base no desenvolvimento sustentável. Ainda, de acordo com a Agenda 21 Brasileira (p.113): As instituições públicas e as privadas das áreas mais desenvolvidas de um país pretendem, pela manipulação de sua força de decisão pelo poder político central, definir a forma, a intensidade e a cronologia do uso dos recursos naturais e dos recursos energéticos das áreas menos desenvolvidas, particularmente daquelas localizadas na fronteira externa da 26 economia nacional, desconhecendo os interesses dos de sua força e locais quanto ao seu próprio desenvolvimento. No entanto, ressalta-se que nesse documento não se previa ações do Governo Federal, tendo em vista que esta é uma agenda de princípios, não ficando claras as ações específicas em forma de lei. 1.3 Agenda 21 Local Conforme explicado anteriormente, cada país, cada cidade ou município, deveria elaborar a sua Agenda Local. Neste trabalho explanar-se-á sobre a Agenda 21 da cidade de São Paulo, pelo viés que a pesquisa está enfatizando. Figura 7 – Capa da Agenda 21 local da cidade de São Paulo Fonte: Agenda 21 local – São Paulo Após a conferência “Rio 92”, a cidade de São Paulo – em concordância com as metas da Agenda 21 Global – gerou o documento Agenda Local, durante o ano de 1996, sendo que, graças à Prefeitura da Cidade, foi possível desenvolver-se esforços e contribuições em conjunto com a sociedade civil local. Esta ação teve como objetivo fomentar o poder do município de São Paulo nas decisões sociais, econômicas e ambientais voltadas aos interesses da região, tendo em vista certos preceitos básicos da agenda local, voltados a “instrumentalizar o poder municipal no sentido de combinar desenvolvimento econômico, proteção ao meio ambiente e justiça social” (AGENDA 21 LOCAL SP, 2014). A Agenda Local da cidade de São Paulo enfocava essencialmente os seguintes eixos básicos: Desenvolvimento Urbano Desenvolvimento Social 27 Qualidade Ambiental Estrutura Econômica e administrativa Como a cidade de São Paulo cresceu de forma desordenada, sofrendo muito em detrimento disso, com diversas enchentes, por exemplo, por conta de saneamento ambiental deplorável, sem deixar de mencionar o trânsito urbano caótico, fruto de transporte público ineficiente, aliado à facilidade no crédito para compra de automóveis de uso individual, tudo isso acabou por comprometer ainda mais o meio ambiente e a qualidade de vida dos paulistanos. Cita-se, também, a especulação imobiliária, que proporcionou desenvolvimento da cidade e muito desmatamento, conforme Agenda 21 local São Paulo, 2012: “Mecanismos de especulação imobiliária e à deterioração gradual das condições sociais, conduziram o município a um quadro de degradação ambienta que se caracteriza hoje pela carência de áreas verdes e poluição”. Sendo assim, percebe-se um abuso no uso dos recursos da cidade – que acabaram por ocasionar diversos problemas ambientais. Segundo informações institucionais da Prefeitura de São Paulo (2014). Dentre os problemas que comprometem de forma mais contundente a qualidade de vida urbana, estão as áreas verdes [...] encostas de mananciais [...] condições precárias de esgotamento sanitário [...] poluição do ar e da água, assim como a sonora. A Agenda 21 local tem como objetivo juntar esforços do município para fomentar as ações econômicas, sociais e ambientais. A Agenda 21 local “é um processo de desenvolvimento sustentável e de construção de parcerias entre autoridades locais, e outros setores, para implementá-las, sendo parte crucial do movimento em direção à sustentabilidade”, portanto, o envolvimento de diversos setores são necessários, assim como a sociedade “é um processo de construção conjunta entre cidadãos e autoridades locais”, logo, poder público, setor privado e população precisam aderir a ações para melhoria continua na cidade em diversos setores como transporte, educação e qualidade de vida. (AGENDA 21 LOCAL SP). Uma das ações apontadas na Agenda 21, especificamente os resíduos sólidos, que trata a coleta de resíduos sólidos na Cidade de São Paulo, sobre os resíduos produzidos pelas residências, como explanado no documento Agenda 21 Local São Paulo (p. 93), “No que tange aos resíduos domiciliares, a coleta é da 28 ordem de aproximadamente 10.000 t/dia. 60% correspondem a matéria orgânica; 14% papel/papelão; 11,5% plástico duro/filme; 5% vidro e metais; e 4,5% outros”. Ainda de acordo com o documento, “a problemática dos resíduos sólidos em São Paulo está, em parte, no processo de crescimento desordenado – de forma inconsequente e irregular –, danosa e aleatória ocupação do solo, resultando em escassez de área adequadas”, ou seja, não existem locais próprios para tratamento dos resíduos e capacidade para atender a demanda da cidade de forma adequada. O consumo de produtos descartáveis, feitos de plástico, papel e vidro aumentou muito, o que aumenta tal circunstância. O documento cita a Coleta Seletiva como uma ação de melhoria, porém, esta ação corresponde a 0,03% do total gerado, porcentagem baixa para o total de 10.000 toneladas ao dia, conforme descrito anteriormente. Outra proposta que consta no documento é o centro de coleta seletiva em vários locais da cidade, e espera-se, com essa ação, aumentar a porcentagem de material reciclado. Dentre os objetivos propostos por essa Agenda, no item “Qualidade Ambiental”, a diminuição da produção de resíduos se faz necessária para abranger a população, órgãos públicos e órgãos privados, e são colocados como importantes para essa exigência, como aponta o quadro a seguir: Tabela 2 – Objetivos propostos pela Agenda 21 Fonte: Adaptado da Agenda 21 local – São Paulo Diante de todos os fatos expostos, se faz, indubitavelmente, necessária uma aliança do primeiro setor com empresas privadas e o terceiro setor, pois estes precisam se unir e desenvolver ações, bem como procedimentos para preservação ambiental da cidade, visando melhoria contínua na qualidade de vida dos paulistanos, sendo também demandado o comprometimento da população com vistas às medidas práticas destas ações emergenciais. 29 Conforme se observa na Agenda Local da cidade de São Paulo, é vital “estimular o desenvolvimento científico e tecnológico em relação à sustentabilidade tanto nos recursos hídricos como em todos os componentes da natureza” (AGENDA LOCAL, p. 89). Em certa medida, no documento local, não existe um roteiro previamente a ser seguido, mas, sim, diversas sugestões de melhoria para a cidade e o cidadão, sendo que tais ações podem ser promovidas pelas autoridades locais e seus parceiros. As ações locais, como em bairros e condomínios, podem ser integradas, também, com as ações do município. Todavia, não existe a leitura desse documento circunstancialmente na íntegra, pois o que é possível de se verificar, em termos práticos, no campo das alianças e parcerias, é mais uma carta de intenções, a qual se organiza e propõe princípios básicos, no entanto, não se realiza como uma proposta efetiva, em todos os níveis em termos de leis vinculadas a ações, pois estas são meramente descritas e tratadas como orientações a serem observadas. Figura 8 – Logotipo da Conferência Rio+20 Fonte: ONU Em 2012, no Rio de Janeiro, ocorreu a recentemente a Conferência das Nações Unidas, chamada de Rio+20, ou seja, 40 anos após a conferência na Suécia e, 20 anos após a Cúpula da Terra, realizada por meio da “Rio 92”, na qual foi adotado o documento Agenda 21, como já citado. Nesta nova empreitada, a Organização das Nações Unidas reuniu Instituições e Governos de cunho internacional, com o objetivo de retomar as questões das conferências anteriores: “Estocolmo 1972”, “Rio de Janeiro 1992” e “Johanesburgo 2002”, tendo em vista a necessidade de se discutir as metas relevantes para equilibrar o crescimento 30 econômico em conjunto com a preservação ambiental aliada à redução da pobreza com minimização da exclusão social, reafirmando, grosso modo, o compromisso com o desenvolvimento sustentável. De acordo com o Jornal Folha de São Paulo, a Conferência Rio+20 foi vista na época como “o maior evento realizado pela Organização das Nações Unidas – ONU” até então. As principais discussões dessa conferência foram focadas em dois temas oficiais, o primeiro deles foi acerca da “Economia Verde”, mais focada nas entrelinhas do desenvolvimento sustentável e o segundo, a respeito dos esforços necessários de minimização da pobreza, apresentando-se uma avaliação concreta do que havia sido feito nos últimos anos, desde a realização dos encontros de cúpula: Como construir uma economia verde para alcançar o desenvolvimento sustentável e retirar as pessoas da pobreza, incluindo o apoio aos países em desenvolvimento, que nos permitirá seguir o caminho verde para o desenvolvimento. (ONU 2012) Segundo Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU (2012), as aspirações deste novo encontro eram extremamente encorajadoras: A Rio+20 será uma das mais importantes reuniões globais sobre desenvolvimento sustentável de nosso tempo. No Rio nossa visão deve ser clara: uma economia verde sustentável que proteja a saúde do meio ambiente e apóie o alcance dos objetivos de Desenvolvimento do milênio através do crescimento de renda, do trabalho decente e da erradicação da pobreza. O grande desafio dessa conferência foi tentar se estabelecer o equilíbrio vital entre economia e erradicação da pobreza, uma vez que os números indicativos eram alarmantes. Segundo informações institucionais da Organização das Nações Unidas – ONU (2012), “a população mundial hoje é de 7,5 bilhões e atingirá a marca de 9 bilhões em 2050, com isso a produção de alimentos terá que aumentar em 70%, hoje quase um bilhão de pessoas passa fome todos os dias”. Portanto, a conferência Rio+20 foi importante para se reafirmar os compromissos com o desenvolvimento sustentável, de acordo com o que foi estabelecido nas conferências anteriores, além de tentar desenvolver uma visão mais focada na questão da pobreza e da fome, vislumbrando a relevância de se 31 diminuir a desigualdade social e reestruturar-se a economia em vista deste objetivo, no intuito, também, de proteger o meio ambiente visto conceitualmente em amplo aspecto, considerando a necessidade de se beneficiar desta consciência ecológica e social todos os povos, em todos os níveis sociais. Seguindo a mesma linha de raciocínio dos encontros anteriores, novos documentos foram gerados a fim de se atestar as discussões e pontos de vista apresentados. Na Rio+20, o documento mais relevante foi chamado de “O Futuro que Queremos”, esclarecendo metas e objetivos salientados durante a conferência. Reafirmamos nosso compromisso de fortalecer a cooperação internacional para enfrentar os desafios relacionados ao desenvolvimento sustentável para todos, em particular nos países em desenvolvimento. Nesse sentido, reafirmamos a necessidade de alcançar a estabilidade econômica e o crescimento econômico sustentável, de promover a equidade social e a proteção ao meio ambiente, reforçando simultaneamente a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, e oferecendo as mesmas possibilidades a todos, bem como protegendo e garantindo a sobrevivência e o desenvolvimento da criança para a realização plena de seu potencial, inclusive através da educação. (O FUTURO QUE QUEREMOS 2013). No tocante a essa ótica, observou-se o desafio da conferência em discutir-se a grande demanda de produção para o futuro, sem agredir a natureza, visando a minimizar-se a distância entre ricos e pobres, o que resultou no termo Green Economy (Economia Verde), bastante evidenciado durante a conferência Rio+20. Não obstante, para se conseguir alcançar o desenvolvimento sustentável almejado, nos próximos anos, ressaltou-se que “a economia verde, deve contribuir para a erradicação da pobreza, e para o crescimento econômico sustentável, reforçar a inclusão social, melhorando o bem estar humano, e criar oportunidades de emprego e trabalho digno para todos”. O termo fundamental usado na conferência Rio+20, intitulado de “Economia Verde”, foi discutido e citado por diversas vezes, antes e durante a conferência por muitos países, organizações sociais e economistas, sendo que um dos secretários da cúpula da ONU, o Chinês SHA ZUKANG, afirmou que “países emergentes têm de se unir para criar economias verdes e que o Desenvolvimento Sustentável pode ser alcançado de vários modos de gerar emprego”. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2012). 32 De acordo com informações institucionais da ONU (2012), “27% da população mundial vive em absoluta pobreza; em 1990, era 46%” – o que demonstra que, de fato, foi significativamente minimizada a pobreza durante o período em questão. Conforme também publicação que consta no site do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano –, da década de 1980 para 2013, o Brasil evoluiu o seu IDH de médio para elevado, conforme figura a seguir, atingindo a posição de número 85. Tabela 3 – Índice de Desenvolvimento Humano no Brasil de 1980 a 2012. Classificação País 1980 1990 2000 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 no IDH 85 Brasil 0.522 0.590 0,669 0,699 0,704 0.710 0,716 0,719 0,726 0,728 0.730 Fonte: www.pnu.org.br. Acesso em: jul. 2013. Portanto, os dados da Organização das Nações Unidas e do Índice de Desenvolvimento Humano no Brasil, apontam a minimização da pobreza do Brasil, conforme aponta a tabela acima. 