BOAS FESTAS 13 de dezembro de 1968, a linha dura do regime militar recebia antecipadamente o seu presente de Natal através do Ato Institucional nº 5. A partir desta data, terminavam os pudores e o Brasil passava a viver assumidamente numa ditadura, com a intensificação da censura aos meios de comunicação e muita gente presa. “Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”, disse o então ministro do trabalho, Jarbas Passarinho, ao General Costa e Silva durante a reunião no Palácio Laranjeiras onde foi decidida a promulgação do mais perverso dos Atos Institucionais. Contudo, em Copacabana, no apartamento da Rua Barata Ribeiro 814, onde morava o compositor, jornalista, apresentador, produtor musical e mais um sem número de ocupações, Carlos Imperial, o destino do país não era prioridade naquele momento. O gordo encrenqueiro vivia outro de seus dias agitados, excitadíssimo com sua mais recente idéia. Criara um cartão de Natal para lá de irreverente, que no lugar da figura do velhinho de barbas brancas e roupa vermelha, trazia uma foto sua sentado num vaso sanitário com as calças arriadas e mão no queixo com semblante meditativo – sua livre interpretação da escultura “O Pensador” de Auguste Rodin. Ao lado a dedicatória: “Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que eu estou fazendo neste cartão”. Porém, tais dizeres eram apenas para os amigos, já que para os inimigos – e ele os tinha , o “não” era eliminado da frase, manifestando o desejo de que o “bom velhinho” não tivesse a mesma consideração para com o sapato do desafeto em questão. O cartão também tinha uma capa que trazia o desenho de dois pares de pés, um masculino e outro feminino, em lados opostos, simulando uma popular prática sexual simultânea e recíproca. O restante dos corpos era encoberto por um retângulo com a frase: “Boas festas e um feliz...”. Os bons votos de Imperial para 1969 que se aproximava. Carlos Eduardo Corte Imperial conseguira projeção nacional em 1967, na gincana musical “Esta Noite se Improvisa”, na TV Record. Aparecia como o grande vilão do programa, o homem do contra que adorava provocar a platéia agindo com arrogância e enaltecendo sua superioridade. Recebia vaias ensurdecedoras que retribuía com beijos, o que irritava ainda mais o publico. Na imprensa, toda vez que lhe davam algum espaço, não deixava de atacar alguém, principalmente a personalidade que se encontrasse gozando de maior popularidade no momento. Acreditava que ao fazer isso, as atenções se voltariam também para ele. Era um sujeito tão implicante quanto aquele garoto que fica na sala de aula dando petelecos nas orelhas dos colegas para rir da irritação deles. O cartão de Natal era apenas um peteleco em novas orelhas. Para ajudá-lo a pôr a idéia em prática, Imperial recorreu a amigos mais chegados e membros da família. Andava envolvido com a produção de um grupo vocal chamado “A Turma da Pesada”, e pediu que as gêmeas cantoras do conjunto, Célia e Celma, o ajudassem. As duas mineirinhas de Ubá, por serem professoras formadas no Sacrè-Coeur de Marie e terem letra bonita, foram incumbidas de escrever nos envelopes o nome dos endereçados. Maria Luíza, sua filha de 13 anos, colou as fotos no papel-cartão. Outros amigos como o “mimiqueiro” Tony Checker, e os cantores Fábio, Luiz Henrique (ou Gastão Lamounier) e Ângelo Antônio, estes dois últimos também integrantes da “Turma da Pesada”, levaram os 100 envelopes nos endereços indicados. Depois de entregues, os cartões provocaram variadas reações: riso, espanto e indignação. E foi justamente um indignado - provavelmente alguém que recebeu a mensagem desejando que seu sapato fosse feito de penico -, que acabou por complicar a vida do Gordo. Essa pessoa fez com que o cartão fosse parar nas mãos de membros do governo militar, dando a entender que a brincadeira de Imperial era uma provocação, que na verdade ele queria era ver sujas as botas dos generais que se encontravam no poder. Tudo isto justo naquele finalzinho de 1968. Na