Hegel e a Consciência Infeliz: no judaísmo, cristianismo e no ascetismo Fábio Luís Rodrigues Figueredo Especialista em Filosofia pela UNESP; pós-graduando em Psicanálise na Cultura pela Faculdade Vicentina de Curitiba luisfigueredo10@ hotmail.com Palavras-chave Hegel, Consciência infeliz, Judaísmo, Cristianismo, Ascetismo. Resumo Este artigo procura compreender porque a “Consciência infeliz” encontra-se cingida e infeliz na Fenomenologia do Espírito de Hegel. Nessa pesquisa, um caminho hermenêutico fez-se presente no filósofo Jean Hyppolite, na Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito, o qual faz um extenso comentário sobre a consciência infeliz. Para esse pensador francês, a consciência infeliz passa por três momentos decisivos: a consciência infeliz no mundo judaico, no cristianismo e no existir do asceta, seu estágio final. No judaísmo, a consciência infeliz se revelará como transcendente, em que o homem se coloca fora de sua essência, enquanto para o cristianismo a consciência infeliz terá a ilusão de ter o absoluto consigo na figura de Cristo histórico, mas essa experiência é apenas algo efêmero e fugaz e, portanto, a consciência continuará infeliz. Por último, na experiência do asceta, a consciência infeliz terá seu momento trágico da anulação absoluta de si, na tentativa desesperadora de reconhecimento, mas resultará em malogro. O mais interessante desse trabalho é perceber que, por detrás desses momentos da consciência infeliz, revelar-se-á o pensamento dialético na própria consciência-de-si, que, em seu último estágio trágico, despontará para a superação da consciência, que se descobrirá como razão. I. A consciência infeliz no judaísmo Hegel, na Fenomenologia do Espírito, no parágrafo 197, que trata da “consciência-de-si”, argumenta que a consciência se desdobra em senhor e escravo: No formar, a consciência recalcada sobre si torna-se objeto para si mesma como forma da coisa formada e ao mesmo tempo contempla no senhor o ser-para-si como consciência. Porém na consciência escrava, como tal, não coincidem esses dois momentos um com outro: o de si mesma como objeto independente (HEGEL 1992, p 134). Quando a consciência é, para si, o senhor do objeto, ela acaba vivenciando um momento de autonomia e liberdade do pensar, mas quando ela é consciência de escrava e o objeto e não é um “em si” para ela, acaba encontrando-se cingida, separada e inquieta. Hegel elaborou todo um universo conceitual para revelar seu sistema de ideias, que dificilmente são aprendidas de forma imediata. Entretanto, o filósofo francês Jean Hyppolite busca interpretar o “mover da consciência infeliz” em seus momentos. Segundo esse pensador1, esta é uma das “chaves” fundamentais para compreender Hegel, pois essa ideia de consciência cingida, duplicada e de 132 1 A consciência infeliz é o tema fundamental da Fenomenologia que se revela na Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel, na página 204. Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 cisão, perpassará no texto da Fenomenologia do Espírito. O filósofo Bento Prado Junior2 afirmava existir um movimento entre Hegel, Shelling, Kant e Fichte, que se revela numa suposta predestinação da consciência humana ao Absoluto, ou o “Ser” que chega a coincidir consigo mesmo, algo parecido com o que Hegel (1955), ao comentar o legado de Shelling na obra Lecciones sobre la historia de la filosofia”3, argumenta: “o absoluto é a identidade absoluta da objetividade com a subjetividade”. Hyppolite (1999, p. 208) revela no texto “Passagem à consciência infeliz” que a consciência contingente aponta para o ceticismo de tal forma que a consciência cética é uma contradição4. O existir dessa consciência cética revela-se de forma contraditória, pois é um mergulho absoluto na existência. No entanto, ainda não é para si, como Hyppolite revela: Os maiores metafísicos gregos – um Platão -, por exemplo – puderam ser considerados céticos porque mostravam o nada das determinações sensíveis, tal como o homem as toma ordinariamente (HYPPOLITE, 1999, p.201). É necessário fazer alusão às concepções