O GRITO DAS MULHERES FOI OUVIDO:
A EXPERIÊNCIA DO GRUPO DE SAÚDE MENTAL DA EQUIPE AMARELA
DO BAIRRO DO PEDREGAL − CAMPINA GRANDE, PB
Chirlaine Cristine Gonçalves 1
Maria de Fátima Araújo Silveira 2
Isabella Barros Almeida 3
Isabella Maria Filgueira Guedes Piancó 4
RESUMO
Esta pesquisa intenta contribuir para as discussões que se desenvolvem atualmente acerca da
Saúde Mental, como algo essencial para a saúde do indivíduo, e também como tema que se
insere na elaboração das Políticas de Saúde para a população. Desde a III Conferência
Nacional de Saúde, a área de Saúde Mental do Ministério da Saúde tem como eixo principal,
no contexto da reforma psiquiátrica, o avançar no processo de desinstitucionalização,
envolvendo desde a política para a Atenção Básica até a criação dos serviços residenciais
terapêuticos, criação de centros de atenção psiocossociais, avaliação hospitalar, Programas de
Volta para Casa, Programa de Reestruturação Hospitalar e a responsabilização sanitária pelos
manicômios judiciários. Como objetivos, buscou-se descrever a implantação de um grupo de
saúde mental em uma unidade do Estratégia Saúde da Família, tentou-se identificar as
concepções relacionadas à saúde e à doença mental, tanto para as profissionais como para as
usuárias da referida equipe, além de descrever o significado do grupo de saúde mental para as
participantes e para as profissionais. A pesquisa é qualitativa, exploratória, descritiva,
analítica e longitudinal. Os dados foram coletados através de oficinas de sensibilidade,
expressividade e criatividade. Os dados são apresentados sob forma de narrativa e agrupados
em categorias e subcategorias. A análise e interpretação dos resultados revelaram que, mesmo
diante de inúmeras dificuldades, foi possível implantar um serviço de saúde mental em uma
Unidade Básica Saúde da Família, que teve um resultado bastante satisfatório, o que foi
evidenciado, entre outros fatores, pela diminuição do número de internações em hospitais
psiquiátricos, diminuição do uso de psicotrópicos, melhora da auto-estima das integrantes,
retorno ao trabalho como fonte de renda, enfim, pelo resgate da cidadania e do direito de
escolha, que lhes havia sido negado no espaço asilar. Conclui-se que é possível e essencial
trabalhar Saúde Mental dentro da Atenção Básica, principalmente, sendo necessário utilizar
todos os recursos desinstitucionalizar e investir na construção de uma rede realmente
substitutiva da psiquiatria tradicional.
1
Enfermeira, doutoranda em ciências e tecnologia, mestre em saúde coletiva. Professora da FCM, coordenadora
do CEP/CESED. Email: [email protected].
2
Enfermeira. Doutora em enfermagem pela USP. Professora titular da UEPB.
3
Estudante de enfermagem da FCM, do quarto período. Email: [email protected]
4
Estudante de enfermagem da FCM, do quarto período. Email: [email protected]
Palavras chaves: Reforma Psiquiátrica, ESF, Terceiro Setor.
INTRODUÇÃO
Ao tentarmos enunciar saúde e doença, devemos estar cientes que tais concepções
possuem características próprias, de acordo com o contexto cultural dos diferentes grupos que
compõem a sociedade. Além disso, saúde e doença não são valores abstratos ou condições
estáticas. O entendimento sobre saúde depende da visão que se tem do ser humano e de sua
relação com o ambiente, podendo ainda variar de sujeito para sujeito¹.
Deste modo, podemos afirmar que o conceito de saúde não está apenas restrito aos
aspectos biológicos, mas às condições culturais, individuais, políticas, sociais, econômicas,
históricas, tornando-se um conceito muito amplo e complexo. Assim, torna-se necessário
ressignificar e reconceituar o que seja saúde, vê-la não apenas no campo científico, mas
também como um movimento ideológico em aberto.
Torna-se limitado fazer saúde deixando de lado os aspectos psicológicos do indivíduo,
e aponta a necessidade de que seja repensado não só o conceito de saúde, como também o de
saúde mental, os quais estão completamente entrelaçados².
A saúde mental brasileira nas duas últimas décadas, passou por transformações, com
avanços que constituíram e constituem o processo contemporâneo da prática de saúde
mental³.
A reforma psiquiátrica pretende revisar e transformar diversos conceitos, posturas e
ações terapêuticas, colocando em questão paradigmas conhecidos e hegemônicos. A primeira
etapa dessa reforma já foi superada4. O país já se acostumou com a idéia de que a profunda
mudança assistencial, recomendada pela Lei n°10.216 de 2001, é sensata, factível, racional e
eficiente. Além disso, o Relatório da Organização Mundial de Saúde, sobre a saúde no
mundo, de 2001, comenta que o manejo e tratamento de transtornos mentais no contexto da
atenção básica é um passo essencial, que possibilita, ao maior número possível de pessoas, ter
acesso mais fácil e mais rápido aos serviços.
Todas essas mudanças no nosso Sistema de Saúde, caracterizam um cenário
privilegiado para implementações de transformações significativas das práticas e saberes na
área de saúde mental, bem como contribuem para a articulação da díade proposta: Saúde
Mental no Estratégia Saúde da Família3. O Informe Técnico e Institucional, relata que o ESF
representa ações combinadas, a partir da visão holística da saúde, que engloba tudo aquilo que
possa levar a pessoa a ser mais feliz e produtiva, e se propõe a humanizar as práticas de
saúde5. Desse modo, fica clara a estreita relação existente entre o ESF e as novas práticas em
saúde mental.
