Francisco de Assis (Org.)
IMPRENSA
DO INTERIOR
conceitos
e contextos
Francisco de Assis (Org.)
IMPRENSA DO INTERIOR:
CONCEITOS E CONTEXTOS
Chapecó, 2013
Reitor: Odilon Luiz Poli
Vice-Reitora de Ensino, Pesquisa e Extensão: Maria Aparecida Lucca Caovilla
Vice-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento: Claudio Alcides Jacoski
Vice-Reitor de Administração: Antônio Zanin
Diretora de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu: Maria Assunta Busato
Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem autorização
escrita do Editor.
070.4
I34i
Imprensa do interior : conceitos e contextos / Francisco de
Assis (Org.). - Chapecó : Argos, 2013.
326 p. (Debates ; 4)
Inclui bibliografias
ISBN: 978-85-7897-098-7
1. Imprensa – História. 2. Jornalismo local.
3. Jornais brasileiros. 4. Jornalistas. I. Assis, Francisco de.
II. Título. III. Série.
CDD 070.4
Catalogação elaborada por Caroline Miotto CRB 14/1178
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Dirceu Luiz Hermes
Conselho Editorial
Rosana Maria Badalotti (presidente), Carla Rosane Paz Arruda Teo (vice-presidente),
André Onghero, César da Silva Camargo, Dirceu Luiz Hermes, Maria Aparecida Lucca Caovilla,
Maria Assunta Busato, Murilo Cesar Costelli, Tania Mara Zancanaro Pieczkowski,
Valéria Marcondes
Sumário
9
Prefácio
13
Apresentação
Imprensa do interior: conceitos a entender, contextos
a desvendar
Francisco de Assis
Cicilia M. Krohling Peruzzo
PARTE I
Conceitos
23
O jornalismo interiorano a serviço das comunidades
Luiz Beltrão
45
Jornal do interior: conceitos e preconceitos
Wilson da Costa Bueno
67
O futuro do jornalismo em cidades do interior
Beatriz Dornelles
87
Desafios e caminhos possíveis para uma nova concepção de
imprensa do interior
Luiz Custódio da Silva
103
A proximidade como valor-notícia na imprensa do interior
Mario Luiz Fernandes
137
Jornalismo de release na imprensa do interior: flertes com o
“homem cordial”
Adriana Santana
PARTE II
Contextos
165
Política, debate e participação no jornalismo do interior
Juliana Colussi
191
A profissionalização do jornalismo no interior brasileiro:
o caso de Mossoró (RN)
Lerisson C. Nascimento
217
As dificuldades do jornalismo impresso no interior do Brasil:
uma ilustração de resistências
Geder Parzianello
233
Jornalismo impresso no interior paulista: características
Pedro Celso Campos
249
O fortalecimento dos jornais locais e a desconcentração
da imprensa no interior de São Paulo
Walter Alberto de Luca
273
A imprensa do interior no jogo de escalas: os jornais do
centro-oeste paulista e a questão local em foco
Marcos Paulo da Silva
295
Jornalistas do interior: influências pessoais na construção
da imprensa
Francisco de Assis
319
Posfácio
Muito além da grande mídia: razões e racionalizações do
jornalismo no interior
Ana Carolina Rocha Pessôa Temer
323
Sobre os autores
Prefácio
Cicilia M. Krohling Peruzzo*
Saúdo a iniciativa de Francisco de Assis em organizar o livro
Imprensa do interior: conceitos e contextos, por reunir textos sobre um
assunto pouco pesquisado no circuito acadêmico brasileiro. Apesar
de os jornais de cidades situadas fora dos limites das capitais existirem desde 1842 – começando por O Paulista, editado em Sorocaba,
no estado de São Paulo –, o jornalismo praticado nesse âmbito tem
merecido apenas estudos esporádicos ou parciais, portanto pouco
abrangentes do ponto de vista analítico, não capazes de configurar
um panorama nos âmbitos regional e nacional. Essa situação prejudica a caracterização de práticas, avanços e (des)continuidades desse
segmento de imprensa de modo a registrar dimensão importante da
história do jornalismo. As razões do descompasso talvez estejam na
percepção preconceituosa de considerar tratar-se de uma categoria
inferior de mídia e do próprio jornalismo, mas o motivo principal
está nas dificuldades em se adentrar nas localidades para se realizar
* Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Coordenadora do Núcleo de Estudos
de Comunicação Comunitária e Local (Comuni).
