ANÁLISE NUMÉRICA DE UM RADIER SOBRE UMA ESTACA DEFEITUOSA EM SOLO TROPICAL DO BRASIL Osvaldo de Freitas Neto UFS, Aracaju, Brasil, [email protected] Renato Pinto da Cunha UnB, Brasília, Brasil, [email protected] Olavo Francisco dos Santos Júnior UFRN, Natal, Brasil, [email protected] Paulo José Rocha Albuquerque Unicamp, Campinas, Brasil, [email protected] Jean Rodrigo Garcia Unicamp, Campinas, Brasil, [email protected] Emanuelle Fazendeiro Donadon Unicamp, Campinas, Brasil, [email protected] RESUMO: As metodologias de cálculo de fundações em radier estaqueado normalmente se apresentam de forma mais complexa, uma vez que não há simplificação na consideração das variáveis de interação entre o solo e os elementos estruturais, e entre os próprios elementos estruturais da fundação. Assim, leva-se em conta todos os efeitos de interação entre o radier, bloco ou sapata, estaca e solo, simultaneamente. Uma variável que não é contemplada nas metodologias de dimensionamento das fundações estaqueadas é o defeito nas estacas, uma vez que surge em casos fortuitos, seja por falha no controle executivo ou por problemas associados a equipamentos descalibrados e sem manutenção. Os fatores de segurança empregados estão de maneira geral associados à variabilidade do terreno e não a um potencial dano estrutural em uma estaca. Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo avaliar, a partir de análises numéricas, o comportamento de um radier assente sobre uma estaca com dano estrutural. Esse dano estrutural está associado à redução da seção transversal, da resistência à compressão e da rigidez do material. Foram realizadas análises numéricas em uma fundação íntegra e com a presença do respectivo defeito. As análises numéricas foram realizadas em 3D, a partir da ferramenta numérica LCPC – Cesar (versão 4.0), que é baseada no método dos elementos finitos. A estaca tem 0,25m de diâmetro e 5 m de comprimento. A zona defeituosa da estaca tem 0,60m e foi posicionada entre 1,90 m e 2,50 m de profundidade. A partir dos resultados obtidos, pode-se concluir que a fundação apresentou redução significativa da capacidade de carga devido ao dano estrutural instalado na estaca. Durante a prova de carga verificou-se que aos 25mm de recalque a carga da fundação reduziu de 190,0 kN para 133,0 kN. Foram obtidas informações a cerca de distribuição de carga entre a estaca e o radier antes e após a manifestação do dano e na estaca e observou-se que mesmo após a manifestação do dano estrutural a estaca defeituosa ainda foi capaz de suportar cerca de 40,0% da carga total aplicada. PALAVRAS CHAVE: Estacas Defeituosas, Radiers Estaqueados, Análises Numéricas. 1 INTRODUÇÃO As metodologias de cálculo de radier estaqueado apresentam-se mais complexas, pois não há simplificação na consideração das variáveis de interação entre os próprios elementos estruturais de fundação (radier e estacas) e entre estes e o solo, enquanto que no projeto de fundações convencionais, as variáveis de interação consideradas são apenas entre as estacas e o solo. Além das variáveis de interação previstas nas respectivas metodologias de cálculo e dimensionamento, foi avaliado nesta pesquisa o comportamento do radier estaqueado na presença de estacas defeituosas. Pode-se denominar o defeito em uma estaca como uma “variável oculta” do ponto de vista analítico, uma vez que não está presente nas equações e formulações, pois, no contexto geral, surgem em casos fortuitos ou pela própria negligência no processo executivo. Por isso, além da dificuldade de tratar tal problema tecnicamente, estudos a respeito desse assunto, se deparam com a falta de dados e informações fornecidas por parte do fabricante/vendedor/executor das respectivas estacas. Os projetos de fundação elaborados à luz da metodologia dos radiers estaqueados têm como característica a racionalização do número e do comprimento das estacas. Neste caso, tanto as estacas, quanto o radier, têm função de distribuir as cargas da superestrutura para o solo de fundação. Sob essa condição, há uma tendência de reduzir o número de estacas instaladas sob o radier de modo que estas sejam posicionadas estrategicamente com a finalidade de não apenas de incrementar a capacidade de carga da fundação, mas também como elementos redutores de recalque. Por outro lado, como o número de estacas sob o radier é entre 20% e 40% menor do que nos grupos de estacas convencionais, estas estacas assumem maior responsabilidade na fundação. Nessa perspectiva, torna-se ainda mais importante ter um controle de qualidade eficaz durante a sua execução de modo a minimizar a ocorrência de estacas defeituosas no estaqueamento. Diversos estudos vêm sendo desenvolvidos a cerca da temática de radiers estaqueados sujeitos à presença de estacas defeituosas, entretanto, em geral, estes são exclusivamente numéricos ou associados a estudos realizados em modelos em escala reduzida. Dentre estes se destacam os trabalhos de Makarchian e Poulos (1994), Abdrabbo (1997), Xu (2000), Petek et al. (2002), Kong e Zhang (2004), Zhang e Wong (2007), Cordeiro (2007), Cunha et al. (2007), Cunha et al. (2010) e Freitas Neto (2013). 2 PATOLOGIAS EM ESTACAS Em geral os defeitos em fundações estaqueadas podem ser de origem geotécnica e/ou estrutural. Os defeitos de origem geotécnica surgem devido aos problemas decorrentes de projetos mal concebidos, falhas nos estudos geológicogeotécnicos e também relacionados à execução das estacas. Dentre os problemas geotécnicos, os que mais se destacam são aqueles associados à capacidade de carga de ponta e lateral, inferior à prevista, por exemplo: devido à presença de lentes de materiais compressíveis e de baixa resistência. De acordo com Poulos (2005), essas condições não interferem significativamente na capacidade de carga requerida, mas necessitam de elevado deslocamento relativo para mobilizá-lo (Figura 1). No tocante aos problemas de origem estrutural, geralmente estão associados às falhas na fabricação e execução das estacas, e estão relacionados com discrepâncias nas dimensões, resistência e/ou rigidez da estaca quando comparados com o estabelecido em projeto (Poulos, 1997). Estes defeitos costumam se manifestar com a redução brusca da seção transversal da estaca devido, por exemplo, a falhas na concretagem, denominado por estricção, seccionamento transversal da estaca, presença de zonas enfraquecidas (associada às estacas moldadas “in loco” de concreto com resistência inferior a especificada no projeto), zonas de fissuramento e zonas danificadas na estaca (Figura 2). LAMA BENTONÍTICA (I) SOLO DE MENOR RESISTÊNCIA ADJACENTE À ESTACA (II) LAMA BENTONÍTICA NO FUSTE DA ESTACA (III) RESÍDUOS DE SOLO NA PONTA DA ESTACA Figura 1 – Esquema dos típicos defeitos geotécnicos (Poulos, 1999). ESTRICÇÃO (I) ESTRANGULAMENTO DO FUSTE CONCRETO DE BAIXA RESISTÊNCIA (II) REGIÃO COM CONCRETO DE BAIXA RESISTÊNCIA ZONA FRATURADA (III) REGIÃO FRATURADA DEVIDO A EFEITOS TÉRMICOS que o previsto em projeto, 14% com estrangulamento do fuste (estricção) e 35% relacionados a fissuras estruturais. Segundo esses autores, 18% dos ensaios de verificação da integridade das estacas são realizados devido a suspeita de ocorrência de falha, 26% por motivos que os autores denominam por “especiais” e 56% por checagem de rotina (Figura 3). ZONA DANIFICADA (IV) TOPO DA ESTACA DANIFICADO DURANTE A CRAVAÇÃO Figura 2 – Esquema dos típicos defeitos estruturais (Poulos, 1999). Os problemas mais comuns em estacas escavadas estão associados: aos concretos pobres em cimento, com traço inadequado, resultando em segregação na concretagem e/ou demora na concretagem, com concreto já em processo de início de pega, o cimento em processo de hidratação, ao desmoronamento das paredes de escavação não protegidas durante a concretagem e interferência na continuidade da estaca e, redução da área da sua seção transversal, comprometendo seu desempenho. Neste trabalho optou-se por analisar os efeitos da estricção (redução da seção transversal da estaca) e do uso de um material com resistência à compressão e módulo de elasticidade inferior ao do concreto da zona íntegra da estaca, paralelamente, na mesma seção defeituosa da estaca. Dados estatísticos a respeito dos defeitos em estacas são escassos e pouco divulgados. Klingmüller e Kirsch (2004) apresentam a experiência alemã a respeito de estacas defeituosas e mostram que 15% das estacas ensaiadas apresentam resultados que levantam dúvidas e 5% com a indicação de problemas acima de qualquer discussão, fazendo-se necessária a intervenção. Os autores mencionaram ainda que das estacas defeituosas, 30% das estacas apresentam problemas referentes à qualidade do concreto, 21% ao comprimento insuficiente, ou seja, menores do Figura 3 – Ocorrência dos defeitos em estacas (Klingmüller e Kirsch, 2004). 3 METODOLOGIA O objetivo deste trabalho é o de avaliar o comportamento de uma fundação do tipo radier estaqueado com a presença de uma estaca defeituosa, a partir de análises numéricas realizadas por MEF usando o software LCPCCESAR v.4.07, desenvolvido pelo Laboratoire Central des Ponts et Chaussees / Road and Public Works Research Institute. A partir do respectivo software foram obtidas informações a respeito da capacidade de carga da fundação, dos recalques totais e diferenciais, distorção angular no radier estaqueado, distribuição de cargas entre o radier e as estacas e a distribuição de cargas ao longo do fuste e na ponta das estacas, antes e após a ruptura estrutural da estaca defeituosa. O perfil geológico considerado nas análises numéricas (Figura 4) corresponde ao perfil do Campo Experimental da Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura da Universidade de Campinas – FEC - Unicamp (Freitas Neto, 2013). Os parâmetros de resistência utilizados nas análises numéricas foram obtidos a partir de Gon (2011), o qual apresentou resultados de ensaios de caracteriazação e resistência ao cisalhamento triaxial em amostras de solo coletadas até a profundidade de 9 m, cujos resultados estão apresentados resumidamente na Tabela 1. NT 2 metros Argila Siltosa-Arenosa, Muito Mole a Mole, Marrom Avermelhado - Coluvionar 6 metros Areia Siltosa, Fofa a Pouco Compacta, Marrom Avermelhado - Coluvionar resistência à tração, peso específico, módulo de elasticidade e coeficiente de Poisson. Quanto aos critérios para determinação da carga de ruptura convencionada, vale destacar que neste trabalho adotou-se a proposta de Décourt (1993), Décourt (1995) e pela Norma Inglesa (BS 8004:1986), os quais indicam que a carga de ruptura convencionada para estacas de deslocamento e estacas escavadas, deve ser equivalente ao recalque correspondente a 10% do seu diâmetro nominal da estaca. Neste trabalho, como as estacas têm 0,25 m de diâmetro, a carga de ruptura convencionada será aquela equivalente ao recalque de 25 mm. Análises numéricas dos estaqueados íntegro e defeituoso 3.1 4 metros Silte Areno-Argiloso, Medianamente Compacto, Marrom Variegado - Residual de Diabásio 3 metros Impenetrável à Percussão - Alteração de Diabásio Figura 4 – Perfil geológico típico do campo experimental da FEC-Unicamp. Tabela 1 – Parâmetros geotécnicos obtidos em ensaios de resistência a compressão triaxial tipo CW (Gon, 2011). Prof. c Es SUCS (m) (MPa) (kN/m³) (kPa) (º) 1,0 MH 14,1 7,40 22o 13,79 2,0 ML 14,2 7,85 21o 11,43 3,0 ML 14,0 11,60 22o 8,50 4,0 ML 14,4 5,75 23o 11,49 ML 5,0 15,5 24,00 21o 9,86 6,0 ML 15,3 42,40 22o 19,95 7,0 ML 15,4 41,93 22o 10,93 8,0 MH 15,2 26,40 22o 11,01 9,0 MH 15,2 – Peso Específico do Solo (kN/m³); SUCS – Sistema Unificado de Classificação dos Solos; c – Coesão do Solo; – Ângulo de Atrito; Es: Módulo de Rigidez do Solo. O modelo constitutivo utilizado para os solos foi o elástico perfeitamente plástico de MohrCoulomb, obtidos a partir dos ensaios de caracterização e resistência ao cisalhamento triaxial do tipo CW (Consolidado com teor de umidade constante – Não Saturado). Para o concreto, adotou-se o modelo Plástico Parabólico, disponível na biblioteca de modelos oferecidos pelo software LCPC-CESAR v.4.07 cujos parâmetros são resistência à compressão, radiers A fim de compatibilizar o esforço computacional e a convergência dos resultados nas análises numéricas utilizou-se o elemento finitos volumétrico constituído por 15 nós. Com o intuito obter parâmetros para comparar as fundações sujeitas à presença de estacas defeituosas, foram realizadas análises numéricas para os respectivos radiers assentados somente sobre uma estaca íntegra (SD1(NUM)) e outro com a presença de defeito na estaca (CD1(NUM)). A Tabela 2 apresenta os parâmetros geométricos dos radiers estaqueados assim como os parâmetros elásticos utilizados nas análises numéricas realizadas nesta pesquisa. Tabela 2 – Parâmetros geométricos, elásticos e geotécnicos utilizados nas análises numéricas dos Radiers Estaqueados SD1(NUM) e CD1(NUM). DPI DPD API APD B L (m) (m) (m²) (m²) (m) (m) 0,25 0,185 0,049 0,027 3.L 5,0 Ld zd Rc Rt H/L aplic (m) (m) (MPa) (MPa) 0,60 1,90 25,0 2,5 Variável 2,0 EP = ER EPD ES s/DPI c S (GPa) (GPa) (MPa) 5,0 22,85 5,9 Tabela 1 0,20 0,45 t (m) = 0,55 [SD1(NUM) e CD1(NUM)] DPI – Diâmetro das estacas íntegras; DPD – Diâmetro equivalente da seção transversal defeituosa; API– Área da seção transversal da zona íntegra das estacas; APD – Área da seção transversal da zona defeituosa das estacas; B – Domínio horizontal; L – Comprimento da estaca; Ld – Comprimento da zona defeituosa; zd – Profundidade do defeito; t – Espessura do radier ; H/L – Domínio Vertical; s/DPI – Espaçamento relativo; EP = ER – Módulo de elasticidade do Concreto das estacas e radiers; E PD – Módulo de elasticidade do material do defeito; c – Coeficiente de Poisson do concreto; s – Coeficiente de Poisson do solo; aplic. – Tensão Aplicada no centro do radier; Rc – Resistência à compressão do concreto; Rt – Resistência à tração do concreto. Na Figura 5 apresenta-se a seção transversal, onde é possível observar os aspectos geométricos dos radiers estaqueados sem e com a presença de estacas defeituosas respectivamente. Tabela 3 – Resumo dos resultados obtidos nas provas de carga realizadas no campo experimental e obtidos numericamente (SD1(NUM) e CD1(NUM)) Radier Estaqueado Nº E D Q QRUPT. MRUPT. MMÁX. (kN) (kN) (mm) (mm) SD1(NUM) 1 0 15,0 190,0 25,0 59,8 CD1(NUM) 1 1 20,0 133,0 25,0 91,0 NºE ºE – Número de estacas sob o radier;ºED – Número de estacas defeituosas sob o radier; Q – Incremento de carga aplicado em cada estágio de carregamento; QRUPT – Carga de ruptura geotécnica da fundação; MRUPT – Recalque médio na ruptura; MMÁX– recalque máximo ao final dos estágios de carregamento;DMÁX– Recalque diferencial máximo. Figura 5 – Seção transversal dos radiers estaqueados SD1 (NUM) e CD1(NUM). Radier sobre uma Estaca [SD1(NUM) e CD1(NUM)] 4 Diante desses resultados, pode-se observar que se esperava que um radier assentado sobre uma estaca íntegra, resistisse 190,0 kN, para 25 mm de recalque, entretanto, o radier estaqueado CD1(NUM) teve carga de ruptura convencionada 133,0 kN. Assim, o fator de segurança da fundação CD1(NUM), apresentou-se igual a 1 (um), aos 133,0 kN, quando para esse nível de carregamento, o fator de segurança previsto era de aproximadamente 1,43, caso a fundação estivesse íntegra. Ou seja, a fundação rompeu antes do previsto devido à presença do defeito na estaca. 