“NÃO PROVOQUE! ELA TOCA ROCK.”
DE NORA NEY A CÁSSIA ELLER, A MULHER NA HISTÓRIA DO ROCK
BRASILEIRO
Aline Rochedo1
Chiquinha Gonzaga era do tempo em que os varões diziam: “Música é coisa
para homem”. Dolores Duran era do tempo em que os caras falavam:
“Mulher compositora é puta”. Eu sou do tempo em que o clube do Bolinha
dizia: “Para fazer rock tem que ter culhão”. Cássia Eller é do tempo em que
dizem: “Precisa ser mulher-macho para fazer música igual a homem”.
Minha neta será do tempo em que vão dizer: “Só mesmo uma mulher para
fazer música tão boa”. Rita Lee2
No processo de consolidação do “rock and roll”, ainda que o talento das mulheres
tivesse as mesmas qualidades atribuídas aos homens, dificilmente, salvo algumas exceções,
elas alcançaram o mesmo status que seus companheiros de profissão. Predominava a atuação
de cantores e compositores, que acentuavam o domínio da figura do homem na esfera
artística. O rock é um gênero musical que exige bom desempenho musicista, em especial aos
que tocam guitarra, e tal técnica esteve sempre reservado aos homens de forma não
democrática. Privilegiava-se a atuação do homem, mesmo que a mulher exercesse a função de
musicista tão bem quanto.
Este artigo é desdobramento da pesquisa em processo no doutorado sobre o
protagonismo das mulheres no rock brasileiro, ao qual proponho situar com respaldos
históricos a incursão da mulher no cenário dos rocks, este que ainda parece,
1
Rochedo, Aline do Carmo - Historiadora e poetisa. Doutoranda em História Cultural pela Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ. Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense-UFF.
Pesquisadora vinculada ao Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da UFF. Analisa os gêneros musicais de
origem negra no continente americano, com ênfase no rock como música brasileira dos anos 1980, no âmbito da
política, economia e sociedade, tendo a história das mulheres e das juventudes como norteadores. Autora do livro
Derrubando Reis A Juventude Urbana e o Rock Brasileiro dos anos 1980, Multifoco, 2014. Coautora do livro
Visões do Mundo Contemporâneo, São Paulo, 2013 e do livro Não foi tempo perdido os anos 80 em Debate.UFF, Editora 7 Letras- 2015. Atua nas áreas de História, Cultura e Comunicação. E-mail:
[email protected]
2
Rita Lee. Apud. SANCHES, Pedro Alexandre. 2001. "Mulheres ficam marginalizadas". In: Caderno Ilustrado
da Folha de São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2001.
1
predominantemente, um espaço realizado por homens. Este aspecto é claramente perceptível,
tendo a sua história predominantemente a partir do olhar do homem e a construção da
memória sobre as mulheres envolvidas apenas as figuras de “backing vocal” ou dançarinas.
Grande parte da bibliografia existente sobre a temática configura-se em visibilizar
apenas o homem, estando as mulheres confinadas ao silenciamento e à esfera privada. Ainda
ressalto que, no breve mapeamento que realizei para a pesquisa, constatei que parcela
significativa dessas artistas sofreu algum tipo de violência, seja simbólica ou física,
principalmente por meio dos seus companheiros e seus empresários.
Na pesquisa em processo, destaco as artistas e bandas consideradas mais expressivas
do rock nacional, oriundas das cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Bahia e São Paulo, nas
quais o rock adquire influências peculiares. Registrarei um breve panorama do rock
internacional, enquanto música da mulher negra e de periferia, os anos 1960-70 e a trajetória
do rock nacional, chegando aos anos 1980/1990, recorte temporal da obra.
A história do rock na história de muitas mulheres
O rock foi criado no sul dos Estados Unidos, no pós Segunda Guerra Mundial. Os
estilos que influenciaram o “rhythm and blues” e, consequentemente, o “rock and roll” foram:
o “blues” no qual as letras falavam de adversidade, conflitos e, ocasionalmente, celebrações; o
“gospel”, que em grande parte foi atuado por mulheres, onde observa-se os diálogos de
chamado e resposta, originários dos cantos africanos aos quais também inspirou gestos livres
durante as apresentações e o “jump band jazz”, estilo que emergiu no rastro do fim da era das
grandes bandas no final da Segunda Guerra Mundial. Essa fusão tornou-se, posteriormente, a
base para a primeira era do “rock”, o “rock and roll” clássico. (ROCHEDO. 2014, p 26).
