ATENÇÃO PRIMÁRIA AMBIENTAL – UMA METODOLOGIA EM CONSTRUÇÃO por Francisco de Assis Quintieri Dissertação apresentada com vistas à obtenção do título de Mestre em Ciências na área de Saúde Pública Orientador: Prof Dr. Odir Clécio da Cruz Roque Rio de Janeiro 2003 Catalogação na fonte Centro de Informação Científica e Tecnológica Biblioteca Lincoln de Freitas Filho Q7a Quintieri, Francisco de Assis Atenção primária ambiental: uma metodologia em construção. / Francisco de Assis Quintieri. Rio de Janeiro : s.n., 2003. viii, 62 p., ilus., graf. Orientador: Roque, Odir Clécio da Cruz Roque Dissertação de Mestrado apresentada à Escola Nacional de Saúde Pública. 1.Cuidados primários de saúde. 2.Participação comunitária. 3.Educação ambiental. I.Título. CDD - 20.ed. – 363.7 ii Ao meu querido pai (in memoriam) e minha querida mãe que junto com Deus são os responsáveis pela minha existência e os grandes incentivadores da minha formação cultural, moral e espiritual. Eu amo vocês À minha mulher e companheira Lecymar pela vibração, incentivo, carinho, e paciência nas horas mais difíceis, de conclusão desse trabalho. Eu te amo Aos meus filhos Pablo e Clarissa, meus maiores tesouros e inspiração para as minhas conquistas. Eu amo vocês iii AGRADECIMENTOS Ao meu amigo e orientador Prof. Dr. Odir Clécio da Cruz Roque pela sua dedicação, atenção paciência e principalmente a grande amizade. Sinceramente obrigado. Aos todos os professores da ENSP pelos conhecimentos passados e em especial ao Prof. Cynamon e Professora Cynara pelo apoio dado e por terem aceitado participar da minha banca. A Dra Filomena Kotaka e ao Dr. Guilherme Franco Netto pelo apoio, e também por terem aceitado participar da minha banca. A Coordenação Regional da Funasa do Espírito Santo por ter viabilizado a minha viagem aos Municípios do estado, em especial ao seu Coordenador Regional Dr. Nardoto pelo apoio recebido. Ao engenheiro e amigo Eurico Suzart Neto, da Coordenação Regional da FUNASA do ES pela sua atenção, gentileza e dedicação em traçar o roteiro da minha viagem, sugerindo as localidades a serem visitadas, providenciando todo o apoio necessário a sua realização e, ainda, prestando informações sobre os municípios quando por mim solicitado. Ao engenheiro e amigo Marcos Rezende, da Coordenação Regional da FUNASA do ES, também pela sua atenção e gentileza me dando todo o apoio na Coordenação Regional além de me acompanhar na viagem aos municípios. Ao arquiteto e amigo Alexandre pela revisão e correção do abstract Aos meus colegas de turma Ernesto, João, Márcio, Tatsuo e em especial aos amigos e colegas de trabalho Lúcio Bandeira e Marcos Muffareg que caminharam junto comigo com o mesmo objetivo, e ainda ao Marcos Muffareg pelo material bibliográfico cedido que muito me ajudou. Ao Dr. Ivan Estribí pelo apoio recebido devido ao tema escolhido. A todos os meus companheiros de trabalho Divisão de Engenharia de Saúde Pública DIESP, FUNASA-RJ, que de alguma forma apoiaram e colaboraram para a realização dessa dissertação. A todos as pessoas, amigos, parentes e companheiros que mesmo sem a participação direta no trabalho, tiveram em algum momento uma palavra de incentivo. A meu filho Pablo por me ajudar na preparação da apresentação da dissertação. iv SUMÁRIO Pag FICHA CATALOGRÁFICA AGRADECIMENTOS LISTA DE FIGURAS RESUMO ABSTRACT ii iii vi vii viii 1 - INTRODUÇÃO 1 2 - OBJETIVOS 2.1 – Geral 2.2 - Específicos 4 4 4 3 - REVISÃO DE LITERATURA 3.1 - Origem e Conceito de Atenção Primária Ambiental (APA) 3.2 - Centros de Atenção Primária Ambiental (CAPA) e Eco Clubes 3.3 - Problemas Ambientais 3.4 - O Desafio da Atenção Primária Ambiental 6 6 8 11 15 5 - EXPERIÊNCIAS COM ESTRATÉGIAS DE APA 19 5.1 - Experiência em Toledo – Paraná 5.1.1 - Descrição da Experiência 5.1.2 - Princípios Básicos e Características do Projeto da Cidade 5.1.3 - Indicadores de Resultados, Objetivos e Impactos 5.1.4 - Lições Aprendidas: Conclusões e Recomendações para a Experiências 19 19 22 22 5.2 - Experiência em Vitória – ES 26 5.3 - Experiência em São Mateus – ES 29 5.4 - Experiência em São Sebastião da Vala, Aimorés – MG 33 5.5 - A Esquistossomose em Poço Comprido, Macaparana – PE 5.5.1 - Principais Problemas Ambientais 5.5.2 - Soluções, Resultados e Conclusões do Projeto 35 36 37 5.6 - Experiência com Trabalhos na Fundação Nacional de Saúde - Funasa 38 23 6 - COMENTÁRIOS E DISCUSSÕES 44 7 - CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 52 8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 56 ANEXO I 61 GLOSSÁRIO 60 v LISTA DE FIGURAS Pág Figura 1 Cobertura com sistemas públicos de abastecimento de água na área urbana e rural no Brasil (em 1.000.000 de habitantes). 12 Figura 2 Cobertura com sistemas públicos de esgotamento sanitário na área urbana e rural no Brasil (em 1.000.000 de habitantes). 13 Figura 3 Quantidade diária de lixo coletado por região no Brasil (t/dia). 14 Figura 4 Vista da entrada da sede administrativa do Parque Taboazeiro, Vitória/ES, 2002. 27 Figura 5 Reunião na sede administrativa do parque com integrantes do Centro de Atenção Primária Ambiental, Vitória/ES, 2002. 27 Figura 6 Reunião na sede administrativa do parque com integrantes do Centro de Atenção Primária Ambiental, Vitória/ES, 2002. 27 Figura 7 Vista da entrada da área do viveiro botânico de plantas medicinais, Vitória/ES, 2002. 28 Figura 8 Área cercada do Viveiro Botânico de Plantas medicinais, Vitória/ES, 2002. 28 Figura 9 Vista de prédio principal da sede do Projeto Araçá, São Mateus/ES, 2002. 30 Figura 10 Educandos realizando tarefas nas oficinas de trabalho, São Mateus/ES, 2002. 30 Figura 11 Educandos realizando tarefas nas oficinas de trabalho, São Mateus/ES, 2002. 30 Figura 12 Área onde são recebidos e separados materiais para serem utilizados em trabalhos nas oficinas, São Mateus/ES, 2002. 31 Figura 13 34 Figura 14 Reunião na escola municipal Honório Vicente de Oliveira com integrantes do Eco-clube de São Sebastião da Vala, Aimorés/MG, 2002. Vista do prédio do Instituto Terra, Aimorés/MG, 2002. 34 Figura 15 Parte da área da sede do Instituto Terra, Aimorés/MG, 2002. 34 Figura 16 Justificativas indicadas por municípios do Brasil que interromperam a coleta seletiva de lixo - Relatório PNSB 2000. 46 vi RESUMO Esta dissertação tem como objetivo geral auxiliar os municípios na busca de soluções para os seus problemas ambientais, com ênfase nas questões relacionadas ao saneamento, através do relato de experiências realizadas em outros municípios que propuseram soluções para os seus problemas ambientais baseados na estratégia de Atenção Primária Ambiental (APA) promovida pela OMS/OPAS (1998). Utilizou-se como metodologia pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo com visitas a municípios no Estado do Espírito Santo, que utilizam essa estratégia, a fim de conhecer o trabalho que estão realizando e fazer uma discussão sobre esse tema que utiliza a participação da população na promoção de ações de saúde e meio ambiente com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Será mostrada a importância da criação dos Centros de Atenção Primária Ambiental (CAPA), e dos Eco-clubes que são unidades operativas que tem a finalidade de orientar, auxiliar e participar junto com a população de ações para melhorar a qualidade de vida de uma comunidade. Também serão vistos trabalhos educativos que tiveram o objetivo de informar, esclarecer e conscientizar as pessoas sobre diversos problemas encontrados na sua cidade, principalmente aqueles relativos ao meio ambiente, e como se buscaram soluções em que elas próprias participaram de forma organizada. Acredita-se que conhecendo experiências bem sucedidas em comunidades cujo processo tenha tido a participação popular, estas, certamente, poderão servir como incentivo a governos locais e a populações para que juntos possam buscar as possíveis soluções para os seus problemas ambientais. Palavras-chave: atenção primária ambiental, participação popular, educação ambiental. vii ABSTRACT This dissertation has as general objective to assist the municipal districts in the search of solutions for their environmental problems, with emphasis in the subjects related to the sanitation, through the report of experiences accomplished in other municipal districts that proposed solutions for their environmental problems based in the strategy of Environmental Primary Attention (APA) promoted by OMS/OPAS (1998). It was used as methodology researches bibliographical and field research with visits to municipal districts in Espírito Santo State, which uses that strategy, in order to know the work that they are accomplishing and to do a discussion on that theme that uses the participation of the population in the promotion of actions of health and environment with the objective of improving the quality of the citizens' life. The importance of the creation of the Centers of Environmental Primary Attention (CAPA) will be shown, and of the Echo-clubs that are operative units that has the purpose of guiding, to aid and to participate with the population of actions to improve the quality of a community's life. There will also be seen educational works that had the objective of informing, to explain and to become aware the people on several problems found in the city, mainly those relative ones to the environment, and as solutions were looked for when they participated in organized form. It is believed that knowing experiences well happened in communities whose process has had the popular participation, certainly can serve as incentive to local governments and populations so that together they can look for the possible solutions for their environmental problems. Word-key: environmental primary attention, popular participation, environmental education. viii 1 - INTRODUÇÃO Durante aproximadamente onze anos visitando comunidades, em diversos Municípios do Estado do Rio de Janeiro, conhecendo a realidade em que vivem e, de certa forma, participando indiretamente de suas dificuldades observamos que, tanto por parte das autoridades como por parte da população, há pouco conhecimento de questões ligadas ao saneamento, além de desinformação a respeito das leis ambientais. Muitas vezes os governos municipais não priorizam essas questões, que aliadas à escassez de recursos financeiros acabam relegando para segundo plano assuntos tão importantes que atingem diretamente a população. O saneamento tem uma estreita ligação entre as questões ambientais, pois estão relacionadas as suas áreas de atuação as principais tecnologias de controle da poluição ambiental do solo e da água. Quando se realiza uma ação de saneamento para atender a demanda de uma comunidade, não somente os indivíduos são beneficiados, mas também o ambiente em seu entorno. A conseqüência disso é a melhora da saúde e da qualidade de vida daquela comunidade. Não é por acaso, que as associações feitas entre saneamento e saúde sempre demonstraram a importância, principalmente dos serviços de abastecimento de água e de serviços de coleta e destino adequado dos esgotos, no controle de diversas doenças. Entretanto, as questões ambientais, principalmente aquelas ligadas à falta de saneamento, não tem sido historicamente priorizadas, seja na formulação de políticas públicas ou nas ações do setor privado da economia, resultando condições insatisfatórias, que decorrem de sua insuficiência ou deficiência. Isto é ainda agravado pela falta de informação e de educação sanitária da população para enfrentar as condições precárias em que vivem. Somada a isso, a falta de hábitos e de práticas sanitária e ambiental contribui de forma significativa no agravo das condições de saúde, no desequilíbrio ambiental e da baixa qualidade de vida de grande parte dessa população. Embora se saiba que investir em saneamento traz uma economia sensível nos gastos em medicina curativa, a regra tem sido reduzir a aplicação de recursos nessa área para conter o déficit público. Além disso, muitos outros problemas são verificados. Grande parte das obras de saneamento, devido a sua dimensão e seu alto custo, precisam 1 ser realizadas por etapas requerendo, desta forma, um planejamento adequado dos recursos a serem disponibilizados para que não haja descontinuidade na sua execução, mesmo com mudança de governo. Como nem sempre isto acontece, algumas dessas obras se arrastam por muito tempo e quando terminam o efeito é aquém daquilo que era necessário quando se iniciou a sua execução. Um outro fator importante, que dificulta uma ação mais efetiva e é encontrado na maioria dos municípios do interior dos estados brasileiros, é a falta de mão de obra qualificada para elaboração de projetos de qualidade, que retratem fielmente a necessidade da população e com critérios técnicos, que incluam a melhor relação de custo-benefício. Os escassos recursos que dispõe os Municípios ou mesmo aqueles repassados pelos governos estaduais ou federais, são aplicados em projetos tecnicamente deficientes e em conseqüência na realização de obras cujo benefício à população é menor do que o esperado e algumas vezes até mesmo, questionável. Além disso, quase sempre, a população não é ouvida e nem informada, pelo poder público, da realização de uma obra que tenha a finalidade de trazer melhorias para a sua comunidade. Nessa dissertação serão apresentadas e discutidas as experiências realizadas em Municípios que propuseram soluções para os seus problemas ambientais baseados na estratégia de Atenção Primária Ambiental (APA) proposta pela OPAS/OMS (1998) de promover a saúde ambiental com um enfoque holístico ao nível local, desenvolvendo uma estratégia de participação da sociedade civil e das organizações locais pelo conhecimento, identificação e solução dos problemas ambientais primários que atingem à saúde, limitando a qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável. Serão também mostradas as experiências de atividades, relacionadas à área de saneamento, desenvolvidas pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), que utiliza, de certo modo os princípios da APA. A implantação de Unidades de reciclagem e compostagem de lixo, serviços de abastecimento de água e esgotos e, principalmente, a execução de melhorias sanitárias domiciliares, na maioria das vezes, é seguida de um trabalho educativo onde a população é informada sobre o benefício que está recebendo, o porquê está recebendo e o que pode e deve fazer para mantê-lo. 2 Na metodologia foram realizadas pesquisa bibliográfica e pesquisas de campo nos municípios de Vitória/ES, São Mateus/ES e Aimorés/MG, onde estão sendo implantados Centros de Atenção Primária Ambiental (CAPA) e Eco-clubes, para conhecer e verificar como surgiram essas estruturas operativas, cuja finalidade é colocar em prática a estratégia de Atenção Primária Ambiental. Depois de apresentadas as experiências e os resultados das visitas foram realizados uma discussão buscando criar uma visão particular sobre o tema, comparando as experiências dos Municípios, mostrando a importância do trabalho educativo e, principalmente, a importância da participação da população para o sucesso de ações propostas, para minimizar os problemas ambientais, com o intuito de melhorar a vida dos cidadãos. 