COMO A ÁREA DE LETRAS (NÃO) ESTÁ REPRESENTADA EM RELAÇÃO À ÁREA DE BIOLOGIA: ANÁLISE DE DUAS NOTÍCIAS DA MÍDIA ON LINE Fátima Andréia Tamanini-Adames (Labler/UFSM) [email protected] 1 Introdução Com o objetivo de verificar e comparar como notícias de popularização da ciência - PC - representam duas áreas do conhecimento diferentes, o corpus desta pesquisa está composto de duas notícias oriundas da mídia on line, uma referente à área de Letras e outra à de Biologia. Segundo Guimarães (2001b, p. 8), tanto a mídia quanto os órgãos do Estado têm uma concepção de ciência que não legitima o campo das Ciências Humanas e Sociais, refletindo na maciça presença de artigos sobre saúde. Conforme Dosse (2007a, p. 430), Foucault apontou que a Biologia permitiu o surgimento da moderna medicina no século XIX, sendo os temas médicos amplamente noticiados. Ao contrário, em se tratando da área de Letras, há uma “quase inexistência de notícias que popularizem conhecimento/ciência” (MOTTA-ROTH, 2009a, p. 136), bem como o tema é diversamente tratado. Se o processo de PC deve ser visto como crucial para a sobrevivência da própria ciência erudita, vista por Motta-Roth (2009a, p. 136) como um bem que deve ser produzido e cujo acesso deve ser democratizado em sociedade, perguntamos aqui como a área de Letras sobrevive se não for divulgada e representada como outras áreas, a exemplo da Biologia. Assim, nesta análise que se insere na abordagem da Análise Crítica do Discurso – ACD -, investigamos e descrevemos elementos da estrutura léxico-gramatical de duas notícias em termos de metafunção textual e ideacional, baseando-se na Gramática Sistêmico-Funcional – GSF – hallidayana, e, no nível semântico, através da Teoria da Representação dos Atores Sociais proposta por van LEEUWEN (1997), verificando como são constituídos sistemas de conhecimento e crença em “significados textuais representacionais” (FAIRCLOUGH, 2003). Concordando com Charaudeau (2009, p. 35) quando este escreve que “não ter acesso à informação é não poder saber”, e assim não poder também informar, entendemos que é preciso verificar como as notícias relacionadas à área de Letras se apresentam organizadas em relação à outras áreas, evidenciando que as conexões entre diferentes discursos, como os de Biologia e os de Letras, podem levar a “problematizar e por em causa a separação entre ciências, disciplinas, saberes constituídos e fechados em seus respectivos corpora e sistemas de regras específicas” (DOSSE, 2007b, p. 300301). 2 Pressupostos teóricos 2.1 Letramento científico e mídia: notícias das áreas de Letras e Biologia De acordo com Fairclough (2001, p. 65-66), para Foucault, os objetos de conhecimento são “as entidades que as disciplinas particulares ou as ciências reconhecem dentro de seus campos de interesse e que elas tomam como alvos de investigação”, como o discurso da política e o de letramento - no discurso institucional – e o discurso da mídia. Motta-Roth (2009b) acredita que textos de PC são essenciais para a sobrevivência das áreas de conhecimento, uma vez que a sociedade só apoiará pesquisas em áreas construídas discursivamente pela mídia como relevantes. Conforme a autora (2009a, p. 134), os estudos apontam baixos índices para três variáveis educacionais no Brasil - “letramento, conhecimento e manipulação de conceitos da ciência, e formação universitária” -, as quais covariam com o baixo IDH1, verificando-se a “importância do letramento para o desenvolvimento social”. De acordo com Ulhôa et al. (2008, p. 3), “as práticas de letramento não podem ser isoladas do contexto político e ideológico em que ocorre, pois são um produto social”. Estes autores (2008, p. 6-7) acreditam que, no nível epistêmico, alfabetizar-se é adquirir um instrumento para transformar o conhecimento, capacitar-se a utilizar a escrita com suas finalidades sociais, como o ensino enfatizando o uso da escrita e da leitura para “pensar, criar, investigar, avaliar”. Conforme Santos (2007, p. 476), o entendimento do letramento científico tem sido objeto de preocupação de profissionais envolvidos na educação formal e não formal em ciências, como professores e jornalistas. Foucault é considerado por Fairclough (2001, p. 23-24) uma influência destacada no desenvolvimento da análise do discurso como forma de análise social, ressaltando a importância das tecnologias em formas modernas do poder e suas manifestações na linguagem. Para Foucault, de acordo com Revel (2005, p. 37), o discurso designa um conjunto de enunciados que obedecem às mesmas regras de funcionamento, embora possam pertencer a campos diferentes, como Letras e