Público • Quarta-feira 16 Julho 2008 • 33 Espaçopúblico Todos os portugueses são pessimistas até ao momento em que se tornam ministros ou pelo menos secretários de Estado A guerra dos pessimistas e dos optimistas S egundo o primeiro-ministro, Portugal é habitado por duas tribos separadas e hostis: a dos crentes no “progresso” e a dos “bota-abaixo” – ou, conforme a tradução jornalística, “optimistas” e “pessimistas”. É uma tese curiosa, mas limitada por esta razão: todos os portugueses são pessimistas até ao momento em que se tornam ministros ou pelo menos secretários de Estado. O pessimismo, em Portugal, faz parte das boas maneiras. Quem não está no governo ou não tem lá amigos precisa, nos seus contactos sociais, de dizer coisas como “isto está cada vez pior” ou “isto sempre foi assim” – frases que, no pessimismo nacional, têm o mesmo sentido. E isso é verdade para o taxista, o barbeiro ou o cronista, porque todos sabem que é isso que clientes e leitores esperam deles, para se sentirem parte do clube selecto, mas muito camponês, dos “a-mim-não-me-enganameles”. Portanto, se o primeiro-ministro quer erradicar o pessimismo em Portugal, só tem uma solução: expandir o governo ou a rede de relações dos ministros. Não tenha dúvida: cada ministro a mais será um pessimista a menos. Durante o debate do estado da nação, Francisco Louçã recordou ao primeiro-ministro a sua antiga dor sobre o desemprego. Para fazer Sócrates sofrer outra vez com tal assunto, só há um meio: pô-lo fora de S. Bento. Não é aliás difícil de prever o que aconteceria se amanhã, por acaso, Ferreira Leite e Sócrates trocassem de posições. Haveria naturalmente uns meses de nojo, em que Sócrates defenderia a sua herança e Ferreira Leite se queixaria dela. Mas um dia Ferreira Leite começaria a descobrir rebentos de esperança por todo o país e Sócrates a angustiar-se com o mau rumo da nação. Um dia, Ferreira Leite esperaria ser felicitada pelos seus orçamentos e Sócrates atirar-lhe-ia à cara com a “grave crise social”. Um dia, Ferreira Leite acordaria autocrática e arrogante e Sócrates reclamaria diálogo e respeito pelo Parlamento. Um dia, Ferreira Leite descobriria a salvação numa qualquer auto-estrada e Sócrates exigiria factura detalhada. Em suma: um dia, Ferreira Leite seria optimista e Sócrates pessimista. Esta é a guerra do alecrim e da manjerona que a nossa classe política joga há anos. O que é que, à parte a situação ministerial, fundamentalmente opõe pessimistas e optimistas? A semana passada, Constança Cunha e Sá jurou-nos aqui, com um admirável optimismo, que ser “pessimista” é ser Rui Ramos ENRIC VIVES-RUBIO lúcido. Não é necessariamente verdade, e na maioria dos casos é precisamente o contrário. O pessimismo rotineiro, banalizado pela chicana parlamentar, pela crónica jornalística e pela conversa de táxi, nada tem a ver com a crítica ou a realidade. Ajuda até o público a menosprezar toda a análise, por mais sustentada, como um divertimento inócuo: “Lá está ele a dizer mal.” Esse pessimismo é, como o optimismo, apenas outra maneira de ser avestruz. O optimista e o pessimista em Portugal têm outra coisa em comum: nunca “vislumbram” (é o verbo por eles consagrado) alternativas. O pessimista, porque julga que nada se pode fazer; o optimista, porque acredita que só se pode fazer o que ele faz. Foi assim que Sócrates comentou, no Parlamento, a crítica de Paulo Rangel: “Nenhuma solução.” Para o optimista, não pode haver problema sem a respectiva solução, de preferência sob a forma de uma “medida concreta”. E assim vivemos as últimas décadas em Portugal, de “medida” em “medida”. Estamos atrasados? Auto-estradas. Continuamos atrasados? Educação. Alguém reSer “pessimista” parou que as taxas de crescimento económico nun- não é necessariamente ca pararam de descer? Tal como o pessimismo não é ser lúcido. sinónimo de lucidez, o op- Na maioria dos casos timismo também não é de é precisamente eficácia. Até agora, os que arguo contrário mentavam a favor de reformas em Portugal, irritando igualmente pessimistas e optimistas, pouco mais puderam do que fazer exortações. Sim, já quase toda a gente decorou qualquer coisa acerca da nossa natalidade ou endividamento. Nada, porém, chegou para abalar a indiferença nacional. Não apenas por a fé em “salvações” ter decrescido (como notou Vasco Pulido Valente), mas sobretudo porque, no passado, nunca houve alarme que tivesse tido sequência. Em 1985, já