VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino CAMPO TEÓRICO CURRICULAR, TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS E PRÁXIS DOCENTE: CONSTITUIÇÃO E INFLUÊNCIA VIVIANI ANAYA - PUC/SP [email protected] CÉLIA REGINA TEIXEIRA - UFPB [email protected] RESUMO Esta produção tem como objetivo assinalar a inter-relação existente entre teorias curriculares, tendências pedagógicas e práxis docente, bem como discutir que as ações que se encontram no bojo da prática do professor em sala de aula refletem a teoria curricular que a embasam. Desta forma, considera-se o currículo, tendência pedagógica e práxis docente enquanto elementos articulados, podendo ser ressignificadas de acordo com os interesses ideológicos, políticos e sociais pertencentes ao seu contexto social. PALAVRAS-CHAVE: Currículo. Teorias Curriculares. Tendências Pedagógicas. Práxis Docente. Formação de Professores. FIELD THEORY CURRICULUM, TRENDS AND PRAXIS EDUCATIONAL TEACHING: CONSTITUTION AND INFLUENCE. ABSTRACT This production aims to point out the interrelationship between curriculum theories, trends and pedagogical teaching praxis, as well as discussing the actions that are at the core of teacher practice in the classroom reflect the theory that underlie curriculum. Thus, it is considered the curriculum, pedagogical trend and teaching praxis as articulated elements, and can be re-signified according to the ideological interests, political and social belonging to their social context. KEYWORDS: Curriculum. Curriculum theories. Pedagogical trends. Praxis Teacher. Teacher Training. 1. INTRODUÇÃO Este artigo propõe-se a delinear a constituição do campo teórico curricular enquanto palco de ações e práticas. Assim, pode-se admitir a existência de vários ângulos de abordagens do campo teórico, definidores das teorias de currículo e das tendências pedagógicas. Uma história de currículo escolar, enquanto dimensão histórica social, de acordo com Goodson (1995), é centrada numa epistemologia social do conhecimento escolar, preocupado 1 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino com os determinantes sociais e políticos do conhecimento educacional organizado, deve procurar descobrir os conhecimentos, valores e habilidades considerados verdadeiros e legítimos em determinada época, assim como investigar de que forma essa validade e legitimidade foram estabelecidas. Portanto, “[...] as práticas e as palavras têm sua história e refletem as atividades nas quais forjaram os significados que arrastam até nós, projetando-se em nossas ações e pensamentos, na forma de dar sentido à experiência”, conforme Sacristàn (1998, p. 119). Referido pressuposto está ancorado no princípio de que uma teoria sistematiza e fundamenta decisões epistemológicas correspondentes a um conjunto organizado de análise, interpretação e compreensão dos fenômenos curriculares. Neste contexto, para efeito de entendimento, as teorias curriculares estão subdivididas em Teorias Tradicionais, Críticas e Pós-Críticas. Nesta conjuntura, uma teoria curricular define-se pelos conceitos que utiliza para conceber uma realidade, pois os “[...] conceitos de uma teoria organizam e estruturam nossa forma de ver a ‘realidade’. Neste sentido, uma forma útil de distinguirmos as diferentes teorias do currículo é através do exame dos diferentes conceitos que elas empregam” de acordo com Silva (2004, p. 17). Desta forma, a análise dos conceitos que compõem as teorias curriculares nos permite observar certas coisas que, sem eles, não veríamos. Assim, ao se enfatizar determinados conceitos, novos contornos são dados ao currículo manifesto e, conseqüentemente, à formação do homem e da sociedade. Ao mesmo tempo em que se constitui o campo teórico curricular, a história das tendências pedagógicas está relacionada ao aparecimento do ensino, no decorrer do desenvolvimento da sociedade, da produção e das ciências, como uma atividade intencional e planejada, dedicada à instrução. Assim, as tendências pedagógicas podem ser classificadas em dois grandes grupos: as de cunho liberal – pedagogia tradicional, pedagogia renovada e tecnicismo educacional – e as de cunho progressista – pedagogia libertadora e pedagogia crítico-social dos conteúdos. Neste contexto, as tendências pedagógicas que se encontram no bojo da prática do professor em sala de aula refletem a teoria curricular que a embasam, considerando que currículo, tendência pedagógica e práxis docente estão articuladas, sendo ressignificadas de acordo com os interesses ideológicos, políticos, culturais e sociais pertencentes ao contexto social analisado. 2 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 2. TEORIAS CURRICULARES, TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS E PRÁXIS DOCENTE Vale ressaltar que as Teorias Tradicionais sobre currículo surgiram nos Estados Unidos, no momento em que a preocupação com a manutenção de uma identidade nacional, desencadeada por sucessivas ondas de imigração, bem como o crescente processo de industrialização e urbanização, estabelece o currículo como campo especializado de estudos. Inserido neste contexto, Bobbitt, em 1918, escreve o livro The Curriculum, buscando responder questões vitais sobre a finalidade e os contornos da escolarização de massas. Na sua obra, Bobbitt propunha que a escola funcionasse nos mesmos moldes de uma empresa, tendo como palavra chave, eficiência, estruturada tal e qual a proposta por Taylor, na Escola de Administração Científica. Os estudos de Taylor, baseados em experiências reais de trabalho, dirigiram-se mais à análise dos métodos de racionalização dos afazeres, a fim de melhorar a qualidade de vida dos empregados, mediante o aperfeiçoamento dos métodos e procedimentos de tarefas. O modelo de currículo proposto por Bobbitt consolidou-se definitivamente em 1949, no livro publicado por Ralph Tyler, intitulado Princípios Básicos de Currículo e Ensino, centrado, essencialmente, nas questões de organização e desenvolvimento, tendo como eixo quatro questões básicas necessárias para a elaboração do currículo: 1) que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir? 2) que experiências educacionais podem ser oferecidas que tenham probabilidade de alcançar estes propósitos? 3) como organizar eficientemente essas experiências educacionais? 4) como podemos ter certeza que esses objetivos estão sendo atingidos? As quatro perguntas formuladas por Ralph Tyler contemplam a divisão tradicional da atividade educacional: currículo, ensino, instrução e avaliação. Dentro deste contexto, os objetivos de ensino devem ser claramente definidos e são geralmente expressos em termos de comportamento esperado dos alunos. Na sua obra, Tyler define com clareza uma metodologia para estabelecer os objetivos de ensino e justifica a necessidade de sua formulação explícita com vistas a: capacitar o professor para planejar etapas a serem seguidas pelos estudantes; auxiliar o estudante quanto ao direcionamento e à ênfase na matéria a ser aprendida; auxiliar o professor na avaliação do desempenho dos alunos. As teorias tradicionais de currículo estão em consonância com a corrente pedagógica tradicional de ensino. Até o início do século XX, a escola era eminentemente tradicionalista, dando ênfase à ação do professor e as matérias de ensino. Segundo Vilarinho (1979, p. 33), “[...] os métodos e 3 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino as técnicas de ensino, neste contexto, tinham caráter dogmático, eram verbalistas, de cunho predominantemente intelectual”. Assim, no bojo da escola tradicional, os métodos e as técnicas de ensino eram compostos de exposição, utilizado como método clássico de ensino, onde a palavra substitui a realidade, a ação prática e os fatos; o interrogatório, técnica baseada em perguntas do professor e respectivas respostas do aluno e o método intuitivo, que implica na apresentação e observação de objetos, facilitando ao aluno sua elaboração conceitual. Nesta conjuntura, o ensino era centrado no professor e, conseqüentemente, no conteúdo por ele ministrado; o aluno era passivo, visto como receptor de informações descoladas da realidade. O conhecimento era memorizado e o método utilizado era autocrático, verbalista e de cunho intelectual. No auge dos movimentos sociais e culturais da década de 1960, surgiram novas teorizações que contestavam o pensamento e a estrutura educacional tradicional, vigentes até então. Enquanto os modelos tradicionais de currículo eram adstritos à atividade técnica voltada para a elaboração do currículo, as teorias críticas colocam em xeque os pressupostos dos arranjos sociais e educacionais, responsabilizando-os pelas desigualdades e injustiças sociais. Na medida em que as teorias tradicionais eram consideradas teorias de aceitação, ajuste a adaptação, as teorias críticas são teorias de desconfiança, questionamento e transformação social. Segundo Silva (2004, p. 30) para “[...] as teorias críticas o importante não é desenvolver técnicas de como fazer o currículo, mas desenvolver conceitos que nos permitam compreender o que o currículo faz”. Com isso, questões consideradas irrelevantes na Teoria Tradicional, passam a ser campo teórico e de análise na Teoria Crítica, ou seja, o desvelamento de questões ocultas do currículo. Teóricos como Freire (1970); Althusser (1970); Bourdieu & Passeron (1970); Bernstein (1971); Young (1971), Bowles & Gintis (1976); Pinar & Grumet (1976) e Apple (1979) são considerados os precursores enquanto estudiosos que se propuseram a criticar os elementos da Teoria Tradicional. Em consonância com as teorias críticas de currículo, surge no início do século XX, como contraposição a Pedagogia Tradicional, o Movimento da Escola Nova ou Escolanovismo, também chamado de Pedagogia Renovada. Nesta corrente, o centro da atividade escolar não é o professor ou a matéria, mas o aluno ativo e investigador. Assim, segundo Libâneo (1994, p. 66), “[...] o professor incentiva, orienta, organiza as situações de aprendizagem, adequando-as às capacidades e características individuais dos alunos”. 4 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Neste modelo, o aluno é o principal elemento do processo de ensino, formado para o autocontrole e responsabilidade; a matéria é um meio para a consecução dos objetivos e o método utilizado é o experimental, visando à participação ativa do aluno, sua integração, o atendimento dos interesses e necessidades individuais. A partir dos anos 70, sob a égide do regime militar, implantado no Brasil em 1964, surge o Tecnicismo, inspirado na teoria behaviorista de aprendizagem e na abordagem sistêmica do ensino, que tinha como mote, o modelo empresarial aplicado à escola. Este modelo acabou sendo imposto no Brasil, por ser compatível com a orientação econômica, política e ideológica do regime militar, então vigente. Neste modelo, a desvinculação entre teoria e prática é mais acentuada. O professor torna-se mero executor de objetivos instrucionais, de estratégias de ensino e de avaliação. Acentua-se o formalismo didático através dos planos elaborados segundo normas pré-fixadas; o aluno deverá ser eficiente (produtivo) que sabe lidar “cientificamente com os problemas da realidade”, em consonância com os objetivos propostos, dando ênfase na produtividade do aluno. Por volta dos anos 80, as tendências de cunho progressista interessada em propostas pedagógicas voltadas para os interesses da maioria da população, foram adquirindo maior solidez e sistematização. Dentre essas tendências, destacam-se a Pedagogia Libertadora e a Pedagogia Crítico-Social de Conteúdos. A Pedagogia Libertadora retomou a proposta da educação popular dos anos 60, direcionando seus princípios e práticas em função das possibilidades do seu emprego na educação formal em escolas públicas, já que, inicialmente, tinha caráter extraescolar, não oficial e voltada para o atendimento de clientela adulta. A Pedagogia Crítico-Social de Conteúdos constituiu-se como movimento pedagógico interessado na educação popular, na valorização da escola pública e do trabalho do professor, no ensino de qualidade para o provo e, especialmente, na acentuação da importância do domínio sólido por parte de professores e alunos dos conteúdos científicos do ensino como condição de participação efetiva do povo nas lutas sociais. Assim, em consonância com este momento histórico, as Teorias Pós-Críticas surgem com a proposta de ampliar as discussões acerca dos conceitos defendidos na teoria anterior Teoria Crítica - numa dimensão questionadora, libertadora e emancipatória. A preocupação com as conexões entre saber, identidade e poder, as remetem para questões pertinentes à diversidade das formas culturais do mundo contemporâneo; das questões de gênero, raça, 5 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino etnia e sexualidade; dos discursos; da subjetividade e, também, das relações de poder entre as diferentes nações que compõem a herança econômica, política e cultural. A relevância das teorias curriculares, abarcada neste trabalho, bem como das tendências pedagógicas, permanece alicerçada na questão de que esses estudos e sua teorização têm por finalidade a melhoria da prática pedagógica. Sacristàn (1999, p. 44) corrobora com esta assertiva quando aponta que [...] a ação do ensino não pode ser considerada como um mero recurso instrumental, uma técnica para conseguir metas abstratamente, porque essas metas não podem ser qualquer fim e por que os meios para conseguilas operam em contextos incertos, sobre seres humanos que impõem critérios ao que se fala com eles [...]. Nesta perspectiva, teorias curriculares e tendências pedagógicas que contemplem a formação global do homem estão apontadas, neste capítulo, como um elemento central e articulador. A relação entre os elementos curriculares e os problemas práticos da educação se constitui em um desafio atual para os envolvidos no projeto educativo e, especificamente, de formação de educadores. Segundo Anaya e Teixeira (2007, p.7), a escola, enquanto agência social, e o currículo escolar [...] reflete a visão de mundo expressado nos documentos orientadores (currículo formal e escrito), por meio das formas efetivas de ação dos agentes educacionais (currículo em ação) e, dos valores, normas, hábitos, atitudes que governam as relações nas salas de aulas (currículo oculto). Neste sentido, o currículo é visto como um instrumento norteador de práticas escolares, conteúdos programáticos e estratégias metodológicas que indicam e contribuem na formação de sujeitos e consequentemente, da sociedade. 3. O CAMPO TEÓRICO CURRICULAR E A RESSIGNIFICAÇÃO DA PRÁXIS DOCENTE Na contemporaneidade, espera-se do professor, mais do que qualquer outro profissional, a intercessão na formação de comunidades de aprendizagens em diferentes espaços de interação, uma vez que a valorização do trabalho criativo e cooperativo é a tônica do momento. Exige-se que, além dos conteúdos, sejam trabalhadas atitudes. Neste sentido, a práxis docente necessita ser redimensionada no sentido de uma revisão para além do currículo tradicional – que era simplesmente tomado como dado e, 6 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino portanto, como implicitamente aceitável – para um currículo crítico e pós-crítico por incorporar, também, os elementos pertencentes ao currículo oculto. Para tanto, questões pertencentes à dimensão crítica e pós-critica apontam-se como uma alternativa de revisão da práxis docente. Como alternativa na superação dos entraves referentes à história de vida dos alunos, a tese defendida por Giroux (1988) – conceito de voz – poderia se constituir em ingrediente amenizador da distância entre o dito e o vivenciado no espaço educativo. Por meio do conceito de “voz”, Giroux (1988), aponta a necessidade de construção de espaços no ambiente educativo onde anseios, desejos e pensamentos dos estudantes possam ser ouvidos e atentamente considerados, pois o professor, ao se apropriar deste conceito, precisa ultrapassar a dimensão burocrática para a dimensão de intelectual transformador. Com isso é premente, conforme GIROUX (1998, p. 33), que os professores [...] atentem seriamente para a necessidade de dar aos alunos voz ativa em suas experiências de aprendizagem; significa desenvolver um vernáculo crítico que seja adequado aos problemas experienciados ao nível da vida diária, especialmente quando estes são relacionados com experiências pedagógicas desenvolvidas por práticas de sala de aula. Não enxergar alguns destes elementos, principalmente os que pertencem ao conceito de voz, muito concorreria para a exclusão de direitos fundamentais, assim como da ineficiência das práticas pedagógicas. Os estudos realizados na área de currículo apontam para um ingrediente muito importante no campo das reflexões, o conhecimento teórico. Entretanto, as concepções teóricas, por não estarem no cotidiano escolar enquanto ajuda para explicar as práticas pedagógicas, se constituem em desafio para os educadores, uma vez que é considerada de difícil entendimento e compreensão. Segundo Forquin (1993, p. 144) “[...] é necessário que o que se ensina valha à pena”. Não existe método ou atividade que se sustente sem uma base teórica e um conteúdo programático sistematizado e acumulado ao longo das gerações. Esses elementos devem estar articulados com o que se considera significativo para uma dada realidade e um dado sujeito. A mudança da corrente pedagógica tradicional, que vigorou até os anos de 1930, onde o professor detinha o monopólio do conhecimento, figurando o aluno como um indivíduo passivo, para o modelo escolanovista, a partir de 1930 até 1970, onde o papel do professor seria o de estimular o autodesenvolvimento do aluno e mediar o processo de aquisição de 7 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino conhecimento, tornando-o um agente ativo no processo de aprendizagem, fez com que os métodos utilizados se sobressaíssem aos conteúdos programáticos de ensino. Neste processo, os conteúdos programáticos, de certa forma, perderam espaço para os métodos utilizados para a apropriação deste “saber” acumulado. Uma das explicações para esta visão dicotômica entre os métodos de ensino e os conteúdos programáticos deve-se ao fato de que os conteúdos são pensados e elaborados, na maioria das vezes, fora do espaço escolar, onde os agentes responsáveis por essa transmissão, ou seja, os professores, não participam da escolha e da elaboração deste currículo. A divisão de funções, neste processo, miniminiza a tarefa do professor, subtraindo sua responsabilidade no processo de transmissão de conteúdos culturalmente válidos e próximos da realidade dos alunos. Neste ínterim, a forma como esses conteúdos programáticos são transmitidos, ganham relevância, por ser a parcela que cabe ao professor. Segundo Forquin (1993), a educação do tipo escolar supõe sempre uma seleção no interior da cultura e uma reelaboração dos conteúdos da cultura destinados a serem transmitidos. O que ensinar, ou seja, quais os conteúdos que deverão ser recortados de todos os conhecimentos sistematizados e acumulados historicamente pela sociedade e que deverão fazer parte do currículo é a grande preocupação dos agentes que o elaboram. Neste processo de elaboração do currículo, novamente a visão dicotômica emerge quando se nota uma separação entre os conteúdos programáticos que irão compor o currículo e a instrução, ou seja, a ação de desenvolvê-los através de atividades práticas. Se considerarmos que a aprendizagem efetiva se dá com a experiência prática dos conteúdos desenvolvidos, ambos os conceitos devem ser entendidos em interação recíproca. Segundo SACRISTÁN (1998, p. 120): [...] sem conteúdo não há ensino, qualquer projeto educativo acaba se concretizando na aspiração de conseguir alguns efeitos nos sujeitos que se educam. [...] Quando há ensino é porque se ensina algo ou se ordena o ambiente para que alguém aprenda algo. [...] a técnica de ensino não pode preencher todo o discurso didático evitando os problemas que o conteúdo coloca. Desta forma, a educação para ser compreendida exige ser entendida como uma atividade que se expressa de formas distintas, onde tanto o conteúdo programático quanto a didática utilizada, transformam o currículo na prática para produzir a aprendizagem. Por isso, teorias curriculares, tendências pedagógicas e práxis docente na formação de educadores, um resgate dos fundamentos teóricos, é apontado, nesse estudo, como elementos que 8 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino desvelariam alguns pressupostos que necessitariam ser desocultados, uma vez que a atividade docente, seus agentes e seu contexto desligaram-se em muitos casos, dos conteúdos a que servem, entendendo por conteúdos algo mais do que uma seleção de conhecimentos sistematizados provenientes de campos especializados do saber mais elaborado. As teorias de currículo tradicional, crítica e pós-crítica, suas concepções, assim como as tendências pedagógicas e a dimensão de formação de educadores e suas variadas contextualizações, oferecerão variações formais. Com isso, pode-se afirmar que a seleção dos conceitos estará convergindo para as concepções curriculares, ora tradicional ou técnica, ora, crítica ou pós-crítica. A premissa, afirmada acima, se deve à concepção de currículo educacional defendido por Silva (2004, p. 14), que aponta que “[...] a questão central que serve de pano de fundo para qualquer teoria do currículo é a de saber qual conhecimento deve ser ensinado”. Silva (2004) aponta, ainda, que o currículo educacional é compreendido como prática social e representa a síntese dos conhecimentos e valores que caracterizam um processo social expresso pelo trabalho pedagógico desenvolvido nos espaços educativos. Nesse sentido, busca-se neste trabalho, discutir sobre as questões de seleção, organização e sobre os processos pedagógicos, que se constituem em elementos de extrema importância do currículo. Corroborando com a questão da seleção e das relações de poder no campo curricular, vale ressaltar Apple (2001), que nos remete à questão curricular pautada numa tradição seletiva, da organização e processos pedagógicos realizados por alguém, da visão que algum grupo tem do que seja o conhecimento legítimo e, para tanto, devem fazer parte do currículo. O vínculo entre a teoria educacional e o currículo nem sempre são contemplados nos tratados educativos (leis, teorias, diretrizes curriculares); entretanto, as teorias educacionais e as tendências pedagógicas estão direcionadas para fatores que concorrem para que todas elas tenham o mesmo discurso e prática. O estudo da trajetória das teorias curriculares oferece uma forma de analisar as complexas relações entre as instituições de ensino e a sociedade, porque mostra que as instituições educativas tanto refletem como retratam as definições sociais do conhecimento culturalmente válido, desafiando os envolvidos no ato educativo, no sentido de ampliar as reflexões para questões que se encaminham para além das teorias vinculadas à economia e educação e economia e cultura. Segundo Apple (1982), não é aceitável apontar um vínculo entre as estruturas econômicas e sociais mais amplas e o currículo, pois esse vínculo é mediado por processos que 9 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino acontecem no campo da educação e do currículo e que são aí ativamente produzidos e mediados pela ação humana, rompendo, então, com as análises simplistas de reprodução. Goodson (2001) alinha-se com essa vertente, uma vez que o entendimento do processo histórico do currículo faz um resgate numa perspectiva na qual ele é concebido como algo em movimento, em constante fluxo e transformação, sofrendo constantes rupturas, apontando, via historicidade, não apenas os pontos de continuidade e de evolução, mas também as grandes rupturas e descontinuidades. Em suma, vale ressaltar, também, a necessidade de ampliação de focos de análise para além das estruturas econômicas, uma vez que as “[...] estruturas econômicas não são suficientes para garantir a consciência; a consciência precisa ser conquistada em seu próprio campo. O campo cultural não é um simples reflexo da economia: ele tem a sua própria dinâmica” conforme SILVA (2004, p. 46). O campo da teorização e investigação e pesquisa, com base nos estudos Culturais, tem seu lócus de desenvolvimento em 1964, no Centro de Estudos das Culturas Contemporâneas, na Universidade de Birmingham, Inglaterra. A temática inicial desenvolvida por esse grupo de pesquisadores estava relacionada com a questão da cultura dominante, focada nas grandes obras da literatura e das artes em geral. Apontavam e defendiam, em seus trabalhos iniciais, que a cultura, ora apresentada, era um privilégio de um grupo restrito de pessoas, ocorrendo uma incompatibilidade entre as relações de cultura e democracia. Para tanto, essa visão dos estudiosos do Centro baseava-se na análise de duas obras distintas, que comporiam seu referencial teórico: Culture and Society , de Raymond William, data de 1958, e Uses of literacy, de Richard Hoggart, publicada em 1957. Além desses dois clássicos, destaca-se a obra The Making of English Working Class , de E. P. Thompson, em 1963. Entretanto, mesmo com essas obras dando suporte teórico aos pesquisadores do Centro de Estudos, é observada uma preferência e uma forte influência na concepção de cultura conforme concebe Raymond Williams. Para Williams (2000), a cultura deveria ser concebida como o modo de vida de uma sociedade, enquanto experiência vivida pelos homens. Nessa perspectiva, é verificado o rompimento entre as divisões da cultura das “grandes obras” com culturas que abarcam as variadas formas pelas quais os grupos humanos organizam-se Assim, é verificada uma heterogeneidade de estudos. Mesmo com essa heterogeneidade e com a proliferação de estudos sobre a cultura nas Universidades, muitos pesquisadores mantiveram-se na similaridade da perspectiva social. Verifica-se, também, que todos os estudos desenvolvidos 10 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino tinham uma versão no campo do gênero, da raça e sexualidade, embora mantivessem uma intersecção entre elas. Nesse contexto heterogêneo, os Estudos Culturais passam a conceber a cultura como campo de luta em torno da significação social. A cultura é um campo de significados em que diferentes grupos sociais, em posições diferenciadas de poder, lutam pela imposição de seus significados à cultura mais ampla. Nesse sentido, o importante é saber que a cultura é um campo contestado de significações e que envolve a definição de identidade cultural e social dos diferentes grupos. Dessa forma, a cultura é um campo em que se definem as formas como o mundo, as pessoas e os grupos devem ser. Assim, ela é um jogo de poder, situando-se numa perspectiva mais ampla de conexões entre cultura, significação, identidade e poder. Os Estudos Culturais têm clara preocupação em desconstruir e mostrar as origens e invenções, as construções sociais e culturais rompendo com a visão de naturalização; tomar partido dos grupos em desvantagem nas relações políticas e sociais. Para tanto, os Estudos Culturais concebem que o currículo, enquanto campo de luta em torno da significação e da identidade precisa, então, entender e estender as preocupações dos Estudos Culturais em seu bojo. A partir dos Estudos Culturais é que visualizamos que currículo e conhecimento são campos culturais sujeitos à disputa e interpretação, e nos quais diferentes grupos apostam em estabelecer sua hegemonia. Assim, o currículo, enquanto artefato social contempla, em seu bojo, a instituição e o conteúdo: a instituição do currículo é uma invenção social e o seu conteúdo uma construção social. Em termos teóricos, os estudos desenvolvidos pelo Centro de Estudos Culturais Contemporâneos adotaram quadros de referência claramente marxistas, principalmente nas interpretações contemporâneas de Marx, Althusser e Gramsci e os conceitos de ideologia e hegemonia. Nos anos 80, esses conceitos iriam ceder espaço para Foucault e Derrida. Nesse sentido, os estudos e pesquissa desenvolvidos pelo Centro, aportam em pressupostos metodológicos de cunho etnográfico e de interpretações textuais. Essas duas formas de realização de pesquisa refletem as origens disciplinares dos Estudos Culturais: a etnografia é usada para pesquisas denominadas subculturas urbanas, e a interpretação textual para análise dos programas de certas obras literárias consideradas populares. E não há separação entre o conhecimento tradicionalmente considerado escolar e o conhecimento cotidiano das pessoas envolvidas no currículo, uma vez que ambos expressam significados sociais e culturais construídos, assim como buscam influenciar e modificar as pessoas envolvidas com as complexas relações de poder. 11 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Silva (2004, p. 134) colabora com essa assertiva ao considerar que, numa sociedade com características complexas, “[...] de incerteza e instabilidade [...], num mundo em que as questões da diferença e da identidade se tornam tão centrais, é de se esperar que a ideia central dos Estudos Culturais possa encontrar um espaço importante no campo das expectativas sobre o currículo”. Segundo Silva (2004), Moreira (1990), Apple (2001), somente pela perspectiva crítica é possível explicá-lo e desvelá-lo. E, para entender os questionamentos e explicar como esse artefato veio a se tornar o que é, a dimensão histórica facilita e oferece uma descrição da dinâmica social que o moldou dessa forma. Nessa perspectiva, torna-se necessário reconhecer que o processo de construção social do currículo não é um processo meramente lógico, e sim internamente inconsistente e ilógico. Tal princípio está fundamentado na questão de que a teoria curricular não representa uma perspectiva acabada e sólida, pois, ”[...] é um produto da trajetória humana e social e um meio através do qual os grupos poderosos exercem uma influência muito significativa sobre os processos mediante os quais eram e são educados os jovens” conforme Kemmis (1988, p. 42). Assim, apontar que a questão que permeia a construção de um currículo está relacionada ao ensino de matérias escolares e de formação ideológica de valores, é um elemento reflexivo importante. Questões relacionadas ao conhecimento, ao ensino, aos valores ideológicos, realizam o vínculo entre a construção social do currículo e a dimensão humana do homem. De acordo com Anaya (2008, p. 29-30), “[...] uma práxis que conceba a diversidade que permeia a sala de aula, precisa ser entendida enquanto um ingrediente que possibilitaria romper com antigos pressupostos pertencentes à teoria curricular tradicional, pois o currículo, os professores e os alunos não são elementos neutros, mas, sim, transmissores de ideologias”. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos sobre o currículo escolar destacam que este instrumento não se constitui em um elemento neutro, mas transmissor de ideologias; numa sociedade excludente e seletiva concorre para fortalecer padrões perpetuadores de desigualdade social. Segundo Moreira e Silva (1995, p. 78), o currículo é concebido numa dimensão social e cultural por estar inserido numa 12 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino [...] perspectiva mais ampla de suas determinações sociais, de sua história, de sua produção contextual. O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento social. O currículo está implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares [...]. Moreira e Silva (1995, p. 78) defendem, ainda, que o currículo tem uma história vinculada a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação. Assim, ao excursionar na trajetória curricular, alguns elementos de fórum íntimo, pertencentes à dimensão crítica, são apontados por indicar que o papel/função do currículo escolar é romper com os antigos modelos, encaminhando-se para a necessidade de um novo enfoque deste artefato, no sentido de desconstruir as estruturas de dominação. Na articulação do proposto na dimensão conceitual com a prática, apontam-se experiências emancipatórias de currículo, como a da Escola da Ponte, em Portugal. Estabelecer essa relação entre teoria e prática cumpre a proposta de promover essa ação reflexiva no universo curricular, acreditando que ela facilita enxergar e desnudar as relações sociais e seus desmembramentos no campo educativo. Iniciar a reflexão sobre currículo é abordar suas várias dimensões e concepções. Para alguns, o currículo escolar é considerado um plano de estudos, conteúdos que se estudam em determinada disciplina, manual de curso, formas de avaliação, programa de uma disciplina. Outros consideram o sentido etimológico da palavra currículo, que provém do latim curriculum ou currere (Ferreira, 1986), que significa caminho. Ora confrontando, ora ampliando os conceitos anteriores, Huebner (1992, p. 212) aponta para a falta de precisão do termo currículo e diz que a “[...] palavra aponta para diversas, inclusive paradoxais, intenções dos educadores: está carregada de ambigüidades, falta precisão, refere-se, de modo geral, a programas educativos das escolas”. Estudiosos curriculistas, como Gagné (1967), concebe o conceito de currículo escolar como seqüência de unidades de conteúdo organizadas de tal maneira que a aprendizagem de cada unidade possa ser conseguida como uma atividade singular, desde que habilidades especificadas por unidades anteriores tenham sido aprendidas pelo aluno. Pode, ainda, ser concebido como prescrições concretas dos conteúdos de ensino que objetiva regular, normatizar, possibilitando uma homogeneização do que se ensina em escolas de um sistema de ensino. 