Biologia. Segundo Foucault (1992, apud LIMA, 2006, p. 104), “as categorias discursivas estão intrinsecamente ligadas às categorias e esferas de poder”, sobretudo em discursos que têm a pretensão de serem portadores da verdade, como o discurso da ciência, o qual muitas vezes alcança a sua legitimação por meio da “desqualificação” de outros discursos. Na mídia, “as Ciências Humanas não são pensadas como ciência” (GUIMARÃES, 2001a, p. 76), numa “concepção empirista” de ciência que tem sustentado seu trabalho e a posição do Estado, de acordo com ele (2009, p. 12-13), embora qualquer área possa ser vista como tal “contanto que se garantam a qualidade e a consistência da observação, da reflexão e da explanação do fenômeno” (MOTTAROTH, 2009a, p. 133). Comparando-se com a arqueologia foucaultiana2, que Revel (2005, p. 17) associa à emergência dos objetos de conhecimento, o atual discurso de PC parece tratar mais de fatos considerados de evolução linear, como os relacionados às Ciências Naturais, daí não ser “reportagem”, a qual revisa os fatos, e sim “notícia”. Bonini (2005, apud MOTTA-ROTH, 2009a, p. 150) acredita que apenas a notícia existe enquanto gênero, sendo a reportagem entendida como uma continuação ou um aprofundamento dela, cobrindo temas e não fatos. 2.2 Análise Crítica do Discurso e Gramática Sistêmico-Funcional Na ACD, Fairclough (2001, p. 22) entende que qualquer evento discursivo é considerado simultaneamente texto, prática discursiva e prática social. Sendo assim, o autor (2001, p. 27) considera necessário um método de análise multidimensional para sua abordagem tridimensional e um bom ponto de partida é utilizar-se da GSF, a qual organiza a linguagem em torno de seu sistema de dados do contexto sociocultural e em torno do seu sistema linguístico, que se inter-relacionam e formam uma “rede sistêmica” (HALLIDAY, 2004). 1 Índice de Desenvolvimento Humano. Cf. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 5ª ed. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro/São Paulo: 1997. 2 O Sistema de Dados do Contexto Social é formado pelas escolhas dos falantes nas variáveis Campo, Modo e Relações que, por sua vez, permitem as outras escolhas no Sistema Linguístico – composto dos Subsistemas Semântico, Léxico-gramatical e Fonológico - que vão determinar o significado da língua. E todos os subsistemas estão interligados. [...] Essas três variáveis do contexto são realizadas no Sistema Linguístico, respectivamente, por três metafunções da linguagem: ideacional, que expressa o conteúdo do texto, possibilitando, assim, ao sujeito observador tirar partido da capacidade da linguagem de representar a natureza da prática social, as experiências do mundo interior e exterior; interpessoal, que expressa as interações sociais das quais o sujeito participa, possibilitando-lhe, assim, representar a natureza da conexão entre os participantes da situação e concretizar as ações de uns sobre os outros dentro da realidade social e desencadear novas ações; textual, que expressa a estrutura e o formato do texto, possibilitando, assim, ao sujeito representar a natureza do meio de transmissão da mensagem e estruturar a experiência em textos coesos e coerentes a partir do sistema da língua. (TAMANINI-ADAMES, 2010, p. 4647) A metafunção ideacional relaciona-se “aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 92). Assim, para Fairclough (2003), na ACD, sistemas de conhecimento e crença estão relacionados a significados textuais representacionais. Resende (2009, p. 32) escreve que, ao nível da abstração da estrutura discursiva correspondem os sistemas linguísticos - subsistemas e metafunções propostos por Halliday (2004) na GSF, e ao nível da concretude do evento correspondem os textos produzidos nas interações. “A relação entre o potencial dos sistemas linguísticos e os textos produzidos em eventos discursivos é mediada pelas “ordens do discurso” (RESENDE, 2009, p. 33), termo focaultiano que Fairclough (2003, p. 220) entende como configurações particulares de gêneros (relacionados à metafunção textual e a significados acionais), discursos (relacionados à metafunção ideacional e a significados representacionais), e “estilos” (relacionados à metafunção interpessoal e a significados identitários) que constituem o aspecto discursivo de uma rede de práticas sociais e têm relativa estabilidade. Fairclough (2003, p. 28) se baseia em Foucault (1994, p. 318) - autor que acredita em três tipos de relações: de controle sobre as coisas, de ação sobre os outros, e de relações com os outros -, e diz que os significados representacionais, acionais e identitários