BEATRIZ MARIA B. ATRIB ZANCHET GOMERCINDO GHIGGI (ORG.) Práticas inovadoras na aula universitária: possibilidades, desafios e perspectivas São Luis/MA EDUFMA 2009 FICHA DE CATALOGAÇÃO ZANCHET, Beatriz Maria Boéssio Atrib; GHIGGI, Gomercindo (org.). Práticas inovadoras na aula universitária: possibilidades, desafios e perspectivas. São Luis/MA: EDUFMA, 2009, 226p. ISBN 978-85-7862-062-2 CDD 378.17 - Educação Capa: concepção, projeto gráfico e foto de Irapuã Pacheco Martins, editoração eletrônica de Jefersson Cardoso Impresso no formato eletrônico - e-book Projeto gráfico miolo: Paula Trindade da Silva Selbach Edição desenvolvida através do projeto e-ufma Visite www.eufma.ufma.br e saiba mais das nossas propostas de inclusão digital Universidade Federal do Maranhão Gabinete da Reitoria - Administração Natalino Salgado Filho Diretor da Imprensa Universitária: Ezequiel Antonio Silva Filho Conselho Editorial para a edição Elisa Lucarelli – Universidad de Buenos Aires – UBA, Ana Cristina Coll Delgado – Fundação Universidade de Rio Grande – FURG, Beatriz Maria B. Atrib Zanchet – Universidade Federal de Pelotas – UFPel, Cleoni Fernandes – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS, Danilo Streck – Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, Gomercindo Ghiggi – Universidade Federal de Pelotas – UFPel, Maria Isabel da Cunha – Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, Nóris Eunice Pureza Duarte – Universidade Federal de Pelotas – UFPel, Odeli Zanchet – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense - IFSUL, e Paulo Eduardo Grischke Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense - IFSUL Este livro foi autorizado para domínio público e está disponível para download nos portais do MEC [www.dominiopublico.gov.br] e do Google Pesquisa de Livro De acordo com a Lei n.10.994, de 14/12/2004, foi feito depósito legal na Biblioteca Nacional Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia AGRADECIMENTOS Agradecer é reconhecer o apoio de todos aqueles que compartilharam os momentos de construção deste livro e transformaram seus sonhos, tanto em momentos de entusiasmo como em momentos de esmorecimento, movimento esse que caracteriza o ato de quem se envereda pelos caminhos do conhecimento. À Elisa que partilhou conosco seu conhecimento e que com paciência e afeto soube ouvir cada um dos alunos que com ela estiveram. Aos mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPel: Adriano, Ana Carolina, Cândida, Cristina, Gabriela, Gilceane, Helena Beatriz, Irapuã, Michele, Renato e Rita, que nos mostraram que outras práticas são possíveis quando acreditamos no trabalho coletivo e a ele nos dedicamos. À Universidade de Buenos Aires (UBA) que nos recebeu e nos apoiou para que juntos compartilhássemos um plano de estudos e de trabalho coletivo. À Capes (Brasil) e à SPU (Argentina) agradecemos o apoio financeiro que tem proporcionado o desenvolvimento do Projeto de Fortalecimento do PPGE da UFPel com a Faculdade de Filosofia e Letras da UBA. À UFPel, na figura do Professor Mario Pires que não mediu esforços para providenciar a documentação necessária para que pudéssemos encaminhar o referido Projeto à CAPES, em fevereiro de 2008. SUMÁRIO Apresentação 9 Las práticas innovadoras en el aula universitária: una mirada desde la investigacion Elisa Lucarelli 17 Contra o desperdício da experiência: pelo diálogo entre teoria e prática na formação de professores na perspectiva da profissionalização docente Helena Beatriz Mascarenhas de Souza 47 A polêmica questão sobre a teoria e a prática: um olhar histórico-político e pedagógico Gabriela Medeiros 63 Inovação e formação docente: articulação teoria/prática Cristina Pureza Duarte Boéssio 79 Entre o ser tradicional e o ousar ser diferente: uma experiência pedagógica inovadora na formação de professores Renato Siqueira Rochefort 95 Formação de professores na EaD: possibilidades e desafios à inovação na formação docente na implementação do Curso de Pedagogia UAB/FURG Rita de Cássia Grecco dos Santos 123 Aprender a aprender: a solicitação da figura pecúlio como prática pedagógica inovadora na formação de professores de teatro Adriano Moraes de Oliveira 143 Caminhando a luz de velas em meio a tempestade: o desafio de uma aula inovadora frente a um novo perfil de aluno na sociedade da informação Michele Schuster Borba 157 Tempos e trajetórias de vida no fazer-se professor: possibilidade de ruptura com o conhecimento usual Irapuã Pacheco Martins 173 Formação de professores: novas perspectivas educacionais Cândida Maria de Sousa Custodio 185 A formação de professora alfabetizadora: diálogos a partir dos currículos do Curso de Pedagogia da FAE/UFPEL Gilceane Caetano Porto 199 Expectativas sobre currículo: um olhar buscando uma proposta flexível Ana Carolina Nogueira Oliveira 215 Apresentação Os textos que compõem esta publicação discutem aspectos relacionados à problemática do ensino e das práticas pedagógicas, envolvendo diferentes áreas do conhecimento. O objetivo da publicação é dar visibilidade a um conjunto de reflexões, resultantes de trabalhos acadêmicos, de mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas, participantes do Seminário: As práticas inovadoras nas aulas universitárias, ministrado pela Profª. Drª. Elisa Lucarelli, no PPGE da UFPel. O referido Seminário foi viabilizado pelo Projeto de Fortalecimento do PPGE da UFPel, Pelotas, com a Faculdade de Filosofia e Letras da UBA, Buenos Aires, através do financiamento da CAPES/Brasil e da Secretaría de Políticas Universitárias/SPU/Argentina. Os referidos textos abordam, a partir de diferentes olhares e lugares, a discussão sobre aspectos relacionados à articulação teoria-prática, ao currículo e à inovação na sala de aula universitária. São textos que apresentam resultados de pesquisa, experiências e relatos de práticas docentes no contexto de atuação de cada um dos autores. O desafio de reunir em um livro essa produção parte do seguinte pressuposto: cada vez mais se torna importante socializar reflexões vitais à ação docente, entendendo essa ação como mediação nos processos constitutivos da formação dos educandos. Enfim, são trabalhos oriundos das reflexões surgidas em torno das discussões sobre o ensino universitário e as possibilidades de inovação que nele são possíveis. 10 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Para construir a presente publicação, os autores refletiram desde suas práticas docentes e/ou seus trabalhos de pesquisa em diálogo intenso realizado no Seminário citado, buscando vislumbrar e afirmar possibilidades da produção de práticas alternativas. Das discussões também foi possível compreender que muitos são os desafios colocados aos professores para enfrentar a sala de aula universitária, especialmente quando os mesmos são despidos da herança do paradigma da racionalidade técnica. O resultado aqui exposto é derivado de um exercício de persistência, de crédito no trabalho coletivo, no trabalho de grupo e de equipe, pois assim também se desenvolveu o Seminário. Foram textos gestados, aprofundados e discutidos entre os participantes, que acreditam na capacidade de mudança no mundo da educação, em especial da educação escolarizada. Viver e escrever esses textos permitiu aos alunos dar voz e vez tanto às suas experiências quanto às suas angústias, permitindo que eles se tornassem sujeitos em ação no mundo acadêmico. O texto inicia com a reflexão da Coordenadora do Seminário acima referido, Elisa Lucarelli. O texto da pesquisadora da UBA, intutulado Las prácticas innovadoras en el aula universitaria: Una mirada desde la investigación, traz, inicialmente, uma densa e atualizada reflexão sobre as características que definem a inovação e como são entendidas as práticas que as sustentam. Para tanto, a autora expõe o modelo de inovação de caráter tecnicista, sustentado na segmentação, na centralização das decisões e no que denomina de “innovación protagónica”, baseada nos princípios da didática crítica. Falando mais demoradamente sobre a aula universitária, desde a perspectiva da didática crítica, a autora defende que a articulação entre teoria e prática “aparece como un factor central en la constitución de innovaciones”, o que se deve à importância que a mesma assume na definição da natureza do conhecimento, tanto em relação à sua produção como aos processos e conteúdos na formação dos sujeitos. Enfim, assevera a autora, “los conocimientos que se presentan en este trabajo acerca de las cátedras universitarias que llevan a cabo innovaciones y el comportamiento de la articulación teoría-práctica como eje dinamizador en la estructura didáctico curricular, sus diversas modalidades de expresión de esa articulación, así como acerca del papel que juega en el origen y desarrollo de esas innovaciones, aspiran a constituirse en un aporte potencial en Práticas inovadoras na aula universitária 11 la conformación de una didáctica universitaria en el marco de la perspectiva fundamentada crítica. Pueden serlo en la medida en que contribuyan a esclarecer algunos aspectos de este campo problemático de reciente constitución disciplinar, a la vez que se presenten como una puerta de acceso al planteamiento de interrogantes y al desarrollo de líneas de reflexión e indagación, a explorar futuras investigaciones en esta área.” Discutindo a relação teoria e pratica, aparece Helena Beatriz Mascarenhas de Souza, com o texto intitulado Contra o desperdício da experiência: pelo diálogo entre teoria e prática na formação de professores na perspectiva da profissionalização docente. A autora dialoga com Santos, Carr e Gimeno Sacristán para pensar a formação inicial de professores do ponto de vista da articulação da teoria com a prática, discutindo suas repercussões na prática e na constituição da profissionalidade docente. Busca com isso evidenciar que uma relação não hierarquizada entre teoria e prática é um passo significativo rumo na direção de um novo paradigma de conhecimento. Com o título A polêmica questão sobre a teoria e a prática: um olhar histórico-político e pedagógico, Gabriela Medeiros Nogueira também traz para o debate uma reflexão acerca da relação teoria e prática no cenário educativo desde as perspectivas histórica, política e pedagógica. Para tanto, realiza um breve relato sobre a situação da formação de professores no Brasil desde o final do século XIX e início do século XX a partir de pesquisas na área da História da Educação e das Política Educacionais. Numa abordagem pedagógica, traz um relato de experiência realizada com uma turma do Curso de Pedagogia da FURG, em 2006. A partir dessa experiência, observou que, ao entrar no campo de trabalho, salas de aulas de Educação Infantil ou Anos Iniciais do Ensino Fundamental, os alunos abordam em suas análises elementos tratados teoricamente durante as aulas na Universidade. Entre os autores que corroboraram na construção do texto estão Almeida, Arroyo, Candau, Cunha, Gauthier, Nóvoa, Lucarelli, Tambara e Arriada e Tardif. Para iniciar a discussão sobre o tema da inovação, Cristina Pureza Duarte Boéssio, intitulando seu texto Inovação e formação docente: articulação teoria/prática, parte das transformações pelas quais vem passando a sociedade moderna, devido a fatores como a inserção das Tecnologias de Informação e Comunicação, e afirma 12 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) que tal mudança nos obriga a repensar a educação. No texto, a autora apresenta uma reflexão sobre a articulação teoria/prática, na proposta da disciplina O ensino de língua espanhola para as séries iniciais do fundamental, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). O texto Entre o ser tradicional e o ousar ser diferente: uma experiência pedagógica inovadora na formação de professores, de Renato Siqueira Rochefort, objetiva analisar uma experiência de ensino e aprendizagem desenvolvida no interior do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas. A proposta é romper com o modelo vigente e apresentar uma nova proposta de cotidianidade pedagógica, assentada em dois eixos norteadores fundamentais: uma concepção de ensino com pesquisa, pela articulação indissociável entre eles e a extensão universitária, e uma concepção referenciada em uma articulação entre teoria e prática, considerando-as partes inseparáveis de uma mesma unidade. O autor apresenta e discute as repercussões dessa experiência junto aos estudantes, a partir das narrativas escritas por eles, ao final de cada aula ministrada, no “Caderno de Escrita”, organizadas em cinco categorias de análise: relação professor-aluno, relação teoria e prática, relação ensino e pesquisa, concepção de conhecimento e inserção no campo profissional. A seguir, Formação de Professores na EaD: possibilidades e desafios à inovação na formação docente na implementação do Curso de Pedagogia UAB/FURG é o título da reflexão apresentada por Rita de Cássia Grecco dos Santos. A narrativa da autora emerge de sua experiência enquanto Professora e Coordenadora do Curso de Pedagogia-Licenciatura, na modalidade a distância, da Universidade Federal do Rio Grande – UAB/FURG. O texto apresenta uma análise do movimento de ressignificação de saberes e de práticas docentes que tem sido engendrado no processo acima nomeado, bem como dos limites e possibilidades da formação de professores na mesma modalidade. O Curso apresenta algumas peculiaridades que marcadamente a diferenciam da proposta de formação presencial, quais sejam: tem uma história muito recente e sua concepção tem como gênese uma demanda indicada em dezembro de 2005 pela Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação. A autora, ao vislumbrar a possibilidade de problematização acerca da constituição dos saberes docentes, tanto por parte dos professores Práticas inovadoras na aula universitária 13 do curso quanto por parte dos alunos em processo de formação inicial, ratifica a pertinência do debate acerca da constituição da professoralidade na Educação a Distancia – EaD, focadamente no que tange aos processos de formação e autoformação docente. Para analisar o processo aqui explicitado, a autora recorre ao diálogo com autores como Sousa Santos, Cunha, Moran, Tardif e Lucarelli. Adriano Moraes de Oliveira, através do texto Aprender a aprender: a solicitação da figura pecúlio como prática pedagógica inovadora na formação de professores de teatro, afirma que a natureza do campo de conhecimento do teatro fundamenta-se num contínuo processo de aprender a aprender. Por esse motivo, muitas das práticas pedagógicas desenvolvidas no âmbito da Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) podem ser consideradas inovadoras. Isso ocorre em função da própria herança deixada pelos principais diretores-pedagogos do início do século XX na forma de pecúlio, isto é, uma herança que não é dada naturalmente, mas é preciso acessá-la. Nesse texto, o autor descreve algumas das práticas significativas realizadas nas disciplinas Improvisação Teatral I e II e outras atividades desenvolvidas em projetos sobre formação de ator e espectador. O Autor considera inovadora uma prática que se configura em momento charneira, isto é, situações didáticas que impulsionam os alunos/atores a aprender a aprender, ou seja, que permitem a configuração de uma situação didática com garantias de autonomia para o aluno. Ainda com o tema da inovação, Michele Schuster Borba escreve Caminhando à luz de velas em meio à tempestade: o desafio de uma aula inovadora frente a um novo perfil de aluno na sociedade da informação, partindo de uma constatação: a organização da sociedade vem sofrendo diversas mudanças ao longo do tempo. Nas últimas décadas o avanço dos meios de comunicação e informação foi muito grande, não só em termos de difusão, mas também do surgimento de novas tecnologias que geram uma mudança significativa nos conceitos até então existentes a respeito da comunicação e na forma de compreender o espaço e a sociedade. A autora fala de um público que está bem familiarizado com as novidades tecnológicas: os jovens. Conectados ao mundo através de diversos canais, os jovens estão inseridos no mundo de uma forma diferente daquela registrada há alguns anos. Segundo a autora, estamos frente a um novo perfil de jovem e, portanto, de aluno. Na 14 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) tentativa de acompanhar o novo cenário, transformado pelos avanços tecnológicos, que impõem novos ritmos e dimensões à tarefa de ensinar e aprender, algumas escolas apostam na incorporação de tecnologias como fenômeno significativo de inovação. Assim, o estudo procura descrever o atual cenário educacional e as expectativas que existem em torno das questões a ele relacionadas, que incluem desde a organização curricular até a atuação do professor em sala de aula. O texto aborda conceitos sobre inovação para possibilitar a sua compreensão, os desafios existentes para sua realização e também o porquê da resistência em encará-la como possível e necessária. Por fim, traz para a discussão algumas considerações sobre o uso das tecnologias no ambiente escolar. Práticas inovadoras na aula universitária 15 integrantes, novas maneiras de pensar e de agir no cotidiano escolar. Sob tal contexto, e diante do novo, as palavras de ordem passam a ser: imaginar, refletir, criar, renovar, inovar, estar aberto para construir. Por isso, o texto tem o objetivo de provocar um aprofundamento nos debates sobre o tema proposto, oferecendo uma compreensão que se refere às complexidades da educação e das inter-relações entre os pares. Busca, ainda, refletir os temas propostos a partir de experiências com o Estágio Curricular Supervisionado e a formação inicial do professor, para o que conta com o diálogo como autores como Sacristán, Cunha, Lucarelli, Nóvoa, Pimenta e Schön. Irapuã Pacheco Martins, por sua vez, com o texto Tempos e trajetórias de vida no fazer-se professor: possibilidade de ruptura com o conhecimento usual, busca desvendar outra possibilidade de contato com dimensões complexas no espaço-tempo da interioridade do ser humano, onde o valor e a potência da mobilização de saberes advindos da experiência de vida têm origem no tempo vivido. Para o autor, tal movimento passa a ser orientado para os processos pedagógicos à medida que reúne condições de trazer à luz referências de si numa aproximação de uma espécie de educação de sensibilidades. As reflexões teóricas aqui apresentadas buscam ressaltar caminhos e desassossegos presentes no tornar-se professor. A proposta de ruptura perpassa os movimentos existenciais e abre espaço para a reflexão acerca da condição de aprendiz de si. Tal perspectiva supõe o resgate das trajetórias, em especial, de aprendizagens como saberes pessoais temporais e atemporais, no sentido de ressignificar a dimensão pessoal na profissional, através da presentificação de representações imaginárias-simbólicas, passíveis de serem incorporadas como conteúdos fomentadores da formação docente. Gilceane Caetano Porto, através do texto A formação da professora alfabetizadora: diálogos a partir dos currículos do Curso de Pedagogia da FaE/UFPel, discorre sobre o currículo, a partir de pesquisa que intenta compreender a relação entre as teorias sobre alfabetização adquiridas na formação inicial e a prática docente das egressas do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas (FaE/UFPel), no período de 1986 a 2006. O texto tem por objetivo compreender as características da formação inicial das pedagogas para atuação em classes de alfabetização a partir dos currículos do Curso. Para tanto, a autora utilizou fontes documentais da Instituição, como Currículos do Curso e Planos de Ensino das disciplinas do campo da Alfabetização. A análise indica que as reformulações curriculares em questão incorporam as modificações teóricas e epistemológicas ocorridas no campo da Alfabetização a partir da década de 1980. Destaca que a última reformulação curricular organizada a partir de princípios globalizadores, por exemplo, buscou romper com um paradigma racionalista de conhecimento e sugere a teoria construtivista como a base teórica para o desenvolvimento do trabalho docente nas Séries Iniciais. Com o texto intitulado Formação de Professores: novas perspectivas educacionais, Cândida Maria de Sousa Custodio também inscreve sua reflexão apostando na inovação. No contexto atual da educação, para a autora, os professores trabalham com a polêmica e com o confronto. O questionamento que faz ante tal constatação é: o que precisam conservar? O que precisam transformar? A Escola, da mesma forma, está passando por grandes transformações, e essa nova realidade que a invade é um novo tempo a exigir, de seus Por fim, o texto Expectativas sobre currículo: um olhar buscando uma proposta flexível é a proposta de debate que Ana Carolina Nogueira Oliveira faz para esta publicação, com o objetivo de apresentar algumas considerações sobre currículo. Alguns apontamentos acerca do que poderia ser uma definição de currículo, abordando o estudo comparativo feito por Ángel Díaz Barriga, de dois modelos curriculares, é parte central da discussão da autora. Partindo deles, discorre sobre os possíveis desafios a se enfrentar, 16 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) ao propor uma ruptura com a lógica adotada pelo modelo vigente, buscando trabalhar dimensões que permeiam uma proposta flexível, ancorada teoricamente em Lucarelli e na proposta de transição paradigmática defendida por Boaventura Santos. Pelotas, maio de 2009 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghigg Organizadores Las prácticas innovadoras en el aula universitaria: Una mirada desde la investigación Elisa Lucarelli* El aula universitaria quizá como ningún otro espacio institucional revela con claridad cómo se atraviesan en las prácticas cotidianas, los aspectos intrínsecos a la formación articulados con las otras funciones históricas de la institución, la producción del conocimiento y las relaciones que se establecen con el contexto social del que forma parte. Las acciones que desarrolla el docente en torno de la programación curricular, la enseñanza, la evaluación, sus formas relacionales con los estudiantes, manifiestan, cotidianamente, si se tiene en consideración o no lo producido tanto por la investigación disciplinar sustantiva como por la investigación pedagógica, los problemas de la profesión y los avances en ese campo, así como la presencia explícita o no de lo político, lo económico, lo social a través de las relaciones y las transferencias que se guardan con el entorno . El análisis de esas prácticas cotidianas y la intervención en las mismas se constituyen, en consecuencia, en un punto de partida de interés para la consideración de los procesos de cambio en la universidad, y demandan, a la vez, la búsqueda legítima de fundamentos que permitan diferenciar cuáles son las prácticas favorables en función de ese cambio. * Profesora y Licenciada en Ciencias de la Educación, Doctora en Ciencias de la Educación. Departamento e Instituto de Investigaciones en Ciencias de la Educación, Facultad de Filosofía y Letras. Universidad de Buenos Aires. E-mail:. [email protected] 18 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Las instituciones educativas latinoamericanas en general, y las universidades no son una excepción, cuentan con una penosa historia de innovaciones ajenas a su idiosincracia e impuestas a sus actores con la engañosa ilusión de transformar sus realidades cotidianas en pos de un mejoramiento de la calidad de los servicios educativos. De allí la importancia que tiene, para poder comprender el sentido y las posibilidades de cambio de las prácticas docentes , hacer algunas consideraciones desde la perspectiva teórica de la Didáctica sobre aspectos como las diferencias entre innovación tecnicista e innovación centrada en los protagonistas y en la relación entre la teoría y la práctica, , así como aportar información acerca de los niveles en que esa articulación se expresa en las prácticas en el aula universitaria. La innovación didáctico curricular en las distintas perspectivas teóricas Encarar el tema de las innovaciones en las prácticas de enseñanza promueve la reflexión acerca de cuáles son las características que definen a la innovación y en especial , cómo son entendidas esas prácticas según fuera la perspectiva didáctica que las sustentan. En el contexto de este trabajo se consideran algunos rasgos de dos caracterizaciones contrapuestas en función de esos fundamentos teóricos: la innovación tecnicista, sustentada en la segmentación y centralización de decisiones, y la innovación protagónica, con base en los principios de la Didáctica fundamentada crítica. La innovación según la perspectiva didáctica tecnicista Dos rasgos son constitutivos de la innovación tecnicista : su tendencia hacia la normatividad y su énfasis en la segmentación. En relación con el primer rasgo, puede afirmarse que este tipo de innovación se caracteriza por la connotación que Popkewitz (1987; 1994) adscribe a las reformas, definidas como parte de programas institucionales consecuentes con la lógica de la modernización y que se manifiestan a través de prácticas rituales y retóricas. Estos programas regulativos generalmente carecen de sentido para sus actores y, por tanto, no afectan los patrones de la Práticas inovadoras na aula universitária 19 conducta social; por el contrario, impiden el cambio y se convierten en instrumentos para la conservación y legitimación del orden existente (Popkewitz: 1987). La ecología de la reforma, y por tanto de sus manifestaciones concretas y específicas como son las innovaciones, se relaciona con las pautas de regulación que supone la escolarización. Así dice Popkewitz (1994: 26) “Fijadas en la retórica de la Reforma, las pautas de escolarización y de la formación del profesorado y las ciencias de la pedagogía son procedimientos, reglas y obligaciones múltiples y regionalmente organizadas que ordenan y regulan cómo se debe contemplar el mundo, actuar sobre él, sentirse y hablar de él” . Aparece aquí la relación entre innovación, saber y poder en un sentido positivo, manifiesto a través de la regulación del conjunto de prácticas y de los mecanismos tendientes a la modificación aparente de esas prácticas sin afectar sus estructuras constitutivas. Las innovaciones tecnicistas concretan este encuadre en el nivel de su expresión en las aulas. Dentro de esta perspectiva, la innovación educativa en general, y particularmente la didáctica, es entendida como modificación parcial o sustitución específica de los componentes técnicos de la situación de enseñanza y aprendizaje, sean estos los objetivos, las metodologías de enseñanza, de evaluación, los recursos o los formatos de programación, quedando en un segundo plano, las prácticas de los sujetos que intervienen en la situación, considerados como los ejecutores de la concreción en el aula de las propuestas de un proyecto tecnológico. De esta manera la segmentación se hace evidente tanto en el énfasis con que se consideran los componentes técnicos, en contraposición con los humanos, como en la supremacía de algunos de aquellos en el conjunto; esto se observa especialmente en la preeminencia de los objetivos en detrimento de los contenidos y en la sobrevalorización de las técnicas específicas y los aparatos, frente al lugar que asumen las estrategias didácticas generales. Una manifestación de la segmentación en relación con la innovación en el aula de clase es la que diferencia, los aspectos didácticos de los curriculares oponiéndolos en visiones paralelas e independientes; según esta mirada fragmentaria aquellos son encarados como componentes tecnológicos incluyendo el diseño de instrucción en el nivel de clase, y los que se presentan en la situación 20 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) de enseñanza y evaluación , mientras que los segundos se circunscriben la definición de macroprogramaciones analíticas. Se hace presente nuevamente la diferenciación entre los varios procesos relacionados con la concreción de las prácticas en el aula de clase: las modificaciones se ejecutarán en nuevas formas a seguir por parte de los docentes , sin establecer relaciones con los procesos de transformación de los planes de estudio . Queda fuera toda la historia de prácticas que el docente ha construido durante su formación en la escuela, tanto en su etapa de estudiante, como en la del ejercicio de su rol profesional. El otro aspecto medular en que se hace presente la segmentación se vincula con la condición fragmentaria en que se encuentran los aspectos de la teoría y de la práctica educativa en las situaciones que afectan las clases. Esto se evidencia en la división entre disciplinas teóricas y prácticas en los planes de estudio universitarios y en la ubicación secuencial de las asignaturas según su acercamiento o alejamiento de los aspectos relacionados con la puesta en acción de habilidades relacionadas con el ejercicio de la profesión. También se traslada esta dicotomía a la organización académico administrativa del desarrollo de las clases, con horarios, espacios, docentes diferenciados, según sea su responsabilidad la puesta en acción de los aspectos “teóricos” o “prácticos” de la enseñanza. En el ámbito de cada situación de clase puede observarse un esquema de separación semejante cuando abordan los momentos “teóricos” identificándolos con la transmisión de información por parte del docente, mientras que los “prácticos” son aquellos en los que se da alguna forma de acción posterior por parte del que aprende (Celman: 1994). Esta forma de entender la práctica separada de la teoría y en forma diferida es presentada por Heller (1977: 244)1 como propia de la “praxis repetitiva”, es decir aquélla que implica la repetición de esquemas prácticos desarrollados por otros (en este caso los docentes, los libros, los programas informáticos) y adquiridos como 1 Heller retoma la categoría de praxis repetitiva de Lefebre afirmando que “...la praxis repetitiva no es más que la repetición de esquemas prácticos desarrollados por las generaciones precedentes y ya asimilados por el particular”. Práticas inovadoras na aula universitária 21 tales por cada sujeto particular (es decir por el alumno individual o el grupo clase). Nuevamente la escisión, en este caso entre las prácticas anteriores del alumno en su historia de formación y los nuevos aprendizajes. En este mismo sentido Angulo Rasco (2000: 23) identifica como una de las cuestiones propias de estas innovaciones lo que él denomina “la orientación de la cima hacia abajo, ...[dada] por la asunción de grupos de jefes de innovadores y de grupos subordinados de adaptadores”. Dada la dirección de su propagación por el sistema desde el centro a la periferia, esos innovadores centrales son quienes toman las decisiones y definen los prototipos de innovación a aplicar en las instituciones. Las decisiones incluyen las posibles adaptaciones necesarias para adecuarse a los contextos particulares, puesto que una variación definida por éstos autónomamente podría ser considerada como una desviación del modelo previsto, en términos de incomprensión de los objetivos y estrategias originales. La innovación en la perspectiva fundamentada crítica Contrapuesta a la perspectiva tecnicista de la innovación, se perfila otra perspectiva, la fundamentada crítica, que considera la nueva práctica como ruptura, esto es ,como la interrupción de una determinada forma de comportamiento que se repite en el tiempo y que se legitima, dialécticamente, con la posibilidad de relacionar esa nueva práctica con las ya existentes a través de mecanismos de oposición, diferenciación o articulación. Quizá una clave para entender esta perspectiva de la innovación consista en preguntarse cómo se da el proceso innovador, qué es lo que se interrumpe, se altera, con la innovación. Como respuesta a estos interrogantes la perspectiva fundamentada crítica permite comprender que la nueva práctica no tiene un sentido unidimensional sino que, por el contrario, puede afectar cualquiera de los aspectos que conforman la situación didáctica: sus componentes técnicos, esto es, los objetivos, los contenidos, las estrategias de enseñanza, de evaluación, los recursos para el aprendizaje; las prácticas del enseñar y del aprender; las relaciones entre los sujetos, las formas de autoridad, de poder, que se dan en el contexto del aula o de la institución en general. 22 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Este enfoque de la innovación implica tener en cuenta el rasgo de multidimensionalidad, lo que deriva en el reconocimiento de las múltiples variables que afectan la práctica. En esta línea de pensamiento, la ruptura puede originarse en la modificación de algún componente técnico, o de una práctica específica de los sujetos, pero se propaga en el resto de los componentes de la situación. Un ejemplo de lo que ocurre en una cátedra del área de la salud, es aclaratorio de esto. En la cátedra de Odontología preventiva y comunitaria, que introduce la formación en la profesión a través de acciones extramuros, lo que se altera es la estrategia de entrenamiento en el rol profesional: se reemplazan las prácticas de ensayo en el ámbito de la facultad, por salidas a terreno en instituciones de salud, es decir hay una innovación en el componente metodológico de la situación didáctica. Sin embargo este cambio de estrategia implica a la vez cuestionamientos acerca de los contenidos a enseñar, del concepto de salud bucal, de las relaciones de la universidad con la sociedad, así como afecta las formas que adopta el rol docente, con derivaciones en las relaciones que se dan entre los docentes de distinta jerarquía dentro de la cátedra, y de los docentes con los alumnos. En la consideración de estas variables no alcanza con la exclusiva mirada didáctica en lo “técnico”, sino que se hace preciso hacer uso de herramientas psicosociales y políticas que den cuenta de un enfoque institucional amplio. Por otro lado, implementar una nueva estrategia para la adquisición de habilidades profesionales, seguramente, obliga a un análisis de la profesión desde un enfoque económico y sociológico, a la vez que una reconceptualización de qué es conocer acerca del rol profesional. Esto es, por ejemplo, cómo se define la formación del odontólogo con relación a la atención bucal de la población, cuáles son los problemas prioritarios en materia de salud bucal, en qué tipo de centros de salud se tiene que formar el estudiante, cómo se articulan contenidos teóricos con contenidos más instrumentales; implica también abordar la innovación desde las dimensiones epistemológica, social, económica, que permitan explicar las articulaciones con el contexto social amplio.2 2 El estudio de esta cátedra forma parte del Proyecto de Investigación Los espacios de formación y la articulación teoría-práctica en cátedras innovadoras de la Universidad de Buenos Aires, con dirección de la autora y desarrollado en el ámbito del Programa Estudios sobre el aula Universitaria, situado en el Instituto de Investigaciones en Ciencias de la Educación de la Facultad de Filosofía y Letras, UBA. Práticas inovadoras na aula universitária 23 El otro rasgo al que se hace mención es el referido al reconocimiento de las prácticas dentro de la historia de los sujetos, los grupos o las instituciones. Una práctica renovadora de la enseñanza puede ser entendida solamente si se la analiza como parte del conjunto de prácticas que se desarrollan en un determinado actor; se parte del supuesto que ese comportamiento cobra sentido a la luz del repertorio de formas de actuar que ha desarrollado ese sujeto a lo largo de su vida, en este caso en lo referente al desempeño de su rol docente. Utilizo para esto los aportes realizados por Bleger (1971: 45) para el análisis de la conducta, en especial a los referidos al concepto de situación relacionado con el de historia. Bleger define la situación como “el conjunto de elementos, hechos, relaciones y condiciones” en los que desarrolla un comportamiento. El hecho de que la situación “cubre siempre una fase o un cierto período, un tiempo”, permite considerar cada comportamiento actual en relación con los anteriores o posteriores referidos a una misma área o a todas en las que se manifiesta esa conducta; esto es, analizarla en relación con la historia de ese sujeto o grupo. Los principios del encuadre histórico y del situacional elaborados por Bleger (1971: 126) permiten comprender más ampliamente los procesos que se dan en el aula, dado que el encuadre histórico es particularmente esclarecedor para la indagación de “una lógica o una relación entre distintas conductas, fenómenos o acontecimientos, que se han sucedido en el curso del tiempo”. En el caso de las innovaciones se hace particularmente presente la forma del encuadre histórico que reconoce el establecimiento de relaciones o nexos entre distintas manifestaciones aparecidas en el curso del tiempo. La posibilidad de establecer relaciones con otras conductas previas o posteriores, no obliga a pensar en establecer una relación causal, sino que se trata de comprender que esas conductas son manifestaciones de un solo proceso o de un mismo conflicto.3 3 Al respecto señala como una de las formas de la lógica entre distintas conductas que se establece a partir de la indagación según el encuadre histórico, la siguiente: “La que establece relaciones o nexos entre distintas manifestaciones aparecidas en el curso del tiempo, sea en la misma o en distintas áreas de conducta; en este caso ya no se estudia una conducta dada en función de sus cambios, sino que se establecen relaciones con otras conductas que la han sucedido o precedido. El nexo o la relación que se establece no es causal, sino el de ser manifestaciones de un solo proceso o de un mismo conflicto ...” (Bleger, ob. Cit,126-7.) 24 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) El encuadre situacional es empleado en el contexto de este análisis didáctico curricular de las innovaciones para considerar la totalidad de factores que coexisten y son mutuamente dependientes en un momento dado, delimitando un campo presente, como corte transversal e hipotético de una situación dada. Esto no significa prescindir de la importancia de lo histórico; significa incorporarlo dialécticamente como activo y presente en la situación actual. En los análisis realizados por protagonistas de innovaciones, en el contexto de jornadas organizadas a tal efecto, la representación social que tienen estos docentes universitarios acerca de qué es una “innovación”, esta no es identificable con “novedad absoluta” en un contexto pedagógico amplio, relativo al nivel o al sistema educativo en el ámbito nacional o internacional, sino que se la enmarca en la historia y situación de esos sujetos en esa institución específica. Cabe señalar que esta percepción sobre el grado de relatividad de la “novedad” de la difusión ya fue observada en el desarrollo de reuniones de trabajo con el equipo de investigación del Instituto de Investigaciones en Ciencias de la Educación y con el equipo de asesores pedagógicos en sesiones de análisis sobre la temática de las cátedras innovadoras, desarrolladas durante el año 1990. Dieron por resultado la elaboración colectiva de un documento de circulación interna “Características de la Innovación” (Lucarelli, E., 1990) que, a su vez, fue analizado y reelaborado en Taller con docentes que desarrollaban prácticas innovadoras en el nivel de cátedra en la Universidad de Buenos Aires, dando, por consiguiente, lugar a una producción participativa sobre esta temática Relacionado con esto es dable sostener que tanto el encuadre histórico como el situacional, posibilitan entender a la innovación didáctico curricular como una práctica contextualizada. Se trata de una práctica cuya explicación necesita ser hecha en función y en relación con los factores concretos que enmarcan esa práctica. En este caso la situación del aula se extiende al entorno institucional y al social y comprende los factores peculiares que caracterizan los sujetos de la innovación; de igual manera, metodologías y recursos utilizados en el aula son afectados por las especificidades de cada contenido a enseñar y aprender. En consideración a los rasgos detectados en las investigaciones realizadas , la innovación en una perspectiva fundamentada crítica de la Didáctica, puede ser homologada al concepto de praxis Práticas inovadoras na aula universitária 25 inventiva. Esta es una categoría creada por Heller como opuesta a la de praxis repetitiva (Heller, 1977:245). Si bien la praxis repetitiva, al permitir hacer las cosas de manera rápida y precisa, constituye el fundamento necesario y acumulativo para el desarrollo de actividades creativas, corre el riesgo de conducir a una cierta rigidez del pensamiento; ella misma es producto de generalizaciones sin proceso y espontáneas. Puede, asimismo, reducir la sensibilidad de los sujetos hacia nuevos fenómenos o problemas, impidiendo el camino hacia la creatividad y la innovación en su accionar sobre la realidad. En contrate con esta situación, se considera que la praxis inventiva incluye siempre la producción de algo nuevo, a través de la resolución intencional de un problema que puede ser tanto de índole práctico como puramente teórico. En este campo opera predominantemente el pensamiento en sentido estricto. Dado que la búsqueda de lo nuevo está asociada con una situación insatisfactoria con relación a las prácticas habituales que desarrolla el docente en la enseñanza y con un problema que las mismas no pueden solucionar, las innovaciones didáctico curriculares pueden ser comprendidas a partir de estas notas que distinguen la praxis inventiva. De allí que, en este tipo de prácticas, los componentes didácticos técnicos y humanos cobran sentido en función del sistema de relaciones que se establecen entre ellos. En consecuencia las dificultades pueden generarse en cualquiera de los componentes de la situación didáctica. Cuando esas dificultades son percibidas por el docente como problemas pueden derivar en la elaboración de formas de resolución que impliquen modificaciones en el sistema de relaciones existente entre aquellos componentes, dando lugar a la generación de experiencias innovadoras. En este proceso la articulación teoría-práctica opera como un elemento sinérgico de la situación didáctica, ya que se constituye en una forma de potenciación de los componentes didácticos y de las acciones de los sujetos de la enseñanza y el aprendizaje asociados: por ser “...contrahegemónicos, revierten las racionalidades dominantes, tales como la competencia y coacción” (Neef, 1986: 45). Esto es, al oponerse a las formas didácticas instituidas, la articulación teoría-práctica, como factor sinérgico, consolida las relaciones entre los componentes didácticos y subjetivos y posibilita el desarrollo de innovaciones. 26 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) El lugar de los sujetos docentes en las innovaciones en el aula Esta perspectiva teórico ideológica con que se enfoca las innovaciones en el aula ha resultado de por sí contrahegemónica en períodos en que la política educativa de los países latinoamericanos, ( en muchos casos afectando sus universidades), se rigió por principios ligados al pensamiento único y a una fuerte centralización de los procesos de cambio impuestos a las instituciones. De allí que una perspectiva fundamentada crítica vuelve a colocar al docente como sujeto generador e impulsor de alternativas a las clases rutinarias y , por consiguiente, protagónico de las innovaciones. Es en este sentido, estas prácticas en el contexto didáctico curricular se entienden como expresión de un proceso creativo y de ruptura con las formas habituales de enseñanza y como producciones originales en su contexto de realización, gestadas y llevadas a cabo por un sujeto, o un grupo, a lo largo de todo el proceso. Son protagónicas en el sentido que sus creadores, al igual que en el teatro griego, son los personajes principales de la acción y toman parte en los momentos significativos de la misma. El concepto de protagonismo que se utiliza en las investigaciones sobre el aula universitaria4 tiene las mismas notas distintivas que el de participación real acuñado por Sirvent , asumiéndoselo como equivalente en cuanto a la incidencia de los actores en la génesis y desarrollo de las innovaciones. Vale recordar que Sirvent ( 1994) describe a la participación real como aquel tipo de acciones en las que los actores inciden efectivamente en todos los momentos claves y muy especialmente en las decisiones. En sus propias palabras “La participación real ocurre cuando los miembros de una institución o grupo, a través de sus acciones inciden 4 Se designa protagonistas a los docentes responsables de las innovaciones , tal como se sintetiza en el Cuaderno de Investigación publicado por el Instituto de Ciencias de la Educación, al resaltar el carácter participativo del proyecto de investigación respectivo. (Lucarelli y otros, 1991: p.15). Se retoma el concepto en una publicación ulterior (Lucarelli, 1994: 11), donde se trabaja la relación encontrada entre innovación y mejoramiento de calidad de educación y calidad de vida: “La necesidad humana de participación, o de ser protagonista de su propia historia, es en este sentido, una de las necesidades no materiales asumidas como condición y resultante de un proceso de transformación dirigido a elevar la calidad de vida de una población”. Práticas inovadoras na aula universitária 27 efectivamente en todos los procesos de la vida institucional y en la naturaleza de la decisiones. Esto por un lado, implica ejercer una influencia real (poder): a) en la toma de decisiones tanto en la política general de la institución como en la determinación de metas, estrategias y alternativas de acción; b) en la implementación de las decisiones; c) en la evaluación permanente del funcionamiento institucional. Por otro lado significa un cambio no sólo en quiénes deciden, sino en qué se decide y a quiénes se beneficia, es decir, una modificación en la estructura de poder” (Sirvent, 1994: 88). La participación real se hace presente en la práctica innovadora, al comienzo del proceso , en la etapa de determinación de las metas y estrategias , para manifestarse también en la implementación de las decisiones en el aula de clases y en el contexto institucional afectado por la innovación, y, consecuentemente en la evaluación de procesos y resultados de todo el proceso. Es en ese sentido que se afirma que identificar una innovación como protagónica, implica resaltar su intencionalidad política, dado que implica procesos que afectan la toma de decisiones al pretender irrumpir en el desarrollo de las formas tradicionales instituidas. Supone tener en cuanta a los sujetos que tienen interés en desarrollar esas prácticas a partir de la definición que hacen de la situación problemática y de las necesidades a las que responden. De igual manera opera esa intencionalidad en las modalidades estratégicas y organizativas que adopten para la modificación de aquellas prácticas. Así entendida la innovación como práctica protagónica, como acción de participación real, se contrapone a las consideradas como “innovaciones” desde una perspectiva tecnicista. En estas la programación, el diseño y decisiones consecuentes, quedan en manos de actores externos al ámbito donde se desarrolla la práctica. A los docentes y sujetos cercanos a la acción del aula se les reservan actividades de implementación de proyectos que les son ajenos, en un contexto de participación más aparente que real. Siguiendo la categorización hecha por Sirvent (1994) se trata de una participación simbólica donde hay un grado mínimo, en muchos casos ninguno, de incidencia en la gestión institucional y en las decisiones políticas de la innovación, con las consecuencias negativas de enmascarar la situación. En efecto, las situaciones de participación simbólica pueden 28 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) generar en los actores la una percepción ilusoria acerca de su incidencia en los cambios, sin que esto signifique alteraciones en la estructura de poder institucional. Al respecto dice Sirvent (1994: 88) “… la participación simbólica: a) se refiere a acciones a través de las cuales no se ejerce influencia en la política o en la gestión institucional, o se la ejerce en grado mínimo; b) genera en los individuos y grupos la ilusión de ejercer un poder inexistente, son un “como si´”. Por su parte dentro de una perspectiva didáctica fundamentada, se puede entender a la innovación como aquella práctica protagónica de enseñanza o de programación de la enseñanza, en la que a partir de la búsqueda de la solución de un problema relativo a las formas de operar con uno o varios componentes didácticos, se produce una ruptura en las prácticas habituales que se dan en el aula de clase, afectando el conjunto de relaciones de la situación didáctica. Este enfoque de comprensión de las innovaciones didáctico curriculares permite considerar que el proceso de propagación de estas innovaciones a lo largo del sistema, también desarrolla formas estratégicas que posibilitan un trabajo participativo y reflexivo, dado que la generación se produce en las bases del sistema, a partir de las acciones de los sujetos docentes, posibilitándose la incorporación en red, de otros docentes motivados hacia la innovación. De allí que esta transferencia se desarrolla a partir de procesos reflexivos sobre las prácticas que el docente realiza habitualmente, a través de una consideración de la propia historia, lo que facilita la percepción de la necesidad de innovar y la elaboración de estrategias posibles para cada situación. Por su parte la imbricación que se da en este tipo de prácticas entre los procesos de programación e implementación pone de manifiesto un alto grado de protagonismo en el reconocimiento de la motivación para la adopción, y consecuentemente, se crean condiciones para el desarrollo de líneas de participación creciente en la toma de decisiones por parte de los sujetos responsables de la práctica de la enseñanza en el aula. Práticas inovadoras na aula universitária 29 Práctica emancipatoria e innovación Me interesa en este análisis de la innovación en el aula establecer relaciones con una problemática más amplia como es la de la tensión existente entre regulación y emancipación en la universidad de nuestro tiempo. Con esta preocupación tomo los análisis de la institución realizados, en su proceso histórico, por el sociólogo portugués Boaventura de Sousa Santos, y en lo relativo a los procesos del aula universitaria por las investigadoras brasileñas, Leite, y Da Cunha, quienes desde hace dos décadas enfatizan su preocupación por superar, a través de sus estudios, explicaciones exclusivamente pedagógicas acerca de esos procesos La reflexión sobre estos aspectos obliga a reiterar la articulación que se reconoce entre paradigmas de las Ciencias Sociales y perspectivas didácticas. En este caso referirse a la innovación implica reconocer la presencia, en el análisis didáctico, de los principios y fundamentos que distingue el paradigma de la teoría crítica, según el cual el conocimiento emancipatorio siempre busca revelar los mecanismos de poder y hegemonía presentes en los procesos sociales. (Sirvent, 2002 ) Desde este encuadre resulta importante indagar los rasgos que Boaventura Santos reconoce en la universidad “en transición paradigmática”, como facilitadora de las prácticas de enseñanza con posibilidades de innovación. En “De la Mano de Alicia”, Santos presenta las características que definen esta institución en el fin de milenio, las contradicciones que se dan en su interior, las formas de resolverlas, las notas que distinguen al saber que produce y transmite, orientándose hacia la construcción de un nuevo modelo de universidad. Santos (1998) percibe la universidad actual enfrentada a una situación compleja, que se presenta entre los desafíos cada vez mayores que tiene acerca de ella la sociedad, y las presiones del Estado, cuyas políticas de financiamiento implican restricciones cada vez más severas. Dada su rigidez funcional y organizativa de la institución universitaria, el autor cuestiona sus posibilidades para hacerse cargo de esos desafíos; aparece como un organismo relativamente impermeable a las presiones externas y con dificultades para resolver dinámicamente las contradicciones que manifiestan sus funciones. 30 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Boaventura Santos señala que esas contradicciones se hacen evidentes a través de una crisis con una triple faceta: de hegemonía, de legitimidad e institucional. La crisis de hegemonía se da a partir de la imposibilidad de resolver la contradicción entre conocimientos “ejemplares” para la formación de elites y la producción de la alta cultura, como contenidos históricamente demandados, versus los conocimientos “útiles para la transformación social” y los destinados a la formación de la fuerza de trabajo, que se constituyen en nuevas exigencias del contexto actual. La crisis de legitimidad, a su vez, es producto de la contradicción entre la jerarquización de saberes especializados, que tiene lugar a través de mecanismos como la restricción al acceso y la certificación de competencias, y las exigencias sociopolíticas de democratización y de igualdad de oportunidades; esta crisis expresa la carencia de objetivos colectivamente asumidos acerca de la institución deteriorando una imagen consolidada de la misma. Por último, la crisis institucional, concreta la contradicción entre la autonomía institucional y la demanda de productividad social; consecuentemente “... su especificidad organizativa es puesta en tela de juicio y se pretende imponerle modelos organizativos vigentes en otras instituciones consideradas más eficientes”. (Santos, 1998: 229). Boaventura Santos al definir a la universidad moderna como sede “privilegiada y unificada de un saber privilegiado y unificado”, plantea la necesidad de pensar en otro modelo de alternativo al vigente. El contenido que produce y transmite la universidad actual es propio, en la visión de Santos, de las tres racionalidades de la modernidad: la cognoscitiva instrumental de las ciencias (apropiadas por las ciencias naturales), la moral práctica del derecho y la ética, y la estético expresiva de las artes y la literatura. La hegemonía de la racionalidad cognoscitiva instrumental representa el desarrollo del paradigma de la ciencia moderna; su crisis conlleva la crisis de la idea de la universidad moderna. La universidad debe asumir que está en una fase de transición paradigmática desde la ciencia moderna a un nuevo tipo de ciencia con un “perfil vagamente visible”, todavía sin denominación clara, y que, por tanto, designa como enmarcado en la posmodernidad, una ciencia que pueda manifestarse como activa, autónoma y Práticas inovadoras na aula universitária 31 estratégicamente orientada al mediano y largo plazo. Aceptar las características de esta fase de transición, no implica homologarla con el pensamiento posmoderno como superador histórico del dominio de la racionalidad técnica en este terreno. Desde la perspectiva de la hermeneútica y la ciencia social crítica, la construcción del conocimiento se da a través de la inclusión del sujeto en las relaciones con el objeto, la comprensión de significados como camino metódico, a la articulación dialéctica entre teoría y práctica, la definición de la dimensión sociohistórica política en los fenómenos a estudiar, el reconocimiento de la necesidad de la transformación estratégica de la sociedad incluyendo la participación reflexiva y crítica de las mayorías. En el contexto de este paradigma emergente, Boaventura Santos asocia la universidad con el planteamiento de una doble ruptura epistemológica. Al ser la primera ruptura aquella de la ciencia moderna en contra del sentido común, que dio lugar al desarrollo científico y , a la vez, dificultó la participación de los sujetos en el descubrimiento del mundo, se hace necesario que esta segunda dé lugar a la construcción de un nuevo sentido común, que implique una configuración de saberes. Es aquí donde Santos (1998: 274) enfrenta el tema de la innovación, como proceso posible de ser gestado por la propia institución: “En la fase de transición paradigmática, la universidad tiene que ser también la alternativa a la universidad. El grado de disidencia mide el grado de innovación. Las nuevas generaciones de tecnologías no pueden ser pensadas por separado de las nuevas generaciones de prácticas e imaginarios sociales”. Reconoce su potencialidad para ser una institución “emprendedora” (es decir, con capacidad de hacer las cosas en forma diferente ), y señala que “... la universidad debe hacer coaliciones políticas con los grupos y las organizaciones en los que la memoria de la innovación esté presente” (Santos: 280). Estas ideas las retoma y actualiza en La crítica de la razón indolente, donde reconoce la transición paradigmática como período histórico y como mentalidad: “... La transición paradigmática es, así, un ambiente de incertidumbre, de complejidad y de caos que repercute en las estructuras y en las prácticas sociales, en las instituciones y en las ideologías, en las representaciones sociales y en las inteligibilidades, en la vida vivida y en la personalidad. Y 32 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) repercute muy particularmente tanto en los dispositivos de regulación social, como en los dispositivos de emancipación social” (Santos, 2000: 257). De allí, entonces, que analice la transición paradigmática desde su doble vertiente, epistemológica y societaria, presentándolas como procesos autónomos y a la vez íntimamente relacionadas. Este punto permite articular el tema de la institución universitaria y sus posibilidades de transformación múltiple, con el de la innovación en las prácticas de enseñanza, puesto que Santos (2000: 344) señala que “formas alternativas de conocimiento generan formas sociales alternativas y viceversa”, a la vez que reconoce al concepto de subjetividad su carácter de mediador entre conocimientos y prácticas, y sus posibilidades de concreción en procesos autorreflexivos. En este contexto se afirma que las innovaciones didáctico curriculares, de naturaleza protagónica, pueden ser vistas como un elemento de articulación entre un proyecto macro de transformación institucional y los cambios sustantivos en el nivel de aula que posibiliten la formación de sujetos que desarrollen tanto aprendizajes cognoscitivos como afectivos en situaciones alternativas a la tradicional.5 Las acciones emprendidas por los grupos de docentes o por asesores pedagógicos para dar a conocer las experiencias a otros docentes, llevando a cabo procesos autorreflexivos, a la manera de lo descrito por Santos, se presentan como formas autogestionadas de propagación de la innovación en ámbitos institucionales más amplios.6 Aporta el concepto de frontera, presentando a esta como 5 6 En términos de Santos “...hay que inventar una subjetividad constituida con el topos de un conocimiento prudente para una vida decente” (ob. cit. p.345) “...imaginar una subjetividad suficientemente apta para comprender y querer la transición paradigmática, para transformar la “inquietud” en energía emancipatoria”.