Encarte Clacso
Cadernos da
América Latina II
Este encarte bimestral é uma iniciativa de responsabilidade do
conselho Latino-Americano de ciências sociais – clacso
INDIANISMO E MARXISMO
O desencontro de duas razões
revolucionárias
Por Álvaro García Linera*
N
os últimos cem anos, se desenvolveram na
versário, o velho regime oligárquico e patronal.
Esquerda Revolucionária (PER), do Partido Obreiro
Bolívia cinco grandes ideologias ou “concep-
À diferença desse marxismo nascente, para o
Revolucionário (POR) e da produção intelectual de
ções do mundo” de caráter contestatório e
qual o problema do poder era um tema retórico que
seus dirigentes (Guillermo Lora, José Aguirre Arce,
emancipativo. A primeira dessas narrativas de eman-
buscava ser resolvido na fidelidade canônica ao texto
Arturo Urquidi etc.).
cipação social foi o anarquismo, que conseguiu articu-
escrito, o nacionalismo revolucionário, desde o seu
O surgimento do marxismo e sua recepção no âm-
lar experiências e reivindicações de setores sindicais
começo, se perfilará como uma ideologia portadora
bito social virá marcado por dois processos constitu-
urbanos vinculados ao trabalho artesanal e operário
de uma clara vontade de poder que devia ser re-
tivos. O primeiro radica em uma produção ideológica
em pequena escala e ao comércio. Presente desde
solvida de forma prática. Não é casual que este pen-
diretamente vinculada à luta política, o que conjurou a
final do século XIX em alguns âmbitos sindicais urba-
samento se aproximasse oficialmente do exército – a
tentação de um “marxismo de cátedra”. Os principais
nos, sua influência mais notável se dá nos anos 30 e
instituição-chave na definição do poder estatal – e
intelectuais que se somam a essa corrente partici-
40 do século XX, quando consegue estruturar fede-
que vários dos seus promotores, como Paz Estens-
pam do ativismo político, seja na luta parlamentar ou
rações de associações gremiais de forma horizontal
soro, participassem em gestões dos curtos governos
na organização das massas, o que influirá tanto nas
em torno de um programa de conquista dos direitos
progressistas militares que desgastaram a hegemo-
limitações teóricas da produção intelectual da época
sindicais e da formação autônoma de uma cultura
nia política conservadora da época. Tampouco é ca-
– mais apegada a uma recepção dos esquemas sim-
libertária entre seus filiados .
sual que, com o passar do tempo, os nacionalistas
plistas dos manuais de economia e filosofia soviéticos
Outra ideologia que enraíza seus fundamentos
revolucionários combinassem de maneira decidida
–, como na constante articulação de suas reflexões
nas experiências de séculos anteriores é a que po-
sublevações (1949) com golpes de Estado (1952)
com o acontecer prático-político da sociedade.
deremos chamar de indianismo de resistência, que
e participação eleitoral como mostra de uma clara
surgiu depois da derrota da sublevação e do governo
ambição de poder.
1
O outro fato notável desse nascimento é representado pela recepção do marxismo e do próprio nacio-
indígena dirigido por Zárate Willka e Juan Lero, em
Obtendo a liderança da revolução de 1952
nalismo revolucionário no mundo sindical, que é pre-
1899. Reprimido esse projeto de poder nacional in-
por fatos e propostas práticas, o Movimento Naciona-
cedida por uma modificação na composição de classe
dígena, o movimento étnico assumiu uma atitude de
lista Revolucionário (MNR) fará com que seu projeto
dos núcleos economicamente mais importantes do
renovação do pacto de subalternidade com o Estado
partidário se transforme em toda uma concepção do
proletariado mineiro e fabril boliviano, que se encon-
mediante a defesa das terras comunitárias e o acesso
mundo emitida desde o Estado, dando lugar a uma
tram em pleno trânsito do “operário artesanal de em-
ao sistema educativo. Sustentado em uma cultura oral
reforma moral e intelectual que criará uma hegemo-
presa” ao “operário de ofício da grande empresa”. Isto
de resistência, o movimento indígena, predominante-
nia político-cultural de 35 anos de duração em toda
significa que o marxismo se enraíza no locus operário
mente aimará, combinará de maneira fragmentada
a sociedade boliviana, independentemente de que os
no momento em que se está consolidando a mutação
a negociação de suas autoridades originárias com
sucessivos governos sejam civis ou militares.
da centralidade dos saberes individuais do trabalho e
do virtuosismo artesanal tradicional que caracterizava
sublevação local até ser substituído, como horizonte
explicador do mundo nas comunidades, pelo nacionalismo em meados do século.
O marxismo primitivo
a atividade produtiva nas oficinas e nas indústrias, na
Se bem se pode falar de uma presença do pen-
primazia do suporte técnico industrial e em uma di-
O nacionalismo revolucionário e o marxismo
samento marxista desde os anos 20, através da
visão do trabalho articulada no tempo dos operários
primitivo serão duas narrativas políticas que emer-
atividade de intelectuais isolados como Tristan Ma-
industriais nas empresas mineiras de estanho e das
girão simultaneamente com vigor depois da Guerra
rof2, o marxismo como cultura política em disputa
fábricas, principalmente têxteis urbanas3.
do Chaco, em setores relativamente parecidos (clas-
pela hegemonia ideológica ganhará força nos anos
Trata-se, portanto, de um proletariado que in-
ses médias letradas) e enfrentando um mesmo ad-
40, por meio da atividade partidária do Partido da
terioriza a racionalidade técnica da modernização
encarte CLACSO - Cadernos da América Latina II
capitalista da grande empresa, e que está subjetiva-
a realidade agrária como representante do “atraso”
nização, de reconhecimento e de mobilidade social,
com as comunidades rurais e seus sistemas de auto-
levantamentos, de caudilhos, de reivindicações indí-
nalismo revolucionário não radica neste destino fatal
mente disponível para uma razão do mundo guiada
que deve dar lugar ao “progresso” da indústria que
uma convocatória nacionalizadora e culturalmente
ridade sindical. Estes intelectuais, em círculos políti-
genas desde a Colônia ate nossos dias.
do que se deve entender por cidadania e pelo marco
pela fé na técnica como principal força produtiva, na
permitiria pensar na emancipação. Nesse sentido, o
homogeneizante, capaz de avançar e diluir o progra-
cos autônomos ou em pequenas empresas culturais
Se bem que há varias correntes neste momento,
institucional para exercê-la, mas no reconhecimento
homogeneização laboral e na modernização indus-
agro se apresentará como um peso para os sujeitos da
ma nacional étnico de resistência gestado décadas
(o futebol, os programas de rádio, as conferências em
a força do movimento indianista katarista estará cen-
da pluralidade para poder aceder a ela, que será pre-
trial do país. Trata-se certamente do surgimento de
revolução social, os proletários, que deverão buscar
antes. Foram momentos de uma crescente desetniza-
praças públicas etc.10), vão construindo, entre diri-
trada na CSUTCB. Mas como em toda identidade dos
cisamente a contribuição do modesto discurso liberal
um tipo de proletariado que se acha em processo de
a melhor maneira de “arrastar” aos “pequenos pro-
ção do discurso e do ideário camponês, uma aposta
gentes de sindicatos agrários, redes de comunicação
subalternos, esta força de mobilização não vai deixar
frente à problemática dos “povos” e das “etnias”.