13 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Foi assim que o currículo escolar configurou-se, na visão tradicional, entendido como um conjunto de informações – conhecimentos selecionados da cultura social – necessários a ser transmitidos às crianças e aos jovens. De acordo com Terigi (1996), não é possível encontrar a origem do currículo, mas apenas falar de seus pontos de emergência, que foram, no contexto histórico escolar, ganhando densidade, diversidade e profundidade desde a Revolução Francesa, chegando aos Estados Unidos. Segundo Coll (1997), o currículo é um projeto que preside as atividades educativas escolares, define suas intenções e proporciona guias de ação adequados e úteis aos professores, que são diretamente responsáveis pela sua execução. Para isso, o currículo proporciona informações concretas sobre o que ensinar, quando ensinar, como ensinar e o que, como e quando avaliar. Stenhouse (1984) considera o currículo escolar uma tentativa de comunicar os princípios e as características essenciais de um propósito educativo, de tal forma que permaneça aberto à discussão crítica e seja efetivamente transpassado à prática. Com essa diversidade de vertentes, considerando suas mais variadas conceituações, evidencia-se que, ao longo do tempo, o currículo foi ganhando novas conotações e concepções, influenciadas por orientações filosóficas diferentes e divergentes, que fizeram com que recebesse diferentes nomes, para mostrar a eficácia dos elementos não prescritivos do cotidiano escolar. A partir desse apanhado de concepções, parece pertinente considerar que o currículo escolar não tem existência à parte da sociedade que o cria. Trata-se de uma invenção social que implica uma seleção da cultura, um conjunto de ênfases e omissões que expressa, em determinado momento histórico, o que se considera ser educação. As questões curriculares emergentes apontam para a ampliação das discussões sobre as áreas de abrangência de um currículo, considerando que, além de uma questão de conhecimento, o currículo é, também, uma questão de identidade. O currículo escolar, apontado neste trabalho, tem o conceito defendido por Apple (1982), por ser o resultado de uma seleção de saberes num universo mais amplo de conhecimentos, na medida em que deduzem que tipos de conhecimento serão considerados válidos, por se encontrarem justapostos ao tipo de pessoas que se pretende considerar ideal. A necessidade de um olhar sobre as questões de poder faz-se necessária quando se concebe que as pessoas, ao organizar determinados conhecimentos no currículo, nunca desenvolvem essa 14 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino organização sem embebedar-se dos valores ideológicos que, por vezes, aparece nos livros, nas salas de aula e na prática pedagógica dos professores. Corroborando, Apple (1982), nos aponta que todo estudo curricular está aportado nas questões ideológicas, principalmente para desvelar a questão do oculto; aponta, também, que alguns questionamentos devem permear a prática daqueles que realizam a operacionalização do currículo. Assim, para além da revisão de posturas ideológicas e pedagógicas, a formação de professores deverá abarcar, em seu bojo curricular, a inserção do elemento relacional como parte integrante do processo de formação. Severino (2001, p. 72) afirma que a “[...] educação é uma prática social e política cujas ferramentas são elementos simbólicos, produzidos e manuseados pela subjetividade e mediados pela cultura”. Assim, o currículo ilustraria a representação da cultura no cotidiano, não constituído apenas de conhecimentos factuais, mas o modo como os indivíduos e os grupos sociais representam tais conhecimentos. Deste modo, o currículo, nos cursos de Formação de Professores abriga, também, as concepções de vida social e as relações sociais que animam aquela cultura, reconhecendo que o conhecimento não é um elemento neutro, mas sim produzido historicamente, no interior das relações sociais. REFERÊNCIAS ANAYA, V.; TEIXEIRA, C.. A sociedade contemporânea e a flexibilidade curricular das escolas plural e kanamari: os estudos culturais e sua importância no currículo oficial. Disponivel em: http://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/viewFile/3192/2114. Acesso em: 25/10/2010. ANAYA, Viviani. Prática Docente e Relações Interpessoais: um olhar para a constituição curricular dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu. 2008. 184 p. Dissertação. Mestrado em Educação: Currículo. Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2008. APPLE, M.. Ideologia e currículo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982. 288p. _______. Política cultural e educação. 2. ed. Trad. de Maria José do Amaral Ferreira. São Paulo: Cortez, 2001. 216p. COLL, C. Psicologia e currículo. 2 ed. São Paulo: Ática, 1997. FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. GAGNÉ, R. Curriculum research and the promotion of learning. IN: TYLER, R.; GAGNÉ, R.; SCRIVEN, M. 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Do ponto de vista do período histórico, adotamos como referência temporal, o período compreendido entre as primeiras décadas do século XX. Constatamos que o movimento de renovação da escola, mesmo que inicialmente restrito a um grupo de intelectuais se sedimentou, enquanto pensamento educacional brasileiro e influenciou o desenvolvimento do campo do currículo. PALAVRAS CHAVE: Escolanovismo. Educação. Currículo. ABSTRACT In this article we will examine the thought New School in Brazil, from a literature search was undertaken in order to establish relationships and differences between the thought of Fernando de Azevedo Teixeira and Pascoal Lemme and their influences in the curriculum field. From the point of view of the historical period, we adopted as a time reference, the period from the first decades of the twentieth century. We note that the renewal movement of the school, even if initially restricted to a group of intellectuals cemented while Brazilian educational thought and influenced the development of the curriculum field. KEYWORDS: escolanovismo. Education. Curriculum. 17 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INTRODUÇÃO Na dissertação de mestrado “Concepções, princípios e organização do currículo do projeto Escola Ativa no Brasil1” analisamos a concepção de currículo adotada no Projeto Escola Ativa, implementado pelo governo brasileiro nas classes multisseriadas. Nesta produção, constatamos que a concepção de currículo e os princípios curriculares presentes no guia de formação de professores tem como base a Pedagogia Nova, em particular, as ideias de Dewey, difundidas no Brasil por Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo. Porém, a concepção de organização curricular e os conteúdos de ensino apresentados nos guias de aprendizagem de Português, Matemática, Ciências e Estudos Sociais são concebidos de acordo com a perspectiva tradicional de educação. Identificamos que a opção por essa concepção de currículo demonstra o compromisso com a manutenção da estrutura socioeconômica vigente no campo. Neste artigo ampliaremos essa discussão incorporando o pensamento de Pascoal Lemme que naquele período já questionava os limites da educação como instrumento de transformação social. Ele percebeu, com muita clareza, que a educação refletia problemas bem mais estruturais, de organização social, econômica e política. Utilizaremos textos de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Paschoal Lemme como recurso para promover um diálogo, entre eles, sobre o pensamento escolanovista no Brasil, seus limites e perspectivas, e assim, apresentar as convergências e distanciamentos entre o pensamento desses educadores. O PENSAMENTO ESCOLANOVISTA NO BRASIL: FERNANDO DE AZEVEDO E ANÍSIO TEIXEIRA. O movimento em prol de uma educação nova se efetiva a partir do final do século XIX principalmente nos contextos europeu e norte-americano, e sua disseminação no Brasil tomará corpo a partir da segunda década do século XX com a fundação da Associação Brasileira de Educação (ABE) em 1924, que segundo Gadotti (2006) foi fruto do projeto liberal de educação, pautado no otimismo pedagógico que objetivava reconstruir a sociedade através da educação. 1 Para mais informações ver MATOS, Cleide C. de. Concepções, princípios e organização do currículo no projeto escola ativa. Belém: UFPA, 2010. Dissertação (Mestrado em educação). Instituto de Ciências da Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Pará, 2010. 18 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Porém, o marco mais significativo e, ainda hoje, referencial em termos de educação, foi o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, datado de 1932. O manifesto propõe a organização das associações escolares, a elaboração de diretrizes e bases da educação e a criação de um Sistema Nacional de Educação, cujo objetivos era a organização e a fiscalização da educação em âmbito nacional. Segundo Gadotti (2006), foi com o desenvolvimento das teorias da educação nova que o pensamento educacional brasileiro começa ter autonomia. Quase até o final do século XIX, nosso pensamento pedagógico reproduzia o pensamento religioso medieval. Foi graças ao pensamento iluminista trazido da Europa por intelectuais e estudantes de formação laica, positivista, liberal, que a teoria da educação brasileira pôde dar alguns passos, embora tímidos (GADOTTI, 2006, P. 230). Com a educação nova a escola assume a função socializadora, com centralidade no indivíduo e nos processos de ensino-aprendizagem, e se transforma em um instrumento equalizador das desigualdades sociais e como o lugar privilegiado de aprendizado da democracia. Os pensadores da educação nova no Brasil não formaram um grupo homogêneo em matéria de pensamento educacional, suas perspectivas teóricas variam de uma postura mais liberal e conservadora a uma postura mais radical e de esquerda. Porém todos apresentam insatisfação com atendimento escolar elementar e os altos índices de analfabetismo. Fernando de Azevedo, paulista de São Gonçalo do Sapucaí foi professor, crítico, ensaísta e sociólogo brasileiro. Redator do manifesto dos pioneiros da escola nova, foi um dos principais expoentes do pensamento escolanovista no Brasil e opositor ferrenho da escola burguesa, cujo ensino considerava elitista formador de bacharéis e letrados. Defendeu a necessidade de se estabelecer, através da educação, uma reforma social. Para Penna (2010, p. 12) Seu pensamento não é apenas o de um homem que se quis filósofo da educação, mas de um reformador que tentou transformar suas ideias em ação. Caminho original, percorrido provavelmente ao preço de extrema tensão interior, o deste visionário, cujas ambiguidades são talvez inerentes a uma época de transição, marcada por contradições. Participou de forma intensa das reformas educacionais ocorridas nos anos de 1920, estando a frente da reforma ocorrida em 1929, no Distrito Federal. Essas movimentos de transformações na estrutura educacional impulsionaram debates e questionamentos da educação jesuítica, considerada de “caráter verbalista, retórico, livresco, memorístico e 19 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino repetitivo, que estimulava a competição através de prêmios e castigos” (GADOTTI, 2006, p. 231). Penna (2010, p. 31) ao analisar o pensamento de Fernando de Azevedo destaca que ele considerava a escola nova uma reação contra as tendências verbalistas da escola tradicional. Trata-se antes de mais nada, de abandonar “uma concepção social vencida”, escola da erudição sem sentido, produtora e reprodutora de intelectuais agentes da perpetuação do status quo, por uma outra concepção de vida, eminentemente social, em uma época que acordava para a questão social e a unidade nacional. Ao se reportar a educação nova, Fernando de Azevedo afirma: Ora, se a educação está intimamente vinculada à filosofia de cada época, que lhe define o caráter, rasgando sempre novas perspectivas ao pensamento pedagógico, a educação nova não pode deixar de ser uma reação categórica, intencional e sistemática contra a velha estrutura do serviço educacional, artificial e verbalista, montada para uma concepção vencida. (Azevedo, 1958, p.64). Na pesquisa supracitada (MATOS, 2010), evidenciamos que Fernando de Azevedo (1958) considerava a proposta educacional da escola nova pautada na valorização da espontaneidade da criança, direcionada à satisfação de suas necessidades individuais, superando desse modo, os interesses das classes sociais. A educação estava voltada para criança como um ser individual, por isso há necessidade de investir na melhoria do processo de ensino-aprendizagem para que a educação cumpra a sua função social. Para Fernando de Azevedo, a verdadeira a função social da educação nova era ultrapassar os limites das classes sociais [...] a sua verdadeira função social, preparando-se para formar “a hierarquia democrática” pela “hierarquia das capacidades”, recrutadas em todos os grupos sociais, a que se abrem as mesmas oportunidades de educação. Ela tem por objetivo, organizar e desenvolver os meios de ação durável, com fim de corrigir o desenvolvimento natural e integral do ser humano em cada uma das etapas de seu crescimento, de acordo com uma certa concepção de mundo (Azevedo, 1958, p. 64). A educação destinava-se a formação da elite intelectual, pautada, sobretudo, no mérito acadêmico. Com o critério da meritocracia ele acreditava promover uma verdadeira inversão na lógica da diferenciação econômica, os melhores e mais capazes deveriam ocupar os lugares no vértice da pirâmide social. A defesa da universidade enquanto instituição responsável pela formação dessa elite intelectual é um dos principais objetivos de Fernando de 20 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Azevedo. De fato, a Universidade, que se encontra no ápice de todas as instituições educativas, está destinada, nas sociedades modernas, a desenvolver um papel cada vez mais importante na formação das elites de pensadores, sábios, cientistas, técnicos e educadores, de que elas precisam para o estudo e solução de suas questões científicas, morais, intelectuais, políticas e econômicas. Se o “problema fundamental” das democracias é a educação das massas populares, os melhores e os mais capazes, por seleção, devem formar o vértice de uma pirâmide de base imensa. (Azevedo, 1958, p. 76). Por isso, as oportunidades educacionais deveriam ser iguais para todos, independentemente das condições sociais, pois a educação está acima das questões econômicas. A diferença no rendimento educacional dos alunos deve ser estabelecida por meio das capacidades individuais. Para Fernando de Azevedo, as transformações ocorridas na organização das instituições escolares devem ser analisadas considerando os acontecimentos ligados às mudanças na estrutura social, principalmente as alterações provocadas pelo sistema capitalista que demandou novas exigências para a escola. Por isso, a educação deveria ser analisada sociologicamente, É desse ponto de vista sociológico que ai se estudou a posição atual do problema dos fins de educação; é ele que nos fez encarar a educação como uma “adaptação ao meio social”, um processo pelo qual o indivíduo “se penetra da civilização ambiente”, é ele ainda que nos levou a compreender e a definir a posição da escola no conjunto das influências cuja ação se exerce sobre o indivíduo, envolvendo-o do berço ao túmulo. Mas, essa consciência largamente compreensiva da multiplicidade dos fatores sociais que intervêm no desenvolvimento da criança, “socializando-a progressivamente”, por isto mesmo que dá uma noção nítida do papel da escola na sociedade, cria a consciência da necessidade de se alargar continuamente o campo da escola (das influências diretas ou mediatas), para contrabalançar as que se exercem fora de toda a intervenção consciente dos órgãos especiais de educação. (AZEVEDO, 1958, p. 51). A escola nova é imbuída de um caráter civilizatório e socializador que acompanha o indivíduo em todas as fases da vida, um instrumento de adaptação do homem ao meio social. Por isso, a ampliação do campo da educação é uma forma de garantir uma ação educativa intencional e duradoura. Dada sua importância para a transformação social, essa educação deveria ser ofertada pelo Estado a todos os indivíduos. Para Penna (2010, p. 18), “[...] o projeto azevediano de educação constituiu-se no seguimento mais extenso, no qual se estuda a necessidade de uma nova mentalidade capaz de 21 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino compreender as funções de uma sociedade moderna”. A necessidade de reformar a educação está imbuída desse caráter de produzir uma nova mentalidade para o momento histórico que Fernando de Azevedo viveu. Ainda para Penna (2010, p. 15), Fernando de Azevedo não pensou a educação como arte formal ou teoria abstrata apenas, mas como algo imanente a própria estrutura histórica e objetiva da vida espiritual de uma nação, manifestando-se de modo exemplar na literatura, expressão real de toda cultura. Porém, Fernando de Azevedo, fundamentou-se num ideal de educação que não considera as desigualdades sociais como elemento de exclusão e marginalização. A crença na educação como redentora das mazela da sociedade capitalista, levo-o a um ideal de educação desconectado da realidade concretas de homens, mulheres e crianças brasileiras. Anísio Teixeira, baiano de Caetité, formado em ciências jurídicas, foi um dos principais expoente do pensamento escolanovista no Brasil. Um dos mais destacados signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, defensor contumaz da escola pública, laica e obrigatória. Anísio Teixeira (2007) considerava a escola tradicional arcaica por manter as mentes presas a inculcação literária e retórica. Escola dual que promovia dois tipos de ensino: um destinado aos pobres para ensinar a ler, escrever e contar destinada a formação de operários e outro destinado a elite para formar médicos, bacharéis e engenheiros. Ele classifica esta escola como artificial, desligada da realidade e da cultura, que não contribuía para que as classes mais pobres tivessem melhores condições de acesso aos bens sociais e culturais, por isso era considerada com um mal exemplo para a sociedade brasileira. Era uma escola sem planejamento, sem organização, sem vida, sem autonomia, sem liberdade, sem democracia, fragmentadas do poder central. Para Anísio Teixeira (2007) essa pedagogia só poderia funcionar na Idade Média, arcaica nos métodos e enciclopédica nos currículos, favorecia uma formação de ordem intelectual, prática ou profissional, atrelada a uma concepção de sociedade já superada. Tudo mudou com a cultura econômica e científica de nossos dias. A vida já não é governada pelos velhos índices de intelectualidade herdados da Idade Média, quando apenas se cogitava de preparar os poucos privilegiados que chegavam até a escola para as delícias de consumir e preparar a vida literariamente (TEIXEIRA, 2007, p. 46). Em oposição a escola tradicional, Teixeira (1957) propôs uma educação que integrasse 22 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino o indivíduo à sociedade e, ao mesmo tempo, lutou para ampliar o acesso de todos à escola, defendendo, uma educação que possibilitasse a formação do trabalhador pautada na pesquisa, no ensino e na tecnologia. Em face da aspiração de educação para todos e dessa profunda alteração da natureza do conhecimento e do saber (que deixou de ser a atividade de alguns para, em suas aplicações, se fazer a necessidade de todos), a escola não mais poderia ser a instituição segregada e especializada de preparo de intelectuais ou “escolásticos”, e deveria transforma-se na agência de educação dos trabalhadores comuns, dos trabalhadores qualificados, dos trabalhadores especializados, em técnicas de toda ordem, e dos trabalhadores da ciência nos seus aspectos de pesquisa, teoria e tecnologia (TEIXEIRA, 1957, p. 19). Ao analisar o ensino do Distrito Federal, Teixeira (2007, 82) constatou que [...] se é grave a nossa negligência em abrir escolas, mais grave ainda é julgar que o nosso programa se deve limitar à simples “alfabetização”. Diante dos problemas identificados, propõe [...] a organização de um sistema de educação livre, gratuito, que permita a qualquer indivíduo percorrê-lo do jardim de infância à universidade, com a só limitação de sua capacidade inata, e que dê a todos os indivíduos a indispensável formação econômica e social que os habilite a cooperar e a participar na civilização do País (TEIXEIRA, 2007, p. 245). Para Anísio Teixeira, a educação é direito de todos, independentemente de classe social. Porém, o foco principal de seus esforços como reformador se deu no âmbito da escola primária. Para Anísio Teixeira “[...] tinha-se de velar para que a criança se desenvolvesse no sentido de se tornar capaz de participar e de se pôr ao serviço da civilização complexa e difícil, construída pela ciência e pela educação” (TEIXEIRA, 2007, p. 64). Para que a educação primária acompanhasse as transformações sociais destaca a necessidade de formação permanente e de qualidade aos professores, principalmente no que diz respeito a incorporação de métodos mais modernos. Tal preocupação é evidenciada no seguinte fragmento: A formação diferenciada do mestre para os graus chamados primários do ensino (1º, 2º, 3º anos), e de mestres para os graus chamados intermediários (4º e 5º), se impõe, não somente como uma necessidade da organização escolar diversa em um e outro período, como ainda pela mudança psicológica e de desenvolvimento físico dos alunos (TEIXEIRA, 2007, p. 198). Para Anísio Teixeira (2007), a formação de professores deve se adequar as novas funções da escola, aos novos conhecimentos a respeito do ensino. Para tanto, precisa 23 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino proporcionar aos professores uma orientação científica para que ele possa estabelecer relações entre as ideias e as teorias para que saiba executar o programa da escola primária. Só assim poderão sair com o entusiasmo necessário para “[...] dar a cada indivíduo um lugar, na sociedade, correspondente ao de suas capacidades naturais, sem qualquer restrição de ordem social, econômica ou de nascimento” (2007, p. 245). Para Anísio Teixeira a educação é um processo socializador, por meio do qual os indivíduos se organizam na sociedade, de acordo com as suas potencialidades, sem nenhuma restrição de classe ou origem social. A despeito das desigualdades existentes entre os indivíduos, existe em todos eles “[...] um mínimo de inteligência que os capacita à participação na experiência social e a contribuírem para a sociedade” (1994, p. 14). As ideias de Anísio Teixeira ainda estão presentes e repercutem na política educacional brasileira, entre elas destacamos a organização de um sistema nacional de educação com a institucionalização de legislações nacionais para regular o ensino e garantir unidade e qualidade no ensino. Para Anísio Teixeira (2007, P. 140) “[...] todo o conjunto de medidas destinadas a ajustar o ensino ao indivíduo exige para sua aplicação proveitosa controle centralizado e sistemático”. Por outro lado, propôs também a descentralização da educação para que Município, Estado e União organizassem seus sistemas de ensino. Para manutenção desse sistema lutou pela garantia de vinculação de recursos para educação no orçamento da união, pois tinha a convicção que somente desse modo a educação poderia ser pública, laica, gratuita a todos os brasileiros. A escola para Teixeira é a instituição articuladora e propulsora da democracia. Ele acreditou piamente nos seus ideais e tentou materializa-los nos cargos e função que ocupou. PASCHOAL LEMME: PIONEIRO E MARXISTA Pascoal Lemme, carioca, professor e um dos signatários do manifesto dos pioneiros da escola nova, teve sua trajetória marcada por contradições, de um lado, estava envolvido com as reformas educacionais realizadas sob a égide do movimento escolanovista no Brasil, principalmente na reforma promovida por Fernando de Azevedo no Distrito Federal e Anísio Teixeira também no Distrito Federal, comungando inicialmente com esses ideais. De outro, Lemme se aproximou do pensamento marxista, sem, no entanto, estar filiado a um partido política de oposição. Para Brandão (2010, p. 71) essa dupla filiação teve o preço de ser “[...] jamais inteiramente reconhecido como ‘um dos seus’, pelos dois grupos”. 24 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Paschoal Lemme percebeu, com muita clareza, que a educação refletia problemas bem mais estruturais, problemas relacionados à organização social, a estrutura econômica e política do país. Diante dessas questões macro da qual a educação está diretamente relacionada Paschoal reconheceu os limites da educação para a transformação da sociedade (BRANDÃO, 2010). No entanto, reconhecer os limites da educação, [...] não significa, porém, que se deva ficar esperando as transformações sociais para que, automaticamente, as condições da educação e ensino também se transformem [...]. Lutar por melhores condições de educação e ensino é uma das formas de levar educadores, professores, estudantes e o povo em geral a compreenderem justamente que, para conquistarem vitórias significativas nesse setor, é preciso que a luta se torne tão ampla que redunde em transformações da sociedade como um todo [...] (LEMME, 1988, 11). Para Lemme (1988), a luta pela educação deve ser ampliada, envolver educadores, professores, estudante e a sociedade em geral por melhores condições de saúde, trabalho, moradia, etc. pelo acesso igualitário a educação. Somente mediante a democratização da sociedade que a educação também será democrática. Enquanto os demais pioneiros consideravam a educação o instrumento para promover o desenvolvimento social, Paschoal Lemme alertava que A verdadeira igualdade de oportunidade para todos, em matéria de acesso à educação e à cultura, continua sendo o grande sonho da “democracia” americana, uma vez que a desigualdade econômica traz, necessariamente, como consequência, a desigualdade de acesso à educação e a cultura. [...] Essa é a grande ilusão de muitos educadores que é preciso desde logo esclarecer: somente uma sociedade verdadeiramente democrática pode proporcionar educação completamente democrática, ou melhor, não há educação democrática sem sociedade democrática. O caráter da educação resulta do caráter da sociedade que a ministra e não o contrário, como ainda hoje pensam muitos educadores e pessoas mais ou menos desprevenidas. (LEMME, 1961, p. 21). Paschoal Lemme destaca que a desigualdade econômica leva a desigualdade de acesso à educação e a cultura, ele evidencia que a educação está ligada a estrutura do sistema capitalista ou seja, está subordinada a questões políticas. Para Paschoal Lemme, nesse sistema é uma ilusão acreditar que a educação promova a igualdade social, somente numa sociedade verdadeiramente democrática a educação será igual para todos. Com relação a realidade educacional brasileira Lemme (1988, p. 31) constata que: O Brasil em matéria de educação, de ensino e de cultura, vem sofrendo um processo de atraso progressivo, resultante das condições de atraso 25 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino econômico que assolam o país e que determinam tal situação. Sem a modificação dessa estrutura econômica, política e social, atrasada de séculos sem as extirpações das formas semifeudais, pré-capitalistas e semicoloniais que subsistem [...] nenhum progresso real será possível obter em matéria de extensão dos benefícios da educação para a maioria do povo brasileiro. O autor classifica a organização política e econômica da sociedade brasileira como semifeudal, pré-capitalista e semicolonial. Considera que em função da coexistência dessas formas de organização social o Brasil não consegue avançar em termos de educação. Para Lemme, antiimperialismo e o antifeudalismo [...] deveriam ser as bandeiras a serem empunhadas pelos educadores brasileiros verdadeiramente consciente do papel que devem assumir (LEMME, 1988, p. 35). Para Lemme (1988) o anti-imperialismo, consiste no engajamento pela emancipação social, econômica e política dos povos latinos americanos e o antifeudalismo, a luta pela divisão da terra e por uma legislação adequada as especificidades dos povos do meio rural. Lemme (1988) critica os educadores do seu tempo por considerarem a educação autônoma a sociedade, por acreditarem que a educação sozinha promoveria a transformação social, constituindo-se como a solução para todos os problemas sociais. [...] a insistência em inverter os dados dos problemas, pretendendo fazer da educação escolar, do ensino, uma espécie de panacéia para a solução de todas as questões fundamentais, econômicas, políticas e sociais, que dependem os destinos do país e o futuro do povo brasileiro. Essa é aliás, uma velha e lamentável confusão, ou ilusão dos educadores [...] (LEMME, 1988, p. 27). Essa forma de pensar e conceber a educação está ligada a tentativa de implantação de concepções pedagógicas trazidos de outros contextos sociais, políticos e econômicos para serem adotadas no Brasil. Chama atenção para a realidade da América Latina, identificando que os problemas vivenciados pelos países vizinhos não diferem dos nossos, mas as ideias educacionais presentes no Brasil são de outros contextos. [...] certos educadores brasileiros parecem querer abdicar de seus deveres perante o povo, para se apegar a um cosmopolitismo estéril, que vai buscar as fontes de inspiração e de estímulo no exterior, em modelos sem aplicação entre nós [...] (LEMME, 1988, p. 33). A transferência de teorias produzidas em contextos diferentes tanto no aspecto social, político, econômico e cultural, tem produzido resultados insatisfatórios em matéria de 26 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino educação, principalmente no que diz respeito a democratização do acesso dos alunos ao ensino. Por isso, questiona por que “[...] em pleno século do socialismo [...] essa insistência em tratar sintomas com paliativos, que tem sido a ação da maioria dos educadores brasileiros, em vez de atacar os fundamentos verdadeiros da situação que a todos preocupa” (LEMME, 1988, p. 32). Naquela época, Lemme (1988) já chamava atenção para a necessidade de reforma agrária no Brasil, como condição necessária para o desenvolvimento o homem do campo. Considerava que “[...] um dos pontos de partida inelutável para a modificação dessa situação será, [...] reforma agrária que dê ao homem do campo as condições necessárias para se elevar culturalmente (LEMME, 1988, p. 32). Para Brandão (2010, p. 34) “Paschoal Lemme nunca criticou a renovação pedagógica, embora tenha trabalhado no sentido de caracterizar os limites dessas transformações” (BRANDÃO, 2010, p. 34). Ele reconhecia a importância daquele momento histórico para a sociedade brasileira. Paschoal Lemme foi um intelectual a frente do seu tempo, um visionário que ousou mostrar os limites da educação para a transformação social, num momento em que reformas significativas estavam ocorrendo na política educacional brasileira fruto do engajamento político de intelectuais que acreditavam na educação como instrumento de democratização da sociedade. IDENTIFICANDO AS DIFERENÇAS Ao analisar o pensamento de Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Paschoal Lemme, constatamos que eles defendiam uma educação democrática, acessível a todos os brasileiros. Porém, ao mesmo tempo que o termo democracia os une, a concepção de democracia os separa. Para Fernando de Azevedo (1958), a democracia é resultado de um longo processo de melhorias no sistema educacional que permita aos educandos, independentemente de classe social, as mesmas oportunidades educacionais. A função social da educação é preparar por meio das “hierarquia das capacidades” a “hierarquia democrática”, cuja finalidade é corrigir e promover o desenvolvimento natural e integral do ser humano em seu processo de crescimento. Para ele a educação é o principal instrumento de construção da democracia. Fernando de Azevedo situa a democracia no processo de desenvolvimento e ampliação 27 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino do sistema educacional, como resultado da ação da educação sobre os sujeitos. A democracia é ensinada na escola, por meio da organização escolar, do planejamento de ensino, do clima educacional. A educação tem autonomia em relação a sociedade, pois os problemas sociais e econômicos não interferem no desenvolvimento natural dos indivíduos. A concepção de democracia está circunscrita à capacidade individual de se adequar as exigências sociais e econômicas. Para Anísio Teixeira (2007) a democracia é um processo evolutivo recente que está passando por adaptação as transformações históricas. A democracia está ligada a um “programa de vida que representa um programa de educação, sem o qual, uma organização democrática não poderia sequer ser sonhada”. Neste sentido, a educação intencional e organizada não é apenas a necessidade da democracia, mas é a condição para que a democracia se efetive. Porém, não é qualquer educação que promoverá a democracia, por isso que Anísio Teixeira critica a educação tradicional, justamente por não considerar que essa perspectiva promoverá a democracia. Somente uma educação planejada, organizada será capaz de formar as pessoas para promover a democracia. Para Paschoal Lemme, não se pode pensar em democracia nem se efetivar reformas educacionais desligada da realidade social, política e econômica. Sem transformações nesses setores não construiremos uma sociedade democrática. Por isso, defende que a mudança deve ocorrer na sociedade como um todo. Em Paschoal Lemme há uma inversão na forma de se conceber a democracia, ela é resultado de transformações sociais, políticas, econômicas e educacionais, não mais como consequência da ação da educação sobre a sociedade. Somente atrelada a uma concepção de sociedade democrática e igualitária que a educação poderá ocupar um lugar de destaque na sociedade brasileira. O seu lema era “somente numa sociedade democrática haverá educação verdadeiramente democrática”. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das ideias desses teóricos evidenciamos algumas perspectivas epistemológicas que permeavam a educação escolarizada nas primeiras décadas do século XX. Destacamos que não havia um pensamento homogêneo entre os pioneiros, cada um construiu seu aporte teórico e defendeu seus ideais, acreditando piamente que a sociedade brasileira precisava 28 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino garantir educação a todos independente de classe social. A efervescência das ideias pedagógicas vivenciadas pelos pioneiros, o clima intelectual de crença na educação como instrumento de transformação social produziu o que Nagle (1974 p. 99-100) irá classificar de otimismo pedagógico “[...] crença de que determinadas formulações doutrinárias sobre a escolarização indicam o caminho para a verdadeira formação do novo homem brasileiro”. Isso implica não apenas na abertura de mais escolas, mas sobretudo na modificação da própria pedagogia, na redefinição das metodologias de ensino, nos instrumentos de avaliação, na forma de gestão da escola e, inclusive, na arquitetura escolar. Para Moreira (1990), o questionamento da pedagogia tradicional é o elemento agregador e impulsionador das reformas que foram realizadas no Brasil na primeira metade do século XX. Porém, embora essas reformas representem um rompimento com a escola tradicional [...] a maior contribuição das reformas acabou por limitar-se a novos métodos e técnicas. Essa ambiguidade pode ser interpretada como refletindo, em certo grau, as necessidades de ordem industrial emergente, as ideias liberais dominantes e a influência do processo de modernização das escolas americanas e europeias (MOREIRA, 1990, p. 92). Ao questionar as limitações da pedagogia tradicional, os pioneiros por meio das reformas do ensino, principalmente na Bahia (1925), em Minas Gerais (1927) e no Distrito Federal (1929) propuseram alterações na organização de currículos e programas, “[...] embora as reformas não tenham chegado a propor procedimentos detalhados de planejamento curricular, a ênfase na metodologia de ensino compensava essa falta e oferecia diretrizes para a prática curricular” (MOREIRA, 1990, p. 92). Porém, a pedagogia nova não conseguiu alterar significativamente o panorama organizacional dos sistemas escolares. Isso porque, além de outras razões, implicava custos bem mais elevados do que aqueles da escola tradicional. Com isso, a Escola Nova organizou-se basicamente na forma de escolas experimentais ou como núcleos muito bem equipados e circunscrito a pequenos grupos de elite. No âmbito da políticas educacionais, foi criado o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública em 1931; foi promulgada a Constituição Federal em 1934 a qual estabeleceu a necessidade de um Plano Nacional de Educação, como também a gratuidade e obrigatoriedade do ensino elementar, assim também como as Reformas Educacionais. Esses fatos demonstram que, nessas décadas, houveram mudanças substanciais na 29 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino educação escolar do país. Com base nesse processo de discussão em torno dos modelos educacionais, podemos dizer que o ideário liberal se fez presente nas políticas educacionais, inclusive tomando lugar. O movimento de renovação da escola, mesmo que inicialmente restrito, por atender a uma camada da população se sedimentou, principalmente enquanto pensamento educacional brasileiro. REFERÊNCIAS AZEVEDO, F. A educação entre dois mundos.1958 BRANDÃO, Zaia. Paschoal Lemme. Recife: Massangana, 2010. GADOTTI, Moacir. História das ideias pedagógicas. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2006. LEMME, Paschoal. Memórias. São Paulo: Cortez/INEP, 1988. (v. 3). MATOS, Cleide C. de. Concepções, princípios e organização do currículo no projeto escola ativa. Belém: UFPA, 2010. Dissertação (Mestrado em educação). Instituto de Ciências da Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Pará, 2010. NAGLE, J. Educação e sociedade na primeira república. São Paulo: EPU; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar, 1976. PENNA, Maria Luiza. Fernando de Azevedo. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. TEIXEIRA, A. Educação não é privilégio. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. ________. Educação para a democracia: introdução à administração educacional. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007. ________. Democracia e educação. Disponível em: http://www.usp.br/fau/cursos/graduacao/arq_urbanismo/disciplinas/aup0173/Aup0173_24_ 03_2010/Democracia_e_educacao.pdf acesso em agosto de 2013. 30 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO FLÁVIO CLEMENTINO23 Centro Federal de Educação Tecnológica – CEFET/MG RESUMO No presente texto pretendemos abordar as questões e princípios básicos que permeiam as discussões sobre a educação a partir da visão filosófica. Através da linha histórica, discutiremos o tema Educação contextualizada em dois momentos distintos. No primeiro momento, na visão grega, a educação no sentido mais amplo da palavra, como formação humana, na concepção do ser humano enquanto um ser social, que vive na e para a sociedade. Nessa esfera, o conceito de cidadão sobrepõe-se ao de indivíduo. No segundo, nossa análise se detém ao percurso moderno, especialmente sob as luzes de dois textos fundamentais nesse assunto, “Resposta à pergunta: o que é o iluminismo?” e “Entre o passado e o presente”, respectivamente de I. Kant e H. Arendt. Nossa discussão se remete, inicialmente, ao mito grego de Prometeu, o patrono da humanidade, a qual ganha de presente o fogo roubado dos deuses pelo Titã. Os homens são caracterizados pela falta, pela falha, simbolicamente uma ausência, espaço que será suprimido pela educação, vista, pelos modernos, como algo complementar, dialógico, relacional, entre os indivíduos e o mundo, mediados pela cultura. É através da cultura que o ser se torna humano, é através da educação que nos indivíduo se cidadãos. Percorrer esses passos, traçando as semelhanças na concepção de educação entre os gregos e modernos que se mostra como objetivo nesse texto. PALAVRAS-CHAVE 1. Educação 2. Princípios filosóficos 3. Paidéia grega 4. Formação humana ABSTRACT In this paper we intend to address the issues and principles that permeate discussions on education from the philosophical view. Through the storyline, we’ll discuss the theme Education contextualized at two different positions. At first, the greek view, education in the broadest sense of the word, as a human formation, in the conception of the human being as a social being, who lives in and for society. In this sphere, the concept of citizen overlaps of the individual. In the second, our analysis takes place at the moderns, especially under the lights of two texts, "Answer the question: What is Enlightenment?" And "Between past and future", respectively I. Kant and H. Arendt. Our discussion refers initially to the greek Prometheus´s myth, the patron of mankind, which earns the fire stolen from the gods by the Titan. Men are characterized by the lack, the fault, symbolically an absence, a space that will be suppressed by education, seen by the modern, as something complementary, dialogical, relational, between individuals and the world mediated by culture. It is through culture that the being becomes human, is through education that the individuals become citizens. Tracing the similarities in the design of education among the Greeks and modern is the objective of the text. KEY WORDS 1. Educationo 2. philosophical principles 3. Greek Paideia 4. Human formation 2 Professor da Educação Básica da Rede Estadual de Minas Gerais e Mestrando em Educação Tecnológica no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET/MG. 3 Texto sob a orientação de Maria Aparecida da Silva, Professora do Ensino Superior do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET/MG e Doutora em educação pela Universidade Estadual de Campinas. 31 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 1 INTRODUÇÃO Com o texto que se apresenta, discutiremos o tema educação, com uma abordagem histórica, destacando os pontos fundamentais na tentativa de conceituá-lo e contextualizá-lo em dois períodos distintos, a saber, entre os gregos e os modernos. Em um primeiro momento, nossa abordagem visa destacar a compreensão grega do conceito de educação e seu entendimento como formação, no sentido mais amplo que a palavra pode apresentar na cultura grega. Logo após, analisaremos a concepção moderna do termo, e o sentido da palavra nesse período. Para tanto, tomaremos como base os texto da Paidéia: a formação do homem grego, Werner Jaeger; o texto de Hannah Arendt, Entre o passado e o presente, capítulo 5; I Kant, Resposta à pergunta: o que é o iluminismo? Após apreciação dos textos, passaremos às considerações finais. Esse texto faz parte de uma discussão maior, a saber, nosso estudo sobre os “Aportes teórico-metodológicos presentes nos artigos da revista Currículo sem Fronteiras no período de 2002-2012: uma análise filosófica do Currículo”. Acreditamos que é através do currículo que conseguiremos responder algumas questões de suma importância no contexto da práxis educativa, por exemplo, quais são os propósitos da escola, quais os assuntos são importantes, seus conteúdos e sua organização, como os alunos aprendem, quais os métodos e materiais devem ser usados, quais as experiências e atividades devem ser reforçadas na escola e na sala de aula e, pra finalizar, sobre qual é o objetivo da educação. Essas são questões básicas a serem respondidas quando falamos sobre educação. Contudo, a educação não é um fim em si mesmo; possui um objetivo maior que ela própria. Através da educação espera-se educar o indivíduo para encontrar-se consigo mesmo, para encontrar-se com o outro e encontrar-se no o mundo. A partir desse pressuposto, pensamos que não haverá discussão séria sobre educação se caso não houver uma discussão filosófica sobre os processos que envolvem a educação. As perguntas “o que é educar”, “por que educar”, “para quê educar” devem estar presentes na reflexão sobre a educação e somente a partir delas é que podemos chegar a uma concepção mais apurada sobre esse conceito. O comportamento que propomos é o mesmo de Sócrates ao seu amigo Hipócrates, quando este lhe chama ainda bem cedo para ir à casa de Cálias, encontrar com Protágoras, o sofista de grande renome que acabara de chegar à cidade. Sócrates, espantado com o comportamento de seu amigo, o questiona: “que pensa sobre Protágoras, o que espera dele?” Ele, Sócrates, ainda continua: “indo um médico, o que espera alcançar? Saúde, não? E indo até o sofista, o que espera de um sofista?” (PROTÁGORAS, 311a). Hipócrates, ainda muito jovem, não conhece os males que um sofista pode fazer à alma das pessoas, visão essa compartilhada por Platão, presente no próprio texto. Um diálogo prévio entre os dois amigos é necessário antes da entrega da alma ao sofista. Sobre os assuntos pertinentes à educação, é preciso muito cuidado, pois aquilo que se aprende, fica gravado na alma, e isso pode ser tanto positivo, quanto negativo. É exatamente esse o papel do filósofo em questão, Sócrates, debater com seu amigo o que ele esperar alcançar visitando Protágoras e, o mais importante, no que ele espera tornar-se. 2 ORIGEM E DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA Na criação dos seres habitantes da Terra, os deuses incumbiram Prometeu e a seu irmão Epimeteu, os titãs, de distribuírem as habilidades para todos os animais (Teogonia, versos 507 a 616). De acordo com os deuses, essa distribuição deveria ser feita pela lei da compensação, ou seja, aos fortes, não seria dado a rapidez, aos menores, a velocidade. Àqueles desprovidos de agilidade, seriam enormes e possuiriam garras. Aos mais fracos, que serviriam de alimentos para os outros, seriam dotados de grandes ninhadas. Aos de hábitos noturno, teriam faro aguçado; a uns fora dado presas, aos outros assas e para muitos pêlos ao 32 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino contrário de pele; sendo que também muitos ganharam uma carapaça dura para se protegerem. Epimeteu foi o responsável pela distribuição e Prometeu ficou encarregado de supervisionar o trabalho de seu irmão, após sua conclusão. Depois de todo trabalho acabado, Prometeu veio para verificar como a distribuição das habilidades havia ocorrido e pôde constatar que o trabalho de seu irmão tinha sido muito bem executado. Contudo, embora todos os animais com seus respectivos dons, o trabalho não foi perfeito, pois os homens haviam sido esquecidos e permaneciam nus, sem nenhuma habilidade, sem garras ou presas para se protegerem dos outros animais. Dessa forma encontravam-se frágeis diante da natureza. Epimeteu não tinha mais nada a distribuir e os homens começaram a perecer pela sua fraqueza. Prometeu, após verificar o descuido do seu irmão, resolve, por um estratagema, roubar, a única maneira de resolver o problema, o fogo dos deuses e presentear toda a humanidade. O fogo era a característica e exclusividade dos deuses; por tal petulância, Prometeu, com intuito de salvar toda humanidade, pagou um preço caro, pois foi aprisionado no Cáucaso, onde lá tinha seu fígado como alimento de uma águia imortal. Essa história narrada por Hesíodo, na Teogonia, é emblemática, pois retrata a natureza humana de maneira ímpar, pois em um primeiro momento, os homens são caracterizados pela falta, pela ausência, em que os animais podiam se proteger do frio e do calor, procurar seu próprio alimento, mas os homens não. Eram frágeis e desprotegidos. Através do presente de Prometeu, os homens não só passaram a se proteger dos outros animais, como também passaram a compartilhar algo específico da divindade, o fogo, através do qual poderiam transformar a natureza. Essa habilidade, característica de Hefestos, o deus do fogo, do metal, da metalurgia, artífice, passou a credenciar os homens com uma semelhança divina, colocando-os num patamar elevado. Foi falta, a ausência, a necessidade que fez dos homens melhores entre os animais. Graças ao Titã Prometeu que, arriscando sua pele, proporcionou aos homens lugar de destaque entre as criaturas. Como pode ser visto, o homem se faz como um ser da natureza, semelhante aos demais animais e não se diferencia em nada dos outros animais. Porém, posteriormente, pela dádiva do fogo, eles conseguem distinguir-se dos demais, podendo ser considerados seres não só dá natureza, mas também agentes de transformação na natureza. Desde então, a natureza passou a ser vista pelo homem não como apenas sua morada, mas também objeto de transformação, subjugada pelo poder do fogo, roubados dos deuses e dado aos homens. Desde então o homem possui essa característica ambígua, de ser animal, mas com habilidades divinas; é da natureza, mas subjuga-a a todo o momento, como um Deus. Mortal com uma inclinação imortal. Através da habilidade divina, os homens passaram a construir casas, moldar a natureza em função de suas necessidades, passando a se distanciar dos demais animais, constituindo e sendo constituído por cultura. 3 OS GREGOS Essa duplicidade da natureza humana, vista por Werner Jaeger como materialidade (corpórea) e espiritualidade, é o ponto de partida para a compreensão da educação nesse primeiro momento. Progressivamente, o homem vai se descobrindo como possuidor de uma natureza própria; conhecendo a si mesmo e na relação com o mundo exterior, numa relação dialógica, descobre uma existência humana, que se dá na natureza e não apenas dá natureza. O homem descobre sua humanidade. A educação se formata pela manutenção e transmissão dessas características físicas e espirituais às próximas gerações. 33 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Partindo do pressuposto anterior, que a educação se dá na transmissão de certas características, vemos que ela acontece pela via comunitária, em que a relação entre os indivíduos se dá de forma necessária. De acordo com Jaeger: a educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu sentido exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade (Jaeger, 2001, p. 4). Além da idéia de comunidade, a educação também pressupõe a idéia de um procedimento intencional e consciente. Para entendermos melhor a estreita relação existente entre educação e esses dois conceitos, é preciso também compreender a idéia de cultura, ligeiramente diferente daquilo que temos em mente quando apontamos para um grupo de pessoas e explicitamos tudo aquilo que é relativo àquele grupo ou povo, ou à “totalidade das manifestações e formas de vida que caracterizam um povo” (Jaeger, 2001, p. 8). A concepção grega de cultura é um conceito valorativo, um ideal consciente e nesse sentido é típica, e iniciada com os gregos. Pauta-se numa concepção na qual a educação se mostra como um esforço humano para a formação de um tipo elevado de Homem. E nesse contexto a palavra formação é mais adequada; a educação grega é a formação do espírito humano, paidéia, a buildung, para os alemães. Dessa maneira, colocar estes conhecimentos com força formativa a serviço da educação e formar por meio deles verdadeiros homens, como o oleiro modela a sua argila e o escultor as suas pedras, é uma idéia ousada e criadora que só poderia amadurecer no espírito daquele povo artista e pensador. A mais alta obra de arte que o seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela primeira vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente. Como exemplo, temos a República de Platão, cidade ideal, utópica, na qual os habitantes seriam educados a partir da e para a cidade. Embora um método único de educação para todos, o sistema visava formar cada ser na sua peculiaridade, ou seja, captando aquilo que cada um tem a oferecer de melhor para a comunidade. O melhor para todos nesse sentido seria que o melhor piloto, pilotasse; que o melhor legislador, legislasse; que o melhor poeta, recitasse e assim sucessivamente. Essa educação baseada na Dialética, expressão máxima da filosofia, forjava o cidadão, no sentido forte da palavra; fazendo com que cada um atuasse em consonância com sua natureza, exigindo assim um conhecimento na natureza humana, um conhecimento do espírito humano. No oráculo de Delfos havia a inscrição, lapidar pelas palavras de Sócrates e sua vivência. Lá encontramos: “conhece-te a ti mesmo”. Essa expressão simboliza toda uma necessidade, criada em torno do ser humano, que indica o autoconhecimento, e só a partir dele a possibilidade da educação, entendida como Jaeger, como formação do ser humano. Essa formação de ser completa. Aos olhos de Platão se inicia ainda na infância, quando as crianças são criadas pelas por mães coletivas. Se não há uma referência direta de maternidade nem paternidade por nenhuma criança, Platão acredita que a criação e a preocupação serão idênticas para todas as crianças. As primeiras atividades devem ser relacionadas ao corpo, com atividades físicas e preparando as crianças para resistência física. Logo em seguida, a formação lúdica, pelos mitos e pelas narrativas fantásticas, deve ser efetuada com o máximo de cuidado, para que cada criança vivencie a história que seja importante e significativa para sua formação. 34 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Vejamos que na cidade perfeita tudo é pensado em prol da formação / educação das crianças. Nada é por acaso. Logo em seguida, àqueles que passam pelo processo, começam a se habituar a lógica, matemática, música, aritmética e todo conhecimento pertinente a eles naquele momento. A dialética, sinônimo de conhecimento, considerado o maior nível para ser alcançado, não é destinado a todos, mas sim àqueles que passaram por todo o processo educacional, ou seja, formativo, mas que também aprenderam a usá-la da melhor forma possível, pois é uma ferramenta perigosa, caso usado para outros fins, ou seja, o conhecimento também requer comportamento ético e sempre feito de um para outro, do mestre ao discípulo. 4 OS MODERNOS O contexto da modernidade, embora diferente, traz em si similaridades com os antigos. Lembremos o Renascimento, movimento de retorno à antiguidade clássica. Esse período inaugurado por F. Bacon e R. Descartes, embora por vias diferentes, aponta para a valorização do indivíduo, da subjetividade, da individualidade; processo similar ao movimento de introspecção feito por Sócrates ao abrir mão do questionamento cosmológico dos naturalistas. “Conhece-te a ti mesmo”. I. Kant, alguns anos depois (1724-1804), será o expoente máximo, influenciado e influenciador de todo o contexto iluminista, no qual o conhecimento deve ser exercido como sinônimo de liberdade, autonomia da razão, estruturador da consciência moderna. Pelas palavras do filósofo, o conhecimento é de responsabilidade do próprio indivíduo. Saber se desprender das amarras que aprisionam o sujeito na escuridão é um imperativo. Semelhante ao movimento de saída da caverna platônica, é preciso um esforço por parte do indivíduo, cuja menoridade, “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem” é sua própria culpa. O iluminismo é a saída de um lugar, da menoridade, de que ele próprio é culpado. Desprender-se da menoridade é extremamente difícil, tal qual a dificuldade dos habitantes da caverna que acreditam serem as sombras, realidade; tal a vivência destes naquele ambiente. Para muitos a menoridade é uma natureza, para aqueles que sempre viveram sobre a batuta de outrem, ser livre se torna um fardo dificílimo de ser carregado. Aos olhos de Kant, para a saída da menoridade é necessário a liberdade, motivo pelo qual é extremamente difícil esse movimento, pois a todo lugar se depara com sua restrição. Porém, na mesma esteira de Jaeger, será no uso público da razão e livre entre os homens que poderá ser levado a cabo o iluminismo. Um clérigo, por exemplo, falando pela igreja, não fala por si, mas defende uma opinião institucionalizada. Entretanto, ao falar em público, pela sua erudição e como tal (erudito), e ao falar por si mesmo, se mostra possuidor de um dever esclarecer ao público sobre seus pensamentos “cuidadosamente e bem-intencionados sobre o que de errôneo” há na sua matéria. Voltando ao tópico da natureza, se é que em algum momento o abandonamos, é a partir dela, ou seja, da natureza, que será pensada a educação na discussão de Entre o passado e o futuro, de Hannah Arendt. No seu capítulo, a crise da educação, vemos a tópica educacional sendo revista, porém não necessariamente do ponto de vista da formação. Embora grande devedora dos gregos, Arendt não compartilha dessa perspectiva, uma vez que sua atenção será voltada para a problemática do poder e da autoridade. De acordo com Kant, a maioridade deve ser o fim a ser alcançado, porém de difícil movimento e, até certo ponto, espaço cômodo de se ocupar. Porém, esse movimento se dá em plena liberdade do individuo, no uso livre da sua razão. A questão colocada no texto de Arendt será, no contraponto liberdade e autoritarismo, como educar e ainda assim manter a autoridade dos professores sem, claro, esbarrarmos na questão do autoritarismo? Para ela, a crise da educação acometida aos EUA em meados dos anos 1960, é uma crise essencialmente política. A crise é causada por um fator simples: os seres nascem para o 35 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino mundo. Essa é a essência do problema. Essa crise é agravada quando as crianças são comparadas aos adultos, ponto fim à relação na qual o mais velho ensina aos mais novos. Se compreendermos as crianças como seres novos no mundo, e em um mundo velho, elas precisarão de uma intermediação para se adaptarem ao mundo, nesse mundo que, aos olhos delas, é completamente estranho. Nesse sentido, a criança precisa ser protegida do mundo, ao passo que, pelo desconhecimento do mundo, ele também precisa ser protegido das crianças. Essa intermediação será feita pelos adultos, acostumados ao mundo, que, por pura necessidade, ou, nas palavras de Hannah Arendt, tomo “a educação [como sendo] o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”. As crianças, os recém-chegados ao mundo, são seres que se encontram numa situação de vir-a-ser, estão no processo de educação / adaptação. Nesse processo de adaptação ao mundo, a família e a escola exercem um papel fundamental. A família será o primeiro contato social que a criança conhece e será também o porto seguro, o escudo sob o qual a criança se sente protegida da vida pública, fora do âmbito familiar. Mas será no espaço público que a criança de fato compreenderá o mundo na sua totalidade. E será através da escola que acontecerá a introdução desse ser em formação ao mundo. A escola não é o mundo em si, mas a ponte que liga o mundo privado ao mundo público; o particular com o social, a transição da família par ao mundo de fato. É a partir dessa relação que Hannah Arendt se sente no direito de relacionar o problema da crise na educação com o problema político, pois a perda da autoridade na política resvala na perda da autoridade dos mais velhos sobre os mais novos. Quando maior a desconfiança da autoridade na esfera pública, maior os problemas na esfera privada. Essa autoridade, entre pais e filhos, entre professores e alunos é o modelo que deve se compreender a autoridade do estado, relação essa que, de acordo com Arendt, já fora anunciado por Platão e Aristóteles, autoridade essa necessária nos âmbitos citados, porém prejudiciais entre os adultos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos textos de Hesíodo, Platão, Jaeger, Kant e Arendt pudemos percorrer sobre a temática da educação e perceber que, embora possam apontar direções e concepções diferentes da educação, todos concordam na questão de que a educação só acontece no meio social ou em função deste, na medida em que o ser humano é um ser incompleto ou um ser em formação, necessitando ser introduzido a um mundo completamente estranho a ele. O ser humano seria um alienígena no seu próprio planeta. Enquanto um ser na natureza, necessita da cultura. Enquanto um ser animalesco, necessita de ser socializado. Enquanto um selvagem, necessita ser domado. O homem é essencialmente um ser de ausência, de falta. Se no mito ele o caracteriza como um deus entre os mortais, na sociedade essa falta o humaniza. 6 REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 5 ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Editora Perspectiva S.A. 2003. 36 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino HESIODO. Teogonia. 3 ed. rev. São Paulo: Iluminuras, 1995. JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001. KANT, Immanuel. Resposta à pergunta que é o iluminismo? In: KANT, I. A paz perpétua e outros opúsculos. Lisboa: Edições 70, 1989. P. 11-19. PLATÃO. A república. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. 9 ed. Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2001. PLATÃO. Protágoras. Trad. Est. Intr. e Notas Eleazar Magalhães Teixeira. Fortaleza: 1986. 37 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O CURRÍCULO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA E SUA RELAÇÃO COM A FILOSOFIA, A EDUCAÇÃO E O MULTICUTURALISMO Jhones Stêffanny Marcelino dos Santos4 Ricarti Soares Barbosa5 Marcillio Cassiano dos Santos da Silva6 Resumo Este trabalho pretende abordar as perspectivas epistemológicas de currículo na sociedade pósmoderna e sua relação com a filosofia, a educação e o multiculturalismo, entendendo-as como um conjunto de procedimentos didáticos envolto numa concepção filosófica e educacional. Este ensaio teórico faz uma interpretação crítica a partir de Luckesi, em sua análise sobre as tendências pedagógicas na prática escolar, em sua obra Filosofia da Educação, colocando-nos diante da necessidade de questionarmos os princípios e as práticas entre os processos educativos, a sociedade pós-moderna, o senso comum e o campo científico. Palavras-Chave: Currículo. Cultura. Educação. Filosofia. Pós-Modernidade. Abstract: This work aims to address epistemological perspectives of curriculum in postmodern society and its relation to philosophy, education and multiculturalism, understanding them as a set of didactic procedures wrapped in a philosophical concept and educational. This theoretical paper makes a critical interpretation from Luckesi, in his analysis of trends in educational school practice, in his Philosophy of Education, putting us on the necessity of questioning the principles and practices among educational processes, society postmodern, common sense and scientific field. Keywords: Curriculum. Culture. Education. Philosophy. Post-Modernity. Estudos Culturais, Educação, Filosofia e Currículo Luckesi (1994) mostra-nos a influência das tendências pedagógicas que incidem sobre o currículo e a prática escolar. O conhecimento é tratado como o processo de compreensão da realidade para que possa nela atuar. 4 Graduando do curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas. [email protected] Graduando do curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas. [email protected] 6 Graduando do curso de Serviço Social pela Faculdade Integrada Tiradentes – FITS. [email protected] 5 38 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A mera retenção de informações contida nos livros não é conhecimento, o que acessamos pela internet é uma porção de informações, portanto, é um equívoco dizer que vivemos na sociedade do conhecimento, vivemos na sociedade da informação. O conhecimento apresenta dois componentes: sujeito e objeto. O objeto por sua vez, apresenta a realidade a ser conhecida nos métodos da investigação pela qual devem ser adotadas posições metodológicas e despertadas atitudes críticas diante da realidade. Exemplificando esse conceito, fizemos a passagem do senso comum ao científico ao percebermos que flores colhidas murcham mais facilmente se não a pusermos na composição de água, açúcar e sal (soro caseiro), assim teremos flores que permanecerão viçosas e desidratarão com menos facilidade. Essa é uma relação que exprime saber, e que numa perspectiva singular, observa a realidade e opera o conhecimento resultante das descobertas ao longo da modernidade. A aprendizagem é um ato de libertação na perspectiva concreta. A tendência progressista libertadora parte da crítica da sociedade, buscando transformá-la. A aprendizagem também é um ato de apreensão da realidade concreta que tem a função de despertar no aluno uma consciência crítica, assim os termos geradores, priorizam o conteúdo como parte integrante do currículo, os temas transversais como violência urbana, violência política, entre outros, são postos em debates, despertando uma nova forma de desconstruir velhos conceitos. A tendência progressista libertária visa formar pessoas livres, sempre criando as condições necessárias à autogestão. Dito isto, o currículo é administrado e gerido por toda a comunidade, essa tendência apresenta-se como antiautoritária, sendo os conteúdos colocados democraticamente pelo grupo. As influências são diretamente ligadas ao anarquismo, na qual estão ausentes as relações hierárquicas de poder. Uma sociedade sem Estado, numa espécie de grande “cooperativa” sem repressão, o que favorece diretamente a liberdade das pessoas. Desta forma, o currículo obedecerá aos princípios de uma gestão democratizada, que infelizmente na sociedade atual encontramos meios de burlar, 39 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino como exemplo, citamos a disputa pela gestão democrática de um terço e a eleição dos reitores das universidades federais, estes elementos fizeram parte das demandas dos movimentos estudantis mesmo antes da ditadura militar. Já a tendência progressista crítico-social dos conteúdos, no papel da escola abrange como fundamental a difusão, Não conteúdos abstratos, mas vivos, concretos e, portanto, indissociáveis das realidades sociais. A valorização da escola como instrumento de apropriação do saber é o melhor serviço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torna-la democrática. (LUCKESI, 1994, p. 69). Currículo, educação e conteúdos para Paulo Freire (1986), precisam ser populares, ou seja, temos a necessidade de nos apropriarmos dessa linguagem, para entendermos como funcionam. A escola tem a função de passar os conteúdos produzidos ao longo da história, não como dogmas, mas como conteúdos que ora sirvam e que ora passem a ser descartados pelos interesses populares, o que caracteriza a pedagogia crítica dos conteúdos dos currículos. Todos nós necessitamos ter acesso aos conteúdos histórico-sociais na integra para compreendermos a totalidade social, acabando com a cultura da desinformação, sendo necessário neste processo a releitura e a análise do real. Citamos como exemplo dessa tendência o conteúdo refratário e fechado sobre a “descoberta do Brasil”. Porque os portugueses descobriram e os franceses e holandeses invadiram? Notamos através da universalidade dos conteúdos culturais, que o único índio considerado herói na história do Brasil foi Peri, porém, a realidade histórica-social aqui analisada mostra-nos que o mesmo traiu seu povo e aliou-se a corte portuguesa. Já de acordo com a história de Alagoas, Calabar é considerado traidor, porque com a invasão dos holandeses percebeu que a proposta política não era de mera exploração como a de Portugal. Não basta ensinarmos conteúdos, desse modo lembramos que o currículo necessita de questionamento aos “dogmas” ensinados. Luckesi (1994) ao apresentar esta teoria nos leva a vivermos o conhecimento real. O que estava em jogo na verdade na história do Brasil, era a divisão de terras por 40 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino meio das capitanias hereditárias, que foram entregues aos latifundiários, sendo expropriadas dos povos indígenas, que aqui já se encontravam antes da colonização. A história da escravidão apresenta como marco de libertação a princesa Isabel, porém, a lei do ventre livre e a lei dos sexagenários, associavam as crianças e os idosos negros, como pessoas improdutivas. Escravos que chegassem aos sessenta anos e crianças que nascessem naquela época não recebiam a devida assistência, fadados a mendicância, questionamos assim essa forma de liberdade. Naquele momento histórico o Brasil necessitava de máquinas e a Inglaterra afundava navios negreiros, passando a vender máquinas apenas aos países que não tivessem a adesão da política escravocrata. Dessa maneira consideramos que a tendência progressista crítico-social dos conteúdos, apresenta-nos que nem tudo que foi escrito e dito é verdade e deverá ser aproveitado. O currículo nesta perspectiva resgata a função do professor neste processo de ruptura com a mera reprodução de conteúdos ideologicamente formados. Vale dizer, que o professor terá que ligar os conteúdos passados aos alunos com sua própria experiência concreta, contribuindo com a formação de uma consciência crítica que ultrapassa as diversas formas de construção social. O currículo necessita da retomada dos conteúdos de forma crítica, dando uma continuidade entre a cultura erudita e a cultura popular, onde os professores devem ascender junto aos alunos numa espécie de processo que supera a primeira apreensão da realidade. A relação entre o currículo e diversidade dentro ambiente escolar O currículo desempenha papel essencial no processo de formação escolar dos indivíduos, e traz consigo ideologias que reproduzem os interesses das classes dominantes em nossa sociedade, assim ele desempenha função significativa na construção social de seres autônomos e críticos perante a sociedade. O Centro Nacional de Pesquisa em Currículo reconhece que a escola deve: [...] ensinar conteúdos e habilidades necessários à participação do indivíduo na sociedade. Através do seu trabalho específico, a escola deve levar o aluno a compreender a realidade de que faz parte, situar-se nela, 41 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino interpretá-la e contribuir para a sua transformação (CENPEC, 2000, p. 7). Entretanto, para que possamos obter essa transformação a qual menciona o CENPEC, outro fator deve ser considerado ponto chave nesse processo, visto que a sociedade, em especial a brasileira se apresenta de modo heterogêneo e complexo. Para tanto, saber lidar com as diferenças dentro dos espaços escolares não é uma tarefa fácil, uma vez que o multiculturalismo tem-se apresentado de forma bastante significativa, pois, encontramos salas de aula repletas de diversidades. A diversidade cultural poderia ser encarada como algo extremamente positivo para a sociedade, podemos apreender com a cultura do outro a partir da troca de experiências, no entanto, não é isso que encontramos no espaço escolar. Desse modo nos perguntamos até que ponto o currículo influência as práticas culturais? Segundo Freire (1986, p. 97): O currículo padrão, o currículo de transferência é uma forma mecânica e autoritária de pensar sobre como organizar um programa, que implica, acima de tudo, numa tremenda falta de confiança na criatividade dos estudantes e na capacidade dos professores! Porque, em última análise, quando certos centros de poder estabelecem o que deve ser feito em classe, sua maneira autoritária nega o exercício da criatividade entre professores e estudantes. A mera reprodução dos conteúdos é algo que está presente na realidade de nossas escolas, assim, o processo de ensino-aprendizagem torna-se algo meramente tecnicista. Na maioria das situações os alunos não podem expressar seu ponto de vista em relação a determinados assuntos, ou seja, o professor irá valorizar em suas práticas pedagógicas o currículo formal. No entanto vale ressaltar que a execução do currículo formal muitas das vezes não é posto em prática na integra, uma vez que ao serem elaborados não tenham levado em conta a complexidade e a heterogeneidade do nosso sistema educacional, o que vem a interferir na sua aplicação. A ideia de cultura deve ser vista como algo inacabado que estar sempre em constante transformação, tendo em vista que vivemos em uma sociedade dinâmica. Desse modo acreditamos que o currículo deve ser instrumento de constante reflexão, 42 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino uma vez que o mesmo possui papel crucial no processo da formação dos sujeitos e na promoção da educação. Considerações finais Acreditamos que o currículo escolar por estar diretamente relacionado com a cultura de uma sociedade, faz-se necessário que o mesmo seja visto como elemento fundamental para que possamos compreender a realidade em que estamos imersos, permitindo uma significativa contribuição para a promoção da educação de nosso país. As diversas perspectivas de currículo expostas nesse ensaio teórico nos faz repensar quais práticas iremos desenvolver em sala de aula na condição de educadores. Passar do senso comum para um olhar crítico, acerca da cultura e suas implicações na sociedade é crucial para podermos realizar a transformação do meio. Referências CENTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CURRÍCULO (CENPEC). Relatório Final de Pesquisa. S.e., Brasília-Df., 2000. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986. LUCKESI, C. C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994. 43 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INSURGÊNCIAS CURRICULARES E MOCHILAS EXISTENCIAIS: ETNOCURRÍCULO TENSIONANDO PEDAGOGIAS CULTURAIS JOSÉ TEIXEIRA NETO (ZELÃO) - UFBA [email protected] RESUMO Nesse ensaio apresento minha implicação com o movimento de currículos-devires, propondo um currículo praticado no cotidiano, acionado por/acionante de saberes significativos forjados e plasmados na existência como dispositivo de formação. Trato de currículos que vazam e explodem as fronteiras das prescrições e planejamentos, perturbadores da previsibilidade e do controle: insurgências curriculares e mochilas existenciais. São etnocurrículo que desconfiguram e alteram significados produzidos pelas pedagogias culturais do tempo presente, produtoras de determinados discursos que desdenham do heterogêneo e da multiplicidade. Inicialmente teorizo e caracterizo a criação desses conceitos, argumentando que empoderam a existência, a experiência sensível da vida em gerúndio, por terem sido criados sem purezas essencialistas, mas como acontecimentos que trazem o heterogêneo e expressam saberes experienciais como ferramentas de reflexão e criadoras de outros conceitos. Em seguida, trago narrativas de práticas cotidianas de educadoras com quem interajo em minha pesquisa de doutorado, tratando desse movimento. Palavras-chave: Insurgências curriculares, mochilas existenciais, etnocurrículo, etnoformação. CURRICULUM INSURGENTS AND EXPERIENCED KNOWLEDGE AMOUNT: ETHNO CURRICULUM TENSING CULTURAL PEDAGOGIES ABSTRACT In this essay I present my involvement with the movement curriculum-becomings, proposing a curriculum practiced in everyday life, which triggers and is triggered by significant knowledge forged and molded in existence as a training device. Tract curriculum that leak and explode the boundaries of prescriptions and planning, disturbing predictability and control: curriculum insurgents and experienced knowledge amount. Ethno curriculum that are unconfigures and alter meanings produced by cultural pedagogies, producing certain discourses that disdain heterogeneous and multiplicity. Initially theorize and features the creation of these concepts, arguing that empower the existence, the sensory experience of life in gerund, having been created without purities essentialist, but as events that bring heterogeneous and express experiential knowledge as tools for creative thinking and other concepts. Then bring narratives of everyday practices of educators with whom I interact in my doctoral research addressing this motion. Keywords: curriculum insurgents, experienced knowledge amount, ethno curriculum, ethno education. 44 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A discussão, que opero neste ensaio, implica-se com o movimento de currículos-devires propondo um currículo praticado no cotidiano acionado por/acionante de saberes significativos forjados e plasmados na existência como dispositivo de formação. Desejo tratar aqui de currículos que vazam e explodem as fronteiras prescritivas e planejadas em itinerários que se pensam salvaguardados pela previsibilidade e controle. É um movimento que tenho nocionado insurgências curriculares e mochilas existenciais, etnocurrículo que pode desconfigurar e alterar subjetividades produzidas pelas pedagogias culturais do tempo presente produtoras de subjetivação para determinados discursos que desdenham do heterogêneo e da multiplicidade. Inspirado em Deleuze e Guatarri, afirmo que a criação dos conceitos insurgências curriculares e mochilas existenciais empodera a existência, a experiência sensível da vida em gerúndio, pois ocorreu sem purezas essencialistas, mas como acontecimentos7 que trazem o heterogêneo. Expressam saberes experienciais como ferramentas de reflexão e criadoras de outros conceitos. E é Deleuze, num trecho da inquietante e longa entrevista concedida a Claire Parnet, em 1988, que trago para ilustrar o meu argumento: [...] Precisamos, às vezes, inventar uma palavra bárbara para dar conta de uma noção com pretensão nova. A noção com pretensão nova é que não há território sem um vetor de saída do território e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte [...] (DELEUZE, in: RIEUX, 2005). Conceituo etnocurrículo como movimento instiuinte/instituído plasmado nas aprendências cotidianas de comunidades sendo-no-mundo, autoras de seu ferramental, protagonistas e teóricas de suas práticas, tecedoras, beligerantes e negociadoras de significados culturais no tempo/espaço em interações, modificando-os e modificando-se, potencializando possibilidades de novas aprendências. Essa perspectiva de currículo se propõe aberta em múltiplas entradas, hibrida e antirreducionista, mobilizando a diferença em interações na heterogeneidade. É produtora de 7 Desloco esse conceito de Deleuze para a Educação e o currículo, tomando-o como tudo aquilo que insurge desconstruindo a previsibilidade das pedagogias e que traz saberes experienciais criadores de pensamento. É compreendido como produção do novo que articula multiplicidade de pensamentos outros que o provoque à elaboração de outros novos pensamentos. Para o filósofo francês, isso se dá num plano de imanência e em algo que está fora do pensador que o provoque e mobilize seus saberes para esse pensamento, para a multiplicidade e a diferença; o pensador não pode prescindir da potência dos acontecimentos para a criação de conceitos (DELEUZE, 2006, p. 203). 45 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino novas subjetividades modeladas, fabricadas, consumidas na microfísica cotidiana. Ela envolve toda a complexidade semiológica numa heterogênese que não abarca sistemas hierárquicos fixos (MATIAS, 2008, p.69/70/71). Insurgências Curriculares e Mochilas Existenciais são currículo em acontecimento operando a diferença e fazendo emergir heterogêneses significativas no coletivo através de linhas de fuga, de mapas, em devires. São criações, invenções, transgressões inspiradas na filosofia rebelde de Deleuze, Guatarri e Foucault, na hermenêutica de Gadamer e Heidegger, nas epistemologias de Ardoino e Atlan, na etnoformatividade de Roberto Sidnei Macedo, nas pedagogias culturais do tempo presente de Marisa Vorraber Costa, nos currículos-devires e mapas de Sandra Corazza e Marlucy Paraiso e em saberes, empoderamentos e autorizações da teorização de minha prática em interações formativas. Insere-se na perspectiva pós-colonialista, pósestruturalista e no campo teórico dos estudos culturais. Essa articulação cartográfica interconecta pontos que não são substratos ou que se opõe aos essencialismos (GAUTHIER, 2002, p. 146) em agenciamentos contingenciais do espaço /tempo. Esse currículo insurgente ocorre em cenários formativos diversos quando mobilizamos nossas mochilas existenciais praticando nossos etnométodos8 em enfrentamentos e negociações dilemáticas cotidianas. É um currículo em devir alterante/alterado na medida em que faz operar a multiplicidade. É Insurgente por ser movente, rizomático e fluído vazante de nossos arrogantes planos e programas-grade; é subversivo por fazer com que o “extracurricular” se torne intracurricular, o currículo mesmo, ali, sendo praticado e tensionando as subjetivações das pedagogias culturais do tempo presente, operando contingências no espaço/tempo. As insurgências curriculares fazem emergir ou são emergências provocadas por nossas mochilas existenciais em desterritorializações, reterritorializações e, mesmo que inicialmente centradas numa força identitária, opera a diferença no coletivo, nos afectos e desejos como 8 Nossos etnométodos podem operar essas ações desveladoras mobilizadas em diferentes contextos no espaço/tempo, entendendo-os como experiências formativas que se dão na cotidianidade, nos termos dos atores, portanto, também, no âmbito do cultural e do poder. Esse conceito emerge da etnometodologia, a fim de nomear métodos produzidos pela compreensão e interferência dos atores, agindo em seus contextos para todos os fins práticos, instituindo ordens sociais (MACEDO, 2013, p. 14). Sua potência criativa pode tornar-se instrumento de tensionamento dos instituídos monossêmicos assentados numa igualdade homogeinizadora que despreza os saberes ordinários. Os etnométodos são os acessos às mochilas existências, são nossa etnoformatividade operando no cotidiano (TEIXEIRA NETO - ZELÃO, J. 2013)= 46 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino possibilidades de “bons encontros”, “encontros notáveis”, no sentido deleuziano de fugir com estilo, jogar, negociar sentidos através da diferença (PARAÍSO. 2010, p. 601). Entendo esse currículo como artefato cultural que só pode ser analisado nos engendramentos das interações sociais. É um artefato etnoformativo e instituínte de representações de identidades e marcação das diferenças, significações que privilegiam uns em detrimento de outros, em disputas e negociações nas arenas cotidianas. As insurgências são devires curriculares que brotam do meio do currículo prescrito e suas previsibilidades interpelando os atores para suas emergências. Tratar de insurgências curriculares é coracérebro aberto para articular movimentos de criações, das bifurcações e metamorfoses que fogem do currículo maior9 em cartografias abertas (ibid., p.596). Penso que insurgências curriculares detonam fronteiras cristalizadas através das brechas, frestas, em atravessamentos de desejos que suprimem essencialismos constituindo contornos mutantes e dobras criadoras (KROEFF, 2001, p.02). Mobilizando-me, a princípio com a intuição provocada pelas interações formativas em sala de aula, formação de professores e, posteriormente, a partir das teorizações dessas práticas, assenhorando-me de seus significados possíveis expressados e tensionados nesses coletivos de educadores, criei o termo mochilas existenciais para conceituar acessos a explosões contingenciais dessa formação existencial e desse gerúndio como currículo. Percebendo que os atores compreendiam mais claramente o campo através dessa abordagem, passei, então, a empregá-lo para tratar dessas questões. O significado de mochila, que trago como alegoria para engendrar essa proposição, é o de ser ela um recipiente de acesso fácil a ferramentas, instrumentos e outros conteúdos aos quais recorremos para interagir na força do acontecendo, na prática cotidiana, no gerúndio da existência. É praticidade de algo que trazemos conosco e que acessamos rapidamente para interagir no cotidiano. Penso que nossa “bagagem” existencial nunca caberá num invólucro, 9 Marlucy Paraíso cunha essa ideia de currículo inspirada em Silvio Galo (2002) que nos trás os conceitos de educação maior – formalizada nos documentos e nos órgãos estatais - e educação menor - aquela que se pratica no cotidiano, na sala de aula, entre professores e alunos. Ele nos remete ao pensamento de Deleuze e Guatarri (1977) sobre a necessidade de praticarmos uma literatura menor que possa trazer elementos significativos do dia-a-dia desconstruindo as totalizações, os universalismos. Para Paraíso é essa a potência das práticas de um currículo menor e entendo que as insurgências aqui propostas apontam para essa direção. 47 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino seja mochila, mala, container, silos, aduanas finitas; essa “bagagem” não fica estivada em porões de nossas naus. Ela é a própria nau, ela é capitão-marinheiro/nau/lastro/carga, ela é portador/carga/invólucro. Mochilas existenciais é uma alegoria, uma metáfora, força criativa do imaginário, que nos remete à etnoformatividade, abordagem proposta por Roberto Sidnei Macedo (2010) para tratar de currículo/formação: [...] um campo de atuação e de reflexão com certa autonomia, capaz de proporcionar reflexões relacionais mais profundas sobre a formação e suas diversas mediações e relações, sejam filosóficas, teóricas, sejam pedagógicas ou institucionais [...] demandando um campo de compreensão das existências humanas caracterizadas e situadas; sejam pessoas, grupos, comunidades, culturas ou instituições em experiência formativa, via etnométodos, que os atores implicados constroem em formação [...] (MACEDO, 2010, 192-193). Mochilas existenciais é potência de mobilização e implicação de educadores para autorizaremse a acessar/servirem-se do gerúndio de suas existências, atribuindo políticas de sentido a ele, tornando-o saberes seminais constituídos nas errâncias e aprendências, nos embates e negociações instituíntes como práticas de currículo/formação. Insurgências Curriculares e Mochilas Existenciais cartografam saberes em mapas abertos de poderes, a territorialização do instituído, bem como das nódoas de desterritorialização através do qual promovem fugas desvelando e desconstruindo uma eficiente produção identitária que gera significados de afirmação de si solapando a multiplicidade. E ela, a multiplicidade, acontece nas diferenças, num entre-dois, em fronteiras ou linhas de fuga, em reterritorializações. Insurgências Curriculares e Mochilas Existenciais são forjas culturais que irrompem no cotidiano e fazem transbordar o instituído em pequenos e grandes tsunamis instituíntes. É uma possibilidade de currículo que opera numa relação de exterioridade a seus termos, como nos provoca Fabiana de Amorim Marcello (2012) tratando de sua inspiração em Deleuze para discutir O Efeito Cinema na Educação: [...] a relação é algo que, nos diz Deleuze, pode mudar sem que os termos mudem. Há mesmo variação entre as relações [...] avessa, oposta à ordem do ser [...] não se trata de se ‘ser’ algo, mas de ‘compor’ com algo, de ‘devir’ algo, de ‘agenciar’[...] Apostar na exterioridade das relações supõe que adotemos[...] outros modos de pensar: trata-se de modos (ou possibilidades) de inverter princípios totalizadores acerca da lógica das relações. Porque é justamente isso que esse princípio pressupõe: a rejeição 48 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino de princípios de causalidade [...] romper com domínios de causalidade significa roper com a lógica do ‘é’, portanto [...] (MARCELLO, 2012, p. 326) Penso com Marlucy Paraíso, ao discutir a Diferença no Currículo (2010, p. 595), que um currículo como esse deve vir de lugares insuspeitados operando o jogo da diferença. Nessa perspectiva prioriza-se o “e” em relação ao “é”, pois enquanto o primeiro nos remete à multiplicidade, o segundo nos litifica na identidade. O “e” torna-se o “entre-espaço” do currículo em rizomas10 que rebentam e se multiplicam. Sandra Corazza e Roberto Sidnei Macedo também me auxiliam nessa reflexão para afirmar que insurgências e mochilas, como um currículo acontecimento, currículo-devir (CORAZZA, 2012, p. 07), é seivado pela complexidade da etnoformatividade dos atores para tratar das “experiências de sujeitos fazedores de culturaformação [...] indo além de uma metaformação” para nos mobilizarmos com o que a “’experiênciaformação enquanto heterogênese implicada vem fazendo com o currículo” (MACEDO, 2010, p. 73). Para Ada Beatriz G. Kroeff (2001, p. 6) ocorre uma pedagogização de interesse totalizador em boa parte das escolas que desdenha da heterogeneidade “seja com caráter disciplinar, seja com caráter emancipador [que] realiza um movimento de captura do que lhe é exterior para torná-lo próprio ao currículo”. Mas o fenômeno formação é tecido no gerúndio da existência, em entretecimentos (MACEDO, 2010, p.n 28) do sóciocultural, do pedagógico e do existencial em movimento autopoiético, em devires. A agenda da formação torna-se emergente nos cenários educativos. E escapa de configurações essencialistas dos dutos de subjetivação da pedagogia escolar pela força de sua fluidez e viscosidade de um nomadismo compósito11. Ela se dá nas relações, no entre-meios, na cultura e para além de prescrições. No entanto, também em currículos, como dispositivos de subjetivação de determinados sujeitos para determinados discursos através das pedagogias 10 A imagem do rizoma trazida por Deleuze e Guatarri (1997) desconstrói a estrutura arbórea do conhecimento definida pelos iluministas e onde está assentada a lógica disciplinar acadêmica do Ocidente. Enquanto a árvore necessita de raízes para que seu tronco se estruture e desenvolva galhos que vão se ramificar, o rizoma se configura em feixes, isto é, sem ramificações, em radículas, em pontos que emergem de qualquer parte para direcionarem-se a qualquer outro ponto. O significado de rizoma nessa perspectiva de produção de saberes e aqui, de currículo insurgente, opera para a multiplicidade e opõe-se à perspectiva positivista que tem na árvore (o tronco essencializado) a ramificação que conduz à especialização, e enfim, à verdade. Conceber currículo como rizoma é pensar em emaranhado, promiscuidade, mestiçagem, em produção de singularidades que recusam a identidade, a essência, os estratos, para produzir e circular saberes em transversalização, em conjunção, fazendo aparecer a heterogeneidade. 11 Jacqueline Mombarou-Houriet anuncia formação como um processo que se instituí durante a vida em instâncias diversas. Essa formação ocorre em nossas itinerâncias, errâncias, arranhões, marcas, como aprendências de nosso nomadismo existencial. Elucida-nos sobre um tipo de identidade que se plasma nesse processo multirreferencial, inacabada, sem estabilidade, não fixada, reconfigurada, hibridizada, onde podemos nos tornar “estrangeiros de nós mesmos”, outros de nós, negociando com nossas próprias marcas, tornando-nos únicos em nossa originalidade (MOMBAROU-HOURIET, 2004, apud MACEDO,2010, p. 45-46) 49 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino culturais do tempo presente que nos interpelam no cotidiano de um tipo de sociedade escópica que, cada vez mais, torna-se consumista e cultuadora dos cogitos vídeo ergo sun e visus ergo sun (“vejo, logo existo” e “sou visto, preciso ser visto, logo existo”). São pedagogias operadas para além da escola que entendem como sítios pedagógicos todos os lugares onde há organização do poder e sua difusão. Dessa forma, quando artefatos culturais assujeitam indivíduos e os subjetivam para tornarem-se o que estão sendo no universo em que interagem, bem como, em suas opções e administração de seu viver pedagogias, estão em operação como efetivação de determinados discursos, através de artefatos culturais constituídos como dispositivos de educação e produção de determinados sujeitos (COSTA, 2010, p. 19 e 20). Estão implicadas com a produção de pessoas vinculadas aos temas que emergem como importantes para serem refletidos no presente, colocam em circulação discursos forjadores de certas identidades e regulam suas vidas. São inúmeros os artefatos culturais que formam sujeitos através de pedagogias culturais: livros, filmes, jornais, televisão, revistas e produtos publicitários, entre outros. As pedagogias culturais do tempo presente atuam no cotidiano, como parte de seus usos, produzindo-nos, desde os saberes e práticas dos quais nos apropriamos para assumirmos posições-de-sujeitos inscritos em determinados discursos (COMOZZATO, 2012, p. 109). Insurgências curriculares e mochilas existenciais estão sendo no acontecimento (ZOURABICHVILI, 2004, p. 06) e trazem ou remetem às contingências das pedagogias culturais do tempo presente. O que proponho aqui são possibilidades de etnocurrículos entretecidos na multiplicidade de significados e sentidos que os atores atribuem às suas interações no cotidiano, na potência criadora do acontecimento. Temas significativos insurgentes delineiam mapas através dos desejos e lançam múltiplas linhas de fuga acionadas/acionantes pelas/das mochilas existenciais tramando e rasgando brechas no instituído. Insurgências curriculares e mochilas existenciais instituem-se como vigoroso e denso dispositivo de formação. Meu argumento é tecido na teia de sentidos dos saberes plasmados e forjados nas praticas docentes cotidianas, na literatura menor, na educação menor, no currículo menor, nos coletivos formativos. É uma forja cultural que tem a existência, as práticas de subjetivações, as desconstruções, territorializações, desterritorializaçõe e reterritorializações como martelo e bigorna de onde são produzidos saberes seminais. 50 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Narrativas de insurgências em múltiplos espaços formativos cotidianos Na sequência apresento narrativas de práticas docentes nas quais insurgências curriculares e mochilas existenciais operam multiplicidade em abertura hibridizada nos etnocenários formativos interpelados pelas subjetivações das pedagogias culturais do tempo presente. São insurgências provocadas tanto pelas educadoras quanto pelo alunado. São relatos de minhas práticas e de práticas de educadoras com quem interajo cotidianamente, algumas colaboradoras de minhas pesquisas no Mestrado e, agora, no Doutorado, ilustrando essa teorização. 1. A professora narra uma insurgência promovida numa interação em sala de aula em que, ao propor uma ação sobre interpretação de textos com dispositivos planejados por ela, provocou em algumas alunas o desejo de relatarem vivência que mobilizou muito mais a sala por trazer a pulsão do cotidiano para a aula: [...] fico, às vezes, imaginando como ainda estamos, como professores e instituição, distantes desse projeto... Isso me inspira a, cada vez mais, ampliar a minha escuta para trazer para minha aula o que respiramos nas vias e vielas de nossas vidas! [...] Gostaria de compartilhar: na sexta agora, estava dando aula no 3F sobre competência leitora e, ao falar sobre a necessidade de compreender que todo texto é interpretado por vários sentidos a partir das muitas perspectivas, convidei-os a assistir aos filmes Ensaio Sobre a Cegueira, A Pele em Que Habito e Cisne Negro (como exemplos das muitas perspectivas de um mesmo fato). Duas alunas trouxeram, como exemplo, um fato cotidiano que havia acabado de acontecer: uma menina fotografou e postou em seu stargran que acabava de presenciar um motoqueiro sequestrando uma criança, arrancando-a de um carro. Mais tarde, os pais da criança foram às redes sociais para esclarecer que, ao contrário, a criança estava passando muito mal no meio de um engarrafamento e um motociclista ofereceu-se para pegar a criança e o pai e levá-los de moto ao hospital Teresa de Lisieux. Nesse momento, percebi que minha aula saída das quatro paredes da sala e que o principal texto analisado veio de nossas experiências cotidianas. Fiquei realmente mobilizada com essa verdadeira competência leitora! [...] (Ana Paula Marques. Profa. de Língua Portuguesa no Ensino Médio, em mensagem enviada por e-mail ao autor em abril, 2013). 2. A professora comenta insurgência em uma de suas turmas sobre embate de significados culturais entre o texto de um cartaz de uma baiana de acarajé e um jovem do Ensino Médio de um colégio classe média da cidade: [...] Um aluno, ao parar numa baiana, no Imbuí, tirou foto da placa que dizia: “Acarajé cem camarão”. A grafia do “cem” estava com “c”, mesmo. A atitude dele no momento, repetindo a cena com os colegas, foi bater no ombro da baiana e brincar com ela: “Ô, baiana! Camarão como a porra!” A gente trabalha com linguagem, com todo esse universo simbólico, com tudo. Tudo pode ser utilizado para o movimento de desconstrução dos estereótipos... Eu aproveitei esse texto que ele trouxe, dentro do ponto de vista dele, que considerou “o erro da baiana”, criticando, 51 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino julgando, brincando, ridicularizando o que ele considerou erro. Então, eu fui brincar, também, com ele e indaguei: mas quem é na verdade o ignorante do processo comunicativo? Usei o mesmo instrumento dele. Ele reclamou: Pô, pró! Pegou pesado! Então pronto! Através da brincadeira ele retomou [...] (Nelma Silva, Profa. de Redação no Ensino Médio e no EJA, SSA-BA, em depoimento para o autor, durante a pesquisa de Mestrado. In: TEIXEIRA NETO – ZELÃO, 2008, p.). 3. A professora relata insurgência numa interação com seus alunos sobre significados depreciativos do negro na sociedade soteropolitana trazendo uma reflexão partilhada com sua filha, dias antes: [...] Uma das contas de energia que recebemos trouxe uma tirinha sobre a prática ilícita do ‘gato’ (sistema fraudulento de obtenção de energia elétrica que consiste em conectar-se ao fornecimento de outrem sem que seja identificado). E o interessante é que o personagem que estava no poste fazendo o gato era um garoto negro! Por que, né? Comecei a discutir com minha filha o imaginário popular. Quem estava dizendo a ele que aquilo é ilegal era um branco, ou seja, a elite, que supostamente não pratica crimes. Como desmontar esse cenário tão bem engendrado. Nada é pior do que a discriminação racial. Discuti com ela sobre que fica, o que resta pra nós! [...] Segui dividindo com meus alunos essas questões [...] (Rosilene Paraíso, Profa de Língua Portuguesa no EJA, SSA-BA, em depoimento para o autor, durante a pesquisa de mestrado, ibid.) 4. A professora traz relata insurgência que a mobilizou e que ela deslocou ao alunado, de suas turmas da 2ª série do Ensino Médio, tratando da notícia da renúncia do líder Cubano, Fidel Castro, estampada em capas de revistas: [...] Em meu trabalho como professora de História procuro levar os alunos a fazerem leituras dialógicas dos processos [...] provoco-os para refletirem sobre essas questões como culturais, são construtos. No contexto da renúncia de Fidel, eu fui à uma banca de jornal comprar uma revista sobre o fato e me deparei com algo que me impressionou: as capas de três revistas semanais anunciando a renúncia de formas distintas. Fidel Castro é um monumento vivo da contemporaneidade, mesmo que seja polêmico, querido e mal quisto, ele representa um momento histórico importante do século 20 [...] Quando me deparei com as capas das revistas Isto É, Época e Veja levei um baque! Principalmente pela forma desrespeitosa como algumas delas traziam a questão [...] A Veja bradava: “Já Vai Tarde! O fim melancólico do ditador que isolou cuba e hipinotizou a esquerda durante 50 anos!” A Época estampava: “Depois de Fidel – estamos diante de uma segunda revolução cubana?” E a Isto É: “Cuba sem Fidel!” Nesse momento imediatamente pensei em trazer essa tensão para meus alunos em minhas aulas de História! Elaborei a abordagem realizando leitura das capas, discussão, produção textual para avaliação e ainda uma reescrita. Para isso tudo tive lançar mão de minha bagagem [...] de leituras minhas sobre vários outros campos [...] semiótica, antropologia cultural [...] Tive de adquirir outras revistas , inclusive que jamais compraria - mas foi com um fim pedagógico (risos)-, levei-as para sala de aula, preparei slides e toda uma demanda de trabalho emergiu mobilizando saberes que tenho comigo de diferentes fontes, provocando os alunos para essa dialogicidade [...] (Marli Sales. Profª. de História no Ensino Médio, Uma das educadoras colaboradoras de minha pesquisa no Mestrado e, agora, no Doutorado. Depoimento ao autor em agosto, 2013). 5. Refletindo sobre sua implicação e o campo de sua disciplina num projeto transdisciplinar com alunos da 2ª série do Ensino Médio, as professoras narram insurgências alteradoras do 52 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino movimento planejado e das expectativas através da atribuição de novos significados ao processo: [...] Preocupadas com o fato de Matemática não ficar como um recorte do projeto (projeto ETHOS que tinha como recorte temático a proposta da Unesco “Ano Internacional de Cooperação Pela Água”) decidimos e planejamos trabalhar com o tema analisando o conceito de agua virtual, tabelas de comparação do preço do litro da água com outros líquidos, consumo entre países e gastos de água para produção de diferentes outros produtos [...] A grande descoberta, alegria e empolgação d’agente, embora houvesse muita conta e muitos cálculos percentuais, foi constatar que esses números, esse conhecimento matemático provocaram os alunos a atribuírem sentidos e significados mobilizadores acerca das questões da água em seu cotidiano, dentro do tema amplo do projeto [...] descobrimos coisas que não sabíamos através das contas [...] não tínhamos noção do disparate do consumo de água entre cidadãos do mundo, do disparate do preço desses líquidos, sobre o tanto de água que utilizamos em atividades corriqueiras como o café da manhã, por exemplo [...] Foi muito interessante constatar que essa descoberta havia sido de todos nós: professoras e meninos. Eles perceberam que apesar de estarmos fazendo cálculos matemáticos, que era uma matemática pura, o cálculo vinha mesmo como pano de fundo...bacana mesmo foi eles atribuírem significados, sentidos àquilo tudo....eles perceberem o sentido daqueles cálculos corriqueiros que são “apenas uma porcentagem” dentro do tema do projeto [...] Por exemplo, a questão do peso do cálculo proporcional [...] propusemos a comparação percentual da água com outros litros [...] eles perceberam como o cálculo percentual revela questões que passam desapercebidas nesse mesmo cotidiano e tráz pra eles baques em relação aos valores. Tivemos de alterar a abordagem em relação a essas coisas que apareceram [...] quando sugerimos montar a tabela, já havia a intenção para que eles colocassem o litro da água como cem por cento, justamente para que quando fizessem as comparações obtivessem 5 mil por cento...pois esse valor provoca espanto e indignação...interessante relatar que alguns fizeram o cálculo errado! Colocaram o preço do outro líquido como cem por cento e esses não ficaram tão assombrados! Veja, a conta está por trás, mas você vê como o significado produzido é diferente. Isso foi muito bacana para percebermos como dados podem ser manipulados. Ficamos refletindo sobre como a matemática tem importância numa análise de dados em projetos como esse e nas informações que são transmitidas às comunidades. Outra coisa bacana foi quando nos vimos discutindo com eles, por exemplo, sobre comodities e não apenas cálculos matemáticos [...] mas como a matemática embasou nossa discussão [...] Esses estudos provocaram não somente a consciência de cooperar pela água com o não abrir a torneira, mas coisas muito mais amplas e complexas sobre o cotidiano e atribuição de sentido às questões específicas de matemática. (Isabel Cezimbra e Adriana Bianca. Professoras de Matemática no Ensino Médio. Depoimento ao autor em agosto, 2013). 