ARQUEOLOGIA
P Ú B L I C A
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Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
ARQUEOLOGIA
P Ú B L I C A
EDITORES
Aline Carvalho (LAP/NEPAM/UNICAMP)
Pedro Paulo A. Funari (LAP/NEPAM/UNICAMP)
COMISSÃO EDITORIAL
Ana Pinon (Universidad Complutense de Madrid, Espanha)
Andrés Zarankin (UFMG)
Erika Marion Robrahn-González (Documento - Patrimônio Cultural, Arqueologia e Antropologia Ltda)
Gilson Rambelli (LAAA / NAR / UFS)
/RXUGHV©'RPLQJXH]©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©+DYDQD©&XED
Lúcio Menezes Ferreira (UFPel)
Nanci Vieira Oliveira (UERJ)
Pedro Paulo A. Funari (NEPAM/UNICAMP)
Charles Orser (Illinois State University, EUA)
CONSELHO EDITORIAL
Bernd Fahmel Bayer (Universidad Nacional Autónoma de México)
Gilson Martins (UFMS)
José Luiz de Morais (MAE/USP)
Laurent Olivier (Université de Paris)
0DUWLQ©+DOO©&DSH©7RZQ©8QLYHUVLW\©6RXWK©$IULFD
6LDQ©-RQHV©8QLYHUVLW\©RI©0DQFKHVWHU
COMISSÃO TÉCNICA
Gabriela Berthou de Almeida
9LFWRU©+HQULTXH©GD©6LOYD
Marcos Rogério Pereira
PROJETO GRÁFICO
Luiza de Carvalho
SUMÁRIO
4 EDITORIAL
ARTIGOS
5
Arqueologia, Educação e Museus: uma proposta para estágios em História
Lúcio Menezes Ferreira, Diego Lemos Ribeiro e Jaime Mujica Sallés
13
Arqueologia Participativa: uma experiência com Indígenas Guaranis
20
Considerações conceituais e metodológicas sobre projetos de educação patrimonial
32
44
52
Nanci Vieira de Oliveira, Pedro Paulo A. Funari e Leandro K. Mendes Chamorro
)iELR©9HUJDUD©&HUTXHLUD©0DULFLDQD©=RU]L©/XtVD©/DFHUGD©0DFLHO©H©-H]XtQD©.RKOV©6FKZDQ]
Arqueologia e nacionalismo espanhol: A prática arqueológica durante o franquismo
(1939-1955)
5DIDHO©5X½QR
%RXGLFD«H«R«XVR«GH«VXD«¿JXUD«IHPLQLQD
7DLV©3DJRWR©%pOR
Registro arqueológico como instrumento de memória social
Rossano Lopes Bastos
RESENHA
63
FUNARI, Pedro Paulo; PIÑON, Ana. A temática indígena na escola: subsídios para os
professores.
$OLQH©9LHLUD©GH©&DUYDOKR©H©9LFWRU©+HQULTXH©GD©6LOYD©0HQH]HV
ENTREVISTA
68
Perspectivas da Arqueologia Pública no Brasil e em Cuba. Entrevista com a professora
Lourdes Dominguez
Isabela Backx
E D I TO R I A L
Após dois anos, retomamos o projeto e a publicação da Revista Arqueologia
Pública! Continuamos com a proposta de abrir espaços para discussões democráticas e
plurais neste campo arqueológico. Reconhecemos que não há consensos sobre o que é
Arqueologia Pública, mas, independente dos consensos, acreditamos nesta Arqueologia
como uma prática social engajada e que tem o compromisso da construção de diálogos e
VLJQL½FDo}HV©VREUH©$UTXHRORJLD©0HPyULD©3DWULP{QLR©H©,GHQWLGDGHV©HQWUH©RXWURV©WDQWRV©
HL[RV©KHWHURJrQHRV©H©DPDOJDPDGRV©FRP©GLIHUHQWHV©FRPXQLGDGHV©©
'H©QRYLGDGH©DSUHVHQWDPRV©XP©IRUPDWR©GLIHUHQWH©SDUD©D©Revista Arqueologia Pública.
Além do novo layout (tanto para capa como para a disposição dos artigos), optamos
por publicar a Arqueologia Pública apenas em sua versão digital. A proposta é que ela
possa chegar a um grande número de leitores e instituições ultrapassando a barreira da
distribuição da versão impressa. Para os leitores há duas opções de acesso à Arqueologia
Pública: o número completo da Revista©GLVSRQLELOL]DGR©QR©IRUPDWR©SGI©H©D©YHUVmR©GRV©
DUWLJRV©DYXOVRV©HP©SGI©$PEDV©DV©YHUV}HV©HVWmR©GLVSRQLELOL]DGDV©QR©VLWH©GR©/DERUDWyULR©GH©
Arqueologia Pública Paulo Duarte (LAP/Nepam/Unicamp). Assim, o leitor poderá escolher
R©IRUPDWR©TXH©OKH©SDUHoD©PDLV©LQWHUHVVDQWH©H©FRQYHQLHQWH©
Nesta edição, reunimos artigos que versam sobre as relações históricas entre
museus, arqueologia e educação (Lúcio Menezes Ferreira, Diego Lemos Ribeiro e Jaime
Mujica Sallés); acerca do conceito de Arqueologia participativa e sobre a Arqueologia
Participativa com os índios de etnia guarani no estado do Rio de Janeiro (Nanci Vieira
de Oliveira, Pedro Paulo A. Funari, Leandro K. Mendes Chamorro); das questões teóricas
e metodológicas sobre educação patrimonial (Fábio Vergara Cerqueira, Mariciana
=RU]L©/XtVD©/DFHUGD©0DFLHO©-H]XtQD©.RKOV©6FKZDQ]©GDV©UHODo}HV©HQWUH©$UTXHRORJLD©H©R©
Nacionalismo, centrando-se no caso espanhol durante o regime do General Francisco
)UDQFR©5DIDHO©5X½QR©VREUH©$UTXHRORJLD©JrQHUR©H©XVRV©GR©SDVVDGR©7DLV©3DJRWR©%pOR©H©
SRU©½P©XPD©UH¾H[mR©WHyULFD©PHWRGROyJLFD©H©SRpWLFD©DFHUFD©GD©WHPiWLFD©GR©SDWULP{QLR©
cultural e suas relações com o patrimônio arqueológico (Rossano Lopes Bastos). Além
dos artigos, o leitor encontrará uma resenha do livro FUNARI, Pedro Paulo; PIÑON, Ana. A
temática indígena na escola: subsídios para os professores. São Paulo: Editora Contexto, 2011
HVFULWD©SRU©$OLQH©&DUYDOKR©H©9LFWRU©+HQULTXH©0HQH]HV©H©XPD©HQWUHYLVWD©FRP©D©DUTXHyORJD©
cubana Lourdes S. Domingues sobre Arqueologia Pública (produzida por Isabela Backx).
Esperemos que todos aproveitem esta edição e que se sintam convidados a
participar dos próximos números com textos, resenhas, entrevistas, indicações de leituras
H©FDUWD©GRV©OHLWRUHV©3DUD©½QDOL]DU©YDOH©UHIRUoDU©RV©DJUDGHFLPHQWRV©j©HTXLSH©GR©/DERUDWyULR©
de Arqueologia Pública Paulo Duarte, com seus diversos colaboradores, pelo trabalho
realizado. E que a valorização dos “espíritos moços” e “combativos” descritos por Paulo
Duarte nos sirvam de inspiração para a construção de nossos diálogos.
Boa leitura!
Aline Carvalho e Pedro Paulo Funari
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Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
A R Q U E O LO G I A , E D U C A Ç Ã O E M U S E U S :
UMA PROPOSTA PARA ESTÁGIOS EM HISTÓRIA
“NO CÉU, APRENDER É VER; NA TERRA, É LEMBRAR-SE”
(PÍNDARO)
AUTOR
Lúcio Menezes Ferreira
Laboratório Multidisciplinar de Investigação
Arqueológica – LÂMINA/UFPEL; pesquisador
do CNPq.
Contato: [email protected]
RESUMO
INTRODUÇÃO
5
Diego Lemos Ribeiro
Laboratório Multidisciplinar de Investigação
Arqueológica – LÂMINA/UFPEL;
Contato: [email protected]
Jaime Mujica Sallés
Laboratório Multidisciplinar de Investigação
Arqueológica – LÂMINA/UFPEL;
Contato: [email protected]
O objetivo desse artigo é discutir uma proposta para estágio em história
em museus de arqueologia. Após uma discussão sobre as relações históricas
entre museus, arqueologia e educação, mostra-se como o estágio em história
nos museus de arqueologia pode realizar-se na interação entre professores,
alunos e as comunidades locais.
Palavras-chave: museus de arqueologia, estágio em história, comunidades.
6HOPD© *DUULGR© 3LPHQWD© © D½UPD© TXH© D© ½QDOLGDGH© GR© HVWiJLR© HP©
história é aproximar os futuros professores da realidade em que atuarão. O
HVWiJLR©QmR©p©PHUR©SyOR©SUiWLFR©GR©FXUVR©GH©KLVWyULD©0DV©XPD©UH¾H[mR©VREUH©D©
prática, à medida que é conseqüente à teoria e aos métodos estudados durante
R©FXUVR©'HYH©FRQVLVWLU©QXPD©UH¾H[mR©VREUH©H©D©SDUWLU©GRV©FRQWH[WRV©VRFLDLV©H©
culturais das escolas. O estágio não é a prática docente propriamente dita,
mas a teoria sobre a prática docente. E será tão mais formador do professor
TXDQGR©WRGDV©DV©GLVFLSOLQDV©GR©FXUVR©GH©KLVWyULD©FRQ¾XtUHP©SDUD©D©UHDOLGDGH©
escolar.
É preciso enfatizar, contudo, que a realidade escolar não é a única viável
j©SUi[LV©GR©HVWiJLR©HP©KLVWyULD©2©GHEDWH©D©OHLWXUD©H©D©LQLFLDomR©QR©RItFLR©GH©
professor de história relacionam-se, além da escola, a ambientes diversos:
as editoras, a produção de materiais didáticos e paradidáticos, montagem
GH© H[SRVLo}HV© HVWXGRV© UHODWLYRV© j© LGHQWL½FDomR© DQiOLVH© H© GHVFULomR© GR©
patrimônio cultural, serviço educativo em museus de arqueologia, de história,
artes e ciências, dentre outras possibilidades de desenvolvimento de estágios
supervisionados.
Como ninguém pode (e talvez tampouco tenha a pretensão de) conhecer
H[DXVWLYDPHQWH©WRGRV©HVVHV©DPELHQWHV©GH©DWXDomR©JRVWDUtDPRV©GH©QRV©GHWHU©
QXPD© LQVWLWXLomR© HVSHFt½FD© RV© PXVHXV© HVSHFLDOPHQWH© RV© GH© DUTXHRORJLD©
Visamos a mostrar que os museus de arqueologia, ou aqueles que possuam
coleções arqueológicas, podem ser extremamente pertinentes para a práxis de
estágio em história. Para tanto, esquadrinharemos as relações entre museus,
arqueologia e educação. Ao fazê-lo, nosso objetivo é demonstrar que estágios
VXSHUYLVLRQDGRV©HP©PXVHXV©GH©DUTXHRORJLD©SURSLFLDP©D©SHVTXLVD©FLHQWt½FD©H©
a produção de conhecimentos em consonância interativa com os interesses
das comunidades.
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
MUSEUS,
ARQUEOLOGIA
E EDUCAÇÃO
O primeiro passo para um estágio consistente em museus de arqueologia
p©LQWHLUDUõVH©GRV©PyYHLV©SROtWLFRV©TXH©WUDPDUDP©D©KLVWyULD©GDV©UHODo}HV©HQWUH©
museus, arqueologia e educação. Tais relações recuam, no mundo ocidental,
DR©½QDO©GR©VpFXOR©;9,,,©D©SDUWLU©GR©PRPHQWR©HP©TXH©RV©0XVHXV©VH©IDYRUHFHUDP©
pelo desenvolvimento das ciências e, particularmente, da arqueologia. O
IDVFtQLR© SHORV© REMHWRV© SURYHQLHQWHV© GDV© HVFDYDo}HV© QD© YHUGDGH© IDVFtQLR©
originado no Renascimento, mas que ganhou maior vitalidade com as
descobertas de Pompéia e Herculano e dos primeiros fósseis humanos),
DV© FODVVL½FDo}HV© H© D© VLVWHPiWLFD© GD© DUTXHRORJLD© D© SDVVDJHP© GDV© FROHo}HV©
para o controle do Estado, permitiram uma nova organização dos museus.
Inaugurou-se, desde então, uma nova interação com o público, marcada
essencialmente pela Educação (Poulout, 1983:13-33.). Os museus tornaramse, assim, extremamente populares; calcula-se que, no decorrer dos séculos
;,;©H©;;©HQWUH©FLQFR©H©GH]©SRU©FHQWR©GD©SRSXODomR©PXQGLDO©YLVLWDYD©RV©PXVHXV©
(Pyeson e Sheets-Pyeson, 1999: 55).
Mas qual habitus os museus pretendiam inculcar nas populações que
visitavam os museus? Neste ponto, destaca-se um grande evento da História
SROtWLFD© H© FLHQWt½FD© D© LQYDVmR© QDSROH{QLFD© DR© (JLWR© HP© © 2© KLVWRULDGRU©
da ciência Patrick Petitjean argumenta que a expedição napoleônica ao Egito
PDUFRX©XPD©LQ¾H[mR©QD©KLVWyULD©GDV©YLDJHQV©FLHQWt½FDV©'HVGH©HQWmR©R©WHUPR©
expedição, de origem militar, começa a ser empregado nas ciências de campo.
$OpP©GD©QHFHVVLGDGH©GH©HVWXGDU©RV©REMHWRV©FLHQWt½FRV©HP©VHX©FRQWH[WR©HODV©
WLQKDP©R©½WR©GH©SUHSDUDU©R©WHUUHQR©H©OHJLWLPDU©R©HPSUHHQGLPHQWR©FRORQL]DGRU©
As expedições enlaçaram, assim, uma forte aliança entre Estado e ciência, tanto
por sua organização como por sua estratégia colonialista subjacente (Petitjean,
©©'HVWD©H[SHGLomR©UHVXOWRX©D©PRQXPHQWDO©'HVFULomR©GR©(JLWR©©
(Description de l’Egypte). Com seus nove volumes de texto e quatorze de
pranchas, a Descrição do Egito apresenta não propriamente descrições, mas
DWULEXLo}HV©GH©LGHQWLGDGH©6DLG©©õ©$V©SUDQFKDV©LOXVWUDWLYDV©VXDV©
pinturas de monumentos decrépitos e empoeirados, são representações que
IXQFLRQDP©FRPR©XPD©FRQTXLVWD©VLPEyOLFD©GD©JHRJUD½D©
Napoleão reproduziu essa conjugação entre Estado e ciência em outras
campanhas militares. Às campanhas integravam-se cientistas e eruditos, que
se apropriavam de livros, pinturas, espécimes botânicas, mineralógicas e
zoológicas, além de artefatos arqueológicos. Todo esse espólio era exibido
em marchas pela cidade de Paris: os artefatos eram mostrados à população
em carros abertos, e do cortejo participavam militares, membros do Estado e
funcionários de museus (Alexander e Alexander, 2008: 29). Essa carnavalização
GD©FRQTXLVWD©HTXLYDOLD©D©XPD©SHGDJRJLD©GD©GRXWULQDomR©HP©TXH©RV©VtPERORV©
dos artefatos forjavam o sentimento patriótico de um Estado forte, aglutinador
das massas. A população, a partir de então, imbuiu-se do habitus da grandeza
da missão imperial.
As campanhas expansionistas de Napoleão levaram aos museus da
França o despojo e a pilhagem oriundos da lógica colonialista. Para isso se
montou, no Museu do Louvre, por exemplo, toda uma seção dedicada à
Egiptologia, dentre outras que denotavam o poderio colonialista francês.
6
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
Mas, além da França, outros museus metropolitanos, como os da Alemanha,
,QJODWHUUD©H©(VWDGRV©8QLGRV©LQVWLWXtUDP©D©QDWXUDOL]DomR©GD©YRFDomR©LPSHULDO©
Isto é particularmente verdadeiro no que se refere à montagem de coleções
HP© $UTXHRORJLD© FOiVVLFD© 0DUWLQ© %HUQDO© © DUJXPHQWD© TXH© D© IXQomR©
primordial da Arqueologia clássica, nos museus da Alemanha, Inglaterra e
Estados Unidos, foi a de acicatar a segregação “racial”, a dominação colonial e
a destilação de uma “natural” superioridade ocidental. Os museus mostravam
que a História do Ocidente derivava diretamente (quase geneticamente!) de
povos essencialmente racionais e democratas – os gregos.
A grandeza da missão imperial, exposta nos museus, inculcava e
naturalizava também o sentimento nacionalista. As discussões especializadas
enfatizam que a inserção da Arqueologia em museus do mundo, nos séculos
;,;© H© ;;© GHXõVH© VRE© R© SULPDGR© GR© QDFLRQDOLVPR© &I© S© H[© 'tD]õ$QGUHX© H©
Champion : 1996 ; Kohl e Fawcett: 1995). A arqueologia institucionalizou-se
vocalizando identidades nacionais. Por meio da cultura material, a arqueologia
IRUQHFHX©PDWpULDõSULPD©SDOSiYHO©SDUD©D©HODERUDomR©GH©VtPERORV©QDFLRQDLV©H©
vinculações ancestrais, enraizando, por meio da educação, o sentimento de
pertença a uma nação e a um território nacional.
$©ELEOLRJUD½D©HVSHFLDOL]DGD©GHPRQVWUD©DLQGD©TXH©HP©VXDV©UHODo}HV©FRP©
a arqueologia, o nacionalismo e o colonialismo foram linhas de força que
atuaram conjuntamente (Lyons e Papadopoulos, 2002). É que o nacionalismo,
FRPR© GLVVH© 7LPRWK\© %UHQQDQ© © IUXWL½FRX© QR© VROR© GD© FRQTXLVWD© &RPR©
agenciadores e modeladores do mundo moderno, o nacionalismo e o
colonialismo nunca se desassociaram. A construção da idéia de nação visou
D©KRPRJHQHL]DU©DV©KHWHURJrQHDV©UHDOLGDGHV©VRFLDLV©GR©VpFXOR©;,;©DJLX©FRPR©
XP© PHFDQLVPR© FHQWUtIXJR© D© SUHYHQLU© R© UHVVXUJLPHQWR© GDV© DQWLJDV© GLYLV}HV©
baseadas no sentimento de pertença a uma comunidade nuclear.
(VVD© RSHUDomR© DQFRURXõVH© ½UPHPHQWH© QDV© SROtWLFDV© FRORQLDLV© H©
expansionistas, as quais concebiam o Estado e a Nação como um centro
GH© ODUJD© IRUPDomR© GH½QLGRV© HVSHFL½FDPHQWH© HP© RSRVLomR© j© DOWHULGDGH©
GRV©JUXSRV©FRORQL]DGRV©©'Dt©TXH©DV©H[LELo}HV©DUTXHROyJLFDV©QR©VpFXOR©;,;©
H© ODPHQWDYHOPHQWH© DLQGD© KRMH© ½JXUDUDP© DV© ±FXOWXUDV© SULPLWLYDV²© FRPR©
HQWLGDGHV©IRVVLOL]DGDV©H©QmR©FRPR©FXOWXUDV©YLYDV©H©GLQkPLFDV©HODV©GH½QLDP©
um cânone cultural: os museus eram lugares de exibição do que se tinha
como estrangeiro, exótico, “bárbaro”, ou mesmo indesejado (Harrison: 2006).
Nessa acepção, o museu, como diria Andreas Huyssen, “suportou o olho cego
do furacão do progresso ao promover a articulação entre a nação e a tradição,
a herança e o cânone, além de ter proporcionado a planta principal para a
construção da legitimidade cultural tanto no sentido nacional como universal”
(Huyssen, 1996: 35)
Mas o timbre nacionalista e colonialista das relações entre museus,
arqueologia e educação não se imprimiu somente nas metrópoles colonialistas.
e©SRVVtYHO©YLVXDOL]iõOR©WDPEpP©QD©$PpULFD©GR©6XO©1D©$UJHQWLQD©SRU©H[HPSOR©
HQWUH© © H© © R© *RYHUQR© HQYLRX© H[SHGLo}HV© PLOLWDUHV© SDUD© RV© 3DPSDV©
H© D© 3DWDJ{QLD© iUHDV© DWp© HQWmR© KDELWDGDV© SRU© YiULRV© JUXSRV© LQGtJHQDV© ª©
expedição, apelidada como Conquista do Deserto (quase um homônimo
da Conquista do Oeste dos Estados Unidos), juntaram-se antropólogos
H© DUTXHyORJRV© (QTXDQWR© RV© LQGtJHQDV© HUDP© H[WHUPLQDGRV© SHOR© H[pUFLWR©
antropólogos e arqueólogos coletaram artefatos e crânios. Um museu foi
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
HVSHFLDOPHQWH©FRQVWUXtGR©SDUD©DUPD]HQDU©H©H[LELU©HVWHV©PDWHULDLV©R©0XVHX©
de La Plata (Politis: 1995).
O desejo pelos artefatos dos “bárbaros” duplicou-se nos anelos
SHORV©±YHVWtJLRV©FLYLOL]DGRV²©2V©UHVXOWDGRV©GDV©SHVTXLVDV©DUTXHROyJLFDV©QD©
$UJHQWLQD©QRWDGDPHQWH©DTXHODV©TXH©VH©½]HUDP©QR©1RURHVWH©GR©SDtV©RQGH©
VH©UHYHODYDP©YHVWtJLRV©GH©FLGDGHV©H©UXtQDV©GH©PRQXPHQWRV©FRUSRUL½FDUDP©
a noção de argentinidad, ajudando a formular uma identidade nacional.
,VVR©SULQFLSDOPHQWH©D©SDUWLU©GD©SULPHLUD©GpFDGD©GR©VpFXOR©;;©'HSRLV©GD©
nacionalização dos fósseis e artefatos na Argentina, com a lei de proteção
DR©SDWULP{QLR©GH©©D©$UTXHRORJLD©SDVVD©D©½JXUDU©QRV©UHSRVLWyULRV©par
excellence©GD©D½UPDomR©ULWXDO©GDV©+LVWyULDV©QDFLRQDOLVWDV©RV©OLYURV©GLGiWLFRV©
de História. Neles, apresentavam-se, ainda, os Outros indesejados da
nação: uma série de imagens estereotipadas de “los indígenas bárbaros”,
produzidas graças à Conquista do Deserto (Podgorny, 1999).
OS ESTÁGIOS
EM MUSEUS E O
PÚBLICO
8
A efeciência de uma práxis em estágio supervisionado em museus
depende decisivamente do conhecimento das relações históricas acima
descritas. Os futuros professores de história precisam saber que os
PXVHXV© QmR© VmR© PHURV© OXJDUHV© GH© UH½QDPHQWR© DSROtQHR© RX© JXDUGL}HV©
de preciosidades históricas e artefatos arqueológicos. Os museus, como
mostram os autores dos diversos ensaios reunidos por Peter Stone e
Robert MacKenzie (1994), resultaram de processos de violência: a tomada
GH©XP©WHUULWyULR©VLPEROLFDPHQWH©RX©DWUDYpV©GR©H[pUFLWR©R©H[WHUPtQLR©GH©
populações, a pilhagem da cultura material de “povos primitivos”, a tentativa
de incutir hábitos civis e o habitus da nacionalidade. O conhecimento deste
passado é fundamental para que os alunos possam desvelar os projetos
de poder a que estão ligados os museus de arqueologia que servirem
ao estágio supervisionado. Somente assim eles poderão propor projetos
alternativos de pesquisa que congreguem as comunidades locais e a
pletora das memórias sociais.
Mas como proceder a este estágio? Essa questão ata-se fortemente às
discussões de teoria e metodologia do ensino de história. De modo geral,
FRPR©QRV©PRVWUDP©GLYHUVDV©DQiOLVHV©QD©)UDQoD©%UXWHU©©QRV©(VWDGRV©
Unidos (Seixas, 2000), e as feitas no Brasil, a partir dos anos 1980, por vários
historiadores (p. ex: Marcos A. da Silva, Déa Fenelon, Elza Nadai, Circe
Bittencourt, Conceição Cabrini, Vavy Pacheco Borges etc), há que superar
a dicotomia entre ensino e pesquisa. Acata-se o pressuposto de que o
HQVLQR©GH©KLVWyULD©QmR©FRUUHVSRQGH©j©MXVWDSRVLomR©QHP©j©VLPSOL½FDomR©GD©
produção acadêmica. Compreende-se que o ponto de partida das aulas
de história deva resultar da interação entre alunos, professores e do meio
VRFLDO© 1XPD© SDODYUD© R© IXQGDPHQWDO© p© ID]HU© D¾RUDU© D© KLVWRULFLGDGH© GRV©
próprios alunos.
Reconhece-se, portanto, que ensinar a história é também ensinar
o seu método, acatando-se a premissa de que o conteúdo não pode ser
tratado de forma isolada. Deve-se, pois, menos ensinar quantidades e
fatos, e mais ensinar a pensar historicamente (Segal, 1984). Compreendese, nesta linha, que os alunos e professores são sujeitos da história; agentes
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
que interagem na construção do movimento social. Assim, enfatiza-se a
FRPSUHHQVmR© GD© KLVWyULD© FRPR© SURFHVVR© FRPR© QDUUDWLYD© FRQVWUXtGD© VREUH©
o passado e o presente; como interpretação das diferentes perspectivas,
instituições e memórias sociais.
© 2V©HVWiJLRV©HP©PXVHXV©GH©DUTXHRORJLD©D½QDGRV©FRP©HVVHV©SUHVVXSRVWRV©
GR© HQVLQR© GH© KLVWyULD© SRGHP© OHYDU© D© XPD© SUi[LV© GH© UH¾H[mR© SHVTXLVD© H©
produção de conhecimento. Além de desvelar os projetos de poder a que se
ligam os museus locais, os alunos entrariam em contato com os sentidos da
narrativa material da instituição. Descobririam, ademais, que um museu de
arqueologia é muito mais do que a exposição aberta ao público. Ele contém (ou
deveria conter!) documentação escrita e reserva técnica, que podem e devem
ser pesquisadas. Mutatis mutandis, professores e alunos poderiam realizar
pesquisas e trabalharem em consonância com as comunidades. O intuito seria
o de montar exposições alternativas e dar voz a memórias coletivas que foram
silenciadas nos museus.
© 7UDWDõVH© HP© ~OWLPD© DQiOLVH© GH© XPD© WRPDGD© GH© SRVLomR© SROtWLFD© GRV©
museus de arqueologia no que concerne às representações sobre o passado.
Na medida em que há diversas versões e contradições sobre o passado, qual
p© D© SRVLomR© LGHROyJLFD© TH© RV© SUR½VVLRQDLV© GH© PXVHXV© GHYHP© DVVXPLU© H© DR©
lado deles, o estagiário de história? Sob esse ângulo, concordamos com a
proposição de Sarah Colley: “Em uma sociedade plural e democrática, deveria
haver espaço para pessoas expressarem opiniões diferentes e tolerarem as
crenças de cada um. Museus e interpretações in situ com abordagem pósmoderna estimulam a multivocalidade, na qual diferentes versões da história
e visões sobre o passado são consideradas, mesmo que em oposição” (Colley,
2002: 83).
E mesmo nos lugares onde não há museus de arqueologia, por mais
SDUDGR[DO©TXH©SRVVD©SDUHFHU©HVVH©WUDEDOKR©HP©HVWiJLR©p©SRVVtYHO©$TXL©LQYRFDõ
se a alternativa de congregar diferentes linguagens no ensino de história.
2QGH©QmR©Ki©PXVHXV©QDGD©LPSHGH©TXH©RV©VtWLRV©GRV©PXVHXV©QD©Internet sejam
visitados para que se visualize o passado e o presente imperial, por exemplo,
do Louvre ou do British Museum. De outro lado, principalmente nas regiões
RQGH©Ki©IRUWH©KHUDQoD©LQGtJHQD©H©ODERUDWyULRV©GH©$UTXHRORJLD©FRPR©y©FDVR©
de algumas das regiões brasileiras), poder-se-ia, usando-se programas de
computador, como o Power Point, montarem-se “exposições virtuais”, com
IRWRJUD½DV©GH©FROHo}HV©DUTXHROyJLFDV©H©FRPSRQGRõVH©WH[WRV©GLGiWLFRV©VREUH©
FXOWXUD©PDWHULDO©H©KLVWyULD©LQGtJHQD©
O trabalho didático em museus de arqueologia, ao transformar os
futuros professores e alunos em produtores de conhecimento, ao dissolver,
VHPSUH© TXH© SRVVtYHO© DV© YLVLWDV© JXLDGDV© HP© SDUWLFLSDomR© DWLYD© OHYD© j©
confrontação com o mundo material e subverte o discurso da autoridade
GD©PHPyULD©R½FLDO©%DNHU©©8P©H[HPSOR©IUXWtIHUR©D©HVWH©UHVSHLWR©põQRV©
GDGR©SHORV©DERUtJHQHV©DXVWUDOLDQRV©'HVGH©RV©DQRV©©QD©YHUGDGH©RV©DQRV©
©UHSUHVHQWDP©R©FRUROiULR©GH©XP©SURFHVVR©GH©UHVLVWrQFLD©DQWLFRORQLDO©TXH©
UHPRQWD© DR© LQtFLR© GD© FRORQL]DomR© LQJOHVD© QD© $XVWUiOLD© ¯© &I© S© H[© 5H\QROGV©
©RV©DERUtJHQHV©DXVWUDOLDQRV©OXWDP©SHOD©UHSDWULDomR©GH©VHX©SDWULP{QLR©
arqueológico. Com o apoio de arqueólogos e curadores de museus, os
DERUtJHQHV©HP©PHDGRV©GRV©DQRV©©PRQWDUDP©H[SRVLo}HV©GHQXQFLDQGR©DV©
SROtWLFDV©FRORQLDLV©H©GH©H[WHUPtQLR©D©TXH©IRUDP©VXEPHWLGRV©SHOR©FRORQLDOLVPR©
9
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
inglês. Muitos australianos (que se concebiam como descendentes dos
LQJOHVHV©GHVFRQKHFLDP©HVVH©SDVVDGR©GH©H[WHUPtQLR©H©D©FUXH]D©GR©SURFHVVR©
colonial da Austrália. O que gerou a promoção de um amplo debate em várias
instituições de ensino da Austrália. O resultado mais imediato foi a inclusão
GHVWDV©GLVFXVV}HV©VREUH©R©SDVVDGR©DERUtJHQH©HP©PDQXDLV©GLGiWLFRV©6LPSVRQ©
2001).
Os estágios em museus de arqueologia, ao promoverem a pesquisa e
D©UH¾H[mR©SRGHUmR©SRLV©FRQFUHWL]DU©XPD©VpULH©GH©UHDOL]Do}HV©LQWHUDomR©FRP©
as memórias sociais das comunidades locais; produção de materiais didáticos;
montagens de exposições alternativas, nos próprios museus, em painéis ou por
meio de programas de computador. Os estágios em museus podem mesmo
alavancar o desenvolvimento de uma arqueologia pública, uma vez que ela
dedica-se, como diz Nick Merriman, a toda a gama de implicações de poder
da disciplina, do cuidado pelo patrimônio aos direitos humanos (Merriman:
2004).
Cabe, também, ao estagiário de história, ter conhecimento sobre os
FyGLJRV© GHRQWROyJLFRV© GRV© SUR½VVLRQDLV© GH© PXVHXV© 3ULQFLSDOPHQWH© QR© TXH©
se refere ao tratamento dispensado aos restos humanos e aos materiais de
VLJQL½FDGR© ULWXDO© 6HJXQGR© R© &yGLJR© GH© eWLFD© SDUD© 0XVHXV© GRFXPHQWR©
basilar do Conselho Internacional de Museus (ICOM), tal tipologia de acervo
não deveria se limitar à curiosidade, da mesma forma que a sua pesquisa e
H[LELomR© GHYHP© VHU© IHLWDV© QmR© VRPHQWH© SDUD© RV© FROHJDV© GH© SUR½VVmR© PDV©
também, para os membros de uma comunidade em particular. Ainda segundo
esse documento, é necessário que as práticas museais sobre esses materiais,
FRQVLGHUDGRV©VHQVtYHLV©VHMDP©IHLWDV©FRP©WDWR©H©UHVSHLWR©SHORV©VHQWLPHQWRV©GH©
dignidade humana comum a todos os povos (ICOM, 2004).