1.4 A globalização e as influências na sustentabilidade Segundo o filósofo Brasileiro Leonardo Boff (2012), “sustentabilidade é a ação que procura devolver o equilíbrio à Terra e aos ecossistemas para que a casa comum possa continuar habitável e para que possamos salvar a vida humana e nossa civilização”. Nesse tocante, o autor procura, em certo aspecto, explicar, em sua obra, o que é e o que não é o termo sustentabilidade, em termos filosóficos. O conjunto de processos e ações que se destinam a manter a vitalidade e a integridade da Mãe Terra, a preservação de seus ecossistemas como todos os elementos físicos, químicos e ecológicos que possibilitam a existência e a reprodução da vida, o atendimento das necessidades da presente e das futuras gerações, e a continuidade, a expansão e realização das potencialidades da civilização em suas várias expressões. (BOFF, 2012, p.14) Na realidade, para ele, sustentabilidade significa pensar no presente e no futuro, sendo que, conforme já foi visto nos eventos que tratam da preservação 33 ambiental, é necessário o equilíbrio entre a economia, o social e o meio ambiente, de forma a se obter este objetivo, de fato. Portanto, sustentabilidade no sentido prático, considerando o contexto atual, tem uma característica que é chamada de Globalização – palavra que ganhou destaque nos últimos anos, a qual cria expectativas positivas para o futuro, vislumbrando a visão de uma nova era de mudanças. Um dos aspectos importantes da globalização é a economia globalizada, sendo que segundo Santos, (2000, p. 23), “a globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista”. De fato, a globalização trouxe esperanças, certezas e incertezas para toda a sociedade, como afirma Bauman (2008, p.7), pois “para alguns, a globalização é o que devemos fazer se quisermos ser felizes; para outros, é a causa da nossa infelicidade”. Portanto, este processo trouxe diversas mudanças para a sociedade, como a noção de tempo e espaço, que se redefiniu radicalmente, uma vez que “o espaço tornou-se processado/centrado/organizado/normalizado e, acima de tudo, emancipado” (BAUMAN 2008, p. 23), enquanto que para Sevcenko (2012, p.21), “o surto vertiginoso das transformações tecnológicas não apenas abole a percepção do tempo: ele também obscurece as referências do espaço”. Nesse aspecto, observa-se, em certa medida, uma mudança de situação inteiramente nova com a globalização, ao perceber-se que “com a interface dos terminais de computadores e monitores de vídeo, as distinções entre aqui e lá não significam mais nada” (SANTOS, 2012) e, que com a facilidade de acesso rápido à informação, isso substancia uma relação ao que pensador chamou de “a violência da informação”, pois, para ele, “o que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde” (idem), e para o consumo isso é ótimo, uma vez que as marcas podem se comunicar e se estabelecer com o mundo todo. Com a diminuição do tempo e do espaço, hoje existe uma conjunto de consumidores em todo o mundo, já que as marcas estão internacionalizadas graças ao advento da globalização que induziu o consumo a diversos países. Em seu significado econômico, a globalização, de fato, causou mudanças na economia, uma vez que, conforme afirma Sevcenko (2012, p. 27), “O PIB mundial chegou a 34 quadriplicar entre 1950 e 1980, saltando cerca de 2 trilhões para mais de 8 trilhões de dólares”. Em termos econômicos, a tecnologia tornou-se uma ferramenta facilitadora, tendo em vista que com a informação do capital, a fluidez do mercado fez com que o entendimento da economia mudasse, e isto não está apenas centrado na produção, mas sim na atividade especulativa. De acordo com Sevcenko, (2102, p. 28), “a especulação com moedas e títulos de diferentes naturezas, na esfera ampla do mercado globalizado, se tornou por si só, um atrativo irresistível, para os agentes financeiros” e, sendo assim, os acordos financeiros passaram a ser fomentados quase que inteiramente na esfera do ciberespaço. Ainda de acordo com o autor (idem, p. 29): [...] a rapidez nos fluxos nessa rede mundial tornou o papel-moeda praticamente obsoleto, estimulando fluxo contínuo de transações eletrônicas, que passaram a atuar 24 horas, de modo a operar com os mercados do Oriente, Europa e América. Como citado, não existe mais distância entre aqui e lá, sendo assim, por exemplo, um montante financeiro pode ser transferido de São Paulo para Tókio, em questão de minutos. Portanto, o dinheiro passou a ser virtual, mudando toda a perspectiva do mercado, como bem afirma também Sevcenko, (idem, p.31), em relação a esse aspecto transacional, salientando que“cerca de noventa por cento desse total nada tem a ver com investimentos reais em produção, comércio ou serviço, se concentrando no puro jogo especulativo”. Não obstante, Bauman (2008, p. 80) também esclarece como é o caráter mutacional contínuo desta categoria de economia em ampla expansão, em que “novas fortunas nascem, crescem e florescem na realidade virtual”. Desse modo, as corporações começam a aumentar seus lucros não mais vinculados à produção, mas sim em relação ao mercado de capitais e às bolsas de valores. Por um lado, este processo de digitalização crescente também facilitou a circulação por diferentes fronteiras: A possibilidade de multiplicar filiais de suas empresas nos mais diversos pontos do planeta proporcionou às grandes corporações um enorme poder de barganha, impondo aos governos interessados em receber seus 35 investimentos e respectivos postos de trabalho um amplo cardápio de vantagens, favores, isenções e garantias que praticamente tornava os Estados e as sociedades reféns dos poderosos conglomerados multinacionais. (SEVCENKO, 2012, p. 28) Consequentemente, é possível perceber-se este fato acontecendo amplamente hoje em dia, em todo o mundo, como é o caso de várias grandes corporações influentes, tais como: Apple, Nike, Mc Donalds, General Motors e CocaCola, que por intermédio da mídia, em amplo aspecto, intensificam a atividade de consumo, gerando empregos, ao promover o desenvolvimento da economia dos países, possuindo grande poder de negociação com os governos e estados e, sendo que assim “a sociedade e o Estado se tornaram seus reféns. O tripé que sustentava a sociedade democrática moderna foi quebrado” (SEVCENKO, 2012, p.31). Logo, isso interferiu em toda a organização política, pois modificou o papel dos Estados, influenciando amplamente nas decisões do poder governamental: Aparece nitidamente na política, por exemplo, na medida em que os líderes dos partidos orientam suas decisões pelas expectativas do eleitorado, buscando atender às reivindicações que se traduzam no maior volume de votos e aos lobbies que revertem no maior volume de doações para as campanhas eleitorais. (SEVCENKO, 2012, p.46) Nesse contexto, eles se tornam suscetíveis aos estados e governos, que se submetem aos interesses de mercado, favorecendo as corporações e, em certo aspecto, desfavorecendo os interesses sociais que se tornam um gerador de interesses e conflitos. De acordo com Santos (2000, p. 34). [,,,] a atual globalização aponta-nos para formas de relações econômicas implacáveis, que não aceitam discussão e exigem obediência imediata [...] permanecem escravos de uma lógica indispensável ao funcionamento do sistema como um todo. Neste sentido, os governos e estados passam a se colocar nas condições em que as corporações internacionais solicitam e, sendo assim, a política torna-se manipulada pelos interesses econômicos das grandes empresas globais, pois “tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade” (SANTOS, 2000, p. 52). 36 Essa confiança das empresas ganha ainda mais poder nas negociações, uma vez que estas pressionam o estado, caso não tenham seus pedidos e interesses acatados prontamente. Ainda, de acordo com Santos (2000, p.53), “assim o poder público passa a ser subordinado, compelido, arrastado”, e, desse modo, o estado fica na dependência das grandes empresas e suas exigências, deixando em segundo plano seus interesses para atender às solicitações do interesse público e do cidadão comum. “Os Estados não tem recursos suficientes nem a liberdade de manobra para suportar a pressão” (BAUMAN, 2008, p. 73), portanto, o que é imposto pelas empresas é aceito pelo estado, o qual não tem outra opção a não ser mudar o seu papel, ao que o autor (idem, p. 74) complementa, esclarecendo que, “com sua base material destruída, sua soberania e independência anulada, sua classe política apagada, a nação-estado torna-se um mero serviço de segurança para as megaempresas”, portanto, o estado torna-se manipulado e articulado em vista dos interesses emergenciais das grandes empresas dominantes. No campo da economia, o estado perde seu poder de negociação ou controle, fazendo com que as regras de livre comércio favoreçam as empresas para o livre mercado mundial e, retirando, assim, o poder da política nas relações econômicas. Nesse aspecto, Bauman (idem, p. 73) ainda salienta que “a única tarefa econômica permitida ao estado e que se espera que ele assuma é a de garantir um orçamento equilibrado, policiando e controlando as pressões locais por intervenções estatais mais vigorosas na direção dos negócios”. A partir dessa submissão, o estado consegue apoio das empresas e dos bancos mundiais e a economia fica protegida para seguir os interesses prementes das empresas. De acordo com Bauman, (idem, p.74), “no Cabaré da globalização, o Estado passa por um strip-tease e no final do espetáculo é deixado apenas às necessidades básicas: seu poder de repressão”. Desse modo, hoje em dia, o estado é dependente das empresas, ficando submetido aos seus interesses na condição de marionete. Percebe-se que o efeito da globalização serve para quem está estruturado, sendo que as empresas acabam se preocupando mais com a economia, impondo-se esta à “maior parte da humanidade como uma globalização perversa” (SANTOS, 2000, p. 27). Diante disso, o social fica então desamparado, tendo em vista “as 37 funções sociais e políticas do estado com a ampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania, enquanto se amplia o papel político das empresas na regulação da vida social” (SANTOS, 2000, p. 27). Ainda nos apontamentos de Santos (2000, p.13), “a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidade”, já que as cartas de intenções dos documentos gerados pela ONU, conforme se observou são “fábulas” quando se pensa em termos da crise ambiental e social, ao mesmo tempo, tendo em vista como se pautam o tema da erradicação da pobreza e do desemprego, com base nos documentos da “Rio+20” e de “O futuro que queremos”, e como isto é imposto à sociedade como verdade, considerando-se as cartas de intenções como solução definitiva destas crises, sendo que, na realidade, isto não acontece. Portanto, a globalização se concretiza a favor do mercado, voltado aos interesses das empresas, sendo que os problemas sociais só tendem a aumentar assustadoramente, tendo em vista que: O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem a qualidade de vida. O salário médio tende a abaixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. (SANTOS, 2000, p. 13). Percebe-se, assim, que a globalização serve mais para ampliar riqueza dos mais ricos – o que é terminantemente contra as cartas de intenções propostas –, uma vez que nos documentos que tratam de sustentabilidade é pensando o Desenvolvimento Sustentável e Social, conjuntamente e não dissociados, mas, infelizmente, na prática, o que acabou prevalecendo é a ampliação hegemônica do Desenvolvimento Econômico. 38 2 ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS NO ÂMBITO DA MÍDIA IMPRESSA Conforme apresentado no primeiro capítulo, o tema sustentabilidade é discutido em diversas instâncias; começando no Clube de Roma, como uma questão política, até hodiernamente, onde o tema é falado em todos os setores, públicos, privados e sociedade. Logo, os meios de comunicação dão mais atenção a essa temática. Para maior abrangência desse debate, é necessário compreender a influência da mídia, a partir do que os meios de comunicação divulgam; compreender o que eles emitem ou omitem. No segundo capítulo, serão mostradas algumas hipóteses de como a mídia interfere na opinião pública, apresentar-se-ão os conceitos de Agenda Setting e Espiral do Silêncio, e como essas hipóteses ajudam na percepção do objeto de estudo desta pesquisa. Também neste capítulo serão apontados dados do veículo Jornal no Brasil, como foco para a região do Estado de São Paulo, e será apresentado o objeto de estudo deste trabalho, bem como a metodologia adotada nesta pesquisa e, por fim, será apresentado, na prática, como acontece a hipótese do agendamento no jornal com a Conferência da ONU, a “Rio+20”. 2.1 Jornal no Brasil Segundo informações do Grupo de Mídia, por meio do relatório anual Mídia Dados, o público que lê jornal no Brasil é composto por 52% homens e 48% mulheres; as classes sociais dos leitores são distintas, com variação da classe A até a classe D, a idade também é variável, como apontam os gráficos a seguir: Figura 9 – Mídia Dados, 2013 39 Fonte: Grupo de Mídia A partir dos gráficos, percebe-se a predominância das classes econômicas B e C e faixa etária dos 20 aos 64 anos, e chama a atenção que a idade de 20 a 39 anos é a que mais lê o jornal, conforme aponta o relatório. Ainda de acordo com o relatório anual Mídia Dados, a distribuição de jornal impresso na região sudeste representa 62% da repartição em território nacional. Desse total, 34,37% concentra-se no Estado de São Paulo; os títulos por jornal também são maiores na região sudeste, totalizando 365 títulos, sendo 265 apenas no Estado de São Paulo. Os dias de maior leitura de jornal impresso, na grande São Paulo são: segundas e quartas-feiras, representando 17% por cento a cada dia; em seguida, terças e quintas-feiras, com 16% a cada dia; sextas-feiras com 15%, e no sábado e no domingo com 11% a cada dia. A seguir gráfico para ilustrar essa distribuição. Figura 10 – Mídia Dados, 2013. Fonte: Grupo de Mídia 40 Sendo assim, os dias da semana são os de maior leitura, com destaque para segundas-feiras e quartas-feiras, enquanto nos finais de semana a auditoria aponta grande diminuição de leitores. De acordo com o IVC – Índice de Veiculação e Circulação –, em 2014, a Folha de São Paulo ocupa a segunda colocação no ranking de tiragem e circulação entre os jornais dos estados do Brasil, conforme demonstra a tabela a seguir: Figura 11 – Mídia Dados, 2013. 41 Fonte: Grupo de Mídia A tabela do IVC aponta a Folha de S. Paulo como o primeiro em tiragem no Estado de São Paulo, e mostra o jornal Estado de S. Paulo na quarta posição, o que coloca o jornal Folha de S. Paulo como a referência no estado. Diante do exposto, temos o jornal Folha de S. Paulo como um grande veículo de comunicação da mídia impressa, por isso, a seguir, apresentar-se-á o jornal. 42 2.2 Folha de S. Paulo A história do jornal Folha de S. Paulo tem início em 1921, com a criação do jornal Folha da Noite. Em 1925, é criado o jornal Folha da Manhã – edição matutina da Folha da Noite –, e a Folha da Tarde é fundada após 24 anos. Depois, com a fusão dos três títulos da empresa, Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, em 01 de janeiro de 1960, surge o jornal Folha de S. Paulo. Segundo informações do Grupo Folha de São Paulo, o jornal obteve crescimento entre os anos de 1984 e 1987, devido ao apoio ao movimento que solicitou votação direta para a presidência, ou seja, pela democratização do país. Tal movimento foi denominado de “Diretas já”, quando a tiragem média do jornal foi de 120 mil para 200 mil exemplares, e no ano de 1990 o jornal já consolidava o total de 300 mil exemplares. Após 1990, o jornal teve uma reformulação que alterou as cores, a parte gráfica e a organização das notícias em cadernos com temas específicos. O episódio de sucesso de vendas do jornal Folha de S. Paulo aconteceu, também, após investimentos em uma imagem moderna, atuante e antenada em diversos eventos, principalmente com viés político. O jornal na década de 1970 ganhou respaldo da classe média intelectual de São Paulo. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2014). O jornal Folha de S. Paulo é a principal publicação do Grupo Folha, que também é dono do jornal Agora São Paulo e possui 50% de participação no Valor Econômico. O Grupo possui ainda outros negócios como o instituto de pesquisa DataFolha e a Editora Plural. No setor de distribuição, a TransFolha e a São Paulo Distribuição e Logística, gráfica PubliFolha, agências de notícias AgênciaFolha, InvestFolha e FolhaNews. (GRUPO FOLHA, 2014) A escolha pela mídia impressa como corpus de estudo e o jornal Folha de S. Paulo como suporte de análise foi eleito devido à visão hegemônica que essa forma de mídia apresenta, à seriedade dentre os demais veículos de mídia impressa e à sua história, conforme apresentado. A longevidade do jornal demonstra uma aceitação política, pois foi um editorial que se consolidou e, no Estado de São Paulo, é o de maior vendagem, denotando-se, assim que o discurso desse jornal é bem aceito pela sociedade. Mostrar-se-á, a seguir, como a separação das matérias foi feita. 43 2.3 Metodologia Observou-se o jornal na íntegra e analisaram-se as edições e todos os cadernos, no período de janeiro a julho de 2012. Esse período foi intencional, devido aos eventos relacionados ao meio ambiente, na época. Foi feita, então, a separação de todas as matérias que continham as palavras-chave: Sustentabilidade, Responsabilidade Socioambiental, Meio Ambiente, Sacolas Plásticas, Código Florestal e Rio+20. Todas as matérias que continham relação com o tema Sustentabilidade foram recortadas e separadas por mês, no formato de arquivo de Power Point e, após essa separação, teve início o processo de leitura. Depois desse processo, realizou-se a tabulação e compilação dos dados, em uma planilha no formato Excel, indicando a quantidade de matérias que foram publicadas no período selecionado. Com as matérias organizadas, foi feita a separação por tema, mês e caderno, em formato Power Point e, então, uma planilha foi elaborada para que as matérias fossem divididas por mês, caderno e capa de cada caderno no qual foram encontradas matérias sobre o tema. Nessa separação foram encontrados três temas específicos relacionados ao Meio Ambiente: Conferência Rio+20 Sacolas Plásticas Código Florestal Além de outros assuntos diversos relacionados ao tema Meio Ambiente. Após essa separação e organização, encontram-se os arquivos em Power Point com as matérias e uma tabela geral com todas as matérias; e uma tabela com as matérias de cada tema, conforme mencionado. Essas tabelas são organizadas da seguinte forma: apresentam a quantidade de matérias em cada caderno, a quantidade de matérias nas capas dos cadernos e estão dividas por mês de publicação. Durante o período de pesquisa, foram encontradas 513 matérias que abordavam o tema Meio Ambiente, como aponta o gráfico a seguir: 44 Figura 12 – Gráfico das matérias sobre o Meio Ambiente sem subtemas Fonte: Elaborado pelo autor A partir do gráfico, é possível perceber o engajamento do jornal Folha de S. Paulo sobre o tema Meio Ambiente no período pesquisado. Apresenta-se, a seguir, a tabela geral com a totalidade de matérias sobre o Meio Ambiente, sem subtemas destacados. O debate, de modo genérico, está concentrado em três cadernos e são estes: Primeiro Caderno, Cotidiano e Mercado, ambos com matérias na capa e no interior do caderno. Tabela 4 – Tabela geral das matérias sobre o Meio Ambiente sem subtemas Fonte: Elaborado pelo autor Conforme aponta a tabela geral, no Primeiro Caderno, há 40 matérias na capa e 135 matérias em seu interior, totalizando 175 matérias; isso representa 34% 45 das matérias sobre meio ambiente no primeiro caderno. Em segundo lugar, aparece o caderno Mercado, com 136 matérias, representando 26,5% do total. E em terceiro, o caderno Cotidiano, com 102 matérias, representando 19,8% do total de matérias. A soma das matérias publicadas nesses três cadernos totaliza 413, com isso tem-se a representação percentual de 80,5% das matérias sobre meio ambiente concentradas nos cadernos destacados. Partindo dessa fonte de dados, utilizou-se a hipótese de Agenda Setting para compreensão dos assuntos tratados no jornal Folha de S. Paulo. O Agenda Setting,cuja origem é norte-americana, teve os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw como precursores, no ano de 1972, todavia as ideias básicas dessa tese foram estabelecidas em 1922, por Walter Lippman na clássica obra Public Opinion. Nesse conjunto de estudos sobre os efeitos dos meios de comunicação na sociedade, os temas discutidos na contemporaneidade são gerados pela mídia, através das mensagens emitidas pelos meios de comunicação, essa é a hipótese do agenda setting, sendo uma possível forma de interação e manipulação sobre o que será comentado pela população. Com base na hipótese do Agenda Setting e dos dados apresentados nas tabelas que foram realizadas como objeto de estudo deste trabalho, concordamos com essa hipótese, pois, de fato, o jornal Folha de S. Paulo publicou muitas matérias sobre o tema Meio Ambiente no período analisado, e, aparentemente, foi possível perceber uma abordagem parcial em diversas instâncias sobre o tema. De acordo com Barros Filho (2008, p.158), “ao se analisar uma tabela de incidência temática, ou seja, dos temas mais presentes nas discussões sociais, tem-se a impressão que só se fala sobre esses temas”. Com a ajuda da hipótese, percebe-se a proliferação do tema meio ambiente presente nas comunicações, sendo assim, “a mídia impõe os temas mais discutidos” (idem p.158); nesta pesquisa, a hipótese faz sentido, pois se observa que a Folha de S. Paulo publica diversas matérias sobre o tema. De acordo com a hipótese Agenda Setting, a mídia impõe os temas e os assuntos que serão falados e discutidos no cotidiano das pessoas, portanto, a mídia define o que é importante e o que não é; e o que será de interesse coletivo. Aparentemente, foi o que fez o jornal Folha de S. Paulo com uma cobertura bastante ampla de matérias sobre o meio ambiente e, ainda, com a repetição de assuntos como Rio+20, Sacolas Plásticas, Código Florestal, entre outros. Afigura 12 na 46 página 43 e a tabela geral na mesma página mostram indícios dessa possibilidade; assim, de acordo com o Agenda Setting, pode-se afirmar que a mídia é capaz de ditar e colocar em pauta as notícias, assim os meios de comunicação atuam na formação da opinião pública. Os temas das conversas diárias são provocados pelos jornais, televisões, rádios e revistas, ou seja, o cotidiano das pessoas passa a ser direcionado pelos meios de comunicação de massa, portanto, o tema meio ambiente logo passa a ser comentado pelas pessoas, devido à possibilidade de interação midiática e pelo poder que mídia tem de influência sobre as pessoas, sobre o assunto que elas vão comentar. (BARROS FILHO, 2008). Ainda segundo o autor: Surgiu num período em que se atribuía à mídia enormes prerrogativas de manipulação social, não só para impor a representação que o receptor teria da realidade, mas igualmente para alterar seu comportamento. A mídia, nesse caso, funcionaria como uma “agulha hipodérmica” ou uma “bala de canhão”. Os receptores pertenceriam a uma sociedade de massa, verdadeiro depósito de mensagens composto por indivíduos inertes, passivos e vulneráveis. A abordagem dita “fenomênica”, que condiciona e relativiza os efeitos sociais da mídia, põe um termo nas especulações sobre a onipotência dos meios de comunicação na imposição de representações e comportamentos. (BARROS FILHO, 2008, p. 169) Com base no Agenda Setting, de acordo com Long apud Barros Filho, (2008 p.175), “o jornal é o primeiro motor de fixação da agenda territorial, ele tem grande participação na definição do que a maioria das pessoas conversará, o que as pessoas pensarão que são os fatos e como se deve lidar com os problemas”. O autor também afirma que há mais agenda setting em mensagens impressas que televisivas, (2008, p. 171), “três aspectos da mensagem podem interferir no agenda setting, sua origem, seu veículo e seu conteúdo”. Assim, afirma McCombs (2004), citado por Barros Filho (2008, p. 171): Se realizarmos uma generalização empírica nesse sentido, temos que em 50% do tempo não há diferença discernível entre o efeito do Agenda Setting por jornais e por notícias veiculadas na televisão. Porém, em 50% do tempo, parece que os jornais são mais eficazes em fixar a agenda pública do que a televisão em uma proporção de para 1. Portanto, os meios de comunicação ganham destaque, especialmente o jornal, e, no caso desta pesquisa, o jornal Folha de S. Paulo, pois é uma forma possível de interação e manipulação sobre a sociedade. Com esse embasamento, reforça-se a crença que o Agenda Setting enfatizou a percepção do objeto de estudo desta pesquisa. 47 Bem como o Agenda Setting é uma hipótese, outro fator que ajudou na compreensão deste objeto de estudo foi a Espiral do Silêncio. Esta hipótese teve Elisabeth Noelle-Neumann como autora, e, para compreensão desta, é necessário responder a três questões, como afirma Barros Filho, (2008 p.180) “Por que do silêncio? Por que espiral? Em que medida a objetividade aparente da informação mediática influi no efeito em questão?” Respondendo a primeira pergunta, o “silêncio”, devido às pessoas ficarem isoladas como um todo, por exemplo, em suas condutas, costumes, opiniões, ou seja, sua imagem perante a sociedade. No caso do tema desta dissertação – cujo título é “As representações midiáticas: um estudo sobre como a mídia aborda o fator da sustentabilidade na sociedade contemporânea” –, foi de muita valia compreender como as pessoas se comportam diante dos temas publicados pela mídia. O receio da exclusão social impossibilita que as pessoas omitam sua opinião, caso esta não esteja de acordo com o senso comum; conforme Barros Filho, (2008 p.180) “esse medo do isolamento social faz com que as pessoas tendencialmente evitem expressar opiniões que não coincidam com a opinião dominante”. Segundo o autor, isso ocorre porque o predomínio das opiniões é formado pela mídia, “esse silêncio tendencial é possível porque [...] os agentes sociais têm aguda percepção das opiniões dominantes no grupo a que pertencem. Estas seriam em grande parte impostas pelos meios de comunicação”, portanto, esse receio de dar opinião contra a maioria, ter opiniões divergentes e ficar isolado levam esse grupo de pessoas ao silêncio. (BARROS FILHO, 2008). Isso, aparentemente, acontece com o tema meio ambiente por estar em evidência e ser comentado em diversas instâncias, muitas pessoas ficam receosas de comentar contra. Neste momento, coloca-se a segunda resposta, para a pergunta “por que espiral?” A mídia, ao publicar um assunto ou notícia, assegura que esse conteúdo está legitimado, ou seja, o que é imposto pela mídia torna-se a realidade, porém, diante disso, podem existir vozes que não concordam, entretanto, essas vozes serão a minoria, o que levará, teoricamente, a não se manifestarem, o que levará ao silêncio, fortalecendo ainda mais a força da mídia e calando as opiniões contrárias. “Quando parte desse grupo se cala, a opinião discordante, que já era minoria, se torna ainda mais minoritária; o número de silentes será, portanto, maior” (idem p.180). 48 No caso desta pesquisa, far-se-á um breve apontamento, sobre como aconteceu o caso da extinção das sacolas plásticas no Estado de São Paulo. Um tema polêmico como esse, necessitaria de um amplo debate para que todos os envolvidos fossem ouvidos, porém, a mídia pontuou que não haveria distribuição de sacolas gratuitas. De uma hora para outra, os paulistanos teriam de mudar um hábito de mais de 40 anos. Não se dará continuidade nesse debate, pois ele será aprofundado no terceiro capítulo; apenas apontam-se aqui as hipóteses que auxiliaram na compreensão do objeto desta pesquisa. Então, os que persistirem com opinião contrária, serão isolados e não terão suporte. Tem-se, assim, um grupo de pessoas com a opinião legitimada, e outro grupo em silêncio, e, consequentemente, o grupo em silêncio contribuirá para que a opinião dominante seja estabelecida, e isso constitui o espiral. (BARROS FILHO, 2008). Como o Agenda Setting, a hipótese da Espiral do Silêncio se utiliza da mídia para estabelecer o que comentar, bem como o que comentar sobre os temas impostos pela mídia. Todavia, dois fatores são preponderantes na espiral do silêncio, o isolamento e a manifestação sobre os temas. De acordo com Barros filho (2008, p.194), “o ser humano tem horror ao isolamento opinativo. Sustentar uma opinião contrária à da maioria traz desconforto. Esse medo é generalizado.” Nesse sentido, para fugir do isolamento, é necessário perceber a opinião dominante, isso demonstra como as pessoas aceitam, na contemporaneidade, o tema da sustentabilidade, pois a opinião dominante é mais abordada pelo jornal Folha de S. Paulo. Segundo o mesmo autor, (2008, p.181) “quanto mais uma opinião for dominada ou ilegítima, maior a tendência de que ela não seja manifestada”, ou seja, a imagem ou opinião que a mídia introduzir, de acordo com essa hipótese, prevalecerá como verdade; embora existam pessoas que não concordem com a opinião dominante, essas ficarão caladas. E como continua Barros Filho, (idem, p. 181) “Isso não impede que haja, nesse universo, vozes discordantes. Elas serão minoritárias. Haverá, no entanto, uma tendência ao silêncio entre os membros desse grupo minoritário”. Com isso, haverá uma maior quantidade de pessoas em silêncio. “Assim a tendência de um grupo manifestar suas opiniões e do outro de se calar desencadeia um processo em espiral que estabelece, de maneira crescente, uma opinião dominante.” 