(ob. cit., p. 346) Resultan interesantes las consideraciones de Santos sobre este tema, que son coincidentes con la estrategia de los Talleres y de las Jornadas de docentes innovadores y con asesores pedagógicos de las Facultades (Lucarelli, 2000) que se desarrollaron como parte de la Investigación del IICE mencionada precedentemente; el autor sostiene que los procesos autorreflexivos se deberían dar ex ante, posibilitándose así el análisis de las posibles consecuencias de las acciones que desarrollan las comunidades en este sentido, en sus esfuerzos por la constitución de redes. (Santos: 2000, pp.342-7) Práticas inovadoras na aula universitária 33 una de las orientaciones que guían la construcción de una subjetividad individual y colectiva. Señala como características de la frontera el uso selectivo e instrumental de las tradiciones, la invención de nuevas formas de sociabilidad, la existencia de jerarquías débiles, la pluralidad de poderes y órdenes jurídicos, la fluidez en las relaciones sociales y la promiscuidad de “extraños e íntimos”, de herencia e invención. Algunas de estas notas, en especial las relativas a la existencia de relaciones más dinámicas en la cátedra entre docentes de distinta categoría, o la articulación de elementos de las prácticas existentes con los propios de las experiencias innovadoras, se hacen presentes en mis análisis de las innovaciones didáctico curriculares en el aula universitaria. En esta perspectiva se incorporan los aportes de Da Cunha y Leite quienes7 afirman que la práctica innovadora se entiende en el contexto institucional de las relaciones de poder y contiene en sí un germen de ruptura;8 esta puede evidenciarse en un cambio de currículum, de las relaciones entre docentes y alumnos, del encuadre epistemológico y especialmente de la enseñanza y de la configuración de la docencia (Leite, Braga y Genro, 1997: 32). En función de aquel contexto y de la perspectiva teórico-ideológica en que se sitúe, la innovación puede servir para la perpetuación del paradigma de la modernidad, como ser un instrumento para su negación, en un paradigma emancipatorio. Leite, Braga y Genro (Leite, Braga y Genro, 1997: 34-5), reconocen en las innovaciones tendientes a la emancipación, rasgos como los siguientes: incertidumbre, ruptura, multiculturalidad, contextualización, historicidad, protagonismo, complejidad en el conocimiento, y anticipación en las acciones.9 Analizan experiencias universitarias tales como evaluación, educación popular, enseñanza a distancia, examen de ingreso (vestibular”) y aula universitaria 8 En sus trabajos sobre innovaciones Leite y Da Cunha reconocen haber abordado a partir de nuestras investigaciones algunas categorías referidas a la innovación en el aula, tales como ruptura y protagonismo. Al respecto ver Da Cunha (1997, 1998), Leite, org. ( 1999) . 9 Leite, Genro y Braga (1997: 34-5) describen así estos rasgos: - Surge en contextos de incertidumbre - Supone ruptura con relación a el sistema conservador neoliberal y con un contexto de regulación - Se construye en la articulación de racionalidades que exceden la cognitivo instrumental, fundamentándose en conocimientos de diversa índole. 7 34 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Por su parte Da Cunha, en el contexto de transición paradigmática de la universidad, trabaja con dos ideas principales: la intencionalidad en la innovación y el profesor como actor principal en las decisiones universitarias. En sus estudios sobre el aula y sus procesos (Da Cunha, 1997), insiste en la idea de la intencionalidad como elemento para provocar rupturas en las tareas de enseñar y aprender en la universidad. A la vez reconoce algunas tensiones propias de esos procesos que son favorables para el análisis de las innovaciones, tales como: la relación enseñanza-investigación, la relación teoría-práctica (Da Cunha 1997: 80-83), y la relación entre decisiones académicas y las formas de control de conocimiento hechas por la estructura de poder económico social. En este contexto el profesor es actor fundamental en los cambios que se dan en la universidad, “...dada su condición de dar dirección a la práctica pedagógica que desarrolla, reconociendo en ella los condicionantes históricos, sociales y culturales”. (Da Cunha, 1998: 33).10 En las propias narrativas de estos actores, aparece una visión epistemológica diferente a la de la ciencia moderna en la enseñanza, visión que sirve de base de la propuesta innovadora.11 Equipos docentes e innovación fundamentada crítica Los rasgos con que caracterizo la innovación didáctico curricular en una perspectiva fundamentada crítica me permiten identificarla con las prácticas que se dan en las instituciones - Es multicultural y se da en un contexto histórico, en la tensión de espacios micro y macroinstitucionales, en los juegos de poder y conflicto entre personas (profesores, alumnos, dirigentes institucionales). - Implica protagonismo, destacando la importancia de la subjetividad y de la posibilidad que tienen los sujetos de decir su palabra, y encerrando nuevas configuraciones de poder, al cambiar las relaciones entre las bases y las decisiones centrales, en el aula, en la universidad, en el sistema educativo. - Puede contener un proceso de cambio que no es espontáneo y que surge en determinadas circunstancias, en un punto en que el todo y las partes se obligan a tomar otras direcciones, aún cuando no se constituya en un cambio total. 10 Esta temática había sido abordada por Da Cunha dentro de un tratamiento más general, propio de la problemática del docente en el sistema educativo, en una obra anterior, (1989) O bom professor e sua prática. 11 La autora elabora un cuadro, (1998: 30) donde contrapone las tendencias paradigmáticas de la ciencia moderna con las de las ciencia posmoderna, teniendo en cuenta para ello las contribuciones de Santos sobre el tema. Práticas inovadoras na aula universitária 35 “cruzadas”, categoría creada por Fernández (1994), como aquellas opuestas a las instituciones “cenáculo” , homologables a las innovaciones tecnicistas. Fernández indica que las instituciones “cruzadas” asumen la representación social de ser portadoras de “procesos de transformación derivados del propósito de democratizar el conocimiento...” (Fernández, 1994:163), por lo que se organizan alrededor de un guión utópico, en el cual hay baja conservación de la tradición y se orienta hacia la innovación y el cambio. Las metas son abiertas, orientadoras de un proyecto que se delinea en la práctica; los procesos de control están basados en la autorregulación de la acción en función del interés de los sujetos en el proyecto, por lo que la distribución de responsabilidades es flexible, con intercambio de roles; la estructura de poder da lugar a la participación en la toma de decisiones (Fernández, 1994: 164-166). Innovación y articulación teoría-práctica en el aula universitaria En una perspectiva didáctica crítica acerca de la enseñanza en la universidad y sus posibilidades de transformación , la articulación teoría-práctica aparece como un factor central en la constitución de innovaciones, dado la importancia que asume en la institución las definiciones acerca de la naturaleza del conocimiento tanto en lo relativo a su producción como en lo referente a los procesos y contenidos en la formación de los sujetos; a la vez, esa articulación se hace presente en la universidad a través de la inclusión de la profesión, sus representaciones y sus prácticas, como anticipatorias del campo laboral del egresado. En el escenario institucional confrontan distintas perspectivas acerca de la vinculación de lo teórico y de lo práctico, desde aquellas que en forma tajante marcan su separación, hasta otras que propician una articulación dinámica entre los componentes. Las primeras proclaman predominantemente la supremacía de la teoría en detrimento de la práctica, a la vez que la homologación de la práctica con lo técnico; esta escisión hace a un empobrecimiento en el acceso al conocimiento, traduciéndose en la segmentación de las propuestas y de las formas de operar de la enseñanza y el aprendizaje en el aula universitaria. Planes de estudio con asignaturas 36 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) “teóricas” y “asignaturas prácticas”, con la existencia de tramos iniciales dedicados a la preparación en los fundamentos teóricos de la profesión, que se constituyen en la casi totalidad del tiempo previsto para la formación, a los que sigue un muy limitado espacio final para el entrenamiento en las “habilidades de la práctica profesional”, la división horaria entre clases teóricas y prácticas, la existencia de docentes responsables de la enseñanza de la teoría, los de mayor prestigio y poder institucional, y de docentes para la enseñanza de la práctica como aspecto más instrumental de los contenidos a aprender, son algunas de las consecuencias de estas posiciones frente al conocimiento. La segunda perspectiva permite entrever la superación de ese pensamiento dicotómico e inmutable , posibilitando un espacio para pensar en cómo articular teoría y práctica sin negar una la importancia de la otra: la praxis, como forma de acción reflexiva, puede transformar la teoría que la rige, pues ambas están sometidas al cambio. “Ni la teoría ni la práctica gozan de preeminencia: cada una modifica y revisa continuamente la otra”. (Carr, 1996: 101). La relación teoría-práctica se manifiesta en distintos ángulos: como producción del conocimiento pedagógico a través de la investigación, considerando la metodología utilizada para ello; como función de la teoría con relación a la práctica en el análisis de los procesos de difusión de experiencias protagónicas; en los distintos significados que asume la práctica en las acciones reflexivas de formación docente; y, muy especialmente, como manifestación en el aula de clase, en su relación con las programaciones y con el método de enseñanza. Práticas inovadoras na aula universitária 37 - Como principio general metodológico Interesa considerar, en primer lugar, algunos aspectos que hacen a la articulación teoría-práctica como principio general metodológico que connota los procesos de enseñar y de aprender desarrollados en toda situación didáctica. La articulación de lo teórico y lo práctico se presenta en el aula de clase por lo menos en tres vertientes: como proceso dialéctico de apropiación del conocimiento ( Wachowitz ,1995) en el que a través del método didáctico se trasladan al contexto del aula las notas propias del método dialéctico, afirmando el carácter activo del sujeto para aprehender su realidad; como construcción del conocimiento (en el sentido que lo toma Litwin, 1997, para su categoría de configuración didáctica 12 ), y como aprendizaje significativo, (en la adquisición de nuevos materiales por parte del alumno mediante su vinculación a algún aspecto de la estructura cognitiva existente según la concepción de Ausubel, 1976). Esta comprensión del aprendizaje en su carácter de proceso general y genuino, supone la alternancia, sucesión y predominio de momentos teóricos y prácticos en las actividades previstas en la propuesta de enseñanza. En la experiencia didáctica innovadora esta vinculación entre lo teórico y lo práctico connota los distintos componentes didácticos y las formas de relacionamiento que se generan entre ellos. Contenido, estrategias de enseñanza y evaluación, propósitos, recursos van conformando y son conformados a la vez por tramas que se ordenan y adquieren sentido en función de cómo se manifiesta aquella vinculación. Los niveles de expresión de la articulación teoríapráctica en el aula universitaria En la última dimensión mencionada en el párrafo anterior, la didáctica , es donde se pueden derivar líneas de la articulación teoríapráctica que resultan significativas para las innovaciones en el aula universitaria, por lo menos en dos sentidos : como principio general metodológico que atraviesa la trama en que se manifiestan los componentes didácticos, posibles ejes de problemas detonadores de lo innovador ; y, en un sentido más específico de la institución universitaria, como proceso de formación en la profesión. 12 Litwin (1997: 97) dice que la configuración didáctica es “... la manera particular que despliega el docente para favorecer los procesos de construcción del conocimiento... una construcción elaborada en la que se pueden reconocer los modos como el docente aborda múltiples temas de su campo disciplinar y que se expresa en el tratamiento de los contenidos, su particular recorte, los supuestos que maneja respecto del aprendizaje, la utilización de prácticas metacognitivas, los vínculos que establece en la clase con las prácticas profesionales involucradas en el campo de la disciplina de que se trata, el estilo de negociación de significados que genera, las relaciones entre la práctica y la teoría que incluyen lo metódico y la particular relación entre el saber y el ignorar” 38 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) En esta línea de pensamiento, en especial en lo relativo al esclarecimiento de cómo se expresa la innovación, resulta importante recurrir a los aportes que hace Eisner (1994) quien trabaja, con la categoría de sintaxis, entendida como ordenamiento de las formas dentro de un conjunto, esto es, de las partes de un todo.13 En un continuo de formas de representación, el autor ubica en sus extremos a las sintaxis regidas por reglas y a las sintaxis figurativas. Las primeras, homologadas a los códigos, son las formas de representación cuyos elementos se deben organizar según una serie de reglas públicamente codificadas y prescriptivas. Por su parte las sintaxis figurativas se rigen por regularidades que no están formalmente codificadas, su carácter no es prescriptivo y no se orientan a encontrar soluciones uniformes para tareas o problemas comunes; permiten una interpretación personal y una forma novedosa (ob.cit.:87). Al necesitar de la imaginación, pueden identificarse con las metáforas (ob.cit: 89) A partir de estos hallazgos de Eisner se puede sostener que los componentes enmarcados en la situación didáctica, expresan distintas formas de manifestar cómo se relacionan los momentos teóricos y prácticos que se suceden y alternan en la enseñanza, definiendo así distintas propuestas de aprendizaje para los alumnos. Se reconocen así las variadas sintaxis que asumen las formas estratégicas de enseñanza y las actividades que desarrollan los estudiantes, es decir la modalidad de cómo se da el ordenamiento de las formas que asume la relación teoría-práctica dentro de un conjunto de componentes de la situación didáctica. De este modo se entiende que las experiencias innovadoras manifiestan un ordenamiento semejante, en algún grado, al de las sintaxis figurativas, ya que se prevén situaciones didácticas con alto grado de flexibilidad en sus formas de llevarlas a la práctica y de ser desarrolladas por el estudiante en su proceso de aprendizaje. 13 Eisner (1994: 86) al analizar las formas de representación sostiene lo siguiente: “Todas las formas son formas ordenadas. Y justamente llamo sintaxis al ordenamiento de las formas. El término sintaxis se aplica sobre todo al lenguaje hablado o escrito, pero por su raíz (del latín syntaxis) significa “ordenar”. La sintaxis es entonces, un ordenamiento de las partes dentro de un todo ...el término sintaxis no se limita al discurso, oral o escrito. Puede designar, como designaba originalmente, el problema más general de la disposición de elementos dentro de un todo”. Práticas inovadoras na aula universitária 39 - Como proceso de formación en la profesión Un aspecto particular de la dimensión didáctica, en especial en lo que respecta al aula universitaria, la formación en la profesión se hace presente como revelador de las formas que adquiere la articulación teoría-práctica en esta institución. La “nueva epistemología de la práctica”, a la que hace referencia Donald Schön, aporta nuevos enfoques acerca de los procesos de formación de profesionales en las competencias específicas cada campo. Esta nueva epistemología supone que la articulación de la teoría y la práctica se desarrolla a través de una estrategia metodológica en la que se propicia la reflexión en la acción. Se alude a la posibilidad de pensar en lo que se hace mientras se está haciendo, tal como lo realiza el profesional en la resolución de situaciones cotidianas en las que deben encarar la incertidumbre y el conflicto sin pretender aislarse de esa situación o detener el proceso tal cual se produce. El conocimiento en la acción incluye tipos de conocimiento que se revelan en las acciones inteligentes ya sean observables o no, ejecutadas en forma espontánea y hábil y generalemnte no explicitadas en forma verbal, si no media una reflexión intencional. Esta forma de reflexión se diferencia de la reflexión sobre la acción, en la que la “reflexión carece de una conexión directa con la acción presente” (Schön, 1992: 37). Cuando se reflexiona en la acción, por el contrario, se puede reorganizar lo que se está haciendo simultáneamente a la acción. En otro orden, la nueva epistemología de la práctica implica la acción de investigadores que desarrollan la reflexión sobre la reflexión en la acción, dando lugar a la elaboración de los principios fundantes de esa disciplina. En el caso de la formación en la práctica profesional, el conocimiento en la acción propio de cada campo adquiere las características que le otorga el contexto estructurado, social e institucional, de esa profesión. Conocimiento profesional y sistema de valores compartido definen un determinado campo profesional y generan las formas del conocimiento en acción, a la vez que la concepción epistemológica acerca de la práctica profesional determina la estrategia general de formación. De allí que según estuviera esa concepción regida por la racionalidad técnica o, por el contrario, se diera a través de un proceso dinámico y constructivista, será la definición de los contenidos curriculares propios de esa práctica y la 40 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) forma estratégica prevista para su enseñanza. Esos contenidos incluyen, además de los aspectos previsibles de la profesión, tales como conocimientos y habilidades específicos, aquellos otros relacionados con situaciones en las que el profesional define cursos de acción, aceptando la existencia de “zonas indeterminadas de la práctica” que se caracterizan por la incertidumbre, la singularidad de la situación y el conflicto de valores. Consecuente con esta línea de pensamiento, Schön transfiere al ámbito del aula universitaria, dos rasgos estratégicos que identifica en formaciones relacionadas con el arte y el diseño: el aprendizaje en acción y la enseñanza tutorial. A partir de la definición de estos dispositivos propone la estructuración de un espacio didácticocurricular donde concretarlos, esto es un prácticum, “situación pensada y dispuesta para la tarea de aprender una práctica”( Schön, ob.cit.: 45). Dado que es propiciador para la nueva epistemología de la práctica, denomina a este espacio prácticum reflexivo: lugar donde se ayuda a los estudiantes universitarios que se están formando en una profesión, a ser capaces de algún tipo de reflexión en la acción, a través de un diálogo entre docente-tutor y alumno.14 La articulación teoría-práctica que atraviesa la reflexión en la acción permite reconocer las diversas formas que adopta la enseñanza en el prácticum reflexivo, se constituyen así modelos que difieren según la estrategia general adoptada en función del contenido a enseñar, determinado, a su vez, por la profesión objeto de formación. La demostración y la descripción, junto al análisis de la práctica definen el modelo de enseñanza en las artes y el diseño; el análisis compartido de la práctica profesional desarrollada por el docentetutor es un eje central del modelo desarrollado en otros campos en los que la práctica tiene fuerte componente personal, como la docencia, la gestión, el trabajo social o el psicoanálisis (Schön, ob. 14 Dice Schön (1992 ) al respecto: “El marco educativo en el que se desenvuelve habitualmente un taller de diseño es el de un practicum reflexivo... es reflexivo en dos sentidos: se pretende ayudar a los estudiantes a llegar a ser capaces en algún tipo de reflexión en la acción... ello implica un diálogo entre el tutor y el alumno que adopta una forma de reflexión en la acción recíproca” (p. 10). Amplía más adelante para destacar el tipo de aprendizaje en la práctica profesional que favorece: “...denominaré un ‘practicum reflexivo’: unas prácticas que pretenden ayudar a los estudiantes a adquirir formas de arte que resultan esenciales para ser competente en als zonas indeterminadas de la práctica”. (p. 30). Práticas inovadoras na aula universitária 41 cit.:198). La experimentación sobre el marco conceptual a partir de la reflexión dialogada acerca de los componentes que definen la situación de práctica, caracterizan también la formación en estas profesiones (Schön, ob. cit.:195), así como en la abogacía y la medicina.15 Schön señala estas formas como predominantes de la tutorización en la formación en cada campo profesional, pero no absolutas ni excluyentes, dado que el tutor puede cambiar de forma y combinarlas según las necesidades que se manifiesten en la clase. Por otro lado estas referencias teóricas permiten trascender una visión ingenua acerca de cómo y qué incluir en la enseñanza de una profesión, favoreciendo la adopción de una mirada compleja sobre los contenidos curriculares. Esta mirada hace a la inclusión de contenidos de la esfera cognoscitiva como aprendizajes posibles y deseables, junto a otros de orden personal y socio-institucional, tales como los relativos al impacto afectivo de los procesos de inserción en la práctica como parte de la socialización en el rol profesional. Otros niveles particulares de la articulación teoría-práctica en el aula universitaria Como proceso general y genuino de aprendizaje, y como formación en la profesión, estas dos modalidades sintácticas de articulación teoría-práctica se constituyen, en las vías principale, o en el primer nivel, de expresión esa articulación en el aula universitaria, permitiendo a la vez reconocer otras formas sintácticas de menor grado de generalidad, denominadas formas específicas y modalidades particulares . Las formas específicas de expresión representan el segundo nivel y hacen referencia a la concreción de la articulación teoríapráctica como innovación en función de la finalidad o eje central que ella manifiesta en la situación didáctica. Esa finalidad, entendida como elemento estructurador de la articulación, puede evidenciarse 15 Schön sintetiza en estas expresiones los tres modelos de formación en la práctica profesional antes descrito: “¡sígame!”, para la demostración en las artes y el diseño; “experimentación compartida” para el desarrollo de la puesta en acción reflexionada del marco conceptual, y “sala de espejos” para el análisis reflexivo de la práctica profesional del docente tutor o del estudiante, propias de las profesiones centradas en el comportamiento. 42 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) en torno a los componentes didáctico-curriculares. Tal es el caso del contenido curricular, que puede manifestar formas alternativas tanto en su constitución como objeto disciplinar, como en lo relativo a las modalidades de su organización en la propuesta. En cuanto a lo metodológico, la experiencia innovadora puede expresar nuevas formas de encarar la articulación teoría-práctica en lo referido a la definición de estrategias generales de enseñanza, como también estrategias particulares relativas a la preparación en los roles profesionales. Se presentan cinco formas específicas de concreción de la relación teoría-práctica según estos ejes: estrategia de entrenamiento en el profesional, núcleo articulador de la organización curricular, estrategia general metodológica, aprendizaje de la creatividad, y construcción del objeto de estudio. El tercer nivel en que se expresa la vinculación de lo teórico con lo práctico en el aula universitaria, o modalidades particulares de esa vinculación, son aquellas formas de más baja generalidad, portadoras de situaciones didácticas que desarrollan la articulación teoría-práctica, definidas en función de cómo son percibidas por los sujetos que intervienen en esas situaciones y que se concretan en las actividades que integran las estrategias de enseñanza. Se incluyen como modalidades particulares de la articulación teoría-práctica desde aquellas con un grado bajo de orientación hacia el aprendizaje significativo y en las que la acción desarrollada por el estudiante hacia el aprendizaje significativo es más restringida (tal es el caso de la ejercitación o la ejemplificación) hasta otras como la resolución de problemas, la producción, el trabajo crítico en las que las actividades desarrolladas por el alumno son de mayor grado de complejidad y autonomía en la construcción del conocimiento. En este encuadre, en la categoría de ejemplificación se incluyen situaciones en las que el sujeto del aprendizaje desarrolla acciones destinadas a demostrar, probar o explicar a través de ejemplos, casos, situaciones particulares que den cuenta de lo que se describe y sustenta en la presentación de un concepto teórico de carácter general. En el otro extremo de complejidad de las categorías de este nivel, la resolución de situaciones problemáticas es entendida como una modalidad particular de enseñanza en que la articulación teoríapráctica se expresa a través de la presentación de problemas, organizados de tal manera que posibilitan al sujeto del aprendizaje Práticas inovadoras na aula universitária 43 elaborar estrategias para abordarlas, darle resolución y fundamentarlas. Como antecedente fundante de esta estrategia, puede señalarse la importancia que Dewey en Democracia y educación (1971), atribuye al problema, al reconocerlo como un “estímulo para el pensamiento”, que se deriva de una situación auténtica de experiencia en la que el alumno se sienta genuinamente interesado.16 En el mismo sentido, arriba expresado, de máxima centralidad para favorecer la construcción del conocimiento, Litwin (1997:121) reconoce la configuración didáctica centrada en la situación o caso problema como objeto paradigmático,17 como una de las ocho categorías de la clase universitaria, identificadas en las observaciones realizadas en el marco de su investigación sobre enseñanzanza superior. Otra modalidad particular de alta complejidad en la que se expresa la articulación teoría-práctica, es la relativa a la producción; esta implica la realización de una tarea o un objeto de tipo cognitivo o material que permita sintetizar, identificar, derivar o retrabajar contenidos conceptuales, procedimentales y actitudinales adquiridos por el alumno. El trabajo en terreno es considerado como una subcategoría de la producción. Se lo define como la actividad de articulación teoría-práctica que se concreta en tareas fuera del ámbito del aula, y que incluye, entre otras, observación y búsqueda de información, así como desempeños que implican la puesta en acción de contenidos conceptuales, procedimentales y actitudinales previos, que, a su vez, pueden operar como “disparadores” para la adquisición de nuevos contenidos. En la enunciación de las condiciones que debe reunir el método pedagógico Dewey (1971: 178) destaca el valor del problema en la situación de enseñanza y aprendizaje, al expresar como recomendable lo siguiente: “Primero, que el alumno tenga una situación auténtica de experiencia, es decir una actividad continua en la que esté interesado por su propia cuenta; segundo, que se desarrolle un problema auténtico dentro de esta situación como un estímulo para el pensamiento; tercero, que el alumno posea la información y haga las observaciones necesarias para manejarla; cuarto, que las soluciones sugeridas se le ocurran a él, lo cual le hará responsable para desarrollarlas de un modo ordenado, y quinto, que tenga la oportunidad para comprobar las ideas por sus aplicaciones para aclarar su sentido y descubrir por sí mismo su valor”. 17 Litwin denomina objeto paradigmático al tipo de clases estructuradas alrededor de un abordaje central en la disciplina, habiéndolo identificado en clases de crítica literaria, de psicología y de didáctica (ob. cit.: 121). 16 44 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) A modo de conclusión Los conocimientos que se presentan en este trabajo acerca de las cátedras universitarias que llevan a cabo innovaciones y el comportamiento de la articulación teoría-práctica como eje dinamizador en la estructura didáctico curricular, sus diversas modalidades de expresión de esa articulación, así como acerca del papel que juega en el origen y desarrollo de esas innovaciones, aspiran a constituirse en un aporte potencial en la conformación de una didáctica universitaria en el marco de la perspectiva fundamentada crítica. Pueden serlo en la medida en que contribuyan a esclarecer algunos aspectos de este campo problemático de reciente constitución disciplinar, a la vez que se presenten como una puerta de acceso al planteamiento de interrogantes y al desarrollo de líneas de reflexión e indagación, a explorar futuras investigaciones en esta área. Práticas inovadoras na aula universitária 45 DEWEY, J. Democracia y educación. Bs. As. Losada, 1971. EISNER, E. 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Contra o desperdício da experiência: pelo diálogo entre teoria e prática na formação de professores, na perspectiva da profissionalidade docente* SIRVENT, M.T. Educación de adultos: investigación y participación. Bs. As. El Quirquincho, 1994. Helena Beatriz Mascarenhas de Souza** _____. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. Vol. 1: A crítica de razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo. Cortez, 2000. _____. Clases de Investigación y Estadística Educacional I, (FFyL, UBA), Desgrabación clases Nº 12 y 13. I cuatrimestre. Mimeo, 2002. WACHOWICZ, L. O método dialético na didática. Campinas. Papirus,1995. Primeiras idéias O debate entre teoria e prática como opostos em um continuum é velho no mundo: do senso comum a uma ciência que se fez dicotômica em nome de certa racionalidade, estes são termos habitualmente vistos em uma relação de antagonismo. No campo da educação este é um debate que parece ser inesgotável e que se reedita em diferentes áreas – na definição de currículos, no estabelecimento de políticas nacionais e internacionais para a educação, na pesquisa em educação, na aula que vamos dar amanhã, na formação de professores. Nestas e em outras áreas de interesse da educação, o dilema teoria-prática surge com frequência, em geral a cobrar posicionamentos e definições. Com estes termos ocorre um fenômeno de esvaziamento: são tão recorrentes, tão aparentemente transparentes, que nos apropriamos deles e os usamos como se dotados de um sentido único e evidente – o mesmo acontece com idéias como crise da educação, fracasso escolar, inclusão, globalização. No entanto, qualquer desses termos pode ter diferentes * Início do título (em itálico) emprestado de Boaventura de Sousa Santos. ** Graduada em Letras, habilitação Português-Inglês, mestranda em Educação. Professora da rede municipal de Pelotas. E-mail: [email protected] 48 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) significados para diferentes pessoas, não significando nada em si mesmos, a não ser que acompanhados de uma definição ou explicitação da perspectiva teórica a partir da qual se fala. Constituem significantes vazios.1 Este trabalho, de caráter teórico, deseja pensar a prática docente, tendo como preocupação central a formação de professores do ponto de vista do papel desempenhado por teoria e prática nesse campo. Teoria e prática aqui, portanto, em uma primeira aproximação, dizem respeito a visões de teoria e prática que incidem no terreno da educação, particularmente no terreno da formação de professores para o exercício profissional da docência. Assim, embora a riqueza de uma abordagem de natureza filosófica dos conceitos e concepções referentes à teoria e prática e à relação entre eles, não será esse o foco deste trabalho. Penso que o senso comum é um bom ponto de partida para esta reflexão. Afinal, todos nós, professores, na nossa ação docente, nos apoiamos fortemente no senso comum – nosso repertório “teórico” é cheio de crenças e tradições, nosso repertório “prático” é recheado de rotinas. Partindo do senso comum, encontro bastante dificuldade para definir teoria e prática sem que um dos termos remeta à ausência ou à negação do outro: teoria é o que não é prática, prática é o que não é teoria. Refiro isto para evidenciar o quão impregnada temos em nós a visão que opõe os dois termos, por mais que racionalmente busquemos caminhos que evitem essa oposição. Entre nós, professores, são comuns manifestações que desprestigiam e rejeitam o “teórico”, visto, às vezes, como beirando o inútil. Preocupados com a aula que vamos dar daqui a pouco, e com o número não pequeno de respostas que precisaremos ter a problemas de diversas ordens na sala de aula, quem de nós ou não disse ou não ouviu dizer – “isto é muito bonito na teoria, mas quero ver na prática!”? De modo semelhante, não é raro ver em nossas reuniões e discussões pedagógicas, textos e posições postos de lado sob a alegação de serem muito “teóricos” – ou seja, o que é teórico 1 Estou tomando o conceito de significante vazio como sendo do argentino Ernesto Laclau (ver, p.ex., artigo de Claes Wrangel em http://thatsnotit.wordpress.com/ 2007/05/03/towards-a-modified-discourse-theory-pt-1-laclaus-empty-signifier/); já vi, no entanto, o conceito ser atribuído a Derrida, a Lacan, e mesmo a Barthes. Práticas inovadoras na aula universitária 49 não tem relação com, não contribui com, não responde à prática. Parece bastante irônico, em um primeiro momento, pensar que essa mentalidade pragmática dos professores tenha sido forjada apesar do forte conteúdo teórico de seus cursos de formação. Em um segundo momento é possível pensar – o que seria talvez ainda mais irônico – que esse pragmatismo se constitua nos professores em razão mesmo de e em reação a essa carga teórica de sua formação inicial. O problema, segundo eu o vejo, não está em que os programas de formação inicial de professores trabalhem com uma dose elevada de conteúdos teóricos, e sim no fato de estes serem de modo geral descontextualizados, dessituados, desvinculados e desarticulados da prática docente sobre a qual teorizam. Pesquisas vêm evidenciando depoimentos de professores no sentido de que seus cursos de formação pouco contribuíram para a sua constituição como professores e para a construção dos saberes necessários à docência, e a concomitante atribuição de maior relevo ao que aprenderam com a experiência e a prática. O que isso deve nos indicar não é que a formação teórica deva ser vista como inútil ou dispensável; não é que conteúdos teóricos devam ser substituídos por práticos, ou que as cargas horárias dos primeiros devam ser reduzidas nas grades curriculares em favor do aumento das cargas horárias dos segundos, simplesmente. O que devemos, a partir da constatação acima, é questionar que tipo de relação com o saber, no sentido de Charlot (2000, 2005), os programas de formação vêm propiciando e permitindo a nós, professores. Que relação estabelecemos com o saber, nós professores, que uma vez na prática docente apequenamos e rejeitamos os saberes teóricos? Que tipo de professores isto nos torna, no momento de possibilitar e contribuir para mobilizar em nossos alunos uma relação significativa e prazerosa com o saber? Em uma área que possui a amplitude e a complexidade da educação, respostas pontuais e absolutas nunca dão conta dos problemas. Muitos aspectos intervêm e contribuem para configurar o estado atual da formação de professores em nosso país, vista em sua relação com o exercício profissional da docência, no quadro maior da educação brasileira. Não pretendo escorregar na tentação mais 50 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) fácil de forjar respostas, apresentar soluções, dar receitas ou apontar saídas mágicas. Quero, contudo, pensar na possibilidade de que uma outra forma de relação entre teoria e prática, que não a de oposição, possa contribuir para a qualidade da formação de professores como profissionais que se apropriem dos saberes necessários a um exercício menos conturbado, mais seguro e mais competente de suas funções. Penso que apesar de já estar tacitamente posto, pelo que foi dito até aqui, talvez seja necessário precisar o que estou tratando de teoria e o que estou chamando de prática neste trabalho – ou seja, aquilo que quero ver em uma relação outra que não a de oposição. No âmbito desta discussão, que tem por foco os cursos de formação de professores, refiro-me a teoria e prática tendo em mente os conteúdos trabalhados nesses cursos: no campo do teórico, teorias propriamente ditas, conceitos, princípios, conjuntos de conhecimentos que, sistematizados, constituem um determinado domínio de conhecimento. No caso da formação de professores, situam-se neste campo tanto conteúdos das áreas disciplinares específicas quanto conteúdos pedagógicos. Já quando falo de prática, estou me referindo a situações e formas variadas de contato com o mundo da escola e da docência e com experiências e vivências que dizem respeito ao universo escolar, ao ensino e à aprendizagem. A palavra contato, no meu entendimento, não precisa nem deve ser vista como indicando exclusivamente contato concreto, físico, material, com o chão da escola e com a sala de aula. Não vejo porque não possa ser visto como contato – e como prática no contexto curricular – a discussão de assuntos e problemas do cotidiano escolar em outro espaço que não a escola em si mesma. A idéia de prática, especialmente, possui um significado muito deslizante. Ao longo deste trabalho o termo prática será usado, além do sentido de prática como disciplina constituinte do currículo, no que se distingue das disciplinas teóricas, também como prática docente, no sentido do trabalho do professor no exercício da docência. Acredito que o uso do termo em contexto permitirá que se perceba seu sentido em cada situação. Explicitarei o sentido que atribuo ao termo, contudo, se julgar que seu uso deixa margem a ambiguidades, ou ainda se utilizá-lo com um significado diferente dos que referi aqui. Práticas inovadoras na aula universitária 51 Articulação teoria e prática: um passo rumo a um novo paradigma de conhecimento? Wilfred Carr e Boaventura Santos O tratamento dado à relação entre teoria e prática nos programas de formação de professores é coerente com o paradigma de conhecimento que dominantemente orienta os cursos de licenciatura, assim como os demais cursos superiores, a educação de modo geral, as concepções de ciências e as visões de mundo. Nos problemas e questionamentos mais diversos que a educação em todos os seus níveis enfrenta hoje, percebe-se nitidamente a crise de paradigma de que fala Boaventura Santos (2000). Nessa área, contudo, que abriga um dos mais prezados ideais da modernidade, a transição de um paradigma dominante em crise para um paradigma emergente dá-se a passos lentos, e as concepções de educação, bem como as formas de organização e distribuição da educação, aferram-se ao modelo de racionalidade científica e técnica que, desde principalmente o século XIX, domina a visão de conhecimento e de ciência, negando caráter científico/ racional às formas de conhecimento que “se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas” (SANTOS, 2000, p.61). Este modelo de ciência, constituído a partir de uma primeira ruptura com o senso comum, considerado “superficial, ilusório e falso” (op.cit., p.107), “desconfia sistematicamente das evidências da nossa experiência imediata” (op.cit. p.62). Santos (op.cit., p.87) chama atenção para o caráter dualista da ciência moderna: referindo os dualismos “cultura/ natureza, abstrato/concreto, espírito/corpo, sujeito/objeto, ideal/ real”, ressaltando que em todos esses binômios o primeiro pólo é considerado dominante. Parece que a estes pode ser agregado, com propriedade, o binômio teoria/prática. No prólogo à obra de Carr (1996)2, Stephen Kemmis, desde uma perspectiva que pode ser alinhada à anterior, vai identificar, no final do século XIX e início do XX, o surgimento de uma teoria 2 Trabalhei com a tradução de Pablo Manzano para o espanhol, que recebeu o título Una Teoría para la Educación: hacia uma investigación educativa crítica. Ediciones Morata, Madrid, 2006. As citações dessa obra utilizadas neste trabalho foram traduzidas do espanhol por mim. 52 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) racionalista da ação, “que considerava esta como expressão e realização de idéias” (in CARR, 1996, p.27): A teoria racionalista da ação privilegia a teoria com respeito à prática ao considerar que aquela serve de guia para a prática. Predica a prática baseada na teoria, deixando na penumbra as formas nas quais a teoria se predica baseando-se na prática. Por um lado, permite que surja uma relação de poder na qual aqueles que têm a responsabilidade de teorizar podem considerar-se superiores, desde os pontos de vista hierárquico e diretivo, a aqueles que desempenham funções práticas; por outro lado, esvazia de significado (e desprofissionaliza) a prática e os práticos, enquanto fontes de idéias (teoria) (CARR, 1996, p.27). Na mesma discussão, Kemmis vai apontar para a divisão do trabalho científico que essa concepção institui entre o teórico, ou investigador da educação, e o prático – o professor: Daquele se espera que articule uma fonte de idéias acerca de como se deve levar a cabo a educação para que seja eficaz; do outro se espera que aprenda as difíceis lições da ciência da educação e as aplique na prática (cumprindo ordens?). Desta perspectiva deriva-se a conseqüência contraditória que considera os práticos como indivíduos não muito bem informados sobre a prática, ainda que a conheçam “por dentro”, ao mesmo tempo que considera que os teóricos estão bem informados sobre a prática, embora a divisão do trabalho os separe dela (op.cit.). É essa a concepção que domina, ainda, os programas de formação de professores: fundados em um modelo que identifica teoria com ciência e prática com senso comum – portanto, fora do campo científico – privilegiam a aquisição teórica de conhecimentos disciplinares e compreendem a prática como mera aplicação desses conhecimentos. Criam, assim, dois momentos estanques e ordenados: primeiro se adquire o conhecimento teórico específico; em um segundo momento, aplica-se esse conhecimento na prática escolar. Teoria e prática são desvinculadas, a teoria assume supremacia epistemológica em relação à prática e esta, como mera aplicação da teoria, é deslocada para o momento final da formação, quando se supõe que os professores em formação, aí detentores da teoria, serão capazes de transpô-la, mecânica e magicamente, para a prática docente. Uma perspectiva que veja como possível e busque implementar nos currículos da formação inicial de professores uma outra relação entre teoria e prática que não a de oposição ou a de Práticas inovadoras na aula universitária 53 dependência poderia contribuir grandemente para avançar em direção ao paradigma emergente que Santos vislumbra anunciar-se no horizonte, de “um conhecimento prudente para uma vida decente”, [...] em busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o otimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde, finalmente, o conhecimento volte a ser uma aventura encantada. (op.cit., p.74). No início deste trabalho observei que os professores possuem um sentimento de inutilidade no que diz respeito à teoria. Santos chama atenção para o fato de que o senso comum é tão moderno quanto a própria ciência moderna, pertencendo ambos a uma mesma constelação cultural, e que a distinção entre ciência e senso comum é feita a partir de ambas as perspectivas. De sua perspectiva, a ciência distingue “entre conhecimento objetivo e mera opinião ou preconceito”. Da perspectiva do senso comum, a distinção é feita entre “um conhecimento incompreensível e prodigioso e um conhecimento óbvio e obviamente útil” (p.107). A segunda ruptura epistemológica proposta pelo sociólogo, com vistas à transformação do conhecimento científico em um novo senso comum, emancipatório, pode transformar um quadro como o referido, ampliando o acesso dos professores ao conhecimento e gerando novas formas de relação com o saber. Um movimento que articule teoria e prática no âmbito da formação de professores pode ter esse papel rupturante. Penso que se pode encontrar apoio para este movimento no pensamento de Carr. Carr foi quem me forneceu uma primeira “iluminação” para pensar a relação teoria-prática, ao apontar três confusões ou formas equivocadas, no campo da educação, de entender essa relação. A primeira, e mais comum, é a que vê a relação entre teoria e prática como uma relação de oposição, em que um termo exclui o outro: a teoria trata de idéias abstratas, a prática de realidades concretas. Apontando exemplos que evidenciam que nem todos os aspectos da prática educativa são limitados por critérios de caráter imediato, ressalta a função essencial desempenhada pelas generalizações teóricas e pelas idéias abstratas na prática educativa. E sumariza: Ao aceitar o duplo suposto de que toda prática é ateórica e que toda teoria é não prática, este enfoque subestima sempre o fato de que aqueles que desenvolvem práticas educativas têm que refletir sobre o que tratam de fazer e, portanto, teorizar sobre isso (CARR, 1996, p.89). 54 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) A segunda forma de ver a relação entre teoria e prática surge, segundo Carr, como uma reação à primeira: a prática não é mais ateórica; pelo contrário, toda prática está carregada de teoria, “regese por um marco teórico implícito que estrutura e orienta as atividades de quem se dedica a tarefas práticas” (op.cit, p.89). Segundo esta perspectiva, a prática é regida pela teoria, dependente desta. Um dos problemas desta linha de pensamento, para o autor, é dar margem a que os profissionais tornem suas teorias que são elaboradas fora do âmbito da prática, o que mais uma vez, parece, estabelece distância entre teoria e prática, entre o trabalho intelectual dos teóricos e o trabalho desintelectualizado dos professores, em um enfoque que vê a prática como aplicação da teoria. O terceiro equívoco é o cometido por linhas de pensamento que partem da autonomia da prática, considerando-a independente da e anterior à teoria. Assim fazendo, invertem a relação, passando a ver a teoria como dependente e originada da prática, o que acaba reduzindo a prática a um “saber como”, desprovido da disposição ética que informa as práticas educativas. Carr aponta, a partir dos argumentos que desenvolve em torno dessas três visões da relação teoria-prática, para a possibilidade de que essas análises sejam vistas não como falsas ou incompatíveis, mas tão somente como incompletas: É possível que as três características da prática às quais aqui se presta atenção (sua oposição à teoria, sua dependência da teoria, sua independência da teoria) sejam também características necessárias de uma prática educativa; no entanto, ao acentuar somente uma delas, excluindo as demais, cada uma dessas distintas descrições só pode oferecer uma versão incompleta, unilateral, daquilo que pode ser uma prática educativa (op.cit, p.91). Como uma via para solucionar esse impasse, através de uma análise histórico-filosófica propõe a recuperação do conceito aristotélico de práxis: uma forma de ação reflexiva capaz de transformar a teoria que a rege: (...) na práxis, a teoria está tão submetida à mudança como a própria prática. Nem teoria nem prática gozam de preeminência: cada uma modifica e revisa continuamente a outra (op.cit., p.101). Práticas inovadoras na aula universitária 55 Penso que os aportes de Carr contribuem importantemente para diminuir a distância estabelecida entre teoria e prática nas discussões educacionais. Segundo ele mesmo, muito desse distanciamento deve-se aos fundamentos conceituais sobre os quais foi levantado o edifício da teoria da educação: (...) só mediante o desmantelamento dos defeituosos fundamentos sobre os quais foi erigido todo o edifício da ciência da educação podem começar a ressurgir as questões básicas acerca do estudo teórico da educação e reafirmar-se as respostas alternativas (op.cit., p.53). Estes fundamentos são os da ciência moderna e da racionalidade por ela instituída. Na via da construção de um outro paradigma, para combater a razão estreita, reducionista, dicotômica, preguiçosa, que informa o atual, Santos (2000, 2007) propõe uma nova sociologia, transgressiva e insurgente – uma Sociologia das Ausências, com a tarefa de (...) mostrar que o que não existe é produzido ativamente como nãoexistente, como uma alternativa não-crível, como uma alternativa descartável, invisível à realidade hegemônica do mundo (SANTOS, 2007, p.28-29). Mais uma vez, vejo como possível aproveitar o exercício epistemológico de Santos para questionar os pressupostos que orientam as visões instituídas nos nossos cursos de formação de professores no que diz respeito às concepções de teoria, de prática e da relação entre elas. Se a racionalidade moderna opera por meio de dicotomias que abrigam hierarquias, devemos enxergar como uma delas a dicotomia teoria-prática. Nas totalidades dicotômicas, o termo hierarquicamente inferior é o termo “produzido ativamente como não existente”, como ausente. Uma das ausências a que se refere Santos é produzida por uma “monocultura do saber e do rigor”: (...) a idéia de que o único saber rigoroso é o saber científico; portanto, outros conhecimentos não têm a validade nem o rigor do conhecimento científico. Essa monocultura reduz de imediato, contrai o presente, porque elimina muita realidade que fica fora das concepções científicas da sociedade, porque há práticas sociais que estão baseadas em conhecimentos populares, conhecimentos indígenas, conhecimentos camponeses, conhecimentos urbanos, mas que não são avaliados como importantes ou rigorosos. E, como tal, todas as práticas sociais que se organizam segundo esse tipo de conhecimento não são críveis, não existem, não são visíveis (op.cit, p. 29). 