AUTOMAÇÃO DE UM SISTEMA DE SONDA DE LANGMUIR PARA CARACTERIZAÇÃO DE PLASMAS Milton Felipe Souza Santos (IC), Marcos Massi (PQ), Gilberto Petraconi (PQ) LPP, Departamento de Física Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Pça Mal. Eduardo Gomes, 50 – CTA, São José dos Campos, São Paulo, Brasil – 12.228-900 e-mail: [email protected] ; [email protected] ; [email protected] RESUMO Em 1926, H. M. Mott-Smith e I. Langmuir desenvolveram um método que foi um dos primeiros e mais freqüentemente usados onde através de uma sonda eletrostática é possível a obtenção de medidas de resolução espacial das propriedades de um plasma. Desde então, mesmo substancialmente modificado, este método foi chamado de técnica Langmuir. Neste trabalho foi implementado um sistema para automação desta técnica utilizando-se um microcomputador que através da sonda de Langmuir traça a curva característica do plasma, obtendo assim os parâmetros do plasma utilizado. O computador coleta os dados, traça a curva e efetua os cálculos, tornando o trabalho do pesquisador mais eficiente devido aos resultados imediatos. Os dados obtidos alcançaram erros de aproximadamente 0,15% comparados com os que são obtidos na maneira convencional de cálculo comprovando a eficiência do sistema montado. ABSTRACT In 1926, H. M. Mott-Smith and I. Langmuir developed a method that was one of first and often used where using a electrostatic probe it is possible to get measures with spatial resolution of plasma properties. Then, even with many changes, this method was called of Langmuir technique. In this work an automation system was performed using a microcomputer, that use a Langmuir probe, plot the characteristic of the plasma, thus getting, the parameters of the used plasma. The computer colects data, plots the curve and make the calculations, becoming the work of researcher more efficient with immediate results. The gotten data reached errors of approximately 0,15% if compared with the obtained in conventional method of calculations, this proves the efficient of mouted system. 1. INTRODUÇÃO Em 1926, H. M. Mott-Smith e I. Langmuir desenvolveram um método que foi um dos primeiros e mais freqüentemente usados onde através de uma sonda eletrostática é possível a obtenção de medidas de resolução espacial das propriedades de um plasma. Desde então, mesmo substancialmente modificado, este método foi chamado de técnica Langmuir1. O método de diagnóstico com sondas de Langmuir fornece uma resolução espacial, ou seja, permite medir as propriedades do plasma localmente ou pontualmente, e cobre uma ampla faixa, que inclui os plasmas utilizados na indústria em processos de corrosão e deposição. A sonda de Langmuir consiste de um pequeno eletrodo que é imerso num plasma com o propósito coletar fluxos de partículas ionizadas2,3. A sonda é bombardeada por elétrons do plasma, porém como os elétrons têm massa muito menor que os íons, eles têm também uma mobilidade muito maior, portanto a maior parte da corrente coletada pela sonda será de elétrons. Fazendo uma varredura do plasma através da variação do potencial de polarização da sonda e medindo-se a corrente estabelecida no circuito da sonda em função da tensão de polarização, obteremos a chamada curva característica da sonda de Langmuir, como mostrado na figura 1. Figura 1: Curva característica típica de Langmuir4. Para obtermos esta curva é necessário fazer uma montagem de polarização da sonda. Esta polarização pode utilizar como referência o catodo ou o anodo do plasma. As duas montagens possíveis são mostradas nas figuras 2 e 3. Figura 2: Montagem para obtenção da curva característica do plasma utilizando como referência o anodo. Figura 3: Montagem para obtenção da curva característica do plasma utilizando como referência o catodo. A curva mostrada na figura 1 utiliza como referência o catodo. Utilizando como referência o anodo a curva se mostra um pouco deslocada para a esquerda. Este deslocamento observado pela mudança da referência ocorre porque quando utilizamos como referência o anodo estamos aplicando um potencial menor à sonda, em relação ao que é necessário para obtermos a curva utilizando como referência o catodo. Assim, para facilitar o desenvolvimento desta