49 Pôde-se observar isso acontecer com o tema sustentabilidade, durante esta pesquisa. As opiniões dominantes impõem sua posição e, nesse momento, aparecem pessoas renomadas para tratar do tema. De fato, existe a discordância, porém, aparentemente, muitos ficam em silêncio, emergindo as vozes dominantes. Foi visto, também, como os meios de comunicação atuam em concordância com alguns temas. De acordo com Barros Filho, (2008 p.182) “uma das condições para a ocorrência da espiral do silêncio é a consonância temática, ou seja, a abordagem relativamente homogênea dos mesmos fatos pelos distintos meios de comunicação”, isso leva ao fortalecimento a opinião dominante, no caso da mídia impressa. Outro aspecto da espiral do silêncio citada por Barros Filho é que (2008 p. 183) “os meios não se limitam a impor os temas sobre os quais se falar, mas também impõem o que falar sobre esses temas”. No caso da sustentabilidade, percebeu-se, durante o período da pesquisa, que o jornal Folha de S. Paulo tratou, de maneiras distintas, o tema sustentabilidade, com diferentes abordagens sobre o tema. Com base no Agenda Setting, e a partir da tabela geral Meio Ambiente, pensando esse contexto para suporte desta discussão, propõe-se, agora, uma análise da Conferência da Organização das Nações Unidades, a “Rio+20”. Durante o período pesquisado, foram encontradas 172 matérias sobre a Rio+20, distribuídas em diversos cadernos do jornal, conforme apresentado abaixo: Tabela 5 – Matérias sobre a Rio+20 Fonte: Elaborado pelo autor 50 Analisando o resultado da tabulação, verifica-se que a maioria das matérias sobre a conferência Rio+20 está concentrada no primeiro caderno. Segundo informações da própria Folha de S. Paulo, “esse caderno se dedica à vida política, institucional e aos movimentos sociais”, ou seja, é um caderno que fundamenta o institucional. De acordo com a tabela anterior, o total de matérias sobre a Rio+20, no primeiro caderno, totaliza 38, e isso representa 30,8% do total, durante o período da conferência. Com base nos dados e na leitura do conteúdo das matérias, a maioria delas, relacionadas à conferência Rio+20, foi divulgada no primeiro caderno por se tratar de questões institucionais. Nas matérias, os personagens que debatem o tema são presidentes e diretores de empresas e associações, secretários, ministros, embaixadores, e pessoas influentes. Aparecem, também, as vozes do Governo como a presidenta Dilma Rouseff, Planalto, Itamaraty, governadores, prefeitos, presidenciáveis, senadores, deputados, e diversos ex-políticos, como o expresidente Fernando Henrique Cardoso. Observaram-se, ainda, vozes de empresários, economistas, grandes empresas, ONGs, institutos, especialistas e federações. Fica evidente que o jornal Folha de S. Paulo deu muita ênfase na conferência, pois, do total de matérias sobre o tema meio ambiente – que foi 513, no período pesquisado –, 30,8% das matérias foram sobre a Rio+20. De acordo com os estudos do Agenda Setting, a conferência Rio+20 trata-se de “um acontecimento específico”. Os temas de “acontecimento”, como são chamados esses eventos, são ações pontuais que a mídia trata de forma específica, e, sendo assim, verifica-se que acontece o agendamento da conferência Rio+20 no jornal Folha de S. Paulo, comprovando a hipótese do Agenda Setting. Para Barros Filho (2008, p.165), tratase da “agenda da mídia, ou seja, o elenco temático selecionado pelos meios de difusão”, isso leva a crer na possibilidade da conferência Rio+20 ser um assunto da “agenda da mídia”, já que o evento foi eleito pelo jornal Folha de S. Paulo como meio de propagação. Ainda sobre a hipótese do Agenda Setting, é importante averiguar o veículo e o intervalo de tempo. Sobre o veículo, já se apresentou o jornal e, neste momento, será analisado o intervalo de tempo (time-lag), em que se constrói o agendamento, o tempo que ele continua agendado até o desagendamento. Segundo Barros filho 51 (2008 p.173), “com efeito, o tempo que leva uma mensagem para ser agendada pelo público consumidor (time-lag) depende, segundo alguns estudos recentes, do veículo em que a mensagem foi difundida”. E, além do veículo, dois intervalos de tempo; o primeiro tempo A, é o intervalo de tempo entre a veiculação e o agendamento do tema veiculado; e o segundo tempo B é o tempo que o tema permanece agendado, a imagem a seguir ilustra esse apontamento do autor: Figura 13 – Intervalos de tempo do Agenda Setting Fonte: Barros Filho, 2008, p.173 Com base nisso, o recorte feito das matérias sobre a Rio+20, realizado nesta pesquisa, apresentar-se-á, a seguir, um gráfico que mostra a incidência de aparição da Rio+20. Como demonstra o gráfico abaixo, percebe-se a evolução das matérias entre os meses de março – com 15 matérias – e junho, mês com maior quantidade: total de 95 matérias; enquanto em julho aparecem apenas duas matérias. Figura 14 – Intervalos de tempo das matéria sobre a “Rio+20” Fonte: Elaborado pelo autor De acordo com o gráfico e embasado na hipótese do Agenda Setting, verificase que o tempo A foi de janeiro a março de 2012. O agendamento se constrói de abril a junho e o desagendamento, visivelmente, acontece em julho. 52 Outro fator do Agenda Setting é o conteúdo da mensagem, pois, de acordo com Barros Filho (2008, p.174) “há temas que proporcionam discussão social mais intensa e outros, menos. Postula-se, assim, uma teoria dos efeitos variáveis em função do tema tratado”. Através da análise realizada nos conteúdos, verificou-se que a maioria das matérias sobre a conferência Rio+20 está concentrada no primeiro caderno, e, conforme mencionado anteriormente, esse caderno se dedica à vida política, institucional e aos movimentos sociais. A conferência Rio+20 foi supostamente divulgada no primeiro caderno devido a isso. Conforme tabela já apresentada na página 48, o total de matérias sobre a Rio+20 no primeiro caderno foi de 53. Analisando o conteúdo, verifica-se que, desse total, 25 configuram o artifício da política; 13 matérias tratam de questões econômicas; 5 matérias são apontamentos gerais sobre a conferência, e 10 matérias apresentam críticas. Das 25 matérias que configuram o artifício da política, verifica-se que a presidenta Dilma aparece citada pelo nome e, em alguns casos, com fotos. Aparecem, também, o nome Brasil e Governo Brasileiro ou Governo Federal, prefeitos, entre outros representantes políticos. Propõe-se, a partir de agora, examinar a hipótese que a conferência Rio+20, nas matérias divulgadas pelo Jornal Folha de S. Paulo, teve ênfase política. Para isso, parte-se do pressuposto do Agenda Setting – que, apenas para lembrar, é uma hipótese de como a mídia influencia o público por meio das agendas temáticas, ou seja, a mídia proporciona o que é importante para a população ter opinião e debater sobre. Partindo desse pressuposto, a sociedade adere à seriedade dos assuntos tratados pela mídia. Apresenta-se, abaixo, um quadro que ilustra exatamente essa hipótese. Figura 15 – Agenda de Mídia e Agenda o Público Fonte: Maxwell, McCombs (2004, p.5) 53 Portanto, os assuntos que são enfatizados pela Agenda da Mídia são transferidos para a Agenda do Público, tornando-os, assim, mais importantes, de acordo com a hipótese do Agenda Setting. Segundo Silva (2005, p. 27), “os atores políticos são elementos importantes na elaboração da pauta da campanha e se há ou não alguma associação entre agenda política e a lista de questões enfatizadas pela mídia”. Desse modo, os estudos da Agenda Setting servem para observar de forma diferente o processo do agendamento na mídia, com isso, trazendo um novo ponto de vista para esses estudos; assim, a Agenda da Mídia pode ser analisada por diversos ângulos, já que “houve a admissão de que a agenda da mídia é subsidiada por organizações, grupos de interesse e campanhas políticas” (idem, p. 27). Nesse aspecto, exibe-se, abaixo, um quadro que ilustra esse cenário, de interesses distintos e da agenda da mídia. Figura 16 – Agenda de Mídia e Agenda o Público Fonte: Maxwell, McCombs (2004, p.99). Dessa forma, existe a possibilidade da agenda da mídia ser influenciada por organizações de interesses distintos, como de políticos, empresas e grupos específicos, como afirma Silva (2005, p. 28), “Em campanhas eleitorais, a agenda da mídia pode sofrer influência direta dos partidos políticos ou candidatos”. Partindo desse pressuposto, e da análise feita no recorte esta pesquisa sobre as matérias da Rio+20 – como apresentado na tabela 5 da página 48 – encontra-se a maior quantidade de textos sobre a conferência Rio+20, no jornal Folha de S. Paulo, com viés político, totalizando 47,% das matérias. Sendo assim, selecionou-se |uma matéria para ilustrar como um candidato pode influenciar na agenda da mídia. Partindo-se da hipótese que a agenda da mídia foi a conferência Rio+20 e, nesta 54 ocasião, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, apareceu para iniciar sua campanha de reeleição, com promessas de campanha enviesadas, com o tema sustentabilidade. Percebe-se aqui a hipótese do Agenda Setting de forma prática,com a oportunidade de um candidato entrar na pauta da agenda da mídia relacionado com um tema em evidência, pelos meios de comunicação; e, nesse caso, apropriar-se do tema da agenda para incorporá-lo às suas promessas de campanha.Como a conferência Rio+20 estava na agenda da mídia, e o jornal chamou atenção para esse evento – vide número de matérias encontradas na pesquisa, como apontado na tabela Rio+20, na página 48 –, e, com isso, o candidato, em sua agenda de campanha política, usou a agenda da mídia para ser percebido na agenda do público e, consequentemente, fortalecer sua reeleição. O candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, apareceu em uma foto dentro de um ônibus para apresentar a inauguração do projeto dos corredores de ônibus e, ao lado, a matéria aponta que ele tem uma “agenda verde”. Destaca-se que essa “agenda verde” são ações de intenções que o candidato pretende realizar em sua campanha e outras ações ligadas à sua reeleição, conforme abaixo: Figura 17 – Matéria Folha de S. Paulo – 03/06/2012 Fonte: Folha de São Paulo 55 A matéria foi publicada no dia 3 de junho de 2012, na página 11 do primeiro caderno, com o título: “Com Rio+20, Paes começa campanha para reeleição”. Já no título, uma ligação entre a reeleição e a Rio+20, enquanto o olho da matéria diz: “Prefeito do Rio reservou ações de impacto para vésperas do evento”. O candidato, pelo visto, aproveitou-se que a cidade sediaria o evento. Na ocasião, sob o tema sustentabilidade, logo no início da matéria, a afirmação de que o prefeito fecharia o aterro sanitário de Gramacho, pois, segundo o candidato, esse era “o maior crime ambiental do Rio”. O prefeito inaugurou, no mesmo dia, um dos quatro corredores de ônibus que prometeu. De acordo com Barros Filho (2008, p.175), “A ideia central é simples: quanto menos experiência direta tiverem os receptores em determinado tema, ou seja, quanto menos um tema estiver presente na vida diária das pessoas, mais dependentes estarão das mensagens mediáticas”, ou seja, as pessoas, ao não ter conhecimento dos temas, buscarão a mídia para obter informações. Nesse caso, a conferência estava na pauta dos meios de comunicação, e o prefeito, aparentemente, usou o viés da Rio+20 para lançar sua campanha, pois, de acordo com Barros Filho (2008, p.163), “o eleitor indeciso é aquele que terá maior tendência a consumidor produtos informativos de diversas origens e cores ideológicas, exatamente para decidir-se”. Ou seja, o uso da mídia aliado a um tema agendado é favorável para um candidato para lançar uma campanha. Sendo assim, comprova-se a hipótese que, de fato, ocorreu o Agenda Setting sobre a conferência Rio+20, no jornal Folha de S. Paulo, e o interesse político ingressou no agendamento da conferência para aparecer, divulgar ou atrelar o tema à campanha do candidato. 56 3 ANÁLISE DE CONTEÚDO DO CASO REFERENTE ÀS SACOLAS PLÁSTICAS NA FOLHA DE SÃO PAULO 3.1 Análise de Conteúdo A análise de conteúdo não é uma metodologia contemporânea; é utilizada desde a idade média, como afirma Chizotti: Surgiu na idade média, com os estudos da Escolástica medieval, aplicado à exegese bíblica. Isto é, os primeiros estudos de interpretação do sentido dos textos bíblicos. Posteriormente passou a ser utilizada também pelos hermeneutas, no campo da leitura, com a hermenêutica literária, a qual tinha como objetivo realizar interpretações de textos literários. Mais tarde, passou a ser aplicada também à interpretação de sonhos, com o advento dos estudos psicanalíticos. (CHIZOTTI, 1991, p. 98) Todavia, no campo do Jornalismo esse estudo é utilizado para verificar o tamanho das matérias, tamanho dos títulos, espaço que a matéria ocupa no jornal, entre outros. A análise de conteúdo é muito utilizada para analisar as comunicações; é uma técnica usada no tratamento de elementos de pesquisas qualitativas ou quantitativas. Tal análise traz ao meio acadêmico e intelectual um método prático e assertivo de investigação. Historicamente, Bardin expõe o início da trajetória da análise de conteúdo: Descrever a história da análise de conteúdo é essencialmente referenciar as diligências que nos Estados Unidos marcaram o desenvolvimento de um instrumento de análise de comunicações é seguir passo a passo o crescimento quantitativo e a diversificação qualitativa dos estudos empíricos apoiadas na utilização de uma das técnicas classificadas sob a designação genérica de análise de conteúdo; é observar a posteriori os aperfeiçoamentos materiais e as aplicações abusivas de uma prática que funciona há mais de meio século. (BARDIN, 2009, p.15) Assim, ilustra-se essa técnica que é utilizada até os dias atuais. Para Laurence Bardin, a análise de conteúdo compreende a explicitação, sistemática e esclarecimento do conteúdo da mensagem, cujo objetivo é efetuar deduções em relação a essas mensagens, como conjuntura a origem e a emissão da mensagem, e o qual consequência a mensagem pode causar, conforme a própria Bardin (2009, p. 33): 57 Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens. (BARDIN, 2009, p.33) Portanto, trata-se de uma análise interpretativa, “é uma técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto na comunicação” (Idem, p.18). Como é possível observar nessa definição da autora, a análise de conteúdo proporciona identificadores quantitativos que resultarão em dados estatísticos; e qualitativos, que são intuitivos, e fornecerão dados para uma hipótese. Essas análises direcionam a pesquisa para outra leitura da comunicação, com base na dedução e na inferência. Com isso, obtém-se um novo formato de leitura da comunicação, com a possibilidade de verificar o que não é mostrado, ou está subjetivo na mensagem. Esse processo é organizado em três fases, a primeira fase é a pré-análise, momento de organização das ideias, escolha dos documentos, retomadas de hipóteses; é nesse momento da pré-análise que se compõe a etapa da Leitura Flutuante. (BARDIN, 2009) Para organizar as ideias, de acordo com Bardin, buscou-se compreender o surgimento das sacolas plásticas, e, através dessa busca, verificou-se que o surgimento ocorreu em meados da década de 1970 e as sacolas tornaram-se produto essencial na vida dos consumidores. Os antigos sacos de papel e carrinhos de feira deram lugar às sacolas plásticas que, além de serem importantes para as compras nos supermercados, também desempenham outras funções, como realizar transporte de objetos diversos, acondicionar lixo de cozinhas ou toaletes, outros fins caseiros, e até mesmo higiene, nos passeios com animais. No entanto, se descartada de forma incorreta pode causar danos ao meio ambiente como enchentes – em caso de entupir bueiros –, causar morte de animais e retardar a deterioração de outros materiais. As sacolas plásticas distribuídas nas redes de supermercados resistem por décadas; sua decomposição pode levar muitos anos, uma vez que são fabricadas de derivados de petróleo. Tendo em vista esse novo cenário abordando questões ambientais, e tendo em vista que essa temática constantemente ocupa espaço em discussões governamentais, econômicas e sociais, o prefeito da cidade de São Paulo, na 58 ocasião Gilberto Kassab, com aprovação da Câmara Municipal, sancionou um projeto de lei em maio de 2011. O projeto de lei PL 612 tinha o