RENAN SERENINI BERNARDES A Relação entre Variáveis Macroeconômicas e o Mercado Brasileiro de Seguros Varginha/MG 2014 RENAN SERENINI BERNARDES A Relação entre Variáveis Macroeconômicas e o Mercado Brasileiro de Seguros Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Econômicas com ênfase em Controladoria pela Universidade Federal de Alfenas. Orientador: Marçal Serafim Cândido U NIVERSIDADE F EDERAL DE A LFENAS Varginha/MG 2014 RENAN SERENINI BERNARDES A RELAÇÃO ENTRE VARIÁVEIS MACROECONÔMICAS E O MERCADO BRASILEIRO DE SEGUROS A banca examinadora abaixo-assinada aprova o trabalho de conclusão de curso apresentado como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas com Ênfase em Controladoria pelo Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Alfenas - Campus Varginha Aprovada em: Prof Universidade Federal de Alfenas - campus Varginha Assinatura: Prof Universidade Federal de Alfenas - campus Varginha Assinatura: Prof Universidade Federal de Alfenas - campus Varginha Assinatura: Agradecimentos À Universidade Federal de Alfenas, pela oportunidade concedida. Ao meu orientador, prof. Marçal Serafim Cândido, por toda a sabedoria e conhecimentos transmitidos e toda dedicação demonstrada. Aos professores do ICSA e todos os funcionários do campus por todo apoio concedido durante toda a graduação. Ao grupo PET-BICE por todas as oportunidades que pude desfrutar e todo o período de grande crescimento acadêmico. À todos os colegas que passaram pelo curso e de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho Resumo A relação entre instituições financeiras, variáveis macroeconômicas e crescimento econômico é objeto de estudo há um longo tempo. Contudo, apesar da vasta literatura no assunto, proporcionalmente, pouca atenção foi dada ao mercado de seguros. Em geral alguns estudos optaram por estudar esse mercado em determinados países buscando entender suas relações com a economia. Nesse contexto, este trabalho propôs fazer uma retrospectiva histórica do mercado brasileiro de seguros, bem como uma análise econométrica do mercado relacionando-o às principais variáveis macroeconômicas. Para a análise em questão foram usados dados sobre o mercado de seguros da base de dados da SUSEP e dados macroeconômicos da base de dados do IPEADATA. Os dados foram analisados buscando encontrar um modelo de regressão linear capaz de demonstrar a relação entre eles. Para verificar a qualidade de ajuste do modelo foram feitos testes de heterocedasticidade e autocorrelação e correções que se mostraram necessárias. Buscando ainda entender a relação entre as variáveis foi feito um teste de causalidade de Granger entre as variáveis que se mostraram mais correlacionadas: PIB e Prêmios diretos. Em geral o trabalho demonstrou algumas propostas de modelos que relacionam, com elevado grau de explicação, as variáveis principais que afetam o valor total dos prêmios de seguros captados mensalmente. Palavras-chave: Seguros; Econometria; Prêmios; Regressão Linear. Abstract The relationship among financial institutions, macroeconomic variables and economic growth is studied for a long time. However, despite the vast literature on the subject, proportionally, little attention was paid to the insurance market . In general, some studies have attempted to analyze this market in certain countries seeking to understand their relationship with the economy. In this context, this work aimed to make a historical retrospective of the Brazilian insurance market and an econometric analysis of the market relating it to the main macroeconomic variables. To analyze this matter were used information on the insurance market base sa SUSEP data and macroeconomic data from the database IPEADATA. The data were analyzed in an attempt to find a linear regression model that can demonstrate the relationship between them. To check the fit of the model tests of heteroscedasticity and autocorrelation and corrections that were necessary were made. Seeking further to understand the relationship between variables was made a test of Granger causality between the variables that were most closely related: GDP and Direct Premiums. In general the study showed some proposed models that relate, with a high degree of explanation, the main variables that affect the amount of insurance premiums raised monthly. Keywords: Insurance; Econometrics; Premiums; Linear Regression. Sumário Lista de Figuras Lista de Tabelas 1 Introdução 9 2 Referencial Teórico 11 2.1 A História do Seguro no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 2.2 O Crescimento Recente do Mercado de Seguros no Brasil . . . . . . . . . . . . 14 2.3 A economia e o mercado de seguros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 3 Objetivos 23 4 Dados e Metodologia 24 5 Estimação e Resultados 30 5.1 O modelo inicial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 5.2 Testes e correções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 5.2.1 Testes de Heterocedasticidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 5.2.2 Testes de autocorrelação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 5.2.3 Teste de normalidade dos resíduos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 5.2.4 Teste de causalidade de Granger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 6 Considerações finais Referências 39 40 Lista de Figuras 1 Crescimento do PIB de 2003 à 2013. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2 Crescimento dos Prêmios de 2003 à 2013 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 3 Prêmios diretos e provisões de 2001 à 2012. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 4 Receitas anuais de 2001 à 2012 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 5 Evolução das Receitas anuais de 2001 à 2012 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Lista de Tabelas 1 Estatísticas Descritivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 2 Matriz de Correlação com valores Nominais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 3 Matriz de Correlação com valores Reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 4 Modelo 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 5 Modelo 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 6 Modelo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 7 Modelo 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 8 Modelo 5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 9 Modelo 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 10 Teste de causalidade Granger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 9 1 Introdução A relação entre instituições financeiras e a economia/desenvolvimento econômico é objeto de estudo há um longo tempo. Em sua obra “Teoria do Desenvolvimento Econômico” de 1911, Joseph Alois Schumpeter já destacava a importância do crédito para o desenvolvimento econômico. Para ele, o desenvolvimento econômico ocorreria a partir de inovações, mudanças, ou ainda, como dito por ele, “quebras no fluxo circular”, e o crédito seria um fator extremamente necessário para essas inovações. Em suas palavras, “na realização de combinações novas, o “financiamento”, como um ato especial, é fundamentalmente necessário, na prática como na teoria” (SCHUMPETER, 1911, p.80). Enfim, Schumpeter considerava o financiamento como algo necessário àquele que desejasse ser um empresário inovador, ou seja, as instituições financeiras gerariam o crédito necessário às inovações, as quais ocasionariam a quebra do fluxo circular econômico, gerando desenvolvimento econômico. Desde então, essa relação vem sendo cada vez mais estudada, com modelos teóricos e empíricos. Alguns trabalhos podem ser destacados: Levine (1997) tenta mostrar que países com um sistema financeiro mais desenvolvido (bancos maiores, mercado de ações mais ativo e mercado de seguros mais desenvolvido) desfrutam de um crescimento mais rápido que os outros; Matos (2002) faz uma análise histórica no Brasil (1947-2000) no intuito de verificar a causalidade entre desenvolvimento financeiro (mensurado por cinco diferentes indicadores) e desenvolvimento econômico (mensurado pelo PIB per capita), usando para isso o teste de causalidade de Granger. Os resultados empíricos revelaram , em geral, evidências de relação causal positiva; Beck e Levine (2004) destacam o impacto dos bancos e dos mercados de ações no crescimento econômico. Contudo, apesar da vasta literatura sobre a relação entre instituições financeiras e economia/crescimento econômico, Arena (2006) e Sumegi e Haiss (2008) destacam que a maior parte desta literatura está focada nos bancos e