“NÃO PROVOQUE! ELA TOCA ROCK.” DE NORA NEY A CÁSSIA ELLER, A MULHER NA HISTÓRIA DO ROCK BRASILEIRO Aline Rochedo1 Chiquinha Gonzaga era do tempo em que os varões diziam: “Música é coisa para homem”. Dolores Duran era do tempo em que os caras falavam: “Mulher compositora é puta”. Eu sou do tempo em que o clube do Bolinha dizia: “Para fazer rock tem que ter culhão”. Cássia Eller é do tempo em que dizem: “Precisa ser mulher-macho para fazer música igual a homem”. Minha neta será do tempo em que vão dizer: “Só mesmo uma mulher para fazer música tão boa”. Rita Lee2 No processo de consolidação do “rock and roll”, ainda que o talento das mulheres tivesse as mesmas qualidades atribuídas aos homens, dificilmente, salvo algumas exceções, elas alcançaram o mesmo status que seus companheiros de profissão. Predominava a atuação de cantores e compositores, que acentuavam o domínio da figura do homem na esfera artística. O rock é um gênero musical que exige bom desempenho musicista, em especial aos que tocam guitarra, e tal técnica esteve sempre reservado aos homens de forma não democrática. Privilegiava-se a atuação do homem, mesmo que a mulher exercesse a função de musicista tão bem quanto. Este artigo é desdobramento da pesquisa em processo no doutorado sobre o protagonismo das mulheres no rock brasileiro, ao qual proponho situar com respaldos históricos a incursão da mulher no cenário dos rocks, este que ainda parece, 1 Rochedo, Aline do Carmo - Historiadora e poetisa. Doutoranda em História Cultural pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ. Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense-UFF. Pesquisadora vinculada ao Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da UFF. Analisa os gêneros musicais de origem negra no continente americano, com ênfase no rock como música brasileira dos anos 1980, no âmbito da política, economia e sociedade, tendo a história das mulheres e das juventudes como norteadores. Autora do livro Derrubando Reis A Juventude Urbana e o Rock Brasileiro dos anos 1980, Multifoco, 2014. Coautora do livro Visões do Mundo Contemporâneo, São Paulo, 2013 e do livro Não foi tempo perdido os anos 80 em Debate.UFF, Editora 7 Letras- 2015. Atua nas áreas de História, Cultura e Comunicação. E-mail: [email protected] 2 Rita Lee. Apud. SANCHES, Pedro Alexandre. 2001. "Mulheres ficam marginalizadas". In: Caderno Ilustrado da Folha de São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2001. 1 predominantemente, um espaço realizado por homens. Este aspecto é claramente perceptível, tendo a sua história predominantemente a partir do olhar do homem e a construção da memória sobre as mulheres envolvidas apenas as figuras de “backing vocal” ou dançarinas. Grande parte da bibliografia existente sobre a temática configura-se em visibilizar apenas o homem, estando as mulheres confinadas ao silenciamento e à esfera privada. Ainda ressalto que, no breve mapeamento que realizei para a pesquisa, constatei que parcela significativa dessas artistas sofreu algum tipo de violência, seja simbólica ou física, principalmente por meio dos seus companheiros e seus empresários. Na pesquisa em processo, destaco as artistas e bandas consideradas mais expressivas do rock nacional, oriundas das cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Bahia e São Paulo, nas quais o rock adquire influências peculiares. Registrarei um breve panorama do rock internacional, enquanto música da mulher negra e de periferia, os anos 1960-70 e a trajetória do rock nacional, chegando aos anos 1980/1990, recorte temporal da obra. A história do rock na história de muitas mulheres O rock foi criado no sul dos Estados Unidos, no pós Segunda Guerra Mundial. Os estilos que influenciaram o “rhythm and blues” e, consequentemente, o “rock and roll” foram: o “blues” no qual as letras falavam de adversidade, conflitos e, ocasionalmente, celebrações; o “gospel”, que em grande parte foi atuado por mulheres, onde observa-se os diálogos de chamado e resposta, originários dos cantos africanos aos quais também inspirou gestos livres durante as apresentações e o “jump band jazz”, estilo que emergiu no rastro do fim da era das grandes bandas no final da Segunda Guerra Mundial. Essa fusão tornou-se, posteriormente, a base para a primeira era do “rock”, o “rock and roll” clássico. (ROCHEDO. 2014, p 26). O “Gospel”, uma das vertentes em que as mulheres do “rock” tiveram um espaço considerável a partir dos anos 1950, antes de despontarem no mercado da música. Trata-se de um estilo de música religiosa carregada de emoção e de complexidade harmônica. Segundo Paul Friedlander, este estilo tem suas raízes na “igreja invisível” do final do período de escravidão, e “era um formato que incluía palmas, chamado-e-resposta, complexidade rítmica, 2 batidas persistentes, improvisação melódica e acompanhamento com percussão” (Friedlander, 2006). O gospel ainda inspirou gestos corporais recíprocos entre os cantores e o público, neste caso a congregação. Little Richard, sobre o gospel, sinaliza que, “no gospel, você se solta! O piano falava. Os tambores andavam! E quem não entendia, achava