3 2 - OBJETIVOS 2.1 – Geral Auxiliar municípios na busca de soluções sustentáveis para os seus problemas ambientais, através da discussão de experiências em Municípios que tenham utilizado um processo de participação popular visando a proteção do ambiente, promovendo a saúde e otimizando o uso de seus recursos naturais. Ou seja, conhecer e entender o conceito de Atenção Primária Ambiental cujo objetivo geral é alcançar melhores condições de vida, com a proteção do ambiente e do fortalecimento das comunidades no âmbito da sustentabilidade local. 2.2 – Específicos Mostrar através de uma discussão sobre o tema, como a população pode participar da discussão de possíveis soluções para seus problemas ambientais, tendo como base experiências utilizadas. Identificar quais as alternativas que podem ser implantadas no nível local e de que modo ações educativas contribuíram ou podem contribuir para conscientizar e esclarecer as pessoas sobre os direitos e os deveres em relação à proteção, conservação e recuperação do meio ambiente. Apresentar algumas experiências em que o poder público e a comunidade se integraram, verificando os problemas da sua região, e trabalharam juntos para buscar soluções que puderam ser resolvidas no local, com a finalidade de alcançar melhores e mais saudáveis condições de vida aos cidadãos. Além disso, como propõe a APA em seus objetivos específicos, irá também: contribuir para a construção de municípios saudáveis; fortalecer as comunidades e a capacidade de gestão ambiental dos governos locais; ajudar a formar líderes ambientais; buscar mecanismos facilitadores para a interação entre o setor público e a população e incentivar o poder público a facilitar as iniciativas locais organizadas na 4 priorização dos investimentos públicos com fins de proteção da saúde humana e do meio ambiente. 5 3 - REVISÃO DE LITERATURA 3.1 – Origem e Conceito de Atenção Primária Ambiental (APA) O conceito de Atenção Primária Ambiental tem a sua origem fundamentada em duas vertentes principais: a atenção primária à saúde e o desenvolvimento rural integrado. A atenção primária à saúde (APS) surgiu da análise mundial sobre do setor saúde na década de 70, no mundo, que permitiram mudanças de paradigmas como: da cura para a atenção preventiva; da atenção hospitalar para a atenção à comunidade; da atenção urbana para a rural; dos fatores determinantes dentro do setor saúde para os fatores fora do setor; da responsabilidade única do governo pela saúde da população para a responsabilidade das pessoas por sua saúde; dos serviços de saúde e do poder político centralizado para os serviços de saúde e poder político descentralizado (OPAS, 1999). O conceito de desenvolvimento rural integrado (DRI) surgiu a partir das políticas agrárias nacionais dos países do terceiro mundo, nos anos setenta, cujo objetivo era incorporar o potencial produtivo das comunidades rurais ao desenvolvimento nacional, mediante a inovação e adaptação da tecnologia e da organização social. Ou seja, o critério do desenvolvimento, com ênfase na produtividade, seria substituído pelo desenvolvimento que melhorasse a qualidade de vida das populações marginais e pobres. O resultado do crescimento econômico seria distribuído de forma mais eqüitativa entre a população, do ponto de vista geográfico e social (OPAS, 1999). A partir daí, na década de 90, foi sendo enriquecida com outras fontes sob diferentes aspectos do conceito. A Oxfam, que é uma organização independente que trabalha para combater a pobreza e o sofrimento em várias parte do mundo, a Organização Mundial de Saúde (OMS), um grupo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e países como a Itália e Chile contribuíram para isso. Citaremos a seguir algumas definições que contribuíram para esclarecer e entender melhor o conceito de APA. 6 Borrini (1991) na Itália: “A APA é um processo no qual os grupos de pessoas ou comunidades locais se organizam entre eles mesmos, com apoio externo, para aplicar seu conhecimento e perícia técnica a fim de proteger seus recursos e ambiente natural e encontrar, ao mesmo tempo, fontes para suas necessidades básicas de sobrevivência “. O grupo da UNICEF, através de Bajracharya (1994): “A APA proporciona o marco para um enfoque de desenvolvimento baseado na comunidade, a fim de alcançar uma forma de vida sustentável e incorpora três elementos inter-relacionados como seus fundamentos: satisfação das necessidades humanas básicas; fortalecimento das pessoas e das comunidades; e otimização quanto à utilização e manejo sustentável dos recursos na comunidade e seu arredores”. Sánchez (1995), no Chile: “O conceito de APA tem o objetivo fundamental de proteger e melhorar a saúde da população e do ambiente, criando um ambiente saudável mediante a promoção e execução de ações básicas e preventivas em nível local, com a participação da comunidade”. A proposta da APA não teve a intenção de negar nem de substituir a APS e sim complementar esta última, pois reconhece que os 20 anos da APS contribuíram para uma grande transformação social em todos os países, no que se refere à descentralização e participação da comunidade na planificação, organização e funcionamento dos serviços de saúde. Além dos valores de eqüidade, participação, eficiência e integração da APS, a APA vai mais além ao incluir a descentralização, o caráter interdisciplinar, a participação cívica, a organização, a prevenção e proteção do entorno, a diversidade, a co-gestão e a autogestão, a coordenação, a autonomia e a solidariedade. 7 Ao fazer um retrospecto, os princípios básicos e os objetivos da Atenção Primária Ambiental fazem referência à Conferência de Alma-Ata. Usar a APA como uma estratégia aplicando-a aos temas ambientais e às políticas ambientais nacionais e internacionais. Entre as atividades importantes que contribuíram para o esforço de conceituar a Atenção Primária Ambiental na região das Américas, destacam-se: • A conferência Pan-Americana sobre Saúde e Ambiente no Desenvolvimento Humano Sustentável (COPASADHS), realizada em Washington, D.C., em outubro de 1995; • A Reunião Regional sobre Atenção Primária Ambiental, realizada em Santiago do Chile, em janeiro de 1997; • A pesquisa: "A estratégia de Atenção Primária Ambiental: um enfoque críticoholístico", desenvolvido pela Universidade de Georgetown (janeiro de 1998); • A Reunião Sub-regional para a América Central sobre a APA, realizada em San José, Costa Rica, em março de 1998; • As reuniões nacionais sobre a atenção primária ambiental e o reconhecimento, análise e avaliação de experiências que estão se desenvolvendo na Região. Desta forma, por consenso, foi adotada a seguinte definição da Atenção Primária Ambiental como reproduzida a seguir (OPAS, 1999): A atenção primária ambiental é uma estratégia de ação ambiental, basicamente preventiva e participativa em nível local, que reconhece o direito do ser humano de viver em um ambiente em relação à saúde, bemestar e sobrevivência, ao mesmo tempo em que define suas responsabilidades e deveres em relação à proteção, conservação e recuperação do ambiente e da saúde. 3.2 – Centros de Atenção Primária Ambiental (Capa) e Eco Clubes Os Centros de Atenção Primária Ambiental (CAPA) são unidades operativas que têm a função de pôr em prática a estratégia da APA, cumprindo os seus princípios básicos e suas características orientadoras. Essas unidades devem estar localizadas na 8 municipalidade e devem ter claro que diversas medidas de proteção ambiental dependem de uma cobertura mais ampla regional ou nacional (OPAS, 1999). Os Eco Clubes são organizações não governamentais, constituídas por crianças e jovens de primeiro e segundo graus que, junto com outras instituições da comunidade, desenvolvem ações para melhorar a qualidade de vida dedicando sua energia a luta contra os problemas ambientais (MS b – 2000). Os Centros de Atenção Primária Ambiental podem ser assumidos por grupos e organismos da municipalidade ou região, que desenvolvem trabalhos relacionados com o ambiente ou estão capacitados e dispostos a fazê-lo como, por exemplo, os conselhos ecológicos comunitários, associação de vizinhos e ONGS. Estas organizações deverão estabelecer coordenação com o município, centros de saúde, unidades de atenção primária a saúde e outros atores sociais para, em conjunto, realizar diagnósticos das prioridades ambientais e desenhar políticas e programas de atuação. Com relação à administração, uma das alternativas é que seja exclusivamente municipal ou dos serviços de saúde. Pode também ser mista com município, estabelecimentos de saúde e comunidade, dirigindo o centro de forma coordenada. Ou ainda pelas organizações comunitárias da municipalidade que tem o apoio da população e é reconhecida pelas autoridades, como os próprios conselhos comunitários, associação de vizinhos e os Eco-clubes que trabalham para melhorar a qualidade ambiental do município desempenhando um papel protagonista naquela gestão. Os jovens estudantes, que compõem os Eco-clubes, auxiliam as ações dos CAPAs ou trabalham por iniciativa própria em prol da comunidade. É claro que esses jovens necessitam de orientação, para isso, existe a figura dos facilitadores, que podem ser professores, ou quaisquer outros profissionais. Os Centros de Atenção Primária também podem fazer esse papel. Esses jovens trabalham mais diretamente com a população em prol do bem comum, procurando conscientizar a população em residências, bares ou quaisquer outros locais sempre quando há um projeto com a finalidade de melhorar a vida da comunidade. Ou seja, o Eco-clube procura dar suporte às ações desenvolvidas no CAPA e ao CAPA cabe direcionar e fazer as articulações necessárias para execução dessas ações, além de acompanhar e trabalhar na execução do um projeto (JORNAL ARAÇÁ, 2001). 9 Os Centros de Atenção Primária Ambiental devem estar em condições de realizar ações relacionadas abaixo que são de sua responsabilidade (OPAS, 1999): • Educação e capacitação - educar e capacitar as pessoas para que possam servir como multiplicadores no processo de recuperação e proteção do ambiente. • Formação de líderes ambientais - formar pessoas da comunidade que possam influir positivamente sobre a organização e os outros atores em defesa do ambiente. • Realizações de diagnósticos ambientais participativos - para detectar os problemas ambientais não se deve utilizar apenas os conhecimentos técnicos, mas também a percepção da comunidade. • Monitoramento ambiental primário - apoio à fiscalização e controle ambiental inclusive selecionando membros da comunidade para capacitá-los no manejo dos equipamentos e instrumentos de análise, denominados unidades de monitoramento ambiental primário. • Identificação e segmento de conflitos ambientais locais - é a incompatibilidade de interesses que surgem a propósito da prevenção ou recuperação de um dano ambiental. • Divulgação tecnológica - expor e difundir a uso de alternativas tecnológicas adaptadas ao local e que não agridam o meio ambiente. • Fortalecimento da capacidade organizacional da comunidade em assuntos ambientais. • Recepção de demandas e denúncias ambientais locais - receber as demandas, sugestões e denúncias da população para informar permanentemente e encaminhá-las à autoridade competente. • Incentivo ao desenvolvimento de projetos de gestão local. • Participação da mulher - incentivar a participação das mulheres que historicamente, ainda que no anonimato, tiveram um papel importante nas mudanças sociais e estão adquirindo nos assuntos ambientais. • Implantação de centro de informação e orientação. • Sensibilização - sensibilizar as autoridades a cumprirem seus compromissos com as ações ambientais locais. 10 3.3 – Problemas Ambientais As doenças relacionadas com o meio ambiente têm uma elevada taxa de predominância na América Latina e Caribe. Diversas doenças transmissíveis ainda continuam existindo e outras têm aumentado. A exposição de pessoas aos riscos físicos e químicos, oriundos dos efeitos secundários do desenvolvimento, fez aumentar os casos de doenças crônicas, traumas, intoxicações, violência e distúrbios emocionais. Além dos efeitos referentes ao aumento da ecotoxicidade, as resistências aos agentes estão debilitadas por condições ambientais como: cidades congestionadas, número crescente de pessoas em condições de pobreza e o não atendimento das necessidades básicas de nutrição, saneamento e habitação adequada. Devido ao desgaste dos ambientes sociais e físicos fica cada vez mais difícil alcançar estágios positivos de saúde. Embora o desgaste crescente das condições para a saúde possa estar vinculado a problemas econômicos, o desgaste ambiental, as políticas equivocadas dos governos e as prioridades técnicas, têm ampliado o problema (OPAS, 1998). No Brasil, particularmente no Estado do Rio de Janeiro, a situação não é diferente; os Municípios são carentes de técnicos com conhecimento na área de saneamento, a população continua desinformada a respeito das leis ambientais e os recursos financeiros são insuficientes. Quando são suficientes, algumas vezes são aplicados de forma inadequada levando ao desperdício e, conseqüentemente, trazendo à população descrença em seus governantes e falta de esperança na resolução dos problemas que os atinge de forma direta ou indireta. É necessário resolver os problemas decorrentes de deficiências no saneamento que destrói a saúde de milhões de pessoas e avançar para controlar a exposição de pessoas a perigos, tais como: a contaminação do ambiente por resíduos derivados da atividade humana, assim como a um número cada vez maior de substâncias tóxicas com as quais se tem contato diário (OPAS, 1999). No Brasil, segundo o Censo 2000, os sistemas de abastecimento de água cobrem 89,8% dos domicílios urbanos brasileiros e 17,6% dos domicílios em áreas rurais. Isto significa que 14,9 milhões de brasileiros em centros urbanos e 25,8 milhões em áreas rurais não têm acesso a esse serviço (Figura 1). 