XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. IMPLEMENTAÇÃO DA AUDITORIA DE PROCESSO: ESTUDO DE CASO EM UMA EMPRESA DE CÂMERAS FOTOGRÁFICAS NO AMAZONAS Caio da Silva Calheiros (UEA) [email protected] JOESIA MOREIRA JULIAO PACHECO (UEA) [email protected] Natalia Figueredo da Silva (UFAM) [email protected] Este artigo aborda o uso da auditoria interna de processo como ferramenta de apoio à melhoria contínua em uma indústria de manufatura. Essa ferramenta possui foco diretamente nos mecanismos de controle do processo e possui uma frequência mais intensa que as auditorias convencionais. O estudo de caso foi realizado durante seis meses no processo de montagem de câmeras fotográficas na área de inserção manual em uma indústria de manufatura do Polo Industrial de Manaus. Através de análise dos procedimentos internos, requisitos mandatórios do produto e normas regulamentadoras, foi implementado um check list focado para os principais pontos do processo, priorizando aqueles que afetam diretamente a qualidade do produto. A auditoria de processo resultou em uma metodologia que auxiliou a identificação das não conformidades, assim como se tornou um orientador para os planos de correção. Houve a diminuição de não conformidades, e a identificação das áreas críticas que mais impactavam na qualidade do processo. Palavras-chave: Auditoria de Processo; Processo; Melhoria da qualidade. XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. 1. Introdução As empresas estão cada vez mais em busca de melhorias contínuas, por isso observa-se a importância da implementação da auditoria de processo nas linhas de produção. A auditoria de processo tem por finalidade garantir e avaliar a eficácia da qualidade do modo de produção, verificando se os controles são eficientes (MOREIRA, 2008). A procura por melhorias em produtos e serviços tem sido cada vez mais intensa nas diversas áreas industriais e em especial na indústria de manufatura, que se apresenta em desenvolvimento tecnológico, devido à concorrência no mercado com celulares avançados. A auditoria de processo apresenta-se como um tipo de ferramenta da qualidade que possibilita a prevenção de falhas. Assim, é possível admitir que esse tipo de auditoria proporcione a melhoria da qualidade do produto. Essa busca por melhorias tem apresentado especial impacto sobre os processos de fabricação e seus métodos de controle (WOMACK, 1992). A melhoria contínua no processo produtivo, é uma tarefa difícil que deve ser alinhada juntamente com os chefes de produção e o operador, pois eles trabalham diretamente com os equipamentos, dentre outros agentes que fazem a verificação dos controles. A auditoria de processo então vem sendo implementada como uma ferramenta na gestão da qualidade que busca intensamente a prevenção e correção de falhas no processo produtivo. Uma abordagem histórica da qualidade enfatiza que já havia a aplicação dos conceitos de qualidade na China, no Egito, na Grécia e em Roma há centenas de anos atrás. Portanto, qualidade não é novidade, muito menos moda. É um conceito antigo, sempre presente na história da humanidade. É um termo intuitivo, gerado pela utilização da palavra no cotidiano das pessoas, uma definição técnica única para a palavra qualidade tornar-se uma tarefa crítica (AVELINO, 2005). Desse modo, é pertinente o estudo de técnicas que trazem a melhora da qualidade dos produtos, pois resultam nas eliminações de questões que diminuem o lucro das empresas. É nesse contexto que se insere o estudo da auditoria de processo, sendo relevante uma reflexão a cerca de seus conceitos, metodologia e aplicação. 2. Auditoria de Processo 2 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Auditoria consiste na realização de uma avaliação reconhecida oficialmente e sistematizada pelos interessados, com a finalidade de assegurar os controles de qualidades existentes no processo, analisando programas, materiais, critérios e parâmetros exigidos (MILLS, 1994). As auditorias internas estão basicamente focadas nos processos internos da organização, na qual procura identificar os riscos inerentes aos processos, a existência ou não de controles que mitiguem estes riscos e o quanto estes controles estão sendo efetivos para evitá-los. A Auditoria Interna visa testar, examinar ou averiguar o nível de segurança dos controles internos existentes na organização e na constatação da fragilidade ou inexistência propondo melhorias ou apontando inconformidades. Existem vários tipos de auditoria: auditoria contábil, corporativa, ambiental, auditorias de fornecedores, auditorias de qualidade, etc., cada qual com seus parâmetros de exigência e interesses