“A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES”: UMA ANÁLISE DAS DISCRIMINAÇÕES E DESIGUALDADES RACIAIS NO BRASIL Este artigo tem por objetivo conhecer e discutir o contexto no qual as idéias raciais brasileiras emergiram e se disseminaram, para melhor interpretar as relações raciais no Brasil na atualidade. Para tanto, analisa a construção do preconceito e do racismo, avaliando o processo histórico dos afrodescendentes desde sua chegada ao Brasil até a época presente. É sabido que a população negra brasileira ainda é maioria nas camadas mais baixas da sociedade, destacando-se nos indicadores sociais. Assim, é notório destacar que a questão racial brasileira possui características próprias, e para compreender o atual sistema de relações raciais no Brasil e o que levou à construção desse sistema tão complexo, é necessário entender o contexto histórico, social, cultural e intelectual pelo qual o país passou até os dias de hoje, ou seja, compreender as várias fases que a questão racial atravessou. A metodologia que permeia o trabalho é a pesquisa qualitativa e exploratória, fundamental no levantamento de dados bibliográficos com relação ao histórico do racismo, cor e preconceito no Brasil, além de entrevistas semi-estruturadas, que serão realizadas posteriormente, uma vez que trata-se de uma pesquisa em andamento. Assim, essa análise pretende estimular a reflexão sobre a situação dos afrodescendentes na sociedade brasileira, bem como contribuir para o surgimento de novas reflexões e percepções no que tange às desigualdades raciais. “A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES”: UMA ANÁLISE DAS DISCRIMINAÇÕES E DESIGUALDADES RACIAIS NO BRASIL Autora: Jussara de Cássia Soares Lopes Graduanda do 7º período do curso de Serviço Social da Unimontes E-mail: [email protected] Co-autora: Ângela Ernestina C. de Brito Docente do curso de Serviço Social da Unimontes E-mail: [email protected] Grupo de Trabalho: Eugenia e Ciência (cultura) Raça e (Des)igualdades: elementos biopolíticos do desenvolvimento social (Congresso) 1. Introdução O debate sobre as relações raciais no Brasil tornou-se pauta da política brasileira nos últimos anos, tornando-se também objeto de estudo de muitos trabalhos acadêmicos. Desse modo, a questão tem-se firmado, aos poucos, como tema de reflexão e debates na sociedade, Isso ocorre porque o Brasil está inserido num um quadro de permanência das desigualdades raciais, na qual ocorre a naturalização da participação diferenciada de brancos e negros nos vários espaços da vida social. Pesquisas têm demonstrado que as relações sociais estão marcadas pela desigualdade, e que o fator cor/raça1 é determinante para a exclusão ou inclusão dos indivíduos. A exclusão da população negra é diagnosticada em todos os estudos estatísticos, demonstrando a concentração dos afrodescendentes em situação de desigualdade, destacando-se nos segmentos mais pauperizados da sociedade brasileira. Estamos diante de uma verdade indubitável: pratica-se no Brasil uma exclusão pela cor, pela raça/etnia do sujeito, pela atribuição de valor diminutivo e depreciativo ao indivíduo portador de determinada cor de pele. Esse processo de estigmatização e biopoder denomina-se racismo. O racismo brasileiro, contudo, tendo em conta as práticas divisórias que institui as relações sociais é polêmico, mas sua existência é inexorável (AMARO, 2005). Assim, para compreendermos a questão racial no país, nos propusemos a realizar um resgate histórico das relações e interpretações concernentes à raça desde a chegada dos negros no Brasil até a atualidade. 1 Ressalta-se que aqui, trabalhamos cor e raça como marcadores sociais, lembrando que são categorias nativas, construídas socialmente. 