O “Gospel”, uma das vertentes em que as mulheres do “rock” tiveram um espaço
considerável a partir dos anos 1950, antes de despontarem no mercado da música. Trata-se de
um estilo de música religiosa carregada de emoção e de complexidade harmônica. Segundo
Paul Friedlander, este estilo tem suas raízes na “igreja invisível” do final do período de
escravidão, e “era um formato que incluía palmas, chamado-e-resposta, complexidade rítmica,
2
batidas persistentes, improvisação melódica e acompanhamento com percussão” (Friedlander,
2006). O gospel ainda inspirou gestos corporais recíprocos entre os cantores e o público,
neste caso a congregação. Little Richard, sobre o gospel, sinaliza que, “no gospel, você se
solta! O piano falava. Os tambores andavam! E quem não entendia, achava que estava num
show de rock and roll. O gospel era assim quando eu era menino, não dava pra ficar parado”.
(Little Richard. IN. Documentary THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL. 1995)
Ruth Brown, que foi uma cantora, compositora e atriz norte-americana, também
conhecida como rainha do “rhythm and blues”, em entrevista revela que a influência da
musica gospel em sua trajetória, “A música da igreja sempre me influenciou. E até mesmo
hoje, continuo achando que há uma diferença muito pequena entre o gospel e o R&B”. Muitas
músicas saíram da igreja e foram parar em boates como “Mama He Treats Your Daughter
Mean”, que revela em seus versos a relação conflituosa com um homem que a tratava mal.
(Ruth Brown. IN. Documentary THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL.1995)
Mama, he treats your daughter mean
Mama, he treats your daughter mean
Mama, he treats your daughter mean
He's the meanest man I've ever seen
Mama, he treats me badly
Makes me love him madly
Mama, he takes my money
Makes me call him honey
Mama, he can't be trusted
Makes me so disgusted
All of my friends say
They don't understand
What's the matter with this man
I tell you, mama
He treats your daughter mean
Mama, he treats your daughter mean
Mama, he treats your daughter mean
He's the mean, meanest man I've ever seen (trecho da canção “Mama He
Treats Your Daughter Mean”. 1953. Letra por Ruth Brown)
Mama, ele trata sua filha miseravelmente.
Mama, ele trata sua filha pessimamente.
3
Ele é o homem mais cruel que eu já vi
Mama, ele me trata mal
Faz-me amá-lo loucamente
Mama, ele leva o meu dinheiro
Faz-me chamá-lo de mel
Mama, ele não pode ser confiável
me deixa enojada
Todos os meus amigos dizem
Eles não entendem
O que se passa com este homem
vos digo, mamãe
Mama, ele trata sua filha miseravelmente.
Mama, ele trata sua filha pessimamente.
Ele é o homem mais cruel que eu já vi. (tradução nossa)
No início da história do rock, a partir dos anos 1950, a imprensa, assim como os
setores mais conservadores da sociedade, o deslegitimaram concebendo a cultura musical
“rock and roll” como expressão vulgar, por vezes violenta e pouco expressiva. Tal apatia se
deu, principalmente, por estarem diante de uma música negra, contagiante, que envolvia a
juventude e estimulava uma ruptura com os padrões moralistas e preconceituosos vigentes.
Nesta conjuntura, a mulher que estivesse ligada ao gênero certamente não era bem vista, pois
“a reclusão feminina ao espaço doméstico acaba por restringir o acesso das meninas à rua ou
aos locais de ócio, espaços privilegiados das culturas juvenis” (MULLER, 2004.p.5). E assim,
corroborando para imagem do “rock” como um fenômeno exclusivamente do homem.
Neste período, uma parcela da juventude feminina estadunidense, na faixa etária de 14
a 17 anos, estava empregada em tempo integral. Embora subordinadas, o trabalho favorecia
uma ruptura ao exigir responsabilidades que não fossem as impostas pela esfera familiar.
Ainda não havia um papel claro para este grupo no período, mas é certo que estavam
despontando para a maturidade. Muitas jovens enfrentaram a desaprovação da família que
defendia o seu ingresso na vida adulta via casamento, caminho tradicional que predominava.
Na defesa de sua opção, algumas destas jovens argumentavam serem representantes do poder
jovem no país que poderia suprir a falta da presença masculina,
4
Queremos trabalhar, não queremos estar interessadas apenas em
“jukeboxes” e coca-cola. Há muito poder no país capaz de compensar a
falta de potencial masculino. Os adultos devem nos ajudar a criar um
exército voluntário. Os jovens querem uma chance de fazer coisas e de ter
empregos e responsabilidade. (ROCHEDO, 2013, p.55)
Foi neste contexto, conflituoso para as mulheres, do final da Segunda Guerra Mundial,
que o “rock” desponta. Tina Tuner recorda dias de trabalho duro nos campos de algodão e nas
noites embaladas pelo sonho de sua carreira musical “Eu odiava colher algodão e limpar! Eu
odiava aquela época e foi o que me fez mudar minha vida e optar pela música”. (Tina Turner
é o nome artístico de Anna Mae Bullock, é uma cantora, dançarina, autora e atriz de origem
norte-americana. Entrevista . Apud THE HISTORY OF ROCK ‘N’ ROLL. Direção: David R.