11 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Moradores Atendidos Não Atendidos Urbano Rural Total Fonte: IBGE – Censo 2000 Figura 1: Cobertura com sistemas públicos de abastecimento de água na área urbana e rural no Brasil (em 1.000.000 de habitantes). Além disso, outros contrastes podem ser observados. Os níveis de atendimento em abastecimento de água decrescem entre regiões geográficas de 96,0% de população total urbana da região sudeste para 71,3% da região nordeste. Nos domicílios, onde a renda mensal é inferior a cinco salários mínimos, a cobertura é de 72,2%, enquanto que nos domicílios com renda acima de 20 salários mínimos ela é de 95,2% (IBGE, PNAD, 1999). Também se observa que quanto menor os números da população existente nos municípios, piores são as condições sanitárias. O setor de serviços de esgotamento sanitário registra um déficit de atendimento, maior ainda. Segundo o Censo 2000, apenas 44,4% da população brasileira dispõe de rede pública de coleta de esgoto. Isto significa que aproximadamente 93,6 milhões de pessoas não são atendidas por esse tipo de serviço (Figura 2). 12 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Moradores Atendidos Não Atendidos Urbano Rural Total Fonte: IBGE – CENSO 2000. Figura 2: Cobertura com sistemas públicos de esgotamento sanitário na área urbana e rural no Brasil (em 1.000.000 de habitantes). A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) 2000, realizada pelo IBGE, indicou que dos 4.097 distritos, que contam com sistemas de coleta de esgotos sanitários, apenas 1.383 desses distritos tratam os volumes coletados. Dos 14,57 milhões de metros cúbicos de esgotos coletados diariamente no País 35% são tratados, o que equivale a 5,14 milhões de metros cúbicos (ABES, 2002). Com relação à coleta e disposição final dos resíduos sólidos, segundo dados divulgados pela PNSB, 2000, a quantidade de lixo coletado no país atinge 228.413 toneladas por dia sendo que a Região Sudeste contribui com 61% desse volume (Figura 3), ficando São Paulo com o maior percentual, 105 mil toneladas/dia. 13 250000 200000 Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste 150000 100000 50000 0 Quantidade de Lixo Coletado por Região Fonte: IBGE – PNSB 2000 Figura 3: Quantidade diária de lixo coletado por região no Brasil (t/dia). Outro ponto que identifica a precariedade que ainda impera em grande parte das municipalidades brasileiras é que, dos 8.381 distritos brasileiros que dispõem de coleta de lixo, 5.993 despejam o lixo em vazadouros a céu aberto. Os que adotam aterro sanitários são 1.452 e os que adotam aterros controlados são 1.868. Como um mesmo Município pode apresentar mais de uma unidade de destinação, os números somados ultrapassam o total de distritos que dispõem do serviço. Assim, das 228 mil toneladas diárias, 37% vão para aterros controlados e 36,1% para aterros sanitários. Isto se deve ao fato de que nos maiores Municípios o equacionamento desse problema vem ganhando destaque e se constituindo em uma exigência da população (ABES, 2002). Dados disponíveis do Instituto Sociedade, População e Natureza (1995) revelaram que 47,6% dos resíduos sólidos são lançados a céu aberto, em lixões ou diretamente em corpos d’água, enquanto apenas 45% vão para aterros sanitários ou controlados e os restantes são incinerados, reciclados ou passam por processo de compostagem (ISNP, 1995). 14 Devemos também lembrar dos problemas ambientais decorrentes da falta de drenagem pluvial. Incluído pela primeira vez na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, o levantamento sobre o sistema de drenagem mostrou que este serviço está presente em 78,6% dos municípios brasileiros (ABES, 2002). Um levantamento preliminar realizado pelo Governo Federal (Ministério do Bem Estar Social) em 1994 estimava que 45 milhões de habitantes urbanos não dispunham desse serviço e projetava um déficit de 150.000 km em redes de macro e micro drenagem. Um sistema inadequado de drenagem, ou a sua falta, propicia condições favoráveis à proliferação de vetores transmissores de doenças como a malária, a leptospirose e a filariose (FUNASA, 2002). 3.4 – O Desafio da Atenção Primária Ambiental (APA) O aumento da população, a urbanização das cidades e os acelerados avanços no processo de industrialização têm repercussões sem precedentes sobre o ambiente humano. O efeito imediato das mudanças do ambiente físico-biológico (água, ar, solo, flora e fauna) sobre a saúde, bem como os efeitos, menos visíveis, decorrentes das mudanças ambientais que ocorrem no planeta têm graves conseqüências para a qualidade de vida e para o desenvolvimento dos países (OPAS, 1999). É preciso modificar esta situação, criando estratégias que facilitem a inserção da população local em todas as questões que se referem ao meio ambiente, fazendo-as acreditar que participando de forma organizada juntamente com o poder público nas decisões das prioridades a serem realizadas em sua localidade, certamente estarão mais próximas de alcançar melhores e mais saudáveis condições de vida (OPAS, 1999). Ferraz (1999) menciona o Relatório Lalonde – publicado pelo governo do Canadá em 1974 – que afirma: “Até o presente momento, a maioria dos esforços da sociedade para a melhoria da saúde enfatiza a organização dos cuidados médicos, apesar de termos identificado nas primeiras causas de mortalidade razões baseadas em três conceitos: biologia humana, meio ambiente e estilos de vida. Parece-nos evidente, portanto, que vultosas somas em dinheiro estão sendo gastos 15 erroneamente somente para tratar as enfermidades e não para preveni-las efetivamente”. Na Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde em setembro de 1978 foi expressa a necessidade de ação urgente de todos os governos para promover a saúde de todos os povos do mundo, tendo sido incluído nos compromissos dessa conferência que a Atenção Primária à Saúde é a chave para o atingimento da saúde dos povos. Essa Atenção Primária significa cuidados essenciais de saúde, baseados em técnicas apropriadas, cientificamente comprovadas e socialmente aceitas, que deve estar ao alcance de todas as pessoas da comunidade e contar com a participação da população, com um custo que a comunidade e o país possam suportar (MS a, 2000). A Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde realizada em Ottawa, Canadá, em novembro de 1996, patrocinado pela OMS, apresentou em sua carta de intenções os pré-requisitos para a saúde como sendo: paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e eqüidade (MS c, 2001). Na conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 1992 - Rio/92 (Agenda 21, 1992) ficou clara a mensagem sobre a necessidade de um melhor ambiente e desenvolvimento sustentável para alcançar a eqüidade. Eis o princípio n° 01 estabelecido: “Os seres humanos constituem o centro das preocupações do desenvolvimento sustentável. Por conseguinte, têm o direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com o ambiente natural”. A atenção primária ambiental tem o objetivo fundamental de proteger e melhorar a saúde da população e do meio ambiente. Desta forma, que medidas podem ser tomadas para se tentar cumprir esse objetivo? O que a população precisa, além do necessário para a sua sobrevivência, como o ar, a água e a alimentação, para viver em um ambiente saudável? A fim de refletir melhor sobre isso lembramos o que preconiza a Organização Mundial de Saúde em seu conceito de saúde: “Saúde é o completo estado de bem estar físico mental e social”. 16 Um outro conceito, também de igual importância, é o de Saneamento Ambiental (FUNASA, 1999) “É um conjunto de ações sócio-econômicas que têm por objetivo alcançar níveis de Salubridade Ambiental, por meio de abastecimento de água potável, coleta e disposição sanitária de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, promoção da disciplina sanitária de uso do solo, drenagem urbana, controle de doenças transmissíveis e demais serviços e obras especializadas, com a finalidade de proteger e melhorar as condições de vida urbana e rural” Assim sendo, pode-se dizer que, basicamente, a população para viver em um ambiente saudável precisa de: - água em quantidade e qualidade suficientes para suprir as suas necessidades de consumo, entendendo que essa água deva ser fornecida por um sistema de abastecimento público que seja confiável; - uma eficiente infra-estrutura de sistema de esgotamento sanitário incluindo, é claro, o tratamento das águas residuais urbanas e industriais; - um sistema de coleta e tratamento dos resíduos sólidos adequados a fim de que o lixo gerado não traga danos ao ambiente; - habitação em condições adequadas; - sistema de drenagem pluvial; - atmosfera com níveis de poluição limitados por normas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Na conferência Rio/92 foram produzidos diversos documentos, sendo um dos principais, a agenda 21. No capítulo XXVIII é dito que sem o compromisso e cooperação de cada municipalidade, não será possível alcançar os objetivos firmados no documento. Cada municipalidade é convocada a criar, com plena interferência e debate de seus cidadãos, uma estratégia local própria de desenvolvimento sustentável. Essa Agenda 21 local é o processo contínuo pelo qual uma comunidade (bairro, cidade, região) deve criar planos de ação destinados a adequar as suas necessidades à prática de viver dentro do conceito que se estabeleceu como sustentável (FUNASA, 1999). 17 Segundo Chacon (1999) o desenvolvimento sustentável pode ser caracterizado em linhas gerais: “como aquele em que a velocidade da inevitável agressão ambiental é menor do que a velocidade com que a natureza consegue reagir para compensar esses danos” Não se pretende, portanto, “engessar” os Municípios em seu crescimento tecnológico colocando-os numa redoma que torne o seu habitat intocável (Chacon, 1999). Também não se quer voltar ao passado desprezando o avanço tecnológico que se conseguiu até hoje. É preciso aliar o desenvolvimento à qualidade de vida, lembrando que a natureza não é uma fonte inesgotável de recursos, a ser predada em ritmo ascendente para bancar necessidades de consumo que poderiam ser atendidas de maneira racional, evitando a devastação da fauna, da flora, da água e de fontes preciosas de matérias primas (Chacon, 1999). Na criação do Ministério das Cidades no Governo do Brasil, sob a presidência de Luis Inácio da Silva, a participação popular organizada e o controle social são prioridades. Uma das diretrizes da Política Nacional de Saneamento Ambiental da Secretaria de Saneamento desse ministério é (MC, 2003): “Envolver a população na gestão dos serviços em todos os níveis (local, regional e nacional) e implementar mecanismos de controle social apoiados na participação popular”. Convém também lembrar de um importante componente no processo participativo: a educação ambiental, onde o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, adquirem conhecimentos, tomam atitudes, exercem competências e habilidades voltadas para a conquista e manutenção do meio ambiente ecologicamente equilibrado, que contribui fortemente para a ampliação dessa nova visão e para a adoção dessas novas posturas do indivíduo em relação ao todo (MEC, 1997). 18 5 – EXPERIÊNCIAS COM ESTRATÉGIA DE APA 5.1 - A Experiência de Toledo - Paraná O Município de Toledo, localizado à Oeste do Estado do Paraná, tem aproximadamente 100.000 habitantes. A Prefeitura Municipal iniciou, em março de 1998, um programa de massa chamado Cidadão Ambiental, com o intuito de buscar o comprometimento efetivo de cada cidadão com a qualidade de vida, entendendo que a preservação do planeta não depende somente dos governos e órgãos internacionais, mas de cada uma das pessoas na sua relação com o ambiente em que vive. O cenário escolhido foi as escolas do Município, e o benefício a ser alcançado atingiria, diretamente, toda a comunidade escolar e, indiretamente, toda a população urbana e rural, sendo priorizados as crianças, os jovens e os docentes. O projeto buscava, no ambiente escolar, com ações educativas, teóricas e práticas, envolver cada cidadão (alunos, pais professores, funcionários e moradores do bairro) no levantamento dos principais problemas na comunidade e elegendo, prioritariamente, aquele que seria resolvido e a forma de atuação criando soluções por caso problema. Os objetivos seriam envolver a pessoas fazendo-as compreender a inter-relação homem-natureza e a se comprometerem com o destino do Município quanto a questão ambiental. 5.1.1 - Descrição da Experiência O projeto da sua implantação e até a execução procurou estabelecer as seguintes premissas: • Possibilitar aos cidadãos o conhecimento e a compreensão dos assuntos ligados a área ambiental, capacitando-os a optar pela postura mais adequada ao considerar a sua relação com o meio ambiente. • Incentivar Instituições/Empresas a desenvolverem projetos de educação ambiental para resolver problemas previamente levantados, dentro da sua 19 área de abrangência, promovendo mudanças de comportamento, buscando a melhoria da qualidade de vida. • Motivar os cidadãos a comprometer-se com a preservação e a melhoria do meio em que vivem. • Formar habilidades que possibilitem a criação de alternativas para superar problemas ambientais. • Provocar a participação da comunidade para que haja comprometimento na concretização das alternativas propostas. • Apoiar projetos que contemplem ações concretas, tendo em vista o desenvolvimento da Educação Ambiental nas Instituições/Empresas. • Estimular normas de gestão ambiental no desenvolvimento das atividades da comunidade. • Articular junto aos órgãos de representação social os instrumentos de implementação, apoio e promoções das ações voltadas à Educação Ambiental. • Motivar as empresas a desenvolverem projetos e ações de Educação Ambiental junto a funcionários, de forma que os mesmos atuem como agentes multiplicadores e a promoverem a difusão educacional através dos meios de comunicação – rádio, jornal e TV. De acordo com as premissas citadas, os atores participantes do projeto estratégico APA na região são, preferencialmente, as escolas particulares e públicas, as instituições públicas e privadas, as empresas e os meios de comunicação da região de forma a incentivar a participação popular. A partir do envolvimento das instituições no projeto, principalmente as escolas, clubes, associações de classe, moradores, sindicatos, grupos de terceira idade, grupos de teatro, etc..., se procurou levantar e questionar problemas a nível local, estabelecendo ações, priorizando temas, e incentivando os cidadãos a assumir também a sua parte de manter o seu ambiente do entorno saudável. O Programa Cidadão Ambiental surgiu com o objetivo de valorizar as experiências desenvolvidas nas escolas, que trouxeram resultados positivos na área ambiental, que pudessem ser aproveitadas por outras entidades e que motivassem outras 20 escolas a desenvolverem programas nessa área, além de trabalhá-los em seus currículos escolares. No início de 1998, o programa foi apresentado, para todos os diretores e coordenadores das escolas públicas e particulares do município, no sentido de prestar esclarecimentos, mostrar os pontos importantes e motivá-los a participar do programa. Nessa metodologia, cada escola participante elaborou o seu projeto, especificando o problema ou o tema a ser trabalhado, a metodologia que iria utilizar, quem seriam as pessoas envolvidas e quais os objetivos e metas a serem atingidos. As escolas desenvolveram os trabalhos que, ao mesmo tempo, foram sendo acompanhados e avaliados pela equipe técnica, mentora do programa, pelo Eco-clube e pelo CAPA. Os resultados foram divulgados pelos meios de comunicação locais de forma a motivar outras escolas a participar, bem como a população. O projeto foi iniciado através das escolas onde foram debatidos os problemas da comunidade, entre o corpo docente, discentes e funcionários, em relação a situação ambiental local, com relação a qualidade de vida, com temas ligados ao trinômio ambiente, saúde e saneamento. O processo envolveu ainda alguns casos onde a escola não era a única participante, mas representava a comunidade local, religiosos e cidadãos inicialmente interessados. Levantados os principais itens a serem atendidos, os temas e ações são levados a um grupo maior, denominado Fórum de Experiências de Meio Ambiente de Toledo, criado com esta finalidade, onde todas as escolas e comunidades têm voz, inclusive as que não estão inseridas no programa, para tomar conhecimento das experiências e dos problemas estudados, das propostas de solução adotadas, dos métodos de trabalho, dos resultados, da abrangência, do nível de compromissos dos envolvidos, das possibilidades concretas da seqüência dos trabalhos, etc. Nesse momento surge a oportunidade de troca de informações e de experiências, onde aparecem novas idéias, são passados os conhecimentos e as formas novas de 21 encarar problemas antigos, que a princípio, só dependem da vontade e da motivação para serem solucionados pela mudança dos hábitos das pessoas. 