Conversando com a Família Práticas Narrativas
Projeto Reciclando Mentes
Conversando sobre o trauma
A abordagem narrativa no trabalho com trauma
Considerações importantes no trabalho com trauma
 A terapia narrativa acredita que ninguém é sujeito passivo de trauma e
tortura. O terapeuta narrativo deve ter como princípio básico que as pessoas
estão sempre reagindo às dificuldades, ao trauma e às consequências dos
mesmos em suas vidas.
 É trabalho do terapeuta ajudar a restaurar o senso de quem a pessoa é, sua
identidade favorita. Para isto, o terapeuta deve criar oportunidade para que
a pessoa possa falar da história do trauma, mas também da história de como
a pessoa sobreviveu ao mesmo (double stories).
 Trauma gera perda do sentido de identidade. Esta sensação de perda de
identidade faz com que as pessoas tenham dificuldade em falar/experienciar
o que é importante para elas na vida.
 Terapia/trabalhocomunitário tem como objetivo restaurar este senso
(preferido) de identidade. Para alcançar este objetivo, o terapeuta deve:
1. Identificar o que a pessoa valoriza na vida;
2. Desenvolver respostas terapêuticas que reconheçam e ricamente
desenvolvam estes valores;
3. Desenvolver histórias duplas;
4. Criar oportunidade para a prática de testemunhas externas.
 Este processo evita re-traumatizações, pois abre a possibilidade para se falar
da história completa do trauma ao invés da história do problema somente.
 Este processo é apenas uma sugestão e pode e deve ser adaptado de acordo
com o contexto de cada individuo.
Abordagem do trauma em consultório ou trabalho com indivíduos
Questionário para receber testemunhas em relação à experiência de trauma
David Denborough
1. Preparando a pessoa para a entrevista
A preparação para o processo de entrevista é extremamente importante. O
entrevistador deve:
 Perguntar onde e como a pessoa gostaria de ser entrevistada.
 Perguntar se ele/ela gostaria de trazer alguém para dar apoio (amigo,
membro da família, terapeuta)
 Se possível, enviar um convite por escrito, descrevendo a importância de se
dar um testemunho como este, como este testemunho pode contribuir para
a vida de outras pessoas.
 Oferecer a oportunidade para a FAMILIARIZAÇÃO com o processo: Se a
pessoa foi vítima de interrogatório/tortura, talvez seja importante para
ele/ela conhecer o entrevistador antes da entrevista e receber o questionário
com antecedência.
 Informar que não tem importância se a pessoa não quiser responder todas as
perguntas do questionário. Intervalos são permitidos e a pessoa pode
escolher interromper o processo completamente a qualquer altura do
questionário.
 Informar quem vai receber o testemunho, com quem o testemunho será
compartilhado e como a privacidade será mantida.
 Oferecer follow up, se possível (Você vai encontrar a pessoa de novo? Se sim,
quando e onde. Se não, explicar as razões).
2. Criando um contexto de cuidado no começo da entrevista
 Antes do começo da entrevista, mais uma vez reconhecer a importância do
testemunho, como este testemunho poderá contribuir para vida de outras
pessoas que passaram por situações semelhantes.
 Reconhecer que a pessoa que está dando o testemunho passou por
experiências traumáticas, mas ao mesmo tempo ele/ela sobreviveu a estas
experiências.
 Esta entrevista oferece espaço para a pessoa falar do problema/ trauma, mas
também das habilidades e conhecimento que desenvolveu em consequência
do trauma e como isto pode ser ensinado/passado para outras pessoas em
situações similares.
 Como informar ao terapeuta se o processo incomodar demais, o que fazer se
isto acontecer (ter um intervalo, tomar um café, voltar outro dia, interromper
o processo).
 Informar que o entrevistador irá checar regularmente como o processo está
indo.
3.
Três partes do processo de entrevista
Três partes do processo de entrevista para receber testemunhos em relação a
experiências de trauma
David Denborough
Parte I
 Você poderia dividir conosco o que você espera alcançar ao dar este
testemunho hoje? Por que você decidiu fazer parte deste processo?
 O que isto indica a respeito do que é importante para você, a respeito das
coisas que você dá valor e se importa em sua vida?
 Estas coisas sempre foram importantes para você? Qual a história delas?
 Quem não se surpreenderia em saber que você decidiu dar este testemunho
hoje? Por que? O que estas pessoas sabem a seu respeito que os levariam a
não se surpreenderem em te ver aqui hoje?