interiorização da subsunção real do trabalho ao capi-
prietários” da terra. A leitura classista da realidade
na inclusão imaginada no projeto de coesão cultural
e de releitura da história, do idioma e da etnicidade
de apresentar a trama de múltiplos andares estraté-
Não será raro, portanto, que muitos dos personagens
tal como um fenômeno de massa4 e será sobre esta
agrária que fará o marxismo não virá pelo lado da
mestiça irradiada desde o Estado e da conversão dos
que começam a disputar a legitimidade dos discur-
gicos de interpelação do Estado. Assim, se bem que
do katarismo, elaboradores deste discurso, colaborem
nova subjetividade proletária que ocupará o centro
subsunção formal e real, que teria permitido desve-
nascentes sindicatos camponeses na base de apoio
sos camponeses com os que o Estado e a esquerda
por um lado é possível encontrar uma forte retórica
posteriormente com propostas modernizantes e mul-
das atividades econômicas fundamentais do país,
lar as condições de exploração desse setor produtivo;
do Estado nacionalista, tanto em sua fase democráti-
convocavam ao mundo indígena.
etnicista nos discursos dos dirigentes, na simbologia
ticulturalistas do antigo partido nacionalista que em
que o marxismo, com um discurso de racionalização
isso será feito desde o esquema – de preconceito –
ca de massas (1952-1964), como na primeira etapa
1993 chegará outra vez ao governo.
modernizante da sociedade, conseguirá enraizar-se
do enquadramento a partir da propriedade, com o
da fase ditatorial (1964-1974).
durante décadas.
O marxismo desta primeira época é, sem dúvida,
uma ideologia de modernização industrial do país no
A contribuição fundamental deste período é a re-
usada para se identificar – os retratos dos líderes in-
invenção da indianidade, mas já não como estigma,
dígenas, a whipala –, de fato, a força discursiva mobi-
Paralelamente, nos anos 80, esta corrente
que trabalhadores diretos ficarão na categoria dos
A base material deste período de hegemonia na-
mas como sujeito de emancipação, como desígnio
lizável da CSUTCB há de estar basicamente centrada
ideológica, mais vinculada ao sindicalismo cam-
“pequenos burgueses” de duvidosa fidelidade revo-
cional estatal será a crescente diferenciação social no
histórico, como projeto político. Trata-se de um au-
nas reivindicações de tipo classista e econômica,
ponês, será a mais propensa a se aproximar às cor-
lucionária por seu apego à propriedade.
campo e permitirá mecanismos de mobilidade interna
têntico renascimento discursivo do índio através da
como aquelas que deram lugar ao primeiro grande blo-
rentes marxistas e ao ainda predominante movimento
plano econômico e de consolidação do Estado na-
Neste esquema, a comunidade e suas relações
através dos mercados e da ampliação da base mer-
reivindicação e reinvenção de sua história, do seu pas-
queio de estradas da flamejante direção sindical sob a
operário organizado em torno da Central Operária
cional no plano político. No fundo, todo programa
produtivas simplesmente não existirão no horizon-
cantil da economia rural, a acelerada descampesiniza-
sado, de suas práticas culturais, de suas penúrias, de
direção de Genaro Flores, em dezembro de 1979. As
Boliviana (COB). Por exemplo, Genaro Flores con-
revolucionário dos distintos marxismos desta etapa,
te interpretativo deste marxismo e menos ainda
ção que levará a um rápido crescimento das cidades
suas virtudes, que há de ter um efeito prático na for-
mobilizações da CSUTCB, com predomínio na con-
seguirá estabelecer alianças com a frente esquerdista
até os anos 80, terá – mesmo quando tenha diversos
qualquer outra identidade social que não seja a estrit-
grandes e intermediárias e a flexibilização do mercado
mação de auto-identificações e formas organizativas.
vocação política e étnica nacional, acima das reivin-
Unidade Democrática Popular (UDP) nas eleições de
nomes, a revolução “proletária” do POR, “democráti-
amente econômica; neste caso, camponesa. Os reper-
de trabalho urbano que promoverá a crença numa
Nesta primeira etapa do período formativo se
dicações estritamente camponesas, se darão ape-
1980 e alguns de seus quadros políticos se incorpo-
co-burguesa em transição ao socialismo” do Partido
tórios culturais das classes sociais, a diversidade
mobilidade real campo-cidade mediante o acesso ao
destacará a obra de Fausto Reinaga, que pode ser
nas com as rebeliões dos anos 2000, 2001e 2003.
rarão à gestão do governo de Siles Suazo.
Comunista Boliviano, de “libertação nacional” do
identitária da sociedade ou a existência de nações
trabalho assalariado estável e o ingresso na educação
considerado como o intelectual mais relevante e in-
Um segundo momento deste período de forma-
Nos anos posteriores, dirigentes desta fração
Exército de Liberação Nacional (ELN), “socialista” do
e povos indígenas serão um não lugar na literatura
superior como formas de ascensão social.
fluente do indianismo em todo este período. Sua obra
ção discursiva e de elite da identidade aimará vai
katarista buscarão modificar desde dentro a com-
Partido Socialista 1 (PS-1) – objetivos similares: de-
e na estratégia esquerdista, com a exceção de Os-
Os primeiros fracassos deste projeto de moder-
está dirigida a construir uma identidade e, na medida
se dar quando, desde os primeiros anos da década
posição orgânica da representação social da COB,
senvolvimento incessante da modernidade capitalista
valdo Sáenz6, cuja contribuição pioneira será silen-
nização econômica e de nacionalização da sociedade
em que não há identidade coletiva que se construa,
de 80, se produz uma lenta mas crescente descen-
dando lugar a uma das mais importantes interpela-
do trabalho, substituição das relações “tradicionais”
ciada pela vulgata partidária de “classes” sociais
começarão a se manifestar nos anos 70, quando a
pelo menos no início, mais que se afirmando perante
tralização deste discurso; os ideólogos e ativistas do
ções indígenas para a esquerda operária.
de produção, especialmente da comunidade cam-
identificadas, nem sequer pela estrutura das relações
etnicidade, sob a forma do sobrenome, do idioma e
e contra as outras identidades, o indianismo nesta
indianismo katarista se fragmentam, dando lugar a
Uma terceira variante discursiva deste movimen-
ponesa que deverá “coletivizar-se” ou “obreirizar-se”,
de produção e reprodução social, mas apenas pelas
da cor da pele, será reatualizada pelas elites domi-
época não só se diferenciará da “outra” Bolívia mes-
três grandes correntes. A culturalista, que se refugia
to indianista katarista será a vertente já estritamente
homogeneização cultural para consolidar o Estado e
relações de propriedade, o que produzirá um redu-
nantes como mais um dos mecanismos de seleção
tiça e colonial, mas também da esquerda obreirista,
no âmbito da música, da religiosidade e que hoje é
nacional indígena, promovida de maneira intuitiva ini-
uma crescente estatização das atividades produtivas
cionismo classista da realidade social boliviana e um
para a mobilidade social, renovando a velha lógica
fortemente associada ao projeto homogeneizante e
demominada de “pachamámicos”. É basicamente
cialmente por militantes, ativistas e teóricos indianis-
como base de uma economia planificada e de uma
reducionismo jurisdicista e legalista da constituição
colonial do encasalamento e do descasalamento,
modernista do Estado nacionalista.
um discurso que perdeu a carga política inicial e tem
tas influenciados por Fausto Renaga11, que buscam
coesão nacional-estatal da sociedade. No fundo, este
das “classes sociais”7.