Para que a articulação entre o campo da Saúde Mental, o Estratégia Saúde da Família
e o terceiro setor aconteça, é de fundamental importância que o profissional esteja
sensibilizado para a compreensão do modelo de organização familiar do doente mental, bem
como de seus valores, crenças e procedimentos, para que atue de modo a não julgar o que é
melhor ou pior, e sim oferecer elementos para a análise da situação, deixando que a família
tome a decisão final6. Uma vez que, geralmente, existem nas famílias dos portadores de
transtornos mentais características, ou, “...condições relacionadas à produção desse
transtorno”, para tratá-los fora do manicômio, faz-se necessário intervir nesses núcleos
familiares, propiciando o restabelecimento de vínculos7. Assim, no caso da substituição dos
serviços psiquiátricos convencionais por modelos dentro da atenção básica, o objetivo
declarado de evitar as perdas de laços sociais e familiares coloca o imperativo de tratar
também as famílias.
É necessária uma discussão em torno da necessidade da reformulação da assistência ao
doente mental. Reside exatamente neste ponto uma das dimensões da importância de termos
realizado esta pesquisa, destacando que o nosso objeto de estudo foi escolhido em reuniões
com a Coordenação e com a Equipe de Apoio do ESF em Campina Grande, quando as
pesquisadoras questionaram a importância do tema saúde mental em uma pesquisa de
mestrado. Foi unânime a escolha do tema Saúde Mental na Atenção Básica. E foi dentro de
um cenário de mudanças, que escolhemos um serviço que tem demonstrado avanços dentro da
saúde mental no nosso município: a Unidade Básica de Saúde da Família do Pedregal –
Equipe Amarela, a única, até, hoje que possui um grupo de saúde mental que tem
demonstrado grandes progressos no tratamento e prevenção dos transtornos mentais,
mostrando que é possível se fazer saúde mental dentro do nível de atenção aqui considerado.
Outro ponto a ser destacado, situa-se na possibilidade de se implantarem outros
grupos de Saúde Mental na Atenção Básica, através de parcerias entre outros setores, uma vez
que o Ministério da Saúde enfatiza que o objetivo geral do ESF é melhorar a saúde da
população, mediante a construção de um modelo assistencial de atenção baseada na
prevenção, promoção, proteção, diagnóstico precoce, tratamento e recuperação da saúde, em
conformidade com os princípios do SUS e dirigido aos indivíduos, à família e à comunidade8.
Os resultados desta pesquisa podem instruir propostas e ações voltadas para a melhoria da
realidade sanitária e social, pois, os problemas das famílias são “muito profundos para serem
‘curados’, mas não para serem cuidados”9.
Além disso, os resultados também deram visibilidade ao trabalho da Equipe do
Pedregal, ao descrever a formação do grupo, o que incentivou e sensibilizou as demais
equipes a implantarem o trabalho. A intervenção vivida em Campina Grande, configura uma
situação importante, levando-nos a pensar em novas formas de se fazer saúde mental no nosso
município.
METODOLOGIA
Optamos pela realização de uma pesquisa qualitativa, considerando a delicadeza do
nosso tema e o respeito às pessoas envolvidas por nosso estudo.
Quanto à tipologia, é um estudo exploratório, descritivo, analítico e longitudinal. A
etapa exploratória da pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de obter uma visão geral do
Grupo de Saúde Mental do Pedregal, bem como dos profissionais que trabalham no referido
grupo, uma vez que a Secretária de Saúde do Município ainda não dispunha de informações
consolidadas sobre o grupo.
Constituíram os atores do estudo as trabalhadoras da Equipe Amarela do Pedregal:
médica, enfermeira, assistente social, duas agentes comunitárias de saúde e 11 usuárias do
grupo de saúde mental.
Escolhemos juntar a equipe com as usuárias da UBSF, tendo por base princípios do
ESF, que remetem à criação de vínculos entre profissionais e a comunidade onde está inserida
a UBSF, e a co-responsabilidade entre os profissionais, os usuários e a família.
Para operacionalização da pesquisa, o projeto foi submetido à apreciação do Comitê
de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba, que emitiu parecer favorável à sua
realização em 30/09/2004, conforme cópia constante no anexo A.
O desenvolvimento da pesquisa seguiu as diretrizes emanadas da Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as normas aplicadas a pesquisas que
envolvem, direta ou indiretamente, seres humanos10.
A coleta de dados foi feita no contexto da realização de oficinas de sensibilização,
criatividade e expressividade11. Em um momento anterior à realização das oficinas foram
identificados o perfil das participantes, o perfil dos profissionais, e realizada uma entrevista
com a equipe do ESF do Pedregal, quando foram obtidos os dados relativos à criação do
grupo.
O ponto de partida para realização a das oficinas foi manter a coerência com os
objetivos do projeto. No período de 9 a 23 de novembro de 2004, iniciamos a coleta e a
produção de dados no contexto das oficinas de sensibilidade, expressividade e criatividade.
Foram realizadas três oficinas, tendo um intervalo de uma semana entre os encontros.
Os discursos das participantes foram submetidos a uma análise prévia, tendo sido
utilizado um diário de campo para o registro de todas as manifestações (falas, ações e
atitudes) das participantes durante as oficinas, e as observações e percepções das
coordenadoras.
Uma vez tendo o material bruto colhido, foi empregada a técnica de análise de
conteúdo de Bardin, no intento de, à maneira da autora citada, codificar, transformando o
nosso material colhido de um estado bruto em uma possível representação do conteúdo12.
Essa é a mais usual abordagem analítica de dados em investigações com métodos
qualitativos12.
O formato escolhido para apresentação dos dados e dos discursos foi a narrativa, que
possibilitou uma maneira de contemplar questões que extrapolam a mensuração quantitativa,
como o inexplicável ou o abstrato, por meio das falas13. Para a ilustração, foram utilizados
discursos ou recortes de falas das participantes.
ANALISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.1 Derrubando barreiras e construindo sonhos
A Unidade Básica de Saúde da Família Adalberto César, também chamada Equipe
Amarela, localiza-se à Rua Nilton Paiva Fernandes, S/N. Foi uma das primeiras equipes a
serem implantadas no município de Campina Grande, no ano de 1994.
Com relação à Saúde mental, o sonho começou em 1997, quando os profissionais da
referida equipe participaram de um treinamento de Capacitação promovido pela Secretaria de
Saúde do Município, com o intuito de promover a educação permanente dos recursos
humanos em saúde. Um dos palestrantes, um psicólogo, relatou suas experiências com grupos
de saúde mental, e como era viável e benéfico para a população a criação desse espaço
terapêutico.