Parte II
 Você poderia nos falar sobre o trauma/tortura que você foi submetido?
Este(s) abuso(s) aconteceu/aconteceram em diferentes formas?
 Durante o período que você foi sujeito a esta injustiça, como você enfrentou
o que aconteceu? Você tentava pensar em alguma coisa enquanto o abuso
acontecia? Havia alguma memória/lembrança ao qual você tentava se
agarrar? Algum sonho? O que te sustentou durante este período terrível?
 Você usou estratégias diferentes para enfrentar diferentes formas de
trauma/tortura?
 Por que é importante para você que outras pessoas saibam sobre o que você
passou?
 Quais foram as consequências deste trauma/tortura na sua vida? Quais
foram as consequências para você como individuo? Para sua família? Para
sua comunidade?
 Quais foram as consequências mais difíceis para você? Por que você
considera estas consequências as mais difíceis?
 Existe alguma consequência constante (ainda presente) deste trauma/tortura
na sua vida?
Parte III (evocando histórias de sobrevivência e resistência)
 No começo desta entrevista, você nos falou sobre as coisas que são
importantes para você em sua vida (repita quais são estas coisas). Como você
conseguiu se manter conectado com estes valores, esperanças, sonhos,
apesar do abuso que você sofreu?
 Existe alguma forma ou formas pela qual você conseguiu reduzir o efeito do
trauma na sua vida? Se sim, como você conseguiu alcançar isto? Estas formas
de reduzir o efeito do trauma na sua vida são novas ou já existiam por algum
tempo? Qual a história disto?
 Existe alguém em especial que fez a diferença na sua vida? Se sim, o que ele
fez ou falou que foi importante para você? Por que?
 Se você conhecesse outras pessoas que passaram ou estão passando por
experiências parecidas com a sua, que conselho você as daria? Qual história
você poderia compartilhar com estas pessoas que transmitiria os passos que
você tomou ou tem tomado para superar os efeitos deste trauma?
4. Oferecendo reconhecimento/ reflexão no final da entrevista
 É muito importante que o entrevistador ofereça uma reflexão sobre o que foi
compartilhado assim que a entrevista terminar.

A reflexão deve:
 Focar na contribuição que o testemunho trará para outras pessoas em
situação similar.
 Considerar o desenvolvimento profissional do terapeuta: como o
testemunho enriqueceu a vida do entrevistador.
 Testemunha externa por parte do entrevistador: Demonstrar que o
sofrimento da pessoa não foi em vão. Recontar: repetir os aspectos mais
importantes do testemunho, como o entrevistado sobreviveu, as suas
histórias de superação sobre o trauma.
 O que isto indica a respeito da pessoa que ele/ela é.
 O que as historias compartilhadas indicam em relação aos valores,
conhecimentos, sonhos, crenças do entrevistado.
 Como o testemunho influenciou o entrevistador e trouxe mudança para
sua própria vida, trabalho ou forma de ver o mundo.
5. Escrevendo o testemunho - criação de um documento
 LEMBRE-SE: A pessoa que deu o testemunho irá ler este documento. O
mesmo deve refletir um equilíbrio entre a história do trauma/tortura e a
forma pela qual a pessoa sobreviveu/resistiu/lutou. Os dois aspectos têm que
ter um foco similar. EVITE RE-TRAUMATIZAR.
 Aspectos importantes a serem incluídos:
 Os eventos que geraram o trauma.
 Os efeitos destes eventos – efeitos na pessoa, na sua identidade, nas
suas relações e na comunidade em geral.
 As “respostas” ao trauma e o que isto indica a respeito dos sonhos,
valores, conhecimentos do entrevistado.
 Este documento pode ser compartilhado com outras pessoas em contextos
terapêuticos, em conferências, cortes, para treinar profissionais, etc.
6. Um segundo encontro com a pessoa que deu o testemunho
 Depois de escrever o documento, se possível, um segundo encontro deve ser
organizado com os seguintes objetivos:
 Ler o documento produzido através do testemunho para o entrevistado.
 Alterar/ retirar/ adicionar o que o entrevistado achar necessário.
 Pedir feedback e sugestões sobre o processo de entrevista.
 Dar uma cópia do documento ao entrevistado.
 Entregar um certificado incluindo as formas como a pessoa sobreviveu
ao trauma.
 Organizar de uma cerimônia.
7. Follow up
 Haverá contatos futuros? Como os mesmos acontecerão?
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Abordagem Narrativa do Trauma