de ceticismo e até mesmo do estoicismo, pois são momentos importantes para o entendimento da consciência infeliz5 e estruturas conceituais que se desvelam no existir cotidiano do homem. Contudo, uma referência de HYPPOLITE (1999) instaura assombro e espanto diante da pesquisa: “Toda consciência-de-si é, para si mesma, dupla: ela é ‘deus’ e o ‘homem’ no seio de uma única consciência”. O argumento anterior nos faz ir direto ao tema central desse empreendimento, que é a “consciência infeliz”, e tentar descobrir o que esse filósofo francês, estudioso de Hegel, queria afirmar com essa asserção de que na consciência habitam Deus e o homem ao mesmo tempo, e se isso era reflexo do puro romantismo da época em que Hegel viveu. Hyppolite (1999, p.209) argumenta: “para caracterizar a consciência-de-si, o que precisamos aprofundar é essa íntima cisão do eu”. A efetividade da “cisão do eu” desvela-se na “consciência infeliz”, a primeira crítica explícita ao judaísmo (1999, p.206): “a consciência da vida é uma separação da vida mesma, uma reflexão opositiva, de modo que tomar consciência da vida é saber que a verdadeira vida está ausente”. Segundo Hyppolite, a cultura religiosa judaica promoveu essa consciência cingida e separada, ou melhor, esse paradoxo que procura se elevar da contingência da vida à certeza imutável de si, mas, ao mesmo tempo, em que sobe ao absoluto, rebaixa-se na consciência do ser-aí mutável sem essência e longe de si mesma. No mesmo contexto, por que para Hegel, segundo Hyppolite, Abraão não sabia amar? 133 2 O prefácio da obra Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel foi escrito pelo então filósofo Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior. 3 É uma obra que não é de toda autoria direta de Hegel, sua primeira edição foi em 1883, a segunda em 1842 e sua primeira tradução em Espanhol foi em 1955. 4 HYPPOLITE, J. 1999, p.209: “É por isso que a consciência cética é em si a consciência de uma contradição, ainda não é para si” 5 Idem., 1999, p.202: “Consciência cética se tornará a consciência dilacerada, dividida no interior de si mesma, a consciência infeliz” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 A religião judaica tem algo sublime, mas separa o homem de Deus e rejeita a liberdade do homem existente em si. HYPPOLITE (1999, p.211) argumenta: “o senhor e o escravo são, agora, Deus e o homem”. Não estaria o judaísmo fazendo o mesmo com o amor? Esse amor no qual Abraão não sabia viver é uma caminhada oposta ao mundo grego, que amava a natureza em si, a família e os povos, sendo uma consciência do infinito nas singularidades das coisas, como demonstrou Hyppolite6. Mas para Abraão, Isaac e Jacó, o seu Deus está dado além de toda realidade finita, como revela HEGEL (1992) no parágrafo 197 da FE: Porém na consciência escrava, como tal, não coincidem esses dois momentos um com outro; o de si mesma como objeto independente, e o desse objeto como uma consciência, e, portanto, como sua própria essência. Hegel afirmará, segundo Hyppolite, que o judaísmo põe a essência fora da existência e o homem fora de Deus ao tomar consciência de sua dualidade, coloca-se sempre ao lado da “sem essência”, passando a ser um nada e seu existir uma transcendência. Porém, o homem, ao perceber que sua essência não está em si mesma, procura libertar-se dessa realidade, unindo forças para atingir o ser para si. Contudo HEGEL argumenta: “É por isso que assistimos a uma luta contra um inimigo, luta na qual só se triunfa ao sucumbir; o fato de haver chegado a um termo é antes a perda deste seu contrário” (apud HYPPOLITE 1999 p.231). Portanto, Deus é concebido como um senhor inacessível e o homem é escravo, de acordo com o parágrafo 197 da Fenomenologia do Espírito, onde nota-se um movimento da consciência-de-si independente, que se desdobra numa consciência dada apenas em um “Eu abstrato” e, por mais que consiga cultivar algo, ou perceber as diferenças, ainda assim não é essência para si, pois o objeto não coincide em si, consigo mesmo e, por isso, a consciência escrava não atingiu a consciência