mercado de ações e pouca atenção foi dada ao mercado de seguros. Ao analisar-se a importância do mercado de seguros e seu papel na economia nos dias de hoje, percebe-se a relevância de seu estudo. Em 2012, a soma dos prêmios contratados 10 em todo o mundo foi de 2,62 trilhões de dólares1 , o que representa aproximadamente 3,6% do PIB mundial2 , e a expectativa é de crescimento dessa taxa para os próximos anos, já que, considerando apenas os mercados desenvolvidos, a taxa é de 8,6%3 . No cenário mundial do mercado de seguros, o Brasil encontra-se no grupo dos “mercados emergentes”, o qual, de 2011 para 2012 teve uma taxa de crescimento superior ao crescimento econômico4 . No ano de 2012 o total de prêmios em relação ao PIB no Brasil foi de 3,6%, enquanto em 2011 era de 3,2%5 . Ao considerar um período de tempo maior, o mercado de seguros no país vem crescendo consideravelmente, como será mostrado mais adiante. Neste contexto é importante entender a relação direta entre o mercado de seguros e a economia. Determinar se as decisões governamentais irão influenciar este mercado de maneira positiva ou negativa e se o desempenho desse mercado irá afetar o crescimento econômico são fatos importantes a serem estudados. Assim, este texto busca, a partir de dados do mercado brasileiro de seguros e dados macroeconômicos do país, verificar possíveis relações de causalidade entre estes. Os dados foram retirados da base de dados do Ipeadata e do SES (Sistema de Estatísticas da Susep), serão feitas estatísticas descritivas e comentários sobre os dados. A seção seguir conta com um referencial teórico apresentando a evolução do mercado de seguros no Brasil e diversos trabalhos que estudaram o mercado de seguros pelo mundo. A seção três cita os objetivos do trabalho. A quarta seção mostra os dados e metodologia utilizados na pesquisa. A seção cinco demonstra os resultados obtidos a partir dos dados e a última seção mostra as considerações finais. 1 Swiss Re, sigma No 3/2013. World Development Indicators Database, World Bank. 3 Swiss Re, sigma No 3/2013. 4 Swiss Re, sigma No 3/2013. 5 Swiss Re, sigma No 3/2012. 2 11 2 Referencial Teórico 2.1 A História do Seguro no Brasil A história do mercado de seguros no Brasil, que se tem registro, começa em 1808, quando duas companhias de seguros iniciam suas atividades: Companhia de Seguros Boa Fé e Companhia de Seguros Conceito Público. Contudo, até 1850, o mercado praticamente não se desenvolveu, e são vários os motivos apontados para isto: instabilidade do sistema financeiro; falta de legislação própria; falta de maturidade do mercado (ABREU e FERNANDES,2010). Segundo Abreu e Fernandes (2010) a partir de 1850, o Brasil aumentou consideravelmente suas exportações de café, que era o principal produto de exportação do país, criando assim, grandes expectativas de desenvolvimento e estabilidade econômica. Aliado a este cenário, surge a primeira legislação específica para seguros no Brasil, relacionando os seguros marítimos. Logo, de 1850 a 1889, 55 companhias de seguros iniciaram suas atividades no país, oferecendo seguros de vida, incêndio ou marítimos. Destas, a maioria (22) eram empresas de seguro marítimo. Em 1889, com a proclamação da república e mudança do regime governamental, o país sofre uma crise de especulação financeira. Várias empresas fantasmas foram criadas e as autoridades financeiras encontravam dificuldades para conter a crise. Como resposta à crise, em relação ao mercado de seguros, uma nova legislação foi estabelecida em 1895, indicando que todas as empresas de seguros estrangeiras com operações no Brasil deveriam investir suas reservas em ativos no Brasil (ações das companhias ferroviárias, depósitos em bancos nacionais, etc) e manter uma sede no Rio de Janeiro, para facilitar a supervisão e fiscalização por parte do governo. Uma análise das companhias estrangeiras que atuavam no país justificava essa legislação, já que várias dessas empresas enviavam 100% de seus lucros e reservas para seu país de origem. Com a virada do século, algumas mudanças surgiram. O Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho (mandato de 1898 a 1902) foi o responsável por criar a primeira regulamentação das atividades de seguro no Brasil. O principal objetivo da nova lei era criação da Superintendência Geral de Seguros, órgão que estava sob o controle do Ministério da Fazenda e era dividido em: Superintendência de Seguros Marítimos e Terrestres e Superintendência de Seguros de Vida. A 12 separação era necessária, pois, pela nova legislação, nenhuma empresa poderia operar simultaneamente nas áreas de seguros de vida (seguros de pessoas) e seguros de “não vida” (seguros gerais). Outro ponto de destaque da nova lei era que as empresas não poderiam assegurar mais de 20% do valor de seu capital. A nova lei não agradou as empresas de seguros estrangeiras, que a consideraram xenofóbica e abusiva. Três companhias estrangeiras processaram o governo. O ministro posterior a Joaquim Murtinho, Leopoldo de Bulhões, tentou um diálogo maior com as empresas de seguros. Afirmou que no Brasil, o mercado seria aberto, mas, que para isso ocorresse, era necessário uma regulação governamental. Aparentemente, o resultado foi satisfatório, de 1902 a 1908 o mercado de seguros se desenvolveu satisfatoriamente. Em 1908 havia 45 companhias operando no mercado de seguros não vida, sendo 11 estrangeiras e 8 companhias de seguros de vida, sendo uma estrangeira. Após a primeira Guerra Mundial, em 1918, o Brasil contava com 88 companhias de seguros, sendo 31 no mercado de seguros de vida e 57 não vida. Em 1919 um importante fato ocorreu: definiu-se a responsabilidade por parte do empregador de acidentes ocorridos com os empregados. Seguramente, novas oportunidades para o mercado de seguros abriam-se. Em 1920, o governo finalmente igualou as empresas de seguros estrangeiras e brasileiras perante a lei, retirando alguns privilégios que as empresas nacionais tinham. Em 1925, o Brasil contava com 93 companhias de seguros. Com a crise de 29 e a grande depressão nos Estados Unidos, crescia no Brasil uma onda de nacionalismo e políticas favoráveis à autarquia. Havia propostas para a nacionalização dos bancos e das empresas de seguros estrangeiras que estavam atuando no país. Contudo, o resultado foi apenas a criação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), uma empresa estatal que iria deter o monopólio do resseguro no país (ABREU e FERNANDES, 2010). Já em 1966, durante a ditadura militar, foi criado o Sistema Nacional de Seguros Privados, com o objetivo de formular políticas sobre os seguros, fiscalizar e regular o mercado. O sistema era composto pelo Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e o Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP). O CNSP iria definir as políticas sobre seguros privados, bem como regular as operações do mercado. A SUSEP iria implementar as políticas, supervisionando as empresas, e o IRB seria responsável por todo tipo de resseguro, obrigatório ou voluntário. Nas décadas de 1960 e 1970, o número de empresas de seguros no Brasil se manteve constante próximo a 200 empresas, contudo esse número caiu muito no começo dos anos 1980, para menos de 100 empresas. Nessa época, o mercado de seguros era focado basicamente na região Sudeste do país, que concentrava 81% dos prêmios totais contratados. Após a crise do petróleo de 1979, e o crescimento das taxas de juros a inflação começou a acelerar, após várias fracassadas tentativas de estabilização econômica. Este cenário perdurou até o início dos anos 90. Enfim, entre 1980 e 1993 o país cresceu a baixas 13 taxas, o PIB (Produto Interno Bruto) se elevou em média 1,6% ao ano, e este fato influenciou o mercado de seguros. No geral, praticamente não se alterou o número de empresas de seguros no Brasil nesse período. No começo dos anos 90 havia 105 companhias de seguros, sendo 18 estrangeiras (17%), as quais respondiam por 18% do total de prêmios (ABREU e FERNANDES, 2010). Em 1994, após anos de inflação elevada, foi criado o plano Real, que daria fim a este cenário. O plano Real seria um novo fator de alavanque do mercado de seguros, já que altas taxas de inflação são prejudiciais às seguradoras por dificultar o cálculo nos preços dos prêmios. Levy e Pereira (2007) em seu estudo indicam que os dez anos que se seguiram foram de grande evolução para o mercado. A participação do mercado que antes era de 1% no PIB subiu para 2% em 1994 e 3,4% em 2004. Estes autores também fazem um comparativo com os outros dois maiores mercados da América do Sul, Argentina e