Issn 0102-0382 • ano 118 • Nº 356 • out/nov/dez • 2010
charitas:
o porto
seguro dos
veleiros
feliz
2011
Nesta edição:
4 editorial
• Carta ao leitor, com o resumo das atividades da
Sede Social em 2010
6 EM PAUTA
• Notas sobre acontecimentos no CN
defesa nacional.
uma visão políticoestratégica
Pág 32 Um alerta para
os políticos, sobre a
importância da defesa
nacional • Almirantede-Esquadra Mario
Cesar Flores
9 documento
carta compromisso da presidente eleita
10 charitas
o porto seguro dos veleiros
12 evento
o torneio de tiro independência foi o maior
evento do gênero já realizado no brasil •
Capitão-de-Mar-e-Guerra (RM1) Fernando Lessa Gomes
14 atualidade
a crise de liderança estadunidense • Reis Friede
18 brasilidade
nódulos polimetálicos: tesouro dos leitos
oceânicos • Fernando Malburg da Silveira
dialética Pág 47
As diversas funções
assumidas por essa
palavra na Filosofia e sua
importância na busca da
verdade • Walter Arnaud
Mascarenhas
22 história do brasil
o verdadeiro tamanho do brasil •
Marcílio Boavista da Cunha
32 segurança
defesa nacional. uma visão político-estratégica
• Almirante-de-Esquadra (Reformado) Mario Cesar Flores
38 física
onda ou partícula? •
Capitão-de-Mar-e-Guerra Paulo Roberto Gotaç
47 filosofia
dialética • Walter Arnaud Mascarenhas
54 medicina
síndrome metabólica: a pandemia que aumenta
a morbimortalidade cordiovascular •
Maj. Brig. Méd. Dr. Ricardo Luiz de G. Germano
A pequena ilha
de st. maarten,
no caribe, guarda
um cenário de
cartão-postal
Pág 62 Tão minúscula
quanto fascinante, essa
ilha possui duas culturas
diferentes que convivem
em harmonia •
Capitão-Tenente Rosa
Nair Medeiros
56 fato real
acidente na jamaica • Relato de D. Eudes de Orléans e
Bragança. Adaptação do jornalista Antônio de Oliveira
Pereira
61 história naval
monitor parnaíba • Almirante Oscar Moreira da Silva
62 viagens
a pequena ilha de st. maarten, no caribe, guarda
um cenário de cartão-postal •
Capitão-Tenente Rosa Nair Medeiros
70 marinhagens
capitão x comandante •
Capitão-de-Mar-e-Guerra (REF) Paulo de Paula Mesiano
74 leia mais
• Lançamentos de livros no Clube Naval
nódulos
polimetálicos:
tesouro dos
leitos oceânicos
Pág 18 uma enorme
riqueza do nosso litoral
ainda passa despercebida
por grande parte dos
brasileiros • Fernando
Malburg da Silveira
•••
Clube Naval
Prezado Leitor,
Av. Rio Branco, 180 • 5º andar
Centro • Rio de Janeiro • RJ
A
Brasil • 20040-003
Tel.: (21) 2112-2425
o encerrar-se o ano de 2010 constatamos que foi
possível cumprir todas as aspirações intelectuais
pretendidas para a Revista do Clube Naval neste
ano. Os artigos publicados, por suas variedades,
sempre procuraram alcançar a todos, apresentando
mensagens leves sobre assuntos, algumas vezes, pesados.
A Revista também buscou manter o sócio informado do
dia a dia cultural e social do Clube, promovendo a frequência à Sede Social, o que pensamos ter atingido.
Por ocasião do ano que se encerra é sempre oportuno
fazer-se um balanço do que foi realizado, e, em face do
que foi obtido, temos a certeza do dever cumprido.
Convidamos a todos para, no ano que se avizinha, dar
continuidade aos trabalhos que estão sendo realizados,
a fim de que possamos, juntos, preencher as aspirações
individuais e coletivas de nossa gente.
Tendo assim procedido, encaminhamos a vocês a última
edição do ano de 2010 da Revista do Clube Naval, ressaltando, no entanto, a recém distribuída Edição Especial Comemorativa do Centenário da Sede Social, em que procuramos
relevar os valores e bens do nosso Clube Naval.
Que todos tenham um Feliz Natal e próspero Ano Novo.
Presidente
V Alte Ricardo Antonio da Veiga Cabral
Diretor do Departamento Cultural
V Alte José Eduardo Pimentel de Oliveira
•••
Editoria
VAlte José Eduardo Pimentel de Oliveira
CMG Adão Chagas de Rezende
Jornalista Responsável
Antônio de Oliveira Pereira
(DRT-MT. Reg. 15.712)
Direção de Arte e Diagramação
AG Rio - Comunicação Corporativa
[email protected]
(21) 2569-9651
Produção
Luciana Buarque Goulart
José Carlos Medeiros
Atendimento Comercial
Tel.: (21) 2262-1873
[email protected]
•••
As informações e opiniões emitidas em
entrevistas, matérias assinadas e cartas
publicadas são de exclusiva responsabilidade
de seus autores. Não exprimem,
necessariamente, informações, opiniões
ou pontos de vista oficiais da Marinha do
Brasil, nem do Clube Naval, a menos que
explicitamente declarado.
A transcrição ou reprodução de matérias aqui
publicadas, em todo ou em parte, necessita
da autorização prévia da Revista do Clube Naval.
•••
Os artigos enviados estão sujeitos a cortes
e modificações em sua forma, obedecendo
a critérios de nosso estilo editorial.
Também estão sujeitos às correções
gramaticais, feitas pelo revisor da revista.
As fotos enviadas através de e-mail devem
medir o mínimo de 15cm, em jpg ou tif,
com 300dpi.
•••
Erratas da edição anterior (nº 355):
•
Página 3: Índice
40 – Marinha do Brasil
Artigo: Almirante Maximiano, um pioneiro
Autor: Vice-Almirante (Ref)
Rui da Fonseca Elia.
44: Marinha do Brasil
• Página
1ª coluna, 3ª linha:
onde lê-se: Cisne Branco, leia-se: Brasil.
Na legenda da foto maior:
leia-se Veleiro Cisne Branco
4
Revista do Clube Naval • 356
6ª MOSTRA DE ARTE DOS SÓCIOS DO CLUBE NAVAL • Após três anos de interrupção,
no ano do Centenário da Sede Social do Clube, a Mostra de Arte exclusiva para os artistas sócios do
Clube voltou com força total. Realizada no período de 24 de Novembro a 03 de Dezembro, contou
com a participação de 41 expositores.
Na ocasião, o Clube prestou uma justa homenagem ao artista plástico fundador do Salão de Belas
Artes do Clube Naval, Capitão-de-Mar-e-Guerra (IM-Ref.) Nélio Ronchini Lima e ao Professor Mazza
Francesco, um dos fundadores do Salão do Mar do Clube Naval.
Na foto o Professor Mazza Francesco e sua esposa, a Senhora Inocentina Melícia Mazza, com o
Presidente do Clube Naval, Almirante Veiga Cabral.
41º SALÃO DE BELAS ARTES • O 41º Salão de Belas Artes do Clube Naval, realizado no período de 30 de Setembro a 22 de Outubro, neste ano do Centenário da Sede
Social, teve a participação de 182 artistas plásticos inscritos, com 252 obras expostas.
Na foto uma visão geral do Salão Nobre, um dos Salões da exposição, por ocasião da
Inauguração, no dia 30 de Setembro.
INAUGURAÇÃO DA PLACA EM AGRADECIMENTO À PETROBRAS • O Presidente do Clube Naval, AlmiranteVeiga Cabral,
acompanhado do Presidente do Conselho Diretor, Comandante Fernando Baptista e alguns membros da Diretoria receberam na
Sede Social do Clube, no dia 13 de Outubro
de 2010, o Senhor Luiz Bragança, representante da Petrobras, para juntos
inaugurarem a placa de agradecimento à Petrobras, pelo patrocínio
da iluminação das fachadas do prédio, inaugurada com muito sucesso
no dia 01 de Junho de 2010.
A placa foi afixada na parede da
Portaria Social.
eventos e
comemorações
na sede social
BAILE DO MARINHEIRO • O
Baile em Homenagem aos Homens
do Mar, criado pelo Clube Naval em
2009 para prestigiar o 13 de dezembro, dia do Patrono da Marinha do
Brasil, este ano foi realizado no dia
10 de dezembro. O evento, que tem
sempre contado com a presença do
Comandante da Marinha, Almirantede-Esquadra Julio Soares de Moura
Neto, e grande parte do Almirantado,
foi extremamente bem recebido pelos
jovens oficiais Sócios do Clube, que
lotaram o Salão dos Conselheiros,
dando um brilho especial ao baile.
Na foto o Presidente do Clube Naval,
Almirante Veiga Cabral, Comandante
da Marinha, Almirante Moura Neto e
o Presidente do Centro Naval da República Argentina, Contra-Almirante
Carlos Alberto Fraschi.
ACADEMIA BRASILEIRA
DE BELAS ARTES • O Coman-
dante Hugo Bernardi Junior foi
eleito para a cadeira nº 26 da
Academia Brasileira de Belas Artes, tendo tomado posse no último
dia 19 de Novembro.
Ao Comandante Hugo Bernardi,
nosso colaborador do Departamento Cultural em matéria de
artes plásticas, nossos cumprimentos.
ENTREGA DE DIPLOMAS E DISTINTIVOS AOS
SÓCIOS REMIDOS • No dia 29 de Novembro foi realizada, no Salão dos
Conselheiros, a Cerimônia de entrega de Diplomas e Distintivos aos 103
sócios que se tornaram Remidos em 2010.
Na foto o Diretor Social, Comandante Huguet, entregando o distintivo ao
novo Sócio Remido Capitão-de-Fragata (Ref) Carlos Rogério Bonorino Nobre
e os demais componentes da mesa: Vice-Almirante Veiga Cabral, Presidente
do Clube Naval, Contra-Almirante Rios, SegundoVice-Presidente e o Capitãode-Mar-e-Guerra Oriosvaldo, Segundo Secretário.
ENTREGA DE ESPADAS A
ASPIRANTES DA ESCOLA NAVAL
• A cerimônia de entrega de espadas
aos 33 aspirantes da Escola Naval
foi realizada no dia 29 de Novembro,
no Salão dos Conselheiros, 4º andar
da Sede Social. Este ano o evento
contou com as ilustres presenças da
Embaixadora da Albânia no Brasil,
Senhora Tatjana Gjonaj e do Consul
da Albânia no Rio de Janeiro, Senhor
Abdon de Paula.
6
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
7
documento
Carta Compromisso
da Presidente Eleita
BACALHAU DO PRESIDENTE • No dia
15 de Dezembro, no Salão dos Conselheiros,
4º andar, foi realizado o tradicional “Bacalhau
do Presidente” que, neste ano do Centenário
da Sede Social, foi extremamente concorrido
e abrilhantado por uma bela apresentação
do Coral dos Funcionários e Colaboradores
do Clube Naval, que alegrou o ambiente com
um verdadeiro musical natalino, denominado
Natal à brasileira.
O evento contou ainda com o lançamento da
edição especial da Revista do Clube Naval
comemorativa do Centenário da Sede Social.
Na foto o Almirante Estanislau Façanha Sobrinho, exibindo a revista histórica, recebida
em primeira mão do presidente do Clube,
Almirante Veiga Cabral.
A
CURSO CLUBE NAVAL – FEMAR • O Convênio firmado em Março de 2006 entre o Clube Naval e a
Fundação de Estudos do Mar (FEMAR), para oferecer cursos gratuitos aos sócios do Clube Naval, com o propósito
de contribuir para o aperfeiçoamento profissional dos seus associados, especialmente dos oficiais em fase de
transferência para a reserva que ao deixar o serviço ativo da Marinha desejam exercer funções técnicas e administrativas nas empresas que realizam atividades nos setores marítimo e portuário, nesse período (2006-2010)
realizou com muito sucesso dezessete cursos.
O último curso realizado em 2010 foi de Gestão de
Pessoas nas Áreas Marítima e Portuária, ministrado pela Professora Adriana Gomes de Souza,
encerrado no dia 24 de Novembro, com as presenças do Almirante Veiga Cabral, Presidente do
Clube Naval e do Almirante Lúcio Franco de Sá
Fernandes, Presidente da FEMAR.
A Reorganização das Forças Armadas
A perfeita coordenação, hoje vivenciada por nossas Forças
Armadas, fará com que tenhamos importantes progressos em três
segmentos imprescindíveis para a defesa do País: o setor cibernético,
o espacial e o nuclear.
Exmo Sr.
Vice-Almirante
Ricardo Antônio da Veiga Cabral
Presidente do Clube Naval
eventos e
comemorações
na sede social
ALMOÇO COM
ARSENAL DE MARINHA
DO RJ • No dia 23 de De-
A Reestruturação da Indústria Brasileira de Material de Defesa
O incentivo à fabricação de equipamentos militares nacionais
é uma realidade definida e que continuará garantindo o desenvolvimento e a fabricação de equipamentos como: radares e veículos
aéreos não-tripulados, aviões de caça e transporte, submarinos
convencionais e de propulsão nuclear, helicópteros de transporte,
reconhecimento e ataque, veículos blindados, munições e armas
inteligentes, como mísseis, bombas e torpedos.
Continuará como prioridade o desenvolvimento do Veículo
Lançador e a fabricação de satélites.
Senhor Almirante
Agradeço, por meio desta, o honroso convite para uma visita
ao Clube Naval.
Infelizmente, compromissos de campanha anteriormente assumidos, me impedem de realizá-la neste momento, mas reitero
desde já o meu desejo em fazê-la oportunamente.
Ao mesmo tempo, tomo a liberdade de encaminhar ao Excelentíssimo Senhor “ Carta Compromisso” em que firmo minha posição
e compromisso com os militares do Brasil.
Receba meus sinceros votos de elevada estima e distinta consideração.
Dilma Rousseff
A Política de Composição dos Efetivos das Forças Armadas
Definimos pela manutenção do Serviço Militar Obrigatório, que
se espelha e reflete o cunho republicano do Brasil. As nossas Forças
Armadas se posicionarão ainda mais próximas dos concidadãos brasileiros, universo que as elegem dentre as instituições com maior
índice de confiança em nosso País.
É evidente o fato de que o militar tem carreira diferenciada
dos demais trabalhadores e, portanto, seu regime previdenciário
deve ser distinto. O respeito a este direito não deve ser e não será
afrontado.
Os índices de reajuste salarial conquistados nos dois últimos
mandatos presidenciais são garantia de que continuaremos efetuando as merecidas reposições.
Cumprindo os interesses do Estado Brasileiro e dos seus princípios constitucionais, as nossas Forças Armadas estão em perfeita
consonância com a Nação. O respeitado profissionalismo militar é
forte elemento estruturante e está enraizado em nosso consolidado
regime democrático.
Negar essa manifesta certeza seria negar a história militar
contemporânea.
Se eleita Presidente, como Comandante Suprema das Forças
Armadas de meu País, haverei de contar com o espírito de corpo que
distingue homens e mulheres da caserna, sentinelas em alerta, importantes mantenedores dos valores da nossa unidade nacional.
Dilma Rousseff
Carta Compromisso
Meus concidadãos, mulheres e homens das Forças Armadas,
Vivi estes oito ativos anos de minha vida pública em um governo
que colocou, de forma destacada e definitivamente, as questões de
nossa defesa e da segurança interna na agenda nacional.
Como Ministra Chefe da Casa Civil, ter acompanhado efetivamente o planejamento de longo prazo para a defesa do País é fato
que enleva, ainda mais, a minha cidadania e nos mostra o verdadeiro
sentido de brasilidade de nossos militares.
Rompemos este milênio com a materialização de uma firme
direção estratégica militar.
A Estratégia Nacional de Defesa, concebida e colocada em
ação no governo do Presidente Lula, deu a devida importância à
transformação das Forças Armadas do Brasil, conceito que deve
ser compreendido como o seu redimensionamento de acordo com
a missão e o seu reequipamento mais adequado às necessidades
operacionais do seu emprego.
O mundo é influenciado por novos arranjos da geopolítica e a
Estratégia Nacional de Defesa reuniu aqueles preceitos que visaram envolver todo o País na sua própria defesa, com importante
zembro de 2010, a Diretoria
do Clube Naval realizou um
almoço com o diretor do
Arsenal de Marinha do Rio de
Janeiro, Almirante Arthur Paraizo Campos, que entregou
ao Almirante Veiga Cabral
uma placa confeccionada
pelo próprio Arsenal em homenagem ao Centenário da
Sede Social do Clube. Alte
Salgado, Alte Pimentel, Alte
Miranda e Comte Huguet
participaram do evento.
8
aceitação da população.
Se tiver a honra de ser eleita Presidente da República, haverei
de continuar o trabalho bem iniciado e que marchou em cadência
uniforme nestes profícuos oito anos. Aspectos desencadeados a
partir de 2003 serão potencializados no próximo quadriênio, com
a devida continuidade ao que está subordinado aos três eixos que
suportam a Estratégia Nacional de Defesa:
presidência do Clube Naval recebeu, no dia 26
de Outubro próximo passado, a correspondência a
seguir transcrita, enviada pela então candidata Dilma
Rousseff.
O presidente do Clube respondeu ao mencionado
documento, externando nossos agradecimentos e ao
mesmo tempo, lamentando a impossibilidade dela em
atender ao convite formulado pelos presidentes dos 3 Clubes Militares
(por meio da Comissão Inter Clubes), mas esperando que a candidata,
caso eleita, cumprisse a promessa de nos visitar.
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
9
charitas
Clube Naval Charitas
bar etc. É um verdadeiro paraíso para os
velejadores. São casais, com e sem filhos,
grupos de amigos e solitários, cada um
curtindo o mar a seu modo.
Evidentemente o Clube Naval é também ponto de escala de veleiros brasileiros
que navegam por nossa costa, e são igualmente bem recebidos no clube.
Temos em nossos registros relatos
como:
“É difícil partir desta linda cidade
que permanecerá para sempre em nossas
o Porto seguro
dos veleiros N
este meio as notícias se espalham
rapidamente; o Clube já é citado em
guias náuticos e sites na Internet; os
barcos que chegam à nossa Baía já se
dirigem diretamente a Charitas. Já
tivemos velejadores estrangeiros que,
encantados com o clube, se tornaram
sócios e deixaram seus barcos no CNC.
São, entre outros, franceses, ingleses, italianos, irlandeses, austríacos, espanhóís, belgas,
holandeses, dinamarqueses, suíços, alemães,
americanos, suecos, noruegueses, finlandeses,
turcos, argentinos, australianos, sul africanos,
coreanos. No clube recebem apoio a serviços de
manutenção, informações turísticas e culturais,
auxílio médico, lavagem de roupa, abastecimento
de gás, docagem, restaurante, sauna, piscina,
Nos últimos anos o Clube
Naval Charitas tornou-se
ponto de escala dos veleiros
de cruzeiro estrangeiros
que passam pela Baía de
Guanabara.
As condições privilegiadas
do clube passaram a atrair
estes velejadores para
Niterói, a cidade da vela.
As águas abrigadas, a
facilidade de acesso ao Rio
usando os catamarãs,
as ótimas instalações do
clube, a disponibilidade
de piers com água e luz e
a hospitalidade da
administração e associados,
são diferenciais que
justificam esta escolha.
lembranças.”
“Foi maravilhosa nossa permanência
no Rio!”
“Muito obrigado pelas faces sorridentes e a calorosa acolhida no CNC”
“Tivemos uma fantástica permanência
no Clube Naval Charitas.”
“Amamos Niterói e o Rio, é difícil para
nós partir deste lugar.”
“Estamos tristes de partir mas levamos maravilhosas lembranças do Clube
Naval.”
“Estamos apaixonados pelo Rio, agradecemos à administração e aos sócios
do clube.”
“Gostaria que nossa permanência fosse
mais longa!”
O Clube Naval se sente lisonjeado
com as impressões de satisfação de nossos
visitantes.
Tornou-se para nós um prazer e responsabilidade manter este apoio à Comunidade Náutica Internacional. Este apoio
se enquadra na tradição marinheira de
solidariedade entre os homens do mar.
Esta é uma oportunidade de divulgar
o Brasil no exterior como um pais organizado, alegre e hospitaleiro.
10
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
11
evento
torneio de tiro
O
independência
foi o maior evento do gênero
já realizado no Brasil
Capitão-de-Mar-e-guerra (RM1) Fernando Lessa Gomes
E
m comemoração ao Centenário da Sede Social do Clube
Naval e à data magna de nossa Pátria, foi realizado de
20 a 26 de setembro o Torneio de Tiro Independência,
que acabou por ser o maior certame do gênero já realizado no Brasil, com o impressionante número de 3.712
inscrições. Nada teria sido possível sem o inestimável
apoio da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), que a
pedido do Clube Naval cedeu o Complexo de Estandes de Tiro da
FFE, na Base de Fuzileiros Navais da Ilha do Governador, pessoal
para arbitragem e organização e outras instalações na área da
Divisão Anfíbia. O Clube de Tiro Aventura foi outro importante
parceiro na organização do evento.
O Torneio, que teve 23 diferentes provas de tiro, englobou
várias outras atividades paralelas: visitas à área da Divisão Anfíbia, demonstrações e palestras sobre equipamentos, técnicas e
métodos de treinamento de tiro, e participação da Marinha no
Haiti. Houve também atividades de cunho ambiental e social,
tendo sido plantadas 50 mudas de árvores da mata atlântica no
entorno dos estandes de tiro e doados 151 kg de alimentos e 29
peças de vestuário ao Orfanato Luz e Amor, que cuida de cerca de
30 crianças e fica no bairro de Bonsucesso, RJ.
Outra interessante atividade do Torneio foi a Exposição de Material
Militar, que durou toda a semana e foi situada no ginásio do Batalhão
Humaitá, com a participação das Organizações Militares (OM) da
Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), do Instituto de Pesquisas da
Marinha e de renomadas empresas: IMBEL, POUPEX, CBC, Taurus,
Condor Não-letais, UAV, Banco do Brasil, Banco Santander, MAPMA,
R.Simbra Engenharia, VisãoCustom Armeria, White Lake e Revista
Forças Armadas. Apresentaram-se também importantes empresas,
representantes comerciais de conhecidas corporações estrangeiras,
como a RWK, Powerpack, Dimensão e USIMP. A Exposição apresentou
muitas novidades em equipamentos e recebeu uma grande quantidade
de visitantes, sendo a maioria deles militares. Houve elevada taxa de
retorno, indicando o grande interesse do público.
As empresas IMBEL e Taurus emprestaram várias armas para
utilização no Torneio, assim como a CBC, que ainda doou uma
boa quantidade de munições. Tudo isso possibilitou incrementar a
quantidade de participações dos associados do Clube, seus familiares
e do pessoal civil em geral, já que todo o material necessário ao tiro
foi disponibilizado gratuitamente aos participantes.
12
Revista do Clube Naval • 356
A premiação foi um dos pontos altos para aumentar o interesse
geral pelo Torneio, pois foram distribuídos R$ 15.000,00 em dinheiro
e 15 armamentos para as melhores classificações, além de outros 18
armamentos para sorteio dentre os competidores. O Clube de Tiro
Aventura ofereceu mais uma arma, uma carabina de ar com luneta,
que foi sorteada dentre os visitantes da Exposição. Ainda ofereceu 32
cursos de iniciação ao Tiro Olímpico, metade destinada aos patrocinadores e metade aos novos talentos descobertos no evento.
O Torneio, que contou com a participação do Coral dos funcionários do Clube Naval nas cerimônias de abertura e de encerramento,
foi uma grande festa de confraternização marcada pela emoção do
tiro, que ao longo de toda a semana aproximou pessoas de todas as
idades. Estiveram lado-a-lado o pessoal da ativa e o da reserva, os
civis e os militares, pessoas oriundas de diferentes Estados, militares
das três Forças Armadas, servidores de Segurança Pública, outros
servidores de Estado e membros do Poder Judiciário. Muitos dos
Revista do Clube Naval • 356
nossos associados compareceram e vários levaram seus familiares.
A maioria dos jovens tiveram a oportunidade de, pela primeira vez,
participar das provas olímpicas de pistola e carabina de ar comprimido. Essas provas e a de Paintball despertaram o maior interesse
e bateram recordes de participação, inclusive entre os adultos. As
provas de Fuzil Sniper, Espingarda Militar, Pistola de Serviço e
Fuzil de Serviço também tiveram elevadas frequências.
Terminado o evento, foram recebidas várias mensagens de parabéns e cumprimentos, indicando que o mesmo serviu sobremaneira
para elevar o nome do Corpo de Fuzileiros Navais, da Marinha do
Brasil e do nosso Clube Naval. Além de o Torneio de Tiro Independência ter sido considerado um sucesso por uma grande quantidade
de pessoas, foi a atividade comemorativa ao Centenário da nossa
Sede Social mais concorrida, dentre todas as realizadas.
As fotos do evento, os resultados e os prêmios concedidos podem
ser verificados no site www. clubenavalcentenariosede.com.br.
13
atualidade
A crise de liderança
O problema central – não obstante a constatação objetiva de
índole econômica –, todavia, é, sobretudo, de crise de liderança,
ou seja, de ausência de comando político e de absoluta falta de uma
estratégia nacional coerente e corajosa que, com a necessária determinação governamental, possa conduzir (ou reconduzir) a América
ao seu suposto destino de ser e continuar sendo a principal potência
político-econômica e militar do planeta, a exemplo do que lograram
realizar, em seus respectivos desafios históricos, os governos Franklin
D. Roosevelt (1933-45) e Ronald Reagan/Bush (1981-92).
Curioso observar, nesse diapasão analítico, a criticável estratégia
do presidente Barack Obama – o que denota a sua absoluta ausência
de liderança política – de, em suas palavras, “preparar os EUA para
um novo mundo multipolar”, em que a América deixará (de forma
aparentemente irreversível, como também se supunha durante o
governo Jimmy Carter) de ser a potência dominante.
Por efeito conclusivo, ao que tudo indica, tal como no passado
recente, somente restam duas alternativas viáveis à nação estadunidense: ou o povo americano se conscientiza de seu lamentável
equívoco de ter conduzido à Presidência da República alguém, não
obstante toda a sorte de “boas intenções”, reconhecidamente despreparado para a função – elegendo, na próxima oportunidade, um líder
à altura das suas mais sublimes aspirações como logrou fazê-lo ao
eleger o governo Reagan – ou aposta na irreversibilidade do declínio
do poder relativo norte-americano – conforme preconiza o atual
titular da Casa Branca – reelegendo o presidente Barack Obama e se
preparando, por consequência, para um novo mundo multipolar em
que os EUA deixarão de ter a posição proeminente que desfrutaram
e vem desfrutando desde o fim da 2a Guerra Mundial.
(1)
Desembargador federal e ex-membro do Ministério Público;
mestre e doutor em Direito; professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autor, entre outras obras, do Curso
de ciência política e teoria geral do estado: teoria constitucional e
relações internacionais, 4ª ed., Ed. Forense Universitária, 2009.
(2)
Sobre o tema liderança convém, ainda, lembrar o relevante
papel desempenhado por colaboradores nazistas que, após o imediato pós-guerra, foram recrutados, especialmente pelos serviços
secretos dos EUA e do Reino Unido. Destaca-se, nesse contexto, a
reconhecida participação de Klaus Barbie, na qualidade de genuíno
assessor político-militar do governo boliviano na vitória dos Rangers
bolivianos sobre a guerrilha implantada por Ernesto “Che” Guevara
(capturado em 8/10/67 e fuzilado no dia seguinte), durante o governo
René Barrientos Ortuño (6/8/66 a 27/4/69 – terceiro mandato).
Não obstante ter prestado relevantes serviços aos militares, bem
como a vários governos bolivianos e ter vivido sobre a proteção
nacional daquele Estado durante quase 20 anos, o mesmo acabou
sendo extraditado para a França, em 1983 (governo de Hernán Siles
Zuazo), quando foi julgado e condenado por 177 crimes contra a
humanidade, muito embora tenha insistido, até sua morte, em
1991, em qualificar-se como um salvador da França, em relação à
hipotética implantação de um regime comunista.
(3)
O fenômeno da assimetria reversa refere-se, em síntese, à
autolimitação do emprego do poder nacional (notadamente de natureza militar), face às implicações político-ideológicas para o regime
democrático norte-americano (e ocidental, de modo geral)
(4)
É importante observar que o acelerado crescimento econômico chinês fundamenta-se, sobretudo, na manutenção do valor
artificial de sua moeda, ainda que, igualmente, em sua ambígua
política de posicionamento internacional que, ao sabor de suas
conveniências, ora a posiciona como um “pobre país subdesenvolvido”, ora a afirma como a “segunda potência econômica
estadunidense
Reis Friede(1)
Liderança política, ao lado do
desenvolvimento de uma estratégia
nacional adequada e de uma efetiva
determinação governamental, se
afigura, sem a menor sombra de dúvida,
elemento fundamental para o
sustentável e contínuo desenvolvimento
de qualquer sociedade estatal moderna.