5.1.2 - Princípios Básicos e Características do Projeto da Cidade O programa procura envolver a comunidade escolar e, por conseguinte, moradores do local para que através do conhecimento dos problemas eles possam escolher aqueles que deverão priorizar e quais as melhores soluções. Parte integrante do ensino da escola, a articulação integrada entre alunos, professores e comunidade tornase um instrumento de transmissão de conhecimento devendo ser inserido no programa curricular. Pode-se afirmar que há uma nítida transformação na escola, principalmente no comportamento das pessoas, não somente dentro, mas também fora dela. O Fórum de Experiências demonstrou ser positivo, estabelecendo um intercâmbio entre escolas para esclarecer as estratégias adotadas, os pontos positivos e negativos e os sucessos e insucessos para orientar novas idéias para a seqüência dos trabalhos. O município conta com um Centro de Atenção Primária Ambiental e com um Eco-clube Cidadão Ambiental, que são os primeiros a serem implantados no Brasil, cujo objetivo primordial é fomentar e auxiliar no desenvolvimento do programa em todas as escolas do município. O CAPA tem estatuto, regimento e plano de metas e é constituído de 21 membros oficializados e alguns aspirantes. 5.1.3 - Indicadores de Resultados, Objetivos e Impactos. Conforme relatório da Prefeitura de Toledo, os resultados no período de 1999 a 2000 as respostas ao programa implementado foram considerados bastantes satisfatórios com implantação de coleta seletiva de lixo, de manutenção do prédio, organização de grupos interessados na limpeza do ambiente e a conscientização dos alunos e da comunidade da necessidade do conhecimento do ambiente em que vivem, com as interfaces de que as ações que visam a manutenção do ambiente saudável afetam fundamentalmente a qualidade de vida e, por conseguinte, a saúde. 22 Outro fato relevante verificado foi que os programas ambientais do Município receberam um maior incremento, na medida em que foram trabalhados e discutidos nas escolas e os jovens, a partir de atitudes positivas, influenciaram em boa parte da população como, por exemplo, no programa de coleta seletiva de lixo. Também a pintura das escolas e manutenção das salas de aula, diminuindo a depredação deram a oportunidade ao jovem de ser um líder nas ações que demandaram a sua participação. Essa atitude positiva influenciou o aproveitamento escolar dos alunos para melhor, uma vez que várias disciplinas foram ministradas utilizando o programa como apoio o que tornou o estudo mais interessante. Os resultados apontaram, ainda, uma maior participação de pessoas do bairro que percebem a mudança dos hábitos dos filhos e as mudanças na escola e acabam se oferecendo para ajudar a tratar de outros assuntos ambientais, para melhorar o bairro e, em conseqüência, a qualidade de vida da região. Enfim, considerou-se todos esses fatores como benéficos para a saúde da comunidade. 5.1.4 - Lições Aprendidas: Conclusões e Recomendações para a Experiência A partir do relatório da experiência, do seminário da OPAS para avaliação dos programas pode-se levantar os principais aspectos da experiência em Toledo. Aspectos positivos: • A troca de experiências que acontece constantemente e durante o Fórum, que faz surgir novas idéias para resolver antigos problemas; • A motivação de escolas que não se inscreveram no programa, mas que ao participar do Fórum, percebem a mudança das outras escolas e verificam ser possível se inserirem no processo; • A competitividade entre as escolas acaba sendo a grande mola motivadora do programa; • Conhecimento de novas realidades, a quebra de paradigmas e a transformação das pessoas, somada a outros fatores decorrentes, 23 transformam as pessoas em "Cidadãos Ambientais", que é a principal proposta do programa. Dificuldades: • Algumas escolas não participam do programa; • Em algumas que participam, o programa está centrado na responsabilidade da direção ou da coordenação da escola ou de algum professor específico, não havendo envolvimento de todos, o que dificulta os objetivos do programa; • Outras escolas se preocupam mais com uma bela apresentação no Fórum de experiências do que com o trabalho em si. Propostas concretas e viáveis apresentadas na avaliação da experiência • Apoio do Eco Clube e do CAPA às escolas participantes a as escolas que ainda não se propuseram a participar. • Cada membro do Eco Clube deve ter a missão de fomentar o programa na sua escola e a motivá-la a se inserir no processo, com a ajuda dos membros do clube, através de visitas as escolas para conversas com professores e alunos a fim de incentivar a participação no programa. • Os membros do CAPA: profissionais liberais de diversas áreas, professores, empresários, etc., também estão disponíveis para individualmente ou em grupo ajudar a manter o projeto da escola, mediante solicitação. Associado ao programa da Prefeitura, através a Secretaria de Meio Ambiente incorporou outros projetos e programas que buscam, pela educação ambiental, o comprometimento do cidadão e das Instituições na construção de um ambiente saudável, que atenda à suas necessidades de satisfação estética e de bem estar. Pode-se destacar neste caso os seguintes trabalhos: (PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO, 1997-2000) “Programa Lixo útil /Câmbio Verde” É uma alternativa de solução para minimizar os principais problemas que ocorrem com os resíduos sólidos urbanos gerados no Município. O programa motiva a 24 separação de material reciclável, na fonte, como papel, vidro ou plástico, faz a coleta com caminhão próprio e transporta até um local apropriado, denominado Centro de Separação do Lixo Útil, onde é reunido e encaminhado para a indústria a fim de ser reutilizado. Em relação ao lixo reutilizável ou reciclável o programa chamado Câmbio Verde criou postos da Prefeitura, conhecidos como Pontos Fixos de Troca, onde o lixo selecionado pelo cidadão pode ser trocado por cestas de alimentos. O Câmbio Verde é um programa de ação ambiental, social e de saúde preventiva, pois pretende retirar o lixo da residência sem lançá-lo no ambiente, ajuda à população carente na aquisição de alimentos e, principalmente, atua com o objetivo de formar a consciência no cidadão. “Aterro de Resíduos Industriais” Um dos grandes problemas da região, os resíduos industriais, principalmente resíduos de defensivos agrícolas, não tinham destino final adequado. A solução encontrada foi estabelecer parceria com indústrias, através de trabalhos em conjunto com o setor público, privado e população rural, encaminhando os resíduos a uma área limítrofe ao aterro sanitário, que foi doada e incorporada ao Patrimônio Público e atualmente é operada pela Prefeitura, em conjunto com os resíduos domiciliares,. “MIP – Manejo Integrado de Pragas da Soja” É um trabalho que difunde, junto aos agricultores da microbacia do Rio Toledo, o uso e a adoção das práticas de manejo integrado de pragas de soja e outras tecnologias econômica e ecologicamente desejáveis, que propiciam a redução do uso de agroquímicos de maior toxidade nas lavouras, levando a praticar uma agricultura sustentável, que resulte num ambiente mais equilibrado, com maior qualidade de vida no meio rural, mantendo a produtividade e diminuindo os custos de produção. Neste setor foi desenvolvido controle biológico através da espécie Trissolcus basalis, uma vespa parasita que age sobre os ovos do percevejo, controlando a incidência da praga. 25 “Piá Ambiental” Trata-se de unidade de educação ambiental, localizada no Parque Linear do Toledo, que atende crianças carentes de 7 a 14 anos e tem por objetivo a formação do cidadão ambientalmente correto, através de um conjunto de ações educativas de saúde, cultura, esporte e lazer, que motivem o desenvolvimento de uma consciência capaz de modificar o comportamento em relação ao ambiente em que vive, buscando a sua preservação e o uso racional. “Parque Linear do Rio Toledo” Projeto de urbanização das margens do Rio Toledo, que atravessa a cidade, e cria no desenho urbano um grande vínculo de integração social, ambiental, cultural e educacional, visando levar o cidadão a se relacionar com o meio ambiente e consigo mesmo ao utilizar e usufruir adequadamente da estrutura física a ser instalada ao longo das margens, buscando em última instância, mudar a função do rio, que passa de um divisor físico a um integrador das duas partes da cidade. 5.2 - A Experiência em Vitória - Espírito Santo O município de Vitória, capital de Estado do Espírito Santo, possui uma população de 291.941 habitantes (IBGE 2000). Cerca de 100% dessa população conta com sistema público de abastecimento de água e aproximadamente 17% do esgoto gerado na capital é coletado e tratado. O lixo é coletado e destinado a um aterro sanitário. Vitória possui 198 instituições de ensino e 26 unidades de saúde. O Município é dividido em sete regiões administrativas. Em uma dessas regiões administrativas, chamada Grande Maruipe, que congrega dezesseis bairros, foi montado, com a participação da Secretaria do Meio Ambiente, um Centro de Atenção Primária Ambiental (CAPA) no Parque Taboazeiro. Este centro utiliza a estrutura física e administrativa do parque para as suas atividades. A figura 4 mostra a entrada da sede administrativa do parque, onde geralmente são realizadas as reuniões com os integrantes do CAPA e pessoas da comunidade. 26 Figura 4: Vista da entrada da sede administrativa do Parque Taboazeiro – Vitória/ES, out/2002. Para dar início à formação do centro, foi selecionado inicialmente um grupo de pessoas de diversos seguimentos da sociedade tais como: Pastoral da Saúde, Prefeitura Municipal, Agentes Comunitários de Saúde e outros voluntários, para participar de um curso de capacitação, com palestras e vídeos, ministrado pela FUNASA e pela OPAS, cujo objetivo principal foi divulgar a estratégia da Atenção Primária Ambiental e mostrar a sua importância no contexto ambiental. Nas figuras 5 e 6 estão diversos integrantes do CAPA reunidos em visita realizada ao município em outubro de 2002. Figura 5: Reunião na sede do Parque Taboazeiro com integrantes do CAPA, Vitória/ES, 2002. Figura 6: Reunião na sede do Parque Taboazeiro com integrantes do CAPA, Vitória/ES, 2002. 27 Esse grupo vem realizando, neste momento, um levantamento dos principais problemas ambientais que existem nos seus bairros com a aplicação de um formulário (Anexo I) com o título de “Perguntas para o diagnóstico de percepção ambiental”. Neste formulário, os entrevistados respondem se acham o seu bairro poluído, quais os problemas ambientais que causam impactos e sua ordem de importância, se participam de algum movimento organizado ou se estariam dispostos a participar de reuniões relacionadas a problemas ambientais. O intuito é saber qual é a opinião deles para traçar uma estratégia com soluções que envolvam a sua participação e atendam as suas principais necessidades. O Município conta com alguns projetos em andamento como, por exemplo, o "Projeto Terra" que foi implantado com recursos do Banco Mundial para preservação de áreas ambientais. O projeto trouxe benefícios na sua aplicação, primeiramente no seu entorno. Pode-se citar o asfaltamento das ruas, iluminações das vias, casas foram reformadas e em conseqüência a valorização imobiliária, ou seja, a preservação do ambiente trouxe para a comunidade benefícios que foram sendo doados pelo poder público e outros adquiridos por elas próprias. Nessa seqüência, várias outras idéias estão surgindo principalmente a solicitação de escolas e creches. O parque cultiva uma horta de plantas medicinais, Figuras 7 e 8, que é mantida com a ajuda dos participantes do CAPA, a fim de fornecer plantas para receitas de fitoterapia por meio de um cadastro de pessoas interessadas. A horta é também visitada por grupos de estudantes das localidades próximas, com fins educativos. Figura 7: Vista da entrada da área do Viveiro Botânico de Plantas Medicinais, Vitória/ES, 2002. Figura 8: Área cercada do Viveiro Botânico de Plantas Medicinais, Vitória/ES, 2002. 28 O CAPA realiza reuniões mensais, com a comunidade para discutir os problemas ambientais e apresentar, algum projeto que a Prefeitura esteja querendo implantar, com a intenção de informar e buscar apoio, contribuindo para o sucesso dos trabalhos. 