independente. Todavia, em Hegel, a consciência desvela-se como conflito dialético do homem, que está em busca de sua unidade, como argumenta HYPPOLITE 1999 p. 210: A consciência infeliz é a subjetividade que aspira ao repouso da unidade, é a consciência-de-si como consciência da vida e daquilo que supera a vida, mas não pode senão oscilar entre os dois momentos, como inquietude subjetiva que não encontra em si sua verdade e a reflexão de si – reflexão da vida – aparece-nos, como a elevação à liberdade. Sobre a consciência infeliz em sua passagem ao seio do cristianismo, que se revela no texto “Figura do imutável” em HYPPOLITE (1999), há a possibilidade de perceber, ainda que escape de imediato, a compreensão dessa verdade, ou seja, de que é possível sair da alienação trágica da “cisão” consciente. 134 6 HYPPOLITE, J. (1999, p.206): “o todo e a unidade estão imediatamente presentes nas partes”. Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 135 II. A consciência infeliz no seio do cristianismo Se até então a consciência infeliz no judaísmo era separação do homem entre Deus, onde o homem buscava sua essência além de si mesmo, isto é, no transcendente, todavia, no cristianismo, haverá uma mudança radical, HYPPOLITE 1999, p. 215: “o cristianismo, do qual o romantismo alemão pretende ser uma interpretação, é o sentimento – embora não seja ainda o pensamento – do infinito valor da existência singular”. Pode-se afirmar que o “Uno (ser) do além” passou ao “Uno (ser) do aquém”?7 Efetivamente, a consciência infeliz nesse momento não se fixa nos polos do além ou da consciência-em-si, mas agora se descobre como movimento que busca ultrapassar essa dualidade oposta “em si”. Entretanto, como esse movimento da consciência se revelaria na “consciência-em-si”? Essa movimentação da consciência infeliz estará inserida na própria existência singular, pois a essência da subjetividade sempre lhe escapará, como Hegel revela: “ao mesmo tempo, essa essência é o além inacessível que foge, ou, mais exatamente, já fugiu sob o gesto que quer captá-la” (HEGEL,1999, p. 215). Relevante é, segundo Hyppolite8, que a consciência quer superar a si, libertar-se do seu nada, pois o imutável só é possível na consciência singular, como o exemplo do encarnar-se do Cristo histórico. O imutável não é mais “o transcendente”, mas está unido ao ser e é nesse instante que Hyppolite faz uma interpretação estritamente deísta: “a unidade se produz para essa consciência – unidade do Universal e do Singular, da consciência imutável e da consciência mutável – tal unidade é a encarnação de Deus, a figura do Cristo histórico” (HYPPOLITE, 1999, p.216). Estaria Hyppolite interpretando esse segundo momento da consciência infeliz com excessiva ênfase na questão religiosa? Hyppolite usa algumas estruturas teológicas para interpretar Hegel que, ao sair do seminário de Tubingen, demonstra essa tendência em seus primeiros escritos juvenis, como por exemplo, a consciência infeliz vive três momentos, que são o reino do pai, o reino do filho e o reino do espírito, tais que no primeiro a consciência singular não coincide com o imutável, como no judaísmo, e Hegel9 argumenta: “o primeiro imutável é para ela apenas a essência estranha que condena a existência singular”. Num segundo momento, o reino do filho é o Deus que tornou a forma singular de existir em Cristo e, por último, o reino do espírito que é a reconciliação por meio da qual a consciência infeliz será superada10, segundo Hegel. Todavia, qual seria a crise que a consciência infeliz viveria em seu segundo momento? No cristianismo, a consciência revelar-se-á como consciência infeliz, porque essa relação com o imutável é uma imediatividade efêmera: “os discípulos viram Cristo, entenderam seu ensinamento, 7 HEGEL apud HYPPOLITE, 1999, p. 215. 8 HYPPOLITE, J. 1999, p.208: “Tal é o sentido dos estudos de Berna e, sobretudo, de Frankfurt [...] O espírito do cristianismo e seu destino” 9 HEGEL apud HYPPOLITE, 1999, p.216. 10 Idem., 1999, p.216. Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 e, por uma vez, o divino manifestou-se no mundo; mas então desapareceu no tempo e a consciência-de-si soube que o ‘próprio Deus morrera’” (HYPPOLITE, 1999, p. 217). Deus está “morto”, porque a consciência não consegue captá-lo na imediatividade, pois desaparece no tempo e espaço, permanecendo absolutamente afastado, segundo Hegel11. Entretanto, Hegel, diante do cristianismo, terá uma posição incerta, ao que parece ser fonte de contradições na consciência, isto é, da relação entre o universal e singular. No entanto, segundo Hyppolite12, esse movimento da consciência infeliz na religião cristã provocará um aprofundamento da consciência subjetiva, tal como Hegel revela: Surgiu assim, para nós, uma nova figura da consciência-de-si: uma consciência que é para si mesma a essência como infinitude ou puro movimento da consciência: uma consciência que pensa, ou uma consciência-de-si livre (HEGEL,1992, p,134). Será que realmente existe essa consciência-de-si como essência da infinitude que é livre e pensante? É o que se busca na última parte do desenvolvimento da consciência infeliz que revelará no mundo do ascetismo até que ponto essa consciência pode se anular em si para libertar-se dialeticamente no Si universal. III. A consciência infeliz em sua última etapa. A revelação original de Hegel é seu pensamento dialético no existir da consciência-de-si em seus “momentos”. A consciência infeliz não está fadada a ser para sempre em si cingida ou duplicada, mas no seu perder-se acaba encontrando-se em si. Para HYPPOLITE (1999), a “consciência-de-si” só se torna pensante quando vem a ser objeto para si mesma. Hegel argumenta: Pois pensar não quer dizer ser objeto em si mesmo como eu abstrato, mas sim como eu que tem, ao mesmo tempo, o valor do ser-em-si, ou se comportar diante da essência objetiva de tal modo que tenha o valor do ser-para-si da consciência (apud HYPPOLITE, 1999, p.195). Para Hyppolite13, a certeza de si revela-se como negatividade, pois ela nunca pode ser em si sem perder a si mesma. Por isso, incessantemente, a consciência-de-si busca sair de si, tornar-se outra: “a consciência-de-si se põe à prova como uma consciência mutável […] a qual sempre falta alguma coisa para ser verdadeiramente ela mesma” (HIPPOLITE, 1999, p.219). Portanto, a consciência infeliz revela-se no desenvolvimento da subjetividade, que renuncia a si mesma e, nessa negação de si, instaura uma objetividade do “em si para si”, ou do “para si em si”, ou melhor, uma substância do “vai 136 11 HYPPOLITE J. 1999, p. 217: “pela natureza do Uno unido do ser, pela realidade efetiva que assumiu, ocorre necessariamente que tenha desaparecido no curso do tempo; e que, no espaço, tenha-se produzido numa distância afastada e permaneça absolutamente afastado” 12 Idem., 1999, p.208: “Tal é o sentido do estudo de Berna e, sobretudo, de Frankfurt [...]” 13 HIPPOLITE, J. 1999, p.218: “ora a certeza de si não pode ser em si sem perder-se a si mesma, sem tornar-se coisa: ela é a perpétua superação rumo a uma adequação consigo que nunca é dada.” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 e vem” e que não se torna sujeito independente em si mesma, como aquilo que ela é. Essa reconciliação com o absoluto, segundo Hyppolite do “em si” e “para si”, filósofos contemporâneos não aceitarão no sistema de Hegel14. Entretanto, recusam a ontologia hegeliana, mas não sua fenomenologia e muito menos a dialética, tal como: “consciência-de-si que atinge seu apogeu na figura da consciência infeliz foi somente a dor do espírito lutando para elevar-se novamente à objetividade, porém, sem atingi-la” (1999, p.220). O importante nessa fase é retomar o percurso da consciência infeliz em si para entender o seu último momento. Na consciência judaica, a existência humana era um vão esforço para superar o seu nada, posto como um deus transcendente e abstrato. Mas por que no cristianismo, o Cristo histórico, a encarnação do Absoluto com a singularidade em si, não superou o existir da consciência infeliz? Hegel, na Fenomenologia do Espírito, revela a indagação anterior: “o imutável tornou-se singularidade pensante, consciência-de-si, mas, diante