O interesse para a criação de um grupo nesse formato já existia na equipe do Pedregal.
O que aconteceria a partir daquele momento era o despertar de um sonho, que andava
adormecido até então.
No mesmo ano da capacitação, reuniões foram feitas, muitas vezes o desânimo e o
medo chegaram a fazerem pensar em desistir, mas o sentimento referido pelas profissionais
era maior, maior que qualquer dificuldade que pudesse vir a surgir. E foi nesse cenário de
medo, insegurança, mas, acima de tudo, de vontade de dar certo que o grupo de saúde mental
do Pedregal foi implantado, de acordo com o relato da equipe.
As profissionais, em uma das entrevistas realizadas, afirmaram que, quando da
implantação do ESF, elas sentiram essa necessidade de trabalhar a saúde mental, uma vez que
na comunidade, os usuários são tão sofridos, moram num lugar que apresenta alto índice de
violência, e elas só precisavam de alguém para incentivá-las, para lhes mostrar o caminho a
ser trilhado. Tudo isto elas encontraram nas palavras daquele psicólogo.
O grupo, inicialmente, teve a duração de três meses, constituindo-se como um espaço
de escuta, acolhimento e troca espontânea de experiência. Após a finalização desse primeiro
contato, as usuárias solicitaram que fosse criado um novo grupo para as que já haviam
participado do processo. Nesse segundo grupo, são realizadas oficinas terapêuticas, sendo
coordenado pela assistente social e uma agente comunitária de saúde. As reuniões são
realizadas semanalmente.
O grupo de saúde mental, no momento, é formado apenas por mulheres. Tentou-se, no
inicio, formar um grupo misto, porém os homens, geralmente, não se disponibilizaram a
participar do grupo, devido a outros afazeres. As mulheres também preferiram estar na
companhia apenas de outras mulheres, visto, que, muitas delas, relacionam seus problemas
aos parceiros.
Muitos foram os obstáculos encontrados, segundo relatos da equipe, para a criação do
grupo, e que se resumem em dois pontos: inicialmente, as dificuldades se relacionavam ao
próprio medo de se trabalhar com essas usuárias, tanto pelo despreparo, como pela falta de
estrutura; o outro ponto refere-se à manutenção do grupo, pois não há apoio permanente e
auxílio financeiro de instituições, contando apenas com a ajuda de voluntários como
mantenedores.
Durante esses oito anos de grupos muitos devem ter sido os obstáculos vencidos.
Porém, um foi bastante especial, no mês de maio de 2005, foi inaugurada a Casa da Ciranda,
um local onde acontece hoje seus encontros. Para a equipe e os grupos, foi uma verdadeira
vitória, pois há muito tempo que existia a vontade de se ter um lugar só delas, onde pudessem
conversar, trabalhar, fazer o seu café, receber seus amigos e mostrarem como elas são
capazes, como são mulheres fortes e destemidas.
Figura 15: Logotipo da Casa da Ciranda, criado pelos profissionais e pelas
usuárias do serviço
Na realização da pesquisa, esse grupo contava com 11 mulheres na faixa etária de 28 a
66 anos, naturais de Campina Grande (06), Alagoa Nova (02), Ingá (1), Pilar (01) e Areal
(01), sendo 45% casadas, 27% viúvas, 14% solteiras e 14% separadas, possuindo, grande
parte delas, número superior a 3 filhos. A maioria é de raça branca. Entre elas, 63% possuem
o primeiro grau incompleto e 37% não possui nenhuma instrução. Quanto à religião, 81% das
participantes do grupo são de católicas. Com relação à ocupação, 55% não exercem nenhuma
profissão e 81% recebem menos de um salário mínimo por mês, estando o restante variando
entre um e três salários mínimos.
Relativamente ao diagnóstico, disponibilizado na forma dos prontuários das usuárias,
18% apresentam depressão e ansiedade; 54%, depressão; 10%, psicose e 18% esquizofrenia.
Devemos ressaltar que o Relatório de Saúde Mental da OMS, (2001), apresenta dados
demonstrativos de que os transtornos da ansiedade, bem como a depressão são mais comuns
no sexo feminino, seja devido às alterações hormonais, como parte do ciclo menstrual e após
o parto, seja devido ao estresse diário que as mulheres vive em casa ou no trabalho, seja pela
violência doméstica ou sexual a que estão sujeitas.
Todas as participantes usam ou já usaram psicotrópicos. 81% delas já foram internadas
em instituições psiquiátricas, entre uma a vinte e cinco vezes (o número de internações
também foram encontrados nos prontuários das usuárias, além de ter sido mencionados por
elas). Tais internações não serviram como medida terapêutica, mas como prática de
isolamento, impedindo as usuárias de exercerem seu direito de escolha, pois eram deixadas
pelas famílias nos manicômios, muitas vezes sem sequer saber para onde estavam indo.
As usuárias participam do Grupo de Saúde Mental há mais de 4 anos e, após essa
participação, não houve nenhum registro de internação psiquiátrica; quatro delas não fazem
mais uso de medicação; três diminuíram o uso; três utilizam esporadicamente e apenas uma
continua fazendo uso de psicotrópicos, porém em doses inferiores às administradas
anteriormente à entrada no grupo.
Todas as prescrições de psicotrópicos foram revistas, por meio de consultas com
psiquiatras do SUS e marcadas através da Unidade Básica Saúde da Família Adalberto César,
sendo cada esquema terapêutico planejado e estruturado individualmente, visando à solução
dos problemas clínicos de cada usuária. Além do tratamento farmacológico, foram
introduzidas as psicoterapias, como relaxamento, terapia de apoio e reabilitações
psicossociais. Essas estratégias variam segundo a necessidade de cada usuária e têm como
objetivo a promoção da saúde do Grupo de Saúde Mental. Para melhor compreensão, o
Quadro 1, exibe o diagnóstico e a evolução quanto ao uso de psicofármaco e as internações
antes e depois da entrada no grupo.