M
uito embora seja cediço reconhecer que o fator liderança, isoladamente considerado, não se encontre
diretamente associado ao fenômeno do relativo
declínio do poder perceptível de uma nação, não há
qualquer divergência entre os estudiosos do tema
no sentido de que a manifestação de seus efeitos,
todavia, estejam umbilicalmente vinculados à relativa ausência de uma sinérgica liderança.
Aliás, é a própria história que se encarrega de, muito claramente,
demonstrar, com maestria, a plena validade dessa assertiva, posto
que, em várias situações perfeitamente delineadas no espaço-tempo
compreendido entre a segunda metade do século XX e o primeiro
decênio deste século, a passividade, aliada a uma comprometedora
ausência de firmeza de propósitos, bem como de uma necessária
condução diligente relativa aos rumos dos acontecimentos, nos mais
variados cenários internacionais, conduziu irremediavelmente aos
mais diversos insucessos (e até mesmo a autênticos desastres) nos
confrontos, diretos ou indiretos, de natureza política, econômica e
também bélica que a humanidade se viu obrigada a testemunhar.(2)
A absoluta correção, bem como nítida clareza, da presente
afirmativa também se demonstra pelo excessivo prolongamento
temporal de conflitos, inclusive militares, que se estabelecem, como
natural efeito consequente, da nítida ausência de liderança política
perfeitamente observável em episódios selecionados, permitindo,
destarte, a inexorável exteriorização dos indesejáveis efeitos do que
convencionamos denominar de assimetria reversa,(3) com todas as
suas nefastas consequências.
Por outro prisma, necessário afirmar que liderança não implica
falta de equilíbrio e de serenidade; muito pelo contrário, liderança
Roosevelt Truman Eisenhower
Kennedy Johnson Nixon
Ford
Clinton
Carter
Reagan
Bush
Obama
revela a necessária inteligência e sabedoria de se ter a plena consciência da oportunidade e da conveniência quanto ao adequado
emprego eficiente dos quatro elementos básicos do poder nacional
disponíveis (militar, econômico, político e psicossocial), respondendo, em cada momento, com necessária firmeza, aos mais diversos
desafios na exata medida em que os mesmos se apresentam.
Nesse sentido, não faltam episódios pontuais (ou mesmo distendidos temporalmente) em que resta evidente o nítido declínio
do poderio relativo dos EUA por ação direta de uma observável
ausência de sua liderança política.
Talvez o mais contundente exemplo histórico de sinérgica
ausência de liderança política tenha sido observado no contexto
do governo Jimmy Carter (1976-80), momento em que – após a
derrota norte-americana no Vietnã (1975); o início da insurreição
na América Central (final da década de 70); a expansão soviéticocubana na África (1976-82); a queda do Xá do Irã e a instalação do
regime islâmico (1979-80); bem como a humilhante situação dos
diplomatas-reféns na Embaixada dos EUA em Teerã – a outrora imbatível superpotência estadunidense manifestou seus primeiros sinais
de exaustão econômica (em relação à emergência dos chamados
Tigres Asiáticos, em particular o Japão) e militar (em face da outrora
aparente magnitude e robustez do poderio bélico soviético).
Tal como nos dias atuais, vale mencionar, a irreversibilidade do
declínio do poderio relativo norte-americano era, à época, anunciada aos quatro ventos, sendo certo que, muito provavelmente
tal tendência somente foi revertida com a “renascença nacional”,
defendida, com notável veemência e protagonizada pelo presidente
Ronald Reagan que, ao final de seu período governamental de 12
anos (oito anos de administração Reagan e quatro de administração
de seu vice-presidente George Bush pai), simplesmente acabou por
não somente exorcizar a ameaça econômica japonesa, mas, especialmente, e de forma absolutamente sem precedentes, neutralizar o
supostamente imbatível adversário de Guerra Fria, com a decretação
do fim da União Soviética.
Nesse sentido, resta consignar que a nova ameaça ao mundo
monopolar estadunidense, estabelecido desde 1991 em decorrência
do ocaso do poderio militar soviético e econômico japonês, deduzse do reconhecido hiato entre a incontrastável capacidade militar
atual dos EUA vis-à-vis com o tímido crescimento econômico
estadunidense que, segundo os mais severos críticos, não teria
as condições necessárias para a manutenção, no longo prazo, do
poder relativo dos EUA, em particular com a alardeada ascensão
de natureza econômica(4) e sutil (porém sólida e indiscutível) de
natureza militar chinesa.
Revista do Clube Naval • 356
15
mundial”, além de um regime político altamente centralizador
que distorce as regras da livre iniciativa.
A inteligente manipulação chinesa quanto aos riscos globais
de repetições dos chamados “erros da década de 1930” – em que os
protecionismos unilaterais em conflitos comerciais conduziram à
denominada “Grande Depressão” – tem também permitido uma
autêntica transferência (verdadeiros subsídios) de recursos norteamericanos (e ocidentais de modo geral) para a China, sustentando,
em grande medida, as bases efetivas de seu crescimento econômico,
que, neste diapasão analítico, não guarda qualquer relação com o
necessário (e inexistente) aumento do grau de produtividade.
Não é por outra razão que Strauss-Kahn, diretor-gerente do
Fundo Monetário Internacional (FMI) em entrevista, em outubro
de 2010, ao jornal francês Le Monde – referindo-se a uma relativa
ausência de responsabilidade dos países emergentes (notadamente
a China) na estabilidade do sistema econômico internacional –,
expressamente consigna que “o baixo valor do yuan está na raiz das
tensões da economia mundial que estão se transformando em ameaças. Se quisermos evitar a criação de condições para uma nova crise,
a China precisa acelerar o processo de valorização da moeda”.
(5)
A genialidade e a inquestionável liderança do presidente
Franklin Delano Roosevelt permitiu aos EUA sair do relativo isolamento internacional para se tornar o verdadeiro protagonista do
pós-guerra. Sua concepção geopolítica, projetada para o futuro –
contrária a qualquer paz negociada com a Alemanha (o que explica
jamais ter apoiado qualquer golpe contra Adolph Hitler, incluindo
seu planejado assassinato) –, demonstrou claramente o padrão de
um verdadeiro líder visionário que somente foi igualado com a
chegada de Ronald Reagan ao poder, em 1981.
(6)
O flagrante despreparo do presidente Harry Truman (melhor
percebido em seu segundo mandato) foi, em grande parte, responsável pelos resultados, muitas vezes decepcionante, em relação aos
desafios experimentados pelos EUA no pós-guerra, considerando
o poder monopolar de matiz econômico (o PIB norte-americano
chegou a representar 53% da economia no imediato pós-guerra)
e militar (até a explosão da primeira bomba atômica soviética, em
1949, os EUA contabilizaram mais de 130 armas nucleares e um
plano de contingência de seu emprego, idealizado pelo General
Curtis LeMay, no sentido de atacar simultaneamente 70 cidades
soviéticas e toda a infraestrutura militar da URSS) de que desfrutava
o império norte-americano, à época.
(7)
A surpreendente rapidez com que os soviéticos construíram
sua bomba atômica (JOE-1), deveu-se, em grande parte, às inadmissíveis falhas de segurança quanto à guarda dos segredos nucleares,
durante o governo Harry Truman.
Registros de espionagem em Los Alamos descrevem a fundamental participação dos físicos Klaus Fuchs (que, além de ter passado
através de um mensageiro – Harry Gold – informações sigilosas
sobre a bomba-A em que estava trabalhando, também entregou aos
soviéticos informações sobre a produção de U-235 (100 kg/mês) e
de P-239 (20 kg/mês), permitindo à URSS calcular, com relativa
precisão, o número de armas nucleares norte-americanas em 1949
Diagrama das Lideranças dominantes
Explosão da
1ª bomba-A
norte-americana
(16/7/45)
Ataque
japonês
a Pearl
Derrota alemã (mai/45)
Harbour
2ª Guerra
(dez/41) Mundial (dez/41 a set/45)
Derrota japonesa
(set/45)
1ª fase
Explosão da
1ª bomba A soviética
(29/8/49)
Bloqueio
de Berlin
(jun/48)
Liderança positiva
Liderança negativa
Armistício
Ocupação do
coreano
(jul/53) Canal de Suez
(Israel/Reino
Unido/França )
2ª fase
3ª fase
(out/56)
Explosão
Explosão da 1ª
da 1ª bomba A
bomba A britânica
francesa
(30/10/52)
Guerra da Coréia (jun/50 a jul/53)
Explosão
da 1ª bomba H
norteamericana
(31/10/52)
Soviéticos
derrubam
avião-espião
norte-americano
U-2 e capturam
o piloto
Gary Powers
(mai/60)
Gen.
Douglas
McArthur
dez/41
Pres. Franklin Roosevelt
e Gens. Eisenhower, Patton
e LeMay
abr/45
jun/50
abr/51
jan/53
Dwight
Eisenhower
Crise
Muro de de mísseis
Berlin
de Cuba
(out/62) (out/62)
1ª fase
Invasão
da Baía
dos Porcos
(abr/61)
jan/61
x Episódios históricos selecionados
nov/63
2ª fase
ago/74
16
2ª guerra do Golfo
Explosão da
(Guerra do Iraque)
1ª bomba A
(mar/03)
paquistanesa
(mai/98) 2º atentado ao
Gen.
Word Trade Center
David Petraeus
e Pentágono
(set/01)
Gen.
Stanley McChrystal
1º atentado ao
Word Trade
Center
(fev/93)
jan/77
jan/81
Pres.
Ronald Reagan
jan/89
Pres.
George Bush
jan/93
jan/01
jan/09
Pres.
Barack Obama
Pres.
Gerald Ford
Pres. John Kennedy
e Robert McNamara
(jan/61)
Pres. Harry Truman
(2º mandato presidencial)
Fim da
Guerra Fria
(nov/89)
1ª Guerra
do Golfo
(jan/91)
Derrota
estadunidense
no Vietnã
(abr/75)
Op. Linebacker I e II
(abr e dez/72)
jan/69
Crise dos reféns –
Embaixada dos EUA no Irã
(nov/79)
Guerra dos
Yom Kippur
(out/73)
Renúncia do pres. Nixon (ago/74)
Explosão da
Gen. Midway 1ª bomba H
soviética
(12/8/53)
Pres. Harry Truman
(1º mandato presidencial)
Queda do Xá do Irã
(jan/79)
Explosão da
Visita histórica
1ª bomba A
do pres. Nixon a Pequim
chinesa
(fev/72)
(out/64)
Guerra do Vietnã (mar/65 a abr/75)
Guerra
dos Seis Dias
(abr/67)
arrogância. Em sua obra Em retrospecto: a tragédia e as lições
do Vietnã (1995), o autor afirma textualmente que um de seus
reconhecidos erros no episódio foi “não ter encarado Johnson para
forçá-lo à retirada dos EUA no Vietnã”, demonstrando, claramente,
sua absoluta incompreensão com a natureza dos conflitos bélicos.
Vale lembrar que McNamara ficou marcado como um dos “whiz
kids”, como ficou conhecido o grupo de universitários que trabalhou no Departamento de Estatísticas do Pentágono durante a 2a
Guerra Mundial. Seu primeiro grande ato na qualidade de secretário
de Defesa foi autorizar um plano mirabolante para derrubar Fidel
Castro por cubanos expatriados treinados pela CIA, historicamente
rotulado como o fiasco da Invasão da Baía dos Porcos de 1961.
(11)
O General Petraeus, após ter solicitado e obtido o envio
de mais 30 mil tropas de combate, logrou reverter o iminente
desastre no Iraque.
(12)
Oportuno esclarecer a existência de controvérsias a respeito do tema, conquanto alguns analistas entendem que a suposta
explosão da Bomba-A norte-coreana, em verdade, resumiu-se a
uma simples detonação de explosivos convencionais misturada a
materiais físseis (“bomba suja”) o que explicaria o baixo rendimento
da explosão, inferior a 0,2 Kt.
(13)
Importante consignar que, não obstante a liderança positiva do General Stanley McChrystal, o mesmo foi destituído de
suas funções pelo presidente Barack Obama, em face de críticas
que o mesmo registrou em entrevista contra o presidente da
República norte-americana.
(aproximadamente 130 bombas-A)) e Theodore Hall que, em 1998,
confessou sua convicta participação no episódio: “(...) decidi repassar
segredos atômicos aos russos porque acreditava que o poder nuclear
não deveria constituir-se em um monopólio (...) era a coisa certa a
ser feita para quebrar a exclusividade americana (...)”.
(8)
A liderança do presidente Dwight David Eisenhower – e sua
expressa ameaça de atacar a China com armas nucleares – foi determinante para reverter os desastrosos rumos da Guerra da Coreia,
após a destituição do General Douglas McArthur, pelo presidente
Harry Truman em 11 de abril de 1951.
(9)
O presidente John Kennedy talvez tenha sido a liderança
mais frágil que os EUA experimentou em sua história recente.
Arrogância e inexperiência muito provavelmente sejam as palavras
mais apropriadas para traduzir uma das piores administrações
dos EUA. John Kennedy e seu irmão Robert Kennedy (um jovem
que acreditava cegamente ser simplesmente “brilhante” e possuir
uma inteligência ímpar) foram os responsáveis diretos pela maior
derrota norte-americana no pós-guerra, quando permitiram o
estabelecimento de uma área de influência soviética a apenas 90
milhas da Flórida, durante a desastrosa gestão da chamada Crise
dos Mísseis de Cuba (out/62), contrariando até a posição vestibular
(depois alterada) de McNamara que concordava preliminarmente
com a necessidade de uma invasão da ilha nas 36 horas imediatas
ao início do conflito.
(10)
O arquiteto do “desastre do Vietnã”, sempre será lembrado
como um líder de habitual frieza, frequentemente salpicada de
Pres. Lyndon Johnson
e Robert McNamara
(nov/63)
Revista do Clube Naval • 356
Pres. Richard Nixon
e Henry Kissinger
(jan/69)
Introdução de
armas nucleares
por Israel
(1972)
Explosão da
1ª bomba A
indiana
(mai/74)
Revista do Clube Naval • 356
Pres.
George Bush
Pres.
Bill Clynton
Pres.
Jimmy Carter
Explosão da
1ª bomba A
norte-coreana
(out/06)
Verticalidade: grau de liderança.
Horizontalidade: impacto de liderança sobre o episódio histórico selecionado.
Área da foto: dimensão efetiva da liderança e de seus efeitos sobre o episódio selecionado.
17
NÓDULOS
POLIMETÁLICOS:
N
brasilidade
Fernando Malburg da Silveira
Em tempos longínquos, a importância econômica do mar
provavelmente se resumia em ser uma fonte de proteínas
para as populações costeiras, por meio da pesca rudimentar.
Com o progressivo desenvolvimento dos meios flutuantes
e das técnicas de navegação, os oceanos começaram a ser
conhecidos e explorados, abrindo novos horizontes para a
humanidade e proporcionando a países banhados pelo mar
a oportunidade de descobrir novas terras e nelas instalar
colônias, gerando grandes impérios como o português,
o espanhol e o inglês, construídos pelo emprego do Poder
Marítimo, sempre com o forte respaldo do Poder Naval
dessas potências, bastando lembrar que a Coroa britânica
era o centro de um império onde “o Sol nunca se punha”.
Bem mais recentemente, a importância da riqueza dos
mares e oceanos foi bastante aumentada pela descoberta
e exploração de jazidas de petróleo, combustível que se
tornou o principal propulsor do desenvolvimento
econômico do mundo moderno. A pesca, a capacidade
de usar as rotas marítimas e o petróleo do subsolo marinho
somam, portanto, valores de extraordinária importância
à riqueza das nações.
tesouro
dos leitos
oceânicos
esse particular, muito tem sido dito e publicado sobre o
gigantesco valor das recentes descobertas de enormes
províncias petrolíferas na plataforma continental brasileira, abrangendo toda a camada de pré-sal, ao longo de
uma área que inclui cerca de 1,6 milhão de km2 entre
o Espírito Santo e Santa Catarina. Indiscutivelmente,
a importância econômica dessas jazidas é de grande
vulto, podendo levar nosso país a superar uma centena de bilhões
de barris de óleo em reservas e trazendo o Brasil para um novo
patamar de importância no cenário geopolítico, geoestratégico e
geoeconômico do planeta. A essas riquezas somam-se as representadas pelas reservas de gás natural, combustível cuja importância
no século XXI é crescente, tendo sido identificadas grandes jazidas
na bacia de Santos e no litoral do Espírito Santo.1
Mas no mundo moderno as riquezas do mar, sabidamente,
não se resumem aos seus recursos minerais. A pesca e a indústria
pesqueira têm conhecida importância nutricional e econômica. O
turismo é fonte de renda e de empregos bastante expressiva, e vem
apresentando notável crescimento com o aumento da frequência de
grandes navios de cruzeiro em nossos portos. A navegação mercante,
por sua vez, representa as artérias vitais da prosperidade econômica,
porquanto é sabido que cerca de 95% das trocas comerciais são feitas
pelas rotas marítimas comerciais. Os portos, que representam a
extremidade marítima dessas artérias econômicas, podem ser parte
de extensas redes multimodais de transporte, integrando os modais
aquaviário, rodoviário, e ferroviário, escoando mercadorias nos dois
sentidos, o das exportações e o das importações. O potencial energético das ondas e marés, expresso por sua possibilidade de geração
de energia elétrica, já apresenta utilização eficaz em algumas partes
Cobalto
Ferro
do mundo (e não é desprezível no caso brasileiro, principalmente
no Nordeste). Em apertada síntese, o mar, para um país das dimensões do Brasil, agraciado pela natureza com mais de 8 mil km de
costas e com enorme Zona Econômica Exclusiva, representa a mais
importante fonte da riqueza nacional, justificando plenamente as
preocupações da Marinha do Brasil com a “Amazônia Azul” e sua
crescente importância estratégica, a requerer o fortalecimento de
nosso Poder Naval. Afinal, trata-se de construir e manter um poder
à altura das responsabilidades brasileiras de gerenciar e defender
as riquezas de nossa sociedade. Se não o fizermos, estaremos despertando a cobiça de outros, que algum dia se tornará evidente, tal
como já acontece quando consideradas algumas ambições externas
que pairam sobre a biodiversidade, os recursos minerais e hídricos
de nossa Amazônia Verde.
Pouco se conhece e divulga, porém, sobre certos recursos
minerais dos leitos oceânicos que, num futuro não muito distante,
deverão vir a constituir um novo e ainda incomensurável filão
econômico: os nódulos polimetálicos, consistindo de grandes concentrações de óxidos de ferro e manganês, além de outros metais
de alto valor como o níquel, o cobre e o cobalto. Sua existência é
conhecida há mais de um século (desde quando o navio britânico
Challenger localizou e dragou do fundo do Oceano Pacífico, em
1872, os primeiros nódulos), mas a viabilidade econômica de exploração ainda carece de desenvolvimentos tecnológicos específicos e
de grandes investimentos em pesquisa e em meios de extração. É
sobre esses recursos pouco conhecidos que versa este artigo.
Considerações jurídicas e estratégicas
Antes de discorrer sobre os valiosos nódulos polimetálicos,
parece oportuno tecer algumas considerações de natureza legal
e estratégica.
Em primeiro lugar, convém dar ênfase às regras e conceitos
definidos pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar
(CNUDM), vigente desde 1994, cujos artigos e anexos deitam legislação internacional sobre inúmeros aspectos dos espaços oceânicos,
não só na superfície dos mares, como em suas profundezas e leitos.
Entre esses aspectos, situam-se os relacionados com a delimitação e
os direitos de soberania sobre o Mar Territorial, a Zona Contígua, a
Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e a Plataforma Continental (PC);
os referentes ao controle ambiental e à investigação científica; a
regência das atividades econômicas e comerciais; o solucionamento
Manganês
18
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
19
das disputas e diferenças de opinião; e outros mais, cujo detalhamento fugiria ao propósito deste artigo.2
Na ZEE, os Estados costeiros têm o direito de soberania para a
exploração e aproveitamento exclusivo dos recursos naturais do mar,
sejam eles vivos ou não, bem como detêm direitos exclusivos das
águas sobrejacentes ao leito marinho, do solo e do subsolo, ficando
negados a terceiros a exploração e o uso desses recursos, a menos
que mediante acordos de concessão. Na PC, esses direitos se aplicam
aos recursos naturais (minerais ou não vivos) do solo e subsolo marinhos, razão pela qual a CNUDM admitiu que os Estados costeiros
apresentassem suas reivindicações para delimitar prolongamentos
da plataforma que se estendessem além das 200 milhas que delimitam as ZEE, podendo chegar até um limite de 350 milhas da linha
da costa, zona esta (Plataforma Continental Jurisdicional – PCJ) em
que o Estado teria o direito à exploração e explotação dos recursos
do solo e do subsolo marinhos. O Brasil apresentou, após intenso
e longo trabalho de levantamento, sua reivindicação à Comissão
de Limites das PC da Organização das Nações Unidas, pleito esse
que contempla uma área de cerca de 950 mil km2, podendo fazer
com que nossa Amazônia Azul, compreendida pela ZEE brasileira
e mais sua Plataforma Continental estendida, venha a somar cerca
de 4,5 milhões de km2, equivalendo a 42% do território nacional.
Esse pleito, já parcialmente aceito e com uma parte residual ainda
em discussão, representará um legado de extraordinário valor
econômico para o futuro de nosso país, e aí se incluem, além das
riquezas pesqueiras e petrolíferas já conhecidas, áreas capazes de
abrigar grandes reservas de nódulos polimetálicos.
Adotando a tendência de discussões anteriores no âmbito das
Nações Unidas sobre os fundos marinhos, a CNUDM estabeleceu
regras específicas em um de seus capítulos, definindo o regime de
aproveitamento econômico de seus recursos (aí incluídos os nódulos
polimetálicos e riquezas similares), as políticas de exploração e a
submissão das controvérsias a uma Autoridade Internacional dos
Fundos Marinhos (International Seabed Authority – ISA); e considerou os leitos oceânicos e seus recursos como patrimônio comum
da humanidade, devendo as atividades nessa região, genericamente
designada como Área, ser realizadas somente para fins pacíficos e em
benefício da humanidade. Assim, além de estabelecer uma disciplina
jurídica universal em relação aos oceanos, a Convenção estipulou
regulações distintas para as peculiaridades das regiões marítimas,
deixando clara a jurisdição do Estado costeiro sobre o Mar Territorial
de 12 milhas, a Zona Contígua a este, a Zona Econômica Exclusiva
(ZEE) e a Plataforma Continental (PC), com suas possíveis extensões (PCJ) comprovadas e homologadas. Deixou também clara a
subordinação à administração internacional do uso do alto-mar e
dos leitos oceânicos situados fora daquela jurisdição.3
Razões não faltam, portanto, a nós brasileiros, para zelar pela
existência de um Poder Naval substancial e compatível com a necessidade de proteger nossas riquezas do mar, não apenas no nosso
mar patrimonial jurisdicional, mas também com vistas a interesses
econômicos sobre o alto-mar e os leitos oceânicos profundos.
Lembremos que, ao mesmo tempo em que a CNUDM estabelece
parâmetros e regras de direito internacional que protegem
o interesse dos Estados costeiros, também contempla
o direito de outros Estados menos favorecidos de
pleitear o excedente não explorado, mediante acordos. Ou seja, se
um Estado não se faz presente e não se mostra capaz de garantir seus
interesses, defendendo e desfrutando de suas riquezas marinhas,
estará se sujeitando a reivindicações e contestações de terceiros,
que não raro poderão ter preocupante expressão de poder político,
econômico e militar para tanto. A CNUDM é taxativa ao nos obrigar
a gerir nossos recursos marinhos da ZEE, e a omissão em fazê-lo
é um convite ao contencioso (não esqueçamos que alguns Estados
bastante poderosos não são signatários da Convenção...).
Não bastassem essas considerações jurídicas, há que levar em
conta o prisma estratégico, que no caso brasileiro necessariamente
enfoca o crescimento da importância estratégica do Atlântico Sul.
É indiscutível que fatores como a globalização da economia; a
posição emergente de países em expressivo desenvolvimento como
o Brasil e a África do Sul; os novos descobrimentos de jazidas petrolíferas e de gás natural nas costas brasileiras e no oeste africano; as
alternativas de rotas marítimas sul-atlânticas em caso de obstrução
de estreitos e canais situados em zonas de elevado risco de conflito
ou terrorismo; os novos e previsíveis alinhamentos econômicos com
o euro-mercado; a necessidade do continente americano de se integrar em contraposição ao gigantesco crescimento da área asiática de
comércio (que poderá levar a uma revisão de posições ideológicas
“anti-Alca” e “anti-imperialistas” para fazer frente à realidade da
integração da maior área de livre-comércio do planeta, nucleada na
China); a proximidade de uma crise mundial de alimentos; e muitos
outros fatores levam a crer que deverá proliferar uma atenção internacional bastante incrementada em relação aos atores situados
ao sul do Trópico de Câncer. Na medida em que a área econômica
banhada pelo maior oceano integrador de economias, o Pacífico (a
Pacific Rim), com centro na Ásia, ameaça a posição de supremacia
econômica dos Estados Unidos e Europa, a emergência econômica
na área do Atlântico Sul torna-se naturalmente mais atraente para
parcerias. Não é sem motivo que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) já discute o alargamento de seus interesses com
vistas voltadas para o Atlântico Sul, dando sequência à reativação
da 4ª Esquadra da US Navy (ambas as iniciativas sob forte crítica
do “anti-imperialismo” latino-americano, tema que não cabe aqui
discutir, por fugir ao propósito). O desenvolvimento desse fortalecimento de relações, todavia, certamente irá requerer um penoso
trabalho diplomático para aparar arestas em relações difíceis
(como as dos Estados Unidos com Cuba e Venezuela,
por exemplo) e para amenizar o antiamericanismo que reina em organizações como
a Unasul e o Mercosul (temas esses
que também se afastam dos
objetivos deste artigo).
Se os esforços logra-
rem êxito e convergirem bem os interesses econômicos, o Atlântico
Norte e o Sul poderão vir a formar uma interessante Atlantic Rim, na
qual nosso país ostentaria natural posição de relevo. Nesse contexto,
seria também perfeitamente natural – e até mesmo estrategicamente
indispensável – que nosso governo pensasse em termos mais amplos
do que tão somente a defesa de nosso mar patrimonial e seus recursos
pesqueiros e petrolíferos, olhando também, com vistas ao desenvolvimento de tecnologias de exploração e explotação, para as demais
riquezas oceânicas, entre elas a representada pelos promissores
nódulos polimetálicos, na nossa PCJ e além dela.
A riqueza dos leitos oceânicos
A exploração mais recente dos oceanos transformou-os em algo
mais do que simplesmente vias de navegação e fontes de alimentos,
revelando, além do petróleo, um novo potencial mineral, representado pelos nódulos metálicos presentes na maior parte dos leitos
oceânicos do mundo. Genericamente, trata-se de objetos esferóides
de cor enegrecida, formados por camadas concêntricas de hidróxido
de ferro e de manganês, com tamanho, morfologia e peso variáveis,
com taxa de crescimento muito lenta (apenas 1 centímetro em vários
milhões de anos), encontrados em profundidades que variam de
3 mil a 5 mil metros.4 Investigações acadêmicas mostram que há
também nódulos com altas concentrações de níquel, cobalto e cobre,
tendo-se verificado que o teor de níquel dos nódulos analisados era
igual ou superior ao das minas terrestres lateríticas; o teor de cobre
era superior ao dos depósitos cupríferos explorados na época dos
estudos; o de cobalto era similar ao dos depósitos em produção; e
o de manganês era igual ao das jazidas australianas.5
Além dos nódulos, essa exploração revelou também a existência de verdadeiros pavimentos marinhos de crostas polimetálicas,
concentrando principalmente cobalto, todavia contendo também
titânio, níquel, cério, platino, manganês, fósforo, tálio, telúrio, zircônio, tungstênio, bismuto e molibdênio. O teor de cobalto dessas
crostas é muito elevado (razão pela qual são também conhecidas
como crostas cobaltíferas), podendo alcançar 1,7%, ao passo que as
minas terrestres têm conteúdo que não costuma ultrapassar 0,2%,
segundo estudos da International Seabed Authority. Diferentemente
dos nódulos, que se encontram espalhados nos fundos abissais, as
crostas mostram-se como coberturas de áreas rochosas, e são por
vezes encontradas a profundidades menores, cerca de 2 mil metros,
associadas a cadeias de montanhas submarinas.
A área de maior ocorrência de nódulos com abundância
das propriedades acima descritas encontra-se no nordeste equatorial do Oceano Pacífico, com grandes
jazidas ao sul e sudeste da Ilhas Havaianas.