Chile, e mostram que, proporcionalmente, o mercado brasileiro ainda é muito pouco desenvolvido se comparado a eles. No fim dos anos 90, aumentou também a participação percentual das empresas estrangeiras no total de prêmios contratados. O valor que era de 17,9% em 1997 passou para 35% em 2002, mostrando grande abertura do mercado (ABREU e FERNANDES, 2010). Levy e Pereira (2007) mostram que apesar da abertura aparente, o mercado ainda se encontrava extremamente concentrado no início dos anos 2000. Em 2003, apenas 4 empresas respondiam por 47% de todo o mercado de seguros no país. Outro ponto de destaque, que mostra a falta de amadurecimento do mercado, é que até 2004 apenas uma seguradora possuía ações na Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA), e mesmo seguradoras ligadas aos bancos não tinham opções de investimento direto relacionado a seguros. Comparando-se esses dados com os atuais, não se pode destacar tanta evolução. De acordo com o Relatório de Acompanhamento dos Mercados Supervisionados da SUSEP, de 2013, no ano de 2012, 10 empresas respondiam por 67,2% do mercado, enquanto em 2001, as 10 maiores respondiam por 60%. Em relação às empresas listadas na BOVESPA, de acordo com o site da entidade, em 2013, 5 empresas classificadas como seguradoras estão operando na bolsa. Comparando-se com outra instituição financeira, a BOVESPA lista 27 bancos com ações abertas ao público. Enfim, após algum tempo de estagnação (década de 1980), o mercado de seguros no Brasil se desenvolveu consideravelmente, principalmente após o meio da década de 1990. Abreu e Fernandes (2010) afirmam que esse crescimento foi resultado de uma combinação de fatores microeconômicos e macroeconômicos favoráveis, sugerindo uma possível relação entre esses fatores e o mercado de seguros. 14 2.2 O Crescimento Recente do Mercado de Seguros no Brasil Na última década o crescimento do mercado de seguros no Brasil foi realmente expressivo, com taxas superiores ao crescimento da economia. De acordo com dados do IPEADATA, o PIB mensal do Brasil, que em dezembro de 2003 era de aproximadamente 152 bilhões de reais, no mesmo mês no ano de 2012 era de aproximadamente 390 bilhões de reais, em valores nominais. No mercado de seguros, o montante de prêmios contratados em dezembro de 2003 era em torno de 3,5 bilhões de reais, e em dezembro de 2012 aproximadamente 12,8 bilhões(em valores nominais), um crescimento de mais de 200%. Considerando que, pelo índice IGP-M a inflação acumulada no período de 12/2003 a 12/2012 foi de 74,35%, percebe-se o crescimento real do mercado de seguros. Os gráficos a seguir mostram o crescimento descrito: Figura 1: Crescimento acumulado do PIB de 2003 à 2013.Fonte: SUSEP Figura 2: Crescimento acumulado dos Prêmios de 2003 à 2013.Fonte: SUSEP,2013 15 Um índice que geralmente é usado para avaliar o mercado se seguros em uma região é o índice de penetração do seguro, ou coeficiente de penetração de seguros. Basicamente é calculado pela divisão do montante de prêmios contratados pelo PIB. Contador (2007) afirma que é um dos principais índices para se mensurar a evolução do mercado de seguros em um país, bem como para comparar os mercados de dois países. O autor afirma também que a popularidade do índice se dá por sua facilidade de cálculo e disposição de dados. Pela análise da participação do mercado brasileiro de seguros no PIB, percebe-se como foi a evolução do mesmo na última década. O gráfico de Prêmios mostra a evolução do mercado de seguros desconsiderando seguro-saúde (regulado pela ANS, e não pela SUSEP), previdência e capitalização. Figura 3: Prêmios diretos e provisões (em R$mil )de 2001 à 2012.Fonte: SUSEP,2013 16 Considerando que o PIB se manteve crescente na maior parte deste período, como destacado anteriormente, o salto de 1,86% para 2,94% de participação, sem dúvida mostra um expressivo crescimento. Considerando agora, os valores de previdência e capitalização, a participação no PIB, também mostra-se crescente. Figura 4: Receitas anuais (em R$mil )de 2001 à 2012.Fonte: SUSEP Figura 5: Evolução das Receitas anuais (em R$mil )de 2001 à 2012. Fonte: SUSEP 17 A participação no PIB do conjunto seguros+capitalização+previdência sobe de 2,81% para 3,56% em 10 anos. Comparando-se, percebe-se que o setor de capitalização cresceu, proporcionalmente, bem mais que o de previdência. Por fim, ao englobar praticamente todo o setor (exceção apenas para os prêmios de resseguros), incluindo agora os valores do seguro-saúde pode-se avaliar a participação total do mercado brasileiro de seguros no PIB. Em 2003, somando os prêmios e contribuições de todo o mercado segurador ( SUSEP e ANS), o total representava 4,3% do PIB do país. Já em 2012 o índice subiu para 5,7% do PIB. Enfim, apesar do exposto anteriormente de que o mercado de seguros continua, de certa forma, concentrado em poucas empresas, o mesmo sem dúvida deu um grande salto na última década. Os números mostram que o mercado cresceu bem em praticamente todos seus ramos, considerando que nesse intervalo de tempo o PIB brasileiro também se manteve crescente na maior parte do período, é natural se supor uma relação entre eles. 2.3 A economia e o mercado de seguros O pressuposto para que exista uma relação entre a economia em geral e o mercado de seguros, parte de algumas premissas teóricas, citadas por vários autores, dentre os quais se pode citar Han (2010) e Arena (2006). Para eles, teoricamente, o mercado de seguros contribui para o crescimento econômico, pois: promove estabilidade financeira, facilita as trocas comerciais, encoraja a formação de poupanças, permite o gerenciamento de riscos com maior eficiência, reduz as consequências das perdas. Considerando a teoria em questão, vários estudos tentam comprovar empiricamente a relação entre o mercado de seguros e a economia, ou crescimento econômico. Um dos principais trabalhos publicados na área é o de Outreville(1990). O autor faz uma análise com dados organizados de 55 países, comparando o desenvolvimento do mercado de seguros (prêmios em relação ao PIB) com o desenvolvimento financeiro (medido pela razão entre M2(agregado monetário amplo) e o PIB). O autor escolhe o desenvolvimento financeiro como variável a ser comparada, pois, de acordo com ele, um dos principais pontos em que o mercado de seguros se mostra influente na economia é o seu papel de financiador da atividade econômica. A partir dos dados, o modelo obtido indicou que a demanda por seguros depende significativamente do desenvolvimento financeiro do país, ou seja, com o crescimento da taxa M2/PIB a demanda por seguros aumenta. Lazar e Denuit (2012) buscaram encontrar relação entre os prêmios e perdas das seguradoras do ramo não vida com os índices da taxa de juros e do PIB real nos Estados Unidos. A partir 18 de testes estatísticos para medir a cointegração entre essas séries temporais, foi identificada uma relação direta entre essas variáveis. No modelo proposto, a partir dos dados observados, as variáveis tiveram o sinal esperado e foram estatisticamente significantes em nível de menos de 10%. Guo et. Al (2009) analisaram o impacto de “choques macroeconômicos” na demanda por seguros. O argumento dos autores é que, partindo da ideia de que os prêmios são calculados com base na expectativa de perdas e investimentos, que estão sujeitos à “flutuações” financeiras, é razoável se pensar que as variáveis macroeconômicas afetam os prêmios. Assim, o modelo proposto por eles para analisar a relação de causalidade tem como variáveis econômicas: preço do barril de petróleo; demanda e oferta agregada; “choques monetários”. A partir de outros estudos os autores consideraram o petróleo como a principal variável externa da economia dos Estados Unidos (local onde é realizada a pesquisa). Diferentemente de outros estudos, este, mesmo trabalhando com uma série de vários anos (1990 a 2007), utilizou dados mensais. Além da relação entre as variáveis, o modelo proposto contém um vetor que busca capturar mudanças bruscas (choques) na série de preços. A partir dos dados observados os autores concluíram que o preço do petróleo não se mostrou estatisticamente significante para influenciar os prêmios. Supôs-se que o preço do petróleo influencia de maneira direta a inflação, mas não os prêmios, afinal o petróleo é embutido no preço de diversos outros produtos. Por outro lado, o modelo teórico de que os prêmios respondem aos choques e variações das outras variáveis escolhidas mostrou-se consistente. Outro ponto observado foi de que recentemente esse efeito é mais intenso. A conclusão final dos autores