Quadro1: Diagnóstico e evolução das participantes do Grupo de Saúde Mental do Pedregal,
quanto à medicação e as internações, antes e depois da entrada no mesmo.
MEDICAÇÃO MEDICAÇÃO INTERNAÇÕES INTERNAÇÕES
USUÁRIAS DIAGNÓSTICO
ANTERIOR À
APÓS A
ANTERIORES
APÓS A
ENTRADA
ENTRADA
Á ENTRADA
ENTRADA NO
NO GRUPO
NO GRUPO
NO GRUPO
GRUPO
Teta
Depressão
Diazepan
Júlia
Depressão
Lucinha
Esquizofrenia
Rose
Depressão
Amitriptilina
Diazepan
Equilid
Haloperidol
Prometazina
Diazepan
Olcadil
Cloxazolan
Luizinha
Psicose
Beta
Ansiedade
Haloperidol
Bipirideno
Diazepan
e Diazepan
Não
utiliza Nenhuma
mais
Diazepan
Nenhuma
Diazepan
Haloperidol
Nenhuma
Nenhuma
Mais de 10 vezes Nenhuma
Não
mais
utiliza Alguma – não Nenhuma
consta
no
prontuário
Haloperidol
Mais de 7 vezes Nenhuma
Diazepan
Não
utiliza Nenhuma
Nenhuma
Mara
depressão
Depressão
Guia
Depressão
Izabel
Depressão
Lulu
Esquizofrenia
Mariza
Depressão
ansiedade
Diazepan
Diazepan
Fenergan
Haldol
Diazepan
Haldol
Amplictil
Fenergan
Diazepan
e Diazepan
mais
Não
mais
utiliza Algumas – não
consta
no
prontuário
Algumas
Mais de 25 vezes
vezes,
Diazepan
Algumas
Alguma – não
vezes,
consta
no
Diazepan
prontuário
Haldol
Mais de 10 vezes
Diazepan
Fenergan
Amplictil
Algumas
Várias vezes
vezes,
Diazepan
Nenhuma
Nenhuma
Nenhuma
Nenhuma
Nenhuma
4.2 O grito que ninguém escutava
Traduzir o indivisível, relatar a emoção, a festa, a alegria, a troca, relembrar épocas
vividas, é o nosso grande desafio14. Porém, tudo isso já era previsto, a partir do momento em
que escolhemos, como técnica de produção de dados, as oficinas.
Trabalhar com oficinas foi a melhor experiência de construção de singular
conhecimento da qual fizemos parte. As oficinas conseguem transformar palavras, gestos,
atitudes e contato em conhecimento. Um conhecimento que se constrói no coletivo, rompendo
desigualdades e envolvendo todos numa relação de confiança e descontração, em que as
informações parecem brotar de uma terra que, para muitos, parecia improdutiva.
Após a realização das oficinas, procedemos à análise dos discursos das participantes
da pesquisa, o que permitiu aprender que, apesar de o ESF só possuir esse Grupo de Saúde
Mental e em apenas uma Unidade, os profissionais que o integram já trabalham saúde mental
dentro de um novo modelo psiquiátrico. Foi consenso que esse tipo de trabalho é essencial
dentro do programa, pois não se pode mais trabalhar dentro do modelo biomédico, curativo e
hospitalocêntrico, ainda vigente no nosso país. O discurso a seguir expressa essa
compreensão:
“Doença mental, a gente via quando passava por uma disciplina,
quando passava por um hospital psiquiátrico, antes do grupo eu
nunca tinha visto o ser humano como um todo... O ESF é uma das
coisas mais desafiante que eu faço, e que dá mais resultado...
ninguém pode mais trabalhar saúde mental no modelo tradicional,
ninguém pode não... “ Lu (T).
Trabalhar com a saúde por si só, é trabalhar dentro da margem de tolerância das
infidelidades do meio15. O ser humano sadio é caracterizado pela tendência a enfrentar
situações novas e a instruir normas. Para a autora, “as categorias saúde e doença só são
reconhecidas no plano da experiência”.
Se trabalhar com saúde é complexo, trabalhar com os distúrbios mentais torna-se ainda
mais desafiador, pois as concepções a respeito de saúde e doença mental possuem
características próprias, de acordo com o contexto cultural dos diferentes grupos que
compõem a sociedade.
Uma das maiores dificuldades nessa construção tem sido o desacordo entre a intenção
de fazer e a prática, falta gente capacitada, falta recurso, o que pode ser evidenciado no
discurso de Monalisa (T), a seguir:
“...muita gente em Campina diz que vai trabalhar doença e saúde
mental, mas não trabalha. Não sei se por medo, pela falta de
capacitação, por falta de recurso... a verdade é que não se trabalha
saúde mental, nem em Recife onde eu trabalhei.”
Torna-se necessário que haja um desabituar-se das formas obsoletas e prejudiciais de
intervenção nos transtornos psíquicos. Deve-se mudar, substituí-las por abordagens que não
interfiram na autonomia do usuário e, sempre que possível, estimule sua cidadania e
convivência com a família.
A reforma psiquiátrica não pode ser negada, e vem trabalhando bastante a questão da
transição da tutela à autonomia. O doente mental sempre foi excluído, sem direito, foi-lhe
tirado o desejo, a escolha e o raciocínio. Tutelar passa também a ser necessidade, para
alcançar seus direitos e restabelecer sua vontade16.
Os profissionais da área, por não conhecerem as dificuldades concretas e materiais do
que significa viver como portador de transtornos psíquicos, chegam mesmo a negar a
existência do sofrimento vivenciado por essas pessoas7.
4.3 Ouvindo e chegando junto, para fazer saúde: um resgate para vida
Para definir os conceitos de saúde mental mencionados pelas participantes da nossa
pesquisa, tentaremos traduzir as metáforas criadas por elas. Ressaltamos, porém, que ao lidar
com metáforas, lidamos com surpresas, cobertas de significação emocional14. Entretanto, não
podemos esquecer que o trabalho realizado em Campina Grande, no tocante à Saúde Mental,
segue três eixos nortedaores – do confinamento à liberdade, da tutela à autonomia e o direito
ao trabalho-, que, de certa forma, orientam não só os rumos das ações mas a própria
compreensão das falas das usuárias na narração de suas histórias.
Inicialmente, então gostaríamos de destacar a relação entre a saúde mental e a
capacidade produtiva: para elas o trabalho sempre dignifica as pessoas, torna-as importante,
melhora sua auto-estima, confere um lugar para o ser humano na sociedade.
Direito ao trabalho, é o terceiro eixo norteador no processo de intervenção em
Campina Grande. O trabalho, para quem está se inserindo ou se re-inserindo nesse mundo do
mercado, é um direito delas e o município deve tentar disponibilizar esse mercado, através de
parcerias entre os setores, (primeiro, segundo e terceiro).
O prazer em ter seu labor foi expressado por uma participante, quando ela revelou seu
prazer em ter, na sua prática profissional, um grupo de saúde mental, não só pelos usuários
que freqüentam o grupo, mas por ela mesma, pela sua saúde. Jô falou um pouco desse prazer:
“Saúde mental pra mim, é o meu grupo, meu trabalho, o grupo é a
minha saúde mental. Quando eu levo uma mensagem, vocês nem
imaginam o que eu tiro pra mim do que cada uma diz, é o meu grupo
de saúde mental também, é muito bom, elas me levantam também. Eu
me sinto como uma lua: trago luz e recebo luz também, é assim que a
lua faz... ela dá luz à noite e durante o dia ela recebe a luz do sol, e à
noite ela devolve a luz pra terra.”
Gostaríamos de abrir um parêntese e falar mais uma vez do Estratégia Saúde da
Família, pois é uma das estratégias que propõe, dentro desse cenário, uma nova dinâmica para
estruturação dos serviços de saúde, além de possibilitar parcerias entre o primeiro setor e o
terceiro. Além disso, o ESF tem como uma de suas propostas humanizar as práticas de saúde,
buscando a satisfação do usuário através do estreito relacionamento entre profissionais e
comunidade, estimulando, desta forma, o reconhecimento da saúde como um direito de
cidadania17. O ESF ainda possui a característica própria para o atendimento às famílias, por
oferecer um espaço muito favorável para promover saúde e, especialmente, saúde mental,
desmistificando os antigos conceitos de doença mental.
Toda atenção baseada na comunidade tem melhor efeito sobre o resultado e a
qualidade de vida das pessoas com transtornos mentais crônicos do que o tratamento
institucional19.
A partir do momento em que a pessoa começa a ser vista como um todo pelos
profissionais, a saúde começa a ser promovida, iniciando-se assim a redução do número de
internações18. Isto é percebido não só pelos usuários como também pelos profissionais.
“Saúde mental hoje pra mim, é ver tudo junto. E não é uma coisa tão
do outro mundo... na minha experiência acadêmica eu só via a
doença. Hoje eu aprendi a ouvir e chegar junto para fazer saúde... e a
gente consegue transformar... só desta forma a gente consegue
resgatar a integralidade da saúde.” Lu (T)
A saúde mental aparece na nossa pesquisa como algo que foi alcançado pelas
mulheres, com o convívio, e a confiança nos profissionais somados a troca de experiências.
Nina (profissional) expressou sua concepção:
“... pra mim ficou claro que saúde mental é uma coisa que a gente
tem quando a gente escuta e é escutado, quando estende a mão,
quando a pessoa tem oportunidade de desabafar tudo que sente.”
Nina (T)
Percebemos que, para a maioria das participantes da pesquisa, a saúde mental vai muito além
da ausência de doença, é algo mais profundo, algo que se relaciona também com a capacidade de
realizar afazeres domésticos, culturalmente atribuídos como de responsabilidade das mulheres. Isso é
exemplificado nos discursos que se seguem.
“... hoje eu tenho saúde porque eu sei o que faço, cuido da minha
casa, lavo minha roupa, faço minha comida, sou da minha casa... sei
conversar e sei ter paciência com meus filhos...” Ana Lúcia (U)
Outro significado atribuído à saúde mental relaciona-se à lucidez, a saber o que se está
fazendo, a agir com o raciocínio lógico, ser sensata, ter autonomia no que faz, conforme o
discurso que segue:
“Ter saúde é se sentir bem realizada, lúcida, é fazer as coisas
direitinho... antes eu não tinha coragem para nada... era sem saúde,
mas hoje tenho coragem para tudo. Elas arrumaram esse trabalho
para gente, isso ajudou muito essa tal de terapia, esse
acompanhamento, hoje eu me sinto uma mulher realizada, com saúde
e paz, e tenho coragem para tudo...” Teta (U)
4.4 A colcha é o nosso tesouro, e costurando-a elevamos a nossa auto-estima, retomamos a
nossa cidadania
Conforme a literatura pesquisada existe dois tipos de grupo: o de apoio ou suporte, que
tem, como finalidade, fornecer aos indivíduos, convivendo com situações semelhantes, uma
oportunidade de expressar suas preocupações e considerar modos alternativos para modificarem
seus estilos de vida, consistindo em apoio social extrafamiliar20. A outra modalidade citada é o
grupo de auto-ajuda ou grupos auto-dirigidos, cujo princípio operacional é que a ajuda aos
participantes é oferecida por eles mesmos. A especificidade desse grupo é que ele é formado e
idealizado por pessoas leigas. O profissional pode participar do grupo temporariamente. Dessa
forma, o poder e a liderança do profissional são desmonopolizados e desmistificados, alterando
os papéis tradicionais das pessoas e dos profissionais.
Rose (U) define o grupo de saúde mental como sendo de suporte e ao mesmo tempo de
auto-ajuda:
“A vida da gente é muito triste, cada uma tem um problema, mas
quando chegamos no grupo, cada uma conta uma história, e a gente vê
que as pessoas tem problemas muito maior que o da gente. Então
pronto, a gente ajuda e é ajudado, é ajuda mútua. Esse grupo é muito
importante, não pode parar... no grupo eu aprendi a lutar, aprendi a
ajudar meu irmão a lutar contra as drogas... eu disse a ele: você tem
que me ajudar, eu vou lutar mais essa vez com você... se você quiser
continuar nas drogas você vai continuar sozinho.. e, graças a Deus,
hoje ele é uma outra pessoa, ele tirou as drogas da vida dele, ele lutou
e venceu. E eu me sinto alegre, porque foi o grupo que me ajudou.”
Nesse momento, gostaria de definir o grupo como uma “colcha” que congrega essas
modalidades, porém, como exemplificado anteriormente nos discursos, ele é apoio e suporte
para as participantes e para os profissionais, por meio da interação e do diálogo, e é auto-ajuda,
pois nele revelam-se as capacidades das pessoas, saboreamos novas experiências, trocamos
saberes entre semelhantes, somos todos iguais, reconhecendo, ao mesmo tempo, que “...de perto
ninguém é normal, às vezes segue em linha reta a vida, que é meu bem, meu mal...”, como diz
Caetano Veloso, desde 1986
O pensamento de Caetano Veloso também é experimentado por Lu (T); e é através do
seu discurso, ou melhor, da sua presença no grupo, que percebemos como a relação
profissionais-usuárias é horizontalizada, tornando-as cúmplices, estabelecendo laços de
compromissos e vínculos dos profissionais e serviços com a comunidade.
“...de perto a gente é tudo igual, ninguém é plenamente feliz, 100%
feliz ou 100% triste... o grupo é minha saúde mental também, não
teve livro que me ensinou como elas me ensinaram”
Notamos que essas mulheres, como relata Lu, “conseguem tirar leite de pedra”, sempre
fazem menção à vida difícil que possuem, em condições extremamente precárias, o que para a
maioria dos portadores de transtornos psíquicos, é o motivo que poderia levar a uma baixa de
auto-estima. Porém, o grupo conseguiu, a partir dos relatos, devolver a confiança a essas
mulheres. Depois do grupo elas referem se sentir capazes e vivem cheias de esperança. Izabel, a
mesma usuária que dizia não conseguir encarar ninguém, agora vê a vida cheia de esperança:
“... hoje eu sei encarar qualquer pessoa, olho nos olhos dos outros,
faço minhas coisinhas, cuido dos meus filhos que são dois... hoje eu
sei que onde há nuvem, tem sempre um sol que há de brilhar,
sempre... hoje já sei encarar a vida, sei que tem problemas, mas já sei
encarar.” Izabel (U)
Identificamos, ainda, como mencionado anteriormente, que a doença mental, ao longo
da história, foi conceituada como uma fuga dos padrões da normalidade (dentre esses, se
encontra o descuido com a higiene), e que a entrada no grupo significou não apenas retorno a
esses padrões tidos como sinal dessa normalidade, como elevou a auto-estima, o auto-cuidado,
o gostar-se:
“... sempre quando eu saio do grupo eu saio com a cabeça erguida,
com a cabeça aliviada. Quando eu chego em casa eu chego diferente,
pareço uma mocinha, gosto de me arrumar, de tomar banho, de
passear, pareço uma mocinha...” Ana Lúcia (U).
Outro ponto que merece ser destacado, e que se relaciona com a melhora dessa autoestima, diz respeito à sensação de ser útil ao grupo, de ser importante para elas, de se sentirem
amadas e de serem respeitadas, isso faz com que elas se sintam recuperadas não apenas dos
seus problemas psicológicos, mas também dos outros problemas de saúde.
“... eu fico inheta para ir pra o grupo... depois do grupo até meu
problema de pressão melhorou, antes eu tomava um comprimido,
agora eu só tomo meio... as meninas do grupo tratam a gente muito
bem... também, todo mundo no grupo gosta de mim... elas dizem até,
que a pessoa que não gostar de mim, não gosta mais de ninguém...
elas dizem que só tem graça no grupo quando eu vou, porque eu sou a
pimenta, sou muito alegre.” Beta (U)
Daí, a comparação do grupo com um tesouro, para o qual não poderia existir metáfora
mais apropriada. Na nossa terceira e última oficina, fizemos uma surpresa para as participantes:
juntamos todo o material produzido, o auto-retrato ganhou um lugar especial em um portaretrato, as massas de modelar transformaram-se em quadros. Tudo estava ali: as frases, as
máscaras, as lembranças... E assim montamos o baú de tesouros: uma grande caixa coberta de
enfeites natalinos. E quando entregamos toda a produção às participantes, descobrimos mais um
novo significado para o grupo de saúde mental: o de reabilitador, pois permitiu a essas usuárias
recuperarem aptidões práticas, necessárias para viver e socializar-se na comunidade, além das
aptidões sociais, levando-as a redescobrirem seu valor pessoal:
“eu gostei do que eu fiz, do meu tesouro. Isso mostra que a gente, é
capaz de alguma coisa... antigamente, a gente achava que não era
capaz de fazer nada, mas, hoje, depois do grupo, a gente acha que é
capaz de fazer até mais coisa que essa... adorei este tesouro porque
muitas vezes a gente pensa que bem material é tudo na vida e às vezes
uma coisa tão simples, deixa a gente tão feliz... então este tesouro é o
que eu sou hoje, tou muito feliz.. .” Rose (U)
Mesmo sabendo, que a desinstitucionalização não tem constituído, , um êxito sem
reservas, e a atenção comunitária ainda enfrenta muitos problemas operacionais, o grupo
pesquisado mostra-nos que é possível trabalhar saúde mental no ESF, é viável19. E, e acima de
tudo, respeita os direitos humanos e devolve a cidadania a essas pessoas, que foram
marginalizadas. Ter, no ambiente de trabalho, um grupo como esse é motivo de orgulho para o
profissional, é conseguir realizar um sonho, é a recompensa por não ter desistido diante de
tantos obstáculos, é o estimulo para continuar lutando.
