Ribeiro – Essa relação tem sido muito ruim e no Distrito Federal, comigo, foi péssima. Mas é preciso lembrar que a minha intervenção no Distrito Federal, com o Ministério Público, começou na investigação de erros médicos. Eles se achavam aviltados, ofendidos, porque “onde é que já se viu o promotor de justiça investigar médicos, etc...” Mas, as críticas sempre foram feitas por quem não conhecia a estrutura que nós tínhamos. Fomos assessorados por médicos, muito bem formados, legistas. Porém, a relação hoje é de total respeito dos médicos para com o Ministério Público. Entretanto, a relação dos médicos com o Ministério Público tem sido pior na relação de consumo: o médico, como um prestador de serviço. Os promotores têm visto os médicos, às vezes, como privilegiados reclamando sem razão, principalmente nas queixas sobre remuneração. Experiências recentes envolveram os pediatras, no Distrito Federal, que passaram a não atender mais as consultas por planos de saúde porque, se eu não estou equivocado, os planos de saúde pagavam R$ 12,00 por consulta, e com retorno, R$ 24,00. Então os médicos que atendem em consultórios privados chegaram à conclusão de que, ao fim do mês, se tirassem o aluguel da sala, o salário da secretária, telefone, água, luz, impostos, não sobrava nada. Nós sabemos que a pediatria, em termos de remuneração, é uma área muito limitada, não tem exames complexos, é mais uma consulta clínica, um acompanhamento da criança. Os pediatras estavam em dificuldades. No primeiro momento, o Ministério Público levanta a bandeira de que “atende por bem ou por mal”. Não é esse o caminho, o Ministério Público precisa olhar outros elementos dessa situação. Que é preciso amparar a família que tem uma criança precisando de atendimento médico, eu não discuto. Mas obrigar o médico a fazê-lo sem remuneração devida, em condições impróprias, explorado pelo poderoso mercado dos planos de saúde, não é por aí. É preciso trazer o médico para um diálogo e fortalecer a sua posição na negociação com essas empresas que regem a saúde suplementar. A relação dos médicos com o Ministério Público precisa ser de confiança recíproca. É preciso ouvir o médico e seus reclamos. Se o Ministério Público protege o trabalhador na justiça do trabalho, por tê-lo como parte mais fraca, é preciso entender que, nessas relações, o Ministério Público deve olhar para o médico como a parte mais fraca, não é só o paciente o mais fraco. O diálogo tem que ser melhorado com uma conquista prévia. As relações dos médicos com o Ministério Público devem ser independentes de crise. Porque, na crise, predomina o estado de necessidade: “tem que resolver o problema, sem discussão, o paciente está morrendo”. Essa construção de valores tem que ser permanente, o Ministério Público tem que identificar quem é o seu representante que fala com os médicos. No Distrito Federal, em todas as matérias envolvendo médicos, exceto as de consumidor, os médicos já sabem a quem procurar. E nós temos casos de autodelação. O médico comete um acidente, um erro, e se antecipa: procura o Ministério Público para denunciar que errou; que tentou corrigir, mas a família não aceitou; que quer corrigir, mas não consegue diálogo com a família. E ele pede a intermediação do Ministério Público. Nós damos muito aconselhamento, em questões relacionadas às atividades do médico. Mas, para isso acontecer é preciso ter um interlocutor, porque se o médico vai falar com 500 promotores, ele acaba não falando com ninguém. Brasília tem mais de 300 promotores. O médico não vai falar com os 300. É preciso que cada parte eleja seus representantes, para estabelecer o diálogo. Com esse diálogo permanente vai haver solução, porque as partes vão se conhecer melhor, quando tiverem um embaraço a ser resolvido. Revista do Cremesc – Com relação à bioética como uma área do conhecimento. O que o senhor tem a dizer? Ribeiro – A bioética fez, no ano passado, 40 anos e nesses anos que eu tenho trabalhado - embora tenha me especializado mais na área de bioética médica, numa re- lação mais próxima com o Conselho Federal de Medicina - eu penso que a bioética tem que ser natural na boca das pessoas. Não deve ser algo para doutores. Deve ser algo natural para qualquer pessoa, com noções de autonomia, beneficência, não maleficência. São valores inerentes à essência do ser humano, chega a ser incrível que tenhamos que ter criado a bioética para que isso pudesse ser fortalecido nas relações humanas. A bioética não deve ser um assunto acadêmico, deve ser um assunto da roda do café, da relação patrão-empregado, das conversas dos pais com os filhos. Eu entendo que nos próximos 10 anos, a bioética deva discutir a justiça, mais especificamente, a racionalização dos recursos públicos para a saúde, para atender o maior número possível de doentes, com o mínimo de recursos. Os fóruns de bioética deveriam ter, por exemplo, temas como: doação de órgãos; testamento vital; diretivas antecipadas; adoção; doação de sêmen; aborto. E esses temas deveriam ser discutidos, inclusive, nos ambientes de trabalho, como parte de programas específicos das empresas. Não vejo o crescimento da bioética dentro do ambiente acadêmico porque hoje, as universidades já têm seus grandes nomes nesse assunto, que vão, quando muito, fazer discípulos. O grande papel da bioética será ocupar espaços em reunião de condomínio, assembléias de trabalhadores, para trazer a cultura desse povo à academia, para ouvir a opinião das pessoas. Eu ouço muito, por uma razão muito simples: esses protocolos de bioética passam por mim. Recebo pessoas que querem doar óvulos para reprodução; doar embriões; doar órgãos... Tenho um diálogo que vai desde os grandes acadêmicos até a pessoa mais simples em termos de formação, ou que, muitas vezes, nem alfabetizadas são. Portanto, a bioética deve ir ao povo. Eu tenho ouvido falar em bioética de esquerda, marxista... Bioética é bioética. Nos próximos 40 anos ela deve se tornar um assunto tão popular quanto uma partida de futebol, que todo mundo fala, e que, certa ou errada, todos têm uma opinião a respeito. 5 REVISTA CREMESC