Axerold: EUA. Wonner Bros Vídeo Filmes, 1995.)
No estudo que venho realizando para meu projeto de doutorado sobre o papel das
mulheres no início da consolidação do rock nas décadas de 1950-60, em especial as negras,
percebe-se que as histórias se confundem diante dos mesmos dilemas. Sendo assim, fez-se
necessário para analisar a trajetória do rock no âmbito internacional, desde seu surgimento na
década de 1950, nos Estados Unidos, até sua chegada ao final da década de 1950, no Brasil.
Existem vários estilos de rock, do mais harmonioso melódico até os mais progressistas
e radicais. O gênero propõe a troca, a integração com o conjunto, estimulando o público a sair
da convencional passividade. E, desde os seus primeiros anos de vida, aponta para um sentido
político que inclui relação de poder e contestação de costumes numa nova forma de
relacionamento musical e expressão de direitos.
E o rock chega pela voz dela
Muitos não sabem, mas foi através de uma mulher que o rock passou a ser conhecido
no Brasil. Em novembro de 2014, ao apresentar uma comunicação no seminário em
comemoração aos 20 anos do NEC-UFF (Núcleo de Estudos Contemporâneos em História da
Universidade Federal Fluminense), fiquei surpresa com a reação do público ao relatar que o
rock, no Brasil, ficou conhecido pela voz de uma mulher. Como aconteceu em seu país de
5
origem, os Estados Unidos, o rock foi difundido no cenário musical brasileiro via telas de
cinema, através do filme “The Blackboard Jungle” (1955). O filme ficou conhecido como
“Sementes da Violência” e obteve tanta repercussão, que reuniu adeptos e versões variadas
para a trilha sonora. A primeira delas interpretada por Nora Ney, uma versão da música
“Rock Around the Clock”, sucesso do conjunto Bill Harley e seus Cometas também por conta
da divulgação. É interessante dizer que a canção de Bill Haley atingiu notoriedade nos EUA,
apenas após sua inclusão na abertura do filme. Não tratou propriamente de uma trilha sonora,
mas uma abertura com cenas selecionadas tendo a canção como fundo musical.
Como narrava, Nora Ney, cantora de jazz e samba-canção, acompanhada do Sexteto
Continental, gravou ‘Rock Around The Clock’, em inglês, o primeiro registro de um rock
gravado no Brasil em 24 de outubro de 1955. Em um momento particularmente favorável de
sua carreira, recebeu inúmeros convites para gravar canções que prometiam estar ligadas à
nova onda musical que chegava ao Brasil: o rock. A cantora gravou, em 1955, pela gravadora
Continental, a música no período já era um sucesso do conjunto Bill Harley e seus Cometas.
A canção foi gravada na letra original, mas o título foi transformado em “Rondas da hora”.
Nora Ney, que possuía uma voz expressiva e grave foi convocada pela gravadora devido a
dois motivos: a versão brasileira da música não foi aprovada e ela era a única que sabia cantar
em Inglês.
One, two, three o'clock, four o'clock rock,
Five, six, seven o'clock, eight o'clock rock.
Nine, ten, eleven o'clock, twelve o'clock rock,
We're gonna rock around the clock tonight.
Put your glad rags on and join me hon',
We'll have some fun when the clock strikes one.
We're gonna rock around the clock tonight,
We're gonna rock, rock, rock, 'till broad daylight,
We're gonna rock we're gonna rock around the clock tonight.
When the clock strikes two, three and four,
If the band slows down we'll yell for more.
When the chimes ring five, six, and seven,
We'll be right in seventh heaven.
When it's eight, nine, ten, eleven too,
I'll be goin' strong and so will you.
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When the clock strikes twelve we'll cool off then,
Start rockin' 'round the clock again. (Rock Around The Clock. 1955)
Uma, duas, três, quatro horas de rock,
Cinco, seis, sete horas, oito horas de rock.
Nove, dez, onze horas, doze horas de rock,
Nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite.
Ponha seus trapos alegres e aproveite comigo,
Teremos diversão quando o relógio bater uma.
Nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite,
Nós vamos dançar rock, rock, rock, até amanhecer,
Nós vamos dançar rock, nós vamos dançar rock pelas horas hoje à noite.
Quando o relógio bater duas, três e quatro,
Se a banda diminuir vamos gritar por mais.
Quando o alarme tocar cinco, seis e sete,
Nós estaremos no sétimo céu.
Quando for oito, nove, dez, onze também,
Estarei forte e você também.
Quando o relógio bater doze nós nos acalmaremos então,
Começaremos a dançar o rock pelas horas de novo.