9
pesquisas de campo no amplo e diverso universo comunicacional em
um país das dimensões do Brasil. Salvo raras exceções, como indica
o conteúdo desta coletânea, ultimamente são feitos mais estudos de
casos de jornais ou rádios locais do que investigações ampliadas que
descrevam, analisem e configurem o fenômeno no seu conjunto. O que
não quer dizer que os estudos de casos não tenham sua importância.
Pelo contrário, ao sistematizarem relatos e análises sobre experiências
relevantes de imprensa, eles contribuem para a geração de sistemas de
informações e de conhecimento sobre diferentes iniciativas de mídia
interiorana, em que algumas dimensões se configuram como de mídia
local, dos meios impressos aos audiovisuais e digitais.
Diante desses fatores, a publicação desta obra se torna muito
oportuna. Ela reúne textos sobre estudos de mídia local, especialmente
jornais, de diferentes cidades situadas no Brasil. É uma forma de proporcionar visão de conjunto do fenômeno em questão. O que também
valoriza esta coletânea são os estudos empíricos selecionados, pois
revelam-se fruto de investigações realizadas para teses e dissertações,
portanto com maior densidade teórico-metodológica. Sabe-se que a
redução deste tipo de pesquisa em papers de poucas páginas resulta
em abordagens que nem sempre conseguem sintetizar bem o todo. Se
este é o caso de alguns dos capítulos aqui reunidos, por outro lado eles
remetem a estudos completos que podem ser buscados para subsidiar
investigações teóricas mais abrangentes. Os aportes teóricos inseridos
nos diferentes textos refletem algumas das linhas conceituais que vêm
sustentando os estudos sobre jornais do interior. Porém, conceitos
que podem ter marcado época em determinado contexto, como os
de Beltrão e de Bueno, não repercutem de forma contundente nos
estudos mais recentes. Às vezes há certa tendência ao modismo, ou
seja, de aproximar o estudo de jornais do interior a conceitos em geral
aplicáveis à grande imprensa. Mas algo similar continua a aparecer:
10
a inclinação ao discurso normativo e indicativo para as boas práticas
jornalísticas. Porém, com uma diferença: enquanto, na década de 1960,
a visão centrava-se no papel dos meios de comunicação na difusão de
inovações, então favorável ao desenvolvimento das regiões tidas como
atrasadas, hoje em dia passa a haver mais interesse, nos estudos acadêmicos, em concepções críticas sintonizadas com as demandas cívicas e
dos cidadãos e novas propostas de desenvolvimento local. No nível das
práticas, as motivações principais para a dedicação à imprensa local, seja
no interior ou nos bairros das metrópoles, são de ordem econômica e
política: o local como nicho de mercado e o meio de comunicação como
arma para assegurar a divulgação das posições político-ideológicas de
grupos conservadores.
Outro aspecto que gostaria de enfatizar é sobre a diversidade da
imprensa do interior, a qual se manifesta no conteúdo desta coletânea
e também nos tipos de abordagem dos textos que a compõem. Cada
texto tenta apanhar o objeto a partir de diferentes facetas, o que mostra
existir um campo de estudo a ser explorado a partir das transformações
que vêm sendo constituídas ao longo do tempo. Se, na década de 1960,
havia todo um brio valorativo que ornava visões sobre como deveria
ser a práxis da imprensa do interior, nos últimos anos vêm bastante
à tona suas facetas mais realistas, tanto pelo desnudamento sobre o
comprometimento dos conteúdos uma vez submetidos aos vínculos dos
seus proprietários aos interesses econômicos, ideológicos e políticos,
quanto advindas de práticas clientelísticas e das limitações decorrentes
das estruturas operativas das empresas midiáticas locais ou regionais.
