Legislação, Laudos Periciais e Processo de Demarcação de Terras Indígenas: Relato de Experiências sobre o ensino de Ciências Sociais no Curso Normal Médio Povos do Pantanal. Alisson de Souza Pereira Msc. Carlos Alberto Panek Jr. Introdução O presente artigo foca-se em apresentar os resultados da 1º encontro de Pólo do Curso Normal Médio Povos do Pantanal, realizado em Campo Grande/MS e ocorreu de 05 a 11 de Junho de 2011. Nesse encontro cumpriram-se as metas do componente curricular de Ciências Socias, especialmente tratando-se de legislação indígena e demarcação de terras indígenas. Com o objetivo de discutir as práticas de ensino em Ciências Sociais e legislação, este trabalho apresentará um panorama das discussões realizadas no Curso Normal Médio Indígena Povos do Pantanal/ SED-MS referentes ao ensino de Legislação, Laudos Periciais e Processo de Demarcação de Terras Indígenas. O curso de Formação teve inicio no ano de 2007 e seu término de sua primeira turma em 2010, com 106 cursistas matriculados das etnias Guató, Atikum, Ofayé, Kinikinau, Kadiwéu e Terena. No ano de 2011, iniciou-se uma nova turma do curso agora com 40 cursistas. O curso de formação foi estruturado a partir dos seguintes componentes curriculares: Ciências Sociais; Língua e Lingüística; Matemática; Metodologias de Ensino; Ciências da Natureza e Cultura dos Indígenas da região do Pantanal desenvolvidos em diferentes etapas.Dessa forma, a partir de uma perspectiva multidisciplinar, reunindo dos conhecimentos do Direito, Antropologia, História, Arqueologia e Geografia, o primeiro Encontro de Pólo da II Turma do Curso Normal Médio Indígena Povos do Pantanal, abordou os seguintes temas: • História e Educação Escolar Indígena • 6001/73 - Estatuto do Índio • Lei 9.394 - Diretrizes e Bases da Educação Nacional • Lei 10.172 – Plano Nacional de Educação • Resolução 03/99 – Conselho Nacional de Educação • Paracer 14/99 – Conselho Nacional de Educação • Decreto 26/91 – MEC – Educação Escolar Indígena • Declaração da ONU sobre o direito dos povos indígenas • Deliberação 6767/2002 – Fixa as normas para a Escola Indígena • Processo de demarcação de terras indígenas (Laudos Periciais) Atividades Assim, com a finalidade de proporcionar discussões acerca da legislação indigenista vigente no Brasil e o processo de demarcação de terras indígenas, foram realizadas três dias de grupo de trabalho com o objetivo de: • Informar os cursistas sobre a questão das demarcações de terras indígenas no Estado de Mato Grosso do Sul; • Debater sobre os laudos antropológicos e sua importância em um processo de demarcação; O grupo de alunos que executaram os trabalhos sobre a questão de demarcação de terras indígenas e laudos antropológicos foi composto pelos cursistas Ariane Gomes Betelho, Quintino Pereira Mendes , Alda Marilene A. dias, Levi Elevison Vicente, Maria Clementina e Laércio Marques . Assim, após a divisão dos grupos de alunos, foram desenvolvidas atividades na seguinte sequencia abaixo: 1º dia Manhã e tarde Primeiramente foi apresentado um breve histórico sobre terras indígenas no Brasil: Desde o “Descobrimento” do Brasil, afirmando a presença indígena anterior a chegada dos portuguese. Após isso, algumas informações sobre as Capitanias Hereditárias e os interesses da coroa portuguesa na posse da terra; posteriormente foi feito o estudo e análise do texto da Lei de Terras de 1850 e suas consequências em relação aos territórios tradicionais indígenas. Foram apresentadas também as principais formas de esbulho durante a história do Brasil - Atuação do Serviço de Proteção ao Índio, avanço da agropecuária, Bugreiros etc. Serviço de Proteção ao Índio: Após anos de supressão dos povos indígenas pela sociedade não indígena, o governo republicano no início do século XX viu-se obrigado a tomar providências em relação aos problemas das populações indígenas. Nessa mesma época, envidenciaram-se alguns conflitos entre indígenas e fazendeiros, estes que contratavam