existem em relação dialética (Quadro 1). Aspectos do social ACD GSF constituídos (em parte) Significados textuais Metafunções pelo discurso (FAIRCLOUGH, 2003) (HALLIDAY, 2004) Sistemas de conhecimento Representacionais Ideacional e crença Relações sociais Acionais/Relacionais Interpessoal Identidades sociais Identitários Interpessoal Quadro 1: Cruzamento da visão social da linguagem segundo a ACD e a GSF adaptado de Figueiredo e Moritz (2008, p. 57). Segundo Figueiredo e Moritz (2008, p. 55), da perspectiva de Halliday, os significados textuais, projetados pelas orações vistas como mensagens através do Sistema de Tema e Rema – STR – da estrutura léxico-gramatical, referem-se ao modo pelo qual o texto organiza-se em relação ao seu contexto e à sua mensagem, ao modo com que o texto organiza as metafunções ideacional e interpessoal. “Tema é tudo o que aparece em posição inicial na oração, até o final do primeiro elemento experiencial (participantes, processo verbal ou circunstância)” (VENTURA e LIMA-LOPES, 2002, p. 3), podendo estar “marcado” ou “não marcado” e ser “simples” – ideacional - ou “múltipo” – ideacional associado a textual e/ou interpessoal -, segundo Halliday (2004, p. 71-92). Ventura e Lima-Lopes (2002, p. 13) acreditam em quatro hipóteses principais para seu papel dentro de um texto, relacionadas ao seu papel de orientador para o leitor: tematização de significados de acordo com determinados propósitos; manipulação das reações dos leitores; correlação de padrões temáticos com gêneros discursivos; e correlação com o método de desenvolvimento de um texto. Para Fairclough (2001, p. 227), analisar as orações nestes termos significa examinar como as funções textuais estruturam a informação num sentido geral. Fazemos escolhas estruturais por orações que “resultam em escolhas sobre o significado (e a construção) de identidades sociais, relações sociais e conhecimento e crença” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 104). No nível ideacional, Halliday (2004, p. 168-305) escreve que, no Sistema de Transitividade – ST -, cada proposição consiste de três elementos: o processo elemento central -, seu(s) participante(s), e a(s) circunstância(s) - de caráter opcional. Segundo Cunha e Souza (2007, p. 53), a transitividade é a “gramática da oração”, servindo para expressar uma gama particular de significados ideacionais ou cognitivos. Os processos são em número de seis: materiais – PMA -; mentais – PME -; relacionais – PRE -; comportamentais – PCO -; verbais – PVE -; e existenciais – PEX. Os PMA são processos de “fazer”, relacionados a ações do mundo físico, em que o Ator realiza a ação - sua presença é obrigatória – e o Meta é o participante a quem o processo é dirigido. Os PME são processos de “sentir” que se referem a ações que se dão “no fluxo de nosso pensamento, ou em sua representação” (HALLIDAY, 2004, p. 197), e os participantes são o Experienciador e o Fenômeno, elemento percebido pelo Experienciador. Os PRE, ou processos de “ser, ter e pertencer”, possuem uma função classificatória, relacionando duas entidades no discurso, e os participantes são Portador e Atributo, Identificador e Identificado, Possuidor e Possuído, ou Característica e Valor. Os PCO são ações que englobam comportamentos físicos e psicológicos realizados de forma simultânea, estando entre os PMA e os PME, e, a exemplo dos PME, exigem que pelo menos um de seus participantes - Comportantes – seja uma figura personificada. Os PVE são processos de “dizer” e estão na fronteira entre os PME e os PRE, não precisando possuir um participante humano, podendo ter como participantes o Dizente, o Dito, o Receptor, o Alvo, a Verbiagem. Por último, os PEX se encontram entre os PRE e PMA e são realizados tipicamente pelos verbos “haver, existir e ter” e têm apenas um tipo de participante, o Existente. Fairclough (2001, p. 104) diz que, em termos do significado ideacional, a oração significa um processo de um individuo particular agindo sobre uma entidade em que se observa “um investimento ideológico diferente de outras formas de significar os mesmos eventos”. No nível ideacional, referindo-se à estrutura semântica do texto, van Leeuwen (1997, p. 169) tenta responder a três questões básicas que se referem: 1º aos modos pelos quais os atores sociais podem ser representados no discurso; 2º às escolhas que nos possibilita a língua para nos referirmos às pessoas; e, 3º à maneira como os atores sociais de relevo estão representados em um determinado tipo de discurso. Desta forma, antes de analisar como se realizam linguisticamente, procura esboçar um “inventário