Ao mesmo tempo que esses aspectos limitam o avanço do jornalismo
local, no caso no interior, entendido como aquele que acontece fora do
eixo das capitais – embora neste âmbito também haja grandes jornais de
cidades grandes com práticas semelhantes aos das capitais, o que dificulta o uso do termo interior –, alguns dos textos permitem visualizar a
11
existência de iniciativas que ultrapassam as amarras das práticas centradas na “cordialidade local”, da subordinação ao jogo político-partidário
e institucional dos poderes instituídos, das facilidades reprodutivas do
material das assessorias de imprensa dos órgãos públicos e da difusão
dos editais públicos. Ainda resta espaço para o jornalismo cívico e para
as coberturas sérias e críticas dos acontecimentos locais.
Para finalizar, volto ao tema da diversidade da imprensa do interior,
para enfatizar sua importância e a premência da pesquisa a seu respeito,
bem como sobre outras modalidades de mídia local e comunitária. Ao
refletirem a diversidade de milhares de cidades e municípios brasileiros
com seus diferentes acontecimentos, raízes históricas, culturas e problemáticas, os canais de comunicação têm a potencialidade de realizar
um trabalho comunicacional centrado na proximidade. Desse modo,
são capazes de refletir as peculiaridades locais e regionais que a grande
imprensa só faz em casos especiais, tais como de grandes tragédias1 ou
fatos sensacionalistas de fundo político ou de outra índole. Por outro
lado, os milhares de pequenos meios de comunicação representam o
exercício da liberdade de expressão desejável no conjunto da sociedade
brasileira. Quanto mais emissores houver, melhor para a democracia
da sociedade brasileira. Mesmo existindo distorções e a tendência à
reprodução de padrões da grande mídia por meios de comunicação de
pequeno porte e alcance, neles sempre há espaço para o diverso, para
corresponder às demandas pela informação local e para colocar em xeque
a oligopolização dos meios de comunicação no Brasil.
São Paulo, 27 de janeiro de 2013.
1 Vide a atenção dada pela mídia nacional ao incêndio na boate Kiss, em Santa
Maria, no Rio Grande do Sul, em janeiro de 2013.
12
Apresentação
Imprensa do interior: conceitos a entender,
contextos a desvendar
Francisco de Assis
As pesquisas realizadas no território da Comunicação, a exemplo de
outras áreas das Ciências Sociais Aplicadas, carecem, muitas vezes,
de conceituações e de olhares atentos sobre aspectos conjunturais que
possibilitem melhor entender os fenômenos suscitados no cenário social.
No Brasil, especificamente, apesar de investigações científicas acerca da
mídia e de suas interfaces serem realizadas há meio século – ou mais
do que isso, se levarmos em conta os estágios anteriores à formação do
nosso campo1, nos quais o jornalismo e outras atividades correlatas já
haviam-se tornado objeto de análise –, ainda é possível notar lacunas e
contradições em muitas frentes de estudo, como é o caso da imprensa
do interior, foco deste livro.
1 Tomamos como marco referencial do campo acadêmico da Comunicação no
Brasil o ano de 1963, quando foi fundado, em Recife (PE), o Instituto de Ciências da Informação (Icinform), sob o comando de Luiz Beltrão. É a partir daí e
de uma série de outros esforços e acontecimentos que essa área do saber se legitimou junto à sociedade e às instâncias que regulamentam a atividade científica.
13
Os embates de ideias que se colocam à frente da compreensão
do recorte podem ser percebidos desde o vocábulo “interior”, polissêmico que é. Sem querer adentrar nesse mérito em toda a sua extensão,
vale mencionar que o dicionário Michaelis nos oferece, dentre vários
significados para tal palavra, três itens ligados a contextos geográficos,
os quais particularmente nos interessam. Segundo a referida fonte,
o interior pode ser: 1) “parte central de um país, por oposição às
fronteiras”; 2) “parte interna do país por oposição à costa ou litoral”;
e 3) “o próprio país, por oposição aos países estrangeiros”.
Na leitura que temos feito dos estudos sobre a imprensa do
interior, percebemos uma particularidade: embora muitos deles não
expliquem a que segmentos atribuem essa nomenclatura, praticamente
todos abordam temas relacionados a meios de comunicação – e a seus
desdobramentos, como profissionais, rotinas, produtos, entre outros –
estabelecidos em cidades de pequeno e médio porte, localizadas em
espaços um pouco ou muito distantes dos grandes centros urbanos
(metrópoles, megalópoles etc.). Podemos dizer, então, sem medo de
cometer equívocos, que interior, na pesquisa acadêmica sobre a imprensa – e mesmo no chamado senso comum –, consiste em território que
não o das capitais e o qual pode estar situado tanto na parte interna
das unidades federativas, quanto no litoral e na fronteira entre estados
(províncias, em alguns casos) ou na divisa de países.