específicos. As auditorias de qualidade são aquelas em que o principal objetivo é verificar a conformidade de um sistema em relação ao que foi determinado, sejam em normas, procedimentos, legislações, entre outros. Inúmeras razões e situações estimulam uma organização a fazer a gestão pela qualidade: atender/exceder aos requisitos dos consumidores, ganhar mercado, melhorar o moral de sua equipe de funcionários, resolver problemas de responsabilidade, atualizar documentação de processos e melhorar o ambiente físico de trabalho, estimulando o colaborador uma atenção necessária na sua atividade (CASALS, 1997). Dentre as vantagens da auditoria de processo, pode-se citar a sua contribuição significativa para as auditorias externas na empresa que busca suas certificações, baseando-se em uma norma de gestão, como a ISO 9001:2000 ou a QS 9000. A empresa que se submete a este tipo de auditoria busca sua certificação no atendimento aos requisitos de uma norma de Gestão da Qualidade. Essa auditoria consiste em verificar a aplicação das recomendações da norma e a conformidade da execução do trabalho com relação ao seu procedimento (WINNIE & MANNERS, 2001). A auditoria de processos tem por finalidade avaliar a eficácia da qualidade e a eficiência dos mecanismos de controle. Por meio dela, os processos são controlados e corrigidos. O objetivo dessa auditoria é sempre buscar a prevenção, correção, melhoria no processo e avaliação da qualidade (BAFNA, 1997). Devem ser realizadas constantemente as auditorias, de preferência semanalmente, abordando todos os critérios e restrições do processo produtivo, tomando por base os prontos críticos do 3 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. processo. Pode haver, também, a necessidade de realizar as auditorias de processos orientadas para um fato. Isso acontece quando, por alguma razão, o processo torna-se deficiente ou crítico em um determinado ponto. Dentre os motivos para realizar uma auditoria extraordinária, pode-se destacar: Queda na qualdade do produto; Reclamações do cliente; Inseguranças no processo; Modificação na sequência de produção; Controles críticos; Procedimentos Internos. Para processos robustos, é aconselhável que os critérios verificados na auditoria de processo sejam aqueles que apresentam maior risco para a qualidade do produto. Com auxílio de ferramentas, também da qualidade, relatório de análise de modo e efeito de falha (FMEA) e com control plan é possível identificar esses pontos, tornando a auditoria objetiva, clara e precisa. 3. Fases da Auditoria de Processo Segundo Bafna (1997), para a condução de auditorias de processo, deve-se seguir o mesmo formato geral e estrutura das outras auditorias, a saber: a) Preparação: formulação e utilização de check list adequado para cada processo a ser auditado; b) Condução: a auditoria deve ser conduzida por apenas um auditor e somente em caso de processos muito complexos é interessante a presença de dois auditores; c) Relatório: deve ser simples e relatar apenas fatos relevantes, tais como a finalidade da auditoria, a data e a hora de realização, o nome do auditor, o processo examinado, e as conclusões da auditoria; d) Follow up: este conceito consiste no aspecto mais crítico da auditoria. Caso discrepâncias sejam encontradas, etapas devem ser seguidas para corrigi-las. Isto pode ser 4 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. feito corrigindo o desempenho dos processos ou mudando, quando necessário, as instruções. O processo de auditoria pode ser divido em várias fases. Embora o modelo da Figura 1 sugira que essas fases sejam seqüenciais, elas na verdade são naturalmente interativas e interrelacionadas, começando pelo engajamento do time até o relatório, no momento final da auditoria. E, como é possível notar, as fases são cíclicas, ou seja, a cada nova auditoria, recomeça tudo de novo (URTON, 2003). Figura 1 - Principais fases de uma auditoria Fonte: Adaptado de URTON (2003) 4. Gestão da Qualidade para Melhoria Contínua Inicialmente a qualidade era buscada através do produto acabado. Esse meio de verificação era ineficiente, oneroso para a organização e não trazia benefícios na prevenção e correção de falhas (JURAN, 1992). Passou-se então a utilizar as informações das inspeções como base das ações da fábrica. Assim, a visão de que o produto é resultado do processo tornou-se a grande chave para a gestão da qualidade, fazendo com que as ações sejam voltadas para as causas e não para os 5 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. efeitos. Com base na melhor estruturação dos processos, pode-se direcionar as ações do processo produtivo para o pleno atendimento