CONCLUSÃO
O estágio supervisionado em museus pode instituir uma práxis que
aplique os pressupostos da arqueologia pública: fomentando a pesquisa
H© D© UH¾H[mR© VREUH© RV© SURMHWRV© GH© SRGHU© DWUHODGRV© DRV© PXVHXV© H© GDQGR© YR]©
jV© PHPyULDV© VLOHQFLDGDV© SHODV© QDUUDWLYDV© R½FLDLV© © ([SHULrQFLDV© Mi© UHDOL]DGDV©
em museus de arqueologia evidenciam que, ao trabalhar ao lado das
comunidades, pode-se contemplar múltiplos paradigmas e exibir para o
público os processos de interação, diálogo e tradução cultural. Arqueólogos, ao
incorporarem diferentes memórias sociais e seus conhecimentos tradicionais
QRV©WUDEDOKRV©HP©PXVHXV©DSUHQGHUDP©XPD©SOXUDOLGDGH©GH©VLJQL½FDGRV©VREUH©
os artefatos (Simpson, 2001). Na verdade, o trabalho arqueológico ao lado
das comunidades, o desenvolvimento de narrativas plurais e em contra-pêlo
jV© PHPyULDV© R½FLDLV© DR© VH© FRQVWLWXLU© FRPR© XP© GRV© SULQFLSDLV© REMHWLYRV© GRV©
PXVHXV© FRQWHPSRUkQHRV© )XQDUL© © YHP© VH© GHVHQYROYHQGR© HP© YiULRV©
lugares do mundo, como nas Américas do Sul e Central (Tamanini, 1998;
(QGHUH©H©&XUWRQL©©'RPtQJXH]©©H©QD©ÆIULFD©6HJRE\H©©©
Realizar estágios supervisionados que promovam as discussões e o
trabalho conjunto entre professores, alunos e as comunidades locais, portanto,
deve tornar-se, hoje, componente fundamental na formação do professor de
história.
10
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12
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
A R Q U E O L O G I A PA R T I C I PAT I VA :
UMA EXPERIÊNCIA COM INDÍGENAS GUARANIS
AUTOR
Prof. Dra. Nanci Vieira de Oliveira
UERJ
Contato: [email protected]
RESUMO
INTRODUÇÃO
13
Prof.Dr. Pedro Paulo A. Funari
UNICAMP
Contato: [email protected]
Leandro K. Mendes Chamorro
Aldeia Sapukai
Contato: [email protected]
2©DUWLJR©SURS}H©XPD©UH¾H[mR©VREUH©D©$UTXHRORJLD©SDUWLFLSDWLYD©FRP©RV©
índios de etnia guarani no estado do Rio de Janeiro. Descreve-se, primeiro,
D© IXQGDPHQWDomR© WHyULFD© H© PHWRGROyJLFD© SDUD© HP© VHJXLGD© DSUHVHQWDU©
os indígenas envolvidos na atividade conjunta. As atividades incluem
WDQWR© LQGtJHQDV© FRPR© QmR© LQGtJHQDV© &RQFOXLõVH© FRP© R© HQULTXHFLPHQWR©
HSLVWHPROyJLFR© SDUD© D© GLVFLSOLQD© UHVXOWDQWH© GD© LQWHUDomR© HQWUH© DUTXHyORJRV©
e nativos.
A Arqueologia tem passado por um aggiornamento©FRP©D©LQFOXVmR©QR©
seu universo de preocupações, das questões relativas à sociedade, em geral,
e em particular no que se refere aos indígenas. Este é um processo de longo
prazo, cujo marco pode ser considerado o surgimento do Congresso Mundial
GH©$UTXHRORJLD©HP©©D©SDUWLFLSDomR©GRV©QDWLYRV©QRV©SUySULRV©FRQVHOKRV©
do Congresso. Essa postura da disciplina, em termos mundiais, encontrou eco
nas transformações sociais e políticas brasileiras, principalmente a partir do
½P©GR©UHJLPH©PLOLWDU©õ©H©R©UHVWDEHOHFLPHQWR©GR©HVWDGR©GH©GLUHLWR©H©
da democracia no país. Nos últimos vinte e cinco anos, a Arqueologia brasileira
GLYHUVL½FRXõVH© H© VXD© LQVHUomR© H© UHOHYkQFLD© VRFLDO© DPSOLDUDPõVH© HP© WRGRV©
RV© DVSHFWRV© $© SUHVHQoD© GH© LQGtJHQDV© QDV© UHXQL}HV© FLHQWt½FDV© DXPHQWRX©
DVVLP© FRPR© VXD© SDUWLFLSDomR© HP© SURMHWRV© H© SHVTXLVD© )XQDUL© H© 3LxRQ© ©
(VWH© p© R© FRQWH[WR© GHVWH© DUWLJR© TXH© QmR© DSHQDV© DSUHVHQWD© XPD© H[SHULrQFLD©
DUTXHROyJLFD©FRP©LQGtJHQDV©PDV©TXH©WDPEpP©FRQWD©FRP©XP©DXWRU©LQGtJHQD©
/HDQGUR©&KDPRUUR©
1R©5LR©GH©-DQHLUR©DWXDOPHQWH©H[LVWHP©VHLV©DOGHLDV©*XDUDQL©VHQGR©FLQFR©
0´\ELi©H©DSHQDV©XPD©1DQGHYD©'HVWDV©DV©WUrV©PDLV©DQWLJDV©VmR©DV©GH©%UDFXt©
em Angra, Parati-mirim e Patrimônio, em Paraty, todas M’ybiá. A aldeia de
0DPDJXi©HP©3DUDW\©H©D©GH©&DPERLQKDV©HP©1LWHUyL©IRUDP©FRQVWLWXtGDV©Ki©
pouco tempo. A de Rio Pequeno, também em Paraty, é constituída por Guarani
Nandeva.
$©SDUWLFLSDomR©GH©LQGtJHQDV©*XDUDQL©GD©DOGHLD©6DSXNL©GH©%UDFXt©UHVXOWD©
GH© XP© ORQJR© FRQWDWR© FRP© D© 8(5-© H© HP© HVSHFLDO© FRP© R© /DERUDWyULR© GH©
$QWURSRORJLD©%LROyJLFD©$V©DWLYLGDGHV©GH©$UTXHRORJLD©H©(GXFDomR©3DWULPRQLDO©
desenvolvidas com a Eletronuclear e parceria com o Programa “Jovens Talentos
SDUD©D©&LrQFLD²©&(&,(5-)$3(5-©SHUPLWLX©R©HVWDEHOHFLPHQWR©GH©XPD©EROVD©
GLIHUHQFLDGD©SHOD©)$3(5-©TXH©SHUPLWLVVH©D©LQFOXVmR©GH©LQGtJHQDV©*XDUDQL©QR©
projeto.
$© SDUWLFLSDomR© GH© LQGtJHQDV© *XDUDQL© p© PRWLYDGD© SHOD© LQGDJDomR© GH©
FRPR© D© $UTXHRORJLD© SRGH© FRQWULEXLU© SDUD© R© FRQKHFLPHQWR© GDV© VRFLHGDGHV©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
indígenas e, ao mesmo tempo, problematizar os encontros e desencontros,
DV© FRQWLQXLGDGHV© H© GHVFRQWLQXLGDGHV© QR© SURFHVVR© GH© LQWHUDomR© HQWUH© DV©
VRFLHGDGHV©LQGtJHQDV©H©D©QmRõLQGtJHQDV
$© LQFOXVmR© GH© MRYHQV© *XDUDQL© H[LJLX© XPD© PHWRGRORJLD© TXH© IRVVH©
DGHTXDGD© j© VLWXDomR© ELOtQJH© H© SOXULFXOWXUDO© $© XWLOL]DomR© GH© GLIHUHQWHV©
LQVWUXPHQWRV©SHGDJyJLFRV©YHP©SHUPLWLQGR©D©FRQVWUXomR©GR©FRQKHFLPHQWR©D©
SDUWLU©GD©H[SHULrQFLD©GR©FRQKHFLPHQWR©GD©DQFHVWUDOLGDGH©D©LGHQWL½FDomR©GRV©
marcadores de identidade étnica e cultural, bem como no estabelecimento
dos vínculos entre a comunidade e seu patrimônio.
$© GLVFXVVmR© FRP© RV© MRYHQV© GD© DOGHLD© UHVXOWD© HP© VXDV© SUySULDV©
interpretações sobre patrimônio cultural Guarani, aspectos do cotidiano,
IRUPDV©WUDGLFLRQDLV©GH©YLGD©LQFRUSRUDomR©GH©QRYRV©HVSDoRV©H©SUiWLFDV©QD©DOGHLD©
$V©OHLWXUDV©H©GLVFXVV}HV©GH©WH[WRV©VREUH©$UTXHRORJLD©*XDUDQL©YHP©HVWLPXODGR©
R© FRQKHFLPHQWR© VREUH© DV© SUiWLFDV© GRV© DQWHSDVVDGRV© H© D© LPSRUWkQFLD© FRP©
UHODomR©D©SUHVHUYDomR©GRV©VDEHUHV©GRV©PDLV©DQWLJRV©
A língua Guarani pertence à família linguística Tupi-Guarani. De
DFRUGR© FRP© %URFKDGR© © EDVHDQGRõVH© HP© SUHVVXSRVWRV© OLQJXtVWLFRV©
H© DUTXHROyJLFRV© D© GLIHUHQFLDomR© HQWUH© DV© OtQJXDV© GR© WURQFR© 7XSL© VHULD©
FRQVHTrQFLD©GD©VHSDUDomR©H©H[SDQVmR©GH©JUXSRV©3URWRõ7XSL©QR©LQWHULRU©GD©
UHJLmR©DPD]{QLFD©1R©FDVR©*XDUDQL©DV©PLJUDo}HV©IRUDP©QR©VHQWLGR©GR©QRUWH©
SDUD©R©VXO©GR©$PD]RQDV©DWp©D©UHJLmR©GR©3UDWD©SHORV©FXUVRV©GRV©ULRV©3DUDQi©
3DUDJXDL© H© 8UXJXDL© 1HVWHV© PRYLPHQWRV© GH© H[SDQVmR© SDUHFH© H[LVWLU© XP© HOR©
HQWUH©D©FRQVWDQWH©SURFXUD©GH©QRYDV©WHUUDV©SDUD©DV©DOGHLDV©H©DV©URoDV©D©PLJUDomR©
GH©LQVSLUDomR©SURIpWLFD©D©EXVFD©GD©7HUUD©VHP©PDOHV©H©D©FULDomR©GH©XP©PRGR©
de vida autenticamente Guarani.
A partir do século XVII os Guaranis sofreram o impacto da catequese
por parte dos jesuítas e dos ataques paulistas para a captura de indígenas. O
LQWHUHVVH©GRV©SDXOLVWDV©SDUD©HVFUDYL]DomR©GRV©tQGLRV©*XDUDQL©HUD©QmR©Vy©SHOR©
fato de serem agricultores, mas devido a facilidade de captura por, inicialmente,
VXDV©DOGHLDV©HQFRQWUDUHPõVH©SUy[LPDV©DRV©ULRV©H©SRVWHULRUPHQWH©SRU©HVWDUHP©
UHXQLGRV©QDV©FKDPDGDV©UHGXo}HV©MHVXtWLFDV©2V©DWDTXHV©SDXOLVWDV©UHVXOWDUDP©
QD©HVFUDYL]DomR©GH©PLOKDUHV©GH©*XDUDQLV©H©D©GHVWUXLomR©GH©GLYHUVRV©SRYRDGRV
1R©VpFXOR©;9,,,©RV©*XDUDQLV©UHVLVWLUDP©j©GRPLQDomR©SRUWXJXHVD©DWUDYpV©
GH© FRQVWDQWHV© OXWDV© H© DSyV© D© H[SXOVmR© GRV© MHVXtWDV© DV© UHGXo}HV© SDVVDUDP©
por miséria, fome e epidemias, que acabaram dizimando povoados inteiros.
Desta forma, muitos grupos locais desapareceram, como também alguns dos
VREUHYLYHQWHV©IXJLUDP©SDUD©DV©iUHDV©GH©¾RUHVWDV©
A partir da profunda ruptura entre o modo de vida pré-colonial e o
LPSDFWR© GD© FRORQL]DomR© HXURSpLD© RV© *XDUDQLV© GHVHQYROYHUDP© HVWUDWpJLDV©
PLJUDWyULDV©FRPR©IRUPD©GH©VREUHYLYrQFLD©ItVLFD©H©FXOWXUDO©YHUL½FDQGRõVH©XPD©
JUDQGH© FUHGLELOLGDGH© j© FDWDFOLVPRORJLD© H© DR© GLVFXUVR© SURIpWLFR© 0RQWHLUR©
Os Guaranis da atualidade, em certos aspectos apresentam-se abertos
D©LQ¾XrQFLDV©GD©VRFLHGDGH©QDFLRQDO©HQTXDQWR©TXH©HP©RXWURV©YHUL½FDõVH©XP©
H[WUDRUGLQiULR©DSHJR©DRV©SDGU}HV©WUDGLFLRQDLV©GH©VXD©FXOWXUD©([LVWH©SRUWDQWR©
XP©FRQ¾LWR©HQWUH©DV©VROXo}HV©H©YDORUHV©WUDGLFLRQDLV©GH©XP©ODGR©H©DV©LQRYDo}HV©
TXH©VH©WRUQDP©QHFHVViULDV©RX©GHVHMiYHLV©GR©RXWUR©6FKDGHQ
As aldeias se organizam a partir de uma grande parentela em torno de
14
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
um líder religioso. Este alcançará maior prestigio pelo número de parentes que
congrega em torno de si. As aldeias, embora autônomas, se inter-relacionam
DWUDYpV©GH©WURFDV©PDWULPRQLDLV©YLVLWDV©H©LQWHUFkPELR©HQWUH©IDPtOLDV©
As informações sobre os Guaranis no Rio de Janeiro, anteriores a sua
GHVFREHUWD©SRU©XPD©HTXLSH©GH©UHSRUWDJHP©GR©*ORER©HP©©VmR©EDVHDGDV©
HP©UHODWRV©GRV©SUySULRV©LQGtJHQDV©UHJLVWUDGRV©SHOD©LPSUHQVD©SRU©LQGLJHQLVWDV©
GD©)81$,©H©SHVTXLVDGRUHV©TXH©HVWLYHUDP©QDV©DOGHLDV©'H©DFRUGR©FRP©UHODWR©
GH©$UJHPLUR©.DUDt©7DWDLQGr©FKHIH©GD©DOGHLD©GH©%UDFXt©HP©©RV©*XDUDQLV©
WHULDP©FKHJDGR©D©3DUDWLõPLULP©SRU©YROWD©GH©©H©VHX©HVWDEHOHFLPHQWR©
HP© %UDFXt© SRU© YROWD© GH© © (QWUHWDQWR© GH© DFRUGR© FRP© UHODWR© GH© -RmR©
GD©6LOYD©DWXDO©FDFLTXH©H©KRMH©FRP©©DQRV©VHX©DY{©WHULD©YLYLGR©DOJXP©WHPSR©
HP©XPD©DOGHLD©QD©,OKD©*UDQGH©R©TXH©VHULD©QDV©SULPHLUDV©GpFDGDV©GR©VpFXOR©
passado. Entretanto, as fontes documentais indicam a presença Guarani desde
R©VpFXOR©;9,,©TXDQGR©0DUWLP©GH©6i©WHULD©GHVORFDGR©FDVDLV©&DULMyV©SDUD©D©EDtD©
GH©,OKD©*UDQGH©©EHP©FRPR©RXWURV©IRUDP©GHVORFDGRV©SHORV©MHVXtWDV©SDUD©
R©DOGHDPHQWR©GH©6mR©)UDQFLVFR©;DYLHU©1R©/LYUR©GH©7RPER©GR©&ROpJLR©-HVXtWD©
GR©5LR©GH©-DQHLUR©Ki©UHJLVWUR©GH©TXH©GD©UHJLmR©GH©*XDUDWLED©SDUD©VH©DOFDQoDU©
R©FDPLQKR©TXH©OHYDYD©D©6DQWRV©GHYHULD©SDVVDU©SHODV©URoDV©GRV©&DULMyV©FRPR©
WDPEpP©0DULD©*UDKDP©HP©©LQGLFD©TXH©D©WRWDOLGDGH©GH©LQGtJHQDV©GH©6mR©
)UDQFLVFR©;DYLHU©HUDP©*XDUDQLV©
ALDEIA
SAPUKAI BRACUÍ/ANGRA
DOS REIS
$© DOGHLD© 6DSXNDt© HQFRQWUDõVH© QD© VHUUD© GD© %RFDLQD© HP© PHLR© j© 0DWD©
$WOkQWLFD©D©©NP©GD©8VLQD©1XFOHDU©GH©$QJUD©e©D©PDLRU©GDV©DOGHLDV©H[LVWHQWHV©
no Rio de Janeiro, constituída por índios Mbya-Guarani. As famílias lideradas
SRU©$UJHPLUR©.DUDt©7DWDLQGr©PLJUDUDP©SDUD©6mR©3DXOR©H©HP©©FKHJRX©
D©%UDFXt©XP©QRYR©JUXSR©OLGHUDGR©SRU©-RmR©GD©6LOYD©9HUiõPLULP©H[SXOVRV©GH©
VXDV©WHUUDV©QR©3DUDQi©SHUPDQHFHQGR©DWp©KRMH©QD©DOGHLD©GH©6DSXNDt©'H©DFRUGR©
FRP©R©FDFLTXH©9HUiõPLULP©GHVGH©SHTXHQR©RXYLD©KLVWyULDV©FRQWDGDV©SHOR©DY{©
VREUH©XPD©DOGHLD©HP©TXH©YLYHUD©HP©,OKD©*UDQGH©WDLV©UHODWRV©R©OHYDUDP©D©PLJUDU©
HP©EXVFD©GHVWD©DOGHLD©DFDEDQGR©SRU©½FDU©QD©DOGHLD©HP©%UDFXt
&RPR©QD©PDLRULD©GDV©DOGHLDV©R©Q~PHUR©GH©KDELWDQWHV©DSUHVHQWD©YDULDomR©
devido aos constantes deslocamentos das famílias, decorrentes das constantes
YLVLWDV© H© LQWHUFkPELRV© HQWUH© DOGHLDV© $VVLP© VHQGR© RV© Q~PHURV© UHJLVWUDGRV©
DSUHVHQWDPõVH©GD©VHJXLQWH©IRUPD©HP©©IRUDP©UHJLVWUDGRV©©LQGtJHQDV©
2©*ORER©©FDLQGR©SDUD©©HP©©$LGDU©)LOKR©©DXPHQWDQGR©
SDUD©©HP©©SDUD©©LQGtJHQDV©HP©©-%©©H©FHUFD©GH©©HP©
©3UDGR©©$WXDOPHQWH©GH©DFRUGR©FRP©DV©LQIRUPDo}HV©GRV©SUySULRV©
*XDUDQL©GH©%UDFXt©QD©DOGHLD©H[LVWHP©PDLV©GH©©KDELWDQWHV©FRP©FHUFD©GH©©
KDELWDo}HV
A aldeia apresenta suas casas dispersas e distantes umas das outras,
QmR© H[LVWLQGR© XP© FHQWUR© JHRJUi½FR© PDV© VHQGR© FRQVLGHUDGR© FRPR© FHQWUR©
da aldeia o local onde encontra-se a Casa da Reza. Desta maneira, subindo o
FDPLQKR©DEHUWR©SHORV©LQGtJHQDV©SDUD©D©DOGHLD©YLVXDOL]DõVH©DR©ORQJR©GHVWH©D©
escola construída em alvenaria, o posto de saúde e casas esparsas pela mata,
mais ao alto alcança-se uma área com algumas casas e a casa da reza, a casa de
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
Verá-mirim, considerada o centro da aldeia.
$SHVDU©GD©SUR[LPLGDGH©GR©PDU©RV©LQGtJHQDV©QmR©WrP©DFHVVR©D©HVWH©SDUD©D©
SUiWLFD©GD©SHVFD©DWLYLGDGH©LPSRUWDQWH©SDUD©D©VXD©VXEVLVWrQFLD©,VWR©GHFRUUH©GR©
fato de que junto ao mar encontram-se vários condomínios, que discriminam
D©SUHVHQoD©GRV©*XDUDQLV©QD©iUHD©%XVFDQGR©FRQWRUQDU©D©VLWXDomR©RV©LQGtJHQDV©
FRQVWUXtUDP©DoXGHV©SDUD©D©FULDomR©GH©SHL[HV©VRE©D©RULHQWDomR©GD©8)55-©DSRLR©
da Prefeitura e doações de universidades.
Como eles ocupam uma área de encosta da serra do Mar, o solo pobre
QmR© p© DSURSULDGR© SDUD© XP© FXOWLYR© PDLV© GLYHUVL½FDGR© SULQFLSDOPHQWH© GH©
IHLMmR© TXH© p© XP© HOHPHQWR© LPSRUWDQWH© QD© VXD© GLHWD© (P© VXDV© WHUUDV© DSHQDV©
FRQVHJXHP©SODQWDU©PDQGLRFD©PLOKR©FDQDõGHõDo~FDU©H©EDQDQDV©2©DUUR]©H©R©
IHLMmR©TXH©FRQVRPHP©VmR©FRPSUDGRV©FRP©R©GLQKHLUR©FRQVHJXLGR©DWUDYpV©GD©
YHQGD©GH©DUWHVDQDWR©RX©FRQVXPLGR©DWUDYpV©GD©PHUHQGD©GD©HVFROD©KRMH©VRE©
DGPLQLVWUDomR©GD©6HFUHWDULD©(VWDGXDO©GH©(GXFDomR©
A caça ainda é uma das atividades importantes para o grupo, que por
VH© HQFRQWUDUHP© MXQWR© j© 0DWD© $WOkQWLFD© DLQGD© GLVS}H© GH© DOJXPDV© HVSpFLHV©
apreciadas para o consumo. Entretanto, os Guaranis estabeleceram regras de
FRQWUROH©SDUD©HVWD©DWLYLGDGH©GH©IRUPD©D©SUHVHUYDUHP©DV©HVSpFLHV©$©XWLOL]DomR©
GH© HVSLQJDUGD© Mi© Ki© PXLWRV© DQRV© GHWHUPLQRX© R© DEDQGRQR© GD© XWLOL]DomR© GH©
DUFR©H©¾HFKD©TXH©Vy©FRQIHFFLRQDP©FRPR©DUWHVDQDWR©SDUD©YHQGD
'HYLGR©D©WRGDV©HVWDV©GL½FXOGDGHV©HQIUHQWDGDV©SHORV©*XDUDQLV©HP©WRGR©
R©%UDVLO©D©DFXOWXUDomR©HFRQ{PLFD©UHFHEH©XP©LPSXOVR©SHOD©QHFHVVLGDGH©GH©VH©
REWHU©GLQKHLUR©SDUD©D©SRVVH©GH©FRLVDV©TXH©D©FXOWXUD©WUDGLFLRQDO©H©D©iUHD©TXH©
RFXSDP© QmR© FRQVHJXHP© VXSULU© 6FKDGHQ© © $© XWLOL]DomR© GH© URXSDV©
H© REMHWRV© LQGXVWULDOL]DGRV© FRPR© WrQLV© UHOyJLRV© EULQTXHGRV© ELMXWHULDV© VmR©
valorizados pelos indígenas. O acesso a esses bens vem se tornando cada vez
mais ampliado, através de recursos gerados por projetos, como o de turismo
na aldeia, conquista de salários pelos professores e agentes de saúde.
O idioma guarani Mbya é falado por todos da aldeia, mesmo na presença
GH© HVWUDQKRV© 2EVHUYDõVH© XP© JUDQGH© RUJXOKR© SHOD© PDQXWHQomR© GD© OtQJXD©
JXDUDQL© XP© GRV© SRQWRV© GH© UHVLVWrQFLD© pWQLFD© REVHUYDGR© HQWUH© RV© *XDUDQLV©
2XWUR© DVSHFWR© REVHUYDGR© p© D© UHVLVWrQFLD© j© PHVWLoDJHP© VHQGR© SURLELGR© R©
FDVDPHQWR©FRP©LQGLYtGXRV©QmRõ*XDUDQL
$© UHOLJLmR© p© XP© GRV© SRQWRV© PDLV© IRUWHV© GH© UHVLVWrQFLD© QmR© KDYHQGR©
DFHVVR©GH©HVWUDQKRV©jV©VXDV©FHULP{QLDV©UHOLJLRVDV©1D©FDVD©GD©UH]D©R©FHQWUR©GD©
DOGHLD©UHDOL]DPõVH©UH]DV©WRGDV©DV©QRLWHV©$©FKHJDGD©GH©HVWUDQKRV©GHWHUPLQD©
TXH©D©SRUWD©SHUPDQHoD©IHFKDGD©GH©IRUPD©TXH©QmR©VH©ROKH©SDUD©GHQWUR©GHOD©
8PD©SURIHFLD©*XDUDQL©DQXQFLD©R©½QDO©GR©PXQGR©SURYRFDGR©SRU©XP©JUDQGH©
LQFrQGLR© TXH© HOHV© UHODFLRQDP© D© SUR[LPLGDGH© GD© 8VLQD© 1XFOHDU© D© IiEULFD© GH©
IRJR©/LWDLII©
2© FKHIH© GD© DOGHLD© GH© 6DSXNDt© p© R© FDFLTXH© 9HUiõPLULP© -RmR© GD© 6LOYD©
que divide suas responsabilidades com o vice-cacique e o presidente da
$VVRFLDomR©GDV©$OGHLDV©*XDUDQL©GR©5LR©GH©-DQHLUR©$OpP©GH©OtGHU©SROtWLFR©9HUiõ
mirim é também o líder religioso do grupo.
16
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
A
ARQUEOLOGIA
E OS GUARANIS
$©PDLRU©SDUWH©GDV©DWLYLGDGHV©p©UHDOL]DGD©HP©FRQMXQWR©LQGtJHQDV©H©QmRõ
LQGtJHQDV© WHQGR© FRPR© REMHWLYR© SURPRYHU© XPD© PDLRU© LQWHJUDomR© H© FRPR©
FRQVHTrQFLD©GHVPLVWL½FDU©R©*XDUDQL©SDUD©RV©MRYHQV©GD©VRFLHGDGH©UHJLRQDO©
$V© SDOHVWUDV© XWLOL]DQGR© IDUWRV© UHFXUVRV© YLVXDLV© H© R½FLQDV© TXH© SHUPLWHP©
D© H[SHULPHQWDomR© UHVXOWDP© HP© PHOKRU© DVVLPLODomR© Mi© TXH© D© RUDOLGDGH© p© D©
EDVH© GD© HGXFDomR© LQGtJHQD© $V© QRYDV© WHFQRORJLDV© DSUHVHQWDGDV© DR© ORQJR©
das atividades sempre despertaram maior interesse e, em seguida podemos
REVHUYDU©UHVXOWDGRV©QD©SUySULD©DOGHLD
)RUDP©DSOLFDGRV©TXHVWLRQiULRV©H©IRL©VROLFLWDGD©D©SURGXomR©GH©IRWRJUD½DV©
VREUH©RV©WHPDV©±SDWULP{QLR²©H©±PHPyULD²©FRP©D©SDUWLFLSDomR©GH©JUDGXDQGDV©
GD© 8(5-© UHVSRQViYHLV© SHODV© DQDOLVHV© GHVWHV© PDWHULDLV© © $© SHUFHSomR© GH©
patrimônio englobando o material e imaterial foi muito mais consistente entre
RV©*XDUDQLV©WDQWR©QDV©UHVSRVWDV©FRPR©HP©VHXV©HQVDLRV©IRWRJUi½FRV
8PD© GDV© GL½FXOGDGHV© HQIUHQWDGDV© IRL© QD© OHLWXUD© GH© WH[WRV© VREUH©
$UTXHRORJLD© *XDUDQL© VHQGR© HVWDV© UHDOL]DGDV© HP© FROHWLYR© H© RV© WH[WRV©
GHYLGDPHQWH©GHVFRQVWUXtGRV©SDUD©XPD©PHOKRU©FRPSUHHQVmR©GRV©VLJQL½FDGRV©
GH© SDODYUDV© QRYDV© FRQFHLWRV© H© DVSHFWRV© WHyULFRV© $© SDUWLU© GDV© OHLWXUDV© IRL©
SURSRVWR©XP©OHYDQWDPHQWR©GDV©SHVVRDV©PDLV©YHOKDV©GD©DOGHLD©FXMDV©HQWUHYLVWDV©
SRGHULDP© IRUQHFHU© LQIRUPDo}HV© FRP© UHODomR© DRV© DVSHFWRV© DERUGDGRV© QRV©
WH[WRV© (QWUHWDQWR© WRGRV© RV© MRYHQV© DSHQDV© HQWUHYLVWDP© R© FDFLTXH© 9HUi© 0LUL©
OtGHU©SROtWLFR©H©UHOLJLRVR©R©JXDUGLmR©GD©PHPyULD©H©GDV©WUDGLo}HV
As pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelos jovens da aldeia
WHP©SRU©REMHWLYRV©WUDoDGRV©HP©FRQMXQWR©FRP©RV©SHVTXLVDGRUHV©FRQKHFHU©D©
$UTXHRORJLD©JXDUDQL©FRQKHFHU©H©SUHVHUYDU©DV©PHPyULDV©H©VDEHGRULDV©JXDUDQL©
&RPSDUDU©DV©LQIRUPDo}HV©DUTXHROyJLFDV©FRP©DV©FROHWDGDV©QD©DOGHLD©H©UHDOL]DU©
o registro das informações coletadas para as futuras gerações.
2V© SULPHLURV© UHJLVWURV© GDV© HQWUHYLVWDV© IRUDP© GLULJLGRV© SHORV© SUySULRV©
MRYHQV©SDUD©DOJXPDV©GDV©SHUJXQWDV©TXH©VXUJLUDP©QDV©GLVFXVV}HV©(OHV©KDYLDP©
OLGR© UHIHUHQFLDV© D© SHVTXLVDV© DUTXHROyJLFDV© HP© VtWLRV© FRP© FHUkPLFD© JXDUDQL©
RQGH©RFRUULD©D©SUHVHQoD©GH©VHSXOWDPHQWRV©HP©XUQDV©IXQHUiULDV©cambuxi©©(©
DVVLP© GH½QLUDP© ±Cambuxi© p© XP© JUDQGH© YDVR© GH© FHUkPLFD© TXH© HUD© XWLOL]DGR©
SDUD©DUPD]HQDU©EHELGDV©kaguijy©H©iJXD©3DUD©R©ULWXDO©IXQHUiULR©HUD©IDEULFDGR©
um cambuxi© HVSHFL½FR© TXH© GHSRLV© UHFHELD© R© PRUWR²© 0DV© GH© DFRUGR© FRP© R©
FDFLTXH©-RmR©GD©6LOYD©QDVFLGR©HP©©QD©DOGHLD©Ka’arandy©©5LR©*UDQGH©GR©
6XO©QHP©VHPSUH©VH©HQWHUUDYD©HP©FDPEX[L©±$QWLJDPHQWH©TXDQGR©D©SHVVRD©
PRUULD©VH©ID]LD©XP©FHVWR©GH©WDTXDUD©RQGH©VH©FRORFDYD©R©FRUSR©GR©PRUWR²©HP©
SRVLomR© KLSHU¾HWLGD© H© HVWH© HUD© ±HQWHUUDGR© GHQWUR© GD© SUySULD© FDVD²© +RMH© RV©
índios Guarani enterram o morto estendido, mas reforçam que a cerimônia é
GLIHUHQWH©GRV©QmR©tQGLRV©-XUXi
$V©WUDGLo}HV©HQIDWL]DP©R©DUFR©H©¾HFKD©FRPR©REMHWRV©WUDGLFLRQDLV©EHP©
FRPR© DV© DUPDGLOKDV© DLQGD© XWLOL]DGDV© QRV© GLDV© DWXDLV© ±monde© SDUD© DQLPDLV©
EDL[RV© FRPR© WDWX© TXDWL© SDFD© HWF©nhuã© SDUD© YHDGR© DQWDV© HWF© mondepí
SDUD©DYHV
±([LVWLDP©WUrV©WLSRV©GH©FHUkPLFDV©Ojá©Nha’ embé©H©Kambuxi©3DUD©ID]HU©
HVWHV© REMHWRV© D© PDWpULDõSULPD© XWLOL]DGD© HUD© DUJLOD© )D]LDP© WDPEpP© GH© DUJLOD©
FDFKLPER©H©SRQWD©GH©¾HFKD©SDUD©RV©SiVVDURV©8VDYDP©WDPEpP©FRPR©PDWDULDõ
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
î/RFDO© VDJUDGR© GHQWUR© GD© DOGHLD© RQGH©
eles realizam seus cultos religiosos.