5.3 - A Experiência de São Mateus - ES O Município de São Mateus, no Espírito Santo, com uma população de 90.342 habitantes (IBGE 2000), encontra-se distante 219 km da capital do estado (Vitória). O Município conta com atendimento de 100% de abastecimento de água e 20% do seu esgoto é coletado e tratado. Os resíduos sólidos da cidade são dispostos em lixão a céu aberto. São Mateus possui 66 escolas. Uma ONG, fundada em 1994 por um grupo de estagiários dos cursos de Pedagogia e Biologia da Universidade Federal do Espírito Santo, deu início a um trabalho educativo com crianças no Bairro do Porto. Esse trabalho, conhecido hoje com o nome de "Projeto Araçá", é um projeto alternativo de educação e cultura que visa a formação de crianças e jovens em seus aspectos físico, intelectual, moral e espiritual. Ali são realizados trabalhos voltados para o desenvolvimento das habilidades artísticas e técnicas, tais como: reciclagem de papel de forma artesanal, cerâmica, bordados, crochê, pintura, música dança, folclore, horta, marcenaria, informática atividades jornalísticas e esportivas. Além disto fornece alimentação, tratamento médico-odontológico e encaminhamento para o trabalho. (PROJETO ARAÇÁ - 2002) Para dar início as atividades com as crianças e os jovens buscaram apoio da Prefeitura, Igreja e demais parceiros da iniciativa privada, inclusive da Aracruz Celulose S.A. Atualmente o trabalho é realizado por equipe formada por professores da Rede Pública Municipal, funcionários da Secretaria de Saúde e Meio Ambiente do Município, educadores e funcionários contratados pela própria Entidade, estagiários da própria Universidade Federal e demais voluntários, atendendo 407 educandos com idades entre sete e dezoito anos. A Figura 9 mostra o prédio principal da sede do Projeto Araçá 29 Figura 9: Foto do prédio principal da Sede do Projeto Araçá, São Mateus/ES, 2002. Os trabalhos são realizados com os educandos em diversas oficinas, como pode ser visto nas Figuras 10 e 11, que utilizam muitos materiais usados doados por diversas instituições, comércios e outros. A Aracruz Celulose contribui com boa parte desse material como: papel, papelão e outros para o pessoal do projeto. A Figura 12 mostra a área onde são recebidos e selecionados os materiais que são utilizados nas oficinas. Figura 10: Foto de educandos realizando tarefas nas oficinas de trabalho, São Mateus/ES, 2002. Figura 11: Foto de educandos realizando tarefas nas oficinas de trabalho, São Mateus/ES, 2002. 30 Figura 12: Área onde são recebidos e selecionados os materiais para serem utilizados em trabalhos nas oficinas, São Mateus/ES, 2002. Em agosto de 2001, a entidade através de seu Centro Cultural, participou do 1° Encontro Regional de Saúde e Meio Ambiente promovido pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), mostrando o trabalho que estava realizando. Nesse encontro, que teve a finalidade de apresentar e discutir problemas relacionados à saúde e meio ambiente nos municípios, no estado e no país e apresentar propostas de possíveis soluções, este projeto foi comparado à um Centro de Atenção Primária Ambiental (CAPA) por autoridades da FUNASA e da OPAS, presentes ao encontro. (JORNAL ARAÇÁ, 2001). Convidados então pela FUNASA/OPAS, uma equipe de educadores das Secretarias de Educação, Saúde e Meio Ambiente participou em Vitória, em novembro de 2001, de um curso de capacitação em aprimoramento ambiental onde puderam conhecer a estratégia de Atenção Primária Ambiental. Essa equipe deu início a formação do CAPA de São Mateus, cuja finalidade principal é de auxiliar e orientar a comunidade na reivindicação os seus direitos junto ao poder público, além de participarem de movimentos organizados que visam a proteção, conservação e recuperação do meio ambiente. Trabalham em parceria com o poder público e são facilitadores dos jovens do Eco-Clube. 31 O projeto Araçá é reconhecido como uma entidade que tem seus trabalhos voltados para a busca de uma qualidade de vida para os cerca de 407 educandos e familiares envolvendo também a comunidade. Em sua sede foi formada a Eco-Oficina, por um grupo de jovens de diversas escolas do município, onde esses jovens atuam trabalhando as questões ambientais em nível local. (JORNAL ARAÇÁ, 2002). A EcoOficina foi transformada em Eco-clube, onde dois desses jovens foram a Toledo para participar de capacitação. Os jovens do Eco-Clube descobrem os principais problemas na cidade e sugerem soluções, colaborando para melhorar o ambiente e ajudando a comunidade a resolver ou minimizar esses problemas. Participam juntamente com a Secretaria de Saúde de trabalhos de conscientização da população como, por exemplo: medidas educativas para controle da dengue e a importância da implantação de projetos de coleta e tratamento de esgotos. De todas as atividades até agora realizadas, destaca-se o programa "Jogue Limpo com Guriri”, patrocinado pela Petrobras, de manutenção e conservação do balneário de Guriri distante 18 km da sede do município de São Mateus. O projeto Araçá conta também com uma horta. Os jovens que cuidam da horta são orientados, aprendem a plantar e a cultivar verduras e legumes que são utilizados na alimentação dos próprios educandos. Esses jovens acabam adquirindo um gosto especial pelo trabalho. Recentemente, por iniciativa própria, resolveram conhecer uma horta bem maior, fora do projeto Araçá, e gostaram tanto que resolveram trabalhar no sentido de convencer um supermercado da região a adquirir produtos certificados daquela horta, incentivando assim a utilização desses produtos cultivados na região. Neste caso, deve-se ressaltar a participação da Coordenação Regional da Fundação Nacional de Saúde do Espírito Santo que teve um papel importante para a formação do Centro de Atenção Primária Ambiental (CAPA) e do Eco-clube, incentivando, promovendo curso de capacitação e fomentando a idéia da criação do Centro procurando sempre mostrar que o Projeto Araçá já desenvolvia atividades semelhantes àquelas preconizadas pela OPAS no seu conceito de Atenção Primária Ambiental. 32 5.4 - A Experiência em São Sebastião da Vala - Aimorés - MG O município de Aimorés possui uma população de 25.099 habitantes (IBGE 2000). Toda essa população é abastecida com água potável pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) e aproximadamente 98% dos habitantes têm os seus esgotos coletados e tratados. Todo o lixo gerado no Município também é coletado e tratado em unidade de tratamento convencional. Aimorés possui 30 escolas e em um de seus distritos, São Sebastião da Vala, foi formado um Eco-clube com jovens estudantes do primeiro grau da escola municipal Honório Vicente de Oliveira. A iniciativa partiu após um convite da Coordenação Regional do Espírito Santo da FUNASA para que três alunos participassem de um curso sobre Atenção Primária Ambiental, em Vitória. Os jovens receberam informações sobre os princípios da APA e seus objetivos e foram incentivados a repassar a idéia da formação de um Eco-clube no distrito. Visitaram o Projeto Araçá em São Mateus, conhecendo o projeto e recebendo informações sobre o Eco-clube existente naquele município. Duas pessoas (facilitadores) viajaram para Toledo/PR a fim de participar de encontro de Eco-clubes, conhecer a experiência daquele município e tomar conhecimento do Estatuto Nacional de Eco-clubes. O grupo formado é relativamente novo, mas já conta com estatuto próprio. Atualmente é constituído de 17 facilitadores e 41 membros, sendo 26 oficializados e 15 aspirantes. Os trabalhos realizados têm incentivado aos jovens à participação, bem como a população que os recebe. Dos projetos já em andamento destaca-se o projeto S.O.S. Vida "Água um Bem Precioso", as campanhas de distribuição de cestas básicas, recolhimento de agasalhos e cobertores para fornecimento a famílias necessitadas, as campanhas contra as drogas e Aids, além de participação na recuperação das condições ambientais do aterro sanitário local. Na Figura 13 estão alguns jovens participantes, reunidos em visita realizada em São Sebastião da Vala em outubro de 2002 33 Figura 13: Reunião com integrantes do Eco Clube de São Sebastião da Vala, Aimorés/MG, 2002. O Serviço Autônomo de Água e Esgotos (SAAE) de Aimorés, juntamente com a Coordenação Regional da FUNASA do Espírito Santo, tiveram um papel importante na formação do Eco-clube e continuam dando o apoio para a manutenção e o crescimento do grupo. O Instituto Terra (Figuras 14 e 15) uma ONG, idealizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, cuja sede encontra-se em Aimorés, também apóia os trabalhos do Eco-clube e empresta as suas dependências para a realização de reuniões dos facilitadores que estão formando um Centro de Atenção Primária Figura 14: Vista do prédio principal da Sede do Instituto Terra, Aimorés/MG, 2002. Figura 15: Área da Sede do Instituto Terra, Aimorés/MG, 2002. 34 5.5 - A Esquistossomose em Poço Comprido, Macaparana - PE Foi apresentado, em março de 2002, no I Seminário Internacional de Engenharia de Saúde Pública, promovido pelo Departamento de Saúde Pública da Fundação Nacional de Saúde, um trabalho realizado pelo Núcleo de Saúde Pública da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1996, na localidade de Poço Comprido, no município de Macaparana (PE) sobre a Abordagem Multidisciplinar no Controle da Esquistossomose. Poço Comprido está localizado a 13 quilômetros da sede do município e segundo dados do IBGE (2000), possui 226 famílias e 901 habitantes. Cerca de 81% dessa população recebe entre 1 e 2 salários mínimos, 40% é analfabeta e o estado nutricional das crianças apresenta deficiências. Esse trabalho, que será relatado a seguir, teve como objetivo subsidiar a política municipal de saúde no controle da esquistossomose, buscando utilizar recursos e equipamentos locais, numa proposta de execução viável pelo município com a participação da população e parcerias institucionais, considerando suas necessidades quanto ao uso do ambiente e dos recursos disponíveis. O trabalho mostra que em três anos de projeto, houve diminuição da prevalência da doença e que a abordagem multidisciplinar contribuiu para o alcance dos objetivos. A esquistossomose que representa um problema de saúde pública no Brasil, é uma doença causada pelo Schistosoma mansoni, verme cujo habitat natural é a circulação hepática, mais especificamente o “sistema porta” do homem e de roedores silvestres. Tem como hospedeiro intermediário, no Brasil, caramujos do gênero Biomphalaria. Os ovos do parasito eliminam-se com as fezes e libertam uma larva denominada miracídeo que infecta os caramujos e evolui, no seu interior, para outra larva denominada cercaria. O homem se infecta através do contato com a pele ou a mucosa em águas contaminadas por essas larvas. (CARNEIRO, 2002) As estimativas situam-se em torno de 6 a 8 milhões de indivíduos infectados pelo Schistosoma mansoni, no Brasil. As ações de prevenção e controle devem compreender os elos da cadeia epidemiológica: o tratamento do portador, o controle do 35 caramujo, educação para a saúde e saneamento básico. Assim sendo foi desenvolvido nesse trabalho atividades centradas em três eixos principais: diagnóstico e tratamento da doença, obras de engenharia sanitária e educação popular em saúde e ambiente. 5.5.1 – Principais Problemas Ambientais Os principais problemas sanitários e ambientais detectados na localidade foram a deficiência quantitativa e qualitativa da oferta de água potável, a precariedade do sistema de esgotamento sanitário e inexistência de coleta dos resíduos sólidos. Como a capacidade do sistema de abastecimento de água era precária, fornecendo água em apenas algumas horas por dia, a população se abastecia por cacimbas, poços e principalmente do rio. Diretamente no rio ou em cacimbões escavados em seu leito, no período da seca, a população tomava banho e lavava roupas e seus utensílios domésticos. Quanto ao esgotamento sanitário, a maioria das casas possuía fossa absorvente cujo esgoto ao percolar no terreno contaminava o lençol freático. Outras águas de banho, da cozinha, da lavagem de roupa, etc., eram lançadas a céu aberto ou escoadas em canaletas ou galerias superficiais, indo poluir o rio. Os resíduos sólidos eram dispostos de forma inadequada, favorecendo a proliferação de insetos e roedores. Em geral era jogado nos fundos das casas que durante as chuvas era carreado para os corpos d’água, ou mesmo lançado às margens do rio. Além desses problemas havia a poluição e contaminação do solo devido à criação de animais, como galinhas e porcos soltos na área urbana e a poluição das águas pelos excrementos de cavalos e vacas às margens do rio, onde em geral são carregados para serem dessedentados e lavados. O projeto teve como objetivos específicos: • Identificar soluções de engenharia para a melhoria do abastecimento de água e o destino do lixo e dejetos; • Diagnosticar e tratar os portadores da infecção pelo Schistosoma mansoni; 36 • Realizar trabalho educativo, formando grupos de multiplicadores de informação sobre saúde e ambiente. Na metodologia foi efetuada uma análise multidisciplinar da esquistossomose considerando a articulação entre as questões de saúde e as do meio ambiente, realizando as seguintes ações: Quanto a questão clínica e de transmissão da doença: – Inquérito coprológico em todos os habitantes da região e para fins de avaliação do programa as crianças de 6 a 13 anos, sendo repetido 3 anos após o tratamento. – Tratamento clínico da parasitose – Inquérito malacológico, para classificar os caramujos responsáveis pela transmissão da doença. Quanto a questão ambiental: – Visitas de observação ao local mostraram a importância social do rio, não só como lugar para as atividades de lavar roupas, utensílios, etc., mas também como ponto de encontro das pessoas de todas as idades Trabalho Educativo: – Foi realizado um trabalho educativo precedido por pesquisa qualitativa, do tipo estudo de caso dirigido para alunos das duas escolas de ensino fundamental existentes no povoado. Formou-se um grupo de 22 jovens, entre 9 e 16 anos, chamado “Brigada Ecológica” com o objetivo de divulgar o conteúdo das oficinas, utilizando diversas formas de arte, como teatro, cordel, teatro de bonecos, poesia, música, colagem e pintura. 5.5.2 – Soluções, Resultados e Conclusão do Projeto. A partir do inquérito coprológico realizado, foi constatado que a prevalência da doença era de 18,7%, entre escolares de 6 a 13 anos de idade, caracterizando a área como endêmica. Foram então realizados tratamentos em todos os portadores de parasitoses intestinais. 37 Para solucionar os problemas ambientais, a Prefeitura realizou obras para ampliar o sistema de abastecimento de água existente, projetou e construiu um sistema de esgotamento sanitário, compreendendo rede coletora e unidade de tratamento, com a execução do projeto financiado pelo consulado japonês sediado no Recife. Reservou, ainda, áreas onde seria construída uma unidade de reciclagem e compostagem de lixo. A “Brigada Ecológica” nos moldes de um Eco-clube ou mesmo de um Centro de Atenção Primária Ambiental, planejou uma campanha de esclarecimento da população visando a coleta seletiva do lixo, com ao apoio do governo municipal, no sentido de melhorar o ambiente. O resultado de todo esse trabalho foi que a prevalência da doença, após 3 anos, de todas as ações desenvolvidas, diminuiu de 18,7% para 3,8%. Conclui-se, então, que o controle da esquistossomose é um problema complexo que deve envolver a participação popular e do poder público, principalmente setores de saúde e saneamento, típico da estratégia de APA apresentada pela OPAS. (CARNEIRO et al, 2002) A abordagem multidisciplinar foi importantíssima, não somente pelo diagnóstico e tratamento da enfermidade e das obras de saneamento, mas também pelo trabalho educativo, que consideraram imprescindível para o alcance do objetivo do controle da esquistossomose. 