“Penduradas no tempo...”: Representações Sociais do Trabalho Feminino na Atividade
de Corte de Cana-De-Açúcar na Região de Ituiutaba-MG
Autoria: Alessandro Gomes Enoque, Alex Fernando Borges, Lorrana Laila Silva de Almeida,
Aline Cordeiro dos Santos
Resumo
O objetivo deste trabalho consistiu em analisar as representações sociais do trabalho feminino
na atividade de corte de cana-de-açúcar, com destaque para a realidade das “bituqueiras” da
região de Ituiutaba-MG. Através de pesquisa qualitativa, fundamentada na técnica de análise
do discurso, foram entrevistadas trabalhadoras rurais e representantes sindicais da categoria.
Verificou-se que a atividade de colheita da cana marca a subjetividade da “bituqueira”, a
partir de uma forte ideologia de “trabalho árduo e marginalizado”. Configuram-se, assim,
representações sociais do trabalho feminino, que envolvem a (re)produção e (re)significação
da condição marginalizada da mulher trabalhadora inserida nesse contexto precarizante.
1. Introdução
A atividade de colheita de cana-de-açúcar, apesar do atual nível de implementação
agrícola, inovação e desenvolvimento tecnológico do setor, continua apresentando desafios e
problemáticas em termos de condições do trabalho humano (ROCHA; MARZIALE; HONG,
2010). É fato recorrente, neste contexto, a participação de um grande contingente de
trabalhadores (MORAES, 2007), em sua maioria migrantes (LUZ et al., 2012), que atuam em
canaviais das mais diversas regiões do Brasil.
Não obstante as iniciativas de regulamentação trabalhista do setor (RUMIN;
SCHMIDT, 2008), os trabalhadores da atividade de cana-de-açúcar enfrentam situações
dramáticas no campo. Durante a colheita da cana, os trabalhadores são expostos a longas
jornadas e a um local de trabalho que apresenta múltiplas situações de risco à saúde (ROCHA;
MARZIALE; HONG, 2010). O processo de colheita da cana compreende: a) deslocamento
precário de trabalhadores; b) queimada da cana em etapa imediatamente anterior ao corte; c)
movimentos repetitivos com enxadas e foices para o corte da cana, associados à postura
inadequada (posição arqueada e frequentes subidas e descidas); d) exposição a animais
peçonhentos localizados entre as varas de cana; e) transporte de grande quantidade de varas
de cana entre o local de corte e o caminhão que as conduzirá aos engenhos, podendo chegar a
quatorze toneladas em um único dia (PERES, 2009). Neste sentido, revelam-se condições
insalubres, de risco à saúde do cortador de cana, levando à uma (re)produção da precarização
do trabalho rural, imputando desafios no sentido de alcance de soluções que superem essa
problemática e, até mesmo, permitam possibilidades de emancipação do cortador de cana
(SILVA; SACHUK, 2012).
Verifica-se, no contexto dessa atividade, uma grande quantidade de mulheres busca
sua sobrevivência por meio da coleta dos restos (“bitucas”) da cana, deixados para trás pela
atividade do corte. Apesar de a situação relacionada às condições de trabalho destas
“bituqueiras” tenha sido divulgada em diversas mídias locais e nacionais, sua situação no
contexto da região ainda é obscura. Portanto, este trabalho tem como objetivo analisar as
representações sociais do trabalho feminino na atividade de corte de cana-de-açúcar, com
destaque para o desempenhado pelas “bituqueiras” da região de Ituiutaba, Minas Gerais. Para
tanto, foi empregado o método de pesquisa qualitativo, suportado por meio da técnica de
análise do discurso, buscando revelar as representações e as interpretações das trabalhadoras
investigadas sobre sua realidade, sua atuação profissional e sua inserção no contexto da
atividade de corte de cana.
Este artigo encontra-se estruturado nas seguintes seções: Representações Sociais; A
Categoria Trabalho; Metodologia; As Representações Sociais do Trabalho Feminino na
Atividade de Corte da Cana-de-Açúcar; Considerações Finais; e Referências.