é de que os responsáveis pelas políticas macroeconômicas devem atentar-se aos efeitos que elas podem causar nos prêmios de seguros, bem como as possíveis consequências que possam surgir na economia de variações e flutuações nos prêmios. Considerando-se separadamente alguma variável macroeconômica, pode-se destacar talvez, que a que tenha maior relação direta com o mercado de seguros seja a taxa de juros. A taxa de juros é sempre levada em conta para a precificação dos prêmios de seguros, afinal o prêmio depende do cálculo do valor presente da indenização que seria paga ao segurado em caso de sinistro, além disso, uma parte do dinheiro investido pelas seguradoras é no mercado de renda fixa. Sendo assim, a relação entre taxa de juros e mercado de seguros se tornou alvo de alguns estudos. Holsboer (2000) faz uma síntese sobre os principais problemas que o mercado de seguros enfrenta ao se deparar com quedas nas taxas de juros, e destaca ainda algumas possíveis “soluções” para este problema, como por exemplo, eliminar ou reduzir as participações nos lucros enquanto as taxas de juros se mantiverem baixas. De fato, a taxa de juros em nível baixo, principalmente no longo prazo se caracteriza como um problema para as seguradoras. A queda nas taxas de juros gera um aumento no valor presente dos prêmios, ou seja, seria como 19 se o valor dos prêmios já pagos tivesse sido subavaliado. Faria (2012) destaca que, no Brasil, o problema da taxa de juros em nível reduzido é maior ainda, já que mais de 90% dos ativos das seguradoras brasileiras estão aplicados em investimentos, fundos e títulos de renda fixa. Assim, este autor fez uma análise sobre a reação do mercado segurador brasileiro à forte queda da taxa básica de juros (Selic) que ocorreu no país no período de 2003 a 2012. A conclusão do autor foi de que o impacto da queda da taxa de juros foi negativo, tanto para as seguradoras especializadas em seguros gerais (não vida) quanto para as empresas especializadas em seguros de pessoas (vida), contudo, como esperado, o impacto foi mais profundo nas seguradoras do ramo de seguro de vida, visto que, o prazo do compromisso com os segurados é maior que em outros casos. Ainda no mesmo artigo, o autor trabalha com simulações, mostrando como deveria ser o ajuste no “índice combinado”1 para cada possível cenário de variação na taxa de juros, para que se mantivesse a mesma lucratividade. Entretanto, outros autores buscam afirmar a relação de causalidade entre mercado de seguros e economia mostrando se o mercado de seguros gera de fato crescimento econômico. Arena (2006) questiona se o mercado de seguros promove crescimento econômico, e para tentar responder a essa pergunta faz um estudo comparativo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, além disso, para tentar aprofundar os resultados, são comparados separadamente os efeitos dos seguros de vida e de não vida nesses países. Assim, para tentar provar a contribuição do mercado de seguros para o crescimento econômico foi feita uma análise econométrica, usando algumas variáveis econômicas como crescimento do PIB per capita, abertura do mercado, inflação e comparando-se aos índices do mercado de seguros. Em geral, o resultado indicou que o mercado de seguros influenciou o crescimento econômico, podendo-se destacar alguns pontos: No caso dos seguros de vida, os efeitos só foram significantes nos países desenvolvidos, enquanto no caso dos seguros de “não vida”, o efeito foi significante nos dois grupos de países. O efeito dos seguros de não vida se mostrou maior nos países desenvolvidos do que nos países em desenvolvimento. Contador (2007), em um artigo, analisa comparativamente vários países para medir o crescimento do mercado de seguros em relação ao crescimento econômico. As variáveis usadas para se mensurar o crescimento do mercado de seguros e econômico são respectivamente os prêmios e o PIB. A conclusão que o autor chega é de que não haveria necessariamente uma relação de causalidade entre esses fatores, que o Brasil seria o principal exemplo disso já que, segundo ele, o crescimento econômico do país nas últimas décadas foi muito baixo, se comparado à média mundial, enquanto o crescimento do mercado de seguros foi expressivo. Ou seja, para o autor não está explícita a interferência significante do mercado de seguros no crescimento econômico. 1 O índice combinado é a soma do índice de sinistralidade com o índice de despesas. 20 Han et. al(2010) também investigam a relação entre desenvolvimento do mercado de seguros e crescimento econômico aplicando um modelo à 77 países no período de 1994 a 2005. Assim como no estudo de Arena (2006), este autor busca a relação entre seguros e desenvolvimento econômico dividindo os países observados em “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”(a divisão foi feita de acordo com o PNB per capita de 2002 calculado usando o método Atlas do Banco Mundial). O parâmetro usado para se medir o mercado de seguros foi o índice “densidade do seguro” (divisão entre o total de prêmios e a população) e para mensurar o crescimento econômico foi utilizado o PIB per capita. A hipótese apresentada é de que a densidade do seguro, com algumas outras variáveis, tem um impacto positivo no crescimento econômico do país. Os resultados encontrados mostraram uma relação estatisticamente significante entre o crescimento do mercado de seguros e o crescimento econômico. De acordo com o modelo, para cada 1 ponto percentual de crescimento na densidade do seguro haveria 4,78 pontos percentuais de crescimento econômico. Separando-se entre os ramos de seguro de vida e não vida, o seguro de não vida aparenta ter uma influência maior no crescimento econômico (4,18% de crescimento econômico para cada 1% de crescimento do seguro, enquanto no seguro de vida a taxa foi de 1,7% de crescimento econômico para cada 1% do crescimento do seguro). Comparando-se os grupos de países, os resultado do modelo indicam que, nos países em desenvolvimento para cada 1% de crescimento da densidade do seguro há um crescimento de 9,1%(estatisticamente significante a 1%), enquanto nos países desenvolvidos para cada 1% de crescimento da densidade do seguro há um crescimento econômico de 1,8%(estatisticamente significante a 5%), assim, o modelo indica que o mercado de seguros gera maior influência no crescimento econômico em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Assim como nos resultados de Arena (2006) o seguro de vida mostrou influência significativa no crescimento econômico apenas nos países desenvolvidos. Com o propósito de estudar o efeito do mercado de seguros com crescimento econômico, pode-se destacar também o trabalho de Haiss e Sümegi (2008). Os autores partem do pressuposto de que países com um sistema financeiro mais desenvolvido aproveitam um crescimento econômico mais estável e duradouro. Então, seu estudo traz de forma inovadora (segundo os autores) a visão do mercado de seguros como investidor institucional, ou seja, o fato de as seguradoras e resseguradoras investirem seus fundos em títulos públicos e privados faria com que este setor influenciasse de maneira direta o crescimento econômico de um país. O estudo é feito para um período de 13 anos (1992 a 2005) em 29 países da Europa, e os autores destacam pontos que devem ser observados ao se pensar em um estudo comparando o mercado de seguros de países diferentes. O primeiro ponto é que, em se tratando de diferentes países, lida-se com diferentes culturas em relação ao seguro, ou seja, a perspectiva pode ser muito diferente em 21 relação à contratação do seguros, assim, deve-se, segundo eles, buscar comparar países não tão “diferentes”. O segundo ponto seria a legislação do seguro, que pode variar muito de um país para outro, o que poderia indicar interpretações errôneas nas análises comparativas. Estes foram os argumentos para que a pesquisa fosse feita apenas com países europeus. Em seu modelo proposto os autores utilizaram a demanda por prêmios e os investimentos totais feitos pelo mercado de seguros como variáveis do mercado, e para medir o crescimento econômico, utilizaram o PIB per capita. A influência do mercado como investidor seria analisada pela interferência das atividades na série da taxa de juros. Os resultados indicaram que as atividades do mercado de seguros não influenciam de maneira significativa a taxa de juros, porém, retirando-se a taxa de juros do modelo, as atividades mostraram influência significativa no crescimento econômico, resultado condizente com a pesquisa de Arena (2006). O ponto observado é que existe