6. Narro aqui insurgência vivenciada em minha prática docente provocada pelas interpelações da pedagogia cultural do tempo presente através do relato de uma aluna sobre um outdoor, numa avenida de grande circulação da cidade, operando afirmação de identidades e marcação das diferenças: Num desses primeiros horários das manhãs escolares urbanas, trabalhando nas aulas de História e de Atualidades, provocava o alunado para interagir em embates e negociações de significados dos artefatos midiáticos na urbe soteropolitana, quando uma aluna, implicada com esse movimento, adentra a sala e sinaliza sua inquietação com um outdoor “que a deixou bolada” desde a tarde anterior: 53 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino “[...] Pró, pirei com uma propaganda que vi ontem e lembrei dessas coisas que estamos discutindo sobre desvelamentos e cultura [...] é a de uma churrascaria que tira onda de elite pra ficar bem na foto [...] você já viu esse outdoor, Pró? Achei agressiva a forma como diminuem o que não está no modelo deles! Aprendi em casa que pra você se dar bem, pra você subir, você não precisa fazer o outro descer, nem pisar nele pra aparecer! Esse outdoor ensina muito, só que tudo ao contrário!” (ver imagem 1 em anexos) Outros alunos entraram no tensionamento que estava sendo proposto, afirmando que “[...] no sistema que nos domina é assim mesmo, você tem de mostrar que é diferente, que não é igual a maioria, principalmente, que é diferente da massa, do povão!” “[...] essas propagandas não me afetam, eu percebo quando eles querem que eu faça do jeito que eles dizem que tem de ser! Pra mim isso só afeta quem tem cabeça fraca ou quer tirar onda de barão pro’soutros verem e ser respeitado, mas, na verdade, adoram o rodizião, mesmo, e vai escondido lá!” “[...] essas mensagens nos ensinam sem que a gente perceba, a gente aprende a ser cordeirinho ou lobão no dia-a-dia!” Discuti com o alunado afirmando que a identidade construída desse novo restaurante da cidade (na época, 2005), de partida, é representada nesse artefato como uma carne-social que não se mistura, não está disponível para “todos” (como se todos pudessem ser consumidores de carne) num restaurante onde as carnes circulam o tempo todo “para todos”, onde “todos” podem consumir todos os tipos de carne. Ela é uma carne para poucos, requintados, uma elite nobilliárquica. E para que essa identidade fidalga se firme positivamente, marca a diferença afirmando aquilo que ela não é, uma carne-que-frequenta-rodízio, negativizada, instituindo significados que podem se tornar hegemônicos de “Carne-Boa”, “Restaurante-Bem-Frequntado” e de “Carne-Ruim”, “Restaurante-Mal-Frequentado”. A carne frequentadora de rodízios é representada como o Outro-Ameaça (TEIXEIRA NETO-ZELÃO, 2013). REFERÊNCIAS AMORIM, A. C. Deleuze e currículo no intervalo de palavras e imagens. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo; GABRIEL, Carmem Teresa; AMORIM, Antonio Carlos (orgs.).Teóricos e o campo do currículo. E-book: GT Currículo, FE/UNICAMP.Campinas,2012. www.bibliotecadigital.unicamp.br document ?down 52156 Acesso em dez/2013. RIEUX, Bernardo. Pesquisa de livros de gilles deleuze – transcrição das entrevistas de Deleuze à Claire Parnet, postado no site oestrangeiro.net., 2005. <http://www.oestrangeiro.net/index.php?option=com_content&task=view&id=67&Itemid=51 > Acessado em maio/2013. 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ANEXOS Imagem 1 foto de outdoor, na avenida Vasco da Gama, SSA –BA, captada pelo autor, dez 2010. foto de outdoor na avenida Garibaldi, SSA-BA, captada pelo autor, 2005 56 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino UMA REFLEXÃO SOBRE CURRÍCULO: DA TEORIA TRADICIONAL À CRÍTICA Juliane Batista Bezerra12 Lívia Wanessa de Souza13 Resumo O presente artigo analisar a evolução de currículo como campo de estudos, apresentando a importância dos movimentos sociais dos anos 1960 para por em xeque a estrutura organizacional da educação tradicional que restringia currículo a algo técnico, advindo dessa inquietude uma reflexão que nos permita enxergar o que o currículo faz. De maneira que, abordaremos as principais críticas desenvolvidas sobre a educação e sua relação com o trabalho, e como a mesma implica para a manutenção da sociedade em seu status quo, demonstrando a insatisfação do modelo tecnocrata estabelecido por Bobbitt e Tyler através do movimento de reconceptualização. As criticas são fundamentadas em concepções fenomenológicas e neomarxista. Palavras-chave: Currículo clássico; Reconceptualização; Crítica neomarxista. Introdução O referido artigo investiga a organização da educação e como isso refletiu no desenvolvimento do conceito de currículo. Para isso, nos remetemos a referências bibliográficas como: Silva (2010), Luckesi (1994; 2003), entre outros, que nos forneceram subsídio para refletir sobre o surgimento do currículo e seu vínculo com a sociedade. Nesse sentido, buscamos entender o currículo desde sua tomada como ciência, trazendo conceitos como o de Bobbit, que em seguida uniu-se a definição de Tyler, tornando-se modelo. Nos anos 1960, a sociedade mundial, através dos movimentos sociais, manifestaram suas insatisfações com o poder opressor da economia e da política, nesse espírito revolucionário surgiram às mudanças de pensamento sobre o currículo. Dessa forma, as transformações desse período resultaram em críticas ao modelo tecnicista de currículo ocasionando a derrubada dessa perspectiva. Diante disso, tomou corpo o movimento de reconceptualização embasado em teorias sociais, as quais procuravam aproximar a realidade social vigente da concepção de currículo. 12 Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas no Centro de Educação e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência. 13 Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas no Centro de Educação. 57 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino É importante frisar que as diversas teorizações acerca do currículo de nada serão válidas se não estiverem aliadas a prática real. Desenvolvimento Com a queda do feudalismo, surge o capitalismo, em meados do século XIV. É nesse contexto que nasce no Renascimento, tendo seu princípio no Humanismo, onde as ideias eram baseadas no antropocentrismo e individualismo. Em meio a essas mudanças se aflora o interesse pela educação, tendo como propósito à formação intelectual e moral do sujeito. Para isso, os alunos eram submetidos à severa disciplina e a uma rotina de estudos embasada nos clássicos trivium e quadrivium. Nesse sentido, Silva (2010, p.26) diz que o currículo clássico que dominava a educação desde sua institucionalização era puramente humanístico. O termo curriculum para designar um estudo especializado se deu nos Estados Unidos devido às condições favoráveis ligadas a institucionalidade da escolarização de massas, tendo como marco histórico a publicação do livro de Bobbitt. Bobbitt defende o funcionamento da escola como de uma empresa, com objetivos, métodos e instrumentos que permitissem uma análise precisa dos resultados. Dessa forma, esclarece Silva (2010, p.23) “o modelo de Bobbitt estava claramente voltado para a economia. Sua palavra-chave era ‘eficiência’”. Assim, o currículo é uma disciplina normativa que define princípios para a racionalização do ensino. Em 1949, Tyler publica um livro que firma o modelo de currículo proposto por Bobbitt, porém, acrescendo duas fontes: a filosofia social e educacional assumida pela escola e a psicologia da aprendizagem. Logo, o desenvolvimento e organização do currículo devem responder a questões que Silva (2010, p.25) discorre: 1.que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir? 2.que experiências educacionais podem ser oferecidas que tenham probabilidade de alcançar esses propósitos? 3.como organizar eficientemente essas experiências educacionais? 4.como podemos ter certeza de que esses objetivos estão sendo alcançados? Essas indagações correspondem aos métodos aplicados pela Pedagogia Tradicional, onde ensinar é passar o conhecimento de forma verbalista e autoritária, no qual o professor é figura central no processo de ensino e aprendizagem. Afirma Luckesi (1994, p.55): Os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação professor/aluno não tem nenhuma relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as 58 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino realidades sociais. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual. O ambiente escolar possui um posicionamento político, ideológico e social, por isso, não é ao acaso que nos utilizamos de regras que remontam dos séculos XVI e XVII, isso porque vivemos seguindo o modelo da sociedade burguesa, com poder centralizado e hierarquizado, onde a prática pedagógica o reproduz como é descrito por Luckesi (2003, p.19). Na história do currículo a década 1960 foi um marco, pois nesse período ocorreram mudanças e começaram as críticas às concepções tradicionais e técnicas do currículo. Silva (2010, p.29-30) afirma: As teorias críticas do currículo efetuam uma completa inversão nos fundamentos da teoria tradicional. Como vimos, os modelos tradicionais, como o de Tyler, por exemplo, não estavam absolutamente preocupados em fazer qualquer tipo de questionamento mais radical relativamente aos arranjos educacionais existentes, às formas dominantes de conhecimento ou, de modo mais geral, à forma social dominante. Então, os modelos tradicionais de currículo, são totalmente distintos da teoria crítica, que coloca em questão os pressupostos dos presentes arranjos sociais e educacionais. Esta teoria pretendia desenvolver conceitos para saber o que o currículo faz. A teoria tradicional utiliza como referência o “status quo”, enquanto a teoria crítica desconfia dele, pois, o responsabiliza pelas desigualdades sociais. Assim, as teorias críticas gerais da educação tiveram forte influência sobre a forma de pensar o currículo. Como afirma Silva (2010, p. 30), existe uma linha do tempo entre 1970-1979 que nos traz marcos fundamentais da teoria crítica geral e que serviram de influência para o currículo, com a publicação de obras de autores como: Paulo Freire, Louis Althusser, Michael Apple, dentre outros. De acordo com Silva, (2010, p.31), Althusser argumenta que a permanência da sociedade capitalista depende da reprodução de seus componentes econômicos e ideológicos. Para ele a ideologia é composta de crenças boas que nos levam a aceitar as estruturas sociais e que a escola transmite sua ideologia através do currículo. A partir da I Conferência sobre Currículo realizada em 1973, o movimento de reconceptualização passou a exprimir a insatisfação crescente com os parâmetros tecnocráticos estabelecidos. Os reconceptualistas compreendiam que o currículo como uma atividade técnica não se enquadraria nas teorias sociais. Nas palavras de Silva (2010, p.37), aquilo que, nas perspectivas 59 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino tradicionais, era entendido como currículo era precisamente o que, para as teorias sociais, precisava ser questionado e criticado. A análise fenomenológica tem sido combinada com duas estratégias de investigação: a hermenêutica que contrasta com a suposta existência de um significado único e a possibilidade de múltipla interpretação de significados e a autobiografia que enfatiza os aspectos formativos do currículo, entendido como a experiência vivida. As duas perspectivas tratavam de criticar os modelos técnicos dominantes pretendo incluir tanto as vertentes fenomenológicas como as marxistas. De acordo com Silva (2010, p.40): O currículo não é, pois, constituído de fatos, nem mesmo de conceitos teóricos e abstratos: o currículo é um local no qual docentes e aprendizes têm a oportunidade de examinar, de forma renovada, aqueles significados da vida cotidiana que se acostumaram a ver como naturais. Precursor da crítica neomarxista às teorias tradicionais, Michael Apple, faz uma análise das tradições pedagógicas focada no currículo, realizando uma reflexão política sobre o assunto partindo da observação do binômio currículo-poder. Apple, debruçado sobre o pensamento de Gramsci a manutenção do poder depende de uma ideologia que convença às classes dominadas que aquela ordem vigente é a natural. Isso se dá no campo cultural e educacional, numa luta constante de valores, sendo o currículo um instrumento de resistência daqueles que detém o poder. O currículo não é dotado de imparcialidade, antes, é constituído de conhecimentos significativos a uma parte da sociedade, que o cria e o impõe aos demais. No dizer de Paraskeva (2002, p.113): A manutenção [errônea e perigosa] da ideia de conhecimento como um artefacto relativamente neutro tornando-o apenas num objecto psicológico ou num processo psicológico tem permitido uma falaciosa e letal despolitização [quase integral] da cultura que as escolas distribuem. Sobre questionamentos quanto à veracidade do conteúdo curricular, Paraskeva (2002, p.113), traz: Para Michael Apple era fundamental o questionamento das formas de conhecimento difundido – de quem é esta cultura? A que grupo social pertence este conhecimento? E de acordo com o interesse de quem é que se transmite determinado conhecimento (factos, destrezas, propensões e disposições) em instituições culturais como as escolas? 60 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Enfim, Apple buscou analisar o currículo fora da neutralidade, atribuindo-lhe um caráter político e apontando seu papel nas relações de poder, afirmando que, para haver uma verdadeira transformação no currículo, há que pensá-lo criticamente, reconhecendo sua função como ferramenta ideológica. Considerações Finais O currículo já existia e fazia parte da vida escolar antes mesmo de assim ser chamado e, apesar de não se separar da prática educativa, nem sempre chamava a atenção dos pensadores da educação como objeto de estudo. A década de 1960, marcada por movimentos de mudanças sociais repercutiram no estudo do currículo que passou a ser analisado sob um prisma crítico. Dessa forma, o currículo, não pode ser considerado como simples organização de conteúdos escolares, ao fazermos isso, negamos o caráter político da educação, deixando de se preocupar com o poder ideológico do qual a nossa prática educativa, e consequentemente o currículo, está tão carregada, pois reduzi-lo a uma neutralidade simplista, faz com que à escola não cumpra com a função de ser um meio de formação de mentes críticas e despertas para as mudanças sociais necessárias, e desta maneira, permaneceremos como instrumentos de manutenção da ordem social vigente. Referências LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994. Coleção Magistério 2° grau. Série Formação de Professores. p. 53-74. ______. Avaliação da aprendizagem na escola: reelaborando conceitos e recriando à prática. Salvador: Malabares e Eventos, 2003.p.11-48. PARASKEVA, João M. Michael W. Apple e os estudos [curriculares] críticos. In: Encontro Internacional - Políticas Educativas e Curriculares. 2002, Ermesinde, Portugal. Anais do Encontro, revista Currículo Sem Fronteiras v.2, n.1, pp.106-120, Jan/Jun 20. Disponível em: http://www.curriculosemfronteiras.org/vol2iss1articles/paraskevaconf.pdf SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias de currículo. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 20-49. 61 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino CURRÍCULOS ENUNCIADOS NA PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS: QUE RELAÇÕES COM O CAMPO DO CURRÍCULO? KARINE BLOOMFIELD FERNANDES [email protected] LETICIA TERRERI SERRA LIMA - UFRJ [email protected] Resumo Neste trabalho, temos por objetivo interpretar os currículos enunciados nas pesquisas em Ensino de Ciências. Em diálogo com Michel Foucault e com o campo do Currículo, analisamos 22 trabalhos publicados na linha temática ‘Currículos’ do VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC). Dentre outros aspectos, nossa análise buscou compreender de que modo os diálogos estabelecidos com autores do campo do Currículo e do ‘Ensino de’ Ciências contribuem para a produção de regularidades enunciativas em meio aos sentidos de currículo produzidos. Identificamos que em muitos trabalhos o currículo assume um sentido prescritivo, submetido a relações de poder hierárquicas, lineares e verticalizadas, sendo essa uma perspectiva ainda hegemônica no ‘Ensino de’. Disputando a legitimação de outros significados, em um menor número de textos percebemos a articulação de outros sentidos que entram em disputa na arena discursiva do ‘Ensino de’ Ciências, tais como o currículo como produção sócio-histórica, cultural e/ou discursiva. Palavras-chave: Currículos enunciados; Ensino de Ciências; campo do Currículo. STATEMENTS OF CURRICULUM IN RESEARCH IN SCIENCE TEACHING: WHAT RELATIONS WITH THE FIELD OF CURRICULUM? Abstract In this work, we aim to interpret the statements of curriculum in research in Science Teaching. In dialogue with Michel Foucault and with the field of Curriculum, we analyzed 22 studies published in the subject line 'Curriculums' of the 8th National Meeting of Research in Science Education (ENPEC). Among other things, our analysis sought to understand how the established dialogues with authors from the field of Curriculum and those from the Science ‘Teaching’ contribute to the production of enunciative regularities among the meanings about curriculum that have been produced. We found that, in many studies, curriculum takes on a prescriptive meaning, subjected to hierarchical power relations, linear and verticalized, and this perspective is still hegemonic in the ‘Teaching’. Disputing the legitimacy of other meanings, in a smaller number of texts we see the articulation of other meanings that come into contention in the discursive arena of Science 'Teaching', such as curriculum as sociohistorical, cultural and / or discursive production. Key words: Statements of curriculum; Science Education; Curriculum. 62 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Introdução Este trabalho tem a intenção de contribuir para as discussões realizadas no âmbito do NEC/UFRJ, cujas pesquisas vêm sendo produzidas na interface entre o campo do Currículo e os ‘Ensinos de’, em diálogo com as Teorias Sociais do Discurso, a História do Currículo e a Formação de Professores. Nele, focalizamos a produção de pesquisas no ‘Ensino de’ Ciências que assumem investigar o currículo, buscando interpretar os diálogos estabelecidos com autores do campo do Currículo, bem como os sentidos de currículo que vem sendo mobilizados e produzidos nesta área de pesquisa. É importante pontuar que o debate sobre as relações que as pesquisas em ‘Ensino de’ mantêm com o campo educacional extrapolam o âmbito do NEC/UFRJ e mesmo o do campo do Currículo, envolvendo inúmeras outras questões. De acordo com Ferreira, Gabriel e Monteiro (2012, p. 1), por exemplo, nos encontramos em um momento de intensa discussão política, marcado, entre outros aspectos, pela criação de uma área de ‘Ensino’ na CAPES separada da área de Educação e concomitante com a extinção da área de ‘Ensino de’ Ciências, o que sinaliza “o acirramento, o deslocamento e a atualização de tensões historicamente presentes nas políticas educacionais”. Em diálogo com autores como Popkewitz (2001), Ferreira (no prelo) e Ferreira e Jaehn (2012), entendemos a pesquisa no Ensino de Ciências e os currículos enunciados como “construções sócio-históricas que produzem e hegemonizam significados sobre quem somos e sobre aquilo que sabemos” (FERREIRA, no prelo, p. 2). Assim, os currículos produzidos na pesquisa em Ensino de Ciências participam “das lutas mais amplas em torno das definições de quais conhecimentos e racionalidades devem ser considerados válidos socialmente, em um movimento que necessariamente envolve relações de poder” (FERREIRA, no prelo, p. 2). Opções metodológicas Optamos por investigar os trabalhos publicados nos Anais do VIII Encontro Nacional em Educação em Ciências (ENPEC)14, o maior evento nacional na área e que é organizado pela Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC). Tomando esses textos como monumentos (FOUCAULT, 2012), analisamos os mesmos em sua superfície, na intenção 14 No site do evento encontramos links para os oito encontros já realizados desde 1997, data do I ENPEC, mas os trabalhos completos só estão disponíveis a partir do terceiro encontro. Optamos por focalizar nossa análise nos Anais do oitavo e último encontro, que data de 2011, uma vez que ele já concentra um número significativo de trabalhos na linha temática ‘Currículos’. Trabalhos disponíveis em: http://www.nutes.ufrj.br/abrapec/viiienpec/index.htm 63 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino de não buscarmos significados subjacentes à sua materialidade. Entendemos que, a partir deles, podemos interpretar disputas discursivas em torno do que pode ou não pode ser caracterizado como pesquisa no campo e sobre o que é ou não é considerado um bom ensino de Ciências, com potencial de produzir subjetividades docentes, discentes e de pesquisadores, instituindo regimes de verdade sobre o que pode ou não pode ser dito. De um universo de 1188 textos completos disponibilizados no sítio eletrônico do evento em 14 linhas temáticas, selecionamos aqueles 51 (4,3%) que foram reunidos na linha temática ‘Currículos’. A reunião dos trabalhos em cada uma das linhas está relacionada a uma explícita opção dos autores, o que é, para nós, uma informação relevante, já que, dentre todas as opções possíveis, os autores optam por situar suas produções no espaço-tempo destinado às discussões curriculares. A tabela a seguir mostra a distribuição dos trabalhos nas linhas temáticas, nos auxiliando a perceber os aspectos mais focalizados, atualmente, no campo do Ensino de Ciências. Mais do que uma distribuição quantitativa dos dados, compreendemos que essas informações podem ser tomadas como indícios das linhas que têm sido mais ou menos procuradas pelos pesquisadores, apontando os debates privilegiados, os quais entendemos manter continuidades sócio-históricas com as tradições deste campo. Linhas temáticas Total %* Formação de professores de Ciências 276 23,2% Ensino e aprendizagem de conceitos científicos 184 15,5% Processos e Materiais educativos em Ciências 93 7,8% História, Filosofia e Sociologia da Ciência no Ensino de Ciências 89 7,5% Linguagem e ensino de Ciências 87 7,3% Alfabetização científica e tecnológica, abordagens CTS e Ensino de Ciências 80 6,7% Educação ambiental e Ensino de Ciências 74 6,2% Educação em espaços não formais e divulgação científica 72 6,1% Tecnologias da Informação e Comunicação no Ensino de Ciências 72 6,1% Currículos 51 4,3% Diversidade, multiculturalismo e Educação em Ciências 36 3% Educação em saúde e Ensino de Ciências 33 2,8% Avaliação na Educação em Ciências 23 1,9% Políticas educacionais e Educação em Ciências 18 1,5% Tabela 1: Quadro de distribuição dos trabalhos completos publicados por linha temática. * Valores aproximados, considerando somente a primeira casa decimal. 64 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino De posse dos 51 trabalhos publicados na linha temática ‘Currículos’, investigamos a presença, nas palavras-chave, do termo “currículo” e de expressões como “políticas curriculares”, “reforma curricular” e “reorganização curricular”. Em diálogo com Gabriel (2012, p. 12), justificamos a escolha desse critério de corte que, “apesar de parecer paradoxal” – uma vez que os próprios trabalhos já foram previamente selecionados justamente por terem como foco ou como “preocupação primordial” a temática em questão –, se justifica considerando a nossa “tentativa de delimitar como campo empírico de estudo” os textos que mobilizam o termo currículo “não apenas como tela de fundo, mas àqueles que reconhecem nessa expressão a afirmação da existência de um campo de investigação híbrido a partir do qual são construídas as interlocuções teóricas” sobre o mesmo. A ausência da referida expressão no rol das palavras que sintetizam, de alguma forma, os interesses dos autores, traz indícios de pouca interlocução com autores do campo do Currículo. Desse modo, reduzimos nosso material empírico a um quantitativo de 30 artigos. Em uma terceira e última etapa, analisando os títulos, palavras-chave e resumos desses trabalhos, selecionamos aqueles relacionados às áreas classicamente constituintes do Ensino de Ciências (Biologia, Física, Química e Ciências Naturais). Assim, delimitamos nosso material empírico a um número de 22 trabalhos a serem analisados na íntegra. É pertinente perceber que a comunidade disciplinar – no sentido proposto por Goodson (1995, 1997) – do ‘Ensino de’ Ciências é heterogênea, sendo constituída por ‘subcomunidades’ relacionadas a campos específicos do conhecimento (tais como Biologia, Física e Química), cada uma com trajetórias, histórias e tradições também heterogêneas entre si, mas que mantêm aproximações e continuidades. Em diálogo com Ferreira, Gabriel e Monteiro (2012, p. 1), podemos pensar no ‘Ensino de’ como “um lugar de atuação e ou produção de conhecimentos” e, nesse sentido, entendemos que essas diferentes sub-comunidades disciplinares, ao endereçarem suas produções à referida linha temática, contribuem para a produção e circulação de sentidos de currículo e para a construção de conhecimentos sobre o ‘Ensino de’ Ciências. Amparando-nos nas contribuições teórico-metodológicas de Foucault (2009, 2012) e de alguns de seus interlocutores no campo do Currículo, tivemos a intenção de problematizar os enunciados de currículo que circulam no âmbito da pesquisa no Ensino de Ciências, entendo-a como um terreno de práticas e lutas discursivas, que estão implicadas no ordenamento da própria pesquisa, bem como das salas de aula de Ciências e na regulação das práticas docentes. Compreendendo os discursos como práticas sociais que, produzidas em 65 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino meio a relações de saber-poder, organizam a realidade, partimos da hipótese de que há certa ordem do discurso que implica em regimes de verdade nesse contexto específico de práticas sócio-culturais, as quais são circunscritas por regras que sancionam ou interditam a produção e a circulação de determinados sentidos de currículo. Em acordo com Sommer (2007, p. 58), consideramos que: A circulação, a disseminação, o compartilhamento de certos enunciados que compõem essas práticas discursivas estão implicados na produção das identidades das professoras, nas suas formas de enxergar a sala de aula, os alunos, a educação, enfim, na própria materialização da educação escolar. Refletimos sobre a produtividade e os efeitos de verdades das práticas discursivas, sua capacidade de ordenar os espaços e tempos da produção de pesquisa, bem como do ensinar e aprender Ciências, tomando os discursos presentes nos textos analisados como monumentos. Nesse sentido, não buscamos significados subjacentes à materialidade e, de forma distinta, operamos sobre a superfície dos textos, buscando interpretar regularidades enunciativas, o que pode ser dito e o que está interditado sobre o currículo no âmbito das pesquisas no Ensino de Ciências (FOUCAULT, 2009, 2012; SOMMER, 2007). Passamos à abordagem de tais aspectos nas próximas seções. Diálogos com o campo do Currículo Com o objetivo de compreender os diálogos estabelecidos com o campo do Currículo, analisamos as referências bibliográficas dos 22 trabalhos selecionados. Nelas, aparecem curriculistas como Henry Giroux, Thomas Popkewitz, Michael Apple e Gimeno Sacristàn. Ivor Goodson é a principal referência internacional na área, já que o autor é citado em 7 desses trabalhos. As discussões de Ivor Goodson versam sobre a História das Disciplinas Escolares, um fértil campo de pesquisa em História do Currículo, que entende o currículo como uma construção sócio-histórica e, portanto, consideram que “as formas hegemônicas de conhecimento não são simplesmente mantidas por estruturas macrossociais, mas fazem parte de um sofisticado mecanismo que combina a busca por status, recurso e território” (FERREIRA, 2007, p. 456), como evidencia o fragmento de um dos trabalhos analisados: A própria escola cria sua estrutura curricular com base não somente nas políticas externas, mas considerando necessidades próprias. Esta relação entre componentes internos e influências externas faz com que a seleção e a produção de saberes e práticas envolvam escolhas que não devem ser 66 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino naturalizadas no currículo, pois são legitimadas por diversos segmentos com interesses e concepções diversas (ALVES et al., 2011, p.4). De forma semelhante, Vasconcelos e Gomes (2011, p. 3) consideram os embates que historicamente são observados nas disciplinas escolares quando, na análise de materiais curriculares, concebem: Os livros didáticos como representantes das variadas escolhas de conteúdos elaboradas pela comunidade disciplinar de ensino de Biologia e por isso, como expressões do currículo e dos conflitos e histórias dos atores sociais envolvidos na sua constituição. Entre os autores nacionais do campo do Currículo são citados Alice Casimiro Lopes, Antônio Flávio Moreira, Elizabeth Macedo, Marcia Serra Ferreira, Maria Margarida Gomes, Sandra Selles e Tomaz Tadeu da Silva, alguns dos quais se situam na interface entre o campo do Currículo e o do ‘Ensino de’ Ciências. Alice Casimiro Lopes é a mais citada, presente em 10 dos textos analisados, aparecendo em parceria com Elizabeth Macedo em duas produções. No diálogo com ela (LOPES, 2004), Ferraz et al. (2011, p. 2) refletem sobre as pesquisas que utilizam documentos oficiais e defendem que “por mais que a elaboração das políticas educacionais seja orientada, de forma geral, pelas agências internacionais de fomento, em cada contexto particular há especificidades locais, finalidades sociais que direcionam a demanda dessas políticas.” Identificamos, também, trabalhos que, apesar de trazerem como referência autores do campo do Currículo, se limitam a trazê-los em um momento inicial como exemplo, mas o efetivo diálogo pouco acontece. Em Santos et al. (2011, p. 2), por exemplo, no diálogo com Lopes (2004), os autores anunciam uma aproximação com as noções de ‘recontextualização’ e ‘hibridismo’, mas a análise dos documentos é realizada a partir de autores do “Ensino de” que propõem o seguinte: A divisão do currículo em três modalidades de conteúdos: atitudinal, procedimental e conceitual. Sendo o conceitual o mais conhecido, ocupando sempre um papel de destaque. No entanto, para esses autores [Pozo; Crespo, 2009], são os conteúdos procedimentais que deveriam ser acolhidos pelos professores, pois permitem a avaliação da aprendizagem. Dessa forma, a intenção do trabalho é identificar de que forma o currículo oficial é lido por professores nas escolas. O currículo é abordado de forma prescrita, relacionado aos documentos oficiais, e a dicotomia produção/implementação permanece, distanciando a análise das contribuições que Alice Casimiro Lopes, em diálogo com Stephen Ball, traz para 67 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino pensarmos a produção de políticas curriculares em múltiplos contextos, para além das dicotomias e de forma menos hierárquica e linear. Como na investigação de Ferreira (2005), constatamos uma tendência de muitos autores dos textos analisados em dialogar com pesquisadores do próprio ensino de Ciências, com destaque para as produções de Otávio Aloisio Maldaner, Lenir Basso Zanon e Demétrio Delizoicov. Como exemplo de tal interlocução, Pereira e Maldaner (2011) fazem as seguintes reflexões sobre a formação dos professores: Ao prepararem seu planejamento os docentes veem a partir de uma série de exigências, das quais destacamos algumas: as orientações para o ensino nos PCNs e as avaliações do SAEB; as propostas curriculares estaduais; a diversidade de estudante; o livro didático com conteúdos fixados na mesma sequência que, como um dos únicos materiais de apoio, têm sido apontados como motivo de desqualificação do professor; os conteúdos exigidos nos exames vestibulares... Enfim, são exigências de controle externo que, de modo explícito e implícito, vão constituindo a identidade individual e coletiva dos professores, que se reconhecem nas mesmas práticas arraigadas (PEREIRA; MALDANER, 2011, p. 8). Os conteúdos do ensino são organizados no planejamento dos professores, obedecendo à lógica do conhecimento estruturado. Como consequência, o ensino dos conteúdos do programa dá-se de forma linear e fragmentada, prevalecendo a memorização por contínua repetição de conceitos, sem preocupação maior com recontextualização, esta sim capaz de produzir significados mais consistentes (PEREIRA; MALDANER, 2011, p. 5) . Nesses dois trechos, observamos que os autores apresentam uma visão de poder vertical, onde as esferas oficiais atuam de forma direta nas escolas. Desta forma, é veiculada a ideia que “as instituições de ensino estão sempre em descompasso em relação às orientações curriculares elaboradas no âmbito do Estado” (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012, p. 3). Nessa perspectiva, Ferreira, Gabriel e Monteiro (2012, p. 3) sinalizam um número considerável de pesquisas no ‘Ensino de’ Ciências e de História que “buscam investigar a implementação dessas propostas, assim como a adequação das escolas e dos professores às mesmas”. Ao longo da análise, verificamos, ainda, um número grande de trabalhos que trazem os documentos curriculares investigados como referências bibliográficas. Tais produções, ao não estabelecerem maiores diálogos com autores que problematizam os textos curriculares como fontes de pesquisa, tendem a ‘coisificá-los’, tornando-os indiferentes às disputas políticas por fixação de significados que os constituem (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012). É o caso dos trechos a seguir, que evidenciam como os autores, em suas análises, pouco problematizam os textos oficiais: 68 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O texto que apresentamos aqui faz parte de um projeto de pesquisa que vem sendo desenvolvido desde 2006 junto ao programa de Pós-Graduação em Educação de uma universidade estadual paranaense. Nesse cenário a estrutura curricular do curso de Licenciatura em Química desta instituição foi completamente reformulada a partir do ano de 2004, seguindo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores (BRASIL 2002a, BRASIL 2002b) e as Diretrizes para os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Química (BRASIL, 2002c) (FREIRE; JACUMASSO, 2001, p. 3). O Currículo afirma que as competências “caracterizam modos de ser, de raciocinar e de interagir, que podem ser depreendidos das ações e das tomadas de decisão em contextos de problemas, de tarefas ou de atividades 15 (SÃO PAULO, 2010, p.12) (SANTOS et al., 2011, p.5). Currículos enunciados no ‘Ensino de’ É importante esclarecer que, ao assumir a tarefa de interpretar os sentidos de currículo produzidos e circulantes nos trabalhos investigados, dialogamos com Ferreira, Gabriel e Monteiro (2012) e Ferreira (no prelo), autoras que vêm se debruçando sobre a tarefa de compreender as interfaces entre o campo do Currículo e do ‘Ensino de’. Nesse movimento, identificamos, em nossa análise, alguns significados mais recorrentes e que se pretendem hegemônicos, sendo aqui considerados como regularidades discursivas no Ensino de Ciências. Um deles refere-se a “noções de currículo que o tomam como sinônimo de conteúdo ou uma listagem de conteúdos, naturalizados” (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012, p. 3), que são bastante recorrentes. Esse sentido de currículo é marcante, por exemplo, em textos que defendem a abordagem CTS, muitas vezes articulada à produção de Paulo Freire, focalizando os temas geradores. Ao se propor a entender e analisar o processo de instauração e disseminação da abordagem temática como proposta curricular para o Ensino de Ciências, Hunsche e Delizoicov (2011, p. 1) indicam que esta requer, para sua efetivação, “mudanças no currículo tradicionalmente desenvolvido”. Ao problematizar os conteúdos que devem ser trabalhados nas disciplinas, os autores apontam que, nessa abordagem, a conceituação científica está subordinada ao tema, mas, no entanto: A abordagem conceitual não fica suprimida. Contudo, o conteúdo abordado através dos temas não se resume a enunciados de livros didáticos ou à memorização de termos científicos, depositados na cabeça dos educandos 15 Os autores se referem ao documento: SÃO PAULO. Currículo do Estado de São Paulo: Ciências da Natureza e suas tecnologias. São Paulo: SEE, 2010. 