2. Representações Sociais
A Teoria das Representações Sociais é um meio sociológico da Psicologia Social que
possibilita apreender e interpretar as diferentes representações sociais produzidas pelos
sujeitos investigados (LESCURA et al., 2012). No Brasil, diversos estudos utilizam a Teoria
das Representações Sociais no campo da Administração e dos Estudos Organizacionais,
lançando luzes sobre problemáticas associadas ao trabalho e suas diferentes implicações
(SALLES; COSTA, 2013; BORGES; MEDEIROS; CASADO, 2012).
A noção de representações sociais, formalmente delineada no trabalho seminal de
Serge Moscovici, “La psychanalyse, son image e son public”, é credora do conceito
durkheimiano de representações coletivas. Tal noção apresenta-se, aliás, como um ponto de
inflexão na obra de Durkheim, ao deslocar seu interesse da ênfase da morfologia social,
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fundamento principal dos fatos sociais (DURKHEIM, 1999a, 1999b) para a valorização do
simbólico como elemento explicativo da realidade. Esta transição, materializada em “Formas
elementares da vida religiosa” e em “Sociologia e Filosofia”, eleva a categoria das
representações coletivas como arcabouço teórico fundamental das análises sociológicas
efetuadas pelo referido autor. Tal importância pode ser comprovada na análise que Durkheim
(2003) estabelece acerca das religiões primitivas, bem como o papel das mesmas no rol das
representações. Para o autor, “(...) os primeiros sistemas de representações que o homem
produziu do mundo e de si próprio são de origem religiosa” (DURKHEIM, 2003, p.15).
É através da analogia com os sistemas biológicos/mentais, aliás, que Durkheim traça
sua análise das representações coletivas. Para Durkheim (1970), a sociedade teria como
substrato o conjunto dos indivíduos associados, da mesma forma que a vida psíquica tem por
base as estruturas biológicas. Nesta perspectiva, “(...) as representações que são a trama dessa
vida, originam-se das relações que se estabelecem entre os indivíduos assim combinados ou
entre os grupos secundários que se intercalam entre o indivíduo e a sociedade total”
(DURKHEIM, 1970, p.33). É importante destacar, neste ponto, a noção durkheimiana de que
as representações coletivas nascem de um processo elaborativo e cooperativo, mas não de
seus indivíduos considerados isoladamente. Para o autor, “(...) os sentimentos privados apenas
se tornam sociais pela sua combinação, sob a ação de forças sui generis, que a associação
desenvolve” (DURKHEIM, 1970, p.34). Em decorrência deste processo cooperativo, estes
sentimentos privados seriam transformados em “outra coisa” exterior à dimensão particular.
Tais representações, de natureza independente do universo individual, emanariam seu caráter
obrigacional e coercitivo, como pode ser observado nas manifestações e práticas religiosas.
É interessante notar que os sentimentos privados, sendo divergentes por definição,
seriam neutralizados mutuamente no plano coletivo. Durkheim (1970), neste sentido, não
admite a possibilidade de que determinados grupos sociais possam impor suas visões
particulares para o restante da coletividade, negligenciando o papel da ideologia na construção
das representações coletivas. Há que se destacar, no entanto, o fato de que “(...) o todo não se
forma senão pelo agrupamento das partes e este agrupamento não se faz em um instante, por
um milagre repentino; há uma série infinita de intermediários entre o estado de isolamento
puro e o estado de associação caracterizada” (DURKHEIM, 1970, p.37). Embora Durkheim
não inclua, como em Moscovici, a ideia de universo reificado na conformação das
representações coletivas, o mesmo admite o papel dos grupos primários (família) e
secundários (escola) no processo de elaboração das mesmas.
Para Pereira de Sá (1993), o escopo explicativo da teoria durkheimiana de
representações coletivas poderia parecer suficiente ao contexto do início do século XX (época
do lançamento das “Formas Elementares da Vida Religiosa”). Os novos fenômenos
representacionais da sociedade contemporânea não poderiam ser abarcados, no entanto, pela
noção de representações coletivas. Para Pereira de Sá (1993), é neste contexto que a
abordagem de Moscovici e seu conceito de representações sociais parece fazer sentido.