que era tida, junto às redes sociais e à capacidade
De entrada, o indianismo ataca o marxismo e o
uma forte carga de folclorização da indianidade. Uma
a constituição de uma República Indígena. Trata-se
econômica, como os principais meios de ascensão e
enfrenta com a mesma veemência com que critica a
segunda vertente, mais urbana que a anterior, se de-
de um discurso que não pede ao Estado o direito à
descenso social.
outra ideologia forte da época, o cristianismo, con-
nominou a dos discursos políticos “integracionistas”,
cidadania, mas coloca de manifesto que devem ser
5
marxismo primitivo, por suas fontes e seus objetivos,
Para este marxismo não havia nem índios, nem
será uma espécie de nacionalismo revolucionário
comunidade, com o que uma das mais ricas vertentes
radicalizado e daí que não seja raro que os militantes
do pensamento marxista clássico fica bloqueada e
Isto, somado à estreiteza do mercado de trabalho
siderados ambos como os principais componentes
na medida em que propaga uma reivindicação do ser
os próprios indígenas que devem, porque querem, ser
e os quadros das fábricas e das minas, especialmente
rechaçada como ferramenta crítica de interpretação
moderno, incapaz de acolher a crescente migração, ha-
ideológicos da dominação colonial contemporânea.
indígena como força de pressão para obter certos re-
os governantes do Estado. Um Estado que, precisa-
“poristas” e “piristas”, tenham se incorporado rapi-
da realidade boliviana8; além do mais esta posição
bilitará um espaço de nascente disponibilidade para o
Nesta desqualifiquação indianista do marxismo como
conhecimentos na ordem estatal vigente. Trata-se de
mente por essa presença indígena, terá de se consti-
damente ao partido triunfador de abril de 1952, e
obrigará o emergente indianismo político a se afirmar
ressurgimento da nova visão do mundo indianista que,
projeto emancipador há de contribuir a própria ati-
uma formação discursiva do indígena como sujeito
tuir em outro Estado e em outra república, na medida
que a massa proletária de influência destes partidos
precisamente em combate ideológico, tanto contra as
nestes últimos 34 anos, transitou por vários períodos:
tude dos partidos de esquerda que seguirão subal-
reivindicante, demandante de reconhecimento por
em que o Estado Republicano contemporâneo foi
marxistas, nos fatos, tenha atuado sob o comando
correntes nacionalistas, que rejeitavam e negavam a
o período formativo, o período da cooptação estatal e o
ternizando ao campesinato diante dos operários, se
parte do Estado, para se incorporar à estatalidade e
uma estrutura de poder construída sobre a exclusão e
ideológico movimentista nos momentos da definição
temática comunitária agrária e étnica nacional, como
período de sua conversão em estratégia de poder.
oporão à problematização da temática nacional in-
à cidadania vigente, mas sem perder com isso suas
o extermínio do indígena.
política. Desta forma, enquanto nos congressos mi-
forças produtivas políticas capazes de servir de po-
dígena no país e, como hoje fazem as classes altas,
particularidades culturais. A ala katarista do movi-
Sob este olhar o indígena aparece então não só
neiros ou fabris se poderia aprovar o programa de
deres regenerativos da estrutura social, tal como pre-
considerarão um retrocesso histórico em relação à
mento de reinvidicação da indianidade é a que dará
como um sujeito político, mas também como um su-
transição trotskista, nas eleições presidenciais e no
cisamente fará o indianismo.
O primeiro período é o da gestação do indianismo
“modernidade” qualquer referência a um projeto de
corpo a esta posição. Aqui o indígena é a ausência
jeito de poder, de mando, de soberania. A própria nar-
Gestação do indianismo katarista
comportamento político se era movimentista, pois,
As posteriores conversões em relação a essa
katarista, como construção discursiva política e cul-
emancipação sustentado em potencialidades comu-
de igualdade diante do Estado por um pertencimento
rativa histórica do indígena que constrói este discurso
no fundo, o que diferenciava marxistas e nacionalis-
temática por parte da esquerda no final dos anos 80,
tural, formadora de fronteiras culturais como modo
nitárias da sociedade agrária.
cultural (aimará e quíchua), que se torna assim o sig-
vai mais além da denúncia das exclusões, das carên-
tas não era tanto o discurso, modernizante, estatista
a partir das quais se “descobrirão” a comunidade e a
de visibilização de exclusões e hierarquias sociais.
A partir deste fortalecimento, em oposição, o dis-
no identificador de uma carência de direitos (a igual-
cias e dos sofrimentos que caracteriza a reconstrução
e homogeneizante, mas a vontade de poder dos últi-
diversidade nacionalista do país, não só serão mera-
Inicialmente o indianismo katarista nasce como dis-
curso katarista indianista, no final dos anos 70, vai
dade), de um porvir (a cidadania plena) e de uma
culturalista; é uma narrativa heróica, até certo ponto
mos para levar adiante o que havia sido prometido.
mente observadoras, pois a esquerda marxista primi-
curso político que começa a ressignificar de maneira
se dividir em quatro grandes vertentes. A primeira,
distinção identitária (a multiculturalidade).
guerreira, marcada por levantamentos, por resistên-
No entanto, o marxismo chegou a formar uma cul-
tiva tinha entrado em franca decadência intelectual
sistemática a história, a língua e a cultura. Em alguns
a sindical, que vai dar lugar à formação da Confede-
Este discurso constitui seu imaginário através da
cias, por contribuições, por grandezas ciclicamente
tura política extensa em setores operários, assalariados
e marginalidade social –, como também, além disso,
casos esta formação discursiva revisará a história colo-
ração Sindical Única de Trabalhadores Camponeses
denúncia da existência de dois tipos de cidadania: a
reconstruídas, de várias formas e que algum dia terá
e estudantis baseada na primazia da identidade ope-
a temática será abordada da mesma maneira superfi-
nial e republicana para mostrar as injustiças, as usur-
da Bolívia (CSUTCB), fato que sela simbolicamente
de “primeira classe”, monopolizada pelos q’aras, e a
de ser restabelecida de maneira definitiva mediante
rária por cima de outras identidades, com a convicção
cial e instrumental com que décadas antes foi inter-
pações e as discriminações de que serão objeto os
a ruptura do movimento dos sindicatos camponeses
“cidadania de segunda classe”, a que pertenceriam os
a “revolução indígena”.
acerca do papel progressista da tecnologia industrial
pretada a centralidade operária.
povos indígenas na gestão das riquezas e dos poderes
com o Estado nacionalista em geral e, em particular,
indígenas. Mediante esta hierarquização dos níveis de
Neste caso, o índio é concebido como projeto de
na estruturação da economia, do papel central do Es-
No final, uma leitura muito mais exaustiva da
sociais. Em outros casos se denunciarão as travas nos
com o pacto militar camponês que havia inaugurado
cidadania na sociedade boliviana, o que este discurso
poder político e social substitutivo do regime repu-
tado na propriedade e na distribuição da riqueza, da
temática indígena e comunitária virá pelas mãos de
processos de cidadanização e de ascensão social ofere-
uma tutela militar sobre a organização camponesa.
realiza é uma luta pelo reconhecimento da diferença,
blicano de elites q’aras, que são consideradas como
nacionalização cultural da sociedade em torno destes
um novo marxismo crítico e carente de auspício es-
cidos pelo projeto mestiço nacionalista iniciado em
A outra vertente é a política partidária, não somente
mas para lograr a supressão desta e alcançar a iguala-
desnecessárias no modelo de sociedade propugnado.