152p. 69 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino como se esta estivesse vazia, o que Freire (1979) denominou de ‘educação bancária (HUNSCHE; DELIZOICOV, 2011, p. 2-3). Nesse e em outros trabalhos (ver, por exemplo, HALMENSCHLAGER; DELIZOICOV, 2011; BEBER; MALDANER, 2011; CARVALHO; ALLAIN, 2011; SANTOS et al., 2011), as problematizações muitas vezes se limitam à crítica a currículos de Ciências tradicionais e à organização e estrutura curricular de determinadas disciplinas escolares. É comum que as propostas para a resolução destes aspectos, identificados como problemas a serem resolvidos, se restrinjam à proposição de ‘novas’ metodologias de ensino, ‘novas’ abordagens, e ‘novas’ formas de selecionar e organizar os conhecimentos no contexto das disciplinas escolares. Os trechos a seguir são interessantes exemplos dessa forma de significar o currículo: A cultura escolar não pode ser desconsiderada, mas é necessário recriá-la diante dos resultados insatisfatórios, pela qual é responsável a forma cristalizada da seleção de conteúdos escolares. A grande quantidade e a falta de mobilidade dos conteúdos entre as séries dificultam a perspectiva de ensino contextualizado, assim como dificultou o trabalho com o cotidiano (BEBER e MALDANER, 2011, p. 8). Para Pozo e Crespo (2009), por tradição, os currículos escolares priorizam a aquisição de conceitos, porém, a identificação dos procedimentos pelo professor sempre estiveram presentes nas salas de aula. No ensino de Ciências, além dos conceitos e princípios próprios, os autores indicam a necessidade dos alunos aprenderem a fazer ciência (SANTOS et al., 2011, p. 2-3). Consideramos que tal regularidade discursiva, relacionada ao distanciamento das teorizações curriculares e educacionais mais amplas, já apontado na seção anterior, fragilizam os argumentos e análises, uma vez que deixam de ser reconhecidos, por exemplo, aspectos sócio-históricos que vêm contribuindo de forma expressiva para movimentos curriculares que provocam transformações quanto ao quê e como ensinar Ciências nas escolas. De forma distinta, entendemos que o ensino de Ciências nas escolas vem sendo ressignificado historicamente e o fazer ciência, bem como o trabalho de conteúdos procedimentais por meio da experimentação, para usar exemplos extraídos dos textos investigados, foram bandeiras defendidas desde a década de 1950, as quais muito influenciaram e ainda influenciam o trabalho dos professores nas escolas. Outros sentidos de currículo são enunciados justamente em textos que propõem uma abordagem sócio-histórica para compreender o currículo e sua relação com o ensino de Ciências. Conforme apontamos na seção anterior, o diálogo expressivo com Ivor Goodson, entre outros representantes de estudos sócio-históricos no campo, vêm contribuindo para o 70 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino jogo político e a luta discursiva na direção de fixar outras regras discursivas e outros significados de currículo, distintos daquele supramencionado. A maioria desses trabalhos opera com um sentido de currículo para além da listagem de conteúdos, mas entendendo-o como construído sócio-historicamente, em meio a disputas e tensões, por comunidades disciplinares em busca de status, recursos e território (GOODSON, 1995, 1997). Mais do que criticar, esses trabalhos se propõem a compreender os aspectos que, ao longo do tempo, contribuíram para as configurações curriculares atuais. Em Vasconcelos e Gomes (2011, p. 2), por exemplo, autores que se propõem a investigar aspectos constitutivos do currículo de Biologia em livros didáticos, os autores tomam os livros como “expressões curriculares da disciplina escolar Biologia”, considerando-os como “resultante[s] de embates e disputas entre grupos sociais nos processos de seleção de conteúdos, métodos e objetivos para o ensino”. Eles também destacam que “nos currículos escolares circulam tanto conteúdos e métodos de ensino relacionados às ciências de referência, como também, elementos relacionados a fatores sociais e do cotidiano dos alunos” (VASCONCELOS; GOMES, 2011, p. 2). Ao buscarem compreender a natureza dos conhecimentos ecológicos, os autores concluem que estes vêm integrando os conhecimentos biológicos a partir da seleção de conhecimentos do campo da Biologia e de outras áreas de estudo, além de aspectos relacionados a movimentos educacionais e sócio-ambientais. Também em abordagem sócio-histórica, o trabalho de Alves et al. (2011, p. 4), opera com um sentido de currículo que: Tem como base um conjunto de teorias e práticas que dão sustentação às vivências e aos conhecimentos a serem construídos na escola. Envolve tempo e espaço característico, com aspectos simbólicos, lingüísticos, epistemológicos, científicos, políticos, sociais e ideológicos que o identificam e guiam. O currículo não se restringe a matrizes e planos de disciplina. Um currículo se constitui no cotidiano escolar, com suas rotinas, conteúdos abordados ou negados, espaços de convivência ou de poder, regulação e emancipação, programação e sistematização. O currículo direciona a trajetória dos saberes escolares manifestos e ocultos, apontando os inúmeros caminhos disponíveis neste itinerário. Em diálogo com o campo do Currículo, os autores desses trabalhos contribuem para desnaturalizar os conhecimentos escolares, interpretando-o de forma distanciada de “perspectivas essencialistas que, embora participem das disputas internas ao campo do Currículo, há muito não são hegemônicas no mesmo” (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012, p. 3). Diferentemente, as perspectivas essencialistas ainda se fazem muito presentes nas pesquisas no ‘Ensino de’ Ciências, disputando os significados de currículo que são produzidos 71 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino no campo em meio a um tímido debate com teorizações curriculares críticas e pós-críticas que dialogam com a história e/ou a cultura. Outro sentido de currículo enunciado nos trabalhos que analisamos é especialmente mobilizado nos trabalhos que se propõem a debater ou analisar políticas curriculares. Consideramos que a maioria desses trabalhos está submetida aos efeitos de poder das regras discursivas já destacadas, as quais apontam o currículo como “sinônimo de conteúdo ou uma listagem de conteúdos, naturalizados” (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012, p. 3) em perspectiva essencialista, enunciando-o com um caráter fortemente prescritivo. Conforme comentado na seção anterior, tais pesquisas buscam investigar a implementação de propostas oficiais, bem como a adequação dos professores e escolas às mesmas. Esse é o caso, por exemplo, de Santos et al. (2011, p. 1), cujo objetivo é analisar o cumprimento do conteúdo curricular por um professor de Física na sua prática em sala de aula e sua proximidade com a matriz do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP). De outro modo, o trabalho de Beber e Maldaner (2011, p. 2), ao propor aproximações entre as discussões do cotidiano e as da contextualização e defender essas contribuições como possibilidade de melhorar a qualidade da Educação Básica, busca legitimar essa argumentação em diálogo com documentos oficiais: A contextualização do ensino é defendida como princípio organizativo de currículo para melhorar o cenário educacional, por facilitar o desenvolvimento de competências gerais e específicas junto aos estudantes. Na área das Ciências da Natureza e suas Tecnologias (CNT) há um razoável consenso de que reorganizações curriculares que privilegiam a contextualização dos conteúdos e conceitos científicos escolares possam potencializar a tomada de decisões mais acertadas em situações reais ou problemáticas (BRASIL, 2006). Os autores concluem que “a grande quantidade e a falta de mobilidade dos conteúdos [de Química] entre as séries dificultam a perspectiva de ensino contextualizado, assim como dificultou [no passado] o trabalho com o cotidiano” (BEBER; MALDANER, 2011, p. 8), reforçando a ideia de que existe um descompasso das instituições de ensino em relação às orientações curriculares elaboradas no âmbito do Estado (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012). Nessa perspectiva, os documentos são ‘coisificados’ e, muitas vezes tomados como prescrições, como referência, como verdades. Como resultado, torna-se frequente um destaque para “as deficiências das escolas, de professores e alunos, além de prescrições sobre os caminhos a serem trilhados para a superação das mesmas” (FERREIRA; GABRIEL; MONTEIRO, 2012, p. 3). É o que ocorre em Halmenschlager e Delizoicov (2011, p. 1) quando 72 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino analisam “como as orientações propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) estão sendo articuladas aos currículos de Física, de Química e de Biologia em referenciais curriculares estaduais”. Os autores legitimam seus argumentos em diálogo com os documentos oficiais, defendendo que a seleção de conhecimentos relevantes “implica na inserção de novos elementos ao currículo escolar, que contribuem para um ensino contextualizado, interdisciplinar e mais significativo ao aluno, aspecto fundamental presente nos PCN (BRASIL, 2002; 2006)” (HALMENSCHLAGER; DELIZOICOV, 2011, p. 3) e concluem que: Os processos formativos oferecidos aos docentes foram desvinculados da realidade escolar, o que implicou em dificuldades de implementação do currículo e de superação da forma tradicional de ensino (HALMENSCHLAGER ; DELIZOICOV, 2011 p.10). Tais trabalhos endossam uma concepção vertical, linear e hierárquica de poder e das políticas curriculares, as quais seriam produzidas ‘de cima para baixo’, contribuindo para reforçar dicotomias entre teoria e prática, entre produção e implementação das políticas. É o que percebemos, também, em Junior et al. (2011, p. 1) quando investigam as ideias dos professores de Química da rede estadual de São Paulo “acerca do currículo oficial de Química no que diz respeito à sua aceitação, às modificações necessárias e ao papel do currículo de Química na formação dos estudantes”. Em um movimento que tende a ‘coisificar’ o currículo, os autores chegam à seguinte conclusão: O currículo é considerado adequado por grande parte dos professores e deve ser mantido com algumas alterações. Entretanto, percebe-se que alguns professores valorizam apenas o aspecto organizador de conteúdos do currículo em detrimento dos fundamentos pedagógicos que o estruturam (JUNIOR et al., 2011, p. 10). Se uma abordagem dicotômica e as diversas concepções a ela associadas ainda não foram problematizadas no Ensino de Ciências como campo científico, é importante reforçar que tal perspectiva vem sendo amplamente debatida por autores do campo do Currículo, os quais buscam compreender os textos políticos como produções culturais e discursivas, elaborados em múltiplos contextos, por múltiplos sujeitos e em meio a disputas de significados que são mediadas por relações de poder capilarizadas. Nesse sentido, mais uma vez apontamos a fertilidade do aprofundamento do diálogo entre o ‘Ensino de’ e as teorizações curriculares. Esse parece ser o caminho trilhado por Ferreira (2011, p. 9), autora que significa currículo como produção discursiva, em uma abordagem que se afina com os debates culturais 73 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino que têm permeado o campo educacional no Brasil, sobretudo desde meados da década de 1990. Em diálogo com Stuart Hall, Thomas Popkewitz, Michel Foucault e Alfredo Veiga-Neto – e sob inspiração dos Estudos Culturais –, ela considera “a educação em Ciências Química como decorrente de uma construção sócio-cultural que se processa pelo e no discurso”. A autora, ao examinar revistas de divulgação científica, livros didáticos de Química e documentos que contêm os Parâmetros Curriculares Nacionais, toma-os como produções culturais, na intenção de “acompanhar processos ligados à produção dos conhecimentos escolares em Ciências Química” (FERREIRA, 2011, p. 1) e à validação dos saberes escolares. Com esse objetivo, realiza um estudo sobre os enunciados dos discursos que perpassam esses processos e conclui que: As revistas ou os livros que discutem textos científicos não são apenas mediadores ou meios de suporte que trazem “a luz” ou ilustram os conhecimentos científicos. Eles, também, constituem o que se tem considerado como conhecimento científico, dando-lhe visibilidade e criando possibilidades para que esses textos sejam instituídos como importantes e necessários, em uma dada época e em dadas instâncias (FERREIRA, 2011, p. 9). Concluindo Em diálogo com autores do campo do Currículo que têm nos auxiliado na compreensão acerca da educação e do ensino de Ciências, interpretamos neste trabalho, currículos enunciados nas pesquisas atuais em Ensino de Ciências. Consideramos que alguns discursos podem ser identificados como regulares, sobretudo, quando a discussão teóricometodológica é endógena ao próprio campo. Exemplos desses discursos, que foram destacados e evidenciados ao longo do texto, estão relacionados a noção de currículo como conjunto fixo e estático de conteúdos, que são compreendidos em uma perspectiva essencialista e também à noção de currículo prescritivo. Considerando as relações de saber-poder delineadas por Michel Foucault, entendemos que, ao longo do tempo, tais regularidades discursivas têm contribuído para a construção de certa ordem do discurso nesse contexto específico, regulando a produção de conhecimento neste campo de pesquisa, bem como o modo de compreender a sala de aula de Ciências, a ação docente, as boas e más práticas, os bons e maus alunos, os quais são construídos discursivamente em meio a relações de poder. De modo distinto dos sentidos de currículo supramencionados, identificamos estudos, ainda em menor número, que, em diálogo com o campo do Currículo e com os Estudos 74 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Culturais, entram nesta arena discursiva, neste jogo político trazendo outros enunciados de currículo. Consideramos que interpretar o currículo como produção sócio-histórica, cultural e/ou discursiva contribui para complexificar o nosso entendimento dos fenômenos relacionados ao ensino de Ciências, tomado como terreno discursivo, de produção cultural, permeado por relações de poder e construído por aspectos sócio-históricos que precisam ser considerados. Nessa direção, concordamos com Ferreira (no prelo, p. 15), quando a autora aponta que: Compreender as razões sócio-históricas de termos assumido centralmente determinados discursos como válidos e/ou verdadeiros pode nos auxiliar em muito na tarefa de investigar e produzir currículos. Afinal, a desnaturalização de conteúdos e práticas hegemonicamente fixados em disciplinas escolares nos permite tanto compreender as relações que se estabelecem entre conhecimento e poder quanto as posições que temos ocupado nas diferentes instâncias que produzem os currículos escolares e acadêmicos. Tal compreensão, se não nos livra dessas relações inevitáveis, certamente nos coloca, pesquisadores e professores, em condições de ocupar outras posições nas lutas pela democratização dos conhecimentos científicos e, de forma mais ampla, da própria sociedade. Nesse sentido, reforçamos que o estudo aqui apresentado foi realizado na intenção de trazer contribuições ao debate que focaliza as interfaces entre o campo do Currículo e do ‘Ensino de’ Ciências, entendendo-as, em diálogo com Macedo (2006) como região de fronteira cultural, um entre-lugar que, especialmente, no momento atual, requer problematização, enfrentamento e melhor compreensão. Não tivemos a pretensão de dar conta das inúmeras questões que permeiam esse debate e consideramos que elas precisam ser aprofundadas, se quisermos fazer avançar a discussão em ambos os espaço-tempos de produção de conhecimento científico. Referências Bibliográficas ALVES, C. dos S. G.; CHINELLI, M. V.; FORSBERG, M. C. da S. 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Dessa forma, privilegiamos a busca de produções que tenham sido apresentadas em eventos acadêmicos da área de História (ANPUH, 2011) e do Ensino de História (ENPEH, 2011) que intencionem estabelecer relações com temáticas ligadas ao Currículo. Nesse sentido, sublinhamos a importância de LOPES E MACEDO (2011) e FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO (2012) como referenciais teóricos principais para a observação das teorizações curriculares que têm circulado e se fixado, contingencialmente, nas produções acadêmicas em Ensino de História. Palavras-chave: Currículo, Ensino de História, ANPUH, ENPEH. Abstract The aim of this paper is to investigate the different meanings of the Curriculum that have been used in the academic productions, which are the interface of this knowledge field with the History teaching. Based on this perspective that the “teaching of” consists of a border area and has an epistemological specificity, it permits promising dialogues with the Curriculum field. For this reason, we favor the search of academic productions that have been presented in History events (ANPUH, 2011) and also, in the Educational area ( ENPEH, 2011) which have the goal to establish themes related to this area of Curriculum. We also highlight the importance of LOPES and MACEDO (2011) and FERREIRA, GABRIEL and MONTEIRO(2012) as theoretical references for the observation of the curriculum theorization which have been around and , at the moment, fixed in the academic productions of the History teaching. Key- words: Curriculum, History teaching, ANPUH, ENPEH. Introdução A Associação Nacional de História (ANPUH) realiza bianualmente simpósios nacionais e regionais que congregam uma enorme variedade de simpósios temáticos e que vêm crescendo 16 Professores de História atuando na educação básica no Rio de Janeiro e mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE/UFRJ). 78 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino a cada edição. Na edição nacional de 2011, a ANPUH contou com 130 simpósios temáticos, dos quais quatro possuíam no título o termo “Ensino de História”, enquanto outros faziam menção ao campo semântico do ensino. O Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (ENPEH) também é realizado bianualmente, mas, diferentemente da ANPUH, é organizado em Grupos de Trabalho (GTs) e Grupos de Pesquisa (GPs) que são articulados em torno de eixos temáticos relacionados ao Ensino de História. A proposta deste texto é buscar, nas últimas produções publicadas desses eventos acadêmicos, trabalhos que intencionem estabelecer relações entre o Ensino de História e o campo do Currículo, com o objetivo de investigar os sentidos de currículo que vêm sendo mobilizados quando se pesquisa na interface entre essas duas áreas do conhecimento. Além desse objetivo principal, a análise da empiria constituída permitirá perceber que temáticas do Ensino de História têm sido trabalhadas no diálogo com áreas do Currículo, e o lugar social17 da produção acadêmica nessa interface, pois acreditamos que é importante sumariar os locais dessa produção (se é majoritariamente na área da História ou na área da Educação). Dividimos este texto de acordo com cada um dos eventos selecionados. Na primeira parte serão analisados os textos apresentados no XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH, 2011), realizado entre 17 e 22 de julho na Universidade de São Paulo (USP). Embora já tenha ocorrido outro evento em 2013, a proximidade com a produção deste texto impediu que este fosse privilegiado, pois não houve ainda a publicação, nos Anais do evento, dos trabalhos apresentados. Na segunda parte, as produções analisadas serão as do IX Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (ENPEH, 2011), realizado entre 18 e 20 de abril na cidade de Florianópolis-SC. Como na ANPUH, este ano também é ano de evento, contudo, o X ENPEH será realizado apenas em outubro em Sergipe, o que justifica a escolha do evento de dois anos atrás. Consideradas as singularidades de cada um desses eventos acadêmicos, definimos como critérios de seleção de textos para constituir a nossa empiria a presença dos termos “Ensino de História” e “Currículo” no título ou nas palavras-chave. Essa opção parte do pressuposto de que a inclusão desses termos nesses espaços indica a intenção de marcar um lugar de fala, o que é uma opção política. É importante sublinhar que consideramos também as palavras e/ou expressões pertencentes ao mesmo campo semântico dos termos 17 Utilizamos o conceito de lugar social do historiador Michel de Certau (1982) para designar o lugar de onde se fala quando se produz conhecimento na área do Ensino de História. As informações sobre os autores foram obtidas em seus currículos publicados na Plataforma Lattes do CNPQ no momento de produção deste texto, não correspondendo, necessariamente, ao momento de elaboração dos textos publicados nos eventos aqui privilegiados. 79 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino selecionados como, por exemplo, “história escolar”, “história ensinada”, “práticas curriculares”, “diretrizes curriculares”, “parâmetros curriculares”, dentre outros. Nos Anais eletrônicos da ANPUH – 2011, os textos estão dispostos somente por ordem alfabética de autores, o que impede de saber em qual simpósio temático o texto selecionado, de acordo com os critérios estabelecidos, foi apresentado. Além disso, nos textos não há resumos e, consequentemente, palavras-chave. Dessa forma, os critérios de seleção ficaram restritos ao título dos textos. Como o ENPEH é organizado em GTs, optamos por fazer um recorte mais apurado, utilizando os critérios estipulados dentro de GTs específicos que propõem o diálogo com o campo do Currículo. Esta escolha se deu por considerarmos que se o objetivo da nossa investigação é trabalhar na interface Ensino de História e Currículo, e considerarmos que se trata de eventos da área de Ensino de História, a escolha de GTs que investem nesta relação está plenamente de acordo com os objetivos deste texto. No X ENPEH, o GT selecionado foi o GT6 – Currículo e Práticas Escolares. Para nossa análise, consideramos válidas as contribuições das autoras FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO (2012). Em artigo intitulado “Sentidos de currículo e ‘ensino de’ Biologia e História: Deslocando Fronteiras” as autoras afirmam que existem alguns sentidos de currículo que tendem a ser hegemônicos nas pesquisas sobre o ensino de História e Biologia. O primeiro deles diz respeito à perspectiva que vê o currículo como sinônimo de conteúdos, naturalizados, não sendo objetos de investigação. Essas pesquisas tendem a: investigar a implementação dessas propostas, assim como a adequação das escolas e dos professores às mesmas. De uma maneira geral, tais análises operam com uma visão de política verticalizada na qual as instituições de ensino estão sempre em descompasso em relação às orientações curriculares elaboradas no âmbito do Estado (FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO: 2012, p. 3). A segunda concepção de currículo hegemônica nas pesquisas nas áreas de ‘ensino de’ diz respeito aquelas pesquisas que associam o currículo ao conhecimento, não problematizando o caráter histórico da produção do conhecimento que é visto de modo essencialista. Segundo as autoras: como resultado dessas análises, temos, por exemplo, no caso do ensino de história, aquelas que aquelas que consideram a inclusão de novos conteúdos uma condição suficiente para assegurar um currículo mais aberto às diferenças culturais (FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO: 2012, p. 3) 80 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O terceiro sentido está relacionado à concepção que entende o currículo apenas como o lugar da prática, ou seja, totalmente esvaziado de teoria. O currículo é visto nessa perspectiva como um lugar de aplicação de conhecimento produzido em outras áreas. “Essas pesquisas tendem a escolher como objeto de investigação o uso de materiais didáticos ou a elaboração e testagem de novas metodologias nos processos de ensino-aprendizagem, para dar alguns exemplos” (Ibidem, p. 4). Nosso objetivo será perceber se nos artigos selecionados da XXVI ANPUH e do IX ENPEH essas concepções hegemônicas sobre o currículo foram reforçadas ou os autores buscaram novas articulações teóricas para pensar a interface currículo e Ensino de História. Diálogos entre Currículo e “Ensino de” História: XXVI ANPUH Considerando os critérios de seleção definidos por nós, foram obtidos seis textos que serão aqui analisados. A ordem de apresentação e análise segue o padrão de publicação desses textos nos Anais eletrônicos da ANPUH, ou seja, ordem alfabética dos autores. O primeiro texto é o de Ana Maria Monteiro, intitulado “Tempo presente no ensino de história: mediações culturais no currículo”. O tema desse trabalho é o Tempo Presente no Ensino de História. A autora destaca que esse título corresponde a um projeto de pesquisa que tem por objetivo investigar as atribuições de sentido ao ensinado, tanto pelos docentes como pelos alunos. Embora o currículo não seja objeto principal de análise nesse texto, a autora trabalha com a questão da configuração cultural e da recontextualização de saberes no espaço escolar, reconhecendo, portanto, a escola como instituição produtora de conhecimento e não apenas com a função social de ensinar exclusivamente algo que lhe é externamente produzido. Ao mobilizar estudos culturais em seu projeto de pesquisa, a autora tende a se afastar de concepções essencialistas de escola, de aluno, de docente e também de currículo, se aproximando do pós-estruturalismo que defende que a linguagem não representa a realidade, mas a constitui. No texto apresentado na ANPUH, Monteiro não utiliza autores do campo do Currículo, privilegiando pensadores da área da Teoria da História, como BLOCH, CERTAU, HARTOG, REIS e RICOEUR, e dos estudos culturais, entre os quais, HALL. Na apropriação do conceito de Certau (1982) de lugar social, defendemos que o lugar de fala também compreende a formação do sujeito, uma vez que esta formação constitui-se como marca identitária. Dessa forma, informamos que Ana Maria Monteiro é graduada e mestre em História e doutora em Educação, sendo atualmente pesquisadora do Laboratório 81 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino de Estudos e Pesquisas em Ensino de História (LEPEH/UFRJ), do Núcleo de Estudos de Currículo da Faculdade de Educação (NEC/UFRJ) e do grupo Oficinas da História. O segundo texto é “Concepção de história e ensino na proposta de reorientação curricular de Goiás, mudança ou permanência”, de Márcia Aparecida Vieira Andrade. Este trabalho tem como tema central o Ensino de História na reforma curricular de Goiás ocorrida entre os anos de 2003 e 2006. A autora valoriza o currículo como um documento que representa a seleção e organização do que vale a pena ensinar, que possui um caráter político, e que congrega concepções de mundo e de sujeitos que se quer formar para o mundo, não sendo, portanto, neutro, mas formador de identidades. Andrade recorre à distinção entre currículo oficial (ou prescrito) e currículo oculto (ou vivido, ou real). Enquanto este seria o desenvolvido no espaço escolar, na sala de aula, considerando aspectos específicos do cotidiano, aquele seria o produzido pelo Estado. A apresentação do lugar social da autora ajuda a compreender a opção política da sua concepção de currículo, pois a mesma foi membro participante do processo de reorientação curricular em Goiás. Atualmente é professora formadora P-IV - Secretaria de Estado da Educação, além de ser graduada e mestre em História. Ao participar do processo de construção de um documento curricular oficial como integrante da equipe do estado, é pertinente que Andrade conceba as distinções entre os currículos e, em seu texto, procure legitimar o documento do qual fez parte da elaboração. Ela afirma que “o currículo proposto pela Reorientação Curricular do Estado de Goiás buscou um diálogo intenso com a rede (professores, coordenadores, diretores, subsecretarias e alunos) fazendo deste uma produção coletiva com múltiplos olhares e leituras sobre o processo de ensino-aprendizagem de história” (ANDRADE, 2011, p. 5). A autora enfatiza ainda o prescrito ao afirmar que “é necessário intervir, propor novas diretrizes curriculares, capacitar os educadores para que possam colocar estes novos caminhos a disposição de seus alunos” (ANDRADE, 2011, p.25). Ao separar concepção e implementação e enfatizar o prescrito, o sentido de currículo presente no texto se alinha com as abordagens científicas do currículo que o concebem como aparato de controle social. A importância da escola para o desenvolvimento econômico do país e o destaque que a ela é dado como espaço de socialização de sujeitos, reforçam a crença nesta instituição como instrumento de controle social (LOPES e MACEDO, 2011). Quando ANDRADE aponta o currículo como orientação institucional que deve nortear o processo de ensino-aprendizagem de acordo com as convicções de quem o constrói (p. 2), 82 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino torna-se fácil perceber o viés estruturalista de sua análise e sua concepção verticalizada das políticas curriculares. Defendemos que os documentos curriculares são “produções híbridas, cujas tentativas de fixação de sentidos também são contingentes e passam pela negociação obrigatória com dimensões além de seu contexto específico” (LOPES, 2011, p.45). A construção da sua concepção de currículo está ancorada em autores como FORQUIN, APPLE e SILVA. Em relação ao Ensino de História, Andrade utiliza em seu texto autores que pesquisam sobre o conhecimento histórico escolar, como FONSECA e BITTENCOURT. O próximo texto a ser analisado é de autoria de Maria Aparecida da Silva Cabral, intitulado “As disputas sociais em torno do que ensinar. Análise do currículo das séries iniciais do ensino fundamental e o ensino de história”. Neste texto, o tema central é o Ensino de História nas séries iniciais. CABRAL é graduada em História, e mestre e doutora em Educação. É também Professora Adjunta da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, pesquisadora do grupo de pesquisa Niphei da FFP- UERJ e integrante da Coordenação do GT do Ensino de História e Educação Seção Regional Rio de Janeiro. CABRAL se ancora em SACRISTÁN para delimitar sua concepção de currículo, visto por ela como um documento da cultura escolar que contempla a seleção do que deve ser ensinado. Esta seleção é feita na sala de aula e fora dela pelo professor a partir da definição da função social da escola no contexto histórico de produção, dos pressupostos legais, e das demandas dos alunos (seus conhecimentos prévios e seu cotidiano). Na visão dela, este documento articula todas as práticas educativas. O texto de CABRAL se propõe a investigar as ressignificações feitas no contexto específico da sala de aula, por professoras das séries iniciais, das propostas curriculares oficiais para o Ensino de História. Além de autores do campo do Currículo, CABRAL dialoga também com BITTENCOURT e FONSECA que, como já mencionamos, atuam em pesquisas sobre o conhecimento histórico específico para o espaço escolar. A autora advoga que o processo de ressignificação é uma seleção cultural feita pelo professor, contudo, esta seleção não é feita num vazio teórico-epistemológico, mas diversos fatores influenciam neste processo, como por exemplo, a função social atribuída à escola. Nesse sentido, CABRAL (2011, p. 2) afirma, de acordo com GOODSON, que o currículo é “uma construção social decorrente de intensos conflitos e negociações”. Ao conceber o currículo como uma construção social marcada por tensões que envolvem disputas culturais, CABRAL atribui ao currículo um sentido discursivo, aproximando83 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino se, portanto, de uma abordagem pós-estruturalista. Em LOPES e MACEDO (2011), as autoras nos ajudam a analisar este sentido de currículo. Isso significa que ele é uma prática de poder, mas também uma prática de significação, de atribuição de sentidos. Ele constrói a realidade, nos governa, constrange nosso comportamento, projeta nossa identidade, tudo isso produzindo sentidos. Trata-se, portanto, de um discurso produzido na interseção entre diferentes discursos oficiais e culturais que, ao mesmo tempo, reitera sentidos postos por tais discursos e os recria. Claro que, como essa recriação está envolta em relações de poder, na interseção em que ela se torna possível, nem tudo pode ser dito (p.41). O título do próximo trabalho a ser analisado, de autoria de Paulo Eduardo Dias de Mello, é “Um currículo num campo de tensões: a proposta curricular de história para o 2º grau da CENP SP”. Como o próprio título sugere, o foco do trabalho é uma política curricular específica para a disciplina escolar História para o 2º grau (atual Ensino Médio) do estado de São Paulo. Em seu texto, MELLO faz a distinção entre currículo formal (ou prescrito) e currículo vivido e defende a centralidade do Estado na produção de um currículo oficial que legitime os conteúdos a serem ensinados, mas faz a ressalva de que este documento é interpretado, ressignificado e modificado nos contextos escolares. Ele afirma ainda que todo processo de elaboração e implementação curricular é permeado de tensões, disputas, acordos e rupturas (p. 2). Nesse sentido, o autor parece transitar entre as teorias crítica e pós-estruturalista para construir o arcabouço teórico-metodológico de sua pesquisa, pois ao mesmo tempo em que faz distinções entre currículos formal e vivido, elaboração e implementação curricular, que são típicas da análise estrutural, assim como a defesa da centralidade do estado na formulação de políticas curriculares, o autor sinaliza para a existência de ressignificações existentes no espaço escolar, como podemos observar no seguinte trecho: (...) os currículos oficiais possuem a particularidade de se constituírem, independente das intencionalidades expressas por seus elaboradores, em falas institucionais localizadas no interior do poder estatal. Por esta mesma razão seu texto adquire um caráter normativo, oficial, e formal, indicando estratégias de legitimação e imposição de uma forma de conhecimento escolar. (...) o currículo formal não tem a força absoluta de imposição de suas prescrições, às quais a escola e os professores se curvariam sem resistência. Os currículo em sua elaboração e implementação portam processos informais e interacionais nos quais aquilo que é legislado, é interpretado, subvertido e transformado (MELLO, 2011, pp. 1-2). 