da consciência infeliz, está posto ainda como um ‘uno sensível e opaco, com toda rigidez de uma coisa efetiva’” (HEGEL,1999, p. 221). Para Hyppolite, “a presença de Cristo ainda não é uma imanência do espírito” (1999. p220) e, portanto, a consciência infeliz continua dilacerada: O sentimento que essa consciência tem do divino, porque é só sentimento, é um sentimento esfacelado: não se encontra a si mesmo nem se possui como uma verdade autêntica, uma verdade que seria imanente à consciência-de-si e seria seu próprio saber (HEGEL, 1999. p. 222). Portanto, a consciência-de-si permanece infeliz, pois seu fundamento da unidade do imutável com o singular continua um além de si mesmo. Hegel, decisivamente, revela sobre essa questão: “entre a noite vazia do além suprassensível e a aparência colorida do aquém sensível, sem poder entrar definitivamente no dia espiritual da presença” (apud. HYPPOLITE. 1999, p. 223). Dialeticamente, a consciência, ao ter a experiência existencial deste Deus que estaria morto, como a dor dos discípulos diante da cruz, sabendo do desespero dolorido de não ser possível tal intento “transcendente”, deve cessar-se e superar-se, voltando para ao mundo do aquém. No entanto, o que seria esse regressar da consciência a si mesma? A consciência vai buscar, sobre o mundo, a realização de sua unidade com o imutável e pelo trabalho chegará a essa comunhão, pois ao renunciar sua essência fora de si, ela acabou encontrando-se em si mesma e, justamente por isso, procurará em si, afirmando sua certeza de si sobre o mundo, no desejo, no trabalho e no gozo15. No efetivo do mundo real ela revela-se em unidade com 137 14 Idem., 1999, p.219: “que tal reconciliação, que tal síntese do em-si e do para-si seja possível, é precisamente o que não admite a maior parte de nossos contemporâneos, aí residindo a crítica por eles feita ao sistema hegeliano como sistema. 15 Idem., 1999, p. 224: “O mundo só está aí para lhe fornecer a ocasião de encontrar-se a si mesma e de pôr-se para si com ela é em si.” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 o imutável, pois é seu desejo chegar à comunhão com o absoluto, como Hyppolite diz, citando Hegel: Tal realidade efetiva é figura do imutável, pois o imutável recebeu em si a singularidade, e, sendo um Universal enquanto imutável, sua singularidade tem, em geral, a significação da realidade efetiva em sua integralidade (apud HYPPOLITE, 1999, p. 225). Essa descrição do existir dessa estrutura deísta aponta para uma realidade que o homem afirma existir para ele. Todavia, essa verdade vem do incondicionado, universal, tal como Hegel argumenta: “esse lado pertence ao além imutável e está constituído pelas aptidões e pelos poderes eficazes da consciência e para que dele faça seu uso” (apud. HYPPOLITE, 1999, p.226). É importante saber que Deus é revelado na Fenomenologia do Espírito como Universal ou imutável: “a consciência humana se põe como a consciência escrava e sua essência, o senhorio, está além de si, em Deus, que Hegel sempre denomina aqui como o imutável ou o universal” (HYPPOLITE, p. 226). Para a dialética hegeliana, negação não é apenas negação, mas como argumenta o filósofo italiano MONDIN, um poder portentoso do negativo16. O que então vai imergir da consciência infeliz nesse momento da negatividade? HIPPOLITE 1999, p. 227, argumenta decisivamente sobre isso: Tal reconhecimento de Deus como o único que age é ação essencial do homem. Assim como o escravo reconhecia o senhor e punha-se a si mesmo enquanto escravo, também a consciência humana se põe como passiva, como dependente: renuncia à sua dominação; porém, por meio de uma reviravolta dialética que já se apresentou diversas vezes, a humilhação do homem, que tudo atribui à graça e nada concede a si mesmo, é, de fato, uma elevação. Assim, é o próprio homem que põe Deus, reconhece o senhor, mas o reconhecimento emana dele; ali onde se põe como o mais baixo é o mais elevado [...] glorifica a Deus e nega essa liberdade do homem, mas esta é sua maior ação. Instaura-se nesse momento um ponto nevrálgico, pois, como