do cliente (PALADINI, 2012). É nítida a importância da gestão por processos para que todos os setores estejam integrados de forma a atender as necessidades dos clientes, como segue sua definição de conjunto das atividades através das quais se atinge a adequação do produto ou serviço ao uso, não importando em que parte da organização estas atividades são executadas (JURAN, 1992). O conceito de melhoria contínua surgiu nas práticas adotadas pelas empresas japonesas após a Segunda Guerra Mundial. Também denominada de Kaizen, esta filosofia prega a busca contínua de formas para melhorar as operações de uma empresa. Este conceito traz a perspectiva de atuar nas causas de um problema potencial antes mesmo de se notar os seus possíveis efeitos (KRAJEWSKI et al., 2004). A melhoria contínua encontra-se embasada na crença de que todos os aspectos de uma operação podem ser continuamente melhorados, partindo do princípio que os envolvidos diretamente em uma operação se constituem nos principais atores capazes de identificar alterações que devem ser realizadas (IMAI, 1997). Embora se acredite nas auditorias apenas como ferramenta de identificação de falhas, ela não é somente uma metodologia reativa. Quando realizada periodicamente, ela torna-se não só um mecanismo de correção, mas também um método de prevenção. A verificação contínua possibilita encontrar problemas antes que eles tragam prejuízos significativos ao processo ou produto. Também, possibilita a disciplina dos colaboradores, que por vezes não têm conhecimento do processo (FERREIRA et al., 2008). É necessário que líderes, técnicos da qualidade que estão diretamente relacionados ao processo, exerçam também, um rigoroso controle sobre o processo, ou seja, acompanhem intensamente aquilo que se produz. A gestão da qualidade com esse tipo de foco está ligada ás formas de controle do processo. Entretanto, deve-se ter consciência de que os inspetores não agregam valor ao produto ou ao processo, na visão do cliente. Portanto suas ações devem ser direcionadas para assegurar o funcionamento do processo, fazendo cumprir os prazos e o faturamento da empresa de forma eficaz, garantindo a qualidade (PAMPONET, 2009). A percepção da auditoria de processo está integrada com a gestão operacional, com resultados focados para não conformidades no processo, retirando a responsabilidade da Qualidade 6 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. apenas do Engenheiro e/ou Supervisor da Qualidade, evidenciando e envolvendo todos na correção dos problemas. Segundo Dias (2011), não é possível a ocorrência de controles que não objetivem a eficácia das operações no atual mundo globalizado e competitivo. A auditoria de processo, portanto, consiste em verificar se tudo ocorre dentro do plano estabelecido, com as instruções emitidas e com os princípios adotados, apontando falhas e erros, retificando-os para evitar reincidências. 5. Estudo de Caso O estudo de caso para implementação da auditoria de processo, foi realizado em uma empresa de manufatura de eletroeletrônicos, localizada no PIM (Pólo Industrial de Manaus). Essa empresa possui mais de 10 anos de produção deste tipo de produto em Manaus, porém sua matriz foi fundada nos Estados Unidos há 48 anos. O trabalho foi realizado mais especificamente na linha de produção de câmeras fotográficas semiprofissionais, cuja marca é bastante renomada no mercado. O objetivo deste trabalho foi acompanhar a implantação da auditoria de processo na linha de produção, identificando seus impactos no índice de não conformidades (NC) do processo, durante os meses de abril a setembro de 2014. Para operacionalizar a metodologia utilizada, o auditor possuía conhecimentos específicos sobre o processo a ser auditado. O mesmo verificava a realização das atividades produtivas e as atividades de apoio ao processo produtivo tendo como base o “Check List de Auditoria de Processo de IM (inserção manual) e FA (final assembly)”. Os itens também foram divididos segundo o grau de impacto para a qualidade do produto. Critérios que estão diretamente ligados à má qualidade do produto e que podem afetar o cliente são considerados Críticos (C), e devem ser corrigidos imediatamente. Caso isso não seja possível, a linha de produção deve ser paralisada até que o problema esteja corrigido. Para os demais itens, que impactam indiretamente na qualidade do produto (M), adotou-se um tempo de duas horas para que a correção seja feita. Para definir quais pontos seriam abordados no “Check List de Auditoria de Processo de inserção manual e produto acabado”, utilizou-se como base um antigo modelo da própria empresa, procedimentos internos, FMEA e