objetivo de banir a distribuição gratuita de sacolas plásticas das redes de supermercados da cidade de São Paulo, a partir de 1º de janeiro de 2012. Esse projeto de lei foi iniciado em 2007, e teve um projeto piloto na cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, em 2010. No dia 1º de janeiro de 2012, entrou em vigor a lei nº 15.374 que proibia a distribuição gratuita e a venda de sacolas plásticas derivadas de petróleo. Segundo a Folha de São Paulo, a lei dizia que os estabelecimentos deveriam estimular o uso de sacolas reutilizáveis e ecobags, banindo o uso de sacolas plásticas derivadas de petróleo; as lojas teriam de fixar placas, próximas às caixas registradoras, com tamanho de 40 cm x 40 cm, com a seguinte frase: “Poupe recursos naturais! Use sacolas reutilizáveis”. Os estabelecimentos que desobedecessem poderiam receber multa de R$ 50 a R$ 50 milhões, dependendo do faturamento, e poderiam ter ainda suspensa a licença de funcionamento. No mesmo período, a APAS (Associação Paulista de Supermercados) lançou uma campanha com o seguinte tema: “Vamos tirar o planeta do sufoco”, que tinha como alvo eliminar o uso de sacolas plásticas das redes de supermercado e trocar esse hábito por uma opção sustentável. A campanha tinha como objetivo poupar recursos naturais com o incentivo do uso de sacolas reutilizáveis. A associação alegava que as sacolas convencionais geram um problema ambiental, devido ao longo período de decomposição, e que essa questão precisava ser resolvida por todos, pois de acordo com a APAS, “somente juntos podemos conquistar grandes vitórias”. Para a APAS, essa campanha foi apenas o começo de grandes ações sustentáveis que o setor supermercadista adotaria, pensando na preservação do meio ambiente. A partir do momento anterior ao lançamento da campanha, perceberam-se elementos que contribuíram para que tal tivesse adesão: o envolvimento da Prefeitura, do Governo do Estado, da APAS e dos supermercados foi um dos principais promotores e interessados na campanha para banir a distribuição das sacolas nos supermercados. A partir disso, verificar-se-á, refletir-se-á e analisar-se-á como jornal Folha de São Paulo tratou essa questão. Utilizando a técnica de Bardin, foi feita a pré-análise e a leitura flutuante do jornal folha de São Paulo, no período de janeiro a julho de 2012. Foi feita, então, a 59 leitura de todas as matérias sobre as sacolas plásticas publicadas no jornal – relembrando que esse período foi o de maior movimentação sobre o tema. Nessa busca, foram encontradas 56 matérias sobre a questão das sacolas plásticas no estado de São Paulo. Para aprofundar o tema, não foi considerado o Painel do Leitor – espaço concedido no primeiro caderno do jornal para que o leitor exponha sua opinião. Assim, iniciou-se a composição da amostra, com a exclusão das matérias do Painel do Leitor, analisando apenas as mensagens emitidas pelo jornal. O resultado foi o de 46 matérias analisadas. Separaram-se todas as que continham as seguintes palavras-chave – referentes aos agentes de fala: Governo, Empresa e Consumidor; Tipologia das sacolas: Biodegradável/Descartável, Sustentabilidade: Lixo Orgânico e Coleta Seletiva, Custo: preço das sacolas. Esses elementos foram escolhidos a partir do processo de redução de dados (OLABUENAGA e ISPIZÚA, apud MORAES, 1999), que tem como objetivo destacar os aspectos mais importantes da análise, para facilitar a manipulação dos dados, em busca de um resultado mais objetivo. Entende-se que essas categorias – diretamente envolvidas na suspensão do uso de sacolas plásticas no estado de São Paulo – atendem à necessidade das características primordiais; são elas: válidas, pertinentes e adequadas ao objeto desta pesquisa. Nesta primeira análise, um fator imediatamente chamou a atenção, pois a palavra Sustentabilidade apareceu apenas uma vez, em um subtítulo; não aparecendo nos títulos das matérias. Um tema de tal relevância e atualidade, como foi apresentado no primeiro capítulo, chama a atenção por não ser mencionado com maior relevância pelo jornal. Outro fator analisado foi o não aparecimento da APAS nos títulos e subtítulos das matérias. Isso é bastante interessante, pois a APAS foi uma das principais idealizadoras desse projeto, bem como a Prefeitura e o Governo do Estado – que também não são mencionados em títulos ou subtítulos. A palavra Consumidor aparece 8 vezes, sendo 6 vezes no título e 2 vezes no subtítulo, todas no caderno Mercado – muito pouco para um tema que, de fato, lidava diretamente com o cotidiano dos consumidores. A palavra sacola (ou sacolinha) apareceu 171 vezes, ou seja, em todos os recortes; sendo 9 vezes no título e 7 vezes no subtítulo. A seguir apresentamos a tabela com as categorias e subcategorias que serão analisadas nas matérias, a tabela está divida pela quantidade de vezes que aparece cada categoria e subcategorias: 60 Tabela 6 – Categorias e Subcategorias Fonte: Elaborado pelo autor Observa-se que as categorias escolhidas estão alinhadas ao material que será analisado. Buscou-se selecionar frases ou palavras que possibilitassem o levantamento de alguma hipótese com relação à como a mensagem parte do emissor, portanto, o Painel do Leitor não faz parte desta análise. Ressalta-se ainda que as matérias consideravam a questão das sacolas plásticas e, nessa busca, também foram encontradas palavras derivadas, como ecobag, saco plástico,entre outros. Após essa composição da mostra, foi colocada em prática a metodologia de Laurence Bardin (2009) de “leitura flutuante”, com o objetivo de ressaltar as primeiras percepções. Inicialmente, acreditou-se que a maioria das matérias estaria no caderno Cotidiano, já que é um assunto que trata diretamente do interesse do consumidor; no entanto, a maioria das matérias foi encontrada no caderno Mercado. O caderno Mercado do jornal, que possui cunho econômico, discute a economia brasileira e internacional, o mundo dos negócios, dos investimentos e indicadores econômicos. Esse fato se destacou, pois o assunto, em um primeiro momento, como já mencionado, estaria no caderno Cotidiano, já que é nesse caderno que estão as notícias do dia a dia, as dicas da cidade; e o caderno também esclarece o direito do consumidor, temas voltados aos interesses do cidadão, entre outros. Entende-se que o tema das sacolas plásticas enquadra-se como de interesse do cidadão. 61 A primeira hipótese induz a pensar que os consumidores não foram levados em consideração de forma prioritária, ficando em segundo plano; e que os interesses empresarias e governamentais vieram em primeiro plano, pois grande parte do conteúdo sobre o tema publicado no jornal está no caderno Mercado. Aparentemente, a pesquisa apresentada serviu para os empresários mensurarem a opinião da população; no entanto, a forma como a pesquisa foi divulgada pelo jornal, dá a entender que os consumidores estão satisfeitos com a extinção das sacolas. Entretanto, no meio da matéria, apareceu um embate entre a indústria do plástico e os supermercadistas. Essa discussão não apareceu no título ou subtítulo, mas, sim, no interior do texto. A trajetória da pesquisa, no período de janeiro a julho de 2012, será apresentada e analisada, a partir do objeto de estudo escolhido, com apontamentos das matérias mais importantes, e analisando, especialmente, a quem o jornal deu voz – categorizados aqui como Agentes da Fala –, o que ele não discute, quem são os envolvidos, entre outros. Ressalta-se, ainda, que a análise foi realizada seguindo a cronologia, com o intuito de expor o conflito exibido nas matérias do jornal. O primeiro Agente da Fala que obteve voz no jornal, em 17 de janeiro de 2012 – considerando-se esta a primeira matéria divulgada que envolvia o tema –, foi uma empresa, a rede de supermercados Pão de Açúcar, que teve destaque no caderno Mercado, conforme a seguir: Figura 18 – Matéria Folha de S. Paulo – 17/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo 62 A matéria, cujo título em negrito deu ênfase ao nome do supermercado e foi disponibilizada metade superior da página, aponta as ações que a rede de supermercados tomaria para preservar o meio ambiente. Umas das ações seria o monitoramento da emissão de carbono e o texto enfatizou a extinção das sacolas, a matéria cita ainda o alinhamento do supermercado com a APAS e específica que “em fevereiro, a rede iniciaria a venda também no Estado de sacolas ‘verdes’ que longa duração que deveriam custar R$ 2,99”. Aparece aqui outra categoria Custo: o preço das sacolas. Nesta primeira matéria analisada, supõe-se que a extinção das sacolas daria lugar a um novo mercado de venda de sacolas, pois não foi mencionada, na matéria, uma forma sem custo para consumidor sim aparece o custo das sacolas. Posteriormente a isso, no dia 19 de janeiro de 2012, a segunda matéria sobre assunto, divulgada no caderno Mercado, explicou o processo de produção das sacolas “verdes”, que seriam feitas de amido de milho. Entra em cena a seguinte categoria de análise desta pesquisa: a Tipologia das sacolas, pagas ou gratuitas. Logo abaixo daquela, outra matéria apontava para a preocupação dos supermercadistas que não fizeram reserva das sacolas; previa-se a possível falta de sacolas biodegradáveis em 25 de janeiro, dia em que teria início o definitivo fim das sacolas derivadas de petróleo, conforme matéria a seguir: Figura 19 – Matéria Folha de S. Paulo – 19/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo 63 O título e o subtítulo da matéria aparentemente expressam que todas as redes de supermercados estão preocupadas com a falta de sacolas, porém, no corpo da matéria, o jornal cita apenas o supermercado Master – uma rede do Rio Grande do Sul – e destaca a precaução dos grandes, com o seguinte texto: “Pão de Açúcar, Extra, Carrefour e Walmart encomendaram mais de um milhão de unidades em dezembro e têm estoque garantido”, além de mencionar que a procura pela sacola biodegradável ocorreria somente no início, e depois os consumidores prefeririam as sacolas retornáveis. A matéria ainda apresenta a APAS com o seguinte discurso: “Não é verdade que está faltando sacolinha biodegradável. Se faltar em um ou outro supermercado, isso não é problema. As caixas de papelão estão aí para ajudar nos primeiros dias” e “O ponto é uma descartável por uma reutilizável. A de R$ 0,19 é um paliativo”, disse João Galassi, presidente da APAS. Do lado direito do jornal, a Folha de S. Paulo também divulgou que promoveria um debate com o Presidente da APAS, o Presidente da Plastivida (representando a indústria do plástico), o Secretário Estadual do Meio Ambiente, e o Presidente do Idecon – Instituto Nacional de Defesa do Consumidor. Dando continuidade à análise da categoria Tipologia das sacolas e Custo das sacolas, no caderno Mercado do dia 20 de janeiro de 2012, o jornal publicou uma matéria, cujo título “Na Zona Leste, consumidor já adere à sacola retornável” enfatiza o uso das sacolas pagas em determinada região da cidade. Logo após, o subtítulo realça a busca do consumidor por alternativas gratuitas, as caixas de papelão. No chamado ‘olho da matéria’, o jornal menciona queixas do consumidor por pagar pelas sacolas biodegradáveis e também por ter de misturar produtos de limpeza com alimentos, conforme exibido a seguir: 64 Figura 20 – Matéria Folha de S. Paulo – 20/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A matéria comenta que “Apesar de reclamar de pagar [...], o paulistano parece estar preparado para o fim do uso das embalagens plásticas cedidas gratuitamente”. Aparentemente o jornal Folha de São Paulo já coloca a situação com certa, pela matéria o jornal consolida a aceitação do consumidor pelo uso da sacola retornável e extinção das sacolas tradicionais. No corpo da reportagem, o jornal dá voz aos consumidores que se posicionam contra e a favor das sacolas biodegradáveis e sobre o custo dessassacolas. Aqueles que estão contra, apresentam, como principal motivo, que não poderiam mais reutilizar as sacolas para acondicionar lixo. Quanto aos favoráveis, o jornal justifica que “os consumidores estão recebendo bem a mudança e que isso tem relação com o trabalho de conscientização que está sendo feito há quase um ano pela varejista”, este trecho retirado da matéria anterior, aparentemente aponta que o jornal deu voz aos supermercados, mostrando que foi realizada conscientização dos consumidores. O encerramento da matéria apresenta a gerente de uma loja do Carrefour com o seguinte discurso, sobre as alternativas de acondicionamento das compras, ou Tipologias de sacolas: “Deixamos as caixas à mostra e os clientes pedem para usálas ou pegam automaticamente. As sacolas também ficam à mostra e têm um preço acessível”. Novamente, deu-se destaque para o debate promovido pelo jornal, com as participações do presidente da Associação Paulista de Supermercados, João 65 Galassi; do presidente do Instituto Socioambiental dos Plásticos, Miguel Bahiense; do secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas; e do presidente do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor, Reginaldo Sena e com a mediação de Morris Kachani. No título da matéria, entende-se que o consumidor, de certa forma, já aderira à sacola; porém, no corpo da matéria, as vozes de alguns consumidores argumentam contra e favor. Já no encerramento da matéria, a gerente do Carrefour aponta que os consumidores estariam satisfeitos, sem exceção – o que não condiz necessariamente com o contexto explicitado. No dia 22 de janeiro, domingo – dia com maior volume de vendas do jornal, pois a maioria das pessoas está em casa e nesse dia –, o jornal traz um conteúdo diferenciado como revista, caderno exclusivo de anúncios, entre outros. Exatamente com três dias de antecedência para o previsto fim das sacolas nos supermercados do estado de São Paulo, o jornal publicou uma matéria com o seguinte título: “Em busca da sacolinha ideal”. Figura 21 – Matéria Folha de S. Paulo – 22/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Ainda discutindo a categoria Tipologia das sacolas e Custo das sacolas, nessa data, houve grande destaque para a matéria, com quase duas páginas. Ao lado esquerdo, o colorido do azul turquesa que convida o leitor a refletir sobre a 66 questão da melhor forma para acondicionar as compras. E também a discussão sobre a categoria Sustentabilidade, mostrando o impacto de cada opção de sacola. Nessa parte matéria, o jornal explica as vantagens e desvantagens das sacolas de pano, biodegradáveis; das caixas de papelão e das sacolas de feira. Todas essas informações estão ao entorno da página, na parte azul. Ao centro da página, um branco que remete uma sacola mostra que existem pessoas que não querem pagar os R$ 0,19 pela sacolinha. A reportagem cita novamente que os consumidores também reclamam por ter de misturar produtos de limpeza com alimentos; todavia, o jornal não deu ênfase