190,0 kN 133,0 kN Carga (kN) 0 25 50 75 100 125 150 175 200 225 250 0 Recalque (mm) Neste item são apresentados e discutidos os resultados para o radier assentado sobre uma estaca obtidos numericamente a partir de modelagem tridimensional por elementos finitos. Além disso, são discutidos aspectos a respeito do comportamento associado à carga e recalques, assim como à distribuição de cargas entre o radier e a estaca antes e após a sua ruptura estrutural. A Tabela 3 apresenta resumidamente os valores de carga de ruptura convencionada e os resultados de recalques totais e diferenciais máximos e médios obtidos a partir das análises numéricas e do ensaio de carregamento estático realizado em campo. A Figura 6 correlaciona as curvas carga versus recalque obtidas numericamente para os radiers estaqueados íntegro e defeituoso SD1(NUM) e CD1(NUM), respectivamente. A partir dessas curvas foram definidos os valores de carga de ruptura convencionada para 25 mm de recalque (10% do diâmetro nominal da estaca). Os valores de recalques totais obtidos nessas análises numéricas também foram apresentados resumidamente na Tabela 3. 20 40 60 80 100 120 SD1 (NUM) CD1 (NUM) Figura 6 – Comparação entre as curvas carga versus recalque dos radiers para o radier sobre uma estaca íntegra e defeituosa [SD1(NUM) e CD1(NUM)] respectivamente. Adotando como referência os valores de capacidade de carga convencionada do radier CD1(NUM), de 133,0 kN, determinou-se os fatores de segurança global para cada nível de carregamento (Figura 7) e comparou-se com o fator de segurança previsto para uma fundação íntegra (SD1(NUM)) submetida aos mesmos níveis de carregamento. Observa-se que devido à presença do defeito, desde os primeiros incrementos de carga, os fatores de segurança obtidos para a fundação defeituosa são inferiores ao observado para fundação íntegra, e que no instante da ruptura, determinada convencionalmente aos 25 mm de recalque sujeita ao defeito, a estaca foi capaz de suportar 39,0% da carga aplicada no topo do radier CD1(NUM). Recalque (mm) 0,62 1,38 2,66 5,63 9,81 15,6 33,0 56,0 73,0 91,0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 140 Carga por Elemento (kN) (10% diâmetro nominal da estaca), esperava-se que a fundação ainda se apresentasse íntegra. Na Figura 8 são apresentados os valores percentuais de distribuição de carga entre a estaca defeituosa e o radier para cada incremento de carga antes e após a sua ruptura estrutural e geotécnica. O incremento de carga aplicado no topo do radier CD1(NUM) foi de 20,0 kN, e a medida que o nível de carga empregado aumentou, houve uma tendência de aumento na transferência de carga da estaca para o radier. Após 140,0 kN o radier passou a absorver mais carga do que a estaca, até que ao final do carregamento estes absorveram 61,0% e 39,0% da carga total aplicada respectivamente. 