moldes e da “inferioridade” histórica e classista das
tatal, que, desde o final do século XX e começo do
1952. Em ambas vertentes complementares, trata-se
com a formação do Partido Índio, no final dos anos
ção e homogeneização, pelo menos política, no que se
Em sua etapa inicial, este discurso toma a forma de
sociedades camponesas majoritárias no país.
considera a “cidadania de primeira classe”.
um panindigenismo, na medida em que se refere
XXI, apoiando-se nas reflexões avançadas por Zavale-
de um discurso de denúncias e de interpelações que,
60, mas do Movimento Índio Tupac Katari (MITKA) e
Esta narrativa modernista e teleológica da história,
ta, buscará uma reconciliação de indianismo e mar-
assentado na revisão da história, denuncia publica-
do Movimento Revolucionário Tupak Katari (MRTK),
Neste caso, a diferença não é exibida como porta-
a uma mesma identidade indígena que se estende
em geral adaptada dos manuais de economia e de filo-
xismo, capaz de articular os processos de produção
mente a impossibilidade de cumprir os compromissos
que vão participar, de maneira frustrada, em várias
dora de direitos, o que requereria pensar em uma ci-
ao longo de todo o continente, com pequenas vari-
sofia, criará um bloqueio cognitivo e uma impossibili-
de conhecimento local com os universais .
de cidadania, de mestiçagem, de igualdade política e
eleições até o final dos anos 80. A terceira vertente,
dadania multicultural ou na reivindicação de direitos
antes regionais. Este olhar transnacional da estrutura
cultural, com o que o nacionalismo se aproximou do
ao lado da política e da sindical, será a corrente
políticos coletivos, cidadanias diferenciadas e estru-
civilizatória indígena pode se considerar imaginari-
mundo indígena camponês desde 1952.
9
dade epistemológica sobre duas realidades que serão o
ponto de partida de outro projeto de emancipação, que
com o passar do tempo sobrepor-se-á à própria ideolo-
O indianismo
acadêmica, historiográfica e de pesquisa sociológica.
turas político-institucionais plurais, mas com iguais
amente expansiva na medida em que supera o loca-
O voto universal, a reforma agrária, que acabou
Isto vai ocorrer desde os anos 70, em plena
Diz-se que todo nacionalismo é no fundo um revisio-
prerrogativas políticas diante do Estado. A diferença é
lismo clássico da demanda indígena; mas, ao mesmo
com o latifúndio no altiplano e nos vales, e a edu-
vigência do modelo estatal centralista e produtor, e
nismo histórico e daí que não seja raro que uma ampla
aqui um passo intermediário na nivelação, pelo que o
tempo, apresenta uma debilidade na medida em que
Considerada desde a perspectiva do capitalismo
cação gratuita e universal fizeram do ideário do na-
vai ser levado adiante por meio da atividade de uma
geração de migrantes aimarás, que entra no mundo
horizonte político com que o katarismo projeta ao in-
minimiza as próprias diferenças intra-indígenas e as
europeu, berço do proletariado chamado a fazer a revo-
cionalismo revolucionário um horizonte de época que
intelectualidade aimará migrante, temporal ou per-
universitário entre os anos 70 e 80, se dedique pre-
dígena continua sendo o da cidadania estatal exibida
diferenças estratégicas de integração, dissolução ou
lução e a partir da dissolução das relações campone-
envolveu boa parte do imaginário das comunidades
manente, que acede a processos de escolarização
cisamente a levar adiante, de maneira rigorosa, este
pelas elites dominantes há décadas. De certo modo
resistência pelas que cada nacionalidade optou den-
sas tradicionais, a esquerda marxista caracterizará
camponesas que acharam neste modo de cidada-
superior e vida urbana, mas mantendo ainda vínculos
revisionismo histórico mediante o estudo de casos de
à distância com o discurso modernizador do nacio-
tro dos múltiplos regimes republicanos instaurados
gia marxista: a temática camponesa e étnica do país.
encarte CLACSO - Cadernos da América Latina II
no século passado.
com condições de relativa sustentabilidade produtiva
indianismo, todos os elementos reivindicativos es-
Daí que, em uma segunda etapa, uma corrente
uma maior permeabilidade deste discurso na socie-
Este será um momento de reacomodação das for-
(que mais adiante serão zonas de maior mobilização
tão ordenados e direcionados pela identidade étnica
interior desta vertente indianista encabeçada por Fe-
dade, dão-se as primeiras tentativas de reelaboração
ças e correntes internas do movimento indígena, de
indígena camponesa), o ponto de início das subleva-
(“nações originárias” aimarás e quíchuas). Trata-se
bém é uma época na qual, ao mesmo tempo em que
municípios e de “etnias”.
lipe Quispe e a organização Ayllus Rojos realiza as
destas propostas por partidos de esquerda e intelec-
um rápido amansamento dos discursos de identidade
ções e expansão da ideologia indianista se dá no mo-
portanto de uma proposta política que se conecta
novas contribuições ao que foi herdado por Reinaga.
tuais bolivianos, mas não com o afã de entender esta
aos parâmetros emitidos pelo Estado liberal, de de-
mento em que as reformas de liberalização da eco-
diretamente com o núcleo duro do pensamento in-
Por um lado, o reconhecimento de uma identidade
proposta, e sim de instrumentalizá-la na busca de
sorganização social e de escassa mobilização de mas-
nomia afetam as condições básicas de reprodução
dianista do período formativo (Reinaga) e com ele
popular boliviana resultante dos séculos de mutiladas
apoio eleitoral e financiamento estrangeiros.
sas indígenas. Com a exceção da grande marcha de
das estruturas comunitárias agrárias e semi-urbanas
herda a crítica à velha esquerda marxista, a sua cul-
12
mestiçagens culturais e sindicais em diferentes zonas
Ao mesmo tempo em que a sociedade e os parti-
1996 contra a lei do INRA, o protagonismo social das
(água e terra). Diferentemente do estudado por Bour-
tura que ainda influi passivamente em setores sociais
urbanas e rurais. Isto é importante porque na ótica
dos de esquerda marxista assistem ao brutal desmo-
lutas sociais terá de deslocar-se do altiplano aimará
dieu na Argélia , onde a deterioração da sociedade
mestiços. Por isto, esta corrente se foi consolidando
inicial do indianismo o “boliviano” era meramente
ronamento da identidade e força de massa obreira
às zonas cocaleiras do Chapare, onde predominará
tradicional deu lugar a um subproletariado desor-
só no mundo estritamente aimará, urbano, rural, pelo
uma invenção de uma reduzidíssima elite estrangeira,
sindicalmente organizada, a adoção e reelaboração de
um discurso de tipo camponês complementado com
ganizado, atrelado a redes clientelares e carente de
que pode ser considerada como um tipo de india-
cujo papel era o de se retirar aos seus países europeus
um discurso etnicista se lhes apresenta como uma op-
alguns componentes culturais indígenas.
autonomia política, a deterioração crescente da es-
nismo nacional aimará.
de origem. Sob este novo olhar, em compensação,
ção de nova alteração nos sujeitos suscetíveis de serem
as formas de identidade popular bolivianas, como a
convocados. Desta maneira, a estrutura conceitual
operária, até certo ponto a camponesa em determi-
com a que esta esquerda em decadência se acerca
nadas regiões, aparecem como sujeitos coletivos com
os quais é preciso traçar políticas de aliança, acordos
16
trutura econômica tradicional da sociedade rural e
Em que pesem suas notáveis diferenças e en-
urbana deu lugar a um fortalecimento dos laços co-
frentamentos, ambas as correntes compartilham tra-
O terceiro período deste novo ciclo indianista
munitários como mecanismos de segurança primária
jetórias políticas similares:
à construção discursiva indígena não recupera o con-
pode ser qualificado como estratégia de poder e se
e reprodução coletiva. Foi em parte por isto e pelo
junto da estrutura lógica desta proposta, o que teria
dá em fins dos anos 90 e princípios do século XXI.
esvaziamento ideológico que esta ausência do por-
de mútuo reconhecimento etc. Este será o significado
requerido um desmonte da armação colonial e van-
É o momento no qual o indianismo deixa de ser uma
vir modernizante provoca que se pôde expandir a
b) Os “partidos” ou “instrumentos políticos”
político da chamada teoria das “duas Bolívias”.
guardista que caracterizava o esquerdismo da época.
ideologia que resiste nos resquícios da dominação e
ideologia indianista capaz de brindar uma razão do
parlamentares resultam de coalizões negociadas de
O indianismo dos anos 90
a) Têm como base social-organizativa os sindicatos e comunidades agrárias indígenas.
