II SEMINÁRIO DE DIREITO PARA JORNALISTAS - 30.08.2000 O INGRESSO NA MAGISTRATURA JUIZ WAGNER JUNQUEIRA PRADO TJDFT Em primeiro lugar, boa noite a todos. É um prazer falar em um seminário promovido pelo Poder Judiciário para os jornalistas, porque sabemos que uma democracia se constrói com um Judiciário forte e com uma impressa livre e independente. Com relação às garantias da magistratura, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que ingressar na magistratura não é muito fácil. Todos estamos acostumados a ver concursos públicos em que os candidatos fazem a prova. Se saem bem, passam; se saem mal, não passam, o resultado vem rápido. Na magistratura não é bem assim. Fui submetido a um concurso público que se iniciou no começo do ano de 1999 e terminou com a posse em quatorze de abril desse ano. O concurso durou pouco mais de um ano. Durante esse período de um ano, mais de mil e cem candidatos, um número próximo a esse, foram submetidos a diversas provas, a diversas fases, a diversos tipos de avaliação. O concurso geralmente, em Brasília é assim também, inicia-se com uma prova objetiva de cem questões em que apenas os candidatos que conseguirem uma margem de acerto superior a cinqüenta por cento prosseguem no concurso. Um ou dois meses depois, há uma outra prova discursiva, com perguntas das mais diferentes áreas jurídicas. Aqui, no Distrito Federal, especificamente, são três dias de provas subjetivas em que, além das dissertações a respeito dos temas jurídicos de sete ddisciplinas principais, também é exigida uma sentença de cada área, no total de três. Os candidatos mais uma vez aprovados nessa fase, que não foram muitos, se não me engano foram mais de trinta que passaram pela segunda fase, também foram submetidos a uma avaliação psicotécnica e, logo depois, veio a última fase, que foi a prova oral, ocorrida no início deste ano. Nessa prova oral, fomos argüidos por uma comissão de diversos examinadores a respeito das sete matérias principais do concurso, duas provas de cada matéria, para ser exato, porque existe um relator e um revisor de cada matéria, sendo que qualquer um deles, isoladamente, poderia reprovar o candidato. Pois bem, no final disso tudo, não sei, talvez o Desembargador Mario Machado possa informar quantas vagas deveriam ser preenchidas com esse concurso, mas sei que somente dezessete candidatos foram aprovados no final. Desses dezessete candidatos, apenas dezesseis assumiram. Então, vejam os senhores que, para se mentalizar a possibilidade de ser magistrado, há algumas coisas fundamentais, sem as quais não se consegue atingir o objetivo: primeiro, tempo para estudar, muito tempo para estudar. Particularmente, sempre tirei, depois de formado, sete anos para estudar. Então, não é uma atitude rápida e isolada sair da faculdade e dizer: "amanhã vou fazer um concurso e ser aprovado e vou exercer o meu cargo". Os senhores estão se formando ou já se formaram para uma profissão. Se estiver errado, corrijam-me, mas, quando vocês saem da faculdade, estão habilitados a exercer qualquer das atividades inerentes ao jornalismo. Com o bacharel em Direito não é assim. Você sai da faculdade e é apenas bacharel em Direito, nada além disso. Se você é advogado, você tem que se submeter a um exame de Ordem, uma espécie de concurso que a OAB promove em que somente os aprovados podem advogar. Se você quer ser delegado, promotor de justiça ou magistrado, você realmente vai ter que fazer um outro concurso público, o que geralmente você leva alguns anos, depois de formado, para se preparar devidamente. Então, queria apenas demonstrar aos senhores toda essa dificuldade, para tentar explicar a necessidade que vejo nas garantias do exercício da magistratura. Para você chegar a exercer um cargo de promotor, de juiz, você tem que sacrificar muitas coisas, muitas atividades da sua vida que, se você não tivesse as mínimas garantias depois de chegar ao cargo, talvez você pensasse duas ou três vezes antes de se candidatar a um concurso desses. Não só pela responsabilidade da função, que é muito grande. Um juiz de Direito, um magistrado, sempre estará desagradando as pessoas. Sempre um processo tem, no mínimo, duas partes e geralmente o juiz vai desagradar pelo menos uma delas com uma decisão dele ao final, quando não desagradar as duas, o que também acontece. Então, as garantias para o exercício da magistratura são importantes nesse aspecto. Você saber que você não vai poder sofrer qualquer tipo de interferência punitiva na sua atuação. O principal objetivo é esse. Antes de ser magistrado aqui no Distrito Federal, fui promotor de justiça em Goiás por quase cinco anos. Então, não é de hoje a minha experiência com as garantias da magistratura, que são as mesmas garantias dos promotores de justiça. Posso dizer aos senhores que algumas das atitudes que tomei como promotor de justiça em comarcas no interior desagradaram algumas pessoas importantes das cidades em que atuei. Isso é natural, porque o promotor de justiça vai investigar improbidade administrativa de agentes municipais, como prefeitos e vereadores, propor ações civis públicas, por exemplo, para impedir danos ao meio ambiente, o que envolve geralmente grandes empresas com grande poder econômico e com muita representação política. Não foi nem uma nem duas vezes que houve