Tratar sobre imprensa do interior, portanto, é bem mais do
que pensar a relação da mídia com particularidades às quais comumente são atribuídos os nomes “local” e “regional”. Dizemos isso
por entendermos que esses conceitos – largamente aproximados da
situação de pequenos municípios e de áreas afins – também podem
reportar-se aos grandes centros. Em outras palavras, questionamos,
por exemplo, se o que ocorre em São Paulo, maior cidade brasileira,
14
não seria também fato local. Ou, mais, se noticiários sobre Recife,
considerada a principal capital do Nordeste, não se enquadrariam no
conceito de regional, assim como pode se dar com acontecimentos
de qualquer outra grande cidade nordestina, haja vista que temos por
hábito associar aquele agrupamento de estados a um ambiente com
marcas de regionalidade.
Estamos convencidos de que debater a realidade da imprensa em
contextos interioranos não é o mesmo que tratar sobre o local e sobre
o regional, ainda que essas questões sejam tangenciais e significativas.
De igual maneira, é impossível não reconhecer que tais ideias estejam
imbuídas de outras noções, com igual importância, como as de proximidade, pertencimento, comunidade, entre muitas outras. Visualizamos,
pois, múltiplas possibilidades de articulações teóricas e reflexivas nesse
cenário por muitos ignorado ou pouco valorizado (afinal, ainda há, no
meio acadêmico, certo preconceito com estudos que se debruçam sobre
peculiaridades do interior, assim como notamos alguns desconfortos,
no âmbito do mercado, quando o assunto é o trabalho da imprensa
em pequenas cidades, posto que alguns profissionais chegam até a não
considerá-lo como labor legitimado ou desejado).
Atentos a isso, idealizamos a organização desta coletânea, a fim
de oferecê-la à área em que estamos inseridos, a disciplinas correspondentes e a outros interessados no assunto, como ponto de partida para
o entendimento da imprensa do interior. Como não poderia deixar de
ser, tomamos o Brasil como principal parâmetro, não obstante muitos
dos textos que seguem dialogarem com autores estrangeiros, assimilando seus pressupostos ou reproduzindo seus relatos sobre experiências
sucedidas em outros lugares. Nossa ambição, por tudo isso, é que o
conteúdo aqui reunido possa demarcar balizas conceituais e contextuais, além de estimular a realização de novos projetos dedicados ao
15
tema que nos motiva. Num país com 5.565 municípios2, parece-nos
subestimar potencialidades a insistência na valorização de pesquisas
fincadas apenas no eixo Rio-São Paulo, em Brasília (DF) – o principal
centro de decisões políticas da nação – e em uma ou outra capital. É
preciso avançar, jogando luzes sobre as incertezas que, do ponto de
vista científico, pairam por sobre os cenários menores, configurados
assim quer por suas dimensões territoriais, quer por seu contingente
populacional ou, ainda, por sua própria localização.
Outro motivo que nos estimulou a preparar o livro foi a escassez
de material sistematizado acerca do assunto. É evidente que, mesmo
em quantidade reduzida, há trabalhos acadêmicos a esse respeito divulgados em diferentes bancos de dados ou plataformas. Mas a dispersão
atrapalha não somente localizar muitos desses itens como também
prejudica seu exame a partir de uma lógica coerente, que apenas um
trabalho prévio de seleção e articulação é capaz de fazer. Temos notícia de
poucas iniciativas dessa natureza, quase todas circunscritas a periódicos
acadêmicos, como é o caso da revista PJ:Br – Jornalismo Brasileiro, editada
pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA-USP), que dedicou o dossiê de sua quinta edição (1º semestre
de 2005) ao tema “jornalismo do interior”3 –, ainda assim contando tão
somente com artigos produzidos por alunos de graduação da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), matriculados
no campus de Arcos, no interior daquele estado. De fato, faltava, até
aqui, a reunião de conhecimento produzido em nível avançado.
2 Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
referentes ao censo de 2010.