Grandes concentrações foram também localizadas nas regiões sul
Jazida de
manganês
e oeste do Oceano Índico central. O Atlântico Sul, embora ainda
pouco prospectado, revela condições geológicas e oceanográficas
bastante favoráveis à formação e existência de crostas cobaltíferas,
mas somente estudos sistemáticos poderão mensurar melhor
essa potencialidade e a dos depósitos de ferro e manganês de suas
profundezas (bem como a da presença de sulfetos polimetálicos,
outra categoria de recurso do mar comumente encontrado em
colinas vulcânicas submersas contendo ferro, zinco e cobre, em
importantes concentrações).
As áreas de possível interesse econômico brasileiro, dentro e fora
de suas águas jurisdicionais, estão em parte identificadas e podem
ser ampliadas a partir da pesquisa. Estudos recentes são estimulantes e apontam áreas promissoras, como as crostas cobaltíferas
da Elevação do Rio Grande, os nódulos polimetálicos das bacias
oceânicas adjacentes à Ilha da Trindade e os sulfetos nas imediações
do arquipélago de São Pedro e São Paulo.6
Apesar de não existir, no presente, um domínio amplo das técnicas e tecnologias requeridas para viabilizar a exploração dessas
enormes riquezas, é fato que muitos países desenvolvem atividades
intensas para sua localização em áreas internacionais, visando
habilitar-se à exploração sob as regras da CNUDM. Após muitos anos
de negociações, os leitos oceânicos têm hoje uma regulamentação
específica própria, permitindo aos países que se habilitarem o
exercício de atividades exploratórias dessas áreas.
Dezenas de empresas de mineração e agências governamentais
vêm buscando o caminho de submeter seus planos de atividades à
autoridade internacional (ISA). As explorações oceânicas mostram
perspectivas de um futuro de intensa atividade econômica nos
fundos marinhos, indo muito além da exploração do petróleo. O
Brasil precisa conhecer suas potencialidades, pesquisar e colocar
suas reivindicações em tempo, para não deixar a terceiros a iniciativa
de alcançar suas áreas de interesse. É necessário, também, dar a
conhecer à sociedade brasileira esse riquíssimo potencial, acrescentando argumentos que reforcem o entendimento da necessidade
de contarmos com um Poder Naval à altura de nossa ambição de
crescimento e da proteção de nossas riquezas, dentro do contexto
globalizado a que pertencemos.
(1)
O ambiente marinho – uma visão da Marinha – Amazônia
Azul. 4. Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação,
2010. Marinha do Brasil.
(2)
A propósito, ver “Gestão do mar patrimonial jurisdicional”,
do mesmo autor, publicado pela Revista Marítima Brasileira no
1º trimestre de 2005 e republicado no v. 129, jan./mar. 2009.
(3)
Gabriel Luis e Natália Bonora Ferreira, em Regulação
internacional dos recursos minerais do fundo do mar, no portal
Âmbito Jurídico.com.br.
(4)
Béguery, Michel. A exploração dos oceanos – a economia
do futuro. São Paulo: Difel, 1979.
(5)
Souza, Kaiser G. Recursos minerais marinhos além das jurisdições nacionais. Rev. Bras. Geof., v.18, n. 3, p. 455-65, 2000.
(6)
Souza K. G. et al. Recursos minerais da área internacional
dos oceanos, perspectivas de exploração do Atlântico Sul. 2006.
Programa de Geologia e Geofísica Marinha, 37. Encontro. Rio
Grande, Brasil.
história do brasil
Marcílio Boavista da Cunha
O VERDADEIRO
TAMANHO DO
e os outros europeus queriam reduzir as áreas sob influência de
Portugal. Isso deu motivo para uma “guerra cartográfica”: os
portugueses deslocando a Linha de Tordesilhas para oeste, e os
demais liderando o deslocamento da linha para leste.
ÁREAS TERRESTRES
Enquanto se defendiam dos políticos e cartógrafos europeus, e de
corsários, piratas e invasores, os portugueses conseguiram expandir a
Colônia pelas bordas, procurando conquistar posições estratégicas.
Do sul, evoluíram na direção do rio da Prata, com forte oposição
dos espanhóis, e na direção NO. No norte, dominaram a foz do rio
Amazonas e, de lá, penetraram na Amazônia e para SO. (Veja os
mapas ao lado do título)
No caminho, plantaram marcos, fundaram vilas e, quando
puderam, construíram fortificações.
Mais tarde, no século XVIII, quando os países europeus resolveram redefinir suas colônias, tais marcos, vilas e fortes foram
extremamente importantes. Com o Tratado de Madri, em 1750,
o princípio do utis possidetis foi aplicado e a Colônia portuguesa
conseguiu mais que dobrar seu território.
Nos séculos XIX e XX, a diplomacia deu contornos finais ao país. Em
terra, o Brasil ocupa uma área de 8.512.000 km², com uma costa de quase
oito mil quilômetros (do Oiapoque ao Chuí) e uma fronteira terrestre
superior a 16 mil km, com 10 países, da Guiana Francesa ao Uruguai.
Nossa terra abriga regiões especiais, de alto valor estratégico, como
o Pantanal, o Cerrado, os Pampas, o Sertão, a Mata Atlântica e a mais
interessante delas, a Amazônia. Neste artigo, vamos considerar a Ama-
O primeiro é o Mar Territorial (MT) – até 12 milhas da costa
(uma milha igual a 1.852 metros) – onde temos total soberania e
somos donos do solo, do subsolo, da camada de água sobrejacente
e do espaço aéreo correspondente. O segundo é a Zona Econômica
Exclusiva (ZEE) – do MT até 200 milhas da costa – onde só nós
podemos explorar, com exclusividade, os recursos do solo, do
subsolo e das águas sobrejacentes. É onde a Petrobras encontra
nosso petróleo e gás.
Esses dois espaços acrescentam, ao país, direitos sobre uma área
de cerca de 3,6 milhões de km², quase uma Amazônia.
Mas o Brasil é ainda maior! Está previsto na CNUDM que,
em casos especiais, o país costeiro pode requerer a extensão
de sua plataforma continental (PC) para além das 200 milhas,
podendo atingir, em alguns casos, até 350 milhas da costa. Com
zônia como a Bacia do Rio Amazonas, que ocupa cerca de seis milhões
de quilômetros quadrados, dos quais 3.9 milhões estão no Brasil.
Nos estudos e discussões levados a efeito nos últimos anos, ficou
patente a grandiosidade da Amazônia. Entre outras características,
vale ressaltar: é verde; é vasta; oferece inúmeras oportunidades à
sociedade brasileira, mas, é frágil e precisa ser protegida; é riquíssima, possui infindáveis riquezas biológicas e minerais, e, por isso,
é cobiçada por outros e precisa ser defendida.
essa extensão, conquista direitos de soberania sobre os recursos
existentes no solo e no subsolo.
O Brasil, depois de um enorme esforço realizado pela Marinha,
a Petrobras e a comunidade científica, durante quase 20 anos,
num programa nacional chamado de Plano de Levantamento da
Plataforma Continental Brasileira (Leplac), (2) demonstrou ter
direito e está pleiteando que sua PC seja ampliada ao norte, ao
sul e ao longo da cadeia Trindade-Martim Vaz.
Essa extensão é de pouco mais de 900 mil km² e corresponde, com
sobras, ao território do Chile mais o do Uruguai. O Brasil recebeu,
da Comissão de Limites da ONU, o “nada contra” para um acréscimo
de cerca de 750 mil km². As autoridades brasileiras
decidiram insistir, com melhores argumentos, em
busca do espaço inicialmente pretendido, e preparam
novo pleito, que será apresentado em 2012.
Com isso, o país obterá, por direito internacional, jurisdição sobre espaços marítimos que
somam cerca de 4,5 milhões de km², mais da
metade do “território seco” do país.
Observem as seguintes características desse
nosso mar: é azul; é vasto; oferece inúmeras oportunidades à sociedade brasileira, mas, é frágil e precisa ser protegido; é
riquíssimo, possui infindáveis riquezas biológicas e minerais, e, por
isso, é cobiçado por outros e precisa ser defendido.
Devido a essas semelhanças, esse mar que é nosso foi batizado
de “Amazônia Azul”. Temos, além dos 8.512.000 km² de território
“seco”, direitos e obrigações sobre um território “molhado” de
mais 4.500.000 km². Isso dá ao Brasil uma dimensão total de
cerca de 13.000.000 km².
BRASIL
Buscando atender, em especial, à curiosidade de jovens estudantes de nível médio,
este artigo apresenta o verdadeiro tamanho do Brasil, depois que, por acordo
internacional, o país ganhou a soberania e a jurisdição sobre extensas áreas marítimas.
Mostra também que a Amazônia Azul, nome de batismo dessas áreas marítimas,
é muito rica em recursos naturais e oferece inúmeras oportunidades à sociedade
brasileira, mas, como todo patrimônio de alto valor, precisa de proteção e defesa.
A
figura ao lado mostra o Brasil incrustado na América
do Sul, como uma pedra preciosa numa joia, com seus
26 estados e um DF representados. É um enorme país,
riquíssimo e cheio de oportunidades.
Mas, o Brasil nem sempre foi assim tão grande...
Antes mesmo de ter descoberto o Brasil, Portugal
tinha direito somente às terras a leste do meridiano
definido no Tratado de Tordesilhas (1494), localizado a 370 léguas
a oeste do Arquipélago de Cabo Verde (da Ilha de Santo Antão).
Para ocupar a Colônia, Portugal criou, em 1540, as capitanias
hereditárias, como fatias horizontais. Os donos das capitanias, ao
chegar por mar não conseguiam atingir o interior devido às altas
montanhas, às densas florestas, ao clima inóspito, e aos índios
agressivos. Construíram cidades em torno dos portos e a Colônia
era como um conjunto de ilhas, interligadas pelo mar.
Os portugueses, cedo, viram a importância estratégica da foz
do rio Amazonas e a do rio da Prata. Por sua vez, os espanhóis
22
Revista do Clube Naval • 356
ÁREAS MARÍTIMAS
Esse Brasil apresentado até agora é muito grande e rico. Mas nosso Brasil é, na verdade, bem maior que isso.
Por acordo internacional, contido na
Convenção das Nações Unidas sobre o Direito
do Mar (CNUDM),(1) assinada em 1982 e em
vigor desde 1994, o Brasil conta também
com espaços marítimos.
Revista do Clube Naval • 356
23
RECURSOS DO MAR
Para ilustrar a importância da Amazônia Azul para o país e a
sociedade brasileira, segue um pequeno resumo das incontáveis
riquezas existentes no mar que nos pertence.
Recursos vivos. A vida começou no mar e se sustenta no
mar. Nos oceanos, encontramos aproximadamente 90% da biomassa existente na Terra. A maior parte do oxigênio da atmosfera
é produzida no mar, por organismos marinhos microscópicos
que têm a capacidade fotossintética – o fitoplâncton. E a maior
parte do dióxido de carbono é retirado da atmosfera pelo mesmo
fitoplâncton, este sim, o verdadeiro pulmão do mundo.
A Amazônia Azul abriga uma enorme variedade de recursos
vivos. Há peixes, como o badejo, o cherne, o namorado e a pescada;
crustáceos, como os diversos tipos de caranguejos, camarões e lagostas; moluscos, como as lulas, os polvos e os mariscos; mamíferos
marinhos, como os golfinhos, as baleias e os botos; aves, como
as fragatas, as gaivotas e os atobás; e répteis, como as tartarugas
marinhas. Entre os vegetais, as algas e microalgas, comuns nas
costas leste e nordeste, ganham utilização crescente na nutrição, na
farmácia, nos cosméticos e, ultimamente, como combustível.
Em lugar de apenas pescar, há outra forma, mais inteligente, de lidar com os recursos vivos do mar – a maricultura. No
Brasil, estão sendo conseguidos excelentes resultados com a
criação de peixes (piscicultura), de camarões (carcinicultura),
de mexilhões (mitilicultura), de ostras e vieiras (ostreicultura)
e de algas (algacultura);
Recursos minerais. É interessante constatar, em primeiro
lugar, que todos os minerais encontrados nos continentes estão
presentes no mar. E que os recursos minerais do mar se tornam
mais importantes à medida
que escasseiam as outras
fontes de suprimento.
Na Amazônia Azul, podemos encontrar, em abundância: areias e cascalhos,
utilizados na construção
civil e na recuperação de
praias erodidas; sedimentos
calcários, aplicados na agricultura, na potabilização de
água, em cosméticos, em
alimentação animal e em
implantes ósseos; e depósitos
de pláceres – minerais nobres
que são extraídos das rochas
por erosão, carregados pelos
rios e acumulados no leito do mar, em áreas de remanso, como
ouro, platina, titânio, monazita e diamantes.
Há, ainda, outro conjunto de minerais aos quais vem sendo
atribuído um alto valor estratégico. São aqueles existentes nos
limites ou além da PC, a grandes profundidades, cuja exploração
requer recursos muito sofisticados, como: os nódulos polimetálicos, compostos de níquel, cobre, cobalto, manganês e outros
minerais; as crostas cobaltíferas, que são depósitos dos mesmos
minerais existentes nos nódulos, com predominância do cobalto;
e os sulfetos polimetálicos, que contêm zinco, alumínio e metais
preciosos, como ouro e prata.
Esses minerais podem estar dissolvidos na água do mar ou em
depósitos, consolidados ou não. Os dissolvidos podem ser recuperados após a evaporação da água; os consolidados exigem a frag-
RECURSOS
MINERAIS
mentação das rochas, a sucção dos fragmentos e sua separação na superfície;
e os inconsolidados são simplesmente sugados.
Petróleo e gás. O mar é uma fonte imensa e inesgotável de energia! Hoje,
o principal recurso energético extraído do mar é o petróleo, que está sempre
acompanhado do gás. No Brasil, 85% do petróleo produzido é extraído do mar.
A Petrobras tem, atualmente, dezenas de sondas marítimas em operação,
e sua tecnologia de prospecção em águas profundas é da melhor qualidade,
reconhecida internacionalmente.
As reservas brasileiras comprovadas de petróleo já atingem 14 bilhões de
barris, e as estimadas (pré-sal) sobem para 60 bilhões. As reservas de gás superam
os 800 bilhões de metros cúbicos. Mais de 95% dessas reservas estão no mar.
PETRÓLEO
E GÁS
RECURSOS
VIVOS
24
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
25
Energia do mar. A Terra recebe do sol, diariamente, cerca
de 10 mil vezes a quantidade de energia consumida pela sociedade
humana. O mar (e a atmosfera próxima) recebe e armazena mais
de 80% dessa energia. Em consequência, os oceanos contêm, nos
seus primeiros três metros de profundidade, a mesma quantidade
de calor que toda a atmosfera. E essa fantástica quantidade de
energia não é desperdiçada, é armazenada pelo mar e pode ser
extraída de várias formas.
O jogo de pressões atmosféricas, causadas pelo aquecimento
da água e do ar, gera ventos que sopram, continuamente, por
pistas livres sobre a superfície do oceano. Com usinas eólicas
plantadas no mar ou na costa, uma grande quantidade de energia
pode ser obtida desses ventos.
Os ventos são também os principais formadores das ondas que se
propagam por todo o oceano. Das ondas, do sobe e desce constante
das águas, muita energia pode ser extraída.
Diariamente, o nível das águas do mar é alterado pela influência gravitacional do sol e da lua. Esse sobe e desce diário
das águas, as marés, contém uma quantidade inimaginável de
energia, que também pode ser utilizada.
Além disso, o mar abriga variadas correntes marinhas, que são
enormes massas de água densa que se deslocam nos fundos marinhos, carregadas de energia aproveitável.
A temperatura da água da superfície do mar é bem superior
à da água do fundo e a salinidade na foz dos grandes rios é bem
distinta da do mar aberto. Essas diferenças encerram um imenso
potencial de energia que, em certos locais e em condições favoráveis, pode ser aproveitada.
O fitoplâncton da coluna d’água, especialmente o formado
por microalgas, quando cultivado, alcança crescimento muito
mais rápido do que qualquer cultura terrestre. O aproveitamento
desses recursos vegetais para extração de óleo pode ser bastante
eficiente e, quem sabe, destronar a gasolina.
Finalmente, a energia do futuro: a fusão nuclear, cujos principais insumos são os isótopos do hidrogênio – o deutério e o
trítio –, facilmente obtidos da água do mar.
ENERGIA
AR
M
DO
do país é especialmente favorável ao turismo, apresentando clima
ameno e belezas naturais inigualáveis.
A Amazônia Azul apresenta condições ideais para os esportes
oceânicos, como a pesca e o iatismo, e os de praia, desde o
surfe até o frescobol. São centenas de praias de areias brancas
e águas claras, próprias para o lazer. E o mundo segue a moda
gerada nas praias brasileiras... Ainda há muitos navios afundados, o que serve como motivação
para as atividades arqueológicas, e ricos espaços submarinos e raras
oportunidades para o mergulho.
USOS DO MAR
É interessante visualizar o mar como a ponte que une os
povos, e não como o abismo que os separa. Somos vizinhos de
todos os países onde o mar nos leva, e 150 dos 192 membros das
Nações Unidas são Estados costeiros.
É claro que podemos usar o mar sem, necessariamente, explorar seus recursos vivos e não vivos. E o uso mais antigo do mar é
o do transporte marítimo, de cargas e de pessoas.
No Brasil, mais de 90% do comércio exterior é transportado por
mar! E a expectativa para 2010 é de que esse comércio atinja a cifra
de US$ 370 bilhões, recuperando os números alcançados em 2008.
No passado não muito distante, os armadores nacionais
chegaram a dominar 30% do frete, usando navios brasileiros,
construídos no país, com tripulações brasileiras.
Hoje, esses números são muito mais modestos, embora, graças
ao esforço de substituição de importações de algumas empresas,
especialmente a Petrobras e a Vale, estejamos iniciando um processo
de recuperação da construção naval no país.
O Brasil possui pouco mais de 40 bons portos, na costa marítima e às margens dos principais rios, dos quais apenas um terço
com boa capacidade operacional. Há, no entanto, notícias de planos
para a recuperação e modernização desses portos.
Outro uso tradicional do mar é o turismo marítimo e o
“glamour” dos cruzeiros a bordo de confortáveis navios. A costa
OS
TRANSPORTES
M
MARÍTI
ESPORTES
OCEÂNICOS
26
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
27
Uma vantagem que precisa ser
mais bem aproveitada diz respeito
às ilhas oceânicas localizadas
na Amazônia Azul. Essas ilhas têm
enorme importância política, científica, militar e econômica.
Entre outros aspectos, elas estendem o MT e a ZEE, sediam estações
científicas, meteorológicas e oceanográficas, e servem como postos
avançados em termos de segurança
da navegação, de apoio logístico, de
comunicações e de defesa.
Notáveis são: o Arquipélago de
São Pedro e São Paulo, localizado a
cerca de mil quilômetros de Natal,
RN; as Ilhas da Trindade e Martim
Vaz, distantes 1.360 km de Vitória, ES; e o Arquipélago de Fernando
de Noronha, a 545 km do continente.
DE
ETOS
J
PRO
PRESERVAÇÃO
CUIDADOS COM O MAR
Não há direitos sem obrigações. Para poder usufruir, por
várias gerações, dos recursos da Amazônia Azul, o Brasil precisa
cuidar do seu mar.
O primeiro cuidado diz respeito à preservação da vida, isto é, à
salvaguarda da vida marinha e à manutenção da integridade e da
saúde dos ecossistemas marinhos.
Hoje, o Brasil abriga um bom número de projetos de
preservação, como o Tamar, das tartarugas, e os do peixe-boi
marinho, da baleia azul, da baleia jubarte, da baleia franca, da orca,
do golfinho rotador, dos pequenos cetáceos e dos pinípedes.
O segundo cuidado é com a proteção do mar e a manutenção
da qualidade de suas águas. Isso implica evitar a degradação dos
mares pela poluição e a destruição da Zona Costeira, que é constituída
de manguezais, marismas, estuários, praias, baías e lagoas, vitais para
certas fases do ciclo biológico de muitas espécies marinhas.
Os oceanos, infelizmente, vêm sendo usados como grandes depósitos
dos resíduos produzidos pela humanidade, como os efluentes industriais,
os agrotóxicos, os esgotos domésticos e o alijamento de materiais por
navios e plataformas de petróleo. E isso deve ser abolido.
ILHAS
OCEÂNICAS
28
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
29
O papel principal de defesa, no mar, dos interesses nacionais
cabe à Marinha. É ela que dispõe dos meios adequados para atuar na
Amazônia Azul.
A Estratégia Nacional de Defesa,(4) outro documento de alto
nível, decorrente da Política, recomenda que a Marinha tenha
como foco: a defesa das plataformas petrolíferas, das instalações
navais e portuárias, dos arquipélagos e das ilhas oceânicas; a
prontidão para responder a qualquer ameaça às vias marítimas
salvamento marítimo, é de cerca de 15 mil km², muito superior
à da Amazônia Azul (o triplo).
PROBLEMAS NO MAR
Já pensaram como as leis são cumpridas no mar? E quem cuida
da implementação e da fiscalização do cumprimento dessas leis?
Como evitar o uso ilegal do mar? Como coibir o contrabando, o
tráfico de drogas, o tráfico de escravos, a imigração ilegal, a pesca
ilegal, o despejo ilegal de poluentes e outras práticas proibidas?
E a maior incógnita: quando, em que lugar e de onde virão as
agressões? Estamos livres de eventuais ações terroristas? Não queremos ser agredidos e faremos tudo para evitar que isso aconteça.
No entanto, como ensina a história, as agressões e conflitos não
dependem de ameaças predefinidas. Surgem de interesses contrariados que, em determinado momento, deixam de ter solução pelo
caminho diplomático, escalando para o argumento das armas.
Como defender, no mar, os interesses nacionais? No Brasil,
um documento de alto nível, a Política de Defesa Nacional,(3)
alerta para o fato de que o Brasil pode tornar-se vítima da ambição internacional. Recomenda que o país disponha de meios
com capacidade de exercer a vigilância e a defesa das águas
jurisdicionais brasileiras, bem como de manter a segurança das
linhas de comunicação marítimas.
Outro cuidado a ser tomado diz respeito à proteção dos que usam
o mar. Esse tema é vasto e inclui: a segurança da navegação
(cartas de navegação, sinalização náutica e previsões oceanográficas
e meteorológicas); o ensino profissional marítimo; o serviço de
busca e salvamento de vida humana em perigo no mar; a segurança
e a saúde no trabalho marítimo e portuário; o acompanhamento
e a proteção dos navios no mar; e a condução dos navios na difícil
entrada e saída dos portos, a chamada praticagem.
Como curiosidade, é interessante apontar que a área de
responsabilidade internacional do Brasil, no serviço de busca e
SEGURANÇA
NAVEGAÇÃO
de comércio; e a participação em operações internacionais de paz, sob a égide das Nações Unidas ou de
organismos multilaterais da região.
DA
Disponível em: <http://www2.mre.gov.br/dai/m_1530_1995.htm>.
Disponível em: <http://www.mar.mil.br/dhn/dhn/ass_leplac.html>.
(3)
Disponível em: <https://www.defesa.gov.br/pdn/index.php?page=home>.
(4)
Disponível em: <https://www.defesa.gov.br/eventos_temporarios/2009/estrategia>.
(2)
Revista do Clube Naval • 356
O Brasil é imenso. As Amazônias brasileiras,
a Verde e a Azul, são vastas e oferecem inúmeras
oportunidades à sociedade brasileira. São frágeis,
MARINHA
FORTE
(1)
30
CONCLUSÃO
Revista do Clube Naval • 356
31
e precisam ser protegidas; são cobiçadas, e,
por isso, precisam ser defendidas.
Os recursos vivos, minerais e energéticos
que existem na Amazônia Azul são cada vez
mais importantes para a economia brasileira
e, à medida que se desenvolve a tecnologia,
terão sua importância aumentada. Mesmo que
se confirme o esgotamento das reservas de
petróleo e gás, as possibilidades do mar para a
produção de energia parecem inesgotáveis.
A globalização, fenômeno irreversível, acarretará, como já vem ocorrendo de forma notável,
o aumento crescente do transporte marítimo.
O Brasil necessita de uma Marinha Mercante
condizente com seu comércio exterior.
Finalmente, é preciso reconhecer que somente a existência de uma Marinha forte
garantirá que possamos exercer plenamente
nossos direitos sobre a Amazônia Azul e impedir que outros se aproveitem de nossa fraqueza
e roubem o que por direito nos pertence.
segurança
DEFESA NACIONAL UMA VISÃO
POLÍTICOESTRATÉGICA
Almirante-de-Esquadra (Reformado) Mario Cesar Flores
Este artigo é um ideário sucinto sobre defesa
nacional. Está estruturado na premissa de que,
embora o Brasil não seja uma grande potência,
tampouco é irrelevante. Em sua região
geopolítica tem peso de destaque e deve ter
nela a responsabilidade correspondente.
Seu público-alvo não é propriamente o militarnaval, que pode discordar das ideias aqui
expostas, mas tem ideias a respeito e não
precisa ser convencido da importância da
defesa nacional e do correlato poder militar,
na vida nacional e na inserção internacional
do país. Sua redação foi pautada pelo nível
que deve preocupar os políticos e no qual lhes
cabe responsabilidade, que no Brasil nem
sempre, se não raramente, é atendida pela
atenção e dedicação política adequadas.
O aprofundamento do preparo militar,
preocupação profissional, não é objeto do artigo.
A
defesa nacional é assunto de Estado, a ser conduzido
na moldura constitucional em quatro cenários político-estratégicos: na defesa clássica; complemento
do anterior, na contenção de atividades irregulares
transnacionais; no apoio à política externa, de acordo
com o interesse brasileiro; e na garantia da ordem
constitucional e legal.
O primeiro cenário exige poder militar clássico, capaz de dissuadir ou repelir e abortar rapidamente agressões ao país e seus
interesses, improváveis no curto e médio prazo, mas não impossíveis
no imprevisível maior prazo. Mais improváveis ainda se o Brasil
inspirar respeito militar que comprometa a presunção de sucesso e
Brasil tenha interesses globais, por ora sua atenção estratégica
deve priorizar a América do Sul (admitida extensão à Central e ao
Caribe, no esquema da solidariedade americana) e o Atlântico Sul.
Nesse espaço geográfico a atuação brasileira, em princípio política,
mas se necessário, até militar, precisa ser destacada na proporção
do país nele. A influência do Brasil pressupõe capacidade e vontade
de assumir responsabilidade e seu absenteísmo na sua região geopolítica é estímulo à interveniência extrarregional – tema conexo
à pretensão ao assento permanente no Conselho de Segurança da
ONU, aparentemente ignorado. Quando conveniente à sua política
externa, o Brasil pode ter atuação militar eventual, coadjutoria
ou simbólica fora dessa região, sob o mandato internacional que
corresponda ao problema.
No preparo para esse terceiro cenário impõe-se considerar que a
ação propriamente militar é em geral precondição, mas ela precisa
ser complementada pela segurança policial e por vezes pelo apoio
à reconstrução nacional – problema hoje em evidência no Iraque e
Afeganistão e em escala menos dramática, no Haiti.
induza moderação e preferência pela conciliação de eventuais contenciosos, envolvendo o Brasil e qualquer um de seus 10 vizinhos,
ou até mesmo o Brasil e país(es) extrarregional(is), hoje motivados
principalmente por questões sobre meio ambiente, energia (a exemplo do aproveitamento hidroelétrico do rio Paraná – o contencioso
Itaipu x Corpus nos 1970), recursos naturais (inclusive água doce)
e migração desordenada. Se a improbabilidade evoluir para a probabilidade, o conflito porventura decorrente muito provavelmente
será limitado no(s) objetivo(s) e no espaço geográfico envolvido.
O poder militar relativo ao primeiro cenário é complexo e não
pode ser improvisado na crise que venha a exigi-lo. Deve, portanto,
ser objeto de preparo continuado.
O segundo cenário é atendido pela capacidade, nela incluído o
amparo legal, de conter delitos transnacionais – em realce hoje o
terrorismo, drogas e contrabando, sobretudo de armas –, nas regiões
de fronteira, mar costeiro e espaço aéreo (para o qual o conceito de
operação em região de fronteira se estende Brasil adentro). Além da
contenção de delitos, esse cenário inclui também a capacidade de
controlar os reflexos no Brasil, de conflitos no nosso entorno, cujas
injunções operacionais e logísticas nem sempre respeitam fronteiras – conflitos internos em nossos vizinhos e entre eles. Esses, hoje
menos relacionados com questões territoriais (existem algumas, em
recesso inseguro no maior prazo, como é o caso da pretensão da
Venezuela à parte da Guiana) e mais com os contenciosos citados
como potenciais indutores de problemas no primeiro cenário.
