ESTUDO EXPERIMENTAL SOBRE OS EFEITOS DO CAMPO DE VELOCIDADES DO CLAPOTIS EM LEITOS DE ESTRUTURAS DE GRAVIDADE Waldir Terra Pinto, Ph.D. Professor Coordenador do Laboratório de Interação Fluido Estrutura (LIFE), Escola de Engenharia - Universidade Federal do Rio Grande – FURG. [email protected] Juana Waterkemper Fernandes Acadêmica do curso de Engenharia Civil Costeira e Portuária, Escola de Engenharia Universidade Federal do Rio Grande – FURG. [email protected] Débora Martins Machado, D.Sc. Pesquisadora vinculada ao Programa de Pós Graduação em Engenharia Oceânica Universidade Federal do Rio Grande – FURG. [email protected] Resumo. Estruturas em regiões confinadas sofrem incidência de ondas que são refletidas ao largo, levando à criação de ondas estacionárias ou quasi-estacionárias. Desta onda estacionária surge um movimento contínuo de subida e descida que, dependendo da sua distância ao fundo, causa o retrabalhamento do solo do leito marinho. Este movimento é chamado de clapotis e o mesmo pode levar à erosão do material de fundo e, consequentemente, à perda da integridade da estrutura de contenção. Este trabalho apresenta um estudo experimental sobre a ação de uma onda estacionária em dois diferentes tipos de solo (coesivo e não coesivo), a fim de investigar a relação entre a onda, o solo e a erosão do fundo. Palavras-chave: Clapotis; Erosão em leito marinho; Engenharia Costeira. 1. INTRODUÇÃO Leitos marinhos em regiões confinadas, como Portos, por exemplo, estão sujeitos à redistribuição do seu volume devido à ação das pressões hidrostáticas geradas por ondas. Devido à verticalidade da estrutura de contenção, pode haver reflexão completa ou parcial da onda e esta reflexão pode gerar ondas estacionárias (clapotis). O clapotis cria um campo de velocidades que, caso alcance o fundo, pode deixar a estrutura instável ou, dependendo da finalidade da estrutura, tornar a área em seu entorno inútil, devido ao acúmulo de sedimento proveniente da erosão adjacente à estrutura. Construções sujeitas à força do mar requerem um grande cuidado quanto à consideração dos sedimentos no projeto (ALFREDINE E ARASAKI, 2009). Além dos parâmetros hidrodinâmicos do mar (altura significativa de onda, velocidade das correntes, marés etc), fundamentais para a elaboração do projeto de construção em si, um projeto de engenharia costeira deve levar em conta também, o impacto que vai gerar no local de sua construção (como instabilidades praiais, por exemplo). A estabilidade de uma praia ou região costeira se dá, principalmente, pelo transporte de sedimentos. O excesso de chegada de sedimento numa praia ou leito de estrutura costeira leva ao assoreamento, inutilizando o local (vide portos). Já a falta de sedimento, leva à erosão e esta traz consigo, a extinção de praias e a desestabilização das estruturas marítimas, que vem a ser o motivador deste estudo. Assim, o objetivo deste trabalho é XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil estudar, experimentalmente e analiticamente, o comportamento hidrodinâmico da onda estacionária ao colidir com uma parede vertical, focando principalmente no escoamento do fluido na porção mais ao fundo do loco da pesquisa. O estudo completo conta com uma parte experimental e outra analítica. Neste trabalho serão apresentados somente os resultados experimentais devido à limitação de tamanho imposta pelo artigo. A parte experimental foi subdividida em três: A primeira parte compreendeu a criação de um ambiente capaz de simular regiões confinadas (para testar a metodologia a ser aplicada). A segunda parte, o estudo experimental da dinâmica de sedimentos não coesivos (areia fina) sob a ação de ondas e a terceira parte, e principal foco do trabalho, o estudo experimental de sedimentos coesivos (lama