para isso, já que essas informações não estão grifadas em negrito e não são destacadas na matéria. Na página ao lado, entra-se em outro tipo de discussão sobre a categoria das sacolas pagas. A matéria com o título “Consumidor descobre sacola de charme”, e com o subtítulo “Ecobags se tornam objeto de desejo e invadem Fashion Week”, apresenta um novo ângulo de toda essa discussão. Um dos maiores eventos de Moda que acontece no mundo, e tem como sede a cidade de São Paulo, aderiu a moda, “mas poucas agregam sustentabilidade no feito”, afirma a matéria, em cujo corpo explicitam-se os contrapontos aos objetivos da campanha. Confirma-se parte desse argumento no trecho a seguir: No Brasil, são pouquíssimas as sacolas retornáveis disponíveis que cumprem esses requisitos, até porque o preço vai às alturas. Uma legítima ecobag como a da Osklen [loja de grife], feita com lona de juta da Amazônia e confeccionada por uma comunidade de costureiras do Rio de Janeiro, não sai por menos de R$ 200. A consultora de moda da GNT, Lilian Pacce, afirma que “a sacola não precisa necessariamente ser feita com tecido ecológico; o que define é a durabilidade e resistência que vai proporcionar um tempo de uso maior”, contradizendo a campanha da APAS, pois, de fato, o mercado de moda aproveitou-se da polêmica das sacolas e lançou vários produtos. Estilistas renomados colocaram frases de impacto nas sacolas como “o amor é a essência do universo”, ou pinturas clássicas para agregar valor às sacolas, mas essa indústria da moda – percebeu-se, durante a execução desta pesquisa – pouco se preocupou em atender às necessidades ambientais; e, sim, preocupou-se em atender às necessidades do mercado de moda, utilizando, inclusive, um evento de grande relevância para tal. O jornal, talvez 67 por ter abordado a questão no caderno Mercado, não cita o acordo da APAS com o Governo ou nenhum outro elemento polêmico ligado ao caso das sacolas. Dia 23 de janeiro de 2012, segunda-feira, o jornal publicou uma matéria no caderno Mercado. Esse caderno, às segundas-feiras, chama-se Folhainvest. Na matéria intitulada “Indústria diz sentir o impacto do fim das sacolas gratuitas”, o foco vai para um Agente da fala, subcategoria das Empresas, representada pelo presidente do Instituto Socioambiental dos Plásticos, entidade que representa a indústria do plástico. Miguel Bahiense afirma, “O varejo já cortou pedidos e isso já começa a gerar demissões e cortes de gastos pelas empresas”. Na reportagem, o presidente informa que não sabe qual o valor do prejuízo para a indústria; porém, ele ressalta “que está em jogo um faturamento anual de R$ 200 milhões (pouco menos da metade dos R$ 500 milhões estimados para todo o Brasil), seis mil empregados diretos, e 28 mil indiretos”, conforme demonstrado abaixo: Figura 22 – Matéria Folha de S. Paulo – 23/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Outra voz que aparece na matéria, representado a subcategoria Empresas, é a de Paulo Coelho, da Braskem – “gigante do setor de petroquímico” –, a maior fornecedora de resina utilizada na fabricação das sacolas tradicionais. O executivo responsável pela área de polietileno informa que “a demanda pela matéria prima cresceu a um ritmo acelerado”, mas atribui isso à desaceleração da economia 68 brasileira. O jornal indica que o Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour juntos representam 43% do mercado. Logo ao lado, foi publicada uma matéria que aponta o crescimento de vendas de sacolas de lixo e retornáveis, apontando que, em Belo Horizonte, houve aumento na demanda de sacos de lixo de 15%, como afirma a AMIS – Associação Mineira de Supermercados, já que, na capital de mineira, a campanha teve início em 2011. A reportagem mostra, ainda, o caso da empresa Percon, que fornece sacolas retornáveis, no interior, e aumentou seu faturamento em 100%. Trata-se de um contrassenso, pois, o objetivo é reduzir o consumo de sacolas plásticas, mas, não necessariamente aumentar o consumo de sacos de lixo. Finalmente, no dia 25 de janeiro, o dia de início do acordo para o fim da distribuição de sacolas convencionais no Estado de São Paulo – dia de aniversário da cidade –, o jornal disponibilizou meia página do caderno Mercado para discutir o assunto, conforme recorte a seguir: Figura 23 – Matéria Folha de S. Paulo – 25/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Como se observa na figura anterior, o título da matéria foi “Fim das Sacolas começa hoje sob polêmica”, e no subtítulo: “Indústria do Plástico diz que acordo gerará economia para os supermercados, que passarão a cobrar por sacolinhas”. 69 Em seguida, no ‘olho da matéria’, a APAS defende que “Modelos biodegradáveis estão a preço de custo”. Na sequência, a reportagem destaca o debate que foi organizado pela Folha de S. Paulo, cujos participantes foram: João Galassi, da APAS; Miguel Bahiense, da Plastivida; Bruno Covas, secretário estadual do Meio Ambiente; e Reginaldo Sena, do Idecon. Na figura anterior, é possível ver alguns trechos do debate, na parte esquerda, e, para que possamos melhor demonstrar, segue um trecho extraído do jornal. Figura 24 – Matéria Folha de S. Paulo – 25/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Na primeira pergunta que o jornal faz no debate, percebe-se que o Governo, como Agente da fala, não é colocado em evidência, já que a pergunta é bastante objetiva: “Porque a APAS vai banir as sacolas plásticas descartáveis dos supermercados?”. Enquanto a APAS apenas fechou um acordo com os supermercados, aproveitando o projeto de LEI PL62, conforme já citado anteriormente. A resposta do Presidente da APAS é a seguinte: “É uma demanda da sociedade, queremos substituir sacolas descartáveis, por reutilizáveis. A questão é de mudança de hábito e adequação ao uso de alternativas, como caixa de papelão, carrinhos de feira e etc.”. Chama a atenção o presidente da APAS mencionar que “é uma demanda da sociedade”. Sim, é uma demanda da sociedade, bem como uma demanda do setor público e privado, conforme mencionada no primeiro capítulo; no 70 entanto, a APAS não comenta essas vertentes, deixando, assim, a responsabilidade para o cidadão. Já o Presidente da Plastivida, Miguel Bahiense retruca: “Banir nunca é a solução”, e diz que já foram tomadas outras medidas pare reduzir a quantidade de sacolas consumidas. O ministro Bruno Covas mantém-se neutro no debate, mostrando-se preocupado com os empregos da indústria e com os impactos ambientais. Porém, um dos propulsores para que essa ação acontecesse foi o Governo do Estado de São Paulo, que apoiou a APAS. O governado Geraldo Alckmin, juntamente com o ministro Bruno Covas, assinaram um acordo com APAS em 2011, como mostra o trecho extraído do site do Governo do Estado de São Paulo, em 2014: Assinamos aqui o decreto dando uma dilatação de 30 dias de prazo pare recolhimento do ICMS dos negócios aqui gerados. Assinamos também um protocolo para gradualmente substituir o saco plástico por uma sacola biodegradável ou retornável, que é até o ideal. Aparentemente, o Governador estava mais preocupado com o ICMS do que com a isenção das sacolas tradicionais e, na ocasião, o ministro Bruno Covas participou do evento da APAS, mas, agora, no debate, posiciona-se neutro na situação. Por fim, Reginaldo Sena, do Idecon, apenas se opõem dizendo que “o consumidor tem direito à sacola. A segunda pergunta feita pelo jornal, no debate, foi: “A sacola biodegradável custa R$ 0,19. Por que o supermercado não banca a despesa?” Apenas o presidente da APAS respondeu, de acordo com a matéria: “O ponto é uma descartável por uma reutilizável. A de R$ 0,19 é um paliativo em um momento transitório”. Após suspensão da distribuição das sacolas descartáveis, o jornal publicou uma matéria, no caderno Mercado, no dia 26 de janeiro de 2012, com o título, “Sacolinha paga encalha no supermercado”, conforme a seguir: 71 Figura 25 – Matéria Folha de S. Paulo – 26/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A matéria dá voz agora ao Consumidor, como Agente da fala, apresentando o caso da cliente que comprou a sacola biodegradável e a sacola estourou. Questionou-se se a cliente deveria comprar duas. E também o caso de um cliente que comprou dez sacolas, mas usou apenas sete; as outras, ele levaria para casa. A matéria apontou ainda que faltaram caixas na loja do Carrefour Villa-Lobos. Ao final da matéria, volta o Presidente da APAS, João Galassi, com o seguinte discurso: “A adesão foi ótima. É uma mudança de comportamento que o consumidor gostou de fazer”. Em seguida, dando voz novamente ao Consumidor, outra colocação enfática, entre aspas: “O fim da sacolinha (de plástico) é importante; fizemos um trabalho educativo sobre as sacolas retornáveis da escola onde leciono”. Quem assina o texto é um professor de geografia. À direta da matéria, as fotografias exibem três exemplos de Consumidores: uma dona de casa reprova, mas está sorrindo; outra consumidora é prevenida, pois levou as próprias sacolas; e, na última, mãe e filho aprovam a medida. Logo a seguir, uma matéria explica sobre o processo de extinção das sacolas, no interior do estado. As vozes do presidente da APAS e do professor de Geografia, 72 que foram colocadas em evidência, apontam que os consumidores estavam satisfeitos, e que a atitude era correta; porém, verificamos que alguns consumidores não concordaram por ter de pagar pelas sacolas biodegradáveis. Nas imagens dos consumidores, todos estão sorrindo e felizes, inclusive a consumidora que reprova o novo procedimento nos supermercados; nesse caso, a partir da leitura das fotografias, entende-se que todos estão felizes com o banimento das sacolas. No dia 31 de janeiro de 2012, a capa do caderno Mercado utilizou praticamente todo o espaço para falar sobre o assunto. O jornal publicou o resultado da pesquisa Datafolha – respeitado formato de pesquisa que bastante utilizado em diversas ocasiões. A pesquisa foi realizada entre os dias 26 e 27 de janeiro, na cidade de São Paulo, e contou com a participação de 1.090 entrevistados; com a margem de erro de 3 pontos percentuais, garantindo, assim, um nível de confiança de 95%, segundo o jornal. Nessa pesquisa, a primeira pergunta foi “Você é a favor ou contra o fim das sacolinhas em supermercados em SP?” A opinião dos consumidores mostrou que 57% das pessoas aprovam o fim da distribuição das sacolinhas no Estado de São Paulo. Logo no início da matéria, aparece a voz de Roberto Nascimento de Oliveira, um professor da ESPM – renomada escola na área de propaganda e marketing da cidade de São Paulo –, com a seguinte afirmação: “A aprovação é reflexo da preocupação que existe na população com a questão do meio ambiente”. Em seguida, o Professor Eduardo Andrade, do Ibmec – conceituada escola de negócios no país –, também afirma: “Isso ocorre quando o comportamento do consumidor dá sinais de mudança. [...] Isso explica a aprovação da medida logo após a implementação”. O jornal afirma que os consumidores concordam com o fim das sacolinhas, porém, reprovam o uso de vendas das biodegradáveis. 66% dos entrevistados são contra a cobrança das sacolas, e 57% não pretendem comprar as sacolas; 63% preferem o uso das sacolas retornáveis e afirmaram que usaram ecobags. 24% dos entrevistados citaram os carrinhos de feira e 20% usaram as caixas de papelão. O professor da ESPM explica o motivo pelo qual a pesquisa obteve dados desfavoráveis dos consumidores: “As sacolas plásticas eram um custo dos 73 supermercados repassado aos preços. Seria melhor que mostrassem agora se houve redução de preços com o fim deste gasto”. A seguir, a página da matéria: Figura 26 – Matéria Folha de S. Paulo – 31/01/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Na parte inferior, ao lado esquerdo, deu-se voz à professora Dra. Priscila Bordin Claro, de gestão Ambiental do Insper, que apontou que esse acordo teve alguns fatores que não foram considerados, como o quanto as sacolinhas derivadas do petróleo poluem. A professora explicou ainda que a mesma sacola poderia ser reutilizada, e concluiu que a compra de sacos de lixo e de outros tipos de sacolas mexeria diretamente com o hábito de compra do consumidor e com o orçamento mensal. Ela afirmou que o custo das sacolas antigas está sendo repassado para o consumidor, favorecendo a indústria, e questionou se o custo de panfletos, outdoors, etc. teria como motivador a sustentabilidade. Criticou também o governo, que não teria um uma estratégia estruturada e possuía apenas ações fracas; ela citou 74 quando morou na Holanda e exemplificou com o sistema eficiente de separação de lixo, naquele país. Como demonstrado, a pesquisa Datafolha trouxe diversos indicadores sobre o fim das sacolinhas, porém percebe-se que o título da matéria usou uma informação a favor, apontando que a maioria era a favor do fim da distribuição das sacolas. Inclusive na imagem da matéria, mostrada anteriormente, tem-se essa métrica como destaque, pois é o maior gráfico apresentado. O jornal poderia ter usado a informação de que a maioria não queria pagar pelas sacolas biodegradáveis ou que os paulistanos aprovaram uso das sacolas retornáveis; além disso, as vozes de professores de renomadas instituições de ensino foram usadas para fomentar a ação do fim das sacolas. A voz contra ficou desfavorecida, sem destaque, sem cores, na parte inferior da matéria, ao lado de um informe publicitário. Suspeita-se tratar de favorecimento ao acordo que beneficiaria o mercado, supermercados e governo, desfavorecendo assim o consumidor, pois, acredita-se que o custo tenha sido repassado para este, não aparecendo, até esse momento, nenhuma vantagem para o consumidor. Apenas consegue-se perceber as vantagens para o setor supermercadista, enfatizado até pelo fato de a discussão figurar em um caderno econômico. O que leva a pensar na hipótese também que a APAS teria favorecimento nos espaços do jornal é a voz dada à associação, que aparece diversas vezes, tendo um espaço exclusivo no primeiro caderno; além de o discurso do presidente da APAS, João Galassi, ser alinhado com as suspeitas de que as matérias estivessem a favor do acordo do fim das sacolinhas. Na última matéria comentada, percebe-se o favorecimento das informações em prol da campanha da APAS em parceria com o governo. No dia seguinte, a matéria da APAS já inicia com a seguinte informação em negrito: “A população apoia a troca das sacolas descartáveis por sacolas reutilizáveis; não se pode ignorar o dano que elas causam ao meio ambiente”. O presidente da APAS, então, menciona a parceria com o Governo “A campanha tem apoio do Governo do Estado de São Paulo e de várias prefeituras”: 75 Figura 27 – Matéria Folha de S. Paulo – 02/02/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A matéria contém dados da pesquisa Ibope Inteligência, reafirmando que os consumidores aprovaram o acordo e que, na expansão para outras