2. A História do negro na sociedade brasileira: particularidade da questão racial no Brasil O racismo contra os negros no Brasil tem sido praticado desde o primeiro momento de sua chegada forçada no país, uma vez que foram trazidos como escravos. Desse modo, a profunda desigualdade racial entre negros e brancos em praticamente todas as esferas sociais brasileiras é fruto de mais de quinhentos anos de opressão e discriminação racial contra os negros. Xavier2 (2006) constata a existência de quatro paradigmas de interpretação das relações raciais no Brasil, quais sejam: racismo científico e branqueamento, democracia racial, relações raciais e capitalismo e desigualdades raciais. Conforme verifica a autora, esses paradigmas se sucedem cronologicamente e evoluem no sentido do reconhecimento da existência de discriminação racial e da necessidade de implementação de políticas públicas específicas para a população negra no país. Nosso estudo fundirá dois desses paradigmas, sendo eles a democracia racial e relações raciais e capitalismo, transformando-os em três paradigmas: racismo científico e branqueamento, democracia racial e desigualdades raciais. Optamos por esse caminho porque, de acordo com Telles (2003), a democracia racial continuou sendo amplamente aceita pela maioria dos setores da sociedade brasileira até o início da década de 1990, a despeito das contestações acadêmicas do início dos anos 50 e dos modernos protestos negros iniciados em 1978. Esses três paradigmas serão analisados a seguir, com o objetivo de demonstrar as rupturas e continuidades existentes entre eles, além da sua influência nas decisões políticas relativas à população negra no país. 2.1. Racismo científico e branqueamento Um dos principais objetivos das explicações relativas às diferenças raciais entre os seres humanos, no contexto da idade média, foi a justificação da escravidão de cunho racial, sendo que as primeiras explicações elaboradas foram de natureza religiosa. Àquela época as explicações religiosas para os fenômenos da natureza e para as ações humanas eram comuns e amplamente aceitas, especialmente aquelas provenientes da religião cristã, que era a religião predominante na Europa. Assim, as autoridades eclesiásticas buscavam na Bíblia as justificações de que necessitavam (XAVIER, 2006). 2 Para saber mais, ler: XAVIER, Solange Procópio. Relações raciais e políticas de ação afirmativa para a população negra no Brasil, 2006. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Social) – Programa de PósGraduação em Desenvolvimento Social, Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, 2006. Os portugueses chegaram às terras brasileiras em 1500 e logo trataram de obter mão-deobra escrava. A primeira população a ser escravizada foi a indígena para trabalhar na plantação de cana e nos engenhos de açúcar. Entretanto, ficaram contra a escravidão indígena os jesuítas e a Coroa, pois estes estavam direta ou indiretamente envolvidos no tráfico negreiro. A importação dos negros significava lucro para a Igreja, para a Coroa e para os traficantes (CHIAVENATO, 1999). Assim, os africanos foram trazidos para o Brasil como mão-de-obra escrava para a agroindústria açucareira em expansão nessa época (TELLES, 2003). Só em 1888, trezentos anos mais tarde, o Brasil aboliu a escravatura, embora uma série de reformas governamentais anteriores tenham gradualmente emancipado os escravos. Entretanto, é sabido que não foi dada a população negra nenhuma condição de sobreviverem com dignidade, o que acabou levando-os a viver em condições de miséria e precariedade. A Lei Áurea libertou cerca de 736 mil escravos, 5,6% da população. Eles já não eram a mais importante força de trabalho nos principais centros. Por isso, não havia massa escrava lutando pela sua liberdade – o abolicionismo foi um debate político, não uma luta social. Acabaram-se os escravos; restaram os negros. (CHIAVENATO, 1999, p. 117). Posteriormente, vieram as experiências sobre raça3 na Europa, com o objetivo de comprovar a superioridade da raça branca e, mais que isso, a inferioridade das outras raças, principalmente a raça negra. Essas experiências deram origem às teorias do chamado racismo científico, quem concluíram que o ser humano da raça branca era, dentre todas as raças, o detentor, em seu mais alto grau, dos atributos da beleza, da força e da inteligência (XAVIER, 2006). Assim, logo após a abolição da escravidão, a ciência vem, especialmente com os eugenistas4, validar a dominação racial propondo a superioridade dos brancos. Assim, a solução encontrada pelos eugenistas brasileiros fora a miscigenação5. 