noite de 1º de janeiro, a “Turma da Pesada” havia se apresentado no programa do comediante Ronald Golias, na TV Tupi. Logo após, Imperial levou Célia e Celma em casa, na Rua Barão de Ipanema, frisando muito bem que iria apanhá-las na manhã seguinte, pois haveria ensaio em seu apartamento. Depois seguiu para a cantina La Fiorentina no Leme, onde a classe artística carioca batia ponto, na companhia dos pupilos Fábio e Gastão Lamounier(ou Luiz Henrique). Conversava animado e já nem se lembrava da travessura natalina que havia aprontado. O que queria realmente era discutir seus vários planos para a “Turma da Pesada”. Imaginava o grupo viajando por todo o país e tocando sem parar nas rádios. Também sonhava faturar alto com o lançamento de “O Rei da Pilantragem”, sua segunda produção cinematográfica. Dizia que teria um desempenho bem melhor do que “Tropeiro”, o maldito filme que lhe trouxe apenas prejuízo e dor de cabeça. A conversa prosseguiu até três homens dirigem-se à sua mesa. - Senhor Carlos Imperial? - Pois não? - O seu carro está trancando o nosso, nós não estamos conseguindo sair. Será que o senhor poderia ir lá com a gente para tirá-lo? O Gordo estranhou, não lembrava de ter dificultado a saída de ninguém quando estacionou seu Mercury Cougar, mas atendeu aos homens. Pediu que Fábio e Gastãozinho aguardassem e os acompanhou. Minutos depois, os três o trouxeram de volta, estava com as mãos algemadas. Tudo não passara de uma desnecessária encenação de um trio de maus atores. Imperial explicou aos amigos o que acontecia: - Estou sendo preso pelo Dops, avisem meus pais. O grande gozador agora sentia um friozinho na espinha. Já havia se metido em algumas merdas anteriormente, mas aquela o deixava amedrontado de verdade. Naquele momento, toda a preocupação que não teve com o que acontecia no país, passou a existir. Ouviu comentários sobre a prisão de quem era tido como inimigo do regime. No entanto, não conseguia imaginar o quê fez para ser considerado um. Aqueles três pediam que ele os acompanhasse, mas para onde? A sede do Dops, lá na Rua da Relação? Muita gente dizia que quem entrava ali apanhava um bocado. E se pretendessem coisa pior? Aquela história de jogarem gente no Guandu podia ser verdade... Gastão, numa demonstração de amizade ou falta de noção do perigo, pediu e obteve dos agentes, permissão para acompanhar o amigo no camburão. Para Fábio, restou observar a viatura com os dois companheiros desaparecer na Avenida Atlântica, e imaginar a melhor maneira de dar a notícia aos pais de Imperial, sem que após recebê-la terminassem precisando dos cuidados de um médico. 2 NO PRINCÍPIO ERA CACHOEIRO O pai de Carlos, Gabriel Corte Imperial, era o oitavo filho de nove do casal Francisco Aurélio e Maria da Penha. Nasceu no dia 4 de janeiro de 1905 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, onde Francisco chegara em 1878, vindo do Rio de Janeiro. O imponente sobrenome veio de seu avô, o baiano Francisco Maria da Costa, que recebeu de Dom Pedro II o título de “moço da Corte Imperial” por ter hospedado o imperador em sua casa em Salvador. Francisco Maria percebeu que seria vantajoso demonstrar proximidade com a nobreza e achou por bem livrar-se do Costa e virar Corte Imperial. Segundo escriturário da recebedoria na Bahia foi transferido para Alagoas, e acabou no Rio de Janeiro. Na Corte, mais próximo do imperador, solicitou a ele a concessão da “Ordem da Rosa” por serviços prestados. Mas jamais recebeu a almejada graça honorífica. Gabriel começou a trabalhar cedo, pois Francisco Aurélio morreu de um ataque cardíaco fulminante quando ele tinha 15 anos. Seu primeiro emprego foi como contínuo do Banco do Espírito Santo, onde demonstrou vocação para o ambiente bancário, o que anos depois lhe rendeu a gerência de outra instituição, o Banco Pelotense. Transferido de Cachoeiro para uma agência na cidade vizinha, Alegre, conheceu Maria José Cardoso, a Zezé, filha do português Manoel Maria Cardoso e de Dagmar, a Dona Zizinha. Manoel