localidades, percebeu-se a cidade mais limpa. Todavia, não é mostrado o interesse e lucros dos supermercados por não repassarem os custos das sacolinhas para os produtos, a parte mais afetada até então seria o consumidor, por isso, suspeita-se – e há aí uma pista – de que o jornal queria convencer o consumidor de que o fim da distribuição era aceito pela maioria. Em fevereiro de 2012, os supermercados começaram a vender sacolas retornáveis e ficou decidido o valor de até R$ 0,59 por sacola. Outras opções seriam as sacolas plásticas biodegradáveis, produzidas a partir de amido de milho ou de material reciclado, pois, com esse tipo de material, a sacola se degredaria fácil e rapidamente. O consumidor tinha também como opção levar as próprias sacolas ou outro meio de acondicionamento de casa, como já mencionado. Foi cogitada ainda a possibilidade de usar a sacola em forma de empréstimo, ou seja, o consumidor 76 emprestava a sacola do supermercado e, ao devolver a sacola, poderia receber dinheiro de volta ou desconto em produtos. Todavia, nada foi definido nesse sentido. O acordo firmado entre a APAS e o Governo do Estado de São Paulo entrou em vigor, no entanto, em fevereiro de 2012, houve outro acordo com o Ministério Público do Estado de São Paulo, PROCON–SP e APAS. Essas entidades firmaram o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) para que o consumidor tivesse tempo hábil para se adequar às novas regras e, ainda, para que as sacolas fossem distribuídas gratuitamente por mais sessenta dias, com o intuito de adaptar o consumidor ao novo formato de compras nos supermercados. Os atendentes dos caixas nos supermercados deveriam informar os consumidores sobre a nova medida, antes da realização do pagamento da compra. Caso o supermercado descumprisse esse acordo, estava sujeito à multa no valor de R$ 25 mil, por dia. Durante esse período de adaptação, 66 supermercados foram fiscalizados e 18 não respeitaram o acordo. A fiscalização foi realizada com a denúncia dos próprios consumidores. De acordo com Renan Ferracioli, diretor de fiscalização do PROCON–SP, “um dos autuados não fornecia alternativa gratuita aos consumidores, o que caracterizava prática abusiva, pelo artigo 39 do código de defesa do consumidor”. Outros estabelecimentos foram autuados pela falta de informação ao consumidor, as multas aplicadas poderiam variar de R$ 400 a R$ 6 milhões. Essa mudança atingiu as lojas associadas da APAS em 150 cidades, onde residem 80% da população do estado de São Paulo. Outro número que chamou bastante atenção: mensalmente, 2,5 milhões de sacolinhas descartáveis eram consumidas na capital paulista, de acordo com a matéria publicada no caderno Mercado: Figura 28 – Matéria Folha de S. Paulo– 04/02/2012 Fonte: Folha de S. Paulo 77 Entende-se que essa informação é de grande interesse para o consumidor, afinal ele não precisaria mais desembolsar dinheiro para comprar sacolas e, logo, não teria seu orçamento afetado. Entretanto, a matéria teve pequena chamada na capa do primeiro caderno, sem destaque, na parte inferior ao lado esquerdo, quase imperceptível. A matéria do caderno Mercado também foi pouco explícita, diferentemente da ênfase concedida pelo jornal em ocasiões anteriores – como as duas páginas para explicar sobre as sacolinhas, ou quando usou a capa do caderno Mercado para destacar que os consumidores aprovaram o termo. Dessa forma, pode-se afirmar que o jornal deu pouca atenção a essa matéria, que não era a favor da APAS e do Governo. No dia seguinte, domingo, 5 de fevereiro de 2012, o jornal publicou uma matéria – novamente no caderno Mercado –, cujo título foi “Fracassa venda de sacola biodegradável nos supermercados”: Figura 29 – Matéria Folha de S. Paulo – 05/02/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A matéria explica o acordo feito pelo PROCON, APAS e Ministério Público. Na primeira coluna, a voz da APAS faz-se presente com a seguinte informação “do volume originalmente distribuído em sacolas, somente 2,6% foram substituídos pelas sacolas biodegradáveis” e ainda “Sempre dissemos que a sacola 78 biodegradável era um produto de transição até o consumidor se acostumar com a ideia de levar a sacola retornável”. Na parte superior da matéria, ao lado direto, a foto de um consumidor segurando a sacola e, ao lado deste, com destaque entre aspas, mais uma vez a voz da APAS com assinatura do presidente da associação, João Galassi: “Por sugestão do Ministério Público e do PROCON decidimos eliminar de vez essa sacola [biodegradável]; vários supermercados partiram para o uso direto da sacola retornável”. Nessa matéria, o jornal omite um dos interessados na questão, a Plastivida representante da indústria do plástico. Já a APAS aparece em três momentos distintos, e o nome do presidente, duas vezes. Não há a voz do consumidor ou sua opinião. Com isso, novamente, explicitam-se indícios de favorecimento da APAS nas matérias do jornal, pois a voz do PROCON e do Ministério Público – órgãos ligados ao Termo de Ajustamento de Conduta, TAC – não foi mencionada em nenhum momento nessa matéria. O posicionamento da APAS também não foi adequado, pois o TAC é uma obrigação que a APAS deve cumprir e, no trecho em negrito ao lado direto da matéria, João Galassi afirma que foi uma sugestão do Ministério Público quando, na verdade, era uma obrigação. Outro ponto interessante é que, no TAC, os supermercados seriam obrigados a dar sacolas grátis para os consumidores no dia 12 de março (dia do consumidor). E essa informação não foi mencionada pela APAS; afirmando que havia sido parte de uma “conversa” com o Ministério Público, quando, na realidade, foi um termo que assinado pela APAS. Mais uma vez, constata-se o silenciamento da mídia. Em 9 de março de 2012, a pedido da Plastivida, o CONAR – Conselho de Autorregulamentação Publicitária –, órgão que regulamenta as campanhas publicitárias no Brasil, através da diretoria e do conselho de ética, decidiu, por unanimidade, interromper a campanha da APAS, “Vamos Tirar o Planeta do Sufoco”. A campanha teve veiculação na mídia impressa, nos supermercados e nas redes sociais, conforme a seguir: 79 Figura 30 – Matéria Folha de S. Paulo – 09/03/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A matéria foi publicada no caderno Mercado, ao final de uma das páginas, com pouca evidência, não tendo sido mencionada na capa do primeiro caderno. No lançamento da campanha “Vamos tirar o planeta do sufoco”, o jornal deu muita ênfase ao assunto, como evidenciado anteriormente; porém, para essa importante questão, o jornal não deu qualquer destaque. O título da matéria, como se vê acima, foi: “Conar reprova campanha contra sacolinha”. Evidencia-se a voz da Plastivida, com a seguinte fala: “É uma tentativa de propaganda enganosa porque a campanha diz que a sacola é descartável, quando é reutilizável”. O Advogado da Plastivida ainda reforça: “A Sacola nunca foi fornecida gratuitamente. E, apesar de deixar de distribuí-las, continuaram a ser cobradas de forma indireta”. Ou seja, essa informação poderia ter sido divulgada no caderno Cotidiano, já que a Folha de São Paulo é um jornal a serviço do Brasil. Nessa briga de gigantes, de qual Brasil o jornal está falando? Pois o cidadão precisa saber que o custo das sacolinhas está incluído nos alimentos adquiridos, e essa informação não foi evidenciada pelo jornal. A APAS, mais uma vez, tem voz na matéria, e diz não ter sido notificada sobre o assunto, e que recorrerá da decisão, conforme informado pela área jurídica. Um dos termos acordados no TAC foi a distribuição de sacolas gratuitas do dia do consumidor, porém este teria de comprar cinco itens no supermercado para receber as sacolas. O jornal publicou uma matéria, no dia 15 de março, no caderno Mercado, com o seguinte título: “Consumidor recebe sacola reutilizável grátis em São Paulo”, conforme a seguir: 80 Figura 31 – Matéria Folha de S. Paulo – 15/03/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Logo no inicio da matéria, tem voz a APAS, e, desta vez, a Associação não usou o presidente João Galassi e, sim, João Sanzovo, diretor de sustentabilidade, com a seguinte fala: “Reduzimos em 80% o uso de sacolas descartáveis no Estado de São Paulo. A adesão a campanha mostra que o consumidor está disposto a contribuir para melhorar as condições do ambiente”. O trecho citado no corpo da matéria destaca que, de fato, existe um embate entre os supermercados e a indústria do plástico que, como citado anteriormente, recorreu ao Conar para suspender a campanha da APAS. Nessa matéria, a Plastivida ganha voz novamente para falar sobre o assunto da campanha, por meio seu advogado: “É uma tentativa de propaganda enganosa. A campanha diz que a sacola é descartável quando é reutilizada, comprovadamente por pesquisas feitas com a população”. Em seguida aparece, em negrito, a voz da APAS, com muito destaque “Reduzimos em 80% o uso de sacolas descartáveis no Estado, o que mostra a conscientização do consumidor”. Suspeita-se, novamente, de favorecimento da APAS pelo jornal, pois, nesse embate, a associação aparece na maioria das matérias; não apenas uma vez, mas muitas e muitas vezes, com destaque em negrito e entre aspas, evidenciando a fala 81 dos representantes da APAS. Entende-se que, nesse embate entre APAS e indústria do plástico, pelo que se pode perceber analisando os recortes do jornal, fica de fora a voz do consumidor, tendo este ficado prejudicado pela circunstância, já que o jornal disponibilizou para elepouco espaço. Tratando, inclusive, as informações no caderno Mercado, pouco se comentando sobre o meio ambiente ou a sustentabilidade. Outra pista que leva a crer nessa possibilidade foi a não divulgação do jornal da denúncia feita pelo Idecon no dia 28/03/2012 – o órgão fez uma denúncia em audiência pública, na Câmara dos Deputados, contra o Extra, o Carrefour e o Walmart. Segundo o Idecon, os supermercados vendiam sacolas da China e do Vietnã. A seguir, um recorte do documento – que estará, em seu conteúdo integral, no anexo desta pesquisa. Figura 32 – Denúncia feita pelo Idecom – 28/03/2012 Fonte: www.camara.gov.br Além de criticar os supermercados, o Idecon critica ainda a APAS sobre a campanha que, de fato, não discutia outras preocupações com o meio ambiente, como o uso de outros tipos de embalagens, argumentando que só retirar as sacolas de circulação não resolveria. Esse fato, aparentemente importante e que estava a favor do consumidor, o jornal não noticiou. A despeito da discussão sobre a origem das sacolas vendidas, conforme constava no TAC, fossem sacolas chinesas ou vietnamitas, os supermercados que 82 não estivessem de acordo seriam multados. E, ao todo, o PROCON multou 18 desses estabelecimentos. Próximo dos 60 dias, conforme acordo firmado pelo TAC, o jornal divulgou uma informação na capa do primeiro caderno, no dia 3 de abril de 2012, pois, assim que a data acordada pelo TAC entrasse em vigor, as sacolas não seriam mais distribuídas pelos supermercados. No caderno Mercado, em matéria na mesma data, o título: “Varejo sugere que saco de lixo tenha tributo menor” discute a questão, pois, com o fim da distribuição de sacolas, aumentaria a procura por sacos de lixo. Percebe-se, então, uma discussão centralizada nos interesses do mercado. Com o fim da distribuição das sacolas descartáveis, os supermercados estavam proibidos de vender as sacolas feitas de amido de milho, porém, os supermercados teriam até agosto para oferecer uma sacola com o custo de R$ 0,59. Uma solução proposta pelos supermercados foi disponibilizar a sacola “vaivém” e o jornal publicou, no dia 4 de abril, outra matéria, no caderno Mercado, com o título “Supermercados vão dar sacola ‘vaivém’” – e a matéria explicou os pontos positivos e negativos. Destaca-se que a APAS aparece duas vezes, no início e no meio da matéria. Até então, percebe-se que o jornal enfatizou positivamente o fim das sacolas e a APAS sempre apareceu, de alguma forma, com força na voz e ênfase nas suas falas. Poucas vezes viu-se a Plastivida e o Consumidor com falas enfatizadas, sendo que, quando do aparecimento da voz dos consumidores, eles expressaram várias críticas. A partir da exposição dessas hipóteses, acredita-se que exista algum fator favorável à APAS, devido à sua parceria com o Governo para lançar a campanha “Vamos tirar o planeta do sufoco”. Em 5 de abril de 2012, o jornal publicou uma matéria com o título “Bactérias retornáveis”, com muito mais ênfase para esse assunto, já que havia uma chamada na capa do primeiro caderno, na parte inferior, ao lado direto, com muitas cores – propositalmente com o objetivo de chamar atenção. No caderno Mercado, uma página inteira com muitas cores e ilustrações. Novamente, nessa matéria aparecem as falas da APAS, mas não consta a voz da Plastivida; contudo, cedeu-se espaço para o consumidor, de forma moderada. 83 A Folha de São Paulo encomendou uma pesquisa para verificar se as ecobags continham micro-organismos, e o resultado, conforme publicação a seguir: Figura 33 – Matéria Folha de S. Paulo – 05/04/2012 Fonte: Folha de S. Paulo A pesquisa foi realizada com a quantidade de 100 sacolas. A maioria das sacolas continha micro-organismos, conforme observado abaixo: 88 sacolas continham micro-organismos 07 sacolas continham coliformes (05 sacolas com mais de mil coliformes) 59 sacolas continham bolor A matéria dava ainda algumas dicas de como usar a sacola e lavá-la apropriadamente. Ao lado direto dessa matéria, havia outra, com o título: “Consumidor reclama no primeiro dia sem sacolinha plástica em SP”. Aparecem aqui as vozes de alguns consumidores, como Elizabete Biblia: “Minha filha é farmacêutica e somos contra o uso de caixas. Mas se esqueço a sacola vou fazer o quê? Carregar na mão?”. Um aposentado posicionou-se contra: “Não concordo, mas vou pagar”. Outra consumidora afirmou: “É uma questão de costume”. Um estudante questionou: “Pelo lucro que os supermercados têm, deveriam oferecer de graça as biodegradáveis, antes vendidas por R$ 0,19”. Acreditou-se que esta seria apenas 84 outra matéria, com pontos sobre o tema das sacolas e que as vozes a favor da campanha não fossem aparecer; porém, não foi dessa forma. Por último, como de costume, deu-se voz à APAS: “O consumidor está mais preparado para mudar o hábito”, afirmou o presidente da associação. Em maio de 2012, no dia 22, o jornal publicou outra pesquisa Datafolha, conforme abaixo: Figura 34 – Matéria Folha de S. Paulo– 22/05/2012 Fonte: Folha de S. Paulo Desta vez, a pesquisa teve um retorno diferente. Conforme dito anteriormente, em janeiro de 2012, o jornal realizou uma pesquisa e o resultado foi que 57% das pessoas eram a favor do fim das sacolinhas. Porém, nessa nova pesquisa, o resultado foi diferente. Aqui foram entrevistadas 612 pessoas, entre os dias 3 e 4 de abril, e a pesquisa foi solicitada pela Plastivida – organização que defendeu o setor de plástico nesse embate das sacolas. Obteve-se o seguinte resultado: 69% dos entrevistados queriam a volta da sacolinha aos supermercados. A matéria deu voz à gerente responsável pela pesquisa: “As pessoas só sentiram ‘na pele’ o que é ficar sem a sacolinha agora. Na primeira pesquisa o tema estava mais recente. [...] para dois terços dos 85 entrevistados a retirada beneficia mais os supermercados”. Outro dado importante é que 61% dos entrevistados deixaram de fazer compras, devido ao banimento das sacolas. Quando perguntada a opinião sobre o principal motivo da retirada das sacolas, os entrevistados responderam: 43% interesses econômicos 35% imposição de autoridades 22% preocupação com o meio ambiente Outra pergunta interessante foi: “Quem mais ganhou com a retirada das sacolas plásticas dos supermercados?” 