alguma interação entre taxa de juros e mercado de seguros, porém sem conclusão exata. A conclusão dos autores foi de que, diante de toda a literatura teórica sobre a influência do mercado de seguros no crescimento econômico (e vice-versa), existe certa fundamentação empírica para isso. Assim como outros autores, foi observada também uma diferença significante no impacto do mercado na economia dos países desenvolvidos em relação aos países em desenvolvimento. Zurbruegg e Ward (2000)optaram por investigar se o desenvolvimento do mercado de seguros gera crescimento econômico, a partir da relação de causalidade entre o mercado de seguros (Prêmios) e a produção econômica (PIB). Para isso, a metodologia utilizada foi o teste de causalidade de Granger(o qual será abordado posteriormente neste trabalho). O estudo foi feito analisando-se dados anuais (1961 até 1966) de nove países membros do grupo OCDE(Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), considerando cada país separadamente. Os autores destacam a importância de se estudar cada país em separado, devido à diferenças estruturais na economia, variações nas regulamentações do mercado e diferenças culturais da população. Os resultados do teste se mostraram bem diferentes, de acordo com cada país, confirmando a teoria dos autores de que as análises devem ser feitas individualmente. Em geral, a conclusão descrita por eles foi que, realmente não se pode afirmar que o mercado de seguros gera crescimento econômico generalizando a teoria para vários países, essa afirmação deve ser feita após estudos em cada país. Enfim, os autores reforçam a necessidade de se estudar em separado a relação entre mercado de seguros e crescimento econômico em diferentes paises. Observa-se portanto que os estudos indicam, em geral, uma relação entre o mercado de seguros e algumas variáveis macroeconômicas. Independentemente do tipo do local de pesquisa e da abordagem metodológica, normalmente os estudos nessa área giram em torno de variáveis de desempenho para avaliar o mercado de seguros, como prêmios diretos e demanda por 22 prêmios totais e variáveis de produção (PIB, PIB per capita, PNB) para avaliar o crescimento econômico, contando ainda, algumas vezes, com variáveis financeiras como taxa de juros e taxa de inflação para entender as reações do mercado às variações das mesmas. Assim, este trabalho busca seguir essa linha de pesquisa e adotar um método próximo aos citados anteriormente para avaliar o mercado brasileiro de seguros. 23 3 Objetivos O objetivo é analisar do ponto de vista empírico a relação entre algumas variáveis macroeconômicas selecionadas (com base na literatura) e o mercado de seguros brasileiro. A partir das variáveis busca-se encontrar uma relação entre elas e entender como o mercado de seguros brasileiro se comporta com a variação das mesmas, e/ou como a economia brasileira se comporta com variações nos índices do mercado de seguros. Os objetivos específicos são: - Analisar a cointegração entre séries de PIB, Prêmios, Taxa de Juros e Taxa de Inflação. - Analisar o nível de influência estatisticamente significante que as variáveis exercem sobre o mercado brasileiro de seguros. - Encontrar um modelo de regressão linear capaz de explicar a variação nas captações dos prêmios diretos do mercado brasileiro de seguros. - Verificar uma possível relação de causalidade entre as séries de PIB mensal e prêmios diretos mensais. Os objetivos aqui propostos são baseados, em geral, na literatura abordada, buscando não necessariamente precisar com exatidão como se dão todas as variações das variáveis escolhidas, mas demonstrar possíveis interferências e causalidades entre elas. Os objetivos são propostos buscando encontrar, se possível, um modelo final, que se apresente adequado estatisticamente, e que possa demonstrar a relação entre as variáveis de maneira satisfatória. 24 4 Dados e Metodologia Os dados utilizados são da base de dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do SES (Sistema de Estatísticas da SUSEP). A partir das evidências apresentadas, buscase então um modelo que possa exprimir as relações entre as variáveis macroeconômicas e do mercado de seguros. As variáveis escolhidas foram: • PIB • INFLAÇÃO • TAXA DE JUROS • PRÊMIOS Seguindo o indicado no trabalho de Guo et Al.(2009), e para se trabalhar com um conjunto de dados maior, a periodicidade dos dados obtidos é mensal. Para uma análise mais completa dos dados, optou-se por trabalhar com valores reais e nominais. Assim a série de valores do PIB e dos PRÊMIOS foi deflacionada tomando como base o mês de janeiro de 1995, o primeiro mês de observação.O índice usado como deflator foi o IGP-M, calculado pela Fundação Getúlio Vargas(FGV), disponível no banco de dados do IPEADATA. O PIB é comumente utilizado para avaliar o crescimento econômico de um país, já que mede a soma de tudo que foi produzido em determinado período. Assim pode avaliar-se se o mercado de seguros gera crescimento econômico, caso haja relação positiva com o PIB. A unidade de medida é em milhões de reais. A série de dados do PIB foi retirada da base de dados do IPEADATA. O índice de inflação mostra a evolução média dos preços dos bens e serviços. A relação com os fatores do mercado de seguros pode mostrar se este tem peso importante no índice de inflação avaliado. Dentre os trabalhos citados, Arena(2006) também destaca o uso de índices de inflação em pesquisas desta natureza. O índice de inflação escolhido foi o IGP-M. O IGPM é um indicador macroeconômico que representa a evolução no nível de preços, e é usado 25 como referência para a correção de preços e valores contratuais(FGV). A unidade de medida é a variação percentual no mês. A série de dados do IGP-M foi retirada da base de dados do IPEADATA. A taxa básica de juros é um dos principais índices observados pelo mercado de seguros, visto que, por definição, o dinheiro captado pelas instituições de seguro será reinvestido, logo, influenciado pela taxa de juros. Ademais, esta é uma das variáveis mais utilizadas em estudos que buscam comparar o mercado de seguros com a economia, como mostram os trabalhos de Holsboer(2000) e Faria(2012). A taxa de juros adotada no modelo é a Taxa Referencial- TR. A taxa referencial é calculada pelo Banco Central do Brasil e usada como referência para vários investimentos, dentre eles os títulos de capitalização. A unidade de media é percentual ao mês. A série de dados da TR foi retirada da base de dados do IPEADATA. O montante de prêmios contratados é o principal medidor do mercado de seguros. O índice mostra quanto de seguro foi contratado, ou seja, qual o tamanho do mercado, sendo assim a principal variável para se relacionar o mercado de seguros com outros fatores. Os dados referentes à prêmios contemplam os prêmios diretos recebidos pelas seguradoras em cada mês. A unidade de medida é em milhões de reais. A série de dados dos prêmios diretos foi retirada da base de dados da SUSEP. Para a análise dos dados, buscou-se uma técnica econométrica capaz de medir os efeitos de uma ou mais variáveis sobre outra. Uma das técnicas de otimização mais usadas, e escolhida para o caso em questão, é o MQO (Mínimos Quadrados Ordinários ou Método dos Mínimos Quadrados). Em um modelo de regressão simples, busca-se estimar o valor de uma variável y através dos valores obtidos pelas observações da variável x, assim pode-se escrever uma equação que relaciona y a x. y = β0 + β1 x + u (4.1) Na equação 4.1 o coeficiente β0 representa o coeficiente linear da equação, na prática, seria o valor estimado de y, caso, mantendo os outros fatores fixos, o valor observado de x fosse 0. O coeficiente β1 é variação de uma unidade de y para cada variação de uma unidade de x. A variável u é o termo de erro, e representa todos os outros fatores que afetam y, além de x. Se os outros fatores forem mantidos constantes, de modo que a variação em u é 0(∆u = 0), x terá um efeito linear em y: ∆y = β1 ∆x, se∆u = 0 Assim, a variação em y é dada por β1 multiplicado em x(WOOLDRIGE, 2010). (4.2) 26 Para se estimar os parâmetros o método MQO minimiza a soma dos quadrados dos resíduos (erros). Em cada observação, o resíduo se dá pela diferença entre o valor estimado e o valor observado, assim estimando parâmetros βˆ0 e βˆ1 de modo que a soma dos quadrados dos resíduos seja tão pequena quanto possível, obtêm-se a reta de regressão de MQO: ŷ = βˆ0 + βˆ1 x (4.3) A partir desse modelo de regressão simples, uma regressão múltipla pode ser entendida como uma extensão, com adição de mais variáveis independentes, partindo do mesmo princípio. (WOOLDRIGE, 2010). A série de dados obtidos contempla o período de janeiro de 1995 à outubro de 2013, totalizando 226 observações para cada variável. Para análise das estatísticas descritivas os dados foram divididos em duas partes (janeiro de 1995 à dezembro de 2003 e janeiro de 1994 à outubro de 2013), para comparação e evidência de uma possível evolução recente do mercado como indica a literatura. Pela divisão pode-se avaliar a “última década”, que foi exaustivamente exposta como sendo de grande crescimento do mercado. Assim, as estatísticas descritivas básicas das variáveis utilizadas são: 27 Tabela 1: Estatísticas Descritivas Variável Prêmios Reais Prêmios Nom. PIB Real PIB Nom. INFLAÇÃO TX. JUROS Estatísticas Descritivas jan/95-dez/03 MÍNIMO 774,64 MÁXIMO 1,307.08 MÉDIA 1.066,03 DESVIO PADRÃO 115,63 OBSERVAÇÕES 108 MÍNIMO 879.35 MÁXIMO 3,549.14 MÉDIA 1,742.64 DESVIO PADRÃO 450.81 OBSERVAÇÕES 108 MÍNIMO 45.937,40 MÁXIMO 66.111,41 MÉDIA 57.286,20 DESVIO PADRÃO 3.643,94 OBSERVAÇÕES 108 MÍNIMO 45.937,40 MÁXIMO 152,908.90 MÉDIA 94,374.22 DESVIO PADRÃO 25,782.43 OBSERVAÇÕES 108 MÍNIMO (1,00) MÁXIMO 5,19 MÉDIA 0,94 DESVIO PADRÃO 0,99 OBSERVAÇÕES 108 MÍNIMO 0,04 MÁXIMO 3,47 MÉDIA 0,6590 DESVIO PADRÃO 0,69 OBSERVAÇÕES 108 jan/04-out/13 890,77 2,947.78 1.689,88 491,89 118 2,626.10 14,007.38 6,568.30 2,925.49 118 51.029,34 86.633,41 70.543,90 9.962,39 118 140,745.50 414,747.00 268,203.72 78,625.97 118 (0,74) 1,98 0,51 0,56 118 0,00 0,35 0,1060 0,08 118 Fonte: Elaboração própria Nota: Os valores das variáveis Prêmios Reais, Prêmios Nominais(Prêmios Nom.), PIB Real e PIB Nominal(PIB Nom.) são expressos em milhões de reais. Os valores da variável INFLAÇÃO são expressos em variação percentual ao mês. Os valores da variável Taxa de Juros(TX. JUROS) são expressos em percentual ao mês. A partir dos dados pode-se fazer algumas observações. Com a divisão em dois períodos percebe-se grandes diferenças entre eles no que diz respeito às variáveis observadas. No segundo período a média dos prêmios é em torno de 60% maior que no primeiro, em valores reais. Comparando-se os valores nominais, a média do segundo período é mais de 3 vezes maior que a do primeiro. Esses números confirmam o já exposto anteriormente sobre a recente evolução do mercado. O valor máximo da série de prêmios no primeiro período também está 28 bem abaixo da média do segundo período,tanto em valores reais como nominais, ou seja, claramente, o mercado, no segundo período, está em outro nível. A princípio poderia se relacionar os prêmios com o PIB comparando a “evolução” da série de prêmios com a do PIB. A comparação entre o primeiro e segundo período na série do PIB é similar ao dos prêmios. A média do PIB real no segundo período é mais de 70.000, enquanto no primeiro período não chegou a 58.000, um aumento de quase 25 %, da mesma forma, o valor máximo do PIB no segundo período ultrapassa 86.000, 30 % a mais que o maior valor observado no primeiro período, em torno de 66.000. Então, intuitivamente, PIB e prêmios teriam uma relação direta. O índice IGP-M teve movimento “inverso”. No primeiro período a média é maior que no segundo. Como o primeiro período inicia-se em 1995, pouco após a implantação do plano Real, que viria a estabilizar a economia, o período conta com alguns valores bem altos, como 5,19% de inflação ao mês, algo que há muito tempo não se vê. Com o movimento contrário, supõe-se uma relação inversa entre inflação e prêmios. A série de dados da Taxa Referencial comporta-se, como esperado, de maneira semelhante à do IGP-M, com valores maiores no primeiro período e menores no segundo. Cabe destacar que algumas observações do segundo período são valores nulos, meses onde a taxa ficou com valor de 0%. Com os dados organizados, pode-se obter também a matriz de correlação e fazer algumas análises. A matriz de correlação para a série de valores nominais é a seguinte: Tabela 2: Matriz de Correlação com valores Nominais INFLACAO TAXA_JUROS 1, 0000 0, 1949 1, 0000 PIB_Nom. −0, 1958 −0, 5390 1, 0000 PREMIOS_Nom. −0, 1952 −0, 4700 0, 9734 1, 0000 INFLACAO TAXA_JUROS PIB_Nom. PREMIOS_Nom. Fonte: Elaboração própria Nota: Coeficientes de correlação, usando as observações 1995:01 – 2013:10, 5% valor crítico (bilateral) = 0,1305 para n = 226 A matriz de correlação indica uma correlação positiva e com um valor relativamente alto(0,9734) entre PIB Nominal e Prêmios Nominais. A série de taxa de juros mostra-se correlacionada negativamente com PIB e Prêmios em um nível não tão alto quanto a relação entre PIB e Prêmios. Por último, a série de Inflação mostra-se fracamente correlacionada com as outras três variáveis. A seguir, a matriz de correlação para as séries de PIB e Prêmios reais: 29 Tabela 3: Matriz de Correlação com valores Reais INFLACAO TAXA_JUROS 1, 0000 0, 1949 1, 0000 PREMIO_Real −0, 2128 −0, 3851 1, 0000 PIB_Real −0, 2046 −0, 4169 0, 9307 1, 0000 INFLACAO TAXA_JUROS PREMIO_Real PIB_Real Fonte: Elaboração própria Nota: Coeficientes de correlação, usando as observações 1995:01 – 2013:10, 5% valor crítico (bilateral) = 0,1305 para n = 226 Para as séries de preços com valores reais ou resultados foram semelhantes à dos valores nominais. PIB e Prêmios mostraram uma forte correlação entre eles. 30 5 Estimação e Resultados 5.1 O modelo inicial Com os dados, busca-se um modelo econométrico capaz de relacioná-los e demonstrar possíveis causalidades entre eles. Para estimação do modelo o software usado foi o Gretl. A partir do modelo obtido deve-se fazer alguns testes(e possíveis alterações) para medir a qualidade e consistência do modelo, buscando chegar a uma conclusão final sobre a relação entre os dados observados. O ponto inicial é o modelo relacionando todas as variáveis consideradas relevantes a partir do referencial teórico apresentado. O primeiro modelo conta com todas as observações das 4 variáveis escolhidas, utilizando a série de PIB e PREMIOS nominais. Tabela 4: Modelo 1 MQO, usando as observações 1–226 Variável dependente: PREMIO_Nom Coeficiente Erro Padrão const −1609,91 140,965 INFLAÇÃO −47,190 59,069 PIB_Nom 0,0309 0,0005 TAXA_DE_JUROS 455,862 102,054 R2 0,951842 F (3, 222) 1462,595 Log da verossimilhança −1803,015 Critério de Schwarz 3627,712 ρ̂ 0,691346 razão-t −11,420 0,0000 −0,798 0,4252 57,602 0,0000 4,466 0,0000 R2 ajustado P-valor(F ) Critério de Akaike Hannan–Quinn Durbin–Watson Fonte: Elaboração própria d Nota: Equação do modelo:PREMIO_NOM = 455, 861 TAXA_DE_JUROS + 0, 0309888 PIB_Nom p-valor 0,951191 7,0e–146 3614,030 3619,551 0,632526 −1609, 91 − 47, 1911 INFLACAO + As primeiras análises a partir deste modelo indicam: Aparentemente, a variação na série de prêmios é bem explicada pelas outras variáveis, como indica o coeficiente de determinação(R2 ), 31 que apresentou um valor de 0,95, ou seja, 95,18 % da variação nos prêmios seria explicada pelas 3 variáveis independentes. As variáveis são significantes conjuntamente, pelos resultados da estatística F . Avaliando-se separadamente a significância estatística de cada variável, a partir da estatística t, pode-se considerar PIB e TAXA DE JUROS como significantes (mostraramse estatisticamente significantes ao nível de 1%) e INFLAÇÃO como não significante. Assim, apesar do pensamento intuitivo de que a inflação poderia ser relacionada ao mercado de seguros, visto que em um ambiente de maior estabilidade econômica o mercado de seguros tenderia ao crescimento, o modelo indica que a inflação não tem influência estatisticamente significante no montante de prêmios contratados. Analisando-se o sinal das variáveis, PIB, com sinal positivo confirma o apresentado na matriz de correlação, entretanto, a Taxa de Juros, que, pela matriz de correlação, apresentou correlação negativa com a série de prêmios, no modelo estimado ficou com sinal positivo, indicando relação direta com os prêmios. Este resultado vai ao encontro do exposto por Faria(2012) e Holsboer(2000) que mostram que a taxa de juros se relaciona diretamente com o mercado de seguros, já que taxas de juros baixas se caracterizam como um problema. Para uma análise comparativa, deve-se avaliar o modelo inicial também com as séries de PIB e Prêmios deflacionadas, ou seja, os valores reais. Assim, o modelo com as 4 variáveis, utilizando valores reais é descrito a seguir: Tabela 5: Modelo 2 MQO, usando as observações 1995:01–2013:10 (T = 226) Variável dependente: PREMIO_Real Coeficiente const −1430,20 TAXA_DE_JUROS 5,840 INFLACAO −14,033 PIB_Real 0,044 Erro Padrão 89,354 23,438 14,666 0,00129 R2 0,866761 F (3, 222) 481,3944 Log da verossimilhança −1487,353 Critério de Schwarz 2996,389 ρ̂ 0,599610 razão-t −16,005 0,0000 0,249 0,8034 −0,956 0,3397 34,120 0,0000 R2 ajustado P-valor(F ) Critério de Akaike Hannan–Quinn Durbin–Watson Fonte: Elaboração própria d Nota: Equação do modelo: PREMIO_Real 5, 84078 TAXA_DE_JUROS + 0, 0440726 PIB_Real p-valor = 0,864961 7,58e–97 2982,707 2988,228 0,795400 −1430, 20 − 14, 0336 INFLACAO + O modelo com as variáveis reais apresentou resultados próximos ao das variáveis nominais. 