Maria era proprietário das fazendas de café “Horizonte” e “São Francisco”, e havia migrado de uma cidade mineira chamada Leopoldina, onde Maria José nasceu em 24 de novembro de 1910. Além de Zezé, havia outras duas filhas: Maria Sebastiana e Maria do Carmo. Gabriel e Zezé casaram-se em Alegre no dia 24 de maio de 1930 e foram morar em Cachoeiro. De volta à cidade natal, o bom desempenho do rapaz como gerente de banco rendeu-lhe a nomeação para o cargo de procurador-contador da Fazenda na administração do prefeito Fernando de Abreu. Cachoeiro era uma cidade encravada no meio das montanhas, com um calor senegalês, e implacáveis chuvas de verão que volta e meia faziam com que o rio que divide a cidade, o Itapemirim, transbordasse, provocando terríveis enchentes. Nascida de uma vila criada em 1812, durante expedições que visavam explorar minas de ouro, sua economia durante a gestão do procurador Gabriel Corte Imperial, tinha como base a pecuária de corte e leite, e a cafeicultura. Cachoeiro também tinha filhos orgulhosos, que a chamavam de “A Princesa do Sul”. Para eles, a cidade era mais importante que a própria capital do estado, Vitória. Já nos primeiros cinco anos de casamento Gabriel e Maria José tiveram três filhos: Francisco Manoel, Maria Luíza e Carlos Eduardo – além de uma menina prematura que não resistiu. Carlos nasceu às 09h10min do dia 24 de novembro de 1935, na residência da família, Rua Vinte e Cinco de Março nº. 140. Era o aniversário de Zezé, que escolheu Carlos Eduardo como nome do menino devido ao personagem de “Os Maias”, romance do português Eça de Queiroz, que leu durante a gravidez. Gabriel registrou a criança no dia 27 de novembro, afirmando que ela havia nascido no dia 26. Este era um recurso utilizado por muitos pais para escapar da multa aplicada a quem levasse mais de um dia para registrar os filhos. Quatro dias após a chegada de Carlos Eduardo, Gabriel assumiu temporariamente a prefeitura da cidade, no lugar de Pedro Brício, que havia renunciado ao cargo para tomar posse como deputado estadual. O secretário de Fazenda ficou como prefeito interino até dezembro, e após indefinição quanto ao resultado das eleições convocadas, foi nomeado para um mandato de dois anos. Durante os dias que cercaram o nascimento de Carlos, o país vivia em alvoroço. Um grupo de militares integrantes da ANL (Aliança Nacional Libertadora), organização que congregava comunistas, socialistas, católicos e liberais, tendo inclusive um diretório em Cachoeiro, deu início a um levante nos quartéis de Natal, Recife, Praia Vermelha e Campo dos Afonsos, estes dois últimos no Rio de Janeiro. Pretendiam depor o presidente Getúlio Vargas, eleito indiretamente no ano anterior e no poder desde 1930. O episódio ficou conhecido como Intentona Comunista, devido à ligação entre os rebeldes e a União Soviética, e terminou com as tropas de Vargas vitoriosas, dada a desorganização do levante. As diferentes datas das revoltas possibilitaram ao governo tempo para reagir e abafar o movimento. Após a derrota, aqueles que participaram foram presos e enquadrados na recém-criada Lei de Segurança Nacional. Dentre os feitos da administração Gabriel Corte Imperial, constam obras para melhorar a distribuição de água, a inauguração da comunicação telefônica da cidade com Vitória e o início da construção da ponte Governador Bley, que atravessaria o rio Itapemirim. Mas, além disso, havia na prefeitura um sujeito que Gabriel não suportava, e de quem não conseguia livrar-se. Embora tivesse tentado de todas as maneiras demitir o desafeto, jamais obtinha sucesso, pois o homem não dava motivo para isso. Até o dia em que conseguiu enfiar uma carta de demissão na pilha de papéis que o sujeito teria de assinar. O documento foi publicado no jornal da cidade e a contragosto o infeliz teve de deixar a prefeitura. Gabriel contava aos amigos com orgulho suas realizações como prefeito, mas seu sorriso era um pouco maior quando relatava este ardil administrativo. Em janeiro de 