Esta “nova” compreensão do campo da Psicologia Social procurava, basicamente,
acentuar o caráter social de fenômenos intra-individuais, buscando superar deficiências do
conceito de percepção e cognição. A Psicologia Social procura superar esta dicotomia
(individual/social) visualizando o indivíduo e suas produções mentais como produtos de sua
socialização em um determinado segmento social. A individualidade, nesta perspectiva,
emerge como uma estrutura estruturada que tem potencial estruturante (SPINK, 1993).
Para Sawaia (1993), o conceito de representações sociais de Moscovici poderia ser
descrito como sendo o conjunto de modalidades de conhecimento particular que circulam no
dia-a-dia e que têm como função a comunicação entre indivíduos, criando informações e nos
familiarizando com o estranho de acordo com categorias de nossa cultura, por meio da
ancoragem e da objetivação. Para Spink (1993), representações sociais seriam modalidades de
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conhecimento prático, orientadas para a comunicação e para a compreensão do contexto
social, material e ideativo em que vivemos. Ainda de acordo com a autora, as representações
sociais constituem formas de conhecimento que se manifestam como elementos cognitivos
(tais como imagens, conceitos, categorias, teorias), mas que não se reduze a esses
componentes cognitivos. Ao serem socialmente elaboradas e compartilhadas, contribuem para
a construção de uma realidade comum. Desse modo, as representações são, em sua essência,
fenômenos sociais que têm de acessados em seu conteúdo cognitivo e entendidos a partir de
seu contexto de produção, ou seja, a partir das funções simbólicas e ideológicas a que servem
e das formas de comunicação em que circulam (SPINK, 1993).
A tipificação das representações coletivas como sendo uma modalidade de
conhecimento “prático”, do “dia-a-dia” indica uma ampliação não só do campo da Psicologia
Social, mas, também, da própria Sociologia do Conhecimento. A dicotomia entre universos
reificados e consensuais de Moscovici exemplifica uma nítida separação entre um
conhecimento erudito (próprio da ciência, por exemplo) e outro, de senso comum. Tal
separação (reificado/consensual), aliás, lança luzes importantes sobre as condições de
(re)produção dos discursos dos grupos sociais, bem como no papel dos aparatos ideológicos.
De acordo com Spink (1993), o estudo das representações sociais revelaria, ainda, a
concomitância de conteúdos mais estáveis e de conteúdos dinâmicos, mais sujeitos a
mudança. As representações sociais seriam, neste sentido, palco tanto de permanências
culturais quanto da diversidade e instabilidade. Tal diversidade levaria, segundo a autora, à
compreensão das representações sociais como sendo um elemento fundamentalmente
processual, com a função social de criação e manutenção de uma determinada ordem social.
Para Spink (2004) as representações sociais são fruto não apenas de concepções históricas,
mas do aqui e agora; são construções que situam o indivíduo, dando-lhe identidade social.
Spink (1995) acrescenta ainda que as representações sociais são uma espécie de saber prático,
porque se inserem nas correntes que estudam o conhecimento do senso comum.
Neste sentido, a função das representações sociais seria a de atuar como um elemento
que “familiariza o estranho”. Tal processo, denominado por Moscovici como “ancoragem”,
consiste em uma domesticação daquilo que não compreendemos, do novo. É importante
destacar, no entanto, que tal ancoragem seria feita a partir de representações já existentes. O
outro processo envolvido na elaboração das representações sociais seria o da “objetivação”.
Conforme Spink (1993), a objetivação é uma operação formadora de imagens, o processo
através do qual noções abstratas são transformadas em algo concreto, quase tangível. Para
Pereira de Sá (1993), a objetivação consiste em uma operação imaginante e estruturante, pela
qual se dá uma forma específica ao conhecimento sobre o objeto, tornando concreto, quase
tangível. O processo de objetivação serviria, ainda, como elemento de cristalização dos
universos simbólicos de uma determinada sociedade.