O terceiro cenário pressupõe condições para a ação expedicionária. Ele sugere uma ressalva político-geográfica: embora o
Uma das muitas apreenções do contrabando de armas em fronteiras do Brasil, à direita um Fuzileiro Naval brasileiro no Haiti e,
abaixo, vista da usina hidroelétrica de Itaipu
Revista do Clube Naval • 356
33
O quarto cenário requer o preparo que habilite as Forças Armadas a contribuir para a garantia, ou mesmo garantir a lei e a ordem,
em consonância com o ritual da Constituição, quando exigida a ação
militar por ausência ou insuficiência do sistema policial e para proteger órgãos vitais da responsabilidade federal – portos e aeroportos,
por exemplo – em situações de crise. Na garantia da lei e da ordem
a ação militar se justifica quando a situação exige táticas e meios
militares, mas é inconveniente quando, pelo contrário, ela exige que
os militares se ajustem à atividade essencialmente policial. Trata-se,
portanto, de ação episódica, não se estende à rotina da segurança
pública, encargo policial. Extensão que, além de desvirtuar a finalidade precípua das Forças, serve à “absolvição” das autoridades e
dos instrumentos policiais efetivamente responsáveis.
Salvo alguma ação apocalíptica do terrorismo insano, por ora
aparentemente improvável envolvendo o Brasil, nenhuma hipótese de crise plausível nos quatro cenários político-estratégicos
comporta o uso de armas de destruição de massa. O Brasil deve
sustentar posição internacional contrária à sua proliferação e
simultaneamente preconizadora da redução dessas armas – em
evidência, ainda que não apenas, as nucleares.
A segurança coletiva abrangente ao estilo TIAR, compatível com
o primeiro cenário, perdeu sua razão de ser ao fim da Guerra Fria
porque, para ter consistência, ela precisa de convincente ameaça
comum, como era a soviética (o “império” a que alude o presidente
Chávez só é visto assim por poucos países sul-americanos e, mesmo
neles, mais na retórica populista para consumo interno do que como
realidade). Se vier a emergir algum dia alguma ameaça comum
real e grave – que não ocorre de repente, evolui em tempo de ser
percebida e avaliada –, a organização política adequada (OEA ou
Unasul, por exemplo) criará o esquema de segurança conveniente.
Questões relativas à cooperação na instrução e no adestramento, à
participação conjunta em força internacional, à complementação
industrial-militar e a outras de natureza cooperativa similar podem
ser conduzidas pelo Conselho de Defesa Sul-Americano, sem a
necessidade de acordo de segurança coletiva formal.
Entretanto, a segurança compartilhada é útil e até conveniente, se não necessária ao controle dos delitos transnacionais do
Navio da Marinha do Brasil,
em missão de patrulhar a
rede fluvial da Amazônia
Nas 2 fotos à esquerda,
navio e helicóptero da
Marinha patrulham
plataformas de petróleo
segundo cenário, com uma ressalva que a distingue do esquema
difuso e abrangente do TIAR: esses delitos não justificam acordo geograficamente amplo e, muito menos, utópico e abstrato
no propósito e espaço geográfico – acordo que se configuraria
inconsistente e frágil, se não inócuo, diante da diversidade das
perspectivas de nossos vizinhos naqueles vários problemas. Eles
sugerem, isto sim, acordos precisamente definidos e limitados em
seu(s) objetivo(s), na metodologia de inteligência e operacional
(militar e policial) e na área abrangida: acordo envolvendo Argentina,
Brasil e Paraguai restrito à região da
“tríplice fronteira”, por exemplo. A extensão da fronteira do Brasil comporta
vários acordos dessa natureza.
O nível que pauta este artigo
sugere aqui uma observação de interesse político-estratégico: embora a
insegura evolução ao longo do tempo
aconselhe acompanhamento prudente
visando às adaptações porventura necessárias, a situação atual e a do futuro
breve indicam ser conveniente uma
revisão da preocupação geoestratégica
tradicional que, a bem da verdade, já
vem acontecendo por algum tempo:
a bacia do Prata, prioridade histórica
estendida até a segunda metade do
século XX, cedeu sua importância
relativa à Amazônia e ao mar, onde
meio ambiente e recursos naturais
(Amazônia) e petróleo e gás (mar)
estão criando novos interesses e novas vulnerabilidades.
No tocante ao mar, no imprevisível maior prazo a preocupação com ele deve abranger a ameaça clássica, de Estado(s)
capaz(es) de atuação naval significativa – razão justificadora do
persistente e complexo preparo adequado àquela eventualidade,
que não pode ser improvisado. A par dela, a preocupação exigente
de atenção imediata refere-se às ações irregulares, do segundo
cenário político-estratégico. Entre elas, o terrorismo a que as
34
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
instalações de petróleo e gás são vulneráveis.
Quanto à Amazônia, se bem que não se possa descartá-la como
impossível no maior prazo, no curto e médio prazo é improvável a
ameaça clássica regional. Mais ainda se o Brasil dispuser de poder
militar convincente e respeitado, preparado para as peculiaridades
da região, que indique fadada ao rápido insucesso qualquer aventura. É também improvável a intervenção de grande(s) potência(s)
em defesa (?) da “Amazônia ambiental”. Essa hipótese, sem sentido
35
porque o Brasil busca o desenvolvimento com sustentabilidade ambiental, como é do seu próprio interesse, será mais improvável ainda
se – novamente – o Brasil dispuser de poder militar convincente e
respeitado, preparado para as peculiaridades da região, capaz de
comprometer o sucesso da hipótese e, portanto, de dissuadi-la,
caso algum dia ela vier a se tornar plausível. O que preocupa hoje
é principalmente o quadro do segundo cenário político-estratégico,
que justifica dotar a Amazônia com estrutura militar adequada à
contensão de delitos transfronteiriços e de controlar sua extensa e
permeável região fronteiriça, sua rede fluvial e espaço aéreo.
As orientações fundamentais (a estratégia nacional e/ou qualquer
outra formulação básica) relativas ao poder militar brasileiro nesse
quadro estrutural da defesa, com nossas vulnerabilidades, nossos objetivos e os encargos consequentes, devem ser preparadas no Ministério
da Defesa, com a cooperação de outro(s) ministério(s), exigida pelo
assunto. E devem ser apreciadas pelo Congresso Nacional – por suas
Comissões de Política Externa e Defesa do Senado e da Câmara dos
Deputados, complementadas de acordo com as regras regimentais
de funcionamento do Congresso –, visando conferir-lhes o aval da
representação do povo e o compromisso congressual quanto à continuidade dos planos/programas/projetos pertinentes.
O poder militar brasileiro vive uma grande defasagem entre o
conveniente e o existente, com o material em grande parte obsoleto.
Para reduzi-la, além do preparo cuja moldura estritamente conceitual é delineada abaixo, é preciso enfatizar a integração estratégica,
operacional, logística e de inteligência das Forças, útil à eficiência
com economia de meios, como vigente com sucesso no mundo
militarmente mais bem preparado.
No preparo material relativo aos primeiro e terceiro cená-
rios político-estratégicos sobressaem, em esboço estritamente
conceitual, sem detalhamento, coerente com o nível político e
sua responsabilidade:
– na Marinha o preparo (metodicamente continuado) de força
naval indicadora de atenção à defesa do Brasil no mar e de interesse
pela ordem e segurança no Atlântico Sul – particularmente no ocidental, em que cabe naturalmente ao Brasil responsabilidade maior
–, além de adequada à contribuição naval em ação expedicionária do
terceiro cenário: projeção anfíbia e apoio logístico. Tópico singular,
um tanto à margem do estritamente conceitual, justificado pelo
interesse que tem despertado: o submarino, útil à dissuasão de (ou
à defesa contra) agressão que venha pelo mar – vale repetir, hoje
improvável, mas cuja improbabilidade é insegura no maior prazo;
– no Exército a capacidade de defesa nacional clássica e de atuação
expedicionária – essa, na dimensão conveniente à presença do Brasil
no cenário internacional, em particular na sua região geopolítica.
A defesa clássica, estruturada em núcleo(s) com mobilidade para
atuação rápida e decisiva onde necessária – portanto com adequação
operacional aos vários ambientes territoriais, em prioridade definida
na contínua avaliação da situação. A atuação expedicionária, com
capacidade para as atividades de peace enforcement (combate), peace
keeping (que pode envolver atuação policial, se assim especificado no
mandato da organização internacional responsável) e nation building
– capacidade também necessária à Marinha/fuzileiros navais;
- na Força Aérea a aviação de combate (defesa e ataque) inerente
à defesa clássica, portanto essencial como instrumento de dissuasão
de agressão externa e de defesa contra essa agressão - novamente
repetindo, improvável, mas não impossível. A aviação estratégica de
longo alcance não é necessária, mas convém ao Brasil a que responda
36
Revista do Clube Naval • 356
o país é irrazoável o atual descompasso da tecnologia e da
indústria brasileira de interesse militar. Não faz sentido,
por exemplo, que o desenvolvimento missilístico do Irã
esteja tão à frente do brasileiro, que vem avançando (se
tanto) muito lentamente!
No Brasil pretendente à presença ativa na ordem
internacional a tecnologia deve ser, portanto, fundamental no preparo militar. O país pode aproveitar o fato
de não estar sob pressão de ameaça grave exigente de
preparo rápido, para chegar à tecnologia conveniente,
preferencialmente em empreendimentos que incluam a
indústria privada. Há que desenvolver a tecnologia cuja
obtenção por transferência é dificultada pelos países que
as possuem, de que são exemplos simbolicamente relevantes: a missilística, os VANT, o uso do espaço (comunicações, sensoriamento/monitoramento/inteligência),
a propulsão naval nuclear, o espectro completo da aviônica e da guerra eletrônica e a cibernética. E é preciso
reestimular a indústria de interesse da defesa que, além
de essencial à defesa, é vetor de avanço útil, por vezes até pioneiro
como tem sido no mundo desenvolvido, à tecnologia de utilidade
civil; no Brasil esse foi o caso da Embraer e do domínio do ciclo do
urânio, com vistas à propulsão naval nuclear. A importação deve
ser condicionada à(às) parceria(s) com indústria(s) brasileira(s), na
produção e, imprescindível, na sustentabilidade logística: manutenção e material de consumo. O offset dos contratos de obtenção tem
que ser pautado por compensação tecnológica segura.
Enfim: a tecnologia – desenvolvimento próprio e/ou por absorção
efetiva, não a da mera sedução comercial – e a recuperação da indústria de interesse da defesa são tão importantes quanto o preparo das
Forças. É preciso “administrar” esse problema, dosando parcerias com
países tecnologicamente desenvolvidos, tendo por parâmetro a efetiva
contribuição para a evolução tecnológico-industrial brasileira.
Além do preparo relativo aos quatro quadros contextuais político-estratégicos da defesa nacional, até aqui considerados, as Forças
Armadas devem continuar desenvolvendo a capacidade para suas
atividades não essencialmente militares (atividades subsidiárias)
de interesse, se não de imprescindibilidade nacional: segurança da
navegação aérea e marítima/fluvial, salvamento marítimo, apoio à
defesa civil em calamidades públicas e apoio ás populações carentes
em regiões atrasadas (a exemplo do apoio de saúde nas vastidões
amazônicas). Complementarmente, a participação em obras e outras
atividades de natureza civil (cooperação no controle ambiental, por
exemplo), que contribuam, simultaneamente, para o progresso
do país e para o adestramento técnico das Forças, desde que sem
prejuízo para a iniciativa civil possível.
O ideário esboçado, discreto e sem pretender status de grande
potência de influência militar global, mas compatível do que
já é o Brasil, evidentemente reflete a visão do autor. Outros
podem ser formulados, quem sabe até mais corretos quanto
à interpretação da realidade atual e às ilações sobre o futuro,
envolvendo o Brasil, com seus desdobramentos militares. Se o
mundo político se conduzir por parâmetros como os esboçados,
ou por outros que respondam melhor à interconexão entre a
política e a estratégia, ele estará assumindo a responsabilidade
que lhe corresponde, estará resgatando politicamente a defesa,
cujo menoscabo político já por decênios compromete a defesa
nacional e a inserção do Brasil no contexto internacional. Num
país em que a defesa nacional e a visão estadista de maior prazo
não asseguram votos, esse resgate será viável?
à sua responsabilidade regional e à defesa do país. Além dela, a aviação
de apoio ao Exército (mobilidade estratégica, apoio tático e logístico) e
de reconhecimento marítimo - essa, útil também ao controle rotineiro
do mar costeiro, em cooperação com a Marinha.
Para as ameaças irregulares mencionadas do segundo cenário,
merece atenção o preparo militar – equipamento, efetivos e sua
distribuição territorial – que atenda: as peculiaridades das fronteiras permeáveis da Amazônia e do espaço amazônico em geral, com
sua rede fluvial; idem, da fronteira oeste e bacia do rio Paraguai;
o controle rotineiro do mar costeiro e sob jurisdição econômica
brasileira, onde ocorre a exploração de petróleo e gás; e o controle
também rotineiro do espaço aéreo brasileiro. As atividades relativas
ao segundo cenário devem ser exercidas com poder de polícia, regulado quanto ao espaço geográfico, circunstâncias e limites.
Finalmente o quarto cenário (interno): a eventual necessidade de
emprego das Forças Armadas é atendida por unidades do poder militar relativo aos outros três cenários, convindo que as forças sediadas
nas várias regiões do território nacional mantenham contingentes
adestrados para as peculiaridades desse quarto cenário.
A menção à defasagem entre o conveniente e o existente sugere
algumas considerações sobre o orçamento militar, que vem sendo
já por muitos anos inferior a 2% do PIB e, dadas as demandas
nacionais, sociais e econômicas/infraestruturais, é improvável
que possa crescer, a curto e mesmo médio prazo, na dimensão
conveniente para assegurar ao Brasil a capacitação em segurança
e defesa coerente com suas vulnerabilidades, seu destaque político,
econômico e geográfico e, é claro, sua consequente responsabilidade. O incremento realisticamente possível precisa ser orientado
para prioridades selecionadas em função da conjuntura esboçada
e de sua evolução. E o governo deve empenhar-se – incluído
nesse empenho o compromisso do Congresso Nacional – para
que o orçamento assegure no tempo a continuidade aos projetos
deslanchados como relevantes. A descontinuidade que vem ocorrendo sistematicamente já por decênios tem sido prejudicial à
racionalidade do preparo militar.
Além da segurança orçamentária, merece atenção o desenvolvimento e o controle da tecnologia militar, indispensáveis ao uso
soberano dos meios militares. Seria hoje inaceitável no Brasil já razoavelmente industrializado a dependência logística e a consequente
sujeição estratégica do tempo do Acordo de Assistência Militar EUABrasil, de 1952 a 1977. Para o estágio de desenvolvimento em que está
Revista do Clube Naval • 356
37
física
Onda ou
particula?
Capitão-de-mar-e-guerra (Ref.) Paulo Roberto Gotaç
For those who are not shocked when they first come across
quantum theory cannot possibly have understood it.*
Niels Bohr1
E
ste trabalho constitui a primeira parte de uma exposição cuja proposta é mostrar as grandes revoluções no esquema conceitual da Física desde os dias heroicos da“”velha mecânica
quântica””até o estabelecimento da teoria, ainda hoje aceita e ensinada, que emergiu das
discussões realizadas com paixão pelos mais talentosos físicos dedicados. Não serão analisados
aqui os trabalhos pioneiros de Planck, sobre a sua hipótese quântica da interação radiaçãomatéria, de 1900, que desvendou o mistério do espectro de energia do corpo negro, nem os de Einstein
de 1905 sobre a visão heurística de pensar a propagação da radiação (luz) como quanta de luz (fótons)
para explicar o efeito fotoelétrico, resumidos em números anteriores desta revista.(2,3)
Desta vez serão examinados os aspectos interpretativos ligados à dualidade onda-partícula
que colocaram em lados opostos Einstein e Bohr, dando início ao célebre debate que, neste e nos
trabalhos subsequentes, servirá de pano de fundo constante, sendo mencionados no presente
trabalho os dois primeiros rounds, segundo a visão do autor.
É importante ressaltar que a análise ora apresentada não se propõe a discutir os aspectos
técnicos da teoria, o que seria uma enorme pretensão, já que é ela um enorme sucesso no confronto com a experiência e nas infinitas aplicações tecnológicas do mundo moderno. O foco será
38
Revista do Clube Naval • 356
basicamente nos aspectos interpretativos, mais delicados, e que envolvem visões de filosofia,
terreno sempre escorregadio. A preocupação será, portanto, discutir não como é a teoria, mas o
que ela quer dizer, objeto central do referido debate que, de certa forma ainda não terminou.
Inicia-se com uma breve resenha sobre Einstein, onde se mostra como se transformou quase
da noite para o dia em figura internacionalmente conhecida e procura-se ressaltar sua tensão com
a dualidade onda-partícula que emergiu de seu trabalho e o seu desconforto por ter introduzido
o aspecto probabilístico nas nascentes questões quânticas.
Em seguida, faz-se o mesmo para Bohr e resumem-se os aspectos básicos do seu modelo
atômico, capaz de explicar com exatidão as linhas espectrais do hidrogênio.
Relatam-se em seguida os pontos principais do primeiro encontro Bohr-Einstein, em 1920,
rápido, mas onde ficou patente a ironia de Bohr em relação às “ondas fantasmas”de Einstein, e
do segundo, em 1923, com Einstein vitorioso, face ao anúncio de resultados experimentais mostrando que a visão corpuscular da luz não poderia mais ser ignorada.
Finalmente, conclui-se, preparando o leitor para os próximos lances desta interessante
história, a partir de 1924.
Revista do Clube Naval • 356
39
Einstein
guerra, não havia violado a neutralidade da Bélgica nem cometido
atrocidades, entre outros argumentos. Einstein, por conta de sua
nacionalidade suíça, não foi estimulado a assinar o manifesto.
Apesar de todas as dificuldades inerentes à guerra, inclusive as
provenientes da escassez de alimentos que assolava toda a Alemanha,
o período foi bastante prolífico cientificamente, sendo Einstein capaz
de publicar um livro e produzir vários trabalhos, completando, em
1915, sua obra científica máxima: a Teoria Geral da Relatividade,
sobre a qual o físico russo Lev D. Landau (1908-1968), prêmio Nobel
de Física de 1962, numa única manifestação de emoção ao longo de
toda sua famosa obra de Física Teórica, viria a declarar, quase 50 anos
depois, ser a “mais bela das teorias físicas existentes”.(5) Em 1919,
sob os auspícios da Royal Society da Inglaterra, duas expedições
científicas foram montadas com o intuito de corroborar uma das
consequências da teoria, a curvatura da luz devida a corpos massivos, observável em eclipses totais do sol. Uma delas, a de resultados
mais conclusivos, desenvolveu-se no Brasil, em Sobral, estado do
Ceará (Foto abaixo, à esquerda – Museu do Eclípse, em Sobral). Os
A forte reação da comunidade científica, mais intensa em 1910,
ao modelo corpuscular da radiação eletromagnética (luz), proposto
em 1905, para explicar o efeito fotoelétrico teve como resultado
o afastamento temporário de Einstein dos temas quânticos, para
dedicar-se exclusivamente à formulação da sua Teoria Geral da
Relatividade, o que não impediu que a questão estivesse sempre
presente em suas reflexões.
Embora relativamente bem-sucedida na verificação experimental, a quantização da propagação da luz introduzia algumas perplexidades originadas pela inabalável fé na sua natureza ondulatória,
como comprovavam as recentes experiências de Hertz(3) e os fenômenos característicos de interferência e difração. O próprio Planck,
criador da ideia dos “quanta” de energia para explicar o angustiante,
à época, enigma do espectro de energia do corpo negro, com sua
constante h mais tarde elevada ao status de constante fundamental
da natureza, foi um dos opositores do modelo de Einstein, pois não
aceitava a ideia de propagação da luz por corpúsculos. Sua imagem
de quantum se limitava à interação radiação-matéria, jamais à
própria propagação.
Tal dualidade gerou tensões no próprio Einstein, o que fez
com que declarasse que o enigma da radiação não seria resolvido com facilidade, pois, de alguma forma, segundo ele, as duas
formas teriam que coexistir.
Em março de 1914, já com considerável visibilidade no cenário da Física, Einstein é persuadido por ninguém menos que o
próprio Planck a trabalhar em Berlim, em condições irrecusáveis,
deixando, assim, o posto que ocupava desde 1911 na Universidade
de Praga. Com a eclosão da grande guerra em agosto do
mesmo ano, os intelectuais alemães, entre eles Planck e um grande número de físicos, manifestaram
seu patriotismo com a assinatura do chamado
“Apelo ao mundo civilizado”,(4) no qual protestavam contra a campanha de difamação
sofrida pela Alemanha, afirmando que sua
pátria não era responsável pela eclosão da
(3)
dados obtidos foram apresentados em sessão da Royal Society,
demonstrando o sucesso da teoria, transformando, de
maneira espetacular, seu autor numa espécie de
pop star internacional, com direito a generosos
espaços dos jornais da época.(6)
Dos trabalhos por ele concluídos durante a
guerra, um, publicado em 1917, é particularmente relevante para esta análise,(7) por reativar
Einstein
40
Revista do Clube Naval • 356
sua permanente preocupação com os assuntos quânticos,
particularmente, a questão dualística da radiação. Nele,
Einstein reafirmava sua crença na natureza corpuscular
da radiação, embora não estivesse muito consciente do
papel da componente ondulatória que marcava inexoravelmente sua presença nos experimentos envolvendo os
fenômenos de difração e interferência e até na expressão
da energia do fóton, por ele criada (h ν ),(3) e que continha
a frequência ( ν ), atributo inerente à onda.
À época, o modelo atômico de Bohr, sobre o qual se
falará adiante, estava no auge do sucesso experimental
e o trabalho referido analisava, com muita engenhosi€
dade, a interação dos fótons
€ com átomos, imaginados
conforme o modelo de Bohr, com seus níveis de excitação
de energia e as transições de um nível para outro. Seus
subprodutos mais notáveis consistiram na dedução, de
maneira extremamente natural, da fórmula da radiação
do corpo negro de Planck (introduzida em 1900 por
Planck de maneira ad hoc) e na introdução da ideia da
radiação estimulada, base do laser. Mas a premissa de
Bohr
que as referidas transições ocorriam de forma probabilística constituíam, segundo o próprio Einstein, um ponto
fraco da sua elaboração teórica, pois, adepto fervoroso do
realismo em Física e da estrita relação de causa e efeito
daí decorrente, era-lhe penoso admitir que processos
atômicos fossem regidos por puro acaso. O descontentamento com
tal hipótese, por ele mesmo exposta, foi manifestada em cartas para
vários físicos da época, entre eles Max Born (1882-1970), prêmio Nobel
de Física de 1954. Sem saber, Einstein estava plantando a semente
do debate de que trata este trabalho.
neozelandês, líder com enorme capacidade de trabalho, exemplo
para inúmeros jovens cientistas e responsável pela criação do
grupo de Física experimental da universidade. À época, Rutherford
dedicava-se, entre outros trabalhos, a realizar experimentos de
espalhamento de feixes de partículas alfa (átomos de hélio, com
dois elétrons a menos – a radioatividade estava na sua infância),
quando colidiam com átomos de alguns elementos. O propósito era
estabelecer um modelo atômico mais realista que o de Thomson,
que se mostrava em flagrante oposição aos resultados já obtidos
pela equipe de Manchester.
Em 1911, Rutherford publicou suas conclusões(8) e apresentou
seu modelo atômico, constituído de um núcleo positivo, com elétrons negativos orbitando, dotados, portanto, de aceleração, numa
espécie de microssistema planetário. Acontece que, de acordo com
o eletromagnetismo clássico, toda carga acelerada emite radiação
eletromagnética continuamente, o que significava que os elétrons
atômicos irradiariam, perdendo energia, e os átomos não seriam estáveis, pois os elétrons“cairiam” em curto espaço de tempo no núcleo
e nada existiria, o que configuraria um quadro bizarro, onde não
haveria matéria e, consequentemente, seres humanos para contar a
história. Por essa razão, o modelo de Rutherford foi contestado por
alguns físicos contemporâneos. É aí que Bohr entra em cena. Guiado
pela incrível capacidade intuitiva que o caracterizou durante toda sua
carreira científica, acreditou no modelo, interpretando que a aparente
contradição ocorria em virtude da inaplicabilidade de alguns princípios da Física newtoniana clássica (a ensinada nos cursos tradicionais)
para descrever a realidade do micromundo atômico.
Assim, em um trabalho publicado em 1913,(9) condicionou o
átomo de Rutherford aos seguintes requisitos ad hoc, alguns de
natureza não clássica:
a) Um elétron move-se numa órbita circular em torno do núcleo –
hipótese permitida pela Física clássica.
b) Em vez de adotar qualquer órbita, o elétron só se permite circular em determinadas órbitas (quantizadas), qualificadas mediante
a constante de Planck h – hipótese proibida pela Física newtoniana
Bohr
O dinamarquês Niels Henrik David Bohr, nascido a 7 de outubro de 1885 em Copenhagen, foi o segundo dos três filhos do
casal Christian e Ellen Bohr. Ela, filha de um banqueiro, com forte
influência política, ele, professor de Fisiologia na Universidade de
Copenhagen, autor de importantes trabalhos de pesquisa. A infância
dos três irmãos foi acompanhada por babás, residindo sempre a
família em espaçosas residências que eram constantemente visitadas por artistas e filósofos das relações dos pais. Na escola, Bohr
sempre se destacou em disciplinas relacionadas à Matemática e às
ciências, de um modo geral, com alguma deficiência no estudo de
idiomas. Defendeu sua tese de doutorado em Física na Universidade
de Copenhagen em 1911. Naquele tempo, era tradição entre as famílias dinamarquesas abastadas enviar seus jovens a universidades
alemãs já famosas em seus campos de atuação, para estudos de
aperfeiçoamento. Nas áreas de Física e Matemática, as de Leipzig
e Göttingen já possuíam conceitos firmados. Assim mesmo, Bohr
optou por Cambridge, talvez fascinado pela mística ligada a nomes
como Newton e Maxwell. Lá, conheceu o famoso físico J.J. Thomson (1856-1940), prêmio Nobel de Física de 1906, descobridor das
partículas componentes dos chamados raios catódicos (elétrons) e
formulador do modelo atômico conhecido como“pudim de ameixa”,
que representava o átomo como uma esfera positivamente carregada
na qual estavam incrustados elétrons negativos de modo a tornar
eletricamente neutra toda a estrutura. Embora o contato tenha sido
extremamente cordial, não foi possível desenvolver nenhum tipo
de cooperação científica entre os dois. Assim, Bohr deslocou-se em
1912 para a Universidade de Manchester, a fim de trabalhar com
Ernst Rutherford (1871-1937), prêmio Nobel de Química de 1908,
Revista do Clube Naval • 356
41
que permite um conjunto contínuo de órbitas.
ção entre os cientistas das várias nacionalidades, Einstein, ao tomar
c) Apesar de estar constantemente acelerado, o elétron, se numa
conhecimento do modelo de Bohr, considerou-o como sendo da
dessas órbitas, não emite radiação eletromagnética – hipótese flagranmaior importância, adotando-o como base para o trabalho concluído
temente contrária à Física clássica, que prevê uma radiação contínua,
em 1917, já referido, onde introduziu, meio que a contragosto, a
obrigando o elétron a perder constantemente sua energia.
probabilidade nos processos quânticos.
d) Uma radiação é emitida, se o elétron passar de uma órbita
permitida para outra permitida e a frequência da radiação estará
O primeiro encontro
também relacionada com a constante de Planck h – hipótese desO imprescindível intercâmbio entre pesquisadores de vários paíconhecida na Física clássica.
ses ficou bastante prejudicado durante o
As hipóteses atômicas de Bohr (figura
período 1914-1918. Urgia que, com o fim
ao lado) foram extremamente bem-suceda guerra, tal fluxo fosse rapidamente resdidas na explicação dos fenômenos relataurado. O grande cientista inglês Arthur
cionados à espectroscopia dos elementos
Stanley Eddington (1882-1944), pacifista
mais simples, como o hidrogênio. Desde a
por convicção, ao organizar, por meio da
segunda metade do século XIX, experiências
Royal Society, as expedições científicas
consistindo na descarga elétrica através de
destinadas a verificar a teoria geral da
regiões contendo gases monoatômicos,
relatividade de Einstein, objetivava, além
sugeriam que seus átomos eram excitados
do valor científico, criar condições para o
pela descarga e, ao retornarem ao estado
restabelecimento da comunicação. Nada
normal, produziam radiação eletromagnémelhor para tal que valorizar o trabalho de
tica. Tal radiação, ao sensibilizar uma placa
um alemão, apesar do profundo sentimenfotográfica, apresentava-se, não como uma
to antigermânico que se desenvolveu em
Representação do modelo atômico de Bohr
imagem eletromagnética contínua, mas sob
toda a Inglaterra durante a guerra. Havia,
a forma de linhas bem definidas, cada uma
portanto, um preço político a ser pago. E Eddington o bancou. Como
com um comprimento de onda. Havia um conjunto de linhas para
já se mencionou, os resultados, divulgados em seção solene, transforcada elemento, seu espectro constituindo uma espécie de impressão
maram Einstein, em 1919, em figura conhecida internacionalmente.
digital. A figura abaixo mostra o espectro do hidrogênio e uma tabela
À época, a Alemanha, em virtude das extorsivas condições originadas
com os valores dos respectivos comprimentos de onda.
em Versalhes virou uma massa falida herdada pela República de
Em 1885, Johann Jakob Balmer (1825-1898), professor suíço de
Weimar, tornando inevitável o caos econômico-social. Acrescente-se
uma escola feminina foi apresentado a esses dados e, quase como
a esse quadro a resistência, face ao latente e já perceptível antisseminum exercício de numerologia, conseguiu criar uma fórmula envoltismo que os cientistas de origem judaica sofriam dentro da própria
vendo uma constante denominada mais tarde constante de Rydberg,
Alemanha, da qual Einstein, pela sua fama e prestígio repentinos
em homenagem ao físico sueco Johnes Robert Rydberg (1854-1919),
estava, por enquanto, blindado.
que realizou experimentos na área. Ela continha também alguns
Foi dentro desse cenário que se deu o primeiro encontro de
números inteiros e era capaz de reproduzir com incrível precisão
Einstein com Bohr, em 1920.
os valores dos vários comprimentos de onda do espectro.