32 Como esperado, a variável inflação não se mostrou significante ao modelo, já que, trabalhando com séries deflacionadas, a correção monetária foi retirada dos valores, ou seja, não é de se esperar que a inflação afete os valores deflacionados dos prêmios. A variável PIB mostra-se ainda estatisticamente significante a 1 %, contudo, a variável Taxa de Juros deixou de ser estatisticamente significante. Considerando que a Inflação não se mostrou significante em nenhum momento, pode-se avaliar um novo modelo com a retirada dessa variável. Assim, retirando-se a variável INFLAÇÃO, e considerando PIB e Prêmios nominais, o novo modelo fica da seguinte forma: Tabela 6: Modelo 3 MQO, usando as observações 1995:01–2013:10 (T = 226) Variável dependente: PREMIO_Nom Coeficiente Erro Padrão const −1649,12 132,038 TAXA_DE_JUROS 447,038 101,372 PIB_Nom 0,0310 0,00053 R2 0,951703 F (2, 223) 2197,138 Log da verossimilhança −1803,339 Critério de Schwarz 3622,940 ρ̂ 0,688216 Fonte: Elaboração própria Nota: Equação do modelo: 0, 0310360 PIB_Nom razão-t p-valor −12,489 0,000 4,409 0,0000 58,088 0,0000 R2 ajustado P-valor(F ) Critério de Akaike Hannan–Quinn Durbin–Watson 0,951270 1,8e–147 3612,679 3616,820 0,638180 d PREMIO_Nom = −1649, 12 + 447, 038 TAXA_DE_JUROS + No novo modelo, as variáveis PIB e TAXA DE JUROS continuam estatisticamente significantes ao nível de 1 %. O coeficiente de determinação praticamente não se alterou com a retirada da variável INFLAÇÃO, de 95,18% passou para 95,17%. Pela estatística F , nota-se também que as variáveis ainda são estatisticamente significantes conjuntamente. O sinal das variáveis também não se alterou. 5.2 Testes e correções Para avaliar o modelo, faz-se necessário alguns testes. Em primeiro lugar pode-se avaliar se o modelo é homocedástico, ou seja, se a variância dos erros é constante, uma das hipóteses básicas do MQO. 33 5.2.1 Testes de Heterocedasticidade Para testar a hipótese de Heterocedasticidade do modelo, optou-se pelo teste de White. O teste de White é um teste que usa uma regressão auxiliar onde a variável dependente é a estimativa dos erros ao quadrado e as variáveis independentes são os quadrados e os produtos cruzados das variáveis independentes do modelo que está sendo testado. Utilizando o Modelo 3, o teste de White gera o seguinte resultado: H0 : modelo sem heterocedasticidade Estatística T R2 :73,25 com p-valor: 0,0000 Assim, rejeita-se a hipótese nula de que o modelo não tenha Heterocedasticidade, concluindo que o modelo está heterocedástico. Nesse caso, deve-se fazer alguma modificação para a correção do modelo. Para esse problema, Wooldridge faz a seguinte observação: “ Variáveis estritamente positivas frequentemente possuem distribuições condicionais que são heterocedásticas ou concentradas; o uso do log pode aliviar, se não eliminar, ambos os problemas”(WOOLDRIDGE, 2010, p.181). Wooldridge explica ainda que a transformação das variáveis para sua forma logarítmica não implica em alterações nos resultados finais: “Pelo fato de a variação na forma logarítmica aproximar-se de uma variação proporcional, faz sentido que nada aconteça com a inclinação”(WOOLDRIDGE, 2010, p.43). Portanto, considerando o modelo 3, pode-se fazer uma nova estimação considerando o uso das variáveis PIB e Prêmios em sua forma logarítmica. O novo modelo fica como a seguir: No modelo com os logs, o valor do coeficiente de determinação aumentou um pouco, passando para 0,975 e, no geral, os outros resultados se mantiveram. Então, para verificar se o problema da heterocedasticidade foi corrigido, procede-se a um novo teste de White: H0 : modelo sem heterocedasticidade Estatística T R2 :4,585 com p-valor: 0,468586 Assim, não rejeita-se a hipótese nula, concluindo que o modelo não tem heterocedasticidade, portanto, a correção foi eficiente. 5.2.2 Testes de autocorrelação Um dos problemas que pode afetar o modelo estimado é autocorrelação. A estimação de uma regressão pelo método dos Mínimos Quadráticos Ordinários(MQO) na presença de auto- 34 Tabela 7: Modelo 4 MQO, usando as observações 1995:01–2013:10 (T = 226) Variável dependente: l_PREMIO_Nom Coeficiente const −7,010 l_PIB_Nom 1,2603 TAXA_DE_JUROS 0,0727 Erro Padrão 0,2094 0,0171 0,0183 razão-t p-valor −33,481 0,0000 73,609 0,0000 3,9782 0,0001 R2 0,975225 R2 ajustado 0,975003 F (2, 223) 4389,077 P-valor(F ) 8,5e–180 Log da verossimilhança 168,3312 Critério de Akaike −330,6624 Critério de Schwarz −320,4008 Hannan–Quinn −326,5212 ρ̂ 0,649445 Durbin–Watson 0,701661 Fonte: Elaboração própria d Nota: Equação do modelo: l_PREMIO_Nom = −7, 01050 + 0, 0727999 TAXA_DE_JUROS + 1, 26028 l_PIB_Nom correlação pode gerar estimadores que não sejam MELNT(Melhores Estimadores Lineares Não Tendenciosos)(GUJARATI,2011). Assim, deve-se seguir aos testes de autocorrelação habituais. O primeiro teste, utilizando o modelo 4 é o teste de Ljung-Box. O teste calcula a estatística Q, para a hipótese nula: resíduos não correlacionados. O teste, com defasagem até a ordem 12 foi: Q Ljung Box: 581,888 com p-valor:7, 8e − 117 Assim, rejeita-se a hipótese nula de que os resíduos não sejam correlacionados. Alternativamente pode-se testar a autocorrelação também com o teste de Durbin-Watson. Nesse teste, calcula-se a estatística d e compara-se com o valor crítico tabelado, de acorodo com o número de observações e regressores. De acordo com a tabela de Durbin Watson, o valor dL para 226 observações é 1,653. No modelo 4 a estatística d de Durbin Watson foi 0,701. No teste em questão, quando 0 < d < dL rejeita-se a hipótese nula de que não há autocorrelação positiva. Por fim, pode-se considerar também o teste de Breusch-Godfrey(BG), que, segundo Gujarati(2011), evita algumas armadilhas do teste de Durbin-Watson. O teste, com defasagem até a ordem 12 foi: Estatística LMF:26,797 com p-valor:3, 9384e − 036 35 Assim, rejeita-se a hipótese nula H0 : sem autocorrelação Portanto, considerando os testes, pode-se concluir que o modelo apresenta autocorrelação, e deve-se aplicar um ou mais métodos indicados como corretivos para este problema. O primeiro método, considerando a natureza do problema, seria adicionar às variáveis explicativas, as diferenças(lags) das próprias variáveis. Assim, testando-se primeiramente com a primeira diferença da série de logaritmo dos prêmios nominais, chega-se ao seguinte modelo: Tabela 8: Modelo 5 MQO, usando as observações 1995:02–2013:10 (T = 225) Variável dependente: l_PREMIOS_Nom Coeficiente const −3,369 l_PREMIOS_Nom_1 0,537 l_PIB_Nom 0,593 TAXA_DE_JUROS 0,0456 Erro Padrão 0,3498 0,0456 0,058 0,0147 razão-t p-valor −9,632 0,0000 11,791 0,0000 10,206 0,0000 3,1077 0,0021 R2 0,984635 R2 ajustado 0,984426 F (3, 221) 4720,664 P-valor(F ) 4,8e–200 Log da verossimilhança 222,4509 Critério de Akaike −436,9017 Critério de Schwarz −423,2373 Hannan–Quinn −431,3867 ρ̂ −0,057866 h de Durbin −1,185383 Fonte: Elaboração própria d Nota: Equação do modelo: l_PREMIO_Nom = −3, 36968 + 0, 0456835 TAXA_DE_JUROS + 0, 593387 l_PIB_Nom + 0, 537927 l_PIB_Nom_1 Nesse caso os resultados anteriores sobre significância individual e coletiva das variáveis se mantém. O coeficiente de determinação aumentou para 0,98, ou seja, pode-se considerar que houve uma “melhora” no modelo com a adição da variável. Em relação ao problema em questão, a autocorrelação, poderia avaliar-se a partir da estatística d de Durbin-Watson, contudo Gujarati(2011) explica que em modelos autorregressivos a estatística d é sempre em torno de 2(neste modelo o valor foi 2,09), mas não significando que não haja autocorrelação. Para solucionar o problema foi desenvolvido o teste h, e essa foi a estatística apresentada no modelo: h de Durbin = −1,185383. Para a interpretação do teste, Gujarati(2011) explica que, como a estatística h segue a distribuição normal padrão, se |h| > 1, 96 rejeita-se a hipótese nula de que não exista autocorrelação de primeira ordem. No modelo em questão, |h| = 1, 18, assim, não rejeita-se a hipótese nula, concluindo que não há autocorrelação. Gujarati(2011) expõe ainda outro método para correção da heterocedasticidade. Trata-se 36 da estimação com erros padrão