CONCLUSÃO
prima ossos de mamíferos. Queimava-se os ossos e depois eram socados no
SLOmR©SDUD©VHUHP©PLVWXUDGRV©FRP©D©DUJLOD©'HVWD©IRUPD©D©DUJLOD©½FDYD©PHOKRU©
SDUD©VHU©PDQLSXODGD©SDUD©D©FRQIHFomR©GRV©DUWHIDWRV²
“A Ojá© p© XPD© FHUkPLFD© XWLOL]DGD© SDUD© FR]LQKDU© DOJXQV© DOLPHQWRV© -i© D©
Nha’embé usa-se para guardar alguns alimentos cozidos, e a Kambuxi para
armazenar mel e kaguijy a bebida tradicional guarani. Na Nha’embé e na
Kambuxi©VmR©IHLWRV©GHVHQKRV©GH©IROKD©GH©VDPDPEDLD©JUDYDGD©FRP©D©SRQWD©GH©
XP©JUDYHWR²
$V©HQWUHYLVWDV©LQVWLJDGDV©SHODV©OHLWXUDV©DUTXHROyJLFDV©GHVSHUWDUDP©FDGD©
YH]©PDLV©HP©RXYLU©R©PDLV©YHOKR©GD©DOGHLD©VDEHU©GDV©PLJUDo}HV©H©PLWRV©(VWH©
interesse veio a reforçar o projeto de turismo da aldeia.
(VWH© UHVXOWDGR© GH© DV© H[HPSOL½FDo}HV© GRV© *XDUDQLV© DFHUFD© GR© VHX©
Patrimônio Cultural serem na sua maioria de elementos imateriais é uma
LQ¾XHQFLD©FXOWXUDO©GD©SUySULD©SHUFHSomR©GH©PXQGR©GHVWD©VRFLHGDGH©3RLV©SDUD©
eles o verdadeiro valor está contido na palavra e no modo de ser guarani.
1RV©HQVDLRV©IRWRJUi½FRV©RV©SULQFLSDLV©H[HPSORV©HVFROKLGRV©SHORV©MRYHQV©
QmRõtQGLRV©IRUDP©R©FHQWUR©KLVWyULFR©GH©3DUDW\©DV©IHVWDV©UHOLJLRVDV©VREUHWXGR©
D©)HVWD©GR©'LYLQR©R©FDUQDYDO©D©IHVWD©GD©SLQJD©D©SHVFD©DV©DOGHLDV©LQGtJHQDV©
a Igreja da Matriz de Paraty, a Igreja de Santa Rita, as fazendas, as danças, a
FXOLQiULD©HWF©-i©RV©MRYHQV©*XDUDQL©HOHJHUDP©D©UHJLmR©6XOõ¾XPLQHQVH©D©&DVD©
GD©5H]Dî©©D©OtQJXD©0´E\D©DV©SHVVRDV©PDLV©YHOKDV©D©P~VLFD©D©GDQoD©D©HVFROD©
da aldeia, a aldeia, entre outros.
$© H[SHULrQFLD© GH© YLGD© GRV© JXDUDQLV© IRUQHFH© FKDYHV© GH© OHLWXUD© GD©
$UTXHRORJLD© LQRYDGRUDV© SDUD© RV© DUTXHyORJRV© SUR½VVLRQDLV© 1mR© VH© WUDWD©
GH© EXVFDU© D© WLSRORJLD© GH© DUWHIDWRV© D© SDUWLU© GH© XPD© GHVFULomR© H[WHUQD© H©
fundada, muitas vezes, em modelos interpretativos pouco comprovados
RX© FRPSURYiYHLV© FRPR© QD© DVVRFLDomR© FRPXP© HQWUH© FXOWXUD© PDWHULDO©
OtQJXD© H© HWQLD© YDULiYHLV© TXH© D© H[SHULrQFLD© DQWURSROyJLFD© HPStULFD© PRVWUD©
VHUHP© LQGHSHQGHQWHV© $R© FRQWUiULR© DV© FRVPRYLV}HV© LQGtJHQDV© DMXGDP© D©
FRPSUHHQGHU©IRUPDV©GH©RUJDQL]DU©D©PDWHULDOLGDGH©TXH©VHJXHP©RXWUDV©OyJLFDV©
H© PRWLYDo}HV© $© FRODERUDomR© QHVWH© SURMHWR© H© QHVWH© DUWLJR© GH© DUTXHyORJRV©
SUR½VVLRQDLV© FRP© XP© LQGtJHQD© IRL© XPD© H[SHULrQFLD© HQULTXHFHGRUD© SDUD© RV©
GRLV©ODGRV©WDQWR©HP©WHUPRV©SHVVRDLV©FRPR©HSLVWHPROyJLFRV
AGRADECIMENTOS
$JUDGHFHPRV© R© DSRLR© LQVWLWXFLRQDO© GR© /DERUDWyULR© GH© $QWURSRORJLD©
%LROyJLFD© GD© 8(5-© R© /DERUDWyULR© GH© $UTXHRORJLD© 3~EOLFD© 3DXOR© 'XDUWH© GD©
81,&$03©)$3(5-©)$3(63©H©&13T©6RPRV©JUDWRV©DLQGD©DRV©LQGtJHQDV©FRP©
TXHP©FRQYLYHPRV©H©D©$QD©3LxRQ©$©UHVSRQVDELOLGDGH©SHODV©LGpLDV©UHVWULQJHõVH©
aos autores.
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BIBLIOGRAFIA
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19
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CONSIDERAÇÕES CONCEITUAIS E METODOLÓGICAS
SOB R E PR OJETOS D E ED U CA ÇÃ O PAT R IMON IA L
AUTOR
Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira
Luísa Lacerda Maciel
Historiador, Doutor em Antropologia Social. Departamento de
História da Universidade Federal de Pelotas
Contato: [email protected]
Jezuína Kohls Schwanz
Licenciada em História e Especialista em Educação. Mestranda
em Memória e Patrimônio, Universidade Federal de Pelotas.
Tutora da Universidade Aberta do Brasil/Universidade Federal
de Pelotas
Contato: [email protected]
Pedagoga e Especialista em Memória, Identidade e Cultura
Material. Mestre em Memória e Patrimônio, Universidade
Federal de Pelotas. Professora Pesquisadora da Universidade
Aberta do Brasil/Universidade Federal de Pelotas
Contato: [email protected]
Turismóloga, Mestranda em Memória e Patrimônio,
Universidade Federal de Pelotas
Contato: [email protected]
Mariciana Zorzi
RESUMO
EDUCAÇÃO
PAT R I M O N I A L :
SENSIBILIZAR
PARA
PRESERVAÇÃO,
FOMENTAR
AUTOESTIMA
O presente artigo tem como proposta apresentar algumas
considerações teóricas e metodológicas sobre educação patrimonial.
Coloca como objetivos maiores sensibilizar para a preservação e fomentar a
autoestima. Toma como premissa a escuta da comunidade e como metas o
reconhecimento das comunidades no patrimônio e o estímulo à tolerância.
Entre as potencialidades, destacamos a capacitação dos agentes sociais para
a preservação, a participação das comunidades e o despertar de vocações
SUR½VVLRQDLV© 6mR© FRORFDGRV© DOJXQV© SDUDGLJPDV© SDUD© RULHQWDU© D© HGXFDomR©
patrimonial na escola e a pesquisa prévia que deve ser feita sobre o patrimônio
FXOWXUDO©ORFDO©YLVWR©HP©VXD©PXOWLSOLFLGDGH©©3RU©½P©DVVXPHõVH©R©FRPSURPLVVR©
com o “empoderamento” das comunidades, no sentido de garantir o direito
à cultura e à memória coletiva, e, valor supremo, com a pluralidade social e a
diversidade cultural.
Palavras-chave: museus de arqueologia, estágio em história,
comunidades.
Um dos principais objetivos que motivam a educação patrimonial é,
por meio de abordagem inclusiva, o fomento à autoestima das comunidades
locais, estimulando o conhecimento e valorização de seu patrimônio, memória
e identidades culturais. Paralelamente, busca sensibilizar as comunidades
para a preservação de suas variadas formas de patrimônio material e imaterial,
que constituem suportes de sua memória e identidade cultural. (GONÇALVES,
2004: 19. FUNARI, PELEGRINI, 2006. CERQUEIRA, MACIEL, ZORZI, SCHWANTZ,
©õ
Esta sensibilização é necessária para se efetivar a preservação do
patrimônio cultural, em termos amplos. É necessário salientar que o olhar
e parecer do técnico – arquiteto, historiador, arqueólogo, antropólogo,
historiador da arte, restaurador, etc. – é indispensável para que as políticas de
VDOYDJXDUGD©H©FRQVHUYDomR©GR©SDWULP{QLR©QmR©VH©EDVHLHP©QD©VXSHU½FLDOLGDGH©
20
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
nos modismos e no senso comum, muitas vezes incapazes, pela falta de formação
SUR½VVLRQDO©SDUD©R©UHFRQKHFLPHQWR©GDV©SHFXOLDULGDGHV©GRV©EHQV©FXOWXUDLV©H©SDUD©D©
aplicação das medidas adequadas à conservação e eventual restauro destes bens.
&(548(,5$© © õ© ,VWR© SRGHU© SDUHFHU© yEYLR© PDV© QmR© R© p© SDUD© D© JUDQGH©
parte de administradores municipais dos pequenos e médios municípios de nosso
SDtV©VHJXHP©XWLOL]DQGR©SUR½VVLRQDLV©VHP©IRUPDomR©QDV©iUHDV©SDWULPRQLDLV©SDUD©DV©
funções públicas e execução das ações de preservação.
ESCUTAR A
COMUNIDADE,
ESTIMULAR O
RECONHECIMENTO
E A TOLERÂNCIA
De outro lado, é mister ressalvar que a intervenção do técnico por si só não
p© R© EDVWDQWH© LPS}HõVH© TXH© KDMD© R© HQYROYLPHQWR© GD© FRPXQLGDGH© GR© S~EOLFR© $©
população diretamente envolvida com os bens culturais patrimonializados precisa
FRQKHFrõORV©H©UHFRQKHFHUõVH©QHOHV©/HPEUHPRV©GDV©SDODYUDV©DWULEXtGDV©D©$ORtVLR©
0DJDOKmHV©©©
A comunidade é a melhor guardiã do patrimônio. [...]
Só se protege o que se ama, só se ama o que se conhece. [...]
Este reconhecimento, da comunidade no patrimônio, deve se dar em dois
caminhos complementares, traçados entre o local e o global: pela trajetória
SDUWLFXODU©GHVWD©FRPXQLGDGH©LGHQWL½FDQGR©HVWHV©EHQV©FRPR©SDUWH©GH©VXD©KLVWyULD©
mas também pela capacidade de sentimento de pertença a bens entendidos como
da humanidade©LGHQWL½FDQGRõVH©SRU©PHLR©GH©EHQV©SHUWHQFHQWHV©HP©VXD©RULJHP©
D©RXWURV©JUXSRV©FRPR©UHVSRQViYHO©H©JXDUGLm©GHVWH©SDWULP{QLR©
A educação patrimonial, ao mesmo tempo em que deve estimular o
conhecimento e valorização dos testemunhos culturais e identitários das
comunidades locais, deve também encetar nelas o sentimento de tolerância para
a diversidade cultural, a sensibilidade para admirar a cultura dos outros povos, de
outras regiões e outras épocas, cujos registros culturais expressam a riqueza da
cultura humana. (DECLARAÇÃO DA UNESCO SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL,
©3UHVVXSRVWRV©Q©©H©©H©$UWLJR©©
POTENCIALIDADES:
C A PAC I TA Ç Ã O,
PA RT I C I PA Ç Ã O,
VOCAÇÕES
Assim, a educação patrimonial tem a potencialidade de propiciar aquilo
que está além das prerrogativas do técnico: 1. pode capacitar a população para
½VFDOL]DU© H© FRRSHUDU© FRP© D© FRQVHUYDomR© GRV© EHQV© FXOWXUDLV© © SRGH© FDSDFLWDU© D©
comunidade para participar do processo de eleição dos bens culturais a serem
SDWULPRQLDOL]DGRV© H© LQFOXtGRV© QDV© SROtWLFDV© H© ½QDQFLDPHQWR© YROWDGRV© j© VXD©
FRQVHUYDomR© UHVWDXUR© H© VXVWHQWDELOLGDGH© © SRGH© SURPRYHU© R© HQYROYLPHQWR©
H© LGHQWL½FDomR© GDV© FRPXQLGDGHV© FRP© RV© EHQV© SDWULPRQLDOL]DGRV© SRU© PHLR© GR©
FRQKHFLPHQWR© H© GR© HVWtPXOR© j© SDUWLFLSDomR© QRV© SURFHVVRV© GHFLVyULRV© © SRGH©
HVWLPXODU©R©VXUJLPHQWR©GH©QRYDV©YRFDo}HV©GHVSHUWDQGR©LQWHUHVVH©SHODV©SUR½VV}HV©
UHODFLRQDGDV©j©SUHVHUYDomR©GR©SDWULP{QLR©FXOWXUDO©&(548(,5$©©
De forma idealista, podemos imaginar que a educação patrimonial seja um
instrumento importante para a construção de uma democracia cultural em escala
planetária, baseada em formas de cidadania que se sustentem na valorização de
21
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
EDUCAÇÃO
PAT R I M O N I A L N A
ESCOLA
sua cultura e, na mesma medida, na admiração da cultura do outro.
Na primeira década do século XXI, a escola, em decorrência da constatação da
importância social da educação patrimonial, foi colocada diante de um impasse: ao
chamar para si a responsabilidade pela promoção da educação patrimonial entre
RV©MRYHQV©H©FULDQoDV©FRQVWDWRX©D©GL½FXOGDGH©GH©LQVHULU©HP©VHX©FRWLGLDQR©D©HGXFDomR©
patrimonial, que deve ser necessariamente multidisciplinar e indispensavelmente
participativa – precisa não somente introduzir entre os educandos conceitos e
informações técnicas, mas, sobretudo, semear a sensibilidade para o patrimônio
cultural, para que, em futuro próximo, possamos colher os frutos de uma sociedade
mais comprometida com a valorização de seu patrimônio, de sua memória e de
VXD©LGHQWLGDGH©0(1'(6©©
Para tanto, é indispensável que os projetos de educação patrimonial sejam
precedidos de mecanismos de escuta, em que se possa diagnosticar a percepção
TXH©DV©FRPXQLGDGHVõDOYR©SRVVXHP©GR©TXH©VHMD©FRQFHLWXDOPHQWH©SDWULP{QLR©H©GR©
TXH©VHMD©R©VHX©SDWULP{QLR©)LJXUDV©©©H©©'R©SRQWR©GH©YLVWD©SHGDJyJLFR©H[LVWH©
aqui, portanto, um princípio freiriano, pois a educação patrimonial fundamentada
exclusivamente em conhecimentos técnicos exógenos à percepção e memória
GH©XPD©GHWHUPLQDGD©FRPXQLGDGH©HVWDULD©IDGDGD©D©QmR©FRQVHJXLU©VHQVLELOL]iõOD©D©
PDQWHUõVH©DSDUWDGD©GD©VRFLHGDGH©H©UHVSRQViYHO©SHOD©PDQXWHQomR©GH©PHFDQLVPRV©
de exclusão social, o que não deveria ser o objetivo da educação patrimonial. (ZAN,
©
Fig. 1: Bagé. Fig. 2 e 3: Arroio Grande. Fonte: Banco Cultural – Programa Memoriar – LEPAARQ/UFPEL
Figuras 1, 2 e 3
Conversar com moradores ou aplicar questionários estruturados, no comércio
ou na rua, com adultos ou jovens, são algumas das alternativas para realizar a
escuta das percepções locais do patrimônio cultural.
Um dos objetivos da educação patrimonial, para a consolidação de uma
FXOWXUD© SDWULPRQLDO© p© FDSDFLWDU© RV© HGXFDGRUHV© EHP© FRPR© SUR½VVLRQDLV© GH©
outros setores envolvidos com a questão patrimonial (gestores, jornalistas,
HWF© D© PDQXVHDUHP© DOJXQV© SULQFtSLRV© H© LQIRUPDo}HV© EiVLFDV© VREUH© R© XQLYHUVR©
MXUtGLFRõFRQFHLWXDO© GR© SDWULP{QLR© DVVLP© FRPR© D© VH© PRYLPHQWDUHP© GHQWUR© GR©
universo multidisciplinar constituído pelas várias formas de patrimônio. Estes são
SUR½VVLRQDLV© PXOWLSOLFDGRUHV© TXH© FRP© D© FDSDFLGDGH© GH© PDQXVHDU© IHUUDPHQWDV©
básicas em termos de cultura patrimonial, podem exercer um papel multiplicador.
$TXL© VH© FRORFD© D© FRQVWDWDomR© GH© TXH© XPD© GDV© PDLRUHV© GH½FLrQFLDV© TXH© VH©
YHUL½FD©QD©DSOLFDomR©FRQWLQXDGD©GD©(GXFDomR©3DWULPRQLDO©HQWUH©D©SRSXODomR©HVFRODU©
HQFRQWUDõVH©QD©PDLRU©QHFHVVLGDGH©GH©FDSDFLWDomR©GRV©HGXFDGRUHV©(VWH©SUREOHPD©
foi apontado por Débora Coimbra Nuñez, em sua análise da situação da Educação
Patrimonial nas escolas municipais da cidade mineira de São João del Rei (NUÑEZ,
22
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
¹Programa
Regional
de
Educação
Patrimonial
da
Região Sul do Rio Grande do
Sul, executado pelo Laboratório
de Ensino e Pesquisa em
Antropologia e Arqueologia da
UFPEL, desenvolvido entre 2005
e 2008, por meio do convênio
“Arqueologia
e
Educação
Patrimonial da Região Sul do
56²© ½UPDGR© HQWUH© D© 8)3(/© H© D©
empresa Votorantim Celulose e
Papel, aplicado em 12 cidades
GD© IURQWHLUD© PHULGLRQDO© ULRõ
grandense (Aceguá, Arroio
Grande, Bagé, Candiota, Capão
do Leão, Cerrito, Herval do Sul,
Hulha Negra, Jaguarão, Pedras
Altas, Pedro Osório, Pinheiro
0DFKDGR©H©3LUDWLQL
©õ©'R©PHVPR©PRGR©DV©DYDOLDo}HV©SURGX]LGDV©DR©ORQJR©GRV©TXDWUR©DQRV©
de desenvolvimento do Programa MEMORIAR¹ indicaram, como se constatou na
fala dos participantes, o desejo e necessidade de uma capacitação mais profunda
do professor, dado o despreparo para lidar com o campo multidisciplinar do
patrimônio cultural.
A aplicação, na escola, de práticas pedagógicas multidisciplinares é uma
condição para o desenvolvimento da educação patrimonial: a temática do
patrimônio cultural, assim como a temática ambiental, demanda um tratamento
transversal, que participe das instâncias formais e informais da educação escolar,
TXH©¾XD©HQWUH©R©FRWLGLDQR©GD©VDOD©GH©DXOD©H©DV©DWLYLGDGHV©H[WUDõFODVVH©SUHYHQGR©
LQFOXVLYH© D© YLVLWDomR© DRV© EHQV© FXOWXUDLV© SRU© PHLR© GH© SDVVHLRV© H[HUFLWDQGRõVH© D©
faculdade cognitiva do olhar, como sentimento humano de fruição e intelecção
do patrimônio.
UMA CONDIÇÃO:
PESQUISA PRÉVIA
DAS FORMAS E
PERCEPÇÕES DO
PAT R I M Ô N I O LO C A L
De forma precedente ou paralela à aplicação de um programa educativo,
WDQWR© HP© HVFRODV© FRPR© HP© HYHQWRV© GHYHõVH© UHDOL]DU© XPD© HWDSD© GHVWLQDGD© DR©
levantamento dos Bens Culturais Materiais e Imateriais das comunidades, pois não
VH©SRGH©FRQVLGHUDU©YLiYHO©XPD©DomR©HGXFDWLYD©TXDOL½FDGD©YROWDGD©DR©3DWULP{QLR©
Cultural, que dispense o estudo direto destes bens nas comunidades envolvidas,
inclusive a própria percepção que estas possuem sobre o seu patrimônio. (LIMA
),/+2©6,/9(,5$©©
A pesquisa sobre o Patrimônio Cultural deve se sustentar na interpretação de
fontes diversas, de natureza escrita, oral, visual e material. (CERQUEIRA, MACIEL,
=25=,© 6&+:$17=© © © (QWUH© DV© IRQWHV© KLVWyULFDV© HVFULWDV© GHVWDFDPõVH© RV©
GRFXPHQWRV©R½FLDLV©H©MRUQDLV©ORFDLV©1R©TXH©VH©UHIHUH©j©RUDOLGDGH©D©WpFQLFD©GD©+LVWyULD©
2UDO©FRQVWLWXLõVH©HP©XPD©ERD©RSomR©DSOLFDGD©MXQWR©DRV©PRUDGRUHV©PDLV©DQWLJRV©GDV©
comunidades locais, que têm muito a contar sobre suas trajetórias de vida e sobre a
história da cidade. No campo da visualidade, é produtivo inventariar algumas fotos
DQWLJDV©2©UHJLVWUR©IRWRJUi½FR©p©XWLOL]DGR©LJXDOPHQWH©SDUD©LQYHQWDULDU©H[SUHVV}HV©
materiais do Patrimônio Cultural, nomeadamente a diversidade do patrimônio
FRQVWUXtGR©EHP©FRPR©REMHWRV©DUTXHROyJLFRV©RX©PXVHROyJLFRV©LGHQWL½FDGRV©3RU©
PHLR© GH© SURFHGLPHQWR© IRWRHWQRJUi½FR© D© IRWRJUD½D© SRGH© WDPEpP© GRFXPHQWDU©
o patrimônio imaterial, ao registrar performances de produção e fruição do saber
ID]HU©)LJXUD©©GH©MRJRV©)LJXUD©©H©©GH©VRFLDELOLGDGHV©GH©YDORUHV
Figura 4
Uso de tear tradicional. Retomada do saber
fazer da tecelagem artesanal a partir da lã
de ovelha
;;,,,©)(29(/+$©3LQKHLUR©0DFKDGR56©
Fonte: Banco Cultural – Programa Memoriar – LEPAARQ/UFPEL
23
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
Fonte: Banco Cultural – Programa Memoriar – LEPAARQ/UFPEL
Figuras 5 e 6
Competições eqüestres. Tradições campeiras gauchescas.
)LJ©©;;9,,,©([SRIHLUD©GH©2YLQRV©+HUYDO©GR©6XO56©
)LJ©©9,©)HVWD©,QWHUQDFLRQDO©GR©&KXUUDVFR©%DJp56©
²Grifo nosso.
O conjunto destes dados forma um Banco Cultural, que constitui uma
ferramenta indispensável à organização de encontros e de exposições: através dele
se podem montar as apresentações multimídias utilizadas nas ações educativas.
Quando o educando olha a sua cidade representada em imagens, diferentes
leituras são feitas. A praça é vista de um novo ângulo, cores e formas, e deixa de
ser um simples local de encontros e brincadeiras para ganhar um novo sentido. A
arquitetura, os detalhes, um banco da praça... Novos olhares atentos de crianças
e adultos, que passam a perceber de formas diferentes o Patrimônio Cultural que
está presente no seu cotidiano. “Não importa a cidade, cada um olhará a partir
de suas relações com o lugar, pois sempre estaremos aprendendo com ela e
UHVVLJQL½FDQGR©D©SDUWLU©GH©QRVVRV©UHIHUHQFLDLV²©*$/9$1,©©S©
Os desenho e maquetes do patrimônio, feitos pelas crianças que participam de
projetos de educação patrimonial, revelam esta sensibilização do olhar. Conforme
(GLWK©'HUG\N©©©±2©DWR©GH©GHVHQKDU©VH©Gi©QR©SUHVHQWH©LPHGLDWR©3DUD©D©
criança presente seria o desejo impulsionando a ação, o movimento. O desenho,
como exercício do desejo, se transforma em manifestos de identidade”.² (Figura
©H©©
Fonte: Projeto de Salvamento Arqueológico da Enfermaria Militar de Jaguarão, Instituto de Memória e Patrimônio – IMP, Pelotas / RS.
Figura 7 (detalhe)
Aluno da Escola Municipal de Ensino Fundamental Manuel Pereira
Vargas., Jaguarão/RS, apresenta desenho do Mercado Público Municipal.
24
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
Fonte: Projeto de Salvamento Arqueológico da Enfermaria Militar de Jaguarão, Instituto de Memória e Patrimônio – IMP, Pelotas / RS.
Figura 8
Maquete confeccionada por alunas da E.M.E.F Manuel Pereira Vargas,
Jaguarão/RS.
UMA CONDIÇÃO:
PESQUISA PRÉVIA
DAS FORMAS E
PERCEPÇÕES DO
PAT R I M Ô N I O LO C A L
Nesse sentido, a metodologia a ser seguida em projetos de educação
patrimonial deveria levar em conta algumas diretrizes, no que se refere à
conceituação de Patrimônio cultural e suas implicações sociais (CERQUEIRA, 2005:
õ
1.
A indissociabilidade entre o patrimônio humano e natural na
conceituação do Patrimônio Cultural, de modo que as pesquisas, intervenções e
políticas públicas sejam pensadas de forma integrada.
© ©©©
$V© HVSHFL½FLGDGHV© H© LQWHUIDFHV© TXH© PDUFDP© DV© GLIHUHQWHV© UHODo}HV©
entre o patrimônio tangível (material) e intangível (imaterial).
3.
Valorização da cultura material e do patrimônio arqueológico como
expressões de notável valor do Patrimônio cultural da humanidade, e que ao
mesmo tempo nos dão acesso às pessoas comuns, muitas vezes ofuscadas ou
REOLWHUDGDV©QD©GRFXPHQWDomR©HVFULWD©R½FLDO
Atrás de cada artefato há uma pessoa, ou muitas pessoas. Descobrir quem
eram e como viviam é um fator fundamental para a experiência humanizante
que nos é proporcionada pelos objetos do patrimônio cultural. (PARREIRAS
+257$©©
Tanto os documentos escritos quanto a Cultura material são produtos
de uma mesma sociedade, mas não são necessariamente complementares
ou convergentes, pois o documento escrito representa as ideais ou interesses
VXEMHWLYRV© GH© VHX© DXWRU© j© GLIHUHQoD© GD© &XOWXUD© PDWHULDO© © 2V© GRFXPHQWRV©
HVFULWRV©LQIRUPDPõQRV©VREUH©DV©LGHLDV©GH©VHXV©DXWRUHV©HP©JHUDO©SHUWHQFHQWHV©D©
uma minoria dos que sabem ler e escrever. A escrita, assim, é um instrumento
de poder de classe. A Cultura material, por outro lado, é o resultado, em grande
SDUWH© GR© HVIRUoR© GDV© SHVVRDV© FRPXQV© H© FRQVHUYDõVH© PXLWDV© YH]HV© VHP© TXH©
assim se queira ou planeje, como testemunhos involuntários da história.
)81$5,©©
25
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
© ©
2©DEDQGRQR©GD©FRQFHLWXDomR©HOLWLVWD©GH©SDWULP{QLR©TXH©R©LGHQWL½FDYD©
com a visão hegemônica de grupos dominadores do passado, em favor de uma
visão plural, que dê conta da diversidade sócio-cultural existente nas sociedades
do passado, assim como do presente. Nesta perspectiva, patrimônio não é mais
visto como sinônimo da excepcionalidade, da erudição, da genialidade. Hoje –
sem que isto implique perder o gosto pelo excepcional, pelo monumental – falar
GH© SDWULP{QLR© VLJQL½FD© VREUHWXGR© LQWHUHVVDUõVH© SHOR© UHJLVWUR© GR© FRPXP© FRPR©
memória da expressão cultural do homem comum e de sua vida corriqueira.
5.
A preservação do patrimônio deve envolver as comunidades, pois
R© FRQKHFLPHQWR© H© D© LGHQWL½FDomR© FXOWXUDO© VmR© FRQGLFLRQDQWHV© SDUD© TXH© HVWDV©
se interessem pela salvaguarda de sua memória. Para tanto, é necessário que o
patrimônio não seja abordado como algo distante, exógeno a estas comunidades,
sendo para tanto necessário desenvolver mecanismos de escuta da percepção que
estas têm de sua memória e patrimônio, de modo a desenvolver um programa
de educação patrimonial capaz de fomentar a autoestima das comunidades. É
de fundamental importância que os agentes envolvidos no processo conheçam
e reconheçam o patrimônio local, para que a partir daí passem a valorizar e a
preservar esse bem.
Entendemos que a preservação do Patrimônio Arqueológico, Cultural
H© 1DWXUDO© SDVVD© SHOD© LGHQWL½FDomR© GRV© LQGLYtGXRV© SULPHLUDPHQWH© FRPR©
cidadãos, em que o desejo ou o impulso pela preservação não seja somente
o ato de celebrar o “monumental” passado acadêmico, mas sim uma tentativa
de promover novos valores baseados em uma concepção completamente
transformada da tradição e patrimônio, ou seja, a reapropriação da cidadania.
7$0$1,1,©©
6.
Um programa de educação patrimonial precisa alcançar um equilíbrio
entre a bagagem de conhecimentos técnicos da equipe, balizados nas várias
formas de conhecimentos universitários relativos às suas expressões culturais
$UTXLWHWXUD©+LVWyULD©$UTXHRORJLD©$QWURSRORJLD©HWF©H©DV©percepções populares
GH©VHX©OHJDGR©H©PDQLIHVWDo}HV©FXOWXUDLV©%XVFDõVH©XP©HTXLOtEULR©HQWUH© Ciência e
Senso Comum, entre Erudito e Popular, numa perspectiva pluralista, humanista
e universalizante. Mas, sem dúvida, há que prevalecer uma atitude intelectual de
humildade:
Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não
basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita.
e© SUHFLVR© ID]HU© IDODU© D© PXOWLGmR© LPHQVD© GRV© ½JXUDQWHV© PXGRV© TXH© HQFKHP© R©
panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes
GR©TXH©RV©RXWURV©RV©TXH©DSHQDV©HVFUHYHP©D©KLVWyULD©+2/$1'$©©õ
26
7.
Um programa de educação patrimonial deve estar atento às
declarações da UNESCO referentes ao patrimônio imaterial e à diversidade cultural
&I© 'HFODUDo}HV© GH© © H© © EHP© FRPR© jV© FDUWDV© SDWULPRQLDLV© UHIHUHQWHV© j©
salvaguarda do Patrimônio cultural da humanidade (Cf. Cartas de Atenas, Veneza,
(VWRFROPR© H© /DXVDQQH© GHYHQGR© GHVHQYROYHUõVH© QR© HVStULWR© H© FXPSULPHQWR© GD©
legislação vigente no Brasil, no que se refere ao Patrimônio cultural em geral e
DUTXHROyJLFR©HP©HVSHFt½FR©LQFOXLQGRõVH©QHVWH©SRQWR©D©(GXFDomR©3DWULPRQLDO©&I©
/HL©GR©7RPEDPHQWR©õ©'HFUHWRõ/HL©Q©©©/HL©GR©6DPEDTXL©õ©/HL©Q©©GH©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
©&RQVWLWXLomR©GH©©DUWLJR©©3RUWDULD©GD©$UTXHRORJLD©GH©&RQWUDWR©H©GD©
(GXFDomR©3DWULPRQLDO©õ©3RUWDULD©,3+$1©Q©©GH©©6$1726©-Ñ1,25©©õ
©62$5(6©©628=$©©0217,&(//,©©&(548(,5$©&81+$©
Há que se considerar ainda que a educação patrimonial exerce um papel
no desenvolvimento regional, tanto do ponto de vista social – pois valoriza
as identidades dos diferentes grupos que compõem a sociedade, estimulando
VXD© DXWRHVWLPD© VRFLDO© ¯© TXDQWR© HFRQ{PLFR© ¯© UHYHUWHQGRõVH© HP© LPSRUWDQWH©
impacto sobre o desenvolvimento de turismo com enfoque no patrimônio. Um
programa pode vir a alimentar assim o turismo, que emerge como possibilidade
para a sustentabilidade, de forma integrada, da preservação das diferentes
manifestações do patrimônio cultural e ambiental.
O patrimônio, assim como a educação patrimonial, exige uma abordagem
PXOWLIDFHWDGD© GHPDQGDQGR© D© DWXDomR© GH© SUR½VVLRQDLV© FRP© IRUPDomR© HP©
áreas variadas. Em vista disso, é salutar compor uma equipe com formação
multidisciplinar, seus integrantes possuindo formação em áreas tais como:
$QWURSRORJLD©$UTXHRORJLD©$UWHV©+LVWyULD©$UTXLWHWXUD©'HVLJQ©*HRJUD½D©7XULVPR©
Museologia, Literatura, Teatro, Música e Pedagogia.
É importante ressaltar que os projetos devem buscar, nas práticas com as
crianças, um foco na ludicidade, sendo o lúdico fundamental no processo de
ensino/aprendizagem, tanto no que diz respeito à educação de crianças como
WDPEpP©QD©HGXFDomR©GH©DGXOWRV©)LJXUD©©H©©
A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não
pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento do aspecto lúdico
facilita a aprendizagem, o desenvolvimento pessoal, social e cultural, colabora
uma boa saúde mental, facilita os processos de socialização do conhecimento.
6$1726©©
Fonte: Banco Cultural – Programa Memoriar – LEPAARQ/UFPEL
Figura 9 e 10
Teatro de Fantoches. Alternativa lúdica para se abordar o papel dos
objetos na memória.
$©QHFHVVLGDGH©GR©GHVHQYROYLPHQWR©GD©HGXFDomR©SDWULPRQLDO©QD©HVFROD©OLJDõ
se à formação de cidadania com qualidade, preocupada com o fortalecimento da
identidade cultural sustentada na memória das expressões culturais dos diferentes
27
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
³Os temas locais, tradicionalõ
mente tratados na terceira e
quarta série, passam, dentro
do novo sistema, com o ensino
fundamental perfazendo nove
anos, a ser abordados no quarto
e quinto ano.
JUXSRV©TXH©FRPS}HP©H©FRPSXVHUDP©D©VRFLHGDGH©&(548(,5$©©õ
A educação patrimonial precisa ser desenvolvida de forma criativa e
SDUWLFLSDWLYD© VHQGR© SRVLWLYD© VXD© LQVHUomR© HQWUH© DV© DWLYLGDGHV© H[WUDõFXUULFXODUHV©
2© SURFHVVR© GH© HQVLQRõDSUHQGL]DJHP© QD© HGXFDomR© SDWULPRQLDO© EHQH½FLDõVH© GR©
dinamismo, marcado, por parte dos educandos, pela sua participação em um
SURFHVVR©LQYHVWLJDWLYR©/,30$1©©©TXH©SHUPLWH©DR©PHVPR©WHPSR©DVVRFLDU©
suas experiências pessoais e familiares com as experiências coletivas expressas
SHOR©SDWULP{QLR©FXOWXUDO©%HQH½FLDõVH©DLQGD©GH©XP©SURFHVVR©HGXFDWLYR©TXH©VDLD©GD©
rotina, que circule, que ande pela cidade, para gerar uma interação de olhares entre
a escola e a cidade baseada numa “leitura estática, sensível e crítica do cotidiano”.
*$/9$1,©©©2V©SURIHVVRUHV©SUHFLVDP©VHU©SUHSDUDGRV©SDUD©HQIUHQWDU©HVVH©
QRYR©GHVD½R©3DUD©WDQWR©FRP©R©½WR©GH©GDU©FRQWLQXLGDGH©DRV©SURMHWRV©GH©HGXFDomR©
patrimonial, é necessário que conheçam os conceitos e a legislação nacional
atinente à preservação do patrimônio cultural, assim como as experiências já
realizadas em outras escolas.
É comum que os projetos de educação patrimonial estejam focados
QDV© HVFRODV© H© VREUHWXGR© QDV© HVFRODV© S~EOLFDV© 'HQWUR© GDV© HVFRODV© GLULJHPõ
se precipuamente às séries iniciais, uma vez que ali costumam ser ensinados
aspectos de história local³ . Há que se fazer uma série de ponderações sobre
estas tendências, que podem assumir conseqüências negativas, mormente seus
objetivos sejam nobres. Em primeiro lugar, é necessário frisar que todos os jovens,
LQGHSHQGHQWH©GD©FODVVH©VRFLDO©H©QDWXUH]D©GR©HQVLQR©S~EOLFR©RX©SULYDGR©GHYHP©
ser colocados em contato com a educação patrimonial, do mesmo modo como é
feito no que concerne à educação ambiental, pois todos deveriam ser no futuro
cidadãos comprometidos com a preservação dos valores culturais das sociedades.
Interessa que tanto trabalhadores quanto empresários sejam comprometidos com
a preservação patrimonial.
De outro lado, restringir a educação patrimonial à população estudantil, e
sobretudo, infantil, é um erro grave, pois os agentes sociais que estão atuando hoje,
QR©PXQGR©SUR½VVLRQDO©WRPDQGR©GHFLV}HV©GH©RUGHP©S~EOLFD©H©SULYDGD©DWXDQGR©QRV©
movimentos sociais ou mesmo como consumidores, precisam, de forma urgente,
ser sensibilizados, aproximados das questões patrimoniais: pode custar muito caro
à preservação do patrimônio esperar que as atuais crianças se tornem adultos,
para então reverter a tendência de perda dos valores e registros patrimoniais, dos
suportes de identidade cultural coletiva, dos suportes de memória. Em 20 anos,
VHP© FREUDQoDV© H© FRPSURPLVVRV© ½UPHV© SRU© SDUWH© GD© FRPXQLGDGH© DGXOWD© PXLWR©
do que hoje nos circunda como referenciais identitários e de memória social terá
se esvanecido por completo, em certa parte pelo próprio processo natural do
HVTXHFLPHQWR©GR©DSDJDUõVH©PDV©HP©JUDQGH©SDUWH©HP©GHFRUUrQFLD©GD©KHJHPRQLD©
social de interesses imobiliários, do lucro exasperado, bem como da falta de
informação e das visões preconceituosas e elitistas de patrimônio.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Os projetos de Educação patrimonial possibilitam uma aproximação maior
entre a população das comunidades envolvidas e os agentes promotores da
sensibilização patrimonial, pertençam eles ao espectro universitário, ao setor
público, ao terceiro setor ou mesmo à área de responsabilidade social do setor
SULYDGR© &RP© LVVR© SUHWHQGHõVH© PHOKRUDU© D© DXWRHVWLPD© GH© UHJL}HV© H© SRSXODo}HV©
que muitas vezes parecem não se enxergar como portadoras de uma memória
28
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
extremamente importante para a constituição de sua história, a história de sua
FLGDGH©GH©VHX©HVWDGR©GH©VHX©SDtV©4XHUõVH©WDPEpP©SURPRYHU©R©±HPSRGHUDPHQWR²©
destas comunidades portadoras de memória, para ocuparem seu espaço na seara
política de construção e reconstrução do patrimônio cultural. Entendemos, em
FRQVRQkQFLD©FRP©$WDtGHV©H©0DFKDGR©©©TXH©±Ki©QHFHVVLGDGH©GH©VH©FULDUHP©
PHLRV©H©PHFDQLVPRV©H½FD]HV©SDUD©TXH©R©FLGDGmR©FRPXP©WHQKD©GLUHLWR©j©FXOWXUD©j©
PHPyULD©FROHWLYD©H©WHQKD©FRQGLo}HV©GH©DSURSULDUõVH©GHVVH©SDWULP{QLR²©
Do ponto de vista político, a prática da educação patrimonial implica
um compromisso com os valores da pluralidade social e diversidade cultural
(DECLARAÇÃO DA UNESCO SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL, 2001, Artigo 2º
© FRQVLGHUDQGR© DV© PDQLIHVWDo}HV© PDWHULDLV© H© LPDWHULDLV© HUXGLWDV© H© SRSXODUHV©
invertendo assim a abordagem tradicional: a abordagem que privilegiava
elementos patrimoniais relativos às elites pretéritas, o que por anos tem afastado
VHWRUHV©SRSXODUHV©GD©LGHQWL½FDomR©FRP©R©TXH©VH©UHFRQKHFH©SXEOLFDPHQWH©FRPR©
patrimônio cultural.
29
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
D O C U M E N TA Ç Ã O
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FRLVL¿FDomR«GR«2EMHWR´©+RUL]RQWHV©$QWURSROyJLFRV©3XEOLFDomR©GR©3URJUDPD©GH©3yVõ*UDGXDomR©HP©$QWURSRORJLD©6RFLDO©GD©8QLYHUVLGDGH©
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31
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
A R Q U E O L O G I A E N A C I O N A L I S M O E S PA N H O L
A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA DURANTE O FRANQUISMO (1939-1955)
AUTOR
5DIDHO«5X¿QR
Mestrando em História Cultural pelo IFCH/UNICAMP, sob orientação do
Prof. Dr. Pedro Paulo Funari e Pesquisador do Laboratório de Arqueologia
Pública Paulo Duarte – NEPAM/UNICAMP. Bolsista CNPq
&RQWDWR [email protected]
RESUMO
INTRODUÇÃO
O objetivo do artigo é discutir a relação entre Arqueologia e Nacionalismo,
centrando-se no caso espanhol durante o regime do General Francisco Franco.
Inicia-se com uma exposição, em linhas gerais, das primeiras atividades de
SUHVHUYDomR©GRV©YHVWtJLRV©DUTXHROyJLFRV©OHYDGDV©D©FDER©QD©(VSDQKD©QR©½QDO©
do século XIX. Posteriormente, analisa-se o que seria a institucionalização
de uma “Arqueologia franquista”, a partir da criação da Comisaría General de
Excavaciones Arqueológicas – organismo que centralizou toda a atividade
DUTXHROyJLFD© HQWUH© © H© © 3RU© ½P© D© GLVFXVVmR© WHP© FRPR© IRFR© D©
Arqueologia durante o franquismo como uma Arqueologia a serviço do
regime.
3DODYUDV÷FKDYH Arqueologia; Nacionalismo; Espanha franquista.
Nos últimos tempos, o campo da Arqueologia tem recebido o aporte
de uma discussão epistemológica que visa demarcar o aspecto discursivo
GD© GLVFLSOLQD© ,Q¾XHQFLDGD© SRU© XPD© FUtWLFD© GLWD© SyVõPRGHUQD© D© DWHQomR©
IRL© GLUHFLRQDGD© SDUD© D© LQ¾XrQFLD© GR© DPELHQWH© VRFLDO© FXOWXUDO© H© SROtWLFR© GR©
pesquisador na produção do conhecimento arqueológico (LUMBRERAS, 1974
e UCKO, 1987). Isso quer dizer que suas interpretações devem ser entendidas
a partir das motivações que o levaram a olhar para o objeto a partir de uma
GHWHUPLQDGD©WHRULD©H©GH©SURFHGLPHQWRV©PHWRGROyJLFRV©HVSHFt½FRV©
1R©PDUFR©HVSHFt½FR©GD©KLVWyULD©GD©GLVFLSOLQD©DUTXHROyJLFD©p©LPSRUWDQWH©
observar as considerações críticas de Margarita Díaz-Andreu a respeito dos
que “adotam uma ótica internalista, isto é, que fundamentalmente discutem
qual autor disse, o que disse, em que época, e os que suas idéias contribuíram
SDUD© R© SURJUHVVR© GD© FLrQFLD²© © © ¯© JULIR© QR© RULJLQDO© $R© FRQWUiULR© p©
QHFHVViULD©XPD©YLVmR©H[WHUQDOLVWD©YROWDGD©SDUD©D©GHVFRQVWUXomR©GRV©GLVFXUVRV©
arqueológicos (PATTERSON, 2001 e FUNARI, 2003a). Isso implica tornar visíveis
as “categorias discursivas utilizadas, que raramente constituem o tema de
DQiOLVH© $QWHV© VmR© DFHLWDV© FRPR© GDGDV© H© FRQVWLWXHP© XPD© HVWUXWXUD© a priori
SDUD©GHVFULomR©FODVVL½FDomR©H©LQWHUSUHWDomR²©-21(6©©©%UXFH©7ULJJHU©
H[SUHVVRX©VXD©RSLQLmR©DFHUFD©GR©DVVXQWR
Acredito, como muitos outros que estudam a História da
Arqueologia, que o enfoque histórico oferece uma posição especialmente
vantajosa a partir da qual é possível examinar as relações de mudança entre
a interpretação arqueológica e seu meio social e cultural. A perspectiva
WHPSRUDO©PHOKRU©TXH©D©½ORVy½FD©RX©D©VRFLROyJLFD©SURSRUFLRQD©XPD©EDVH©
diferente para o estudo dos vínculos entre a Arqueologia e a sociedade.
&RQFUHWDPHQWH© SHUPLWH© DR© LQYHVWLJDGRU© LGHQWL½FDU© IDWRUHV© VXEMHWLYRV©
32
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
mediante a observação de como e sob quais circunstâncias tem variado
DV©LQWHUSUHWDo}HV©GR©UHJLVWUR©DUTXHROyJLFR©©©
(VVD©SRVWXUD©HP©UHODomR©DR©FRQKHFLPHQWR©DUTXHROyJLFR©HVWi©LQVHULGD©HP©
uma crítica ao modelo positivista na Arqueologia, representado, em grande
PHGLGD© SHOD© FRUUHQWH© WHyULFD© GD© $UTXHRORJLD© 3URFHVVXDO© ±RV© SRVLWLYLVWDV©
defendem que, sempre que os dados disponíveis sejam os adequados e
DQDOLVDGRV© VHJXQGR© RV© PpWRGRV© FLHQWt½FRV© FRQYHQLHQWHV© D© YDOLGDGH© GDV©
conclusões resultantes é independente das crenças do investigador” (TRIGGER,
© © 3RU© RXWUR© ODGR© DOJXQV© DUTXHyORJRV© D½UPDP© TXH© DV© SHUJXQWDV©
IRUPXODGDV©H©DV©UHVSRVWDV©FRQVLGHUDGDV©DFHLWiYHLV©VmR©GLQkPLFDV©H©PXWiYHLV©
dependendo das condições sociais e culturais do pesquisador. Esse tipo de
posicionamento alimentou a constituição de uma Arqueologia denominada
Contextual ou Pós-Processual, que leva em conta o contexto na produção do
FRQKHFLPHQWR©1HVVH©VHQWLGR©,DQ©+RGGHU©D½UPD©TXH©
A Arqueologia Processual não se caracterizava precisamente por
XPD© DQiOLVH© PLQXFLRVD© GRV© FRQWH[WRV© VRFLDLV© GRV© DUTXHyORJRV© YLVWR©
que o mais importante era a contrastação, independente das teorias, a
SDUWLU©GRV©GDGRV©HWQRJUi½FRV©H©DUTXHROyJLFRV©1R©HQWDQWR©QmR©ID]©PXLWR©
tempo que os arqueólogos começaram a mostrar um maior interesse pela
subjetividade dos passados que reconstruímos em relação às estratégias
GH©SRGHU©FRQWHPSRUkQHDV©©©
2© SUHVHQWH© DUWLJR© HVWi© LQVHULGR© QHVVD© SHUVSHFWLYD© WHyULFD© 'R© SRQWR©
GH© YLVWD© WHPiWLFR© EXVFD© SHUFHEHU© RV© XVRV© GD© $UTXHRORJLD© GXUDQWH© R©
regime franquista na Espanha (1939-1975) e compreender a relação entre a
Arqueologia e a ideologia política do nacionalismo espanhol desenvolvida
QHVVH©SHUtRGR©2©LQWHUHVVH©p©GLUHFLRQDGR©SDUD©D©DQiOLVH©GH©FRPR©RV©HVWXGRV©
de Arqueologia, produzidos durante o regime, estavam de alguma forma
conectados com as principais bandeiras defendidas pelo poder político, tais
como a criação de uma identidade nacional, de uma unidade nacional, de uma
origem comum a todos os espanhóis, entre outras, pois, como observa Pedro
Paulo Funari, “a criação e a valorização de uma identidade nacional ou cultural
relacionam-se, muitas vezes, com a Arqueologia”, visto que “a Arqueologia é
sempre política, responde a necessidades político-ideológicas dos grupos
HP©FRQ¾LWR©QDV©VRFLHGDGHV©FRQWHPSRUkQHDV²©©õ©&RP©HIHLWR©R©
TXH©HVWi©FRORFDGR©p©D©UHODomR©HQWUH©R©QDFLRQDOLVPR©XP©JRYHUQR©GLWDWRULDO©H©R©
papel da Arqueologia como portadora de uma legitimidade.
O Nacionalismo é uma forma particular de ideologia que pode
ser usada por uma nação para construir e fortalecer a unidade. Uma
vez que a ideologia do nacionalismo é geralmente construída com
base no entendimento das pessoas acerca de seu passado, a história
e a arqueologia podem fornecer uma contribuição essencial para a sua
criação. [...] A ditadura é um tipo político, um entre muitos, que pode optar
por utilizar o nacionalismo. Os ditadores costumam usar o nacionalismo
para reforçar o apoio para os seus anseios e, com isso, podem cultivar um
LQWHUHVVH©SHOD©$UTXHRORJLD©*$/$7<©:$7.,1621©©©
33
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
É o interesse pela Arqueologia, demonstrado pelos autores franquistas,
que o presente trabalho se propõe a questionar. Inicia-se com uma exposição,
em linhas gerais, das primeiras atividades de preservação dos vestígios
DUTXHROyJLFRV© IHLWDV© QD© (VSDQKD© QR© ½QDO© GR© VpFXOR© ;,;© 3RVWHULRUPHQWH©
analisa-se o que seria a institucionalização da “Arqueologia franquista”, a partir
da criação de um organismo que centralizou toda a atividade arqueológica,
entre 1939 e 1955, a Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas©3RU©½P©
discute a Arqueologia durante o franquismo como uma Arqueologia a serviço
do regime.
ANTECEDENTES
¹Sobre a Escuela Superior de Diplomática
YHU© 3(,52© 3$6$0$5© © 0$,(5©
ALLENDE, 2008).
34
A preocupação com a preservação de vestígios arqueológicos teve início
na Espanha em meados do século XIX. Nesse período é possível vislumbrar os
primórdios de uma Arqueologia espanhola, bem como a tentativa de construir
XP© FDPSR© GH© HVWXGR© HVSHFt½FR© UHVSRQViYHO© SHOD© SURWHomR© GR© SDWULP{QLR©
arqueológico espanhol. Segundo Margarita Díaz-Andreu, “objetos antigos não
eram considerados como parte da herança nacional até a década de 1830”
©õ©1R©HQWDQWR©HP©XP©PRPHQWR©SRVWHULRU©RV©PXVHXV©SURYLQFLDLV©
TXH©H[LELDP©UHVWRV©DUTXHROyJLFRV©FRPHoDUDP©D©DSDUHFHU©QR©½QDO©GD©GpFDGD©
de 1830; os nacionais, por sua vez, reservados a objetos artísticos, foram
abertos na década de 1840. Como esses museus necessitavam de curadores,
foi criada, em 1856, a Escuela Superior de Diplomática©TXH©½FDYD©UHVSRQViYHO©
pelo ensino de Arqueologia e o lugar onde os curadores eram treinados¹. O
último passo na criação de museus de Arqueologia foi a abertura do Museo
Nacional de Arqueología, em 1867, localizado em Madri.
No início do século XX, os esforços são voltados para a organização de
uma base institucional para a Arqueologia espanhola e a construção de uma
legislação que incorporasse em seus artigos e decretos uma base normativa
para as escavações arqueológicas. É nesse contexto que surge, em 1900, o
Ministério de Instrucción Publica e Bellas Artes. Um pouco mais tarde, em 1907, é
criada a Junta de Ampliación de Estudios -$(©TXH©WHYH©XP©SDSHO©GH©OLGHUDQoD©
na Arqueologia espanhola, congregando outras instituições arqueológicas
que dela dependiam, como o Centro de Estudios Históricos, que desde a década
de 20 possuía uma seção de Arqueologia, e a Comisión de Investigaciones
Paleontológicas y Prehistóricas. A importância que a Arqueologia tinha
DGTXLULGR© UH¾HWLDõVH© WDPEpP© QD© OHJLVODomR© FRPR© R© Ato de Excavaciones, de
1911, que criava a Junta Superior de Excavaciones e Antiguedades.
&RP© D© SURFODPDomR© GD© 5HS~EOLFD© HP© © D© GHIHVD© GR© SDWULP{QLR©
FXOWXUDO© LQFOXLQGR© R© DUTXHROyJLFR© ½FRX© D© FDUJR© GD© Junta Superior de Tesoro
Artistico, criado, em maio de 1933, pela Lei de Defensa do Patrimônio Histórico
Artistico Nacional. No mesmo ano é promulgado o Ato de Excavaciones, em
uma tentativa de regulamentar as escavações arqueológicas ocorridas no
território espanhol.
Com o início da Guerra Civil (1936-1939), as atividades arqueológicas
foram momentaneamente paralisadas. Como desde o dia 1 de outubro de
1936 o General Francisco Franco era considerado o chefe de Governo do
Estado Espanhol e Generalissimo dos Exércitos de terra, mar e ar (chefe das
)RUoDV© $UPDGDVï© © IRL© FULDGR© GXUDQWH© RV© PRPHQWRV© ½QDLV© GD© FRQWHQGD© R©
Servicio de Defensa do Patrimonio Artistico Nacional (SDPAN), em 22 de abril
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
²No dia 1 de outubro de 1936, dois
meses após iniciada a Guerra Civil que
derrubaria a República espanhola,
foi constituído em Burgos, cidade
ORFDOL]DGD© QD© &RPXQLGDGH© $XW{QRPD©
de Castilla y León, o governo dos
rebeldes sob a liderança do General
Francisco Franco, que receberia o título
GH© -HIH© GHO© (VWDGR© H© *HQHUDOtVVLPR©
(chefe supremo das forças armadas).
A partir desse momento, a Espanha
estava literalmente dividida em duas,
pois Madri continuava sendo a capital
do governo legítimo da República.
Os únicos países que reconheceram
a legitimidade do governo rebelde
IRUDP© D© ,WiOLD© IDVFLVWD© H© D© $OHPDQKD©
nacional-socialista.
de 1938, dependente da Jefatura Nacional de Bellas Artes e caracterizado
por “uma administração fortemente centralizada e hierarquizada” (DÍAZ$1'5(8©5$0É5(=©6Æ1&+(=©©©SUHQXQFLDQGR©D©IRUPD©GH©JHVWmR©GR©
SDWULP{QLR©FXOWXUDO©HVSDQKRO©XP©DQR©PDLV©WDUGH©2©SDPAN seria rebatizado,
em 12 de agosto de 1938, com o nome de Servicio de Defensa e Recuperación
do Patrimonio Histórico Nacional (SDRPHN).
1R©½QDO©GH©©KRXYH©XPD©WHQWDWLYD©GH©UHRUJDQL]DomR©GD©$UTXHRORJLD©
HVSDQKROD© OHYDGD© D© FDER© SHOR© DUTXHyORJR© -XOLR© 0DUWtQH]© 6DQWD© 2ODOOD©
FDWHGUiWLFR© GH© $UTXHRORJLD© QD© 8QLYHUVLGDGH© GH© 6DQWLDJR© GH© &RPSRVWHOD©
(Galícia). Filho de um general amigo de Franco, ele planejou a reorganização
da Arqueologia espanhola a partir da criação de um novo organismo que
FRQWURODVVH© WRGD© D© LQYHVWLJDomR© GR© GLWR© FDPSR© R© Instituto Arqueológico
Nacional y Imperial. Como observa Francisco Gracia Alonso, Martínez Santa
Olalla.
Amparado no Decreto de 22 de abril de 1938, pelo qual se criava
o SDPAN (Servicio de Defensa del Patrimonio Histórico Nacional), que
não mencionava explicitamente a Arqueologia, pretendeu aglutinar
no novo organismo toda a atividade arqueológica de investigação,
conservação e difusão, em qualquer de seus âmbitos presentes e futuros
GH© DWXDomR© DUJXPHQWDQGR© D© QHFHVVLGDGH© FLHQWt½FD© GH© FRQIHULU© JUDX© GH©
UHFRQKHFLPHQWR©FLHQWt½FR©j©$UTXHRORJLD©*5$&,$©$/2162©©
$SyV©PXLWRV©FRQ¾LWRV©SROtWLFRV©D©FULDomR©GR©QRYR©LQVWLWXWR©QmR©ORJURX©
r[LWR©0DUWtQH]©6DQWD©2ODOOD©WHULD©TXH©HVSHUDU©R©SUy[LPR©DQR©SDUD©FRQVHJXLU©
implantar seu plano, após muita negociação com a comunidade arqueológica
espanhola.
A COMISARÍA DE
EXCAVACIONES
ARQUEOLÓGICAS (1939-1955)
A S P E C TO S P O L Í T I CO S
Pouco antes do término da Guerra civil, foi criada pelo Ministerio
de Educación Nacional, em 9 de março de 1939, a Comisaría General de
Excavaciones Arqueológicas, em substituição da antiga Junta Superior de
Excavaciones y Antiguedades. Passava nesse momento a ser dependente da
Jefatura de Archivos, Bibliotecas y Museos. A criação foi por meio de uma Ordem
0LQLVWHULDO©DVVLQDGD©SHOR©0LQLVWUR©GD©(GXFDomR©3HGUR©6DLQ]©5RGUtJXH]©
La necesidad de atender a la vigilancia de las excavaciones
arqueológicas que desde su iniciación en 1905 han permitido reconstruir
VREUH« EDVH« ¿UPH« HO« SDVDGR« UHPRWR« GH« (VSDxD« \« DFUHVFHQWDGR« QXHVWUR«
patrimonio arqueológico con maravillosas o heroicas ruinas como las de
Mérida, Italica, Numancia, Azaila, etc., y la conveniencia de lograr el máximo
SURYHFKR« FLHQWt¿FR« GH« ORV« IUHFXHQWHV« KDOOD]JRV« GH« UHVWRV« DQWLJXRV« TXH« HQ«
REUDV«GH«WULQFKHUDV«FDPLQRV«\«IRUWL¿FDFLRQHV«VH«KDQ«SURGXFLGR«FRQ«PRWLYR«GH«
la guerra actual, hechos que aconsejan la creación de una Comisaría General
de Excavaciones a cuyo cargo quede el cuidado administrativo, la vigilancia
WpFQLFD« \« OD« HODERUDFLyQ« FLHQWt¿FD« GH« WDOHV« SUREOHPDV« (citado por GRACIA
$/2162©©©
35
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
A principal função do organismo recém criado era “propor os planos
gerais de escavações que seriam realizados a cada ano e supervisionar a
H[HFXomR© GRV© PHVPRV²© 'É$=õ$1'5(8© 5$0É5(=© 6Æ1&+(=© © © 1R©
que diz respeito à organização, houve uma nova orientação que propiciou a
FRQFHQWUDomR© GR© SRGHU© QDV© PmRV© GH© XP© Q~PHUR© UHGX]LGR© GH© SHVVRDV© ½pLV©
DR©UHJLPH©IUDQTXLVWD©FRPR©p©R©FDVR©GH©-XOLR©0DUWtQH]©6DQWD©2ODOOD©QRPHDGR©
Comisario General© -RDTXLQ© 0DUtD© GH© 1DYDVFXpV© \© GH© -XDQ© 0DUWtQ© $OPDJUR©
Basch e Isidro Ballester, consultores. Integravam também outros importantes
arqueólogos simpatizantes do regime, como Blas Taracena Aguirre e Antonio
García y Bellido.
A partir de abril de 1941, foi autorizada a nomeação de Comisarios
Provinciales Locais e Provinciais de Excavaciones Arqueológicas. Esses eram
subordinados ao Comisario General, o que denota uma organização muito
bem centralizada e hierarquizada, que colocava nas mãos de pessoas mais
próximas do poder político a responsabilidade em matéria de proteção do
SDWULP{QLR© DUTXHROyJLFR© 7RGRV© HVVHV© IXQFLRQiULRV© HUDP© HVFROKLGRV© DSyV©
um rigoroso processo seletivo que, por sua vez, não estava preocupado, em
primeiro lugar, com os méritos intelectuais do candidato ou sua produção
DFDGrPLFD© 2V© FULWpULRV© HUDP© HVVHQFLDOPHQWH© SROtWLFRV© SRLV© R© DWLYLVPR© GH©
algum indivíduo no passado, ou simplesmente a suspeita de ter participado
QD© *XHUUD© FLYLO© GR© ODGR© UHSXEOLFDQR© SRGHULD© VLJQL½FDU© D© LPSRVVLELOLGDGH© GH©
exercer o cargo de Comisario Provincial ou Local de Escavaciones Arqueológicas
LGHP© © $RV© SRVWXODQWHV© D© XP© FDUJR© GH© Comisario eram requisitadas
informações pela Comisaría General©¯©RV©FKDPDGRV©LQIRUPHV©FRQ½GHQFLDLV©¯©
que diagnosticaria se o indivíduo estava “apto” ou não para desempenhar a
função. Dependendo do posicionamento político do candidato era aceito ou
UHFKDoDGR©D©VXD©HVFROKD©(P©PXLWRV©FDVRV©RV©GRFXPHQWRV©R½FLDLV©HPLWLGRV©
SHORV© yUJmRV© UHVSRQViYHLV© TXDQGR© UHFXVDYDP© XP© FDQGLGDWR© FRQWLQKDP©
a expressão persona non grata devido a sua atuação política anterior não
condizente com o governo franquista.
6HQGR© DVVLP© TXDLV© HUDP© RV© DWULEXWRV© GHVHMiYHLV© SDUD© R© GHVHPSHQKR©
da função de Comisario Provincial, Local ou Insular? “Todas aquelas pessoas
devidamente capacitadas, segundo expressava a Ordem de 30 de abril de
1941, pertencentes à Falange ou que possuam uma irrepreensível e inequívoca
WUDMHWyULD© SROtWLFD© GH© GLUHLWD© H© VHMDP© FDWyOLFRV© IHUYRURVRV²© LELGHP© ©
Aqueles que correspondiam aos critérios escolhidos para desempenhar o
cargo de Comisario, ao invés de representarem persona non grata, recebiam a
LQVtJQLD©GH©±DIHLWR©DR©5HJLPH²©±SHVVRD©GH©LGHRORJLD©SROtWLFD©GH©GLUHLWD©H©½OLDGR©
D©)(7©\©GH©ODV©-216²©±FRPSOHWDPHQWH©LQFOLQDGR©D©FDXVD©QDFLRQDO²©±DGHULX©DR©
glorioso movimento nacional”; “goza de irrepreensível conduta moral, pública
e religiosa, assim como político-social”. Um exemplo desse tipo de seleção é o
FDVR©GR©7HQHQWH©&RURQHO©GH©$UWLOKDULD©-RVp©0DUtD©9LOOHJDV©6LOYD©FDQGLGDWR©D©
um cargo na Comisaría Local de Excavaciones Arqueológicas de Palencia, que foi
recusado por ter sido considerado ateu, a despeito de sua boa conduta moral e
DIHLomR©SHOR©5HJLPH©1DFLRQDO©'HVVD©IRUPD©½FD©HYLGHQWH©TXH©RV©PpULWRV©PDLV©
importantes que deviam possuir os candidatos a desempenhar as funções de
Comisario©UHGX]LDPõVH©D©XP©LQIRUPH©FRQ½GHQFLDO©RQGH©RV©GDGRV©DGTXLULGRV©
se limitavam aos antecedentes políticos, sua atividade pública ou seus dotes
morais. Raras vezes esses informes contribuíam com informações sobre a
36
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
atividade de trabalho destes candidatos ou seu nível de instrução.
Durante a década de 40, as escavações arqueológicas no território
espanhol foram intensas e seguiram sempre o plano anual de escavações,
elaborado pela Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas, que, como foi
colocado, centralizava todo o trabalho arqueológico entre as suas atribuições.
Para a divulgação das pesquisas foi organizado, em janeiro de 1950, o Congresso
GH« &RPLVDULRV« GH« ([FDYDFLRQHV« $UTXHROyJLFRV« GH« (VSDxD, um momento
ímpar para que o Comisario General mostrasse às autoridades do regime os
resultados dos trabalhos realizados pela Comisaría desde a sua criação. Uma
das propostas apresentadas no Congresso, que demonstra o vínculo entre a
Arqueologia e a construção de uma identidade (no caso, cristã), consistiu em
solicitar ao Caudillo, Francisco Franco, que estimulasse a realização de um $xR«
Santo de los Comisarios de Excavaciones Arqueológicas, que teria como objetivo
XPD©H[SORUDomR©VLVWHPiWLFD©GRV©SULPHLURV©PRQXPHQWRV©FULVWmRV©GD©(VSDQKD©
Em meados dos anos 50, inicia-se um processo de transformações
LQWHUQDV©QD©(VSDQKD©IUDQTXLVWD©±8PD©GDV©PDLV©VLJQL½FDWLYDV©IRL©D©PXGDQoD©QR©
equilíbrio de poder entre os diferentes grupos que sustentavam o governo de
Franco, que resultou na substituição da Falange pela Opus Dei” (DÍAZ-ANDREU;
5$0É5(=© 6Æ1&+(=© © &RP© LVVR© 0DUWtQH]© 6DQWD© 2ODOOD© H© DOJXQV©
Comisarios, que eram falangistas, começaram a perceber uma diminuição
GH©VXD©LPSRUWkQFLD©QD©YLGD©FLHQWL½FD©H©DFDGrPLFD©QD©(VSDQKD©GHL[DQGRõRV©
em uma posição de fraqueza política dentro do regime. Os tempos haviam
mudado e o sistema centralizado que Martínez Santa Olalla havia organizado
a partir da Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas estava fadado a
desaparecer ou, ao menos, sofrer importantes transformações. Foi assim que,
por meio de um Decreto de 2 de dezembro de 1955, foi extinta a Comisaría
e, em seu lugar, foi criado o Servicio Nacional de Excavaciones Arqueológicas
(SNEA). Em síntese, esse decreto implicou uma mudança do antigo regime
FHQWUDOLVWD© H© KLHUiUTXLFR© LPSRVWR© SHOR© UHJLPH© IUDQTXLVWD© DR© ½QDO© GD© *XHUUD©
civil, que havia colocado sob o poder do Comisario General de Excavaciones
Arqueológicas o controle absoluto sobre a investigação arqueológica na
Espanha.
A partir do exposto, é possível perceber, por parte da nova administração
governamental, a tentativa de exercer um controle total das escavações
arqueológicas, construindo para isso um aparato administrativo e legislativo
para tal empreendimento. Nesse sentido, podemos nos questionar acerca do
motivo que levou à Arqueologia a se tornar parte integrante das preocupações
do governo franquista. Qual era a utilidade da Arqueologia? Por que um
controle governamental tão rígido das escavações? O que se pretendia com
seus estudos? Por que sítios arqueológicos como o de Numância, Ampurias,
,WiOLFD©6DJXQWR©0pULGD©7DUUDJRQD©HQWUH©RXWURV©PHUHFHUDP©WDQWD©DWHQomR©GD©
SDUWH©GRV©yUJmRV©JRYHUQDPHQWDLV"©e©SRVVtYHO©IDODU©GH©XPD©±$UTXHRORJLD©R½FLDO©
franquista”?
UMA
ARQUEOLOGIA
A SERVIÇO DO
REGIME
37
1DV©~OWLPDV©GpFDGDV©DOJXQV©HVWXGRV©VREUH©$UTXHRORJLD©WrP©SURFXUDGR©
DQDOLVDU© D© UHODomR© HQWUH© HVWD© H© R© QDFLRQDOLVPR© FKHJDQGR© PHVPR© D© D½UPDU©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
que a Arqueologia teria se constituído como um campo de pesquisa a partir
do processo de formação dos Estados-nacionais europeus (DÍAZ-ANDREU;
CHAMPION, 1996 e KOHL; FAWCETT, 1995). Com isso, entende-se que é no
FRQWH[WR© GR© QDFLRQDOLVPR© FRPR© WHRULD© SROtWLFD© ¯© ½P© GR© VpFXOR© ;9,,,© õ© TXH©
D© $UTXHRORJLD© GHL[D© GH© VHU© XPD© DWLYLGDGH© VHFXQGiULD© SDUD© VH© FRQYHUWHU© HP©
XP©WUDEDOKR©SUR½VVLRQDO©$QWHV©GH©TXDOTXHU©FRLVD©FRQYpP©XPD©DQiOLVH©PDLV©
GHWDOKDGD©GR©FRQFHLWR©GH©QDFLRQDOLVPR©6HJXQGR©0DUJDULWD©'tD]õ$QGUHX©Ki©
dois tipos de nacionalismo, o primeiro foi
O nacionalismo cívico ou político, surgido na Revolução francesa,
© TXH© ½QDOPHQWH© GHX© DR© WHUPR© ³QDomR´© XP© VLJQL½FDGR© SROtWLFR©
associando ao conceito de soberania nacional. Uma nação era concebida,
QDV©SDODYUDV©GH©6LH\HV©FRPR©³D©XQLmR©GH©LQGLYtGXRV©JRYHUQDGRV©SRU©XPD©
OHL©H©UHSUHVHQWDGRV©SHOD©PHVPD©$VVHPEOpLD©/HJLVODWLYD©©©
Percebe-se que as características do nacionalismo exposto acima não
estavam baseadas em identidades culturais e não consideravam a origem
cultural da nação. Por outro lado,
O nacionalismo cultural ou étnico, surgido a partir da metade
GR© VpFXOR© ;,;© HVWDYD© EDVHDGR© HP© GXDV© LGpLDV© R© PXQGR© HUD© GLYLGLGR©
naturalmente em culturas e essas culturas deveriam ser idealmente
entidades políticas. Foi essa interpretação essencialista de nação que deu
à história uma importância antes desconhecida, pois agora tornava-se
QHFHVViULR©MXVWL½FDU©D©RULJHP©H©IRUPDomR©GD©QDomR©GHVGH©RV©SULPyUGLRV©
[...] A base da nação tornou-se cultural, e foi na base dessa suposta unidade
cultural que os nacionalistas exigiam unidade política (idem).
O nacionalismo cultural ou étnico teve um grande impacto no campo
GD© $UTXHRORJLD© 6XD© LQ¾XrQFLD© SHUPHRX© D© WHRULD© DUTXHROyJLFD© +LVWyULFRõ
&XOWXUDO© TXH© SUHWHQGLD© GH½QLU© DV© FXOWXUDV© DUTXHROyJLFDV© GHOLPLWDGDV©
espacial, cronológica e culturalmente, a partir de uma série de características
KRPRJrQHDV©HP©XP©FRQMXQWR©VX½FLHQWHPHQWH©DPSOR©GH©HOHPHQWRV©GD©FXOWXUD©
material (cerâmica, tipologia dos enterramentos, das plantas das casas (DE LA
526$©'(/©$5&2©$*8,/$5©©©2©DUTXHyORJR©*RUGRQ©&KLOGH©H[SULPLX©
em 1929, a noção de que os restos arqueológicos podem ser portadores de
uma determinada cultura.
Encontramos certos tipos de restos – vasilhas, ornamentos, ritos
de enterramento, plantas de casas – que constantemente se encontram
associadas. A tal complexo de características regularmente associadas
denominaremos um “grupo cultural” ou simplesmente uma “cultura”
FLWDGR©SRU©'É$=õ$1'5(8©©©
Nesse sentido, a Arqueologia forneceria dados que possibilitaria a
reconstrução do passado nacional. As nações se constituiriam como tal a partir
GR©FRPSDUWLOKDPHQWR©GH©XP©SDVVDGR©HP©FRPXP©TXH©LGHQWL½FDVVH©XP©JUXSR©
como exclusivo. Por meio da Arqueologia seria possível encontrar vestígios
dos “nossos antepassados” e, conseqüentemente, encontrar a raiz mais
38
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
³Um dos lemas do franquismo que
consiste em um entendimento
QDFLRQDOLVWD©GD©(VSDQKD©2V©WUrV©WHUPRV©
se referem à Espanha como indivisível,
LPSHULDO©H©QmR©VXEPHWLGD©D©LQ¾XrQFLDV©
estrangeiras, respectivamente.
39
profunda e original na busca incessante pelo “espírito de um povo”. Os objetos
encontrados em um determinado território legitimariam automaticamente a
posse do mesmo pelo povo que se colocasse como descendente dos antigos
habitantes.
No que diz respeito ao caso espanhol, se no século XIX o nacionalismo
estava enfraquecido, ocasionado, principalmente, pelo insucesso nas
RSHUDo}HV© PLOLWDUHV© H© SHOD© SHUGD© GH© VXDV© FRO{QLDV© H© SRU© HVVH© PRWLYR© KDYLD©
apenas um interesse limitado no passado arqueológico, no século XX, por
VXD©YH]©Ki©XP©UHFUXGHVFLPHQWR©GR©QDFLRQDOLVPR©TXH©LQ¾XHQFLD©GLUHWDPHQWH©
D© $UTXHRORJLD© 'É$=õ$1'5(8© © © 3DUD© LOXVWUDU© HVVD© D½UPDomR© EDVWD©
FLWDU© R© FDVR© GR© DUTXHyORJR© -RVp© 5DPyQ© 0pOLGD© H© FRPSDUDU© VHX© WUDEDOKR©
conduzido durante o século XIX com o realizado no século seguinte. No
VpFXOR©;,;©0pOLGD©HVWXGRX©SULQFLSDOPHQWH©$UTXHRORJLD©HJtSFLD©-i©QR©VpFXOR©
XX, seu nacionalismo tinha se desenvolvido ao ponto de ser mencionado
expressivamente em seu trabalho. Em 1906, Mélida foi incluído na equipe
de escavação em Numância. Suas publicações tinham um claro objetivo
nacionalista. Por exemplo, ele iniciou o relatório da primeira escavação com
D© VHJXLQWH© REVHUYDomR© ±2© GHVFREULPHQWR© GRV© UHVWRV© GD© FLGDGH© KHUyLFD© GH©
1XPkQFLD©IRL©XP©GHYHU©QDFLRQDO²©$SyV©DOJXPDV©SiJLQDV©HVFULWDV©HP©XP©WRP©
similar, ele admitiu que o sítio havia sido escavado não apenas por razões
FLHQWt½FDV© PDV© ±SDUD© VDWLVID]HU© XP© GHYHU© KLVWyULFR© SDUD© WRUQDU© H[SOtFLWR©
DWUDYpV©GHVVDV©UHOtTXLDV©XP©DFRQWHFLPHQWR©KLVWyULFR©TXH©GHL[D©QRVVD©SiWULD©
RUJXOKRVD²©FLWDGR©SRU©'É$=õ$1'5(8©©©
'XUDQWH© D© *XHUUD© &LYLO© õ© IRL© YLVWR© XP© FRQ¾LWR© VREUH© GXDV©
maneiras de compreender a Espanha como nação. Alguns a viam como uma
unidade multicultural (entendida durante a Segunda República Espanhola –
1931 / 1936/9); outros, como o general Francisco Franco, viam o país como
uma unidade cultural única. Foi essa última a vencedora e que vigorou na
Espanha de 1939 a 1975.
1D©WHQWDWLYD©GH©GRWDU©D©(VSDQKD©GH©XPD©XQLGDGH©QDFLRQDO©HUD©QHFHVViULR©
HQFRQWUDU© GDGRV© TXH© FRPSURYDVVHP© WDO© D½UPDomR© LVWR© p© WRUQDU© D© (VSDQKD©
uma comunidade étnica, entendida por Anthony Smith como detentora de
DOJXQV©DWULEXWRV©XP©QRPH©FROHWLYR©XP©PLWR©GH©RULJHP©FRPXP©PHPyULDV©
históricas compartilhadas, elementos diferenciadores da cultura comum,
OXJDUHV©GH©RULJHP©HVSHFt½FRV©H©XP©VHQWLPHQWR©GH©VROLGDULHGDGH©HQWUH©VHWRUHV©
VLJQL½FDWLYRV©GD©SRSXODomR©©©3DUD©FRQVWUXLU©D©QDomR©D©SDUWLU©GR©SRQWR©
de vista do regime franquista, a Arqueologia viria a se constituir como uma
disciplina de grande importância para a construção simbólica de uma “(VSDxD«
Una, Grande y Libre”³ , uma vez que ela oferecia ao nacionalismo símbolos
PDWHULDLV©SROLWLFDPHQWH©HIHWLYRV©3DUD©DFUHVFHQWDU©p©QHFHVViULR©GHVWDFDU©TXH©
durante o regime franquista o enfoque da teoria arqueológica históricocultural prevaleceu e obteve grande adesão entre os autores franquistas,
XPD©YH]©TXH©R©QRYR©UHJLPH©QDVFHQWH©GH½QLDõVH©SRU©±XP©PRGHOR©GH©(VWDGR©
DXWRULWiULR©XQLWiULR©H©XOWUDQDFLRQDOLVWD©GH©DSRLR©ROLJiUTXLFR©FXMDV©Pi[LPDV©
políticas serão, entre outras, a unidade nacional, o centralismo administrativo,
R©UHOLJDPHQWR©FRP©R©SDVVDGR©H©D©HQpUJLFD©H©VLVWHPiWLFD©DSOLFDomR©GH©SROtWLFDV©
FXOWXUDLV©XQLWiULDV²©'(©/$©526$©'(/©$5&2©$*8,/$5©©©
Nesse sentido, muitos trabalhos arqueológicos foram feitos permeados
por essa noção de unidade nacional espanhola. Cumpre destacar o trabalho do
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
arqueólogo espanhol Martín Almagro Basch (1911-1984) que, inclusive, exerceu
o cargo de consultor na Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas. Foi
publicada pelo autor a obra Del pueblo hispano (1958), um estudo etnológico
da península ibérica desde a pré-história até os nossos dias, desde os homens
GR©3DOHROtWLFR©DWp©RV©MXGHXV©PXoXOPDQRV©H©FLJDQRV©6HJXQGR©-RUGL©&RUWDGHOOD©
0RUUDO©±D©WHQWDWLYD©p©MXVWL½FDU©D©XQLGDGH©DQFHVWUDO©GD©(VSDQKD©VRE©R©DUJXPHQWR©
da homogeneidade etnológica ou racial primeva, em detrimento de outras
QDFLRQDOLGDGHV©GHVTXDOL½FDGDV©WDPEpP©FRP©DUJXPHQWRV©HWQROyJLFRV²©©
17). O estudo inicia-se pelo período Paleolítico (Cro-Magnon), onde estaria a
base da “raça” espanhola. No período Neolítico (cultura megalítica), houve
D© LQ¾XrQFLD© GLUHWD© GDV© UHJL}HV© FRVWHLUDV© GD© ÆVLD© 0HQRU© H© GR© (JLWR© VREUH© R©
Neolítico hispano, porém os colonizadores não tiveram contato com a costa
africana, pois vinham direto pelo mar. E, posteriormente, ocorre a chegada do
FHOWD©H©GR©LQGRõHXURSHX©1R©TXH©GL]©UHVSHLWR©j©LQ¾XrQFLD©URPDQD©VHX©OHJDGR©
não foi étnico, mas cultural. Fundamentalmente o idioma e a concretização
da idéia de Espanha como unidade. Nesse caso, Roma conseguiu dotar a
(VSDQKD©GH©XPD©XQLGDGH©FXOWXUDO©(Q½P©HVVD©REUD©GH©$OPDJUR©%DVFK©±WUDWD©
GH© FULDU© XPD© ½FWtFLD© XQLGDGH© UDFLDO© DQFHVWUDO© GHVGH© DV© SULPHLUDV© QRWtFLDV© H©
vestígios humanos, para que sirva, a posteriori, como um argumento a mais
à idéia de uma unidade nacional que, pouco a pouco, iria se aperfeiçoando e
conformando à estrutura política estatal moderna” (idem: 24).
Outra importante contribuição de Almagro Basch foi a publicação da
revista Ampurias – Revista de Arqueología, Prehistoria e Etnología, em 1939,
na qual era o diretor. Ampurias foi uma cidade localizada na região nordeste
da Espanha, na região da Catalunha, fundada por colonos gregos, em 575
a.C. Durante o regime franquista, o sítio arqueológico de Ampurias foi
intensamente escavado, o que demonstrava a grande importância atribuída a
um símbolo entendido como parte integrante do passado nacional espanhol.
No editorial do primeiro número da revista, foi colocado que
Ampurias es la última ciudad griega de occidente. En ella los romanos
desembarcaron por primera vez para combatir a Cartago. Y en ella asienta
Catón el Grande el primer gran campamento civilizador. Tras la conquista
URPDQD«(VSDxD«GHMy«GH«VHU«WLHUUD«GH«WULEXV«\«SDVy«D«VHU«WLHUUD«LPSHULDO«$QWHV«
que en Tarragona y en Córdoba o Itálica, en Ampurias, la Hispania Antiqua
tomó contacto con el mundo clásico. Ella fue la primera ventana hacia el
Mediterráneo que nos trajo ambiciones y sentido histórico. Roma tras los
SDVRV«GH«ORV«KHOHQRV«GH«$PSXULDV«PHWLy«D«(VSDxD«HQ«OD«+LVWRULD«GHO«0XQGR«
para siempre (AMPVRIAS, 1939: 3-4)
$©SDUWLU©GHVVHV©H[HPSORV©p©SRVVtYHO©D½UPDU©TXH©D©DWLYLGDGH©DUTXHROyJLFD©
na Espanha durante o governo de Francisco Franco esteve em consonância com
as ideias norteadoras que serviram para legitimar o regime. O autoritarismo
FHQWUDOLVWD©GH©)UDQFR©UH¾HWLGR©QR©FDPSR©DUTXHROyJLFR©D©SDUWLU©GD©FULDomR©GD©
Comisaría General de Excavaciones Arqueológicas, propiciou que os trabalhos
fossem utilizados para respaldar as aspirações nacionalistas do governo
IUDQTXLVWD©(P©XPD©GLWDGXUD©HVVD©FRQGXWD©p©IDFLOLWDGD©GHYLGR©j©WRWDO©LQJHUrQFLD©
JRYHUQDPHQWDO©QD©DWLYLGDGH©FLHQWt½FD©TXH©DFDED©SRU©GHVFRQVLGHUDU©WUDEDOKRV©
que não são condizentes com a visão do poder instituído. Dessa forma, é
40
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
SRVVtYHO©D½UPDU©VHJXQGR©$©-RVp©)DUUXMLD©GH©OD©5RVD©H©0DULD©GHO©&DUPHQ©GHO©
Arco Aguilar, para o período franquista
D© H[LVWrQFLD© GH© XPD© $UTXHRORJLD© R½FLDO© GHVHQYROYLGD© SHODV©
DXWRULGDGHV©DFDGrPLFDV©GR©PRPHQWR©>@©'R©SRQWR©GH©YLVWD©SUiWLFR©HVWD©
$UTXHRORJLD©R½FLDO©VH©EDVHRX©HP©XPD©VpULH©GH©HQXQFLDGRV©WHyULFRV©TXH©
IRUDP© FRPSDUWLOKDGRV© SHOD© FRPXQLGDGH© FLHQWt½FD© IUDQTXLVWD© GXUDQWH©
D© YLJrQFLD© GR© UHJLPH© FRPR© IXQGDPHQWR© SDUD© VXD© SUiWLFD© SRVWHULRU© 2©
desenvolvimento desses enunciados teóricos em um mesmo contexto
VRFLDO© H© REYLDPHQWH© SRU© SDUWH© GH© DXWRUHV© VLPSiWLFRV© DR© UHJLPH© QRV©
SHUPLWH©IDODU©GD©H[LVWrQFLD©GH©XPD©PHVPD©IRUPDomR©GLVFXUVLYD©©©
É importante ressaltar, no entanto, que não houve uma vontade dos autores
franquistas de enganar ou deformar uma suposta realidade arqueológica.
Não existiu um pensamento estratégico dos arqueólogos, que produziram
um determinado trabalho para legitimar um regime político. Mas é o próprio
FDUiWHU©GD©HVWUXWXUD©LGHROyJLFD©IUDQTXLVWD©TXH©SRVVLELOLWRX©XPD©GHWHUPLQDGD©
interpretação dos vestígios arqueológicos em prol de certa leitura do passado.
,VVR©QmR©TXHU©GL]HU©TXH©HVVHV©DUTXHyORJRV©QmR©IRUDP©UHVSRQViYHLV©SRU©VHXV©
trabalhos e que de alguma forma “serviram” ao regime. Como foi exposto
anteriormente, a teoria arqueológica histórico-cultural possuiu uma grande
LQ¾XrQFLD©QD©FRPXQLGDGH©GRV©DUTXHyORJRV©HVSDQKyLV©GXUDQWH©R©IUDQTXLVPR©
Pelos pressupostos dessa teoria de traçar, por meio da cultura material, as
características de um povo desde os tempos mais remotos até o presente,
ela foi utilizada para reconstruir a identidade e unidade nacional espanhola,
HQWHQGLGD© FRPR© H[LVWHQWH© Ki© PXLWR© WHPSR© 3RUWDQWR© DR© LQYpV© GH© DWULEXLU©
uma postura “mal intencionada” aos arqueólogos que contribuíram com seus
estudos para a construção e consolidação de um regime ditatorial, torna-se
QHFHVViULR© XPD© DQiOLVH© FUtWLFD© GRV© SUHVVXSRVWRV© WHyULFRV© H© PHWRGROyJLFRV©
TXH© GLUHFLRQDUDP© R© ROKDU© GR© SHVTXLVDGRU© H© LQ¾XHQFLDUDP© GLUHWDPHQWH© QD©
LQWHUSUHWDomR©GRV©YHVWtJLRV©PDWHULDLV©(Q½P©p©D©SDUWLU©GD©HVFROKD©GH©WRGR©XP©
instrumental epistemológico que o pesquisador deve ser responsabilizado
pelos resultados de seu trabalho
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O presente artigo buscou discutir a questão da discursividade do
conhecimento arqueológico, a partir do papel que a Arqueologia teve na
Espanha durante o regime franquista. Os estudos arqueológicos foram
importantes para a legitimação política do regime ao fornecer subsídios
(cultura material) para a construção da unidade nacional espanhola e dotar os
espanhóis de uma identidade nacional, avessa a qualquer tipo de separatismo.
Porém, toda essa construção se valeu de um determinado olhar
interpretativo dos vestígios arqueológicos. Não era imanente ao objeto o
VLJQL½FDGR© GH© SHUWHQFHU© DRV© DQWHSDVVDGRV© GRV© HVSDQKyLV© SRU© H[HPSOR© 2©
sentido é dado pelo pesquisador, imbuído de um arcabouço teórico e de
SURFHGLPHQWRV© PHWRGROyJLFRV© HVSHFt½FRV© IUXWRV© GH© VXD© HVFROKD© 3RU© HVVH©
PRWLYR© p© QHFHVViULR© TXHVWLRQDU© DV© FDWHJRULDV© LQWHUSUHWDWLYDV© XVDGDV© QD©
interpretação da cultura material, pois se é adotado uma postura acrítica e
41
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
não problematizante, o risco é, ainda hoje, a legitimação de políticas ditatoriais. O
arqueólogo Laurent Olivier, estudioso da Arqueologia do Terceiro Reich alemão
QD© )UDQoD© FKDPD© D© DWHQomR© SDUD© HVVH© DVSHFWR© DR© D½UPDU© TXH© ±SHUVLVWLPRV© HP©
pesquisar, nos materiais arqueológicos, o testemunho da identidade étnica ou
FXOWXUDO© GRV© ³SRYRV´© GR© SDVVDGR© QyV© QmR© HVFDSDPRV© GD© PDOGLomR© GR© QD]LVPR©
cujo coração ardente ainda bate, enterrado sob os escombros da velha Europa”
©
Portanto, se não houver um questionamento acerca das categorias
interpretativas utilizadas, corre-se o risco de estar praticando uma Arqueologia
aos moldes nazistas. Daí a importância de trabalhos que adotam uma “ótica
externalista”, que buscam adotar uma postura problematizante. Para concluir,
gostaria de citar as palavras de dois arqueólogos, Michael Galaty e Charles
:DWNLQVRQ©TXH©WrP©FRQWULEXtGR©SDUD©HVVH©GHEDWH©
Mesmo quando uma nação tem sofrido uma transformação política
completa - da ditadura para a democracia, por exemplo - os indivíduos,
especialmente os arqueólogos, continuam a ter uma participação muito
grande na criação da história e da identidade nacionais. Ironicamente,
DV© YHUV}HV© R½FLDLV© GH© XP© SDVVDGR© QDFLRQDO© QmR© VmR© DXWRPDWLFDPHQWH©
desacreditadas após a queda de um ditador, mas sim, elas podem ser
DLQGD© PDLV© IRUWHPHQWH© UHD½UPDGDV© 3RU© HVWD© UD]mR© GLULD© TXH© R© HVWXGR© GD©
Arqueologia, como ele evoluiu sob ditaduras modernas, é hoje, mais do que
nunca, de extrema importância. Em muitos países europeus, por exemplo,
aqueles que praticavam a Arqueologia sob a ditadura estão se aposentando
RX©PRUUHQGR©(P©DOJXQV©OXJDUHV©R©VHX©OHJDGR©LQWHOHFWXDO©HVWi©VHQGR©VHJXLGR©
acriticamente por uma nova geração de arqueólogos. Agora é hora, portanto,
GH© FRPSUHHQGHU© FRPR© RV© DUTXHyORJRV© WrP© DSRLDGR© H© jV© YH]HV© VXEYHUWLGR©
LGHRORJLDV©SROtWLFDV©GLWDWRULDLV©©©
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao meu orientador, Prof. Dr. Pedro Paulo Funari, aos professores
*OD\GVRQ© -RVp© GD© 6LOYD© 5HQDWD© 6HQQD© *DUUDIIRQL© $QWRQLR© 'XSOi© -RVp© *HUDOGR©
&RVWD© *ULOOR© $OLQH© 9LHLUD© GH© &DUYDOKR© 0DUJDUHWK© 5DJR© 5HQDWR© 3LQWR© 6LGQH\©
&KDOKRXE©H©&OiXGLR©8PSLHUUH©&DUODQ©$©UHVSRQVDELOLGDGH©SHODV©LGHLDV©OLPLWDõVH©D©
seu autor.
42
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43
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
BOUDICA E O USO DE SUA FIGURA FEMININA
AUTOR
Tais Pagoto Bélo
Doutoranda do Departamento de História/ IFCH/ UNICAMP
Orientador: Pedro Paulo Funari
Contato: [email protected]
RESUMO
Este artigo objetiva demonstrar como o passado é utilizado para
SUREOHPDWL]Do}HV©GR©SUHVHQWH©H©FRPR©D©KLVWRULRJUD½D©VRIUHX©FHUWDV©PXGDQoDV©
para abraçar novos temas de pesquisa, como os estudos de gênero.
3DUWLFXODUPHQWH©QHVVH©WUDEDOKR©YDL©VHU©GHPRQVWUDGR©FRPR©D©½JXUD©IHPLQLQD©
GH© %RXGLFD© IRL© XWLOL]DGD© VRFLDOPHQWH© HP© DOJXQV© HSLVyGLRV© GD© KLVWyULD© GD©
,QJODWHUUD©H©FRPR©HOD©DLQGD©p©JORUL½FDGD©FRPR©XP©tFRQH©IHPLQLVWD©H©QDFLRQDO
Palavras-chave:©%RXGLFD©¯©,PSpULR©%ULWkQLFR©¯©IHPLQLVPR
A QUESTÃO DA
PÓS-MODERNIDADE
– CONTRIBUIÇÕES
HISTORIOGRÁFICAS
44
3ULPHLUDPHQWH© HVWH© WUDEDOKR© DSUHVHQWDUi© DOJXPDV© PRGL½FDo}HV©
teóricas que a História passou nos últimos tempos. Com isso, busca-se, aqui,
contextualizar, dentro de todas essas mudanças, como se originou projetos de
SHVTXLVD©VREUH©R©WHPD©JrQHUR©(©p©QHVVD©FRQMXQWXUD©GH©SURIXQGDV©PXGDQoDV©
KLVWRULRJUi½FDV© TXH© LUmR© VXUJLU© SURSHQV}HV© GH© WySLFRV© QXQFD© GDQWHV©
pronunciadas nesse meio.
Sendo assim, pode-se constatar que aconteceu uma crise na História, a
TXDO©IRL©FRQVHTXrQFLD©GD©GH½FLrQFLD©REVHUYDGD©QR©VpFXOR©;;©VREUH©RV©LGHDLV©
,OXPLQLVWDV©GR©VpFXOR©;,;©TXH©IRUDP©FRQVWUXtGRV©SRU©LQFOLQDo}HV©HVWDEHOHFLGDV©
SHOR©5HQDVFLPHQWR©GR©VpFXOR©;9,©H©SHOR©5DFLRQDOLVPR©GR©VpFXOR©;9,,©3RUpP©
p©HVVH©LGHDO©GDV©/X]HV©TXH©FRQWULEXLX©SDUD©D©FRQVWUXomR©GDV©EDVHV©FLHQWt½FDV©
SRVWHULRUHV©H©TXH©FULWLFRX©LQVWLWXLo}HV©Mi©VROLGL½FDGDV©QDTXHOH©PRPHQWR©DVVLP©
como, o Estado Absolutista e o Cristianismo.
$QWHULRUPHQWH© QR© VpFXOR© ;,;© IRL© LQFRUSRUDGR© D© FRQFHSomR©
GHVHQYROYLPHQWLVWD© H© HYROXFLRQLVWD© GH© KRPHP© H© GH© PXQGR© TXH© IRL©
demonstrada e teorizada por Charles Darwin (1869), em sua obra The origin
of species©H©TXH©HQIDWL]DYD©D©HYROXomR©GDV©HVSpFLHV©H©R©SURJUHVVR©GRV©VHUHV©
humanos. Logo, o pensamento evolucionista e o pensamento teleológico, que
WLQKD©FRPR©LQWXLWR©R©HVWXGR©½ORVy½FR©GRV©½QV©H©GRV©SURSyVLWRV©LQ¾XHQFLDUDP©
diretamente intelectuais como Hegel, Kant, Comte e Marx, que, assim,
FRQWULEXtUDP© SDUD© XPD© WUDGLomR© LQWHOHFWXDO© TXH© p© UHVSHLWDGD© DWp© RV© GLDV© GH©
KRMH©H©TXH©FRQ½JXURX©D©PRGHUQLGDGH
)RL© QR© VpFXOR© ;;© TXH© D© FULVH© GRV© SDUDGLJPDV© GR© VpFXOR© ;,;© VH© WRUQRX©
SHUFHSWtYHO© SRU© GLYHUVRV© DVSHFWRV© RX© VHMD© SHOD© UHMHLomR© GRV© PRGHORV©
HPSLULFLVWDV© SRVLWLYLVWDV© H© GR© FHWLFLVPR© HP© UHODomR© jV© PHWDQDUUDWLYDV© DOpP©
GR©VXUJLPHQWR©GH©FUtWLFDV©VREUH©D©EXVFD©GDV©RULJHQV©GD©YHUGDGH©KLVWyULFD©H©
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¹O primeiro está relacionado ao descrédito nos grandes discursos explicadores dos atos humanos. E o segundo, a
GHVFRQ½DQoD© VREUH© RV© HVVHQFLDOLVPRV©
GH½QLGRUHV©GH©VXMHLWRV
A A B E R T U R A PA R A
OS ESTUDOS DE
GÊNERO
45
GRV©HVVHQFLDOLVPRV©$©FRQFHSomR©GH©YHUGDGH©H[LVWHQWH©DQWHULRUPHQWH©GDYD©
OXJDU© D© SHUVSHFWLYDV© VRFLDLV© H© FXOWXUDOLVWDV© DV© TXDLV© SHUFHEHP© LQGLYtGXRV© H©
SUiWLFDV©FRPR©FRQVWUXo}HV©GLVFXUVLYDV©'HVVD©IRUPD©R©FDPSR©KLVWRULRJUi½FR©
passa a demonstrar uma perspectiva histórica mais democrática, includente e
revisionista (Silva, 2004).
Sendo assim, percebeu-se um esgotamento da modernidade, a
GHVFRQ½DQoD©GDV©YHUGDGHV©DEVROXWDV©GDV©JUDQGHV©JHQHUDOL]Do}HV©H©GLVFXUVRV©
totalizantes, acabando com os valores, concepções e modelos tradicionais,
GDQGR© RULJHP© D© XPD© QRYD© KLVWyULD© TXH© QmR© PDLV© VH© VDWLVIDUi© FRP© D© UHODomR©
GH© SDVVDGR© H© SUHVHQWH© FRQWLQXtVPR© KLVWyULFR© RULJHQV© GHWHUPLQDGDV©
VLJQL½FDo}HV©LGHDLV©H©DVVLP©SRU©GLDQWH©(VVHV©JUDQGHV©PRGHORV©H[SOLFDWLYRV©
SDVVDP© D© VHU© YLVWRV© FRP© GHVFRQ½DQoD© QDV© WHRULDV© VRFLDLV© &RQWXGR© HVVD©
suspeita acabou por resultar em uma crise dos paradigmas modernos, a qual,
DWXDOPHQWH© GHFRUHP© GLVFXVV}HV© QDV© FLrQFLDV© TXH© FRORFDP© HP© TXHVWmR© R©
critério de verdade epistemológica criada no Iluminismo, além dos modelos
UDFLRQDOL]DQWHV©GR©VpFXOR©;,;
Portanto, nos últimos tempos os historiadores começaram a
FRQWH[WXDOL]DU© HVVD© FULVH© FRPR© XPD© UHDomR© DR© PRGHUQLVPR© H© SRU© LVVR© HVWH©
momento começou a ser denominado como pós-modernismo, com algumas
controvérsias até os dias de hoje.
$©RULJHP©GHVVH©FRQFHLWR©IRL©LQLFLDOPHQWH©XWLOL]DGR©QRV©DQRV©GH©©QD©
(VSDQKD© FRP© D© SUHWHQVmR© GH© GHVFUHYHU© XP© UH¾X[R© FRQVHUYDGRU© GHQWUR© GR©
SUySULR© PRGHUQLVPR© WHQGR© FRQKHFLGR© GLIHUHQWHV© FRQRWDo}HV© QDV© GpFDGDV©
consecutivas no campo da literatura, artes e ciências (Funari & Silva, 2008).
6HJXQGR©)XQDUL©H©6LOYD©©HVVDV©WUDQVIRUPDo}HV©WUD]HP©HP©VHX©ERMR©QRYRV©
SDGU}HV©GH©FRPSUHHQVmR©GRV©KRPHQV©GDV©FXOWXUDV©H©GR©PXQGR©VHQGR©TXH©
FRORFDP©TXH©GXDV©FRQGLo}HV©VmR©GH½QLGRUDV©GD©SyVõPRGHUQLGDGH©RX©VHMD©D©
incredulidade sobre as metanarrativas e a morte dos centros¹.
2© SyVõPRGHUQLVPR© VH© HVWDEHOHFHX© DVVLP© D© SDUWLU© GR© IUDFDVVR© GH© XP©
GLWR© SURMHWR© VRFLDO© LOXPLQLVWD© H© p© QHVVH© FRQWH[WR© GH© UHYLVmR© WHyULFD© TXH© VH©
insere a ideia de uma pós-modernidade, abrindo as portas, nos estudos
KLVWRULRJUi½FRV©j©+LVWyULD©&XOWXUDO©H©D©WHPDV©GLIHUHQFLDGRV©DVVLP©FRPR©SRU©
H[HPSOR©D©TXHVWmR©GH©JrQHUR©(©DLQGD©QHVVH©PHVPR©FRQWH[WR©FRQVROLGDõVH©
o critério da subjetividade através de nomes como Nietzsche (1844 – 1900),
)RXFDXOW©©¯©©H©'HUULGD©©¯©
e© LPSRUWDQWH© H[SOLFDU© TXH© RV© HVWXGRV© GH© JrQHUR© QmR© GL]HP© UHVSHLWR©
apenas a história das mulheres, mas sim das relações dos dois sexos, homens
H© PXOKHUHV© GHVVD© IRUPD© SRGH© GHEUXoDUõVH© WDPEpP© VREUH© WHPDV© FRPR© R©
KRPRVVH[XDOLVPR©WUDQVH[XDOLVPR©H©D½QV©(QWUHWDQWR©IRL©FRP©D©LQRYDomR©GR©
surgimento da história das mulheres que essas outras categorias começaram
a ser exploradas.
A abertura para esse tipo de estudo aumentou abruptamente nos últimos
DQRV© GHQWUR© GR© GRPtQLR© GDV© &LrQFLDV© +XPDQDV© DVVLP© FRPR© QD© +LVWyULD©
Sociologia e Antropologia. Esse boom©LQWHOHFWXDO©QHVVD©iUHD©QmR©DSHQDV©IRL©
consequência de estudiosos como Michel Foucault e pelo espaço conquistado
pelos estudos da História Cultural, mas, também, em grande parte, por
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
PRYLPHQWRV©IHPLQLVWDV©LQLFLDGRV©QRV©DQRV©©3RGHõVH©D½UPDU©TXH©HVVD©UHFHQWH©
DERUGDJHP©VREUH©DV©PXOKHUHV©VH©GHX©SHOR©IDWR©GD©LQRYDomR©GR©SDSHO©IHPLQLQR©
no quadro da sociedade e das novas condições assumidas por elas, as quais
PRVWUDPõVH©DWXDOPHQWH©QXPD©RXWUD©UHODomR©FRP©RV©KRPHQV©H©VH©SUHRFXSDP©
HP© SULPHLUR© OXJDU© FRP© D© YLGD© SUR½VVLRQDO© HQTXDQWR© TXH© QR© SDVVDGR© HODV©
XQLFDPHQWH©VH©GHGLFDYDP©j©PDWHUQLGDGH©3RUWDQWR©p©FRQYHQLHQWHPHQWH©GL]HU©
TXH©HVWD©QRYD©LQVHUomR©GDV©PXOKHUHV©QRV©HVWXGRV©KXPDQtVWLFRV©VH©GHYH©D©QRYD©
UHODomR©GHODV©QDV©VRFLHGDGHV©RFLGHQWDLV©FRQWHPSRUkQHDV©
Sendo assim, é nesse palco de mudanças dos paradigmas das Ciências
Humanas, crise da modernidade, das metanarrativas, dos essencialismos que
JUXSRV©GLWRV©³H[FOXtGRV´©DVVLP©FRPR©QHJURV©PXOKHUHV©JD\V©OpVELFDV©H©RXWURV©
YmR©UHLYLQGLFDU©R©GLUHLWR©GH©VH©WRUQDUHP©REMHWRV©GD©KLVWyULD©H©GH©HVFUHYHUHP©
VXD©SUySULD©KLVWyULD©6LOYD©©'HVVD©IRUPD©QD©HVWHLUD©GHVVH©SURFHVVR©FULRXõ
se debates e problematizações sobre esse assunto dentro do pensamento
intelectual acadêmico.
BOUDICA: NO
PA S S A D O E N O
PRESENTE
46
2V©HVFULWRUHV©DQWLJRV©7iFLWR©H©'LmR©&iVVLR©HVFUHYHUDP©HP©SULPHLUD©PmR©
sobre Boudica nas obras Anais, A vida de Agrícola e História de Roma. Diziam
que ela tinha vivido no primeiro século depois de Cristo, durante a presença
GR©,PSpULR©5RPDQR©QD©LOKD©GD©%UHWDQKD©TXH©IRL©XPD©UDLQKD©%UHWm©GD©WULER©GRV©
Iceni, junto com seu marido Prazutago.
1R© LQtFLR© VXD© WULER© WLQKD© XPD© ERD© UHODomR© FRP© RV© URPDQRV© PDV© RV©
contratempos entre eles se iniciaram depois da troca de governante da
SURYtQFLD©R©TXDO©FRPHoRX©D©H[LJLU©OHLV©TXH©RV©%UHW}HV©QmR©FRQFRUGDUDP©HP©
FXPSULU©1HVVH©FRQWH[WR©GHFRUUHXõVH©D©PRUWH©GH©VHX©FRPSDQKHLUR©VXDV©½OKDV©
IRUDP©YLROHQWDGDV©H©HOD©DoRLWDGD©SHORV©R½FLDLV©URPDQRV©'HSRLV©GHVVH©HSLVyGLR©
GHFLGLX©QXPD©DomR©GH©YLQJDQoD©IRUPDU©XP©H[pUFLWR©FRQWUD©RV©DVVHQWDPHQWRV©
do Império.
A estratégia da guerreira iniciou-se enquanto os romanos estavam
guerreando contra uma tribo de druidas na ilha de Mona. Ela, junto com
sua tribo e os Trinovantes, iniciaram um ataque contra Camulodunum, atual
&ROFKHVWHU©GHSRLV©/RQGLQLXP©DWXDO©/RQGUHV©H©PDLV©WDUGH©9HUXODPLXP©DWXDO©
6DQW©$OEDQV©6HJXLQGRõVH©ORJR©D©EDWDOKD©½QDO©FRQWUD©R©H[pUFLWR©URPDQR
A investida dos romanos contra a tribo de druidas aconteceu devido ao
IDWR©TXH©HOHV©HUDP©KRPHQV©VDJUDGRV©H©UHVSHLWDGR©SHORV©%UHW}HV©WHQGR©DVVLP©
OLYUH©DFHVVR©j©WRGDV©DV©WULERV©(VWD©PRYLPHQWDomR©IDFLOLWDYD©D©FRPXQLFDomR©H©
WURFD©GH©LQIRUPDo}HV©GH©XPD©WULER©%UHWm©D©RXWUD©6HQWLQGRõVH©DPHDoDGRV©RV©
romanos investiram um ataque contra eles.
Os escritores da Antiguidade, que escreveram sobre ela, tinham como
IXQomR©FRQWDU© DRV© URPDQRV© DWUDYpV© GH© VXDV© QDUUDWLYDV© RV© JUDQGHV© IHLWRV© GR©
,PSpULR©(OHV©ID]LDP©SDUWH©GH©XPD©VRFLHGDGH©TXH©HUD©GHVDFRVWXPDGD©D©YHU©XPD©
mulher como governante e muito menos como comandante de um exército.
'HVVD©IRUPD©%RXGLFD©IRL©GHVFULWD©SRU©HOHV©FRPR©XPD©PXOKHU©PDVFXOLQL]DGD©
TXH©WLQKD©R©WDPDQKR©D©YR]©H©DV©DUPDV©GH©XP©KRPHP©DOpP©GD©LQH½FiFLD©GH©
sua liderança.
&RQWXGR© HVWHV© WH[WRV© DQWLJRV© IRUDP© OLGRV© H© UHOLGRV© SRVWHULRUPHQWH© H©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
assim, autores e artistas readaptaram essa mesma história, em muitos casos,
GH© DFRUGR© FRP© R© FRQWH[WR© VRFLDO© HP© TXH© YLYLDP© (VVDV© REUDV© VmR© SRHPDV©
SHoDV©GH©WHDWUR©HVFXOWXUDV©OLYURV©SLQWXUDV©WUDEDOKRV©SROtWLFRV©H©DWp©FKDUJHV©
TXH©HQYROYHUDP©D©½JXUD©IHPLQLQD©GD©%RXGLFD
UTILIZAÇÕES
DA FIGURA DE
BOUDICA
Por muito tempo, muitas governantes mulheres que a Inglaterra teve
VRIUHUDP©FRP©R©SUHFRQFHLWR©GHYLGR©DR©VHX©JrQHUR©HQTXDQWR©HVWDYDP©QR©FDUJR©
GH©OtGHU©XP©GHVVHV©H[HPSORV©IRL©D©UDLQKD©(OL]DEHWK©,©&RQWXGR©RV©HVFULWRUHV©
GHVVH©SHUtRGR©DFDEDUDP©XWLOL]DQGR©D©½JXUD©GH©%RXGLFD©FRPR©SURSDJDQGD©H©
FRPR©HVFXGR©GD©UDLQKD©(OD©VH©WRUQRX©XP©IRFR©GD©DWHQomR©GXUDQWH©HVVH©SHUtRGR©
sendo retratada como uma mulher patriota que lutou bravamente contra
RV©URPDQRV©$OpP©GLVVR©FRPR©R©DY{©GH©(OL]DEHWK©HUD©GR©3DtV©GH©*DOHV©H©RV©
galeses eram considerados descendentes diretos dos Bretões, ela acabou por
VH©LGHQWL½FDU©PXLWR©FRP©%RXGLFD©VHQGR©DV©GXDV©½JXUDV©IRFRV©GH©FRPSDUDo}HV©
e contrastes (MIKALACHKI, 1998).
'RLV© H[HPSORV© GH© REUDV© TXH© GHVFUHYLDP© %RXGLFD© HP© FRPSDUDomR© D©
UDLQKD©(OL]DEHWK©,©VmR©GH©-RKQ©6SHHG©GH©©©FKDPDGD©The History of Great
Britaine; outra obra que segue com o mesmo viés é The exemplary lives and
memorable acts of nine the most worthy women of the word, de 1640, do autor
7KRPDV©+H\ZRRG
Posteriormente, depois da morte de Elizabeth, Boudica ainda era
GHVHQKDGD© FRP© YHVWHV© VHPHOKDQWHV© DV© GHOD© SRUpP© DV© FUtWLFDV© GLDQWH© GH©
VXD© LPDJHP© FRPHoDUDP© D© VHU© PXLWR© PDLV© DFLUUDGDV© 8P© H[HPSOR© GLVVR© IRL©
D© REUD© GH© -RKQ© )OHWFKHU© TXH© ½FRX© HP© FDUWD]© HQWUH© RV© DQRV© GH© © D© ©
DGDSWDGD© SRU© *HRJH© 3RZHOO© HP© © H© PDLV© WDUGH© SRU© *HRUJH© &ROPDQ© HP©
©H©©)OHWFKHU©GHL[RX©FODUR©TXH©VXDV©YLV}HV©IRUDP©EDVHDGDV©QRV©UHODWRV©
GH©'LmR©&iVVLR©H©7iFLWR©'HVVD©IRUPD©URXEDYD©GHWDOKHV©GRV©HVFULWRUHV©SRUpP©
LQYHQWDYD©Do}HV©SDUD©ID]HU©FRP©TXH©VXD©SHoD©½FDVVH©PDLV©GUDPiWLFD©&RQWXGR©
nelas, as mulheres tinham papéis negativos, além de mostrar que Boudica
era totalmente inadequada para lidar com negócios masculinos, como por
H[HPSOR© SROtWLFD© H© JXHUUD© (OH© GHL[RX© FODUR© TXH© RV© EULWkQLFRV© VH© WRUQDUDP©
gloriosos quando se juntaram aos romanos (WILLIAMS, 1999; CRAWFORD,
1999).O caráter negativo que Fletcher dá a Boudica teve maiores impactos nos
50 e 100 anos posteriores a estréia de sua peça.
(P©©5LFKDUG©*ORYHU©HP©VXD©SHoD©GH©WHDWUR©GHQRPLQDGD©Boadicea,
WDPEpP© D© UHSUHVHQWRX© WRWDOPHQWH© KRVWLO© VHXV© DWRV© IDOKRV© VHPSUH© HUDP©
DVVRFLDGRV©DR©VHX©JrQHUR©RX©VHMD©HVVH©WUDEDOKR©HUD©XPD©YHUVmR©H[DJHUDGD©GH©
Fletcher.
(QWUHWDQWR©p©QR©VpFXOR©;,;©TXH©%RXGLFD©SDVVD©D©VHU©UHWUDWDGD©FRPR©XPD©
JXHUUHLUD©FRP©VXDV©GXDV©½OKDV©VREUH©VXD©FDUURoD©8PD©REUD©TXH©UHWUDWD©HVVH©
aspecto chama-se Complete History of England, de 1757, de Tobias Smollett. A
LQWHQomR©QHVVH©SHUtRGR©HUD©PRGHODU©%RXGLFD©FRPR©XPD©½JXUD©SDWULRWLFDPHQWH©
KHURLFD©GH©LQVSLUDomR©QDFLRQDO©GD©OLWHUDWXUD©H©GD©DUWH©GHYLGR©D©H[SDQVmR©GR©
Império Britânico, ou seja, para demonstrar as origens e a grandeza do passado
GD©QDomR©LQJOHVD©
Nesse contexto, William Cowper, 1782, escreve a obra Boudicea: an
ode© QD© TXDO© DSUHVHQWD© %RXGLFD© FRPR© VHQGR© DVVH[XDGD© H© FRPR© XP© tFRQH©
47
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GH©WULXQIR©H©KHURtVPR©%ULWkQLFR©6HXV©DWRV©HUDP©GHVFULWRV©SDUD©GHPRQVWUDU©R©
GHVHQYROYLPHQWR©GR©,PSpULR©FRP©XP©VLJQL½FDGR©LPSHULDO©DOpP©GLVVR©IRUDP©
UHPRYLGRV© GD© REUD© WRGRV© RV© DVSHFWRV© TXH© GHPRQVWUDYDP© D© DPELomR© H© D©
DJUHVVmR©GD©SHUVRQDJHP©RX©VHMD©VXD©LPDJHP©IRUD©FRQVWUXtGD©GH©XPD©IRUPD©
TXH©IRVVH©DFHLWD©QD©pSRFD
)RL© HP© PHLR© DR© SDOFR© GD© DVFHQVmR© GR© ,PSpULR© %ULWkQLFR© © TXH© D© UDLQKD©
9LWyULD© PXLWR© DIHLoRDGD© D© ½JXUD© GH© %RXGLFD© DWp© SRUTXH© %RXGLFD© VLJQL½FD©
³YLWyULD´©QR©JDOrV©DQWLJR©:HEVWHU©©SHGLX©TXH©½]HVVHP©D©FRQVWUXomR©GH©
XPD©HVWiWXD©HP©KRPHQDJHP©D©SHUVRQDJHP©D©TXDO©IRL©OHYDQWDGD©HP©/RQGUHV©
SHOR©DUWLVWD©7KRPDV©7KRUQ\FURIW©SUy[LPD©D©SRQGH©GH©:HVWPLQVWHU©DV©PDUJHQV©
GR©ULR©7kPLVD©HP©IUHQWH©DR©SDUODPHQWR©%ULWkQLFR©HP©RSRVLomR©DR©%LJ©%HQ©©)RL©
FRQVWUXtGR©XP©tFRQH©GD©JUDQGH]D©LQJOHVD©HP©XP©OXJDU©HVWUDWpJLFR©RX©VHMD©QR©
FHQWUR©SROtWLFR©H©GH©SRGHU©%ULWkQLFR©H©TXH©SDUHFH©ROKDU©SRU©WRGD©D©FLGDGH©FRPR©
VH©IRVVH©XPD©JXDUGLm©$©HVWiWXD©IHLWD©HP©EURQ]H©IRL©HQWUHJXH©SURQWD©SHOR©½OKR©
GR©DUWLVWD©+DPR©7KRUQ\FURIW©HP©©
©
(VWiWXD©GH©%RXGLFD©IHLWD©SRU©7KRUQ\FURIW©
©
(VWiWXD©GD©5DLQKD©9LWyULD©IHLWD©SRU©7KRUQ\FURIW©©
K W W S E S E O R J V S R W F R P B * X + K 0 Q N 7 /2 + N \ 7 5 M , $ $ $ $ $ $ $ $ ' ( 4 - ; M S X 8 VF%'MSJ©
1870.
KWWSZZZYLFWRULDQZHERUJVFXOSWXUHWKRUQ\FURIWWKWPO©
2©HVFXOWRU©7KRPDV©7KRUQ\FURIW©WDPEpP©IH]©RXWUDV©REUDV©UHSUHVHQWDQWHV©
GD©UHDOL]D©GD©pSRFD©$©HVWiWXD©GD©UDLQKD©9LWyULD©SRU©H[HPSOR©IRL©WHUPLQDGD©HP©
©H©HQWUHJXH©HP©©HOD©p©IHLWD©HP©EURQ]H©H©VHX©SHGHVWDO©p©HP©JUDQLWR©
HOD©VH©HQFRQWUD©QR©SODQDOWR©GH©6DQW©*HRUJH©HP©/LYHUSRRO
&RQWXGR©QR©LQtFLR©GR©VpFXOR©;;©FRP©R©GHFOtQLR©GR©,PSpULR©%ULWkQLFR©DV©
REUDV©HVFULWDV©IDODQGR©VREUH©%RXGLFD©DXPHQWDUDP©HQWUH©DV©HVFULWRUDV©SRUpP©
a maioria eram obras indicadas para crianças.
48
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
)RL© QHVVH© PHVPR© SHUtRGR© TXH© D© HVWiWXD© GH© %RXGLFD© FRPHoD© D© VHU©
XWLOL]DGD©SDUD©XP©RXWUR©½P©H©QmR©PDLV©FRPR©XP©VtPEROR©GR©,PSpULR©$©DWLWXGH©
dela e suas ações do passado, contada pelos antigos romanos, o uso de sua
½JXUD©IHPLQLQD©HP©DSRLR©DV©JUDQGHV©PXOKHUHV©GH©SRGHU©DVVLP©FRPR©D©UDLQKD©
(OL]DEHWK©,©H©9LWyULD©IH]©FRP©TXH©D©VXD©LPDJHP©SDVVDVVH©D©VHU©YLVWD©FRP©DOJR©
TXH©UHPHWHVVH©D©IRUoD©GDV©PXOKHUHV
1R©SDOFR©GH©H[WUHPD©DJLWDomR©IHPLQLVWD©SHOD©UHLYLQGLFDomR©H©OLEHUGDGH©
GH©YRWR©GDV©PXOKHUHV©DV©VXIUDJLVWDV©%ULWkQLFDV©DFDEDUDP©SRU©XWLOL]DU©D©HVWiWXD©
GH© %RXGLFD© FRPR© tFRQH© GH© OXWD© H© VtPEROR© GH© UHSUHVHQWDomR© GR© IHPLQLQR©
1HVVDV© FLUFXQVWkQFLDV© D© SRVLomR© GD© HVWiWXD© IHLWD© SRU© 7KRUQ\FURIW© DLQGD© IRL©
FRQVLGHUDGD© GH© LPHQVD© HVWUDWpJLD© RX© VHMD© HOD© HVWi© FRORFDGD© GH© XPD© IRUPD©
como se avançasse sobre o parlamento.
&DUWD]©FRPHPRUDWLYR©GDV©VXIUDJLVWDV©FRP©DV©PHVPDV©FRUHV©TXH©R©
crachá, e com o nome de Boadicea
KWWSZZZPXVHXPR¾RQGRQSULQWVFRPLPDJHPDU\õORZQGHVõVXIIUDJHõEDQQHUõFRPPHmorating-boadicea-1908, 18/09/2011)
&UDFKi©GDV©6XIUDJLVWDV©SUpõ© ©
1914
KWWSZZZ¾LFNUFRPSKRWRV©1
$OpP©GLVVR©FRPR©SRGH©VHU©YLVWR©D©½JXUD©H©PHVPR©R©QRPH©GD©SHUVRQDJHP©
IRL©XWLOL]DGRV©HP©FDUWD]HV©H©SDQ¾HWRV©$©HVWiWXD©HUD©R©OXJDU©GH©UHXQLmR©SDUD©DV©
reivindicações do movimento.
Até os dias de hoje, a estátua de Boudica é utilizada por grupos
IHPLQLVWDV©FRPR©IRUoD©GH©DomR©SDUD©DV©PXOKHUHV©XP©H[HPSOR©GLVVR©p©R©JUXSR©
denominado Climate Rush, que além de lutarem pelos direitos das mulheres,
49
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
WDPEpP©EDWDOKDP©D©IDYRU©GR©PHLR©DPELHQWH©,QVSLUDGR©QDV©DQWLJDV©VXIUDJLVWDV©
o movimento também tem a presença de homens como militantes e ainda
XWLOL]DP© D© DQWLJD© IUDVH© GDV© VXIUDJLVWDV© Deeds not Words© RX© VHMD© Do}HV© QmR©
palavras.
Foto com o nome: Boudicca agrees, “deeds not words”
KWWSORQGRQLQG\PHGLDRUJDUWLFOHV©
CONCLUSÃO
50
2©TXH©SRGH©VHU©FRQFOXtGR©p©TXH©DV©IHPLQLVWDV©%ULWkQLFDV©XWLOL]DUDP©SDUD©
VXDV©UHLYLQGLFDo}HV©XP©VtPEROR©GD©RULJHP©GR©VHX©SDVVDGR©TXH©UHSUHVHQWD©D©
DWLWXGH©H©D©IRUoD©GR©SRGHU©GR©JrQHUR©IHPLQLQR©
'HVVD©IRUPD©D©½JXUD©GH©%RXGLFD©VH©WRUQRX©XP©tFRQH©GH©OXWD©SRU©WHU©VLGR©
XPD©JXHUUHLUD©H©SRU©WHU©GHIHQGLGR©RV©%UHW}HV©FRQWUD©R©LQLPLJR©p©UHSUHVHQWDQWH©
GR©IHPLQLQR©SRU©WHU©VLGR©PXOKHU©FDVDGD©H©FRP©GXDV©½OKDV©H©p©FRQVLGHUDGD©
XPD© H[SUHVVmR© SROrPLFD© SRU© WHU© IHLWR© DOJR© LQpGLWR© DRV© ROKRV© GRV© URPDQRV©
(OD©p©FRQVLGHUDGD©XPD©LQVSLUDomR©QDFLRQDO©WDQWR©p©TXH©DR©ORQJR©GD©KLVWyULD©
GD©,QJODWHUUD©HOD©IRL©FRPSDUDGD©FRP©RXWUDV©PXOKHUHV©SRGHURVDV©DVVLP©FRPR©
D©UDLQKD©(OL]DEHWK©,©UDLQKD©9LWyULD©H©0DUJDUHWK©7KDWFKHU©DOpP©GH©VHU©XWLOL]DGD©
SRU©DOJXPDV©GHVVDV©PXOKHUHV©FRPR©H[HPSOR©GH©EUDYXUD©(©SRU©½P©VHX©QRPH©
H© VXD© IRUPD© VmR© FODPDGRV© DWp© RV© GLDV© GH© KRMH© HP© PRYLPHQWRV© IHPLQLVWDV©
LQJOHVHV©VHQGR©GHVVD©PDQHLUD©UHVSRQViYHO©SHOD©IRUPDomR©GH©XPD©LGHQWLGDGH©
nacional.
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
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REGISTRO ARQUEOLÓGICO
AUTOR
COMO INSTRUMENTO DE MEMÓRIA SOCIAL
Rossano Lopes Bastos
Arqueólogo do IPHAN, Livre docente em arqueologia brasileira,
professor convidado do MAE/USP, catedrático da Universidade de
Coimbra/PT, Instituto Politécnico de TOMAR/PT e Universidade
Trás-os-Montes/PT.
Contato: [email protected]
RESUMO
O presente artigo procura jogar luzes sobre a temática do patrimônio
FXOWXUDO© HP© HVSHFLDODOPHMD© UH¾HWLU© VREUH© R© UHJLVWUR© DUTXHROyJLFR© FRPR©
instrumento de memória social. Procura abordar suas novas formas e
entendimentos atualizados para os tempos pós-modernos. Assim, o texto
parte dos conceitos originários de patrimônio e segue procurando cotejar com
sua base legal contida nas legislações ordinárias e infraconstitucionais por um
caminho que possibilite uma interpretação mais arrojada e comprometida com
os grupos vulneráveis. Por outro lado, explicita a formação de um conjunto
de registros arqueológicos históricos até bem pouco tempo desdenhado
pela arqueologia brasileira. A matriz transversal utilizada como abordagem
traz elementos essenciais ao debate para a arqueologia pública no Brasil, no
PRPHQWR© HP© TXH© D© DUTXHRORJLD© SUHYHQWLYD© DOFDQoD© VLJQL½FDWLYD© DPSOLDomR©
H©WRGR©WHUULWyULR©QDFLRQDO©3RU©½P©DSUHJRD©FRP©EDVH©QD©&RQVWLWXLomR©)HGHUDO©
de 1988, que os direitos culturais são direitos humanos fundamentais, uma
vez que o patrimônio cultural base essencial destes direitos ungido por todas
as formas de expressão, manifestação e saber constitui na sua matriz a força
motriz do pertencimento que estabelece nossas identidades e caracteriza os
bens culturais com bens de uso público, de todo o povo brasileiro.
Palavras-chave: Patrimônio, arqueologia, memória.
CONSIDERAÇÕES
INICIAIS: OS
CONCEITOS
Para iniciar nosso texto, consideramos importante frisar os conceitos
que nortearam nosso pensamento na elaboração deste artigo, já que o texto
almeja mostrar a importância do registro arqueológico enquanto instrumento
para a construção da memória social.
O conceito de Patrimônio Cultural
$©&RQVWLWXLomR©)HGHUDO©©HVWDEHOHFH©TXH
Constituem Patrimônio Cultural Brasileiro os bens de natureza
material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores
de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
IRUPDGRUHV© GD© VRFLHGDGH© EUDVLOHLUD© QRV© TXDLV© VH© LQFOXHP© 2V© FRQMXQWRV©
urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
HFROyJLFR©H©FLHQWt½FR
52
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'HQWUR©GHVWH©DPSOR©FRQFHLWR©SRGHPRV©GHVWDFDU©3DWULP{QLR©+LVWyULFR©2©
WHUPR©±3DWULP{QLR²©VHJXQGR©)RQVHFD©©IRL©LQVSLUDGR©SHOD©LGHLD©GH©±SRVVH©
coletiva”, a qual designava o conjunto de bens de valor cultural que passaram
a ser propriedade da nação, ou seja, do conjunto de todos os cidadãos.
O Patrimônio Histórico no Brasil tem sua origem orgânica no projeto
PRGHUQLVWD©GH©0iULR©GH©$QGUDGH©©2©%UDVLO©QHFHVVLWDYD©GH©XPD©LGHQWLGDGH©
H©HVWD©VHULD©KLVWyULFD©HWQRJUi½FD©H©VHXV©HOHPHQWRV©IRUPDULDP©DTXLOR©TXH©VH©
denominava Patrimônio Histórico. Acompanhando o pensamento de Marly
5RGULJXHV©©
O patrimônio Histórico é uma vertente particular da ação
desenvolvida pelo poder público para a instituição da memória social.
O patrimônio se destaca dos demais lugares de memória uma vez que o
UHFRQKHFLPHQWR©R½FLDO©LQWHJUD©RV©EHQV©D©HVWH©FRQMXQWR©SDUWLFXODU©DEHUWR©
às disputas econômicas e simbólicas que o tornam um campo de exercício
de poder.
î&DUWD©GH©/DXVDQQH©GLVSRQtYHO©QR©VLWH©
KWWSZZZLFRPRVRUJEUFDUWDV&DUta_de_Lausanne_1990.pdf Data de
DFHVVR©
53
Dito isso, podemos entender que o Patrimônio Histórico, mais do que
um testemunho do passado, é um retrato do presente, uma expressão das
possibilidades políticas dos diversos segmentos sociais, expressos em grande
parte pela herança cultural dos bens que materializam e documentam sua
presença, sua marca no fazer histórico da sociedade.
O patrimônio não é, porém uma representação de todos. Este modo de
concebê-lo resultou de um momento histórico no qual os bens protegidos
SHOR©HVWDGR©UHSUHVHQWDYDP©D©EXVFD©GH©XPD©LGHQWLGDGH©QDFLRQDO©5RGULJXHV©
© +RMH© R© FRQFHLWR© GH© SDWULP{QLR© HQFRQWUD© UHVVRQkQFLD© P~OWLSOD© H©
variada, se deslocando da nação para a sociedade, portanto com um novo
estatuto interventivo. A política do patrimônio aparece como um elemento
do modernismo funcionalista, pois ela participa de um zoneamento funcional
dos espaços, atribuindo-se a alguns as funções “Patrimoniais”.
2© 3DWULP{QLR© $UTXHROyJLFR© VXUJH© D© SDUWLU© GH© © FRP© D© OHL© IHGHUDO©
Q© ±TXH© SURWHJH© RV© PRQXPHQWRV© DUTXHROyJLFRV© H© RV© VtWLRV© SUpõ
KLVWyULFRV²© HYHP© FUHVFHQGR© FRP© D© UHVROXomR© &RQDPD© © TXH© GLVS}H©
VREUH©RV©HVWXGRV©GH©LPSDFWR©DPELHQWDO©SRUWDULD©6SKDQ©©TXH©GLVFLSOLQD©
a apresentação de projetos de arqueologia em todo território nacional e
consolida-se com as Portarias IPHAN 230/02 e 28/03, respectivamente que
compatibiliza as fases do licenciamento ambiental aos processos arqueológicos
e dispõe sobre os estudos arqueológicos de diagnóstico para licenças de
operação em empreendimentos hidrelétricos antigos que não foram objeto
de pesquisas arqueológicas preventivas.
O patrimônio arqueológico compreende a porção do patrimônio material
para o qual os métodos de arqueologia fornecem conhecimentos primários.
Engloba todos os vestígios da existência humana e interessam todos os
lugares onde há indícios de atividades humanas, não importando quais sejam
elas, estruturais e vestígios abandonados, na superfície, no subsolo ou sob as
iJXDV©DVVLP©FRPR©R©PDWHULDO©D©HOHV©DVVRFLDGRV©FDUWD©GH©/DXVVDQH©î©
O patrimônio arqueológico, segundo Mendonça de Souza e Souza
©p
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caracterizado como o conjunto de locais em que habitaram as
populações pré-históricas, bem como toda e qualquer evidência das
atividades culturais destes grupos pretéritos e inclusive seus restos
biológicos. O patrimônio arqueológico é assim integrado não só por
EHQV© PDWpULDV© DUWHIDWRV© GH© SHGUD© RVVR© FHUkPLFD© UHVWRV© GH© KDELWDomR©
YHVWtJLRV© GH© VHSXOWDPHQWRV© IXQHUiULRV© PDV© WDPEpP© H© SULQFLSDOPHQWH©
pelas informações deles dedutíveis a partir, por exemplo, da sua própria
disposição locacional, das formas adotadas para ocupação do espaço e
dos contextos ecológicos selecionados para tal.
2© 3DWULP{QLR© $UTXHROyJLFR© SRVVXL© XPD© EDVH© GH© GDGRV© ½QLWD© H©
diferentemente de outros sistemas não comporta restauração, sua capacidade
GH©VXSRUWH©GH©DOWHUDomR©p©PXLWtVVLPD©OLPLWDGD©3RU©LVVR©UH¾H[}HV©TXH©DSRQWDP©
SDUD©D©LGHQWL½FDomR©H©PLQLPL]DomR©GRV©LPSDFWRV©FXPXODWLYRV©VH©FRQVWLWXHP©
uma preocupação constante em obras e empreendimentos de potencial dano
j©PDWUL]©DUTXHROyJLFD©%DVWRV©
O registro arqueológico
O registro arqueológico tem sua delimitação legal contida em diversas
normas pelo mundo. Comparece nas preocupações da UNESCO, tem lugar
QDV© 5HFRPHQGDo}HV© GH© 1RYD© GH© 'HOL© © H© PDLV© UHFHQWHPHQWH© QD© &DUWD©
GH© /DXVVDQH© © RQGH© HQFRQWUDPRV© VXDV© SULQFLSDLV© GH½QLo}HV© TXDQWR© D©
sua amplitude e proteção. No Brasil, o registro arqueológico tem sua primeira
DSDULomR©HQTXDQWR©EHP©D©VHU©SURWHJLGR©QR©GHFUHWRõOHL©©GH©©(QWUHWDQWR©
R©SDWULP{QLR©DUTXHROyJLFR©SDUD©VHU©SURWHJLGR©SHOR©GHFUHWR©OHL©©GHYHULD©
ser objeto do procedimento de Tombamento. Este procedimento que se
constitui do instrumento do tombamento se demonstrou ao longo do tempo
LQH½FLHQWH©SDUD©D©SURWHomR©GR©SDWULP{QLR©DUTXHROyJLFR
Desde a edição do decreto lei de tombamento poucos foram os sítios
arqueológicos tombados e os que foram tem resultados, enquanto proteção,
bastante duvidoso. Um exemplo disto é o sítio arqueológico tipo sambaqui
denominado Pindaí, localizado próximo a São Luiz, no Maranhão, que hoje
ainda tombado tem sobre ele uma rodovia, um loteamento e um bairro.
$© HGLomR© GD© OHL© IHGHUDO© © ±TXH© GLVS}H© VREUH© RV© PRQXPHQWRV©
arqueológicos e pré-históricos” é emblemática, pois vem suprir uma lacuna
TXH© QmR© HQFRQWUDYD© DPSDUR© QR© GHFUHWR© /HL© © $VVLP© YLPRV© DPSOLDU© GH©
IRUPD© VLJQL½FDWLYD© H© GH½QLWLYD© D© SURWHomR© GRV© VtWLRV© DUTXHROyJLFRV© HP© WRGR©
WHUULWyULR©QDFLRQDO©'HVWDFDõVH©DTXL©TXH©D©SULPHLUD©OHL©GH©SURWHomR©HVSHFt½FD©
do patrimônio arqueológico foi editada primeiramente no Estado de São
Paulo em 1955, em função de pesquisadores e intelectuais da Universidade
de São |Paulo.
1D© QRUPDWLYD© IHGHUDO© OHL© © RV© VtWLRV© DUTXHROyJLFRV© IRUDP©
GHQRPLQDGRV© FRQIRUPH© R© DUWLJR© © GD© OHL© IHGHUDO© GD© 3RUWDULD© Q© © GH©
dezembro de 1988 da portaria IPHAN nº 230/02 e ainda da Portaria 28/03.
Dentro desse escopo temos uma circunstância histórica para a formulação
GD© OHL© TXH© HUD© XP© DSHOR© FLHQWt½FR© TXH© VXSHUDULD© DV© DQWLJDV© GLVFXVV}HV© TXH©
circunscreviam o objeto arqueológico. Uma das demandas mais polêmicas a
época era a temática ligada à naturalidade ou a culturalidade dos sambaquis.
Sítios arqueológicos de populações pré-históricas, que tinham uma dieta
54
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
baseada nos frutos do mar, notadamente com a primazia dos peixes e que
construíam enormes montes com carapaças de moluscos. Na perspectiva da
época em que vigoravam conceitos ainda não muito sólidos sobre as categorias
dos sítios arqueológicos, os sambaquis geraram dúvidas e intenso debate, em
especial as com questões relacionadas com a sua importância cultural.
O registro arqueológico hoje é considerado uma assinatura material das
ações resultantes da atividade humana que resistiram no tempo e no espaço.
Ressalte-se que com o avanço da compreensão sobre a construção do passado
e sua natureza identitária perante a humanidade, a sociedade em busca de
símbolos de pertencimento e memória, também passaram a considerar como
DVVLQDWXUD©PDWHULDO©SDUD©½QV©GH©UHJLVWUR©DUTXHROyJLFR©DV©SDLVDJHQV©HVSHFLDLV©
lugares e espaços que foram utilizados pela humanidade, assim como para
DWLYLGDGHV© TXH© QmR© GHL[DUDP© WUDQVIRUPDo}HV© YLVtYHLV© RX© VLJQL½FDWLYDV© QR©
DPELHQWH© ItVLFR© D© SRQWR© GH© VHUHP© LPHGLDWDPHQWH© LGHQWL½FDGDV© HP© WHUPRV©
de volume e dinâmica espacial pelos arqueólogos. A utilização de grutas,
abrigos sob rochas, cavernas ou cavidades subterrâneas, lugares de combate,
PRUWHV©WRUWXUD©VHQ]DODV©TXLORPERV©QmR©PRGL½FDGDV©QD©VXD©JrQHVH©HVSDFLDO©
são entre outros, exemplos de locais que foram utilizados pela humanidade,
SURGX]LQGR©PXGDQoDV©GH©GLItFLO©LGHQWL½FDomR©RX©FRP©PRGL½FDo}HV©PtQLPDV©
GH©SHUFHSomR©GL½FXOWDGD©SHODV©FRQGLo}HV©ItVLFRõTXtPLFDV©±LQ©VLWX²
Entretanto, os estudos arqueológicos de matriz transversal têm ocupado
FDGD© YH]© PDLV© HVSDoR© QD© FRQ½JXUDomR© GH© XPD© FLrQFLD© FRPSURPHWLGD© FRP©
sociedade e com a inclusão social dos grupos vulneráveis e, desta forma,
tem apontado para a multiplicidade de sítios arqueológicos até então
desconhecidos pela população e relegados ao plano do esquecimento da
maioria dos arqueólogos brasileiros, até bem pouco tempo atrás.
0DJDOKmHV©©LQGDJDYD©
De que maneira nós poderíamos compatibilizar, harmonizar e
conscientemente optar por incorporar à nossa trajetória cultural àqueles
FRPSRQHQWHV© TXH© VHMDP© D½QV© TXH© VHMDP© FRPSDWtYHLV© TXH© VHMDP©
próprios para o progresso tecnológico e material e que venham ao longo
H© DR© ODGR© GDTXHOHV© HOHPHQWRV© TXH© LGHQWL½FDP© D© QDomR© EUDVLOHLUD© H© VXD©
personalidade?
Essa pergunta parece que não quer calar, é atual e remete a uma discussão
ampla que demanda tensões, pela natureza teórica e de entendimento do que
se constituem as bases efetivas do patrimônio cultural arqueológico em toda
sua extensão. Durante muito tempo, e este tempo remete ao atual, estabeleceuVH©XPD©IDOVD©TXHVWmR©HP©IXQomR©GDV©GH½QLo}HV©H©SUiWLFDV©UHODFLRQDGDV©FRP©R©
campo arqueológico, que se denominou o campo da arqueologia histórica. A
DUTXHRORJLD©SRU©HVWD©YHUWHQWH©FXVWRX©D©VH©½UPDU©HQTXDQWR©REMHWR©GH©SHVTXLVD©
e interesse, principalmente dentro da academia que só muito recentemente
WRUQRXõVH© REMHWR© GH© LQYHVWLJDomR© FLHQWt½FD© H© LQWHUHVVH© SROtWLFR© 'HQWUR© GR©
IPHAN, a matéria é controversa, em especial com os arquitetos, e encontra
GL½FXOGDGHV©GH©WRGR©WLSR©QRV©VHXV©FRQFHLWRV©GH½QLo}HV©H©DEUDQJrQFLD©PXLWR©
PDLV©SHOR©VHX©YLpV©SROtWLFR©GR©TXH©IRUPXODomR©WpFQLFD©H©FLHQWt½FD
3RLV©VH©D©DUTXHRORJLD©WHP©XPD©EDVH©WpFQLFD©FLHQWt½FD©RQGH©RV©FRQFHLWRV©
VmR©HODERUDGRV©D©SDUWLU©GDV©FRQFHSo}HV©½ORVy½FDV©GH©PDWUL]©GD©DFXPXODomR©GR©
55
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
conhecimento, o mesmo viés não se dá com a arquitetura, onde a preferência
HVWpWLFD© WHP© OXJDU© GH© GHVWDTXH© H© R© FRQFHLWR© FLHQWt½FR© WHP© WUDWDPHQWR©
VXSHU½FLDO©©©
Entretanto, passo fundamental foi dado, no sentido de oferecer
instrumentos para o estabelecimento de uma política para a arqueologia
histórica, durante o “Seminário Internacional de Reabilitação Urbana de Sítios
Históricos”, realizado em dezembro de 2002, pelo Departamento de Proteção
GR©,3+$1©HP©%UDVtOLD©'LVWULWR©)HGHUDO
A organização do referido seminário distribuiu as discussões por grupos
de trabalhos e o grupo de trabalho nº 4 foi intitulado “Arqueologia aplicada ao
processo de reabilitação”. A temática proposta já sinalizava em certa medida a
compreensão dos organizadores de um dos lugares que deve ter a arqueologia.
Esta constatação ganha contornos precisos e importantes levando-se em
consideração que o seminário em tela foi organizado pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia federal responsável pelas
políticas de preservação dos bens culturais no território nacional. Se por um
lado, mostra a preocupação dos organizadores em discutir a participação da
arqueologia no processo de reabilitação urbana de sítios históricos, por outro,
entende a disciplina como auxiliar ao processo de reabilitação com matrizes
arquitetônicas, não reconhecendo nela o papel de agente fundamental
SDUD©D©GH½QLomR©GRV©SDUkPHWURV©SDUDGLJPiWLFRV©SDUD©D©DomR©GH©UHDELOLWDomR©
Estas limitações, muitas vezes, estão na raiz dos problemas enfrentados pela
arqueologia nos dias de hoje.
Um esforço semelhante mais pouco divulgado no âmbito do IPHAN, e
realizado no mesmo ano do Seminário Internacional de Reabilitação Urbana
de Sítios Históricos, é o Manual de Arqueologia Histórica para projetos
de restauração, elaborada pela arqueóloga Rosana Najjar para o projeto
Monumenta/BID. Esta situação de falta de extroversão da produção realizada
é característica de um descompasso entre o IPHAN, a academia e a sociedade.
Dentro desta perspectiva, retomando o grupo de trabalho do Seminário
Internacional de Reabilitação Urbana, que discutiu a arqueologia aplicada
ao processo de reabilitação, estamos falando da proposição mais arrojada
formulada até hoje no IPHAN para discutir a questão. Neste sentido, vale
ressaltar as suas conclusões, que apontam para recomendações que objetivam
a formatação de conduta para o desenvolvimento de projetos em áreas
urbanas históricas.
A formulação ali apresentada pretende ser uma contribuição para a
GH½QLomR©H©FRQFHLWXDomR©GH©VtWLRV©DUTXHROyJLFRV©KLVWyULFRV©SDUD©½QV©GH©JHVWmR©
e manejo de áreas protegidas ou não. A primeira constatação foi de que os
sítios arqueológicos situados em áreas urbanas podem tanto ser históricos
como pré-históricos. Os sítios arqueológicos pré–históricos, tanto na cidade
como no campo, encontram-se contemplados para efeitos de proteção na
OHL© IHGHUDO© © TXH© GLVS}H© VREUH© RV© PRQXPHQWRV© DUTXHROyJLFRV© H© SUpõ
históricos.
3DUD© HIHLWR© GH© FRQFHLWXDomR© GRV© SDUkPHWURV© TXH© GH½QHP© R© EHP©
arqueológico, segundo o capítulo II, item um do decreto – lei nº 25 de 30 de
QRYHPEUR©GH©©GR©DUWLJR©©GD©OHL©IHGHUDO©©GD©SRUWDULD©Q©©GH©
GH]HPEUR©GH©©H©DLQGD©GD©SRUWDULD©,3+$1©Q©©IRL©FRQVLGHUDGR
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Sítio arqueológico histórico em áreas urbanas são espaços
JHRJUi½FRV©GHOLPLWDGRV©SHOD©SUHVHQoD©GH©YHVWtJLRV©PDWHULDLV©RULXQGR©GR©
processo de ocupação do território pós-contato. Este tema será retomado
mais a frente com sua devida caracterização.” Seminário Internacional de
Reabilitação Urbana,2002 IPHAN.Brasília.
Um novo momento da disciplina arqueológica logrou estabelecimento
no Brasil, a partir da edição da Portaria IPHAN 230/02. Quando ocupávamos
D©FRRUGHQDomR©QDFLRQDO©GH©DUTXHRORJLD©GR©,3+$1©½]HPRV©HGLWDU©DTXLOR©TXH©
disciplinou os estudos arqueológicos no âmbito dos Estudos de Impactos
Ambientais e respectivos Relatórios de Estudos Impactos Ambientais,
que atendem pela sigla de EIA/RIMA, RAS, RAP, PCA, PBA, entre outras. A
implantação formal dos estudos arqueológicos preventivos, cercado pela
normalização federal abriu espaços para a elaboração de novas práticas
relacionadas à arqueologia preventiva. No campo do registro arqueológico
podemos observar o comparecimento cada vez maior de sítios arqueológicos
de diferentes épocas e de distintas categorias de representatividade da
memória que constitui os elementos formadores da identidade social do Brasil.
Sendo assim, o conceito de registro arqueológico tem sido alargado para
contemplar todos os seguimentos que compõem a memória social do Brasil.
%HUJVRQ©©HP©VXD©FRQVWUXomR©DFHUFD©GD©QDWXUH]D©GD©PHPyULD©DUJXPHQWD©
TXH©QRVVD©GXUDomR©QmR©p©XP©LQVWDQWH©TXH©VXEVWLWXt©R©RXWUR©LQVWDQWH©QHVWH©FDVR©
haveria sempre apenas o presente, não haveria prolongamento do passado
atual, não haveria evolução, não haveria duração concreta. A duração e o
progresso continuam do passado que rói o porvir e incha na medida em que
avança. Uma vez que o passado cresce incessantemente, também se conserva
LQGH½QLGDPHQWH©$©PHPyULD©QmR©p©XPD©IDFXOGDGH©GH©FODVVL½FDU©UHFRUGDo}HV©
numa gaveta e inscreve¬-las num registro pura e simplesmente. Não há
registro, não há gaveta, não há aqui propriamente falando, sequer faculdade,
pois uma faculdade se exerce de forma intermitente, quando quer ou quando
pode, ao passo que a acumulação do passado sobre o passado prossegue sem
trégua. Na verdade o passado se conserva por si mesmo, automaticamente,
o que nos cabe é exorcizá-lo, depurá-lo, para que ele não retorne enquanto
tragédia.
Precisamente, e debruçado sobre o presente que ele irá se juntar,
forçando a porta da consciência que gostaria de deixá-la de fora. Trata-se de
recuperar uma lembrança, de evocar um período de nossa historia. A verdade
é que jamais atingiremos o passado se não nos colocarmos nele de saída.
Entre as doenças da memória a que é mais danosa a sociedade é aquela que
insiste em ser esquecida.
Não há nada mais simples que a explicação deles, em queimar os
documentos da época escravidão brasileira, em sumir com pessoas, não há
nada mais simples que subtrair das gerações futuras sua memória ancestral.
Se elas desaparecem da memória é porque os elementos antagônicos em que
repousavam a ação foram alterados ou destruídos.
Aqui estamos falando do dano intergeracional que, conforme Lemos
© VH© FRQFHLWXDGR© FRPR© OHVmR© RX© UHGXomR© SDWULPRQLDO© VRIULGD© SHOR©
RIHQGLGR© HP© VHXV© YDORUHV© SURWHJLGRV© TXH© VH© FRQ½JXUD© SHOD© SHUGD© RX©
diminuição, total ou parcial de elemento, ou de expressão, componente da
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estrutura e bens psíquicos, físicos, morais ou materiais.
PAT R I M Ô N I O
ARQUEOLÓGICO E AS
FORMAS JURÍDICAS:
D I R E I T O S C U LT U R A I S
ENQUANTO DIREITOS
HUMANOS.
2V©GLUHLWRV©FXOWXUDLV©HQTXDQWR©GLUHLWRV©KXPDQRV©VHJXQGR©%DVWRV©©
não é só um entendimento teórico, ao contrário, é o único meio de trazer
efetividade ao exercício dos direitos culturais.
No Brasil podemos dizer sem medo de cometer injustiças que direitos
FXOWXUDLV©H©KXPDQRV©HQIUHQWDP©JUDQGH©GL½FXOGDGH©GH©DVVLPLODomR©SRU©SDUWH©
da sociedade, políticos e também por parte do judiciário, visto no conjunto,
bastante conservador. Infelizmente, essa conduta não exceção, é regra.
Queremos aqui estabelecer um campo de entendimento do que seja
conservador. Isto é, aquele entendimento da lei que prima pela primorosa
observância do conteúdo escrito, sem levarmos em consideração as opções
½QDOtVWLFDV© GD© OHL© RX© GD© QRUPD© 2© GLUHLWR© YHP© REWHQGR© QR© HVFRSR© GDV© VXDV©
formulações interpretações socialmente mais justas na medida em que
avançam as conquistas dos movimentos sociais.
No Brasil, em particular, nas questões ambientais que envolvem a
construção e operação de empreendimentos hidrelétricos de grande porte,
que em geral desloca centenas, às vezes milhares de famílias de seus territórios
constituídos para lugares sem memória. Na esteira dessas intervenções surgiu
R© 0$%© PRYLPHQWR© GRV© DWLQJLGRV© SRU© EDUUDJHP© FXMR© OHPD© HUD© ±7HUUD© VLP©
Barragem não”, que poderia muito bem ter a variante terra sim, enchente não.
O MAB foi responsável por grandes conquistas para os agricultores rurais,
moradores, posseiros e proprietários das áreas inundadas para a construção
dos reservatórios das empresas geradoras de energia.Cabe lembrarmos que
os grandes reservatórios, pertencem à ideologia do Brasil grande, oriundo do
*ROSH©PLOLWDU©GH©SULPHLUR©GH©DEULO©GH©©RQGH©R©UHVSHLWR©DR©DPELHQWH©H©DRV©
direitos culturais eram pauta vencida.
Desta forma, aqui discorreremos sobre os direitos culturais enquanto
direitos humanos. Antes, porém, gostaríamos de fazer uma advertência
teórica de fundo ideológico, para deixar explicitada a nossa posição no campo
do exercício dos direitos. Em princípio, todos os direitos são humanos, aqui
entendidos enquanto prática social para o favorecimento da organização das
sociedades.
Queremos deixar ainda consignado que a sua organização, digo do direito
enquanto prática social, está sujeita a uma complexidade de forças políticas,
que atuam ora tencionando o arranjo institucional, ora distencionando
demandas represadas de determinado seguimento social organizado.
OS SUPORTES LEGAIS
A ideia aqui não é sermos excessivos, mas apenas deixarmos registrados
que existemarcos legais que atendem satisfatoriamente as demandas de
preservação do patrimônio cultural arqueológico.
A nossa constituição elencou um conjunto muito interessante de
leis para a proteção da cidadania cultural. Também devemos marcar que a
58
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&RQVWLWXLomR©)HGHUDO©GH©©DFROKHX©D©OHL©IHGHUDO©©H©WRGDV©DV©QRUPDV©
que sinalizavam para a preservação do patrimônio cultural arqueológico.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Dentro do espectro que reúne o patrimônio cultural, legítima categoria
dos direitos culturais, escolherá aqui o patrimônio arqueológico, pois nos
parece dentre as inúmeras distinções aquele que mais reúne elementos e
pode ter uma amplitude que contemple vários seguimentos do pensamento
patrimonial e suas relações com os direitos humanos.
A arqueologia por si é uma disciplina em constante formação e
transformação, toma emprestado tanto na rigidez do pensamento cartesiano
H© SRVLWLYR© FRPR© LQFRUSRUD© VHJXLGRV© FRQFHLWRV© H© GH½QLo}HV© RULXQGDV© GD©
DQWURSRORJLD© ½ORVR½D© VRFLRORJLD© SVLFRORJLD© OLQJtVWLFD© OLWHUDWXUD© KLVWyULD©
JHRJUD½D©PHGLFLQD©Vy©SDUD©FLWDU©RV©PDLV©FRQYHQFLRQDLV
&RQWXGR© p© QD© OLJDomR© GRV© VDEHUHV© TXH© HVWi© R© JUDQGH© GHVD½R© GDV©
ciências arqueológicas. Para adentrar nesse seara convém delimitar nosso
campo de entendimento da transdisciplinaridade, condição sinequa non para
operar a religação dos saberes tão essencial para compreensão das práticas
arqueológicas.
%HUQGW© %DVWRV© © DSRQWDP© DOJXPDV© UH¾H[}HV© TXH© PHUHFHP© VHU©
retomadas para a construção de novos postulados, onde são recuperados
sentidos, valores, sentimentos, pensamentos e ações, descartadas ou
supostamente superadas em momentos anteriores e as reintegramos no
cenário do conhecimento.
Neste sentido, a arqueologia brasileira toma para si, a partir de outros
SURFHVVRV©DGYLQGRV©GH©QRYRV©SDUDGLJPDV©QRYDV©IRUPD©GH©ID]HU©)RUPD©XPD©
nova geração de pesquisadores/educadores, mais conectados com a inclusão
social e com o conhecimento emancipatório, que devemos esperar para uma
arqueologia verdadeiramente pública e de acesso comum a todos.
59
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Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
RESENHA
FUNARI, Pedro Paulo; PIÑON, Ana. A temática indígena na escola:
subsídios para os professores. São Paulo: Editora Contexto, 2011.
Aline Vieira de Carvalho
Victor Henrique da Silva Menezes
Pesquisadora do NEPAM e coordenadora do
Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte
– NEPAM/Unicamp.
Contato: [email protected]
Graduando em História pela Universidade
Estadual de Campinas – e estagiário do
Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte
– NEPAM/Unicamp.
Contato: [email protected]
1Para
consultar o texto dos
3DUkPHWURV©
&XUULFXODUHV©
Nacionais: http://portal.mec.gov.
br/seb/arquivos/pdf/livro051.pdf
2Este número foi publicado pelo
Programa Povos Indígenas no Brasil
e está disponível no site: http://
pib.socioambiental.org/pt/c/0/1/2/
populacao-indigena-no-brasil.
É
preciso destacar, como o próprio
Programa sinaliza, que este número
TXH© QmR© UH¾HWH© DV© GLYHUVLGDGHV©
internas de cada um dos grupos
indígenas listados.
61
Porque seria necessário produzir um livro sobre a temática indígena em
VDOD©GH©DXOD©QR©%UDVLO©GRV©GLDV©GH©KRMH"©$½QDO©D©SDUWLU©GRV©3DUkPHWURV©&XUULFXODUHV©
Nacionais1 discutimos exaustivamente em nossas escolas (e em nossos
projetos pedagógicos) a questão da cidadania, da pluralidade do patrimônio
sociocultural brasileiro, da luta contra qualquer forma de discriminação baseada
em diferenças culturais (e também diferenças de classe social, de crenças, de
sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais), da pluralidade
das memórias, entre outros temas onde, teoricamente, os grupos indígenas
que compartilham o território que chamamos de Brasil estariam incluídos
nos debates. Ou, mesmo nas Universidades, temas como o multiculturalismo,
LGHQWLGDGHV©¾XLGDV©H©HWQLFLGDGHV©HVWDULDP©HP©FRQVWDQWHV©GLVFXVV}HV©UHVXOWDQGR©
HP©SHVTXLVDV©LQRYDGRUDV©VREUH©D©WHPiWLFD©LQGtJHQD©QR©%UDVLO©&RPR©MXVWL½FDU©D©
UHOHYkQFLD©GH©XPD©REUD©FRPR©HVVD"©©(VWD©p©SULPHLUD©TXHVWmR©TXH©QRV©FRORFDPRV©
ao nos defrontar com o livro A temática indígena na escola: subsídios para os
professores, publicado pela Editora Contexto (2011). A resposta, todavia, salta
aos nossos olhos logo nas primeiras páginas.
A obra, arquitetada para ser lida e discutida por um amplo público, e,
em especial, professores, destaca o papel ativo do Estado Nacional brasileiro
no apagamento das memórias relacionados aos nativos americanos. O foco,
HQWUHWDQWR©QmR©½FD©QR©SDVVDGR©RX©QD©LQVWLWXLomR©GR©(VWDGR©3DUWLQGR©GD©SUHPLVVD©
de que a leitura do tempo passado é sempre realizada sobre o viés do presente,
os autores destacam como as memórias sobre os indígenas são vivenciadas nos
dias de hoje e são projetadas para o passado. Por mais surpreendente que possa
ser, expressiva parcela dos jovens estudantes brasileiros continuam a perceber
±R©LQGtJHQD²©FRPR©R©KDELWDQWH©GDV©¾RUHVWDV©GLVWDQWHV©H©SHUWHQFHQWHV©DRV©WHPSRV©
ORQJtQTXRV©FRPR©XWRSLDV©GHVHQFDUQDGDV©1HVVDV©LQWXLo}HV©RV©LQGtJHQDV©QmR©
existem no presente e, quando existem, estão nas ocas da Amazônia (p. 109).
O completo desconhecimento dos 235 povos indígenas existentes no
Brasil atual2© © GLDORJD© FRP© YLV}HV© XQLSDUWLGiULDV© GD© QRVVD© SUySULD© KLVWyULD© 'RV©
FRQ¾LWRV©H©QHJRFLDo}HV©HQWUH©HVVHV©QDWLYRV©H©RV©HXURSHXV©TXH©DTXL©FKHJDUDP©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
ao último ano do século XV, a memória que nos resta é sempre do indígena
vencido ou desimportante! No geral, as pessoas não se percebem com
SRVVtYHLV©DQWHFHVVRUHV©LQGtJHQDV©H©QHP©FRQFHEHP©DV©FRQWULEXLo}HV©FXOWXUDLV©
importantíssimas da convivência destes diferentes grupos culturais: do universo
da alimentação (da mandioca à batata, do tomate ao chocolate, algumas das
FRQWULEXLo}HV© DPHULFDQDV© DR© PXQGR© SDVVDQGR© SHOR© XQLYHUVR© GRV© SUySULRV©
léxicos (Mogi, Caju, Pindamonhangaba, Anhanguera, entre tantos outros!)
até a herança cultural do banho diário, os diálogos culturais entre os nativos e
europeus são incomensuráveis e, constantemente, silenciados e esquecidos.
O livro, neste contexto, apresenta-se como fundamental ao Brasil dos
dias de hoje. E sua inovação está na característica de mostrar, partindo de uma
linguagem acessível e de conhecimentos produzidos em diversas ciências, que
nenhum desses esquecimentos e memórias são naturais. Ou seja, o livro tem
como premissa que os mecanismos de exclusão não são estáticos, atemporais
ou simplesmente dados. Por não terem datas e locais de nascimento, essas
DUWLPDQKDV© GRV© VLOHQFLDPHQWRV© H© GDV© H[FOXV}HV© SRGHP© SRUWDQWR© VHUHP©
alteradas.
Para a transformação, entretanto, é preciso ter conhecimento sobre
esses poderes. O livro almeja suprir uma lacuna: oferecer uma visão plural
e acessível sobre a constituição da temática indígena no Brasil. Para isso, os
autores conceberam uma obra que se divide em quatro eixos temáticos (“As
identidades”, “Os índios”, “A escola” e “A república”), e, em sua base, trabalha
com a proposta de que não existem raças, mas apenas a raça humana.
Criticando, dessa forma, a contraposição entre “índios” e “brancos” como
categoria de tipo racial, os autores iniciam o livro com a polêmica discussão
acerca de quando se principia a História do Brasil. A história do continente
americano tem sido narrada a partir de uma perspectiva européia, o que
pode ser observado, por exemplo, quando é difundida a ideia de que a nossa
história teria iniciado em 1500 com a chegada dos portugueses ou até mesmo
em 1140 no momento de formação do Estado de Portugal. Tais abordagens na
maioria das vezes acabam por excluir o fato de que bem antes de 1500 essas
terras já haviam sido povoadas. Partindo desse pressuposto, Funari e Piñón
inserem uma crítica quanto à forma que este tema é trabalhado dentro de
XPD©VDOD©GH©DXOD©RQGH©DOJXQV©SURIHVVRUHV©¯©RUD©GHYLGR©j©IDOWD©GH©LQIRUPDo}HV©
QDV©HVFRODV©RUD©jV©GH½FLrQFLDV©GDV©SROtWLFDV©GH©YDORUL]DomR©FXOWXUDO©HP©YRJD©QR©
país – “esquecem” de levar em consideração a (pré) e/ou história desses povos
que aqui habitavam como um dos agentes que contribuem para a formação
GD©KLVWyULD©GDV©WHUUDV©TXH©GHUDP©RULJHP©DR©%UDVLO©LQ¾XHQFLDQGR©LQGLUHWDPHQWH©
a ideia – presente em muitas pessoas, como mostra a pesquisa feita pelos
autores e exposta no livro – de que a parte do continente que constituiria
nosso país só passara a ser povoada com a chegada dos europeus.
Após essa breve discussão, nos capítulos que se sucedem, os autores
WUDEDOKDP©FRP©D©H[SOLFDomR©GR©VLJQL½FDGR©GH©DOJXPDV©GHQRPLQDo}HV©GH©SRYRV©
indígenas, como por exemplo, Tupinambás (os descendestes do ancestral),
Tupiniquins (o galho do ancestral), Tupi (ancestral), Guarani (guerreiro), Inca
VHQKRU©HQWUH©RXWURV©'LVFXWHõVH©D©SDUWLU©GLVVR©R©TXH©p©VHU©tQGLR©FRPEDWHQGR©
ao mesmo tempo, a ideia de que todos aqueles que habitavam o continente
antes de 1492 formavam um único povo. Funari e Piñón salientam que esses
povos se autodenominavam “(…) de milhares de maneiras, cada povo a seu
62
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
PRGR© FRP© QRPHV© TXH© SRGLDP© VLJQL½FDU© VLPSOHVPHQWH© ±VHUHV© KXPDQRV²© SRU©
RSRVLomR©D©RXWURV©JUXSRV²©S©©R©TXH©GHPRQVWUDULD©DV©VXDV©HVSHFL½FLGDGHV©
culturais.
Os autores tiveram também a preocupação em explicar alguns termos
técnicos e conceitos que já foram utilizados, ou ainda são, nos estudos que
versam sobre os povos indígenas, como “assimilação” (p.22), “aculturação” (p. 24),
“modelo normativo” (p. 24), “etnogênese” (p. 26), “transculturação” (p. 26), “olhar
antropológico” (p. 30), “desnaturalização” (p. 30), “abordagens culturalistas” (p.
44), “deculturação” (p. 72), “americanismos” (p. 95) e “invisibilidade do indígena”
(p. 110). Essa estratégia de explicação de conceitos básicos nos estudos de
determinados campos, tão presente nos demais trabalhos de Funari, mostrou-se
FRPSOHWDPHQWH©H½FD]©WDPEpP©QHVWD©REUD©SDUD©XPD©PHOKRU©FRPSUHHQVmR©SRU©
parte do leitor de como o tema em questão deve ser estudado, além de auxiliar
no entendimento das diferentes maneiras que o índio já foi apresentado a partir
de conceitos tão fortes como estes; o que faz com que o leitor acompanhe
as críticas relacionadas à abordagem da temática indígena que os autores
constroem no decorrer da narrativa.
Há uma valorização das pesquisas arqueológicas, o que não poderia faltar
em um livro escrito por arqueólogos que tem uma profunda preocupação
em introduzir em seus trabalhos os estudos realizados com comunidades do
passado e do presente através de sua cultura material. Pois, como enfatiza Funari
H©3LxyQ©±¨©D©$UTXHRORJLD©p©RXWUD©JUDQGH©IRQWH©GH©LQIRUPDo}HV©VREUH©RV©tQGLRV©
e que, portanto, vale a pena ver o que descobriram e anotaram os arqueólogos”
(p. 34), sendo que “(…) os vestígios arqueológicos podem mostrar como eram
as aldeias indígenas, as ocas e a estrutura arquitetônica de importantes centros
como as cidades maias ou as estradas incas, nos Andes, as melhores do mundo
no século XV” (p. 37).
A trajetória do homem e povoação da América é trabalhada a partir das
teorias difundidas pelas arqueólogas Maria Conceição Beltrão e Niède Guidon, e
SHOR©ELyORJR©:DOWHU©1HYHV©(P©UHODomR©D©YLV}HV©DQWHV©FRQVDJUDGDV©FRPR©D©LGHLD©
de que nas sociedades caçadoras e coletoras havia necessariamente uma divisão
de tarefas por sexo, ou seja, que o homem era o caçador e a mulher a que fazia
a coleta e que, por isso, o homem seria hierarquicamente superior à mulher (p.
46) é fortemente criticada pelos autores que trabalham com a ideia de que “(…)
nem todas as sociedades indígenas eram (ou são) patriarcais” (p. 48). Partindo
GHVVH©SUHVVXSRVWR©p©VXJHULGR©QR©GHFRUUHU©GR©OLYUR©TXH©HVVDV©GLVFXVV}HV©VREUH©DV©
mulheres sejam levadas à sala de aula, pois o tema do protagonismo social das
PXOKHUHV©QD©QRVVD©VRFLHGDGH©DWXDO©p©GH©JUDQGH©LPSRUWkQFLD©$VVLP©HVFUHYHP©
Funari e Piñón, caberia comentar sobre a diversidade de sexualidades registrada
em tribos indígenas, onde pesquisas têm mostrado a existência de sociedades
indígenas que reconheciam mais do que dois sexos (p.49).
&RPSOHPHQWDQGR© D© GLVFXVVmR© VREUH© DV© UHODo}HV© GH© JrQHUR© GRV© SRYRV©
indígenas que deveriam ser inseridas nas salas de aulas, os autores discutem
e criticam a forma que a temática indígena foi tratada quando introduzida nos
livros didáticos a partir de 1943, em que “(…) os índios eram quase sempre
enfocados no passado e apareciam, muitas vezes, como coadjuvantes e não
como sujeitos históricos, à sombra da atividade dos colonos europeus” (p. 97),
e a “(…) colonização do continente americano pelos indígenas praticamente
não era mencionada e os índios eram descritos por meio da negação de traços
63
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
FXOWXUDLV© FRQVLGHUDGRV© VLJQL½FDWLYRV© FRPR© IDOWD© GH© HVFULWD© GH© JRYHUQR© H© GH©
tecnologia” (p. 98). Situação esta que só mudou a partir da segunda metade
dos anos 1990 onde buscou-se a universalização da escola fundamental de oito
anos e a valorização da diversidade cultural, o que resulta então na produção
de novos materiais didáticos no qual passa a ser tratado com maior atenção
temas indígenas, apresentando “(…) a povoação do continente como um tema
em discussão pelos pesquisadores, com a apresentação de diversas teorias, o
que favorece uma visão crítica sobre o conhecimento histórico por parte de
estudantes” (p. 100).
Uma observação por parte dos autores que é importante destacar, é que,
apesar da maior atenção dada nos livros didáticos e de novas políticas por
parte do Ministério da Educação e das Secretarias Estaduais de Educação em
relação à temática indígena, é perceptível que entre os estudantes ainda há
XPD©SURIXQGD©LJQRUkQFLD©HP©UHODomR©DR©WHPD©7DO©D½UPDomR©SURYpP©D©SDUWLU©GH©
uma pesquisa feita em escolas do Rio de Janeiro, Niterói, Campinas e Natal, dos
sextos aos nonos anos do Ensino Fundamental, e que Funari e Piñón apresentam
QRV© PRPHQWRV© ½QDLV© GR© OLYUR© QR© TXDO© REVHUYDõVH© SRU© H[HPSOR© TXH© FHUFD© GH©
um terço dos entrevistados não souberam mencionar nenhuma tribo, que 73%
consideram que os índios estão no Brasil desde 1500 e que quando questionados
sobre a proveniência dos índios, que apenas 16% responderam que vieram da
Ásia, única resposta que corresponde aquilo que está nos livros didáticos, que
como explicam os autores, “(…) já deveriam ter sido incorporadas pela maioria
dos estudantes, mas ainda não foi.” (p. 108), o que demonstra avanços e limites
das políticas educacionais dos últimos anos (p. 109).
1RV©PRPHQWRV©½QDLV©GR©OLYUR©RV©DXWRUHV©GHVWDFDP©TXH©XPD©GDV©PDLRUHV©
vitórias que a introdução na escola da temática indígena obteve foi fazer com
que os estudantes passassem a se ver como descendentes de índios, algo que
no passado não era visto no país, onde tentava-se apagar a nossa memória
indígena, e que agora, “(…) o fato de que muitas crianças reconheçam ter
parentes indígena mostra como a valorização do indígena, apesar de todos os
problemas, avançou no nosso país” (p. 111); concluindo que “(…) a escola, por
seu papel de formação da criança, adquire um potencial estratégico capaz de
atuar para que os índios passem a ser considerados não apenas um “outro”, a ser
REVHUYDGR© D© GLVWkQFLD© H© FRP© PHGR© GHVSUH]R© RX© DGPLUDomR© PDV© FRPR© SDUWH©
deste nosso maior tesouro: a diversidade.” (p. 116).
Uma obra inovadora, A temática indígena na escola: subsídios para os
professores, constitui um riquíssimo trabalho de pesquisa e escrita por parte de
Funari e Piñón e que é certo que terá grande aceitação entre os professores das
redes públicas e privadas que há muito carecem de um trabalho como este, que
é provável que lhes sirva de inspiração e auxílio para que repensem a forma
como têm tratado a temática indígena na sala de aula ou até mesmo como eles
têm colocado o índio na história quando está dando uma aula de História do
Brasil ou da América. Para a próxima edição, sinaliza-se, todavia, a necessidade
do maior cuidado editorial em relação às imagens: muitas não possuem legenda,
créditos ou autoria.
Independente do cuidado editorial, podemos concluir que está é uma obra
GH©JUDQGH©UHOHYkQFLD©SDUD©R©%UDVLO©DWXDO©(©PXLWR©GH©VXD©UHOHYkQFLD©HVWi©HP©VHX©
SUySULR©HQJDMDPHQWR©(©QHVWH©FDVR©R©HQJDMDPHQWR©QmR©VLJQL½FD©DSHQDV©R©OHYDQWDU©
GH© XPD© EDQGHLUD© PDV© GH© IRUPD© FRPSOHPHQWDU© FRPR© GH½QLX© D© DUTXHyORJD©
64
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
3Schiavetto,
Solange
Nunes
de Oliveira. “A questão étnica
no
discurso
arqueológico:
a
D½UPDomR© GH© XPD© LGHQWLGDGH©
indígena minoritária ou inserção
na identidade nacional?” (p.85). In:
Funari, PP.; Orser, C. Jr.; Schiavetto, S.
N. de O. (orgs). Identidades, discurso
6RODQJH© 6FKLDYHWWR© R© HQJDMDPHQWR© p© XP© ±ID]HU© FLHQWt½FR© LQH[WULFDYHOPHQWH©
ligado à sociedade, agindo com e para ela”3 . Assim, o engajamento do livro
segue no sentido de contribuir com a construção de meios que permitam a
UH¾H[mR© DXW{QRPD© LQGHSHQGHQWH© H© FRQVFLHQWH© GH© SURIHVVRUHV© DOXQRV© SDLV© H©
LQWHUHVVDGRV©QD©WHPiWLFD©5H¾H[}HV©TXH©QRV©SHUPLWDP©FRPSUHHQGHU©FRPR©±R©
Índio” foi se transformando em uma categoria essencializada, discriminada e
silenciada ao longo de nossa história.
e poder: estudos da arqueologia
FRQWHPSRUkQHD© $QQDEOXPH©
Fapesp. São Paulo, 2005.
65
¯©
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
E N T R E V I S TA
P E R S P E C T I VA S D A A R Q U E O L O G I A P Ú B L I C A
NO BRASIL E EM CUBA
(175(9,67$'25$
(175(9,67$'$
Isabela Backx
Lourdes Dominguez
3HVTXLVDGRUD©GD©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©GH©
+DEDQD©9LHMD©&XED©H©SURIHVVRUD©YLVLWDQWH©
da Universidade Estadual de Campinas.
Contato: [email protected].
Aluna de mestrado do Programa de PósGraduação QD© OLQKD© GH© +LVWyULD© &XOWXUDO©
da Unicamp e pesquisadora colaboradora
do Laboratório de Arqueologia Pública da
Unicamp.
Contato: [email protected].
RESUMO
A presente entrevista tem como objetivo analisar como a Arqueologia
Pública é entendida pela intelectual Lourdes Dominguez, reconhecida estudiosa
cubana que desenvolve diversos trabalhos em parceria com universidades
brasileiras. No decorrer do texto, aborda-se também a trajetória acadêmica da
professora, assim como o desenvolvimento da Arqueologia Pública em Cuba e
as aproximações possíveis entre esse país e o Brasil.
Palavras Chave: Arqueologia Pública, Brasil, Cuba.
INTRODUÇÃO
A Arqueologia Pública vem a cada ano alcançando novas possibilidades
e perspectivas. Desenvolvendo-se como um campo de estudos interdisciplinar,
tem como um de seus principais objetivos possibilitar a interação da sociedade
QD© SURGXomR© GR© FRQKHFLPHQWR© FLHQWt½FR© HQYROYHQGR© HVWD© QRV© WUDEDOKRV©
de recuperação e preservação de sua própria história. Para entender melhor
essas questões, a professora Lourdes Dominguez cedeu-nos gentilmente
XPD©HQWUHYLVWD©TXH©DX[LOLDUi©QHVVD©UH¾H[mR©DOpP©GH©IRUQHFHUõQRV©XPD©EUHYH©
perspectiva sobre o desenvolvimento dessa ciência em outro país e de possíveis
interações entre Cuba e Brasil.
/RXUGHV©'RPLQJXH]©p©DWXDOPHQWH©SHVTXLVDGRUD©GD©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©
GH© +DEDQD© 9LHMD© HP© &XED© H© GHVGH© PHDGRV© GR© DQR© GRLV© PLO© YHP© DR© %UDVLO©
anualmente para atuar como professora visitante na Universidade Estadual
de Campinas, além de desenvolver diversos projetos com outras instituições.
Dentre estes, ministra cursos no Laboratório de Arqueologia Pública (Unicamp),
palestras na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e na Universidade Federal
de Alfenas (UNIFAL), entre outras.
66
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
Isabela Backx: Para empezar, podrías contarnos un poco acerca de tu carrera académica.
¿Cómo empezaron tus estudios en Arqueología?
Lourdes Dominguez:
Te voy a contar que fue algo muy interesante, de pura casualidad. Yo me interesaba mucho por todo lo que es el problema indígena en América latina, sobre todo
en las primeras etapas. Desde el triunfo de la revolución eso fue una cosa nueva, que
me impactó. O sea, las comunidades que vivían todavía, sus papeles de desarrollo
histórico en América, etc. Todas esas cosas me gustaron, y eso era muy difícil de
estudiar en mi país en ese momento. Años 60, acabábamos de empezar todo el proceso revolucionario, y fue difícil encontrar algo que me ayudara, pues la sociología
no la habían abierto la universidad. Traté de estudiar otras carreras pero por razones
de obrería, o sea, un examen que no podría hacer, la matemática que soy muy mala
y todo eso, por eso resolví estudiar historia.
La historia me ha abierto un mundo inmenso, y tuve la segunda suerte de tener un compañero que era arqueólogo. Un colega de un estudio que me introdujo
dentro de un departamento que se creaba nuevo dentro de la academia de ciencia.
Bueno, la academia de ciencia como órgano investigativo, no como reunión de académicos. Ahora es diferente. En aquel momento, ese organismo que se organizó en
Cuba, que se llamaba Academia de Ciencias de Cuba, era un emporio de investigaciones, y se había abierto una parte para el estudio de Arqueología, que la dirigía el
doctor Ernesto Tabio y que colaboraba con el doctor José Manuel Guarch. Mi amigo,
PL©KHUPDQR©HVWXGLDPRV©MXQWRV©HO©DO©½QDO©QR©WHUPLQy©OD©FDUUHUD©GH©KLVWRULD©)XH©KDFHU©
VX©GRFWRUDGR©SRU©OtQHD©GLUHFWD©HQ©8QLyQ©6RYLpWLFD©SHUR©QRV©TXHGDPRV©PX\©DPLJRV©
y él fue quien me introdujo dentro del área arqueológica de estudios. Me gusto muchísimo. La situación más terrible fue que por ejemplo, el señor que dirigía aquella
institución, un hombre mayor, muy culto, muy buen arqueólogo, un hombre que había trabajado en Perú y en diferentes lugares, tenía un concepto de las mujeres muy
desagradable, y cuando fui – una muchachita – a decirle “a mi me interesa trabajar
aquí”, lo que me dijo fue: “Arqueología no es para mujeres”.
Yo me sentí tan defraudada, además todo ese proceso revolucionario de los
inicios del proceso cubano fue muy interesante en el sentido de que el papel de
OD©PXMHU©HUD©PX\©©ELHQ©UHFRQRFLGR©HVWiEDPRV©PX\©LQ¾XLGRV©GHO©IHPLQLVPR©\©WRGD©
esa serie de cosas que se dan entonces. Y aquella respuesta de aquel hombre, que
yo lo consideraba un sabio, decirme que esa especialidad, esa ciencia, no era para
PXMHUHV©)XH©FRPR©VL©PH©WLUDUDQ©XQ©MDUUR©GH©DJXD©DUULED©HQWRQFHV©½J~UDWH©TXH©QR©PH©
quedó mas remedio de que decirle: “está bien, si usted dice eso yo no digo nada, se
acabó.” Pero para dentro de mi dije: “bueno este es el momento en que empieza de
verdad el interés por Arqueología”. Y continué yendo a todas las reuniones, a todas
las conferencias, a todas las cosas, y a los dos años y pico de aquella situación ya
yo estaba trabajando en ese sitio. Porque entré como historiadora, y al otro día ya
HVWDED©KDFLHQGR©H[FDYDFLRQHV©\©EXHQR©IXH©WRGR©XQ©GHVDUUROOR©DO©½QDO©HO©VH©KL]R©XQ©
gran amigo mío y fue prácticamente mi padre, vamos a decirlo así. Conversábamos
mucho acerca de la especialidad, de los conceptos, teníamos muchas discusiones
FLHQWt½FDV© \© FRPSDUWLPRV© PXFKRV© OLEURV© )XH© XQ© JUDQ© DPLJR© DO© ½QDO© \© MXQWR© DO©
otro amigo mío también, José Manuel Guarch, que es un arqueólogo de primera –
podríamos decir que el primer arqueólogo cubano con un pensamiento claro sobre
la Arqueología cubana –, fue mi amigo hasta su receso, cuando perdí un amigo y un
hermano.
67
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
,%«$FWXDOPHQWH«HUHV«SHVTXLVDGRUD«GH«OD«2¿FLQD«GHO«+LVWRULDGRU«GH«/D«+DEDQD«&XED«&XpQtanos un poco acerca de los trabajos que se desarrollan en esta institución, y cómo las actividades
arqueológicas se insieren en ella.
L.D.:
Tenemos que hacer un poquitico de historia. En todo lo que es el trabajo anteULRU©R©VHD©DQWHV©GH©HQWUDU©HQ©OD©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©QRVRWURV©WUDEDMiEDPRV©HQ©OD©
Academia de Ciencia. Esta Academia de ciencia que te decía yo, que era un organismo – era, porque ya no existe –investigativo, o sea, de grupos de investigadores que
trabajaban diferentes líneas de la geografía, de la Arqueología, de la literatura, de diferentes cosas. Todo eso formaba un gran elefante, podríamos decir, sobre estudios
generales. Y la Arqueología se estudiaba porque había un curso de Arqueología dentro de allí, que fueron cursos medios, básicos y superiores, con presentación de tesis
\©FRQ©WRGDV©HVDV©FRVDV©3HUR©VH©KDFtD©GLDULDPHQWH©+DEtD©DOPDFHQHV©KDEtD©WUDEDMR©
de laboratorio, y tú tenías que pasar por todo. O sea, el arqueólogo que nada más se
sienta en una mesa a escribir, ese no es arqueólogo. Tú tienes que entrar y trabajar
en un laboratorio, desde empezar a lavar una pieza, saber cuáles son las características de las piezas, de los materiales, porque los tienes que hacer, cómo los tienes que
guardar, buscar toda esa información. Yo tuve esa suerte de hacer el trabajo en esa
forma. Y además, lo estudié dentro de la propia institución. Después fui a desarrollar
DOJXQRV©DVSHFWRV©PiV©D©OD©8QLyQ©6RYLpWLFD©D©RWURV©SDtVHV©FRPR©D©(VWDGRV©8QLGRV©
pero ya después de haberme formado como un arqueólogo con todas las etapas
que hay que conformar-se para que puedas después tu dirigir una excavación, tener
criterios de cómo vas a guardar las piezas, de que qué tu quieres con las piezas, qué
tu quieres con la excavación. Porque la excavación no es hacer un hoyo por gusto, tú
tienes que crear las condiciones, buscar una estrategia, buscar la condicionante que
te lleve a ese aspecto para entonces poder entender cómo desarrollar una excavación y que esa excavación tenga valores, valores que después se pasen en algún libro,
alguna clase.
Entonces yo tuve esa suerte. Allá trabajé todo lo que es la parte aborigen, o sea,
todo lo que es los aborígenes cubanos, porque mi jefe – aquel señor que te conté –
entendía que los arqueólogos tenían que ser capases de trabajar lo mismo: la parte
indígena y la parte colonial. O sea, tendrían que ser completos, con un desarrollo
completo, con un criterio completo de que es lo mismo hacer una temporada de trabajo industrial, en un ingenio azucarero, o en un promontorio, o sea, que había una
mistura de todas estas cosas, pero también te permitía a ti tener un conocimiento
amplio de todos esos aspectos, a conocer sobre todo la prehistoria cubana, desde
los más antiguos hasta los más modernos, el contacto, todo eso. Yo me formé en
todas esas cosas, entonces es mi manera de trabajar. Ya después tuve que dirigir ese
departamento cuando el falleció. Tuve que dirigir ese departamento por dieciséis
años, y eso para mí fue algo importante porque logré muchas cosas que yo entendía
que debían hacerse en el estudio de Arqueología, en el trabajo arqueológico. Pero
también fueron para mi dieciséis años de menos, porque la tarea burocrática no te
permite tener ni estudio, ni trabajo, etc. Pero bueno, había que hacerlo, y no había
en ese momento otra persona que estuviera con posibilidades o con criterios, los
demás estaban estudiando, etc. Yo había ya terminado mi doctorado, y entonces
continué ese trabajo hasta el año 94, en que decidí aposentarme. Porque ya estaba
68
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
en tiempo, yo tenía ganas de descansar y no quería ser más dirigente de ese proceso,
porque entendía que estaba perdiendo mis años mejores de formación.
(QWRQFHV©PH©DSRVHQWp©MXELOp©IXL©D©WUDEDMDU©D©RWUR©OXJDU©\©HQWUp©HQ©OD©2½FLQD©
GHO©+LVWRULDGRU©GH©OD©&LXGDG©©TXH©HUD©OD©R½FLQD©TXH©RUJDQL]DED©WRGD©OD©UHVWDXUDFLyQ©GH©OD©+DEDQD©9LHMD©TXH©GHVSXpV©IXH©GHFODUDGD©3DWULPRQLR©GH©OD©+XPDQLGDG©(Q©
HVD©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©KD\©XQ©JDELQHWH©GH©$UTXHRORJtD©R©VHD©XQ©RUJDQLVPR©XQ©
pequeño lugar – no tan pequeño, hoy ya está grande – que tiene un museo donde
HVWiQ©WRGDV©R©OD©PD\RUtD©GH©ODV©SLH]DV©TXH©VH©KDQ©VDFDGR©GH©OD©+DEDQD©9LHMD©\©DOJXQDV©
cosas también del resto de la isla de Arqueología aborigen. Y tiene un grupo de trabajadores que auxilian al plan maestro, o sea, lo que es el plan maestro para realizar a
SDUWLU©GH©ORV©FiQRQHV©HVWDEOHFLGRV©SRU©OD©&DUWD©GH©9HQHFLD©GH©©TXH©WRGR©WUDEDMR©GH©
restauración debe llevar consigo una excavación arqueológica. Esa es la tarea especí½FD©7RGD©HVD©SDUWH©GH©OD©+DEDQD©9LHMD©TXH©HV©XQ©JUDQ©HVSDFLR©WLHQH©VXV©LQPXHEOHV©
FODVL½FDGRV© SRU© HWDSDV© \© SRU© YDORUHV© \© YDQ© VLHQGR© UHVWDXUDGRV© $© PHGLGD© TXH© HVD©
restauración comienza, un grupo de Arqueología comienza a realizar los trabajos esWDEOHFLGRV©HQ©HVR©(VR©HV©$UTXHRORJtD©+LVWyULFD©0X\©SRFDV©YHFHV©VH©HQFXHQWUD©DOJR©
TXH©SXHGH©VHU©FODVL½FDGR©FRPR©$UTXHRORJtD©$ERULJHQ©SHUR©D©YHFHV©VH©GD©SRUTXH©
OD© +DEDQD© HVWi© VLWXDGD© DUULED© GH© XQ© iUHD© DUTXHROyJLFD© SUHKLVSiQLFD© TXH© QR© VH© KD©
encontrado. O sea, no podemos decir que nosotros hemos encontrado el yacimiento
R©HO©VLWLR©GRQGH©HVWXYLHURQ©ORV©DERUtJHQHV©TXH©YLYLHURQ©HQ©ORV©DOUHGHGRUHV©GH©OD©+Dbana. No se ha podido encontrar porque también está tremendamente urbanizada,
\©HV©PX\©GLItFLO©KDFHU©HO©WUDEDMR©DKRUD©1R©WHQHPRV©DOJXQRV©PDWHULDOHV©VR½VWLFDGRV©R©
VHD©HTXLSRV©VR½VWLFDGRV©SDUD©SRGHU©GHWHFWDU©HVR©(QWRQFHV©KD\©TXH©VHJXLU©KDFLHQGR©
lo que se está haciendo hasta ahora. Mi trabajo dentro de eso es asesoramiento. O
sea, revisar los planes de trabajo, revisar todo, los lugares de excavación, etc; y cualquier duda o cualquier problema que haya para los compañeros.
I.B.: ¿Qué entiendes por Arqueología Pública?
L.D.:
Mira para mí el término es un término no usual en Cuba. De todas maneras,
nosotros hemos estado haciendo un trabajo que indiscutiblemente es Arqueología
3~EOLFD©2©VHD©WRGR©OR©TXH©VH©WUDEDMD©HQ©OD©+DEDQD©9LHMD©HVWi©WRWDOPHQWH©FRPSHQHWUDGR©FRQ©OD©SREODFLyQ©TXH©YLYH©HQ©HVH©OXJDU©SRUTXH©XQD©GH©ODV©VLWXDFLRQHV©HVSHFt½FDV©TXH©KD©WUDWDGR©GH©WHQHU©PL©MHIH©HO©GRFWRU©(XVHELR©/HDO©6SHQJOHU©TXH©HV©HO©TXH©KD©
LGHDGR©WRGR©HVH©DQGDPLDMH©GH©OD©2½FLQD©GHO©+LVWRULDGRU©GH©OD©&LXGDG©VLHPSUH©SLHQVD©
que sin los moradores de la ciudad, sin que la gente comparta sus propios criterios
y ayude a trabajar en los museos y en las áreas de trabajo no hubiera absolutamente nada. Pues nosotros hemos estado haciendo Arqueología Pública hace muchos
años, y no nos hemos enterado que se llamaba Arqueología Pública. Ahora estamos
desarrollando ese término a partir verdaderamente de las concepciones, de la gestiyQ©SDWULPRQLDO©TXH©VH©HVWi©UHDOL]DQGR©HQ©OD©2½FLQD©\©OD©JHVWLyQ©FRQ©ORV©PRUDGRUHV©GH©
esa área, pues es un área que está llena de museos, se considera que es una “Ciudad
Museo”, pero no una ciudad muerta, si no una ciudad que vive. Los moradores quedan viviendo adentro de esa ciudad, a veces hay un museo en la primera planta y en
la segunda planta hay gente a vivir, hay familias viviendo. O sea, se cambian mucho
los conceptos y por eso es que tienen mucha relación con la gente que vive en todos
esos lugares.
69
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
I.B.: ¿Cuáles son las perspectivas actuales de la Arqueología Pública en Cuba?
L.D.:
Bueno, fíjate, las perspectivas son tremendas. Es una ciudad antigua, una ciudad
que fue amurallada, que tiene mucho espacio para trabajar. Ya encontramos una gran
cantidad de museos en inmuebles, y ya están establecidos los de mayor valor a partir
del plan maestro, donde se determinaron los que más valor tenían o los que estaban en
más posibilidades de destrucción, y fueron los que tuvieron prioridad, y todavía consideramos que hay otras partes, o sea, estamos en la tercera parte de cuatro. Estamos
en una tercera parte de un trabajo que está prácticamente concluido. Lo que pasa es
que acuérdate que el trabajo patrimonial no se termina nunca, porque tú tienes que
mantenerlo. O sea, tú no puedes reconstruir un inmueble y dejarlo, porque si lo dejas,
a los tres o cuatro años está igual que cuando lo encontraste. Ahí es donde se gasta
más dinero, ahí es donde se desarrolla más esfuerzo, y entonces eso hay que tenerlo en
cuenta, tú no puedes hacer y hacer y hacer, escavar, escavar y escavar. El otro problema
grande que le pasa a todos los arqueólogos es: “donde ponemos el material”, entonces ya se está estudiando en algunos momentos qué materiales se quedan dentro del
lugar que estamos excavando, con sus debidas referencias, con su debido material.
&XDQWDV©FDQWLGDGHV©GH©FRVDV©TXp©HV©OR©TXH©VH©VDFD©GH©ORV©PDWHULDOHV©VL©VH©FXDQWL½FDQ©
si se estudian, si se llevan para un laboratorio. Estamos en esas decisiones, en esas disquisiciones, que son muy difíciles, pero que son de una importancia tremenda, porque
hay una necesidad inmensa en el mundo completo de tomar decisiones de lo que se
va a hacer con los materiales. O sea, las excavaciones se dan y son toneladas de mateULDOHV©\©HVDV©WRQHODGDV©GH©PDWHULDOHV©W~©WLHQHV©TXH©GDUOHV©FLHQWt½FDPHQWH©XQD©VROXFLyQ©
para su empaque, para su manutención, para su estancia en algún lugar futuro, porque
la Arqueología como toda ciencia, sigue adecuándose a nuevas perspectivas, a nuevos
trabajos, y a veces es necesario volver atrás en una excavación que en un momento
determinado se hicieron algunas cosas, pero que ahora, con una sistemática de trabajo
nueva, es muy necesario volver otra vez a trabajar con los materiales antiguos. Por eso
OD©LPSRUWDQFLD©GH©ORV©PDWHULDOHV©PX\©ELHQ©GH½QLGRV©PX\©ELHQ©RUGHQDGRV©PX\©ELHQ©
estructurados, para tu puedas sacarles frutos no solamente en el momento que lo está
haciendo, si no en un futuro para otras personas o para ti mismo. Esa es la disyuntiva
que tenemos en este momento.
I.B.: ¿A cuánto tiempo realizas trabajos en colaboración con universidades brasileñas? ¿Y cómo
surgió esa oportunidad?
L.D.:
Bueno voy a empezar por cómo surgió la cosa: conocí al doctor Pedro Paulo FunaUL©HQ©XQ©FRQJUHVR©GHO©:RUOG©$UFKDHRORJLFDO©HO©TXH©VH©GLR©HQ©%DUTXLVLPHWR©9HQH]XHOD©
Fue el primer congreso fuera de Europa, el World Archaeological Congress. Yo fui de
esas casualidades de la vida, había dinero en Cuba y me mandaron para el congreso.
$OOt©HVWDEDQ©DOJXQRV©DPLJRV©PtRV©YHQH]RODQRV©TXH©ORV©TXLHUR©PXFKtVLPR©0DULR©6DQRMD©\©,UDLGD©9DUJDV©XQRV©GH©ORV©SURPRWRUHV©©GH©OD©$UTXHRORJtD©6RFLDO©(Q©HVH©FRQJUHVR©
se habló mucho de Arqueología social. Y bueno, estábamos un día en un recreo y conocía a Pedro Paulo, que ya había creo que terminado su doctorado, yo estaba por hacer
HO©PtR©\©QRV©LGHQWL½FDPRV©FRQ©QXHVWURV©WUDEDMRV©(O©KDEODED©PX\©ELHQ©HO©HVSDxRO©\©\R©
70
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
de portugués todavía no sé nada, y conversamos muchísimo. Después terminó el congreso, cada uno regresó a su lugar, y no existían todavía los correos electrónicos, y fue
eso. Pasó el tiempo, y como dos años o tres después de eso, yo estaba en Puerto Rico y
ya estaba el correo electrónico funcionando, y en un attachment que me mandaron a
mí de correo, venia el correo de Pedro Paulo, y yo le escribí. Después de eso, reanudamos nuestra amistad, el me pidió mi currículo y me dijo que si yo quería podría venir
a Brasil, que tenían posibilidades de becas, etc, y no le hice mucho caso al principio,
porque pensé como siempre que las becas son muy difíciles, son muy problemáticas a
veces, etc. Pero bueno, yo le mande todos mis papeles y, para resumir la cuenta, todo
funcionó. Yo regresé de Puerto Rico a Cuba, estuve unos meses y se dio el primer viaje
aquí a Brasil con la beca. Estuve aquí en primera vez creo en el año dos mil o en noYHQWD©\©QXHYH©<R©Vp©TXH©GH©HVD©YLVLWD©DO©0$(©GH©HVD©YLVLWD©TXH©KLFLPRV©HQ©6mR©3DXOR©
DTXt©HQ©&DPSLQDV©\©WRGR©VXUJLy©OD©LQYLWDFLyQ©DO©&RQJUHVR©GH©6$%©\©HO©GRFWRU©-RVp©/XL]©
de Morais, que era el director del MAE en ese momento, me invitó a ese congreso, que
fue verdaderamente exitosísimo, en organización, trabajo, conocer a la gente, pudimos
todos colaborar, estábamos todos en un solo lugar donde pudimos conversar muchísimo. Ahí pude conocer a miles de compañeros que conocía solamente por carta. Fui
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(OLVD©&RVWD©TXH©HUD©OD©TXH©GLULJtD©HQ©HVH©PRPHQWR©HO©,3+$1©HUD©DPLJD©GH©XQ©KLMDVWUR©
mío. Bueno, fue toda una cosa muy agradable. Resumiendo la cuenta, después de esa
EXHQtVLPD©HQWUDGD©YLQR©OD©VHJXQGD©EHFD©\©GH©HVD©VHJXQGD©KDVWD©KR\©)$3(63©KD©WHQLdo la gentileza de concederme esa beca, e yo de tratar también de hacer todo lo más
posible para no solamente demostrar que la beca está funcionando, pero demonstrar
que yo también ya me siento parte del trabajo que se hace en Brasil con Arqueología.
Ya estoy a diez u once años viniendo sistemáticamente, y me quedo a veces dos
meses, a veces tres, en dependencia de los compromisos que tenga en Cuba o que
haya aquí. Por ejemplo, este año fueron tres meses porque estaba previsto ir a FloriaQySROLV©DO©&RQJUHVR©GH©6$%©\©GHVSXpV©KD\©TXH©FRPSOHPHQWDU©RWUD©VHULH©GH©FRVDV©GH©
libros, conferencias que tengo que dar en otros lugares, trabajos que ya tengo de continuidad, como por ejemplo en Rio con Nanci de Oliveira, en Pelotas con Lúcio Menezes, en Alfenas que también ya tenemos un trabajo consecutivo y todas las cosas que
tengo aquí en Campinas, como el Laboratório de Arqueología Pública.
I.B.: Es posible hacer una comparación entre el desenvolvimiento de la Arqueología Pública en
Brasil y en Cuba?
L.D.:
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una cosa en común, y es que a nadie le interesa, ni en Cuba ni en Brasil, la Arqueología.
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piensa que la Arqueología es hacer excavaciones, sacar cositas, ir a las cuevas, sacar
joyas, maravillas y toda esa serie de cosas que no son Arqueología. O sea, no estamos
viendo la Arqueología a partir de Indiana Jones, esa es la contra de la Arqueología
de verdad. Arqueología es una ciencia social, una ciencia que ayuda a reconstruir la
historia a partir de fuentes diferentes, de fuentes que no son escritas, y que son tan
válidas como las escritas, pero que hay que saber para descifrar cada una de esas cosas
Arqueologia Pública | Campinas | n° 4 | 2011
muchísimas otras disciplinas que ayudan a trabajar, como la cerámica, la geografía,
etc. Es una carrera que debe ser una carrera universitaria, y ahí es donde está el problema. Ninguna de nuestras universidades, tanto cubanas cuanto brasileñas, entienden el
concepto de una carrera universitaria de Arqueología. Entienden la Arqueología como
partes, partes de otras carreras, partes que entran dentro de otras carreras. En realidad
no estamos formando arqueólogos, estamos formando personas que les interesa la
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claro en esa circunstancia, la ley emitida por la Unesco y por veces las leyes de patrimonios emitidas por los propios países, exigen que el trabajo arqueológico se realice
en cada uno de los movimientos de tierra que se hagan. Pero si tu no creas personal
para ese trabajo, estas creando una clase de enredo tremendo, porque hay gente que
está haciendo Arqueología privada, Arqueología de contrato, pero los componentes
de esos mecanismos también están mal formados. O sea tú tienes que lograr tener
una visión clara de que hay que hacer, aun que sea en el último pueblo de Brasil, una
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creas el personal correctamente tú no puedes crear más nada, o sea, ni puedes crear
los primeros profesionales que después te van a servir de maestros, ni puedes hacer
más nada. Tal vez el primer curso te pase mucho trabajo, pero el segundo ya tienes estudiantes que están graduados, gente que se va desarrollando, pero van a seguir una
línea de estudios docentes como las hay en España, hay en otros países europeos, en
Estados Unidos también hay algunas carreras, pero en América Latina y en el Caribe no
hay ninguna universidad que tenga esto, excepto México.
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