3 O dossiê sobre jornalismo do interior, publicado pela PJ:Br, pode ser acessado
no endereço a seguir: <http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/dossie5.htm>.
16
Não à toa os autores convidados para dar corpo a esta publicação, por meio de seus escritos, são doutores e doutorandos, atuantes
em diferentes estados brasileiros (Paraíba, Pernambuco, Rio Grande
do Norte, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio Grande do Sul), de
modo a compor um mapa diversificado de pensamentos sobre a produção jornalística em cidades interioranas. Esses pesquisadores têm
seus trabalhos reconhecidos pela comunidade acadêmica, em razão da
qualidade e da relevância que exibem. Alguns deles, inclusive, estão
despontando no cenário internacional, pelo diálogo que conseguem
estabelecer com pesquisadores da Europa, dos Estados Unidos e de
outros países da América Latina.
É de se perceber: muitas são as razões que nos trouxeram até
aqui. No entanto, torna-se imprescindível justificar a formação do
livro em virtude de dois fatores que se complementam e que articulam
posicionamentos já diluídos nestas linhas:
1) a literatura comunicacional brasileira nos apresenta uma boa gama
de estudos que versam sobre “mídia regional”; porém, percebemos
que há uma diferença conceitual, pouco percebida/discutida, entre
imprensa/jornalismo local/regional e imprensa/jornalismo do
interior, como exposto anteriormente; isso porque fatos locais
ou regionais – dependendo do local ou da região – podem ter
dimensões mais amplas do que o seu próprio território, atingindo
mídias de grande alcance (nacional/internacional); isso é bem
diferente do que acontece no interior, na maioria das vezes, pois
os acontecimentos de cidades “não metropolitanas” quase nunca
despertam interesses além dos delas próprias (a não ser em casos
muito específicos);
17
2) a imprensa do interior, assim sendo, apresenta-se como saída
para os municípios darem vez e voz às suas comunidades, já que
à “grande imprensa” interessa apenas os acontecimentos regionais
de grande repercussão, ou seja, aqueles que podem atrair olhares
de todo o país ou até do exterior.
Logo, o que apresentamos são discussões aptas a mostrar horizontes a pesquisadores e a estudantes que desejam pensar a organização, a estrutura e os modos de agir da imprensa do interior. Para tanto,
foram selecionadas algumas contribuições que tratam do assunto de
maneira mais geral e algumas análises de experiências demarcadas no
tempo e no espaço. Tal como sugerido pelo título, há uma divisão em
duas etapas: conceitos e contextos.
A primeira parte, voltada a conceituações, problematiza o fenômeno, buscando na práxis subsídios para teorizá-lo. Aí se incluem
notas sobre terminologias, características da mídia impressa, desafios
para o futuro próximo, critérios de noticiabilidade, práticas comuns às
rotinas produtivas, implicações éticas e outros elementos que impactam
na constituição do objeto, em permanente diálogo com teorias, hipóteses e pensamentos oriundos de diferentes subdivisões das Ciências
Sociais. Também devemos explicar que fizemos questão de reproduzir,
de início, um texto de Luiz Beltrão, pernambucano falecido em 1986 e
que ocupa o posto de primeiro doutor em Comunicação do País. Pioneiro em diversos segmentos, ele sistematizou, na década de 1960, as
características singulares dos jornais do interior – com especial vínculo
à realidade do Nordeste –, sendo tal material, muito provavelmente,
o primeiro texto produzido no Brasil a respeito da questão. Por isso
mesmo, acreditamos ser válido recuperar suas percepções, nesta nova
obra, até mesmo porque suas considerações – embora conjunturais, em
18
alguns momentos – tocam em aspectos que podem ser considerados
em leituras contemporâneas.
Já o segundo grupo de textos apresenta exemplos que ilustram
como é a dinâmica da imprensa do interior, ponderando certos desdobramentos. Há aproximações de fatores relacionados ao debate de
assuntos públicos, à profissionalização da atividade jornalística, aos
entraves para a manutenção de publicações impressas, às transformações
provocadas pela internet, bem como à gestão de empresas midiáticas,
entre outros. Tudo isso, obviamente, com referência direta ao modus
operandi próprio de recortes geográficos que nos atraem a este livro.