se falava da absoluta urgência das “reformas estruturais”. Foi até o pretexto para romper o Bloco Central. Mas logo a baixa do preço do petróleo e o dinheiro europeu vieram dispensar complicações. Pouco se fez e tudo correu bem. Só que, entretanto, o mundo mudou, e também neste país onde nada acontece algo vai ter de acontecer. Há quem não queira ver: uns por optimismo, outros por pessimismo. Abençoados. Historiador O substabelecimento do patrono não transmite as virtudes da competência, da dedicação, da inteligência e do trabalho O bastonário e a infantilização da advocacia É lamentável a mensagem que o senhor bastonário da Ordem dos Advogados fez publicar, quanto à nova regulamentação da intervenção dos advogados estagiários no Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais. Os advogados estagiários foram praticamente arredados deste sistema, reduzindo-se a sua intervenção à possibilidade de prestar, autonomamente, consultas jurídicas em gabinetes próprios para o efeito e de intervir nos processos em que seja nomeado defensor oficioso o respectivo patrono, com subestabelecimento. Esta medida introduz, desde logo, desigualdades entre os advogados estagiários, na medida em que apenas poderão colaborar no sistema de acesso ao direito aqueles cujo patrono se tenha inscrito no aludido sistema, inscrição essa que é sempre voluntária. Acresce que os advogados estagiários, que até agora puderam intervir no sistema do apoio judiciário, se encontravam já na fase complementar dos seus estágios, isto é, após seis meses de formação inicial e aprovação nos exames finais da primeira fase. Alega o senhor bastonário que a formação dos estagiários não deve fazer-se “à custa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos economicamente mais frágeis”, e que o apoio judiciário não deverá servir para “subsidiar” os formandos. Mas é incongruente o senhor bastonário quando se insurge contra o que considera serem as remunerações “ridículas” do patrocínio oficioso e consegue ver, nessa remuneração ridícula, uma fonte de atracção para o advogado estagiário. O senhor bastonário não se inibe de dar, ao advogado estagiário, a imagem de uma imberbe criatura, que, após a licenciatura, submete ao seu apetite formativo os cidadãos mais carenciados, utilizando-os como “amostra” na experiência da advocacia. Ao invés de pugnar pela dignidade da profissão e de a tornar respeitável desde o seu início, incentivando o pagamento de uma retribuição mínima aos advogados estagiários, não se coíbe o senhor bastonário de dar do advogado estagiário uma imagem menor, mais fraca e acanhada perante o cliente. Ao invés de muscular o poder disciplinar da Ordem dos Advogados, ao qual o advogado estagiário também está sujeito, com vista a evitar que defesa alguma, prestada por advogados ou advogados estagiários, padeça de inércia, incúria ou inexperiência, o novo sistema introduz um desajustamento no que toca à competência dos advogados estagiários, pois permite a sua intervenção autónoma em processos particulares do seu escritório, mas não no âmbito do sistema do apoio judiciário. Joana Silva Aroso Ao invés de fomentar e controlar a qualidade da formação ministrada pela Ordem, revendo periodicamente métodos e conteúdos, e de ver na qualidade dos estágios e das carreiras o espelho de uma Ordem sólida e defensiva, o senhor bastonário cria uma linha imaginária que separa o “testado: garantia de qualidade” do advogado, do “em experimentação” do “candidato a advogado”. Porém, num mero subestabelecimento outorgado pelo patrono, não vão incluídas, além dos poderes forenses, as virtudes da competência, da dedicação, da inteligência e do trabalho. Se, numa diligência judicial, o advogado estagiário subestabelecido tiver uma fraca prestação, sobre quem recairá o juízo de censura da Ordem? Será sobre o advogado estagiário, responsável pelos seus actos e falhas, ou assumir-se-á o subestabelecimento como um acto irresponsável do patrono, que lançou o formando às feras em timing incorrecto? Da Ordem espera-se que fomente uma cultura de auto-responsabilização do advogado estagiário, temperada com um exercício responsável do tirocínio, e essa cultura é avessa a medidas que só contribuem para um olhar infantilizador sobre os advogados e apenas aparentemente protector do beneficiário do apoio judiciário. Advogada do departamento de direito público da JPAB – José Pedro Aguiar-Branco & Associados