Ainda em 1955, no Brasil, tais canções eram disputadas como artigos valiosos. Outras
gravadoras ficaram extremamente interessadas no novo gênero musical que despontava por
conta do sucesso de “Rock around the Clock”. Em dezembro do mesmo ano, a gravadora
“Odeon” (atual EMI) lançou uma versão em português do sucesso, de autoria de Júlio Nagib,
chamado “Ronda das Horas”, que foi gravada por outra mulher, Heleninha Silveira, cuja
carreira, até o momento, tenho poucas informações. A Columbia, atual gravadora Sony
Music, também investiu no gênero rock, produzindo outra versão, com o acordeonista
Frontera, também lançada em dezembro. As duas gravações não tiveram repercussão porque a
juventude se identificou mais com a versão próxima do original que conheceram via cinema,
interpretada por Nora Ney.
Os primórdios do rock brasileiro remontam também à Celly Campello, uma jovem
criada no interior de São Paulo, que teve trajetória meteórica, ao lado de seu irmão Tony
Campello. Celly ficou conhecida ao gravar seu primeiro LP, aos quinze anos, e manteve um
programa de rádio no qual cantava desde os doze. Tornou-se conhecida nas grandes cidades
brasileiras, no final dos anos 1950, ao gravar versões de rocks americanos, como “Banho de
7
lua”, de 1958, e “Estúpido Cupido”, de 1959. (ROCHEDO, p.22) O profissionalismo, no
entanto, não dispensava as mulheres das obrigações sociais como também não minimizou as
cobranças coletivas. Celly Campello é um exemplo desta pressão social, ao abandonar o rock
para se dedicar ao casamento.
O primeiro grande sucesso de Celly Campelo foi a versão da canção "Stupid Cupid",
de Neil Sedaka e Howard Greenfield . No período, Neil Sedaka, fez grande sucesso com a
canção, gravada também por Patsy Cline, Connie Francis, Wanda Jackson, Teresa Brewer
dentre outras cantoras. Apesar de ser da autoria de homem, a canção retratava o universo da
mulher, mostrando a relação de rompimento com o amor idealizado, romantizado, no qual a
mulher era sempre a figura passiva frente ao posicionamento do homem. A versão brasileira
não conseguiu ser fiel ao conteúdo original, mas chegou próximo. A música “Estúpido
Cupido” fez tanto sucesso que uma parcela significativa de pessoas creditam à Celly
Campello às primeiras versões do rock no Brasil. Isso se comprova pelo título de “Rainha do
Rock” (o rei era Sergio Murillo) recebido em 1962 pela Revista do Rock, número 19º.
Oh! oh! Cupido!
Vê se deixa em paz
(Oh! oh! Cupido!)
Meu coração que já não pode amar
(Oh! oh! Cupido!)
Eu amei há muito tempo atrás
(Oh! Oh, Cupido!)
Já cansei de tanto soluçar
(Oh! Oh, Cupido!)
Hey, hey, é o fim
Oh, oh, cupido!
Vá longe de mim
(Oh! Oh, Cupido!)
Eu dei meu coração a um belo rapaz
(Oh! oh! Cupido!)
Que prometeu me amar e me fazer feliz
(Oh! oh! Cupido!)
Porém, ele me passou pra trás
(Oh! Oh, Cupido!)
Meu beijo recusou e meu amor não quis
(Oh! Oh, Cupido!)
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Hey, hey, é o fim
Oh, oh, cupido!
Vá longe de mim
(Oh! Oh, Cupido!)
Não fira um coração cansado de chorar
A flecha do amor só trás angústia e a dor
(Oh! Oh, Cupido!)
Mas, seu cupido, o meu coração
(Oh! oh! Cupido!)
Não quer saber de mais uma paixão
(Oh! Oh, Cupido!)
Por favor, vê se me deixa em paz
(Oh! Oh, Cupido!)
Meu pobre coração já não aguenta mais
(Oh! Oh, Cupido!)
Hey, hey, é o fim
Oh, oh, cupido!
Vá longe de mim.
No auge do sucesso, Celly decidiu encerrar a carreira para se casar e se despediu dos
discos com outro sucesso, a canção “Canário”, em dueto com o irmão Tony Campello. A
canção, uma versão de Fred Jorge para “Yellow Bird”, de Norman Lubolf, Marilyn Keith e
Alan Bergman, marcou em 1962 a despedida da primeira rainha do rock brasileiro.
Pouco depois da passagem de Celly Campello, na primeira metade dos anos 1960,
surge o fenômeno da Jovem Guarda, nome derivado de um programa de TV dominical, que
divulgava os artistas jovens. Celly chegou a ser convidada para apresentar o Jovem Guarda
com Roberto Carlos, mas manteve-se firme com a ideia de se dedicar ao matrimônio.