Dentro do esforço para reintegrar os físicos alemães na comuni-
Einstein, levando-o a afirmar que uma espécie de síntese entre as
duas visões teria que emergir. Foi nesse contexto que Bohr, ao recordar o primeiro encontro, referiu-se, com uma ponta de ironia,
à expressão “ghost waves guiding the photons”, uma das favoritas
de Einstein durante as conversas.(10)
Mas a raiz das divergências entre os dois gênios, origem do
debate a ser desdobrado ao longo dos próximos anos, residia na
interpretação e pode ser resumida no seguinte testemunho de
Bohr sobre o encontro:(10)
Yet, a certain difference in attitude and outlook remained, since,
with his [Einstein] mastery for coordenating apparently contrasting
experience without abandoning continuity and causality…**
Em outras palavras: Einstein, adepto incondicional do
realismo científico, considerava corpúsculos e ondas como manifestações da realidade, daí sua tensão ao introduzir o aspecto
corpuscular na radiação. Por outro lado, a causalidade, parte
integrante do realismo não era consistente com a
descrição probabilística que ele mesmo havia introEistein e Bohr duzido no notável trabalho publicado em 1917, já
referido, e que tinha como base o modelo de Bohr
que não lhe poupou elogios pela teoria proposta.
Assim mesmo, as considerações probabilísticas
causaram-lhe bastante desconforto, chegando mesmo a afirmar que tal aspecto constituía um ponto
fraco e provisório do desenvolvimento.
Pode-se afirmar que o primeiro round da contenda entre eles havia sido vencido por Bohr, na
medida em que a imagem corpuscular da radiação,
simbolizada por Einstein ao apresentar seu ponto
de vista relativo ao efeito fotoelétrico, ainda estava
longe de ser considerada consenso entre os físicos
contemporâneos, Bohr entre eles.
Realismo na Física
Visando criar a devida perspectiva, é interessante mostrar, de maneira sucinta, em que
consiste, no contexto deste trabalho, o realismo
científico na Física.
A metodologia geral empregada ainda hoje na
edificação das teorias físicas iniciou-se com Galileu
(1564-1642), responsável por acrescentar à abordagem aristotélica, vigente à época e baseada na
contemplação e na intuição, a fundamental etapa da
observação experimental. É evidente que a contemplação e a intuição continuam importantes na criação
das teorias, mas a sentença final para a sua aceitação
é, segundo o filósofo Karl Popper (1902-1994),(3)
cujo ponto de vista é aqui adotado, a comprovação
experimental de que elas não são falsas. Uma teoria,
portanto, será bem-sucedida, na medida em que for
cada vez maior o número de experimentos mostrando
que não é falsa. Basta que um deles mostre o contrário para que se conclua que ela atingiu seu limite
de validade, momento em que outra, provavelmente
mais geral e abrangente, deverá surgir.
As ideias de Copérnico (1473-1543), Kepler
(1571-1630) e Galileu foram aprofundadas no
século XVII por Sir Isaac Newton (1642-1727) que
as organizou e as formalizou na linguagem matemática por ele criada, juntamente com Leibniz
(1646-1716), o Cálculo Infinitesimal e Integral. A
formulação matemática passou, desde então, a ser
inerente a qualquer corpo teórico, dada a necessidade da apresentação das suas conclusões de modo
quantitativo a fim de serem submetidas a medidas
experimentais atuais ou futuras.
A partir daí e durante os próximos 300 anos, impulsionada inicialmente pelas demandas da Revolução
dade internacional após a guerra, os convites pessoais
eram extremamente importantes e, portanto, estimulados. Foi dentro desse espírito que Planck convidou
Bohr para proferir uma série de palestras sobre seu
modelo atômico em Berlim. A aceitação do convite
foi imediata, sendo combinada a data de 27 de abril de
1920. Einstein, já consagrado, havia manifestado, pouco
antes, sua grande admiração pelo sucesso da teoria de
Bohr na explicação das raias espectrais do hidrogênio.
Assim, Planck ao receber Bohr na estação ferroviária,
o fez acompanhado de Einstein e, passada a ansiedade
inicial, o gelo foi quebrado ainda no caminho para a
Universidade de Berlim.
Os dias passados em Berlim foram descritos por
ambos em suas correspondências como extremamente
agradáveis e amistosos. É claro que o assunto dominante era a Física. Na realidade, a ideia dos fótons de
luz, à exceção de Einstein, não era aceita ainda pela
Espectro do hidrogênio (A) e valores dos vários comprimentos de onda (B)
comunidade científica, ao contrário da configuração
ondulatória. Bohr seguia a tendência geral, embora
A teoria de Bohr, não só reproduziu a citada fórmula como tamaceitasse a hipótese de Planck dos quanta emitidos e absorvidos
bém determinou a constante de Rydberg, em função da constante
pela matéria, mas relutasse quanto à propagação da radiação,
de Planck e da massa e carga do elétron.
aspecto proposto por Einstein no seu efeito fotoelétrico. Como já
Antes da eclosão da guerra que praticamente cortou a comunicamencionado, tal dualidade onda-partícula gerou tensões no próprio
42
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
43
Galileu
3. Princípio da causalidade: “As leis físicas, alicerces das teorias,
são formuladas de tal modo que a descrição de cada fato físico decorre
da descrição de outro imediatamente anterior, sendo a história, como
um todo, determinada pelas condições que originaram a sequência.””
(Princípio normalmente associado ao determinismo na Física).
Esses princípios consubstanciam o realismo científico na Física do
qual Einstein era adepto incondicional, acreditando na sua validade
para todos os “tamanhos” da Física, desde distâncias galáticas, estudadas em sua relatividade geral, até o domínio microscópico do átomo.
Pode-se, portanto, agora, imaginar seu incômodo ao introduzir no seu
trabalho de 1917 a descrição probabilística no âmbito quântico, em
desacordo com a causalidade. Daí ter ele considerado tal descrição um
ponto fraco e temporário da teoria. Acreditava que, dentro em breve,
tal situação seria corrigida, e a causalidade seria restaurada.
Apesar de tecer elogios ao modelo atômico de Bohr e usá-lo no
desenvolvimento do referido trabalho, não lhe passou despercebida
também a hipótese, ad hoc, é verdade, da transição do elétron de uma
órbita para outra, emitindo radiação. Sua crítica era de que a teoria nada
declarava sobre a história do elétron durante a transição nem sobre o
momento do salto, fatos também inconsistentes com a causalidade.
Um experimento convincente
Apesar da convicção inabalável de Einstein, principalmente
após o trabalho de 1917, de que tudo se passava como se os quanta
de luz (fótons) tivessem vindo para ficar, a visão corpuscular ainda
carecia de uma evidência mais concreta.
O próximo encontro entre Bohr e Einstein ocorreria em 1923
em Copenhagen, marcando mais uma etapa do famoso debate.
A essa altura, ambos já haviam sido agraciados com o prêmio Nobel de Física, Bohr
em 1922 e Einstein em 1921, este último
divulgado somente em 1922 por ter sido adiado
por um ano seu anúncio. A verdade é que a
comissão organizadora do Nobel, face à sensacional e espetacular notoriedade de Einstein,
sentiu-se meio que compelida a conferir-lhe o
prêmio, justificado“pelos serviços prestados à
Física teórica e especialmente pela descoberta
do efeito fotoelétrico. À cerimônia de recebimento dos dois prêmios, programada para
dezembro de 1922 em Estocolmo, Einstein
não pôde comparecer, em trânsito para o
Japão, para onde havia sido convidado, a fim
de proferir palestras, uma ausência por ele
próprio considerada oportuna, face ao perigo
a que julgava estar exposto devido ao crescente
antissemitismo reinante em Berlim.
O físico americano Arthur Holly Compton (1892-1962), prêmio Nobel de Física de
1927, ao realizar experiências com feixes de
raios X (radiação eletromagnética de alta frequência, considerada,
portanto, onda) incidindo em átomos de elementos, verificou que
a frequência de onda refletida por essas interações era diferente da
incidente, constatação inteiramente incompatível com a imagem
ondulatória, segundo a qual não seria esperada diferença alguma.
Incapaz de explicar a discrepância pelo modelo ondulatório, recorreu
ao de Einstein, explicando o fenômeno através de colisões clássicas de
quanta de luz (fótons) com os elétrons dos elementos, obtendo, assim,
uma acurada concordância com os resultados experimentais obtidos
Copérnico
Leibniz
Popper
Newton
Industrial, a hoje denominada Mecânica newtoniana experimentou
um enorme desenvolvimento, vindo a constituir, ao lado das ciências
relacionadas ao Eletromagnetismo e à Termodinâmica, um corpo
teórico de grande generalidade e elegância, base do que se entende
atualmente, dentro da perspectiva histórica, por Física clássica. É
a Física da experiência humana, convenientemente codificada pelo
Cálculo Infinitesimal e Integral, onde as velocidades são pequenas
em relação à da propagação da luz no vácuo e as medidas podem ser
realizadas por instrumentos compatíveis com os níveis de resolução
sensoriais. Lagrange (1736-1813), Jacobi (1804-1851), Hamilton
(1805-1865), Faraday (1791-1867), Maxwell (1831-1879), Helmholtz
(1821-1894) têm, entre muitos outros, seus nomes fortemente ligados
a tal desenvolvimento.
Tão sensacional foi, ao longo do seu aperfeiçoamento, o sucesso
da Física clássica no confronto com os dados experimentais, com
consequentes e importantes conquistas tecnológicas, chegando ao
auge da abrangência e refinamento matemático no final do século
XIX, que, acreditava-se com convicção, não haveria mais perguntas
sem respostas em relação aos fenômenos naturais.
Seu fundamento filosófico, amadurecido durante todo o processo histórico, repousava sobre três princípios básicos:(11)
1. Princípio da objetividade: “As entidades da Física a serem
compreendidas existem e sua existência independe dos seres humanos e de suas observações.”
2. Princípio da compreensibilidade: “Uma vez aceita a realidade
das entidades da Física, elas são compreensíveis no sentido de que
a mente humana é capaz de construir teorias que as descrevem
corretamente no confronto com dados experimentais.”
44
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
45
FILOSOFIA
em 1923. Tais colisões, por serem clássicas, obedeciam aos princípios
de conservação da energia e da quantidade de movimento.
As conclusões de Compton,(12) rapidamente disseminadas, foram decisivas para a aceitação por parte da comunidade científica
da realidade dos fótons. Elas haviam conseguido o que até então
Einstein, face à inexistência de uma série de experimentos realmente
convincentes, fora incapaz de realizar.
Inconformado com a“vitória da visão corpuscular, da qual não
era partidário, Bohr resolveu retaliar e, na que foi considerada
a derradeira tentativa de salvar o modelo ondulatório (clássico)
da radiação, produziu, em 1924, com mais dois físicos, Hendrik
Anton Kramers (1894-1952) e John Clarke Slater (1900-1976),
memorável trabalho no qual apresentou um programa teórico (não
o resultado de um experimento!) destinado a esvaziar o sucesso da
radiação corpuscular. O projeto não foi bem-sucedido, na medida
em que propunha, entre outros aspectos bizarros, a violação da
conservação de energia (inadmissível pela totalidade dos físicos)
e o rompimento com a causalidade.
Pode-se afirmar, com a vantagem da perspectiva histórica, que
esse segundo round do conflito de ideias foi vencido por Einstein,
embora tenha sido por ele qualificado como uma vitória pouco
gratificante, tendo em vista que a grande perplexidade da dualidade
onda-partícula teimava em permanecer.
Conforme ele próprio escrevera num artigo popular de 1924:(13)
There are therefore now two theories of light, both indispensable, and – as one must admit today in spite of twenty years of
tremendous effort on the part of theoretical physicists – without
any logical connection.***
Essa afirmação, além de mostrar o estado de espírito de Einstein em relação às aflitivas questões de interpretação da Física à
época, enfatiza o penoso processo da evolução científica, às vezes
subestimado pelo grande público, acostumado a ser apresentado
pela mídia somente aos grandes resultados.
dentes desdobramentos tecnológicos que transformaram a atividade
humana do dia a dia de uma forma nunca antes presenciada na
história da humanidade, em espaço de tempo comparável. É difícil
imaginar a vida do homem moderno sem o laser e o computador.
As partes seguintes a serem submetidas para publicação nos
próximos números desta revista, além de tentar descrever a atmosfera dentro da qual ocorreu a fase mais espetacular da história
do desenvolvimento da Física, a década 1924-1934, mostrará os
dilemas associados à interpretação, iniciados no período da velha
mecânica quântica e que constituem o objeto do debate que servirá
de fundo às considerações aqui apresentadas, prosseguido mesmo
após a morte dos contendores principais e que, com roupagens que
se modernizaram com o tempo, permanece inconclusivo, na sua
essência, até os dias atuais.
* Quem não ficar chocado ao primeiro contato com a teoria
quântica, possivelmente não a entendeu (tradução do autor).
** Assim mesmo, certa diferença em atitude e visão permaneceu, pois, com sua habilidade para coordenar a experiência
aparentemente contrastante sem abandonar a continuidade e
a causalidade... (tradução do autor).
*** Existem agora duas teorias da luz, ambas indispensáveis,
e, como se deve admitir hoje, apesar dos 20 anos de tremendo
esforço por parte dos físicos teóricos, sem conexão lógica alguma (tradução do autor).
DIALÉTICA
Walter Arnaud Mascarenhas
Referências bibliográficas
(1) Bohr, N. Essays 1932-1957 on atomic physics and
human knowledge. Disponível em: <www.goodreads.com/
author/quotes/82936>.
(2) Gotaç, P.R. Um ato de desespero. Revista do Clube Naval,
out./nov./dez. 2009.
(3) Gotaç, P.R. Breve história do efeito fotoelétrico. Revista
do Clube Naval, abr./maio/jun. 2010.
Conclusão
Propósito – Mostrar as
diversas acepções assumidas pelo
termo dialética ao longo da
história da Filosofia ocidental, bem
como sua grande importância
na busca da verdade.
(4) Kumar, M. Quantum-Einstein, Bohr, and the great
debate about the nature of reality. New York: Norton &
Company, Inc., 2008.
A primeira metade da década de 20 do século passado marca o
fim do que os historiadores da Física costumam denominar como
a “velha mecânica quântica”. Muitos foram os nomes com destacadas atuações durante o revolucionário período de 1900 a 1923
mas é evidente que os grandes representantes do movimento foram
Planck, com sua hipótese quântica da interação radiação-matéria,
que solucionou o enigma da radiação do corpo negro; Einstein, com
seu efeito fotoelétrico, abordagem heurística que explicou fatos relacionados com a emissão de elétron de metais quando iluminados
por radiação, por ele suposta quantizada; e Bohr, com seu modelo
atômico, extremamente bem-sucedido na comparação com dados
experimentais relacionados às linhas espectrais do hidrogênio. Dos
três marcos, a visão corpuscular da luz, proposta por Einstein, foi a
que mais resistiu ser absorvida pela comunidade científica da época,
talvez pela inexistência, logo que apresentada, de um experimento
decisivo em seu favor, fato ocorrido somente em 1923, marcando
a consolidação do dilema da dualidade onda-partícula, essência
do debate Bohr-Einstein cujas duas primeiras etapas ocorreram,
segundo a visão expressa neste trabalho, em 1920 e 1924.
Pode-se afirmar que os 10 anos seguintes a 1924 presenciaram
a fase mais esquizofrênica do desenvolvimento da Física, em comparação com outras épocas de seu desenvolvimento. Nesse período,
foi concluído todo o arcabouço teórico da Mecânica Quântica, com
sua base conceitual válida até hoje, sucesso absoluto nos correspon-
(5) Landau, L.; Lifchitz, E. Théorie du champ. Moscou:
Éditions de la Paix, Moscou.
(6) Times, London Ed. 7/11/1919, conforme 4.
(7) Einstein, A. On the quantum theory of radiation. Phys.
Zs., n. 18, p. 121, 1917.
(8) Rutherford, E. The scattering of alpha and beta particles by matter and the structure of the atom. Philosophical
Magazine, n. 21, p. 669-88, 1911.
Ciência Política – Ramo do saber
que estuda as manifestações da
autoridade ou poder na sociedade,
através de razões (causas ou
motivos) não necessariamente
institucionais.
(9) Bohr, N. On the quantum theory of line-spectra.
Philosophical Magazine, v. 1, n. 26, 1913.
(10) Schilpp, P.A. (Ed.). Albert Einstein: philosopherscientist. Illinois: Evanston, The Library of Living
Philosophers, v. VII, 1949.
(11) Selleri, F. Le grand débat sur la théorie quantique.
Paris: Flammarion, 1986.
(12) Compton, A.H. The scattering of X-rays. Journal of the
Franklin Institute, n. 198, p. 57-72, 1924.
(Walter Arnaud Mascarenhas)
(13) Pais, A. Einstein and the quantum theory. Rev. Mod.
Phys., v. 51, n. 4, Oct. 1979.
46
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
47
A
dialética é qualificada por diferentes estudiosos como
arte, ciência, doutrina, lei, lógica, método, processo,
regra, sistema, técnica e teoria.
Embora, como salta aos olhos, esses termos não
sejam exatamente intercambiáveis, são muitas vezes
empregados uns pelos outros sem grande prejuízo para
o entendimento.
A interligação dessas palavras segundo os interesses da época
em que foram empregadas não impediu que qualquer delas tivesse
primazia sobre as outras.
Entre todos os povos do mundo antigo, o que melhor refletiu o
espírito do homem ocidental foi o povo helênico ou grego. Nação
alguma deu prova tão firme de dedicação à causa da liberdade ou
de crença na nobreza das realizações humanas. Eles glorificaram
o homem como a mais importante criatura do Universo; negaram
submeter-se às imposições dos déspotas (governantes cuja autoridade é inquestionável) e dos poderosos sacerdotes, e se recusaram
até a se humilhar perante os deuses.
pressiva remuneração, a arte de discutir e saber convencer, a quem
quer que fosse, por meio de simples jogos de palavras. Essa forma
de convencimento devia tornar aquele que a dominasse capaz de
provar o que bem lhe aprouvesse e defender assim seus interesses
em todas as situações e oportunidades.
A palavra sofista é empregada em sentido elogioso pelos escritores do século V.
Pindaro chamava os poetas de sofistas. Heródoto aplica o mesmo qualificativo aos sete sábios ou gnômicos (Bias, Cleóbulo, Míson, Pítaco, Quilon, Sólon, Tales; todos expressavam sua sabedoria
em sentenças ou expressões brevíssimas), e também a Pitágoras e a
Sólon. Porém, a partir da Guerra do Peloponeso (península ao sul
da Grécia) o termo adquire um sentido pejorativo e desfavorável.
Aristófanes traça, em sua comédia intitulada As nuvens, a caricatura do sofista, fazendo ressaltar sua habilidade para pronunciar
um discurso justo e outro injusto sobre o mesmo tema. Xenofonte
critica sua venalidade, definindo-os como comerciantes da sabedoria. Platão põe em relevo sua vaidade qualificando-os de caçadores
interessados de gentes ricas e de
vendedores caros de ciência não
real, senão aparente (consulte a
A arte retórica, de Aristóteles). Os
sofistas não se limitaram a estudar
o processo de conhecimento, mas
também a aperfeiçoar a dialética,
como erística (arte de vencer nas
discussões) e como retórica (arte de
persuadir com o uso de instrumentos linguísticos), com o objetivo de
dirigir o raciocínio para finalidades
especificas como, por exemplo,
administrar a própria casa, ou no
modo de agir e falar com o propósito de governar o Estado.
Sócrates e Platão acreditavam
que a salvação da alma era assegurada pela prática da Filosofia,
quer dizer: a busca da verdade.
Eles desenvolveram a dialética até
torná-la método filosófico ou forma de chegar à verdade por meio
do discurso, passando de princípios sensíveis a outros inteligíveis,
ou vice-versa (Enciclopédia novo
século. Visor, v. 4, p. 687, 2002).
A autêntica sabedoria do homem
O Partenon
era, para Sócrates (469-399 a.C.), o
saber que não se sabe, isto é, estímulo para a indagação e a busca
da verdade. Esse compromisso ético conduzia à própria alma, na
qual o homem podia descobrir o bem. “Conhece-te a ti mesmo”,
predicava o filósofo. Princípio este que ele ensinaria com o exemplo, pondo em prática seu método filosófico, fundado na ironia
e na maiêutica, capaz de conduzir o interlocutor a descobrir,
através do diálogo, o que se escondia em seu espírito. Na ironia
socrática o filósofo se subestima em relação ao adversário com
quem discute. A maiêutica é o processo dialético e pedagógico,
em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução
dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto
em questão, de tal modo a levar o interlocutor ao reconhecimento
de sua própria ignorância.
O século V a.C. registrou a formação do panteão (templo) dos
deuses que viviam no Monte Olimpo (conjunto das divindades pagãs),
em cujo seio cada uma das 12 divindades (Zeus, Hera, Poseidon,
Atenas, Ares. Demeter, Apolo, Ártemis Hefesto, Afrodite, Hermes,
Dionísio), algumas já presentes na religião pré-helênica, adotava
características únicas, definindo-se também a esfera em que cada
uma exercia sua influência. Essa sociedade de deuses tinha uma hierarquia, no alto da qual estava Zeus. (Saiba mais sobre esse assunto
consultando: História das Religiões, Ed. Folio, Barcelona.)
Na Antiguidade, o regime democrático ateniense atribuía papel
destacado às discussões. As decisões mais importantes eram tomadas
em assembleias, por isso alguns especialistas, chamados sofistas,
propuseram ensinar aos jovens das famílias ricas, em troca de ex48
Revista do Clube Naval • 356
Alcebíades e Sócrates
Vejamos parte de um Diálogo entre Sócrates e Alcebíades intitulado: “O reconhecimento da ignorância
como início da sabedoria” para termos uma ideia de como se processava o diálogo naquele tempo:
Sócrates: Assim, eis um fato certo:
quando alguém ignora uma coisa,
a sua alma não pode senão variar
de sentimentos.
Sócrates: E pretendes ter a esse
respeito uma opinião sobre a qual varias?
Ou deixas para quem conhece?
Alcebíades: Absolutamente certo.
Sócrates: Ou ainda, se navegasses
no mar, decidirias se convinha voltar
para dentro da barra ou continuar,
e, por não saberes, variarias de opinião?
Ou entregarias esse cuidado ao piloto
e ficarias tranquilo?
Sócrates: Todavia vejamos: sabes como
deves proceder para escalar o céu?
Alcebíades: Oh! Por Zeus,
absolutamente nada.
Sócrates: E sobre esse assunto
também o teu juízo varia?
Alcebíades: Certamente que não.
Sócrates: E sabes por quê?
Queres que eu to diga?
Alcebíades: Dize.
Sócrates: É porque o ignoras e não
supões sabê-lo.
Alcebíades: Como entendes isso?
Sócrates: Pensemos juntos.
Se ignoras uma coisa e sabes que
a ignoras, variarás de opinião
a seu respeito?
Por exemplo, de culinária, sabes,
certamente, que não percebes nada.
Alcebíades: Oh! Sem dúvida.
Revista do Clube Naval • 356
Alcebíades: Certamente que deixo.
Alcebíades: Confiar-me-ia ao piloto.
Sócrates: Consequentemente, sobre as
coisas que ignoras, não varias se sabes
que as ignoras?
Alcebíades: Não, sem dúvida.
Sócrates: Pois bem. Não vês que os
erros do proceder resultam, também,
dessa espécie de ignorância que consiste
em crer que se sabe o que não se sabe?
Alcebíades: Que queres dizer?
Sócrates: Quando empreendemos
fazer uma coisa, não é porque cremos
conhecer bem o que fazemos?
Alcebíades: Sim, é.
Sócrates: Quando se julga saber,
49
não se entrega a outros?
Alcebíades: Certamente.
Sócrates: É assim que os ignorantes
desta categoria evitam enganar-se.
Deixam para os outros aquilo
que ignoram.
Alcebíades: Está certo.
Sócrates: Quais são então os que
se enganam? Certamente que não são
os que sabem.
Alcebíades: Não, com certeza.
Sócrates: Então, se não são os que
sabem nem os ignorantes que sabem que
ignoram, não podem ser senão os que
creem saber mas que ignoram?
Alcebíades: Sim, verdadeiramente.
São eles.
Sócrates: Eis então, o gênero de
ignorância que é causa de tudo o que se
faz de mal. É esta que é repreensível.
Alcebíades: Sim.
(Momentos decisivos do pensamento
filosófico, de Luis Washington Vita;
Melhoramentos, São Paulo, 1964, p.16.)
Sócrates não escreveu coisa alguma: preferia ensinar falando.
Criou sua famosa argumentação dialética, que se tornaria fundamental para a natureza e a evolução do pensamento ocidental:
o raciocínio através do diálogo rigoroso, como um método de
investigação intelectual que visava expor falsas crenças e fazer a
verdade aparecer. Considerava que a escrita tendia a tornar rígido
o saber, apresentando-o de uma forma definitiva. Acreditava na
existência da divindade e na sua intervenção sobre a vida humana.
Entretanto, sua capacidade de questionar preconceitos e o senso
comum fez de Sócrates um personagem incômodo e temido pela
débil democracia ateniense, restabelecida depois da tirania dos
Trinta e obrigada a uma política interna defensiva. Acusado de
ímpio (que não tem fé, incrédulo, herege) e de corruptor de jovens,
Sócrates foi condenado à morte: teve de beber o cálice de cicuta.
Platão tinha 29 anos quando tal aconteceu.
Quase tudo que de Sócrates se sabe é dito por seus discípulos,
ou por outros gênios filosóficos, entre os quais, destaca-se Platão,
por sua profícua produção intelectual, revelada principalmente nos
chamados Diálogos, e que pode ser lido ainda hoje em sua íntegra,
como no diálogo acima.
Platão, de família aristocrática, entrou jovem para o círculo de
Sócrates, aí permanecendo durante longos anos. Fundou em Atenas
a Academia, cuja função oficial era o culto das musas (cada uma
das nove deusas que presidiam as artes liberais).
Nove deusas: Calíope (chefe das musas, deusa da poesia épica),
Clio (da história), Erato (da poesia de amor), Euterpe (da música
e da poesia lírica), Melpômene (da tragédia), Polímnia (da poesia
sacra e dos hinos), Terpsícore (da dança), Thalia (da comédia),
Urânia (da astronomia).
As artes liberais (na Idade Média, designação comum às matérias de ensino e instrução) se dividiam em dois grupos: o trivium
(gramática, retórica, dialética) e quadrivium (aritmética, geometria,
astronomia, música), onde se desenvolvem intensa atividade filosófica
e científica. As matemáticas (de avaliação – a aritmética, a álgebra e a
análise – e de representação – a cinemática e a geometria), a música, a
astronomia, a divisão e a classificação são todas consideradas, segundo
Platão, como disciplinas propedêuticas para a dialética.
“A matemática é uma ciência de formas ideais (de representação
e de avaliação) que se ajustam rigorosa e exatamente às categorias do
intelecto humano, em virtude de um condicionamento epistemológico natural e inelutável.” (Saiba mais sobre este assunto lendo Os
equívocos e as incongruências da matemática moderna, de Primo
Nunes de Andrade, Rio de Janeiro, 1977. Eminente professor da
Escola Naval, de genial saber em várias ciências: formais (lógica e
matemática), ciências físicas e naturais (física, química, biologia,
geologia), ciências humanas ou sociais (filosofia, história, linguística, psicologia) e ciências filosóficas (cosmologia, epistemologia,
estética, ética, lógica, metafísica, política, psicologia, teodiceia).