Newey-West. Considerando a observação de que o método é adequado para grandes amostras, o mesmo torna-se válido neste trabalho. O método é conhecido por corrigir não apenas problemas de autocorrelação mas também de heterocedasticidade. Aplicando o método em questão no modelo 4 obtém-se o novo modelo: Tabela 9: Modelo 6 MQO, usando as observações 1995:01–2013:10 (T = 226) Variável dependente: l_PREMIO_Nom Erros padrão HAC, largura de banda 4 (Núcleo de Bartlett) Coeficiente const −7,010 TAXA_DE_JUROS 0,0728 l_PIB_Nom 1,2603 Erro Padrão 0,3857 0,0219 0,0316 razão-t p-valor −18,178 0,0000 3,3101 0,0011 39,8013 0,0000 R2 0,975225 R2 ajustado 0,975003 F (2, 223) 1812,752 P-valor(F ) 1,2e–138 Log da verossimilhança 168,3312 Critério de Akaike −330,6624 Critério de Schwarz −320,4008 Hannan–Quinn −326,5212 ρ̂ 0,649445 Durbin–Watson 0,701661 Fonte: Elaboração própria d Nota: Equação do modelo: l_PREMIO_Nom = −7, 01050 + 0, 0727999 TAXA_DE_JUROS + 1, 26028 l_PIB_Nom Gujarati(2011) explica que, apesar de não haver alteração no valor da estatística d dos dois modelos o procedimento levou em conta a correção dos erros padrão. No novo modelo os erros padrão são maiores do que no antigo, ou seja, os erros padrão estavam subestimados, podendo gerar interpretações erradas das estatísticas t e F . Os coeficientes estimados e o R2 não se alteraram. Assim, têm-se um modelo sem heterocedasticidade, sem autocorrelação, onde as variáveis PIB e Taxa de Juros mostram ter influência estatisticamente significante sobre os Prêmios ao nível de 1 %. 5.2.3 Teste de normalidade dos resíduos O terceiro pressuposto que deve ser observado em um modelo MQO, além da autocorrelação e homocedasticidade, é a normalidade dos resíduos. O modelo clássico de regressão linear supõe que os erros estão distribuídos com média 0 e variância σ 2 , ou seja: ui ∼ N (0, σ 2 ). Assim para se testar a hipótese de normalidade dos resíduos optou-se pelo teste de Doornik-Hansen, 37 que gerou os seguintes resultados: H0 : O erro tem distribuição Normal Estatística do teste: χ2 = 0, 88763 com p-valor = 0, 64158 Portanto, não rejeita-se a hipótese nula, concluindo que os erros tem distribuição normal. De volta à análise inicial, considerando os prêmios como variável dependente percebe-se que a variável que gera maior influência sobre a série de prêmios é o PIB. Isto pode ser observado pelas estatísticas apresentadas em todos os modelos e pelo fato de que, no Modelo 2, onde se trabalhava com variáveis deflacionadas, a única variável estatisticamente significante foi o PIB. Assim, pode-se supor que o PIB gera forte influência nos prêmios. Contudo, considerando que o mercado de seguros tem uma parcela relevante no PIB pode-se questionar a causalidade entre eles. Uma alta no PIB gera uma alta no mercado de seguros, ou o fato do mercado de seguros se aquecer eleva o PIB direta e indiretamente? Uma das possíveis maneiras de se testar a causalidade entre as duas variáveis seria o “teste de causalidade de Granger” 5.2.4 Teste de causalidade de Granger O teste de causalidade de Granger assume que o “futuro não pode prever o passado”. Assim, trabalhando com duas séries temporais, interessa-se por saber qual delas precede a outra. Nesse trabalho, testa-se se Prêmios causam PIB ou se PIB causam prêmios1 . O teste desenvolvido pelo economista Clive Granger, no fim dos anos 60 é comumente usado em estudos econométricos como no artigo de Lazar e Denuit(2012) citado anteriormente que testou a causalidade entre perdas das seguradoras e prêmios e Zurbruegg e Ward(2000) que usaram esse mesmo teste para comparar Prêmios e PIB, as mesmas variáveis que serão usados nesse trabalho. Considerando as séries em questão, os testes feitos com as séries de valores nominais e valores reais tiveram os mesmos resultados. A metodologia do teste de causalidade de Granger exige um vetor autorregressivo, para, a partir do mesmo, realizar o teste, já que busca-se avaliar o efeito do “passado” no “futuro”. Gujarati(2011) explica que o número de defasagens do vetor é uma questão prática importante para o teste. Contudo, não há um consenso sobre o número ótimo de defasagens a serem usadas no VAR(vetor auto regressivo), então, geralmente opta-se por fazer o teste usando mais de uma opção, buscando resultados mais conclusivos. Assim, os testes apresentam os seguintes resultados: 1 Na nomenclatura do teste usa-se por dizer “A Granger-causa B” ao se considerar um teste entre as supostas variáveis A e B 38 Tabela 10: Teste de causalidade Granger No de Defasagens Estatística F 2 7.2413 3 10.4375 Prêmios não 4 10.3135 5 9.4673 Granger causam PIB 6 6.5692 2 7.1158 3 8.9643 4 6.1006 PIB não Granger causa Prêmios 5 3.6135 6 4.973 Hipótese nula Decisão(1%) Rejeitar Rejeitar Rejeitar Rejeitar Não Rejeitar Rejeitar Rejeitar Não Rejeitar Não Rejeitar Não Rejeitar Fonte: Elaboração própria Nota: Para o nível de significância de 1% o valor tabelado da estatística F é de 6,6433. Para a escolha do número de defasagens, testou-se o VAR com as defasagens máximas indicadas na tabela e escolheuse o melhor vetor, pelo menor valor dos critérios de Akaike e Schwarz, como indica Gujarati(2011). Considerando as defasagens máximas de 2, 3, 4 e 5, o vetor escolhido sempre foi o de defasagem maior. Considerando um vetor podendo ter defasagem máxima 6 ou 7, o vetor com defasagem 5 mostrou-se mais adequado pelos critérios citados. Pode-se concluir a partir dos testes que, ao nível de 1 % de significância deve-se rejeitar a hipótese nula de que Prêmios não Granger-causam PIB e não rejeitar a Hipótese nula de que PIB não Granger-causam Prêmios. O teste busca encontrar, dentre as duas variáveis testadas, qual precede a outra, e em caso de rejeição das duas hipóteses nulas, considera-se as variáveis como independentes, o que não foi o caso. Assim, entende-se que os prêmios precedem o PIB. O resultado pode ser apoiado pelo exposto por Arena(2006) que mostra que o desenvolvimento do mercado de seguros gera crescimento econômico. 39 6 Considerações finais O trabalho tinha o objetivo de avaliar a relação entre algumas variáveis econômicas e o do mercado brasileiro de seguros, buscando entender a relação entre elas e tentar encontrar um possível modelo de regressão linear que expressasse essa relação. A partir das primeiras análises, das estatísticas descritivas e correlações entre as duas variáveis os modelos inicias, com séries de preços reais e nominais, mostraram-se relevantes, com boa taxa de explicação da variável dependente, mas com possíveis erros de estimação. A partir de correções nas estimações dos modelos iniciais, com os testes de autocorrelação e heterocedasticidade, os modelos se mantiveram com elevado valor do coeficiente de determinação. As variáveis PIB e TAXA DE JUROS, mostraram-se estatisticamente significantes para explicar as variações no nível de prêmios diretos contratados pelo mercado de seguros. Ainda após as correções, os modelos seguintes mostraram que as variações no mercado de seguros eram, em sua maioria, explicadas pelas variáveis apresentadas. Considerando a série do PIB, que se mostrou a variável mais relevante nos modelos que tratam a série de prêmios como variável dependente, optou-se por um teste de causalidade. O teste de causalidade Granger entre a série de prêmios mensais e do PIB mensal mostrou, ao nível de 1% de significância que a série de prêmios precede a série do PIB, indo ao encontro ao exposto por alguns autores citados que testaram o mercado de seguros(a partir dos prêmios) como gerador de crescimento econômico(PIB). Portanto, dentre o objetivo geral proposto, o trabalho apresentou alguns modelos, todos com nível de explicação da variável dependente superior à 85 % e com influência conjunta das variáveis independentes estatisticamente significante. Em geral, pelos números expostos, podese entender que as principais variáveis macroeconômicas que se relacionam com o mercado de seguros foram abordadas e testadas. Este trabalho é um esboço de aplicação do ferramental econométrico ao mercado de seguros. Logo, considera-se esse estudo como um passo, que poderá ser aprimorado através da incorporação de novas variáveis ou uso de outros métodos. 40 Referências [1] ABREU, M. P.; FERNANDES, Felipe T. The insurance industry in Brazil: a long-term view, 2010 [2] ARENA, M. Does Insurance Market Activity Promote Economic Growth? A CrossCountry Study for Industrialized and Developing Countries. World Bank Policy Research Working Paper. 2006. [3] BANCO CENTRAL DO BRASIL.www.bcb.gov.br [4] BECK, T. 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