1937, Gabriel ficou adoentado e saiu de licença da Prefeitura. Seu substituto, o superintendente Ary Lima, teve de lidar com as implacáveis chuvas de verão que causaram uma daquelas terríveis enchentes. Cachoeiro ficou debaixo d’água. Por vários dias a canoa virou o único meio de transporte. Teria sido praga daquele ex-funcionário? Maria José era professora, e além de cuidar dos filhos lecionava português, inglês e francês no Liceu Muniz Freire. Tocava piano e acordeom, e compunha canções. Para ajudá-la a cuidar da casa, Zezé contava com duas empregadas, Enedina e Adelice(ou Delícia), que Carlos chamava de “mãe preta”. Gabriel e Zezé, nunca encostaram a mão nas crianças. No máximo as colocavam de castigo ou davam um carão. Um método moderno de educar, pois a maioria dos pais da cidade esquentava o couro dos filhos se saíssem um milímetro da linha. Carlos e seus irmãos brincavam na Praça Jerônimo Monteiro, que ficava bem perto de sua casa. Mas o principal divertimento dele e de Francisco era aguardar a chegada do caminhão de lixo para a coleta em sua rua. Nessa hora, os dois garotos entravam na cabine de Luís, o motorista, e tomavam suas primeiras lições de direção. Com toda paciência, o rapaz ensinava aos meninos os segredos para se tornar um bom volante. Maria Luíza era fisicamente bem diferente dos irmãos, ambos morenos – Carlos um pouco mais, quase um índio -, de cabelos e olhos escuros. Ela era loira de olhos azuis, herança do lado português da família da mãe. Muito delicada, trazia um olhar um tanto triste. No Grupo Escolar Bernardino Monteiro, onde estudava, recitava durante as festinhas um poema bastante popular entre as crianças da cidade: O filho do meu vizinho Armou uma arapuca Pra pegar passarinho Passarinho chegou, espiou, espiou Não foi trouxa Bateu asas e voou O filho do meu vizinho Arranjou um galho bem verdinho Pra pegar passarinho Passarinho chegou, espiou, espiou Não foi trouxa Bateu asas e voou O filho do meu vizinho, coitadinho Não nasceu pra pegar passarinho Gabriel e Zezé não conseguiam disfarçar o orgulho que sentiam diante dos aplausos que sua garotinha recebia. No carnaval, Carlos Eduardo, Maria Luíza e Francisco Manoel saíam vestindo fantasias feitas por Zezé e participavam do Baile Infantil do Caçadores Carnavalescos. Em 1940, Carlos foi terceiro lugar num concurso organizado pelo clube. Um pouco antes, em janeiro, o jornal “O Correio do Sul” havia criado o primeiro concurso de músicas de carnaval da cidade. A comissão julgadora escolheu quatro composições - duas marchas e dois sambas - como vencedoras. Maria José saiu vitoriosa com uma canção em cada categoria, a marcha “Ah! Não Sei” (letra do primo de Gabriel, Elysio Imperial) e o samba “ Volte Meu Amor”(parceria com Claudionor Ribeiro). Numa noite de janeiro de 1942, Maria Luiza chamou a mãe até a varanda do casarão da Vinte e Cinco de Março e apontando para o céu disse: - Mãe, aquela estrela está tão perto de Jesus, eu vou ficar mais perto ainda. Maria José quis saber o porquê de a filha dizer aquilo, mas a menina nada respondeu. Alguns dias depois, Maria Luiza começou a se queixar de dores na barriga, além de arder em febre. O médico foi chamado e constatou apendicite. Embora tivesse sido feito todo o possível para salvá-la, em 25 de janeiro a menina faleceu. Tinha apenas 8 anos. Zezé caiu em profunda depressão, não conseguia entender a razão da morte da filha. Procurou consolo na religião freqüentando diariamente a igreja e repetia a todos a frase que Maria Luiza dissera antes de adoecer. Preocupado com o estado em que a esposa se encontrava, Gabriel, novamente trabalhando no mercado financeiro desde o fim do seu mandato como prefeito, resolveu aceitar o convite para ser o gerente da filial do Banco Mercantil de São Paulo no Rio de Janeiro. Acreditava que além de ampliar seus horizontes, a mudança de cidade poderia aliviar Maria José da constante lembrança da filha. Em março de 1942, os Corte Imperial deixaram Cachoeiro rumo à Capital da República.