120 100 80 60 40 20 0 0 220 Carga Total Aplicada (kN) E13 (Defeituosa) - NUM Carga no Radier Ruptura Estrutural / Geotécnica Figura 8 – Distribuição de cargas entre o radier e a estaca E13 no radier estaqueado CD1(NUM). Fator de Segurança 10,0 5 6,0 4,0 2,0 Fs = 1 0,0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Carga Total Aplicada (kN) Fs Global - CD1(NUM) Fs Global - SD1(NUM1) Figura 7 – Comparação entre os fatores de segurança globais obtidos para radiers estaqueados SD1(NUM) e CD1(NUM). Recalque (mm) 0,62 1,38 2,66 5,63 9,81 15,6 33,0 20 40 60 80 100 120 140 56,0 73,0 91,0 100% 90% % de Carga Atuante CONCLUSÃO 8,0 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 160 180 200 220 Carga (kN) % Carga na Estaca % Carga no Radier Ruptura Estrutural / Geotécnica Convencionada Figura 7 – Distribuição percentual de cargas entre o radier e a estaca E13 no radier estaqueado CD1(NUM). A Figura 8 apresenta as curvas de distribuição de cargas entre a estaca defeituosa e o radier obtidas numericamente. A ruptura geotécnica da fundação ocorreu aos 133,0 kN, no mesmo instante em que houve a ruptura estrutural da estaca defeituosa, após o 7º incremento de carga, quando a carga no topo da estaca era de aproximadamente 70,0 kN (descontada a parcela do radier) cujo recalque era 25 mm. Chama-se a atenção, que mesmo Neste trabalho foi avaliado a partir de análises numéricas, realizadas pelo método dos elementos finitos (MEF), o comportamento de um radier estaqueado sujeito à presença de estacas defeituosas. Diante do exposto, foi possível concluir que a presença do defeito causou redução da capacidade de carga da fundação já nos primeiros incrementos de carga. Dessa forma, observou-se que devido à presença do defeito na estaca a capacidade de carga convencionada aos 25mm de recalque reduziu de 190 kN para 133,0 kN, ou seja, o defeito na estaca causou redução de 30% na capacidade de carga da fundação. Assim, aos 133 kN de carga aplicada no topo do radier estaqueado, quando se esperava que este, na condição íntegra apresentasse um fator de segurança de 1,43 este já apresentava-se próximo à unidade, ou seja, na iminência da ruptura. Outro fator relevante é que mesmo com a presença do defeito estrutural, ao final do carregamento, a estaca foi capaz de suportar 39% do carregamento total aplicado no topo da estaca, enquanto os outros 61% foram transferidos para o radier. Este comportamento foi diferente do apresentado no início do carregamento quando a maior parte da carga aplicada foi absorvida pela estaca. Ou seja, à medida que defeito foi mobilizado as cargas foram transferidas para o radier. Em geral os defeitos nas estacas irão se manifestar para cargas específicas em função da sua magnitude. Desta forma, sugere-se que a avaliação da integridade das estacas seja realizada no início da obra, logo após a execução das estacas, pois neste período as estacas ainda não foram submetidas aos carregamentos oriundos da superestrutura e de maneira geral, o reforço da fundação, caso necessário tem impacto minimizado no andamento da obra. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem às agências de fomento FAPESP, CNPQ, CAPES e FAEPEX (Unicamp) pelo financiamento e apoio a essa pesquisa. REFERÊNCIAS Abdrabbo, F. M. (1997). “Mis-use of soils and foundation causes disaster”. INT. CONF. ON FOUNDATION FAILURES, SINGAPURE, Proc., Int. Conf. on Foundation Failures. T. W. Hulme and Y. S. Lau, eds., Inst.Of Engs. Singapore, 121–130. BS – British Standard – BS 8004:1986 – Code of Pratice for Foundations. Cordeiro, A. F. (2007). Avaliação Numérica de Reforço de Grupo de Estacas pela Introdução de Estacas Adicionais. 2007, 118p. Dissertação de Mestrado, Publicação G.Dm-155/07, Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, Universidade de Brasília, Brasília, DF. Cunha, R. P., Cordeiro, A. F. B. e Sales, M. M. (2010). Numerical assessment of an imperfect pile group with defective pile both at initial and reinforced conditions. Soil and Rock, São Paulo, v. 33, n.2, p. 81-93, MayAugust. Cunha, R.P., Cordeiro, A.F., Sales, M.M. e Small, J.C. 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