pesquisa, somente o anodo foi utilizado como referência, pois desta maneira é necessária uma fonte de amplitude menor. Quando a tensão de polarização da sonda é fortemente negativa em relação ao plasma a corrente será somente devido a íons, mas quando a tensão de polarização é positiva ocorre uma corrente eletrônica. A escolha da base de tempo para a variação do potencial de polarização não pode ser muito lenta para evitar que o plasma se modifique durante a medida e não pode ser muito rápida devido aos efeitos capacitivos da bainha que distorceriam a característica da sonda e ainda por o plasma requerer um certo tempo para se adaptar através da formação da bainha ao potencial que aparece no seu seio. Se a bainha não tiver tempo de se reajustar, as características também saem falseadas. Assim, a forma de onda aplicada à sonda é do tipo “dente de serra” onde é possível “varrer” potenciais na faixa de tensões desejadas e assim levantar a curva característica. Quando a sonda permanece no plasma ocorre deposição de material na sonda o que ocasiona uma curva característica falsa quando esta é levantada. Assim, antes de levantarmos a curva é necessário “limparmos” a sonda para retirar as partículas depositadas nela. Para isto, basta fazermos um curto da sonda com o catodo ou o anodo do plasma gerado e assim bombardearmos a sonda com íons forçando a retirada do material depositado. Este procedimento é recomendado sempre que sempre que for levantar a curva característica de um plasma, para garantirmos a integridade da sonda utilizada. Quando introduzimos a sonda no plasma, devido a grande quantidade de partículas no plasma a sonda é bombardeada por íons e elétrons. Como estes têm uma mobilidade muito maior, ficam acumulados ao redor da sonda. O acúmulo de carga ao redor da sonda fará surgir um campo elétrico que atrai, acelerando os íons e repelindo (desacelerando) os elétrons, atuando como uma barreira de potencial, pois até este momento a sonda não está polarizada. Quando o fluxo de resultante de cargas sobre a sonda se anula, o potencial que a sonda adquire é chamado de potencial flutuante5 (Vf). Assim, quando aplicamos um potencial Vs muito menor que Vf à sonda, esta, polarizada negativamente em relação ao plasma, faz surgir uma corrente Is devido a íons, formando a região C1 mostrada na curva da figura 1. A medida que a tensão na sonda aumenta, tornando-se menos negativa em relação à Vf, os elétrons mais energéticos alcançam a sonda, vencendo a barreira de potencial, onde obtemos a região C2 da figura 1. Quando o fluxo de íons e o fluxo de elétrons se igualam devido ao aumento de Vs obtemos o ponto onde temos o potencial que chamamos flutuante. Aumentando ainda mais o valor de Vs, observamos que a quantidade de elétrons chegando na sonda obedece uma variação exponencial (região entre Vf e Vs da figura 1). Por fim, quando Vs é aumentado de modo a passarmos Vp, chegamos na “região de saturação de elétrons”, a região A da figura 1, onde os elétrons são atraídos e os íons repelidos e assim a corrente, formada principalmente por elétrons, varia muito pouco com a tensão. Para determinarmos os parâmetros macroscópicos do plasma partimos da equação da corrente coletada através da sonda de Langmuir2,6. Considerando a função de distribuição uma função maxwelliana, temos que com estas equações podemos calcular o fluxo de elétrons e a corrente coletada pela sonda. Observamos que o número de elétrons que pode alcançar a sonda depende da diferença de potencial existente entre a sonda e o plasma, assim, a corrente de elétrons na sonda é uma função de V=Vs-Vp. Desta maneira, podemos considerar inicialmente uma sonda plana localizada no G plano yz, de modo que as partículas que tenham velocidade na direção x ( vx ) poderão colidir com a sonda originando uma corrente. Quando Vs é tal que estamos na região A da figura 1, ou seja, todos os elétrons que se dirigem à sonda são coletados, a corrente de elétrons é chamada de corrente de saturação. Assim, a corrente de saturação de elétrons é: I es = −neA1 ∫ +∞ 0 2π kTe dvx vx me −1 2 − me vx2 2 kTe e 12 kTe Î Assim , I es = − neA1 2π me 7 Quando parte dos elétrons são repelidos (regiões B e C da figura 1), a corrente total é: 2π kTe