sociossemântico” dos modos pelos quais os atores sociais podem ser representados, e estabelecer a relevância sociológica e crítica das categorias sociossemânticas – não linguísticas – propostas e divididas em dois grandes grupos, de Inclusão e de Exclusão, chamadas de “pansemióticas” (van LEEUWEN, 1997, p. 171) (Quadro 2). • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 1. EXCLUSÃO 1.1. Supressão 1.2. Encobrimento 2. INCLUSÃO 2.1. Ativação 2.2. Passivação 2.2.1. Sujeição 2.2.2. Beneficiação 2.3. Participação 2.4. Circunstancialização 2.5 Possessivação 2.6 Personalização 2.6.1. Determinação / Indeterminação 2.6.1.1. Associação 2.6.1.1.1. Parataxe 2.6.1.1.2. Circunstâncias de acompanhamento 2.6.1.1.3. Com pronome possessivo 2.6.1.2. Dissociação 2.6.1.3. Diferenciação 2.6.1.4. Indiferenciação 2.6.1.5. Categorização 2.6.1.5.1. Funcionalização 2.6.1.5.1.1. Com substantivo associado 2.6.1.5.1.2. Com substantivo formado por substantivo 2.6.1.5.1.1. Com substantivo formado por verbo 2.6.1.5.2. Identificação 2.6.1.5.2.1. Classificação 2.6.1.5.2.2. Identificação relacional 2.6.1.5.2.1. Identificação física 2.6.1.5.2.1.1. Com substantivos que denotem características físicas 2.6.1.5.2.1.2. Com adjetivos 2.6.1.5.2.1.1. Com/Sem sintagmas preposicionais 2.6.1.5.3. Avaliação 2.6.1.6. Nomeação 2.6.1.6.1. Formalização 2.6.1.6.1.1. Titulada 2.6.1.6.1.2. Pseudotitulada • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 2.6.1.6.2. Semiformalização 2.6.1.6.2.1. Titulada 2.6.1.6.2.2. Pseudotitulada 2.6.1.6.3. Informalização 2.6.1.6.3.1. Titulada 2.6.1.6.3.2. Pseudotitulada 2.6.1.6.4. Titulação 2.6.1.6.4.1. Honorificação 2.6.1.6.4.2. Afiliação 2.6.1.6.1. Destitulação 2.6.1.7. Determinação única 2.6.1.8. Sobredeterminação 2.6.1.8.1. Inversão 2.6.1.8.1.1. Anacronismo 2.6.1.8.1.2. Desvio 2.6.1.8.2. Simbolização 2.6.1.8.3. Conotação 2.6.1.8.4. Destilação 2.6.2. Indeterminação 2.6.2.1. Anominização do ator social (com pronome indefinido) 2.6.2.2. Por referência exofórica 2.6.2.3. Agregada 2.6.3. Generalização[1] 2.6.4. Especificação [2] 2.6.4.1. Individualização 2.6.4.2. Assimilação 2.6.4.2.1. Coletivização 2.6.4.2.2. Agregação 2.7. Impersonalização 2.7.1. Abstração 2.7.2. Objetivação 2.7.2.1. Espacialização 2.7.2.2. Automização do enunciado 2.7.2.3. Instrumentalização 2.7.2.4. Somatização 2.7.3. Generalização (*) 2.7.4. Especificação (*) [1] Comum à Personalização e à Impersonalização (*). [2] Comum à Personalização e à Impersonalização (*). Quadro 2: Categorias de representação dos atores sociais – adaptado de van Leeuwen (1997, p. 219). Segundo van Leeuwen (1997, p. 169), há duas razões importantes para proceder deste modo. A primeira diz respeito à falta de biunicidade na língua, em que Agente e Paciente são categorias sociológicas, enquanto que Ator e Meta” são categorias linguísticas. A Agência, como um conceito sociológico, revela-se de grande importância na ACD: quais os atores sociais e em que contextos estão eles representados sociologicamente como Agentes e como Pacientes? A segunda razão se refere ao significado, é inerente à cultura e não à língua, e que “não pode ser associado a uma semiótica específica” (van LEEUWEN, 1997, p. 171). Conforme o autor (1997), há várias formas de inclusão, destacando-se neste estudo a inclusão por ativação dos atores sociais através do seu papel gramatical na oração (Ator, Experenciador, Portador, Identificador, Característica, Dizente, Comportante ou Existente). Quanto às exclusões, elas podem ocorrer por supressão, onde “não há qualquer referência aos atores” (van LEEUWEN, 1997, p. 181), através do apagamento do agente da passiva ou dos beneficiários, de orações reduzidas funcionando como participantes, de nominalizações, de adjetivos, ou de voz média (nem ativa, nem passiva), de acordo com van Leeuwen (1997, p. 181-183). Também, as exclusões podem ocorrer por encobrimento, onde os atores sociais “não estão tanto excluídos, mas sim pouco visíveis, empurrados para segundo plano” (van LEEUWEN, 1997, p. 181), através de elipses e pelas mesmas formas da exclusão por supressão, com a diferença de que aparecerem em outro lugar do texto e são recuperáveis. 