A segunda contribuição deste discurso é a da es-
Curiosamente, este também é um momento de
se expande como uma concepção de mundo proto-
drama coletivo, precisamente a partir da articulação
sindicatos camponeses e, no lado do MAS, urbano-
pecificidade da identidade indígena aimará. Se bem
confrontação ao interior da CSUTCB, entre o discurso
hegemônica, tentando disputar a capacidade de
política das experiências cotidianas de exclusão so-
populares, que se unem para aceder a representações
que há um esforço por inscrever no indígena múltiplos
étnico-camponês katarista e indianista e o discurso
direção cultural e política da sociedade e da ideo-
cial, discriminação étnica e memória social comu-
parlamentares, com o que a tríade sindicato/massa/
setores urbanos e rurais, há uma leitura mais precisa
esquerdista frugalmente etnizado. A derrota de Gena-
logia neoliberal que havia prevalecido durante os úl-
nitária de camponeses índios deixados à sua sorte
partido, tão própria da antiga esquerda, é deixada de
e efetiva desta construção identitária em torno do
ro Flores no congresso de 1988 fechará um ciclo
timos dezoito anos. De fato, hoje se pode dizer que
por um Estado empresário, dedicado exclusivamente
lado por uma leitura do “partido” como prolongação
mundo aimará, não apenas a partir da politização do
de hegemonia discursiva do katarismo indianista
a concepção de mundo de corte emancipativo mais
a potenciar os diminutos enclaves de modernidade
parlamentar do sindicato.
idioma e do território, mas também de suas formas
na CSUTCB, dando lugar a uma longa década de
importante e influente na atual vida política do país
transnacionalizada da economia. A politização que
c) Sua liderança e grande parte de sua intelectu-
organizativas, de sua história diferenciada em rela-
predomínio de verões despolitizadas e culturalistas
é o indianismo, e é o núcleo discursivo e organizativo
fará o indianismo da cultura, do idioma, da história
alidade e base ampla (em maior medida no MIP) são
ção aos outros povos indígenas. Desta forma, o índio
da identidade indígena, muitas vezes diretamente
do que hoje podemos denominar a “nova esquerda”.
da pele, elementos precisamente utilizados pela
indígenas aimarás ou quíchuas e produtores diretos,
aimará aparece de maneira nítida como identidade
emitidas desde o Estado ou as organizações não-
Independentemente de se os atores desta re-
“modernidade” urbana para bloquear e legitimar a
com o que a incursão na política toma a forma de
coletiva e como sujeito político encaminhado a um
governamentais. Paralelamente a este refluxo sindi-
construção do eixo político contemporâneo aceitem
contração dos mecanismos de inclusão e mobilidade
uma auto-representação de classe e étnica simulta-
destino de autogoverno, de autodeterminação. Cer-
cal e frustração eleitoral, uma parte da militância in-
o denominativo de esquerda como identidade13, em
social, serão os componentes palpáveis de uma ideo-
neamente.
tamente, trata-se de uma articulação peculiar entre
dianista adotará posições organizativas mais radicais
termos de classificação sociológica, os movimentos
logia comunitarista e de emancipação que rapida-
d) A identidade étnica, integracionista em uns
as leituras da tradição histórica das lutas indígenas
formando o Exército Guerrilheiro Tupac Katari (EGTK),
sociais indígenas, em primeiro lugar, e os partidos
mente erodirá a ideologia neoliberal, então colhedora
casos ou autodeterminativa em outros, é a base dis-
de autonomia, com as modernas leituras de autode-
baixo a proposta teórica de autogoverno indígena
políticos gerados por eles, têm criado uma “relação de
de frustrações pela excessiva inflação de ofertas que
cursiva do projeto político com o que se enfrentam ao
terminação das nações desenvolvidas pelo marxismo
aimará e a consolidação de estruturas militarizadas nas
antagonismo entre partes contrapostas” no universo
fez ao momento de consagrar-se. Paralelamente, este
Estado e interpelam ao resto da sociedade, incluindo
crítico e cuja importância radica em que permite cen-
comunidades do altiplano, influindo quinze anos depois
político, precisamente representável por uma dicoto-
indianismo coesionará uma força de massa mobi-
o mundo obreiro assalariado.
trar o discurso nos âmbitos territoriais específicos, em
nas características organizativas e discursivas das re-
mia espacial como o é “esquerdas e direitas”, o que
lizável, insurrecional e eleitoral, conseguindo politizar
e) Se a democracia é um cenário de partida de
massas da população verificáveis e em sistemas in-
beliões indígenas no altiplano norte no século XXI.
14
não significa que, como antes, seja uma identidade,
o campo político-discursivo e consolidando-se como
suas reivindicações, há uma proposta de ampliação e
stitucionais de poder e mobilização mais compactos
O MNR é o partido político que com maior clari-
pois agora estas vêm mais do lado da auto-adesão ao
uma ideologia com proteção estatal.
complexificação da democracia a partir do exercício
e efetivos que os da panindianidade. Daí que se pode
dade detecta o significado da formação discursiva de
indígena (aimará e quíchuas), ao originário (nações an-
Este indianismo, como estratégia de poder, apre-
de lógicas organizativas não liberais e a postulação de
afirmar que a partir desta formação discursiva o ín-
um nacionalismo indígena, visto como um perigo,
cestrais) ou ao laboral (o “povo simples e trabalhador”
senta na atualidade duas vertentes: uma de corte
um projeto de poder em torno a um tipo de governo
dio e o indianismo se transformam em um discurso
assim como também as debilidades que atravessava
da Coordenadora da Água de Cochabamba).
moderada (MAS-IPSP) e outra radical (MIP-CSUTCB).
de nações e povos.
estritamente nacional: o da nação indígena aimará.
o movimento indígena. Por meio da aliança com Vic-
A base material desta colocação histórica do in-
A vertente moderada é articulada em torno aos sindi-
O que resta saber deste avanço diverso do pen-
Estas duas contribuições do indianismo como estra-
tor Hugo Cárdenas e uma série de intelectuais e de
dianismo é a capacidade de sublevação comunitária
catos camponeses do Chapare enfrentando as políti-
samento indianista é se será uma concepção de
tégia de poder descentrarão a inimizade desta cor-
ativistas do movimento indígena, o MNR converte
com as quais as comunidades indígenas respondem
cas de erradicação dos cocaleiros. Sobre um discurso
mundo que tome a forma de uma concepção domi-
rente ideológica com algumas vertentes do marxismo,
em política de Estado o reconhecimento retórico da
a um crescente processo de deterioração e decadên-
campesinista que foi adquirindo conotações mais
nante de Estado ou se, como parece insinuar-se pelas
dando lugar a um diálogo, certamente tenso, entre
multiculturalidade do país, enquanto que a Lei de
cia das estruturas comunitárias camponesas e dos
étnicas recentemente nos últimos anos, os sindica-
debilidades organizativas, erros políticos e fraciona-
esta corrente indianista e emergentes correntes inte-
Participação Popular habilita mecanismos de ascen-
mecanismos de mobilidade social cidade-campo.