84 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Retomando a questão da produção de políticas curriculares e as recontextualizações no momento da prática, defendemos que são as decisões políticas que constituem os sujeitos dessa ação, de maneira que consideramos tanto as limitações das estruturas discursivas como as possibilidades de ação do sujeito no sentido de desestruturar o que se encontra estabelecido hegemonicamente (LOPES e MATHEUS, 2011). Embora não faça o uso recorrente de citações de autores do campo do Currículo, MELLO cita-os como importantes teóricos do campo da História do Currículo e História das disciplinas escolares, com destaque para BITTENCOURT, CHERVEL, FONSECA, FORQUIN, GOODSON, MOREIRA, SILVA e MARTINS. Paulo é graduado em História e em Pedagogia, mestre e doutor em Educação, atuando como Professor Substituto na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona a disciplina "Metodologia do Ensino de História I". Roper Pires de Carvalho Filho é o autor do texto “Ensino de História - Políticas Curriculares, Saberes e Práticas Docentes” que também foi selecionado para análise neste trabalho. O tema trazido por CARVALHO FILHO é a articulação entre saberes docentes e políticas curriculares no Ensino de História. Logo no início do seu texto, o autor deixa claro com que concepção de currículo ele trabalha. Ele utiliza uma definição de SILVA que afirma que o currículo é um artefato cultural que engloba desde seus aspectos explícitos aos aspectos menos visíveis nos processos de escolarização, que não fazem parte do aparato oficial, mas contribuem de modo implícito para a realização de aprendizagens sociais significativas. O autor também se ancora em GOODSON para sustentar sua concepção de currículo como artefato cultural, destacando as relações de poder que ocorrem no processo entre produção oficial de currículo e sua aplicação nas escolas, mostrando que este processo não é pacífico. Embora o autor reconheça a importância da incorporação dos estudos culturais nas análises sobre o currículo, que o percebem enquanto uma prática discursiva e de enunciação, ele ressalta os limites dessa proposta destacando a impossibilidade de se afastar das abordagens críticas que assinalam as relações assimétricas de poder na elaboração do currículo. Dessa forma, o autor prioriza em seu texto a força das estruturas econômica e social nas disputas políticas em torno da construção do currículo escolar como podemos observar no trecho a seguir. A compreensão de que o currículo é um território marcado pelas disputas em torno do direito de dizer o que é socialmente importante como discurso educacional, e de que o Estado por meio da formulação de políticas públicas 85 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino para a educação busca se apropriar do discurso curricular, cuja gestão se dá por um lado, mediante a mobilização do seu aparato burocrático, e por outro lado, pelos próprios profissionais do ensino, pode permitir uma análise em retrospectiva das lutas travadas pelas classes e grupos em desvantagem econômica e social em torno da sua representação no currículo escolar (CARVALHO FILHO, 2011, p. 4). O autor, em seu texto, faz outros deslizamentos entre as teorias críticas e pósestruturais, quando afirma que professores e alunos participam da recontextualização das políticas educacionais / curriculares (p. 14). CARVALHO FILHO trabalha com autores do campo do Currículo como GOODSON, HAMILTON, LOPES e SILVA, e autores que incorporam discussões do campo do Currículo com o Ensino de História, entre os quais, BITTENCOURT, FONSECA e MONTEIRO. Roper é graduado em História e em Pedagogia, mestre em Educação e doutorando nesta mesma área. O último texto da ANPUH – 2011 a ser aqui analisado é “A escrita escolar da História da África e dos afro-brasileiros: as diretrizes curriculares e sentidos de “negro”, de autoria de Warley da Costa. O tema central do trabalho são os sentidos de “negro” nas Diretrizes Curriculares para o Ensino de História. Dessa forma, a autora trabalha com uma temática presente no currículo da disciplina escolar História articulada a uma política curricular específica: as Diretrizes Curriculares. COSTA entende que o documento curricular é produzido politicamente pelo viés do discurso, que entende as políticas de currículo como espaço de disputas discursivas por hegemonia em torno do processo de significação que gera construções de significantes provisórios. Na construção de seu arcabouço teórico-metodológico, COSTA trabalha com autoras do campo do Currículo (GABRIEL, LOPES e MACEDO) que têm privilegiado a Teoria do Discurso (LACLAU E MOUFFE) em suas análises. Dessa forma, seu texto assume uma perspectiva não essencialista e pós-estrutural. A autora defende que os sentidos de “negro” que circulam nas Diretrizes Curriculares permitem problematizar como as marcas discursivas das lutas hegemônicas travadas em torno do processo de significação mobilizam e recontextualizam diferentes matrizes historiográficas nos currículos de História. Destacando o lugar social dessa produção, Warley da Costa é graduada em História, mestre e doutora em Educação. É atualmente Professora Assistente de Didática Especial e Pratica de Ensino de História da Faculdade de Educação da UFRJ. Diálogos entre Currículo e “Ensino de” História: IX ENPEH 86 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nesta seção vamos analisar os artigos selecionados no GT 6: Currículo e Práticas Escolares do IX Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História ocorrido entre 18 e 20 de abril de 2011 em Florianópolis, Santa Catarina. O ENPEH, que se realiza no Brasil desde 1993, firmou-se como um local de discussão sobre os fundamentos teóricos e metodológicos das pesquisas realizadas sobre Ensino de História. Selecionamos, segundo os critérios previamente citados, cinco trabalhos que serão analisados para que possamos compreender o diálogo estabelecido por esses autores entre as áreas do Currículo e do Ensino de História. O primeiro artigo selecionado do GT 6 é da autora Alessandra Nicodemos intitulado “A construção da prática docente no processo de execução, construção e ressignificação do currículo escolar no ensino da história na educação de jovens e adultos”. A autora tem como objeto de investigação o campo do currículo buscando compreender os processos de afirmação, negação, resistência das imposições curriculares realizados por professores de História no âmbito EJA no Município do Rio de Janeiro. Alessandra Nicodemos é Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) formouse na graduação (Licenciatura e Bacharelado) em História pela Universidade Federal Fluminense (1996), fazendo ainda Mestrado e Doutorado em Educação pela mesma instituição. É coordenadora do Curso de Especialização Saberes e Práticas na Educação Básica, ênfase Educação de Jovens e Adultos (CESPEB-EJA-UFRJ). Tem experiência na área de Ensino de História, com ênfase na Educação de Jovens e Adultos. Este artigo é parte de um projeto de pesquisa “A construção da prática docente no processo de execução, construção e ressignificação do currículo escolar no ensino da história na educação de jovens e adultos” que analisa os aspectos centrais da construção da prática docente em História, no âmbito EJA (NICODEMOS, 2011, p. 1). Ao buscar uma aproximação com teóricos da área do currículo, com colaborações críticas e pós-críticas, a autora considera o currículo como um campo contestado e de disputas em torno do que ensinar, como ensinar, para que ensinar e para quem ensinar (NICODEMOS, 2011, p. 4) rompendo uma visão reducionista do currículo como uma simples transmissão de conteúdos selecionados. Assim, rompe-se uma visão que entende a escola apenas como espaço sociocultural de reprodução para passar a ser vista como um local de trocas culturais, diálogo de diferenças e produção de conhecimento. Observamos que a autora entende o currículo como um campo de reelaboração na prática. Do ponto de vista de seus referenciais teóricos, Alessandra Nicodemos dialoga com 87 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino autores como MACEDO e SILVA, da área da didática com CANDAU e do ensino de história com BITTENCOURT e MONTEIRO. Em seguida, analisamos o artigo do autor Benjamin Xavier de Paula que trata das dificuldades de implementação da Lei Federal 10.639/ 2003 referente a História da África e cultura Afro-Brasileira. Benjamin Xavier possui graduação em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2000), mestrado em Educação pela Universidade de São Paulo (2005) e cursa Doutorado em Educação na Universidade Federal de Uberlândia. Atualmente é professor do Ensino Superior na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e do Mucurí. Na primeira parte de seu artigo “A lei federal 10.639 2003 e a implementação de políticas públicas e ações afirmativas para negros e afro-descendentes” o autor busca contextualizar historicamente as questões que levaram a formulação da Lei Federal 10.639/2003 e as Leis correlatas de 2003 e 2004. Dessa forma, a lei surge como fruto das pressões políticas e reivindicações do movimento negro com o objetivo de romper a histórica discriminação existente no Brasil, procurando resgatar de forma positiva a história e a cultura negra. Contudo, a implementação dessa lei não significa simplesmente inserir conteúdos ao currículo, é necessário repensar toda a estrutura do atual currículo escolar fundado em uma única vertente de seleção, a europeia, de forma que esta ressignificação possibilite a grupos excluídos a sua inserção de forma plena no meio escolar (PAULA, 2011, p. 3). Do ponto de vista de sua relação com o campo do currículo, não é apresentado nenhum teórico da área, mas através de seu artigo percebemos que o autor entende o currículo como um campo de tensões de projetos políticos que buscam sua efetivação e afirmação na escola. Assim, a inserção da Lei 10.639 é vista como resultado de lutas e reivindicações do movimento negro. Em nossa análise observamos que a problemática central do artigo está em atestar a não aplicação da lei na prática escolar. Consideramos, nessa perspectiva, que o autor trabalha com uma dicotomia entre currículo como fato e como prática (YOUNG e WHITTY, 1977); prescrito, apresentado, moldado, em ação e realizado (GIMENO SACRISTÁN, 1988); pré-ativo e ativo (GOODSON, 1995 apud MACEDO, 2006, p. 100). O terceiro artigo selecionado no GT 6 da ENPEH é o “Currículo e saber histórico escolar: o ensino de História pátria nos programas do Estado de Santa Catarina no início do século XX” da pesquisadora Luciana Rossato. Compreendendo o currículo como um produto 88 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino histórico, fruto das tensões e conflitos de seu tempo, a autora questiona quais conhecimentos de História pátria eram considerados válidos a serem ensinados aos alunos naquele momento. Além disso, de que forma, estes conhecimentos contribuíam para a formação de uma memória coletiva, preocupada com a constituição de uma identidade nacional em uma perspectiva nacionalista e patriótica. Luciana Rossato é formada em História pela Universidade Federal de Santa Maria (1992), Mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1999) e Doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005). Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina. Pesquisadora do LEH - Laboratório de Ensino de História/UDESC e vinculada ao Grupo de Pesquisa Ensino de História, memórias e cultura. Coordenadora do programa PIBIB/CAPES de História na UDESC. A autora inicia seu artigo com uma pergunta de partida: “Quais conhecimentos históricos foram selecionados para serem difundidos nas instituições escolares mantidas no Estado de Santa Catarina durante a primeira metade do século XX?” (ROSSATO, 2011, p.1) Nesse sentido, ao problematizar o fato de que os conhecimentos históricos ensinados na escola são frutos de uma escolha, uma seleção, ROSSATO já apresenta alguns pressupostos teóricos de sua abordagem sobre o currículo, marcadamente em uma perspectiva crítica, entendendo o currículo como uma produção social. Dialogando com autores da área do currículo como GOODSON (1995), NÓVOA (1997) e SILVA (1995) a autora adota uma análise sociológica do conhecimento, entendo o currículo não como algo estático e imparcial, mas como produto do tempo histórico e que é produzido como resultado de conflitos, escolhas e acordos: O que ensinar e como ensinar muda de acordo com os interesses e as disputas de poderes de cada contexto histórico, envolve selecionar valores, habilidades e saberes como mais significativos e importantes para serem reproduzidos para as crianças e os jovens entre uma gama variada e ilimitada de conhecimentos produzidos na sociedade (ROSSATO, 2011, p. 4). Em outra vertente, dialogando com autores da área da História, entre elas BITTENCOURT, a autora procura entender os objetivos na escolha dos conteúdos a serem ensinados nas escolas nas primeiras décadas do século XX. O outro artigo selecionado em nossos critérios é da autora Melina Lima Pinotti, graduada em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Campus de Nova Andradina. A autora, que atualmente leciona História e Filosofia em escolas da rede estadual e 89 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino privada, também pesquisa a diversidade cultural no Ensino de História a partir de análise no livro didático. A temática de seu artigo consiste na análise das recentes políticas curriculares para o Ensino de História no Mato Grosso do Sul e de que forma vem sendo proposta nessas reformas a reformulação do Ensino de História, que passaria a valorizar o papel do aluno como sujeito histórico e temporal. Entretanto, atesta-se que realidade do Ensino de História nas escolas do Vale do Ivinhema ainda é marcada por um ensino tradicional, ligado ao livro didático, baseado na história factual e narrativa longe das perspectivas propostas nas reformas curriculares. O artigo é resultado do projeto pesquisa de extensão “Panorama da História a ser ensinada em Mato Grosso do Sul” que tem o objetivo de recolher e analisar as propostas curriculares estabelecendo um diálogo escola-universidade. Para a autora, a “pesquisa tem possibilitado perceber mudanças ocorridas no Ensino de História em busca de se adequar o ‘ensino do passado’ em uma sociedade dinâmica, onde as coisas mudam numa velocidade impressionante” (PINOTTI, 2011, p. 2) Nesse sentindo, ela inicia como uma pergunta: “como propiciar um conhecimento que faça sentido para o aluno ao estudar o passado?” (PINOTTI, 2011, p. 2). Sobre o diálogo estabelecido com a área do currículo nenhum teórico é apresentado no seu trabalho embasando-se em autoras reconhecidas da área do Ensino de História como BITTENCOURT e ABUD. Durante o artigo, é ressaltado o paradoxo existente entre as propostas de reformulação do Ensino de História e a realidade do ensino-aprendizado nas escolas do Vale do Ivinhema, operando, assim, com uma dicotomia entre teoria e prática, currículo préativo e ativo (GOODSON, 1995). O último trabalho selecionado no GT-6 da IX ENPEH foi o de Patrícia Bastos Azevedo que trata sobre articulação dos campos teóricos Currículo e Linguagem. A autora, que atualmente é professora Adjunta da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, possui graduação em Pedagogia (1995), graduação em História (1998) e mestrado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2003), doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2011). O objetivo de seu artigo é conjugar dois campos discursivos, currículo e linguagem, para compreender a história ensinada. Utilizando como referencial teórico central as teorias da linguagem do círculo de Bakhtin, o currículo para a autora é entendido como signo ideológico que se constitui em seu tempo-espaço (AZEVEDO, 2011, p.1) em uma composição híbrida, complexa e polissêmica (AZEVEDO, 2011, p.2) 90 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino No início do artigo, ela alerta que ter a prática como foco não significa adotar uma visão dicotômica, que apenas valorize a prática de sala de aula. A intenção seria compreender a relação entre teoria e prática. Segundo a autora: Ter a prática como centro e foco de nosso olhar não significa operar com a dicotomia currículo prescrito – os documentos produzidos – e o vivido – o currículo praticado nos espaços escolares e em sala de aula. Compreendemos que tanto o espaço do fazer como os das deliberações curriculares são campos enunciativos híbridos, polissêmicos, complexos e multifacetados, que se constituem em um ir e vir constante de lutas, legitimações e significação social. (AZEVEDO, 2011, p. 3) Nesse sentido, defende a proposta de MOREIRA (2005) que ao denunciar a crise da teoria curricular crítica propõe a importância nas pesquisas educacionais da “centralidade da prática”, assim como da interface das teorias criticas do currículo com outras contribuições teóricas. Assim, buscam-se articulações com a teoria da linguagem através do circulo de Bakhtin para analisar a história ensinada. A autora apresenta uma vasta gama de autores da área de currículo, estabelecendo um diálogo fecundo com autores como MOREIRA, MACEDO. Da área do Ensino de História o diálogo é com MONTEIRO e GABRIEL, assim como autores da Teoria da História, entre eles, GINZBURG e RÜSEN. Considerações Finais Os textos selecionados do XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH – 2011) mobilizaram sentidos diversos de currículo. Mesmo aqueles que trabalham com o sentido de currículo atrelado a uma estrutura, destacam a importância da incorporação dos estudos culturais neste campo, que percebem o currículo como espaço onde são travadas lutas por hegemonização de propostas particulares de significação de escola, de docência, de conhecimento, de aluno. As disputas travadas promovem vencedores contingenciais, uma vez que todo fechamento é provisório (FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO, 2012). Percebemos também que as produções que intencionam marcar posição na interface entre currículo e Ensino de História são majoritariamente da área da Educação. São dos programas de pós-graduação stricto sensu em Educação que saem a maioria das produções acadêmicas que buscam articular o Ensino de História com o currículo. Sublinhamos, porém, que todos os autores analisados possuem formação inicial em História, e apenas uma autora não fala a partir da área da Educação. 91 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Quanto às temáticas, pudemos perceber que diversas temáticas foram mobilizadas, não permitindo a observação de uma tendência temática nos estudos que relacionem as áreas aqui privilegiadas. Da mesma forma, os artigos selecionados no GT 6: Currículo e Práticas Escolares do IX Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História apresentam como foco das pesquisas temáticas diversas que envolvem a Educação de Jovens e Adultos, a implantação da Lei 10.639/2003, a história da disciplina escolar, propostas curriculares e a História ensinada. Do ponto de vista do lugar social dessas produções, observamos que a grande maioria é proveniente dos programas de mestrado e doutorado em Educação. Notamos que, na maioria dos artigos, os sentidos de currículo mobilizados pelos autores em suas pesquisas sobre o Ensino de História ainda adotam fixações hegemônicas de currículo como afirmam as autoras FERREIRA, GABRIEL e MONTEIRO (2012). Entretanto, outros artigos apresentam outras possibilidades, com um diálogo profícuo, por exemplo, com áreas como a linguagem e a cultura. Referências bibliográficas CERTEAU, M. A Operação Historiográfica. In: CERTEAU, M. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982. Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (9º.: 2011: Florianópolis, SC). Anais do... / IX Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História; de 18 a 20 de abril de 2011, UFSC -- Florianópolis, SC: UFSC, 2011. FERREIRA, M. S.; GABRIEL, C. T. & MONTEIRO, A. Sentidos de currículo e ‘ensino de’ Biologia e História: deslocando fronteiras. In: XXX Reunião Anual da ANPEd. LOPES, A. C. Políticas de Currículo: questões teórico-metodológicas. In: LOPES, A. C., DIAS, R. E., ABREU, R. G. (orgs.). Discursos nas Políticas de Currículo. FAPERJ, Rio de Janeiro: Quartet, 2011. __________;MACEDO, E. Teorias de Currículo. São Pulo: Cortez, 2011. 92 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino __________;MATHEUS, D. S. Política de Currículo na escola: sentidos de democracia. In: LOPES, A. 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O autor utiliza-se da classificação das teorias em tradicionais, críticas e pós-críticas, centrando-se, na maior parte da obra, na análise das teorias pós-críticas. O estudo registra um ensaio teórico que faz uma interpretação crítica de Tadeu e suas preocupações acerca das teorias críticas e pós-críticas com as conexões entre saber, identidade e poder. Para as teorias pós-crítica, o currículo está irremediavelmente envolvido nos processos de formação pelos quais nós nos tornamos o que somos. Este trabalho traz a discussão de qual conhecimento da sociedade (e relações de poder) o currículo desenvolve por meio da educação, no contexto da pós-modernidade, enfatizando temas como significação e discurso, cultura, gênero, multiculturalismo entre outros. Palavras chave: Currículo, Teoria Pós-Estruturalista, Conhecimento, Modernidade. Abstract The book Tomaz Tadeu da Silva presents a summary of the discussions on relevant theories of curriculum elapsed in the twentieth century. The author uses the traditional classification of theories, critical and post-critical, focusing, in most of the work, the analysis of post-critical theories. The study records a paper that makes a critical interpretation of Thaddeus and his concerns about the critical theory and post-critical with the connections between knowledge, power and identity. For post-critical theories, the curriculum is hopelessly involved in the formation processes by which we become who we are. This paper presents a discussion of what knowledge society (and power relations) curriculum develops through education, in the context of post-modernity, emphasizing issues such as meaning and discourse, culture, gender, multiculturalism among others. Keywords: Curriculum, Post-Structuralist Theory, Knowledge, Modernity. Introdução Sob várias perspectivas, a obra intitulada “Documentos de Identidade” é um importante trabalho elaborado pelo teórico Tomaz Tadeu da Silva (2009) para aqueles profissionais da educação que organizam os currículos escolares. Em época de reformas na educação do Brasil, parâmetros curriculares foram apresentados às escolas brasileiras, a fim de direcionar as 18 Graduando em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas. Email: [email protected] 94 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino necessidades dessa escola à tarefa de transmitir valores que balizam os comportamentos de indivíduos e grupos, na medida em que possibilitam a construção de identidades no contexto da nova ordem mundial. Como o “currículo é sempre o resultado de uma seleção” (p.15) e essa seleção é o resultado de um processo que reflete os interesses particulares das classes e grupos dominantes, faz-se necessária uma reflexão radical (no sentido de ir até a raiz do problema), na implementação dos parâmetros curriculares. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo traz uma contribuição para essa reflexão imprescindível na área educacional, fazendo conexões entre significação, identidade e poder que passam, então, a ser enfatizadas. 1 Desenvolvendo a concepção do autor Silva (2009) utiliza-se da classificação das teorias em tradicionais, críticas e pós-críticas, relacionando também os respectivos conceitos que caracterizam cada uma. Sendo a teoria tradicional uma concepção que visa o ensino, a avaliação, metodologia, a didática, a organização, o planejamento, eficiências e objetivos; temos a teoria crítica, com uma visão voltada à ideologia, reprodução, poder, classe social, capitalismo, relações sociais de produção, emancipação e libertação, currículo oculto e resistência e então, a teoria pós-crítica, caracterizada e abordada pelo autor com ênfase na subjetividade, alteridade, diferenças, significação e discursos, saber-poder, representação, cultura, gênero, raça, etnia, sexualidade e multiculturalismo. O autor defende, assim, que o exame dos diversos conceitos, empregados pelas teorias, organiza e estrutura a forma de olhar a “realidade”, demonstrando aí uma tendência à sistematização. Para Tomaz Tadeu (2009), a discussão sobre currículo vai além de uma seleção de conhecimentos, envolve sim, uma operação de poder. Assim, o currículo é um documento de identidade. Finalmente, uma perspectiva pós-estruturalista não deixaria, evidentemente, de questionar a concepção de sujeito – autônomo, racional, centrado, unitário – na qual se baseia todo o empreendimento pedagógico e curricular, denunciando-a como resultado de uma construção histórica muito particular. Paralelamente, seria a própria noção de emancipação e libertação, que resulta da adoção dessa concepção de sujeito, que seria colocada em questão. No limite, para perspectiva pós-estruturalista, é o próprio projeto de uma perspectiva crítica sobre currículo que é colocado em questão (SILVA, 2009, p.124). 95 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Baseando-se nos conceitos das teorias pós-críticas, observa-se que não existe uma fragmentação e sim uma legitimação a qual poder e conhecimento não se opõem, mas, são mutuamente dependentes. Embora em continuidade com a tradição crítica, as teorias póscríticas não deixam de questionar algumas de suas premissas. Partilham de uma mesma preocupação com as questões de poder, mas sua concepção é menos estruturalista. 1.2 Identidades e Teorias Pós-Críticas Fundamentado em Foucault, o pós-estruturalismo coloca sua ênfase na indeterminação e na incerteza sobre o conhecimento. Destaca o processo pelo qual algo é considerado verdade, ou seja, como algo se tornou verdade. O significado não é preexistente: ele é cultural e socialmente produzido. O importante então é examinar as relações de poder envolvidas na sua produção. A questão não é saber se algo é verdadeiro, mas, sim, saber por que esse algo se tornou verdadeiro. Seguindo Derrida, o pós-estruturalismo questionaria as concepções de masculino/feminino; heterossexual/homossexual; branco/negro; científico/não científico dos conhecimentos que constituem o currículo. Já a teoria pós-colonial dá ênfase ao hibridismo, mestiçagem, entendendo a cultura nos espaços coloniais e pós-coloniais como uma complexa relação de poder onde ambas, dominadora e dominada, são modificadas. Com as teorias criticas e pós-criticas, não podemos mais ver o currículo como algo inocente, desinteressado. Na teoria pós-crítica, passa a ser importante não somente identificar os conflitos de classe presentes no currículo, como feito pelas teorias críticas, mas acima de tudo descrever e explicar as complexas inter-relações das dinâmicas de hierarquização social. As teorias críticas se concentraram, inicialmente, em questões de acesso à educação e ao currículo das crianças e jovens pertencentes a grupos étnicos e raciais considerados minoritários. Somente em uma segunda fase, por meio dos estudos culturais e pós-estruturalistas, o próprio currículo passou a ser problematizado como sendo racialmente enviesado. “A questão da raça e da etnia não é simplesmente um ‘tema transversal’: ela é uma questão central de conhecimento, poder e identidade” (p.102). A teoria pós-colonialista possui como objetivo, analisar [...] o complexo das relações entre as diferentes nações que compõem a herança econômica, política e cultural da conquista europeia tal como se configura no presente momento [...] (SILVA, 2009, p.125). 96 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Diferentemente das outras análises pós-críticas, a teoria pós-colonial centra-se nas relações de poder entre nações. Uma perspectiva pós-colonial exige um currículo multicultural que não separe questões de conhecimento, cultura e estética de questões de poder, política e interpretação. Ela reivindica um currículo descolonizado. Nessa teoria, o feminismo e o movimento do negro reivindicam inclusão de formas culturais e experiências de grupos considerados marginalizados pela identidade europeia dominante. A análise pós-colonial, pós-moderna e pós-estruturalista questionam as relações de poder e as formas de conhecimento que colocaram o sujeito imperial europeu na sua posição atual de privilégio. O saber e o conhecimento foram marcos nos objetivos de poder das potências coloniais europeias, uma vez que os próprios povos nativos e a terra se tornavam objetivos centrais de conquista dos poderes coloniais. O processo de dominação precisava afirmar-se culturalmente e os povos colonizados precisavam, por sua vez, ser convertidos à visão europeia e “civilizada” através da religião, da ciência, das artes e da linguagem. O currículo contemporâneo ainda é moldado, apesar de todas as transformações, na herança do conhecimento colonial. Nesse sentido, entende-se que o “outro” é visto como alguém visitado pelas culturas alheias. Uma cultura pós-colonial indagaria experiências superficialmente multiculturais, como as chamadas “datas comemorativas”: O dia do índio, O dia da mulher, O dia do negro... Não separaria questões de conhecimento, cultura e estética das questões de poder, política e interpretação. De forma talvez mais importante, os Estudos Culturais concebem a cultura como campo de luta em torno da significação social. A cultura é um campo de produção de significados no qual os diferentes grupos sociais, situados em posições diferenciais de poder, lutam pela imposição de seus significados à sociedade mais ampla. Os Estudos Culturais são particularmente sensíveis às relações de poder que definem o campo cultural. Numa definição sintética, poder-se-ia dizer que os Estudos Culturais estão preocupados com questões que se situam na conexão entre cultura, significação, identidade e poder. Conclusão Na multidimensionalidade de currículo esta foi a forma de abordar o estudo das teorias que estão envolvidas na construção e elaboração do ensino. Para o autor, o estudo de currículo volta-se para as teorias tradicionais, críticas e pós-críticas. Estas não devem ser vistas simplesmente como uma superação, mas mutuamente inclusivas para a compreensão dos processos pelos quais, através de relações de poder e controle, nos tornamos mulheres e 97 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino homens. Nas teorias pós-críticas, o poder não tem mais um único centro, está espalhado por toda a rede social; o poder transforma-se, mas não desaparece. Essa assertiva, certamente, traduz uma das mais úteis conquistas dos estudos do currículo, mas precisa ser vista como uma passagem de um estágio mais civilizado e menos mecânico; um saber mais substantivo e não somente ligado a um ritmo de variações, mas um campo de amplas possibilidades de transformação do convívio social. Referências SILVA, Tomaz Tadeu da. Documento de identidade: uma introdução às teorias do currículo/ Tadeu Tomaz da Silva - 3ª edição - Belo Horizonte: Autêntica, 2009. ______. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. SILVA, Tomaz T. (org.). O sujeito da educação. Estudos foucaultianos. Rio: Vozes, 1994. VEIGA-NETO. Alfredo J. (org.). Crítica pós-estruturalista e educação. Porto Alegre: Sulina, 1995. 