5.6 - Experiência com Trabalhos na Fundação Nacional de Saúde - FUNASA O Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp) criado em 1942, em conseqüência de um convênio firmado entre os governos brasileiros e norte-americanos, durante a 2a guerra mundial foi transformado em Fundação Sesp, em 1960, através da lei n° 3750. Aproximadamente 30 anos depois, em 1990, com a reforma administrativa, empreendida no Governo Fernando Collor, foi realizada a junção da Fundação Sesp com a Superintendência Nacional de Campanha (SUCAM) resultando na Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) O Sesp, que tinha como finalidade prestar a assistência médica e desenvolver obras de saneamento, atuava em comunidades carentes trabalhando as questões de saúde 38 e saneamento de maneira integrada, inclusive com intervenções diretas dentro do domicílio com o programa de melhorias sanitárias domiciliares. Como existia na instituição os auxiliares e inspetores de saneamento, lotado nas unidades de saúde, que atuavam junto a população, dando conselhos habituais de educação sanitária, esses servidores passaram a contribuir diretamente para a execução das melhorias, recebendo para isso treinamento especial com pedreiros, carpinteiros e funileiros. (SILVA, 2001) Desta forma, esses auxiliares de saneamento ajudavam os moradores com fornecimento de materiais e empréstimos de ferramentas, que passaram a fazer parte do equipamento normal da unidade sanitária ou centro de saúde. Também os orientava sobre os benefícios recebidos, a sua finalidade e como fazer para mantê-los, ou seja, era realizada uma melhoria no Município como a instalação de um filtro, um tanque, um lavatório, etc... e a orientação a respeito da sua utilização e manutenção. Este programa está sendo hoje realizado com os recursos repassados pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) aos Municípios, através de convênios, os quais o município tem a responsabilidade na implantação das melhorias domiciliares. Devido às características da legislação vigente para a aplicação dos recursos públicos (ação global, com prazos, metas, custos e procedimentos pré-determinados) além de diversos outros compromissos que o Município tem, o trabalho educativo e a participação da população diminuíram. A FUNASA tem procurado amenizar esse problema oferecendo treinamento a servidores dos municípios tornando-os agentes municipais de saneamento para que possam realizar o trabalho feito anteriormente pelos auxiliares de saneamento pertencentes ao quadro efetivo da instituição. Além do programa de melhorias sanitárias domiciliares, também se pode destacar os convênios firmados entre FUNASA e Prefeitura, em que são repassados recursos para a realização de obras de saneamento. As Coordenações Regionais da FUNASA nos estados, são as responsáveis pelos convênios com os municípios de cada estado. Um desses municípios, no Rio de Janeiro, Bom Jesus do Itabapoana, foram feitas obras tais como: implantação de sistemas de abastecimento de água e sistemas de esgotamento sanitário e uma Unidade de compostagem e reciclagem de resíduos sólidos. 39 Durante esses trabalhos foram realizadas palestras com vídeos e outros recursos didáticos, por técnicos da FUNASA e do Município, para pessoas da comunidade, onde o serviço estava sendo implantado, com o intuito de esclarecê-las e sensibilizá-las sobre as atividades que ocorreram e os novos equipamentos urbanos implementados. Essas palestras foram ministradas à noite em escolas, associação de moradores ou outro local dentro do distrito, a fim de despertar o interesse do maior número de pessoas a respeito do assunto. Por ocasião da implantação da Unidade de Lixo, foram também realizadas palestras em todas as escolas do Município com o intuito de sensibilizar as crianças e os jovens sobre a importância de tratar e dar um destino adequado ao lixo da sua cidade, tendo em vista os perigos que podem acarretar às pessoas a proliferação de vetores oriundos do acúmulo indevido do lixo. Os alunos eram motivados a participar com a visão que tinham do problema fazendo as sugestões que achassem necessárias. Uma outra forma de participação da comunidade, praticada pela FUNASA, pode-se citar a atuação da Unidade de Saneamento em Barra de São João, vinculada ao serviço de saneamento da Coordenação Regional do Rio de Janeiro. Essa unidade, além de prestar assistência técnica na área de saneamento, a municípios do estado, recebia recursos para aplicá-los nesses municípios, seguindo uma programação feita previamente. Uma parte desses recursos era aplicada no programa de melhorias sanitárias domiciliares. Desta forma, para que se pudesse executar um maior número de melhorias, a unidade adquiria os materiais e propunha a população executar as melhorias com a mão de obra dos moradores e de pessoal oferecido pela Prefeitura orientada pelos auxiliares de saneamento da Fundação. Isto os fazia tornarem-se cúmplices daquele serviço, sentiam-se valorizados com o trabalho realizado em parceria com o poder público além, é claro, de ficarem satisfeitos com os benefícios recebidos. Os materiais eram entregues aos moradores, seguindo um cronograma de execução e controle, em que somente recebiam um determinado material após terem executado a etapa programada anteriormente. Por exemplo, só recebiam o vaso sanitário após terem executado as instalações relativas à sua utilização. Em muitos casos pôde-se verificar que moradores, após terminarem o trabalho em sua residência, ajudavam a outros na execução de suas 40 melhorias domiciliares, pois os serviços tinham a finalidade de executar as melhorias completando sempre as ruas até que todo o bairro ficar concluído. Entre os diversos trabalhos de saneamento realizados pelo Sesp, desde a sua criação, constava, ainda, na década de quarenta, o programa de saneamento no Vale do Amazonas que não visava apenas um combate momentâneo de doenças, ao contrário era um programa de longo alcance, que tinha o objetivo de defender e valorizar o homem amazônico, proporcionando-lhe os meios de assegurar permanentemente uma existência mais saudável e feliz. (Boletim do SESP, n° 28 nov 1945) Dentro desse amplo conceito, é que se enquadravam as atividades desenvolvidas pela secção de Educação Sanitária que a partir de iniciativa própria criou o plano de fundação dos chamados “Clubes de Saúde” que se destinavam a congregar as crianças escolares de ambos os sexos, no sentido de ministra-lhes, em coletividade, ensinamentos de educação sanitária. O objetivo desse programa era difundir entre a população das escolas do interior da Amazônia os princípios básicos de educação sanitária que fossem conduzidos com eficiência do indivíduo à família, à comunidade e à Pátria, procurando criar hábitos de vida sadia, bem como princípios de civismo e de uma sã moral. (Boletim do SESP, n° 29 dez 1945). Nesse programa era também estimulado o espírito de solidariedade e de responsabilidade em seus trabalhos, no sentido de despertar na criança a idéia de cooperação e do esforço conjugado para a solução de seus problemas. A denominação de clubes de saúde foi preferida dentro das linhas gerais do programa de educação sanitária do SESP porque na Amazônia, um dos grandes problemas a vencer constituía a dispersão de suas populações e, por isso mesmo a falta de conhecimento de espírito coletivo. Isoladas no vale imenso, essas populações criavam o seu próprio ambiente, seus métodos de vida, sem o menor contato com a coletividade, de onde poderia propagar o espírito associativo. Encontrava-se apenas arraigado no homem amazônico a idéia de que as obras de caráter social e público, em bem do progresso e adiantamento da coletividade deviam caber aos governos. Dessa maneira, qualquer cooperação das populações para a solução desses problemas era mínima. (Boletim do SESP, n° 29 dez 1945) A organização de um clube de saúde dependia da cooperação do presidente do Conselho Escolar e do professorado. Um chefe de um Distrito Sanitário do SESP 41 lançava a idéia, convidando o presidente do Conselho Escolar e as professoras da localidade, para uma reunião em que expunham as finalidades e as bases da organização do clube, deixando bem claro e definidos os planos de trabalho e resultados esperados, mostrando a necessidade de colaboração de todos, inclusive aceitando sugestões para levar a diante os projetos mais facilmente. Em seguida a idéia era levada aos escolares, bem como o convite para as suas participações que eram absolutamente voluntárias, fazendo o interesse de cada um o principal estímulo para o desenvolvimento do clube. Com o grupo formado era realizada uma solenidade para caracterizar a fundação do Clube, em que eram convidadas as autoridades locais e a população em geral. Procurava-se o interessar o Prefeito da cidade, o vigário, demais autoridades e todos aqueles que se mostravam dedicados aos assuntos sociais e da comunidade. A intenção era para que algumas pessoas que pareciam não se mostrar interessadas nos assuntos da comunidade, (porque não tinham oportunidade para isso) acabassem mostrando desejo em cooperar, podendo, inclusive, tornarem-se líderes que até então, pelas próprias circunstâncias ambientais, tinham vivido à parte dos movimentos coletivos. O clube formado nas escolas por crianças e adolescentes, entre 7 e 14 anos, era dirigido pelos próprios membros, que aprovavam seus estatutos, elegiam seus diretores, tomavam parte nas reuniões para escolha de programas, escolhiam seus líderes e se reunião periodicamente. Os professores, pais e outros líderes constituíam uma grande cadeia de cooperação com os escolares, de maneira a manter bem vivo o entusiasmo e o interesse pelo clube. O principal objetivo era despertar os adolescentes para uma consciência coletiva. Todos os projetos deviam ser organizados para o trabalho em equipe, incentivando a cooperação para a melhoria da escola, embelezamento dos parques escolares e da cidade e de tudo o que os membros do clube pudessem participar que fossem ligadas as vidas em comum. As atividades do clube eram sempre colocadas dentro de planos e motivos que pudessem agradar aos escolares, eram acompanhadas de ensinamentos básicos, de estímulo as habilidades, à responsabilidade, à formação de hábitos e buscavam sempre um determinado alvo. (Boletim do SESP, n° 34 mai 1946) O Clube de Saúde era uma associação que tinha como alvo mais importante difundir o ensino da higiene e criar uma consciência sanitária entre as novas gerações, visando também a educação moral e cívica, pelo estímulo aos verdadeiros ideais de solidariedade humana, amor à pátria e cooperação para o trabalho em bem da comunidade. Eram orientados localmente pelos médicos e visitadoras sanitárias, 42 cabendo a supervisão geral à Seção de Educação Sanitária do SESP. (Boletim do SESP, n° 34 mai 1946). Segundo as descrições e os relatos acima se pode verificar que a Atenção Primária Ambiental vem sendo empregada pela Fundação Nacional de Saúde desde sua implementação com características da proposta da OPAS, como: a descentralização, em que a APA estabelece que a escala territorial mais importante é a municipal; a coordenação a qual a APA deve fomentar núcleos de trabalho pró-ativos que administrem os problemas locais, de acordo com sua capacidade tecnológica, normativa e com a disponibilidade de recursos e, principalmente, com a eficiência que permite utilizar esses recursos da maneira mais apropriada ao empreender ações de melhoramento ou proteção ambientais mais ágeis, desburocratizadas e coordenadas, dando espaço a inovações, à diversidade de atividades, metodologias e práticas locais. 43 6 - COMENTÁRIOS E DISCUSSÕES Além das experiências aqui apresentadas, vários outros pequenos relatos poderiam ser descritos como a reportagem de Rosangela Guerra, encontrada na revista TV escola do Ministério da Educação, que registrou em Rio Branco/AC um projeto pedagógico sobre sustentabilidade, do professor de História, Valdomiro Andrade dos Santos, que propôs aos alunos da 2a série do 2° grau do colégio Instituto Lourenço Filho. A área onde vivem é coberta em 90% pela floresta, com seringueiras, castanheiros e muitas madeiras nobres. A princípio o trabalho seria para pesquisar na internet, em vídeos, livros e veículos de imprensa, mas acabou em um projeto, que foi divulgado na Internet, e na gravação de um vídeo realizado no seringal Cachoeira, em Xapuri/AC. O vídeo foi preparado a partir de dados de visita realizada pelos alunos ao Museu da Borracha em Rio Branco/AC e de entrevistas com diversas pessoas. O resultado do trabalho realizado pelos alunos foi a sensibilização, dos mesmos, aos problemas que pertencem àquela região onde vivem. Pode-se enfatizar que, antes de iniciar a pesquisa, estes jovens não tinham a verdadeira dimensão da importância da Amazônia e nem o significado do termo desenvolvimento sustentável. Um dos alunos da turma citado na reportagem, Mikellison do Nascimento, 17 anos, ao dizer que a castanha é uma “mina de ouro na Amazônia” e que se o extrativismo não for sustentável a riqueza se esgota, demonstra claramente a consciência que ele adquiriu com a sua participação no trabalho. O ensino médio no Brasil deveria inserir matéria obrigatória no currículo escolar que dissesse respeito aos problemas ambientais. Cada escola trabalharia com a sua realidade local. Isso, certamente, facilitaria o seu engajamento em programas ou projetos propostos pelo poder público ou pela própria comunidade. Foi visto que na experiência do município de Toledo com o Programa Cidadão Ambiental, realizado com as escolas, algumas tiveram dificuldade em aderir ao programa, mas ao participar do Fórum de Experiências e conhecer os trabalhos bem sucedidos de outras escolas, se sentiram motivadas a se inserir no processo. Ou seja, a consciência somente é adquirida a partir do conhecimento, da experiência vivida ou da participação. 