Primo é autor de várias obras fundamentais: A teoria da relatividade entre a ficção e a realidade, Humanismo na ciência, Introdução
à teoria dos valores matemáticos, Elementos de lógica e muitas
outras. O grande mestre e amigo, Alte Primo Nunes de Andrade se
foi. A vida privou-nos do seu convívio. Mas permanece guardada
eternamente em nossos corações a sua marcante presença, ao lado
de outros grandes oficiais de que a nossa Marinha do Brasil (MB)
se orgulha eminentemente, tais como: Alvaro Alberto, Otacilio
Cunha, Paulo Moreira da Silva.)
É na Academia que Platão se consagra ao ensino e à redação
de suas obras. Estas são, em geral, ordenadas cronologicamente
desde sua mais fiel dependência a Sócrates até a última fase de sua
Filosofia, já inteiramente distante das ideias de seu mestre.
Registraremos aqui (como exemplo) a apresentação de seus
principais Diálogos em tetralogias (conjunto de quatro obras):
I – Eutifron, Apologia, Criton e Fédon; II –Crátilo, Teeteto,
Sofista, Político; III – Parmênides, Filebo, Banquete, Fedro;
IV – Primeiro Alcibíades, Segundo Alcibíades, Hiparco; Anterestai; V – Teages, Carmides, Laches, Lísis; VI – Eutidemo,
Protágoras, Gorgias, Ménon; VII –Hipias Maior, Hipias Menor,
Íon, Menexeno; VIII – Cleitófon, Republica, Timeu, Critias; IX
- Mino, Leis, Epínomes, Cartas. (Saiba mais sobre este assunto
lendo Momentos decisivos do pensamento filosófico, de Luis
Washington Vita, Edições Melhoramentos, 1964.)
A Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles tornaram-se
particularmente notáveis por suas contribuições às matemáticas
e astronomia (Platão), e à zoologia e botânica (Aristóteles). Essas
ciências não serão aqui apreciadas; somente será citado um resumo
das mais significativas dimensões – ontológicas, lógicas e metodológicas – da questão dialética.
A dialética foi estudada, conceituada e definida por uma constelação de filósofos e escolas filosóficas, tais como: Sócrates, Platão,
Aristóteles, a Escola Estóica, Abelardo, Descartes, Kant, Schleiermacher, Hegel, Marx, Engels, Lênin, Mão Tsé-tung, Luckács, Marcuse,
Lefèbwre, Sartre e muitos outros. (Consulte o Dicionário de Ciências
Sociais, 2. ed., da FGV, Rio de Janeiro, 1987, p. 343.)
Sócrates (469-399 a.C.) ilustre filósofo grego, nasceu em uma
família urbana ateniense de posses modestas. Filho do escultor
Sofronisco e de Fenareta, sua mãe, parteira. Era considerado um
Sócrates
50
ao conhecimento racional, nos diálogos Fédon e Fedro. No âmbito
da gnosiologia, a dialética significa para ele o método próprio à
dedução racional das Formas, conforme se deduz da leitura dos
seus diálogos Sofista e Filebo.
Aristóteles (384-322 a.C.). Nasceu em Estagira, na Macedônia,
e morreu em Cálcis, na Euzébia. É o criador de várias disciplinas
científicas. Em Aristóteles o conceito de dialética, embora restrito
ao problema do conhecimento, é entendido como a dedução que
parte de premissas, as quais não são mais que opiniões prováveis
(cf. Aristóteles. Analíticos, I, IV, V). Em outra dimensão, significa
distinção engenhosa, sutil, talvez sem utilidade (cf. Aristóteles.
De anima. I, 403 a).
Estóicos. No pensamento estóico, a dialética é tomada como
sinônimo de lógica formal. E mais que isso, ela significa um discurso, a arte retórica.
Abelardo (1079-1142). Define a dialética como método da dúvida e da crítica, fundadas no exercício da razão, preparava assim
as bases teóricas que iriam servir de sustentação para a filosofia
moderna. O principal interesse de Abelardo era como dialético e
lógico, e o que queria esclarecer era o status lógico, ou papel, dos
predicados. Expressões predicativas não significam coisa alguma.
Sua função deve ser vista no que contribuem para as proposições
de que fazem parte (cf. Uma historia da filosofia ocidental, de D.
W. Hamlyn, Zahar, Rio de Janeiro, p. 119).
Abelardo distingue na dialética as palavras dos conceitos
universais e vê na sua articulação o fundamento do significado
da linguagem (cf. Grande Enciclopédia Larousse Cultural. Nova
Cultural, 1998, v. 1; p. 9).
Descartes (1596-1650). A filosofia moderna começa com o
problema do método. A filosofia precedente se havia preocupado
de preferência com o problema do ser: foi uma filosofia ontológica. Ao conceito de dialética, o racionalismo cartesiano não
reserva mais do que a qualidade de uma lógica falsa, inadequada
ao correto uso da razão.
Kant (1724-1804). O Dicionário de Ciências Sociais (2. ed.,
FGV, Rio de Janeiro, 1987, p. 343) diz: “No pensamento de Kant, a
dialética quando é tomada não mais como uma simples regra para
a apreciação das verdades formais dos juízos, senão como organon,
isto é, como fonte dos conhecimentos materiais, se transforma numa
lógica da aparência. Tal dialética, diz ele, é uma arte do sofista.”
Numa outra dimensão, a dialética está também relacionada com
a aparência transcendental. Ela deve revelar a aparência dos juízos
transcendentais, evitando que tais aparências produzam equívocos. Aquelas aparências, entretanto, não podem ser elas mesmas
eliminadas pela dialética. A dialética, segundo Kant, mostra que as
ideias e os princípios da razão levam a contradições (antinomias,
paralogismos), quando são usados como transcendentes – ultrapassando a experiência, indo aos objetos suprassensíveis – em
vez de imanentes – como regras (Regulation) para a aplicação do
entendimento na coesão sistemática da experiência.
A dialética teve para Kant o mesmo sentido pejorativo que a
caracterizou durante o século XVIII. Sua limitação se resumia ao
fato de ela só poder dizer das condições formais da adequação do
conhecimento com o entendimento, sem nada acrescentar sobre o
conteúdo mesmo do conhecimento.
Schleiermacher (1768-1824). Entre os pensadores do Romantismo, este é o que se ocupa mais intensamente da questão dialética.
A dialética é para ele uma regra que serve ao entendimento do
sujeito que conhece, dentro dos limites definidos pelo criticismo
kantiano. A dialética apresenta-se aqui como a arte de conduzir o
homem pobre. Casou-se com Xantipa, constituiu família. Raramente
deixou Atenas, exceto para cumprir suas obrigações militares. Na
guerra entre Esparta e Atenas, em 431, serviu no Exército como
soldado de infantaria, conquistando ótima reputação por sua coragem demonstrada nos campos de batalha. Durante sua mocidade
dedicou-se ao estudo da física e da astronomia, mas a leitura de
Anaxágoras imprimiu nova direção ao seu espírito. Não tardou em
conceber a lei dominante de toda a sua filosofia, isto é, a noção do
Bem como efeito essencial da inteligência e da ciência. Começou
desde logo a ensinar a sua doutrina, popularizando-a, vulgarizandoa, para torná-la accessível a todos.
Em qualquer ocasião e lugar, mesmo em praça pública, interrogava os que se reuniam para ouvi-lo, tomava como texto
os objetos mais simples, servindo-se da dialética como método
de ensino; encaminhava seus ouvintes para o descobrimento da
verdade. Sócrates, crítico fundador de uma nova direção filosófica,
procurou a verdade em si mesmo. Tirou sua divisa da sentença do
oráculo délfico: Conhece-te a ti mesmo. Em suma, conhecer-se
a si mesmo, reunindo-se para deliberar em comum pela prática
de raciocínios indutivos, que conduzem à definição genérica e a
princípios universais sobre os aspectos e atributos da vida humana,
eis o empenho socrático. A convicção de que a verdade está em
nós, porque em nós mesmo reside o universal, e, conhecendo-nos,
estaremos em melhor condição de definir as coisas. É esta a base
de toda filosofia verdadeira.
Platão (427-347 a.C.). O conceito de dialética em Platão é empregado, como método para a passagem do conhecimento sensível
Platão
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
51
discurso de forma a produzir representações verdadeiras. A tarefa
do conhecimento encaminha-se para produzir o ajustamento entre
o ser e o pensar. A identidade desses conceitos é uma tarefa infinita.
A dialética reconhece a existência deste objetivo jamais alcançável
pelo saber humano, ou seja, a identidade de pensar e ser.
Hegel (1770-1831). Este filósofo significa o apogeu do idealismo pós-kantiano. É um dos maiores pensadores de toda história
universal da filosofia, e o que mais influiu desde sua época nesse
domínio do saber. Para Hegel a realidade é a ideia (tudo aquilo que
é racional é real e tudo aquilo que é real é racional).
A afirmação hegeliana de que todo real é racional significa definir
uma relação dialética entre racionalidade e realidade, onde o principal
não é o movimento em si que as anima, senão que muito mais o fato
de que pelo seu desenvolvimento dialético a realidade se realiza em
direção à sua plenitude, enquanto o conhecimento de tal processo a
conquista mais e mais em sua transparência para o pensar.
Desta afirmação procede o nome dado à filosofia de Hegel:
idealismo lógico. O único método adequado para o estudo de uma
Descartes
Kant
“(...) a essência é a primeira negação do ser, o qual desta forma
se torna aparência; o conceito é a segunda, ou a negação desta
negação, i.e, o ser recuperado, porém enquanto infinita mediação e
negatividade do mesmo em si próprio”; e) dialética do movimento
do ser, da essência e do conceito; e, finalmente, como: f) dialética
da ideia absoluta (consulte o Dicionário de Ciências Sociais, 2.
ed., FGV, Rio de Janeiro, 1987, p. 345).
Marxismo. A questão da dialética é também um problema central
dentro da teoria marxista. A dialética no marxismo não é a mesma
coisa em Marx, Engels e Lênin; cada um desses autores tem sua
própria concepção. (Saiba mais sobre este assunto consultando o
Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano, 4. ed., São Paulo:
Martins Fontes, 2000, p. 651 e 652.)
Enquanto o termo materialismo dialético designa a teoria
geral do mundo em Marx e Engels, frequentemente se emprega a
expressão materialismo histórico para designar, de preferência, a
aplicação dessa teoria à história das sociedades humanas.
“O materialismo dialético é a visão de mundo do partido marxista-
Schieiermacher
realidade em contínuo devir é o da lógica especulativa ou dialética. Este é constituído por três momentos: tese, antítese e síntese.
A tese é o momento do ser em si, a antítese é o momento do ser
extra si, a síntese é o momento da junção das duas partes colocadas
pela tese e pela antítese num único todo que anula as imperfeições
dos momentos anteriores, enquanto conserva a sua positividade.
O estudo da tríade fundamental reconduz as três partes principais
do sistema hegeliano: lógica ou estudo da ideia em si, filosofia da
natureza e filosofia do espírito, forma sob a qual a ideia é obtida
plenamente, voltando a si pela alienação na natureza. Também a
vida do espírito desenvolve-se dialeticamente em três momentos:
espírito subjetivo (ou individual), objetivo (ou social) e absoluto
(que opera nas obras artísticas, religiosas e filosóficas). A dialética
está presente na filosofia hegeliana de várias formas, como: a)
dialética do ser: “O ser e o nada é um e o mesmo”; b) dialética da
essência: “A essência é o ser enquanto aparecer em si mesma”; c)
dialética do conceito: “O conceito é a unidade (dialética) do ser
e essência”; d) dialética da relação entre ser, essência e conceito:
Hegel
Marx
Lenini
leninista.” Ele diz respeito ao conhecimento da natureza e às leis
dialéticas de seu movimento. “O materialismo histórico é a extensão
dos princípios do materialismo dialético ao estudo da vida social”
(Stalin, Sobre o materialismo dialético e histórico, de 1938).
Marx (1818-1883). Uma exposição detalhada da estrutura e da
mecânica do sistema que constituía a premissa da atividade política
de Marx e Engels pode ser encontrada no livro Rumo à Estação
Finlândia, de Edmund Wilson, Companhia das Letras, trad. Paulo
Henrique Britto, 8 reip., p. 173., onde fica esclarecido que: “Eles
denominavam sua filosofia de ‘materialismo dialético’ – um nome
que tem o efeito indesejável de fazer com que o leigo tenha uma ideia
errada do que é o marxismo, pois nele nem a palavra ‘materialismo’
nem a palavra ‘dialético’ são empregadas no sentido comum.”
A “dialética” a que se referiam Marx e Engels não era o método
argumentativo de Sócrates, e sim o princípio da mudança proposto
por Hegel. A “dialética” utilizada por Platão era uma técnica de
chegar à verdade através da conciliação de duas afirmativas opostas;
a “dialética” de Hegel era uma lei que também envolvia contradição
52
Revista do Clube Naval • 356
e conciliação, só que, para Hegel, ela atuava não apenas no domínio
da lógica, mas também no âmbito do mundo natural e da história. O
mundo está sempre mudando, diz Hegel; porém há nessas transformações um elemento de uniformidade: o fato de que cada processo
de mudança atravessa necessariamente um ciclo de três fases.
A primeira delas, que Hegel denomina tese, é um processo de
afirmação e unificação; a segunda, a antítese, é um processo de
dissociação e negação da tese; a terceira é uma unificação, que
concilia a antítese com a tese e é denominada síntese. Esses ciclos
não são simples recorrências, que deixem o mundo tal como era
antes: a síntese é sempre um avanço em relação à tese, pois ela
combina, numa unificação mais “elevada”, o que há de melhor
na tese e na antítese.
Lênin (1870-1924). A dialética é para Lênin a teoria da unidade
dos contrários com todas as suas implicações decorrentes. Ou em
suas próprias palavras: “Em seu sentido próprio, a dialética é o
estudo da contradição na essência mesma das coisas.”
Mao Tsé-Tung (1893-1976). Mao entende que a compreensão
Mao
Lukács
elevados, a formas superadas.
Sartre (1905-1980). A educação filosófica de Sartre passa
por Bergson e Hussel, Hegel e Heidegger. Obras principais: O
ser e o nada, A náusea, A crítica da razão dialética e Questão
do método. A dialética para Sartre era concebida também como
método, mas um método da totalização, cujas possibilidades se
revelam no interior da própria dialética.
Palavras finais. Nessa série de interpretações do conceito de
dialética – aqui resumidamente exposta – ficou claro que os próprios
filósofos, em suas apreciações, não estão exatamente de acordo uns
com os outros. Cada filósofo quer fazer sua a verdadeira filosofia.
Se assim não fosse, não divulgaria o seu pensar. Ele escreve apenas
uma filosofia que – na melhor das hipóteses – permanecerá ao lado
de tantas outras, também válidas, apesar de sua diversidade. É que
não existem degraus para uma filosofia única, mas filosofias diversas. “Quando Kant assinala um erro de Hume, não há razões para
se considerar que a consciência filosófica, após ter sido empírica,
tenha se tornado kantiana.” Alguém teria dito que a historia só se
Marcuse
Sartre
torna um todo na consciência do historiador que, de fato, reduz
os pensamentos dos outros ao seu. Contudo, constitui erro maior
não respeitar os diversos sistemas filosóficos em sua originalidade,
autenticidade e significação. A verdade de Hegel não é a mesma
de Comte ou de um terceiro filosofo, que pode ser diferente de
ambas. Circunstâncias históricas podem eventualmente elucidar,
mas jamais anular, determinado sistema filosófico. A filosofia maior
conserva o seu valor mesmo quando as condições materiais em que
surgiu não mais existem. Os grandes pensamentos filosóficos não
são epifenômenos da história. Enfim, as filosofias de hoje não refutam as do passado. (Saiba mais sobre este assunto lendo a História
dos filósofos ilustrada pelos textos, 6. ed., Rio de Janeiro, Freitas
Bastos, 1984, de André Vergez e Deniz Huisman.)
As qualidades atribuídas ao termo dialética têm denominações
diferentes e são interpretadas diferentemente; da mesma forma,
a gnosiologia dialética é também variável. Sem dúvida, o assunto
é polêmico. E, por isso mesmo, digno de um estudo de maior
extensão e profundidade.
significativa da dialética materialista supõe o domínio dos seguintes
problemas: as duas concepções de mundo (materialista e idealista);
a universalidade da contradição; a particularidade da contradição;
a contradição principal e o aspecto principal da contradição; a
identidade e a luta dos aspectos opostos da contradição; e o lugar
do antagonismo na contradição.
Lukács (1885-1971). A dialética é para Lukács ontologia, e
como tal, dominada pela categoria de totalidade do tipo hegeliano. Para Lukács o trabalho é a forma concreta da relação direta
do homem com a realidade.
Marcuse (1898-1979). Para Marcuse a dialética é, antes de tudo,
ontológica e, só depois, uma lógica ou teoria do conhecimento.
Lefèbvre (1901-1991). Preocupa-se com o problema da lógica
dialética em relação à lógica formal. Neste sentido ele define as
seguintes leis da dialética como fundamentais: 1) lei da ação recíproca universal; 2) lei do movimento universal; 3) lei da unidade
dos contrários; 4) lei da passagem da qualidade à quantidade e
vice-versa; 5) lei do desenvolvimento como retorno, em níveis mais
Revista do Clube Naval • 356
Lefèbvre
53
medicina
a pandemia
que aumenta a
morbimortalidade
cardiovascular
Síndrome
metabólica
Epidemiologia
Estima-se que a síndrome metabólica afete 25% da população
norte-americana adulta, com ligeira predominância no sexo masculino e maior frequência entre os idosos. Em 2000, observou-se
que 100 milhões de americanos estariam enquadrados nessa
síndrome. A mesma tendência tem sido observada na Europa e no
Brasil. Nas últimas décadas, a incidência de diabetes melito vem
crescendo paralelamente à obesidade intra-abdominal. Acredita-se
que até 2025, não havendo mudança na tendência, haverá mais
de 250 milhões de pacientes diabéticos e hipertensos em todo
o mundo, apresentando processo aterosclerótico
mais acelerado que vem a ser a principal causa
de morbimortalidade cardiovascular.
Caracterização da síndrome
A síndrome metabólica é caracterizada por
três tipos de componentes: primário ou principal,
secundários e terciários.
• Primário ou principal: obesidade intra-abdominal (componente obrigatório para caracterização). Considerada presente
quando temos circunferência da cintura > 94cm em homens e >
80cm em mulheres.
Maj. Brig. Méd. Dr. Ricardo Luiz de G. Germano
Desde 1994 o tecido adiposo deixou de ser
olhado como simples depósito de gordura.
Várias participações desse tecido na
homeostase do organismo foram descobertas.
Notou-se que os adipócitos (células do tecido
adiposo) produzem as adipocinas que têm
funções variadas. Entre elas temos: leptina,
adiponectina, resistina, fator de necrose
tumoral, angiotensinogênio etc.
Outras têm sido descritas.
• Secundários: triglicerídeos > 150mg%, HDL colesterol <
40mg% em homens e < 50mg% em mulheres, pressão arterial >
130 × 85mmHg e glicemia de jejum ≥ 100mg%.
• Terciários: elevação do nível de ácido úrico, artrose de joelhos
(excesso de peso), maior incidência de litíase biliar, maior predisposição a cânceres e infecções, tendência a tromboses (trombofilia) e
risco cardiovascular aumentado.
Embora haja essa multiplicidade de componentes, fecha-se o
diagnóstico de síndrome metabólica com a presença obrigatória
do componente primário, acompanhado de pelo menos dois dos
componentes secundários. Para enfatizar a morbimortalidade dessa
síndrome, a associação de: obesidade intra-abdominal, hiperglicemia, hipertensão arterial e dislipidemia é conhecida no meio médico
como quarteto mortal (deadly quartet).
Tratamento
A abordagem terapêutica dos indivíduos acometidos por essa síndrome deverá, de preferência, ser coordenada por um clínico geral.
Mudança de hábitos
• Dieta: uma dieta hipocalórica, hipoglicídica (baixo teor em carboidratos), normoproteica e normolipídica com pouco sal, ajudará
na melhora da obesidade, diabetes e hipertensão arterial.
• Atividade física: aumento da atividade física além de ajudar no
emagrecimento, melhorará o condicionamento cardiorrespiratório e
levará a um aumento do nível de colesterol HDL (colesterol bom).
• Tabagismo: se presente terá que ser combatido, pois só tenderá
a piorar o risco cardiovascular.
• Etilismo: como o item anterior, pode piorar o risco cardiovascular e sendo assim, terá que ser convertido à moderação, qual seja:
vinho – 300ml/dia, destilados – 100ml/dia, cerveja – 700ml/dia.
Na mudança de hábitos é importante que o paciente esteja
motivado na busca de sua melhora. O conhecimento da patologia
e dos riscos aos quais está submetido torna-se uma excelente motivação. Deve ser ressaltado que a orientação desses hábitos desde
a infância (educação familiar e escolar) será pedra fundamental
na prevenção dessa síndrome.
Medicamentos
E
m indivíduos com acúmulo de gordura intra-abdominal
(barrigudo) a adiponectina está diminuída no sangue
e as demais adipocinas encontram-se elevadas. Como
consequência desse desequilíbrio temos: maior atividade aterogênica, trombofilia (sangue mais coagulável), intolerância à glicose (tendência a diabetes) e
aumento da pressão arterial com consequente maior
risco cardiovascular.
Deve ser ressaltado que a obesidade intra-abdominal também
está associada a uma hiperatividade do sistema endocanabinoide
(SEC). O SEC tem receptores no hipotálamo (parte do cérebro
que, entre outras funções, está relacionada ao binômio apetitesaciedade), no fígado, nos músculos, no tecido adiposo e no tubo
gastrointestinal. Essa hiperatividade do SEC, também leva a um
aumento do risco cardiovascular.
Outra constatação importante é: a presença de obesidade
subcutânea sem acúmulo intra-abdominal não é acompanhada
dos distúrbios descritos acima nem do aumento de risco cardiovascular. Existem pesquisas realizadas com lutadores de sumô
que demonstram bem esses dados.
Aqueles pacientes que não conseguem bons resultados com
as medidas citadas deverão ser ajudados por determinados medicamentos. Entre eles temos: medicamentos que auxiliam a
perda de peso (sibutramina, antidepressivo e bloqueador do SEC);
hipotensores (combatem a hipertensão arterial); medicamentos
para controle da glicemia (antidiabéticos orais e insulina); medicamentos para controle da dislipidemia (combatem aumento
de colesterol LDL, o colesterol ruim, e triglicerídios) e os medicamentos para controle do ácido úrico.
Tela
do pintor
colombiano
Botero
Cirurgia bariátrica
Será a alternativa para os não responsivos aos itens anteriores e
que atingem um nível de obesidade que torne o risco cardiovascular
e geral maior que aquele da realização da cirurgia.
Espero que nossos leitores tenham se convencido do malefício que a obesidade intra-abdominal e o sedentarismo estão
trazendo ao mundo atual (perda de saúde, de qualidade de vida,
de recursos financeiros e de recursos humanos). Os gastos com
assistência médico-hospitalar têm aumentado muito com a síndrome metabólica. É importante que cada um dos convencidos
torne-se uma voz atuante nessa luta.
54
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
55
fato real
Acidente
na Jamaica
O autor da narrativa que você vai ler não é um homem comum.
O episódio descrito ressalta a religiosidade e a fé inabalável; o conhecimento das potencialidades de
um homem bem preparado mental e fisicamente para enfrentar adversidades; o espírito de solidariedade,
mesmo em situações de extremo perigo; o amor à família e à sua esposa; o reconhecimento àqueles que lhe
transmitiram conhecimento e forjaram sua capacidade de resistência e, principalmente,
a admiração e gratidão que é demonstrada à Marinha de Guerra do Brasil.
56
Revista do Clube Naval • 356
Relato de
D. Eudes de Orléans e Bragança.
Adaptação do jornalista
Antonio de Oliveira Pereira
Fotomantagem: Sendino
N
ossa história começa em 1976.
Estávamos em viagem de lua
de mel quando aconteceu um
terrível acidente. Nossa sobrevivência se deveu ao dedo de Deus e
à Marinha de Guerra do Brasil.
Eu estava em plena forma
física, tinha acabado de sair da Marinha, onde
fui submarinista, tinha sido aluno do curso de
mergulhador autônomo, com todo o preparo
físico e intelectual necessário.
Revista do Clube Naval • 356
Estávamos em Porto Antonio, Jamaica,
e, no dia de nosso retorno a Nova Iorque o
tempo estava fechado com teto até 2.500 pés
de altura, chuviscava e ventava bastante. Eu
necessitava comparecer a um jantar em Nova
Iorque naquela noite. Fomos para o aeroporto
embarcar num pequeno monomotor, eu e
minha mulher, e o piloto.
Antes da decolagem, com vento e mau
tempo, eu perguntei ao piloto:
– Nós vamos fazer um voo visual, eu
espero.
– O voo é visual, não tem problema
algum.
– Mesmo assim eu gostaria de não correr
riscos desnecessários e fazer um voo em
volta da ilha. Passando por baixo do teto e
circulando pela ponta sul.
– Não, isso é impossível, tenho meu plano de voo e nós vamos fazer um voo visual,
atravessando as montanhas da Jamaica por
uma passagem perto de Ocho Rios. Era voo
regular da Trans American Air Lines.
– Desde que não entremos em tempestade, tudo bem.
Decolamos e seguimos pela costa da
Jamaica na direção de Ocho Rios e Montigo
Bay, contando os rios. No quinto rio o avião
guinou a bombordo, rumo 183, na direção
de Kingston. Quando nos aproximamos das
montanhas as nuvens estavam muito mais
baixas e para garantir a segurança, ele subiu.
O avião nivelou em 3.600 pés e aí entramos
na tempestade de verdade, com muitos raios.
Passei um segundo cinto para me segurar na
cadeira do avião ao lado do piloto. Tínhamos
que cruzar a cadeia de montanhas a 3 mil metros de altura, uma cadeia tripla, muito grande e alta, mil metros mais alta que a Serra do
Mar. Voamos no rumo 183 por 10 minutos,
de repente, vi um raio ao lado do avião e a
montanha à nossa frente. Foi tão repentino
que não tive tempo de levantar a mão para
proteger a cara, uma explosão grande e forte,
impressionante. Pensei: não posso desmaiar.
Graças a Deus não desmaiei, mesmo levando
uma pancada bem forte na cabeça. Entramos
na montanha, atravessamos uma árvore e o
trem de pouso foi arrancado, as asas e parte
do teto do avião. Só o charuto entrou na
montanha. A velocidade de entrada foi de 144
nós, a desaceleração monstruosa. Quando o
avião explodiu, um pedaço da hélice pegou
na frente na minha testa e me salvou a vida.
Arrebentou minha cabeça e nariz, um osso
do crânio entrou, o olho virou para cima, eu
fiquei cego, mas a pancada foi tão violenta que
arrancou meu assento, que deu uma cambalhota. Fiquei virado de cabeça para baixo,
em milésimos de segundos o motor ficou em
57
cima de mim, nas costas do meu assento. Eu
fiquei deitado de cabeça para baixo, em um
ângulo de visada pequeno, para a direita, com
só o meu olho direito vendo alguma coisa. Só
via flashes de luz, naquela posição, espetado
no chão. Com um ferro, vindo do solo, cravado no meu ombro esquerdo, não podia me
mexer. Tinha um motor em cima de mim e
dois cintos de segurança me amarrando. Vi
o piloto pendurado do lado de fora do avião,
no lado esquerdo, desmaiado, com as pernas
e a cintura dentro das ferragens e com tronco
para fora. Coloquei a mão no joelho dele,
senti que pulsava entre os ossos, ele começou
a gritar. Pedi que se acalmasse. Sentia o ferro
cravado no meu ombro esquerdo, onde passa
a subclava. Se secionasse a artéria, seria um
homem morto. Precisava de auxílio de fora,
disse para ele. “Vou soltar você para que me
ajude porque eu estou espetado.”
Soltei as ferragens que prendiam as pernas e a barriga do piloto, peguei a fivela do
seu cinto e fui soltando... Ele sentou-se no
chão do lado de fora. Meu tornozelo estava
queimando, eu precisava de auxílio rápido.
O piloto, que estava sentado, começou a se
apalpar, levantou-se e saiu do meu visual. As
coisas ficaram mais sérias porque havia óleo
incandescente pingando na minha nuca.