A linguagem própria, que foi chamada de “iê-iê-iê”, atingiu repercussão entre a
juventude, e se fez por meio de seu lançamento no programa de música jovem de mesmo
nome, “Jovem Guarda”, exibido pela Rede Record, entre 1965 e 1968. O programa, nas tardes
de domingo, era apresentado pelo trio Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléa, a
“Ternurinha” como era chamada. Wanderléia chocava o público conservador ao se apresentar
vestida com roupas ousadas, minissaias e ainda sendo a suposta namorada de Roberto e
Erasmo. A cantora Wanderléia lembra que,
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Foram lançados uma série de produtos em expansão no marketing dentro da
Jovem Guarda: revistinhas, roupas, papel de carta (...). Foi grande o
momento de expansão da moda jovem no país porque o que antecedeu a nós
era uma roupa criada pelos pais, era a mãe quem escolhia aquilo que o
jovem iria usar. Eu me senti muito envolvida com a coisa de criar e projetar
moda de uma maneira muito espontânea. (ROCHEDO, 2014.p 41.)
Eram muitos os conflitos que as mulheres do período enfrentavam por estarem
quebrando os “tabus” de uma sociedade conservadora e ao inserirem-se no meio artístico.
Além das questões sociais, no auge da fama, Wanderléia ainda precisou lidar com questões de
cunho pessoal como o choque de ver seu noivo, José Ricardo, ficar paraplégico. Ao recordar
sobre a relação de parceria com Roberto e Erasmo Carlos no programa dominical dos anos
1960, a artista declara que,
Eles eram machistas e ainda são! Como todo homem brasileiro, né? Por
mais que as coisas mudem e eles sejam descolados, você pega umas coisas
machistas neles. Na época da jovem guarda, o Erasmo adorava as minhas
roupas modernas, dizia até que queria uma namorada que se vestisse
daquele jeito. Já o Roberto ficava muito preocupado com o tamanho do meu
decote. Quando eu namorava o filho do Chacrinha (Zé Renato, com quem
ficou por sete anos), ele também ficava preocupado com o meu decote. Era
uma coisa de pensar: “Ah, não vai ficar bem”. Mas não vai ficar bem de
acordo com a cabeça deles, né? Porque todo mundo adorava. (Wanderléia
em entrevista a Nina Lemos a o em 12.03.2009/ Revista TPM /Uol)
Dentre as músicas interpretadas por Wanderléia, “Pare o casamento” uma versão da
canção “Stop The Wedding”, lançado em 1963, de Fred Johnson, Leroy Kirkland e Pearl
Woods, interpretado pela cantora estadunidense Etta James. A versão brasileira atingiu tanto
sucesso que recebeu várias regravações em períodos posteriores aos anos 1960. Neste caso, a
tradução é fiel a letra original, mas o ritmo da música é alterado na versão brasileira, que ao
invés de manter o blues, investe na aceleração rítmica própria do rock.
Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora!
Senhor juiz eu quero saber, sem esse amor o que vou fazer,
Pois se o senhor esse homem casar, morta de tristeza sei que vou ficar.
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Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora
Senhor juiz esse casamento, será pra mim todo meu tormento,
Não faça isto peço, por favor, pois minha alegria vive desse amor.
Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora!
Senhor juiz, eu sei que o senhor é bonzinho, por favor,
Ele é tudo que eu amo, é tudo que eu quero,
E eu estou certa de que ele também me quer.
Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora
Por favor, pare agora, senhor juiz, pare agora
Por favor, não me deixe sofre assim senhor juiz,
Escute-me isto não se faz, todo mundo sabe que eu amo esse rapaz.
Ainda na década de 1960, outra mulher surgia no cenário do rock brasileiro, Rita Lee
Jones Carvalho, a Rita Lee. Influenciada pelos Beatles, no início de 1964, durante um dos
shows no Teatro João Caetano, com a participação de conjuntos de vários colégios, Rita Lee
formou seu primeiro grupo musical, formado apenas por mulheres e conheceu os colegas que
futuramente seriam seus companheiros de profissão Arnaldo e Sérgio Baptista.
Em 1962, com catorze anos, Rita formou com três meninas do Liceu Pasteur
um conjunto vocal, o “Teen Ager Sisters” (na verdade, “Teenage Singers”),
que só cantava música folclórica americana. Eram todas muito louras como
Rita, e por isso os amigos apelidaram o conjunto de "rataria branquela".
Duas delas, uma inglesa e outra suíça, voltaram aos seus países um ano
depois. Rita ficou sem o conjunto: restara apenas sua colega paulista Sueli,
hoje também cantora.3
Em fins de 1966, Arnaldo após várias tentativas com integrantes variados para o
grupo, decidiu formar um conjunto de apenas três integrantes, ele, Sérgio e Rita. Os três
tocavam instrumentos variados e os três cantavam. Formaram então, com guitarra, baixo,
flauta ou pandeiro, um trio sem nome. Era o embrião de Os Mutantes.