56 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) O que Santos propõe como alternativa não é o “desmantelamento do edifício”, o que para ele evidenciaria um “fundamentalismo essencialista anticiência”. Contra as monoculturas propõe ecologias – e, no caso aqui em questão, uma ecologia dos saberes, que presentifique, dê visibilidade ao que é ausente: (...) a possibilidade de que a ciência entre não como monocultura mas como parte de uma ecologia mais ampla de saberes, que o saber científico possa dialogar com o saber laico, com o saber popular (...) Estamos tentando uma concepção pragmática do saber (op.cit, pp 32-33). Estou procurando dizer que a prática é o termo ausente, inferior, desprestigiado no par teoria-prática, por pertencer ao mundo da realidade e à realidade do mundo – o que a coloca, segundo a razão dominante, no campo do senso comum e fora do campo da ciência. Dentro desta racionalidade, ciência e senso comum não dialogam – nem teoria e prática. A Sociologia das Ausências de Santos aposta nesse diálogo, contra o “desperdício da experiência” (2000, 2007). Esta pode ser vista como uma resposta alternativa, de que fala Carr, que possibilite uma relação entre teoria e prática em que de fato “uma não goze de preeminência em relação à outra”, em que “cada uma modifique e revise continuamente a outra”. A contribuição de Gimeno Sacristán: onde as práticas se encontram com a idéia de profissionalidade Um texto exige um ponto final. A discussão aqui esboçada não pretende esgotar-se aqui. Muitos outros aportes seriam pertinentes e, decerto, questões importantes deixaram de ser abordadas. Vejo necessidade de abordar pelo menos uma entre essas, ao mesmo tempo que busco encaminhar-me para a conclusão desta escrita, conclusão que prefere ver-se inconclusa e provisória. Ao se pensar sobre formação de professores, a questão que se insinua exigindo um olhar, mesmo que de passagem, é a que diz respeito à idéia de profissionalidade. Daqui em diante entro nesta questão a partir dos aportes de Gimeno Sacristán (1995). Esta é uma discussão vasta, de domínio específico. A medida pela qual a entendo como necessária, aqui, é dada porque a vejo como a perspectiva em direção à qual devem orientar-se os cursos de formação de professores. Explico perguntando: qual é o horizonte Práticas inovadoras na aula universitária 57 dos cursos de formação de professores? Como se concebem, e para quê se concebem? Com que perspectiva de sujeito lidam? Quem são os sujeitos egressos dos cursos de formação de professores? São profissionais que se interrogam sobre o sentido e a pertinência de todas as decisões em matéria educativa, ou são meros técnicos que se limitam a aplicar corretamente um conjunto de diretivas? Assumir a perspectiva da profissionalidade na ação docente (...) coloca exigências mais complexas às reformas educativas, nomeadamente no que diz respeito à recusa de programas pontuais de formação, e pressupõe o resgate da imagem do professor como intelectual, isto é, como detentor de um discurso que, incorporando elementos técnicos, exprime as componentes políticas que determinam a prática docente. (Giroux, 1985, apud Gimeno Sacristán, op.cit., p.76)] No texto Consciência e Acção sobre a Prática como Libertação Profissional dos Professores, Gimeno Sacristán (1995) discute em profundidade, e a meu ver com grande pertinência, a relação entre formação de professores, prática educativa e profissionalidade. Sua maneira de conceber a prática educativa como práticas aninhadas (op.cit., p.69), em que vários contextos – sociais, antropológicos, culturais, institucionais, organizativos, didáticos, e outros externos mesmo ao ambiente escolar – incluem-se uns nos outros e influenciam-se reciprocamente, alarga o conceito de prática, não a restringindo ao espaço escolar, ao metodológico, à sala de aula e às práticas didáticas propriamente ditas. Percebe-se que essa visão necessariamente repercutiria nos processos de formação, trazendo consequências para a concepção dos programas de formação, “(...) na medida que há um aumento das práticas e dos conhecimentos profissionais dos professores. Exige-se um currículo de formação mais completo, que não se restrinja às dimensões didáticas” (op.cit., p. 75). Os programas de formação de professores costumam investir mais fortemente nos aspectos técnicos da profissão, preocupados com a constituição de destrezas, despindo-se de dimensões culturais e pessoais. Para Gimeno Sacristán, (...) a atividade docente não é exterior às condições psicológicas e culturais dos professores. Educar e ensinar é, sobretudo, permitir um contacto com a cultura, na acepção mais geral do termo; trata-se de um processo em que a própria experiência cultural do professor é determinante (op.cit., p.67). 58 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) E ainda: A competência docente não é tanto uma técnica composta por uma série de destrezas baseadas em conhecimentos concretos ou na experiência, nem uma simples descoberta pessoal. O professor não é um técnico nem um improvisador, mas sim um profissional que pode utilizar o seu conhecimento e a sua experiência para se desenvolver em contextos pedagógicos práticos preexistentes (op.cit., p.74). Constata ainda o autor: Os professores não produzem o conhecimento que são chamados a reproduzir, nem determinam as estratégias práticas de acção. Por isso é muito importante analisar o significado da prática educativa e compreender as suas conseqüências no plano da formação de professores e do estatuto da profissão docente (op.cit., p.68). Penso que este apanhado consegue mostrar o lugar onde quero chegar, que é o ponto do qual parti. Apóio-me em Gimeno Sacristán para compreender a prática docente no sentido que este dá à prática educativa, como a intersecção de diversos contextos, muito mais ampla do que sua acepção mais imediata de prática didática. Para que a prática docente se realize na perspectiva aqui apontada, parece indispensável o suporte de outras práticas e contextos, tendo em conta dimensões culturais, políticas, históricas, ideológicas. Isso aponta para a necessidade de que os cursos de formação de professores examinem suas concepções e seus horizontes de chegada – que professores pretendem formar. Se os professores, para Gimeno Sacritán, devem ser relativamente “irresponsabilizados” em relação a sua prática – na medida em que esta não depende exclusivamente deles, visto que para configurar a prática diversos contextos se articulam, inclusive contextos que extrapolam o professor, parece-me estar mais do que na hora de que os cursos de formação, estes sim, sejam mais responsabilizados – mesmo que também relativamente – pelos resultados e efeitos da formação que produzem. Uma das questões que vejo como mais prementes nesse sentido é que os cursos de formação em nível de licenciatura precisam constituir urgentemente uma identidade formadora de professores, acabando com a esquizofrenia das licenciaturas com identidade de Práticas inovadoras na aula universitária 59 bacharelado, uma grave e comum realidade. Para isso, uma concepção formativa que invista na perspectiva da profissionalidade docente e que perceba o ensino como uma prática social, “não só porque se concretiza na interacção entre professores e alunos, mas também porque estes actores reflectem a cultura e os contextos sociais a que pertencem” (op.cit., p.66), parece fundamental. Isso indica a necessidade de que esses cursos examinem, revejam, reconstruam suas idéias de prática e, naturalmente, suas concepções sobre a relação teoria e prática. Para Gimeno Sacritán, não é suficiente como modelo de explicação da profissionalidade uma concepção muito divulgada que vê o ensino como “um ofício que se apóia em saberes adquiridos pela experiência, cuja essência se centra no “saber-fazer” dos professores” (op.cit., p.78). Sua visão é de educação como “praxis, como prática que se desenvolve em contextos reais, carregada de intenções e de interpretações subjetivas, construída por diversos atores e reflectida em usos de natureza prática” (op.cit., p.79). A visão de educação como praxis relaciona epistemologicamente teoria e prática. E relaciona-as dialeticamente, de maneira a romper com a idéia dominante na racionalidade técnica, nos termos tratados anteriormente neste texto, ou seja, a de que a teoria sustenta a prática. Gimeno Sacritán também identifica a concepção dominante com uma visão técnico-positivista de entender a relação teoria-prática: A formação de professores está impregnada desta lógica, que concebe a realidade como um campo de aplicação: a prática tem pouca importância enquanto fenômeno pré-existente, a não ser na perspectiva de uma regulação (correção) baseada no conhecimento científico (op.cit., p.84). A realidade mostra que este modelo não se suporta em si mesmo: os professores, ao ingressarem na prática educativa, não encontram respostas na teoria “aprendida”, e não conseguem “aplicála” às situações concretas da prática – o que gera neles o sentimento já mencionado de que a teoria é irrelevante. Gimeno Sacristán vê na “aquisição de uma consciência progressiva sobre a prática” aquilo que considera deva ser a “idéiaforça condutora da formação inicial e permanente de professores” (op.cit., p. 78). Ao apresentar essa proposta, explicita a ressalva de 60 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) que isto não deve acarretar a desvalorização dos contributos teóricos: “trata-se, apenas, de recusar uma linearidade (unívoca) entre o conhecimento teórico e a acção prática” (op.cit): A comunicação entre o conhecimento e a prática, na educação, é um facto inerente à sua própria existência, sem prejuízo da possibilidade de realizar essa comunicação consciente e ordenadamente, partindo de conhecimentos formalizados como teorias, conclusões investigativas, etc. (op.cit., p.77). Para que essa comunicação se estabeleça, para que os professores exerçam uma prática educativa no sentido da praxis, não vejo como pequeno o papel e a responsabilidade de seus cursos de formação, terreno por excelência capaz de apontar para a realização da comunicação consciente e ordenada da qual Gimeno fala acima. A idéia de Gimeno Sacristán de esquemas estratégicos faz vislumbrar a possibilidade de articular teoria (idéias abstratas) e prática (rotinas): os esquemas estratégicos, para ele, (...) reflectem a capacidade formal dos professores para articular essas duas componentes (idéias e práticas) numa determinada situação, que deve ser avaliada e analisada. A essência da profissão radica neste triângulo: o pensamento pragmático não pode ser considerado de qualidade inferior ao pensamento teórico (...) Metodologicamente, isto significa que a formação de professores tem de procurar dotar-se destas componentes e dos métodos e situações em que se acciona o pensamento estratégico. Os métodos de formação baseados na tomada de decisões, realização de projetos para a prática, resolução de problemas ou análise da prática, apóiam-se nessa perspectiva. (op.cit., pp. 83-84). Para finalizar, volto a evidenciar minha preocupação com que este exercício de reflexão não seja tomado como uma tentativa de apontar modelos. Reitero que apontar saídas é, em geral, o caminho mais fácil. Reencontro aqui Santos que, em uma arqueologia epistemológica, abre espaço para as ausências. Esta é uma postura coerente com o momento de insegurança epistemológica que vivemos. Se parássemos de temer as incertezas, seríamos menos preguiçosos (na acepção de Santos). Consagrar a dúvida epistemológica como princípio norteador dos programas de formação de professores seria, na minha opinião, um bom modo de enfrentar e de solapar o edifício levantado pela racionalidade da ciência moderna, que nos rege: mais questões, menos respostas fechadas; Práticas inovadoras na aula universitária 61 mais dúvidas, menos soluções absolutas; mais articulações, menos oposições e exclusões; mais dilemas, menos certezas. Fica aqui registrada, para que alguém eventualmente curioso possa sair em busca, a idéia de Gimeno Sacristán para o “desenvolvimento do pensamento profissional dilemático” (op.cit., p.86), que não abordarei pelos limites deste trabalho, mas que traduz perfeitamente o que acabei de referir. Bibliografia CARR, Wilfred. Una Teoría para la Educación: hacia una investigación crítica. Ediciones Morata, Madrid, 1996. CHARLOT, Bernard. Da Relação com o Saber: elementos para uma teoria. Artmed, Porto Alegre, 2000. _____. Relação com o Saber, Formação de Professores e Globalização: questões para a educação hoje. Artmed, Porto Alegre, 2005. GIMENO SACRISTÁN, J. “Consciência a acção sobre a prática como libertação profissional dos professores”. IN: NÓVOA, Antonio (org). Profissão professor. Porto Editora: Portugal, 1995. KEMMIS, Stephen. “La Teoría de la Práctica Educativa”. IN: CARR, W. Una Teoría para la Educación: hacia una investigación crítica. Ediciones Morata, Madrid, 1996. SANTOS, Boaventura de Sousa. Para um Novo Senso Comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. Volume I. A Crítica da Razão Indolente: contra o desperdício da experiência. Cortez, São Paulo, 2000. _____. Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social. Boitempo, São Paulo, 2007. _____. Para uma Pedagogia do Conflito. IN: SILVA, L., AZEVEDO, J., SANTOS, E (orgs). Novos Mapas Culturais Novas Perspectivas Educacionais. Sulina, Porto Alegre, 1996. 60 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) WRANGEL, Claes. “Towards a modified discourse theory. Pt.1: Laclau’s ‘empty signifier’. em http://thatsnotit.wordpress.com/ 2007/05/03/towards-a-modified-discourse-theory-pt-1laclaus-empty-signifier/. Visitado em 27/03/09. A polêmica questão sobre a teoria e a prática: um olhar histórico-político e pedagógico Gabriela Medeiros Nogueira* Introdução Este trabalho tem como propósito discutir a recorrente e polêmica questão: teoria e prática na formação de professores. Trazemos um enfoque histórico, político e pedagógico para refletirmos como foi se constituindo essa relação ao longo da história da educação no Brasil, centrando na última década do século XX e no início do século XXI. Para tanto, utilizamos documentos legais como a LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, N° 9.394/96), o PNE (Plano Nacional de Educação, de 2001) e alguns Pareceres e Resoluções emitidos pelo CNE (Conselho Nacional de Educação), a fim de compreender uma rede de discursos e de práticas que vem caracterizando a educação no período mencionado, a qual contempla de alguma forma a relação entre teoria e prática. Para além de uma abordagem teórica, trazemos o relato de experiência de um projeto de ensino desenvolvido no segundo ano do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande – FURG, onde os alunos/professores, em formação, realizaram práticas em diversas escolas da rede municipal, estadual e particular, com o propósito de conhecer e refletir as variáveis presentes no cotidiano * Pedagoga, doutoranda em Educação. Docente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). E-mail [email protected] 64 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) da Educação Infantil e dos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental. Dentre os diversos autores que contribuíram na construção deste texto, destacamos: Arroyo (2000), Candau (2000), Cunha (2004), Gauthier (1998), Nóvoa (1995), Lucarelli (2007), Tambara e Arriada (2005), Tardif (2000) e outros. Cursos de formação de professores no Brasil: um breve relato histórico e político Numa retrospectiva histórico-social, podemos observar que a organização e a implementação de grande parte dos cursos de formação de professores no Brasil ocorreram de forma bastante precária, demonstrando não haver políticas públicas voltadas para uma formação docente mais consistente, dentro de um planejamento educacional de Estado. Após o processo de emancipação (1822), fez-se necessária a implantação de um curso de formação para professores, pois não havia um corpo docente qualificado para o ensino elementar, o que se intensificou com a lei de 15 de outubro de 1827, a qual determina a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Conforme a referida lei, adotarse-ia, como método, o ensino mútuo, conhecido também como “lancasteriano”. Nesse método os melhores alunos eram escolhidos para serem monitores, quando recebiam um ensino mais individualizado, para num segundo momento ensinarem os colegas (TAMBARA; ARRIADA, 2005, p. 23). Na obra “Instrução Pública no Brasil (1500–1889) História e Legislação”, Almeida tece o seguinte comentário ao analisar essa situação: Compreende-se muito bem esta preferência da lei pelo método de ensino mútuo, quando se sabe que, por este sistema, duzentas, trezentas crianças ou mais podem receber a instrução primária suficiente, sem que haja necessidade de mais que dois ou três professores. Durante as horas de aula para as crianças, o papel do professor limitou-se à supervisão ativa de círculo em círculo, de mesa em mesa, cada círculo e cada mesa tendo a sua frente um monitor, aluno mais avançado, que ficava dirigindo. Fora destas horas, os monitores recebiam, diretamente dos professores, uma instrução mais completa, e não era raro ver os mais inteligentes adquirirem a instrução primária superior (ALMEIDA, 2000, p. 60). Práticas inovadoras na aula universitária 65 Esse método de ensino não vigorou por muito tempo, surgindo à necessidade da criação de um curso de formação de professores. No ano de 1835, em Niterói, surgiu no Brasil a primeira Escola Normal, com o objetivo de formar e qualificar docentes para a inserção no mercado de trabalho. Esse curso tinha a duração de dois anos e equivalia ao nível secundário, mais tarde sofre uma reformulação e passa a ter duração de três anos (VILLELA, 1992). Para Nóvoa (1995, p.15-16), a função docente desenvolveuse de forma subsidiária, constituindo-se em sua maioria numa ocupação secundária. Somente na segunda metade do século XVIII e início do XIX, no bojo dos movimentos de secularização e de estatização do ensino é que se passa a ter uma preocupação com a formação de professores. Os estados agora implantam um controle rigoroso dos processos educativos. Essa política “prolongou as formas e os modelos escolares elaborados sob a tutela da igreja, dinamizados agora por um corpo de professores recrutados pelas autoridades estatais” (NÓVOA, 1995, p.15). Outro aspecto fundamental na caracterização da formação docente, segundo Nóvoa (1995, p.17), é o estabelecimento de um suporte legal para o exercício da profissão. Essa “funcionarização” dos professores deve ser vista como uma vontade partilhada do estado e do corpo docente. A partir de agora, não se permite ensinar sem uma licença ou autorização do estado. Certas condições devem ser preenchidas, tais como: habilitações, idade, idoneidade moral, etc. Essa licença constitui o suporte legal para o exercício da atividade docente contribuindo para a delimitação do campo profissional do ensino e a prerrogativa exclusiva dos professores nessa área. Essa etapa decisiva do processo de profissionalização docente, acaba forçando a criação de instituições formadoras, as quais aparecem no século XIX, com a denominação de Escolas Normais. Em 1939, foi regulamentado o Curso de Pedagogia no Brasil, através do Decreto-Lei nº 1190/39, tendo como objetivo a formação dos técnicos em educação. O curso era configurado em um “esquema 3+1”, ou seja, os três primeiros anos eram dedicados à formação em bacharelado e apenas o quarto ano contemplava a didática e a prática de ensino. Nessa modalidade, fica bastante evidente uma dicotomia entre as questões teóricas e as práticas (NISKIER, 1989, p. 286). 66 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Nos anos de 1960 e 1970, com a consolidação do modelo econômico urbano-industrial e com um acordo entre o governo brasileiro e o norte-americano (MEC – USAID), a educação passa a atender as expectativas dessa economia, que necessita o mais rápido possível de mão-de-obra para o mercado de trabalho, surgindo assim as Escolas Técnicas Profissionalizantes, em substituição às então Escolas de Artes e Ofícios. O processo de ensino nessas escolas era caracterizado por uma prática de memorização, numa perspectiva burocratizada e compartimentada, preponderando a repetição. A formação de professores era entendida a partir do domínio da técnica, sendo que esta era vista como garantia de eficácia da aprendizagem. Algumas escolas eram consideradas como modelo, e os alunos, futuros professores, tinham que observar como uma boa prática se constituía na prática. Segundo Monteiro: “[...] ali poderiam observar as melhores aulas, pois contavam com os professores mais competentes, e preparados para atuar nas experiências de formação propiciadas, onde eram aplicados os princípios da racionalidade técnica (2000, p. 132)”. Monteiro traz uma discussão sobre práticas na formação docente, apontando como se pensava esta prática e quais transformações foram ocorrendo no decorrer dos tempos. Salienta, ainda, que dentro desta perspectiva tecnicista, o professor era detentor do saber, portanto, aquele que conduzia a situação, sem refletir sobre sua prática pedagógica. Na época, nem tão distante, existiam escolas modelos, consideradas adequadas para que os alunos, futuros professores, pudessem observar como é que se efetivava uma “boa prática”: [...] a preocupação maior era com a sala de aula, o “manejo de classe”, a capacidade de transmitir conhecimentos, escolher e utilizar as técnicas e recursos pertinentes, avaliar segundo os parâmetros adequados (MONTEIRO, 2000, p.132). Pautado numa visão empirista, o tecnicismo atribuiu à experiência e à observação, papéis fundamentais no ato de conhecer e na concepção de formação do professor. Nesse sentido, a observação e a repetição de práticas cotidianas de professores considerados exemplares estavam previstas durante o processo formativo. Nessa perspectiva, está implícita a reprodução de práticas observadas sem a possibilidade de reflexão e questionamento. Práticas inovadoras na aula universitária 67 Em 1961, foi fixado pelo governo federal um currículo mínimo para o curso de Bacharelado em Pedagogia, definido com sete disciplinas indicadas pelo Conselho Federal de Educação e mais duas escolhidas pela instituição mantenedora. Essa medida foi tomada na tentativa de garantir um currículo único em todo o país, principalmente tendo em vista a mobilidade de alunos, através das transferências. A reforma universitária de 1968 e do Ensino de 1º e 2º graus em 1971 também refletem essa política do governo federal de preparar indivíduos para o mercado. Conforme a análise de Aguiar e outros (2006), estas medidas pautaram um modelo de formação de professores fragmentados em âmbitos da universidade: “[...] de um lado, a faculdade de educação ou unidade acadêmica equivalente, responsável pelo curso de pedagogia e a formação pedagógica dos licenciados, e, de outro, os institutos de conteúdos específicos, onde se formavam bacharéis e licenciados” (AGUIAR e outros, 2006, p.3). Estas e outras medidas do governo em relação ao Curso de Pedagogia, formação de professores, licenciaturas, etc., impulsionaram a uma grande mobilização por parte dos professores em discutir sobre os rumos das questões educacionais no país. De acordo com Aguiar e outros: O Movimento dos Educadores toma vulto e demonstra sua força, com resistência ao poder instituído, durante toda a década de 1980, por meio de debates, embates e manifestações públicas por intermédio de ações sob o ponto de vista epistemológico, político e didático-pedagógico (AGUIAR e outros, 2006, p.4) Nessa mesma década, houve outra reforma curricular com o intuito de formar professores para atuar na educação pré-escolar e séries iniciais do ensino de 1º grau. Essas questões são amplamente discutidas no Parecer n° 5/2005 (p. 4), o qual aponta que: À medida que o curso de Pedagogia foi se tornando lugar preferencial para a formação de docentes das séries iniciais de Ensino de 1º grau, bem como da Pré-Escola, crescia o número de estudantes sem experiência docente e formação prévia para o exercício do magistério. Essa situação levou os cursos de Pedagogia a enfrentarem, nem sempre com sucesso, a problemática do equilíbrio entre formação e exercício profissional, bem como a desafiante crítica de que os estudos em Pedagogia dicotomizavam teoria e prática. 68 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Como podemos observar neste excerto, a questão da dicotomia entre teoria e prática aparece de forma bastante explícita, e o curso de Pedagogia, mesmo após cinquenta anos de regulamentação, ainda não conseguiu uma maior articulação entre uma formação teórica que subsidie uma prática e vice-versa. Observando a Nova LDBEN 9.394/96, encontramos referência à prática mencionada de forma contextualizada, ou seja, agora como “prática de ensino”, a qual deve ser realizada conforme o Artigo 65, com a exigência de, no mínimo, 300 horas para os cursos de graduação de formação de professores. O Parecer n° 744/97 – CES – diz que “A prática de ensino é definida como atividades desenvolvidas com alunos e professores na escola ou outros ambientes educativos [...] sob acompanhamento e supervisão da instituição formadora” (1997, p.1). Essas atividades de prática de ensino, caracterizadas basicamente pelo estágio supervisionado, sofrem modificações a partir da Resolução n° 2/2002– CNE/CP – a qual altera para 400 horas o estágio curricular supervisionado. Além disso, propõe mais 400 horas de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso. Contudo, em 2006 o Curso de Pedagogia sofre novamente outra alteração através da Resolução nº 1, a qual institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em PedagogiaLicenciatura. Nessa resolução, fica determinada uma carga horária mínima de 3.200 horas de efetivo trabalho acadêmico distribuída da seguinte forma: 2.800 horas dedicadas a atividades formativas, 300 horas de estágio supervisionado e 100 horas de atividades teóricopráticas. Mas o processo foi pautado por um amplo debate e muita pressão por parte de entidades que representam o ensino superior no país, ou seja, até se concretizar a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação de Pedagogia – Licenciatura, houve um grande movimento e discussão em âmbito nacional entre as coordenações dos cursos e as entidades – ANFOPE, FORUNDIR, ANPAE, ANPED, CEDES, etc. Essas discussões tiveram como marco o ano de 1998 com a constituição da Comissão de especialistas de Pedagogia para elaborar as diretrizes (AGUIAR, e outros, 2006, p.5). Práticas inovadoras na aula universitária 69 Nesse amplo movimento, aparecem também várias concepções sobre prática1, tanto entre educadores, como entre autores, contudo ainda não é consenso, no universo acadêmico, o que realmente englobaria uma prática pedagógica. Alguns consideram que há prática somente quando há encontro com alunos, seja através da observação, da entrevista ou da regência de classe. Outros consideram que, ao entrar em contato com a organização da escola, sua estrutura, já estão realizando práticas. Outros, ainda, entendem que a elaboração de planejamento, mesmo sem execução, implica prática. Se examinarmos as resoluções do Conselho Nacional de Educação no Parecer n° 744/97, podemos perceber algumas concepções implícitas a respeito do que vem a ser prática. O Artigo 2º diz que: “A prática de ensino deverá constituir o elemento articulador entre formação teórica e prática pedagógica com vistas a reorganizar o exercício docente em curso”. Já o Artigo 3º: “A prática de ensino deverá incluir além das atividades de observação e regência de classe, ações relativas a planejamento, análise e avaliação do processo pedagógico”. Enquanto o Artigo 4º: “A prática de ensino deverá envolver ainda as diversas dimensões da dinâmica escolar, gestão, interação de professores, relacionamento, escola/comunidade, relações com a família”. Ao analisarmos o Parecer do CNE/CP nº 009/ 2001, sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica em Nível Superior, aprovado em 8 de maio de 2001, nos deparamos com uma análise reflexiva e consistente sobre vários aspectos que envolvem um curso de formação de professores. No que se refere à prática, podemos perceber uma outra concepção: Uma concepção de prática mais como componente curricular implica vê-la como uma dimensão do conhecimento que tanto está presente nos cursos de formação, nos momentos em que se trabalha na reflexão sobre a atividade profissional, durante o estágio, nos momentos em que se exercita a atividade profissional (Parecer 009/01, p.23). 1 Para aprofundar sobre essas questões ver a obra: Didática, Currículo e saberes escolares. Organização Vera Maria Candau, 2000. 70 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Como podemos observar, a legislação traz de forma clara uma concepção de prática de ensino; a questão é de que forma podemos viabilizar essa prática nos cursos de formação! Durante algum tempo, e ainda hoje, a didática parece ser a disciplina que vem tratando dessa dimensão na formação do professor, articulando de forma reflexiva as diversas facetas que envolvem a prática docente. Para Giesta (2001, p.19), a didática pode e deve oportunizar que os alunos, futuros professores, atuem como investigadores e proponentes de ações pedagógicas que possibilitem a compreensão do ensino como prática social. Considera ainda importante a realização de atividades que propiciem analisar e discutir a aplicação de teorias e práticas educacionais estudadas e/ou observadas no cotidiano das escolas para a formação de um profissional reflexivo, questionador do contexto escolar e social, contribuindo, dessa forma, quem sabe, para aprimorar a construção de propostas pedagógicas. Podemos relacionar as idéias de Giesta com algumas referências trazidas no parecer n° 009/01 CNE/PC, por exemplo: [...] a atuação prática possui uma dimensão investigativa e constitui uma forma não de simples reprodução mas de criação ou, pelo menos, de recriação do conhecimento. A participação na construção de um projeto pedagógico institucional, a elaboração de um programa de curso e de planos de aula envolvem pesquisa bibliográfica, seleção de material pedagógico etc. que implicam uma atividade investigativa que precisa ser valorizada. (Parecer 009/01, p.24). Analisando o excerto acima, encontramos a pesquisa como uma outra perspectiva de prática. Nesse sentido, o trabalho docente está cada vez mais distante da visão do professor como reprodutor de conhecimentos produzidos por especialistas. Ao que tudo indica, torna-se necessário que os cursos de formação de professores ampliem suas atuações, privilegiando a formação de um profissional capaz de articular teoria, pesquisa, investigação, docência, etc., privilegiando, também, a construção de um trabalho coletivo. Buscando uma aproximação desses princípios, elaboramos uma proposta de trabalho, em 2006, no Curso de Pedagogia da FURG, sobre a qual passamos a fazer algumas considerações. Práticas inovadoras na aula universitária 71 A dimensão pedagógica da prática e da teoria: um relato de experiência Desenvolvemos, em uma turma de 2º ano do Curso de Pedagogia da FURG, um projeto de ensino, pelo qual os alunos foram encaminhados às escolas de Educação Infantil e/ou Anos Iniciais (públicas ou de regime privado)2, com o objetivo de fazer uma aproximação do campo de trabalho, ou seja, a sala de aula. Esse acompanhamento consistia em entrevistar professores, monitorar práticas e substituir a professora titular por um ou dois dias, conforme a realidade de cada situação. Concomitante ao trabalho nas escolas,realizamos seminários, nos quais os alunos relatavam o que haviam observado e vivenciado ao, uma perspectiva reflexiva, a partir das diversas situações experienciadas no universo escolar, o que vai, de certa forma, ao encontro com a proposta de trabalho defendida pela professora da Universidade de Buenos Aires, Lucarelli, ou seja: [...] se desarrolla uma metodologia que alterne la transmisión de información (a cargo de los protagonistas de la experiência) com la reflexión individual y el análisis grupal evaluativo, por parte de otros “pares institucionales”, actividades éstas com orientación pedagógica. (LUCARELLI, 2007, p.11). No decorrer dos seminários foi possível identificar vários aspectos que envolvem a prática docente. Os alunos perceberam que é possível, através da maneira como os professores organizam as rotinas, conduzem os alunos, propõem os conteúdos, as atividades, a avaliação, o planejamento, os imprevistos, inferir qual concepção de ensino e aprendizagem sustenta a prática docente. Para Gauthier (1998, p. 20) [...] quem ensina sabe muito bem que, para ensinar, é preciso muito mais do que simplesmente conhecer a matéria, mesmo que esse conhecimento seja fundamental. Quem ensina sabe que deve planejar, organizar, avaliar, que também não pode esquecer os problemas de disciplina, e que deve estar atento aos alunos mais agitados, muito tranqüilos, mais avançados, muito lentos, etc. 2 Os alunos tiveram a possibilidade de escolher turmas de Educação Infantil ou Ensino Fundamental, em virtude de haver alunos de ambas habilitações. 72 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Sabendo da importância de conhecer essa especificidade da tarefa docente, concordamos com Cunha quando diz: [...] ser professor, não é tarefa que qualquer um faz, pois a multiplicidade de saberes e conhecimentos que estão em jogo na sua formação, exige uma dimensão de totalidade, que se distancia da lógica das especificidades, tão cara a muitas outras profissões, na organização taylorista do mundo do trabalho (CUNHA, 2004, p. 41). Dessa forma, a proposta do projeto de ensino previa a descrição das etapas percorridas na realização da prática desde o mapeamento do espaço físico da escola, da sala de aula, entrevista com professores até a elaboração do planejamento para ser desenvolvido. Consideramos que ir às escolas, a fim de realizar práticas, implica uma série de questões que nem sempre são tão simples, começando pela procura do campo de estágio, pois muitas escolas não disponibilizam espaço para pesquisa. Alguns professores sentem-se invadidos em sua rotina de aula, e não gostam de compartilhá-la com pessoas que não fazem parte daquele contexto, mesmo se tratando de alunos de Pedagogia, ou seja, futuros colegas de profissão. Segundo Lucarelli: La observación atenta a la cotidianeidad pedagógica permite advertir, como situación habitual, la separacioón, cuando no la oposición, entre la teoria y na practica em múltiples manifestaciones, que hacen tanto a la gestión didactico curricular de la clase y del perfeccionamiento docente, cuanto a la producción de conocimiento científico em torno a educación (LUCARELLI, 2007, p.12) Ao analisarmos os relatos dos alunos sobre suas incursões nas escolas, suas expectativas anteriores, surpresas, frustrações, questionamentos, que ocorreram no decorrer da experiência, percebemos o quanto isso “mexe” conosco, professores/orientadores, no que compreende nossa história de vida e de vida profissional. Quando ouvimos, por exemplo, sobre as atitudes tomadas pelos professores para resolver determinada situação, ou sobre o modo como organizam e trabalham com os conteúdos, quando nas entrevistas justificam uma postura, inúmeras cenas circulam em nossos pensamentos, e também, nos incitam a rever nossos posicionamentos, Práticas inovadoras na aula universitária 73 [...] um de los recursos más idôneos, pareciera ser las actividades que lê permiten al docente reflexionar críticamente sobre su própria experiencia ola de um par, em uma acción de reconocimiento de su próprio rol em el proceso de enseñanza- aprendizaje. (LUCARELLI, 2007, p.11). É importante percebermos que entre o que sentimos, pensamos e selecionamos para dizer aos nossos alunos, há uma grande reflexão, de que nem sempre temos consciência. As escritas dos alunos, tendo como tema a prática realizada, começam com uma tímida descrição do ambiente e de algumas cenas cotidianas e, aos poucos, vão se transformando em reflexões cada vez mais elaboradas. Através dessas escritas, é possível “enxergar” o percurso que vai sendo trilhado na constituição do ser professor. Pensando sobre os relatos dos alunos e alguns comentários que tecem sobre as crianças, nos chama a atenção o fato de considerarem, por exemplo que: “As crianças eram normais [...] umas mais tranqüilas do que outras, mas no que pude observar, todas participaram das atividades propostas pela professora” (Aluna 1); “As crianças são bem ‘calmas’, nada fora do normal, respeitam a professora e os colegas” (Aluna 2). Um pouco de ansiedade, medo, apreensão, insegurança são sentimentos presentes na expectativa da realização da prática nas escolas, e, logo após, certo alívio ao constatarem que as crianças eram “normais” como observamos na seguinte colocação: Concluímos que, a aula transcorreu de maneira tranqüila e satisfatória, atendendo a todos os objetivos. Os alunos foram muito receptivos e amorosos, apresentando comportamento normal diante das professoras, apesar da ausência da regente da turma (Aluna 4). Em relação aos detalhes ressaltados durante a observação, notamos que, de alguma forma, se articulam às temáticas trabalhadas nas aulas como, por exemplo, concepção de aprendizagem, autonomia, papel do professor, relação professor e aluno, etc., geralmente, numa perspectiva interacionista, enfatizando a importância da construção do conhecimento pela criança. Podemos evidenciar isso nas seguintes colocações: “Torna-se viável ressaltar que a maioria dos trabalhos, anexados nas paredes foram realizados pelos próprios alunos” (Aluna 4); “Acreditando que o jeito de ser do professor interfere na sua prática docente, procuramos descrever 74 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) um pouco a professora que observamos [...]” (Aluna 2); “Enquanto os alunos realizam seus trabalhos a professora observa o andamento das atividades, sem que os alunos percebam, deixando os mesmos trabalharem com muita autonomia” (Aluna 3). Observando os planejamentos das alunas, percebemos a intenção de propor atividades em que as crianças reflitam antes de escolher alguma alternativa ou chegar a suas próprias conclusões, não apenas repetindo algo já estabelecido ou, ainda, respondendo o esperado. Consideramos importante analisar as reflexões dos alunos sobre a aula dada, assim como sobre todo o processo, desde a observação até o planejamento e execução. Conforme relato da aluna 2: Ficaram algumas lições, entre elas a que nem sempre eles (as crianças) têm vontade de fazer o que propomos, frente a que precisamos ser flexíveis. Planejamos coisas que achávamos que eles iriam adorar e outras nem tanto e nos surpreenderam achando desinteressantes as primeiras e muito divertidas as segundas. O reconhecimento da importância do contato com o ambiente de sala de aula pode ser percebido na seguinte fala: Como não tínhamos nenhuma experiência em sala de aula, foi de extrema importância essa oportunidade, só que eram tantas as dúvidas no que se refere aos conteúdos, às atividades, já que o nosso principal objetivo inicial era de proporcionar momentos além de educativos, agradáveis e estimulantes (Aluna 5). A fala das alunas demonstra, mesmo que de forma incipiente, diversas reflexões a partir das experiências realizadas em sala de aula. A forma como descreveram os relatos revela apropriações das questões teóricas trabalhadas, como por exemplo quando descrevem a prática da professora e o tipo de trabalho exposto nas paredes da sala, ou seja, a partir de questões teóricas os alunos foram aprimorando o olhar. Para Lucarelli (2007, p.33) El espacio de reflexión que proporcionan los Talleres, las actividades previstas para ello, possibilita acercarse a la toma de conciencia de sustrato cientifico y/o ideológico que guia la prática docente esta toma de conciencia por su parte, abre las possibilidades para analizar los modelos vigentes a las luz de eses marcos teóricos para sua aceptación, rechazo o superación. Práticas inovadoras na aula universitária 75 Entendemos que esses momentos de ida ao campo de trabalho, de aprofundamento teórico, de discussão e debate no grande grupo são de extrema importância na formação do professor, pois, ao escutar pontos de vistas diferentes e confrontar opiniões, ampliamos nossa visão sobre determinada situação e “refinamos” nossa análise, podendo, então, aceitar, rejeitar ou superar modelos vigentes, como tão bem sinaliza Lucarelli. Considerações finais Neste trabalho abordamos a questão da teoria e da prática na formação de professores, buscando situá-la no enfoque histórico da formação de professores no Brasil e na perspectiva da legislação, especialmente a partir da década de 90. Buscamos também pontuála numa perspectiva pedagógica através da exposição de um projeto de ensino desenvolvido com alunos do Curso de Pedagogia na FURG. Através da breve retrospectiva histórica, percebemos que questões e problemas da educação atual já se faziam presentes no início da criação dos cursos de formação de professores e que, de uma forma ou de outra reaparecem em novos tempos e em novos contextos. Porém, mesmo que de forma incipiente, mudanças significativas foram ocorrendo ao longo da história no que tange à formação de professores e ao papel da teoria e da prática nessa formação. Em termos de políticas educacionais brasileiras, encontramos um cenário de discussões e embates entre a comunidade de professores universitários e entidades de um lado e, representantes do governo de outro. Cabe ressaltar que, a partir da década de 70, o Brasil vem assumindo compromissos políticos internacionais que interferem nas medidas e decisões no cenário de educacional, caracterizando um contexto mais macro. Pensando em um micro universo, a sala de aula na universidade, entendemos que, cada vez mais, se fazem necessárias propostas que viabilizem aos alunos práticas pautadas em reflexões teóricas, em diversos contextos educativos, desde o início do curso. Os relatos dos alunos que foram tratados neste artigo, possibilitaram uma visualização de como vão se articulando as questões teóricas com as questões vivenciadas em contexto de prática nas escolas. Seus textos e seus discursos tratam sobre 76 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) diversos temas trabalhados teoricamente e que passam a ser referências nos momentos em que elegem algum aspecto para se analisado. Nesse sentido, entendemos que, mesmo que haja um discurso instaurado no contexto educativo, de que prática e teoria são dispares e distintas, fruto de grande parte da história e da política de formação de professores no Brasil, existe uma tendência atual que impulsiona a articulação entre ambos, no sentido de compreender que toda prática está pautada em pressupostos teóricos, mesmo que não explícitos. E também que as questões teóricas enriquecem, subsidiam e ampliam as práticas realizadas e refletidas. Contudo, esse entendimento não é, a nosso ver, algo dado. Essa questão necessita estar sempre sendo renovada, analisada e alimentada dentro do universo educacional, pois a própria articulação entre a teoria e a prática já pressupõe inquietação. Bibliografia Práticas inovadoras na aula universitária 77 BRASIL, 2001. Legislação do Ensino Superior. Parecer nº 009/ 2001 CNE/CP, de 8 de maio de 2001. Diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Distrito Federal. BRASIL, 2002. Resolução do Conselho Nacional de Educação nº 2/2002 CNE/CP, de 4 de março de 2002. Institui a carga horária dos cursos de licenciatura de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica, em nível superior. Diário Oficial da União (4/3/02) Brasília. BRASIL, 2004. Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional: (Lei 9394/96), apresentação Carlos Roberto Cury. Rio de Janeiro: DP&A. CANDAU, Vera Maria. Didática, currículo e saberes escolares. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. AGUIAR, Márcia Ângela da S. e outros. Diretrizes Curriculares do curso de pedagogia no Brasil: disputas de projetos no campo da formação do profissional da educação. Educação e Sociedade, Vol. 27 nº 96. Campinas, out 2006. CUNHA, Maria Isabel. A docência como ação complexa: o papel da didática na formação de professores. 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Inovação e formação docente: articulação teoria/prática TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. Cristina Pureza Duarte Boéssio* VILLELA, Heloisa. A primeira Escola Normal do Brasil. In: NUNES, Clarice (org) O passado sempre presente. São Paulo: Cortez Editora, 1992. Introdução A sociedade hoje passa por diversas mudanças devido a vários fatores, como, por exemplo, a crise econômica mundial, as mudanças climáticas e as catástrofes geradas por elas, a inserção das Tecnologias de Informação e Comunicação em todas as esferas sociais, o aumento da competitividade para o ingresso no mercado de trabalho, que se dá cada vez mais cedo na vida do indivíduo, e muitos outros, difíceis de nomear. Todas essas mudanças estão postas, e a questão que se apresenta é: como fazer para acompanhálas? Como a educação, de maneira geral, facilita aos sujeitos vivenciarem essas transformações? Sem pensar numa abordagem mais abrangente sobre Educação, busco, neste texto, refletir especificamente sobre a articulação teoria/prática na proposta de uma disciplina: O ensino de língua espanhola para as séries iniciais do fundamental, realizada em um contexto específico, na Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, Campus Jaguarão/RS, situada em uma região de fronteira Brasil/Uruguai, fazendo limite com a cidade de Rio Branco/Uruguai. * Graduação em Licenciatura em Letras - Habilitação Língua Espanhola. Universidade Católica de Pelotas. Graduação em Artes Visuais. Universidade Federal de Pelotas, UFPel, Brasil. Mestre em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras, doutoranda no PPGE/UFPel. Docente na UNIPAMPA, Campus Jaguarão. E-mail: [email protected] 80 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Farei um relato da proposta realizada e, por fim, tecerei algumas reflexões em que aparecerão alguns fragmentos do discurso de alguns dos sujeitos envolvidos. Como o processo encontra-se em fase de estudo, a exposição dos discursos será mais ilustrativa, necessitando ainda de maior aprofundamento teórico. Primeiramente os discursos revelarão as expectativas e, por fim, a avaliação dos sujeitos quanto à participação na disciplina. A UNIPAMPA: uma Universidade na fronteira Para melhor situar o leitor, cabe explicitar a trajetória percorrida para o surgimento da UNIPAMPA. Em novembro de 2005 foi assinado, em Brasília, o contrato de Cooperação Técnica entre o Ministério da Educação e as Universidades Federais de Pelotas (UFPel) e de Santa Maria (UFSM) para a implantação da Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA. Essa universidade é uma das novas instituições federais de ensino superior que estão sendo construídas por meio dos investimentos do governo federal na expansão do ensino superior e na ampliação da pesquisa e da tecnologia no país. A UNIPAMPA nasce com a proposta de atender a metade sul do Rio Grande do Sul, região que concentra uma população de 2,6 milhões de pessoas, distribuída por 103 municípios. Esta região é caracterizada por uma economia de base agropecuária e está localizada na área de divisa do Brasil com o Uruguai e a Argentina, constituindo-se, portanto, em local privilegiado para a implantação de projetos voltados para o Mercosul. A UNIPAMPA está hoje composta por dez campi, distribuídos em dez municípios: Bagé; Santana do Livramento; Caçapava do Sul; Dom Pedrito; Jaguarão; Uruguaiana; Alegrete; São Borja; São Gabriel e Itaqui. Até a sanção da Lei 11.640, em 11 de janeiro de 20081, a UNIPAMPA, campus de Jaguarão, foi tutorada pela UFPel, como um campus fora de sede, sendo todas as suas ações regidas pelas normas desta Instituição. A partir de 11 de janeiro de 2008, foi instituída a Fundação Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, com sede e foro na cidade de Bagé, no estado do Rio Grande do Sul. 1 Dados sobre a Lei nº 11.640 obtidos no site: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ _Ato 2007-2010/2008/Lei/L11640.htm, acessado em 05/05/2008. Práticas inovadoras na aula universitária 81 No Campus Jaguarão são oferecidos dois cursos: Curso de Pedagogia e Curso de Licenciatura em Letras Habilitação em Língua Portuguesa e Língua Espanhola e suas respectivas Literaturas. É inserida neste contexto, atuando como professora, principalmente nas áreas de Língua Espanhola e Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Espanhola, no Curso de Letras, que pretendo realizar as reflexões a que me proponho neste texto: como estou possibilitando a articulação teoria/prática com meus alunos e como está sendo realizada a integração entre ensino, pesquisa e extensão, proposta apregoada pela Universidade para uma boa formação acadêmica. A articulação teoria/prática: da teoria de aquisição à inovação no currículo Ciente das peculiaridades existentes em uma região de fronteira, creio que se faz necessário e desejável o trabalho com a língua espanhola desde os primeiros anos do fundamental, prática esta que é observada na rede particular de ensino na cidade de Jaguarão, seja nos anos iniciais ou mesmo na maioria das pré-escolas existentes. Essa realidade pode ser justificada pela questão mercadológica, visto que a legislação brasileira – Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB 9394/96 – só obriga o ensino de uma língua estrangeira a partir do quinto ano do fundamental. Buscando o diferencial, a rede particular começa essa prática desde cedo. Preocupada com a abordagem da língua estrangeira nessa faixa etária, busco refletir sobre ela no contexto universitário, propondo, então, a inovação referida por Lucarelli, como será adiante discutido, pois os Cursos de Licenciatura em Letras, em geral, bem como aquele no qual atuo, preparam o professor para atuar a partir do quinto ano, como previsto pela legislação. Ocorre que a Universidade não pode mais se distanciar da realidade, devendo estar ciente dos novos movimentos impostos pelo mercado de trabalho, bem como das características peculiares da região onde está inserida. Cabe também questionar, como o faz Lucarelli (2004, p. 61), “se nos é possível desenvolver experiências inovadoras que evoquem, ao mesmo tempo, impulsos criativos e sistematização didática, sem que isso implique a normalização da situação de ensino”. Nessa perspectiva, propus, no Curso de Letras, a criação de uma disciplina chamada “O ensino da língua espanhola nos anos 82 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) iniciais do fundamental”. A disciplina possui uma carga horária de 34h/aula e tem caráter optativo, isto é, poderá ser cursada pelos alunos interessados que já tenham efetivado o terceiro semestre, tendo, portanto, cursado Língua Espanhola I, II e III. Com essa proposta viso a proporcionar uma prática inovadora, no sentido de que essa disciplina é algo novo nos Cursos de Letras e se propõe a realizar a articulação entre a teoria e a prática, indispensável para a formação integral. Nesse sentido, me apóio em Lucarelli (2003, p.99) para quem inovação “é aquela prática protagônica de ensino ou de programação do ensino, que parte da busca da solução de um problema relativo às formas de operar com um ou com vários componentes didáticos, se produz uma ruptura nas práticas habituais que se dão na sala de aula, afetando o conjunto de relações da situação didática”. Rompe-se, assim, com a aula universitária “tradicional”, já que os alunos, futuros docentes, deverão, além das discussões teóricas sobre aprendizagem/aquisição de língua estrangeira (LE) ou segunda língua (L2), (consideradas, neste contexto, como sinônimos, devido, entre outros fatores, à região geográfica) vivenciar propostas lúdicas de aquisição de LE/L2, criar propostas de trabalho com crianças, apresentá-las na aula, dentro do contexto universitário e, posteriormente, realizar oficinas nas escolas da rede pública da cidade de Jaguarão. Para refletir sobre a articulação teoria/prática, busco, em Lucarelli (2003), conceitos sobre teoria/prática, cuja dimensão didática “é um princípio geral metodológico que atravessa a elaboração das propostas curriculares e os processos de ensino aprendizagem, possibilitando aos sujeitos desses processos a reflexão na ação” (LUCARELLI, 2003, p.3). A autora se embasa em Wachowitz (1995) e Shön (1992) e enfatiza que a relação dialética que se cria com a articulação teoria/prática se manifesta como modo específico de ser e conhecer do homem. Outro conceito utilizado pela pesquisadora é o de inovação, também pertinente à minha reflexão neste texto. Para ela, inovação está relacionada com a ruptura protagônica nas formas de operar em determinada situação. Baseada em teóricos como Heller (1997) e Angulo Rasco (1990, 2000), considera as inovações como Práticas inovadoras na aula universitária 83 ruptura, como interrupção uma determinada forma de comportamento que se repete no tempo; esta nova forma se legitima, dialeticamente, com a possibilidade que têm os sujeitos que originam e desenvolvem esta prática, de relacioná-la com as já existentes através de mecanismos de oposição, diferenciação ou articulação (LUCARELLI, 2003, p. 2). Para melhor entender como se dá a articulação teoria/prática, revisito Lucarelli (2003, p. 110) que reflete sobre três dimensões dessa relação. A primeira, a dimensão epistemológica, vê esta articulação em uma perspectiva dialética, em que os dois termos relacionados “se sintetizam na práxis e se manifestam como modo específico do ser do homem”. Cabe destacar que a autora utiliza os conceitos – cunhados por Hellen (1987) – de práxis repetitiva (aquela que permite que as coisas sejam realizadas de maneira mais rápida e precisa, mas que pode levar a uma certa rigidez do pensamento, intimidando os sujeitos ao desenvolvimento da criatividade e da inovação) e práxis inventiva (aquela que inclui sempre a produção de algo novo, através da resolução intencional de um problema que pode ser tanto de índole prático como puramente teórico). Nesse caso específico, creio estar oportunizando a realização de uma práxis inventiva, já que os sujeitos envolvidos buscam solucionar dúvidas acerca de algo anteriormente não refletido nos Cursos de Letras e, ainda, contando com pouco referencial teórico a respeito – o trabalho com a língua espanhola para os anos iniciais do fundamental. A segunda dimensão discutida por Lucarelli (2003, p. 110) relativa à articulação teoria/prática é a dimensão pedagógica, segundo a qual esses termos não podem ser concebidos separadamente dado que um pode atuar sobre o outro, dando origem a mudanças. Para a autora (2003, p. 117), o que importa “é analisar a dimensão do problema como produção de conhecimento pedagógico através da pesquisa, considerando a metodologia utilizada para isto; como função da teoria com relação à prática na análise de experiências inovadoras...”. A terceira dimensão é a didática, que, segundo Lucarelli (2003, p. 117), considera a articulação teoria/prática como princípio geral metodológico que conota os processos de ensinar e aprender desenvolvidos em toda situação didática. A referida autora embasase em Wachowitz (1995), para quem a aprendizagem é um processo de apropriação do conhecimento e para quem o método didático transpõe a este contexto as notas próprias do método dialético. 84 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Nesse sentido, a autora propõe uma estratégia metodológica, dentro do contexto universitário, na qual se propicia, segundo conceitos de Schön (1983), a reflexão na ação e não a reflexão sobre a ação, permitindo a reorganização ou a reestruturação do que se está fazendo, no momento em que se está fazendo. Toda a ruptura e inovação causam, no mínimo, um estranhamento, principalmente quando os sujeitos envolvidos estão acostumados a outro tipo de dinâmica que particularmente, no Curso de Letras, é ancorada no texto, seja em sua interpretação e/ou em sua produção. Ainda vigora (muitas vezes e por parte de alguns sujeitos) a concepção de que primeiro se vivencia a teoria, para, no final do curso, partir-se para a prática na realização do estágio curricular. Quando esta lógica que está posta na maioria dos Cursos de Licenciatura, é alterada, pode haver um desconforto por parte de alguns sujeitos. Também, quando os alunos, futuros docentes, são expostos a novas dinâmicas para as quais não estavam preparados, pode haver reações diversas e, quem sabe, até a rejeição de alguma proposta. A proposta de trabalho com a língua estrangeira/espanhol para crianças dos anos iniciais está ancorada na teoria de aquisição de L2 de Krashen (1985), principalmente nas hipóteses do autor sobre a diferença entre aprendizagem e aquisição, a hipótese do input, a da ordem natural e a do filtro afetivo. Com relação à distinção entre aprendizagem e aquisição, optei pela perspectiva da aquisição para o trabalho com crianças, isto é, muita exposição e uso da língua sem reflexões metalinguísticas e sem exposição à língua escrita, já que essas crianças ainda estão na fase de alfabetização de sua língua materna, tão próxima e ao mesmo tempo tão distinta da L2, podendo gerar conflitos no processo de alfabetização. Quanto à hipótese do input, estou de acordo com o autor de que, quanto maior for a exposição à língua, uma língua de boa qualidade, clareza e adequação à faixa etária e aos conhecimentos prévios do aluno, maior será a possibilidade de sua aquisição. Em relação à hipótese da ordem natural, que está diretamente relacionada ao input, concordo que, quando se trata de exposição à língua, a exposição é realizada ao “todo” da língua, não havendo a separação entre elementos mais “fáceis” ou mais “difíceis”, isto é, Práticas inovadoras na aula universitária 85 nenhuma criança adquire uma língua estando exposta primeiramente só a verbos ou somente a substantivos, existe uma ordem natural de aquisição que não é premeditada pelos pais ou educadores, apesar de que se sabe que a criança adquire primeiramente os substantivos. Por último, a hipótese do filtro afetivo, que assinala que quanto mais baixo for este filtro, quer dizer, quanto mais aberta e sem barreiras ao novo estiver a pessoa, melhor será a aquisição da língua. Quando tratamos de crianças, é mais fácil pensar que essa hipótese realmente funciona, pois a criança, geralmente, é bem mais aberta, não se policia tanto como o adulto e tem a vantagem de se expor mais, sem o medo de errar e sem o receio às críticas. Partindo das reflexões de Krashen, acredito que o trabalho realizado, principalmente através do uso de canções, é um trabalho produtivo, já que as canções representam um input autêntico de língua, que, na maioria das vezes, é de fácil memorização, facilitando assim sua aquisição. Formação docente: a Pedagogia da Comunicação e a ludicidade O aporte teórico da Pedagogia da Comunicação, na perspectiva de Porto (2001) e Penteado (2001), ressalta que, segundo a Pedagogia da Comunicação, a formação docente é “responsabilidade não só da academia, mas do espaço onde a ação acontece”. Segundo Porto, uma ação colaborativa entre universidade e escola pública constitui uma importante e forte parceria para o desenvolvimento de professores em serviço (escola) e para a renovação de saberes dos professores em formação inicial (universidade). Nesse sentido, constitui espaço privilegiado de reflexão e produção de conhecimentos, através do conhecimento das práticas e relações que se estabelecem (ou podem se estabelecer) no cotidiano da escola (PORTO, 2003, p. 89). Observa-se, nessa premissa, a importância de que a articulação teoria-prática perpasse todo o processo de formação inicial, que o futuro docente tenha inserção na escola e que a escola possa também interagir com a universidade, não ficando restrita essa retroalimentação (quando ocorre) apenas ao final do Curso de Licenciatura, já no período de estágios. 86 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Além disso, Porto ressalta a importância de que se forme o futuro professor em um paradigma comunicacional, pois, uma formação, neste sentido, deve estar aberta a novas experiências, novas maneiras de ser, de se relacionar e de aprender, estimulando capacidades, idéias e vivências de cada um; proporcionando vivências que auxiliem professores e alunos a desenvolverem a sensibilidade e a refletirem e perceberem seus saberes (de senso comum) como ponto de partida para entender, processar e transformar a realidade (PORTO, 2001, p.223) Na perspectiva da autora, a formação do professor deve estar aberta a novas experiências, maneiras de ser, de se relacionar e aprender, ou seja, a formação deve ocorrer a partir de um paradigma comunicacional, vivência na qual o professor em formação sinta-se aceito pelo professor universitário e pelos colegas e que sejam compreendidas suas capacidades, idéias e saberes. Está presente neste paradigma a inclusão de práticas inovadoras. Esse paradigma comunicacional, ou a compreensão da necessidade de que sejam estabelecidas relações dialógicas entre professor e alunos, é reforçado por Lucarelli (2002). A autora, apesar de não utilizar o termo “comunicacional”, apresenta, também, uma fundamentação teórico-prática que valoriza práticas inovadoras nos processos de ensino-aprendizagem. Ela assinala que a experiência inovadora significa aqui o oposto a uma rotina educativa, a uma encarnação de modelos reprodutores de ensino e aprendizagem caracterizados pela fragmentação e pelo tecnicismo, onde a presença exclusiva do verbal, o conhecimento fechado, sem espaço para a problematização, a ausência de consulta a fontes, o vazio de informação genuína, a cisão entre teoria e prática, a falta de oportunidades para adquirir as competências próprias da profissão, constituem-se nos fatos que assinalam a vida cotidiana de muitas aulas universitárias (LUCARELLI, 2002, p.153). As reflexões de Lucarelli (2002) e Porto (2001) convergem no sentido de que o processo de ensino-aprendizagem dá-se em uma perspectiva relacional e que, portanto, a sala de aula deve ser um espaço aberto à reflexão, à inovação, ao encontro entre alunos, entre professor e alunos e destes com os conhecimentos. Um espaço em que prevaleçam a problematização e a sensibilidade: problematização dos desafios de construir saberes conjuntamente; sensibilidade para aceitar o outro e compreendê-lo em seu processo de formação. Práticas inovadoras na aula universitária 87 Quanto à formação de professores para o trabalho com crianças, encontro em Rinaldi (2006), as mesmas preocupações que me suscitam estas reflexões. Segundo a autora (2006, p. 147), “Quando decidimos pesquisar a formação de professores de espanhol para crianças encontramos diversos obstáculos como a escassez de referências bibliográficas específicas, carência de apoio do professorado... entre outras” e completa dizendo que é necessário encontrarmos uma abertura, por menor que seja inicialmente, para instrumentalizar e habilitar legalmente os professores interessados em ensinar língua espanhola para crianças com a qualidade a que elas têm direito. Afinal, é preciso não perder de vista que cada vez mais aumenta a necessidade e o interesse pela inclusão de aulas de língua estrangeira nas séries iniciais do E.F. (RINALDI, 2006, p. 149). Para Santos (2001, p.16), “a ludicidade, hoje, direcionada tanto para crianças, jovens ou adultos, em diferentes instituições como escolas, empresas, universidades, hospitais, tem que ser tratada com cientificidade para poder ser um fator de transformação”. Nesse sentido, práticas lúdicas são indispensáveis para a proposta do ensino da língua espanhola para crianças brasileiras das séries iniciais do fundamental. A ludicidade tratada com cientificidade não é algo distante daquilo que os professores buscam construir em suas práticas pedagógicas. Afinal, quantas vezes ouvimos e reproduzimos a palavra “decoreba” em oposição a uma pedagogia prazerosa e construtiva? Vários autores defendem a ludicidade no campo da educação. Para Negrine, as instituições de ensino devem trabalhar no sentido de criar uma cultura lúdica. A cultura o homem produz, e ao produzi-la ele modifica a si mesmo. A educação voltada para a criação de uma cultura lúdica deve promover: a) atividades recreativas de cunho social e ético; b) uma educação não discriminatória orientada para a igualdade das pessoas e para as suas possibilidades de realização; c) atividades cooperativas em detrimento das competitivas, uma vez que as primeiras priorizam a inclusão e as segundas a exclusão, já que estas sempre são realizadas para se ter um vencedor (NEGRINE, 2001, p.40). 88 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) A promoção de uma cultura lúdica no espaço da sala de aula é fundamental para que tenhamos um processo coletivo de aprendizagem, um processo onde o aprendente não se sinta constrangido e, no qual, a brincadeira, através de propostas pedagógicas significativas, represente uma possibilidade real de superação, sem, no entanto, a premissa da competitividade. Nesse sentido, quanto à atuação do professor, Negrine (2001, p.40) reforça que as atividades lúdicas devem ser pensadas “no sentido de promover aprendizagens significativas, uma vez que não tem sentido pensar o lúdico pelo lúdico, já que não existe ação sem uma intenção, mesmo quando esta escapa à percepção imediata daquele que a realiza”. Fortuna assinala que a sala de aula é um lugar de brincar se o professor consegue conciliar os objetivos pedagógicos com os desejos do aluno. Para isto é necessário encontrar o equilíbrio sempre móvel entre o cumprimento de suas funções pedagógicas – ensinar conteúdos e habilidades, ensinar a aprender – e psicológicas, contribuir para o desenvolvimento da subjetividade, para a construção do ser humano autônomo e criativo, na moldura do desempenho das funções sociais – preparar para o exercício da cidadania e da vida coletiva, incentivar a busca da justiça social e da igualdade com respeito à diferença (FORTUNA, 2001, p.116). Vê-se, na análise de Fortuna (2001), que a questão do cuidado e do equilíbrio necessários para o trabalho com as crianças está presente. Daí destaca-se a necessidade do resgate do enfoque no lúdico a partir da premissa da cientificidade, ou seja, que esta prática seja vivenciada prazerosamente por professor e alunos sem tornarse um peso para o docente. A mesma autora (2001, p.15) ainda chama a atenção para a necessidade de que a universidade forme professores para brincar. Segundo a autora “formar professores na perspectiva lúdica é uma contribuição possível”. Também as reflexões teóricas sobre o uso de músicas e canções no ensino/aprendizagem de línguas são fundamentais pois, além do caráter lúdico que elas possuem, as canções são, também, facilitadoras do desenvolvimento da compreensão auditiva, servindo como input para o desenvolvimento da oralidade e para a aquisição da língua como um todo, de forma prazerosa, lúdica e natural. As Práticas inovadoras na aula universitária 89 canções são retidas com facilidade e ficam guardadas na memória por bastante tempo, facilitando, assim, a aquisição do ritmo e de aspectos fonéticos e fonológicos, gramaticais, sintáticos e lexicais. De acordo com Gil-Toresano, “trabalhar com canções é uma atividade lúdica e criativa que pode propiciar o descobrimento e aprendizagem da língua e cultura e constituir a base para uma comunicação autêntica” (GIL-TORESANO, 2000, p.42). Não são recentes as questões relacionadas à adequação dos conteúdos e às formas de ensinar que se afastam da mera transmissão do conhecimento e que privilegiam uma educação de construção, baseada na comunicação e na interação. Muitos autores discutem esse paradigma, insistindo em que as instituições de ensino devem preocupar-se em adequar os conteúdos à vida dos educandos, fazer com que eles tenham algum significado, sem estarem deslocados da realidade. Resultados preliminares Basicamente, estes foram os assuntos refletidos na disciplina, não só de maneira teórica (com leituras específicas), mas através de discussões e confecção de um texto reflexivo como trabalho final. Também apresentei propostas didáticas com emprego de cações e atividades lúdicas como, por exemplo, uma canção que trata de alimentos saudáveis e não saudáveis “A mí me gustan las hamburguesas” (de D.García/M.Schajris; R.Hernández / Argentina) com a proposta de que os alunos, futuros docentes, interpretassem, destacassem o léxico trabalhado e representassem sua compreensão nas massas de modelar por mim distribuídas, bem como propusessem outras atividades a partir da letra da canção. Essa proposta causou, em alguns, uma certa alegria e o desejo de realizar, intensamente a atividade; já em outros, como pude verificar em suas expressões faciais, foi visto como algo estranho, talvez até uma “bobagem”. Outra proposta apresentada por duas alunas foi a de escutar uma canção que trabalha com as partes do corpo e fazer a coreografia proposta, o que foi realizado pela maioria com grande diversão e muitos risos; mas, uma aluna, mais crítica e resistente, manteve-se sentada, mostrando desconfiança quanto à seriedade da proposta. 90 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Acredito que para se trabalhar em uma perspectiva lúdica, deve-se, ao menos, vivenciá-la dentro do contexto universitário, não apenas realizando leituras sobre o modo de fazer, mas, também, fazendo, para poder experienciar e refletir. Assim, o que Lucarelli propõe, embasada em Schön, é uma nova epistemologia da prática, com relação aos processos de formação de profissionais nas competências específicas da profissão. Como esta disciplina ainda se encontra em fase de análise e reflexão, uma avaliação mais pontual de sua trajetória ainda não pode ser realizada, mas transcrevo aqui dois fragmentos de discurso de duas alunas, escolhidas de forma aleatória, no início da disciplina quando questionadas sobre o quê esperavam dela, e por fim, dois fragmentos dos mesmos sujeitos ao término da disciplina: V: encontrar meios de atuar nas séries iniciais sem precisar “despejar” um monte de regras nos alunos; S: trabalhar dentro do lúdico, do jogo de atividades prazerosas; L: espero que sejam aulas legais, divertidas e que tenhamos algumas aulas práticas com as crianças e o fundamental, aprender muito com essa disciplina para que no futuro desenvolva um bom trabalho. Já ao final da disciplina, depois da realização das oficinas nas escolas, assim referiram as alunas: V: devo admitir que de início me assustou um pouco, pois trabalhar com crianças era algo que nunca havia sido pensado por mim. Mas, aos poucos fui me convencendo de que uma atividade como essa só poderia ser algo de muita valia, e que, com certeza, acrescenta algo a minha bagagem de experiências, bagagem esta que devemos carregar por toda vida. E, de fato, como imaginei, essa experiência foi bastante positiva e inovadora. Nada foi custoso, na verdade tudo foi muito prazeroso. S: Aiii, eu nunca tinha me imaginado nesse papel [...] mas foi bem legal, bem, bem, bem legal mesmo, me surpreendeu, eu gostei de planejar, eu gostei de tentar fazer coisas que não tivessem escrita, que era muito difícil tu achar coisas que não tivesse a escrita, copiar idéias de colegas, bahh... aquela foi boa, das gurias, eu achei Práticas inovadoras na aula universitária 91 muito legal, como era aquela brincadeira [...] muito bom. [...] a experiência de cada um é de cada um, mas acho que te ensina a não errar, se a pessoa diz assim, olha, tal coisa deu certo comigo de repente tu tenta, acho que é válido, tal coisa não deu certo... L: Ah, eu gostei, eu acho que foi bom. Bom, primeiro eu fiquei com medo, né? Porque eu não sabia se eu ia conseguir falar em espanhol, ah meu Deus, a Cristina me olhando e eu falando em espanhol com as crianças, eu vou errar tudo, (risos), eu vou falar tudo errado, esse era o meu maior medo... Realizando uma breve reflexão sobre alguns dos fragmentos, percebo que a experiência foi válida, apesar das angústias, do medo ao desconhecido, da inovação. A realização da prática, não só na disciplina dentro da universidade, mas também junto às crianças, foi significativa para esses sujeitos. A desconstrução do que existe, como por exemplo, trabalhar com a leitura e a escrita, para dedicarse somente à oralidade, configura-se em uma prática inovadora, que pode assustar em um primeiro momento, mas que se configura como positiva, como é possível verificar na fala de S: Sinceramente eu não imaginei que eles iam aprender tão rápido, sabia que eles tinham capacidade, mas imaginei que ia ser uma coisa mais lenta. Me surpreendeu que alguns na mesma aula já estavam falando “rojo” com a pronúncia certa... Considerações finais Em se tratando de um contexto de sala de aula universitária, acredito que essa dinâmica possibilita o diálogo entre o professor e os alunos, gerando um crescimento do grupo, com a troca de experiências e a reflexão sobre as propostas trazidas, não deixando a realização dessas vivências e reflexões solitárias no fim do curso, na época do estágio. Ou, ainda pior, como no caso da língua estrangeira para os anos iniciais, o qual, por não ser regulamentado, não há nem a realização de estágios para esse adiantamento. Os alunos, futuros docentes, irão refletir, se o fizerem, somente na sua atuação docente, pois sem essas possibilidades de realização das vivências dentro da universidade, não haverá outra oportunidade que não a prática profissional propriamente dita. 92 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) As três dimensões da articulação teoria/prática propostas por Lucarelli, como se vê, são indissociáveis; portanto, cabe a nós, professores, uma reflexão de como está sendo conduzida nossa proposta de trabalho, de como esta proposta está sendo vista e construída junto com os alunos, e que aportes relevantes podem ser destacados de modo que os processos de formação de profissionais possam favorecer à construção de competências específicas da profissão. Percebo, assim, que é possível inovar no contexto universitário, propiciando a articulação teoria/prática conforme apregoa Lucarelli. Em breve, juntamente com o grupo de alunos, será realizada uma avaliação sobre a pertinência da disciplina e suas contribuições para o currículo do Curso de Letras, possibilitando, então, uma reflexão mais profunda do processo vivido. Bibliografia BRASIL. Lei de diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. – Disponível em www.mec.gov.br/home/ftp/LDB.doc FORTUNA, Tânia Ramos. Formando professores na universidade para brincar. In: SANTOS, Santa Marli Pires dos. (org.) A ludicidade como ciência. Vozes, Petrópolis, 2001. GIL-TORESANO, Manuela. El uso de las canciones y la música en el desarrollo de la destreza de comprensión aditiva en el aula de E/LE. Revista Carabela, n. 49. Madrid: Sociedad General Española de Librería S.A. 2000. pp. 39-54. KRASHEN, Stephen. D. Principles and Pratice in Second Language Acquisition. 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Goethe Introdução Tanto a tensão quanto a possibilidade, além, é claro, da oportunidade, de fazer o novo ou não, apresentadas no título deste artigo, estão presentes no cotidiano de muitos docentes que atuam nos cursos de formação de professores. A universidade espelha a sociedade, e, como ela, tem colocado no conhecimento científico toda a sua expectativa de avanços e melhorias. Isso se evidencia na maneira como em seu interior ainda se tem reproduzido, na produção e distribuição do conhecimento, a forma de fazer ciência alicerçada numa concepção positivista, o que tem demarcado a organização do conhecimento desenhada a partir de seus princípios, e mais, como definidora das atividades de ensino. Para constatar isso, basta um olhar para os currículos e sua lógica de construção, como salienta Bernstein (1997), compreendidos num paradigma de coleção, num modelo baseado na autoridade e norteados pelos conceitos de ordem e controle, assim como para as atividades realizadas nos locais de aula, onde se pode destacar a divisão entre o que é teórico – conteúdo é predominantemente verbalizado pelo professor e recebido em forma de informação pelo * Licenciado em Educação Física e Esportes, doutorando em Educação. Docente na Escola Superior de Educação Física/Universidade Federal de Pelotas. E-mail: [email protected] 96 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) estudante – e o que é prático – atividades realizadas pelo aprendiz, a partir da informação e sob o controle do professor. De acordo com Cunha (2005), é nesse ambiente com todos os seus condicionantes históricos, sociais e culturais, que tem cabido ao professor ser o protagonista na realização das mudanças, fundamentalmente pela sua condição de dar direção à prática pedagógica que desenvolve, muito embora reconheça nela tais condicionantes. Na verdade, frente a tantas resistências, principalmente aquelas que apontam para novos direcionamentos na estrutura curricular, e que tocam, ideologicamente, nas relações entre conhecimento e poder, os professores, aliados à mudança, vêm agregando elementos novos às suas práticas pedagógicas – elementos esses construídos a partir de suas experiências docentes e não a partir de sua formação inicial, o que é compreensível, na medida em que ela foi concebida num modelo de ensino e aprendizagem praticamente idêntico ao da atualidade, em que eles atuam profissionalmente. Alguns fatores vêm contribuindo, e interferindo nas decisões dos professores em suas tentativas de mudança nas práticas pedagógicas. Entre eles, é possível citar o dia a dia vivido na instituição frente às suas estruturas internas de poder; o nível de satisfação com o que está sendo possível realizar profissionalmente; a forma como é tratado e produzido o conhecimento e seu distanciamento da realidade objetiva; a dicotomia entre teoria e prática; a desarticulação entre as diferentes disciplinas constantes da grade curricular; o foco de interesse centrado no ensino e não no modo de como os alunos aprendem; o desinteresse dos estudantes nas aulas, entre outros. Atuando na formação de profissionais no campo da Educação Física, como professor universitário, mais especificamente na área esportiva e na modalidade voleibol, em torno de vinte e nove anos, venho acumulando algumas certezas, algumas dúvidas e, sobretudo, muitas preocupações, principalmente com relação aos processos de ensino e de aprendizagem no interior das universidades e sua reverberação na vida cotidiana dos futuros professores. E isso se evidencia ainda mais quando vejo os estudantes que por nós passaram em seus cursos de formação e hoje são professores, desestimulados e impotentes diante da necessidade de intervir na Práticas inovadoras na aula universitária 97 realidade escolar, muitas vezes repetindo, no seu fazer pedagógico, as velhas aulas de seus antigos professores de Educação Física. Entre outras, as justificativas para isso são quase sempre aquelas que culpam o distanciamento entre a formação acadêmica e a prática pedagógica que se realiza no âmbito da escola, reforçadas pela forma de organização do ensino na universidade, fundamentalmente na separação e ordenação do conhecimento – primeiro a teoria, depois a prática. Lendo Borges (1997), relembro que, em 1992, a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais de Educação – ANFOPE, já propunha uma estrutura curricular alicerçada em eixos temáticos, buscando a superação da dicotomia na relação teoria e prática, na superação da separação entre disciplinas específicas e as da área pedagógica, entre tantas outras. Era, segundo a Associação, necessário assumir uma nova postura em relação a essa estrutura, buscando uma aproximação entre os currículos dos cursos que formam docentes e a realidade escolar. Muitos questionamentos surgem então com relação a esta problemática cotidiana. Será que o problema está na forma como o currículo é pensado? Será que está no conteúdo? Aquilo que o professor vem elegendo como conteúdo fundamental para instrumentalizar o futuro docente está de acordo com as necessidades da função? Será que o conteúdo está demasiadamente extenso e a carga horária das disciplinas é muito pequena? Será uma questão de orientação metodológica? Será isso uma característica própria dos cursos de Licenciatura em Educação Física, em função das características dos estudantes que nele ingressam – quase sempre oriundos de atividades esportivas ou, mais recentemente, de atividades em academias? Ou será uma característica da carreira docente universitária, hoje um tanto meritocrática? Especificamente em relação ao último questionamento, Cunha (2006) afirma que a formação do professor universitário tem sido entendida, por força da tradição e ratificada pela legislação, como atinente quase que exclusivamente aos saberes do conteúdo de ensino. Espera-se que o professor seja, cada vez mais, um especialista em sua área, dominando o conteúdo, e este, por sua vez, esteja alicerçado nas atividades de pesquisa nas quais, segundo a autora, reside o prestígio do professor universitário, incluindo aí 98 Práticas inovadoras na aula universitária Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) suas publicações, participações em eventos cies perspectiva, o ensino, especialmente o de graduação, é entendido como decorrência das demais atividades do professor na universidade. É interessante,aqui neste ponto, analisar o estudo de Würdig (1998), que objetivou compreender de que forma os professores de Educação Física constroem as suas práticas pedagógicas, articulandoas com a formação inicial. Como eixos principais para analisar a formação inicial e suas repercussões na vida profissional desses professores, o pesquisador identificou: os aspectos históricos da formação de professores de Educação Física; as características do curso na Esef-UFPel; as experiências mais marcantes vividas por eles no curso: as aulas e os professores, as dificuldades em relação ao perfil exigido pelo curso e seu distanciamento do espaço escolar; o ingresso no curso e o direcionamento para o magistério. Analisando as experiências mais marcantes dos participantes do estudo, apareceram, com destaque, as dificuldades em se integrar no perfil do aluno esperado pelos professores (uma espécie de atleta múltiplo) e a dificuldade em cumprir um currículo que dissociava o conhecimento técnico do conhecimento pedagógico. Este modelo técnico apresentou-se como referência que era negado, mas não superado em termos de prática concreta. Nas conclusões de seu estudo, entre outras, Würdig (1998) destacou que os professores, ao ingressarem na rede pública de ensino, procuraram encontrar formas, construir caminhos, fazer escolhas e tomar decisões que representaram continuidades e rupturas em relação à sua formação inicial. Concluiu, então, que há necessidade de preparar os futuros professores para enfrentarem as diferenças, os conflitos e as contradições que não são exclusivas da sala de aula universitária. Os problemas da prática não estão sempre definidos e estruturados, como normalmente apresentados aos estudantes na universidade. Diante de tudo isso, de tantas discussões e reflexões vivenciadas em eventos municipais, regionais, nacionais e internacionais, da leitura de artigos, livros e capítulos de livros que tratam do tema, das narrativas das experiências pedagógicas dos professores acumuladas ao longo de suas trajetórias profissionais, resta-me perguntar: Será que não chegamos ao momento propício de (re)significar a relação entre o quê/como se ensina e o quê/como se aprende na universidade, nos cursos de formação docente? 99 Este artigo tem como objetivo analisar, juntamente com o aporte teórico que o sustenta, uma experiência pedagógica desenvolvida no interior do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas, na disciplina “Voleibol”, que tem a pretensão de, ao romper com o modelo vigente, apresentar uma nova proposta de cotidianidade pedagógica, assentada em dois eixos norteadores fundamentais: a) uma concepção referenciada em uma articulação entre teoria e prática, considerando-as partes inseparáveis de uma mesma unidade, a partir de um diálogo entre sujeito e realidade, entre sujeito e objeto de estudo; b) uma concepção de ensino com pesquisa, pela articulação indissociável entre eles e a extensão universitária. Como estou tratando de uma experiência pedagógica vivenciada em um curso de formação docente no interior da Universidade1, entendo ser importante iniciar pelo ponto que tem merecido bastante atenção nos últimos tempos nos debates universitários, e que foi, e ainda é, de uma relevância única para a construção e concretização de minha proposta de atuação: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Logo após, passarei a tratar sobre a articulação entre teoria e prática e a forma em que ela aparece como inovação na docência, tendo o professor como protagonista, no caso do projeto aqui analisado. Finalmente, apresentarei, na forma de considerações finais, recortes dos textos produzidos pelos estudantes após cada aula ministrada, registrados no “Caderno de Escrita”, que é um dos componentes desta proposta, tentando articulá-los com os referenciais estudados. O desafio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão Na experiência pedagógica que apresento aqui, uma das premissas fundantes é a de que há necessidade da construção de um local onde, de fato, a indissociabilidade entre estes três elementos 1 A forma da escrita, na primeira pessoa do singular e do plural, escolhida para o texto, pretende ser um misto de narrativa sobre a experiência vivenciada pelo autor do texto e seus estudantes, atravessada, ao mesmo tempo, pelos conceitos que lhe dão suporte, aliás, bem de acordo com as características da proposta de ensino e aprendizagem que aqui será analisada. 100 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) da vida universitária – ensino, pesquisa e extensão – aconteçam, no tempo e no espaço, de forma única, apesar da estrutura curricular existente. Nela, a idéia de ensinar ainda se resume ao professor simplesmente ministrar bem as suas aulas, trabalhando adequadamente o conteúdo, sem qualquer preocupação com o modo de aquisição do conhecimento por parte dos alunos (BALZAN, 1995). Nesse tipo de ensino, classificado como tradicional, a informação é repassada aos estudantes a partir de alguns pressupostos: o conhecimento é tido como acabado e descontextualizado; a disciplina intelectual é tomada como reprodução das palavras, textos e experiências do professor; a memória, o pensamento convergente e a resposta única são valorizados; cada disciplina tem um espaço próprio de domínio do conhecimento que exige cada vez mais aulas para vencer todo o conteúdo; o professor é a principal fonte de informação; a pesquisa está fora do alcance dos alunos de graduação, entre outros (CUNHA, 2005). Com certeza, não era a partir dessa perspectiva que estava querendo atuar nesta nova proposta de trabalho. Aliás, muito pelo contrário, queria justamente contrapor-me a ela. Tinha a expectativa, quase uma convicção, de que um projeto de extensão aliado a uma prática de ensino com pesquisa funcionaria muito bem como o lugar de apropriação da leitura da realidade, gerando, nos estudantes, a partir de suas experiências reais, o sentimento da dúvida, o desejo da busca, do questionamento, que toda a aprendizagem requer. Um lugar onde os estudantes, e não só o professor, possam vir a ser o centro dos processos educativos. São eles que precisam se formar. Ao professor cabe criar as condições para que isso ocorra, fazendo com que eles venham a interagir ativamente com a cultura e o conhecimento universalmente produzido, sendo capazes de analisar, compor e recompor dados, argumentos e idéias, fazer relações e posicionar-se frente à realidade. É num ambiente com este formato, único, onde as atividades de ensino, pesquisa e extensão se apresentem verdadeiramente indissociadas, que entendo ser possível pensar o novo, melhor dizendo, uma nova forma de ensinar e aprender na universidade. Um ambiente em que a mola propulsora da aprendizagem seja a dúvida, e onde os estudantes sejam a atração principal, corpos onde verdadeiramente se dará a indissociabilidade. Práticas inovadoras na aula universitária 101 O desafio tornou-se ainda maior, na medida em que indissociabilidade é uma palavra que, afora outros condicionantes, não traz em si sequer um acordo conceitual ou uma reflexão sistêmica sobre seu sentido e seu significado. O meu entendimento sobre indissociabilidade é diferente daquele que alguns docentes costumam ter, quando afirmam que ela já está presente quando o professor faz ensino e tem seus projetos de pesquisa e extensão, mesmo que essas atividades ocorram em horários diferentes e em locais específicos para cada uma delas. Como afirma Cunha, esse entendimento coloca a idéia de indissociabilidade no trânsito de experiências e conhecimentos que o professor leva aos estudantes, como resultado de suas vivências acadêmicas. Essa não era verdadeiramente a minha idéia. Para mim, e como bem diz a autora: “indissociabilidade é algo indivisível, acontecendo de maneira global no interior do processo pedagógico” (CUNHA, 2005, p.10). Então, como colocar isso tudo em prática no sistema curricular universitário vigente? A primeira providência foi oferecer um projeto de extensão comunitário, que denominei de Projeto Voleibol 2008, aberto à comunidade pelotense, que abrigaria, em seu interior, crianças de ambos os sexos, pertencentes tanto à rede escolar do município quanto à região de abrangência da UFPel. O número de vagas a oferecer, assim como a faixa etária das crianças, ficaram para ser decididos posteriormente, em reunião do grupo de trabalho. Foram disponibilizadas dez vagas para os estudantes, sem qualquer exigência de pré-requisitos. Aqui neste ponto, já havia, em relação à minha idéia de indissociabilidade, o ensino e a extensão acontecendo de maneira indivisível, em um mesmo lugar. A pesquisa veio não só a partir da concepção pedagógica adotada, com certeza muito diferente do modelo tradicional já descrito brevemente neste texto, mas também a partir da possibilidade do novo, trazido pelo método de ensino escolhido para a aprendizagem esportiva. Ela ingressa na proposta numa concepção de ensino com pesquisa, o que por si só já significa a necessidade de um rompimento com as formas atuais de entender o conhecimento e o mundo. Como argumenta Cunha (2005), nessa perspectiva, as atividades de ensino necessitam incorporar os princípios da tarefa investigativa, assumindo os processos metodológicos desta atividade, e ainda, tendo a dúvida, e não mais o estabelecido, como o lugar de partida da aprendizagem. 102 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 103 Encontro em Ibiapina (2008) e em seus escritos sobre pesquisa colaborativa emancipatória, os pressupostos conceituais necessários à concretização de minha proposta indissociável. Entre eles, destacam-se alguns princípios como: a investigação da própria ação educativa nela intervindo, colocando os estudantes no centro do processo, não como meros objetos de análise, mas como sujeitos, não como produtos da história educativa, mas também como seus agentes; a valorização das atitudes de colaboração e reflexão crítica, negociadas e construídas coletivamente, que faz com que os integrantes do grupo se tornem co-parceiros, co-usuários e coautores de todo o processo, a partir da participação consciente e deliberada; o valor da compreensão do microssocial sem que se perca de vista o macrossocial, o que traz uma maior possibilidade aos alunos no sentido da compreensão, análise, e, quem sabe até, da modificação da realidade do cotidiano escolar; o estímulo ao uso da linguagem, escrita e falada, a partir da reflexão em pares, individual e em conjunto; a descoberta de relações contraditórias e a possibilidade de superação, entre outros. b) Freqüência semanal: duas vezes por semana, às 3ªs e 6ªs feiras, no período da tarde, com a duração de 120 minutos cada uma. Decidimos também que as aulas iniciariam às 18 horas, o que facilitaria a participação tanto das crianças que estudam pela manhã quanto pela tarde. Já com relação aos pressupostos organizativo-metodológicos, que Ibiapina (2008) chama de dispositivos mediadores, destaco na proposta: as narrativas escritas – relatos dos estudantes sobre as atividades diárias; as observações colaborativas – observações escritas dos colegas não responsáveis pela aula em cada dia; as sessões reflexivas – reuniões de estudo e avaliação; a vídeoformação – registros em vídeo e fotografia das atividades; as entrevistas individuais – realizadas ao longo da atividade com as crianças e seus pais ou responsáveis; e as entrevistas coletivas – forma de grupo focal, realizadas com os estudantes universitários participantes na atividade. d) Caderno de Escrita: ao final de cada aula, a dupla de estudantes deveria registrar, em forma de texto, no Caderno de Escrita, suas impressões e sentimentos sobre como transcorreu a atividade, além de relatar fatos que fossem marcantes e, portanto, merecedores de destaque. Esses textos seriam utilizados tanto como referências para estudo e avaliação nas reuniões do grupo específicas para tal, quanto de material de consulta para as pesquisas dos estudantes. Tendo já um projeto de extensão definido, integrado a uma disciplina curricular, com uma proposta de ensino com pesquisa e com os estudantes já matriculados, foi realizada uma primeira reunião do grupo, durante a qual algumas decisões foram tomadas coletivamente. Foram elas: a) Número de alunos: no máximo trinta crianças, escolares, de ambos os sexos, nascidos nos anos de 1996 e 1997, pertencentes à comunidade pelotense, assim como aquelas oriundas das regiões de abrangência da universidade. c) Organização do grupo para as aulas: as aulas seriam ministradas por duplas de estudantes. Como tínhamos no grupo estudantes tanto do primeiro semestre quanto dos semestres mais avançados, ficou decidido que os rodízios de cinco duplas para a orientação das atividades seriam organizados de forma que, no primeiro mês, sempre estivessem, nas duplas, um estudante recém ingressante e um mais adiantado no curso. Haveria obrigatoriedade da apresentação e arquivamento, em pasta especial, dos planos de aulas detalhados. Os oito estudantes, não responsáveis pela orientação da atividade no dia da aula, deveriam comparecer e teriam as seguintes tarefas: auxílio aos colegas ministrantes; observação e registro de fatos que lhes chamaram a atenção durante a aula; filmagens e registros fotográficos das atividades; entre outros. e) Reuniões de estudo e avaliação: a cada cinco rodízios das duplas de estudantes, uma reunião de estudos e avaliação deveria ser realizada, em dia diferente daqueles em que acontecessem as aulas. Nelas, juntamente com o professor, seriam debatidas as atividades realizadas no período, destacando: os sucessos; os problemas; as dificuldades; as soluções encontradas; o conteúdo específico da modalidade; entre outros. Nessas reuniões seriam utilizados também, como elementos para debate, os planos de aula e o Caderno de Escrita. O professor teria o papel de debatedor nesses encontros e, a seu critério ou por sugestão dos estudantes, poderia trazer textos, livros, vídeos, etc., que julgasse interessante como contribuição para os debates. Nesse momento, também seriam organizados os rodízios dos estudantes. 104 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) f) Método de ensino: decidimos pela utilização de dois métodos de ensino, a Iniciação Esportiva Universal2 e a Escola da Bola3, que atualmente, no Brasil, estão concentrados em uma única proposta denominada Sistema de Aprendizagem e Desenvolvimento Esportivo – SADE, em aplicação no Programa Segundo Tempo – PST4. Essa decisão quanto ao método foi tomada, basicamente, por dois motivos: a) por ser uma proposta inovadora na área do ensino e da aprendizagem esportiva para crianças, na medida em que trabalha com o conceito de aprendizagem incidental e não intencional, o que já a configura como um campo muito fértil para acompanhamento, análise e observação, e de onde poderiam surgir propostas de investigação; e b) por ser uma proposta que é atualmente vista, por vários especialistas no país, em função de suas características de funcionamento, sua fácil aplicabilidade, variedade de possibilidades de exploração corporal, e fundamentalmente, por não trabalhar na perspectiva de formar atletas, mas sim jogadores, como uma grande alternativa para o ensino dos esportes na escola. g) Oficina/curso sobre o método: com o objetivo de apresentar, dar conhecimento e instrumentalizar os estudantes com relação ao método escolhido, decidimos pela realização de uma oficina em forma de mini-curso, com a duração de 12 horas/aula, coordenado pelo professor da disciplina. O fato interessante acontecido aqui neste ponto é que os estudantes matriculados na disciplina resolveram abrir a possibilidade de participação aos demais alunos do curso de Educação Física. Assim, em função da disponibilidade, tanto do local (sala) quanto do material específico, foram abertas sessenta vagas, todas preenchidas. GRECO, Pablo Juan & BENDA, Rodolfo Novellino (Org). Iniciação Esportiva Universal: da aprendizagem motora ao treinamento técnico. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998. GRECO, Pablo Juan (Org). Iniciação Esportiva Universal: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: Editora da UFMG,1998. 3 KRÖGER, Christian & ROTH, Klaus. Escola da Bola: um abc para iniciantes nos jogos esportivos. São Paulo: Phorte Editora, 2006. 4 Programa do Ministério do Esporte, destinado a democratizar o acesso a atividades esportivas e complementares no contra-turno escolar, desenvolvidas em espaços físicos públicos ou privados, tendo como enfoque principal o esporte educacional. 2 Práticas inovadoras na aula universitária 105 h) Período de estudos e preparação: concluído o mini-curso, os estudantes tiveram duas semanas, antes do início das aulas com as crianças, para aprofundar seus conhecimentos sobre o método, preparando-se para efetivamente começar a vivenciar uma experiência, pelo menos diferente, no interior de seu curso de formação. Ao final desse tempo de estudos e preparação, foram encerradas as matrículas das crianças. Vencida essa etapa de preparação e organização do grupo de estudantes, construída coletivamente, as atividades do projeto efetivamente se iniciaram. Agora era “prá valer”! Ali estavam, em cena, o presente e o futuro, para ensinar e aprender, os alunos/ professores e seus alunos/alunos, sob a observação de um único espectador: seu professor/aluno. E aqui um novo desafio: romper com a estruturação dicotômica entre teoria e prática na universidade. O desafio do ensino: a inovação na articulação entre teoria e prática na aula universitária Para avançar neste ponto, penso primeiramente ser necessário revisitar escritos anteriores, mesmo que superficialmente, localizando e enfatizando o contexto onde a experiência que narro neste trabalho efetivamente se concretiza, mais precisamente nos aspectos didáticoorganizacionais. Atualmente os estudantes, tanto da Licenciatura quanto do Bacharelado, têm, no curso de Educação Física da UFPel, atividades de caráter eminentemente experiencial, acontecendo tanto na forma de práticas quanto de estágios curriculares ao longo de sua formação. Porém, a proposta de ensino que engloba estas atividades, apesar de serem notadas algumas mudanças, assim como as outras disciplinas da grade curricular, ainda é aquela tradicional, conforme o entendimento de Balzan (1995) e de Cunha (2005). Ainda é muito evidente a separação entre o que é teórico e o que é prático como espaço de atuação do professor, para que possa ministrar as suas aulas, informando e repassando o conteúdo, muitas vezes sem qualquer conexão com a realidade externa. Espera-se que essa conexão seja realizada pelo aluno em um momento específico para tal. É o poder da organização institucional, influenciando na prática cotidiana do professor, na sua forma de agir dentro do programa curricular, no seu ensino, na sua avaliação e na maneira de como se relaciona com seus alunos. 106 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Lucarelli (2004) salienta que a análise dessas práticas, no modelo tradicional, assim como sua intervenção é que devem se constituir no ponto de partida para efetivar os processos de mudança na universidade, e que isso demanda uma busca de fundamentação que permita apontar as práticas mais apropriadas e favoráveis em função dessas modificações. Além disso, segundo a autora, é importante que se considere a mudança a partir da perspectiva teórica da Didática, sob dois aspectos: a) as diferenças entre inovação tecnicista e inovação centrada nos protagonistas (fundamentada crítica); e b) a relação entre a teoria e a prática e os níveis em que esta articulação se evidencia nas aulas na universidade. Acerca da inovação segundo a perspectiva didática tecnicista, Lucarelli (2004) evidencia dois pontos: a sua tendência a uma normatividade e sua ênfase na segmentação. Como escreve Popkewitz (1994) em relação à normatividade, as mudanças se dão quase sempre a partir de uma lógica de modernização e se instalam por meio de práticas rituais e retóricas, que carecem de sentido para os participantes, e, por isso, não afetam os seus padrões de conduta social. Popkewitz afirma também que as mudanças realizadas sob esta lógica acabam por se converter num instrumento de conservação e legitimação da ordem existente, ou seja, a partir do discurso da inovação “ordenam e regulam como se deve contemplar o mundo, atuar sobre ele, sentir-se e falar dele” (POPKEWITZ, 1987, p. 26). Ainda com relação à normatividade, a inovação pode ser entendida como uma modificação parcial ou uma substituição específica de componentes técnicos das situações de ensino e aprendizagem, apontando fundamentalmente para os objetivos, as metodologias, as formas de avaliação, a programação das disciplinas, entre outras, deixando em segundo plano as práticas dos sujeitos participantes – professores e estudantes – que passam a ser considerados apenas como os executores das propostas de modificações apresentadas. Lucarelli (2004) salienta que, dessa maneira, a segmentação se evidencia, de um lado pela ênfase dedicada aos componentes técnicos em detrimento dos humanos, o que pode ser observado pela valorização dos objetivos em relação aos conteúdos, e pela valorização ainda maior das técnicas específicas e dos materiais Práticas inovadoras na aula universitária 107 utilizados em relação à importância menor que assumem as estratégias didáticas gerais. Outro ponto importante em que se faz presente a segmentação, de acordo com Lucarelli (2004), é aquele que se vincula com a condição fragmentária em que se encontram a teoria e a prática nas situações educativas. Isso se observa na divisão entre disciplinas teóricas e disciplinas práticas, nos currículos universitários, e sua colocação sequencial de acordo tanto com sua aproximação quanto de seu afastamento dos aspectos relacionados com a colocação em ação das habilidades requeridas para o exercício da profissão. Soma-se aqui, também, a forma organizativa das aulas dessas disciplinas com horários, espaços e, às vezes, até mesmo professores diferenciados para trabalhar os aspectos teóricos e práticos do ensino. A autora, ao comentar sobre isso, argumenta que, se observarmos internamente no âmbito de cada situação de aula, poderemos verificar, ainda, um esquema de separação semelhante: o professor primeiramente aborda o conteúdo teórico, identificando-o como o momento de transmissão da informação, deixando os aspectos práticos para um momento posterior. A separação teoria/prática é, segundo Heller (1977), própria da práxis repetitiva, aquela que implica a repetição de esquemas práticos desenvolvidos por outros (no caso da universidade quase sempre os docentes) e assumidos inteiramente pelos estudantes. A isso Sirvent (1994) chama de participação simbólica já que há uma participação mínima, muitas vezes nenhuma, dos estudantes na gestão e nas decisões políticas da mudança. Já na inovação fundamentada crítica, que se contrapõe à didática tecnicista, a ruptura trazida pela nova prática é o ponto central. Lucarelli (2004) caracteriza esta ruptura como a interrupção de uma determinada forma de comportamento, que se repete no tempo e que se legitima, dialeticamente, com a possibilidade de fazer relações entre a nova prática e as já existentes, por meio de mecanismos de oposição, diferenciação ou articulação. Também é importante lembrar que essa nova prática não deve ter uma dimensão única. Pelo contrário, ela deve ser multidimensional e, nesse sentido, afetar qualquer um dos aspectos da situação didática: os objetivos, os conteúdos, as estratégias de ensino e de avaliação, os recursos para a aprendizagem, as relações entre os sujeitos, as formas de autoridade, de poder, que se manifestam no contexto da aula ou até 108 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) mesmo da instituição. Essa multidimensionalidade significa considerar, na ruptura, o reconhecimento das múltiplas variáveis que afetam a prática. Penso que a experiência que estou oportunizando aos estudantes na atividade analisada neste trabalho, se encaixa nessa perspectiva. Ela introduz na formação profissional uma ação comunitária, por dentro de uma disciplina curricular, alterando a estratégia de formação pela introdução de práticas docentes experimentais, com uma intervenção real no terreno da iniciação esportiva com crianças. De acordo com Lucarelli (2004), isso significa uma inovação no componente metodológico da situação didática e, sem dúvida, acredito que ela tem possibilitado aos estudantes muitos questionamentos e reflexões. Eles, por exemplo, passam a se perguntar que conteúdos ensinar? Como organizar a aula? Quais são os conceitos de esporte e iniciação esportiva? Qual a relação da universidade com a sociedade? Ela está também afetando a maneira como eles vêm construindo sua docência, a partir das relações que se dão entre eles e seu professor, entre eles e seus colegas e entre eles e seus alunos. Aqui, torna-se necessário fazer uma digressão sobre dois conceitos que julgo muito importantes nessa perspectiva fundamentada crítica: história e situação. O primeiro diz respeito ao reconhecimento das práticas dentro da história dos sujeitos. Uma atividade inovadora de ensino só pode ser entendida se a analisarmos como parte de um conjunto de práticas que alguém desenvolve, de acordo com o repertório de formas de atuar que construiu ao longo de sua vida. O segundo ponto é relacionado à situação e, para explicálo, aproprio-me das idéias de Bleger (1971), que a define como o conjunto de elementos, fatos, relações e condições com os quais se desenvolve um comportamento. Fiz menção a esses dois conceitos, o histórico e o situacional, porque ambos possibilitam entender a inovação. Como frisa Lucarelli, nesse caso a situação da aula se estende ao contexto institucional e social e compreende os fatores peculiares que caracterizam os sujeitos da inovação. Da mesma forma, metodologias e recursos utilizados na aula são afetados pelas especificidades de cada conteúdo a ensinar e a aprender. Assim, dentro de uma perspectiva fundamentada crítica, a autora define a inovação como Práticas inovadoras na aula universitária 109 uma prática protagônica de ensino, [...] onde a partir da busca de uma solução para um problema relacionado às formas de operar com um ou vários componentes didáticos, se produz uma ruptura nas práticas habituais que se dão em aula, afetando o conjunto de relações da situação didática (LUCARELLI, 2004, p. 9) O segundo aspecto da teoria da Didática apontado como importante para analisar inovações educativas, é a relação entre a teoria e a prática e os níveis em que esta articulação se evidencia nas aulas na universidade. O cenário institucional confronta distintas perspectivas acerca da vinculação do que é teórico e do que é prático. De um lado temos as que muito significativamente marcam sua separação, e no outro extremo temos as que proporcionam uma articulação dinâmica entre estes componentes do cotidiano curricular. Concordo com Lucarelli (2004) quando afirma que a articulação teoria e prática aparece como um fator central na constituição das inovações, tendo em vista a importância que assumem na instituição as definições com relação à natureza do conhecimento, tanto no que se refere à sua produção quanto aos processos e conteúdos na formação dos estudantes. É preciso pensar em como articular teoria e prática sem negar a importância de uma e outra. Carr afirma que a práxis como forma de ação reflexiva pode transformar a teoria que a rege, pois ambas estão submetidas à troca. Ele diz que “nem a teoria e nem a prática gozam de preeminência, ou seja, cada uma modifica e revisa continuamente a outra” (CARR, 1996, p.101). A relação entre teoria e prática se manifesta em diferentes ângulos de abordagem. No caso específico deste trabalho, interessa a manifestação que trata do espaço da aula na universidade, em sua relação com os programas e com os métodos de ensino, e como eles se refletem na aprendizagem dos estudantes, em dois sentidos: como princípio metodológico geral, e, mais especificamente, como processo de formação profissional. Como princípio metodológico mais amplo interessa-me trabalhar com os estudantes na perspectiva da articulação teoria/ prática, os processos de ensinar e aprender inerentes a toda a atividade didática. Na experiência pedagógica que estamos vivenciando, estes se dão em, pelo menos, três formas: 110 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) a) Como processo dialético de apropriação do conhecimento, na medida em que os estudantes/professores, interagindo com seus alunos, orientados pelo método didático a ser aplicado, têm o retorno dessa aplicação e, a partir daí, podem tanto confirmar suas decisões quanto retificá-las, aceitar ou criticar o método escolhido, observar as nuances da aplicação com relação à faixa etária e ao sexo das crianças, entre outros, o que os coloca na condição de sujeitos ativos para compreender a sua realidade. b) Como construção do conhecimento, pela forma com que o professor se afasta intencionalmente da condução da atividade, justamente para oferecer aos estudantes o espaço para que eles ativem seus processos de construção do conhecimento, onde eles poderão reconhecer as diferentes formas de como um professor pode abordar os diferentes temas de seu campo disciplinar a partir do trato direto com os conteúdos, com os pressupostos que orientam a aprendizagem, seus vínculos e estilos de negociação com os alunos, incluindo nessas ações o metódico e o particular. c) Como aprendizagem significativa, pela aquisição de novos conceitos oriundos da experiência por parte dos estudantes/ professores, e relativizada tanto com seus pares quanto pela própria atividade em si, mediante a vinculação destes com aqueles já existentes em suas estruturas cognitivas. Esta compreensão de aprendizagem em sua configuração de processo geral e autêntico, de acordo com Lucarelli (2004), pressupõe a alternância, sucessão de momentos teóricos e práticos nas atividades previstas na proposta de ensino adotada na experiência que estamos vivenciando. Como processo de formação profissional, encontro em Schön (1992), a partir de sua nova epistemologia da prática, a referência norteadora para as atividades desenvolvidas no interior de nossa proposta de atividade. O autor evidencia que a articulação da teoria com a prática se desenrola por meio de uma estratégia metodológica na qual se propicia a reflexão na ação, ou seja, o estudante tem a possibilidade de pensar no que faz enquanto está fazendo, da mesma forma que faz o professor na resolução de situações cotidianas. O que isso quer dizer? Assim como o professor na escola, em nossa atividade os estudantes experimentam, ainda durante sua formação, Práticas inovadoras na aula universitária 111 situações em que têm que enfrentar as incertezas e os conflitos de forma real, e não a partir de conjecturas ou informações verbais provenientes de seus professores, seja em aulas teóricas, seja em aulas práticas. Além disso, as reuniões de estudo e avaliação realizadas a cada ciclo de cinco aulas, permitem que os estudantes e seu professor realizem, ainda dentro da perspectiva desta nova epistemologia da prática proposta por Schön (1992), a reflexão sobre a reflexão na ação, debatendo sobre e discutindo os fatos ocorridos em aula, a partir das observações (feitas pelos estudantes ministrantes destas aulas e pelos estudantes observadores) assim como dos textos redigidos no Caderno de Escrita e das imagens fotográficas ou em vídeo. Este tipo de ação permite também que sejam levantados tópicos de investigação – situações problema por parte dos estudantes sob a orientação do professor, o que atende à intenção da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, acontecendo em um só tempo e em um único espaço, já tratada neste texto. Voltando a Schön (1992), este tipo de procedimento no âmbito da aula universitária pode ser caracterizado então como a aprendizagem na ação numa forma de ensino tutorial, envolvendo a estruturação de um espaço didático-curricular que ele denomina de prácticum, definindo-o como uma situação pensada e disposta para a tarefa de aprender uma prática. Esse espaço prático-reflexivo, assim, é o lugar no qual se promove a reflexão na ação por parte dos estudantes universitários que estão se formando, por meio de um diálogo entre eles próprios, e entre eles e seu professor tutor. Os desafios da inovação revisitados nos escritos dos estudantes: considerações finais Conforme descrito na parte final da introdução deste texto, o Caderno de Escrita constituiu-se num espaço de registro, onde os estudantes, após cada aula vivenciada, transferiam para suas folhas seus sentimentos sobre a