Contei até 60 e ele não voltou. Aí foi o mandado da verdade: viver ou morrer. Tive que
encostar o braço direito no chão e arrancar o
ferro do ombro sozinho. Se espirrasse sangue
da artéria, eu morreria. Apoiei o braço e fui
levantando devagarzinho. O ferro tinha uns
cinco centímetros e estava dentro dos ossos,
mas não espirrou sangue. Com um dedo
da mão esquerda praticamente decepado,
soltei o cinto de segurança e passei o corpo
por baixo do outro cinto, entre o motor e
o assento, ajoelhei no chão e basculei tudo
para fora. Ao olhar para fora, só com a visão
de um olho, percebi o piloto de pé, assistindo
ao fogo. Gritei para que me ajudasse a tirar
minha mulher do avião. Ele disse que ela já
estava morta e que o avião ia explodir. Não
havia tempo a perder.
Lembrei-me dos ensinamentos da Marinha. Você só sobrevive no fogo respirando na
origem da chama, porque ali tem oxigênio.
Mergulhei dentro das ferragens, uma cortina
de sangue protegia meu rosto, fui abrindo
caminho, até chegar em minha esposa. Achei
que ela estava morta, não respirava mais.
Estrebuchava, com o rosto completamente
afundado, sangrava da boca, sangrava do
ouvido, o nariz totalmente arrebentado. Meu
Deus, isso é fratura de crânio, ela está morta.
Mas vou tirá-la de qualquer maneira. Ela
tinha as duas pernas em chamas, cheirando
a carne assada. Apaguei o fogo das pernas
dela, com o sangue que caía da minha testa,
soltei seu cinto, pulei com ela para fora do
avião. Quando saí do avião com ela, o piloto
veio me ajudar.
Cada vez que conto essa história, lembro
que só metade de mim estava funcionando.
Olho, o joelho e dedo da mão. Você acha forças onde não imagina que tenha. No entanto,
aquilo para mim foi natural. Eu a carreguei
nas costas e então ele veio ajudar a segurar
suas pernas. Nós a encostamos numa árvore,
eu voltei, rápido, ao avião, para pegar minha
pasta, que continha alguns equipamentos:
canivete suíço, radinho de pilha, um mapa
da Jamaica. Sabendo o tempo de voo e as
velocidades, saberia onde nos encontrávamos. Entrei no fogo e retirei a pasta, já
meio derretida. Quando voltei, Mercedes
estava encostada na árvore e, para minha
alegria, os ouvidos tinham parado de sangrar, continuava desmaiada. Fiz ela voltar a
si, suavemente, e ela perguntou:
– O que é que houve?
– Nós batemos com o avião, mas estamos
bem, eu respondi.
– Você já se viu?
– Não, eu não me vi.
– Sua cabeça.
– Eu não me vi ainda.
Eu tinha uns pedaços de ferro e madeira
no couro cabeludo e toda testa estava aberta,
como que escalpelado.
Quando o Dr. Pitanguy nos operou,
eu levei mais de 270 pontos no rosto e
na cabeça.
Fui até um riacho ao lado, entalei meu
dedo quase decepado, com um pedacinho de
madeira, tirei a madeira e o ferro que estavam
encravados na minha cabeça, juntei minhas
carnes e amarrei com um lenço.
Aí nós decidimos procurar um local para
abrigo, pois, da carcaça do avião não havia
sobrado absolutamente nada de utilidade.
Íamos descer a montanha até a casa que o
piloto disse que viu.
O piloto era um jovem jamaicano de 23
anos, negro e gordo.
Estávamos bastante feridos e seria impossível progredir no mato. Descemos por
um riacho e, de repente, achamos uma cachoeira de 3 metros. A água embaixo parecia
bastante funda, nós pulamos, afundamos
com água pelo peito. A pasta afundou e eu
a puxei para fora imediatamente, para que
não molhasse o rádio, papéis etc. Graças a
Deus ficou tudo seco.
Nós continuamos pelo riacho e encontramos outra cachoeira, de uns 12 metros, não
dava para descer. Paramos para pensar.
Tenho que relatar a dor da Mercedes, que
foi de uma valentia impressionante. Durante
o trajeto no riacho, ela é que me guiava, porque eu só via entre flashes de luz, com o olho
direito, a cada dois segundos. O olho esquerdo
não existia. Ela me ajudava a ver o caminho,
e graças a Deus isso funcionou bem.
Quando chegamos à cachoeira, o piloto
disse:
– Vamos descer e continuar por aqui.
Eu falei:
– Não dá, para nós não existe a menor
possibilidade de descer esta cachoeira de
12 metros.
Aí ele disse em bom inglês: “Danem-se...”
Ele desceu, nós ficamos olhando, ele foi.
Nós decolamos mais ou menos às 12:45h,
batemos na montanha em torno de 13:15h,
não mais do que isso. Chegamos à cachoeira
por volta das 15h.
Em pouco mais da metade do caminho,
o piloto escorregou, rolou o resto da cachoeira, caiu em cima de uma rocha, quebrou
o tornozelo e gritou por socorro. Três horas
depois conseguimos chegar lá em baixo.
Contornando a cachoeira, fomos descendo,
na parte mais baixa, andando pelo mato e,
beirando o riacho, chegamos a uma clareira
com uma pequena parte plana, ali eu deixei
a Mercedes e voltei para buscar o piloto. Ele
estava lá, entregue ao destino, sozinho. Eu
o coloquei nas minhas costas e desci até a
clareira onde estava a Mercedes, que também
tinha o tornozelo fraturado. Ela estava com
umas botas de couro forte e aguentava o
rojão, superando a dor.
Mulher de força inacreditável, com
queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus. A calça, a bota e a carne formavam
um único corpo.
A clareira era um lugar plano, medindo
de 200 a 300 m2. O morro continuava, e
dentro da clareira havia um grotão bem
estreito. Nós vimos embaixo, na mesma
rampa onde descíamos, uma espécie de
cabana, com duas hastes cravadas no morro e uma haste transversal, com folha de
bananeira, encostada no barranco. Fomos
descendo pelo meio das rochas, os três,
em, aproximadamente, uma hora. Estava
anoitecendo, e decidimos ficar ali mesmo.
Em nenhum momento eu expressei
qualquer sentimento de ódio, de repulsa ou
de revolta contra as atitudes do piloto. Eu
considerava aquilo normal. Mas dentro de nós
existe uma lei muito forte, a Lei do Talião, e
quem já prestou serviço na Marinha, como
oficial, com revólver Colt 45 ou pistola na
58
cintura, paira uma dúvida: seria eu capaz
de tirar a vida de uma pessoa? Em primeiro
lugar ele não fez o voo que eu tinha solicitado,
errou o caminho e provocou nossa entrada
numa tempestade. Batemos e eu salvei a vida
dele. Pedi que viesse me ajudar, ele não veio,
me deixou para morrer queimado dentro do
avião. Consegui me safar sozinho, pedi que
ele me ajudasse a tirar a minha mulher do
avião, e ele não ajudou. Nesse momento, eu
o condenei à morte. Sem ódio, uma decisão
fria. Se necessário fosse, eu ia matá-lo. Ele
serviria de alimento para nós.
Chegamos à cabana e nos abrigamos um
pouco da chuva. Eu sangrei a noite toda.
Fiquei acordado, massageando meu olho
esquerdo. Quando clareou o dia, vi no meio
da lama, uma latinha de conserva antiga. Peguei a lata, deixei a Mercedes na cabana com
o piloto, fui até o riacho de água cristalina,
graças a Deus fresquinha, e mergulhei a lata
na água para encher e beber. Quase desmaiei
ali. Fiquei em cima da pedra umas seis horas,
bebendo água, até reunir forças para voltar
à cabana. Levei água para a Mercedes, mas
ela não quis beber. Estava com o maxilar e
dentes fraturados, não tinha mais nariz, o céu
da boca tinha afundado, dores insuportáveis,
a adrenalina estava acabando. Eu a forcei a
abrir a boca e a beber a água.
Fui buscar mais água para o piloto.
Decidi que tínhamos que continuar a andar.
Serrei dois galhos de árvores com forquilhas
grandes e fiz duas muletas: uma para o piloto
e outra para a Mercedes. Naturalmente isso
levou algum tempo, e já era de tarde. Durante
a manhã inteira fiquei bebendo água, até
entrar no mato de novo, levando água para
eles. Massageando meu olho para baixo, senti
que não havia dano maior ao globo ocular.
Cortei as muletas e saímos clareira abaixo,
no grotão bem estreito, pelo riacho. Havia
um precipício de uns 300 metros, onde o
riacho formava uma cachoeira que pulverizava a água, e a montanha toda fazia um U,
com diâmetro de várias centenas de metros.
Eram quatro da tarde mais ou menos e resolvemos voltar para a cabana. Aprendemos,
nesses cursos de sobrevivência na selva,
que, com água, você sobrevive até 70 dias, e
nós tínhamos uma fonte de água pura. Isso
nos tranquilizou bastante e, naturalmente,
começamos a beber água num regime fantástico, beber litros e litros por dia.
No terceiro dia, pela manhã, encontramos
umas plantinhas, que eram nada menos do
que uma plantação de maconha escondida na
montanha. Na clareira, tínhamos um ângulo
de vista para o céu, de uns 120 graus, bastante
Revista do Clube Naval • 356
Dom Eudes Maria Rainier Pedro José
Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans
e Bragança e Wittelsbach, Príncipe de
Orléans e Bragança, nasceu em Mandelieu,
Alpes Marítimos, França, em junho de
1939. Segundo filho varão de D. Pedro
Henrique de Orléans e Bragança, então
chefe da Casa Imperial do Brasil, e de
D. Maria Isabel da Baviera. Nascido
príncipe do Brasil e príncipe de Orléans
e Bragança, renunciou a seus eventuais
direitos ao trono do Brasil, por si e por sua
futura descendência, em 3 de junho de
1966. Em 26 de março de 1976, D. Eudes
casou-se com Mercedes Neves da Rocha
(Petrópolis, 26 de janeiro de 1955).
D. Eudes de Orléans e Bragança estudou
no Colégio Santo Inácio no Rio de Janeiro.
Ingressou na Escola Naval e na Escola de
Submarinos, tornando-se um dos maiores
especialistas brasileiros em submarinos.
Fez pós-graduação em Economia pela
Fundação Getulio Vargas e cursou também
na Universidade de Cambridge, Inglaterra,
o curso superior para executivos para
Cais de Navegação.
D. Eudes é Oficial da reserva da
Marinha do Brasil.
Revista do Clube Naval • 356
aberto, só que as montanhas e picos laterais,
tornavam a busca aérea complicada. Helicópteros poderiam passar por ali, mas aviões,
seria muito difícil. Além do mais, nós caímos
numa quarta-feira chuvosa e só começou a
chover menos no sábado.
No segundo dia, eu estabeleci a estratégia de não correr nenhum risco adicional.
Tudo aquilo que a gente aprende na vida,
volta na medida da necessidade de utilização.
Quando era jovem, no Paraná, eu entrava no
mato com o seu Queiroz, caçando cobras
e aranhas caranguejeiras e outros insetos,
para mandar para o Butantã. Ele me ensinou
a reconhecer o cheiro dos animais, e esses
cheiros todos voltam.
Nós passamos a segunda noite na
cabana.
O terceiro dia foi de euforia, recuperei
parcialmente a visão do olho esquerdo, o que
foi uma grande alegria.
No terceiro dia fizemos o primeiro fogo.
Achamos, um saco de arroz e um saco de fubá.
Mercedes cozinhou uma espécie de polenta.
No quarto dia achamos uns sacos de
aninhagem. Cortei a ponta de alguns deles,
levei ao riacho para limpar, e nos vestimos,
com três sacos para cada um. Utilizamos para
nos cobrir e funcionar no princípio da roupa
de mergulho, ou seja: a chuva gelada bate
no primeiro, no segundo um pouco menos
fria, e no terceiro, menos fria ainda. Quando
chega ao corpo, a chuva já está com a sua
temperatura e não provoca hipotermia. O
não arrancar as crostas das feridas também
foi vital, nós não sofremos nenhuma infecção
e nenhuma inflamação.
No sábado, o tempo começou a clarear.
Nós havíamos caído na quarta-feira. Ouvíamos que as buscas eram feitas no mar, no
norte e depois no sul da ilha. O pessoal da Aeronáutica dizia que era impossível atravessar
a montanha com mau tempo. É engraçado
como as pessoas raciocinam: ninguém entra.
Mas nem sempre os homens são lógicos.
Eu marcava no mapa da Jamaica onde
se realizavam as buscas, nenhuma na nossa
região. Ouvimos também que depois de 72
horas elas foram interrompidas. Então, o
meu patrão, o barão Yan Thyssen, de Mônaco, ligou para o primeiro-ministro da
Jamaica e disse: “Eu quero que eles sejam
descobertos, eu pago a sua força aérea no
ar!” As buscas recomeçaram com vários aviões. Ele mandou três para ajudar. A minha
cunhada, irmã da Mercedes, também veio
com o marido para a Jamaica, eventualmente para buscar os nossos corpos. As buscas
continuaram, e descobriram dois aviões que
59
tinham caído anos antes.
No quarto dia, o tempo começou a melhorar. Subi no alto da clareira, onde tinha
montado uma pira para fazer fogueira e
atrair os aviões, mas com a chuva ficou tudo
absolutamente encharcado.
Pensei: estou tendo uma experiência que
muito pouca gente tem e pretendo sair com
vida. Estou inteiro, estou em forma, estou
preparado e tenho conhecimento para sair. O
conhecimento que aprendi e o preparo físico
e mental que tive na Marinha, toda a força
moral que aprendi na Escola Naval, isso é o
que está me servindo agora.
Voltei para a cabana, quase noite. Incrível que, em todos esses dias, enquanto eu
fazia as buscas no mato, o piloto gritava o
tempo todo o meu nome, para que não me
afastasse demais.
A Mercedes, coitada, de vez em quando
tinha dores monumentais, as queimaduras
repuxando e as botas derretidas, junto com
as carnes das pernas, provocavam dores lancinantes. Para manter o moral, eu lhe dava
broncas terríveis. “Pare de se queixar, pare de
resmungar, pare de chorar, quem está sofrendo são os seus pais que estão perdendo uma
filha de 21 anos, uma filha querida. Eles estão
sofrendo, você está inteira, você está perfeita,
você tem 20 dedos, você tem seus braços,
suas pernas, você vai sobreviver lindamente,
pare de se queixar e pense nos outros.” Ela
ficava com raiva e reagia contra mim. Era
exatamente o que eu queria. Evitava assim
que ela entrasse em depressão e em estado de
choque. Depois do estado de choque há mais
nada para fazer. Aí é a morte.
No sábado, em uma de minhas excursões,
descobri a saída.
Enquanto eles dormiam, enchi um
saco plástico com água, cobri com outro
saco em volta, vi que não vazava, amarrei
bem as pontas e, de manhã cedo fui em
busca de socorro.
No domingo de Páscoa, abriu-se um dia
maravilhoso, de céu azul, nenhuma nuvem.
Ouvi no rádio que iriam recomeçar as buscas,
em direção a Kingston, Ocho Rios e Montigo
Bay, no vale que atravessa a cadeia de montanhas. Vieram de manhã. Às 11 horas, descobriram o avião. Os helicópteros vieram todos,
um deles ficou parado em cima da minha
cabeça. Subi a clareira, amarrei uma camisa
num bambu, fiquei acenando, mas eles não
me viram. Fiquei numa frustração danada, o
cara está em cima de mim, a cem metros no
máximo. Ele podia ter me visto. O sujeito está
olhando para baixo, devia ver que tem vida.
Não é possível, eles foram embora.
MONITOR
história naval
Quando voltei, estavam os dois gritando
para os helicópteros: “Gente, vamos parar de
gritar, vocês estão gastando energia à toa, o
piloto não consegue ouvir nem o copiloto ao
lado dele, ele precisa de fones de ouvido para
se comunicar, como vão ouvir os gritos de
vocês aqui embaixo, na montanha?”
Ouvimos que eles tinham achado o
avião, mas disseram não haver sobreviventes. Fiquei irritado. Como podem dar uma
notícia dessas, passar a notícia para a UPI,
e naturalmente para o mundo inteiro? Meus
pais e os pais da Mercedes receberiam a
notícia de que nós estávamos mortos e não
iriam mandar aviões e helicópteros para a
nossa região novamente!
À tarde, às 14 ou 15h, ouvimos que o
lugar era de difícil acesso e que avistaram só
pedaços do avião, que era muito difícil haver
sobreviventes, que pretendiam mandar gente
lá, mas que seria muito difícil descer alguém,
que o lugar era terrível etc.
Voltaram, e um helicóptero, de novo,
ficou em cima da minha cabeça, e eu de
novo, acenando com o bambu. Então alguém
finalmente me viu. Balançou o helicóptero,
entendeu a mensagem. Saiu de perto, fez
uma curva, e mergulhou dentro do grotão.
Recuperou o helicóptero, olhou para a cabana
e reconheceu a Mercedes.
À tarde, o helicóptero voltou e ficou, de
novo, em cima da minha cabeça, mas veio
outro helicóptero e nos viu. Um helicóptero
grande, de busca, tipo do Vietnã, que a gente
vê nos filmes, veio e fez a mesma manobra:
inclinou, e aí – são certos sons que eu nunca
mais vou esquecer na minha vida: o batimento das pás do helicóptero, o eco na montanha,
o barulho das turbinas – ficou no ar, junto
do rochedo e em cima do riacho. Não podia
descer. Eu desci a montanha, no meio dos
rochedos, quase esquiando no meio da lama,
entre aquelas pedras. Eu estava muito bem
fisicamente. Cheguei na cabana, peguei a
Mercedes, coloquei-a nas costas, desci até
a pedra, onde o helicóptero estava, subi o
rochedo e passei a Mercedes para dentro
do helicóptero. Depois voltei até a cabana,
peguei o piloto nas costas, coloquei-o dentro
do helicóptero, voltei à cabana e fui buscar
a minha pasta. Voltei e, por uma questão de
autoafirmação, se é certo ou errado não sei,
segurei no helicóptero e entrei sozinho, sem
aceitar ajuda de ninguém: “Olha... terminou.
Fiquei aqui cinco dias e não cometi nenhum
erro. Isso foi uma coisa muito séria.”
Terminou!
Voamos 20 minutos, até o aeroporto da
Base Aérea de Kingstow. Os oficiais da Força
Aérea estavam tão felizes quanto nós. Foi a
primeira vez na história que eles resgataram
os sobreviventes de um acidente de avião nas
montanhas da Jamaica.
O Walter Clark, diretor-geral da Rede Globo, foi direto para a casa da família da Mercedes
e deu a notícia de que estávamos vivos.
Havia três centros de atenção do acidente:
em Vassouras, onde moravam os meus pais;
na casa do Olavo Monteiro de Carvalho, onde
estava o barão Tyssen e toda uma equipe
juntada pelo pessoal da Varig, fazendo o
acompanhamento direto, junto com a Globo.
O Walter Clark foi para Petrópolis, o terceiro centro, onde moravam os pais e os avós
da Mercedes. Estavam lá os tios, primos e
outros parentes.
Eles tinham recebido a notícia da nossa
morte, pela manhã. Chega então o Walter
Clark, à tarde, dizendo que nós estávamos
bem, que estávamos vivos. Foi cômico, ele
chegou trazendo champanhes e todos comemoraram. Ao mesmo tempo chegavam
os amigos vestidos de preto, de luto, porque
não tinham recebido a notícia, e chegavam
para os pêsames. Deviam achar que a família enlouquecera.
Após a Base Aérea, fomos para o hospital
em Kingston. Eu me lembro que ao descer do
helicóptero, no pátio do hospital público, veio
um repórter e apontou para a minha cabeça
dizendo que eu estava sangrando: “O senhor
está sangrando, o senhor está sangrando.”
Eu estou sangrando há cinco dias e o cara
vem dizer que estou sangrando. Fomos ao
atendimento de emergência hospitalar, bem
simples, com corredores e baias divididas por
panos. Uma enfermeira me avisou que iria tirar o pano da minha cabeça, e eu lhe pedi que
ela o fizesse devagar, pois estava escalpelado.
Ela disse: “Os homens são tão covardes...”, pegou o lenço e arrancou. Arrancou e desmaiou
em seguida, caindo dentro da baia seguinte,
em cima de um doente que estava sendo
atendido. Foi uma correria e uma gritaria no
hospital. Chegou o médico e perguntou o que
acontecera. Eu disse que estava escalpelado,
ela não acreditou, disse que os homens são
covardes, e aí está ela, desmaiada. O médico
olhou para a minha testa, pegou umas gazes
e começou a amarrar. Disse que ia me operar.
Eu não quiz ser operado ali, seria operado no
Rio de Janeiro.
Minha cunhada, quando viu a irmã viva,
desmaiou também. Nós dois fomos para
outro hospital e lá foram realizados exames
e verificadas as fraturas. Eu tinha fraturado
o nariz e um osso da face, abaixo do olho
esquerdo. A Mercedes fraturou o tornozelo e
o maxilar superior, o inferior com fissura, e
o nariz esfacelado. O problema dela era mais
sério do que o meu, ela sofreu muito mais.
No dia seguinte voamos para o Brasil.
Chegando ao Rio fomos direto para a
clínica do Dr. Pitanguy. Ele me mandou direto para a sala de cirurgia, mesmo antes da
Mercedes. Ele me operou a frio, me recuperou
e o resultado foi ótimo: 10 dias depois da cirurgia, eu estava em forma, jogando tênis.
Ela, com as queimaduras, ficou internada. Eu ia dormir no hospital todos os
dias junto dela, e passava ao seu lado o dia,
na medida do possível. Quando ia fazer um
pouco de exercício fora, voltava logo para
o hospital. Vinham todos visitar-nos, uma
coisa muito gostosa.
Eu tinha de ir trabalhar em Mônaco, e o
Pitanguy falou: “Você está pronto, pode ir à
vontade, mas ela não. Vou prepará-la para a
viagem, e daqui a dois dias eu vou atrás. Vou
identificar um médico e prescrever o tratamento ao qual ela deverá ser submetida.”
Assim foi feito, fomos para Mônaco.
Estávamos morando em Cabo Ferrat. Dois
dias depois chegou o Pitanguy, foi direto ao
médico que a equipe dele tinha identificado
e mostrou o tratamento que a Mercedes
tinha que fazer. Ela ainda teve seis meses
de tratamento das queimaduras, que eram
muito extensas, e que hoje estão reduzidas
a pequenas marcas nas pernas. Um tratamento extraordinário. Eu não sei como é
que o Dr. Pitanguy consegue essas coisas.
Realmente ele é um gênio.
Bem, foi essa a aventura pela qual nós
passamos.
Das lições que aprendemos, uma das mais
importantes é a de que o limite da nossa vida e
da nossa capacidade de aguentar sofrimentos
e feridas, de não se entregar, está muito além
daquilo que imaginamos. Sempre se imagina,
que se vai morrer, que não se vai aguentar.
Nada disso, nosso limite está muito além.
No entanto, é imprescindível que haja
treinamento e sangue-frio para raciocinar.
Assim você tem mais chances de sobreviver. Ter conhecimento, como tínhamos, de
combate a incêndio, de primeiros socorros e
algum sobre florestas, para viver a vida normal, pode ser absolutamente inútil, em 99%
dos casos. Mas se acontecer algo como o que
aconteceu comigo, aí você se safa.
Essa é a mensagem que eu queria passar
e, novamente, agradecer a tudo aquilo que eu
aprendi na Marinha de Guerra do Brasil.
Eu devo a minha vida à Marinha.
PARNAÍBA
Q
• substituição da máquina alternativa por motores diesel (2);
• substituição do uso do óleo “bunker C”pelo diesel, o que aumentaria a sua autonomia de 3 dias para 30 dias;
• adaptação do navio Potengi (transporte de óleo para o
Parnaíba) para recebimento e estocagem de óleo diesel.
Terminada a apresentação, o Ministro Serpa aprovou o projeto e hoje navega imponente nas águas do rio Paraguai o belo
Monitor Parnaíba.
Monitor
Pa
Obrigado.
Revista do Clube Naval • 356
Almirante Oscar Moreira da Silva
uando comandava o Sexto Distrito Naval em Ladário,
1993/94, recebi a visita oficial do Ministro da Marinha,
Alte Serpa, acompanhado do seu Chefe de Gabinete,
Alte Peixoto, e de uma pequena comitiva.
Nessa visita o Ministro anunciou a baixa do Monitor Parnaíba e a construção de um outro navio
para substituí-lo, com um custo aproximado de
US$ 10 milhões.
Diante dessa notícia, eu o
interpelei e pedi que não tomasse aquela
decisão antes de visitar o navio e assistir
marinha
do brasi
l
ao projeto que tinha feito para ele. O
Parnaíba era o mais imponente e respeitado navio de guerra de toda a região
do rio Paraguai. Não tinha sequer uma
lágrima de ferrugem. Seus amarelos
brilhavam como novo.
E assim foi feito. Visitamos o Parnaíba e em seguida fiz uma palestra
para toda a comitiva, que consistia
básicamente no seguinte:
• a retirada da máquina alternativa que seria guardada para um futuro
distante quando ele efetivamente
desse baixa. Ela voltaria para o seu
interior e faríamos dele um navio
museu (único exemplar da Marinha com máquina alternativa);
Revista do Clube Naval • 356
60
O fato relatado
a seguir refere-se à
matéria sobre o Monitor
Parnaíba, publicada
na Revista do
Clube Naval 353,
em março de 2010,
nas páginas 57,
58 e 59.
rnaiba
Capitão-d
e-Corve
ta Moza
Capitão-t
rt Junqu
enente Jo
eira ribe
rge Hen
iro e
rique Co
rreia de
ANTECED
Sá
ENTES
HISTÓ
RICOS
ace às cr
esce
Guerra, ao ntes ameaças qu
s interess
e resultar
es nacion
integridad
iam na G
ais
ra
e
a Marinha territorial e à cam de garantir a sobe nde
rania e
panha
pass
de Marin
ha do Rio
de Janeir
naval na
o, marca
cional na
ndo o in
quele sécu
Monitor
ício da co
lo. Inicia
Parnaíba
nstrução
va-se, en
,
hoje, o C
nas lides
tão, a co
av
er
operativas
na Mestr
nstrução
e da Arm
há 72 an
do
ada, desp
os.
ontando
O NOME PA
RNAÍBA
61
E
viagens
A pequena ilha de
St.
Maarten
no
guarda
Caribe
um cenário
de cartão-postal
Texto e fotos
Capitão-Tenente Rosa Nair Medeiros
m meio a um rendilhado de ilhas, a pequena St. Maarten/St. Martin guarda um cenário de cartão-postal,
aquela sucessão de clichês pela qual todos que chegam
ao Caribe esperam: praias com areias impecavelmente
brancas, águas calmíssimas, transparentes... o mar
que se desdobra em uma infinidade de verdes e azuis.
Embora com uma área pequena, é impressionante a
diversidade de paisagens, cultura e entretenimento que oferece
para todos os gostos. Além das praias paradisíacas, compõem o
cenário montanhas, muita mata virgem e cidades pitorescas.
Para emoldurar a paisagem, surgem transatlânticos aportados
próximo a verdes encostas de montanhas.
Colonizada por holandeses e franceses, a ilha está dividida em
dois lados, com moedas, línguas e traços culturais diferentes. Cerca
de dois terços do seu território é francês, a outra parte holandesa.
Isso em nada afeta a vida dos turistas e dos moradores, pois há
completa liberdade de movimentação. Marigot é a
capital do lado francês;
e Philipsburg da parte
St. Martin
holandesa.
Marigot
St. Maarten
EUA
Philipsburg
Cuba
Jamaica
Honduras
Haiti República
Dominicana
M AR DO CARIBE
Nicaragua
Costa Rica
Great Bay,
no lado
holandês
62
Revista do Clube Naval • 356
Colômbia
Venezuela
Mas não são apenas belezas naturais que o turista encontra em
St. Maarten (denominação do lado holandês) ou St. Martin (lado
francês). A ilha é considerada completa por quem procura também
restaurantes com gastronomia refinada e vida noturna agitada
(danceterias, cassinos). A arquitetura é outro atrativo, capaz de
fazer o visitante se sentir em algum lugar do Mediterrâneo. A 1.800
quilômetros de Miami e a 25 minutos de voo de Porto Rico, a ilha
reúne o charme europeu, a receptividade caribenha e o conforto
americano. Nesse pequeno pedaço do paraíso, o turista encontra
36 praias de areia branca e águas cristalinas, onde pode praticar
diversos esportes náuticos ou apenas relaxar.
Adotada pelos americanos, a parte holandesa evoca certa aparência de Miami caribenha. Ali se fala inglês, a moeda mais utilizada
é o dólar e as lojas de Philipsburg são duty-free. Em Front Street,
principal rua da cidade, eletrônicos, perfumes e roupas de grifes
internacionais são vendidos a preços mais do que convidativos. Em
Philipsburg também estão vários cassinos, mas os melhores ficam
em Maho Beach, em Port de Plaisance e em Cupecoy.