I es = I is − neA1 ∫ dvx vx vmin me +∞ 12 −1 2 − me vx2 2 kT e e ( m v ) = −eV , temos: Î Como 2 e min 2 eV kTe kTe I (V ) = I is − neA1 e 2π me Assim, como nas regiões A e B da figura 1, temos Iis << I, então: I (V ) = I es e eV kTe onde, A1 é a área total da sonda; vαn é a velocidade da partícula α na direção normal à superfície de coleta; Tα é a temperatura da partícula α; n é a densidade de partículas α; k é a constante de Boltzmann (k=1,38x10-23J/K); e=1,6x10-19C e me=9,11x10-31kg; pois a partícula analisada é o elétron. Aplicando o logaritmo neperiano nos dois membros da equação, e derivando em relação à V, obtemos a seguinte equação: d ( ln I dV )= e kTe Assim, se traçarmos um gráfico onde o eixo das ordenadas é ln(I) e o eixo das abcissas é V, obteremos uma reta (se a distribuição de elétrons for maxwelliana) cujo coeficiente angular é igual a e , a partir da qual obtemos a temperatura de elétrons2 (Te) em kelvin. Outro parâmetro bastante kTe kTe em volts mas é comumente denotado por utilizado para indicar a temperatura de elétrons é o e elétron-volt. Para determinarmos a densidade de elétrons, basta aplicar Ies e Te na equação da corrente de saturação de elétrons. Assim, encontramos: ne = − I es eA1 I 2πme ou ne = − es eA1 kTe 2πme αe onde α é o coeficiente angular que determinou a temperatura de elétrons. O processo de automação deste trabalho se refere à utilização de um microcomputador que através da sonda de Langmuir traça a curva característica do plasma, obtendo assim os parâmetros do plasma utilizado. O computador coleta os dados, traça a curva e efetua os cálculos, tornando o trabalho do pesquisador mais eficiente devido aos resultados imediatos. O desenvolvimento deste método automatizado é o objetivo deste trabalho. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Para a caracterização do plasma através da sonda de Langmuir, foram utilizados um reator de processamento de materiais, um Mainframe MPS HP 66000A utilizando uma fonte de tensão HP66106A acoplada, uma interface USB/GPIB Agilent 82357A, um multímetro Digital programável HP 34401A, um microcomputador Pentium II 266MHz utilizando o software Agilent VEE Pro 6.0 e uma sonda eletrostática simples (de Langmuir) de comprimento ativo 4mm e diâmetro 0,2mm. Utilizando uma das fontes de tensão do Mainframe controlada pelo computador, foi possível gerar a forma de onda de dente de serra e aplicar à sonda. Como o sistema do computador é digital e conseqüentemente discreto, ou seja, não-contínuo, a forma de onda gerada é, na verdade, uma seqüência de pontos que formam uma onda dente de serra. Assim, o sistema se aproxima do contínuo quanto mais aumentamos o número de pontos da onda gerada. Utilizando um multímetro digital obtemos a tensão nos terminais do resistor (Rs) e conhecendo o valor do resistor temos a corrente da sonda. O sistema que foi montado é mostrado na figura 4. Figura 4: Sistema automatizado de caracterização com sonda de Langmuir. Assim, com o multímetro digital obtemos a corrente na sonda e os dados são enviados para o microcomputador através de uma interface GPIB, e, assim, a curva característica da sonda de Langmuir é gerada. Com a curva, utilizando as operações matemáticas expostas anteriormente, obtemos a temperatura e a densidade dos elétrons imediatamente, mesmo durante o experimento. 3. RESULTADOS O programa computacional desenvolvido através do software Agilent VEE Pro 6.0 é responsável pelo controle da fonte de tensão digital de modo a gerar o sinal dente de serra para a sonda de Langmuir. O programa também é responsável pela aquisição de dados da corrente elétrica obtida pelo multímetro digital, e com estes dados é traçada a curva característica do plasma e são determinados os parâmetros do mesmo. O software Agilent VEE Pro 6.0 utiliza uma linguagem gráfica de programação que facilita a aquisição e manipulação dos dados. O programa se apresenta em quatro partes, calibração do sistema, aquisição de dados, visualização de curvas anteriormente salvas e análise de curvas anteriormente salvas. Deve ser executado através do módulo RunTime do Agilent VEE. A tela inicial do programa é mostrada na figura 5 e a tela final do item “Adquirir Dados” onde é obtida curva