98 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino FLUXOS DE SENTIDOS DE NEGRO RECONTEXTUALIZADOS NO CURRÍCULO DE HISTÓRIA Warley da Costa UFRJ Resumo O presente artigo se insere em meio a discussão do conhecimento histórico escolar e como ele vem sendo significado em meio às mudanças introduzidas nas propostas curriculares dessa disciplina, particularmente em relação às questões étnico-raciais. O objetivo do trabalho visa responder a seguinte questão: Para a implementação dos conteúdos sobre a história da África e dos Afro-brasileiros no currículo de História, quais são os saberes de referência, acionados no processo de transposição didática, vista aqui como uma prática articulatória no contexto discursivo da pesquisa? As bases da perspectiva teórica que ora apresento se situam na Teoria do discurso de Laclau e Mouffe (2004), buscando o entendimento das estratégias culturais mobilizadas na produção e nas disputas de sentidos de “negro” nos currículos de História, e na Teoria da transposição didática de Chevallard (2009), trazendo a problematização em torno da produção do conhecimento histórico escolar. Palavras-chave: Ensino de História; processos de identificação; conhecimento histórico escolar; identidades étnico raciais. Key-words: History teaching; Identification processes; Scholar historical knowledge; Ethnicracial identities FLUXOS DE SENTIDOS DE NEGRO RECONTEXTUALIZADOS NO CURRÍCULO DE HISTÓRIA Produzir conhecimentos é operar no universo de significados, é atribuir sentidos aos fenômenos naturais e sociais. (GABRIEL, 2008, p.227) A temática desenvolvida neste artigo se insere em um processo de aprofundamento das questões exploradas na contemporaneidade entre ensino de História e produção de identidades étnico-raciais. Nas últimas décadas no Brasil, a questão identitária tem estado presente nos debates do campo educacional e nas políticas curriculares dessa área disciplinar, trazendo à tona os embates que traduzem as demandas políticas dos movimentos sociais, inscritos no contexto social da atualidade. Trata-se, de certa forma, de momentos de mudanças, rupturas e desafios inerentes à passagem do século XX para o XXI ou ao que se costuma ser chamado de pós-modernidade. São os “tempos pós” que, nas palavras de 99 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino GABRIEL (2003, 2008), tempos de incertezas, de uma nova ordem de acumulação de capital, de uma nova lógica cultural e, consequentemente, tempos de novas demandas políticas. Nesta “nova ordem” de instabilidade, pautada nas transformações provocadas pelo processo conhecido como globalização, ponto fundamental das mudanças, as noções de tempo/espaço são afetadas à medida que diferentes áreas do planeta são atingidas simultaneamente pelas transformações. As identidades nacionais são colocadas em xeque, tornando opacas as fronteiras numa tentativa pretensa de homogeneização global. Simultaneamente, como efeitos da globalização, o que se tem observado é a emergência de novos grupos étnico-raciais, e com eles a eclosão de movimentos sociais de grupos até então denominados minorias. Desse modo, o conceito de identidade, “crise de identidade” e produção da diferença (HALL, 1992), embora seja, segundo Hall (2000, p. 111), “um desses conceitos que operam sob rasura, ainda encontra-se em pauta nas discussões das lutas hegemônicas como estratégia reivindicatória de diferentes grupos culturais”. As identidades antes compreendidas como estáveis e imutáveis são agora instáveis e fluidas. (...) as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. (HALL, 2005, p.7) Assim, o sujeito constituído por sentidos predefinidos, em identidades “puras”, recorrendo às raízes “ancestrais”, entrou em declínio, dando espaço às identidades abertas, inacabadas, do sujeito pós-moderno. Nesta perspectiva, ele seria constituído por meio de processos de identificação e significação contingentes que se desenvolvem em meio às lutas hegemônicas. Entendo assim, que os processos de produção de s0ntidos, incluindo aí as ações, o que, no entendimento de Laclau e Mouffe (2004)19 tem sido chamado de discurso, mostra-se potencialmente fértil para o entendimento das estratégias culturais mobilizadas na produção e nas disputas de sentidos de “negro” nos currículos de História e dos processos de identificação reconfigurados no espaço escolar. Neste sentido, a problematização em torno da produção do conhecimento histórico escolar e sentidos de negro no currículo como discurso, se faz necessária. A citação que inicio este texto expressa de forma significativa a perspectiva teórica que me apropriei para a escrita deste artigo, para pensar nos sentidos de negro que são 19 Ernesto Laclau, cientista político argentino, é professor da Universidade de Essex (Grã-Bretanha), junto com Chantal Mouffe, cientista política que se dedicas aos estudos sobre pós-feminismo. 100 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino produzidos, reconfigurados e hidibrizados nas aulas de História, objeto aqui de minha análise, situada nas perspectivas teóricas pós-estruturalistas dos autores supracitados. Ampliando a discussão e apostando no debate no campo da educação, aproximo-me das discussões em torno dos processos de didatização, apostando nos fluxos de sentidos que se fecham no campo discursivo, ensino de História, trazendo as contribuições da teoria da transposição didática (CHEVALLARD, 2009) por reconhecer a potencialidade social e epistemológica do saber histórico escolarizado. A questão da especificidade epistemológica do conhecimento histórico escolar ganhou corpo como objeto de pesquisa para esse campo do ensino, aquecendo os debates entre os pesquisadores das áreas da Educação e da História. Neste sentido, a apropriação dos estudos que giram em torno da compreensão do processo de construção dos saberes curriculares, com base na epistemologia social escolar20 CHEVALLARD, 2009; MONTEIRO, 2002; GABRIEL, 2008) para o ensino de História, emergiu neste período como uma contribuição importante. A defesa de um conhecimento escolar com especificidades próprias, constituído com um relativo grau de autonomia, que o diferencia do saber de referência socialmente legitimado, marcou inúmeras pesquisas nesse campo de conhecimento no Brasil (MONTEIRO, 2002; GABRIEL, 2003; LEITE, 2007; LOPES, 2006). Para a sustentação da argumentação a favor da existência de um saber histórico escolar diferenciado,do saber escolar como “entidade específica” (MONIOT, 1993), assim como a ampliação do conceito de epistemologia, busquei na linha de pesquisa desenvolvida por Chevallard, o conceito de transposição didática para se pensar a complexidade do papel desempenhado pelos saberes no processo de reelaboração didática à luz de uma abordagem discursiva. Em meio às reflexões que desenvolvi, brevemente aqui expostas neste início de conversa, norteada pela interlocuções teóricas acerca do conhecimento histórico escolar, destaco alguns questionamentos que me instigaram para o desenvolvimento deste estudo: Como pensar nas matrizes historiográficas que perpassam as narrativas históricas refiguradas pelos alunos no ensino básico? No caso da implementação dos conteúdos sobre a história da África e dos Afro-brasileiros no currículo de História, quais são os saberes de referência, acionados no processo de transposição didática, vista aqui como uma prática articulatória no contexto discursivo da pesquisa? Assim sendo, o presente estudo tem como objetivos analisar 20 A epistemologia social escolar se refere aos processos de construção de saberes que circulam na escola, considerando a especificidade de suas condições de produção, transmissão e circulação. “Ela se propõe a incorporar, de forma articulada, as contribuições da epistemologia escolar e das teorias críticas e pós-críticas do currículo. (GABRIEL, 2008). 101 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino de que forma os valores de referência acionados no processo de transposição didática nas propostas curriculares referentes à educação étnico-raciais, em particular as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Étnico-raciais e para o ensino da História e Cultura Afro-brasileira de 2004, estão em consonância com o discurso do movimento social. Para efeito da elaboração deste texto e, considerando os limites desta empreitada, apresento, como recorte, alguns eixos que foram por mim aprofundados na tese de doutorado21 e que considero extremamente profícuo para a discussão proposta neste Colóquio, (re)construindo sentidos de currículo e educação. Como desafio epistemológico, trago a discussão do conhecimento histórico escolar e como ele vem sendo significado em meio às mudanças introduzidas nas propostas curriculares dessa disciplina, particularmente em relação às questões étnico-raciais. Como aposta, invisto no ensino de História como objeto de ensino e de pesquisa tendo em vista que se constitui como um espaço privilegiado, que traz à tona as configurações hegemônicas das lutas identitárias em disputa nos currículos escolares. O texto está organizado em dois eixos de discussão: inicialmente apresento o quadro teórico embasado nas Teoria do discurso e Teoria da transposição didática entendidas como uma possibilidade de enfrentamento do quadro de significação em tela neste texto, que se refere às questões étnico-raciais. Em seguida, analiso no acervo discursivo das Diretrizes Nacionais Curriculares os sentidos de “negro” investidos neste documento curricular. Costurando o quadro teórico da pesquisa Para compreender os processos de identificação produzidos em um tempo específico e por estratégias específicas e para apresentar um novo quadro de inteligibilidade para a compreensão dos processos de identificação nos currículos, e, em particular, no currículo de história, analisando os sentidos de “negro” ”não negro” em sala de aula, apresento as alternativas teóricas das quais me apropriei para este estudo. Neste sentido, me proponho a compreender a produção da diferença no “interior de jogos específicos de poder”, ou melhor, compreender o processo de identificação que é produzido na arena discursiva, o currículo de história, norteada pela Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (2004). A concepção de discurso dos dois primeiros autores se propõe superar uma visão meramente representacional da linguagem, partindo do entendimento de que o significado se define por sistemas particulares de diferença. Para eles, “algo é o que é somente por meio de 21 O presente artigo tem como base a pesquisa realizada na minha tese de doutoramento intitulada “Currículo e produção da diferença: ‘negro’ e ‘não negro’ na sala de aula de história”, no Programa de Pós-Graduação Educação/UFRJ, em 2012. 102 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino suas relações diferenciais com algo diferente” (LACLAU, 2005, p. 92). Para Laclau, o discurso não se reduz à linguagem, ele abarca o conjunto da vida humana significativa, práticas econômicas, políticas e linguísticas. O que é concebido como realidade depende da significação discursiva desses objetos em determinados contextos e ações. Nesse sentido, o conceito de discurso defendido pelos autores reforça a relevância da discussão em torno do político/política na sociedade contemporânea e suas dinâmicas no âmbito do social. Colocam em primeiro plano o conflito e o antagonismo como traços constitutivos da política em geral e da política democrática em particular. Assim, a problematização em torno da produção do conhecimento histórico escolar e sentidos de negro no currículo não está posta necessariamente apenas nos domínios da “escola”, ou de uma ou outra “realidade”, propriamente dita. Ela vai além e se situa em meio às lutas hegemônicas. De acordo com os autores, a prática articulatória entre elementos diferentes produz sentidos em disputa no campo da discursividade. Tais elementos são estancados por articulações hegemônicas provisórias que fecham o campo discursivo que se constrói em torno de significantes provisórios. Laclau argumenta que em uma cadeia equivalencial não é nem um nem outro conteúdo positivo que definem as diferenças, mas, do contrário, a instância negativa contra a qual esta cadeia é constituída. Ou seja, a prática articulatória, operando com a lógica da equivalência e a da diferença, garante a produção e fixação provisória de diferentes discursos em disputa. O “social” passa a corresponder, assim, a um sistema de diferenciações permanentes e indefinidas, um amplo campo da discursividade no qual se travam as lutas hegemônicas pela fixação de sentidos. Mas a impossibilidade de fixação última de sentido implica que deve haver fixações parciais. “Porque, do contrário, o fluxo mesmo das diferenças seria impossível. Inclusive para diferir, para subverter o sentido, tem que haver um sentido.” (LACLAU e MOUFFE, 1996, p. 152). Em um segundo plano de discussão teórica trago para o diálogo a questão da especificidade epistemológica do conhecimento histórico escolar na linha de pesquisa desenvolvida por Chevallard (2009), o conceito de transposição didática22 para se pensar a complexidade do papel desempenhado pelos saberes no processo de reelaboração didática à luz de uma abordagem discursiva. 22 O termo transposição didática cravado por Chevallard emergiu como uma produção discursiva no campo da matemática, na década de 1980. Para o campo da história importa considerar as contribuições teóricas do autor para pensar os questionamentos suscitados pela epistemologia social escolar, 103 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Para o autor, “O saber – tal como é ensinado, o saber ensinado, é necessariamente distinto do saber – inicialmente – designado –como, – aquele-que – deve-ser-ensinado, o saber a ensinar.” ( p. 16-17) Assim, a argumentação a favor da existência de um saber histórico escolar diferenciado, como nos sugere a citação acima, nos remete à compreensão de que a produção do conhecimento escolar pode ser entendida como uma prática discursiva. Desse modo, Compreendo que os processos de transposição didática se constituem como processos discursivos em meio a disputas por fixações de sentidos hegemônicos de saberes considerados escolares (ou não). Ao analisar os sentidos de negro/não negro nas propostas curriculares, é possível e necessário trazer para o debate as questões relacionadas à produção, ao consumo e à circulação desse saber escolar, visando compreender a relação do saber escolar, com os seus saberes de referência, imbricados no jogo político, por sua legitimação.. Apesar da ênfase da produção chevallardiana utilizada em seu estudo recair sobre a centralidade do saber acadêmico, como referência para a reelaboração do saber escolar, o conceito de transposição não se limita à simples transferência de um saber acadêmico para um saber ensinado. Para ele, o saber acadêmico é uma das referências entre outras. Nas palavras do próprio teórico, Um conteúdo de saber, que tenha sido designado como saber a ensinar, sofre a partir de então um conjunto de transformações adaptativas, (...) é a “passagem de um conteúdo de saber preciso a uma versão didática desse objeto de saber” ou ainda “a transformação de um objeto de saber a ensinar em um objeto de ensino” (p.45). A argumentação do autor abre brechas para o reconhecimento da dimensão discursiva na problemática da reelaboração de saberes. O que implica pensar que os saberes escolares ou em sua versão acadêmica, em processo dinâmico de reelaboração, necessitam fixar novos fluxos de cientificidade ante a efetuação da transposição didática. Ao trazer o conceito de “sistema didático”23, Chevallard analisa o trabalho de transposição didática em dois planos: o trabalho de transposição interna, na sala de aula/escola e o trabalho de transposição externa, na noosfera, sem deixar de considerar o entorno social em que está inserido esse sistema. A noosfera “evidencia a emergência de instituições dos saberes” (CHEVALLARD, 2009, p. 214), ou seja, é a interface entre a sociedade e as esferas de produção de saberes (leis de ensino, currículo oficial, política do livro didático), configurando-se como um espaço de conflito. 23 É a esfera na qual se pensa o processo de Seria a representação triangular para discutir a relação professor, aluno e saberes. 104 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino didatização, ela age “como um filtro entre o sistema de ensino e a sociedade em geral” (GABRIEL, 2003, p.185) Para sua própria sobrevivência, ele, o conhecimento escolar, necessita de uma forma de compatibilidade com os grupos de interesse da sociedade, e também de uma renovação, na medida em que se torna desatualizado. Nessa dinâmica, que não se limita ao campo educacional, há a interferência de vários agentes sociais. Assim, importa nesta pesquisa, considerar as contribuições teóricas do autor para pensar os questionamentos suscitados pela abordagem da epistemologia social escolar, visando compreender a relação do saber escolar, com os seus saberes de referência, imbricados no jogo político, por sua legitimação. A disciplina História não pode ficar imune a esses questionamentos e problematizações. Ela incorpora este tipo de discussão na medida em que se configura como um terreno de disputas entre diferentes memórias, no qual os sujeitos/alunos são levados a se posicionar em determinadas demandas do presente, tendo como base as relações estabelecidas com um passado comum, neste caso, acionadas pelos grupos étnicos e legitimado pelo conhecimento histórico. No que se refere ao duplo registro no qual se apoia essa disciplina, considerando seu alto grau de complexidade como apresentada pela teoria chevallardiana, vale apontar um primeiro, de ordem epistemológica, e um segundo, de ordem axiológica. Este segundo registro assume uma centralidade significativa ao se pensar no processo de didatização da disciplina história, na medida em que educadores e pesquisadores da área necessitam mobilizar os valores éticos, morais, cívicos, políticos e culturais ao exercerem suas funções. Gabriel (idem) é enfática ao afirmar que, Se o processo de axiologização é inerente a todo processo de produção dos saberes escolares, correspondendo, como afirma Develay, a uma “ética implícita”, defendo que, no caso dos saberes em História, esse processo se apresenta de maneira sistemática, muitas vezes, de forma explícita, estando presente tanto no seio do próprio saber histórico acadêmico como em todas as instâncias onde se opera a sua reelaboração. (p.180) Em linhas gerais, podemos dizer que, tanto nas pesquisas acadêmicas quanto nas esferas externas de produção do saber a ensinar (noosfera), como na sala de aula (transposição interna), o saber histórico é produzido a partir das escolhas teóricas e axiológicas pelas quais se orientam os diferentes atores envolvidos em sua produção, como professores, pesquisadores, técnicos educacionais, autores de livros didáticos, entre outros. 105 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino No caso, as narrativas dos militantes do movimento negro interessa-me neste estudo, pois suspeito que possivelmente elas repercutem nas políticas públicas curriculares, na academia e na escola nesse início de século. Os saberes que mobilizam sentidos de “negro” nas propostas curriculares de História Como apontei inicialmente, interessa-me analisar os sentidos de “negro” construídos pelo (a)s aluno (a)s de História do ensino básico e problematizar, a produção da diferença, assim como os processos de identificação em que se afirmam, via diferentes fluxos culturais, nas aulas de História na escola pública. Assim, sem a pretensão de deixar fora de nosso foco esses desafios, trago para o debate algumas questões para se pensar as tensões epistemológicas e axiológicas que envolvem a produção e mobilização do conhecimento histórico que está sendo ensinado na escola na atualidade. Para Chevallard, a noosfera “evidencia a emergência de instituições dos saberes” (2009, p. 214), ou seja, é a interface entre a sociedade e as esferas de produção de saberes (leis de ensino, currículo oficial, política do livro didático), configurando-se como um espaço de conflito. Desse modo, para sua própria sobrevivência, ele, o conhecimento escolar, prescindiria de uma forma de compatibilidade com os grupos de interesse da sociedade. Ele também necessita de renovação, na medida em que se torna desatualizado. Nessa dinâmica, que não se limita ao campo educacional, há a interferência de vários agentes sociais. Para o autor, “Essa camada exterior do sistema didático se compõe (...) de toda uma gama de elementos, desde o professor, (...) passando pelo militante ativo, indo até o matemático conhecido, que se preocupa com as questões do ensino, ou à administração (...)” (2009, p.167).. Dito isto, e diante das questões até aqui levantadas, proponho-me a pensar um dos contextos discursivos, parte integrante do acervo empírico de minha pesquisa analisando os discursos do movimento social, particularmente o movimento negro, que mobiliza no jogo político de nosso tempo uma demanda da diferença que se configura como uma referência significativa para os outros planos em análise. Em seguida, momento, analiso a superfície textual de trechos das Diretrizes Nacionais para a educação das Relações Étnico-raciais de 2004 , no âmbito da noosfera. Duas questões norteiam essa análise: Que saberes de referência são mobilizados para tornar a história da Cultura Africana e Afro-brasileira ensináveis? Em que medida a academia se mobiliza no sentido de legitimar esse conhecimento, uma vez que, nesse caso, ela não se constituiu inicialmente como campo de referência? 106 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Reconheço e dentifico a interferência de alguns atores sociais, os militantes do , Movimento Negro, sobre esse espaço de transposição externa. A pressão exercida por esses grupos possibilitou a inclusão no currículo do ensino da História da África e dos Afrobrasileiros, implementado por lei (10.639) e regulamentada pelas Diretrizes Curriculares do ensino básico no Brasil a partir de 2003. A implementação da Lei para o ensino básico, antes mesmo das disciplinas específicas para essa temática estarem inseridas nas grades curriculares das universidades, surpreendeu os sujeitos das diferentes esferas de escolarização. Talvez essa seja uma das razões que expliquem o fato de o saber mobilizado para a produção do conhecimento escolar “História da África e da cultura afro-brasileira”, ter inicialmente se voltado para os saberes dos movimentos sociais, como referência, e não exclusivamente para o saber acadêmico. A inversão desta ordem, histórica e socialmente “naturalizada”, na qual os saberes das disciplinas acadêmicas são referências quase exclusivas para a legitimação do saber escolar, é um traço interessante da forma específica de gestão das demandas da diferença pela escola na área da disciplina de História. Decerto, a inclusão desses conteúdos escolares no currículo já se constituía como orientação em documentos curriculares que antecedem a Lei 10.639/2003 e já se constituía como uma recomendação dos movimentos negros na primeira metade do século XX. De acordo com SANTOS (2007), (...) havia uma reivindicação nos jornais negros que se tornou um consenso entre os diretores e editores desses jornais: a necessidade de educação formal para a população afro-brasileira. (SANTOS. 2007, p. 69) Decerto, o apelo era direcionado à população de um modo geral neste período, e não aos órgãos públicos. Segundo Pinto (1993), a imprensa negra paulista24 sempre incentivou a escolarização da população negra visando a melhoria de suas condições de vida: A educação era tida como a única, ou pelo menos como uma das principais maneiras pela qual o negro conseguiria obter as mesmas oportunidades que o branco e deixaria de ser um “estrangeiro indesejável”. Recebendo educação, o negro poderia “evoluir”, integrar-se à vida nacional, combater a miséria em que vivia, os “vícios” e as doenças que o atormentavam. (PINTO, 1993, p. 184) Ainda nos meados do século XX, a preocupação com a escolaridade do negro e sua inserção na sociedade “branca” avançou no sentido de reivindicar ao Estado mudanças curriculares. Segundo Santos, 24 Foi denominada “imprensa negra”, segundo Santos (2007), uma multiplicidade de jornais que circularam, principalmente no estado de São Paulo, entre 1888 e 1937, que visavam denunciar as condições de vida das populações negras no período. 107 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino (...) os movimentos sociais negros (bem como os intelectuais negros militantes) passaram a incluir em suas agendas de reivindicações junto ao Estado Brasileiro, no que tange à educação, o estudo da história do continente africano e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional brasileira. Parte desta reivindicação já constava na declaração final do I CONGRESSO DO NEGRO BRASILEIRO, que foi promovido pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro, entre 26 de agosto e 4 de setembro de 1950, portanto, há mais de meio século. ( SANTOS, 2005, p.23) Desse modo, podemos inferir que tais demandas expressas no campo político, a partir de reivindicações junto ao poder público, afetaram definitivamente o campo educacional. Essa luta, que se inicia nos primeiros anos do século passado, estende-se por todo século, ganhando força nos últimos trinta anos. A institucionalização do Movimento Negro Unificado em 1978, e sua atuação, no sentido de produzir novas diretrizes para o currículo escolar, foi expressiva naquele momento. Nesse momento, de institucionalização da entidade, a luta antirracista ganha destaque universalizando o sentido particular de raça negra na definição do sentido de racismo a ser combatido. O MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL foi criado para ser um instrumento de luta da Comunidade Negra. Este movimento deve ter como princípio básico o trabalho de denúncia permanente de todo ato de discriminação racial, a constante organização daComunidade para enfrentarmos todo e qualquer tipo de racismo. (…) O movimento, que inicialmente propunha denunciar “todo ato de discriminação racial” agregando outro tipo de racismo, posteriormente fecha essa cadeia equivalencial em torno do significante “raça negra”. As características físicas do negro, como marcas identitárias, ressignificam o sujeito social, como consta no fragmento da Carta de princípios do MNU reproduzido abaixo: Nós, membros da população negra brasileira – entendendo como negro todo aquele que possui na cor da pele, no rosto ou nos cabelos, sinais característicos dessa raça –, reunidos em Assembleia Nacional... (Carta de princípios do MNU) No fragmento acima, a cor da pele, a textura do cabelo como fundamento essencial deste processo de significação e identificação do “homem negro” são reforçados em um esforço para se definir o “autêntico negro”. A tensão entre sociedade brasileira, ressignificando o ser brasileiro, e a Comunidade Afro-Brasileira (com iniciais em maiúsculas), está inserida em fluxos de lutas hegemônicas pela 108 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino fixação de sentidos de africanidade que, na dinâmica de afirmação de uma identidade diferencial como universal, ao incluí-la em um meio não diferencial, tende a anulá-la como diferença. Encontramos nas refigurações narrativas dos documentos e depoimentos analisados as interpretações orientadas para o passado, como as comemorações dos 300 anos da morte de Zumbi, que buscam nesses acontecimentos os sentidos para a afirmação de “ser negro” no presente. A asserção aponta ainda para a disputa da autoria da qualificação de Zumbi como herói do Brasil e, quiçá, das Américas e do mundo livre. Destaca que, desta vez, o reconhecimento do herói negro não dependeu da autorização do Estado e da Academia, deixando à luz a disputa política pelo sentido de “herói” da história. Assim, a instituição de Zumbi como herói nacional é reivindicada pelo movimento como uma das formas mais eficazes de universalizar as demandas identitárias. A rememoração da morte de Zumbi é acionada como um trunfo nas lutas por negociações agonísticas para a ocupação de espaços institucionalizados pela “comunidade negra” no âmbito da saúde, previdência e educação. No trecho da carta entregue ao então presidente Fernando Henrique25, em 1995, a educação da “criança negra” merece destaque: Documento apresentado ao Sr. Presidente da República do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, em 20 de novembro de 1995, fruto da Marcha Zumbi dos Palmares, contra o racismo, pela cidadania e pela vida. Num país cujos donos do poder descendem de ex-escravizadores, a influência nefasta da escola se traduz não apenas na legitimação da situação de inferioridade dos negros, como também na permanente recreação e justificação de atitudes e comportamentos racistas. De outro lado, a inculcação de imagens estereotipadas induz a criança negra a inibir suas potencialidades, limitar suas aspirações profissionais e humanas e bloquear o pleno desenvolvimento de sua identidade racial. Cristaliza-se uma imagem mental padronizada que diminui, exclui, subrepresenta e estigmatiza o povo negro, impedindo a valorização positiva da diversidade étnico-racial, bloqueando o surgimento de um espírito de respeito mútuo entre negros e brancos e comprometendo a ideia de universalidade da cidadania. (grifo meu) No documento acima, elaborado como desdobramento da Marcha Zumbi dos Palmares, os autores atribuem à escola a representação estereotipada do negro na sociedade atual. Este período retrata o período de luta do Movimento Negro pela ocupação dos espaços institucionais. É também na década de 1990 que os debates em torno das reformulações 25 Documento apresentado ao Sr. Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em 20 de novembro de 1995, fruto da Marcha Zumbi dos Palmares, contra o racismo, pela cidadania e pela vida. 109 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino curriculares no Brasil26 encontram-se em efervescência. Nesse sentido, o clamor desses grupos pela “universalidade da cidadania”, com o intuito de minimizar as diferenças desigualdades entre os grupos, justifica uma ação política junto ao Estado, visando à participação institucional, influenciando a elaboração de novas propostas curriculares em debate naquele momento. A necessidade de reconhecimento e legitimidade dos saberes escolares da história da África e dos afro-brasileiros, selecionados e organizados no âmbito da noosfera, exige uma aproximação com uma articulação entre a academia e os movimentos sociais. Ao realizar o trabalho de transposição didática a partir das leis, regulamentações e diretrizes para o ensino desses conteúdos, como “zona de intermediação”, a noosfera mobiliza também fluxos de sentidos de cientificidade da academia, ainda em processo de elaboração, em meio a uma crise disciplinar. No caso dos conteúdos históricos em questão, a disputa pela sua reafirmação como conteúdos escolares na atualidade são manifestações de lutas hegemônicas pelo controle social, recontextualizadas nos currículos escolares. Neste segundo plano de análise, apresento a problematização trazendo trechos das Diretrizes Curriculares Nacionais que garantiram a implementação dos conteúdos históricos em debate na seção, procurando perceber como os sentidos de negro foram, aos poucos, sendo reafirmados Assim como os documentos/depoimentos do Movimento Negro, a regulamentação da Lei, através das Diretrizes Nacionais Curriculares, na esfera federal, mobilizou a sociedade para a discussão em torno de questões relacionadas às políticas de currículo, incluindo então a história e cultura afro-brasileira. Elas constituíram-se uma importante estratégia pedagógica com o intuito de levar à escola, pela primeira vez, o debate acerca das relações raciais no Brasil, assunto tratado de forma superficial (pelos PCN, LDBEN ou livros didáticos) até então ou, mesmo, silenciado pela ideia da existência de um Brasil mestiço reforçado pelo mito da democracia racial. O documento foi pautado nas políticas de reparações, de reconhecimento e valorização de ações afirmativas que devem ser implementadas pelo Estado. A demanda por reparações visa que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros, dos danos psicológicos, materiais, sociais, políticos e educacionais sofridos sobre o regime escravista, bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população. (p.11) 26 Vale lembrar que a elaboração dos PCN e da LBDEN data dessa década. 110 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O trecho do documento em destaque aponta que as demandas políticas reivindicadas pelos grupos consultados trouxeram à tona antigas e novas configurações de lutas hegemônicas referenciadas no passado, apresentando-se assim como um terreno de disputas entre diferentes memórias coletivas. Os estudantes e os estabelecimentos de ensino, aos quais o documento é direcionado, são chamados a se posicionar e a se identificar com determinadas demandas do seu presente, tendo como base um passado legitimado como “comum”. Nesse sentido, o emprego do termo “raça” no documento é um caso exemplar: o termo foi ressignificado pelo Movimento Negro que, em várias situações, o utiliza com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos africanos. A fragilidade do documento ao apresentar uma perspectiva naturalizada e essencialista na construção de quem seria “negro” e “não negro” em uma refiguração narrativa do movimento negro, conduz a compreensão de que a sociedade é formada por pessoas que pertencem a grupos étnicos-raciais distintos, que possuem cultura e história próprias, igualmente valiosas, e que em conjunto constroem na nação brasileira sua história. (p.18) Ou ainda, Ao diálogo, via fundamental para entendimento entre diferentes, com a finalidade de negociações, tendo em vista objetivos comuns, visando a uma sociedade justa. (p.19, grifos meus) Os dois fragmentos acima sinalizam para a perspectiva dicotômica que atravessa o texto em sua totalidade, em uma perspectiva essencialista, mas que é passível de ser mobilizada para uma demanda do presente. Desse modo, as Diretrizes investem em fluxos culturais associados a uma abordagem historiográfica em que o sentido de “negro” como “sujeito da história” se faz presente com o intuito de positivar a ação desses grupos: como a evocação do “papel dos anciãos e dos griots como guardiães da memória histórica” (p. 21-22). Esses discursos tendem a reforçar e subverter simultaneamente posições hegemônicas do sentido de negro em disputa no texto curricular. Vimos que as matrizes historiográficas presentes nesta análise investem em sentidos que reatualizam processos de homogeneização do “negro” ou da “cultura negra”, reforçando sentidos essencializantes que apostam na produção de identidades fixas, apresentando supostamente, na perspectiva do quadro teórico aqui privilegiado, fraquezas de ordem conceitual e política. Mas não podem ser 111 ISSN 18089097 GT 01: PERSPECTIVAS EPISTEMOLÓGICAS DE CURRÍCULO VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino vistas como um elemento negativo, pois permitem a produção de narrativas subversivas ao que está posto, capazes de deslocar as relações de poder hegemônicas. Com efeito, a leitura desses textos curriculares, através do qual se impõe a norma do que é e o que não é considerado válido e politicamente correto ou permitido se ensinar, contribui fecundamente para o recorte privilegiado dessa pesquisa. Com ele é possível perceber que a voz predominante no discurso representador não é exclusivamente das academias de História nem da Educação. Essas são apenas algumas das questões que colocam no centro de debate curricular a discussão sobre a natureza e o papel do conhecimento escolar na construção de uma escola e sociedade democrática, mais justa e menos preconceituosa. Referências bibliográficas: CHEVALLARD, Yves. La transposición didáctica: Del saber sábio al saber esnseñado. Buenos Aires: Aique Grupo Editor, 3ª ed., 2009. COSTA, Warley. Currículo e produção da diferença: ‘negro’ e ‘não negro’ na sala de aula de história, Programa de Pós-Graduação Educação/UFRJ, 2012 (Tese de Doutorado). GABRIEL, Carmen Teresa.. Conhecimento escolar, cultura e poder: desafios para o campo do currículo em “tempos pós”. In: MOREIRA, Antonio Flavio e CANDAU, Vera Maria (orgs.). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. ______. 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