3 Enfatizamos novamente que trabalhamos raça como uma categoria nativa. Uma análise interessante sobre o assunto pode ser encontrada em GUIMARÃES, Antônio Sérgio. Como trabalhar com "raça" em sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.29, n.1, p. 93-107, jan./jun. 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022003000100008. Acesso em 14 de setembro de 2009. 4 Eugenia: estudo das raças que inferiorizava ou superiorizava baseando-se nas origens, no século XIX (TELLES, 2003, p. 43). 5 “Miscigenação é a mistura de estirpes raciais diversas mediante a hibridização física. É o processo primário de fusão biológica.” Dicionário de Sociologia. 7ª ed. Editora Globo, Organizado pela seção de obras de referência do departamento Editorial da Editora Globo. Porto Alegre, 1977, p.225. O branqueamento prescrito pelos eugenistas tornar-se-ia a sustentação principal da política de imigração no Brasil. Assim como em outros países latino-americanos, a elite no Brasil trouxe e subsidiou imigrantes europeus para “melhorar a qualidade” de sua força de trabalho e substituir os exescravos. Esta nova leva de mão-de-obra substituiu a população de exescravos africanos (...), ao mesmo tempo que agia como um “agente civilizador”, embranquecendo o pool genético brasileiro. Esperava-se que os imigrantes brancos acabassem se mesclando à população nativa, de modo a diluir a grande população negra (TELLES, 2003, p. 46). De acordo com Xavier (2006), os principais autores brasileiros que escreveram sobre relações raciais à luz do paradigma científico foram Nina Rodrigues6 (1931) e Oliveira Viana (1932). Brito (2003) destaca também Silvio Romero, além dos supracitados. Esses autores não apenas reproduziram as idéias racistas predominantes na Europa àquela época, mas tentavam adaptá-las para explicar a realidade brasileira de miscigenação racial7. Para Dulci (2000), a política de branqueamento foi uma saída encontrada pela intelectualidade brasileira para o problema racial No entanto, o mimetismo dos intelectuais brasileiros não os impediu de vislumbrar uma saída para tais obstáculos ao progresso. Essa saída consistiu na teoria do branqueamento. Projetava-se para o início do século XXI a transformação do Brasil em uma nação quase totalmente branca por efeito de dois fatores: a imigração intensiva de europeus e o incremento da mistura entre brancos, negros, índios, redundando na extinção gradual dos dois últimos grupos, por sua suposta inferioridade. Nesse sentido, contornavam-se os rígidos princípios do racismo científico para adaptá-lo às contingências de um país acentuadamente mestiço (DULCI, 2000, p. 233). Apesar de sua aparência democrática, a miscigenação incentivada no Brasil pela política de branqueamento foi comparada, por Abdias Nascimento, ao genocídio dos judeus ocorrido na Alemanha nazista, porque tinham o mesmo objetivo: eliminar o elemento racial indesejado do seio da sociedade (MUNANGA, 2004). Além disso, essa política do branqueamento fez com que os postos de trabalho fossem ocupados por estes imigrantes recém-chegados ao Brasil, que também obtiveram concessões de terras para viverem e produzirem, continuando os negros à margem da sociedade. A preferência pelo trabalhador imigrante consolidou o mito de que o negro era bronco e vagabundo. Ele ficou à margem da população (...). Negro passou a ser marca, sinal de inferioridade, que aumentou na medida do embranquecimento do país, aviltando homens e mulheres de “cor” e 6 Lino Gomes (1995) se refere ao pensamento de Nina Rodrigues observando que o autor não via na mestiçagem uma saída para resolver o problema étnico do Brasil e nem uma resposta para a questão da nacionalidade. 7 Uma boa discussão sobre isso pode ser encontrada em BRITO, Ângela Ernestina Cardoso de. Educação de Mestiços em Famílias Inter-Raciais – Universidade Federal de São Carlos, SP, 2003. aumentando o número de mulatos (CHIAVENATO, 1999, p. 117). que aspiravam à branquidão Assim, é possível constatar que, mesmo com o fim da escravidão, os trabalhadores negros e mulatos permaneceram economicamente marginalizados e excluídos. 