característica, a temperatura e a densidade de elétrons é mostrada na figura 6. Figura 5: Tela inicial do programa computacional criado para controlar os equipamentos de modo a obter a curva característica. Figura 6: Tela final do item “Adquirir Dados” apresentando a curva, a temperatura e a densidade de elétrons. Após a conclusão do programa foram feitos diversos testes. Primeiramente, foi levantada uma curva pelo método convencional utilizando uma fonte e um Plotter. Esta curva foi traçada com Vp=843V, Ip=5mA e pressão p=6,9x10-2Torr (ver figura 4). Selecionando alguns pontos para aplicar o operador logarítmico obtemos as curvas mostradas nas figuras 7 e 8, onde temos a parte exponencial selecionada e aplicada ao logaritmo respectivamente. Figura 7: Dados escolhidos da curva Figura 8: Dados escolhidos mostrados na característica. figura 7 aplicando o operador logaritmo. Pela curva mostrada na figura 8, obtivemos o coeficiente angular da reta (α) e assim, a temperatura de elétrons. Como mostrado abaixo: α=0,06333Î KTe 1 = = 15, 790eV e 0, 06333 e 1, 6 ⋅10−19 Te = = ≅ 183050 K Kα 1,38 ⋅10−23 ⋅ 0, 06333 Utilizando o sistema automatizado foi levantada a curva mostrada na figura 9, cujos dados são mostrados na tabela 2. Esta curva foi traçada utilizando Vp=841V, Ip=8,5mA sobre uma pressão de p=7,2x10-2Torr (ver figura 4). A figura 10 mostra a curva aplicada ao logaritmo no eixo das correntes. Figura 9: Curva característica obtida com o sistema automatizado. Figura 10: Curva característica obtida com o sistema automatizado sobre um eixo logaritmico. Com esta curva foram feitos duas analises para comprovar o funcionamento do programa computacional desenvolvido, uma pelo método tradicional utilizando uma calculadora para fazer os cálculos e outra pelo programa desenvolvido. Pelo método tradicional, escolhendo os pontos cuja tensão varia de –40 a –75V e calculando o coeficiente angular da parte selecionada encontramos o valor da temperatura de elétrons; Te=14,8eV. Utilizando o programa computacional desenvolvido neste projeto obtivemos Te=14,78eV para a mesma curva. Assim, observamos que comparando o método manual com o cálculo do programa computacional temos um erro relativo menor que 0,15% para os cálculos realizados. Visto que as temperaturas de elétrons das curvas mostradas nas figuras 7 e 9 são próximas, estas não podem ser comparadas, pois foram obtidas de plasmas diferentes gerados com valores de tensão, corrente e pressão diferente. 4. CONCLUSÕES Com este trabalho foi possível a obtenção da curva característica de um plasma através de um sistema automatizado de sonda de Langmuir. Um programa computacional foi criado e instalado em um microcomputador interligado a alguns equipamentos por uma rede GPIB de modo a fazer a análise dos dados obtidos imediatamente, mesmo durante o experimento. Com estes dados, o mesmo programa determina os parâmetros macroscópicos do plasma como temperatura e densidade de elétrons de forma bastante simples, rápida, prática e confiável. Os dados obtidos alcançaram erros de aproximadamente 0,15% comparados com os que são obtidos na maneira convencional de cálculo comprovando a eficiência do sistema montado. AGRADECIMENTOS Os autores gostariam de agradecer a profa. Íria Vendrame do PIBIC-ITA, a toda a equipe do LPP-ITA e à Profª Marisa Roberto do PIBIC-IEF-ITA. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1 Chen F. F., Huddlestone R. H. e Leonard S. L., Plasma diagnostic technique, 1965, Academic. Massi M., Formação e caracterização de plasma-duplo com geração do plasma-fonte por acoplamento indutivo de RF, 1994, Tese de mestrado, ITA, São Paulo. 3 Hebert M., Cylindrical Langmuir Probe Technique in the Afterglow of a Pulsed Low Pressure Inductively Coupled Plasma, 2002, Advanced Plasma Technology, ME8361, University of Minnesota. 4 Maresca A., Me. Master’s Thesis, 2001, University of Minnesota. 5 Lieberman M. A. e Lichtenberg A. J., Principles of plasma discharges and materials processing, 1994, John Wiley & Sons. 6 Wong A. Y., Introduction to experimental plasma physics, 1977, Apostila publicada pela universidade da califórnia. 7 Chen F. F., Introduction to Plasma Physics and Controlled Fusion, 1984, 2ª ed., Vol.1, Plenum, New York. 2