Além do mais, as últimas reflexões – alocadas propositalmente ao fim
dos capítulos, como espécie de “base” dos processos discutidos no cerne
do conjunto – retomam circunstâncias históricas, destacando singularidades da formação da imprensa em duas regiões distintas do interior
de São Paulo, as quais podem servir de parâmetro para outras análises.
Tivemos o cuidado, ainda, de aqui expor não somente elementos
tradicionais da imprensa posta em relevo, mas também abordagens
acerca de outras demandas, que exigem situar as problemáticas ligadas
ao interior em temáticas mais amplas, como as que se ocupam do desenvolvimento – econômico, cultural, ambiental etc. –, premissa para
a ação efetiva da imprensa nas comunidades.
Apontar fronteiras de uma prática aparentemente limitada, em
razão de sua estrutura, e ao mesmo tempo explorar amplas possibilidades de pensamento em torno desse escopo são o principal compromisso
que assumimos ao organizar estas páginas. Fazemos imenso gosto que
a partir delas surjam ideias fecundas ou novas observações capazes
de nos situar quanto aos contornos da prática jornalística no interior.
19
Sobre os autores
Adriana Santana: professora adjunta do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É jornalista,
mestre e doutora em Comunicação pela UFPE. Coordena o Projeto de Extensão Universitária em Cena: Radionovela e Cidadania.
E-mail: <[email protected]>.
Beatriz Dornelles: professora-doutora do Programa de Pós-graduação
em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (Pucrs). Realizou estágio de pós-doutorado sobre jornalismo interiorano na Universidade Fernando Pessoa, em Portugal.
E-mail: <[email protected]>.
Francisco de Assis: jornalista e professor do curso de Jornalismo da
Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo
(SP). Doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), mesma instituição na qual obteve o título
de mestre. Vice-coordenador do grupo de trabalho (GT) Estudios
sobre Periodismo da Asociación Latinoamericana de Investigadores
de la Comunicación (Alaic). E-mail: <[email protected]>.
Geder Parzianello: jornalista e tradutor. Professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Doutor em
Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
323
Grande do Sul (Pucrs) e pós-doutorando na Universität Paderborn, na
Alemanha, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes). Mestre em Comunicação e Informação pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Pesquisador de
grupos vinculados ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Sócio-fundador da Associação Brasileira
de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e da Sociedade Brasileira
de Retórica (SBR). Autor do livro A retórica nos jornais impressos e os
desafios ao jornalismo contemporâneo (Rio de Janeiro: Publit, 2011).
E-mail: <[email protected]>.
Juliana Colussi: jornalista com experiência em assessoria de imprensa
e em redações de jornais, revistas e web, no Brasil e na Espanha.
Também trabalhou como professora em várias faculdades em Brasília
(DF), após concluir o mestrado em Comunicação, na Universidade
Estadual Paulista (Unesp). Atualmente, desenvolve doutorado sobre
jornalismo digital na Universidade Complutense de Madri, com
bolsa da Fundação da Ciência e Tecnologia de Portugal. E-mail:
<[email protected]>.
Lerisson C. Nascimento: sociólogo. Mestre em Ciências Sociais pela
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutorando em Sociologia, na mesma instituição. Pesquisador do grupo Sociologia das
Profissões (UFSCar). E-mail: <[email protected]>.
Luiz Beltrão (1918-1986): foi jornalista, pesquisador, escritor e
professor universitário. Primeiro doutor em Comunicação do Brasil,
defendeu sua tese Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios
populares de informação de fatos e expressão de ideias, na Universidade
de Brasília (UnB), em 1967. Pioneiro em diversas áreas, destacou-se,
324
sobretudo, nas pesquisas sobre jornalismo e sobre os fenômenos folkcomunicacionais. Desde 1997, dá nome a um prêmio de reconhecimento
acadêmico oferecido anualmente pela Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).
Luiz Custódio da Silva: jornalista. Mestre em Comunicação e
Administração Rural, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (Ufrpe). Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e
professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Atualmente,
leciona as disciplinas Jornalismo Especializado, Jornalismo Cultural
e Comunicação Comunitária, no Departamento de Comunicação da
UEPB. Coordenador do grupo de pesquisa Comunicação, Cultura e
Desenvolvimento. Coordenador da Comissão Própria de Avaliação da
UEPB e coordenador de Extensão do Departamento de Comunicação
da mesma instituição. E-mail: <[email protected]>.