2.2. Democracia racial? O trabalho de Freyre, Casa Grande e Senzala, produzido na década de 1930, desempenhou um papel fundamental na superação do paradigma do racismo científico e das teorias embasadoras da política eugenista adotada pelo Brasil no final do século XIX e início do século XX. Segundo Telles (2003), Gilberto Freyre populariza a visão do Brasil como um país onde todas as raças convivem de forma tranqüila, onde o senhor e o escravo tem relações harmônicas, onde a democracia racial é motivo de orgulho. O conceito de miscigenação é mais enfatizado, tornando-se uma característica nacional positiva e o símbolo mais importante da cultura brasileira. Este descreve que Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicandose em filhos mestiços (...). a miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa e volume humano para a colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas. Para tal processo prepara-os a íntima convivência, o intercurso social e sexual com raças e cor, invasora ou vizinhas da Península, uma delas, a fé maometana, em condições superiores, técnicas e de cultura intelectual e artística, a dos cristãos louros (FREYRE, 2002, p.83-84). É possível dizer que Freyre desenvolveu a idéia da democracia racial no Brasil, difundindo a imagem de que as relações entre brancos e negros eram harmônicas, ou seja, existia uma grande conciliação entre as raças. De acordo com Guimarães (2003), Freyre enfatiza a “democracia étnica” para dizer que, no Brasil, apesar de uma estrutura política muito aristocrática, desenvolve-se, no plano das relações raciais, relações democráticas. São essas idéias que foram traduzidas como “democracia racial” e ganharam, por um bom tempo, a conotação de um ideal político de convivência igualitária entre brancos e negros. Ao avaliar a obra de Freyre, Telles (2003) assegura que ele não criou o termo democracia racial, no entanto, conseguiu “desenvolver, expressar e popularizar” a idéia de democracia racial no país, de modo inédito, como jamais havia sido criado no Brasil, desde a década de 1930 até o começo da década de 1980. É válido ressaltar ainda que a idéia de “democracia racial” também teve repercussão internacionalmente. Freyre argumentava que o Brasil era único dentre as sociedades ocidentais por sua fusão serena dos povos e culturas européias, indígenas e africanas. Assim, ele sustentava que a sociedade brasileira estava livre do racismo que afligia o resto do mundo. A noção de que o sistema escravagista e as relações raciais tinham sido mais benignos no Brasil do que nos Estados Unidos já era aceita; entretanto, Freyre transformou tal contraste num aspecto central do nacionalismo brasileiro, conferindo-lhe um status científico, literário e cultural que duraria pelo menos até a década de 80 (TELLES, 2003, p.50). De acordo com Guimarães (2003), o movimento interpretativo da realidade racial que se constitui no pós-1930 inicia-se com o trabalho de Donald Pierson8, na Bahia, em 1939. Segundo este estudioso, a sociedade brasileira é uma sociedade multirracial de classes, uma sociedade aberta, em que negros, brancos, índios, mestiços, pessoas de qualquer cor, podem transitar pelos diferentes grupos sociais. Para Pierson, o preconceito racial não existia no Brasil, pois, haveria sim, casos individuais de preconceito, casos isolados, mas não como fenômeno social. Assim, Guimarães (2003) reflete que a primeira maneira das ciências sociais pensarem as relações raciais no Brasil continuou colada a ideologia nacional da “democracia racial”. Telles (2003) complementa essa idéia, analisando que as teorias de Freyre foram apoiadas por muitos intelectuais, dentre eles Donald Pierson, que afirma que “o racismo tampouco existia, sendo a classe e não a raça que criava barreiras sociais entre brancos e nãobrancos” (TELLES, 2003, p. 52). De acordo com Telles (2003), na década de 1950, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura – UNESCO, com o propósito de “documentar, compreender e disseminar” o suposto segredo da harmonia racial, financia uma equipe de professores da Universidade de São Paulo – USP, dentre os quais Florestan Fernandes, para desenvolver uma pesquisa sobre as relações raciais no Brasil. No entanto, esses estudos acabam desmistificando a ideologia da democracia racial e contribuindo para a compreensão da questão, uma vez que essas pesquisas contêm dados que evidenciam profunda desigualdade socioeconômica nas condições de vida de brancos