3 Metodologia A fim de comparar como duas notícias de PC de duas áreas do conhecimento diferentes, uma da área de Letras e outra da área de Biologia, o corpus escolhido para este trabalho está composto de duas notícias oriundas da Veja On Line datadas de 1 de novembro de 2010, uma referente a cada respectiva área do conhecimento. Nesta análise, investigamos e descrevemos elementos das estruturas léxicogramatical e semântica das duas notícias, embasados na GSF e na abordagem da ACD. No nível léxico-gramatical, pesquisamos as metafunções textual - valemo-nos do STR (HALLIDAY, 2004; VENTURA e LIMA-LOPES, 2002) - e ideacional - nosso suporte é o ST (CUNHA e SOUZA, 2007; HALLIDAY, 2004; SOUZA, 2006). Em relação ao nível semântico, utilizamo-nos da Teoria da Representação dos Atores Sociais proposta por van LEEUWEN (1997), com o intuito de verificar como são constituídos sistemas de conhecimento e crença em “significados textuais representacionais” (FAIRCLOUGH, 2003). 4 Análise e interpretação dos resultados Nesta pesquisa, os passos analíticos incluem: 1º o destaque do Tema das orações; 2º a verificação dos processos e dos participantes das orações; e, 3º a revelação dos atores sociais incluídos e excluídos nas duas notícias (Quadro 3), conforme a legenda exposta no Quadro 4. Português [IA] é a matéria com pior resultado no Enem (1.1) Nenhum colégio [IA] no país atingiu média de 700 pontos nessa parte do exame (1.2 O desempenho [EE] na área de Linguagens e Códigos [IA], que mede as habilidades dos jovens em língua portuguesa e interpretação de textos (1.3a), puxou para baixo a média final das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009 (1.3b). Essa parte [IA] do exame [IA] foi a única em que nenhum colégio no país atingiu média de 700 pontos, numa escala de 0 a 1.000 (1.4). Entre as escolas da capital, o melhor desempenho [EE] ficou com o Colégio Vértice, com 686,70 pontos (1.5). Nas outras grandes áreas do conhecimento, a maior média dos colégios [IA] ficou entre 700 e 800 pontos (1.6). Com a maior média geral do país [EE] o Vértice [IA] encabeça as notas das escolas da capital em Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas (1.7). Em redação, a melhor média [EE] foi do Colégio Batista (1.8). A pontuação máxima abaixo de 700 em linguagens [EE] é considerada [ES1] "preocupante" e um reflexo da chamada "geração Y", educada [ES1] com a ajuda da internet (1.9). Para gestores de escolas, com os jovens cada vez mais conectados em redes sociais, a linguagem [IA] desenvolvida [ES1] no mundo virtual [IA] se distanciou da língua culta (1.10a), empobrecendo o vocabulário [ES2] (1.10b) e prejudicando a capacidade de interpretar textos mais longos [ES2] (1.10c). "Está tudo [IA] muito abreviado, curto (1.11a), e eles [IA] deixam de produzir textos (1.11b). É tudo [IA] copiado [EE]: control-C, control-V" (1.12a), diz Maria Martinez, diretora pedagógica do Batista Brasileiro [IA] (1.12b). "Não aceitamos trabalhos copiados da internet [ES1] (1.13). As próprias escolas [IA], às vezes, entregam material pronto para o aluno (1.14a), que só tem o trabalho de responder [EE], não de elaborar o texto" [ES1] (1.14b). Diretor do Vértice, Adílson Garcia [IA] reconhece que há dificuldade [ES3] do jovem em adquirir hábitos de leitura (1.15). Álcool [IA] é mais prejudicial para a sociedade que crack e heroína (2.1a), diz cientista inglês [IA] (2.1b) Estudo [IA] leva em conta os danos individuais e às outras pessoas (2.2) O álcool [IA] foi considerado [EE] a droga mais perigosa da Grã-Bretanha, à frente até do crack e da cocaína (2.3a), segundo um ranking [IA] que leva em conta, além dos prejuízos pessoais, os danos que ela pode provocar na sociedade (2.3b). O estudo, publicado nesta segunda-feira pelo periódico médico Lancet [IA] (2.4a), foi realizado pelo Comitê Científico Independente sobre Drogas [IA], liderado pelo exconsultor governamental David Nutt (2.4b). Nutt foi demitido [ES1] ano passado (2.5a) após fazer declarações contra a política antidrogas do governo (2.5b), quando [EE] disse que andar de cavalo [ES3] era mais perigoso que ingerir [ES3] ecstasy, uma droga sintética bastante consumida na Grã-Bretanha (2.5c). [EE] Também afirmou que a maconha fora promovida [EE] à droga classe B, a segunda classe mais perigosa segundo o Conselho Britânico sobre Abuso de Drogas [IIO], por causa de uma “decisão política” [ES3] (2.6). No estudo publicado nesta segunda-feira, Nutt [IA] e seus colegas [IA] classificam as drogas pelos danos individuais, que vão desde a morte até danos mentais e perda dos relacionamentos, e pelos danos que podem provocar às outras pessoas (2.7). A pontuação [EE] vai de zero (inofensivo) até 100 (mais perigoso) (2.8). No ranking geral, o álcool [IA] ficou em primeiro lugar, com 72 pontos (2.9a) — a heroína [IA] ficou com 55 pontos, o crack com 54 (2.9b), a cocaína [IA] ganhou 27 pontos (2.9c), a maconha [IA] ficou com 20, o ecstasy e os anabolizantes com nove e os cogumelos alucinógenos com cinco (2.9d). Se levados em conta apenas os danos individuais (2.10a), as drogas mais perigosas são o crack [IA], a heroína [IA] e metanfetamina [IA] (2.10b). A [EE] mais danosa aos outros foi o álcool [IA], seguida pela heroína e o crack (2.11). Os autores do estudo [IA] escreveram que a classificação [ES3] atual é ultrapassada e é preciso chamar a atenção [ES2] de forma agressiva para os perigos do álcool, em prol da saúde pública (2.12). Pelo sistema britânico de classificação atual, o ecstasy [IA] é considerado uma droga classe A, tão perigoso quanto metanfetamina (2.13). Nutt [IA] é autor de outro estudo, publicado também no Lancet em 2007 (2.14a), afirmando que álcool e cigarro eram mais prejudiciais [ES2] que a maconha e o LSD (2.14b). Quadro 3: Notícias das áreas de Letras e de Biologia (Fonte: Veja On Line. Disponíveis em: <http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/portugues-e-a-materia-com-piorresultado-no-enem> e <http://veja.abril.com.br/noticia/saude/alcool-e-mais-prejudicialpara-a-sociedade-que-crack-e-heroina-diz-cientista-ingles>. Acesso em: 3 nov. 2010.). PMA PME PRE PVE PCO PEX Sublinhado Negrito Itálico Processo Material Processo Mental Processo Relacional Processo Verbal Processo Comportamental Processo Existencial Participantes: Área de Letras, Profissionais das Escolas, Estudantes do Ensino Médio, Área de Biologia, Cientistas, Pessoas em geral, etc. Tema citações e relatos ( ) [E...] - [I...] (número da oração) exclusão por supressão [ES] – com apagamento do agente da passiva [ES1], com apagamento do beneficiário [ES2], com nominalização [ES3] -, exclusão por encobrimento [EE], inclusão por ativação [IA] Quadro 4: Legenda para classificação dos processos, participantes, Tema, citações e relatos e exclusões e inclusões de atores sociais. 4. 1 Tema Como podemos observar no Quadro 5, o Tema das notícias está claro desde o título: o de Letras é “Português”, área de conhecimento que aparece mais em posição temática (“área de Linguagens e Códigos”), juntamente com profissionais da área de Educação (“gestores de escola”, “diretora pedagógica” - de uma escola -, “diretor” - de uma escola) e alunos do Ensino Médio; o de Biologia é “álcool”, considerado uma “droga” e assim bastante reiterado, juntamente com profissionais da própria área de Biologia (“cientistas”). Assim, observa-se que dividem principalmente a posição temática: 1º na notícia da área de Letras: “Português”, estudantes do Ensino Médio e profissionais da Educação; 2º na notícia da área de Biologia: “álcool”, outras drogas e cientistas da área. Temas na notícia da área de Letras Temas na notícia da área de Biologia Português; Nenhum colégio no país Álcool; Diz (cientista); Estudo (sobre (alunos); O desempenho na área de drogas); O álcool; segundo um ranking (de Linguagens e Códigos (alunos); Que (área drogas); O estudo (sobre drogas); Nutt de Linguagens e Códigos); Essa parte do (cientista); quando disse (cientista); exame (área de Linguagens e Códigos); Também afirmou (cientista); No estudo Entre as escolas da capital (alunos); Nas publicado nesta segunda-feira (sobre outras grandes áreas do conhecimento; drogas); A pontuação (do ranking de Com a maior média geral do país (alunos drogas); No ranking geral (de drogas); a do Colégio Vértice); Em redação; A heroína; a cocaína; a maconha; Se levados pontuação máxima abaixo de 700 em em conta (danos individuais das drogas); linguagens (alunos); Para gestores de as drogas mais perigosas; A mais danosa escolas; Está (trabalho dos alunos); e eles aos outros (álcool); Os autores do estudo (alunos); É (trabalho dos alunos); Diz (cientistas); Pelo sistema britânico de (diretora pedagógica do Colégio Batista classificação atual (de drogas); Nutt Brasileiro); Não aceitamos (profissionais (cientista); afirmando (cientista). do Batista Brasileiro ou do Vértice?); As próprias escolas; Que (alunos); Diretor do Vértice, Adílson Garcia. Quadro 5: Temas nas orações que compõe as notícias analisadas. 4. 2 Processos e participantes Conforme observado no Gráfico 1 (vide também Quadro 3), a notícia da área de Letras comporta-se de maneira similar à de Biologia quanto à preponderância de processos materiais e relacionais, estes com função classificatória. GRÁFICO 1: Processos de transitividade nas notícias analisadas. Entretanto, enquanto que na notícia da área de Letras o Ator que está geralmente realizando a ação é o estudante brasileiro do Ensino Médio, com a área de Letras classificada em relação aos alunos, na notícia da área de Biologia o Ator é um profissional desta área, um cientista, com as drogas relacionadas a seus efeitos e grau de periculosidade à saúde humana (Quadro 6). O que mede desempenho (dos