64% responderam os supermercados 33% responderam o ambiente 03% responderam o consumidor Uma pergunta que afeta diretamente o consumidor foi: “Percebeu mudança no preço dos produtos após a retirada das sacolas plásticas?” 75% responderam não percebeu mudança 23% responderam percebeu aumento no preço 02% responderam percebeu redução nos preços Sobre as sacolas retornáveis e ecobags, 73% dos consumidores são contra a cobrança; a APAS, por sua vez, também teve voz e respondeu: “O índice de preços do setor caiu 0,11% de janeiro a março de 2012”. Como de costume, a associação teve espaço de fala na matéria, com conteúdo em destaque: “Em Jundiaí, após um ano, 77% aprovam o banimento. O consumidor percebe, com o tempo, os benefícios”, afirmou o presidente da APAS, João Galassi – figura que aparece em diversas matérias quando se dá voz à associação. Em junho de 2012, após notificação da decisão da liminar da juíza Cynthia Torres Cristófaro, a 1ª vara Central da Capital, decidiu que as redes de supermercados precisavam continuar com a distribuição gratuita de sacolas 86 plásticas nos estabelecimentos. A liminar concedeu prazo de 2 dias, assim que recebessem a notificação, para que as lojas voltassem a fornecer as sacolas plásticas, como de costume. Para a Juíza, o banimento de distribuição gratuita das sacolas “nitidamente onera desproporcionalmente o consumidor”. No dia 26 de junho de 2012, o jornal publicaria, na capa do primeiro caderno, na parte inferior ao lado esquerdo, uma chamada com o título em negrito: “Juíza dá 48 horas para sacolas voltarem a supermercados”. No caderno Mercado, no início da página, a matéria tinha o título: “Supermercado terá de distribuir sacolinha”. Isso ocorreu, pois a Associação Civil SOS Consumidor entrou com uma ação contra a APAS e os grupos Sonda, Carrefour, Walmart e Pão de açúcar. A juíza ainda solicitou que os supermercados disponibilizassem “gratuitamente em quantidade suficiente embalagens de material biodegradável ou de papel adequadas para os consumidores levarem as compras para casa sem cobrar nada”. A juíza argumentou que “é notório que a prática comercial costumeira é do fornecimento, pelo lojista de embalagem para eu o consumidor leve as mercadorias que adquire.” Portanto, os supermercados, sem possibilidades de argumentação por parte dos grupos e por parte da APAS, foram obrigados a distribuir as sacolas: Figura 35 – Matéria Folha de S. Paulo– 26/06/2012 Fonte: Folha de S. Paulo E o imbróglio das sacolinhas plásticas acabou tendo esse final, com a justiça solicitando a distribuição gratuita, e para as outras partes interessadas pensarem em seus interesses. Acredita-se que o consumidor tenha sido deixado de lado, conforme comprovado nas matérias publicadas pelo jornal e analisadas aqui. Apenas na última matéria deu-se voz à Associação Civil SOS Consumidor, que foi fundamental 87 para que as sacolas voltassem a ser distribuídas gratuitamente, e de forma correta, pois, conforme observado nas matérias, a campanha da APAS não publicou que o custo das sacolas estava introduzido nos custos dos produtos e, com o banimento das sacolas plásticas, os custos dos produtos não tiveram nenhuma redução – o que gerava, de fato, prejuízo ao consumidor final. Todavia, a transferência do custo para o consumidor gerou muita polêmica, pois os estabelecimentos reduziram seus custos e não primordialmente esse corte foi repassado ao consumidor final. Outro ponto importante foi a incoerência dos supermercados, ao não distribuírem mais sacolas plásticas, mas venderem as sacolas sustentáveis – e ainda lucrarem com a venda dessas sacolas. O custo da sacola já estaria embutido nos produtos e, aparentemente, isso gerava ainda mais lucro para o supermercado, pois o custo não foi retirado dos produtos e foi repassado para o consumidor, por isso, conclui-se que o interesse econômico poderia favorecer os supermercados duas vezes, ou certamente iria movimentar a indústria de sacolas de lixo. O Instituto Akatu realizou uma pesquisa na qual se demonstrou que 98% das sacolinhas são reutilizadas pelos consumidores, no lixo da cozinha, banheiro, entre outros. Esses consumidores teriam de comprar sacos plásticos para suprir essas necessidades, o que de fato faria com que se tivesse um custo extra para tal. Com esse número considerável, entende-se por que a extinção das sacolas plásticas não seria aceita pelos consumidores. Foi questionado nesta pesquisa, Sustentabilidade Financeira ou Sustentabilidade Ambiental? De qual sustentabilidade está-se falando, no caso das sacolas? Para qual elemento o jornal deu mais voz? Se o viés foi ambiental na teoria, na prática, perceberam-se vários fatores envolvidos. Um tema de grande relevância e que teve vários elementos envolvidos, de diversas instâncias dos setores públicos, privados e consumidores. Contudo, acredita-se que, partindo da análise das matérias publicadas no jornal Folha de S. Paulo – análise esta acompanhada quase diariamente para enriquecer a conclusão –, o interesse econômico prevaleceu, a começar pelo fato das matérias estarem no caderno Mercado – como tabela apresentada inicialmente –, até a natureza das discussões 88 do jornal, que foram indicadores de embate entre as indústrias, novamente, pouco representando o consumidor. Nesta análise, fez-se uma busca bastante linear nos títulos e subtítulos das matérias, além de no corpo das matérias e selecionaram-se algumas categorias como: Sacolas (sacolinhas) biodegradáveis e descartáveis, representando a Tipologia das Sacolas. Custo das Sacolas: preço/custo. Os Agentes da Fala, abordando Governo, Empresas e Consumidores; e o embate entre Sustentabilidade e Consumo. Analisou-se, também – qualitativa e quantitativamente – a voz de cada categoria dentro das matérias publicadas, bem como a relevância da abordagem jornalística em cada caderno no jornal Folha de S. Paulo. 89 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta dissertação buscou analisar e contribuir para as pesquisas de como a mídia impressa – especificamente, neste caso, o jornal Folha de S. Paulo – abordou o tema sustentabilidade, por meio de discussões sobre o imbróglio das sacolinhas plásticas, e a Rio+20. A revolução científico-tecnológica, juntamente com a industrialização e o aumento das metas industriais, fizeram com que se aumentasse a exploração dos recursos naturais, logo, com o passar dos anos, ficou inevitável pensar na preservação desses recursos, entretanto, a preservação mudou de enfoque nos 1970 e, na atualidade, além da preservação ambiental deve-se pensar também sobre os fatores econômicos (SEVCENKO, 2012). O tema sustentabilidade vem chamando a atenção da sociedade, nos últimos anos, por ser um tópico diretamente ligado à preservação ambiental, à natureza e ao futuro das próximas gerações, impactando, portanto, intensamente a sociedade. Por sua vez, a mídia tem o poder de divulgar informações e, além disso, de consolidálas. Conforme Barros Filho (2008, p.175), “a ideia central é simples: quanto menos experiência direta tiveram os receptores em determinado tema, ou seja, quanto menos um tema estiver presente na vida diária das pessoas, mais dependentes estarão das mensagens mediáticas”, ou seja, as pessoas, ao não ter conhecimento dos temas, buscarão a mídia para obter informações; nesse sentido, a mídia tem a capacidade de ditar o que será noticiado, comentado e quais assuntos serão prioritários na vida das pessoas. De fato, confirmou-se – após análise dos dados estudados nesta dissertação – que as discussões sobre sustentabilidade foram impulsionadas por interesses políticos e econômicos, como visto no primeiro capítulo. Tudo começa com uma questão política, no Clube de Roma; posteriormente, as empresas tornam-se parceiras dos governos para atender seus interesses e o estado fica suscetível à indústria. Isso é percebido ao longo dos eventos, também apontados nesta pesquisa, sobre sustentabilidade. Os eventos que adentraram a temática sustentabilidade não tinham como objetivo ou meta tornarem-se lei, todos não 90 passavam de carta de intenções, porém, foram importantes para abrir espaço para discussões sobre o tema. Foram apurados vários acontecimentos que discutiram o tema sustentabilidade, especificamente a conferência Rio+20, dentro do recorte pesquisado. Verificou-se como a mídia interfere no que é divulgado, consequentemente, na opinião pública. Nesse caso, a conferência estava na pauta de inúmeros meios de comunicação. Conforme resultado da análise desta pesquisa, percebeu-se que a questão da sustentabilidade foi abordada em várias instâncias pelo jornal Folha de S. Paulo. Os estudos constataram discussões políticas, econômicas e sociais, no entanto, chegou-seà conclusãode que o discurso político e econômico foi enfatizado pelo jornal, pois o número de matérias com viés político foi muito maior. Como no caso da conferência das Nações Unidas Rio+20, isso ficou perceptível, uma vez que a análise demonstrou a maioria das publicações no Primeiro Caderno, o que leva a crer que os fatores políticos foram mais divulgados pelo jornal de forma a favorecer o governo e seus interesses. Quanto ao caso da lei que eliminava a distribuição de sacolas plásticas nas redes de supermercados no Estado de São Paulo, acredita-se que deveria ter havido um debate entre todos os envolvidos e, conforme se constatou, não foi o que ocorreu, prevalecendo, ainda, o interesse econômico. Logo, um tema que tratava diretamente do consumidor e de seu interesse ficou em segundo plano. Se, na teoria, o viés da campanha de extinção das sacolas plásticas foi de cunho para preservação ambiental, na prática, perceberam-se vários fatores envolvidos com interesses bastante distintos. Nas categorias analisadas nas matérias publicadas, constatou-se que os agentes de voz que mais tiveram espaço no jornal foram as empresas, especialmente as do ramo supermercadista e a APAS, associação que apoia esse segmento. O tipo de sacola – descartável ou biodegradável – também foi predominante, com pouco destaque sobre o benefício para o meio ambiente que essa ação traria. Outra categoria analisada foi o custo/preço das sacolas, também muito evidenciado pelo jornal, aparecendo muitas vezes, nas publicações, e a categoria sustentabilidade que teve pouca representatividade, com aparições sem muito foco jornalístico. Para ilustrar esse 91 cenário, apresentam-se uma tabela e um gráfico que demonstram quais categorias prevaleceram. Tabela 7 – Quantidade de aparições das categorias Fonte: Elaborado pelo autor Figura 36 – Aparições das categorias Fonte: Elaborado pelo autor A partir da tabela, do gráfico e da análise apresentada no terceiro capítulo, comprovou-se que, como agente de voz, houve o total de 111 falas em destaque – com 85 aparições para as empresas, representando 76,58% do total. Já os consumidores apareceram 24 vezes – isso representa 21,62%. O Governo teve duas aparições, com representatividade de 1,80%. 92 Com base nesses dados, constata-se que o jornal deu muito mais espaço às empresas. O governo, um dos principais agentes para a campanha acontecer, apareceu muito pouco – o que leva a crer que, de fato, o governo fica suscetível às empresas, como apontado no primeiro capítulo. E o consumidor, que era o principal afetado no caso, ficou sem segundo plano. Isso fica evidente pela quantidade de matérias publicadas. Outra evidência refere-se ao silenciamento do jornal, especialmente com referência à denuncia do Idecon, ocorrida em audiência pública na Câmara dos Deputados, sobre os supermercados que vendiam sacolas da Ásia – essa informação não foi publicada no jornal. Outro indício, e que ficou comprovado a partir desta pesquisa, foi o posicionamento inadequado da APAS, pois ela assinou o TAC – Termo de Ajustamento de Conduta – e, em matéria divulgada no dia 05 de fevereiro, a APAS informou que teve apenas uma conversa com o Ministério Público quando, na verdade, ela assinara um acordo. Analisando todos os elementos envolvidos nesta dissertação, comprovou-se que os fatores econômicos prevaleceram e os consumidores ficaram em segundo plano. O objeto sustentabilidade ambiental foi utilizado como mote para proibir a distribuição das sacolas nos supermercados. Acredita-se, dessa forma, que os interesses mercadológicos prevaleceram e a sustentabilidade encontrada foi apenas a sustentabilidade financeira – prova disso foi a quantidade de vezes em que o custo das sacolas foi evidenciado. O impacto ocorreu nas indústrias, que também pouco pensaram sobre questões ambientais ou de fato fizeram algo de forma efetiva, primeiramente com objetivos econômicos, pois, com relação às sacolas, é o consumidor quem paga por elas, uma vez que o custo já está embutido nos produtos. E os supermercados que também não reduziram os preços – e, quando o fizeram, foi de forma insignificante. Por outro lado, acabaram surgindo novos mercados, com lançamento de sacolas de luxo e de diversos outros materiais. Tudo com o mote da campanha. Portanto, conclui-se, ao final desta pesquisa, que a sustentabilidade, discutida dentro do período estudado, foi, na teoria, ambiental; e, na prática, favoreceu apenas o mercado e o governo. 93 REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE SUPERMERCADOS. Campanha Vamos tirar o planeta do sufoco. Disponível em: <http://www.portalapas.org.br>. Acesso em: 10 maio. 2014. BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1999. ______. Comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições, 2009. BARROS FILHO, Clovis. Ética na Comunicação. São Paulo: Moderna, 2008. BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é, o que não é. RJ: Vozes, 2012. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei – PL 612/2007 – Extinção das Sacolas Plásticas. Disponível em: <http://www.camara.gov.br>. Acesso em: 30 jul.. 2014. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Denúncia feita pelo IDECON. Disponível em: <http://www.camara.gov.br>. Acesso em: 02. fev. 2014. CHIZZOTTI, A. 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