e negros, o que fragiliza a veracidade da “democracia racial” brasileira. Os estudos desvendam o preconceito e a discriminação existentes por trás das relações senhor/escravo, considerando a democracia racial um mito que apesar de difundido no Brasil e também em todo mundo, não era verdadeira. Era uma ideologia necessária para a manutenção e equilíbrio da ordem social vigente. Ao analisar a sociedade paulista, Fernandes (1978, p.262) afirma que 8 PIERSON, Donald. Brancos e Pretos na Bahia (estudo de contacto social). São Paulo: Editora Nacional, 1971. Em vez de “democrática”, nesta esfera a sociedade paulistana era extremamente rígida, proscrevendo e reprimindo as manifestações autenticas de autonomia social das “pessoas de cor”. Considerada em termos desse contexto histórico, a convicção de que as relações entre “negros” e “brancos” corresponderiam aos requisitos de uma democracia racial não passa de um mito. Guimarães (2003), analisando as idéias de Fernandes, tece comentários de que quando este fala em um mito da democracia racial, ele estava querendo dizer que essa democracia racial seria apenas um discurso de dominação política, não expressava mais nem um ideal, nem algo que existisse efetivamente, seria usado apenas para desmobilizar a comunidade negra; como um discurso de dominação, seria puramente simbólico, sua outra face seria justamente o preconceito racial e a discriminação sistemática dos negros. Fernandes (1978) acreditava que a democracia racial, ou seja, o discurso de uma nação sem preconceito racial, era o padrão correspondente de dominação racial tradicionalista, já que existia um preconceito encoberto que prejudicava os negros. Segundo o autor Desde o início (e ainda hoje) o trabalhador negro precisa de compreensão atilada e de amparo constante, seja para encetar uma carreira, seja para persistir nela, seja para tirar o máximo proveito de sua capacidade de trabalho, para si, para os patrões e para a coletividade. A estereotipação negativa não só impediu que o “branco” descobrisse esse aspecto da realidade, mas produziu algo pior: suscitou uma barreira invisível universal, que tolhia qualquer redefinição rápida da imagem do “negro”, que facilitasse a transição do trabalho escravo para o trabalho livre e acelerasse pelo menos a proletarização do “homem de cor” (FERNANDES, 1978, p.141). Sendo assim, a ideologia da democracia racial defendida e difundida por Freyre foi contestada por Fernandes, uma vez que sua pesquisa demonstrou que os negros, devido ao processo de escravidão, foram tratados como inferiores e que essa realidade não mudou após a escravidão. Observa-se que Fernandes esperava que o desenvolvimento do capitalismo no país resultaria na integração do negro na sociedade de classes. Desse modo, Guimarães (2003) destaca os trabalhos da chamada “escola paulista” nos anos de 1960, da qual Florestan Fernandes fazia parte, que acreditava que nas áreas de desenvolvimento capitalista, onde se organiza uma sociedade de classes, na medida em que aumenta a competição social, aparece o preconceito, a ameaça do negro tomar o lugar do branco. A escola paulista remetia-se à estrutura social em mutação – o capitalismo industrial, em gestação no país, para explicar o preconceito racial. Outro apontamento importante feito por Guimarães (2003) é o de que surge na academia uma reação à tentativa de demonização de Gilberto Freyre. Para estes estudiosos, a democracia racial é um mito, mas por mito compreendem “(...) um discurso sobre a origem das coisas, um discurso sobre o dia-a-dia, que não precisa ser real, ao contrário, é efetivo apenas na medida em que orienta a ação das pessoas, em que dá sentido às relações sociais do dia-a-dia” (GUIMARÃES, 2003, p.104). Nesse sentido, o mito da democracia racial “(...) é e continuará sendo muito importante para a idéia de nação brasileira” (GUIMARÃES, 2003, p.104). Com a ditadura militar, as contestações sobre a democracia racial foram proibidas e muitos estudiosos que denunciavam as desigualdades raciais foram exilados. Dentre eles podemos destacar Florestan Fernandes, Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Segundo Telles (2003, p.60-61) De 1964 ao final dos anos 70, à medida que o governo militar