Em 15 de outubro de 1966, Os Mutantes fizeram sua primeira apresentação, na noite
de estreia do programa, de “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, na TV Record. O Pequeno
3
Entrevista publicada pela revista Realidade, em 1969. Talvez, a primeira grande matéria com os Mutantes, que
no período haviam lançado o segundo LP, depois de participar dos polêmicos festivais da Record. O texto é
assinado pelo jornalista Dirceu Soares.
11
Mundo de Ronnie Von", de 1966, foi um programa apresentado por Ronnie Von no qual este
interpretava um personagem baseado no livro O pequeno príncipe. A partir daí ficou
conhecido como "O pequeno príncipe", apelido que o acompanhou durante alguns anos, como
uma forma de comparação ao apelido de "rei" dado a Roberto Carlos. A mídia na época tinha
criado um clima de rivalidade entre os programas dos respectivos cantores. O trio era a grande
novidade musical do programa. Causou impacto imediato com a versão para duas guitarras,
no qual Rita tocou a segunda, e baixo elétrico. Além de transitar por vários programas da TV
Record, o trio também começou a ser convidado a fazer aparições em outras emissoras.
(CALADO, 1995.p.66)
No período, o destaque para música acorria através dos Festivais da Canção,
transmitidos pela TV Record. Com a apresentação do grupo em outubro de 1968, Gilberto Gil
e Caetano Veloso perceberam que a atuação dos Mutantes com a canção “Domingo no
Parque” não foi a de um conjunto acompanhante de Gil “o trio trazia informações novas, que
interferiram diretamente no futuro grupo tropicalista”. (CALADO,1995, p.70)
Rita, Arnaldo e Sérgio tinham um jeito diferente de se vestir, de falar e de se
comportar. Pareciam jovens ingleses da geração Beatles. Um dos diferenciais em relação aos
baianos, que olhavam o universo do rock de fora, os Mutantes passavam a impressão de
viverem dentro daquele mundo.
A saída de Os Mutantes, em 1972, exauriu Rita Lee. Ao lado de Arnaldo Baptista,
viveu tempos intensos numa relação amorosa, que chegavam ao fim após quatro discos com a
banda e dois solos. Segundo a própria Rita Lee, ela teria sido "convidada a deixar" os
Mutantes porque não teria habilidades musicais para acompanhar a banda em sua nova
direção, rumo ao “Rock Progressivo”4:
Fui expulsa dos Mutantes. Um comunicado tipo 'você não tem o virtuosismo
para instrumentos e não sei o quê, então você está fora'. Foi então a facada
no coração da Virgem Maria, ela segurou a pose e falou 'legal'. Pegou os
“instrumentinhos” dela e foi embora num Jeep. Na primeira esquina eu
desabei, doeu muito, doeu muito. Eu chorei tanto, xinguei tanto. E eis-me
4
Rock progressivo é uma vertente do rock que surgiu no fim da década de 1960, na Inglaterra. Tornou-se muito
popular na década de 1970. A vertente é marcada por composições longas, com harmonia e melodias complexas.
12
aqui achando hoje que foi um presente dos deuses ter sido expulsa dos
Mutantes. Eu me mandei e me dei bem, cara!5
A canção “Luz del Fuego” expressa, em parte, o problema a qual a artista passou.
Composta por Rita Lee em 1976, a canção é uma homenagem a Dora Vivacqua uma bailarina,
naturista e feminista brasileira que muito ousou com suas ideias para o período e que, por
vingança, foi assassinada em 1967 por dois homens. O caso não foi bem esclarecido no
período e não se sabe as penalidades impostas aos criminosos. O movimento feminista
brasileiro tem respeito e valoriza a história de Luz del Fuego, esta que na década de 1950 já
lutava pela liberdade da mulher, sendo muito conhecida por uma frase que dizia: "daqui a 50
anos serei lembrada”. Nesta canção, Rita Lee sintetiza a problemática da mulher que ao
conquistar seu espaço na sociedade é considerada louca, ou mesmo precisa se declarar como
louca. Nesse sentido, a “loucura” representa a coragem que as mulheres enfrentam
diariamente para conquistarem espaços que são vinculados aos homens social e
historicamente.
Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!
Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como Luz Del Fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo!
Eu hoje represento uma fruta
Pode ser até maçã
Não, não é pecado,
Só um convite
Venha me ver amanhã
Mesmo!
5
Rita Lee em entrevista concedida em outubro de 2006 ao programa Fantástico, da TV Globo
Disponível em whiplash.net/materias/news_906/045460-ritalee.html
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Amanhã! Amanhã! Amanhã!...
Eu hoje represento o folclore
Enrustido no metrô
Da grande cidade que está com pressa
De saber onde eu vou
Sem essa!