Control Plan do produto. A partir desse modelo, 7 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. em conjunto com o time de engenharia, manutenção e qualidade, foram levantados alguns pontos que deveriam ser o escopo da auditoria. Os pontos foram divididos em 11 itens, áreas mais abrangentes, de acordo com as suas similaridades. O quadro apresentado na Figura 2 exemplifica o check list da auditoria de processo apresentando seus itens e subitens com seus respectivos pontos auditados. Figura 2 – Check List de Auditoria de Processo Check List de Auditoria de Processo de IM & FA Auditor: ITEM Descrição Resultado 1 Os testadores estão operando conforme instrução de trabalho? C 2 Os equipamentos em uso no posto estão calibrados? C 3 O fio de solda está dentro da validade de uso? C 4 A carta de monitoramento da máquina de solda está sendo preenchida corretamente? C 5 O monitoramento do fluxo está sendo feito conforme requerimento? C 6 A análise química da solda está sendo feita conforme requerimento? M 7 Instrução de trabalho, com informação de cópia controlada, está atualizada e corresponde às atividades realizadas? M 8 Verificar se o registro de treinamento referente à instrução de trabalho no posto está assinado. M 9 Ferramentas de trabalho estão adequadas para uso e conforme instrução de trabalho? M 10 Requerimentos de ESD atendidos? Verificar aterramento (bancadas, mantas, plug de pulseira, tapetes) . M 11 Matéria-prima usada está identificada? O armazenamento está correto? C 12 Material Não Conforme está identificado? M MANUTENÇÃO 13 Cartões de Manutenção Preventiva estão atualizados? M FERRO DE SOLDA 14 Verificar controle de temperatura e calibração dos equipamentos M TESTADORES SOLDA IT ESD MATERIAL Corrigido? 8 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. SOPRADOR DE AR 15 Verificar controle de temperatura e calibração do equipamento e realizar validação em pelo menos 3 postos M LUMINOSIDADE 16 Verificar se no posto de inspeção a luminosidade atende a especificação (800 - 1000lux). M 17 Verificar se a matriz de habilidade (Skill Matrix) está atualizada. M 18 Se houver inspeção de Solda e Componentes, verificar se o operador de produção tem conhecimento sobre IPC-A610. M 19 O controle diário do toque de parafusadeira do equipamento está sendo realizado? Está identificada e com lacre? M 20 O equipamento de verificação, está calibrado? (Torquimetro) M TREINAMENTO PARAFUSADEIRA Fonte: Dados da pesquisa (2014) São importantes em um check list de auditoria de processo os dados exatos, após o termino da auditoria coletar as assinaturas dos supervisores ou chefe da manufatura e do engenheiro da qualidade, para estarem cientes das Não Conformidades (NC) identificadas no processo, para uma tomada de decisão, criando um plano de ação utilizando a método 5W2H. O que (What) deve ser feito? Por que (Why) deve ser implementado? Quem (Who) é o responsável pela ação? Onde (Where) deve ser executado? Quando (When) deve ser implementado? Como (How) deve ser conduzido? Quanto (How much) vai custar a implementação? A ferramenta 5W2H pode ser usada sozinha para colocar em prática uma decisão simples na empresa, como a aquisição de um novo equipamento ou a execução de uma atividade pontual. A freqüência do serviço de auditoria pode variar de acordo com o tamanho da empresa, o escopo da auditoria (quantidade de processos auditados) e o número de parâmetros a serem medidos. Neste estudo de caso, a freqüência das auditorias foi definida em uma vez por semana, seguindo as etapas do fluxograma na Figura 3. Cada processo, portanto, era auditado quatro vezes ao mês. Essa frequência foi definida a partir da disponibilidade da mão-de-obra e 9 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. quantidade de processos a serem auditados, pois a auditoria de processo foi adotada em todas as linhas de produção da fábrica. Figura 3 - Fluxograma da Auditoria de Processo. Fonte: Dados da Pesquisa (2014). 6. Resultados Obtidos Os principais resultados obtidos desse estudo foram retirados da comparação dos check list ao longo dos seis meses de trabalho. Essa comparação possibilitou o estabelecimento de tendências nos dados obtidos. Esses dados são apresentados na forma do Diagrama de Pareto e de um Gráfico de Tendência, propriamente dito. O Diagrama de Pareto é uma ferramenta utilizada para evidenciar quais são os parâmetros que mais influenciam a variável ou fenômeno estudado. Pelo Princípio de Pareto em um grupo qualquer de elementos ou fatores contribuintes para certo efeito, alguns poucos são responsáveis pela maior parte desse efeito. Também conhecido como diagrama de causa e efeito, esta técnica