consolidava seu poder autoritário, os estudos sobre raça feitos por brasileiros foram aniquilados, pois muitos dos mais influentes estudiosos de raça no Brasil haviam sido exilados. Os estudos sobre essa questão haviam se tornado um perigo à segurança pessoal. (...) As rebeliões urbanas e o vigoroso movimento pelos direitos civis ameaçavam desestabilizar a sociedade norteamericana, e diante disso o governo brasileiro iria reprimir qualquer evento que se assemelhasse a uma contestação da situação racial vigente. Desse modo, os estudos sobre desigualdades e preconceito racial foram interrompidos até o final dos anos 70 e, apesar de ter sido “provado” o mito da democracia racial, o discurso de democracia racial continuou sendo aceito por vários segmentos da população brasileira, visto que ele foi fortemente difundido na época da ditadura militar. 2.3. Discriminações e desigualdades raciais: novos enfoques Os estudos sobre a questão racial no Brasil ressurgem com um novo enfoque a partir do final da década de 1970 e início da década de 1980. Foram realizadas novas pesquisas acerca das relações entre brancos e negros no Brasil, e essas novas pesquisas mostram-se como o início de uma nova fase na compreensão dessas relações no país. Segundo Xavier (2006, p. 35) são estudos acerca da produção e reprodução das desigualdades raciais, demonstrando que o problema da desigualdade racial não se resume apenas a um problema de classe social, mas de discriminação racial que cria barreiras à ascensão das pessoas negras e à sai integração social, impedindo o exercício pleno de sua cidadania. Carlos Hasenbalg marca essa nova fase de pesquisas raciais 9 em que analisa as desigualdades na estrutura social e no sistema de classes no Brasil, dando ênfase à condição racial em meio a essas desigualdades, ou seja, estudando a questão racial frente à estratificação social. Hasenbalg (1999) concorda que a democracia racial é um mito e acredita que esse discurso tem como finalidade única ser um “instrumento de controle social”, para validar o sistema de desigualdades sociais existentes entre as diferentes pessoas de cor, impedindo assim que a real situação das desigualdades venha a público e, consequentemente, se transforme em um problema de questão pública. Conforme Telles (2003, p.22), Hasenbalg concluiu que o racismo é compatível com o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, visto que Hasenbalg acreditava que a dominação racial e o status inferior dos negros persistiria, porque o racismo havia adquirido novos significados desde a Abolição e continuaria a atender interesses materiais e simbólicos dos brancos dominantes, através da desqualificação dos negros como concorrentes. Baseando-se amplamente em dados estatísticos oficiais, Hasenbalg e Nelson do Valle e Silva elaboraram uma série de estudos sobre a desigualdade racial em matéria de renda, educação, ocupação e mortalidade infantil ao longo dos anos 80. Após seus estudos, restou pouca dúvida no mundo acadêmico sobre a existência de desigualdades e discriminação racial no Brasil. Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle e Silva analisam dados agregados produzidos pelo IBGE e demonstram que as desigualdades econômicas e sociais entre brancos e negros não podem ser explicadas nem pela herança do passado escravagista, nem pela pertença de negros e brancos a classes sociais distintas, mas que tais desigualdades resultam inequivocamente de diferenças de oportunidades de vida e de formas de tratamento peculiares a esses grupos raciais (GUIMARÃES, 2003). Dessa forma, rompendo comas visões anteriores, podemos destacar que Hasenbalg (1979) nega o Brasil como a democracia racial descrita por Freyre e apresenta dados que comprovam que o desenvolvimento do capitalismo no país não resultou na integração do negro na sociedade de classes, como previsto por Fernandes. Segundo o autor (...) a) a discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição mas, pelo contrário, adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas e b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado, mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos 9 Xavier (2006) destaca, dentre os principais autores desse novo período – que