“Isso aqui é o maior presente que eu já recebi na minha vida... eu
nunca pensei que o grupo de saúde mental fosse dá tão certo como ele
deu... foram muitas dificuldades, pensamos até em desistir... e aqui
nesta caixa, a gente tá vendo o resultado de uma luta de sete anos e a
gente viu que o nosso trabalho não foi em vão... aqui tá nossa luta, o
grito das mulheres que foi ouvido... e a gente precisa fazer muito mais,
ainda tem muitas lá fora precisando da gente, e a gente com certeza vai
tentar fazer algo por elas, então pra mim foi o melhor presente que eu
já recebi, porque é o fruto do meu trabalho.” Nenê (T)
É inestimável o valor do grupo, verbalizado pelas mulheres, ele se transformou em vida
que pulsa, palpita e lateja no cotidiano delas. Ele fez brotar uma rosa em uma terra que, para
muitos, parecia improdutiva, fez nascer uma canção que pode ser traduzida na letra da música
que os Mutantes cantaram sem nunca tê-las conhecido. Afinal, se “eu sou muito louco por ser
feliz, mais louco é quem me diz que não é feliz...eu juro que é melhor não ser normal...”
4.5 Estar no grupo é fazer arte e profissionalizar-se, é a reinserção econômica e social das
suas usuárias
Para as participantes, o grupo as ensinou um novo trabalho - o artesanal. Muitas
aprenderam este labor nos seus encontros semanais, e hoje têm uma profissão, uma renda e
sentem prazer em realizá-la, tendo suas reuniões como um espaço onde elas se tornam
“verdadeiras artistas”.
“No grupo eu aprendi a fazer bordado, boneca... quando eu entrei
não sabia nem botar uma linha. Hoje eu faço boneca, aprendi no
grupo... tenho um trabalho... tenho meu dinheirinho...” Mariza (U)
“Quando tá uma triste, a gente senta e conversa, somos irmãs, não
tem rivalidade entre nós... no grupo aprendi a bordar, pintar rabo de
macaca, a gente faz fuxico, fazer boneca, somos umas artistas... a
gente quando tá trabalhando no grupo, a cabeça tá ocupada, não tá
pensando besteira.” Julia (U).
O trabalho não apenas uma produção material, mas também uma produção do sujeito
em si7. Então, precisamos de espaços nos quais se possa, além de dizer, conversar, desabafar,
fazer algo, ter uma atividade. Na avaliação de um serviço em saúde mental, deve-se
considerar não apenas a diminuição dos sintomas, mas também a inserção do usuário no
mundo do trabalho21.
As pessoas com transtornos mentais graves acusam taxas de desemprego mais altas
dos que aquelas com deficiências físicas, além de serem discriminados e excluídos da
sociedade19. O trabalho, dessa forma, deve ser usado como mecanismo de reintegração da
comunidade, deve ser a ponte que levará os usuários à reinserção econômica e social. Júlia
(U) descreve bem a importância do seu labor:
“Muitos acham que é um trabalho simples, mais para mim é muito
importante... depois que eu tou trabalhando, ganhando meus
troquinhos, posso escolher minhas coisinhas, posso comprar umas
besteirinhas, é pouco, mais ganho com meu trabalho, ninguém ta me
dando”.
Sabemos que as políticas públicas devem maximizar as oportunidades de empregos
para toda a população e reter as pessoas na força trabalhadora, principalmente por causa da
associação entre perda do emprego e aumento do risco de transtornos mental e suicídio19.
Seria
interessante
que
as
políticas
governamentais
promovessem incentivos
aos
empregadores, para que estes contratassem pessoas com transtornos mentais. Porém, vivemos
em um país onde impera o desemprego, e não podemos cruzar nossos braços diante da trágica
realidade brasileira. É fundamental que cada comunidade descubra como reduzir esse
desemprego, seja no artesanato, no teatro, na informática, na dança... o importante é adotar
estratégias para minimizar esse mal que assola nosso país e que é uma das possíveis causas
dos transtornos mentais e de comportamento.
CONCLUSÃO
Iniciamos esta pesquisa partindo de inquietações com relação a um tema complexo
como o de Saúde Mental, que representa, hoje, um desafio na construção de um novo modelo
de saúde.
Nesse modelo a humanização está prevista como fator essencial na prestação de
qualquer assistência à saúde, e, para que ocorra, pressupõe que o ser humano seja visto de
forma integral, no âmbito social, cultural, biológico, familiar, psicológico.
Objetivando construir, efetivamente essa assistência integral, os que se envolvem com
a matéria tem conferido uma importância fundamental aos transtornos psicológicos e
comportamentais, que já configuram temas de estudos que buscam identificá-los os avanços e
retrocessos concernentes às ações realizadas, bem como avaliar se essa integralidade vem
sendo realmente atingida.
O ESF, dentro deste cenário, ocupa lugar de destaque, pois tem por base a vigilância à
saúde, onde a família é objeto precípuo de atenção. E como trabalhar os transtornos mentais,
senão intervindo nos núcleos familiares, visto que, na maioria das vezes, é a própria família
que exclui e retira esses portadores do convívio com a comunidade.
Ao elegermos Saúde Mental, para pesquisar, esperamos contribuir para a Reforma
Psiquiátrica, evidenciando a presença da Atenção Básica na produção dessa reforma, bem
como sua parceria com outros setores, pois descobrimos que é possível revolucionar o
cotidiano, questionar os mecanismos de dominação/exploração, mesmo quando ainda persiste
o modelo hegemônico de produzir serviços de saúde no nosso país.
Verificamos em nosso estudo, existir já uma preocupação dos profissionais, que
assumem mesmo uma responsabilidade, quando intentam buscar soluções alternativas para o
tratamento dos transtornos mentais e comportamentais. Isto é visível na bem sucedida
experiência relacionada à estratégia do atendimento aos doentes mentais do Pedregal (Eq.
Amarela). É importante enfatizar que, mesmo sendo escassos esses serviços, a realidade
começa a mudar uma vez que o movimento da Reforma Psiquiátrica já se encontra atuando
em Campina Grande, visto que o município encontra-se sob intervenção, do Ministério da
Saúde desde novembro de 2004, onde o Ministério da Saúde/Área Técnica, de Saúde e as
SES/Coordenação Estadual de Saúde Mental, ONGs, Fundações e a SMS de Campina Grande
vêm possibilitando desdobramentos favoráveis à implantação de uma rede de cuidados
substitutiva aos hospícios em todo território estadual.