44 Ao trabalhar nesse projeto pedagógico sobre a sustentabilidade na Amazônia, os alunos tiveram uma lição de cidadania, aprendendo a importância do desenvolvimento sustentável e tendo exata dimensão dos problemas que também os atingiam. Pode-se verificar que um projeto desse tipo é perfeitamente aplicável em outras situações. Um jovem aprende facilmente como se deve portar para manter limpa a sua escola, a sua casa, e em conseqüência a via pública do seu bairro, ao inserir-se num programa de coleta seletiva de lixo que ele participa concretamente, opinando, sugerindo, criando estratégias de ações, etc. ... . Além disso, são agentes multiplicadores. "Tenho clareza do meu papel, que é formar cidadãos conscientes e agentes da transformação social" disse o Professor Valdomiro (REVISTA TV ESCOLA, 2002) “A floresta tem de ficar em pé. O desenvolvimento sustentável não prejudica a natureza e as pessoas que vivem na região”. Declaração desse tipo, citada na reportagem da revista TV Escola, faz crer que o jovem tomou consciência da importância da Amazônia e se isso realmente aconteceu, certamente será repassado para sua próxima geração. Portanto, quando as pessoas conhecem bem um problema que afeta a região em que vivem e de alguma forma são convocadas para participar da sua solução acabam se tornando cúmplices do processo. Por exemplo, pode-se supor que os dirigentes de um Município proponham uma discussão com a comunidade de um bairro para que juntos encontrem uma solução para o problema do lixo que está afetando o dia a dia daquela localidade. Se isso ocorrer e chegarem a conclusão que uma coleta seletiva seja a medida adotada, para a solução do problema, aquelas pessoas se sentirão parceiras da idéia encontrada e com certeza as ações para colocá-las em prática serão executadas com muito mais êxito do que se essas mesmas ações fossem determinadas pelos mesmos dirigentes, sem que a população fosse ouvida antes. Ou seja, inserir as pessoas na discussão de projetos em que elas próprias serão beneficiadas é dividir com elas a responsabilidade pelo sucesso das ações. 45 O Brasil é um dos campeões na reciclagem de latas de alumínio, mas em relação à coleta seletiva, que poderia ampliar a reciclagem de outros materiais como, vidro, plástico e papel, é adotada apenas por 8,2% dos municípios brasileiros (ABES, 2000). A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) indicou que dos municípios que participam da coleta seletiva, 50 deles interromperam esse trabalho tendo como justificativa: má aceitação da comunidade 38%, falta de local adequado 40%, falta de campanha de conscientização 26% e outras razões 36%. Um mesmo município pode apresentar mais de uma razão para interromper a coleta. A figura 16 ilustra esses dados. 40 Má Aceitação da Comunidade 35 30 Falta de Local Adequado 25 20 Falta de Campanha de Conscientização Outras Razões 15 10 5 0 Justificativa Fonte: IBGE - PNSB 2000 Figura 16: Justificativas indicadas por municípios do Brasil que interromperam a coleta seletiva de lixo – Relatório PNSB 2000 É bem provável que a população dos 50 municípios da pesquisa do PNSB, que interromperam o trabalho de coleta seletiva, não tenha sido ouvida, nem devidamente informada antes do início dos trabalhos. Pode-se comparar o programa Cidadão Ambiental em Toledo que envolve toda a comunidade escolar e, por conseguinte, os moradores do local. Os próprios alunos tornam-se multiplicadores daquilo que aprendem. O projeto demonstrou que não se consegue êxito quando se quer mudar hábitos ou modos de agir de pessoas ou de uma 46 comunidade sem informá-las, educá-las, mostrar-lhes como determinada ação pode lhes trazer benefícios. Como se viu em Toledo, as escolas se transformaram, os hábitos dos alunos mudaram pela mudança do comportamento deles, como por exemplo: procuraram conhecer melhor os programas ambientais existentes no Município e a partir daí, passaram a influenciar a população na participação desses programas. Os jovens acabaram, também, cuidando melhor do prédio em que estudavam não depredando suas dependências e, certamente, essas atitudes se estenderam as suas casas e localidades próximas de onde vivem. Da mesma forma, os Clubes de Saúde implantados pelo Sesp, por volta de 1945, tinham entre as suas finalidades, na época, conduzir com eficiência os princípios de educação sanitária ao jovem estudante, tornando mais fácil a assimilação desses princípios pelas demais pessoas da família e, conseqüentemente, pela comunidade, despertando uma consciência coletiva, indispensável para o progresso de todos. Quando jovens são educados dessa forma passam a transmitir de forma direta ou indireta, a seus familiares, aquilo que aprenderam, fazendo com que um número maior de pessoas receba aquelas informações, aumentando o conhecimento da comunidade e, possivelmente, a mudança de atitudes, de um modo geral. Um outro exemplo da importância da participação da população na resolução de um problema se encontra no relato sobre a esquistossomose em Poço Comprido, Maracaparana/PE. Depois de identificado o problema buscou-se as possíveis soluções de engenharia para a melhoria do abastecimento de água e para o destino adequado do lixo e dos dejetos. Junto a isso, além de cuidar das pessoas infectadas, foi feito um trabalho educativo com alunos de duas escolas do ensino fundamental. Um grupo de 22 jovens, com idade entre 9 e 16 anos, chamado de Brigada Ecológica, após participar de oficinas de arte como: teatro, cordel, teatro de bonecos, etc, passaram a divulgar o conteúdo dessas oficinas, que com toda certeza contribuiu de maneira significativa para a mudança de hábitos da população atingida e, em conseqüência, uma maior eficácia nas ações desenvolvidas. Esse trabalho pode ser comparado com as atividades desenvolvidas por um Eco-clube. 47 Quando se quer desenvolver uma ação que irá beneficiar diretamente o indivíduo, isto pode ser conseguido com mais facilidade se esse indivíduo for esclarecido do problema e das medidas que estão sendo tomadas para a sua solução. Por exemplo, apesar de não relatado nessa dissertação, em Fortaleza/CE, a Secretaria de Estado da Saúde participa ativamente de ações objetivando cumprir as medidas de controle da tuberculose, através do Laboratório Central (LACEN), que analisa amostras suspeitas e trabalha para a diminuição do número de casos de tuberculose no Estado. A tuberculose é uma doença que apresenta, em certos pacientes, bactérias multiresistentes e em todas as contribuições publicadas sobre este tema, aponta-se como principais fatores, o tratamento irregular, o abandono e a falta de vigilância. (Rosemberg, 1999). O doente deixa de tomar o remédio e o bacilo adquire resistência. Se fosse feito um trabalho educativo junto à população, alertando-a dos perigos da doença e suas implicações na interrupção do tratamento, possivelmente haveria um menor número de casos multiresistentes e, conseqüentemente, melhores resultados no seu tratamento. Um Centro de Atenção Primária Ambiental na região poderia dar esse apoio ao laboratório, pois se entende que a sua atuação não se deve restringir a questões ambientais especificas, mas a quaisquer questões que dizem respeito à melhora da saúde e da qualidade de vida das pessoas. Um outro ponto importante que se pode verificar é que quando em um bairro ou numa localidade surge um movimento cuja finalidade seja melhorar as condições de vida das pessoas, o local, que serve como ponto de encontro para as reuniões ou para as atividades, depois de algum tempo começa a ter uma melhora significativa em seu entorno. A área próxima ao Parque Taboazeiro em Vitória está sendo um prova disso. É possível que pessoas de uma comunidade, que vivam próximas a um Centro de Atenção Primária Ambiental, ao participarem das atividades de interesse daquela localidade, passem a tomar consciência dos problemas e se articulem para pressionar o poder público no sentido de melhorar o ambiente em torno daquele local. 48 Um dos primeiros pressupostos para se praticar a cidadania é assegurar aos indivíduos o direito de reivindicar os seus direitos. As pessoas não podem pensar que elas devem somente receber, elas precisam, de algum modo, tornar-se parte do governo trabalhando para conquistar esses direitos. Desta forma, quando a comunidade se organiza, ela não fica esperando a solução para um problema que existe no seu bairro, seja este problema de ordem ambiental ou não, e sim utiliza a sua organização para buscar soluções que atinjam diversos níveis, entre eles pressionar os órgãos competentes, se assim for necessário. O próprio governo seja ele federal, estadual ou municipal deve propiciar à população todos os meios possíveis para inseri-la nas discussões relativas aos problemas ambientais, procurando informar e ouvir sugestões para que juntos possam encontrar soluções viáveis e possíveis de serem executadas até mesmo, se necessário, com a ajuda das pessoas. Segundo as descrições dos trabalhos realizados pela FUNASA nos municípios, citados nessa dissertação, pode-se verificar que têm semelhança com a estratégia proposta pela APA, pois envolve parceria entre os poderes públicos (governo federal e municipal) e participação direta ou indireta da população e, embora não sejam especificamente relativos a resolução de problemas ambientais, foram realizados para atender a determinadas necessidades da população, no que diz respeito a serviços de saneamento básico, com o objetivo de promover a saúde e, em conseqüência, proteger o ambiente. Esse tipo de atuação vai de encontro a um dos princípios básicos da APA que é a participação da comunidade: “A APA busca, através da capacitação e o aumento da consciência ambiental, que a sociedade civil tenha uma participação responsável, informal e organizada. Qualquer política ou decisão ambiental deve ser submetida à aprovação e conhecimento da comunidade”. (OPAS , 1999). Convém também destacar que a antiga Fundação SESP e hoje Fundação Nacional de Saúde, por congregar diversas atividades como: assistência médica (exFSESP), controle de vetores (atualmente repassado ao município), assistência à saúde do índio, epidemiologia, vigilância ambiental e sua atuação na área de saneamento, e por ser um órgão pertencente ao Ministério da Saúde, sempre trabalhou e trabalha com a 49 visão de saúde pública, integrada com esses diversos setores, conforme consta no conceito de promoção da saúde. Um outro ponto que se deve colocar em discussão é com relação a formação dos Centros de Atenção Primária Ambiental. Não há um modo determinado para a sua formação. Cada um deles tem sempre uma característica distinta, embora com a mesma finalidade. O mesmo se verifica com os Eco-clubes. O CAPA de Toledo, no Paraná, teve início com um programa realizado nas escolas, por iniciativa da Prefeitura (Secretaria do Meio Ambiente), que se desenvolveu encontrando apoio dos educadores e resposta dos educandos. No Município de Vitória, a formação do CAPA na região do Parque Taboazeiro foi iniciada com a ajuda significativa de uma instituição pública de nível federal (Coordenação Regional da FUNASA), que convidou pessoas da comunidade e do parque a participar de um curso de capacitação. Essas pessoas passaram a conhecer os princípios da APA e estão tentando por em prática aquilo que aprenderam. O mesmo aconteceu no Município de São Mateus, a Coordenação Regional do Espírito Santo convidou o representante da OPAS para participar do 1° Encontro Regional de Saúde e Meio Ambiente, realizado em Vitória. Ofereceu, também, ao pessoal do projeto Araçá, um espaço para pudessem expor o trabalho que já realizavam no Município. Desse encontro surgiu a formação do CAPA que, como se deve ressaltar, partiu de um projeto existente que tinha semelhança com alguns objetivos e princípios da APA. O Eco clube fundado na escola municipal no distrito de São Sebastião de Vala, no Município de Aimorés, teve o apoio do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) e também da Coordenação Regional da FUNASA. Alguns professores que pertencem ao Centro de Atenção Primária, em formação, fazem o papel de facilitadores. O distrito é pobre e as dificuldades encontradas são grandes, mas o entusiasmo demonstrado pelos estudantes, que compõem o Eco clube, é contagiante, pois eles têm consciência do papel que exercem, apoiando o governo local na resolução dos problemas na comunidade, ou até mesmo realizando ações, por iniciativa própria, sempre com o intuito de melhorar a saúde e da qualidade de vida das pessoas. 50 O Centro de Atenção Primária formado no Município de Aracruz/ES, que não foi relatado nessa dissertação, partiu da iniciativa de pessoas de nível superior. O seu presidente, Tino Barros Jr., que é comunicólogo e professor da Faculdade de Ciências Humanas de Aracruz (FACHA) e participou da visita realizada ao Parque Taboazeiro em Vitória, fez comparações entre a formação dos dois centros observando que o CAPA de Aracruz tem uma característica mais elitizada. No artigo publicado na Gazeta (2002), ele é de opinião que a estrutura administrativa do CAPA pode ser variável dependendo das condições existentes na própria localidade. Entretanto, o CAPA deve contar com uma equipe especialmente treinada e com uma infra-estrutura básica que lhe permita capacitar a comunidade na prevenção, detecção e solução de seus problemas ambientais. O CAPA de Aracruz foi instalado em junho de 2002, por iniciativa do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Ciências Humanas de Aracruz (DAU/FACHA) e, segundo ele, está orientado a difundir e promover ferramentas conceituais e práticas relacionadas a prevenção ambiental entre mais de setenta mil pessoas do município, com destaque relevante para aproximadamente dois mil profissionais da Fundação São João Batista, de Aracruz, entre professores, estudantes e funcionários administrativos, que a quase cinqüenta anos é mantenedora do Centro Educacional de Aracruz (CEA) e da FACHA. (BARROS - Jornal Gazeta, 2002) Acredita-se que os componentes de um Centro de Atenção Primária Ambiental, com formação de nível superior, devido a essa condição, acabam de algum modo tendo um acesso mais fácil aos poderes públicos e, conseqüentemente, facilitam o caminho da população para reivindicar os seus direitos e suas necessidades. O esforço que se dispõe a desenvolver requer uma nova visão de atenção às pessoas e ao meio e sua eficácia será medida em função das conquistas alcançadas, no que se refere ao nível de mobilização da comunidade, dos efeitos na acessibilidade aos serviços e na melhoria na gestão do meio ambiente local. 