Outro ponto importante a ser abordado diz respeito ao papel da linguagem como um
elemento fundamental na construção do universo das representações sociais. Berger e
Luckmann (2005) apontam que as objetivações comuns da vida cotidiana são mantidas,
primordialmente, pela significação linguística. Para os autores, a participação na vida
cotidiana, e sua potencial transcendência, somente é possível a partir da existência de um
sistema de sinais vocais denominado linguagem. Tal noção aproxima, consideravelmente, os
universos da sociologia e da psicologia aos da linguística, possibilitando o uso de
metodologias de análise da última no estudo das representações sociais.
3. A Categoria Trabalho: aspectos conceituais
Marx e Engels (2001) consideram que o trabalho possui um status importante na
explicação de outras dimensões do social. Marx demonstra que as bases materiais de
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existência, tanto as encontradas prontas pelos indivíduos, como aquelas transformadas por sua
própria ação (através do trabalho), determinariam, em grande parte, aspectos da realidade
social. Trabalhar é, para a teoria marxiana, uma atividade essencialmente humana.
Durkheim (1999a) aponta que o fenômeno da divisão do trabalho (fenômeno não
restrito à dimensão econômica), generalizou-se a tal ponto na sociedade industrial, que
poderia ser encontrado tanto no interior das fábricas, onde as ocupações são separadas, quanto
na manufatura, onde uma especialidade supõe a outra. À luz da teoria Durkheimiana, as
formas contemporâneas de especialização das tarefas seriam formas patológicas, uma vez que
a divisão do trabalho é, essencialmente, fonte de solidariedade. Neste sentido, todas as formas
de divisão do trabalho que não engendram a solidariedade seriam consideradas patológicas.
A análise feita por Durkheim (1999a) é recorrência de seu método estrutural
coletivista, onde a sociedade é regulada por suas próprias leis de desenvolvimento histórico,
sendo, portanto, a não efetivação dessas leis, não um ato intencional dos atores sociais, mas
antes consequência da baixa densidade moral da consciência coletiva (“a divisão forçada do
trabalho” e a “divisão anômica” são exemplos que representam a não efetivação de tais leis).
Invertendo o dilema Hobbesiano da ordem, a questão para Durkheim (1999a) está centrada no
surgimento da “desordem” no meio social. O autor preocupa-se em explicar o surgimento da
desordem nas sociedades, onde os sistemas de valores coletivos ordenam a ação individual.
Para Durkheim (1999a), as estruturas sociais são determinadas pela densidade moral da
consciência coletiva. Para Marx e Engels (2001), o ponto de ruptura nas sociedades
capitalistas seria o conflito de classes gerado pelo progresso da divisão social do trabalho.
Desse modo, para o autor, o tipo de relações de produção predominantes é que determina as
relações sociais.
Apesar desta diferenciação, tanto Marx como Durkheim apontam para uma
determinação estrutural independente da vontade ou intenção dos atores envolvidos. Tal fato
permite a Marx e Engels (2001) e Durkheim (1999a) buscar o sentido histórico das estruturas
sociais, a partir da suposição da relação entre fatores objetivos. É desse modo que, na obra de
Durkheim (1999), pode-se analisar a relação estabelecida entre densidade moral/divisão do
trabalho/anomia, e em Marx e Engels (2001) a relação entre estágio de desenvolvimento das
forças produtivas/relação de produção/sistemas de dominação.
A tese central da divisão do trabalho social demonstra que a diferenciação do trabalho
está cada vez mais preenchendo o papel social. Porém, a presença de conflitos constantes, que
enfraquecem a solidariedade no meio social e comprometem a manutenção da ordem,
colocam em xeque a eficiência da divisão social do trabalho no cumprimento de seu papel.
Para Marx e Engels (2001), a questão da solidariedade se torna problemática com a divisão
social do trabalho. Segundo os autores, os diversos estágios do desenvolvimento da divisão do
trabalho representam diferentes formas de propriedade. Em outros termos, cada novo estágio
da divisão do trabalho determina, ao mesmo tempo, relações dos indivíduos entre si, no
tocante as coisas, instrumentos e produtos do trabalho. A tipologia das sociedades está
relacionada à diferenciação progressiva da divisão do trabalho, onde a sociedade de classes
tem seu ponto de origem no sistema indiferenciado da propriedade comunal.