alguma tentativa de cerceamento da minha atuação na qualidade de promotor de justiça nesse sentido. Provavelmente não fui transferido de comarca pela garantia da inamovibilidade, porque, se não existisse, certamente teria sido transferido muitas vezes, porque, particularmente, considero ter sido um promotor de justiça bastante atuante Pois é o que está acontecendo agora, nós estamos na iminência de ver aprovada uma reforma judiciária que cria um controle externo para o Poder e confesso aos senhores que não sou contra o controle externo, mas o problema que vejo é que o controle externo que está sendo criado é um controle político. Nós já assistimos algumas vezes, é muito comum, por exemplo, algum deputado ou senador ser acusado de alguma coisa e, às vezes, eles abrem um processo administrativo contra (eles?) e já aconteceram diversas ações. Agora, vejam os senhores, esse controle é político, só que é exercido pelo próprio Poder, como um controle interno, interno da Diretoria do Congresso Nacional, da Câmara Legislativa, da Assembléia Legislativa ou da Câmara de Vereadores. Agora, o que está se impondo à magistratura é um controle externo, mas político. Um controle que visa, primordialmente, a controlar atitudes dos magistrados. Isso é lógico que vai, de alguma forma, interferir na independência dos juizes, na medida em que eles não terão mais assegurado o direito da vitaliciedade, que é o direito que você tem de somente perder o cargo por uma sentença judicial transitada em julgado, ou seja, somente por decisão do próprio Poder Judiciário, depois de um processo regular, em que você tem direito a ampla defesa. Agora vai haver também uma forma administrativa de afastá-lo do cargo. Ora, os senhores sabem melhor do que eu que magistrados independentes, promotores independentes desagradam muita gente importante, é natural. Isso acontece justamente pela isenção que esses profissionais têm, e não é raro um juiz decidir contra o Governo; não é raro um promotor de justiça processar o Governo, mas não é também desejável pela classe detentora do poder político, isso é uma coisa natural. Estamos agora assistindo a própria imprensa comentando bastante a atuação que está sendo muito criticada de alguns procuradores. Isso, por si só, já vai forçar essas pessoas a pensarem na sua forma de atuação. Se está certo ou se não está. Agora, a partir do momento em que um Conselho Administrativo tem poderes para extirpar esta pessoa do serviço público, se hoje ele já pensa se sua atuação está condizente, está correta, ele vai pensar muito mais. Não quero dizer aos senhores nem insinuar que os promotores ou juizes vão se acovardar se for aprovada a "lei da mordaça", se for aprovada a reforma judiciária, não é isso, longe de mim querer dizer isso. Mas é como disse aos senhores, um Poder Judiciário forte é um pilar essencial à democracia, e espero que a democracia brasileira continue existindo. Vejo muitos rostos jovens na platéia, talvez muitos dos senhores não tenham pego a época da ditadura militar, mas houve uma época no Brasil, em que se decidia qual música podia tocar e qual música não podia ser tocada na rádio; qual notícia poderia ser publicada e qual notícia não poderia ser publicada. Foi um cerceamento que houve à atividade jornalística. Hoje, assistimos o país evoluindo consideravelmente no sentido de o cidadão estar cada vez sabendo mais a respeito dos seus direitos e cobrando-os das autoridades competentes. O cidadão está cada vez mais recorrendo à Justiça e ao Ministério Público para ter seus interesses, seus direitos assegurados. Então, nesse momento em que o País está vivendo uma mudança fundamental na sua forma, na sua estrutura política e social, e particularmente elogio muito a participação da imprensa, como elogio também a participação do Ministério Público, também acho que tem feito sua parte, mas é o momento também em que existe um movimento contrário a essas mudanças, um movimento que quer ver as coisas como elas sempre foram. O fato é que, antes da Constituição de 1988, nunca se viu um Judiciário decidindo questões coletivas, importantes para toda uma coletividade, para toda a população brasileira. O Judiciário sempre era restrito a decisões em matérias individuais, uma pessoa contra uma empresa, uma pessoa contra outra pessoa. Hoje não, hoje existem ações coletivas e instrumentos criados pela Constituição que dão a qualquer cidadão o poder de interferir na vida política e social do País, e está aí o Ministério Público para provar isso. São recentes as ações questionando, por exemplo, um processo de privatização. Isso não acontecia há dez anos, como também não acontecia de o Judiciário decidir uma ação civil pública ambiental que pode envolver fundações de todo um Estado. Isso também não acontecia há dez anos. Então, é muito bom tomarmos pé dessa situação para entender exatamente o quotidiano que estamos vivendo hoje. O Judiciário, hoje, claro que influi muito na esfera política e social do País. E no momento da globalização, onde os poderes econômicos, cada vez mais, exigem respostas rápidas, você exige um Judiciário que interfira. Talvez por isso a tentativa de um reforma concentrar a maioria dos poderes decisórios nos tribunais superiores, evitando que as escalas inferiores da Justiça possam conhecer desses problemas.