os conhecidos “bugreiros”, que eram matadores profissionais de “brugres”, denominação pejorativa dada as pessoas indígenas. A missão desses bugreiros eram “limpar” o terreno, agora de posse do fazendeiro. Tempo de camaradagem ou cativeiro. Foi explanado aos cursistas sobre o período de cativeiro ou “camaradagem”. Esse perído consiste na situação vivida pelas populações indígenas do Brasil, no qual elas trabalharam em fazendas e ficavam a mercê dos fazendeiros por dívidas por conta do uso do maquinário, alimentação e/ou moradia. Finalizando as atividades do primeiro dia sobre histórico desde antes da Tríplice Aliança e suas implicações da guerra na ocupação das terras indígenas; Territorialização e re-territorialização. 2º dia Manhã e tarde O segundo dia de atividades iniciou-se com o estudo em grupo da Constituição de 1988 e sobre os direitos sobre as terras indígenas garantidos pela carta. Foi apresentado aos cursistas um diagnóstico sobre as atuais condições das terras indígenas no Mato Grosso do Sul e sua situação jurídica, destacando as Terras Indígenas de Buriti, Cachoeirinha e Ñanderú Marangatu. Foi explanado aos cursistas as principais etapas de um processo de demarcação, respeitando a seguinte sequência: Formação do Grupo de Trabalho (técnico), Laudos Antropológicos e procedimentos da demarcação de terras indígenas tais como: estudos de identificação, aprovação do laudo pela Fundação Nacional do Índio, contestações, declarações dos limites da terra Indígena, demarcação física, Homologação e Registro. Foi interessante a participação de alguns cursistas que participaram como informantes aos GT's da FUNAI em áreas em processo judicial como em Dois Irmãos do Buriti/Sidrolândia e Miranda. Realizou-se também uma discussão sobre o que a imprensa veicula sobre a questão da demarcação de terras indígenas no Estado de Mato Grosso do Sul. Como recurso, foi utilizado o material de pesquisa do Centro de Documentação Povos do Pantanal. O Centro de Documentação Povos do Pantanal é um projeto que visa proporcionar o registro, preservação, divulgação e publicação de documentos publicados por jornais, revistas impressas e eletrônicas e websites que tenham como tema os povos indígenas do Mato Grosso do Sul, assim como conceder suporte a pesquisas acadêmicas em trabalhos relacionados a formação de professores indígenas. O centro de documentação conta com a participação e colaboração de profissionais de diferentes áreas do conhecimento ( antropologia, arqueologia, história e geografia) e os cursistas indígenas do Centro Estadual de Formação de Professores Indígenas. Os alunos puderam ler e estudar as notícias e videos que compõe o acervo do Centro. Atividade essa foi um ponto de partida para um discussão sobre a formação de estereótipos e como a imprensa participa desse processo. Como foi notado pelos cursistas, boa parte das notícias continham elementos preconceituoso ou esteotipados da pessoa indígenas e das comunidades, ou apresentando aspectos de violência e de (como noticiado) “selvageria”. 3º dia O terceiro e último dia de atividades teve como objetivo a apresentação do grupo de trabalho, expondo aos colegas o que foi abordado nos dias anteriores. Para isso, os cursistas apresentaram uma encenação sobre processo de demarcação de terras no qual cada cursista fazia o papel de um personagem importante no processo ( antropólogo, arqueólogo, biólogo, geográfo, cacique, comunidade, fazendeiro etc). Atividade divertida e envolvente na qual os cursistas puderam visualizar com mais facilidade como é o processo de demarcação e ter uma ideia dos procedimentos para o levantamento de informações na comunidade e na área em processo. Essa atividade foi seguida de um explanação sobre as etapas do processo de demarcação de terras e da importância dos laudos periciais. Apresentação de vídeos e notícias sobre o que é veiculado na mídia (Televisão, Jornais e Internet) sobre a questão da terra no Mato Grosso do Sul. Atividade