que estava num show de rock and roll. O gospel era assim quando eu era menino, não dava pra ficar parado”. (Little Richard. IN. Documentary THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL. 1995) Ruth Brown, que foi uma cantora, compositora e atriz norte-americana, também conhecida como rainha do “rhythm and blues”, em entrevista revela que a influência da musica gospel em sua trajetória, “A música da igreja sempre me influenciou. E até mesmo hoje, continuo achando que há uma diferença muito pequena entre o gospel e o R&B”. Muitas músicas saíram da igreja e foram parar em boates como “Mama He Treats Your Daughter Mean”, que revela em seus versos a relação conflituosa com um homem que a tratava mal. (Ruth Brown. IN. Documentary THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL.1995) Mama, he treats your daughter mean Mama, he treats your daughter mean Mama, he treats your daughter mean He's the meanest man I've ever seen Mama, he treats me badly Makes me love him madly Mama, he takes my money Makes me call him honey Mama, he can't be trusted Makes me so disgusted All of my friends say They don't understand What's the matter with this man I tell you, mama He treats your daughter mean Mama, he treats your daughter mean Mama, he treats your daughter mean He's the mean, meanest man I've ever seen (trecho da canção “Mama He Treats Your Daughter Mean”. 1953. Letra por Ruth Brown) Mama, ele trata sua filha miseravelmente. Mama, ele trata sua filha pessimamente. 3 Ele é o homem mais cruel que eu já vi Mama, ele me trata mal Faz-me amá-lo loucamente Mama, ele leva o meu dinheiro Faz-me chamá-lo de mel Mama, ele não pode ser confiável me deixa enojada Todos os meus amigos dizem Eles não entendem O que se passa com este homem vos digo, mamãe Mama, ele trata sua filha miseravelmente. Mama, ele trata sua filha pessimamente. Ele é o homem mais cruel que eu já vi. (tradução nossa) No início da história do rock, a partir dos anos 1950, a imprensa, assim como os setores mais conservadores da sociedade, o deslegitimaram concebendo a cultura musical “rock and roll” como expressão vulgar, por vezes violenta e pouco expressiva. Tal apatia se deu, principalmente, por estarem diante de uma música negra, contagiante, que envolvia a juventude e estimulava uma ruptura com os padrões moralistas e preconceituosos vigentes. Nesta conjuntura, a mulher que estivesse ligada ao gênero certamente não era bem vista, pois “a reclusão feminina ao espaço doméstico acaba por restringir o acesso das meninas à rua ou aos locais de ócio, espaços privilegiados das culturas juvenis” (MULLER, 2004.p.5). E assim, corroborando para imagem do “rock” como um fenômeno exclusivamente do homem. Neste período, uma parcela da juventude feminina estadunidense, na faixa etária de 14 a 17 anos, estava empregada em tempo integral. Embora subordinadas, o trabalho favorecia uma ruptura ao exigir responsabilidades que não fossem as impostas pela esfera familiar. Ainda não havia um papel claro para este grupo no período, mas é certo que estavam despontando para a maturidade. Muitas jovens enfrentaram a desaprovação da família que defendia o seu ingresso na vida adulta via casamento, caminho tradicional que predominava. Na defesa de sua opção, algumas destas jovens argumentavam serem representantes do poder jovem no país que poderia suprir a falta da presença masculina, 4 Queremos trabalhar, não queremos estar interessadas apenas em “jukeboxes” e coca-cola. Há muito poder no país capaz de compensar a falta de potencial masculino. Os adultos devem nos ajudar a criar um exército voluntário. Os jovens querem uma chance de fazer coisas e de ter empregos e responsabilidade. (ROCHEDO, 2013, p.55) Foi neste contexto, conflituoso para as mulheres, do final da Segunda Guerra Mundial, que o “rock” desponta. Tina Tuner recorda dias de trabalho duro nos campos de algodão e nas noites embaladas pelo sonho de sua carreira musical “Eu odiava colher algodão e limpar! Eu odiava aquela época e foi o que me fez mudar minha vida e optar pela música”. (Tina Turner é o nome artístico de Anna Mae Bullock, é uma cantora, dançarina, autora e atriz de origem norte-americana. Entrevista . Apud THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL. Direção: David R. Axerold: EUA. Wonner Bros Vídeo Filmes, 1995.) No estudo que venho realizando para meu projeto de doutorado sobre o papel das mulheres no início da consolidação do rock nas décadas de 1950-60, em especial as negras, percebe-se que as histórias se confundem diante dos mesmos dilemas. Sendo assim, fez-se necessário para analisar a trajetória do rock no âmbito internacional, desde seu surgimento na década de 1950, nos Estados Unidos, até sua chegada ao final da década de 1950, no Brasil. Existem vários estilos de rock, do mais harmonioso melódico até os mais progressistas e radicais. O gênero propõe a troca, a integração com o conjunto, estimulando o público a sair da convencional passividade. E, desde os seus primeiros anos de vida, aponta para um sentido político que inclui relação de poder e contestação de costumes numa nova forma de relacionamento