tos cocaleiros conseguiram estabelecer uma gama de
mentos internos das coletividades que o reivindicam,
lectuais marxistas críticas que ajudarão a definir de
são social local capazes de sugar o discurso e a ação
Manifesta já desde os anos 70, as reformas neolibe-
alianças flexíveis e plurais, em função de um “instru-
será uma ideologia de uns atores políticos que só
uma maneira muito mais precisa a direcionalidade
de uma boa parte da intelectualidade indígena cres-
rais da economia incidirão de maneira dramática no
mento político” eleitoral que permitiu aos sindicatos,
regularão os excessos de uma soberania estatal exer-
da luta e a construção de poder político nesta estra-
cente descontente.
sistema de preços do intercâmbio econômico urbano-
especialmente os agrários, ocupar postos de governo
cida pelos sujeitos políticos e classes sociais que
tradicionalmente têm estado no poder.
tégia indianista.
A cooptação estatal
e federações agrárias e comunitárias, o movimento
carece de uma intelectualidade letrada própria e de
horizontes mais estratégicos. O grupo social indígena
que poderia ter desempenhado este papel se encontra ainda adormecido pelo impactada cooptação geral
de quadros indígenas pelo Estado neoliberal na década de 90. E, curiosamente, são precisamente parte
destes pequenos núcleos de marxistas críticos os que
com maior dinamismo reflexivo vêm acompanhando,
registrando e difundindo este novo ciclo do horizonte
indianista, inaugurando assim a possibilidade de um
espaço de comunicação e enriquecimento mútuo entre indianismo e marxismo, que serão provavelmente
as concepções emancipatórias da sociedade mais
importante no século XXI.
A aplicação da Lei de Participação Popular, em-
rural. O estancamento da produtividade agrária tradi-
local e uma brigada parlamentar significativa. Reivin-
bora contribuindo em alguns casos a um notável
cional e a abertura da livre importação de produtos,
dicando um projeto de inclusão dos povos indígenas
Por último, no que se refere a uma nova rela-
fortalecimento das organizações sindicais locais que
os termos de troca regularmente desfavoráveis para
nas estruturas de poder e colocando maior ênfase em
ção entre estes indianismos e o marxismo, diferente-
O segundo período da construção do discurso na-
têm logrado projetar-se eleitoralmente no âmbito
a economia camponesa se intensificaram drastica-
uma postura antiimperialista, esta vertente pode ser
mente do que sucedia nas décadas anteriores, nas
cional indígena é o da cooptação estatal. Este se ini-
nacional, também pode ser vista como um meca-
mente15, comprimindo a capacidade de compra, de
definida como indianista de esquerda por sua capaci-
que a existência de um vigoroso movimento obreiro
cia em fins dos anos 80, em um momento em que se
nismo bastante sofisticado de cooptação de líderes
poupança e de consumo das famílias camponesas.
dade de atingir a memória nacional-popular, marxista
estava acompanhada de uma primária, mas esten-
atravessa por uma forte frustração política de intelec-
e de ativistas locais, que começam a propugnar suas
A isto se somará um maior estreitamento do mercado
e de esquerda formada nas décadas anteriores, o que
dida, cultura marxista, hoje o vigoroso movimento
tuais e ativistas do movimento indígena, na medida
lutas e suas formas organizativas ao redor dos mu-
de trabalho urbano e um descenso no nível de in-
lhe permitiu uma maior recepção urbana, multi-seto-
social e político indígena não tem como contraparte
em que suas tentativas de converter a força da massa
nicípios e das instâncias indigenistas expressamente
gresso das escassas atividades laborais urbanas com
rial e pluri-regional a sua convocatória, fazendo dela
uma ampla produção intelectual e cultural marxista.
indígena sindicalizada em votação eleitoral não dão
criadas pelo Estado. Ele há de inaugurar um espaço
as que periodicamente complementam seus ingres-
a principal força político parlamentar da esquerda e a
O antigo marxismo de Estado não é significativo nem
os resultados esperados. Isto vai dar lugar a uma
de fragmentação étnica, na medida em que também
sos as família camponeses. Isto restringe a comple-
principal força eleitoral municipal do país.
política nem intelectualmente e o novo marxismo
acelerada fragmentação de correntes aparentemente
fomenta o ressurgimento e a invenção de etnicidades
mentariedade laboral urbano-rural com a que as
Por sua vez, a corrente indianista radical tem
crítico provém de uma nova geração intelectual, tem
irreconciliáveis dentro do movimento indianista kata-
indígenas locais, de ayllus e associações indígenas
famílias camponesas desenham suas estratégias de
um projeto de indianização total das estruturas de
uma influência reduzida e círculos de produção ain-
rista, sem que nenhuma delas consiga articular hege-
separadas entre si, mas vinculadas verticalmente a
reprodução coletiva.
poder político, com o que, segundo seus líderes, os
da limitados. Contudo, não deixa de ser significativo
monicamente o resto. A integração e competição no
uma economia de demandas e concessões do Esta-
Bloqueados os mecanismos de mobilidade social
que deveriam negociar seus modos de inclusão no
que este movimento cultural e político indianista não
interior das estruturas liberal-republicanas de poder
do. Desta maneira, a identidade indígena autônoma e
internos e externos às comunidades, com uma mi-
Estado são os “mestiços”, na qualidade de minorias
venha acompanhado de uma vigorosa intelectuali-
(sistema de partidos, delegação da vontade política
assentada na estrutura organizativa dos “sindicatos”,
gração acelerada às cidades nos últimos anos, mas
incorporadas em condições de igualdade política e
dade letrada indígena ou indianista. Se o indianismo
etc.) marcarão os limites estruturais da leitura inte-
formada desde os anos 70, vai contrapor uma calei-
com uma ampliação da migração de dupla residên-
cultural às maiorias indígenas. Se a temática cam-
atual tem uma crescente intelectualidade prática
gracionista e pactista do indianismo katarista. Tam-
doscópica fragmentação de identidades de ayllus, de
cia daquelas populações pertencentes a zonas rurais
ponesa sempre está no repertório discursivo deste
nos âmbitos de direção de sindicatos, comunidades
* Alvaro Garcia Linera, atual vice-presidente da
Bolívia, é matemático, sociólogo e professor titular
de sociologia e ciências políticas da Universidad
Mayor de San Andrés, La Paz; prêmio em ciências sociais Agustín Cuevas 2004, da Escuela de
Sociología e Ciencias Políticas de la Universidad
Central de Ecuador; estudioso e teórico dos movimentos sociais e da “esquerda indígena” boliviana. Publicou vários livros sobre o tema, sendo
que o mais recente é Sociología de los movimientos sociales en Bolivia (La Paz, Oxfam/Diakonía,
2004). É também colaborador da edição boliviana
de Le Monde Diplomatique.