Com ares tipicamente franceses, Marigot apresenta charme
e sofisticação. Possui muitas lojas de marcas famosas como
Kenzo, Fendi, Dior, Yves Saint-Laurent, além de shoppings. Os
restaurantes oferecem o melhor da culinária francesa; ao redor
da marina Port La Royale se multiplicam bistrôs e cafés, alguns
dedicados às especialidades da culinária local. Para quem gosta do
agito, há ótimas danceterias desse lado da ilha.
Não parece, mas toda essa prosperidade é recente. O território
permaneceu praticamente inexplorado durante séculos e sua única
fonte de riqueza era a extração do sal. Foi só com a descoberta de seu
cenário paradisíaco pelos turistas, a partir dos anos 1950, que o local
progrediu. Não há resquícios de glórias coloniais, quase toda a herança histórica dos colonizadores repousa em antigos fortes. No alto
de uma colina, estão as ruínas do velho Fort St. Louis, construído
pelos franceses no século XVIII. Vale a pena subir os muitos degraus
para chegar ao topo da construção, de onde é possível avistar uma
infinidade de praias. A saída do forte é um convite para caminhar
no entorno; do outro lado da montanha está Marigot.
Corais
Naturelle Française. Por isso as espécies que povoam os recifes
de coral e o mar estão se reproduzindo muito bem na maioria
das áreas ou se recuperando em outras. A visibilidade costuma
alcançar 30 metros. Os mergulhos com cilindro e snorkel são
ótimos na Dawn Beach (no lado holandês), onde um recife corre
paralelo à praia, e na Baie de Friar (na parte francesa).
A maioria das praias possui boa estrutura, o que as deixa movimentadas e divertidas. Mas ainda é possível encontrar trechos
isolados, geralmente do lado francês. As do litoral atlântico têm
ondas mais altas e são as preferidas para a prática de esportes
náuticos. O lado do Caribe é calmo, favorável para natação, prática
de snorkel. Todas as praias são públicas, mas os resorts podem
reservar um trecho para seus hóspedes.
Com tantas opções, torna-se complicada a tarefa de escolher
apenas uma praia. Os táxis não cobram muito, mas o melhor é
alugar um carro e ir variando de cenário. Uma rodovia de duas
pistas contorna o litoral da ilha e as estradas secundárias estão em
boas condições. O transporte público se limita a pequenos ônibus
entre Philispburg, Marigot e Grand Case.
Uma atração à parte é o Aeroporto Internacional Princesa
Juliana, conhecido como SXM, situado no lado holandês. Uma
aterrissagem nesse aeroporto, que possui na cabeceira da pista
uma praia, é um espetáculo inesquecível. De um momento para
o outro os banhistas são surpreendidos por rajadas de vento que
agitam as águas, ao mesmo tempo em que uma silhueta colossal
tapa completamente o sol e passa a poucos metros do solo. A seguir
um Boeing ou um Airbus toca a pista. Quem estava prevenido pôde
fazer um filme ou uma fotografia espetacular.
Para ir até as ilhas vizinhas há aviões pequenos que partem do
aeroporto L’Esperance, no lado francês.
Preservação ambiental
Durante o dia, nada melhor que escolher entre as várias
praias para relaxar, praticar esportes náuticos ou fazer mergulho. A flora e a fauna submarinas são ricas. Por isso, mergulhar
é uma atividade bastante comum que guarda respeito pela vida
marinha. Todos que se aventuram sob as águas ou mesmo na
praia preservam o meio ambiente.
Boa parte das águas que rodeia a ilha é protegida por agências ambientais, como a Dutch Nature Foundation e a Reserve
Maho Beach
Marina
Port La Royale
64
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
65
Percorrendo a ilha
Uma atração à parte é a minúscula cidade
de Grand Case, que ganhou notoriedade como
a capital gastronômica do Caribe, devido aos
muitos restaurantes e bistrôs, comandados
por chefs formados na Europa, que ladeiam a
única rua da cidade.
Mas a ilha oferece muito mais. Ao chegar, o
melhor é fazer um tour de reconhecimento, com
parada na charmosa Marigot e em Philipsburg.
À noite, a programação ideal é conhecer um dos
diversos restaurantes, danceterias e cassinos –
que estão do lado holandês.
Entre as muitas atividades, sugere-se o
passeio Rhino Safári, em bote inflável (tipo
jet-ski), na lagoa de Simpson Bay, com saída
de pássaros nativas e migratórias fazem ninho. Os ornitófilos se
reúnem ali para observar garças azuis, águias pescadoras, aves canoras amarelas e piscos chilreiros. Belas residências e villas estão
espalhadas pela falésia ente a Baie aux Prunes (Baía das Ameixas) e
a Baie Rouge (Baía Vermelha).
Para conhecer mais sobre os nativos da ilha, vale visitar, no
lado francês, Sur Le Traces des Arawaks (Nas Pegadas dos Aruaques), um museu de história e arqueologia, com exposição de
ferramentas, cerâmica e joias manufaturadas por tribos nativas
que viviam na ilha desde 1800 antes a.C. Ao compararem o desenho das peças, os especialistas traçaram a história dos aruaques
como indígenas sul-americanos e acompanharam a migração
desde a bacia do rio Orenoco na Venezuela.
A capital do lado holandês faz uma curva que acompanha
Great Bay, ponto de parada de navios. A areia branca de Great Bay
foi dragada do leito do mar para aprofundar o porto para receber
navios de cruzeiro maiores. Outra referência desse lado da ilha é
Simpson Bay, sua área envolve a baía, a praia ao lado do Princess
Juliana International Airport (Maho) e a Simpson Bay Lagoon, a
maior laguna do Caribe Oriental. Uma estreita faixa de terra a envolve, separando-a do mar do Caribe. Muitos resorts, restaurantes
e atividades mais concorridas estão ali.
A fronteira invisível atravessa a laguna. Por isso tudo que
está na margem sul, a exemplo das áreas de Maho Bay, Mullet e
Cupecoy Bay com suas praias ótimas, é holandês. Marigot toca
a laguna na área norte, no moderno complexo da marina Port
La Royale. A cidade acompanha a curva arenosa da baía cheia de
iates, barcos a vela, butiques modernas e pequenos restaurantes
que lembram a Riviera francesa.
Em se tratando de praias, o lado francês tem um trecho chamado
Terres Basses, com uma faixa quase contínua de areias brancas, na
sequência a Baie Longue, sossegada com águas azuis e calmas, Baie
aux Prunes, procurada por surfistas, e a Baie Rouge. No litoral
leste, a Baie Orientale, também conhecida como Oriental Bay
possui boa infraestrutura, conta com restaurantes, bistrôs, lojas,
operadoras de esportes aquáticos. Águas calmas e um recife tornam
essa área ideal para nadar e
mergulhar com snorkel.
Oriental Beach,
no lado francês
Outras atrações
Falaise des Oiseaux (Falésia dos Pássaros), o alto
costão de rochedos ao longo
de Simpson Lagoon, voltado
para o mar do Caribe na
extremidade ocidental, é o
local onde muitas espécies
Uma
das praias de
St. Barth
Front Street,
rua principal de
Philipsburg
rápida em mar aberto para a prática de
snorkel; também o de catamarã ao pôr
do sol, uma oportunidade de registrar a
magnífica paisagem da ilha nessa hora.
Há várias agências que oferecem cursos de
mergulho, opções de pesca em alto-mar; e
para conhecer as ilhas vizinhas, pode-se
fazer passeios em catamarã a vela ou a
motor. Empresas também alugam barcos
tripulados, e o turista faz o seu roteiro.
Uma
das ruas de
Philipsburg
Pitadas de história
Sint Maarten, nome oficial Eilandgebied Sint Maarten, é uma das cinco
ilhas que formam as Antilhas holandesas,
juntamente com Aruba, Bonaire, Curaçao,
Vista da
Santo Eustáquio e Saba. Foi pela primeira
montanha
vez colonizada pelos holandeses em 1620
e mudou de mãos pelo menos 16 vezes até
1816, quando foi dividida entre a França e a Holanda.
A parte francesa foi administrada a partir de Guadalupe até fevereiro
de 2007, quando se tornou uma coletividade ultramarina separada,
chamada oficialmente de Collectivité de Saint-Martin, englobando a
parte norte da ilha e ilhéus vizinhos – o maior deles é Tintamarre.
Praia
de Mullet,
no lado
holandês
66
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
67
Vista parcial
do porto de
Gustavia
Ilha de
Anguilla
A charmosa St. Barthélemy
Considerada a ilha mais sofisticada do Caribe e a preferida por celebridades, St. Barthélemy é ideal para
quem quer experimentar um pouco da atmosfera encontrada nas pequenas cidades da costa francesa. Mas nesse
pedaço da França, as construções revelam nos detalhes, como os pitorescos telhados vermelhos, a herança de
outro país. A ilha foi cedida à Suécia em 1785, retornando à França somente em 1878, assim guarda parte desse
legado cultural. A principal cidade é Gustavia, que abriga um interessante porto, além de lojas, restaurantes e um
museu. Para quem está em St. Maarten, há opção de passeio de dia inteiro, com saída em catamarã a motor.
St. Barth, como é chamada pela população local, possui 22 pequenas praias de areia clara, água cristalina e
uma paisagem de tirar o fôlego. Montanhas cobertas por vegetação exuberante e ondas que quebram com suavidade contra as rochas negras dos recifes de coral despertam a atenção. Apesar da formação rochosa, a área do
terreno surpreende, bonita, com picos montanhosos e pitorescas enseadas.
Na costa rústica e íngreme do sul estão Anse de Grande Saline, considerada uma das melhores. Atrás
da praia, fica um grande lago, do qual se extraía sal. A próxima, com acesso apenas por uma estrada muito
íngreme, é Anse de Governeur, outro excelente trecho de areia rodeada por rochedos. A maioria das praias
é de fácil acesso, mas as areias brancas de Anse de Colombier, no noroeste, só podem ser alcançadas por
mar ou por uma trilha íngreme.
St. Jean é a mais popular, tem vários hotéis e bares. Shell Beach, perto de Gustavia tem um bom bar, com ambiente caribenho clássico, ótima música. Para quem busca mais tranquilidade, Flamands e Lorient são ideais.
Praia de
Shell Beach
Gustavia,
capital de
St. Barth
A paradisiaca
Prickly Pears
Visitando Anguilla
separada; as outras ilhas que formam o seu território são: Anguillita,
Dog, Little Scrub, Prickly Pear, Sandy, Scrub, Seal e Sombrero.
À parte das belezas naturais, em Anguilla predomina a aparência de modernidade, com acomodações luxuosas em alguns
balneários, e as villas mais impressionantes do Caribe, que só
perdem para St. Barth.
Falar que o mar é transparente, calmo, possui uma infinidade
de matizes de verdes e azuis, seria simplificar demais a beleza desse
pedaço do Caribe. Os contrastes de paisagens, de culturas conferem
a singularidade a cada ilha. Entre o Atlântico e o Caribe, St. Maarten/
St Martin proporciona uma experiência única. Turistas chegam de
várias partes do mundo, mas aquela sensação de uma atmosfera
dominical que paira durante o dia permanece, só rompida pelo
ritmo da noite, comparável à costa do Mediterrâneo, com as muitas
opções de entretenimento.
Difícil é a hora de partir, mas quem conhece as belezas de St.
Maarten/St. Martin e suas vizinhas acaba retornando...
De St. Maarten há um passeio de dia inteiro a Anguilla, uma
pequena ilha britânica, considerada um “oásis” de tranquilidade.
As suas praias estão entre as mais belas do Caribe e suas areias
suaves e brancas se estendem por vários quilômetros. Esse
passeio inclui uma parada na ilha de em Prickly Pear, para fazer
snorkel e desfrutar uma praia paradisíaca; seguido de almoço
em Anguilla, na praia de Meads Bay.
Anguilla é quase toda plana e coberta com vegetação seca. Sua
base coralina confere à ìlha o mar azul salpicado de recifes e ilhotas.
A praia mais concorrida é Shoal Bay (East), possui vários bares e um
excelente recife para snorkel. Destacam-se também Sandy Ground,
uma praia curva, contornada por rochedos; Savannah Bay, com
águas rasas, mas cheia de vida; e Sandy Hill Bay, isolada e tranquila,
possui um pequeno forte para explorar.
Descoberta por Cristóvão Colombo em 1493, Anguilla tornou-se
dependência inglesa em 1650. Em 1980 obteve o estatuto de colônia
68
Revista do Clube Naval • 356
Revista do Clube Naval • 356
69
Capitão x
comandante
MARINHAGENS
Tenentes-Coronéis e Coronéis); Oficiais Generais (na Marinha:
Contra-Almirante; Vice-Almirante e Almirante-de-Esquadra; no
Exército: General-de-Brigada; General-de-Divisão e Generalde-Exército; na Força Aérea: Brigadeiro, Major-Brigadeiro e
Tenente-Brigadeiro).
Por que então na Marinha costumamos chamar de Comandante,
os Oficiais Superiores, os Capitães de Mar-e-Guerra, de Fragata e
de Corveta? Seria para simplificar, ou para conceder a esses oficiais
uma honraria? Senão, vejamos.
Ordenança Geral para o Serviço da Armada, a OGSA, estabelece
que Comandante é um cargo. Atualmente, a Constituição Federal
vigente estabelece que cada força seja chefiada por um Comandante.
Com a criação do Ministério da Defesa e extinção dos ministérios
Paulo de Paula Mesiano
Capitão-de-Mar-e-Guerra, Aviador Naval, Reformado
Comandante do 1º Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino
N
a Marinha temos o costume de dizer que só temos
três postos: Almirante, Comandante e Tenente. É imperioso que se diga que a carreira militar se espraia
de Oficiais Subalternos (2ºs e 1ºs Tenentes), Oficiais
Intermediários (Capitães-Tenentes na Marinha e Capitão nas outras duas Forças), Oficiais Superiores (na
Marinha: Capitães-de-Corveta; Capitães-de-Fragata e
Capitães-de-Mar-e-Guerra; no Exército e na Força Aérea: Majores,
70
Revista do Clube Naval • 356
militares, foram criados os Comandos de Força. Os Comandantes
da Marinha, do Exército e da Força Aérea são titulados como Comandantes de suas respectivas forças, são eles que têm o direito e
o privilégio de ostentar e usar esse título, porque são detentores do
mais alto cargo em cada força, responsáveis perante a autoridade
suprema das Forças Armadas, o presidente da República, por todas
as atividades setoriais da Marinha, do Exército e da Força Aérea.
Cargo, cuja etimologia nos remete às origens do termo, vem
de carregar, com dignidade, um compromisso assumido. No caso,
designa função assumida numa instituição.
Nos deparamos então, na Marinha, com essa dicotomia: Capitãode-Mar-e-Guerra, ou Capitão-de-Fragata, ou Capitão-de-Corveta x
Comandante.
Nos primórdios, na Ordenança da Marinha, ficou estabelecido
que são Comandantes os que exercem ou exerceram, ou ainda os
que estão capacitados a vir a exercer o Comando. Os outros Oficiais
são Capitães de-Mar-e-Guerra; de Fragata; de Corveta, sendo que os
médicos fazem jus por direito e tradição ao título de doutor, e, após
a 2ª Guerra Mundial, como jargão importado da Marinha Americana
também passaram a ser chamados de Doc.
Quem quer ser Comandante no Mar, frequentou a mais antiga
instituição de Ensino Superior do país, a Escola Naval, que os
preparou para a árdua e altruística função de Comando no Mar,
ou de Comandante de uma Tropa de Soldados-Marinheiros para
desembarcar à viva força em litoral hostil, fazendo a devida projeção
do Poder Naval sobre terra.
Sintetizamos a missão da Marinha como:
• Mostrar a bandeira brasileira em todos os mares.
• Fazer a deterrência.
• Exercer o domínio do mar territorial e das águas interiores.
Revista do Clube Naval • 356
• Exercer o controle do mar que nos pertence.
• Projetar poder sobre terra.
Para bem executar a sua missão, a Marinha desenvolve um
vasto programa de instrução e adestramento que é capitaneado pela
Ordenança Geral para o Serviço da Armada (OGSA), que estabelece
no âmbito do Comando da Marinha, a Organização, os Postos e
Graduações, e as Ordens Gerais, que é um Documento originário
da Instituição da Marinha, que, na época, era Portuguesa.
A nossa Ordenança tem a mesma origem das Ordenações Portuguesas.
As Ordenações e a Ordenança (inicialmente Portuguesa e posteriormente Brasileira) são coletânea de ordens, de decisões, de
normas jurídicas, e de preceitos e doutrina, aquilo que se ensina, elaboradas pelo Direito Naval (nacional) e Marítimo (internacional)
Existiram as Ordenações Filipinas (Dom Filipe I), Afonsinas
(Dom Afonso V) e Manuelinas (Dom Manuel I). O Brasil foi descoberto durante o reinado de Dom Manuel I, cognominado de o
Venturoso, sob a égide da respectiva Ordenação, e viveu seguindo
sua legislação e jurisprudência até a Proclamação da República,
quando foi prolatada a Constituição Republicana de 1891.
Quando a Corte Portuguesa veio para o Brasil em 1808, a casa
Reinante era a de Bragança, e reinava D. Maria I conhecida em Portugal como a Piedosa, e como a Louca no Brasil. Em 10 de fevereiro
de 1792, assumiu a Regência o seu filho, Príncipe Dom João VI. D.
Maria foi acometida de doença mental, devido ao falecimento do
seu primogênito, de varíola, pois ela não havia permitido que fosse
vacinado. Em depressão, surtou, numa crise branda, mas incompatível com o reinado e as atividades de chefe de Estado.
Em novembro de 1807 foi decidida a transferência da Corte e da
Família Real para o Brasil, ante a iminência do que se consumou
71
na invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas, comandadas pelo
General Junot. Ela chegou a Salvador em 22 de janeiro de 1808, e
em março do mesmo ano transferiu-se de novo, dessa vez para o
Rio de Janeiro, onde se instalou, dando ao Rio a magnificência real
e da Corte Portuguesa.
Veio com a Corte, a bordo da Nau Dom Henrique, a Real Academia de Guardas-Marinha, fundada em Portugal em 1782, à época do
reinado de D. Maria I. Foi a primeira instituição de nível superior
a se instalar no Brasil.
No período de 1788 a 1795, a Marinha portuguesa sofreu
reformas de pessoal, de material e de infraestrutura. A parte do
pessoal consistiu na regularização dos postos da Armada e na
fixação dos vencimentos, até então arbitrários, na criação da
Companhia de Guardas-Marinha, da inclusão da Academia Real
de Guardas-Marinha, da Brigada Real da Marinha e da Brigada
Real de Artilharia da Marinha.
A Armada Real era constituída de 13 naus, 26 fragatas essencialmente destinadas ao Combate (chamados de navios de linha)
e de outros navios menores, ligeiramente armados (corvetas),
num efetivo de 800 Oficiais e 20 mil homens, entre Marinheiros,
Soldados-Marinheiros (Fuzileiros) e Taifeiros.
Foi nessa época que se criaram os postos de Marinha, simplesmente Capitão, para quem comandava o navio. Até hoje, em outros
países é assim. Nos de fala espanhola, “Capitan de Navio”; na Itália,
“Capitano de Vascello”; na França, “Capitaine de Vaisseau”; nos
países de fala Inglesa, simplesmente “Captain”.
Se um Oficial, um “Capitão”, se fazia ao mar com mais de um navio, o “Capitão” do navio capital assumia o título de “Capitão-Mor”. O
“Capitão-Mor” era nomeado e designado pelo rei e tinha ascendência
sobre todos os outros Capitães. Ele ia no Comando do conjunto de
navios, que normalmente demandavam à Índia, na conquista de
entrepostos, para captação, comercial ou não, de especiarias. Muitas vezes o “Capitão-Mor” não era obrigatoriamente um Oficial de
Marinha, como ocorreu na frota que descobriu o Brasil, em que
seu Comandante, Pedro Álvares Cabral era um fidalgo da Ordem
Militar de Cristo. É dessa época que se passou a designar como
“Capitão-de-Bandeira”, o Comandante do navio em que estava
embarcado o Comandante da Frota. Surgiu então o “Capitão-deNau-de-Guerra”, modificado para “Capitão-de-Mar-e-Guerra”,
como é até hoje, na Marinha do Brasil. Os outros Capitães assumiam o nome ligado ao tipo de navio que comandavam. Assim,
“Capitão-de-Fragata”, “Capitão-de-Corveta”, todos Capitães. O
ajudante do “Capitão” era um “Tenente” que, segundo o vernáculo, é aquele que substitui o chefe na ausência deste, surgindo
aí o posto abaixo dos Capitães, o “Capitão-Tenente”. Na Marinha,
temos três Tenentes: o “Segundo Tenente”, o “Primeiro Tenente”
e o “Capitão Tenente”, com graus de responsabilidade crescente, do
“Segundo” até o “Capitão-Tenente”.
Mas a Marinha, face ao desenvolvimento de suas atividades
cada vez mais demoradas e em áreas longínquas, passou a dar um
destaque especial aos Comandantes de navios, principalmente
nos navios de guerra, colocando nas mãos do Comandante um
grande poder de decisão, mando, responsabilidade e confiança. Os
Comandantes chegaram a ter poder de vida ou morte sobre suas
tripulações, o que importava era o cumprimento da missão a ele
atribuída. Os Comandantes eram responsáveis pela disciplina, pelo
preparo, pela a segurança, pela saúde e bem-estar da sua tripulação.
O Comandante a bordo do seu navio no mar, personificava o Estado
da bandeira que ostentava no seu mastro.
Jósef Teodor Nalecz Korzeniowski nascido em 3 de dezembro
de 1857, em Berdyczew, Polônia, desde cedo se engajou na Marinha
Mercante, se naturalizou inglês, adotou o nome de Joseph Conrad
e veio morrer em Bishopboune, Inglaterra, em 3 de agosto de
1924. Aposentou-se da vida marinheira como “Captain” e passou
72
Revista do Clube Naval • 356
concede a eles o tratamento de Comandantes, mesmo sem que
eles tenham aquela espada de Dâmocles, de ser sozinho, solitário
ao tomar decisões, que podem representar o sucesso ou fracasso,
ou pior ainda: numa decisão errada pôr em risco a vida de seus
subordinados. Esse é o paradoxo ou drama do comando, seja no
mar ou em terra. É a responsabilidade do comando, que se alterna,
no convívio envolvente com os seus subordinados, expressadas
principalmente pela “Praça d’Armas” e a solidão da câmara, que o
faz protagonista de uma violenta catarse da ação, com muita tensão, que o torna agressivo, concentrando no combate, visualizando
sempre um inimigo, e se contrapondo a uma cálida e por vezes
intensa, cordial e até afetuosa omissão comportamental, com a sua
“Praça d’Armas”, a sua oficialidade, da qual é excluído pelo uso e
costume, tradicional, vivendo a solidão da sua câmara, isto é dele,
desde tempos imemoriais, e por isso ele é o Comandante.
A Marinha dá esse tratamento honorifico de “Comandante” aos
Oficiais superiores não combatentes, por querer que assumam,
como os combatentes, os Comandantes do mar, a responsabilidade
que venha se traduzir na eficiência e capacitação guerreira, desejada
para todos os Oficiais que a Marinha possui.
A Marinha precisa dos combatentes, dos guerreiros, como
precisa dos responsáveis pelo apoio logístico, pelo apoio de saúde,
pelo apoio de administração, os burocratas.
O guerreiro na linha de frente tem que contar com os logísticos, por vezes “ombro a ombro”, a bordo, e com os burocratas,
na sua retaguarda, porque o combate, a guerra, só surte efeito
com o conjunto, guerreiros x logísticos x burocratas, cada um
na sua esfera de atuação.
Todos são Oficiais de Marinha, Militares, prontos à defesa
da Pátria.
O Brasil precisa dos Comandantes e dos Capitães, como precisa dos graduados do Corpo do Pessoal Subalterno da Armada
e do Corpo de Fuzileiros Navais, precisa de todos que acreditam
no lema que se vê em todos os navios e em organizações navaismarinheiras, de apoio ou administrativas:
a se dedicar à literatura, retratando sua vasta experiência navalmarinheira, inclusive com experiência de guerra. É dele o trecho
a seguir, em que retrata o comando no mar.
O prestígio, o privilégio e as responsabilidades do
comando no mar
Somente um homem do mar percebe quando um navio, por
inteiro, reflete a personalidade e a habilidade de uma única pessoa
– a do Oficial que o comanda. Para aqueles que vivem em terra, tal
assertiva não é compreensível, e, por vezes, até mesmo para nós,
marinheiros, é difícil entendê-la... mas assim o é.
Um navio no mar é um mundo distante por si, e a Marinha, ao
considerar as prolongadas e longínquas operações das unidades da
Esquadra, coloca considerável poder, responsabilidade e confiança,
nas mãos daqueles lideres escolhidos para o comando.
Em cada navio existe um homem, solitário, que na hora da
emergência ou do perigo no mar, não pode recorrer a nenhum
outro. Alguém que, sozinho, é, em última análise, o responsável
pela segurança da navegação, pelo desempenho das máquinas,
pela precisão do tiro e pela moral do navio.
Ele é o navio.
Eis, portanto, a mais difícil e exigente missão atribuída a um
Oficial de Marinha. Não há um só momento, durante o decorrer
de seus deveres à frente de um navio, em que ele possa escapar
às garras da responsabilidade do comando. Seus privilégios,
em contraste com as suas obrigações, são ridiculamente
pequenos; contudo, é o comando no mar, o estímulo que
tem proporcionado à Marinha os seus grandes líderes.
Àqueles que exercem esse cargo, mui merecidamente lhes é outorgado o mais alto e honrado título
do universo marinheiro... o de Comandante.
A Ordenança para o Serviço Geral da Armada estabelece que quem faz jus ao título de Comandante
são os Oficiais combatentes e que têm condições de
exercer comando.
No Brasil são Oficiais combatentes os Oficiais
de Marinha, do Corpo da Armada e do Corpo de
Fuzileiros Navais, formados na vetusta Escola
Naval de Villegagnon, onde, como Aspirantes,
forjam as suas convicções navais-marinheiras,
fruto dos usos, costumes e tradições navais,
absorvidas diuturnamente e sedimentadas como
Guardas-Marinha.
A Ordenança dá aos Oficiais de Serviços, os do
Corpo de Intendentes, do Corpo de Saúde e aos do
Corpo de Administração o Tratamento do Posto
que lhes é outorgado, nas suas respectivas cartas
patentes, mas a Marinha, por extensão generosa,
Revista do Clube Naval • 356
73
O PROJETO DO SUBMARINO NUCLEAR BRASILEIRO
Fernanda das
Graças Corrêa
O
livro “O Projeto do
Submarino Nuclear
Brasileiro”, da Professora Fernanda das Graças
Corrêa, foi lançado no dia
11 de Novembro de 2010,
no Salão de Encontros
Sociais, 2º andar da Sede
Social do Clube Naval.
Nele a autora busca
levar ao conhecimento do
público em geral a evolu-
ção de uma das maiores
iniciativas tecnológicas
idealizadas e empreendidas no país, o projeto do
Submarino Nuclear da
Marinha do Brasil.
Na foto, a autora entregando um livro ao Almirante Pimentel, Diretor
Cultural do Clube Naval,
doado à nossa biblioteca.
A HISTÓRIA DA SOAMAR-RIO • 1979-2006
Teresa de Jesus
da Sede Social. Na ocasião
foi oferecido um coquetel
Pacheco
aos amigos e convidados.
Rodrigues Velho
Entre as inúmeras autoridades presentes, prestigiaram o evento o Presidente
do Clube Naval, Vice-Almirante Ricardo Antônio da
Veiga Cabral e o Presidente
da SOAMAR-RIO, Dr. Márcio
Prado Maia.
A
lançamentos
de livros no
clube naval
Professora Tereza Velho
lançou o seu livro “A
História da SOAMARRIO-1979-2006”, no dia 9 de
Dezembro de 2010, no Salão
dos Conselheiros, 4º andar
lançamentos
de livros no
clube naval
AS ÁGUAS DAS CACHOEIRAS NAVEGANDO NAS
ÁGUAS DO MAR (CARTÃO DE VISITA)
lheiros, 4º andar da Sede
Roberto Carlos
Social do Clube Naval, por
do Vale Ferreira
ocasião do almoço da sua
turma da Escola Naval.
Além dos colegas de turma,
vários amigos compareceram ao evento, entre eles
o Vice-Almirante Ricardo
Antônio da Veiga Cabral
e José Eduardo Pimentel
de Oliveira, Presidente e
Diretor Cultural do Clube
Naval, respectivamente.
O
livro “As Águas das
Cachoeiras Navegando Nas Águas do
Mar”(Cartão de Visita), de
autoria do Comandante
Roberto Carlos do vale
Ferreira, foi lançado no
dia 02 de Dezembro de
2010, no Salão dos Conse-
74
74
Revista do Clube Naval • 356
Download

CHARITAS: O PORTO SEGURO DOS VELEIROS