se inicia na década de 1970 e se estende até os dias atuais, com as propostas e a implementação de políticas afirmativas em favor da população negra no Brasil – Hasenbalg e Telles. Esses autores têm dado uma importante contribuição à análise das relações raciais, da discriminação e do racismo no Brasil. que o grupo branco obtém da desqualificação competitiva dos não-brancos (HASENBALG, 1979, p.84). A análise de Telles (2003) foi efetuada em período recente, utilizando dados atuais, e confirma a tese apresentada por Hasenbalg, de que o desenvolvimento econômico capitalista, pois si só, não foi capaz de eliminar as desigualdades de cunho racial existentes no Brasil. 2.4. Políticas de Promoção à Igualdade Racial: um caminho possível? Conforme Xavier (2006), em conjunto com a comprovação da persistência, e até mesmo agravamento, das condições sociais das populações negras no Brasil, Telles expõe e analisa a situação dessas populações e as mais recentes políticas implementadas pelo governo brasileiro, de acesso dos negros ao mercado de trabalho e à universidade. Essas políticas espelham-se nas medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos na década de 1960, denominadas políticas de ação afirmativa. Essas políticas também podem ser compreendidas como resultado das lutas do movimento negro, quando o Estado começa a reconhecer a necessidade de políticas especificas voltadas a população afrodescendente. Se examinarmos o significativo intervalo que separa os dias atuais do momento em que foi extinta a escravidão no país, é possível constatar que, para o ressurgimento atual da temática da desigualdade racial e sua inclusão nas políticas públicas, foram muitas discussões travadas, paradigmas e explicações superadas, dogmas abandonados e compreensões reformuladas. Conforme analisa Silva, et al (2009) a Constituição Federal de 1988 pode ser considerada um enorme avanço nesse aspecto, pois reconhece o racismo e o preconceito racial como fenômenos presentes na sociedade brasileira, sustentando a necessidade de combatê-los. Entretanto, destaca que a inclusão do tema racial na agenda das políticas públicas responde principalmente a um esforço inovador do movimento social negro no sentido de estimular, no debate político, a necessidade não apenas de combater o racismo, mas de efetivamente atuar na promoção da igualdade racial. Nesse contexto, inicia-se a implantação de ações afirmativas no Brasil. Gomes (2001) analisa que As ações afirmativas se definem como políticas públicas (e privadas) voltadas à concretização do principio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional e de compleição física. Na sua compreensão, a igualdade deixa de ser simplesmente um princípio jurídico a ser respeitado por todos, e passa a ser um objetivo constitucional a ser alcançado pelo Estado e pela sociedade. (GOMES, 2001, p. 21). É válido também registrar que, de 31 de agosto a 7 de setembro de 2001 ocorreu a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intolerância em Durban, na África do Sul, conhecida como a “Conferência de Durban”10. No Documento Oficial Brasileiro para a Conferência é reconhecida a responsabilidade histórica do Estado brasileiro “pelo escravismo e pela marginalização econômica, social e política dos descendentes de africanos” (CAVALLEIRO, 2006, p. 18). Após a Conferência de Durban, mediante as reivindicações do Movimento Negro, o Estado brasileiro tem formulado projetos no sentido de promover políticas e programas para a população afro-brasileira e valorizar a história e a cultura do povo negro. (CAVALLEIRO, 2006). Entre os resultados, foi sansionada a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade da inclusão no currículo do Ensino Básico do estudo da História e da Cultura Afro-Brasileira. Pretendendo preencher uma lacuna na formação dos estudantes, assim como promover um maior conhecimento sobre a sociedade brasileira e suas raízes, a Lei tem ainda como objetivo contribuir para eliminar preconceitos e a reprodução de valores racistas, promovendo maior conhecimento e valorização da diversidade. Contudo, Jaccoud (2008, p. 156) analisa que “a implementação da Lei tem sido prejudicada principalmente devido ao reduzido número de especialistas