Tudo isso nos mostra que é possível trabalhar saúde mental e como é resolutivo.
Descrevemos a implantação do Grupo de Saúde Mental na UBSF do Pedregal, bem como as
concepções sobre saúde e doença mental, e o significado do grupo para as profissionais e as
usuárias. Conseguimos alcançar nossos objetivos, e mostramos que outros serviços começam
a ser implantados em Campina Grande. No término da nossa pesquisa, a implantação dos
serviços substitutivos, estava bastante avançada, já tendo conseguido suprir faltas pequenas
ou enormes, organizar espaços, promover altas orientadas, organizar o processo de trabalho,
selecionar e treinar os recursos humanos, sair do hospital e planejar um novo serviço. É muito
gratificante perceber que o nosso município começa a se preocupar em descobrir quem são
esses doentes mentais, qual a origem familiar deles, criar serviços extra-hospitalares para
restabelecer seus laços vitais, para que sua cidadania, seu direito de escolha e seu convívio
familiar sejam devolvidos.
Concretamente, essa pesquisa significou momentos de lazer, cansaço, mas acima
de tudo fez-nos refletir sobre essas pessoas que vivem, há tanto tempo, expulsas da sociedade,
sem cidadania, sem direito à escolha, sem identidade; fez-nos ter a certeza que podemos
trabalhar e mudar a “cara” da doença mental no nosso município e, por que não dizer, no
nosso país; fez-me redefinir a compreensão dos tratamentos psiquiátricos, fez-me lutar contra
os medos que a sociedade incutiu na minha mente, e que só existem lá. Fez-nos, finalmente
acreditar que louco é o mundo e loucura é achar que existe normalidade.
REFERÊNCIAS
1.BRASIL. Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:
terceiro a quarto ciclo: apresentação dos temas transversais/Secretária de educação
fundamental − Brasília: MEC/SEF, 1998. p.245-283.
2. TROVÃO, A. L. C. “É como se fosse uma caverna escura:” representações sociais sobre
saúde mental elaboradas por profissionais do PSF, Boqueirão – PB. Campina Grande, 2003.
197p. Dissertação (mestrado) Universidade Estadual da Paraíba
3. GUIMARÃES, J. et al. Desinstitucionalização em saúde mental: considerações sobre o
paradigma emergente. Saúde em Debate, v. 25, n.58, p.5-11, maio/ago. 2001
4. COSTA, H. Saúde mental e economia solidária: Inclusão social pelo trabalho. Brasília:
Editora do Ministério da Saúde, 2005, 134pp.
5. BRASIL. Informe Técnico Institucional. Programa Saúde da Família. Rev. Saúde pública.
v.34, n.3, 316-319, 2000.
6. COLVERO, L. A.; OLIVEIRA, M. A. F. A saúde mental no programa de saúde da família.
Manual de enfermagem – Programa de saúde da família. São Paulo: Ministério da
Saúde/USP, 2001, 228pp.
7. CAMPOS, R. O. Clínica: a palavra negada – sobre as práticas clínicas nos serviços
substitutivos de saúde mental. Saúde em Debate, v. 25, n.58, p.98-111, maio/ago. 2001
8. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia Prático do
Programa de Saúde da Família. Ministério da Saúde, Brasília, 2001. 129pp.
9. VASCONCELOS E.M. Educação popular e a atenção à saúde da família. São Paulo:
Hucitec, 1999.
10. BRASIL. Resolução 196 de 10 de outubro de 1996. Dispõe sobre as diretrizes e normas
regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União. Brasília,
16 out. 1996.
11. SILVEIRA, M.F.A. Atenção Básica à Saúde: a transição da cultura do atendimento à
doença para a cultura da humanização da vida. Relatório Final. Programa Institucional de
Bolsa de Iniciação Científica. Campina Grande UEPB, 2002.
12. TURATO, E. R. Tratado da metodológia da pesquisa clínico-qualitativa: construção
teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas de saúde e humanas.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2003
13. MATTINGLY C; GARRO, LC. Introduction. Soc. Sci. Med.; v. 38, n.6, p. 771-4, 1994.
14. SILVEIRA, M.F.A. A Sagração das Flores: um ritual para encantar o corpo da mulher no
cuidado. São Paulo, 2001. 182 p.Tese (doutorado) – Escola de Enfermagem, Universidade de
São Paulo.
15. BETTS, J. Considerações sobre o que é humano e o que é humanizar. 2002, [On Line].
Disponível em www.humaniza.com.br. Acesso em 06/10/2002.
16. CAMPOS, F.C.B., Relatório sobre desenvolvimento e gestão de sistemas de serviços e
saúde. Campina Grande: outubro de 2004.
17. BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da Família: uma estratégia para a reorientação do
modelo assistencial. Brasília, Ministério da Saúde, 1997.
18. LABATE , R. C.; ROSA, W. A. G. A contribuição da saúde mental para o
desenvolvimento do PSF. Rev. Bras. Enf. Brasília (DF). v.56, n.3, p.230-235, maio/jun. 2003.
19. Organização Mundial de Saúde − OMS. Relatório sobre a Saúde no Mundo. Saúde
Mental: nova concepção, nova esperança. Organização Pan-Americana, 2001.
20. ZAGO, M. M. F.; MUNARI, D. B. Grupos de apoio/suporte e grupos de auto-Ajuda:
aspectos conceituais e operacionais,semelhanças e diferenças. R.Enferm. UERJ. Rio de
Janeiro. v5, n.1, p.359-366, maio, 1997.
21. ALMEIDA, M. C. P. et al. Desinstitucionalização em saúde mental: considerações sobre
o paradigma emergente. Saúde em Debate, v.25, n.58, p.5-11, maio/agos. 2001.
Download

o grito das mulheres foi ouvido: experiência do grupo de saúde