alunos) na área de Linguagens e Códigos, Ator PMA PMA na notícia da área de Letras as habilidades dos puxou a média jovens em língua para final portuguesa e baixo das interpretação de escolas textos, Meta PMA Meta no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009. Circunstância de Localização PMA na notícia da área de Biologia No estudo Nutt e classificam as drogas pelos danos individuais, que vão publicado seus desde a morte até danos mentais nesta segunda- colegas e perda dos relacionamentos, e feira, pelos danos que podem provocar às outras pessoas. Circunstância Ator PMA Meta Circunstância de Modo de Localização Quadro 6: Exemplos de processos materiais nas notícias analisadas. A notícia da área de Biologia também tem o dobro de processos verbais, trazendo somente vozes de cientistas, enquanto a notícia de Letras traz vozes não pertencentes à sua área nas citações e relatos (Quadro 7). PVE na notícia da área de Letras Diretor do Vértice, Adílson reconhece que há dificuldade do jovem em adquirir Garcia hábitos de leitura. Dizente PVE Verbiagem / Relato Os escreveram PVE na notícia da área de Biologia que a e é preciso chamar a autores do estudo classificação atual é ultrapassada atenção de forma agressiva para os perigos do álcool, em prol da saúde pública. Dizente PVE Verbiagem / Circunstância de Verbiagem / Relato 2 Relato 1 Acompanhamento Quadro 7: Exemplos de processos verbais nas notícias analisadas. No caso da presença de dois processos comportamentais na notícia de Letras, um Comportante está excluído e o outro é o estudante. Estes processos somente nesta notícia, juntamente com os mentais e existenciais, sugerem que este campo do conhecimento está associado à subjetividade, ao contrário da associação ao empirismo biológico (Quadro 8). Neste caso, também evidenciamos uma citação sem definição do Dizente, o que pode indicar a falta de um Tema Textual. (Nós - profissionais do Brasileiro ou do Vértice?) (Comportante) Batista "Não aceitamos PCO trabalhos internet. copiados da Fenômeno Verbiagem / Citação (1ª parte) - Dizente? mate para o q só tem o de responder, não rial aluno, u traba de elaborar o pronto e lho texto". PMA Meta Benefi Cir PCO Fenômeno ciário cuns tân cia de Mo do Verbiagem / Citação (2ª parte) – Dizente? Quadro 8: Processos comportamentais na notícia da área de Letras. As pró às prias vezes, escolas, Ator Cir cuns tância de Exten são entre gam 4. 3 Atores sociais Quanto aos atores sociais, identificamos três principais participantes em cada notícia, conforme o Quadro 9. Na notícia da área de Letras aparecem a própria área (Tema do título: “Português”), os profissionais das escolas e os estudantes brasileiros do Ensino Médio; na notícia da área de Biologia, aparecem a própria área (sugerida pelo Tema do título: “Álcool”), os cientistas e a população em geral. Área de Letras Português; matéria com pior resultado; essa parte; área de (Tema do título: Linguagens e Códigos. língua portuguesa; interpretação de “Português”) textos; grande área do conhecimento; redação; linguagem(s); língua culta; vocabulário; capacidade de interpretar textos mais longos; tudo; control-C, control-V; trabalhos; material; texto(s); hábitos de leitura Outras áreas outras; grandes áreas do conhecimento; Matemática; Ciências da Natureza; Ciências Humanas Profissionais das escolas Estudantes brasileiros do Ensino Médio Outros participantes Inanimados Área de Biologia (Tema do título: “Álcool”) Cientistas gestores de escolas; Maria Martinez - diretora pedagógica do Batista Brasileiro; Diretor do Vértice - Adílson Garcia, escolas jovem(s); geração Y; eles; aluno; colégio(s); escolas; Colégio Vértice; país; Vértice; Colégio Batista Enem – exame - Exame Nacional do Ensino Médio; internet mundo virtual Álcool; crack; heroína; cocaína; ela; estudo; ecstasy; maconha; droga(s); anabolizantes; cogumelos alucinógenos; metanfetamina; LSD cientista inglês; estudo; periódico médico Lancet; Comitê Científico Independente sobre Drogas; ex-consultor governamental David Nutt; Nutt; Conselho Britânico sobre Abuso de Drogas; colegas; autores do estudo; sistema britânico de classificação atual; autor de outro estudo; ranking Pessoas em geral Sociedade; relacionamentos; outras pessoas; outros; saúde pública; Grã-Bretanha; governo Quadro 9: Principais atores sociais nas notícias analisadas. Como observamos no Gráfico 2 (vide também Quadro 3), há uma grande número de inclusões com ativação dos profissionais de Biologia e, embora a área de Letras esteja quase tão ativada quanto a de Biologia, os atores sociais chamados a representá-la na notícia, ao contrário