musical e expressão de direitos. E o rock chega pela voz dela Muitos não sabem, mas foi através de uma mulher que o rock passou a ser conhecido no Brasil. Em novembro de 2014, ao apresentar uma comunicação no seminário em comemoração aos 20 anos do NEC-UFF (Núcleo de Estudos Contemporâneos em História da Universidade Federal Fluminense), fiquei surpresa com a reação do público ao relatar que o rock, no Brasil, ficou conhecido pela voz de uma mulher. Como aconteceu em seu país de 5 origem, os Estados Unidos, o rock foi difundido no cenário musical brasileiro via telas de cinema, através do filme “The Blackboard Jungle” (1955). O filme ficou conhecido como “Sementes da Violência” e obteve tanta repercussão, que reuniu adeptos e versões variadas para a trilha sonora. A primeira delas interpretada por Nora Ney, uma versão da música “Rock Around the Clock”, sucesso do conjunto Bill Harley e seus Cometas também por conta da divulgação. É interessante dizer que a canção de Bill Haley atingiu notoriedade nos EUA, apenas após sua inclusão na abertura do filme. Não tratou propriamente de uma trilha sonora, mas uma abertura com cenas selecionadas tendo a canção como fundo musical. Como narrava, Nora Ney, cantora de jazz e samba-canção, acompanhada do Sexteto Continental, gravou ‘Rock Around The Clock’, em inglês, o primeiro registro de um rock gravado no Brasil em 24 de outubro de 1955. Em um momento particularmente favorável de sua carreira, recebeu inúmeros convites para gravar canções que prometiam estar ligadas à nova onda musical que chegava ao Brasil: o rock. A cantora gravou, em 1955, pela gravadora Continental, a música no período já era um sucesso do conjunto Bill Harley e seus Cometas. A canção foi gravada na letra original, mas o título foi transformado em “Rondas da hora”. Nora Ney, que possuía uma voz expressiva e grave foi convocada pela gravadora devido a dois motivos: a versão brasileira da música não foi aprovada e ela era a única que sabia cantar em Inglês. One, two, three o'clock, four o'clock rock, Five, six, seven o'clock, eight o'clock rock. Nine, ten, eleven o'clock, twelve o'clock rock, We're gonna rock around the clock tonight. Put your glad rags on and join me hon', We'll have some fun when the clock strikes one. We're gonna rock around the clock tonight, We're gonna rock, rock, rock, 'till broad daylight, We're gonna rock we're gonna rock around the clock tonight. When the clock strikes two, three and four, If the band slows down we'll yell for more. When the chimes ring five, six, and seven, We'll be right in seventh heaven. When it's eight, nine, ten, eleven too, I'll be goin' strong and so will you. 6 When the clock strikes twelve we'll cool off then, Start rockin' 'round the clock again. (Rock Around The Clock. 1955) Uma, duas, três, quatro horas de rock, Cinco, seis, sete horas, oito horas de rock. Nove, dez, onze horas, doze horas de rock, Nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite. Ponha seus trapos alegres e aproveite comigo, Teremos diversão quando o relógio bater uma. Nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite, Nós vamos dançar rock, rock, rock, até amanhecer, Nós vamos dançar rock, nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite. Quando o relógio bater duas, três e quatro, Se a banda diminuir vamos gritar por mais. Quando o alarme tocar cinco, seis e sete, Nós estaremos no sétimo céu. Quando for oito, nove, dez, onze também, Estarei forte e você também. Quando o relógio bater doze nós nos acalmaremos então, Começaremos a dançar o rock pelas horas de novo. Ainda em 1955, no Brasil, tais canções eram disputadas como artigos valiosos. Outras gravadoras ficaram extremamente interessadas no novo gênero musical que despontava por conta do sucesso de “Rock around the Clock”. Em dezembro do mesmo ano, a gravadora “Odeon” (atual EMI) lançou uma versão em português do sucesso, de autoria de Júlio Nagib, chamado “Ronda das Horas”, que foi gravada por outra mulher, Heleninha Silveira, cuja carreira, até o momento, tenho poucas informações. A Columbia, atual gravadora Sony Music, também investiu no gênero rock, produzindo outra versão, com o acordeonista Frontera, também lançada em dezembro. As duas gravações não tiveram repercussão porque a juventude se identificou mais com a versão próxima do original que conheceram via cinema, interpretada por Nora Ney. Os primórdios do rock brasileiro remontam também à Celly Campello, uma jovem criada no interior de São Paulo, que teve trajetória meteórica, ao lado de seu irmão Tony Campello. Celly ficou conhecida ao gravar seu primeiro LP, aos quinze anos, e manteve um programa de rádio no qual cantava desde os doze. Tornou-se conhecida nas grandes cidades brasileiras, no final dos anos 1950, ao gravar versões de rocks americanos, como “Banho de 7 lua”, de 1958, e “Estúpido Cupido”, de 1959. (ROCHEDO, p.22) O profissionalismo, no entanto, não dispensava as mulheres das obrigações sociais como também não minimizou as cobranças coletivas. Celly Campello é um exemplo desta pressão social, ao abandonar o rock para se dedicar ao casamento. O primeiro grande