estabelece uma relação entre as variáveis de entrada e saída de um sistema. O Diagrama de Pareto no modelo apresentado na Figura 4 já era uma ferramenta utilizada pela empresa, ela somente foi adaptada para a Auditoria de Processo. As causas foram as NC encontradas no processo. Sendo assim, os critérios de avaliação foram organizados em 11 grupos, sendo esses as causas. Quanto maior a incidência de NC em um grupo maior será seu impacto para o índice geral. Embora os critérios auditados possuíssem diferenciação entre Crítico (Critério para parada de linha) e Maior (Correção em até duas horas), no gráfico não foi feita essa distinção, uma vez que cada grupo pode possuir itens Críticos e Maiores simultaneamente. Figura 4 - Pareto de Não Conformidades. 10 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Dados da Pesquisa (2014) Ao avaliar o Diagrama de Pareto durante 6 meses, identificou-se que a área com maior incidência de NC é a Manutenção. Nesse grupo foram encontradas NCs no critério atualização do cartão de manutenção. A desatualização do cartão leva a imaginar que a manutenção preventiva das máquinas e testadores do produto não estavam sendo feitas, o que fez-se acreditar que esses equipamentos podem estar desregulados. Ao identificar a consequente e maior incidência deste quesito, o time responsável realizou um plano de ação para eliminá-lo. Fizeram parte desse time um Engenheiro da Qualidade, um Engenheiro de Processo de Inserção Manual, um Engenheiro de Teste e um Supervisor de Produção. Esses planos de ação foram feitos desde o início do estudo como forma de diminuir/extinguir os maiores ofensores para o índice de NC. Manutenção foi o que no momento do estudo afetou mais o índice, mas já foram tratados problemas de Instrução de Trabalho (IT), Índice de Realização do Teste ESD, entre outros. Isso possibilitou a diminuição da incidência de itens errados no processo e que afetavam inversamente o índice de conformidade do produto. Como é possível notar na Figura 5, houve o aumento do referido índice devido ao decrescimento das NCs. No primeiro mês de aplicação da ferramenta de auditoria foram identificadas inúmeras NCs, afetando o índice que obteve seu pior desempenho (86%), 9% mais baixo que a meta proposta de 95% (meta padrão da empresa). Porém, a continuidade das atividades de auditoria, os planos de ação e conscientização dos colaboradores fez o índice de conformidades aumentar a ponto de ultrapassar a meta estipulada mantendo-se estável até o último mês de avaliação. 11 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Figura 5 - Evolução do Índice de Conformidades. Fonte: Dados da pesquisa (2014) 7. Considerações Finais A Figura 5 demonstrou que a realização da auditoria de processo mostrou-se uma ferramenta eficaz para a diminuição do índice de NC do processo estudado. Ela, também, auxiliou na identificação das áreas críticas em NC, proporcionando foco na resolução dos problemas, um método de acompanhamento das falhas e oportunidades de melhoria no processo. Entretanto, o trabalho também encontrou barreiras, pois a palavra auditoria não soa bem aos ouvidos de muitas pessoas. Elas se sentem acuadas e inseguras. Por isso, o auditor teve que adotar uma postura participativa na resolução dos problemas. Ele não só verifica os itens e aponta NC, mas também propõe soluções, quando possível. Com isso foi possível notar uma reeducação por parte dos colaboradores que trabalhavam diretamente no processo. Identificou-se que por vezes estes não conheciam os itens essenciais do processo, como a instrução de trabalho, por exemplo. Com a presença regular do auditor, muitos problemas antes escondidos foram revelados e foram tomadas as devidas medidas para evitar a recorrência. A auditoria de processo é uma prática relativamente nova se comparada às auditorias internas de modo geral. Muitas empresas não adotam essa medida por falta de recursos. Todavia, a verificação frequente do processo permite que todos os itens importantes para ele sejam 12 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. conforme especificação. Evitando desvios, erros e defeitos, possibilitando o maior controle das variáveis que afetavam o produto. 8. Referências Bibliográficas AVELINO, Ana Cristina. Qualidade no processo de produção: um modelo de gestão para garantir a qualidade de acabamento das carrocerias em chapa na linha de produção. Dissertação de Mestrado, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. BAFNA, Sudhir. The process audit: often ignored but never insignificant. Quality Progress, p. 37-40, Dec. 1997. CASALS, Pedro Henrique. 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