Marx e Engels (2001) traçam o desenvolvimento da divisão do trabalho, passando
pelas sociedades feudais até chegar as sociedades capitalistas, onde o grau de
desenvolvimento de divisão já se encontra bastante avançado e o processo de alienação e
propriedade privada dos meios de produção, decorrentes desse desenvolvimento, são as
características marcantes. Nas sociedades capitalistas, “(...) as forças produtivas se apresentam
como completamente independentes e desligadas dos indivíduos, como um mundo à parte”
(MARX; ENGELS, 2001, p.81).
Desse modo, as inúmeras transformações do decurso da empresa artesanal até a
moderna indústria trouxeram consigo uma desvalorização do trabalho enquanto um elemento
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importante na experiência subjetiva do indivíduo. O trabalho perde, por assim dizer, seu
caráter de positividade, na medida em que o dever e a necessidade do trabalho não mais
operam ao nível dos indivíduos, ou seja, a ordem moral do trabalho é enfraquecida e ele deixa
de ser o ponto central de uma vida honesta e boa. Fica claro o declínio desta moral ética,
sobretudo devido ao padrão taylorista de produção, que relega a segundo plano, ou até mesmo
ignora, o fator humano no contexto da produção. O trabalho não pode, desta forma, ser fonte
de realização dos indivíduos, que irão deslocar esta necessidade para outras esferas do social.
Neste sentido, as dimensões do trabalho e do sofrimento aproximam-se consideravelmente.
Nas palavras de Marx e Engels (2001), o trabalho despossuído da concepção (préconcepção), marcado, principalmente, pela emergência do taylorismo, traria como
consequência uma desumanização do operário e a possibilidade da construção da metáfora do
trabalhador como “apêndice da máquina”, fazendo com que o trabalhador perca um sentido
original de “construtor”. A perda da positividade remete a uma outra questão: a negação da
sacralidade inicialmente associada a dimensão do trabalho. A emergência de um trabalho
“coisificado” (mercadoria) e, portanto, passível de ser “comercializado/negociado”
(contratualizado) desloca a ideia do trabalho como vocação e o instaura como necessidade.
Uma segunda associação que pode ser feita entre trabalho e sofrimento é a ideia de
que ele não somente tornou-se especializado e coisificado, mas também acelerou-se. Na
procura de maior produtividade para atender à demanda de mercado, o capital busca, no
aumento do ritmo de produção, uma saída em potencial para a enorme resistência do
operariado no que diz respeito a aumentos na jornada de trabalho. Há que se destacar,
portanto, a íntima relação entre as categorias tempo e trabalho, principalmente na
modernidade. A observação das formas de organização da produção denominadas taylorismo
e fordismo permite identificar que estas são, em grande parte, maneiras de vencer o tempo
ocioso e que os estudos tayloristas de tempos e movimentos refletiriam bem tal associação.
A extrema divisão do trabalho surge como traço característico das sociedades
capitalistas. A análise que Marx e Engels (2001) fazem do capitalismo baseia-se no postulado
da relação entre expansão da divisão do trabalho e o surgimento de uma estrutura de classes
dicotômicas, baseada na diferenciação dos indivíduos frente a propriedade dos meios de
produção. Nas análises de Weber (2001) e Durkheim (1999a), no entanto, a estrutura de
classes não se relaciona com a expansão e divisão do trabalho, ou seja, esses autores não
acreditam que tal diferenciação de classes constitua a verdadeira natureza das sociedades
modernas, embora reconheçam a diferenciação de classes como característica marcante das
mesmas. Weber (2001), ao analisar a presença de interesses conflitantes na sociedade, ressalta
que a presença dos mesmos guarda estreita relação com o aparecimento do trabalho livre
institucionalizado.