sucesso de Celly Campelo foi a versão da canção "Stupid Cupid", de Neil Sedaka e Howard Greenfield . No período, Neil Sedaka, fez grande sucesso com a canção, gravada também por Patsy Cline, Connie Francis, Wanda Jackson, Teresa Brewer dentre outras cantoras. Apesar de ser da autoria de homem, a canção retratava o universo da mulher, mostrando a relação de rompimento com o amor idealizado, romantizado, no qual a mulher era sempre a figura passiva frente ao posicionamento do homem. A versão brasileira não conseguiu ser fiel ao conteúdo original, mas chegou próximo. A música “Estúpido Cupido” fez tanto sucesso que uma parcela significativa de pessoas creditam à Celly Campello às primeiras versões do rock no Brasil. Isso se comprova pelo título de “Rainha do Rock” (o rei era Sergio Murillo) recebido em 1962 pela Revista do Rock, número 19º. Oh! oh! Cupido! Vê se deixa em paz (Oh! oh! Cupido!) Meu coração que já não pode amar (Oh! oh! Cupido!) Eu amei há muito tempo atrás (Oh! Oh, Cupido!) Já cansei de tanto soluçar (Oh! Oh, Cupido!) Hey, hey, é o fim Oh, oh, cupido! Vá longe de mim (Oh! Oh, Cupido!) Eu dei meu coração a um belo rapaz (Oh! oh! Cupido!) Que prometeu me amar e me fazer feliz (Oh! oh! Cupido!) Porém, ele me passou pra trás (Oh! Oh, Cupido!) Meu beijo recusou e meu amor não quis (Oh! Oh, Cupido!) 8 Hey, hey, é o fim Oh, oh, cupido! Vá longe de mim (Oh! Oh, Cupido!) Não fira um coração cansado de chorar A flecha do amor só trás angústia e a dor (Oh! Oh, Cupido!) Mas, seu cupido, o meu coração (Oh! oh! Cupido!) Não quer saber de mais uma paixão (Oh! Oh, Cupido!) Por favor, vê se me deixa em paz (Oh! Oh, Cupido!) Meu pobre coração já não aguenta mais (Oh! Oh, Cupido!) Hey, hey, é o fim Oh, oh, cupido! Vá longe de mim. No auge do sucesso, Celly decidiu encerrar a carreira para se casar e se despediu dos discos com outro sucesso, a canção “Canário”, em dueto com o irmão Tony Campello. A canção, uma versão de Fred Jorge para “Yellow Bird”, de Norman Lubolf, Marilyn Keith e Alan Bergman, marcou em 1962 a despedida da primeira rainha do rock brasileiro. Pouco depois da passagem de Celly Campello, na primeira metade dos anos 1960, surge o fenômeno da Jovem Guarda, nome derivado de um programa de TV dominical, que divulgava os artistas jovens. Celly chegou a ser convidada para apresentar o Jovem Guarda com Roberto Carlos, mas manteve-se firme com a ideia de se dedicar ao matrimônio. A linguagem própria, que foi chamada de “iê-iê-iê”, atingiu repercussão entre a juventude, e se fez por meio de seu lançamento no programa de música jovem de mesmo nome, “Jovem Guarda”, exibido pela Rede Record, entre 1965 e 1968. O programa, nas tardes de domingo, era apresentado pelo trio Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléa, a “Ternurinha” como era chamada. Wanderléia chocava o público conservador ao se apresentar vestida com roupas ousadas, minissaias e ainda sendo a suposta namorada de Roberto e Erasmo. A cantora Wanderléia lembra que, 9 Foram lançados uma série de produtos em expansão no marketing dentro da Jovem Guarda: revistinhas, roupas, papel de carta (...). Foi grande o momento de expansão da moda jovem no país porque o que antecedeu a nós era uma roupa criada pelos pais, era a mãe quem escolhia aquilo que o jovem iria usar. Eu me senti muito envolvida com a coisa de criar e projetar moda de uma maneira muito espontânea. (ROCHEDO, 2014.p 41.) Eram muitos os conflitos que as mulheres do período enfrentavam por estarem quebrando os “tabus” de uma sociedade conservadora e ao inserirem-se no meio artístico. Além das questões sociais, no auge da fama, Wanderléia ainda precisou lidar com questões de cunho pessoal como o choque de ver seu noivo, José Ricardo, ficar paraplégico. Ao recordar sobre a relação de parceria com Roberto e Erasmo Carlos no programa dominical dos anos 1960, a artista declara que, Eles eram machistas e ainda são! Como todo homem brasileiro, né? Por mais que as coisas mudem e eles sejam descolados, você pega umas coisas machistas neles. Na época da jovem guarda, o Erasmo adorava as minhas roupas modernas, dizia até que queria uma namorada que se vestisse daquele jeito. Já o Roberto ficava muito preocupado com o tamanho do meu decote. Quando eu namorava o filho do Chacrinha (Zé Renato, com quem ficou por sete anos), ele também ficava preocupado com o meu decote. Era uma coisa de pensar: “Ah, não vai ficar bem”. Mas não vai ficar bem de acordo com a cabeça deles, né? Porque todo mundo adorava. (Wanderléia em entrevista a Nina Lemos a o em 12.03.2009/ Revista TPM /Uol) Dentre as músicas interpretadas por Wanderléia, “Pare o casamento” uma versão da canção “Stop The Wedding”, lançado em 1963, de Fred Johnson, Leroy Kirkland e Pearl Woods, interpretado pela cantora estadunidense Etta James. A versão brasileira atingiu tanto sucesso que recebeu várias regravações em períodos posteriores aos anos 1960. Neste caso, a tradução é fiel a letra original, mas o ritmo da música é alterado na versão brasileira, que ao invés de manter o blues, investe na aceleração rítmica própria do rock. Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora! Senhor juiz eu quero saber, sem esse amor o que vou fazer, Pois se o senhor esse homem casar, morta de tristeza sei que vou ficar. 10 Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora Senhor juiz esse casamento, será pra mim todo meu tormento, Não faça isto peço, por favor, pois minha alegria vive desse amor. Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora! Senhor juiz, eu sei que o senhor é bonzinho, por favor, Ele é tudo que eu amo, é tudo que eu quero, E eu estou certa de que ele também me quer. Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora Por favor, não me deixe sofre assim senhor juiz, Escute-me isto não se faz, todo mundo sabe que eu amo esse rapaz. Ainda na década de 1960, outra mulher surgia no cenário do rock brasileiro, Rita Lee Jones Carvalho, a Rita Lee. Influenciada pelos Beatles, no início de 1964, durante um dos shows no Teatro João Caetano, com a participação de conjuntos de vários colégios, Rita Lee formou seu primeiro grupo musical, formado apenas por mulheres e conheceu os colegas que futuramente seriam seus companheiros de profissão Arnaldo e Sérgio Baptista. Em 1962, com catorze anos, Rita formou com três meninas do Liceu Pasteur um conjunto vocal, o “Teen Ager Sisters” (na verdade, “Teenage Singers”), que só cantava música folclórica americana. Eram todas muito louras como Rita, e por isso os amigos apelidaram o conjunto de "rataria branquela". Duas delas, uma inglesa e outra suíça, voltaram aos seus países um ano depois. Rita ficou sem o conjunto: restara apenas sua colega paulista Sueli, hoje também cantora.3 Em fins de 1966, Arnaldo após várias tentativas com integrantes variados para o grupo, decidiu formar um conjunto de apenas três integrantes, ele, Sérgio e Rita. Os três tocavam instrumentos variados e os três cantavam. Formaram então, com guitarra, baixo, flauta ou pandeiro, um trio sem nome. Era o embrião de Os Mutantes. Em 15 de outubro de 1966, Os Mutantes fizeram sua primeira apresentação, na noite de estreia do programa, de “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, na TV Record. O Pequeno 3 Entrevista publicada pela revista Realidade, em 1969. Talvez, a primeira grande matéria com os Mutantes, que no período haviam lançado o segundo LP, depois de participar dos polêmicos festivais da Record. O texto é assinado pelo jornalista Dirceu Soares. 11 Mundo de Ronnie Von", de 1966, foi um programa apresentado por Ronnie Von no qual este interpretava um personagem baseado no livro O pequeno príncipe. A partir daí ficou conhecido como "O pequeno príncipe", apelido que o acompanhou durante alguns anos, como uma forma de comparação ao apelido de "rei" dado a Roberto Carlos. A mídia na época tinha criado um clima de rivalidade entre os programas dos respectivos cantores. O trio era a grande novidade musical do programa. Causou impacto imediato com a versão para duas guitarras, no qual Rita tocou a segunda, e baixo elétrico. Além de transitar por vários programas da TV Record, o trio também começou a ser convidado a fazer aparições em outras emissoras. (CALADO, 1995.p.66) No período, o destaque para música acorria através dos Festivais da Canção, transmitidos pela TV Record. Com a apresentação do grupo em outubro de 1968, Gilberto Gil e Caetano Veloso perceberam que a atuação dos Mutantes com a canção “Domingo no Parque” não foi a de um conjunto acompanhante de Gil “o trio trazia informações novas, que interferiram diretamente no futuro grupo tropicalista”. (CALADO,1995, p.70) Rita, Arnaldo e Sérgio tinham um jeito diferente de se vestir, de falar e de se comportar. Pareciam jovens ingleses da geração Beatles. Um dos diferenciais em relação aos baianos, que olhavam o universo do rock de fora, os Mutantes passavam a impressão de viverem dentro daquele mundo. A saída de Os Mutantes, em 1972, exauriu Rita Lee. Ao lado de Arnaldo Baptista, viveu tempos intensos numa relação amorosa, que chegavam ao fim após quatro discos com a banda e dois solos. Segundo a própria Rita Lee, ela teria sido "convidada a deixar" os Mutantes porque não teria habilidades musicais para acompanhar a banda em sua nova direção, rumo ao “Rock Progressivo”4: Fui expulsa dos Mutantes. Um comunicado tipo 'você não tem o virtuosismo para instrumentos e não sei o quê, então você está fora'. Foi então a facada no coração da Virgem Maria, ela segurou a pose e falou 'legal'. Pegou os “instrumentinhos” dela e foi embora num Jeep. Na primeira esquina eu desabei, doeu muito, doeu muito. Eu chorei tanto, xinguei tanto. E eis-me 4 Rock progressivo é uma vertente do rock que surgiu no fim da década de 1960, na Inglaterra. Tornou-se muito popular na década de 1970. A vertente é marcada por composições longas, com harmonia e melodias complexas. 