Eu hoje represento a cigarra
Que ainda vai cantar
Nesse formigueiro quem tem ouvidos
Vai poder escutar
Meu grito!
Eu hoje represento a pergunta
Na barriga da mamãe
E quem morre hoje, nasce um dia
Pra viver amanhã
E sempre
Amanhã.6
Em relação às técnicas musicistas, as atribuições ao ato de tocar um instrumento, que
supostamente requer potência, força, “pegada forte”, resistência física e poder são
relacionadas às características presentes no rock mais comumente ligadas ao ideal da
“masculinidade”, do homem (JACQUES. 2017). Enquanto que sensibilidade, suavidade,
afetividade, são características associadas à mulher, as quais não são bem assimiladas neste
gênero musical. Supostamente, por este motivo, a atuação das mulheres nem sempre foi bem
vista pelos adeptos do rock, considerando a presença delas inferior.
Ela canta rock e conquista seu espaço
A partir dos anos 1980, a grande influência do rock brasileiro vem do movimento
“punk”, anglo-americano e suas derivações surgidas em meados dos anos 1970, denominadas
pós-punk ou “new wave” O movimento exerceu grande influência sobre os jovens da geração
de 1980, pois propõe a composição de uma música por acordes simples, sem a necessidade de
grandes aparatos e virtuosismo, característicos do rock progressivo. O punk trouxe as
questões do cotidiano social em suas letras carregadas de críticas à opressão do capitalismo
6
Apesar de tratar-se de uma composição de 1975 , quando penso na canção eu considero a interpretação de
Cássia Eller e Rita Lee, de 1998 no "Acústico MTV - Rita Lee.
14
foi apropriado por muitas mulheres, em especial as operárias. No período, grupos de mulheres
no movimento punk e new wave, ganharam destaque, mas ainda sendo lembradas como
coadjuvante.
As mulheres que formam as bandas de rock efetivamente corroboraram para a
conquista de seu espaço enquanto artistas, no cotidiano brasileiro, por meios midiáticos, que
despontaram em especial na década de 1980. Nesta década, por exemplo, os movimentos
feministas embarcam na luta contra a violência às mulheres e pelo princípio de que os gêneros
são diferentes, mas não desiguais. Em 1985 é criado o Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher (CNDM), subordinada ao Ministério da Justiça, com objetivo de eliminar a
discriminação e aumentar a participação feminina nas atividades políticas econômicas e
culturais como: o direito universal à educação, saúde, benefícios e contribuições
previdenciárias; a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos; o reconhecimento do direito das
mulheres sobre a gestação, com acesso de qualidade à concepção e/ou contracepção; a
descriminalização do aborto como um direito de cidadania e questão de saúde pública.
Essas são apenas algumas questões discutidas nos anos 1980. A canção “Cor de Rosa
Choque” composta por Rita Lee, lançada em 1982, um prenúncio do que a década nos traria.
Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso
De quem nada quer...
Sexo frágil
Não foge à luta
E nem só de cama
Vive a mulher...
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque...
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Mulher é bicho esquisito
Todo o mês sangra
Um sexto sentido
Maior que a razão
Gata borralheira
Você é princesa
Dondoca é uma espécie
Em extinção...
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque!
A participação da mulher no rock abriu espaço para o surgimento de uma nova
categoria musical, o rock interpretado e composto por elas, assim como a promoção de
eventos musicais específicos. Esses dados demonstram que a participação das mulheres nesse
processo é intensa. No final dos anos 1980, uma das cantoras que se destaca sobre tais
percepções mostrando que as mulheres roqueiras “ameaçaram” ou “desafiaram” a
exclusividade do homem nesse cenário é Cássia Eller7. Para a cantora Zélia Ducan,
Ela provocou muitos pensamentos, muitos discursos e muitas reflexões. É
uma utilidade que vai além da música. De repente aquela mulher, que era
chamada de ‘macho’, que coçava o saco e mostrava os peitos, aparece
grávida. Isso mexeu com a cabeça das pessoas e induziu reflexões.8
7
Cássia Rejane Eller, foi uma cantora do rock brasileiro que despontou anos 1990. Incorporou, no Brasil, a
música clássica ao rock. Foi eleita a décima oitava maior Voz da música brasileira, pela revista Rolling Stone.
8
Zélia Ducan, cantora e compositora brasileira. IN. Documentário Cássia Eller, 2015.