comercial) sob a ação de ondas. Para o estudo do clapotis, uma parede vertical confeccionada de alumínio, foi encaixada no canal de ondas do LIFE, simulando uma estrutura de contenção. Ondas com períodos predeterminados foram geradas (Tabela 1) e os campos de velocidade formados, ao colidirem com a parede, foram medidos com o PIV (Particle Image Velocimetry). A instrumentação consistiu ainda de dois Waveprobes (wp1 e wp2, para medir a elevação da onda) e um Vectrino (para medir a velocidade do escoamento no clapotis). A análise dos dados foi feita através de rotinas implementadas no MatLab e Python, além da análise visual pelas imagens capturadas pelo sistema de câmeras do PIV. 2. Tipo de solo de fundo METODOLOGIA O experimento foi realizado no canal de ondas do Laboratório de Interação Fluido Estrutura (LIFE), lotado na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande – FURG. O canal possui 16m de comprimento com seção retangular de 0,71m de largura por 0,79m de altura. A configuração inicial para os estudos referentes ao comportamento de leitos marinhos frente ao ataque de ondas foi a seguinte: uma seção de testes com 1,0m de comprimento e 0,12m de altura foi criada com o intuito de simularmos um banco de sedimento (Fig.1). Figura 1. Configuração do experimento (mantida tanto para sedimento coesivo quanto para sedimento não coesivo). Inicialmente, somente a parede de contenção foi colocada, sem o banco de sedimento, para a validação da metodologia a ser empregada. Tabela 1. Condições hidrodinâmicas do experimento (predefinidas) e do escoamento (velocidades medidas). Profundidade da lâmina d’água foi mantida em 0,38m. (g/cm3) T (s) Velocidade do escoamento ( ) 1.0 0.012 cm/s 1.85 0.08 cm/s 2.5 0.05 cm/s 1.0 0.10 cm/s Lama (Caulinita + 1.30 1.85 0.27 cm/s bentonita) 2.5 0.07 cm/s Onde: - velocidade de escoamento; T - período da onda gerada e - densidade do sedimento. Areia muito fina 3. 2.59 RESULTADOS E DISCUSSÃO A fim de validarmos a metodologia a ser empregada, a primeira etapa do trabalho consistiu na criação de uma região confinada. Para isso, uma placa de alumínio foi confeccionada e fixada no canal (conforme Fig.1 mostrada anteriormente). O aparato experimental montado se mostrou eficiente, conseguindo simular bem um ambiente confinado, inclusive gerando ondas estacionárias (Fig.2–a, b) como esperado. Com a metodologia validada, o próximo passo foi a confecção de um banco de areia fina (segunda etapa do trabalho) e de um banco de lama (terceira etapa do trabalho), XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil simulando dois tipos diferentes de leito marinho (não coesivo e coesivo). Ambos foram nivelados para que ficassem o mais regular possível. (a) (b) Figura 2. Verificação da metodologia adotada: (a) Gráfico de uma onda estacionária, modelo teórico e (b) Gráfico da onda estacionária, resultado experimental. No eixo y: elevação (cm) e no eixo x: intervalo de amostragem (s) Mantendo as mesmas condições hidrodinâmicas, os experimentos foram conduzidos para os dois diferentes tipos de fundo (Fig. 3). Elevação Waveprobe1 3 Visualmente, tanto o banco simulado com sedimento não coesivo (areia fina) quanto com sedimento coesivo (lama) sofreram alterações devido à passagem da onda estacionária. Para o banco de areia (=2.59 g/cm3) a onda gerada no canal, com T=2.5s, conseguiu movimentar o fundo, causando a formação de “sandripples” (Fig.4), que são ondulações causadas no leito marinho (em profundidades rasas) pela passagem da onda. Entretanto, não houve ressuspensão do sedimento. Figura 4. Formação de “sandripples” para o experimento com sedimento não coesivo (areia fina). Já para o banco de lama (=1.2 g/cm3), houve ressuspensão do sedimento até a metade da coluna d’água para os três períodos de onda