atividade experimentada em todos os seus aspectos, fossem eles relacionados com a metodologia, o conteúdo, a condução da aula, os problemas surgidos durante sua realização mesmas e as soluções encontradas por eles para a resolução, até as questões mais individuais, como ter ficado satisfeito com seu modo de condução da atividade, suas frustrações com o que haviam 112 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) planejado e que não surtiu o resultado esperado e desejado, a falta de motivação dos alunos para determinadas atividades que eles propunham, entre outros. Na disciplina, esse caderno teve, entre outras, a finalidade de servir como ponto de referência para as discussões teóricas que o grupo realizava a cada ciclo de cinco aulas. Aqui neste texto, ele tem a finalidade de trazer, a estas considerações finais, para reflexão, elementos da prática descritos pelos estudantes que têm vinculação com os dois eixos temáticos abordados neste trabalho: indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e articulação teoria e prática na aula universitária, enriquecendo-os e, de certa forma, dando-lhes vida. Ao reler os escritos dos estudantes com o intuito de captar as percepções deles sobre o que havia acontecido nas aulas para trazer para este texto, senti, apesar da riqueza de algumas descrições, que só isso não seria o bastante. Precisava de algo mais, alguma coisa que ordenasse o pensamento sobre o que estava sendo lido e sua relação com os pontos abordados. Afinal, o que acredito como indissociabilidade estava presente, ou seja, ensino, pesquisa e extensão acontecendo em um único local e ao mesmo tempo. Também a ruptura na dicotomia entre o que é teórico, que deve vir antes, e o que é prático, que deve vir depois, estava ali, acontecendo numa articulação dialética entre ambas, considerando-as partes inseparáveis de uma mesma unidade. Poderia simplesmente buscar frases, favoráveis e contrárias, que tratassem dessas temáticas, transcrevê-las para cá e, a partir delas, tecer algumas reflexões. Mas confesso, eu queria mais. Ocorreu-me a idéia de, quem sabe, criar categorias de análise a partir de minha releitura dos registros escritos dos estudantes. E assim fiz, tendo como ponto de partida, no que diz respeito à organização dessas categorias, o que havia de comum nos escritos registrados no Caderno, e que se relacionasse diretamente com as duas temáticas mais amplas abordadas por mim neste trabalho. Nesta tarefa, resolvi buscar também algumas das categorias elaboradas por Cunha (2005) no seu livro denominado O Professor Universitário na Transição de Paradigmas, mais especificamente em seu capítulo 7, no qual a autora trata da aula como espaço da nova construção paradigmática. As categorias organizadas a partir de Práticas inovadoras na aula universitária 113 Cunha (2005), assim como dos registros escritos dos estudantes no Caderno de Escrita foram as seguintes: relação professor-aluno; relação teoria e prática; relação ensino e pesquisa; organização do trabalho em aula; concepção do conhecimento e inserção no campo profissional. Faço aqui, também, as mesmas ressalvas feitas por Cunha (2005), dizendo que as categorias estão separadas apenas para melhor entendimento e compreensão. Na realidade de nossa atividade em aula, elas não aparecem em separado, mas “fazem parte de um único contexto e só têm sentido se assim analisadas” (p.78). Na categoria relação professor-aluno, os escritos dos estudantes parecem evidenciar que, na atividade que estão realizando, a figura do professor da disciplina sofre um deslocamento horizontal, no sentido de que ele deixa de ser a única fonte de onde provêm os conhecimentos a serem aprendidos pelos estudantes. Isso fica muito evidente quando um deles assim escreve: aqui sou respeitado pelo que sou e sei fazer. Tanto os colegas quanto o professor acatam as atividades que proponho. Se estão boas ou não, discutimos depois no grupo, o que só vem a contribuir comigo. Nesta disciplina me sinto valorizada. Assim como Cunha (2005), também encontrei registros que indicavam, nessa categoria, o prazer. Por exemplo: é muito bom estar nesta aula, estudar aqui. A gente se sente motivado porque temos que produzir na dupla e no grupo, [...] o professor assume a função de facilitar esta nossa produção, ele não é o centro de tudo, o que sabe tudo. Sentimos e percebemos nosso desenvolvimento a partir do trabalho com as crianças, e isso é bom demais. Temos tido muito trabalho, mas está valendo à pena. O registro sugere que, na perspectiva da proposta de trabalho que venho desenvolvendo com os estudantes, há um reconhecimento, por parte deles, de que ela traz para o espaço da aula, por sua configuração baseada na produção coletiva do conhecimento, o prazer de, ao mesmo tempo, ensinar e aprender. Por falar em coletivo, parece que esta dimensão, também no que diz respeito ao prazer, é motivo de grande satisfação por parte dos estudantes. Como diz Cunha (2005), a satisfação está na descoberta da possibilidade da construção no coletivo. A frase a seguir evidencia essa afirmação: aqui nós e o professor trabalhamos juntos na elaboração das atividades. Para esta aula contei com a 114 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) colaboração de todos, e ela foi muito importante para mim, pois ainda não dominava bem este conteúdo. Este ambiente amigo assim é muito legal. Na categoria relação teoria e prática, a análise dos registros escritos permitiu concentrar a atenção no fato de que há uma priorização, via reflexão e discussão a partir da situação real, e não daquela muitas vezes hipotetizada pelo professor na aula teórica e depois vivenciada por eles, enquanto executantes, na aula prática, na apropriação do conhecimento por parte dos estudantes. Senão vejamos: a primeira aula foi muito importante para o grupo. Precisávamos conhecer os alunos, o que eles gostam e o que eles sabem fazer, para ai sim, prepararmos nossas aulas e colocá-las em prática.” Ou então: hoje sentimos que os exercícios escolhidos por nós não motivaram os alunos para praticar. Não sabemos se o problema está conosco, com eles ou até mesmo se as atividades estão difíceis demais para eles. Precisamos repensar isso e discutir na próxima reunião do grupo. Lucarelli (1994) afirma que existem diferentes formas de conceber teoria e prática, e a relação que pode se estabelecer entre elas. Faz críticas ao fato de que elas são entendidas como tarefas separadas, desenvolvidas muitas vezes uma em detrimento da outra. Ao mesmo tempo em que critica, a autora discute a existência de diferentes maneiras de tratar o conhecimento: numa concepção dicotômica, compartimentalizada, com o conhecimento tratado de forma estática; e numa concepção dinâmica, onde o conhecimento é articulado dialeticamente entre a ação e a reflexão. Como diz Lucarelli (1994), a tendência das práticas, no 3º grau, é tratar todas as disciplinas como teóricas, sendo os momentos dedicados às práticas utilizados para a aplicação das teorias estudadas anteriormente. Como afirma Cunha (2005), ao invés da prática alimentar a teoria fornecendo-lhe os elementos para a reflexão, pressupõe-se que a competência prática começa onde termina o conhecimento teórico. Retomando os escritos dos estudantes, a partir do que Heller (1977) denomina de prática inventiva (aquela que inclui sempre a produção de algo novo a partir da resolução intencional de um problema), parece que eles, na atividade proposta, quando aprofundam alguma teoria, fazem isso quase sempre vinculando-a às suas experiências vividas ou a partir de dados que possam ter Práticas inovadoras na aula universitária 115 coletado nas aulas. O recorte a seguir ilustra muito bem isso: aqui os alunos são reais e os problemas também. A cada aula algo novo aparece e nos coloca a pensar. Esta atividade está nos preparando melhor para o cotidiano que iremos enfrentar na escola, não é aquela coisa fictícia discutida lá na aula teórica, ela acontece mesmo, na nossa frente. Como se pode ver, quando os estudantes trabalham a partir de problemas reais, eles acabam reconstruindo teorias, e estas são pensadas a partir de suas experiências práticas. A realidade é o combustível de onde eles retiram suas reflexões e constroem suas respostas para posterior aplicação, num verdadeiro processo dialético. Na categoria relação ensino e pesquisa, o espírito investigativo é que permeia a atividade, não só no incentivo à realização de trabalhos de pesquisa, mas também no sentido da busca pela compreensão de determinados fatos ou ocorrências do cotidiano, incentivando nos estudantes a dúvida e a curiosidade científica. Observemos as seguintes frases: a leitura do texto produzido pelo professor mexeu comigo. Era sobre uma pesquisa feita com crianças em atividade esportiva, parecida com a nossa. Como tem coisas acontecendo em minhas aulas que estão me incomodando, vou procurar ler mais sobre isso, apesar de minha resistência à leitura e, quem sabe, investigar utilizando a mesma metodologia do texto lido; antes desta disciplina eu não lia muito [...] eu tinha uma idéia aqui na minha cabeça de como seria trabalhar com crianças. Hoje, lendo mais e debatendo com os colegas, eu tenho outra idéia. Mas será que as coisas acontecem sempre assim como aqui?. Pelas escritas, pode-se perceber a dúvida como integrante da vida acadêmica. Isso é muito bom, no sentido de que faz com que os estudantes estabeleçam, a partir dela, um diálogo com a realidade, podendo, quem sabe, por meio dele, aprofundar seus conhecimentos. Outro ponto a destacar são as dificuldades com as leituras que precisam realizar, como salienta Cunha (2005), o ter que “correr atrás” das informações e fazer suas próprias elaborações e, após isso, “pôr as idéias no papel”. Apesar de todas as dificuldades, a experiência tem mostrado que tanto eu quanto eles estamos aprendendo, por meio do tipo de prática que estamos desenvolvendo, e o que se sobressai nela é justamente, entre outros fatores, a 116 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) articulação entre ensino e pesquisa. Vejo que essa articulação está propiciando o novo, e é uma das marcas da ruptura com o ensino tradicional por eles vivenciado em grande parte na universidade. Com relação à categoria organização do trabalho em aula, chamo a atenção para dois pontos que estão sendo relevantes em nossa atividade: o trabalho colaborativo e a valorização do trabalho reflexivo. A forma de trabalho em duplas rotativas vem fazendo com que os estudantes se utilizem, primeiramente, uns dos outros, trazendo idéias, dúvidas e possíveis soluções, para pensar, debater e elaborar as propostas de aula. Esta frase de uma estudante identifica muito bem isso: quero registrar aqui que na elaboração da aula por nós, duvidei da praticidade do exercício sugerido pela colega, apesar dela ser mais antiga no curso que eu. Cheguei a questioná-la, mas ela insistiu. Hoje vi que funcionou mesmo e as crianças adoraram fazer. Os estudantes que ficam na observação, filmagens e registros fotográficos também têm aproveitado bem a organização adotada por nós, como se pode perceber neste registro: terça, no dia em que era observador, pude perceber a forma legal dele se relacionar com as crianças na aula. Como estava tendo dificuldade com alguns alunos, resolvi tentar adotar a postura dele, e não é que deu certo? Pela escrita pode-se perceber que a observação da aula fez, principalmente pela situação de êxito verificada, que ele passasse a fazer a mesma coisa, mas não no sentido da cópia pura e simples, e sim no de projetar, para a sua forma de agir, os procedimentos adotados com sucesso pelo outro. No que diz respeito à valorização do trabalho reflexivo na organização do trabalho, diria que ele está presente em todos os momentos de aula, caracterizado já anteriormente como reflexão na ação. Porém existe um momento em especial, que tem merecido certo destaque por parte dos estudantes: as reuniões de avaliação, onde se faz a reflexão sobre a reflexão na ação (SHÖN, 1992). A importância dessas reuniões avaliativas fica evidente nesta escrita: tínhamos um problema real para resolver e levamos para a reunião. Antes de qualquer proposta de resolução, debatemos o assunto [...] o professor nos sugeriu alguns caminhos e algumas leituras. Foi muito boa essa atividade, pois nos permitiu discutir a questão mais adiante e com mais conhecimento de causa. Numa situação normal de aula, no modelo vigente, a solução para esse Práticas inovadoras na aula universitária 117 tipo de problema quase sempre é fornecida pelo professor e, quase sempre, com base em sua experiência docente. No modelo que adotamos, é o grupo que procura a solução, a partir de cada membro, podendo contar com o auxílio do professor, ou não. Em minha opinião, essa é uma experiência de ensino e aprendizagem muito interessante, pois nela os estudantes pensam juntos, conversam, debatem idéias e leituras, justificam procedimentos e argumentam sobre eles, num ambiente de discussão com seus pares. Tal realidade pode ser constatada na frase de um deles: existem boas idéias que surgem em nossas reuniões. Eu mesmo tenho aproveitado várias delas para as minhas aulas. Nossa reunião a cada cinco rodadas de aula é muito importante [...] é o nosso lugar de expor as idéias e de debatê-las. Na categoria concepção de conhecimento, os registros escritos pelos estudantes apontam basicamente para a idéia de que, na atividade, se trabalha com a construção do conhecimento, não a considerando como algo absoluto e acabado. Concordo plenamente com isso, em função de que, quando propus que a disciplina funcionasse nesta forma, pensei primeiramente em uma participação efetiva dos alunos na construção das aulas e, em segundo lugar, que a aula se deveria caracterizar como um espaço onde não só o conhecimento acadêmico fosse visto como verdadeiro e absoluto. Assim como Cunha (2005), concordo que o professor não é aquele que detém todo o saber, como se dele fosse o dono. Se o saber não é absoluto, ele deve admitir diferentes fontes e formas de elaboração. Os depoimentos escritos pelos estudantes parecem evidenciar bem a concepção de conhecimento que está presente na atividade. Vejamos alguns: o que estou gostando nestas aulas é que, diferente de outras em que participo neste semestre, aqui tenho que procurar o conhecimento e aplicá-lo na realidade. Nas outras aulas é só decorar e pronto. o grande valor deste projeto é que o nosso conhecimento vai sendo construído diretamente na prática, a partir do que vamos fazendo. com certeza, o conhecimento que estou produzindo e adquirindo aqui servirá para minha vida profissional futura, não só nesta modalidade esportiva, mas para a escola também. 118 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Da mesma forma que ocorreu com Cunha (2005), nessa atividade também encontramos termos pouco utilizados no ensino tradicional como provisoriedade, multiplicidade e movimento, sendo companheiros cotidianos dos estudantes que participam nas aulas. Por fim, na categoria inserção no campo profissional, os textos produzidos pelos alunos, no Caderno de Escrita, manifestam tanto o sentimento de participação como sujeito de sua formação quanto a importância da relação entre o que estão experimentando na disciplina e sua vida profissional futura. Por exemplo: mas é para isso que serve também esta atividade, para tentarmos, acertando ou não, e assim crescermos, visando ser um professor melhor a cada dia. A frase nos dá a exata dimensão dos conceitos de provisoriedade e movimento tratados no item anterior, quando ressalta o espaço da aula como um lugar de experimentar, acertar e errar e a integração destes no seu crescimento enquanto professor. Ou ainda esta outra: achamos que este acompanhamento próximo, e esta metodologia, só nos trarão ganhos no futuro, pois estaremos com nossas bagagens carregadas de experiências. Achamos que hoje é uma das coisas que mais vale para nós no curso. Ela evidencia, além da proximidade com a realidade, a importância da multiplicidade de experiências vividas nas aulas como algo fundamental para o futuro profissional. Existem outros escritos que fornecem dados para análise nesta categoria, ainda voltados para a inserção dos estudantes no campo profissional. São eles: agora, mais do que nunca, vejo que estas aulas serão muito importantes para a minha carreirra, estas aulas, a meu ver, só nos trarão crescimento, e nos possibilitarão sermos melhores professores, pois saberemos como nos portar e posicionar em situações que virão com o decorrer da docência. Para concluir este texto, escolhi uma frase, muito curta, mas de um enorme significado para todos que, como eu, ainda acreditam na possibilidade de romper com a mesmice acadêmica, que insiste em residir na universidade há muito tempo, caracterizada pelo modelo curricular tradicional. Práticas inovadoras na aula universitária 119 A frase foi coletada de uma narrativa, em que a estudante relata a sua intervenção sobre uma situação de disciplinamento, portanto para além dos conteúdos específicos da disciplina, que ocorreu com dois alunos, com repercussão tanto na escola como também em suas famílias, e para a qual ela teve que equacionar uma solução. A importância outorgada ao ocorrido reside no fato de que, muito provavelmente, no ambiente tradicional de ensino predominante na universidade, uma situação como esta não esteja presente. A experiência dessa estudante e de seus colegas só aconteceu porque o ambiente pedagógico deste tipo de aula universitária que desenvolvemos, é muito diferente dos ambientes em que normalmente acontecem aulas na universidade. Aqui aprende-se pensando, construindo hipóteses e errando, resgatando nos estudantes o prazer de aprender. Aqui a apropriação do conhecimento é feita a partir da reflexão e discussão dos problemas reais, pois eles são mais significativos do que as simulações. Ele é sempre provisório porque faz parte de um processo em construção. Em nossa atividade, o espírito investigativo está presente como instrumento de aprendizagem. Há uma valorização do concreto, do real e da prática como ponto de partida para novas aprendizagens, com uma ênfase muito grande no trabalho coletivo e em colaboração. Aqui a dúvida é o nosso ponto de partida para a aprendizagem, e o erro é elemento integrante do processo de aprender. Enfim, aqui existe uma vinculação dos conteúdos acadêmicos, importantes para a formação dos professores, com aquilo que os estudantes já trazem, que é reconhecido, respeitado, aceito e valorizado na atividade como um todo. Mas diferentemente da aula tradicional, aqui os estudantes podem vincular tudo isso com o contexto histórico e social mais amplo, como no caso da narrativa citada anteriormente. Por isso que entre ser tradicional e ousar ser diferente, mesmo com todos os condicionantes desta ousadia, afirmo que vale a pena ser diferente. Vale a pena ser o protagonista de uma prática inovadora na aula universitária. Os estudantes, com certeza, reconhecerão esta iniciativa. Assim, dito tudo isso, destaco a frase mencionada: [...] pela primeira vez aqui no curso me senti uma professora de verdade, e isso me deixou muito feliz. Precisa dizer mais? 120 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Bibliografia BALZAN, Newton. Formação de Professores. IN: Psicologia da Educação. São Paulo: PUC/SP, n.01, 21-23, Nov., 1995. BERNSTEIN, Basil. Clases, Códigos e y Control: Hacia uma teoria de las transmisiones educativas. Buenos Aires: Akal, 1997. BLEGER, J. Psicologia de la conducta. Buenos Aires: Centro Editor da América Latina, 1971. BORGES, Cecília M. F. Formação e prática pedagógica do professor de Educação Física: a construção do saber docente. Anais do X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte. Goiânia: V1, pág. 773-785, Outubro, 1997. CARR, W. Uma teoria para la educación: hacia uma investigación educativa crítica. Madrid: Morata, 1996. CUNHA, Maria Isabel da. O Professor Universitário na transição de paradigmas. 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Sociologia política de las reformas educativas. Madrid: Morata, 1994. SCHÖN, D. La formación de professores reflexivos. Barcelona: Paidós, 1992. SIRVENT, M. T. Educación de Adultos: investigación y participación. Buenos Aires: Quirquineno, 1994). WÜRDIG, Rogério. C. Dos bancos universitários aos pátios escolares: da formação inicial à prática pedagógica dos professores de Educação Física. Centro de Ciências da Educação – UFSC, 1998 (Dissertação de Mestrado). Formação de Professores na EaD: possibilidades e desafios à inovação na formação docente na implementação do Curso de Pedagogia UAB/FURG Rita de Cássia Grecco dos Santos* Primeiras considerações Para chegarmos ao entendimento da possibilidade de construção de novas práticas e concepções de Educação a Distância – EaD, sobretudo no que tange ao universo da formação inicial de professores, trazemos, num primeiro momento, o relato sobre a experiência de implementação do Curso de Pedagogia – Licenciatura, na modalidade a distância, oferecido pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG a partir do ano de 2007. Contamos sobre o perfil do profissional que pretendemos formar, como o curso foi gestado e nossa experiência nestes três primeiros semestres letivos, indicando, assim, possibilidades e desafios à inovação nas práticas pedagógicas. Procuramos socializar com os leitores os diversos papéis que assumimos neste percurso, seja como Coordenadora do Curso, como Professora Pesquisadora ou, ainda, como Professora Formadora, com a responsabilidade de coordenar pedagógica e administrativamente o curso, planejar as aulas1 e respectivas atividades, selecionar * Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais, Mestre em Educação - História da Educação e doutoranda em Educação - Filosofia e História da Educação pelo PPGEFaE/UFPEL. Professora do Instituto de Educação da Universidade Federal do Rio Grande – FURG. E-mail: [email protected] 1 Durante estes três primeiros semestres do Curso ministrei as disciplinas da área de Fundamentos da Educação: Sociologia da Educação, História da Educação e Filosofia da Educação. 124 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) recursos adequados à mediação através das tecnologias disponíveis, entre outras ações imprescindíveis ao seu desenvolvimento, com o condicionante de conhecermos muito pouco dos contextos sócioantropológicos das cidades contempladas com os Pólos atendidos pela FURG – até então reconhecida e identificadamente uma instituição de formação de qualidade apenas na modalidade presencial. Práticas inovadoras na aula universitária distância tem a mesma qualidade do ensino presencial? Se a educação a distância tem qualidade, substituirá as tradicionais aulas presenciais? A educação a distância é apenas um projeto de governo ou um projeto de Estado? Será que o advento da educação a distância favorecerá a democratização do acesso e permanência ao ensino ou a tornará mais elitista? Pois como indicam Cunha e Lucarelli (2005, p.1): Num segundo momento, tratamos dos aspectos referentes ao início do período letivo, do desenrolar das disciplinas, quando efetivamente passamos a trabalhar com os Tutores Presenciais e os Tutores a Distância – que têm exercido um importante e fundamental papel de mediação e interlocução entre todos os sujeitos envolvidos no processo – e acerca da construção de nossa caminhada como professores na EaD. Acreditamos que, partindo da reflexão sobre nossa caminhada nesse processo, podemos contribuir para a compreensão da docência no Ensino Superior a Distância. Nesse sentido, tomamos como referência para reflexão nossa ação docente nos últimos quinze anos no ensino presencial e, neste momento específico, nossa experiência inicial com a docência na modalidade a distância, fazendo uma análise desde a concepção do curso, do processo de planejamento das aulas e da preparação do material, das aulas virtuais e dos dois encontros presenciais com os alunos, um ao início e outro ao final do período de cada disciplina. Outro ponto abordado refere-se aos alunos, quando fazemos um movimento no sentido de apreender como estão vivenciando esta modalidade de ensino, como estão sentindo/percebendo e organizando suas aprendizagens sem a presença física e, por vezes, permanente do professor. Para analisarmos esse processo, dialogamos com alguns autores como Lucarelli (1997; 2001; 2005), Santos (2000), Cunha (2001; 2005; 2006), entre outros. Antes de nos debruçarmos sobre os aspectos anunciados, gostaríamos de compartilhar algumas inquietações que não se calam em nossa cotidianidade e, mesmo que não tenhamos respostas para muitas delas, as estamos lançando para, quem sabe, instigar o leitor a pesquisá-las: Como ensinar alguém que não conhecemos? Como interagir com os alunos sem contrapor idéias presencialmente? Como avaliá-los a distância, sendo essa questão tão complexa quando temos encontros presenciais sistemáticos? Ou ainda, o ensino a 125 A condição da inclusão social se afirma como um objetivo do desenvolvimento sustentável necessário ao exercício da cidadania e a educação superior figura como condição fundamental para o alcance dessa meta. O equilíbrio entre expansão e qualidade tem incentivado energias no sentido de compreender e propiciar experiências de inovação na aula universitária, rompendo com a perspectiva epistemológica tradicional. Essa tarefa inclui um esforço intencional no âmbito da formação docente, estimulando saberes e compreendendo sua construção. Essas e outras tantas questões “invadem nossas cabeças” e são manifestadas em diversas reuniões que realizamos com outros professores, tanto durante o período de concepção da proposta do curso quanto durante sua implementação e, de certa forma, permanecem no decorrer do processo, pois algumas delas ainda não podem ser respondidas, uma vez que o curso está numa fase ainda bastante inicial. Origem do Curso Superior de Pedagogia-Licenciatura, Modalidade a Distância, na FURG Cremos que até a assunção do Decreto N° 5.6222, de 19 de dezembro de 2005 – regulamentando o Artigo 80 da Lei N° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabeleceu nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN –, culminando no Edital de Seleção n° 01/2005-SEED/MEC, muito pouco havíamos pensado e/ ou trabalhado acerca da modalidade EaD. 2 Através desse Decreto é lançado o Programa Universidade Aberta do Brasil – UAB, vinculado à Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação – SEED/ MEC, tendo, como objetivo primeiro, formar um sistema integrado de instituições públicas para levar o ensino superior até municípios que não contam com oferta ou cujos cursos ofertados são insuficientes para atender à população, através da modalidade de Educação a Distância. 126 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Tomamos conhecimento formal acerca do referido edital no final de fevereiro de 2006, quando retornávamos de férias3 e, com o intuito de corroborar com a política de educação proposta pela atual administração da União, a FURG, mais precisamente a Pró-Reitoria de Graduação, desencadeou uma articulação entre os Professores dos Departamentos de Educação e Ciências do Comportamento4 e de Matemática5, através do convite para uma Reunião, a fim de que tomássemos conhecimento do Programa UAB e nos articulássemos coletivamente para participar da concorrência do referido edital com a construção de uma proposta de Curso de Pedagogia na modalidade a distância. A princípio, o convite nos causou certo estranhamento, pois até então nossa docência não estava apenas focada, mas centrada na educação presencial. Sendo que o fato que muito corroborou para esse estranhamento está vinculado à própria trajetória estigmatizada da EaD no Brasil, fortemente marcada pela fragilidade dos processos formativos. Esta primeira reunião, que assumiu um caráter de apresentação do edital e da proposta de formação no ensino superior na modalidade a distância, favoreceu uma salutar discussão acerca das efetivas possibilidades de realização, bem como dos principais entraves. Após, aproximadamente dez dias depois da reunião organizada pela referida pró-reitoria, parte do coletivo de professores do Curso de Pedagogia aceitou o desafio de construir uma proposta de Curso de Pedagogia na modalidade a distância que, ao mesmo tempo, estivesse em consonância com o Projeto Político-Pedagógico da Universidade, com as Novas Diretrizes Curriculares para o Curso de Pedagogia – que estavam por ser promulgadas naquele momento – e, especialmente, com a concepção de formação de professores que acreditamos. 3 4 5 E, num movimento de atendimento à demanda de vagas na Educação Superior, represada há tanto tempo no Brasil, subsidiária de uma série de variáveis como ineficiência das políticas públicas de educação e objetiva falta de um Projeto de Estado em relação ao acesso à Educação Superior. Em virtude do processo de modificação na Estrutura Organizacional da FURG, consolidado no segundo semestre de 2008, o Departamento de Educação e Ciências do Comportamento passou a constituir o atual Instituto de Educação – IEduc desta IFES. Atual Instituto de Matemática, Estatística e Física – IMEF. Práticas inovadoras na aula universitária 127 Depois de muitas reuniões para discutirmos como seria o Curso, chegamos a um consenso de que ele deveria ter algumas características que considerávamos indispensáveis à formação do pedagogo, bem como uma identidade específica, qual seja: um educador das infâncias formado pela pesquisa, a partir de uma perspectiva interdisciplinar de construção do conhecimento. Tal proposta, que acabou sendo contemplada pelo edital em julho daquele ano, culminou na criação e implementação do Curso de Pedagogia-Licenciatura UAB/FURG a partir de agosto de 2007 e fomentou no grupo a emergência da constituição de um “que fazer docente” adequado às demandas específicas e à dinâmica própria da EaD. Para além do já citado, cabe ressaltar nossa preocupação em darmos conta do desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem, a partir de uma perspectiva de rompimento com o ranço histórico da fragilidade e da desqualificação que os cursos e programas de EaD, via de regra, são estigmatizados, especialmente em se tratando do contexto brasileiro e latino-americano. Como verificamos na manifestação de Santos: Cremos que a articulação desse curso, vinculado ao Sistema Universidade Aberta do Brasil cumpre uma função social bastante específica, a interiorização e a expansão da Universidade, mediadas pelas novas tecnologias em informação e comunicação na educação, procurando constituir uma nova cultura escolar em Educação a Distância no Brasil (et al., 2007). Assim, o curso foi organizado em oito Blocos6 (semestres) pensados a partir da lógica de organização de quatro grandes Núcleos Temáticos, norteadores do trabalho a ser desenvolvido nas disciplinas, culminando na formação dos futuros pedagogos. O primeiro envolve os chamados Estudos Básicos, em que são articuladas disciplinas de Psicologia, Políticas Públicas, Metodologia de Pesquisa em Educação, Fundamentos da Educação, Didática e Alfabetização Digital – posto que a apropriação das novas tecnologias se faz necessária para viabilizar a participação no curso. O segundo núcleo é o de Aprofundamento e Diversificação de Estudos, com disciplinas que envolvem a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e Projetos de Pesquisa. 6 Proposta de Curso de Graduação a Distância: Pedagogia-Licenciatura da FURG. 128 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) O terceiro núcleo, de Estudos Integradores, busca uma articulação entre as disciplinas trabalhadas no semestre e as práticas realizadas nos estágios, favorecendo a aprendizagem do universo da Educação de Jovens e Adultos e da Gestão Escolar. Por fim, o quarto núcleo, nomeado de Proposições e Perspectivas Educativas, visa a articulações entre os conteúdos trabalhados ao longo do curso e as práticas realizadas. Salientamos que a proposta contempla a formação do pedagogo com competência pessoal e ética, habilidades e conhecimentos que lhe permitam uma sólida educação básica e visão de mundo, aberta à convivência com a pluralidade e as diferenças. Em acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais e com o Projeto Político Pedagógico institucional, o curso pretende formar o pedagogo para exercer funções de magistério na Educação Infantil, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, na Educação de Jovens e Adultos e na Área de Serviços e Apoio Escolar, bem como em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. Daí emerge a preocupação em proporcionar aos alunos a inserção nas práticas educativas desde o início do curso, buscando uma efetiva articulação entre os aspectos teóricos e práticos. Engendrando a autoformação docente: nossa experiência com formação de professores no Curso de Pedagogia UAB/FURG Reconhecemos que o mundo não é mais o mesmo da Modernidade, fruto de uma lógica cartesiana de organização e de previsibilidade dos eventos e das relações sociais, pelo contrário, incorporaram-se novas e múltiplas formas de conceber e de produzir a realidade e/ou redes discursivas de interpretação dos fatos. Daí reforçamos a necessidade de mobilização para a construção de uma sociedade mais justa e menos excludente, que garanta o acesso irrestrito e cada vez mais amplo das populações em geral a esses novos saberes. Mais que isso, que promova a formação integral do indivíduo, possibilitando o desenvolvimento de uma atitude de aprendizagem e crescimento constante, ou seja, a condição de sujeito inserido e atuante dentro de um determinado processo sócio-histórico, ou nas palavras de Santos (2000), um sujeito que conquiste a emancipação social. Práticas inovadoras na aula universitária 129 Associados a esta concepção e lançando o olhar no que se refere à questão da formação de professores, Álvarez Méndez nos diz que: Os contextos de formação e da prática estão muito distantes e, em alguns pontos, podem ser antagônicos. As crianças e os jovens que aparecem nos livros de estudo – tão exemplares – não têm nada a ver com os alunos – tão conflituosos – que se encontram na sala de aula. Nem a escola é um nicho ecológico em que tudo funciona harmonicamente. Os textos de formação de ontem não resolvem os problemas da sociedade de hoje (2003, p.21). Posicionamento que é ratificado por Cunha e Lucarelli (2005, p.3), quando afirmam que: Ainda que tenha sido fundamental entender e alterar a lógica que aprisiona e determina as relações de poder no mundo do trabalho, ficou evidente que a compreensão da profissão docente exige a inclusão de outros processos analíticos. Entre eles, estabelece-se com destaque, a construção dos saberes e dos valores, responsáveis pela produção cotidiana do trabalho do professor. É certo que a docência sofre determinações do sistema e da sociedade, provocando processos de reprodução social. Mas é reconhecido, também, que os professores são sujeitos históricos, capazes de transformações, especialmente quando se sentem protagonistas de seu fazer profissional. Sendo assim, a formação de professores não poderia deixar de ser um significativo espaço para discussão e fomento do debate teórico e também do senso comum. Pois como salientam Freitas, Rinaldi e Chaigar (2006, p.3): Na instituição escola ainda é forte a percepção de que os/as educadores/as não produzem conhecimentos, que isto é uma prerrogativa dos que estão na Universidade. Entretanto ao negar-se o caráter investigativo da docência no ensino básico, sobretudo o público, nega-se todo um conhecimento experiencial legando ao silêncio e à desimportância atores e autores que podem, de fato, alterar o jogo na sala de aula e na escola. Consequentemente, pensamos que a formação de professores está comprometida com o entendimento de si próprio, com o respeito à trajetória pessoal e profissional de cada um e com a tentativa de “enquadramento/identificação” em algum referencial epistemológico específico. Assim, a busca por uma referência que dê uma orientação pedagógica à prática docente se faz necessária à medida que o “ser professor” está relacionado de maneira direta com a formação de outros sujeitos e com sua própria autoformação. 130 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) E, reconhecendo o contexto em que se instaura, de modo consciente e reflexivo, o processo de autoformação, formula-se a hipótese de que ele é vivenciado como um processo de transformação de perspectivas, sincrônica e diacronicamente atravessado por uma conflitualidade que se torna motor de desenvolvimento pessoal e que, em última análise, conduz à produção singular de si – próprio. Desse modo, partimos da concepção de autoformação, hoje defendida por muitos autores, como Nóvoa (1992), Josso (2004) e Abrahão (2006) entre outros, para os quais se constitui num processo de apropriação completa e individual do poder de formação, em que cada pessoa é chamada a ser simultaneamente sujeito e objeto da sua própria formação. Portanto, atribuir ao sujeito um lugar central no seu processo formativo torna-se cada vez mais pertinente no contexto das atuais correntes de formação de professores. Igualmente, ao proceder ao aprofundamento dos atuais estudos teóricos, verificamos que a autoformação é apontada como um dos processos mais adequados à formação de professores, tanto da Educação Básica quanto da Educação Superior. Por isso, temos que lidar com a formação de professores numa nova realidade, que inclui repensar referenciais teóricos, readequação dos currículos e novas formas de interação entre professor e aluno, haja vista que estamos absolutamente imersos num processo de autoformação. Afinal é a globalidade da vida o lugar privilegiado do conhecimento e da produção da pessoa. Dessa maneira, a visão de ensino provoca mudanças no modo de ser e ensinar do professor, o que determina maior autonomia para o docente escolher o quê, como e quando ensinar, introduzindo novas concepções acerca da identidade do professor e, por extensão, da atividade docente. Como indicam Arriada, Santos e Nogueira (2007, p.3): [...] Hoje não apenas ensinamos, mais do que isso, num mundo onde impera um individualismo assustador, ainda existem aqueles que se propõem ensinar aprendendo. Sem hierarquias, sem outorga de sermos mais e melhores, tentamos “socializar” o nosso saber, com aqueles que querem e ousam querer saber. Desse modo, salientamos que nossa experiência nestes três primeiros semestres do curso nos têm feito repensar nossa prática Práticas inovadoras na aula universitária 131 e nos conduziu à construção de novas formas de ação, tais como: entender que o espaço clássico da universidade não é o único lócus que dispõe das fontes de informação e conhecimento – pois há que se reconhecer que muitas teorias são produzidas noutras ambiências, para além do espaço formal e/ou acadêmico – e perceber que estamos diante de um processo de aprendizagem sem fronteiras, suscitando então, a necessidade de apropriação e publicização de outras ferramentas de informação e comunicação. Até o momento, temos estabelecido interação síncrona e assincronamente para discussão dos conteúdos e das temáticas pertinentes às disciplinas, para além dos dois encontros presenciais, através de Salas de Bate-papo (que são os Chats), Fóruns, Correio eletrônico (e-mail) e, mais recentemente, por um novo programa (Adobe Connect), pelo qual podemos contar com o recurso da câmera (webcam), ou seja, a imagem em tempo real do professor e do aluno. Sendo assim, a mediação da tecnologia imprimiu um ritmo diferente às aulas, estabelecido pela interligação entre ensino, aprendizagem e interação no ambiente virtual de aprendizagem. A partir das práticas mencionadas, problematizamos uma experiência de educação a distância que acreditamos ser qualificada, uma vez que o docente é encarado como alguém que ensina a distância, mas não “na distância”. Ou seja, o professor não assume o papel de um mero transmissor de conteúdos, pelo contrário, é alguém que interage, debate, suscita questionamentos e instiga à construção do conhecimento de forma coletiva e colaborativa, e o aluno, por sua vez, não é um simples receptor de informações, como bem lembra Moran (2002, p.3): Educação a distância não é um “fast-food” em que o aluno se serve de algo pronto. É uma prática que permite um equilíbrio entre as necessidades e habilidades individuais e as do grupo – de forma presencial e virtual. Nessa perspectiva, é possível avançar rapidamente, trocar experiências, esclarecer dúvidas e inferir resultados. As práticas educativas desenvolvidas na FURG na modalidade a distância têm se constituído com uma finalidade clara, objetiva e crítica, qual seja – através da articulação da concepção de formação de professores, emanada pela Proposta de Curso de Graduação a Distância: Pedagogia-Licenciatura (RINALDI et al., 2006) e pelo Projeto Político-Pedagógico da Universidade (FERIS et al., 2004) – 132 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) engendrar uma formação de professores qualificada, em consonância com a Legislação e em atendimento às demandas educacionais locais e regionais, favorecendo, inclusive, o processo de autoformação dos próprios professores da universidade. Pensando nessa perspectiva, principalmente no que se refere às “relações complexas”, podemos pensar sobre o impacto que as relações virtuais estão causando, não só na relação entre as pessoas, mas acima de tudo na relação que se estabelece com o saber e com a linguagem. Dessa forma, o primeiro desafio está centrado na apropriação da linguagem virtual, e uma das nossas preocupações iniciais ao elaborar as aulas, era justamente nos fazer entender pelos alunos, já que não haveria inicialmente encontro presencial. Outra preocupação que tínhamos era em relação aos textos que seriam utilizados, devendo ser compreensíveis sem ser frágeis teoricamente. Mais um aspecto considerado foi a utilização das ferramentas disponíveis no ambiente virtual em que as aulas seriam disponibilizadas – ambiente Moodle – já que nós, enquanto professores, não tínhamos amplo domínio da tecnologia. Conforme Belloni: Para fazer frente a essa nova situação, o professor terá necessidade muito acentuada de atualização constante, tanto em sua disciplina específica, quanto em relação às metodologias de ensino e as novas tecnologias. A redefinição do papel do professor é crucial para o sucesso dos processos educacionais presenciais ou a distância. Sua atuação tenderá a passar do monólogo sábio da sala de aula para o diálogo dinâmico dos laboratórios, salas de meios, emails, telefone e outros meios de interação mediatizada; do monopólio do saber à construção coletiva do conhecimento através da pesquisa; do isolamento individual aos trabalhos em equipes interdisciplinares e complexas; da autoridade à parceria no processo de educação para cidadania (2006, p.47). Podemos considerar de certa forma um choque de paradigmas referenciais, pois conforme nos diz Tardif: [...] os próprios professores, no exercício de suas funções e na prática de sua profissão, desenvolvem saberes específicos, baseados em seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio. Esses saberes brotam da experiência e são por ela validados. Eles incorporam-se à experiência individual e coletiva sob a forma de habitus e de habilidades, de saber-fazer e de saber-ser. Podemos chamar de saberes experienciais ou práticos (op. cit., p.101). Desse modo, os saberes que construímos, até então, nos permitem pensar em uma prática reflexiva que pode ser reconstruída Práticas inovadoras na aula universitária 133 a cada nova aula, que pressupõe um ensino a partir da realidade do aluno para que seja realmente significativo, que privilegie uma avaliação enfocando o processo e não o produto final, enfim uma prática dentro da perspectiva da construção do conhecimento a partir da interação social. Enveredando pelo universo da produção de material didático para EaD Aprender e ensinar a distância, assim como presencialmente, implica o reconhecimento da alteridade dos sujeitos que, com suas práticas – ações e formas de pensar a ação e a totalidade da realidade – constituem o mundo, os processos específicos de educação escolar e educação não-formal e os processos mais profundos de vivência e formação humana e da sociedade. Por sua vez, a aprendizagem e a apropriação do conhecimento sistematizado, levando em consideração as distintas formas de manifestação do saber e as potencialidades dos sujeitos, bem como as relações de poder que permeiam o processo, devem sempre ser contempladas na reflexão acerca dos programas de formação. Desse modo, como o texto da Proposta de Curso de Graduação a Distância – Pedagogia-Licenciatura (2006, p.12) sinaliza: [...] o currículo que se propõe contempla atividades que estimularão a autoaprendizagem, a pesquisa, o investimento na própria formação, a criatividade, a sensibilidade, e a capacidade de interagir e trabalhar em equipe, sobretudo, em se tratando de uma modalidade até então distante do contexto da prática docente dos Professores de nossa instituição. Destarte, quando consideramos na discussão as dimensões da sensibilidade e da afetividade na apropriação do conhecimento, necessitamos recorrer ao diálogo com estudiosos como Maturana (1998), que afirmam que esta ação nos dá mais diversos segmentos e competências do saber no mesmo instante e de diferentes formas e maneiras, portanto, estimular todos os sentidos é uma tarefa difícil, mas necessária. É nesse contexto que destacamos a produção de material didático para o curso de Pedagogia UAB/FURG e, por extensão, as peculiaridades advindas desse processo. A gênese desta caminhada certamente tem se constituído num processo novo, desafiador e comprometido com a formação cidadã dos sujeitos envolvidos, assumindo-se também as incertezas 134 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) e inseguranças, subsidiárias de nossa breve experiência e expectativa em promover a construção de uma nova cultura de formação na EaD, identificada com categorias como seriedade e qualidade do material e dos processos formativos. Mobilizando a memória e promovendo um verdadeiro processo de representificação como categoriza Catroga (2001), existiam apenas duas certezas quando iniciamos a produção de material no final do primeiro semestre de 2007: necessidade de interação, conduzindo a uma imperiosa participação, já que todo o material produzido deveria despertar a participação e colaboração entre os alunos, tutores e professores e, também, a cooperação, pois o ensino a distância proposto pela FURG através da UAB, mais que levar em consideração a participação entre todos os envolvidos, a considera como condição sine qua non da aprendizagem colaborativa em rede. Cabe salientar que os cursos da UAB não utilizam material impresso e sim material na versão digital, favorecendo assim que o material seja pensado de forma a despertar o máximo interesse dos alunos, utilizando-se, para tanto, de inúmeros recursos de imagem, som e animação, a fim de potencializar as possibilidades de apropriação do conteúdo. Ocorre que para desenhar esse caminho, há a necessidade de discussão coletiva acerca dos recursos e das estratégias a serem escolhidos, daí a relevância do que chamamos de Design Instrucional – podemos dizer que o Design Instrucional é responsável pela conversão do conteúdo de projetos educacionais para a metodologia a distância. Práticas e saberes docentes Tardif nos diz que “[...] o saber não é uma substância ou um conteúdo fechado em si mesmo; ele se manifesta através de relações complexas entre o professor e seus alunos” (op. cit., p.13). Assim, podemos inferir que o impacto causado pelas relações virtuais vai para além da relação entre as pessoas, atingindo, sobremaneira, a relação que se estabelece com o saber, visto que, se tomarmos como exemplo algumas décadas atrás, as informações eram veiculadas em um ritmo completamente diferente do que estamos acostumados hoje em dia, forjando, assim, uma percepção de tempo e de espaço absolutamente díspar da que partilhamos hoje. Práticas inovadoras na aula universitária 135 Com a invenção da imprensa, criou-se também outra forma de relação com o conhecimento, refletindo diretamente na história da educação, pois esta invenção redimensionou a organização do ensino. Com a imprensa foi possível dispor de uma série de materiais que auxiliam na dinâmica da organização da aula e, consequentemente, na forma como se concebe a didática. O tempo e o espaço passaram a ser redimensionados, a leitura passou a ocupar diversos lugares, e as notícias passaram a ser divulgadas rapidamente. Tornou-se possível voltar diversas vezes a um mesmo texto, repensar idéias e dialogar com o escrito. Com um texto reproduzido, viabilizou-se que cada aluno pudesse dispor de seu material e o utilizasse várias vezes, em outros lugares, inclusive, sem a presença do professor. Nesse sentido, podemos dizer que há uma descentralização das situações de aprendizagem da figura do professor. Na visão de Pablos: O domínio da escrita, e por extensão de qualquer linguagem ou código, tem conseqüências na capacidade de abstração, o que resulta em um processo de descontextualização do conhecimento. Por sua vez, esse processo facilita o caminho para um tipo de pensamento progressivamente mais complexo (2006, p.37). Com a educação a distância há novamente uma alteração na forma de veiculação da materialidade da linguagem, passando do papel para a tela do computador. Essa mudança traz consigo uma nova forma de o leitor se relacionar com o texto, uma nova maneira de construir e interpretar a linguagem e novas estratégias em interagir com o material escrito. Essas novidades trazidas pela interação virtual ainda não são, de domínio de muitos professores e também de muitos alunos. Dessa forma, o primeiro desafio está centrado na apropriação da linguagem virtual, e uma das nossas preocupações iniciais ao elaborar as aulas, era justamente nos fazer entender pelos alunos, já que não haveria inicialmente encontro presencial. Portanto, as instruções das tarefas deveriam ser claras, objetivas e diretas. Outra preocupação que tínhamos era em relação aos textos que seriam utilizados, devendo ser compreensíveis sem ser frágeis teoricamente. 136 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Possibilidades e desafios à inovação na formação docente Ainda frágil, a inovação que estamos procurando empreender no Curso de Pedagogia UAB/FURG, enfrenta dificuldades decorrentes da presença paradigmática dominante. Entendemos que para assumir uma formação nessa direção já carregamos o ônus da complexidade da iniciativa. Santos (2000) afirma que “[...] a luta paradigmática é, no seu conjunto, altamente arriscada [...]” (op. cit., p.344), pois exige uma subjetividade emergente que envolve ruptura epistemológica e societal. Para o autor, “[...] formas alternativas de conhecimento geram práticas alternativas e vice-versa” (op. cit., p.344). Nesse sentido, Cunha nos ajuda a explicitar que [...] as inovações que adivinhamos próximas se materializam pelo reconhecimento de formas alternativas de saberes e experiências, nas quais imbricam objetividade e subjetividade, senso comum e ciência, teoria e prática, cultura e natureza, anulando dicotomias e procurando gerar novos conhecimentos mediante novas práticas (2006, p.18). A forma como estamos interagindo no Curso exige dos professores a reconfiguração de saberes e favorece o reconhecimento da necessidade de trabalhar no sentido de transformar a “[...] inquietude em energias emancipatórias [...]” como explica Sousa Santos (op. cit., p.346), e ratifica Lucarelli (2001. p.8), quando se refere à aula universitária: [...] identifico a la innovación por oposición y contraste con una situación presente habitualmente en las aulas universitarias; esto es, reconozco a la innovación asociada a prácticas de enseñanza que alteren, de alguna manera, el sistema de relaciones unidireccional que caracteriza una clase tradicional, conducente a una “didáctica de la transmisión” que, regida por la racionalidad técnica, reduce al estudiante a un sujeto destinado a recepcionar pasivamente cualquier información. Innovar, en consecuencia significa alterar el sistema relacional intersubjetivo de una clase. Esa ruptura del statu quo implica la inclusión del profesor e del estudiante como sujeto, aún cuando no se agota en las estructuras de significado subjetivo. Assim, a noção de inovação, para Lucarelli (2001) e Cunha (2001), está ligada à epistemologia, ou seja, o conceito de inovação diz respeito à concepção de conhecimento dentro da transição paradigmática. Assim, a inovação, na educação, é entendida como uma ruptura paradigmática nos processos de ensinar e de aprender Práticas inovadoras na aula universitária 137 no campo epistemológico. Como explica Cunha, “[...] a inovação na educação é um conceito de caráter histórico social marcado por uma atitude epistemológica do conhecimento para além das regularidades propostas pela modernidade” (2001, p.37). Para essa autora, a inovação é caracterizada por experiências que são marcadas por: [...] ruptura com a forma tradicional de ensinar e aprender e/ou com os procedimentos acadêmicos inspirados nos princípios positivistas da ciência moderna; gestão participativa, onde os sujeitos do processo inovador sejam protagônicos da experiência, desde a concepção até a análise dos resultados; reconfiguração dos saberes, onde se anulam ou diminuem as clássicas dualidades entre saber cientifico/saber popular; reorganização da relação teoria/prática, rompendo com a clássica proposição de que a teoria vem antes da prática, dicotomizando a perspectiva globalizadora; perspectiva orgânica no processo de concepção, desenvolvimento e avaliação da experiência desenvolvida (2001, p.38). A inovação assim entendida procura explorar novas alternativas que podem, em alguma medida, tornar-se importantes marcos para a construção de outras possibilidades. Nessa perspectiva, também podemos destacar que a inovação, como processo que contempla a construção de novas alternativas, é uma experiência pessoal que adquire um significado particular na prática; permite estabelecer relações significativas entre diferentes saberes; provoca inquietações nos sujeitos; facilita e provoca a compreensão daquilo que dá sentido ao conhecimento; é conflituosa e gera um foco de agitação intelectual permanente, centrado mais no processo do que no produto. Como explica Lucarelli: [...] En este contexto, el pedagógico, las innovaciones son analizadas desde la capacidad que tienen para producir un mejoramiento sensible, mensurable, deliberado y/o duradero de la situación vigente; en este sentido implican la selección creadora, la organización y utilización de recursos en una forma nueva y original que permita alcanzar objetivos definidos. [...] (1997, p.15). Construir o entendimento de inovação sobre esses pressupostos leva-nos a perceber que a inovação não acontece no vazio, contrariando algumas concepções que querem nos fazer crer que a inovação é a introdução do “novo” dentro de um sistema para produzir mudanças e reformas. A inovação significa modificar as formas de atuação como resposta a mudanças nos alunos e implica uma organização diferente do trabalho, para a qual devem ser utilizados métodos mais eficazes. 