16
Ao acompanhar as conquistas e avanços na história da mulher, paralelamente à das
mulheres roqueiras a partir dos anos 1980, podemos dizer que houve um dos maiores avanços
na questão dos direitos civis para famílias brasileiras formadas por casais do mesmo sexo, se
visualizarmos o percurso da disputa judicial que envolveu a guarda de Chicão, filho da
cantora Cássia Eller a partir do ano de 2001, ano de sua partida.9 A guarda foi destinada à sua
companheira Maria Eugênia, contrariando as condições legais desfavoráveis no cenário do
período, ao qual a união homossexual não era reconhecida em lei. O episódio marca a
primeira vez na história da Justiça brasileira onde a tutela de uma criança foi entregue à
companheira da mãe:
O juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude do Rio, Leonardo Castro Gomes,
concedeu guarda provisória de Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, 8, filho
de Cássia Eller, a Maria Eugênia Vieira Martins, companheira da cantora
nos últimos 14 anos. Gomes concedeu uma liminar ao pedido de tutela
apresentado pelos advogados Marcos Campuzano e Alessandra Barroso.
Caso o parecer favorável a Eugênia seja mantido, ela ficará com a guarda
de Chicão até ele completar 21 anos. Será também tutora dos bens que ele
herdar. (Folha de São Paulo, quarta-feira, 09 de janeiro de 2002)
Considero a canção “1° de julho” uma música que retrata o legado deixado por Cássia
e seu perfil de artista. Renato Russo compôs a música para Cassia Eller, que no período estava
grávida.
Eu vejo o que aprendi
E o quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que eu guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues
9
Cássia Eller faleceu aos 39 anos, no dia 29 de dezembro de 2001, após sofrer três paradas cardíacas.
17
Não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus do 'adeus' a meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Ninguém sabia, ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus do 'adeus' a meu amor
Baby, baby, baby, baby
O que fazes por sonhar
É o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor.
(1° de julho. Composição Renato Russo, 1994)
A visualização da época é necessária para contextualizar o momento histórico em que
as mulheres e suas bandas estavam inseridas, fato que influenciou a maneira como as letras
das músicas eram criadas, interpretada, como se configuraram e quais questões enfrentaram.
Significa dirigir a temática para um sentido político que inclui relação de poder e contestação
de costumes numa nova forma de relacionamento musical e expressão de direitos.
18
Para esta comunicação não foi possível estender o registro, mas ressalto que, além das
artistas citadas até aqui, falarei sobre as demais que despontaram neste universo, como Baby
Brasil, Vange Leonel, Marina Lima, Pitty, a banda Sempre Livre, dentre outras que tiveram
uma expressão a nível nacional, como gravação de LPs, CDs, participação de eventos e
composições.
As mulheres roqueiras que formam as bandas efetivamente corroboraram para a
inserção do gênero no cotidiano, através de meios midiáticos de grande circulação e os
autônomos e underground, que também estavam despontando.
Algumas considerações
A linguagem musical do rock feito por mulheres não pode ser compreendida sem
considerarmos o contexto histórico e social em que circundam e as peculiaridades de suas
protagonistas. Nessa perspectiva, a análise de uma música e sua letra considerará a história
pessoal da artista, a relação da música com a sociedade no contexto da época, os padrões e
valores contemporâneos e sua herança rítmica.
Dirigir-se pelo estudo do papel da mulher roqueira na perspectiva da histórica
contemporânea e compreendê-la em seu tempo e lugar na sociedade é um desafio que poderá
servir de matriz para análises em outras temáticas relacionadas à mulher. Relatar suas
experiências, fazendo ouvir as suas vozes, muitas vezes confinadas ao silenciamento e à
esfera privada é inserir a participação das mulheres na história do rock. Neste papel, a
dignidade, a força, a coragem e os valores marcados pela pluralidade específica, faz-nos
reconhecer sua trajetória diferente da experiência do homem. Trata-se de uma relação de
poder, conflituoso para elas e favorável para eles.
Ressalto que, no processo de consolidação deste gênero musical, as mulheres
estiveram presentes, desempenharam papéis importantes: foram compositoras, “band líders”,
musicistas, enfim, a presença das mulheres na cena do rock não é algo recente.
Desconstruindo a história do rock feita majoritariamente por homens, Elas, desde o início
estiveram atuantes e construíram, com os homens, este estilo/gênero musical. E continuam
19
atuando como condutoras de transformações significativas para este universo musical, que
transcende para a atuação na sociedade. Saudações roqueiras!
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Ruth Brown, Mama He Treats Your Daughter Mean, Gravação 1955
Nora Ney “Rock around the clock”, Gravadora Continental, 1955.
Celly Campello, 78 RPM n.º 14.434 de 03/1959 - The Secret / Estúpido Cupido, Gravadora
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Rita Lee, álbum “Fruto Proibido”, Gravadora Estúdio Eldorado, 1975.
__________________. “Rita Lee e Roberto de Carvalho”, Gravadora Estúdio SIGLA, 1982.
Cássia Eller, álbum Acústico MTV, 2001.
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NÃO PROVOQUE! ELA TOCA ROCK. - II Congresso Internacional