12 aqui achando hoje que foi um presente dos deuses ter sido expulsa dos Mutantes. Eu me mandei e me dei bem, cara!5 A canção “Luz del Fuego” expressa, em parte, o problema a qual a artista passou. Composta por Rita Lee em 1976, a canção é uma homenagem a Dora Vivacqua uma bailarina, naturista e feminista brasileira que muito ousou com suas ideias para o período e que, por vingança, foi assassinada em 1967 por dois homens. O caso não foi bem esclarecido no período e não se sabe as penalidades impostas aos criminosos. O movimento feminista brasileiro tem respeito e valoriza a história de Luz del Fuego, esta que na década de 1950 já lutava pela liberdade da mulher, sendo muito conhecida por uma frase que dizia: "daqui a 50 anos serei lembrada”. Nesta canção, Rita Lee sintetiza a problemática da mulher que ao conquistar seu espaço na sociedade é considerada louca, ou mesmo precisa se declarar como louca. Nesse sentido, a “loucura” representa a coragem que as mulheres enfrentam diariamente para conquistarem espaços que são vinculados aos homens social e historicamente. Eu hoje represento a loucura Mais o que você quiser Tudo que você vê sair da boca De uma grande mulher Porém louca! Eu hoje represento o segredo Enrolado no papel Como Luz Del Fuego Não tinha medo Ela também foi pro céu, cedo! Eu hoje represento uma fruta Pode ser até maçã Não, não é pecado, Só um convite Venha me ver amanhã Mesmo! 5 Rita Lee em entrevista concedida em outubro de 2006 ao programa Fantástico, da TV Globo Disponível em whiplash.net/materias/news_906/045460-ritalee.html 13 Amanhã! Amanhã! Amanhã!... Eu hoje represento o folclore Enrustido no metrô Da grande cidade que está com pressa De saber onde eu vou Sem essa! Eu hoje represento a cigarra Que ainda vai cantar Nesse formigueiro quem tem ouvidos Vai poder escutar Meu grito! Eu hoje represento a pergunta Na barriga da mamãe E quem morre hoje, nasce um dia Pra viver amanhã E sempre Amanhã.6 Em relação às técnicas musicistas, as atribuições ao ato de tocar um instrumento, que supostamente requer potência, força, “pegada forte”, resistência física e poder são relacionadas às características presentes no rock mais comumente ligadas ao ideal da “masculinidade”, do homem (JACQUES. 2017). Enquanto que sensibilidade, suavidade, afetividade, são características associadas à mulher, as quais não são bem assimiladas neste gênero musical. Supostamente, por este motivo, a atuação das mulheres nem sempre foi bem vista pelos adeptos do rock, considerando a presença delas inferior. Ela canta rock e conquista seu espaço A partir dos anos 1980, a grande influência do rock brasileiro vem do movimento “punk”, anglo-americano e suas derivações surgidas em meados dos anos 1970, denominadas pós-punk ou “new wave” O movimento exerceu grande influência sobre os jovens da geração de 1980, pois propõe a composição de uma música por acordes simples, sem a necessidade de grandes aparatos e virtuosismo, característicos do rock progressivo. O punk trouxe as questões do cotidiano social em suas letras carregadas de críticas à opressão do capitalismo 6 Apesar de tratar-se de uma composição de 1975 , quando penso na canção eu considero a interpretação de Cássia Eller e Rita Lee, de 1998 no "Acústico MTV - Rita Lee. 14 foi apropriado por muitas mulheres, em especial as operárias. No período, grupos de mulheres no movimento punk e new wave, ganharam destaque, mas ainda sendo lembradas como coadjuvante. As mulheres que formam as bandas de rock efetivamente corroboraram para a conquista de seu espaço enquanto artistas, no cotidiano brasileiro, por meios midiáticos, que despontaram em especial na década de 1980. Nesta década, por exemplo, os movimentos feministas embarcam na luta contra a violência às mulheres e pelo princípio de que os gêneros são diferentes, mas não desiguais. Em 1985 é criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), subordinada ao Ministério da Justiça, com objetivo de eliminar a discriminação e aumentar a participação feminina nas atividades políticas econômicas e culturais como: o direito universal à educação, saúde, benefícios e contribuições previdenciárias; a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos; o reconhecimento do direito das mulheres sobre a gestação, com acesso de qualidade à concepção e/ou contracepção; a descriminalização do aborto como um direito de cidadania e questão de saúde pública. Essas são apenas algumas questões discutidas nos anos 1980. A canção “Cor de Rosa Choque” composta por Rita Lee, lançada em 1982, um prenúncio do que a década nos traria. Nas duas faces de Eva A bela e a fera Um certo sorriso De quem nada quer... Sexo frágil Não foge à luta E nem só de cama Vive a mulher... Por isso não provoque É Cor de Rosa Choque Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Não provoque! É Cor de Rosa Choque Não provoque! É Cor de Rosa Choque Por isso não provoque É Cor de Rosa Choque... 15 Mulher é bicho esquisito Todo o mês sangra Um sexto sentido Maior que a razão Gata borralheira Você é princesa Dondoca é uma espécie Em extinção... Por isso não provoque É Cor de Rosa Choque Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Não provoque! É Cor de Rosa Choque Não provoque! É Cor de Rosa Choque Por isso não provoque É Cor de Rosa Choque Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Não provoque! É Cor de Rosa Choque Não provoque! É Cor de Rosa Choque! A participação da mulher no rock abriu espaço para o surgimento de uma nova categoria musical, o rock interpretado e composto por elas, assim como a promoção de eventos musicais específicos. Esses dados demonstram que a participação das mulheres nesse processo é intensa. No final dos anos 1980, uma das cantoras que se destaca sobre tais percepções mostrando que as mulheres roqueiras “ameaçaram” ou “desafiaram” a exclusividade do homem nesse cenário é Cássia Eller7. Para a cantora Zélia Ducan, Ela provocou muitos pensamentos, muitos discursos e muitas reflexões. É uma utilidade que vai além da música. De repente aquela mulher, que era chamada de ‘macho’, que coçava o saco e mostrava os peitos, aparece grávida. Isso mexeu com a cabeça das pessoas e induziu reflexões.8 7 Cássia Rejane Eller, foi uma cantora do rock brasileiro que despontou anos 1990. Incorporou, no Brasil, a música clássica ao rock. Foi eleita a décima oitava maior Voz da música brasileira, pela revista Rolling Stone. 8 Zélia Ducan, cantora e compositora brasileira. IN. Documentário Cássia Eller, 2015. 16 Ao acompanhar as conquistas e avanços na história da mulher, paralelamente à das mulheres roqueiras a partir dos anos 1980, podemos dizer que houve um dos maiores avanços na questão dos direitos civis para famílias brasileiras formadas por casais do mesmo sexo, se visualizarmos o percurso da disputa judicial que envolveu a guarda de Chicão, filho da cantora Cássia Eller a partir do ano de 2001, ano de sua partida.9 A guarda foi destinada à sua companheira Maria Eugênia, contrariando as condições legais desfavoráveis no cenário do período, ao qual a união homossexual não era reconhecida em lei. O episódio marca a primeira vez na história da Justiça brasileira onde a tutela de uma criança foi entregue à companheira da mãe: O juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude do Rio, Leonardo Castro Gomes, concedeu guarda provisória de Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, 8, filho de Cássia Eller, a Maria Eugênia Vieira Martins, companheira da cantora nos últimos 14 anos. Gomes concedeu uma liminar ao pedido de tutela apresentado pelos advogados Marcos Campuzano e Alessandra Barroso. Caso o parecer favorável a Eugênia seja mantido, ela ficará com a guarda de Chicão até ele completar 21 anos. Será também tutora dos bens que ele herdar. (Folha de São Paulo, quarta-feira, 09 de janeiro de 2002) Considero a canção “1° de julho” uma música que retrata o legado deixado por Cássia e seu perfil de artista. Renato Russo compôs a música para Cassia Eller, que no período estava grávida. Eu vejo o que aprendi E o quanto te ensinei E é nos teus braços que ele vai saber Não há por que voltar Não penso em te seguir Não quero mais a tua insensatez O que fazes sem pensar aprendeste do olhar E das palavras que eu guardei pra ti Não penso em me vingar Não sou assim A tua insegurança era por mim Não basta o compromisso Vale mais o coração Já que não me entendes, não me julgues 9 Cássia Eller faleceu aos 39 anos, no dia 29 de dezembro de 2001, após sofrer três paradas cardíacas. 17 Não me tentes O que sabes fazer agora Veio tudo de nossas horas Eu não minto, eu não sou assim Ninguém sabia e ninguém viu Que eu estava ao teu lado então Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher Sou minha mãe e minha filha, Minha irmã, minha menina Mas sou minha, só minha e não de quem quiser Sou Deus do 'adeus' a meu amor Alguma coisa aconteceu Do ventre nasce um novo coração Não penso em me vingar Não sou assim A tua insegurança era por mim Não basta o compromisso Vale mais o coração Ninguém sabia, ninguém viu Que eu estava ao teu lado então Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher Sou minha mãe e minha filha, Minha irmã, minha menina Mas sou minha, só minha e não de quem quiser Sou Deus do 'adeus' a meu amor Baby, baby, baby, baby O que fazes por sonhar É o mundo que virá pra ti e para mim Vamos descobrir o mundo juntos baby Quero aprender com o teu pequeno grande coração Meu amor, meu amor. (1° de julho. Composição Renato Russo, 1994) A visualização da época é necessária para contextualizar o momento histórico em que as mulheres e suas bandas estavam inseridas, fato que influenciou a maneira como as letras das músicas eram criadas, interpretada, como se configuraram e quais questões enfrentaram. Significa dirigir a temática para um sentido político que inclui relação de poder e contestação de costumes numa nova forma de relacionamento musical e expressão de direitos. 18 Para esta comunicação não foi possível estender o registro, mas ressalto que, além das artistas citadas até aqui, falarei sobre as demais que despontaram neste universo, como Baby Brasil, Vange Leonel, Marina Lima, Pitty, a banda Sempre Livre, dentre outras que tiveram uma expressão a nível nacional, como gravação de LPs, CDs, participação de eventos e composições. As mulheres roqueiras que formam as bandas efetivamente corroboraram para a inserção do gênero no cotidiano, através de meios midiáticos de grande circulação e os autônomos e underground, que também estavam despontando. Algumas considerações A linguagem musical do rock feito por mulheres não pode ser compreendida sem considerarmos o contexto histórico e social em que circundam e as peculiaridades de suas protagonistas. Nessa perspectiva, a análise de uma música e sua letra considerará a história pessoal da artista, a relação da música com a sociedade no contexto da época, os padrões e valores contemporâneos e sua herança rítmica. Dirigir-se pelo estudo do papel da mulher roqueira na perspectiva da histórica contemporânea e compreendê-la em seu tempo e lugar na sociedade é um desafio que poderá servir de matriz para análises em outras temáticas relacionadas à mulher. Relatar suas experiências, fazendo ouvir as suas vozes, muitas vezes confinadas ao silenciamento e à esfera privada é inserir a participação das mulheres na história do rock. Neste papel, a dignidade, a força, a coragem e os valores marcados pela pluralidade específica, faz-nos reconhecer sua trajetória diferente da experiência do homem. Trata-se de uma relação de poder, conflituoso para elas e favorável para eles. Ressalto que, no processo de consolidação deste gênero musical, as mulheres estiveram presentes, desempenharam papéis importantes: foram compositoras, “band líders”, musicistas, enfim, a presença das mulheres na cena do rock não é algo recente. Desconstruindo a história do rock feita majoritariamente por homens, Elas, desde o início estiveram atuantes e construíram, com os homens, este estilo/gênero musical. E continuam 19 atuando como condutoras de transformações significativas para este universo musical, que transcende para a atuação na sociedade. Saudações roqueiras! Referências bibliográficas ABRAMO, Helena Wendel. “Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano”. São Paulo: Scritta, 1994 ABREU, Martha & SOIHET, Rachel (orgs.). Ensino de História, conceitos, temáticas e metodologias. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003. BURNS, Mila. Nasci para sonhar e cantar: Gênero, projeto e mediação na trajetória de Dona Ivone Lara. Record , Rio de Janeiro, 2009 CALADO, Carlos. A Divina Comédia dos Mutantes. São Paulo: Editora 34, 1995. CHACON, Paulo. O que é Rock. São Paulo: Nova Cultural, Brasiliense. 1983. CORRÊA, Tupã G. Rock, nos Passos da Moda. Mídia: Consumo X Mercado. Campinas, Papirus. 1989. DUBY, Georges e PERROT, Michelle. (orgs.) Escrever a História das Mulheres. In: THÉBAUD, Françoise. História das Mulheres no Ocidente. O século XX. Porto, Edições Afrontamento, 1995, p.07. FRIEDLANDER, Paul. (2006) Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006. HOBSBAWN. Eric. História social do jazz. Editora Paz e Terra, 6ª edição, 2008 JACQUES, Tatyana de Alencar. Comunidade Rock e bandas independentes de Florianópolis: uma etnografia sobre socialidade e concepções musicais. 2007. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Universidade Federal de Santa Catarina. 2007. MORIN, Edgar. Cultura de Massa no Século XX: O Espírito do Tempo. Necrose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1986. 20 MOTTA, Nelson. Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 MULLER, Elaine. Juventude e algumas questões e relações de gênero, 2004. MURGEL, Ana Carolina Arruda de Toledo. “Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti: produção musical feminina na Vanguarda Paulista”. Campinas, SP : [s. n.], 2005. PASSERINI, Luisa. “A juventude, metáfora da mudança social. Dois debates sobre jovens: a Itália fascista e os Estados Unidos da década de 1950.” in: LEVI, Giovanni e SCHMITT, Jean-Claude (orgs). História dos Jovens. A época contemporânea. São Paulo. Cia das Letras, 1996, pp.. 319-382. PERROT , Michelle; PAIRE, Alain (Orgs.). Une histoire des femmes est-ce elle possible? Paris/Marseille: Éditions Rivages, 1984. PUJOL, Sergio. Rock y Dictadura. Crónica de uma generación. Ed. Booket. Argentina, 2007. ROCHEDO, Aline. Derrubando Reis, A juventude urbana e o rock brasileiro nos anos 1980. Editora Multifoco. Rio de Janeiro, 2014. ___________________. (2013) “História e juventudes no século XX” in Visões do Mundo Contemporâneo. Editora L.P Books. São Paulo, 2013 SALAS. Fabio.El grito del amor- Una actualizada historia temática del rock. Ed. Coleccion entre Mares. Chile, 1998. SHAPIRO, Harry. História del rock y las drogas. Ed. Robinbook, Barcelona, 2006. SOIHET, Rachel. História das Mulheres” In: CARDOSO, Ciro Flamarion.; VAINFAS, Ronaldo.(Orgs.). Domínios da História. Rio de Janeiro: Editora Campus. 1997. FONTES: A) Imagens em movimento: DVD Documentário: 40 ANOS DE ROCK BRASIL - JOVEM GUARDA. Direção: J.C. Marinho: Brasil. Emi Music. 2009. 2 filmes (229 min.) DVD Documentário: THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL. Direção: David R. Axerold: EUA. Wonner Bros Vídeo Filmes, 1995. 5 filmes (121 min. cada) 21 B) Discografia Ruth Brown, Mama He Treats Your Daughter Mean, Gravação 1955 Nora Ney “Rock around the clock”, Gravadora Continental, 1955. Celly Campello, 78 RPM n.º 14.434 de 03/1959 - The Secret / Estúpido Cupido, Gravadora Odeon, 1958. Rita Lee, álbum “Fruto Proibido”, Gravadora Estúdio Eldorado, 1975. __________________. “Rita Lee e Roberto de Carvalho”, Gravadora Estúdio SIGLA, 1982. Cássia Eller, álbum Acústico MTV, 2001. 22