138 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Nessa visão é possível admitir que a inovação possa ser lançada de cima para baixo, como modelos de mudanças baseados no saber de especialistas e nas prescrições legais. No entanto, “ela só se efetivará se puder contar com agentes inovadores e com uma proposta suficientemente clara para ser aceita e implementada”, como afirma Cunha (2001, p.37). Isso nos leva a crer que as inovações têm de ser pensadas, geridas e realizadas pelos professores, seguindo um movimento de baixo para cima na direção de uma educação integral que articule as experiências dos alunos e os problemas sociais com a cultura escolar. Considerações Finais Ao nos possibilitar um grande aprendizado, além do desafio metodológico, reconhecemos que a docência na EaD demanda ainda a busca por um processo de constante autoformação, afinal fomos educados numa perspectiva de educação presencial em que a lógica e a metodologia utilizadas são completamente diversas daquelas as quais precisamos adotar nesta modalidade. Assim, ao respondermos e enviarmos e-mails, participarmos dos fóruns e das discussões síncrona e assincronamente. Essa nova tecnologia da escrita noutros territórios nos proporciona tanto um contato direto entre professores e alunos, o exercício do debate e da escrita coletiva, quanto a efetiva construção do conhecimento. Acreditamos que cabe ao professor, em constante processo de autoformação, ressignificar os próprios conceitos e questionamentos de sua constituição docente e de sua prática educativa. E, em se tratando de EaD, que se aproprie cada vez mais das tecnologias da informação e comunicação. Nessas perspectivas, cremos que, com essa experiência, estamos operando algumas mudanças qualitativas nos processos de ensinar e de aprender, pois em busca de qualificar as formas de interação e de problematização do conhecimento, rompendo limitações de barreiras como espaço e tempo entre professor e aluno, visando à autoaprendizagem, estamos também constituindo uma nova concepção acerca da EaD. Por fim, enfatizamos que esse movimento de constituição de nossa professoralidade nesta modalidade, até então estigmatizada e um tanto desconhecida para nós, tem favorecido uma interessante interlocução com os processos de educação presencial, o que Práticas inovadoras na aula universitária 139 acreditamos só tende a qualificar nossa docência, que deve ser pautada na perspectiva crítico-reflexivo, que implica projetos próprios, liberdade de criação, investimento pessoal e reconhecimento da práxis como lugar de produção do saber. Bibliografia ABRAHÃO, Maria Helena. Profissionalização docente e identidade: narrativas na primeira pessoa. In: SOUZA, Elizeu (org.). Autobiografias, histórias de vida e formação: pesquisa e ensino. Porto Alegre: EDIPUCRS: EDUNEB, 2006, p.189203. ÁLVAREZ MÉNDEZ, Juan Manuel. A avaliação em uma prática crítica. Revista Pátio. Porto Alegre: ARTMED, Ano VII, n. 27, p.20-23, ago/out 2003. ARRIADA, Eduardo; SANTOS, Rita de Cássia Grecco; NOGUEIRA, Gabriela. Docências em História da Educação: cruzando experiências entre FURG e UFPEL. In: IV SIMPÓSIO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR: DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE/1 FÓRUM DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO SUPERIOR. 2007, Santa Maria. Anais Trajetórias de Formação na Educação Superior: perspectivas teóricometodológicas. Santa Maria: Fato Eventos, 2007, CD Rom. BELLONI, Maria Luiza. Educação a distância. Campinas: Autores Associados, 2006. CATROGA, Fernando. Memória e história. In: PESAVENTO, Sandra. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2001. CUNHA, Maria Isabel. O bom professor e sua prática. 13 ed. Campinas: Papirus, 2001. _____. et al. Inovações pedagógicas na formação inicial de professores. In: FERNANDES, Cleoni; GRILLO, Marlene (orgs.). Educação Superior, Travessias e atravessamentos. Canoas: Ed ULBRA, 2001a. p.43 140 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) _____. LUCARELLI, Elisa. Inovações na sala de aula universitária e saberes docentes: experiências de investigação e formação que aproximam Argentina e Brasil. In: Primer Congreso Nacional de Estudios Comparados en Educación, 2005, Buenos Aires. Anais do Congreso Nacional de la Sociedad Argentina de Estudios Comparados en Educación. 2005. v. 1. _____. (org.). Pedagogias Universitárias: energias emancipatórias em tempo neoliberais. Araraquara: Junqueira e Marin, 2006. FERIS, Elisabeth et al.. Projeto Político-Pedagógico. Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande: FURG, 2004. Práticas inovadoras na aula universitária 141 PABLOS, Juan. A visão disciplinar no espaço das tecnologias da informação e comunicação. In: POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999. RINALDI, Rita de Cássia Grecco et al.. Proposta de Curso de Graduação a Distância: Pedagogia-Licenciatura. Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande: FURG, 2006. SANTOS, Rita de Cássia Grecco et al.. A experiência da articulação do Curso de Pedagogia na modalidade a distância na FURG, vinculado ao Sistema Universidade Aberta do Brasil. In: XVI ENCONTRO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E O MERCOSUL/CONESUL E PAÍSES ASSOCIADOS: DESAFIO POLÍTICO E PEDAGÓGICO. 2007, Salvador. Anais XVI Encontro Internacional de Educação e o Mercosul/Conesul e Países Associados: Desafio Político e Pedagógico. Salvador: Ed. da ASSERS, 2007, CD Rom. FREITAS, Ana Lúcia; RINALDI, Rita de Cássia Grecco; CHAIGAR, Vânia. Educador/a-pesquisador/a: um paradigma emergente na formação de professores/as. In: IV SEMINÁRIO NACIONAL DE PEDAGOGIA UNIVERSITÁRIA. 2006, Porto Alegre. Anais do IV Seminário Nacional de Pedagogia Universitária. Porto Alegre: EDIPUC, 2006, CDRom. SANTOS, Boaventura de. Pela mão de Alice: O social e o político na pós-modernidade. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2000. JOSSO, Marie-Christine. Experiências de Vida e Formação. São Paulo: Cortez, 2004. TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 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Aprender a aprender: a solicitação da figura pecúlio como prática pedagógica inovadora na formação de professores de teatro Adriano Moraes de Oliveira* Panorama do processo: os instrumentos e seus participantes O processo de formação de atores e espectadores para o teatro, desenvolvido entre 2007 e 2008 com alunos e alunas dos cursos de Teatro, Artes Visuais e Música do Instituto de Artes e Design da UFPel, e coordenado por mim, ocorreu por duas vias: por meio de projetos e através de duas disciplinas práticas obrigatórias (Improvisação Teatral I e II). Por meio dessas instâncias institucionais pude promover encontros dos alunos/atores com espectadores de diversas comunidades (acadêmica, artistas, etc.). Esses encontros permitiram que ocorresse aquilo que Aristides Vargas, diretor do Grupo Malayerba (Equador), considera como essencial na forma artística teatral: a possibilidade do aprendizado pelo encontro com o outro, pela mudança que ocorre no momento em que nos colocamos no lugar do outro. Além dessa possibilidade, um elemento fundamental ao processo de criação que aqui descrevo sugere o que Eugênio Barba, diretor-pedagogo do Odin Teatret (Dinamarca), define como a principal tarefa dos profissionais de teatro: aprender a aprender. * Bacharel em Artes Cênicas - Interpretação Teatral, doutorando em Educação (UFPel). Docente do Instituto de Artes e Design da UFPel. E-mail: [email protected] 144 Práticas inovadoras na aula universitária Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Para garantir a qualidade do ensino e da aprendizagem e evidenciar o caráter de pesquisa, além de estimular o processo de formação dos envolvidos – alunos/atores e espectadores – denominei os processos e práticas pedagógicas de “exercícios públicos teatrais”. Para enfatizar a proposta da pesquisa, coloquei no título e/ou subtítulo de cada “exercício público teatral” o nome do autor da teoria que estava sendo praticada: stanislavskiana, grotowskiana1. Desse modo, pude garantir a manutenção da relação triádica: professor – aluno – conteúdo, respectivamente com as funções: Coordenador-Diretor, Atores-Espectadores e Dramaturgos-Teóricos do Teatro. A opção por explicitar o referencial teórico do processo nas composições teatrais permitiu aos alunos/atores e também aos espectadores a possibilidade da consciência de que participavam de uma situação didática. Neste texto, portanto, tenho como principal finalidade a de descrever como ocorreram três dos processos de criação, difusão e, consequentemente, de formação tanto dos atores como dos espectadores envolvidos. É possível, entretanto, afirmar de antemão que todos os processos desenvolvidos2 serviram para que tanto espectadores quanto atores fossem estimulados a aprenderem mais sobre teatro. Essa prática de aprendizagem foi reforçada pelo caráter inovador da própria prática pedagógica. Tal afirmação é possível, pois, em cada um dos “exercícios públicos”, justamente por possuir o caráter de exercícios, houve um espaço de confronto entre alunos/ atores e espectadores, por meio de arguições mútuas, permitindo a avaliação do acontecimento no que se alude ao conhecimento anterior e posterior aos “exercícios”. Como nos lembra Maria Luiza Granata, professora da Universidad Nacional de San Luis, Argentina , 1 2 Os títulos dos exercícios explicitam duas de minhas escolhas teóricas, ou seja, a dos dois diretores-pedagogos que conformam o referencial teórico principal: Constantin Stanislavski (1863-1938), e Jerzy Grotowski (1933-1999). Ao todo foram desenvolvidos dois processos em 2007 e três em 2008: 1) Stanislavskiana n. 1: “A mais forte” de Strindberg; 2) Stanislavskiana n. 2: “E o gato não comeu!” de A. Moraes; 3) Grotowskiana n.1: “Variações sobre um mesmo Hamlet” com textos de Shakespeare e Heiner Müller; 4) Grotowskiana n. 2: “Máscara Hamlet” com textos de Genet; 5) Grotowskiana n. 3: “Ofélia” com textos de Heiner Muller. 145 Para provocar rupturas en las tareas de enseñar y de aprender en la Universidad es preciso mucha intencionalidad y la constitución de grupos de trabajo integrados por docentes de las distintas Facultades interesados en asumir compromisos institucionales, capaces de identificar, descubrir y promover procesos innovadores que puedan hacer avanzar la calidad y el compromiso de la educación superior (GRANATA, 2008, p.3). Como o apontado, os acontecimentos teatrais promovidos pelos projetos referidos e pelas práticas pedagógicas nas disciplinas de Improvisação Teatral I, II do curso de Teatro, configuraram-se em encontros de professores, de alunos, de espectadores. Nos encontros foi possível ler e experimentar a maioria dos conceitos fundamentais das poéticas de Stanislavski e de Grotowski. O cronograma de trabalho teve início com Stanislavski, no primeiro ano, com Grotowski, no segundo, e abriu a possibilidade de interação das duas teorias e práticas no terceiro momento, isto é, 2009. A decisão por estudar Stanislavski seguido de Grotowski não foi tomada de forma arbitrária: a pesquisa teatral que teve início na Rússia por Stanislavski, no final do Séc. XIX, é plenamente desenvolvida a partir de 1940 na Polônia e Itália por Grotowski. Os estudos do professor Marco de Marinis (2004, 15), da Universidade de Bologna, legitimam minha decisão, pois nesses estudos a afirmação de que Stanislavski foi um mestre reconhecido por Grotowski é ponto de partida para a interessante palestra “A parábola de Grotowski”.3 O entrecruzamento das duas pesquisas teatrais – a de Stanislavski e a de Grotowski – possibilita também que uma visão panorâmica do teatro ocidental do século XX possa ser esboçada rapidamente. Essa visão panorâmica em um contexto no qual alunos, assim como a maioria dos espectadores, desconhecem a história do teatro recente, configurou-se em um instrumento importante no processo de formação desses futuros professores de teatro. 3 Palestra realizada em agosto de 2005 no âmbito do XIV Congreso Internacional de Teatro Iberoamericano y Argentino, promovido pelo GETEA (Grupo de Estúdios de Teatro Argentino e Latinoamericano) na Universidad de Buenos Aires, Argentina. 146 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Metodologia da criação dos exercícios públicos teatrais Os exercícios públicos teatrais foram construídos a partir de uma mesma metodologia. Em primeiro lugar um texto teórico foi escolhido para que servisse de lugar de balizamento nas práticas desenvolvidas pelo grupo de alunos. No primeiro exercício, foi escolhido o texto “A preparação do ator” de Stanislavski e, a partir da leitura, discussão e improvisações em grupo, chegamos em “A mais forte” de Strindberg. O segundo exercício teve como proposta inicial um trabalho dirigido às crianças, sendo que o texto-base foi “A construção da personagem” e, após uma série de improvisações, selecionamos o texto dramático “e o gato não comeu!!” como objeto de montagem. O terceiro exercício foi desenvolvido sem a escolha de um texto-base, mas de elementos constitutivos da trajetória de Grotowski, utilizados na disciplina Improvisação Teatral I, são eles: a ação física construída a partir das referências pessoais do próprio ator, a exploração de uma “espacialidade” cênica que permitisse o pleno desenvolvimento da cerimônia (do encontro) entre atores e espectadores e a participação do diretor como o espectador profissional. Esse terceiro exercício foi assumido como um work in process e, diferentemente dos dois primeiros, foi desenvolvido com apenas um aluno-ator. Os exercícios seguintes foram construídos a partir do modelo do terceiro. O período de criação de cada um dos “exercícios” foi determinado pelo ritmo de leitura, discussão e experimentação do próprio grupo: o primeiro ocorreu em seis meses; o segundo em quatro meses; o terceiro em dois meses; o quarto em três meses; e o quinto em quatro meses. Ou seja, o tempo de leitura, seleção de obra dramática, experimentação de cenas e realização da primeira temporada observou o tempo de compreensão e apropriação da base teórica escolhida pelos alunos/atores. O encontro de dois mundos: o dos alunos-atores e o dos espectadores As sessões nas quais atores e espectadores se encontraram foram marcadas por uma cerimônia. Os espectadores eram alertados de que se tratava de uma experiência com uma poética específica: o próprio nome das sessões, conforme já apontado, levava ao foco da Práticas inovadoras na aula universitária 147 pesquisa e da situação didática. Os espectadores não assistiam a um espetáculo de teatro, mas a um exercício público teatral. Tudo ali era marcadamente teatral. Ao assumir essa postura colocamonos automaticamente em um lugar discursivo muito claro: o espaço da pesquisa foi ampliado e, consequentemente, os espectadores participavam de uma sessão de estudos permeada por teatralidade e pelo espetáculo. É o ambiente que suporta os dois grupos (o dos atores e o dos espectadores). É essa relação, isto é, a teatralidade que dá sentido ao teatro e faz com que o espetáculo (o momento do encontro) seja apenas uma parte ínfima do processo. Essa delicada relação pode ser compreendida pelas palavras de Grotowski: O teatro se rege pelas leis da teatralidade. No teatro exige em igual medida “justificativa” o fato de alguém estar em pé assim como o fato de alguém estar de cabeça para baixo. Tanto em um caso como no outro, vige a lógica da forma, caso contrário o teatro não é composição, não é estrutura, isto é, não é arte. No teatro, tudo aquilo que está deveria ser teatro. Ou então, é não-necessário. Se alguém no espetáculo faz um gesto ou executa alguma ação, é preciso perguntar: o que é no espaço – só um movimento “natural” ou um movimento artístico, teatral, um elemento de composição, uma construção, uma micropantomima? A palavra falada se é só dizer a palavra (mesmo com o pensamento, mesmo com a intenção) não é ainda algo de artístico, não é teatro. Onde está o sem-matéria da composição? O som da palavra é para o teatro forma. Se não se confirma na totalidade da partitura (sonora e rítmica) é extra teatral (GROTOWSKI, 2007, 45). Com o intuito de garantir a construção de um espaço autenticamente teatral, isto é, de um espaço em que todos os envolvidos entregavam-se para uma experiência autêntica, porque verdadeira, foram construídos todos os exercícios. Na qualidade de exercícios havia certa instabilidade cotidiana. Podíamos exercitar nossa imaginação, nosso controle técnico (corporal, vocal), as possibilidades do espaço, a interferência do tempo, etc. Tudo podia ser mudado a qualquer momento. Entretanto, cada exercício construído possuía limites claros e indicados, na maioria das vezes, pelos autores com os quais buscávamos diálogos: além dos diretorespedagogos (Stanislavski e Grotowski), dramaturgos como Strindberg, Shakeaspeare, Heiner Muller, Jean Genet. 148 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) O exercício inaugural O primeiro exercício público teatral, a “Stanislavskiana n.1”, foi desenvolvido entre os meses de fevereiro e julho de 2007. O objeto de encontro foi a interpretação de “A mais forte”, de August Strindberg, aliado à experiência com os elementos fundantes da poética de Stanislavski e que podem ser observados na leitura de “A preparação do Ator”. A cena foi toda marcada pela explicitação das técnicas utilizadas. Chegou-se ao ponto de, em uma das sessões, as alunas realizarem a verbalização dos nomes das unidades e objetivos4 de cada uma das atrizes. Em outra ocasião desse mesmo exercício, foi privilegiada a ação física e não foi utilizada a emissão vocal, permitindo aos espectadores perceberem apenas uma cena muda, mas com articulação das palavras. Essas duas experiências ilustram o modo como a cerimônia era montada: um programa era entregue aos espectadores e nele havia um texto que contextualizava a pesquisa e permitia, mesmo a espectadores leigos, uma apreciação da obra com mais propriedade. Eis o texto que constava no programa e que também era lido em voz alta por um dos integrantes da pesquisa antes da sessão do exercício: Stanislavski nos legou um pecúlio. A metáfora do pecúlio serve para compreendermos que é quase impossível estar no teatro sem carregar o peso dessa herança. O “sistema” de ações físicas criado no final do séc. XIX e início do séc. XX no Teatro de Arte de Moscou tem sido o princípio teatral de todo o mundo ocidental. Não há como realizar teatro sem um profundo conhecimento do “sistema”, pelo menos para quem assume o teatro como ofício. É possível verificar influências dos ensinamentos de Constantin Stanislavski e Nemiróvitch-Dânchenko em todas as importantes escolas de 4 ‘Unidades e Objetivos’ conformam um dos modos de trabalhar a dramaturgia indicado por Constatin Stanislavski. Esse modo serve para que o ator possa ter maior controle sobre sua linha de ações. Consiste em dividir o texto, ou argumento, em partes (Unidades) e subdividi-las em porções menores (Objetivos). Com isso os atores têm maior facilidade de controlar a energia empregada em cada uma das partes. Podendo, com isso, garantir a manutenção do interesse dos espectadores. Isso ocorre de forma prática e na construção de uma linha contínua de ações que faz com que os espectadores experimentem sensações diversas, chegando, muitas vezes, ao prazer estético. Práticas inovadoras na aula universitária 149 atores do ocidente. O estudo-espetáculo “stanislavskiana n. 1” representa a inter-relação de três projetos que ocorrem na UFPel: um voltado à investigação das práticas teatrais de Pelotas e Região (Do teatro como representação ao teatro como veículo), um segundo com foco nas práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas do ensino básico pelotense (Laboratório de Teatro) e um terceiro que reestrutura-se como um espaço privilegiado à experiência estética teatral desvinculada das exigências mercadológicas (Núcleo de Teatro Universitário). Tal inter-relação sugere que o trabalho de teatro desenvolvido pela UFPel configura-se como a de um centro de investigação teatral. Como centro é possível apontar duas importantes tarefas: 1.formar platéias – estimulando tecnicamente professores e alunos do ensino básico; e 2.fomentar novas estéticas – promovendo com artistas e espectadores pelotenses, por meio de exercícios públicos, discussões técnicas da arte do teatro. “A mais forte” de Strindberg, por ser um texto da fase “naturalista” do autor sueco, nos pareceu um presente para a experimentação da primeira fase de nossos estudos com as técnicas do livro “A preparação do ator” de Stanislavski. Como se sabe, a busca pela verdade na cena fez com que Stanislavski se aproximasse de uma “estética naturalista”. Consideramos que o diálogo com tal possibilidade estética era um bom pretexto para levarmos os estudos a outras formas, isto é, o diálogo com o texto de Strindberg aliado ao nosso cotidiano podia amplificar nosso objetivo de criar um teatro com fé e sentimento de verdade. O fato decisivo na definição da dramaturgia foi ter encontrado em “A mais forte” uma proximidade com o cotidiano dos cafés e doçarias pelotenses. O “Stanislavskiana n. 1”, portanto, estará sempre inacabado. É um processo que não tem fim. Não temos um lugar a chegar. O conhecimento de uma poética (como um modo de fazer) nos levará a avançar para outro. Trabalhamos com uma idéia de movência. Para tanto, instituímos um jogo que lança um desafio constante aos atores e atrizes: em cada sessão do estudo-espetáculo com espectadores, as personagens serão representadas por atores diferentes. A escolha é feita por sorteio momentos antes de cada sessão. Espera-se com isso manter o frescor necessário a arte teatral. Sabemos que há muito que fazer. Como nos alerta o próprio Stanislavski, “meu sistema é o resultado de uma vida inteira de buscas. (...) não existem fórmulas”. (OLIVEIRA, 2007, p.2) Ao final de cada exercício, os espectadores e os alunos/atores discutiam a experiência estética a partir da explicitação da poética stanislavskiana. A ação que inaugurou o processo, ainda em andamento, dessa prática pedagógica por meio de exercícios públicos teatrais teve o mérito de demonstrar que a reivindicação da herança deixada pelos mestres do teatro era também uma inovação pedagógica. Tal inovação ocorre justamente pelo confronto de interlocutores distintos tanto dentro da própria Universidade Federal de Pelotas, mas também entre épocas distantes. O caráter inovador é explicitado na qualidade do diálogo, como nos indica acima Maria Luiza Granata. 150 A necessidade de movimento e improvisação O segundo exercício ocorreu entre agosto e novembro de 2007 e teve como objeto o texto “A construção da Personagem”. A questão da plasticidade foi imperativa, uma vez que toda essa obra de Stanislavski trata de dar corpo ao elemento ficcional por excelência do teatro: a persona, a máscara, a personagem. Denominamos de “Stanislavskiana n. 2”, embora fosse possível perceber alguns indícios do pensamento de Grotowski. Esses indícios reforçavam a tese do próprio Grotowski, que reivindicava ser ele o herdeiro legítimo de Stanislavski (reivindicação autenticada hoje por pesquisas em várias Universidades, tais como Universidade de Bologna, Universidade de Nova York, Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O texto selecionado foi um texto-jogo5 de minha autoria e indicado para crianças. Nossa preocupação (minha e a dos alunos envolvidos) era a de ampliar um de nossos objetivos, isto é, aquele de contribuir para a formação de espectadores qualificados para teatro. Ao iniciarmos a leitura do texto, surgiram algumas dúvidas: o que pesquisávamos funcionaria também com um grupo de crianças? Como deveria ser a adaptação dos atores em espaços como os oferecidos pelas escolas? O processo de caracterização físico-vocal proposto por Stanislavski manteria a atenção dos espectadores? O formato do nosso exercício público teatral funcionaria com crianças? Em resposta a todas essas questões agimos como no exercício n. 1, porém, com algumas adaptações: os espaços eram diferentes em cada sessão; os atores e atrizes passavam de sala em sala de aula explicando a proposta do projeto e esclarecendo os grupos sobre as regras do jogo; e, após a sessão, por conta do grande número de espectadores (as sessões desse exercício ocorreram sempre em escolas) os espectadores eram convidados a expressar, 5 Práticas inovadoras na aula universitária Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Escolhemos o texto “e o gato não comeu!!!” porque ele é resultado de uma experiência pedagógica com crianças em processo de alfabetização. Como havia em nossa motivação fundamentalmente uma preocupação em difundir o teatro por meio da explicitação de poéticas, entendemos que o texto-suporte devia ter características muito abertas, isto é, um texto que permitisse a participação ativa dos espectadores. Pelo caráter interativo do texto-jogo de minha autoria enveredamos pelo universo do teatro para crianças. Para uma discussão sobre esse assunto ver: OLIVEIRA, A. M. Brincar com o texto literário: possibilidades de teatro e de jogo. Dissertação de Mestrado. UDESC, 2005. 151 por meio de carta, de desenho, aquilo que tinha chamado mais atenção no exercício. Quando os grupos voltavam para as devidas salas de aula, os atores se distribuíam entre essas salas para conversar e recolherem os comentários dos espectadores. Nesse momento do processo surgiu a necessidade de ampliarmos o diálogo com alguns dos leitores de Stanislavski, dentre eles Peter Brook (1925-)6. A presença de Brook nesse momento estimulou nossos estudos sobre teatralidade e instalou a preocupação com a manutenção do “interesse” pelos espectadores. Brook afirmava que o tédio é o pior inimigo do teatro e por isso os atores deviam permanecer muito atentos para que o tédio não se instalasse. As contribuições de Brook permitiram que superássemos um problema com a Stanislavskiana n. 2. Como havia uma participação muito intensa dos espectadores (o espetáculo não acontecia sem a participação constante deles) era preciso mantê-los muito atentos. Para que isso ocorresse, diferentemente da experiência com a Stanislavskiana n. 1, foi preciso lançar mão de improvisações com muita constância. Tínhamos que nos manter em movimento o tempo todo. A orientação que nos revelou uma nova leitura de Stanislavski, uma que nos autorizou a improvisar com mais propriedade, foi por meio de aporte de Peter Brook. A intensidade de Grotowski Os três últimos exercícios realizados no âmbito da pesquisa ocorreram entre janeiro e setembro de 2008 e teve como participantes um aluno para cada exercício. Esses alunos que iniciavam a pesquisa sobre teatro naquele momento pretendiam, entre outras coisas, constituírem-se como atores-professores. Como a pesquisa assumia o aprofundamento nas pesquisas sobre o ator, aprofundamos as leituras de Grotowski. A partir das primeiras leituras do mestre polonês, desenvolvemos um texto para o programa que reflete bem a guinada de direção, ou a sobreposição de objetivos pelo qual passou a pesquisa: 6 Diretor inglês radicado em Paris e que coordena atualmente o Centro Internacional de Pesquisa Teatral. O texto que nos serviu de estímulo a esse momento foi: BROOK, P. A porta aberta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 152 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Tornar-se ator é um processo de desnudamento. Revelar, a partir da utilização do próprio corpo, uma série de máscaras – inclusive aquelas que vestem e traduzem-se em personagens – é um ato que solicita um comprometimento que ultrapassa a própria intelectualidade. É por meio do corpo que o ator se comunica com a platéia, é também por meio do corpo do ator que o espectador surpreende-se em pleno prazer estético. O objeto do teatro, o mais simples e também o mais complexo, portanto, é o próprio corpo do ator. O trabalho que nos dispusemos a construir é mais do que um ato teatral. É um trabalho que revela a própria constituição de atores. O que é apresentado põe às claras um trabalho que teve início há pouco mais de dois meses e que, por esse motivo mesmo, está ainda em sua forma embrionária. Não no sentido pejorativo – de inacabamento – mas de um lugar de pura flexibilidade. O que se busca é flexibilizar-se para poder metamorfosear-se, o que é fundamental no teatro. É o homem desnudo de si que se quer no teatro, e sem o “ego” explícito pode surgir a possibilidade de ficção, de persona, de máscara. A presença de espectadores amplia as possibilidades de acabamento. O teatro, aquilo que ocorre entre o ator e o espectador, ocorre sem um alto grau de espetáculo, tão presente no nosso cotidiano e, muitas vezes, tão esperado pelos atores e pelo público num acontecimento teatral. O que buscamos é o teatro sem o espetáculo. É o encontro do homem com ele próprio. E Hamlet é apenas a via que nos serve para esse processo no qual estamos nos constituindo: como atores, como espectadores... (OLIVEIRA & DIAS, 2008, p. 2) Esse texto serviu de início de diálogo com os espectadores e revela, entre outras coisas, que pretendíamos ouvir cada um deles ao final da sessão. As falas dos espectadores, por sua vez, foram garantidas pela maneira como utilizamos o espaço: as sessões eram realizadas para um número máximo de 30 espectadores, os quais ficavam de frente uns para os outros e a cena se passava entre eles, ou seja, no corredor formado pelos espectadores. Essa disposição espacial causou um envolvimento muito grande dos espectadores e, em termos formativos, colocou cada um deles dentro do próprio exercício: era possível assistir a cada ator e às reações dos outros espectadores. Para servir de pretexto para a experiência dos alunos/atores selecionamos as obras: “Hamlet” de Shakespeare, “Hamlet-Máquina” de Heiner Muller e “O Balcão” de Jean Genet. Conforme explicado acima, nenhum texto teórico de Grotowski serviu de base, mas sim alguns elementos fundamentais de sua trajetória. Em todas as sessões desses exercícios públicos que se denominaram, respectivamente “Variações sobre um mesmo Hamlet”, “Máscara Hamlet” e “Ofélia”, os espectadores tiveram espaços para Práticas inovadoras na aula universitária 153 comentários e esclarecimentos sobre os processos de criação de ator ali presenciados. Na maioria das vezes o tempo de discussão superou em muito o tempo da cena apresentada. Outro fator importante e que contribuiu para o diálogo entre pesquisadores e espectadores foi a autodenominação explícita de work in process, garantindo assim uma necessidade de debate, pois estávamos entregando a obra para os espectadores e, ao mesmo tempo, solicitávamos contribuições destes. O legitimidade do pecúlio Embora esteja aprofundando essa experiência em âmbito do doutorado, ainda considero cedo para tecer afirmações categóricas sobre os resultados dessas práticas. O que se pode perceber é que esses exercícios permitiram a alguns participantes que a distância entre o palco e a platéia fosse encarada em termos de teatralidade, relembrando, de encontro de dois grupos – o dos atores e o dos espectadores. As sessões de debates foram muito maiores em todos os casos do que as sessões de cena especificamente. Sabemos, eu e meus alunos, que precisamos garantir o registro dos debates e, por isso, estamos envolvidos com escrituras as mais diversas: cada aluno possui um diário de trabalho; algumas das sessões de trabalho com espectadores foram gravadas em audiovisual. O problema que enfrentamos não é coletar e analisar a reverberação desses exercícios no momento em que eles são realizados, mas a de querermos investigar como nosso trabalho contribui para a formação de atores e espectadores na cidade de Pelotas. Por isso é que trabalhamos com a figura jurídica do pecúlio. A partir dos argumentos explicitados na apresentação do que considero praticas pedagógicas inovadoras, pode-se afirmar que tanto Stanislavski como Grotowski legou ao campo das artes performáticas um pecúlio. Ou seja, o estudo dos textos de Stanislavski e de Grotowski é a solicitação do benefício deixado. Lembrando Abel Barros Baptista7, do qual reivindico a metáfora do pecúlio, há na tradição 7 Crítico Literário Português, autor de Autobibliografias – a solicitação do livro na ficção de Machado de Assis. Campinas: Ed. UniCamp, 2003 154 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 155 uma espécie de elemento “essencial” que nos permite o acesso para reinventá-la: STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do Ator. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. (...) é essa questão que a tradição nos transmite, e a ela nos dá acesso o “pecúlio”, um acesso singular, como se, em cada momento, se formulasse pela primeira vez. Ao mesmo tempo tradicional e inédita, é a questão (...) enquanto questão. (BAPTISTA, 2003, p.95) _____. A construção da personagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. A metáfora do pecúlio serve, portanto, para compreendermos que é quase impossível estar no teatro sem carregar o peso dessa herança. Mais que isso, tem-se o direito de não reivindicar o legado deixado, mas não se pode negar a herança desses artistas-fundadores de uma tradição. Bibliografia CARREIRA & CABRAL. Metodologias de pesquisa em Artes Cênicas. Rio de Janeiro: 7 letras, 2006. GRANATA, Maria Luisa. La gestión de procesos de formación, innovación y mejora de la docencia universitaria. Una experiencia en la Universidad Nacional de San Luis. In: Anais do XIV ENDIPE. Porto Alegre: ENDIPE, 2008. GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. GROTOWSKI, Jerzy & FLASZEN, Ludwik. O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969. São Paulo: Perspectiva / SESC; Pontedera, It: Fondazione Pontedera de Teatro, 2007. MARINIS, Marco de. La parábola de Grotowski el secreto del “novecento” teatral. Buenos Aires: GALERNA/GETEA, 2004. MÜLLER, H. Hamlet-máquina. Trad. Reinaldo Mestrinel. São Paulo: Hucitec, 1987. OLIVEIRA, Adriano M. & DIAS, Leonardo da Costa. Programa de ‘Variações sobre um mesmo Hamlet. 2008. OLIVEIRA, Adriano M. Programa de Stanislavskiana nº 1. 2007. SHAKESPEARE, W. Hamlet. Trad. Millôr Fernandes. Porto Alegre: LP&M, 1997. _____. A criação de um papel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. Caminhando à luz de velas em meio a tempestade: o desafio de uma aula inovadora frente a um novo perfil de aluno na sociedade da informação Michele Schuster Borba* Um novo cenário social O avanço dos meios de comunicação e da tecnologia da informação tem gerado inúmeras alterações na natureza do trabalho e, na mesma direção, parece estar alterando as habilidades necessárias para que as pessoas possam estar integradas na “nova” sociedade da informação. Vivemos a era digital, o mundo imediato onde os acontecimentos são mostrados em tempo quase real – o que há alguns anos poderia ser considerado inatingível – e a informação se dá de forma simultânea. Gadotti (2000) nos diz que Nas últimas duas décadas do século XX assistiu-se a grandes mudanças tanto no campo socioeconômico e político quanto no da cultura, da ciência e da tecnologia.(...) As transformações tecnológicas tornaram possível o surgimento da era da informação (GADOTTI, 2000, p.3). Nosso estilo de vida sofre alterações e, consequentemente, gera também uma mudança na forma de como percebemos aquilo que nos rodeia. A comunicação do tempo de nossos antepassados, feita através de cartas que poderiam levar dias, semanas ou até * Bacharel em Publicidade e Propaganda, mestranda em Educação pela UFPel. Servidora Pública do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas. E-mail: [email protected] 158 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) mesmo meses para chegarem ao destino, parece ser algo irreal, com a qual seria impossível conviver nos dias atuais. O correio hoje é eletrônico, viaja a uma velocidade inimaginável, alterando nossas percepções de distância e de espaço. Sentados em frente à tela, estamos plugados ao resto do mundo; podemos viajar sem sair do lugar, falar com dezenas de pessoas, ainda que sozinhos em nossa casa. Envolvido neste processo encontra-se um público especial, cada vez mais familiarizado com os avanços tecnológicos, a quem os meios de comunicação dedicam atenção especial: os jovens. Sujeitos que, com o passar do tempo, foram, aos poucos, conquistando seu lugar no cenário social. Vivem uma fase de transição entre o antigo e o novo, entre a adolescência e a idade adulta, um período de adaptação, de preparação, no qual um turbilhão de emoções, sentimentos, desejos e características, às vezes ambíguas, são encontradas em uma só pessoa. Entretanto, ainda que ao longo dos anos a juventude seja descrita por uma ou mais das características acima citadas, podemos afirmar que o jovem de hoje é diferente daquele que frequentou as salas de aulas há alguns anos. Isso porque, como afirma Lévy, (2000, p 22), “é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo”. Ou seja, somos diretamente afetados pelo ambiente que nos rodeia e por tudo aquilo que nele existe. Nossa identidade foi construída ao longo da vida e, por isso, é permeada por significados, valores e sentidos que estão intrinsecamente ligados a tudo aquilo que, atualmente, se faz presente em nosso cotidiano. Talvez não fosse possível imaginar, há alguns anos, que o século XXI trouxesse consigo tantas mudanças para o ser humano. De acordo com Campos e Souza (2003, p.20), “as novas tecnologias, o consumo e a influência da mídia marcam, modelam e constroem as subjetividades contemporâneas”. Costa reitera a afirmação ao dizer que, Práticas inovadoras na aula universitária 159 quando tratamos de identidades, sujeitos e subjetividades, estamos lidando com construtos implicados em problemáticas afins, cujos significados são contíguos. As fantásticas mudanças verificadas a partir da segunda metade do século XX, desencadeadas, sobretudo, pelos vertiginosos avanços nas tecnologias da informação e da comunicação, estão intimamente relacionadas com a verdadeira revolução pela qual passam tais conceitos (COSTA, 2006, p.95). Podemos assim entender que os avanços tecnológicos e as mudanças daí decorrentes fazem parte do imaginário do jovem. Não são vistas como novidades e, sim, como algo já posto em sua vida. Se há algumas décadas sequer sonhávamos com a existência de equipamentos que pudessem transmitir imagens e sons, em tempo real, como as televisões e computadores de hoje, os jovens atualmente não conseguem imaginar o mundo sem eles. Sem dúvida “la llegada de la tecnologia digital há conducido a una proliferación masiva de canales y conductos mediáticos y a una considerable ampliación del acceso a los médios con que cuentan los jóvenes”, nos explica Buckingham (2008, p.106). Esta ampliação do acesso aos meios vem modificando a forma como o jovem percebe o mundo em que vive. Gadotti (2000, p. 5) afirma que “eles já estão nascendo com essa nova cultura, a cultura digital”. Mesmo que tenhamos conhecimento de todos os problemas de ordem econômica que acabam por fazer com que muitos não tenham acesso direto a alguns equipamentos, como o computador, ainda assim, podemos perceber que os jovens estão familiarizados com os recursos tecnológicos disponíveis atualmente e não encontram muita dificuldade em operar os novos equipamentos, nem mesmo se sentem intimidados ao lidar com o novo. Para Gimeno Sacristán (1999, p 41) “os indivíduos – em nosso caso, os alunos (...) são pessoas que vivem realmente de uma ou outra maneira na sociedade, agora chamada de sociedade da informação”. Com a mudança das diferentes realidades individuais decorrentes do contato com as tecnologias, os sujeitos passam então a estar no mundo de outra forma, conectados através de vários canais, o que possibilita uma nova compreensão do tempo e das distâncias. Estas mudanças também são perceptíveis na realidade coletiva, nos mais diversos setores da sociedade, o que inclui o cenário 160 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) educacional. Os alunos, e os professores, trazem “um saber que é fruto da sua vivência no interior da família e, atualmente, do seu contato com os meios de comunicação” como explica Coutinho (2000, p. 39). Sendo assim, Gimeno Sacristán (2007, p. 41) afirma que “a educação desenvolve-se em um novo contexto (...) em uma nova realidade social que as pessoas não podem evitar”, ou seja, as mudanças geradas na sociedade acabam por se fazer presentes tanto na escola como na universidade.1 Sendo a juventude de hoje, diferente “a las generaciones que las precedieron, tanto del punto de vista social como psicológico” (Buckingham, 2008, p.106), como já citado anteriormente, relacionase com os outros e com o mundo de uma nova forma, tem outra percepção do espaço e do tempo, nasceu em um momento no qual a sociedade vive a expansão tecnológica na área da informação e comunicação; enfim, é alguém que vê o mundo a sua volta de outra maneira e por meio de outros olhos, como as “pantallas”, um jovem muito diferente daquele que freqüentava a escola há alguns anos, ao qual perguntamos: é possível pensar a educação da mesma forma que pensávamos há alguns anos? Se o imaginário é uma língua, de acordo com SILVA, (2000), poderiam a escola e a universidade continuar “conversando” com os alunos utilizando o velho idioma conhecido? A escola de hoje O conhecido jargão “Templo do saber” foi inúmeras vezes utilizado para definir a escola, num período onde esta era considerada a principal fonte de acesso à informação. Quem desejasse entrar em contato com o saber deveria, obrigatoriamente, freqüentar a escola. Após um período, “tudo” o que era preciso saber haveria sido transmitido e o indivíduo poderia considerar-se formado. No entanto, esta situação não é mais a mesma. Criada na modernidade, a escola teve como objetivo substituir o antigo sistema de ensino individual, no qual o aluno era instruído individualmente por um professor, possibilitando um maior 1 Nesse texto, as situações apresentadas e/ou analisadas sobre a educação escolarizada podem ser estendidas tanto para a escola como para a universidade. Práticas inovadoras na aula universitária 161 aproveitamento do tempo do educador que, através desta prática de ensino grupal, passou a atender diversos alunos ao mesmo tempo. Para que pudessem ensinar a vários estudantes ao mesmo tempo, de uma única maneira em uma aula, os professores tomaram “como ponto de referência o chamado aluno médio, entidade abstrata” (Canário 2006, p 30), deixando de levar em consideração a realidade particular de cada um dos sujeitos envolvidos no processo. Com o passar dos anos, esta estrutura foi se tornando, aos poucos, algo natural, e nos últimos anos, houve, segundo Gimeno Sacristán “um triunfo das políticas educacionais conservadoras e restritivas” que ... se mostraram mais preocupadas com o controle dos currículos do que com a adaptação dos mesmos às hipotéticas exigências de uma sociedade aberta ao conhecimento (...) Os conteúdos se padronizaram ao mesmo tempo em que se falava de políticas para a diversidade (GIMENO SACRISTÁN, 2007, p 44-45). Esta estagnação das instituições escolares em relação a todo o avanço ocorrido na sociedade, principalmente na área da comunicação e informação, aliada ao fato de que o ato de ensinar continua sendo considerado uma transmissão de informações em doses sequenciadas, não atende às expectativas da realidade em que estamos inseridos. Atualmente entendemos que a formação não compreende mais um certo período de tempo, vivido dentro de uma sala de aula, ela é entendida como um processo permanente, que pode e precisa durar a vida inteira. Romero (2007, p. 101), afirma “Hoy nos pasamos la vida aprendiendo o reaprendiendo.” Se educar, antes, era munir o aluno de conhecimentos previamente estabelecidos e validados pela sociedade, atualmente o papel da educação vai mais longe. Ela deve “preparar cidadãos, facilitar o desenvolvimento de sua personalidade, fazê-los solidários”, conforme afirma Gimeno Sacristán, (2007, p. 44) e ajudar o ser humano a tornar-se versátil, capaz de se adaptar facilmente às novidades, de estar sempre aprendendo. Todavia, a escola parece resistir às mudanças e mantém ainda uma “metodologia vertical e autoritária” de ensino. Por trás dos muros escolares ainda existe uma “velha” estrutura estabelecida, rígida e antiquada, com um currículo que pouco/não prevê interações entre as disciplinas, acaba dificultando a obtenção, por parte dos 162 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) alunos desta instituição importante no cenário social, do resultado esperado. Com um currículo, segundo Reich (1993), citado por Canário, que é como uma linha de produção dividida ordeiramente em disciplinas, ensinadas em unidades de tempo preestabelecidas, organizadas em graus e controladas por testes estandardizados, destinados a excluir as unidades defeituosas e a devolvê-las para reelaboração (CANÁRIO, 2006, p.16). a escola funciona como uma verdadeira fábrica, que neste caso específico ainda age como se possuísse a exclusividade de produção do bem gerado, neste caso o ensino, ou melhor, a transmissão da informação. Como diz Neto (2003, In Costa, p. 108), “na medida em que a educação nos molda precoce e amplamente, passamos a ver como naturais os moldes que ela impõe a todos nós”. Inserida em um mundo onde a flexibilidade é cada vez maior, a organização escolar “tradicional” insiste em manter padrões que vão de encontro à nova estrutura social, mais democrática e mais participativa. Mantendo a figura do professor como o único detentor da verdade, relegando o estudante ao plano de mero coadjuvante, a escola parece desconhecer que, cada vez mais, sua função é a de pautar-se pela intensificação das oportunidades de aprendizagem e autonomia dos alunos em relação à busca de conhecimentos, da definição de seus caminhos, da liberdade para que possam criar oportunidades e serem os sujeitos de sua própria existência (KENSKY, 2007, p. 66). Entretanto, o monopólio sobre a simples transmissão da informação não mais existe. A ampliação do acesso às tecnologias de informação e comunicação contribuiu muito para esta mudança. Já em 1960, antes mesmo do surgimento do computador de uso pessoal, Carpenter e McLuhan afirmavam: Hoy em nuestras ciudades, la mayor parte de la enseñanza tiene lugar fuera de la escuela. La cantidad de información comunicada por la prensa, las revistas, la televisión y la radio excede en gran medida la cantidad de información comunicada por la instrucción y los textos en la escuela. Este desafio ha destruido el monopolio del libro como ayuda a la enseñanza y ha derribado los proprios muros de las aulas de modo tan repentino que estamos confundidos, desconcertados (CARPENTER & MC LUHAN, 1960, p. 235-236). Práticas inovadoras na aula universitária 163 Costa (2003, p.25) complementa a idéia quando afirma que, atualmente, a “educação ocorre em muitos lugares: nos meios de comunicação, nas empresas, na rua, nos clubes, nos sindicatos, nos movimentos sociais”. Atualmente, não é preciso sair de casa para ter acesso à informação. Basta ligar a TV ou conectar-se à internet e “navegar2” em busca do que se deseja saber. A facilidade de contato com as informações e a velocidade com que nos são transmitidas “impõem novos ritmos e dimensões à tarefa de ensinar e aprender”, como diz Kensky (1998, p. 60). Entretanto, além das instituições de ensino, estão envolvidos, neste delicado processo, dois sujeitos indispensáveis: professor e aluno. Personagens cuja relação com os meios e tecnologias de informação e comunicação são extremamente diferentes. A relação entre ambos é complexa e requer atenção e muito trabalho. A perspectiva da sala de aula Ao analisarmos as salas de aula encontramos dois mundos diferentes que, segundo Matos (2003, p. 91), citando Dayrell (1996), “às vezes se tocam, se cruzam, mas na maioria das vezes permanecem separados”. De um lado os professores, cuja função até algum tempo era restrita a transmitir o conteúdo de forma preestabelecida, de acordo com as normas e padrões “ensinados” durante os cursos de graduação. Alguns, nascidos em uma época onde a maioria das famílias possuía apenas rádio ou televisão, conheceram o computador há pouco tempo e, talvez, por julgarem necessário se atualizar foram se aproximando da máquina e aprendendo a lidar com ela em algumas situações específicas como, por exemplo, digitar um texto ao invés de datilografá-lo foi se impondo aos professores como uma necessidade, assim como “imprimir” as provas ao invés de “rodálas” no mimeógrafo. 2 Navegar – do latim navigare. Percorrer o mar em navio; atravessar o espaço. No campo da informática o termo é utilizado para definir o ato de acessar a Internet à procura de informações sobre determinado assunto, ou aleatoriamente, em busca de entretenimento. 164 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Do outro lado encontra-se o aluno, que espera um professor menos rígido e, ao mesmo tempo, comprometido com o ensino; um jovem com diversos questionamentos e anseios muitas vezes desconsiderados pelo professor. Alguém que precisa ver o conteúdo diretamente ligado à sua vida; que, de acordo com Campos e Souza (2003, p.14) “nasceu imerso em um mundo com telefone, fax, computador, televisão etc.”, onde, tudo é “super”, “extra”, “mega”, e que, na maioria das vezes, transita livre e facilmente pelo campo da informática, segundo Fischer (2007, p. 295). Em contrapartida, com os professores a situação é bem diferente. Se para os alunos a palavra tecnologia é sinônimo de avanço, para os educadores se torna motivo de preocupação, já que muitas vezes até temem que a tecnologia lhes tire o emprego, substituindo-os por um professor virtual ou, quem sabe, uma série de CD’s-Rom. Se antes poderíamos esperar do professor um tipo de conduta padrão, atualmente a situação é diferente. Explica Obiols que Los profesores que entran al aula manifiestan diferentes actitudes. Los hay quienes imponem un clima de terror a partir de pautas rígidas y castigos ejemplares que pasan tanto por lo disciplinario como por lo académico. Mantienem una distancia y una rigidez ante la clase que no permite el menor acercamiento. Acostumbran dar clases académicas para las cuales no és necesario ni ventajoso que los alumnos intervengan. Respondem claramente al modelo “autoritário”. En el otro extremo aparece un docente simpático, buen conversador, capaz de seducir a su audiência, que no sigue programa alguno, que utiliza métodos de trabajo y evaluación grupales, que entiende las llegadas tarde, las ausências, todos los problemas que puedan tener sus alumnos. Responde al modelo “demagógico”. En el medio hay una amplia franja oscilante que trata de realizar su tarea llevándose bem con la clase y a veces pierde los estribos (OBIOLS, 2006, p 153). Ao analisar os tipos de professores citados pelos autores bem como seus diferentes comportamentos, surge a possibilidade de uma análise deste quadro. Atitudes tão diferentes em uma mesma sala de aula, com os mesmos alunos, seriam motivadas apenas pelas características de personalidade de cada um dos docentes? Ou poderiam estar ligadas ao fato de que, muitas vezes, os professores já não sabem mais como agir frente aos alunos, visto terem sido “treinados” para trabalhar em um contexto totalmente diferente do real? Práticas inovadoras na aula universitária 165 Se, como nos lembra Costa (2006, p.101), citando Green & Bigum (1995), é cada vez mais visível o surgimento de “um novo tipo de estudante, com novas necessidades e novas capacidades”, um fenômeno, “produzido na convergência dos discursos contemporâneos sobre a juventude, sobre a cultura da mídia e sobre o pós-modernismo”, como explicar o fato de que “(...) nossos estabelecimentos de ensino têm como base uma organização estandardizada dos tempos (aula de uma hora), dos espaços (sala de aula), do agrupamento dos alunos (turma) e dos saberes (disciplinas)”, como nos diz Canário (2006, p.15). Transformar este cenário a fim de acompanhar a evolução que ocorre na sociedade e resulta numa mudança dos conceitos sobre comunicação, informação e educação é um novo desafio para a escola. Já que, segundo Gimeno Sacristán, (1999, p 43), “a educação não pode ser alheia a ela (sociedade da informação) ou ficar indiferente ante suas transformações”, algumas escolas posicionamse como verdadeiras revolucionárias no cenário da educação, proclamando e prometendo um ensino diferenciado e “inovador”. Mas o que é realmente a inovação, tão almejada por uns e rechaçada por outros tantos? Aulas inovadoras: desafios e perspectivas com o uso das tecnologias Para que possamos discorrer sobre os desafios e perspectivas trazidos pela inovação, é preciso que tenhamos bem claro em mente o que ela significa. Vários são os autores que trabalham o conceito, entretanto selecionaremos aqueles cujas abordagens são mais próximas daquilo que entendemos como mais significativo para este estudo. Lucarelli define a inovação através de duas diferentes perspectivas teóricas: a perspectiva didática tecnicista e a perspectiva fundamentada crítica. No primeiro caso a inovação 166 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) es entendida como modificación parcial o sustitución específica de los componentes técnicos de la situación de enseñanza y aprendizaje, sean estos los objetivos, las metodologias de enseñanza, de evaluación, los recursos o los formatos de programación, quedando en un segundo plano, las prácticas de los sujetos que intervienen en la situación, considerados como los ejecutores de la concreción en el aula de las propuestas de un proyecto tecnológico (LUCARELLI, 2004, p. 4). Já vista sob o ponto de vista da perspectiva fundamentada crítica, a inovação é entendida como ruptura, esto es, como la interrupción de una determinada forma de comportamiento que se repite, en el tempo y que se legitima dialécticamente, con la posibilidad de relacionar esa nueva práctica con las ya existentes a través de mecanismos de oposición, diferenciación o articulación (LUCARELLI, 2004, p. 6), Podemos perceber que, embora ambos conceitos tratem de inovação, o primeiro se refere a uma mudança mais superficial, relacionada a questões de ordem técnica, como recursos materiais, organização do programa de aula ou mecanismos de avaliação, mantendo ainda a condição fragmentada do processo, no qual teoria e prática andam separadas e onde a supremacia técnica se sobrepõe às questões didáticas e subjetivas envolvidas, relegadas na maioria das vezes a segundo plano. Já o segundo conceito trazido pela autora está diretamente ligado a uma real e profunda transformação nas concepções existentes até então, legitimadas pela supremacia tecnicista, propondo uma ruptura paradigmática cujo sentido é a articulação entre todos os aspectos ligados ao processo de ensino-aprendizagem, sejam eles de ordem técnica, política, didática ou pessoal. Não restringe as consequências das mudanças a um único plano: a proposta de utilização de um novo equipamento pode revelar a possibilidade de olhar um assunto sob um novo ângulo, antes desconhecido e cuja descoberta pode provocar grandes mudanças, ao invés de significar só a otimização de tempo para a realização de um trabalho. A nova prática permite que alunos e professores não sejam mais meros coadjuvantes e sim sujeitos no processo de ensinaraprender. Como nos diz Cunha: Práticas inovadoras na aula universitária 167 Tratar a inovação como ruptura paradigmática é dar-lhe uma dimensão emancipatória. Nela não há perspectiva de negação da história, mas sim a tentativa de partir desta para fazer avançar o processo de mudança, assumindo a fluidez que se estabelece entre os paradigmas em competição. (CUNHA, 2006, p.19) A emancipação dos sujeitos acontece através de uma nova maneira de agir e de se relacionar com sua história e trajetória. Parte do ponto em que estes se encontram e propõe, como a própria palavra sugere, uma “nova-ação” consciente, através da qual o olhar, antes acostumado às duras lentes da racionalidade técnica, atinge o objeto observado com a ajuda de uma nova lente: a da pósmodernidade. Entretanto inovar, e assim romper com o paradigma vigente, exige grande esforço e coragem. Isso porque, segundo Mª Manuela Escobar3 “as novidades abrem possibilidade de insucesso, requerem ousadia”. Assim, voltando nossa atenção para a inovação através do uso das tecnologias em sala de aula, o que percebemos na maioria das instituições que dizem inovar é que adotaram o uso de vídeos didáticos, criaram laboratórios de informática e disponibilizaram equipamentos modernos como projetores multimídia para alunos e professores, acreditando ser este o caminho a seguir. Mas, ao olharmos para a maioria das escolas/ universidades, é possível perceber que a mudança é apenas superficial. Segundo Moran, apenas uma adaptação daquilo que já conhecíamos. As tecnologias e meios de comunicação são utilizados somente como ferramentas, não sendo explorados como elementos integrados ao processo de ensino e aprendizagem. A restrição do uso apenas como meros equipamentos não permite que sejam utilizados para ajudar a transformar a educação, para inovar. Em um momento no qual se espera que o professor seja um “reinventor de práticas, reconfigurando-as de acordo com as especificidades dos contextos e dos públicos”, como afirma Canário (2006, p. 68), sendo assim um agente mediador no processo de construção do conhecimento, ajudando o aluno a analisar as 3 Comentário realizado em disciplina especial realizada na UNISINOS, nos dias 31 de julho e 1°de agosto de 2008, promovida pelo programa “Casadinhos”, parceria entre UFPel e UNISINOS. 168 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) informações recebidas, refletir a respeito e, somente depois, transformá-las em conhecimento, é impossível conceber que a inovação tecnológica utilizada para “revolucionar” uma aula seja a utilização de um equipamento multimídia que, ao invés de exigir do professor a escrita do conteúdo sobre o quadro, projete os textos em grandes telões. Acreditamos que a tecnologia pode ser utilizada de forma realmente inovadora e significativa, com base em uma proposta pedagógica que contemple as questões pertinentes ao nosso tempo. Para isso, como nos lembra Lion (2000, p. 41), já não podemos mais admitir a utilização do discurso “hay que enseñar informática, hay que poner vídeos, aunque no siempre se sepa para qué”. Sabemos que as instituições de ensino já não podem mais ser um mundo à parte, um espaço separado da realidade dos estudantes, onde se ministra um ensino fragmentado, que causa desmotivação. Entretanto, para isso precisamos deixar de lado a idéia de que incluir las producciones recientes em el mercado (léase informática, telemática, correo electrónico, videodiscos interactivos, hipertextos, multimedia, CD-Rom, realidad virtual, etecétera) eleva a escuela al status de “moderna” y es suficiente motivo para alguna reforma curricular (LION, 2000, p.42) Este conceito, sustentado pela perspectiva didática tecnicista de inovação, precisa ser revisto. O fato de incorporar novas tecnologias ao processo de ensino-aprendizagem não pressupõe a inovação pedagógica, esta está atrelada à finalidade com a qual as tecnologias tomam um novo lugar no cenário educacional. El uso de médios tecnológicos de enseñanza, incluídas las computadoras, no garantiza per se que los alumnos o alumnas desarrolen estratégias para aprender a aprender, ni fomentan el desarrollo de las habilidades cognitivas de orden superior. La calidad educativa de estes medios de enseñanza depende, más que de sus características técnicas, del uso o explotación didáctica que realice el docente y del contexto en el que se desarrolle. (LIGUORI, 2000, p. 141) As tecnologias por si só não bastam. A forma como o professor propõe e permite sua utilização é que faz toda a diferença. Práticas inovadoras na aula universitária 169 Mas como pensar em um ensino com cunho construtivista, em que os alunos são ensinados a aprender a aprender, com a ajuda das tecnologias, se de acordo com Libâneo (2003) os professores “(...) saem licenciados com a incumbência de formar mentes construtivistas sem que eles próprios tenham essa cabeça construtivista” (Libâneo, In Costa, 2003, p. 49). Alia-se a essa situação o fato de que, na quase totalidade dos casos, o professor desconhece as possibilidades e recursos oferecidos pelas tecnologias, ficando limitado ao uso instrumental dos equipamentos, e, ao invés de assumir “um papel na equipe produtora dessas novas tecnologias educativas” (Kenski,1998, p. 70), sendo “agente, produtor, operador e crítico das novas tecnologias educativas”, torna-se um mero consumidor de tecnologias ou programas prontos. As afirmações soam um tanto quanto forte, entretanto, é preciso admitir que elas condizem com a realidade. Observando o cenário descrito até aqui, parece-nos cada vez mais urgente reacender as discussões em torno da utilização das tecnologias educativas, a fim de que possamos tentar ajudar os professores a encontrarem, cada vez mais oportunidades de familiarização com as novas tecnologias educativas, suas possibilidades e limites para que, na prática, façam escolhas conscientes sobre o uso das formas mais adequadas ao ensino de um determinado tipo de conhecimento, em um determinado nível de complexidade, para um grupo específico de alunos e no tempo disponível” (KENSKI, 1998, p. 70). Quem sabe, através desta iniciativa, estejamos colaborando para revelar o ato inovador como algo que não só é possível, como necessário. Dessa forma, acreditamos estar contribuindo para ajudar a recuperar o caráter criativo e inovador que existe, latente, dentro de cada um dos milhares de professores e estudantes espalhados pelo país. O caminho percorrido durante esta análise nos fez perceber que são grandes os desafios existentes para que as tecnologias sejam usadas de forma a ajudar a promover um ensino que rompa com a situação vigente do ensino fundamentado na perspectiva tecnicista. Professores que se sentem muitas vezes intimidados por não saberem lidar com as tecnologias, como usá-las e com qual objetivo, confusos sobre como devem agir frente a um “novo” aluno, familiarizado e “conectado” ao ambiente modificado pelas tecnologias 170 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 171 de comunicação e informação. Escolas que investem na aquisição de modernos equipamentos, apostando ser essa a fórmula correta para resolver, quase que como num passe de mágica, de forma rápida e segura todos os problemas existentes há décadas no cenário educacional. COSTA, Marisa Vorraber. “Quem são? Que querem? Que fazer com eles? Eis que chegam às nossas escolas as crianças e jovens do século XXI”. In MOREIRA, Antônio, ALVES, Maria Palmira e GARCIA, Regina Leite (orgs). Currículo, cotidiano e tecnologias. Araraquara, São Paulo: Junqueira & Marin, 2006. Nessa perspectiva, entendemos que, somente quando houver a total compreensão de que os benefícios obtidos pelo uso das tecnologias, em sala de aula, não estão somente ligados ao grau de modernidade dos equipamentos, dos recursos por eles disponibilizados ou quaisquer outras características apresentadas, mas também, e principalmente, à forma como as tecnologias são utilizadas pelos sujeitos envolvidos no processo, poderemos acreditar que elas nos ajudarão a repensarmos o ensino. COUTINHO, Laura. TV e informática na educação. Brasília: MEC, 1998. Isso significa sairmos da “proteção” da grande sombra oferecida pelo paradigma da modernidade e nos colocarmos sob o sol, tentando enxergar para além dos dispositivos técnicos. Estaremos preparados? 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Esse movimento reflexivo vem promover aproximações com possibilidades de rompimento com modelos usuais, numa ação de convergência com o que vem sendo proposto e estudado a título de adequação às concepções contemporâneas relativas às práticas na área da educação. Amparado, sobretudo pelos estudos do imaginário, o que proponho são reflexões teóricas acerca da formação docente, evidenciando os “saberes pessoais” (PERES, 1999) como dispositivos de autoconhecimento e autoformação. Tais reflexões vêm sendo assunto de meu interesse enquanto pesquisador.1 * Bacharel em Administração de Empresas, doutorando em Educação pela UFPel. Atua na Faculdade de Tecnologia Senac Pelotas. E-mail: [email protected] 1 Este texto, que decorre dos estudos propostos no seminário “As práticas inovadoras na aula universitária”, oferecido pelo PPGE/FaE/UFPel, em agosto de 2008, vem agregar nas reflexões que orientam o Projeto de tese que está sendo estruturado a partir do tema “o tempo na docência”. O referido Projeto têm, entre os pilares de discussão, os processos autoformativos de docentes, na perspectiva dos estudos do imaginário. 174 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) O ponto de análise deste texto, então, é o da reflexão sobre caminhos e desassossegos presentes no tornar-se professor, numa perspectiva mobilizadora de conteúdos que, por questões culturais, parecem estar sendo esquecidos nas práticas pedagógicas e nas relações de ensino e aprendizagem de uma maneira geral.2 Essa articulação que passa a ser pensada, e que transita pela recuperação ou retomada da nossa subjetividade, configura-se como um processo gerador de inquietações. Nesse sentido, a memória apresenta-se como “lugar” possível de operar com a nossa própria produção, podendo instaurar-se uma leitura desde o campo simbólico, intimamente relacionado à nossa existência, às nossas ações cotidianas e, por consequência, poderá atingir aproximações com o nosso exercício de aprendizes de professores, se mobilizações forem propostas nesse sentido. Gaston Bachelard (1978) nos orienta no sentido de propor uma reflexão sobre um movimento de ensinar e aprender que reivindica um “novo espírito pedagógico”, no qual o imaginário seja o elemento fundador. A partir dessa percepção fica fortalecida a idéia de que as aprendizagens geralmente envolvem associações simbólicas. Sendo assim, é possível a consideração de que o que se dá é uma “ruptura com o conhecimento usual” (BACHELARD, 1978). O que se evidencia é que os caminhos da formação docente podem começar a ser traçados mesmo antes de empreendermos nossa formação formal. Isso significa dizer que as experiências advindas dos trajetos vividos são “fundantes” das relações futuras (PERES, 1996). Nossos movimentos, demarcados por escolhas, por rupturas e por continuidades decorrem de construções que são sempre temporárias. Sendo assim, os trajetos vividos surgem contextualizados, tanto cultural quanto subjetivamente, orientando nossas ações do passado e do presente e acionando nossas ações futuras. 2 Aqui é abordada uma outra/nova forma de ensinar e aprender, diferente das convencionais, justamente pelo fato de buscar incluir nos processos conteúdos simbólicos passíveis de serem presentificados ou ressignificados a partir do exercício de uma espécie de educação de sensibilidades. O trabalho nessa perspectiva me mobilizou na dissertação de Mestrado e permanece me mobilizando no Curso de Doutorado. Essa mobilização é potencializada, especialmente, no Grupo de estudos e pesquisa sobre imaginário, educação e memória – GEPIEM, liderado pela Profª. Dra. Lúcia Maria Vaz Peres. Nossos encontros e nossas pesquisas têm sido importantes para pensar nossas práticas, exercitando outros/novos olhares sobre os processos de formação de professores. Práticas inovadoras na aula universitária 175 Esses movimentos mais atentos às vivências cotidianas na constituição de professores transitam pelos princípios que estão orientados para as discussões e os estudos acerca da transição paradigmática, que aponta para a necessidade de novos modelos de práticas pedagógicas, assim como evidencia Cunha (2005) quando trata dessas elaborações acerca do assunto. O novo paradigma aponta para o que se identificaria com a idéia de indissociabilidade entre ensino e pesquisa (CUNHA, 2005). Segundo a autora, essa nova proposta levaria a atividades pedagógicas que enfocam o conhecimento a partir da localização histórica de sua produção e o percebem como provisório e relativo. A proposta pode contribuir para os processos de análise, valorizando o pensamento divergente como condição para criatividade, valorizando a curiosidade, o questionamento e a incerteza. O aguçamento de dispositivos de memória3, por exemplo, está na via do desassossego relativo ao que nos tornamos, neste caso, como nos tornamos professores. Uma mirada no “antes”, vasculhando nossos guardados, pode fazer emergir modelos pedagógicos que contemplem outros conteúdos, importantes para a instauração de uma temporalidade que traga em si elementos formadores. O que abre a possibilidade para pensar que o professor não se torna professor somente nos cursos formadores. É preciso considerar que essa formação se constrói permeada por muitos outros saberes, como arquétipos 4 adormecidos, por exemplo, que podem ter implicações nos rumos do trajeto profissional do docente. 3 4 Faz-se necessária aqui uma breve revisão conceitual para entendimento da perspectiva que orienta a reflexão neste texto. Bobbio (1997) trata do “tempo da memória” e reforça a idéia de que “(...) somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos, (...) somos aquilo que lembramos”. Já Isquierdo (2004), considera que um acontecimento ou conhecimento só é modulado pela emoção e, partindo desse princípio, nos diz que (...) nada somos além daquilo que recordamos (apud BRANDÃO, 2008, p. 12). Imagens psíquicas do inconsciente coletivo, que, segundo o estudioso C.G. Jung, referem-se ao patrimônio comum a toda a humanidade. Uma espécie de representação ancorada no a priori do desenvolvimento humano. Ele não se propaga, de forma alguma, apenas pela tradição, pela linguagem e pela migração, mas pode renascer espontaneamente em qualquer lugar e tempo. É como dizer que em cada psique, há prontidões, potencialmente vivas. Formas que, embora inconscientes, não são, por isso, menos ativas e, geralmente, moldam de antemão e instintivamente o pensar e o sentir humano (Glossário - Imaginário e Simbólico, 2009). 176 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) A consideração dos conteúdos de memória, assim como tratados nesta abordagem, que vimos estudando no grupo, convergem para o entendimento da importância de uma pedagogia que valorize a visão retrospectiva e prospectiva (NÓVOA, 1992), que está viva e pulsante na formação dos professores. A relação com esses saberes seria o papel do imaginário que age como promotor de mergulhos em vertentes noturnas, na perspectiva balchelardiana, apresentada como filosofia estimuladora e investigadora do devaneio, instaurador da aproximação do universo das imagens para alcançar o poético. Vale chamar a atenção para a importância do resgate das memórias de infância, que podem servir de referencial no rastreamento de crenças e valores que irão permitir ao adulto professor presentificar os saberes adormecidos no professor que se descobre. Esse movimento nos aproxima da antropologia do imaginário e valoriza outros saberes que são constitutivos da e na formação docente. Os movimentos particulares de cada trajetória, na vida dos professores e/ou aprendizes de professores trazem em si referências do ser e do fazer-se professor que evidenciam características arquetipológicas. Diante disso, o que se dá é uma espécie de temporalidade do contra, a qual recebe inscrições ativadoras de outros saberes. São os saberes advindos da experiência de vida – que se manifestam a partir de outro chronos... O chronos das imagens do imaginário. É a partir dessas constatações que se desvenda outra possibilidade de contato com dimensões complexas no espaço-tempo da interioridade do ser humano. Nele o valor e a potência do resgate de saberes têm origem no tempo vivido, trazendo à luz, assim, referências que por si só, normalmente, não encontrariam dispositivos para serem visibilizados. Um caminho possível de valorização dos “saberes sombrios” (porque ainda não presentificados) da trajetória vivida talvez seja o trabalho através de narrativas autobiográficas que, exercitando aspectos de memória, podem acionar e presentificar imagens dos trajetos de professores. Dessa maneira, estaríamos caminhando em direção de uma prática de uma educação de sensibilidades, em busca daquilo que Bachelard (1996) denomina de “imagens-lembranças”. A identificação e o decorrente contato com essas imagens podem atribuir outros significados ao percurso de formação de professores e alunos. Práticas inovadoras na aula universitária 177 À medida em que se constata a potência desse modelo disciplinar, que dá conta de uma perspectiva norteada pela interdisciplinaridade e pelo cunho científico, evidencia-se a emergência do imaginário, mostrando que esse é fonte de todas as disciplinas. A força do imaginário está em revelar na trajetória, da pessoa ao profissional, os múltiplos sentidos de um tempo vivido com traços temporais e/ou atemporais, atuais e/ou arcaicos. Essa dinâmica de interações que vai constituindo a vida dos professores, que se traduz em padrões de comportamento regidos por histórias, crenças, valores e costumes, identificam as continuidades e as rupturas, as sincronicidades no tempo e no espaço e as referências presentes nos vários espaços do vivido. Dá-se, assim, uma espécie de cultura da interioridade, na perspectiva de Gilbert Durand (1989), que nos apresenta o imaginário como o “museu de todas as imagens”. Esse conceito tem origem na consideração de conteúdos de dimensão simbólica, que podem ser traduzidos, se presentificados, como a epifania de um mistério (Durand, 1988). A consideração da cultura da interionidade para o fim desta reflexão apóia-se no pressuposto de que o homo sapiens é, sobretudo, um homo symbolicus e, sendo assim, um animal que tem como característica construir a sua trajetória imerso em significados, representações e presentificações eternas e atemporais. No transcorrer de uma trajetória de vida, como trajeto antropológico, nos afetam as demandas de espaços-lugares, entre eles, o das escolas à medida em que mostram-se fomentadoras de representações. O sentido simbólico da interioridade está em evidenciar “matizes” de trajetórias narradas, onde o ato de interpretar traduz, embora de forma difusa, o sentido das próprias palavras. Nesse tempo não-linear, que é simbólico, os saberes produzem histórias, refletem trajetórias e, sendo assim, sinalizam traços contínuos e descontínuos de uma vida desejada, idealizada, trazendo à tona uma temporalidade que é interior e que remete a uma outra temporalidade marcada por crenças e valores de caráter arquetípico. Essa maneira de sentir o tempo dá conta da percepção de histórias e imagens que ultrapassam a visão intelectualizada de que tudo tem uma explicação. A partir desse entendimento, o sentido simbólico poderá nos remeter para frente e para trás, num movimento 178 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) que potencializa a linguagem indireta e metafórica que, por um lado, reflete a infância, por outro significa o presente na vida adulta num passeio antropológico. Essa forma de adentrar o universo do humano – de si, no mundo – encontra referência em épocas remotas quando a conexão acontecia pelo conhecimento indireto, onde a poética e o mítico constituíam-se fundadores de um pensamento simbólico. O ato de conhecer o humano pela conexão com o cosmos e com os símbolos trazia respostas e lições. Na mesma via de entendimento podemos considerar que os saberes que estão na ordem do conhecimento indireto são presentificados trazendo códigos culturais que estão enraizados no tempo e que vertem das profundezas do humano, fazendo valer o vivido no trajeto antropológico do homo sapiens (DURAND, 1989). A mobilização dessas subjetividades vem propor a instauração da dúvida com relação à linguagem direta que tudo explica. Nesse sentido, passa a ser valorizado o sentido da linguagem simbólica indireta que assume, então, um outro grau de importância, mais elevado, na formação de professores. A partir dessa percepção, fica fortalecida a idéia de que o sentido das imagens pode estar associado a um símbolo da trajetória antropológica. A possibilidade de contato com o universo dos símbolos, evidencia outra/nova forma tratar, significando os processos pedagógicos que, assim como já apresentado, nas palavras de Bachelard (1978), caracteriza-se como forma de ruptura com o conhecimento usual. Na mesma perspectiva dessa outra/nova forma de ensinar e aprender, tempo vivido e memória relacionam-se aos trabalhos de recuperação, reorganização e ressignificação (sobretudo) de trajetórias autobiográficas numa relação direta com processos que envolvem uma espécie de “reinvenção” de si, assim como denomina Marie Christine Josso (2004). Esse trabalho de descoberta articulado em projetos existenciais, como afirma a autora, é ato de dar sentido à vida, princípio dos estudos do imaginário, antes do ponto de vista da formação humana para num momento posterior dar sentido à condição de ser professoraprendiz. Minha escrita como pesquisador é exemplo disso. Através dela retomo a minha história, minha vida e meu trabalho para me pensar enquanto pessoa e enquanto professor. Foi assim no início dos meus movimentos no Mestrado, quando parti da narrativa da minha história de vida para entender minhas metamorfoses, minhas rupturas e Práticas inovadoras na aula universitária 179 continuidades, potencializando-as no meu processo de pesquisa como motores propulsores. Os movimentos particulares de cada trajetória, na vida dos professores e/ou aprendizes de professores trazem em si referências do ser no fazer-se professor que evidenciam elementos importantes para a formação desse professor. Seguindo nessa linha de pensamento, percebo que os estudos e as reflexões decorrentes do Curso de Mestrado me tornaram mais sensível para o entendimento de uma outra lógica de ensinar e aprender, e isso se reflete nas minhas ações cotidianas como professor. Ou seja, o que se instaurou foi uma outra perspectiva para pensar o ensino e a aprendizagem, mais próxima da vida e seus tempos e não tão apegada às convenções dos currículos, numa contraposição aos princípios do ensino tradicional. Cunha (2005) trata da nova perspectiva quando a vincula à valorização das habilidades sócio-intelectuais, o que faz com que alunos e professores da prática social levem em conta as perspectivas do futuro e os desafios de pensar em função do novo, do não dado. Essas perspectivas, por sua vez, abrem a reflexão que nos orienta a pensar, mais uma vez, sobre as representações de memória, relevantes como constitutivas das identidades e historicidade dos indivíduos e dos grupos, sobretudo em tempos de uma sociedade acelerada e em constante mudança. Tempos, também, reforço, de revisões paradigmáticas acerca dos modos de ensinar e aprender. Vale atentar para essa realidade do nosso tempo. E, por isso, convoco o leitor para esta reflexão sobre o tempo que nos envolve e faz parte das nossas vidas... Acelerado, norteado pelo consumo e pelo descarte irrefletido – tempo cronológico que marca, data, organiza – onde o julgamento crítico se dá em contraponto ao tempo da memória. Tempo esse, longo, que abre a “brecha” para a articulação dos nossos conhecimentos, das nossas experiências, sentimentos e desejos – tempo vivido, possibilidade de sentido do nosso ser-estar no mundo. Esse tempo pode estar na memória, mostrando-se como articulador de processos de interpretação e re-interpretação do passado para significar o presente (se por ele acionado) e o futuro. Processos que estão para além das racionalidades e nos aproximam da dimensão que nos orientará para aproximação do entendimento dos nossos movimentos na vida. 180 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Nesse sentido, a memória pode ser considerada como dispositivo “detonador” de conteúdos adormecidos, que estão à “sombra”, mas que poderão ser acionados nos aproximando de um mundo “secreto”, “misterioso”... “intocado”, mas potente como mobilizador de novos movimentos. Essas relações partem, justamente, desse momento em que me percebo mais atento aos ritmos do humano, que nem sempre estão numa relação direta com o tempo cronológico. Essa diferença de ritmos, tenho notado, se reflete também nos “tempos” de ensinar. Meu fazer pedagógico traduz o meu anseio de reflexão sobre as amarras temporais nos espaços de ensinar, numa perspectiva que enfoca e valoriza o “amolecimento” criativo-transgressor das dimensões temporais como tempo esquivo. Minhas experiências com os alunos do Curso de Marketing da Faculdade de Tecnologia Senac Pelotas - meu lugar de atuação profissional - fizeram com que uma outra lógica de utilização do tempo se instaurasse para favorecer aprendizagens. Dessa forma, se deu a ruptura com os sistemas e modelos instituídos em busca da inovação, potencializando experimentos talvez ainda orientados pelo modo tradicional, mas partindo do entendimento de que “O novo não se constrói sem o velho e é a situação de tensão e conflito que possibilita a mudança” (CUNHA, 2005, p.25). Práticas inovadoras na aula universitária 181 entre os sujeitos, passando pelas estratégias e práticas de ensino e aprendizagem. Absolutamente, consonante com as questões que venho me colocando e pesquisando. Assim, o tempo, que tem implicações nesses movimentos, passa a ser considerado não só como tempo cronológico – o khronos – , aquele que guia o andamento nas escolas e baseado no qual são estruturadas as grades curriculares, mas, também como tempo simbólico – o kairós – , aquele que não se sente passar, o tempo do aconchego. Essa compreensão nos aproxima do entendimento do conhecimento como relativo, envolvendo uma concepção de movimento, de vida (CUNHA, 2005). Teixeira (2006) aborda os “tempos” presentes nos espaços escolares, entre eles os tempos das festas, os tempos interstícios e, também, os tempos das aulas. Com relação aos tempos das aulas, mais especificamente, a autora nos diz que esses constituem o momento em que os professores estão na escola desenvolvendo seus trabalhos e onde mantêm relações face a face com seus alunos. É um tempo caracterizado por tensões, por encontros e desencontros, por conflitos, por alegrias e dissabores peculiares à convivência no trabalho pedagógico. É um tempo de confronto com diferenças e individualidades, ritmos que se misturam e que desafiam o professor a repensar-se a todo instante diante do inusitado. Situações de tensão e conflito têm me mobilizado para refletir e pesquisar sobre os “tempos” implicados nas práticas pedagógicas, lançando outros olhares sobre meus desafios cotidianos. Gaston Bachelard, pela via do imaginário, ressalta a possibilidade do entendimento de uma nova dimensão de ensinar e aprender, apoiada numa força de expressão que reúne condições de transcender o raciocínio formal. É uma perspectiva que está relacionada com valores pessoais que não fazem parte dos currículos acadêmicos, mas que estão presentes na vida e seus ritmos. Dizendo de um outro modo, o que se busca é um conhecimento que não se produz ao acaso, e sim, a partir de necessidades e contradições humanas e sociais, parafraseando Cunha (2005). O trabalho na Unidade Curricular Criatividade e Propaganda, no Curso de Marketing, tem me oportunizado transitar pelos tempos de aula de uma outra forma, menos horizontalizada e ordenada, mais verticalizada, aparentando uma certa desordem. A movimentação fácil e previsível da primeira contrapõe-se à imprevisibilidade, como de um “labirinto”, da outra. Um bom exemplo disso foi o projeto chamado Laboratório de Criatividade em Marketing, que surgiu, em aula, da idéia de trabalhar a criatividade a partir das vivências dos próprios alunos que traziam situações-problema dos seus cotidianos para pensar soluções criativas. Cada caso um caso, no seu contexto social e profissional como estímulo ao trabalho com os conteúdos. Lucarelli (2005), quando trata da inovação na perspectiva fundamentada crítica, considera a nova prática como ruptura, isto é, como a interrupção de uma determinada forma de comportamento que se repete no tempo afetando os diversos aspectos envolvidos na situação didática, desde seus componentes técnicos até as relações Refletindo sobre essa modalidade, o que se pretende é ultrapassar a priorização e a interpretação de teorias, dando vez e voz a uma construção própria, singular pelas vivências, bem como, representações e teorizações antes de si. A contemplação dos saberes pessoais, nesse sentido, reforça os traços que singularizam a 182 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) formação do professor que estará desenvolvendo a sua sensibilidade a ser potencializada nos alunos. Nessa mesma ordem de pensamento, Edgard Morin (2000, p. 47) anuncia que os seres humanos devam “reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano”. Esse pensamento, na visão do autor, aplica-se ao campo da educação à medida que revisa as suas tendências paradigmáticas com vistas ao futuro. Também Josso (2004) defende a idéia de que as variadas experiências, das quais são portadores os alunos, poderão ser utilizadas para dar sentido (ou não) aos conteúdos disciplinares. E, ainda, que a consciência dessa possibilidade por parte dos professores pode ajudar esses mesmos alunos a mudar a sua concepção de aprendizagem e ensino. Esse movimento de ensinar que se utiliza de uma outra lógica de construção do conhecimento está relacionado com um outro ritmo, diverso provavelmente, dos instituídos nas escolas. É a partir desse entendimento que a autora nos orienta dizendo que os trabalhos a partir das trajetórias de vida podem se constituir numa possibilidade geradora de aprendizado. Nesse sentido, defende as reflexões teóricas e metodológicas sobre os estudos das histórias de vida no sentido de que estes possam auxiliar as mobilizações de dispositivos que promovam a aproximação da possibilidade de um caminhar para si. Elizeu Souza (2006) reforça o posicionamento de Josso (precursora destas idéias) quando aborda a escrita da narrativa como um processo que remete o sujeito a uma dimensão de auto-escuta, como se estivesse contando para si próprio suas experiências e as aprendizagens das quais foi ator ao longo da sua vida para o conhecimento de si. Ou seja: É com base nessa perspectiva que a abordagem biográfica instaura-se como um movimento de investigação-formação, ao enfocar o processo de conhecimento e de formação que se vincula ao exercício de tomada de consciência, por parte do sujeito, das itinerâncias e aprendizagens ao longo da vida, as quais são expressas através da metareflexão do ato de narrarse, dizer-se de si para si mesmo como uma evocação dos conhecimentos construídos nas suas experiências formadoras. (SOUZA, 2006, p. 14) Práticas inovadoras na aula universitária 183 A partir das contribuições do autor é possível nos aproximarmos da idéia de que as pesquisas que se utilizam das narrativas de histórias de vida possibilitam ao professor-pesquisador estreitar as experiências entre teoria e prática. Sobre essa possibilidade de promover um olhar para si, Oliveira (2001, p. 20) apresenta o seguinte sobre o trabalho com as histórias de vida: É um método que permite a aproximação entre as perspectivas teóricas e os fatos empíricos. (...) Este método revela a história não como episódio desempenhado por personagens importantes, senão como processo cotidianamente vivido por pessoas comuns. Fica evidenciado que os autores abordados estabelecem relações entre a abordagem das histórias de vidas com uma possibilidade de proposta pedagógica que valoriza as trajetórias de cada um e de todos os envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem. O cenário que se esboça a partir dessa possibilidade mostra-se multifacetado e dinâmico. Nele as práticas pedagógicas que buscam a inovação estão no contexto da transição dos paradigmas, ora à frente em relação às práticas tradicionais, ora seguindo os modelos instituídos. Para finalizar, vale lembrar que a reflexão sobre possibilidades de rompimento com o instituído, segue pela via do despertar para outros/novos olhares sobre o ser-docente que se constrói em meio a uma realidade que sinaliza com a necessidade de priorização de atenção especial aos “tempos” de cada um. É pertinente considerar que esses outros/novos olhares podem representar ganhos no sentido da articulação de práticas pedagógicas mais ricas pela mobilização de significados nos trajetos de “ser docente” refletidos nos trajetos de “ser aluno”. Bibliografia BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1978. _____. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996. BRANDÃO, Vera Maria Antonieta Tordino. Labirintos da memória: quem sou eu?. – Coleção questões fundamentais do ser humando; 7. São Paulo: Paulus, 2008. 184 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) CUNHA, Maria Isabel. O professor universitário na transição de paradigmas. Araraquara: Junqueira e Marin editores, 2005. DURAND, Gilbert. A imaginação Simbólica. São Paulo: Cultrix, 1988. _____. As estruturas antropológicas do imaginário. Lisboa: Editorial Presença, 1989. GLOSSÁRIO – Imaginário e Simbólico. Disponível em: < http:/ /wp.ufpel.edu.br/gepiem/glossario/ > Acesso em: 20 abr. 2009. Formação de professores: novas perspectivas educacionais Cândida M. de Sousa Custodio* JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação. São Paulo: Cortez, 2004. LUCARELLI, Elisa. Innovación en el aula: eje de la articulación teoria e prática en la universidad. Cuadernos de cátedra. Bs. As. OPFYL, 2005. MORIN, Edgard. Da necessidade de um pensamento complexo. In: Para navegar no século 21: tecnologias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: PUCRS, 2000. NÓVOA, Antônio. Vida de professores. Porto: Porto, 1992. PERES, Lúcia Maria Vaz. Significando o “não-aprender”. Pelotas: Educat, 1996. PERES, Lúcia Maria Vaz . Dos saberes pessoais à visibilidade de uma pedagogia simbólica. (Tese do Doutoramento). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1999). OLIVEIRA, Valeska Fortes de. A formação de professores revisita os repertórios guardados na memória. In: OLIVEIRA, Valeska Fortes de. (Org.). Imagens de professor: significações do trabalho docente. Ijuí: Unijuí, 2000. p. 11-24. A educação em tempos de mudança São grandes os desafios que a Educação reserva para os próximos anos, e é fundamental entender as transformações pelas quais o mundo está passando, principalmente para quem tem a missão de educar. Afinal, já não basta o professor repassar informações para seus educandos. É preciso prepará-los para agirem como cidadãos e interferirem de modo ativo na sua comunidade. Diante de tais aspectos, percebo o mundo em movimento vertiginoso, e, sob o ponto de vista social, industrial, educacional, a instituição escolar necessita estar preparada para essa realidade e oferecer a todos que dela participam condições adequadas para que se tornem agentes dessas mudanças. É preciso que a Educação esteja no seu conteúdo, nos seus programas e nos seus métodos – adaptada ao fim que se persegue. Permitir ao homem chegar a ser sujeito, construir-se como pessoa, transformar o mundo, entabular com os outros homens relações de reciprocidade, fazer a cultura e a história. (...) O homem não pode participar ativamente na história, na sociedade, na transformação da realidade, se não for ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para a transformar (FREIRE, 1977, p.47). SOUZA, Elizeu. O conhecimento de si: estágio e narrativas de formação de professores. Salvador: DP&A, 2006. TEIXEIRA, Inês Assunção de Castro. Arquiteturas do tempo nos enredos de professores (as). In: OLIVEIRA, Valeska Fortes de. (Org.) Narrativas e saberes docentes. Ijuí: Unijuí, 2006. * Graduada em Letras (Português/Espanhol) pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Especialista em Educação pela UFPel e Mestranda no Programa de PósGraduação em Educação da UFPel. Supervisora de Escola da Rede Estadual de Ensino/RS. E-mail: [email protected] 186 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) No contexto educacional, os professores trabalham com a polêmica e com o confronto. O que precisam conservar? O que precisam transformar? E, a partir de algumas certezas e de muitos questionamentos, definirem os rumos da Educação. Aí está o fundamento do papel político exercido pelo professor; cabe a ele mais do que a qualquer outro representante da sociedade civil, influenciar na definição de um compromisso político com a mudança e por seu aperfeiçoamento técnico e pedagógico, já que o trabalho de educar é um dos mais delicados no sentido psicológico e tem tudo para ser o melhor, porque não há fragmentação nele: é o professor que, em sala de aula, possui liberdade de ação para criar. Não se trata de uma tarefa simples, uma vez que a sociedade não é um bloco homogêneo; é composta de grupos plurais com interesses, necessidades, crenças e valores diferenciados. Ao estar inserido nessa realidade, o professor vivenciará experiências de ensinar e de aprender, de educar e de viver, onde uma pedagogia de convivência será fortalecida pelo respeito à vida em suas diferentes formas, pois, por mais completa que se apresente, a formação de um professor carece de alguns detalhes, que só a vivência do processo educativo é capaz de proporcionar. Para construir uma nova realidade educacional, entretanto, faz-se necessário implementar um conjunto de políticas emergenciais e estruturais voltadas para o professor, principal articulador de uma educação de qualidade; e que a instituição, que se compõe de um conjunto de funções, passe a ser considerada uma organização social, cultural e humana, onde possam ser tomadas importantes decisões educativas, curriculares e pedagógicas. A formação de professores pode desempenhar um papel importante na configuração de uma “nova” profissionalidade docente, estimulando a emergência de uma cultura profissional no seio do professorado e de uma cultura organizacional no seio das escolas (NÓVOA, 1992, p.24). A competência técnica do corpo docente, portanto, necessita de ser estimulada e estar atualizada, para questionar suas práticas pedagógicas, experimentando e ousando, já que a reconstrução curricular transita pelo professor. Nesse sentido, torna-se prioritário reencontrar o professor como sujeito de sua prática pedagógica, reconhecendo-se que sua formação se baseia num equilíbrio único, levando-se em consideração Práticas inovadoras na aula universitária 187 a importância que essa atividade tem do ponto de vista da formação dos seres humanos. A exposição, o diálogo, o ponto de vista dos educandos são fatores que proporcionam, sobretudo, o amadurecimento do professor, na solidão de seu desempenho profissional. As conversas no corredor, na sala dos professores, nas reuniões por disciplina são momentos de socialização das alegrias, frustrações e esperanças. O professor, no entanto, continua só, reinventando o seu fazer pedagógico. A importância de os professores interagirem, possibilita que saberes emergentes da prática profissional se consolidem (NÓVOA, 1992). Logo, quanto maior e melhor for o entendimento das funções, dos espaços, das relações e das condições de funcionamento das partes do sistema e de como interagem, maiores serão as probabilidades de se beneficiar de seus esforços e resultados. Nessa rápida mirada de percurso, diante de fatores como a especificidade do fazer pedagógico, a finalidade da escola, a dimensão política da educação e a dinâmica do cotidiano escolar, a transformação pedagógica é importante para que os atores desse contexto se permitam mudar no seu jeito de ser e de agir. Nesses termos, creio que o movimento pelos caminhos dos processos de pesquisas para captar a formação dos professores perpassa pela rede de conhecimentos rumo às práticas educacionais baseado pelo poder das idéias, no campo da Educação, que engloba o cotidiano, as culturas num processo de inserção no pensamento humano. Ora, o que está realmente em evidência, hoje, não se restringe apenas ao aperfeiçoamento ou à qualificação na carreira docente; todavia, nesse contexto de mudanças dos professores, como sujeitos protagonistas que têm de ser, e das instituições educacionais, os desafios se impõem no seu cotidiano a partir de um investimento das suas experiências, nesse processo. O professor, logo, continua sendo a figura central, ele é o instrumento de socialização cultural. A palavra professor vem de professar, tem, portanto, a mesma raiz de professio, que era a profissão religiosa dos clérigos ou membros de congregações ou ordens da Igreja Católica. Professor é o que professa. Hoje, na nova ordem, é o funcionário que desempenha atividades numa organização civil, a Escola, e tem por função a difusão do conhecimento. “Criar uma nova cultura não significa 188 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) apenas fazer individualmente descobertas originais, significa também e sobretudo, difundir criticamente as verdades já descobertas, socializá-las” (GRAMSCI, s.d). As relações sociais situam-se em contexto de espaço e tempo, e, pensar Educação é dialogar sobre projeto de curso, é falar em formação pedagógica, em formação inicial de professores, em produção de conhecimentos, na relação da teoria e da prática. Estágio curricular supervisionado e a formação inicial do professor O exercício da profissão docente exige uma significativa formação, não somente que se refira aos conteúdos científicos próprios da disciplina, todavia, nos aspectos correspondentes a sua didática e ao encaminhamento das diversas variáveis que caracterizam a docência. Volta, logo, o discurso da Educação como fator fundamental quanto à necessidade de busca da qualidade de ensino. Dessa forma, as diferenças individuais e a diversidade de fatos que ocorrem no processo educacional sistematizado, do qual a Escola detém a maior responsabilidade, levaram-me a constatar a importância da unificação de esforços. Da mesma maneira, por conseguinte, é fundamental que a formação inicial dê um salto adiante, e que as dimensões e a duração dessa formação indiquem o valor que a sociedade atribui ao trabalho docente. Nesse caso, a preparação do professor na sua formação inicial deve realizar-se, pois, de modo que o torne um profissional ciente do significado da Educação, e que lhe possibilite, pelo seu desempenho, a contribuir para a coletividade, no âmbito educacional. Que lhe proporcione espaço para agir sobre o meio, para elaborar e reelaborar seu conhecimento pela reflexão e pela troca de experiências, identificando-o como um ato educativo a ser pensado além de um projeto de curso, envolvendo professores de formação em diálogo. Muitas são as reflexões, inúmeras as propostas no sentido de construir a identidade do professor, na sua formação inicial. Uma posição, entretanto, parece convergir para o entendimento de que não é possível construir um conhecimento pedagógico para além dos professores, isto é, que ignore as dimensões pessoais e profissionais do trabalho docente (NÓVOA, 1995, p.32). Práticas inovadoras na aula universitária 189 A questão central relativa à formação de professores, portanto, gravita em torno da necessária e complexa relação a ser estabelecida entre a teoria e a prática, que passa a ser trabalhada no âmbito da formação docente, especialmente, quando a Universidade vem sendo desafiada pelas mazelas sociais e econômicas da sociedade. Nesse sentido, frente aos desafios da virada do século, a situação que se impõe, a uma sociedade democrática, mais exigente e mais participativa, é a de urgência de uma universidade qualitativamente superior. E, para isso, a formação docente é importante na qualidade da Educação. Há a necessidade de uma ação educacional transformadora que ofereça, ao professor, condições para que ele construa saberes, valores, habilidades que lhe permitam assumir a luta por sua transformação – pela transformação de seu grupo social, buscando a compreensão e a solução dos problemas coletivos de forma coletiva. Tantas são as propostas em resgate à identidade do professor, como de um sujeito em ação, com suas convicções. Nesse aspecto, Pimenta (1999) ressalta a formação de professores a partir de suas práticas, e aponta para a compreensão de que os saberes são fatores primordiais para estudos propostos à construção da identidade docente. Para essa pesquisadora, a identidade é construída a partir da significação social da profissão, da constante revisão desses significados sociais e da revisão das tradições. Dessa forma, os professores envolvidos na formação de outros professores enfrentam dilemas como as articulações entre a teoria e a prática: o que priorizar? Pela teoria, que fundamenta e consente um olhar mais atento à realidade ou pela prática que requer o fundamento teórico que o explique? Nessa ótica, a formação do professor universitário, no sentido de qualificação científica e pedagógica, é um dos fatores básicos da qualidade da Universidade. No que se refere à Didática Universitária, seu programa deve fundamentar-se no conhecimento do aluno, ao articular-se com as demais disciplinas, do planejamento do ensino a partir da aprendizagem e da didática, num processo entre o ensinar e o aprender. 190 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Quando se fala em Universidade como espaço de qualidade pedagógica, como instituição de Educação Superior, do que se está falando? Há necessidade de se prestar atenção ao seu papel como instituição formadora de novos professores, em especial nos cursos de licenciatura, em que a perspectiva parta da clareza política pedagógica de se saber que tipo de profissional se quer. Esse é o desafio! De preparar novos profissionais, competentes, para trabalharem a maneira de como construir um sujeito como um ser social. Um sujeito qualificado para a política de pesquisa institucional. Daí a necessidade de ações educacionais como fontes geradoras de um processo de transformação da sociedade, que represente um salto de qualidade, como uma alavanca propulsora da busca dessa qualidade. Nesse contexto, faz-se necessário uma maior compreensão quanto à LDBEN/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) no que se refere à origem do Estágio Supervisionado. Nessa rápida mirada de percurso histórico, o Estágio Supervisionado, que teve sua origem na década de 30, tanto pela criação de cursos superiores de Licenciatura, quanto na habilitação específica de magistério pela Escola Normal, passou a ser objeto de preocupação antiga, especialmente com relação ao Estágio Curricular a partir da Reforma Universitária institucionalizada pela Lei 5.540/ 68 (PICONEZ, 1998), com uma visão tecnicista fundada na racionalidade técnica. Nessa lógica, o Estágio tinha seu início nas disciplinas teóricas, a seguir, as pedagógicas e, ao final do curso, o Estágio como espaço para a aplicabilidade das teorias que o acadêmico assimilava na Universidade. O Estágio se embasava no aprender – fazer, numa perspectiva de que, por fim, o que foi aprendido seria comprovado. Piconez (1998) reforça essas idéias, quando afirma que o Estágio era considerado uma disciplina complementar separada do curso e do espaço escolar. De modo que, o Estágio Supervisionado, em qualquer área do conhecimento, hoje, no Brasil, é tido como obrigatório, como exigência por lei para o exercício profissional. Quanto ao curso de Práticas inovadoras na aula universitária 191 formação de professores, é um dos componentes considerados parte da prática pedagógica. A essa questão, soma-se ponto determinante da Resolução CNE/CP nº 1 de 18 de fevereiro de 2002, que institui em definição legal e oficial Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, no que aponta: Art. 12 – Os cursos de formação de professores em nível superior terão a sua duração definida pelo Conselho Pleno, em Parecer e resolução específica sobre sua carga horária. § 1º - A prática, na matriz curricular não poderá ficar reduzida ao estágio, desarticulado do restante do curso. § 2º - A prática deverá estar presente desde o início do curso e permear toda a formação do professor. § 3º - No interior das áreas ou das disciplinas que constituírem os componentes curriculares de formação, e não apenas nas disciplinas pedagógicas, todas terão a sua dimensão prática. Art. 13 – Em tempo e espaço curricular específico, a coordenação da dimensão prática transcenderá o estágio e terá como finalidade promover a articulação das diferentes práticas, numa perspectiva interdisciplinar. § 1º - A prática será desenvolvida com ênfase nos procedimentos de observação e reflexão, visando à atuação em situações contextualizadas com o registro dessas observações realizadas e a resolução de situações – problema. § 2º - A presença da prática profissional na formação do professor, que não prescinde da observação e ação direta, poderá ser enriquecida com tecnologias da informação, incluídos o computador e o vídeo, narrativas orais e escritas de professores, produções de alunos, situações simuladoras e estudo de casos. § 3º - O estágio obrigatório, a ser realizado em escola de educação básica, e respeitado o regime de colaboração entre os sistemas de ensino, deve ter início desde o primeiro ano e ser avaliado conjuntamente pela escola formadora e a escola-campo de estágio. No que se refere à carga horária dos cursos de formação de professores de educação básica, assim se pronuncia o artigo 1º da Resolução nº 2/2002: [...] será efetivada mediante a integralização de, no mínimo, 2.800 (duas mil e oitocentas) horas, nas quais a articulação teoria-prática garanta, nos termos dos seus projetos pedagógicos, as seguintes dimensões dos componentes comuns; 192 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) I – 400 (quatrocentas) horas de prática como componentes curriculares, vivenciadas ao longo do curso; II – 400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso; III – 1.800 (mil e oitocentas) horas de aula para os conteúdos curriculares de natureza científico-cultural; IV – 200 (duzentas) horas para outras formas de atividade acadêmica – científico – culturais. O Estágio supervisionado, como campo de conhecimento nos cursos de formação de professores, abre possibilidades para que aspectos essenciais sejam trabalhados e ampliados, num processo de socialização. O estágio como perspectiva de mediação Um novo milênio! O homem imerso em seus pensamentos, em seus ideais! Ideais de quem está no limiar da vida profissional. O aluno professor! Encaminhado, conduzido na realidade de estágio, que busca, no Estágio Curricular Supervisionado, o firmamento de suas crenças, a interação com o meio, o perfil profissional, com base no equilíbrio entre os conhecimentos adquiridos na Universidade. A experiência de estágio, pois, vivê-la significa para professores que acompanham, assim como para os acadêmicos, um desafio. Logo, pensar em Estágio Supervisionado é falar em prática de ensino, em projeto de curso, como fatores indispensáveis para serem debatidos no âmbito da Universidade. Para isso, o estagiário, como sujeito que participa, ao transitar da Universidade para a Escola e desta para a Universidade, se insere nesse cotidiano educativo para melhor aprender e aprimorar seus conhecimentos, e interferir no âmbito da Escola em que atua, com abordagens relacionais. Nesse caso, aprender a profissão docente, durante o estágio, supõe estar atento à realidade escolar. A finalidade do estágio é proporcionar ao acadêmico uma aproximação à realidade na qual atuara (Pimenta; Gonçalves, 1990). Práticas inovadoras na aula universitária 193 Nesse aspecto, vale lembrar que nas licenciaturas, a orientação de estágio curricular comporta-se de maneira complexa, à medida que o estagiário estará atuando, na sala de aula, com um grupo heterogêneo, com seus valores, com sua história de vida. Há, nesses destaques, uma evidência mais específica no estágio que, além de mediar, se transforma em ações, com processos de reflexão e de autoconhecimento. Nesse sentido, cabe à Universidade proporcionar aos futuros docentes uma ampla base de conhecimento, como instrumento capaz de avaliá-los em sua atividade educativa, e torná-los sujeitos protagonistas no saber. Segundo Gimeno Sacristán (1999, p.103), “o saber fazer, ou agir, e o saber sobre as ações é uma bagagem predisposta a ser utilizada nas ações posteriores acumuladas como experiência individual e coletiva para interpretar o presente”. Nessa lógica, considerando-se que a Escola Básica já não é mais a mesma, e que sua realidade exige um suporte teórico com mais dinamismo, logo, ela poderá ser tanto um espaço excludente quanto modificador de relações. É necessário, portanto, como ponto de partida, maior proximidade entre a instituição formadora e a instituição-campo de estágio, para que se estabeleça uma relação de diálogo entre ambas, quanto à importância do papel do Estágio Curricular Supervisionado nos cursos de Formação de Professores. Pode-se, ainda pensar o estágio em propostas que concebem o percurso formativo, alternando os momentos de formação dos estudantes na universidade e no campo de estágio. Essas propostas consideram que teoria e prática estão presentes tanto na universidade quanto nas instituiçõescampo. O desafio é proceder ao inter-câmbio, durante o processo formativo, entre o que se teoriza e o que se pratica em ambas (PIMENTA, 2008, p.57). É tempo para refletir sobre o lugar que o Estágio Supervisionado pode ocupar na formação de professores, e admitir a possibilidade de perspectivas de mediação social entre a Universidade e a Escola Básica. Para isso, é essencial que se vivencie essa experiência com um olhar desnudo da racionalidade técnica, e que se proporcionem importantes reflexões para a formação inicial do professor. 194 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) A formação de professores e o inovar das ações pedagógicas Um dos grandes desafios para a Educação, nesses tempos de mudanças, é a formação docente que vem servindo como fator importante, em especial, sendo analisada sob diversos aspectos e diferentes olhares e compreensões. A formação docente está relacionada ao contexto social e cultural alargado, extensivo, tornando-se condição favorável à apropriação, pelo professor, de saberes expressivos e significantes, favorecedores à construção de sua identidade como sujeito-autor da práxis transformadora. Nóvoa (1995) defende que o reconhecimento do professor, como pessoa, desencadeia a necessidade por espaços de interação entre o Pessoal e o Profissional, e possibilita que o professor se aproprie de sua formação, propiciando-lhe sentido a sua história de vida. Nesse sentido, a formação de professores concretiza-se pela busca e valorização da pessoa do docente, de sua identidade pessoal, à medida que torna os conhecimentos operacionais. Dessa forma, formação (latim: formatio), conforme o dicionário da Nova Cultura (LAROUSSE, 1992) e da Ática (LUFT, 2000) que apontam o sentido etnológico da palavra como constituição, ação ou efeito de formar (-se), desenvolvimento, passa a idéia de algo não completo. Tais concepções fazem parte da realidade de vida que o professor constrói no seu percurso profissional. Segundo Nóvoa (1995, p.25), “a formação deve estimular uma perspectiva críticareflexiva, que forneça aos professores os meios de um pensamento autônomo, e que facilite as dinâmicas de auto-formação participada”. Nessa ótica, o exercício da profissão docente exige uma significativa formação, não somente que se refira aos conteúdos científicos próprios da disciplina, todavia, nos aspectos correspondentes a sua didática e ao encaminhamento das diversas variáveis que caracterizam a docência. A formação supõe, assim, o romper com práticas reprodutivas, rotineiras, modelares, instalando o novo, resultando da articulação de processos investigativos com práticas educativas. Práticas inovadoras na aula universitária 195 A formação de professores deve ser concebida como um dos componentes da mudança e que (...) essa formação não se faz “antes” da mudança, fazse “durante”, produz-se nesse esforço de inovação e de procura dos melhores percursos para a transformação da escola (NÓVOA, 1992, p.26). Para inovar a prática pedagógica, entretanto, o professor precisa de algo mais, para além do concreto, que provoque ruptura. Grande parte das ações pedagógicas que procuram antecipar inovações, vivem intensos espaços na transição dos paradigmas, ora vivenciando práticas que façam avançar o modo tradicional, ora ainda reproduzindo processos presentes, na história de cada um. O novo não se constrói sem o velho e é a situação de tensão e conflito que possibilita a mudança (CUNHA, 1998, p.25). Nesse contexto, Lucarelli (2000) considera que a pedagogia universitária é um espaço de conexão de conhecimentos, subjetividade e cultura, que exige um conteúdo científico, tecnológico ou artístico bem especializado e bem orientado voltado para a formação profissional, de modo que a formação do professor universitário, no sentido de qualificação científica e pedagógica, é um dos fatores básicos da qualidade da Universidade. No que se refere à Didática aplicada na Universidade, seu programa deve fundamentar-se no conhecimento do aluno, ao articular-se com as demais disciplinas do planejamento do ensino, num processo entre o ensinar e o aprender. En el mismo sentido, la articulación de teoria y práctica surge como eje articulador en La construcción de una Didáctica que pretenda superar la visión instrumentalista del enseñar y el aprender, ya que posibilita la vinculación de cada acción que se desarrolla en el aula con propósitos y fundamentos, permitiendo somenterla a procesos de reflexión que pueden, a su vez, conformar conocimientos más sistemáticos y orgánicos (LUCARELLI, 1998, p.7). E a propósito de reflexão, existe um universo rico de experiências, fervilhando ou latente, no âmbito escolar. De que maneira se poderá integrar esse mundo ao cotidiano, na prática? Schön (1992) defende a idéia de que é possível integrar teoria e prática em uma proposta de formação, na qual a capacidade de refletir é estimulada pela interação entre os sujeitos, e que a prática, como característica da profissão docente, permite a construção de um conhecimento específico ligado à ação. 196 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Desse modo, a formação pretendida exige um novo caminho, que se faz a partir de um profissional reflexivo, ciente de sua prática educativa. Nesse novo caminho, dá-se a prática pedagógica como ação num processo de emancipação viabilizada pela pesquisa. Nessa ótica, o modelo de formação de professor reflexiva proposto por Schön (1992) tem emergido em muitos programas de formação. Essa proposta coloca o professor como sujeito principal da prática profissional reflexiva. Ele toma em suas mãos a própria gestão de aprendizagem. Para que aconteçam, entretanto, uma nova atitude na formação do professor e o desenvolvimento de uma contextualização inovadora da Educação, a referência ao saber e à cultura cotidianas representa aspectos fundamentais a serem incorporados ao seu preparo por meio das instituições formadoras que, por essa perspectiva, só ocorrerá à medida que se exigir do Estado um olhar à Educação como investimento social e político. Assim, diante de tais desafios, torna-se necessário prepararse para enfrentar essas transformações que implica mudança na formação do aluno, na qualificação do professor, numa meta de construir novos espaços, assumindo efetivamente o papel de agente de mudança social. Bibliografia CUNHA, Maria Isabel da. (org.). Formatos Avaliativos e Concepção de Docência. In: LUCARELLI (2000). Políticas públicas e docência na universidade: nova configuração e possíveis alternativas. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2005. (Coleção educação contemporânea). _____. O professor universitário na transição de paradigmas. Araraquara: JM Editora, 1998. Práticas inovadoras na aula universitária 197 LUCARELLI, Elisa. Cuadernos de Cátedra. In: La didáctica del nível superior: Sus notas distintivas. Buenos Aires, FFyL-UBA, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP N. 1, de 18 de fevereiro de 2002. _____. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP N. 2, de 19 de fevereiro de 2002. NÓVOA, António. Formação de Professores e Profissão Docente. In: NÓVOA, António (coord.). Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1995. _____. Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. OLIVEIRA, Lorita Maria de (org.). Qualidade em educação: um debate necessário. In: GRAMSCI, A. (s.d.). Liberalismo e qualidade total: para onde vai a Universidade? Passo Fundo: Universidade Educação Básica, 1997. (Série Interinstitucional). PICONEZ, Stela A. Prática de Ensino e o Estágio Supervisionado: a aproximação da realidade escolar e a prática da reflexão. In: PICONEZ, S.A. (org.). A prática de ensino e o estágio supervisionado. 3. ed. Campinas: Papirus, 1998. PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e docência. In: PIMENTA (1999). Estágio: construção da identidade profissional docente. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. (Coleção docência em formação. Série saberes pedagógicos). _____. Estágio e docência. In: PIMENTA; GONÇALVES FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (1990). Estágio: diferentes concepções. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. (Coleção docência em formação. Série saberes pedagógicos). FREIRE, Paulo. A Mensagem de Paulo Freire. Teoria e prática da libertação. Porto: Nova Crítica, 1977. _____. Estágio e docência. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. (Coleção docência em formação. Série saberes pedagógicos). 198 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) GIMENO SACRISTÁN, J. O currículo. Uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: ARTMED, 1999. SCHÖN, Donald A. Formar Professores como Profissionais Reflexivos. In: NÓVOA, António. Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. A formação da professora alfabetizadora: diálogos a partir dos currículos do curso de Pedagogia da FaE/UFPel Gilceane Caetano Porto * Introdução Os reflexos da publicação, no Brasil, do livro “Psicogênese da língua escrita” (FERREIRO e TEBEROSKY, 1999) são sentidos na década de 90 do século XX. Esta década e as que a seguem são marcadas pela “revolução conceitual” proposta por Emília Ferreiro e seus colaboradores (MELLO, 2007). Os trabalhos de Weiz (1985, 1999, 2001), Azenha (1993) e Mortatti (2000) explicam que o deslocamento do foco no ensino para a aprendizagem da língua escrita é o que caracteriza essa “revolução”. Mortatti (2000) referese à divulgação da “Psicogênese da língua escrita” como o quarto momento1, ainda em andamento, da história da alfabetização no Brasil. Os estudos no campo da alfabetização têm tomado como marco temporal esse período que já dura mais de duas décadas. Nos últimos anos vários trabalhos apresentados no GT de Alfabetização, Leitura e Escrita da ANPEd tomam esse período como marco investigativo (ALBUQUERQUE et. alli, 2005; MAMEDE, 2003; 2006, PERNAMBUCO, 2006) * Licenciada em Pedagogia (FaE/UFPel), doutoranda em Educação pela UFPel. Docente da UNIPAMPA, Campus de Jaguarão. E-mail: [email protected] 1 Segundo a autora, o primeiro e o segundo, com algumas diferenças, são referentes às disputas entre os partidários dos métodos sintéticos e analíticos, e o terceiro entre os defensores do método misto e os do método analítico. 200 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Essas modificações conceituais no campo da alfabetização têm influenciado a formação inicial das pedagogas. O paradigma de aprendizagem construtivista propõe uma organização curricular que busca formar professoras que compreendam o processo de aquisição da linguagem escrita dos alunos tendo claro que “a obtenção de conhecimento é um resultado da própria atividade do sujeito” (FERREIRO e TEBEROSKY, 1999, p. 31) e não resultado de um determinado método. Para fins deste texto, analiso, portanto, as características da formação inicial a partir dos currículos e documentos do Curso de Pedagogia. A pesquisa documental foi realizada no arquivo passivo da FaE/UFPel durante o ano de 2008. No processo de investigação, foram analisados os planos de ensino das disciplinas que compõem o campo da alfabetização, bem como as reformulações curriculares que ocorreram no período delimitado para o estudo. A seguir, contextualizo a gênese da Faculdade de Educação, o contexto da criação do Curso de Pedagogia e as principais influências na formação das pedagogas. O curso de Pedagogia da FaE e a teoria construtivista A Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas foi criada em 1976, em um momento em que o Brasil sofria as consequências da militarização do governo. Era um momento de reformas educacionais, especialmente no final dos anos 60 e início dos anos 70. Embora o contexto fosse de repressão, a FaE/UFPel, desde sua gênese, se caracterizou por estabelecer diálogos com a comunidade e buscar propostas de formação numa perspectiva crítica (CUNHA, 2006). Os ideais pedagógicos do corpo docente impulsionaram a luta para a criação do Curso de Licenciatura em Pedagogia da FaE/UFPel, que foi criado em 1978 com o objetivo de “responder às demandas regionais de capacitação e valorização de professores alfabetizadores e de séries iniciais” (GHIGGI, 1995, p.1). A proposta de oferecer habilitação em séries iniciais e organizar um currículo centrado em concepções humanistas demonstrava que o ideário pedagógico dos professores da FaE organizava-se em oposição ao tecnicismo da política educacional oficial com suas tentativas de aligeiramento dos cursos de formação de professores e de restringir a formação do Práticas inovadoras na aula universitária 201 pedagogo à formação dos chamados “especialistas” (GARCIA et al, 1996, p. 8). Naquele contexto, as idealizações planejadas pelos professores da FaE/UFPel esbarraram na posição oficial imposta pelo Parecer 252/69, que dicotomizava os aspectos teóricos da formação dos aspectos práticos, tendo este último prioridade (GARCIA et al, 1996). O início da década de 80 do século XX é especialmente marcante para o campo da alfabetização. Os resultados da pesquisa pioneira de Ferreiro e Teberosky (1999) contribuíram para que se estabelecessem mudanças no modo de conceber e investigar a temática da alfabetização. Uma das principais contribuições foi rejeitar a ênfase nos aspectos metodológicos para a aprendizagem da leitura e da escrita e centrar a atenção para o como se dá o processo de aquisição da leitura e da escrita. Nesse período, professores da FaE desenvolveram diversos trabalhos com a rede pública de ensino da cidade de Pelotas realizando a formação continuada e divulgando o paradigma construtivista no campo da alfabetização, como revelam os documentos pesquisados. Diversos foram os artigos publicados2 por professores da Faculdade, cujo enfoque teórico centrava-se na teoria construtivista. O paradigma construtivista vem influenciando o novo perfil docente a partir da relação entre sua teoria e as políticas educacionais. A difusão da proposta construtivista é de certa forma oficializada a partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais em 1997, na medida em que fundamentam, orientam e reorganizam as políticas educacionais brasileiras e enfatizam teoricamente, essa concepção de alfabetização (CHAKUR, 2006). Assim, a divulgação no meio acadêmico do construtivismo vem redefinindo a figura do aluno, que passa a ser considerado sujeito ativo diante do objeto de conhecimento, e, por conseguinte, a da professora que passa a desenvolver um novo papel na relação de ensino e de aprendizagem. Muito se tem falado sobre a importância do docente conhecer o processo de construção do conhecimento dos alunos e de sua necessária mudança de postura pedagógica 2 A revista Cadernos de Educação, N. 2, Pelotas, 1992, apresenta artigos de professores da FaE nessa perspectiva. 202 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) (MAMEDE, 2001; 2003). Também passaram a ser demandadas profundas reestruturações na forma e no conteúdo das políticas de formação do professor. Esses fatores acabam por contribuir para a constituição de uma nova identidade docente vinculada ao construtivismo que passa a ser definida tanto no campo teórico quanto no campo político da formação do professores. A heterogeneidade é uma das maiores marcas dos profissionais da educação. Essas diferenças se configuram, entre outras, nas filiações teóricas e nas áreas de atuação. São essas diferenças que contribuem para definir as formas de ser professor e professora exigindo habilidades muito específicas e profundamente distintas. Nesse sentido, ser alfabetizadora exige saberes muito específicos, mas que são ainda pouco explorados nas pesquisas educacionais (GARCIA et.al, 2005). Tardif analisa a questão dos saberes profissionais e a sua relação com a profissionalização do ensino e com a formação de professores. Define o saber docente “como um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais” (TARDIF, 2002, p.36). Nessa perspectiva, os saberes profissionais dos professores são temporais, plurais e heterogêneos, personalizados e situados e carregam as marcas do ser humano. Na seção seguinte trato de esclarecer os principais pressupostos da “Psicogênese da língua escrita” que tem influenciado a formação de professores desde a década de 80. A “Psicogênese da Língua escrita”: algumas considerações. Os achados da pesquisa das autoras argentinas Ferreiro e Teberosky (1999) tiveram grande aceitação no campo educacional brasileiro. Uma das principais descobertas foi de que as crianças, desde muito pequenas, já têm idéias sobre a escrita mesmo antes de ingressarem na escola e serem “autorizadas” a escrever. As autoras apresentaram a descrição da psicogênese da língua escrita, evitando sugestões metodológicas, deixando essa tarefa a cargo dos especialistas em alfabetização. Assim, para os alfabetizadores brasileiros, as décadas de 80 e 90 do século XX foram marcadas por um desafio duplo: a apropriação desse legado teórico construtivista e a transposição desses princípios para a prática alfabetizadora. Práticas inovadoras na aula universitária 203 A alfabetização, a partir dos estudos da psicogênese, parte de uma nova concepção de sujeito e de conhecimento que é construído na interação do ser humano com o meio: o sujeito que conhecemos através da teoria de Piaget é um sujeito que procura compreender o mundo que o rodeia de forma ativa. Ele procura solucionar as interrogações que este mundo provoca. Não é um sujeito que espera que alguém que possui um conhecimento o transmita a ele, por um ato de benevolência. É um sujeito (...) que é capaz de construir suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo que organiza seu mundo (FERREIRO E TEBEROSKY, 1999, p.29). O processo de aquisição da linguagem escrita investigado pelas autoras está referenciado na teoria piagetiana. As pesquisas de Piaget investigaram os processos internos de construção do conhecimento humano, buscando a sua gênese e pesquisando as manifestações, reações e comportamentos do sujeito cognoscente desde o seu nascimento. Especificaram a lógica do funcionamento mental da criança, construindo conceitos básicos de esquema, assimilação, acomodação e equilibração, apontando como e porque o desenvolvimento cognitivo da criança ocorre. A pesquisa de Ferreiro e Teberosky foi epistemologicamente embasada na teoria psicolinguística. Consiste na explicação de como a aprendizagem de um conteúdo da escrita é organizada psicologicamente pelos alunos. Portanto, não se trata de uma metodologia da alfabetização, tampouco de uma teoria sobre como se ensina. É por levarem em conta os processos de aquisição da lectoescrita na perspectiva da psicolinguística que Ferreiro e Teberosky (1999) fazem uma crítica contundente aos métodos tradicionais para o ensino da leitura, pois contrariam a lógica do sujeito que está aprendendo. Em outro estudo que aborda a aprendizagem da leitura numa perspectiva psicolingüística, Smith (1989) afirma que as palavras não são lidas letras por letras ou sílaba por sílaba, mas como um todo não analisado, isto é, através do reconhecimento instantâneo da palavra e não pelo processamento analítico-sintético. Outra autora que tem se dedicado ao estudo da leitura e da escrita a partir da teoria psicolinguística é Mary Kato (1985; 2004). Ela destaca a preocupação que os educadores têm por um método de alfabetização como um instrumento seguro para ensinar a ler e a escrever. A autora salienta que, para a maioria dos professores, o 204 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) método “é definido meramente como um conjunto de materiais, técnicas e procedimentos para se atingir um fim, isto é, um conjunto programado de atividades para o professor e o aluno” (KATO, 1985, p.6). Ela indica que um método para ser eficaz deve ter hipóteses claras sobre a natureza do objeto a ser aprendido e sobre a natureza da linguagem desse objeto. Observa ainda que é necessário ao professor conhecer plenamente tais hipóteses para que formule sua metodologia com base em evidências encontradas em sua prática. Portanto, as teorias psicolinguísticas enfatizam que só tem sentido discutir métodos de alfabetização a partir de uma postura que compreenda as hipóteses e os comportamentos sobre possíveis concepções da criança diante da escrita. Apresento, a seguir, algumas reflexões a partir da análise dos currículos do Curso de Pedagogia e o que eles indicam sobre a formação inicial para atuação em classes de alfabetização. Caminhos percorridos: indicações a partir dos currículos do Curso de Pedagogia da FaE/UFPel O campo teórico que hoje move as ciências teve sua origem entre o século XVIII e os primeiros vinte anos do século XX (SANTOS, 2005). Os principais cientistas estão situados ao longo desses quase duzentos anos. As ciências surgem a partir de um saber baseado na observação, experimentação e mensuração. “Pode-se dizer que o método científico nasce do encontro da especulação com o empirismo” (LAVILLE & DIONNE, 1999, p.23). As ciências surgem com o objetivo de definir leis da natureza, substituindo o modelo anterior baseado em leis “divinas”. A ciência moderna, fortemente influenciada pelos princípios positivistas, e pela centralidade da matemática, compreende que conhecer significa quantificar. O rigor científico afere-se pelo rigor das medições. As qualidades intrínsecas do objeto são, por assim dizer, desqualificadas e em seu lugar passam a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que não é quantificável é cientificamente irrelevante (SANTOS, 2005, p. 28). Nessa perspectiva, o conhecimento só é legítimo perante os testes dos fatos e a experimentação. Quanto maior a sua capacidade de generalização, maior a legitimidade. O paradigma científico Práticas inovadoras na aula universitária 205 positivista influenciou por muitos anos a organização curricular das licenciaturas. Os professores da FaE/UFPel, desde a sua gênese, vêm buscando superar esse paradigma, enfrentando a tensão que se coloca entre as políticas que advêm de órgãos superiores e seus ideais pedagógicos. Garcia et. al (1996) fazem uma reflexão acerca das circunstâncias históricas que levaram à criação do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pelotas e resgatam o ideário político-pedagógico que marcou o funcionamento desse Curso, um ideário, segundo os autores, bastante divergente da política oficial. Em relação à primeira proposta curricular do Curso de Pedagogia, Garcia et.al (1996, p.2) destacam que: a proposta expressa, nas próprias habilitações que oferece, o repúdio ao tecnicismo da política educacional oficial com suas tentativas de aligeiramento dos cursos de formação de professores e de restringir a formação do pedagogo à formação dos chamados “especialistas”, destinados a preencherem as funções de gerenciamento e controle do processo pedagógico escolar. Com o objetivo de compreender as características da formação inicial para atuação em classes de alfabetização a partir dos currículos e documentos do Curso de Pedagogia, analisei os currículos do curso desde a sua gênese, enfocando especificamente as disciplinas cujo enfoque é o processo de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita. Procurei realizar uma análise em que fosse possível identificar o espaço de discussão que a alfabetização vem ocupando no currículo. Destaco a última reformulação curricular, do ano de 2006, por ter representado um avanço no que se refere a uma nova concepção de organização curricular da licenciatura em pedagogia. Ao trabalhar com o conceito de currículo, cabe esclarecer que compartilho com De Alba quando explica que por: currículum se entiende a la síntesis de elementos culturales (conocimientos, valores, costumbres, creencias, habitos) que conformam una propuesta político-educativa pensada e impulsada por diversos grupos y sectores sociales cuyos intereses son diversos y contradictorios, aunque algunos tiendan a ser dominantes o hegemónicos, y otros tiendan a oponerse y resistirse a tal dominación o hegemonía. (DE ALBA, 2006, p.59) Nesse sentido, os professores da Faculdade de Educação, sujeitos da construção curricular, procuraram estabelecer uma proposta curricular embasada no pensamento crítico. De Alba (2006) sustenta a importância de uma formação teórica básica na 206 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 207 universidade vinculada a uma formação crítico-social que permita aos egressos a compreensão da importância da sua profissão em um contexto social mais amplo. específica sobre alfabetização. A disciplina Métodos e Processos de Alfabetização tinha uma carga horária de 90 horas aula (h/a) e tinha como pré-requisito a disciplina “Psicologia da Educação III”. O primeiro currículo do Curso de Pedagogia foi organizado por disciplinas distribuídas em oito semestres. Nos primeiros semestres do curso há uma centralidade nas disciplinas teóricas, principalmente da área dos fundamentos da educação, uma tendência nacional dos cursos de Pedagogia. No currículo correspondente ao ano de 1981 percebe-se uma alteração vinculada à área da alfabetização. Aparece no sétimo semestre a disciplina Alfabetização com a mesma carga horária da anterior, mas não apresenta nenhuma disciplina como pré-requisito. Embora se percebam mudanças nos currículos de 1981 e 1987 em várias outras disciplinas, não há mudanças na área da alfabetização. Para Díaz Barriga (1995, p.48): A estructuración por asignaturas ha sido criticada por diversos tratadistas, por cuanto constituye una forma particular de fragmentar la realidad. Sus premisas epistemológicas se encuentran vinculadas al positivismo: el desarrollo de la ciencia evoluciona a partir de la segmentación de un objeto de conocimiento, de su formalización y del estudio de sus principios y leyes. Esta situación dificulta que el estudiante tenga una visión integral del conjunto de problemas que se presentan en un objeto de estudio particular (...) Díaz Barriga (1995) destaca ainda que os sujeitos sociais do desenvolvimento curricular são os professores formadores e os alunos. São eles que transformam em prática pedagógica um currículo. Da mesma forma De Alba (2006) enfatiza que a determinação curricular, embora esteja organizada de uma forma disciplinar, será moldada de acordo com os sentidos e significados que os sujeitos envolvidos no processo de formação atribuem a ela. Isso significa dizer que o envolvimento dos formadores e também dos estudantes em projetos sociais contribuem para a transformação da estrutura inicial do currículo. A construção e implementação de um currículo destinado à licenciatura em Pedagogia correspondem pensar na formação inicial dos futuros educadores. A formação inicial é entendida aqui como a introdução sistemática na profissão docente realizada em um período prévio ao desempenho da tarefa educativa (LUCARELLI, 1993). É importante salientar, ainda, que a formação no curso de Pedagogia por referir-se à formação inicial de futuros professores, significa a primeira interlocução com o campo educacional pensada sob um ponto de vista teórico. Analisando o campo da leitura e da escrita no primeiro currículo do Curso de Pedagogia da FaE/UFPel de 1979, é possível perceber que é somente no sexto semestre que os alunos têm uma disciplina No currículo de 1988, a área da alfabetização ganha mais espaço. No quinto semestre começa a ser oferecida a disciplina Alfabetização I e, no sexto, Alfabetização II. Neste currículo a carga horária de cada disciplina é 60 (h/a) horas aula totalizando, nos dois semestres, 120 h/a, o que significa um acréscimo de 30 horas-aula. A discussão de um currículo não pode ficar centrada em aspectos de distribuição de carga horária. Ainda assim é importante que se tenha em vista que o aumento de carga horária em uma disciplina indica a necessidade de mais tempo para, possivelmente, aprofundar discussões que anteriormente não eram possíveis. A análise dos conteúdos programáticos 3 das disciplinas Alfabetização I e II, do ano de 1990, indica a inserção dos pressupostos construtivistas na formação das alfabetizadoras. Analisando os conteúdos é possível perceber que o construtivismo faz parte das discussões sobre alfabetização. Ambas as disciplinas constam no currículo como disciplinas teóricas, com quatro créditos 3 Conteúdo Programático da disciplina Alfabetização I (1990): 1)Alfabetização, educação e sociedade. O problema do analfabetismo. 2) Alfabetização na visão tradicional. 2.1) Métodos e processos do ensino da leitura. 2.2) A prontidão para aprendizagem da leitura e da escrita. 2.3) Testes para avaliar a prontidão. Testes ABC. 3) Alfabetização – aspectos lingüísticos. 3.1) Fonética e fonologia (revisão) Padrões silábicos. 3.2) Aquisição da linguagem - Patologia da linguagem. 4) Alfabetização de adultos – o método Paulo Freire. 5) Alfabetização na visão psicogenética. 5.1) Piaget. 5.2) Emília Ferreiro. 6) Propostas pedagógicas construtivistas. 7) Avaliação da aprendizagem na 1ª série. Conteúdo Programático da disciplina Alfabetização II (1990): 1)Alfabetização na visão psicogenética. 1.1) A teoria de Piaget e os problemas de alfabetização. 1.2) A teoria de Emília Ferreiro. 1.3)Estudo de propostas pedagógicas com base na psicogênese da língua escrita. 2) Compreensão e produção de textos na 1ª série. 3) A avaliação da aprendizagem na 1ª série. 4) Estudo comparativo de diferentes propostas de alfabetização. 5) Prática de alfabetização – monitoria em classe de 1ª série 208 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) cada uma. A análise do campo de alfabetização, além de nos fazer pensar sobre o paradigma teórico subjacente às práticas pedagógicas dos formadores, nos faz a refletir sobre o currículo do curso em ação. A última reformulação curricular do Curso de Pedagogia demonstra os avanços que o novo currículo representa para a formação das pedagogas. A reformulação curricular começou a ser discutida e construída em 1996 e implementada no ano de 2000. Esta foi considerada a última reformulação curricular, pois, para adequar o currículo às exigências das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia propostas no Parecer CNE/CP Nº 5/2005, foram feitas apenas algumas alterações. A construção da última reformulação curricular iniciou em um momento em que o Brasil sofria com as políticas neoliberais implementadas no campo da educação. Muitas foram as reuniões e discussões que envolviam representações de professores e alunos na busca coletiva de um currículo que superasse as fragilidades apresentadas nos anteriores. Cabe salientar que a construção de um currículo é transcorrida muitas vezes em um processo de tensão entre a regulação ditada pelos órgãos superiores, as diferentes concepções teóricas e epistemológicas e as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos formadores. A última reformulação curricular do Curso de Pedagogia apresenta uma estrutura bastante diferenciada das anteriores. O curso é organizado em nove semestres. Cada um deles tem um eixo norteador, são eles: reconstruindo a trajetória educativa; construindo olhares sobre o cotidiano escolar; estudando a profissão docente; compreendendo as relações ensino-aprendizagem no trabalho escolar; discutindo as propostas pedagógicas para as séries iniciais; delineando o trabalho escolar, trabalho docente e proposta pedagógica; construindo e reconstruindo a prática pedagógica; reconstruindo a trajetória de formação; e discutindo as propostas metodológicas para as séries iniciais. Em cada eixo são agrupadas disciplinas que têm por objetivo trabalhar de forma contextualizada as diferentes áreas do conhecimento e atender os princípios de integração, interdisciplinaridade, trabalho coletivo, autonomia, cooperação e solidariedade, propostos no Projeto Pedagógico do Curso. Uma das justificativas para a organização curricular em eixos é buscar romper Práticas inovadoras na aula universitária 209 com a organização sequencial de conteúdos e disciplinas. Conforme consta na seção “objetivos do curso” apresentadas no Projeto Pedagógico (2006, p.6): O que se almeja é a concretização de um currículo que propicie ao aluno a capacidade de estabelecer redes de significações e relações entre os temas curriculares e as dimensões oferecidas pelo curso: Educação Infantil, Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Gestão Escolar. A construção de uma proposta curricular globalizadora demonstra o avanço dos sujeitos envolvidos com a formação docente em romper com uma concepção racionalista de conhecimento. Como assinala Díaz Barriga, (1995, p. 51): La estructuración de los currículos a través de alguna modalidad globalizadora aparece como una opción frente a las dificultades que presenta la organización del contenido por disciplinas. La concepción curricular modular por objetos de transformación, ha calificado a este último currículo como tradicional, transmisor de un conocimiento segmentado e enciclopédico. Foram implementados três princípios curriculares. O primeiro, “Princípio fundante do Currículo”, define o objetivo da formação. É o princípio que determina para todas as disciplinas o objetivo da formação do professor. O segundo, “Princípios epistemológicos”, estabelece a abordagem epistemológica das disciplinas que compõem o currículo do curso. Nesse aspecto, três conceitos encaminham a compreensão das ciências: historicidade, construção e diversidade. O terceiro princípio curricular diz respeito aos “Princípios dinamizadores do currículo”. É este que define os três eixos metodológicos do currículo. O primeiro eixo metodológico fundamenta-se no trabalho pedagógico ancorado na realidade educativa da escola. O segundo destaca a polivalência como busca de compreensão da totalidade da formação básica. Por fim, o terceiro eixo metodológico enfatiza o princípio de formação ético-política. O projeto pedagógico do curso (2006, p.14). indica que “a alfabetização é o eixo ordenador que adquire significado com os conteúdos das demais áreas do conhecimento e se constitui em porta aberta para a leitura do mundo”. A análise aponta para a centralidade que a alfabetização passa a ocupar na organização curricular do curso de pedagogia. Analisando as ementas das disciplinas que compõem a última reformulação curricular e suas respectivas bibliografias, é possível perceber que, 210 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) a partir do primeiro semestre, são trabalhadas disciplinas que possibilitam discussões acerca dos processos de alfabetização, iniciando pela reconstrução da trajetória dos próprios acadêmicos. Embora as disciplinas que compreendem a área da linguagem estejam presentes ao longo do curso, no quinto semestre a disciplina “Habilitações séries iniciais V” apresenta a seguinte ementa: “exame das metodologias para alfabetização em língua materna e matemática bem como de suas bases teóricas. Análise de materiais para o trabalho com a linguagem nas séries iniciais. Formulação de propostas para o ensino”. A ementa evidencia a concepção de alfabetização numa perspectiva de outras linguagens, no caso a matemática. Além disso, as bibliografias indicadas, tanto para o trabalho na área da alfabetização, quanto para as demais áreas do conhecimento, sugerem a teoria construtivista como a base teórica para o desenvolvimento do trabalho docente nas séries iniciais. Palavras finais O Curso de Pedagogia da FaE/UFPel, desde a segunda metade da década de 80 do século XX, tem sido um agente de divulgação da teoria construtivista cuja difusão do construtivismo revela uma tendência presente nos cursos de formação de professores desde o início da década de 80 do século XX, quando foram divulgados, no Brasil, em 1986, os resultados da pesquisa pioneira de Ferreiro e Teberosky (1999). As reflexões realizadas até o momento cumprem o objetivo estabelecido para a primeira fase da pesquisa. Nessa primeira etapa da investigação, a intenção foi, a partir da análise dos currículos, perceber como as disciplinas do campo da alfabetização estavam estruturadas, analisando a constituição do campo da alfabetização e os sentidos dado a ele ao longo da trajetória da FaE/UFPel. A análise documental indica que as reformulações curriculares em questão incorporam as modificações teóricas e epistemológicas ocorridas no campo da alfabetização a partir da década de 1980. Além disso, é possível iniciar um processo reflexivo sobre o espaço da alfabetização no currículo do Curso de Pedagogia e, sobretudo, pensar na relação entre as concepções teóricas e epistemológicas, as práticas desenvolvidas pelos formadores e o exercício do trabalho docente dos futuros pedagogos e pedagogas. Práticas inovadoras na aula universitária 211 Bibliografia ALBUQUERQUE, Eliana et alli; As práticas cotidianas de alfabetização: o que fazem as professoras? 2005. Disponível em http://www.anped.org.br/reunioes/28/textos/gt10/ gt101128int.rtf. Acessado em 17/10/2006. AZENHA, Maria da Graça. Construtivismo: de Piaget a Emilia Ferreiro. São Paulo: Ática, 1993. CHAKUR, Cilene. R. S. L. O Construtivismo e seus desvios: da política educacional ao professor. 2006. Disponível em: http://www.anped.org.br/reunioes/29ra/trabalhos/trabalho/ GT20-1689—Int.pdf Acessado em 09/11/2006. CUNHA, Maria Isabel da. A formação de professores como problema: natureza, temporalidade e cultura. 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Obviamente essa concepção não define o currículo. Diversos pesquisadores já ampliaram e aprofundaram os estudos sobre este tema que, devido a sua relevância, pode ser considerado como “chave” para a educação. Contudo, mesmo levando em consideração as perspectivas históricas, culturais e funcionais, ainda assim podemos nos perguntar se é possível conectá-lo ao conceito de flexibilidade. Essa questão, que a princípio pode parecer utópica, motivou este trabalho. Assim, no intuito de encontrar alternativas que possam vir a contribuir com uma ruptura ou uma inovação no modelo curricular em vigência, trazemos, no primeiro tópico, um breve resgate da forma como este se constituiu e de que currículo estamos falando, * Licenciada em Matemática, mestranda em Educação. Professora da rede municipal de Pelotas. E-mail: [email protected] 216 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) até mesmo para demonstrar o porquê de se desejar uma mudança. Em seguida, apresentamos o estudo comparativo de duas propostas curriculares feito por Ángel Díaz Barriga e, partindo delas, abordamos os possíveis problemas a enfrentar e cuidados a tomar na busca de um currículo mais articulado e dinâmico – um currículo que procure no seu próprio desenvolvimento os dados necessários para sua retroalimentação, ou seja, que extraia do seu movimento no dia-adia os elementos que contribuirão para ajustes periódicos, aprimorando-se, desta forma, constantemente. Afinal de contas, o que é currículo? E por que relacioná-lo com flexibilidade? Responder ao primeiro questionamento com uma única definição seria, certamente, uma arbitrariedade. Contudo, não são raras as vezes em que procuramos uma resposta única e “verdadeira” para questões como essas – principalmente quem tem maior ligação com as ciências exatas. São traços da educação que tivemos, baseada em um modelo de racionalidade técnica que está permanentemente em busca de verdades supremas. Boaventura Santos defende que esse modelo está centrado na concepção da ciência moderna de que, para conhecer, é necessário quantificar e reduzir a complexidade do objeto de estudo. “O mundo é complicado e a mente humana não o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou” (SANTOS, 2000, p.63). Dessa forma, a ciência moderna progrediu e segue trabalhando sob a lógica da fragmentação. Um conhecimento para ser válido deve ser científico e este só é reconhecido como tal quando, após o fracionarmos o máximo possível a fim de esmiuçar cada detalhe e compreender efetivamente as partes que o compõem, é generalizado e universalizado para qualquer tempo. Essa visão cartesiana tornase limitada na medida em que acaba por não considerar o todo. “Nossa racionalidade se baseia na idéia da transformação do real, mas não na compreensão do real” (SANTOS, 2007, p.28) ao desprezar os fatores particulares de cada situação e a influência das outras partes do sistema, não estamos compreendo/conhecendo, de fato, o que realmente ocorre. Práticas inovadoras na aula universitária 217 Percebemos, então, que essa mesma lógica é utilizada no ensino. Com professores especializados para “transmitir” um conhecimento que já se encontra pronto, as disciplinas são separadas não só por conteúdo ou área do saber, mas também por períodos. E esse princípio está estabelecido em toda a trajetória escolar, desde o ensino fundamental até a universidade. Assim, olhando mais especificamente para a universidade, que é foco deste trabalho, a mesma ciência é fracionada em diversos cursos específicos, com duração de um semestre ou um ano, de acordo com o regimento interno de cada instituição. Ao docente cabe o papel de ensinar uma parte do conhecimento, limitada por um período determinado e pelos conteúdos sequenciados na estrutura das ementas de cada disciplina, que por sua vez são ordenadas pelo currículo de cada graduação. O currículo se constituiu dentro do paradigma da ciência moderna. Conforme Gimeno Sacristán (1998, p. 147), “sua concepção mais difundida e restrita é a de ser um programa-resumo dos conteúdos do ensino” (grifos do autor). Entretanto, esta é ultrapassada nas mais diversas definições, formuladas a partir de perspectivas distintas. Tomaz Tadeu da Silva, por exemplo, direciona-se para uma perspectiva mais cultural e histórica, pois entende o currículo como um movimento demarcado por trajetórias, espaços e relações de poder. Desse modo, discute as teorias que o vêm definindo, inclusive o currículo oculto que, segundo ele, “é constituído por aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes” (SILVA, 2007, p.78) Por sua vez, Rosa Maria Martini aborda-o na formação de professores com outro enfoque: [...] um currículo da Pedagogia teria que estar organizado, não só por uma articulação constante de teoria e prática, mas como um esforço de esclarecimento da própria prática, que é teorizada discursivamente na medida em que se parte da ação pedagógica problematizada e que deverá ser justificada racionalmente (MARTINI, 2006, p.121). Partindo desse olhar, percebemos que o modelo curricular vigente encontra-se enraizado nos estigmas da racionalidade técnica, pois traduz a lógica de que a teoria deve preceder a prática, neutralizando a articulação. Acreditamos que, para a formação 218 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) docente, isso se traduz num quadro desfavorável, pois acaba por deixar aos alunos a responsabilidade de relacionar tanto as disciplinas umas com as outras, quanto a teoria trabalhada na graduação e a prática na sala de aula. E essa relação nem sempre é feita, não por falta de capacidade dos discentes, mas pelos limites impostos por uma formação fracionada, que dificulta a re-significação dos conteúdos. Nesse sentido faz-se necessária uma mudança que conecte o currículo à palavra flexibilidade. Assim, para explicitar melhor que mudança é essa, fazemos algumas considerações a partir de duas propostas abordadas a seguir. O estudo comparativo de Ángel Díaz Barriga: duas propostas que podem contribuir para o debate No livro Ensayos sobre la problemática curricular, Diaz Barriga faz um comparativo entre duas propostas curriculares: a teoria curricular estadounidense e a modular por objetos de transformação. A primeira elabora seu plano de estudos a partir dos seguintes requisitos: diagnóstico de necessidades, perfil do egresso, organização por disciplinas, mapa curricular e avaliação curricular técnica. A segunda parte de um marco de referência, prática profissional, organização por módulos (eleição dos objetos de transformação), elaboração dos módulos e avaliação curricular em função de marcos teóricos. O diagnóstico de necessidades consiste em determinar, em termos educacionais, o que é imperativo para os estudantes, para as condições de aprendizagem e para o bom desenvolvimento dos objetivos educacionais. Numa visão mais ampla, busca identificar as exigências da sociedade e, assim, o autor alerta que: [...] em una sociedad dividida em clases, un diagnóstico de necesidades se realiza a partir de los intereses de la clase dominante, la cual impone sus valores a las otras. La noción de diagnóstico de necesidades está indefinida actualmente por los autores que sostienen la teoría de planes de estúdio. Con ello se crea desde el discurso curricular un mecanismo de ocultación a través del cual se supone que se efectuó un diagnóstico para conocer una realidad, cuando lo que se intentaba era ocultarla (DÍAZ BARRIGA, 1995, p.20). Práticas inovadoras na aula universitária 219 Por essa lógica, o levantamento fica reduzido a uma justificativa “bem fundamentada” para as decisões tomadas em função de uma minoria que provavelmente optará por reproduzir o modelo vigente que já a favorece. O marco de referência se constitui de uma análise econômica, social e histórica das práticas profissionais, buscando pontos relevantes para a construção do currículo. Em relação ao perfil do egresso, o autor alerta para o perigo de acabar por referir-se apenas aos aspectos observáveis do comportamento do indivíduo, tendendo a regular a orientação do plano de estudos e a dividir a conduta humana em áreas compartimentadas. Dessa forma, afirma que: En este sentido, cobra valor la propuesta de estructurar um curriculum a partir del estudio de la práctica profesional. Ello resulta válido no sólo porque este concepto remplaza al de perfil del egresado, sino fundamentalmente porque definir las prácticas sociales de una profesión, su vínculo en una sociedad determinada y las condiciones históricas de la misma, implica una explicación más integral y diversificada de la realidad social y educativa (DÍAZ BARRIGA, 1995, p.24, grifos do autor). A organização por disciplinas, seguida por um mapa curricular, nada mais é do que a realidade que vivenciamos no Brasil, com os problemas que já conhecemos: por exemplo, a fragmentação do conhecimento, com professores que se tornam peritos apenas em sua disciplina, não fazendo conexões com as demais. Ao aluno compete adaptar-se aos diferentes métodos de trabalho e ritmos dos mais diversos docentes, além de ter que conectar e estruturar as informações, o que nem sempre ocorre. Dessa forma o processo educativo acaba por ser uma transmissão de uma série de informações e dados ao invés de se construir o conhecimento com os discentes. E as relações entre as parcelas deste conhecimento, em certos casos, reduzem-se a uma mera ordem para o mapa curricular, “un conjunto de ‘flechas’ que, en el mejor de los casos, indican que alguna materia se relaciona eventualmente com otra” (DÍAZ BARRIGA, 1995, p.33). Outra tendência desse modelo é a de ordenar e separar a teoria da prática, contribuindo para: 220 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 221 É sabido que essa prática geralmente encontra-se ao final do curso, sem um espaço ou uma nova disciplina que se dedique à reflexão e diálogo sobre ela. Assim, ao tentar romper com a lógica estabelecida nos currículos universitários, pode-se encontrar um novo modo de se produzir o conhecimento, visto que a universidade é, até então, a instituição legitimada para a sua produção. Portanto, levando em conta todo o exposto acima e as propostas curriculares já mencionadas, vamos tecer algumas considerações para a formação de professores, buscando um pensamento alternativo para as nossas alternativas. Na organização por módulos e sua elaboração existe, por plano de fundo, a busca pela integração do conteúdo, através do trabalho com formas que privilegiem a sua articulação. Partindo de um objeto de transformação, caracterizado por um problema da realidade, eleito pelo marco de referência, estrutura-se cada módulo. Considerada como moderna, em uma visão reducionista na qual toma como tradicional a organização por disciplinas, também é chamada de globalizada e também apresenta como problema a divisão do conhecimento. Segundo Díaz Barriga Lucarelli defende uma proposta flexível em relação às opções e à diversidade, levando em conta o grupo de alunos e a proposta pedagógica que se pretende colocar em prática. Além disso, o currículo deve contemplar estratégias de ensino que possibilitem: 1. A inserção dos discentes nas problemáticas da profissão: conhecendo os possíveis problemas e situações a serem enfrentadas no exercício da carreira, os alunos estarão mais preparados para exercê-la. En los diversos cuestionamentos a la organización por asignaturas y a la estructura modular se encuentran problemas que no tienen una solución fácil. La crítica superficial a uno de ellos puede llevar a cometer otros errorres em la aplicación de una supuesta alternativa (DÍAZ BARRIGA, 1995, p.55). 2. A recuperação da experiência: refletir sobre ela auxilia na construção dos saberes experienciais do futuro professor, além de buscar exemplos concretos para relacionar com a teoria. [...] que se reproduzca la tendencia de los profesionales novatos a desconocer las particularidades propias de los problemas de sus “clientes”. Es conocida la tendencia que tienen los recién graduados a encasillar los problemas reales que enfrentan en las “teorías” o “tecnologías” aprendidas en la escuela. Esta es la consecuencia del modelo arriba citado de “primero la teoría y luego la prática” (FANFANI, 1993, p.55, grifos do autor). Por fim a avaliação, que é outro ponto em comum às duas propostas e que interage com todos os outros requisitos. Para o autor esse é um tema que carece uma teoria mais desenvolvida e elaborada, sob pena de se reduzir a um trabalho meramente técnico que agrupa dados, quantificando os sucessos e fracassos obtidos em segmentos fragmentados, como por exemplo, na aprendizagem ou então apenas nos objetivos do plano de estudo. Tecendo algumas considerações: uma análise das perspectivas e desafios a se enfrentar Para começar, vale ressaltar que uma efetiva mudança ocorre quando ela começa da base. É de acordo com esse preceito que Santos propõe uma transição paradigmática. Segundo ele: Não é simplesmente de um conhecimento novo que necessitamos; o que necessitamos é de um novo modo de produção de conhecimento. Não necessitamos de alternativas, necessitamos é de um pensamento alternativo às alternativas (SANTOS, 2007, p.20). 3. O confronto entre o conhecimento do senso comum e o conhecimento científico: esse confronto pode ampliar a nossa visão dos conhecimentos, gerando novas alternativas e possibilitando uma base sólida para as decisões futuras. 4. O estabelecimento de vínculos com a investigação: a pesquisa é uma ferramenta importante para o desenvolvimento de novas teorias e também para o docente, que deve manter contato com ela mesmo após ter concluído a sua formação inicial. Diante de todos esses aspectos, Lucarelli aponta para duas dimensões delimitadas por suas relações: uma, a dos atores curriculares, que relacionam as instituições com os sujeitos que as constituem; outra, a das ações curriculares, que conectam os processos com os resultados. A partir daí, a autora afirma que: 222 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) El entrecruzamiento de ambos ejes define un campo con cuatro perspectivas que podríam facilitar la compreensión del concepto de currículum: a. el currículum como un hacer institucional (instituciones-proceso); b. como instrumento (instituciones-resultado); c. como acción personal (sujetoproceso); d. como logros (sujeto-resultado) (LUCARELLI, 1993, p.22). Dessa forma, olhar as duas últimas perspectivas (c e d) com mais cuidado seria interessante, visto que o currículo como ação pessoal refere-se às mudanças que as práticas propostas em aula irão gerar nos (nas) alunos(as); isso é importante para a formação docente, pois, ao ingressarem no curso, os discentes trazem consigo anos de convivência com diversos professores, ou seja, possuem uma visão do que é a profissão. Contudo, caracteriza-se como uma visão de aluno. Conforme Pimenta “o desafio, então, posto aos cursos de formação inicial é o de colaborar no processo de passagem dos alunos de seu ver o professor como aluno ao seu ver-se como professor”(PIMENTA, 2000, p.20). Essa mudança de perspectiva é importante na medida que leva ao seu auto-reconhecimento e auxilia na construção de sua identidade profissional. Mas será que as licenciaturas e cursos de formação conseguem vencer esse desafio? Mais ainda, será que esses cursos trabalham a dimensão do currículo como ação pessoal? Da mesma forma, podemos analisar a última perspectiva, que integra os sujeitos e os resultados e refere-se às aprendizagens, experiências, habilidades e conhecimentos adquiridos pelos discentes em função do desenvolvimento curricular. Esse é outro ponto importante de ser avaliado, principalmente em um currículo que tem por proposta romper com antigas práticas pedagógicas, pois se não houver uma formação “sólida” com um impacto significativo no aluno, a tendência natural dos futuros professores é buscar nas suas experiências como alunos modelos de como fazer, reproduzindo o que até então “sempre deu certo”, ensinando como foram ensinados. Como efeito, a graduação passa a ser uma etapa um tanto quanto superficial nas suas carreiras, e a formação didática caracteriza-se apenas como um verniz pedagógico.1 1 Idéias discutidas no Seminário de Formação Docente que foi desenvolvido por a Profª Drª Maria Manuela Esteves, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Práticas inovadoras na aula universitária 223 Analisando sob a perspectiva dessas dimensões, lançamos então nossos “pensamentos alternativos” às propostas curriculares abordadas por Díaz Barriga: Em relação ao diagnóstico de necessidades da teoria estadounidense, são pertinentes as observações feitas pelo autor. Contudo, se direcionarmos o olhar para uma realidade menor2, esse diagnóstico poderia servir como um instrumento de mudança, e dessa forma, trabalhar na perspectiva da ação pessoal. Por exemplo, se ao ingressar na universidade os alunos fossem questionados em relação às suas dificuldades, carências e concepções, os professores teriam um referencial mais sólido para elaborar propostas que proporcionassem uma prática mais provocativa e, consequentemente, mais eficaz para uma transformação. Aqui, cabe ressaltar outro ponto para o qual o autor chama a atenção e com o qual é necessário ter cuidado: o risco de se cair no pragmatismo, desenvolvendo um currículo utilitário que acaba negligenciando a teoria. Acreditamos que essa é uma das situações em que devemos exercitar a constante articulação entre teoria e prática. Quanto ao marco de referência, por um lado trata-se de uma avaliação importante que, se for realizada de forma crítica, auxilia no resgate e entendimento da profissão e da situação em que se encontra. Por outro, tomá-la como base para elaboração do plano de estudo também traz os problemas da reprodução da lógica dominante e do pragmatismo que visa à urgência do “saber fazer”. O perfil do egresso e a prática profissional trazem importantes requisitos para a elaboração de um currículo. Não só para a elaboração, mas também para, digamos, sua manutenção, pois, assim como no diagnóstico de necessidades, acompanhar a prática profissional (inicial) dos alunos egressos pode servir como uma avaliação do plano de estudos. Mais ainda, integrando o diagnóstico de necessidades (desenvolvido na perspectiva que mencionamos) com o perfil do egresso e/ou a prática profissional, levando em conta os resultados obtidos com cada discente estaríamos trabalhando a dimensão do currículo “como logro”. Esse tipo de análise crítica 2 Aqui procuramos exercitar a proposta de Boaventura de Sousa Santos de olhar o macro e o micro no intuito de encontrar alternativas com A grande e a pequeno (significando no contexto de sua fala: A – maiúsculo e a – minúsculo). 224 Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet e Gomercindo Ghiggi (orgs.) Práticas inovadoras na aula universitária 225 colabora também para que não haja muitas discrepâncias e ilusões com relação às diferenças entre o profissional que se deseja e o profissional que se forma. não apenas diante das diversas mudanças sofridas diariamente pela sociedade em seu processo de evolução, mas também diante das necessidades e perspectivas dos indivíduos que o constituem. A organização por disciplinas com o mapa curricular e a organização por módulos e sua elaboração possuem semelhanças e trazem os problemas já relatados acima. Contudo, certamente para as duas propostas seria interessante que houvesse uma conexão entre os conteúdos e também entre conhecimentos de forma geral, assim como uma articulação entre a teoria e a prática. Sendo o resultado de um exercício teórico de reflexão, não tem a pretensão de fornecer respostas ou resultados, até porque para tanto seria necessário um estudo mais aprofundado dos temas abordados. Sua relevância encontra-se na busca do diálogo, na busca de uma ruptura com um modelo posto e estagnado há tantos anos e na busca de um olhar, um olhar que atenda às expectativas de uma proposta curricular flexível. O último ponto, também comum às duas propostas, é a avaliação curricular. Lucarelli aborda a avaliação como um processo que permite determinar a efetiva ação curricular em função dos objetivos propostos. Esse processo consiste em investigar, analisar e interpretar as informações sobre a sua eficácia, auxiliando em futuras ações e decisões. Uma questão importante é que: “Los resultados permiten la retroalimentación y ajustes pertinentes de la experiencia en función de los resultados parciales que se vayan analizando” (Lucarelli, 1993, p.28). Essa retro-alimentação é um conceito chave para a sua constante atualização, pois utilizar os dados gerados pelo seu próprio desenvolvimento possibilita que se determine com maior precisão quais são os pontos fortes e quais são os pontos que precisam melhorar, obtendo, assim, subsídios mais concretos para aprimorar o seu funcionamento e impedindo, dessa forma, um plano de estudos cristalizado ou estagnado. Concluindo... A estruturação das disciplinas e a forma como se relacionam, propiciando ou não a articulação dos conhecimentos e saberes necessários para suas futuras práticas, contribuem para as significações que os (as) futuros (as) professores (as) têm em relação à profissão, seja ratificando o que eles(as) trazem da formação básica ou provocando uma ruptura com esta, colaborando, assim, com uma nova visão. Desta forma, neste trabalho procuramos pautar alguns pontos e reflexões que podem contribuir para a construção de um currículo flexível, desenvolvendo principalmente as dimensões relacionadas aos seus sujeitos. Um currículo que procure sempre se aperfeiçoar, Bibliografía BARRIGA, A. D. Ensayos sobre la problemática curricular. México: Trillas, 1995. FANFANI, E. T. et. al. Universidad y professiones. Buenos Aires: Miño y Dávila, 1993. LUCARELLI, E. Regionalizacion del curriculum y capacitacion docente. Buenos Aires: Miño y Dávila, 1993. MARTINI, R. M. F. Garimpando em Habermas idéias para a reconstrução do currículo. Cadernos de Educação, Pelotas, Ano 15, n.27, p. 115-134, jul/dez. 2006. PIMENTA, S. G. et. al. Saberes pedagógicos e atividade docente. São Paulo: Cortez, 2000. GIMENO SACRISTÁN, J.e PERÉZ GOMÉZ, A. Compreender e transformar o ensino. São Paulo: Artmed, 1998. SANTOS, B. S. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. 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