em história e cultura africana existentes no Brasil”. Assim, Silva, et al (2009) atenta que a maior parte das iniciativas que visam à promoção da igualdade racial ainda podem ser classificadas como inicial, pontual ou de limitada cobertura. Muitas ações são marcadas por falta de continuidade, de recursos ou de abrangência. Também é importante atentarmos para a necessidade de que seja ampliado o debate da temática no sentido do reconhecimento e da relevância dessas intervenções, especialmente por parte da população brasileira. É importante refletir a (re)formulação de novos valores e percepções por parte da sociedade frente a esse contexto, observando o papel do Estado junto aos cidadãos nessa construção. 3. Considerações finais A partir da análise apresentada é possível perceber que as relações raciais no Brasil se deram de forma peculiar e complexa, marcada pela exclusão e marginalização da população negra. Logo que os africanos foram trazidos como mão-de-obra escrava ao Brasil, foram 10 Temas urgentes e polêmicos sacudiram a conferência, da qual fizeram parte 173 países, 4 mil organizações não governamentais (ONGs) e um total de mais de 16 mil participantes. submetidos a condições subumanas de sobrevivência. A escravidão relegava os negros à condição de máquina de trabalho, brutalizando-os como animais. Com a abolição da escravatura, o racismo científico em expansão na Europa chega ao Brasil e se desenvolve com os estudos da eugenia, difundindo a idéia de que a raça branca era biologicamente superior à raça negra. Uma vez que a população negra e mestiça era abundante, os eugenistas brasileiros apontam a miscigenação como solução, acreditando que assim a população se embranqueceria. Assim, incentivam a entrada de imigrantes europeus no país com o objetivo de que estes se misturassem com a população brasileira, de modo a diluir os negros. Na década de 1930 o conceito de miscigenação é ainda mais enfatizado, mas passa a ser uma característica positiva e símbolo da cultura brasileira. Gilberto Freyre, com a obra Casa Grande e Senzala, populariza a idéia de “democracia racial”, demonstrando a contribuição negra na formação brasileira como característica positiva e realçando que, no Brasil, brancos e negros viviam harmonicamente. Essa idéia sobreviveu até meados da década de 1980, quando a Constituição de 1988 criminaliza o racismo e, a partir de 1990, o Estado começa a reconhecer a importância de implementação de políticas de promoção a igualdade racial. Entretanto, a idéia de “democracia racial” ainda vive no imaginário da população brasileira, o que dificulta a implantação dessas políticas também denominadas ações afirmativas. É notório que a herança histórica e a ausência de ações que promovessem a ascensão da população negra no Brasil após a abolição muito contribuiu para a desigualdade racial presente. Porém, é inegável que a discriminação racial e o racismo atuam de forma a restringir a igualdade de oportunidades e alimentam a manutenção da população negra nas piores posições da sociedade brasileira. É possível concluir que políticas sólidas e universais são imprescindíveis para o combate às desigualdades raciais em um país com histórico de racialização da pobreza, como é o caso do Brasil. Entretanto, estas são respostas que precisam ser complementadas por políticas que efetivem a eliminação das desigualdades raciais nas várias dimensões de proteção e da promoção do bem-estar social. REFERÊNCIAS AMARO, Sarita. A Questão Racial na Assistência Social: um debate emergente. In: Revista Serviço Social & Sociedade, n° 81. São Paulo: Cortez, 2005. BERND, Zilá. Racismo e Anti-Racismo. São Paulo: Moderna, 1994. BRITO, Ângela Ernestina Cardoso de. Educação de Mestiços em Famílias Inter-Raciais. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de São Carlos, SP, 2003. CAVALLEIRO, Eliane. Valores Civilizatórios: dimensões históricas para uma educação antiracista. In: Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília: SECAD, 2006. CHIAVENATO, Julio José. O Negro no Brasil: da senzala a abolição. 1 ed. São Paulo: Moderna, 1999. DULCI, Otávio Soares. Generalidade e particularidade na sociologia brasileira. 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