a consciência se aliena em si, aceita sua condição de escrava e, mesmo assim, afirma-se como autonomia. Não seria isso um paradoxo? Segundo o texto, a subjetividade do homem não pôde por em si sua liberdade absoluta sem essa renúncia de si, mas esse seu fazer resignado é algo puramente que vem de si mesmo. Portanto, é obra de seu ser, pois, na verdade, o que a consciência infeliz vivencia é como o escravo que se vê, fora de si mesmo, como senhor. Mas tal posição de si fora de si é um transcendental que continua a ser ela mesma. Porém, essa consciência infeliz revelar-se-á em si como a do asceta que aponta para a continuidade infeliz da consciência. É o santo estoico que busca renunciar a tudo em busca de uma consciência mais profunda, pelo ascetismo que resulta em alienação da vontade em si, e move-se a partir de “conceitos” principalmente 138 16 MONDIN B. 1983, p. 40. “Não se trata, é bom notar, de função puramente negativa; mas essencialmente afirmativa; por isso Hegel fala do “poder portentoso do negativo” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 teológicos. Mas o que seriam os conceitos para Hegel? Na Fenomenologia do Espírito, revela-se: Para pensar, objeto não se move em representações ou figuras, mas sim em conceitos, o que significa: num ser-em-si diferente, que imediatamente para a consciência não é nada diferente dela. O representado, o figurado, o essente como tal, tem a forma de ser algo outro que a consciência, mas um conceito é ao mesmo tempo, um essente (...) o conceito é para mim, imediatamente, meu conceito (HEGEL, 1992, p. 152). Hyppolite argumentava que em Hegel a liberdade nesse momento da consciência infeliz não era se tornar senhor ou escravo17, mas impor-se como ser pensante, algo que também Hegel revela: “possa acompanhar a todas as minhas representações, pensar é conceber; ora, o conceito é ao mesmo tempo um ser-em-si distinto e meu puro ser-para-mim” (apud, HIPPOLITE, p.195). Portanto, esse fragmento que revela um pouco do que é o estoicismo segundo Hyppolite (1999): “identidade do pensamento e vontade que a liberdade estoica representa”, também revela que o conceito é algo em si vivente, o qual emana da consciência-de-si, pois o em si nada mais é do que o próprio ser para si em seu outro momento, mesmo que o seja ainda em sua fase de puro pensamento. Todavia, a consciência infeliz, em seu último momento, continuará cingida em si? Hyppolite 1999, p. 229, argumenta: O terceiro momento será, portanto, a consciência que alma toma de seu nada em face do Universal (...) o asceta cristão corresponde ao sábio estoico (...) consciência do caráter vão de seu Si, sua operação efetiva tornou-se nula, seu gozo tornou-se o sentimento de sua infelicidade. O existir do asceta cristão, segundo Hyppolite, é uma grande contradição, pois a consciência infeliz nesse estágio jamais irá se libertar, pois carrega consigo o sentimento da culpabilidade, como também Hegel afirma. Esse sentimento de culpa que o homem religioso carrega em si mesmo promove o ressentimento existencial, porque ao invés dele afirmar seu existir como autonomia, acaba refugiando-se na consciência infeliz cingida e longe de si. Entretanto, essa negação de si, na dialética hegeliana, terá outro sentido, como Hyppolite argumenta: “tal negação de si, porém, se realiza pela mediação do imutável, e a relação negativa obtém enfim uma significação positiva” (1999, p. 229). Qual seria essa significação positiva? É a completa negação de si, para que possa se encontrar com o absoluto, como argumenta Hegel: Para a consciência infeliz, o ser-em-si é o além dela mesma. Nela, porém, seu movimento implementou isto: pôs a singularidade em seu desenvolvimento, ou a singularidade que é a consciência efetiva, como o negativo a de si mesma; quer dizer, como o extremo objetivo. (apud. HYPPOLITE, p. 229). 139 17 HYPPOLITE J. 1999, p. 195: “Ser livre não é ser escravo ou senhor, se encontrar localizado nesta ou naquela situação no seio da vida; ser livre é comportar-se como ser pensante, quaisquer que sejam as circunstancias.” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 Ao negar o singular, a consciência por si mesma acaba conduzindo ao Si universal, ou melhor, à relação dialética com o absoluto imanente, a relação de alteridade com outro, que é a consciência no lutar por seu reconhecimento. Na verdade, é preciso que essa experiência drástica do anular-se, para que ela se encontre no ser-para-si do em-si, que será o espírito18, isto é, a relação com o absoluto ou com outros homens seria o grande espelho do qual o homem busca afirmar-se e reconhecer-se enquanto tal. O que resta então da consciência infeliz nessa última fase? Até mesmo o fruto de seu trabalho e o gozo acaba renunciando com os dons e jejuns, segundo Hyppolite19 1999, p.230. Portanto, a consciência infeliz no interior da religiosidade em geral continua cingida, esfacelada, longe de si mesma. Porém, esse existir apontará para outras situações de superação na Fenomenologia do Espírito, tais como: As cerimônias da Igreja em latim e os ritos – Assim, em proveito de uma igreja, a consciência-de-si alienou completamente sua liberdade interior e exterior. Porém tal vontade singular negada, assim religada ao Universal, é em si a Vontade Universal. A essa passagem da Igreja à Razão voltaremos no capítulo seguinte: “a Razão e o idealismo” (HYPPOLITE, 1999, p. 230) Hyppolite revela a miséria da consciência infeliz em seu estágio religioso. Entretanto, no capítulo “Razão e Idealismo”, ela aponta para uma superação da consciência nesse estágio de infelicidade, ao negar a si mesma. Assim como também na Fenomenologia, Hegel revelará: Consciência, sua própria homônima, que se repele de si mesma, torna-se para si elemento em-si-essente; mas, para si, só é esse elemento como essência universal em geral; não como esta essência objetiva no desenvolvimento e no movimento de seu ser multiforme (HEGEL, 1992, p.135). A consciência estoica, segundo o texto anterior, vive o mesmo drama da consciência infeliz. Ela deixa de vivenciar o que é de mais importante no ser humano, o movimento de sua consciência concreta e multiforme, que se revelará quando tiver encontro com o “logos”, a razão. Mas é a partir dessa experiência conflituosa de busca e reconhecimento que despontará o ser da razão. A consciência teve que passar pela noite vazia, em que “os gatos podem ser pardos”, para dar à luz a presença efetiva da consciência para si, ou como tão bem Hegel argumenta: A consciência-de-si que atinge seu apogeu na figura da consciência infeliz foi somente a dor do espírito que lutava para se elevar novamente à objetividade, mas que não a atingia. A unidade da consciência-de-si singular e de sua essência imutável, unidade a que se dirige a consciência-de-si, permanece, portanto, um além de si mesma. O ser-aí imediato da razão, que para nós brota dessa dor, e suas figuras particulares, não contêm nenhuma religião porque a consciência-de-si se sabe, ou se busca, na presença imediata (apud. HYPPOLITE, 1999, p.237). 140 18 Id., 1999, p. 229: “é preciso que o Si ser-para-si, se aliene e se torne unidade dos Sis, o Si universal que encontra a si mesma no ser” 19 “Enfim, renúncia à sua própria independência, ao prestar-se a fazer aquilo que não compreende” Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 141 Em suma, consciência infeliz em seus momentos trágicos são apenas momentos dialéticos de sua superação, isto é, o movimento dialético na consciência é como a parturiente que força o parto para dar vida do ser em si para si, na presença efetiva e imediata do existir do homem enquanto ser livre e independente. Anais do seminário dos estudantes de pós-graduação em filosofia da UFSCar 2014 10a edição ISSN (Digital): 2358-7334 ISSN (CD-ROM): 2177-0417 142 Bibliografia GURVITCH G. Dialética e Sociologia. São Paulo: Editora Vértice, 1961.. HEGEL F. W. G. Fenomenologia do Espírito. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1992. HYPPOLITE J. Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Discurso editorial. 1999. KOJÈVE A. Introdução à Leitura de Hegel. EDUERJ, 2002. MONDIN B. Curso de Filosofia. São Paulo: Editora Paulus, 1982.