1 Dibbits I. Walsworth, Polleras libertarias. Federación Obrera femenina, 1927-1965, Taipamu-Hisbol, Bolivia, 1989; também Agustín
Barcelli, “Medio siglo de luchas sindicales revolucionarias”, em
Bolivia, 1905-1955, Editorial del Estado, 1965.
2 Tristan Marof, La justicia del inca, Bruxelas, 1926.
3 Álvaro García Linera, La condición obrera. Estructuras materiales y simbólicas del proletariado de la minería mediana, CIDESUMSA-La Comuna, La Paz, 2000.
4 René Zavaleta, Lo nacional popular en Bolivia, Siglo XXI (México),
1986.
5 Notáveis exceções de uma leitura marxista muito mais consistente
sobre o tema agrário na Bolívia se podem encontrar em Danilo
Paz, Estructura agraria en Bolivia, La Paz, Editorial Popular, 1983;
Jorge Echazu, Los problemas agrarios campesinos de Bolivia, La
Paz, 1983.
6 G. Ovando Saenz, El problema nacional y colonial en Bolivia, La
Paz, 1984.
7 José Antonio Arce, Sociología marxista, Oruro, 1963; Guillermo
Lora, Historia del movimiento obrero, tomo III, La Paz, Los Amigos
del Libro, 1980.
8 Sobre a comunidade no pensamento de Marx, revisar Escritos sobre Rusia II. El porvenir de la comuna rural rusa, PyP, 90, México,
1980; Los apuntes etnológicos de Karl Marx, Editorial Pablo Iglesias-Siglo XXI (Espanha), 1988.
9 Luis Tapia, La condición multisocietal, CIDES-UMSA-Muela del
Diablo, La Paz, 2002; Raúl Prada, Largo octubre, Plural, La Paz,
2004; vários autores, Tiempos de rebelión, La Comuna, La Paz,
2001; vários autores, Memorias de octubre, Comuna, La Paz,
2004.
10 Javier Hurtado, El katarismo, Hisbol, La Paz, 1985.
11 Fausto Reinaga, La revolución india, La Paz, 1970; La razón y el
indio, La Paz, 1978.
12 Felipe Quispe, Túpac Katari vive y vuelve carajo, La Paz, 1989.
13 O indianismo forte nunca aceitou ser qualificado como de esquerda, pois a esquerda tradicional reproduzia os critérios antiindígenas e colonialistas das direitas políticas.
14 Norberto Bobbio, Derecha e izquierda, Taurus (Espanha), 1998.
15 Mamerto Pérez, Apertura comercial y sector agrícola campesino,
La Paz, Cedla, 2004.
16 Pierre Bourdieu, Algérie 60. Structures économiques et structures
temporelles, Paris, Les Editions de Minuit, 1977.
encarte CLACSO - Cadernos da América Latina II
A dimensão multicivilizatória
da comunidade política
Extraído de Estado plurinacional: Una propuesta democrática y pluralista para la extinción de la exclusión de las naciones indígenas,
Editorial Malatesta (Bolívia), 2004.
Por Álvaro García Linera
O
problema a resolver em nosso país não é so-
praticados nas cidades e zonas agrárias como modos
exercer direitos democráticos em sua definição subs-
tencem a regimes civilizatórios distintos, seus rit-
corporativas será negociada, dependendo da ampli-
mocratização do poder político. Isto é precisamente
mente o da multiculturalidade ou plurinacio-
de filiação social, de resolução de conflitos, de me-
tancial, não são tomadas em consideração pelo Es-
mos e tempos históricos são heterogêneos, para o
tude, história e presença de cada uma dessas formas
o caráter multiinstitucional da armadura estatal que,
nalidade de seus integrantes, mas também
diação e auto-representação política
tado atual, que, pelo contrário, faz sistemáticos esfor-
que é necessário pensar em uma sincronicidade
organizativas, em cada região autônoma e circuns-
juntamente com uma redefinição das etnicidades
crição departamental.
legítimas e das normas práticas e soberanias étnicas,
o da diversidade de sistemas ou de técnicas políti-
É verdade que essas técnicas de democracia
ços para disciplinar de maneira autoritária, impondo
pontual, por períodos curtos, a fim de que “se inclua
cas mediante os quais as pessoas assumem o exer-
deliberativa, de democracia direta e cidadania cor-
os moldes demo-liberais ao conjunto dessas outras
na deliberação e ação global sua presença, força,
cício e a ampliação de suas prerrogativas públicas.
porativa tradicional, regidas por parâmetros morais e
expressões de democratização social.
opinião e decisão” .
A cidadania é um estado de autoconsciência e de
políticos distintos aos liberais, e efetivadas mediante
Essas técnicas políticas diferenciadas, esses
Exemplo dessas sincronicidades pontuais dos
em torno a temas centrais da gestão estatal (pro-
Se a Bolívia é uma sobreposição de várias cultu-
auto-organização política da sociedade que é reco-
instituições não partidárias de tipo associativo e as-
sistemas de autoridade indígenas camponeses3 e ur-
regimes políticos civilizatórios é o que, na escala re-
priedade estatal de recursos, investimento público
ras e várias civilizações, o Estado como síntese de-
nhecida como legítima pelos direitos estatais. O pro-
sembleístico, têm uma existência preponderante-
bano plebeus forma parte da complexa trama mul-
gional, se dá nos municípios do Chapare ou do norte
global, reformas constitucionais etc.).
veria ser uma institucionalidade capaz de articular e
blema surge quando o Estado prescreve um conjunto
mente local e regional. Entretanto, distintos momen-
ticivilizatória da realidade boliviana, visível também
de Potosí, quando, no momento da eleição das auto-
d) Reconhecimento institucional, com efeito de
de compor uma engenharia que garanta a presença
de normas, de rotas exclusivas mediante as quais os
tos da história mostram que esses sistemas podem
através de outras práticas sociais, como as que se
ridades municipais via partido ou voto individual (re-
legalidade estatal, das formas de gestão comunal
proporcional das culturas e identidades lingüísticas,
cidadãos podem expressar e praticar essa produção
articular-se em redes ou sistemas macro de demo-
derivam no entendimento e exercício da justiça do
gime liberal), a decisão de escolher as pessoas que
da justiça, do controle de recursos coletivos e de co-
ademais das instituições modernas, tradicionais,
de mandatos políticos de eficácia pública, anulando,
cracia abarcadoras de milhares de comunidades,
ayllu , nas técnicas escriturais andinas (têxtil e tran-
integraram o conselho é tomada sob formas de delibe-
nhecimentos médicos praticados de maneira regu-
deliberativas, representativas e assembleísticas na
desconhecendo ou reprimindo outras rotas, outras
numerosos grêmios, assumindo a forma de exercício
çado), na predominância dos repertórios textuais (a
ração e participação de sindicatos agrários e ayllus.
lar por comunidades culturais indígenas. Ampliação
tomada de decisões em escala geral, “nacional”.
formas institucionais, outras práticas, culturas políti-
democrático em grande escala (federações sindicais
oralidade, a visualização etc.)6, na gestão dos recur-
Em alguns casos, essa composição de instituições
para a escala regional e estatal geral de instituições
cas ou sistemas de autoridade.
provinciais, federações ou confederações de ayllus,
sos coletivos, na gestão de direitos familiares vincula-
políticas também se dá no momento das eleições
de administração burocrática e política que permi-
bloqueios de caminhos, participação eleitoral etc.).
dos às responsabilidades políticas7 etc.
de representantes parlamentares, fato eventual que
tam sua legitimidade social, aprendizagem regular e
obtenção de recursos para as ditas práticas.
Não existe uma só forma de exercer direitos
9
4
5
c) Obrigatoriedade de reconhecimento, na
qualidade de sanção ou veto, de sua deliberação
políticos, nem de intervir na gestão social do bem
Com um pouco de esforço, como aquele que dá
A possibilidade de uma real igualdade política
se sustenta sobre circunstâncias excepcionais de
comum. A democracia liberal, mediante o voto in-
o Estado aos partidos para não desaparecer, essas
da sociedade passa então por uma supressão da es-
politização e organização das comunidades e ayllus.
e) Reconhecimento constitucional de sistemas
dividual, a competição eleitoral, a formação de co-
práticas democráticas não liberais facilmente pode-
trutura mono-organizativa do atual Estado boliviano,
Uma composição democrática de instituições e
de rotação de autoridades e de prestação de con-
munidades políticas eletivas e o mercado político1, é
riam ter uma existência regular e a escala macro-
que simplesmente reconheceu e instituiu como úni-
formas políticas diferenciadas suporia a regula-
tas a entes coletivos (não apenas individuais, como
um modo democrático de constituição da cidadania
estatal. Considerar que a democracia representativa
cas instituições legítimas de exercício político de
mentação, expansão e institucionalização dessas
também no regime liberal) das autoridades políticas
correspondente a sociedades que passaram por pro-
de corte liberal é a única maneira de exercício de
direitos (cidadania e democracia liberal) as institu-
experiências locais e efêmeras de articulação civi-
que compõem os distintos níveis de verticalidade do
cessos de individuação modernos que erodiram as
responsabilidade política é supor erroneamente que a
ições da civilização dominante (mercantil-industrial)
lizatória. Isso poderia ficar normatizado mediante
Estado (municípios, regiões autônomas, governo de-
fidelidades normativas e os regimes de agregação de
Bolívia é um país economicamente moderno em seu
e minoritária. Uma igualdade política substancial
os seguintes pontos:
partamental, Estado geral).
tipo tradicional (parentesco, comunitárias etc.). Isso,
aparato técnico organizativo e que a individuação é
entre culturas e identidades requer uma igualdade
a) O reconhecimento constitucional de siste-
Um Estado multicivilizatório significaria precisa-
geralmente, sucede nos países que se integraram de
majoritária, pois esses são os requisitos prévios à im-
dos modos de produzir política em todos os níveis
mas políticos e sistemas de conformação de auto-
mente o reconhecimento de múltiplos mecanismos,
forma majoritária e dominante a processos econômi-
plantação de modelos de democracia representativa.
da gestão governamental (geral, regional e local), isto
ridade praticados por comunidades camponesas,
de múltiplas técnicas e sentidos para entender, prati-
cos industriais substitutivos de economias cam-
Na Bolívia, as identidades coletivas normati-
é, de igualdade de práticas políticas, de instituições
ayllus, bairros, e grêmios (federações,confederações,
car e regular as pulsões democráticas da sociedade
ponesas, artesanais ou comunitárias que sustentam
vas por bairro, ayllu, comunidade ou grêmio de tra-
políticas e sistemas de autoridade política diferentes,
associações) como sistemas legítimos de eleição e
em correspondência às múltiplas formas da cidada-
materialmente a existência de modos normativos de
balhadores precedem majoritariamente qualquer
pertencentes às distintas comunidades culturais e
tomada de decisões em âmbitos pontuais do sistema
nia a partir da pluralidade de matrizes civilizatórias
constituição da agregação social. Na Bolívia, a econo-
manifestação de individualidade e são utilizadas
regimes civilizatórios que co-existem em território
de governo a escala geral, regional e local.
da sociedade.
mia apresenta uma heterogeneidade tal que apenas
cotidianamente para exercer controle social, planejar
boliviano.
b) Os âmbitos legítimos de eleição de represen-
Devido às qualidades de sua formação históri-
20% pode ser qualificado de mercantil-industrial
demandas, eleger representantes, introduzir dispu-
A essa composição de instituições e formas políti-
tantes onde vão atuar esses outros sistemas de de-
ca, a complexa realidade social boliviana tem pro-
moderno, enquanto o resto está constituído por siste-
tas igualitárias, formar uma moral cívica de respon-
cas provenientes de diversas matrizes civilizatórias ou
liberação são: 1) os representantes parlamentares do
duzido variadas técnicas de comportamento político
mas técnico-processuais tradicionais, semimercantis,
sabilidade cidadã. Entretanto, essas instituições de
societais que co-existem em condições de igualdade
nível superior do Estado (ou comunidade política ge-
democrático. E um Estado efetivamente democrático
ancorados em uma forte presença dos sistemas gre-
corte democrático que têm suas próprias técnicas
Luis Tapia chamou de política mestiça , capaz de
ral), nas regiões nas que essas formas de organização
requereria reconhecer, em grande escala, no âmbito
miais e comunitários na organização dos processos
de deliberação, de prestação de contas, de eleição
gerar processos de democratização e cidadanização
política são predominantes ou tenham uma presença
das tomadas de decisão fundamentais das políticas
produtivos. Daí que as formas de filiação corporativa,
de autoridades, de introdução de disputas, de forma-
sólidos e extensos.
parcial; 2) os parlamentos das regiões autônomas de
públicas, a legitimidade institucionalizada das dis-
gremial e comunitária se apresentem como sistemas
ção da opinião pública, de dissensos, de consensos,
Na medida em que essas distintas formas de
autogoverno indígena. A combinação percentual dos
tintas maneiras de praticar e entender a democracia
de constituição de sujeitos coletivos majoritariamente
de igualação política entre seus membros, isto é, de
produção técnica e organizativa da política per-
representantes eleitos via partido ou via estruturas
como um fato que enriquece a compreensão da de-
2
8
poderiam dar lugar a um tipo de Estado plurinacional
multicivilizatório.
1 Norberto Bobbio, El futuro de la democracia, FCE (México),
1995; Robert Dahl, La democracia y sus críticos, Barcelona,
Paidós, 1998.
2 Para uma discussão do fato democrático, mais além da perspectiva procedimental e minimalista liberal, ver Jacques Rancière, El
desacuerdo, Buenos Aires, Nova Visión, 1996; Luis Tapia, Velocidad del pluralismo, La Paz, Muela del Diablo, 2002.
3 Alison Spedding e Diego Llanos, No hay ley para la cosecha: estudio comparativo del sistema productivo y de las relaciones sociales em Chari y Chulumani, La Paz, PIEB/Sinergia, 1999.
4 Álvaro García Linera, “Sindicato, multitud y comunidad. Movimientos sociales y formas de autonomía política en Bolivia”, em
Álvaro García Linera e outros, Tiempos de rebelión, La Paz, La
Comuna, 2001.
5 Marcelo Fernández, La ley del ayllu, La Paz, PIEB, 2000; ver também os dez livros sobre justiça comunitária elaborados pelo Ministério da Justiça e Direitos Humanos em 1999.
6 Denisse Arnold e Juan Yapita, El rincón de las cabezas. Luchas
textuales, educativas y tierras en los andes, La Paz, UMSA, 2000.
7 G. Gerbrandy e P. Hoogendam, Aguas y acequias. Los derechos
del agua y la gestión campesina del riego en los andes bolivianos,
La Paz, Plural, 1998.
8 Luis Tapia, La condición multisocietal. Multiculturalidad, pluralismo, modernidad, La Paz, CIDES-UMSA/Muela del Diablo, 2002.
9 Idem.
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20 TESES DE POLÍTICA
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CADERNOS DA AMéRICA LATINA II