do que acontece na de Biologia, não são da sua área, mas da área de Educação, categorizados como “gestores de escolas”. Gráfico 2: Exclusões por supressão [ES] e por encobrimento [EE] e inclusões por ativação [IA] nas notícias das áreas de Letras e de Biologia e de seus respectivos representantes nas notícias: professores de Português e cientistas. Enquanto profissionais da área de Biologia, aqui os cientistas, estão incluídos de diversas maneiras, profissionais de Letras são excluídos por supressão” em várias orações, sofrendo uma exclusão radical no decorrer da notícia - como não são referidos em nenhum momento, não poderiam ser recuperados no texto, portanto não poderiam estar encobertos (Quadros 10 e 11). Segundo van Leeuwen (1997), quando há esta supressão radical, os leitores supostamente já devem saber quem é o ator social ou, como acreditamos aqui, ela é usada como forma de impedir o acesso a detalhes que provocariam reações nos leitores. “A prática fica representada como algo que não vai ser reexaminado nem contestado” (FUZER, 2008, p. 134). A pontuação máxima abaixo de 700 em linguagens [EE] – o desempenho “dos estudantes do Ensino Médio” na área de Linguagens e Códigos - é considerada [ES1] – “Quem” considera isto? Professores de Português? - "preocupante".. ...a linguagem [IA] desenvolvida [ES1] - “Quem” desenvolve? Internautas? - no mundo virtual [IA] se distanciou da língua culta, empobrecendo o vocabulário [ES2] - “Quem” teve o vocabulário empobrecido? Estudantes? - e prejudicando a capacidade de interpretar textos mais longos [ES2] - “Quem” foi prejudicado na capacidade de interpretação de textos mais longos? Estudantes?. Diretor do Vértice, Adílson Garcia [IA] reconhece que há dificuldade [ES3] - “Quem” dificulta? Professores de Português? - do jovem em adquirir hábitos de leitura. Quadro 10: Exemplos de exclusão de atores sociais na notícia da área de Letras. ES Área de Letras 0 Professores de Português 4 Área de Biologia Cientistas 0 2 Área de Biologia Cientistas 1 5 EE Área de Letras 1 Professores de Português 0 IA Área de Letras Professores de Área de Biologia Cientistas Português 5 0 7 9 Quadro 11: Número de exclusões por supressão e por encobrimento e de inclusões por ativação das áreas de Letras e de Biologia e de seus respectivos legítimos representantes nas notícias analisadas. 5 Considerações finais Fairclough (2003, p. 66) acredita que vivemos em um período de transição, onde se cria uma tensão que ora pressiona no sentido da estabilização de uma nova ordem social, ora pressiona continuamente pela mudança, ilustrando, segundo Wodak (2004, p. 230-231), o papel mediador e construtivo da mídia com inúmeros exemplos em que demonstra a falácia da crença na neutralidade das instituições midiáticas, as quais costumam se dizer objetivas por acreditarem dar espaço ao discurso público e refletir os fatos de forma desinteressada. De acordo com Foucault, “trabalho, vida e linguagem” são os três poderes da modernidade, normativos e determinantes da história “da qual o homem tenta em vão tornar-se senhor” (WALDENFELS, 2006, p. 249). Conforme Guimarães (2009, p. 1), o domínio da ciência tem hoje um lugar fundamental na vida das pessoas, que esperam dela o bem-estar, a cura, a diversão, o trabalho, etc. Revel (2005, p. 27) diz que esta “biopolítica” representa uma “grande medicina social” que se aplica à população a fim de governar sua vida, podendo explicar não só o maior interesse na circulação de discursos voltados para a área de Biologia, como também a grande inclusão de seus profissionais na mídia. De acordo com Revel (2005, p. 13), valendo-se do método arqueológico focaultiano, podemos reconstruir atrás de um fato toda uma rede de discursos, de poderes, de estratégias e de práticas, onde as alterações na ordem do saber são percebidas a partir de campos tão diferentes quanto Letras e Biologia, verificando-se a divisão entre o que é pensável e o que não é, no caso, a não representação da área de Letras através de seus legítimos representantes na notícia analisada. Entretanto, esta pesquisa representa apenas um estudo inicial acerca da representação do discurso científico na mídia, e estamos cientes de que seria preciso um corpus bem mais abrangente para conclusões definitivas. Referências BONINI, Adair. Os gêneros do jornal: questões de pesquisa e ensino. In: KARWOSKI, Acir Mário; GAYECZKA Beatriz; BRITO, Karim Siebeneicher. (Orgs.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005, p. 57-71. CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das Mídias. 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