concluída com alguns relatos de experiências de cursistas que estavam em situações de retomada de terras indígenas. Tempo Escolar na Comunidade (TEC) Com a finalidade de melhor fixar os conhecimentos trabalhados na etapa presencial, o curso proporcionou o Tempo Escolar na Comunidade. Foi o período em que o cursista desenvolveu suas atividades relacionadosem sua comunidade de origem tendo um acompanhamento pedagógico. O TEC envolveu ações e reflexões pedagógicas sobre as terras indígenas no Mato Grosso do Sul. O TEC serviu também para direcionar a temática das terras indígenas para futuras práticas pedagógicas envolvendo educação escolar indígena e o direito a terra. No caso de Alex Fernandes, o cursista expôs uma situação na qual foi funcionário em uma fazenda e ficou individado com o fazendeiro, dívida essa relativa ao uso do maquinário do fazendeiro na colheita de algodão, no município de Sidrolândia, em sua juventude. Esse período na história é conhecido como época do cativeiro ou “Camaradagem”, fato esse muito corriqueiro no meio rural brasileiro. (BITTENCOURT, 2000) 2. MEMÓRIA DO DIA A cada dia alguns cursistas eram responsáveis pelo registro das atividades que foram realizadas seja em língua portuguesa ou nas línguas indígenas presentes no curso. Campo Grande, 10 de Junho de 2011 As 8:00 da manhã teve inicio com a leitura do caderno de memória na língua terena pelo aluno Laudinilson. Em Seguida a professora Macedônia com a reflexão do dia. O grupo do professor Alisson com seus alunos iniciou a apresentação com o assunto sobre demarcação das terras indígenas. Laerceo começou falando sobre a reunião das terras indígenas em Dourados depois mostraram uma foto dos índios de Dois Irmãos do Buriti e continuaram falando sobre a lei de terras. O nosso colega João Carlos concluiu com uma frase dizendo: Não conseguiram nos extinguir. Nós estamos armados com a legislação e buscaremos o que perdemos. Cortaram nossos troncos mas esqueceram de matar nossa raiz. Depois teve uma apresentação do grupo demonstrando como é quando reivindicar nossas terras. Deu inicio 13:00 horas da tarde continuamos falando sobre demarcação da terra o professor Alisson passou alguns vídeos falando sobre as terras indígenas. Para finalizar foram apresentados fotos das aldeias indígenas: aldeia cachoeirinha; aldeia água azul; aldeia córrego seco; aldeia bananal; aldeia Brejão; aldeia Ofayé; aldeia Lalima e aldeia Mãe Terra. Concluindo, pode-se dizer que após essa estapa do Curso Normal Médio Indígena Povos do Pantanal os cursistas poderão observar a questão indígena e a situação dos territórios tradicionais também pelo prisma do direito/legislação vigente no país. Esse direito – da terra – é essencial na reprodução física e cultural dos povos indígenas brasileiros e garantido por lei. “Cortaram nossos troncos mas esqueceram de matar nossa raiz.” Referências Bibliográficas AZANHA, Gilberto. As Terras Indígenas Terena no Mato Grosso do Sul. Disponível em http://www.funai.gov.br/projetos/Plano_editorial/Pdf/REP2-1/cap_03.pdf acessos em 18 fev. 2009 ___________A Lei de Terras de 1850 e as Terras dos Índios. Disponível em http://www.otca.org.br/normaslegales/arquivo1/terrapdf.pdf acessos em 11 de junho de 2011. PEREIRA, Levi Marques. Os Terena de Buriti: Formas Organizacionais, territorialização e representação da identidade étnica. Editora UFGD. Dourados/MS, 2009 BITTENCOURT, Circe Maria. LADEIRA, Maria Elisa. A História do Povo Terena. Brasília. MEC, 2000. COHN, Clarice. Dossiê Belo Monte. Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCAR. v.2, nº2. São Carlos, 2010. OLIVEIRA, Jorge Eremites. PEREIRA, Levi Marques. “Duas no pé e uma na bunda”: da participação terena na guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança à luta pela ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti. Revista Eletrônica História em Reflexão: v. 1, n.2. UFGD. Dourados. 2007. 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