51 6 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Da mesma forma que a Atenção Primária Ambiental não é solução para todos os problemas ambientais a nível local, não se propôs nesse trabalho oferecer fórmulas prontas de atuação para que Municípios pudessem empregar ou aplicar em suas localidades a fim de resolver esses problemas. No entanto, acredita-se que conhecendo experiências bem sucedidas em comunidades cujo processo teve a participação popular, estes, certamente, poderão servir como incentivo aos governos locais e as populações para que juntos possam buscar as possíveis soluções para os seus problemas ambientais. A falta do abastecimento de água de qualidade e em quantidade suficiente, a contaminação atmosférica, a contaminação da água pelas industrias e a falta de políticas eficazes para o destino final dos esgotos e dos resíduos sólidos, são questões fundamentais que devem ser observadas com muita atenção pelas autoridades. Sabemos que as conseqüências disso acabam caindo sobre a população, quase sempre as mais pobres e carentes, além de levar os setores de saúde dos Municípios a investir vultosas quantias na medicina curativa para amenizar o sofrimento dessa população. Os relatos e as experiências divulgadas nesse trabalho poderão servir como exemplos para outros Municípios ou como inspiração para novas propostas. As populações e governos locais devem tornar-se elementos integrados, na busca de soluções para os problemas ambientais, numa estratégia participativa cuja meta seja alcançar melhores condições de vida para todos. Os problemas ambientais implicam na confluência de múltiplos processos que envolvem o meio físico-biológico, os sistemas produtivos, tecnologias, organização social, instituições políticas, os poderes públicos, economia, cultura e demais setores da sociedade. Além disso, tem características diversas: são universais em escala, têm potencial de impacto em longo prazo, na maioria dos casos são complexos, envolvem fatos científicos incertos, possuem diferentes valores em disputa e altos interesses em jogo e na maioria dos casos exigem decisões sob condições de urgência. 52 Sabe-se, ainda, que 20% da população dos países no mundo consomem 80% dos produtos consumidos no mundo todo. Pode-se pensar que nesses países esta população está mais exposta a contaminação, mas isso não é verdade. Acontece ao contrário, onde são consumidos os 20% é que existe mais contaminação, pois nos países mais desenvolvidos, onde o consumo é maior, o controle e a fiscalização são maiores, existem normas mais rígidas além de uma população mais bem informada que reivindica melhor os seus direitos. Através de uma reflexão sobre o conceito da APA, os seus princípios básicos, suas principais características e as dificuldades e limitações na sua implantação pode-se produzir ações com resultados concretos como pode ser visto nas experiências descritas anteriormente. A integração entre os setores responsáveis por essas ações, que irão refletir a qualidade de vida do homem, como saúde, educação, habitação, trabalho, cultura e outras, deve ser vista por todos como fundamental para o êxito do trabalho. É importantíssimo que o poder público envolvido seja ele municipal, estadual ou federal acredite na estratégia preconizada pela OPAS, de que o nível local deve procurar soluções para seus problemas ambientais com a participação e a ajuda da população. A Coordenação Regional da FUNASA no Espírito Santo (CORE/ES), que é uma instituição federal, teve e tem um papel fundamental na formação dos Centros de Atenção Primária Ambiental e dos Eco-clubes naquele estado. Está sempre procurando divulgar a APA e seus princípios básicos e incentiva outros municípios a aderir a formação de CAPAs e Eco-clubes, usando como exemplo aqueles que estão funcionando. É preciso ainda que o poder público se comprometa em atender as necessidades básicas e os anseios da população que, de algum modo, está sempre buscando melhores condições de vida. As palestras citadas na experiência com o município de Bom Jesus do Itababoana no Rio de Janeiro, sozinhas não resolveriam os problemas da falta de abastecimento de água ou da falta de tratamento dos resíduos sólidos. Elas foram acompanhadas de ações efetivas (implantação de uma unidade de lixo ou de uma estação de tratamento de água) que juntas tiveram um efeito positivo. Quando os problemas são resolvidos desta forma, as pessoas passam a acreditar mais nos seus governantes. As pessoas se sentem responsáveis quando convocadas a se 53 engajar em campanhas para melhorar o ambiente ou para atuar em prol da comunidade em que vivem. Percebe-se que nos locais onde a APA está sendo desenvolvida existe um entusiasmo, tanto das autoridades quanto dos participantes dos Centros de Atenção Primária e dos Eco-clubes, além das demais pessoas envolvidas com o processo. O poder público pode e deve aproveitar esse entusiasmo para ampliar os trabalhos e divulgá-lo para outras localidades, dentro e fora do Município, a fim de que um número maior de pessoas acredite e utilize a estratégia da APA para resolver ou minimizar os seus problemas ambientais. Outros municípios, ao tomarem conhecimento de experiências bem sucedidas com APA ou até mesmo de algumas que não deram certo, poderão, a partir desses exemplos, procurar a forma mais adequada para implantá-las nos seus próprios municípios. As associações de moradores, as representações de classe, as igrejas, etc..., podem ajudar nessa tarefa. A criação de um Centro de Atenção Primária Ambiental (CAPA) em uma cidade, composto por profissionais multidisciplinares ou demais voluntários que se interessem em ajudar a sua comunidade, pode vir a ser um importante núcleo de colaboração com o poder público, na resolução dos problemas ambientais, bem como em outras questões que dizem respeito à melhoria da saúde e da qualidade de vida das pessoas. Da mesma forma, os Eco-clubes, que juntamente com os CAPAs são um dos braços operativos para colocar em prática a APA, tem uma importância muito grande, não somente pelo aspecto de auxiliar na resolução de problemas da comunidade, mas principalmente na consciência que ajuda a formar nos jovens que deles participam. Espera-se que as pessoas comecem a assumir uma maior preocupação pelo meio ambiente, independentemente de sua condição socioeconômica, idade ou preparação. Fazê-las incorporar em sua linguagem a dimensão ambiental, fazendo com que este tema tão difuso, longínquo e complexo de ser entendido pela maioria das pessoas adquira uma dimensão mais próxima e apropriada, ao associar a qualidade de vida com as condições ambientais em que vivem. 54 Abre-se uma nova perspectiva quando se propõe resolver, com a participação de todos, problemas ambientais que atingem milhões de pessoas no mundo inteiro. Sócrates acreditava que um escravo era capaz de solucionar questões filosóficas com a mesma razão de um nobre, pois, para ele, todas as pessoas eram capazes de entender as verdades filosóficas, bastando para isso que usassem sua razão. As questões ambientais não são questões filosóficas, mas pode-se acreditar que as pessoas têm sempre algo a contribuir, basta que lhes seja dado o direito de praticar a cidadania. 55 8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABES, 2002. O saneamento no Brasil do ano 2000. Revista Brasileira de Saneamento e Meio Ambiente BIO, abril/junho, Ano XI, n° 22, p 20-34. BAJRACHARYA, D., 1994. Primary environinental care for sustainable livelihood. A Unicef perspective. Childhood 2: 41-45 BARROS, T., 2002. Prevenção Ambiental. A Gazeta, Aracruz, 16 set., 1° Caderno, Editorial Opinião, p. 4. BOLETIM DO SESP, 1945. Clubes de Saúde. Boletim do Sesp, Rio de Janeiro, nov., n° 28, p. 12 BOLETIM DO SESP, 1945. Clubes de Saúde. Boletim do Sesp, Rio de Janeiro, dez., n° 29, p. 7 BOLETIM DO SESP, 1946. Instruções sobre os Clubes de Saúde. Boletim do Sesp, Rio de Janeiro, mai., n° 34, p. 6 e 7. BORRINI, G., 1990. Lessons leamed in community-based environmental management. Proceedings of Primary Environmental Care Workshop, Siena, Italy, Instituto Superiore e Santa, Roma, 1990. CARNEIRO, R. M. et al, 2002. Abordagem Multidisciplinar no Controle da Esquistossomose em Poço Comprido, Macaparana, PE, In: I Seminário Internacional de Engenharia de Saúde Pública, Recife: Fundação Nacional de Saúde. CENTRO CULTURAL ARAÇÁ, 2002. Projeto Araçá. São Mateus: Centro Cultural Araçá. CHACON, J. A., 1999. Brasil 21 – Uma nova ética para o desenvolvimento. Rio de Janeiro: Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura e Agronomia – CREA. 56 FERRAZ, S. T., 1999. Cidades Saudáveis – uma urbanidade para 2000 Projeto “Promoção da Saúde” do Ministério da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde. FUNASA (Fundação Nacional de Saúde) a, 1999. Manual de Saneamento, Brasília: Fundação Nacional de Saúde, Ministério da Saúde. FUNASA (Fundação Nacional de Saúde) b, 2002. Atuação do Setor de Saúde em Saneamento. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, Ministério da Saúde. IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a, 2002. Censo Demográfico 2000, Rio de Janeiro: IBGE. IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) b, 2002. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000, Rio de Janeiro: IBGE. IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) c, 2000. Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios 1999, Rio de Janeiro: IBGE. ISPN (Instituto Sociedade População e Natureza), 1995. Demanda, oferta e necessidades dos serviços de saneamento. Brasília: Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas JORNAL ARAÇÁ a, 2001. Araçá poderá se tornar Centro de Atenção Primária Ambiental. Jornal Araçá, São Mateus, agosto, Edição n0 13, p 9. JORNAL ARAÇÁ b, 2001. Secretários participam de reunião no Araçá para a formação do Centro de Atenção Primária Ambiental em São Mateus. Jornal Araçá, São Mateus, dezembro, Edição n0 17, p 11. JORNAL ARAÇÁ c, 2002. Eco Clube Araçá e Capa ganham novas experiências em Toledo – PR. Jornal Araçá, São Mateus, março, Edição n0 20, p 4. MC (Ministério das Cidades), 2003. Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, Ministério das Cidades 57 MEC (Ministério da Educação e do Desporto), 1997. Programa Nacional de Educação Ambiental. Coordenação de Educação Ambiental, Ministério da Educação e do Desporto. MS (Ministério da Saúde) a, 2000. O Trabalho do Agente Comunitário de Saúde. Brasília: Secretaria de Políticas de Saúde, Ministério da Saúde MS (Ministério da Saúde) b, 2001. Projeto Promoção da Saúde. Eco Clubes: Uma Estratégia de Atenção Primária Ambiental para a América Latina. Revista Promoção da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Ministério da Saúde, Brasília, agosto, ano 2, n°3, p 39-41. MS (Ministério da Saúde) c, 2001. Projeto Promoção da Saúde. Promoção da Saúde: Declaração de Alma-Ata, Carta de Ottawa, Declaração de Adelaide e outras, Brasília: Secretaria de Políticas de Saúde, Ministério da Saúde. OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) a, 1998. Programa Marco de Atenção ao Meio Ambiente, Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde. OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) b, 1999. Atenção Primária Ambiental, Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde. PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO a, 1997-2000. Meio Ambiente – Desenvolvimento Sustentável agindo localmente, Toledo: Secretaria de Meio Ambiente, Prefeitura Municipal de Toledo. PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO b, 2000 Guia para sistematização de experiências APA. Ia Reunião Pan-Americana da Rede Municipal de Atenção Primária Ambiental – APA, 15 a 17 junho. Toledo: Secretaria de Meio Ambiente, Prefeitura Municipal de Toledo ROSEMBERG, J., 1999. Tuberculose - Panorama Global, Óbices para o seu Controle, Fortaleza: Secretaria de Estado da Saúde. 58 SÁNCHEZ, M. C., 1995. Aplicación e implementación de la atención primaria ambiental. Santiago SILVA E. R., 2001. Histórico do Programa de Melhorias Sanitárias Domiciliares. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, Ministério da Saúde. TV ESCOLA, 2002. Sustentabilidade, que bicho é esse?. Revista TV Escola, Brasília, n0 28 Agosto/Setembro, p. 32-39, Secretaria de Educação a Distância, Ministério da Educação. 59 Glossário ABES – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental APA – Atenção Primária Ambiental APS – Atenção Primária à Saúde CAPA – Centro de Atenção Primária Ambiental FSESP – Fundação Serviços de Saúde Pública FUNASA – Fundação Nacional de Saúde IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ISPN – Instituto Sociedade População e Natureza OMS – Organização Mundial de Saúde OPAS – Organização Pan-americana de Saúde Oxfam – Organização Britânica independente, que trabalha em parceria com outras organizações para combater a pobreza e o sofrimento em diferentes lugares do mundo. PNSB – Pesquisa Nacional de Saneamento Básico SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgoto Sesp – Serviço Especial de Saúde Pública UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância UFPE – Universidade Federal de Pernambuco 60 Anexo I FORMULÁRIO ELABORADO PELO CENTRO DE ATENÇÃO PRIMÁRIA AMBIENTAL DO PARQUE TABOAZEIRO EM VITÓRIA. PERGUNTAS PARA O DIAGNÓSTICO DE PERCEPÇÃO AMBIENTAL Caracterização do informante Sexo ( ) F ( )M Faixa etária ( ) 16 – 21 ( ) 50 – 56 ( ) 26 – 32 ( ) 56 – 62 ( ) 32 – 38 ( ) 38 – 44 ( ) 44 – 50 Sua origem: _____________________________________________________ Residência ( bairro ): ______________________________________________ A quanto tempo você reside neste bairro? ( ) 1 a 3 anos ( ) 4 a 7 anos ( ) 8 a 11 anos ( ) acima de 12 anos Existe nesse bairro alguma área de lazer? ( ) Sim ( ) Não Qual: _______________________________________ I – PROBLEMAS AMBIENTAIS 1) Você reside perto de que tipo de ecossistema? ( ) manguezal ( ) encosta ( ) restinga ( ) mata atlântica ( ) outros 2) Você utiliza dos recursos destes ecossistemas? ( ) sim ( ) não 3) Se sim, de que forma: ( ) passeios ( ) extrativismo ( ) contemplação ( ) outros. 4) Você acha que seu bairro é poluído? ( ) sim ( ) não 5) Em ordem de importância, quais destes elementos causam impactos no seu bairro? 61 ( ) acúmulo de lixo ( ) esgoto a céu aberto ( ) desmatamento ( ) poluição de saneamento ( ) poluição sonora paisagismo ( ( ) falta de saneamento ( ) poluição visual ( ) deslizamentos de encosta ) falta de ( ) poluição do ar ( ) falta de saneamento 6) Dentre os movimentos organizados em quais você participa? ( ( ( ( ( ( ) movimento comunitário do bairro ) Associação de moradores. ) Time de futebol. ) Igrejas ) Escolas de samba ) Congo ( ) outros 7) Existem escolas no Bairro, quais? Municipal – Nome: __________________________________________________ Estadual – Nome: ___________________________________________________ Particular – Nome: __________________________________________________ 8) Você participaria de reuniões relacionadas a problemas ambientais? ( ) sim ( ) não 9) Se sim, qual melhor período? ( ) manhã ( ) a tarde ( ) noite 10) Existe alguma obra em andamento? ( ) Sim ( ) Não O que? ___________________________________________________________ 62