Marcos Paulo da Silva: jornalista e professor adjunto da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Mestre em Comunicação
pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Doutor em Comunicação
Social pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), tendo realizado estágio de doutorado-sanduíche na Syracuse University (Syracuse,
New York, Estados Unidos). E-mail: <[email protected]>.
Mario Luiz Fernandes: jornalista e professor adjunto do curso de
Jornalismo e do mestrado em Comunicação da Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul (UFMS). Doutor e mestre em Comunicação
Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(Pucrs). Líder do grupo de pesquisa Mídia, Identidade e Regionalidade.
E-mail: <[email protected]>.
325
Pedro Celso Campos: doutor em Ciências da Comunicação pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA-USP), tem pós-doutorado na mesma área pela Universidade
de Sevilha, na Espanha. Integra o Programa de Pós-Graduação em
Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da
Universidade Estadual Paulista (FAAC-Unesp). Sua pesquisa na área
do jornalismo ambiental e da ecologia humana relaciona comunicação,
saúde e qualidade de vida da pessoa idosa. E-mail: <pcampos@faac.
unesp.br>.
Walter Alberto de Luca: doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), mestre em Comunicação
e Mercado pela Faculdade Cásper Líbero (Facasper) e graduado em
Jornalismo e em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Leciona na Universidade de Sorocaba (Uniso) e é diretor do jornal Diário de Sorocaba.
E-mail: <[email protected]>.
Wilson da Costa Bueno: jornalista e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista
de São Paulo (Umesp). Líder do grupo de pesquisa Comunicação
Empresarial no Brasil: Uma Leitura Crítica (Criticom). Coordenador
do curso de especialização em Comunicação Empresarial da Umesp.
Editor de oito portais especializados em Comunicação e/ou Jornalismo. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa e da Mojoara
Editorial. E-mail: <[email protected]>.
326
Argos Editora da Unochapecó
www.unochapeco.edu.br/argos
Título
Organizador
Colaboradores
Coleção
Coordenador
Assistente editorial
Assistente de vendas
Imprensa do interior:
conceitos e contextos
Francisco de Assis
Adriana Santana
Ana Carolina Rocha Pessôa Temer
Beatriz Dornelles
Cicilia M. Krohling Peruzzo
Geder Parzianello
Juliana Colussi
Lerisson C. Nascimento
Luiz Beltrão (in memoriam)
Luiz Custódio da Silva
Marcos Paulo da Silva
Mario Luiz Fernandes
Pedro Celso Campos
Walter Alberto de Luca
Wilson da Costa Bueno
Debates, n. 4
Dirceu Luiz Hermes
Alexsandro Stumpf
Neli Ferrari
Secretaria
Leonardo Favero
Divulgação, distribuição e vendas
Neli Ferrari
Andressa Cazalli
Projeto gráfico e capa
Alexsandro Stumpf
Diagramação
Caroline Kirschner
Preparação dos originais
Revisão
Formato
Tipologia
Papel
Carlos Pace Dori
Carlos Pace Dori
Rodrigo Junior Ludwig
16 X 23 cm
Adobe Caslon Pro entre 10 e 14 pontos
Capa: Supremo 280 g/m2
Miolo: Pólen Soft 80 g/m2
Número de páginas
326
Tiragem
800
Publicação
Impressão e acabamento
2013
Gráfica e Editora Pallotti – Santa Maria (RS)
Este livro está à venda:
www.travessa.com.br
www.livrariacultura.com.br
O interior é cenário com dimensões bem mais
amplas do que sua demarcação territorial.
Trata-se do lugar onde situações ocorrem segundo
lógicas culturais e sociais, constituídas com
particularidades que a própria geografia condiciona.
Fazer jornalismo nesse ambiente, portanto, não
consiste apenas em reproduzir padrões comuns
aos grandes centros.
Este livro sugere caminhos para compreender a
imprensa do interior. Discutindo conceitos e
apresentando relatos contextuais, os autores
desenham um mapa da produção jornalística feita
em localidades que não as capitais ou regiões
metropolitanas, estimulando novos olhares.
Leitura essencial aos que pretendem adentrar
nesse terreno cognitivo.
ISBN 978-­85-­7897-­098-­7
Download

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