gerados, sendo a onda com T=2.5s a que mais ressuspendeu, pormovendo uma maior expulsão de sedimentos da área de estudos (transporte ao longo do canal). Esta ressuspensão foi captada pelo sistema PIV (Fig.5). Elevação (cm) 2 1 0 -1 -2 -3 0 20 40 60 80 100 120 Intervalo de amostragem (s) Figura 3. Onda estacionária para o experimento com lama (para T=2,5s). Figura 5. Imagem capturada pelo PIV mostrando a suspensão de sedimentos para o experimento realizado com lama fluida. Os pontinhos brancos na imagem correspondem aos sedimentos em suspensão. XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil Em águas costeiras onde a profundidade é rasa, quando a onda consegue “mexer” com o fundo, uma corrente (ou deriva), induzida pela mesma, é formada logo acima do fundo, fazendo com que haja um transporte residual de sedimento no sentido da onda (DEAN & DALRYMPLE, 1991). No caso das ondas estacionárias geradas no laboratório, estas correntes induzidas ou “correntes de expulsão” (assim chamadas por que movem o sedimento de lugar), geradas pelo clapotis, foram significativamente menores nas areias, chegando a ser até oito vezes menores (Tabela 1) em comparação com o fundo lamoso. Em função dos resultados pouco similares obtidos para as velocidades do escoamento, algumas considerações são apresentadas: Quando a onda é capaz de retrabalhar o sedimento tão vigorosamente, a ponto de formar ripples, sua corrente de expulsão vai sofrer uma diminuição de intensidade, levando a um menor transporte de sedimento. Isso por que, além do atrito com os grãos de areia, que possuem granulometria mais grosseira, as feições do ripples também absorvem a energia da corrente. Já para o sedimento mais fino, no caso lama, as velocidades das correntes de expulsão serão maiores, pois o fundo não oferece atrito. Como a lama (que é um material basicamente composto de argila e silte) está fluida ( = 1,2g/cm3), a formação do clapotis acaba por facilitar à erosão do fundo próximo a parede de contenção, ressuspendendo e transportando o sedimento, podendo ocasionar danos à estrutura. Entretanto, os primeiros resultados foram bastante satisfatórios, mostrando diferenças significativas no campo de velocidades do escoamento devido à formação do clapotis e aos diferentes tipos de sedimento de fundo. A continuação desta pesquisa de iniciação científica prevê a continuação dos experimentos, utilizando argilas (lama) com densidades diferentes (mais e menos fluidas) combinadas com diferentes inclinações da parede que simula a estrutura de contenção. Além disso, o resultado será analisado analiticamente também, com o desenvolvimento de um modelo analítico. O grande objetivo é conseguir obter uma relação entre o tipo de leito marinho, a inclinação da estrutura de contenção e a ação das pressões dinâmicas da onda sob o fundo, para que assim esta relação torne-se um parâmetro a mais nos projetos de construção civil em ambientes costeiros. 4. DEAN, R. G.; DALRYMPLE, R. A.; Water Wave Mechanics for Engineers and Scientists. London – UK: World Scientific Press, 1991. 368p. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho de pesquisa está em sua fase inicial. Assim, neste primeiro conjunto de ensaios propostos, o objetivo principal foi o de validar a metodologia empregada e buscar o treinamento no uso dos equipamentos de medição. Agradecimentos Os autores agradecem ao CNPq (PIBICFURG) pela bolsa de Iniciação Científica concedida à segunda autora para o desenvolvimento da pesquisa. 5. REFERÊNCIAS ALFREDINI, P.; ARASAKI, E. Obras e Gestão de Portos e Costas. São Paulo, SP – Brasil: Editora Blucher, 2009. 804p. BEER, T. Environmental Oceanography. 2ª edição; Boca Raton, California – USA: CRC Press, 1997. 400p. XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil