LEITURAS CRUZADAS: CONVERSAS LITERÁRIAS NA BIBLIOTECA 19.03.2015 "CRU E NO FEMININO": MARIA JOÃO CANTINHO SOBRE INGEBORG BACHMANN, ELFRIEDE JELINEK, HERTA MÜLLER «e pronto e pronto, paula também está com atraso. ao medo do atraso do mal mensal, em que nenhuma mulher da vizinhança de paula ainda conseguiu pensar a não ser como um mal, seguiu-se, implacável, o atraso. até agora, por via do amor, ainda nada chegou, agora foi algo que se atrasou, a anunciar que algo chegará, que deverá activar a função de paula. algo GRANDE. o sopro da vida, que é como quem diz, a piça de heinz, roçou o corpo de paula, e não foi só roçar. a costura continua lá continua, só erich nunca está por perto. paula não tem licença para subir a montanha, o que não lhe faz diferença, pois o seu doce segredo, como se costuma dizer, também no vale a agasalha. o doce segredo de paula tem de ser primeiro confiado ao homem que ela ama, e que a ama a ela, para que se siga o casamento. penetrante, a barriga mais gorda, os peitos mais pesados, as cruzes mais doridas, as calças mais cheias e borradas. a razão: paula tem um grande cagaço dos pais que são brutos, mas um segredo que é uma doçura. paula continua sem nunca ter dito eu amo-te a erich, porque mal o conhece. da próxima vez vai ser tudo de uma assentada: eu amo-te e vou ter um filho teu. paula tem também de contar à mãe e ao pai. ai, ai. LEITURAS CRUZADAS: CONVERSAS LITERÁRIAS NA BIBLIOTECA 19.03.2015 paula precisa de erich de uma forma muito especial neste tempo de esperanças, porque para toda a mulher esta é uma situação de crise, e para todo o organismo feminino uma grande sobrecarga, ainda que uma sobrecarga de felicidade. neste estado interessante em que se encontra, paula precisa em especial de muita compreensão, carinho, protecção contra animais selvagens, trabalho bruto, golpes violentos e tratamento desumano. durante qualquer tratamento desumano, por muito pequeno que seja, paula pensa como vocês haviam de lamentar, se soubessem que sinto em mim uma vida em potência. a vida por nascer espreguiça-se em direcção ao sol. às vezes, paula imagina em pesadelos pouco saudáveis o que aconteceria se dissesse ao pai: olha, papá, preciso agora, de uma forma muito especial, de muito carinho e aconchego, porque dentro de mim algo por nascer se espreguiça e se estica em direcção ao sol. uma mão férrea de terror aperta-a então com as suas garras. embora o papá o tenha, ele também, feito filhos a dar c’um pau, e de que maneira. dirá ele: hurrah! ele aí vem, o meu neto, acabadinho de sair da minha filha, que seja bem-vindo, vamos lá a entrar! eis que voltamos a ter sangue novo em casa, sangue de bebé acabado de nascer, o importante é a felicidade? e a mamã, emitirá ela um parecer técnico abalizado, de perita que é, sobre este feliz, longo, mas não eterno estado de esperanças? rodeará ela a sua filha de cuidado e carinho? ajudará ela na aquisição do enxoval da criança? azul ou cor-de-rosa? ou amarelo? ah, como é divertido. deste modo, não vive paula apenas uma boa vida, mas também uma segunda outra vida. logo duas vidas felizes, em vez de uma vida de costura. e erich, o feliz papá? todos os minutos livres junto da mãe e do filho passará, todos os minutos livres da sua jovem mulher cuidará, o álcool deixará, e também deixará de odiar as pessoas, de estourar o dinheiro, e assim por diante. paula pretende abrir o seu interior a abarrotar à mãe, a razão: a mãe já foi ela mesma muitas vezes mãe e compreende, por isso, o estado em que paula paira. compreende este estado até melhor do que um homem, que só sabe ser pai e não tem mais nada a ver com estas coisas merdosas, isso são coisas de mulher. paula conta as coisas de mulher a uma mulher, nomeadamente à mãe, que não deixa de ser mulher. paula deposita na feminilidade da mãe uma confiança que sai desiludida. a mãe espicaça paula e martela-a pelo chão e pela terra dentro. e todos os filhos que outrora carregou no ventre parecem martelar também aplicadamente, tal é a força que a mulher ganha de repente. até hoje, paula só tinha ouvido os golpes de machado, na floresta, fazer tanto eco. seria um trabalho divertido matar paula à paulada, se não fosse executado com tanto ódio. o amor une, mas o ódio separa, a LEITURAS CRUZADAS: CONVERSAS LITERÁRIAS NA BIBLIOTECA 19.03.2015 mãe de paula odeia paula por causa do filho que esta traz na barriga, há vários órgãos importantes de paula que não vão sair inteiros deste tratamento. a mãe de paula já odiou o marido várias vezes, por causa dos filhos que carregou na barriga, por causa do trabalho acrescido e do processo repugnante do parto, também odiou muitas vezes os filhos dentro da barriga e depois fora da barriga, agora a mãe está definitivamente a alucinar, tanto que não só odeia o filho fora da sua barriga, como o que está dentro da barriga da filha e a própria filha por atacado. as pessoas irão pensar que a própria filha não recebeu educação apropriada. que escândalo e que vergonha. que escândalo e que vergonha para este trabalho alucinante. assim do pé para a mão, a mãe de paula podia enumerar uma dúzia de pessoas, tudo lenhadores e respectivo atrelado, que igualmente do pé para a mão, se ririam da sua desgraça. em parte, pessoas de cuja desgraça (filho débil mental, pai na cadeia por pedofilia, baixo-ventre de mãe esvaziado, pai esmagado pela árvore, mãe fugida de casa e metida na fábrica, filho reprovado na escola pela segunda vez, apreensão de carta por embriaguez, queda na montanha, cadeira a estrear toda riscada pelo filho, etc.) nós mesmos rimos um dia a bandeiras despregadas. agora, esses cretinos vão com certeza rir-se ainda mais da sua própria desgraça, dela, o que é uma ideia insuportável. a paula vai ter um filho. a paula vai ter um filho! reina um ódio galhofeiro nas profundezas do vale. o ódio alastra de montanha para montanha como rastilho de pólvora. e paula lá no meio, talvez até como incendiária. a nossa paula vem muito amorosa, pé ante pé, para o pé da sua mãe, mete a cabecinha despenteada debaixo do braço dela, como sempre fizera antes, na sua infância infeliz, vem muito amorosa à confissão, e só quer uns palpites sobre tricô e croché para a jalequinha amorosa, azul ou cor-de-rosa, que gostaria de tricotar, bordar ou crochetar para o fruto de erich. a confiança de paula será como de costume recompensada com grande porrada e gritaria esgoelada de ódio. a cabeça de paula fica presa só por um fio, no corpo da mãe em formação mal resta uma mancha ilesa. e então esperem que o vigoroso pai dê à costa deste continente chamado realidade! LEITURAS CRUZADAS: CONVERSAS LITERÁRIAS NA BIBLIOTECA 19.03.2015 aqui desembarca ele, recebe a novidade em estilo telegráfico, não percamos precioso tempo de porrada, a mãe ainda está sem fôlego da porrada infligida, não apanha a história em condições e com todos os nexos causais vê-se obrigado a bater e rebater. e a continuação segue dentro de momentos, acima, acima gajeiro, que temos gentil maré, quem foi o porco, o porco quem é, qual dos porcos vai ter agora de casar, quer queira quer não? é um milagre não ter abortado, ao fim de um dia tão agitado. e erich com uma grande cachola de porco. com paula, não houve nos tempos seguintes tanta animação como de costume. com paula, também nunca tinha havido grande animação. diz-se que as feridas da alma doem muitas vezes mais que as do corpo, mas as feridas do corpo de paula não são a brincar, precisam de muitos cuidados e alguma pomada. paula sente-se tratada como um objecto desagradável e não como a pessoa que é. se os pais tivessem dado porrada num objecto duro e inflexível, o mais certo era terem partido o pulso. sobre o estado de alma de paula não é aqui preciso gastar mais palavras, ela tornou-se um ser empedernido e glacial. e não há erich que venha em seu auxílio. erich pertence à floresta, mas a floresta não pertence a erich, nem por sombras. portanto, nada de conversa de mulher para mulher. os moldes recortados de croché jazem por terra, amarrotados, enxovalhados, violados. paula não foi violada, é certo, mas ficou, mesmo assim, desanimada. sobre a criança, no estreito baixo-ventre, impende a ameaça do popular e comprovado banho de saponária, que deverá transformá-la num anjinho, mas que às vezes não funciona, porque a vida em formação se agarra com demasiada força ao torrão materno. uma boa saponária a ferver, de bons e bonitos pacotes coloridos de detergente, com muito bom veneno lá dentro. até mataria o pai, se ele o comesse. o pai, porém, prefere salsichas ao madeireiro. atravessando florestas, campos e torrentes, vem a caminho um negociante para se encontrar com erich. a situação nada tem de romântico. deus queira que até à boda, de nódoas negras, arranhões, esfoladelas, contusões, não se vejam nem sinais. paula até ouve os sinos, em surdina. LEITURAS CRUZADAS: CONVERSAS LITERÁRIAS NA BIBLIOTECA 19.03.2015 em vez de feridas, um vestido de renda até ao chão com véu. de saponária nada, mas uma coifa de flores, coisa de fada. nada de aborto, mas um bolo de noiva, que conforto. não um anjinho de embrião, mas um bom assado de leitão. da sala-cozinha lançam-lhe espinhos de ódio com o olhar, tantos espinhos que quase nem se pode entrar. muitas vidas e esperanças desiludidas vingam-se agora de paula em simultâneo. a derradeira réstia de luxúria em paula escorre pelo chão dentro. reina uma total insensibilidade no seu corpo. a tentativa de aniquilamento da pequena susanne na barriga de paula não é bem sucedida. a destruição do pai e da mãe já sucedeu há muitos anos. para paula foi o mundo que ruiu em pedaços, mas não interessa, porque, de qualquer modo, nunca houve um pedacinho de mundo que lhe pertencesse.» Excerto de As Amantes,Elfirede Jelinek, Ed. Asa, 2006