Para Marx e Engles (2001), no entanto, a estrutura de classes constitui a essência do
capitalismo. No sistema feudal, a estrutura de classes, apesar de baseada também no acesso
diferenciado aos meios de produção - proprietários e não proprietários - permitiu a
participação do indivíduo nas relações comunitárias. Nas sociedades capitalistas, por sua vez,
as relações de mercado dominam todas as esferas da sociedade. A propriedade, que de início
era comunitária, vai se transformando até tomar a forma de propriedade privada resultado da
divisão do trabalho que culminará, em ultima instância, no progresso da alienação. É neste
momento que a questão da solidariedade adquiriu relevância para Marx, pois com a expansão
da divisão social do trabalho, o trabalho intelectual é separado do trabalho manual. Por outro
lado, ocorre a separação entre trabalho e apropriação privada dos meios de produção.
Marx e Engels (2001) salientam que nas sociedades capitalistas o conflito de classe é
posto em evidência, em detrimento do conflito de interesses individuais. Tal fato é
consequência do processo de dominação estabelecido entre os homens. A sociedade
capitalista se distingue das formas anteriores, sobretudo pelas relações sociais coisificadas e
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pelas relações abstratas expressas através das ideias, momento em que o produto do trabalho,
bem como os próprios trabalhadores, foram transformados em mercadorias. Este processo de
transformação da força de trabalho em mercadoria aparece de forma natural na sociedade,
uma vez que a relação salarial é capaz de criar aparência de igualdade, não permitindo a
explicitação da dominação inerente a este processo. Desse modo, o intercâmbio das
mercadorias, incluindo a força de trabalho, passa a constituir o eixo fundamental das relações
sociais, onde a imagem do indivíduo guiado pelo auto-interesse é o eixo principal de tais
relações.
4. Metodologia
Este trabalho é estruturado por meio da abordagem qualitativa de pesquisa. A pesquisa
qualitativa consiste em um método relevante e mais adequado para apreender a dinâmica de
fenômenos e que, ao mesmo tempo, são revestidos por aspectos culturais e simbólicos,
aspectos estes de natureza mais subjetiva e improvável de ser identificada por meio de
métodos tradicionais funcionalistas/quantitativos. Isto se deve, sobretudo, ao seu caráter
circular e reflexivo e a seu caráter epistemológico subjetivista (GODOI; BALSINI, 2006).
A pesquisa de campo foi orientada a partir da necessidade de identificação e
investigação de mulheres inseridas na atividade de colheita da cana-de-açúcar. Para tanto,
buscou-se trabalhadoras (“bituqueiras”) que estavam alocadas nessa atividade específica de
corte da cana e que atuavam na região de Ituiutaba, Minas Gerais. Nesta perspectiva de
seleção dos sujeitos de pesquisa, ressalta-se que o pesquisador possui ampla liberdade no
sentido de buscar aqueles indivíduos que, de alguma forma, possam contribuir,
consideravelmente, para a compreensão do fenômeno pesquisado.
No que diz respeito à técnica de coleta de dados, optou-se pela entrevista
semiestruturada (GODOI; MATTOS, 2006). Foram realizadas entrevistas, com duração
média de 60 minutos, junto a 16 (dezesseis) sujeitos de pesquisa, divididos entre
representantes sindicais da categoria (entrevistados 1 e 2) e trabalhadoras da atividade de
corte de cana-de-açúcar (entrevistadas 3 a 16), no período de abril a setembro de 2012. Foi
empregada, neste trabalho, a abordagem de Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2001), que
caracterizam esta técnica em termos de um grau intermediário de estruturação entre a
entrevista dirigida e a não-diretiva, que proporciona ao entrevistador um maior grau de
liberdade no decorrer do processo de investigação. De acordo com esta abordagem, o
investigador utiliza um roteiro prévio de alguns pontos que ele acredita serem relevantes, e
deixa com que o entrevistado construa seu próprio discurso e, consequentemente, dê sentido à
sua própria realidade. No decorrer da entrevista, no entanto, o pesquisador pode investigar
mais profundamente pontos que, embora não estivessem no roteiro original, possam ser
relevantes para a compreensão do fenômeno estudado.
A justificativa para a utilização de entrevistas semiestruturadas neste trabalho reside
no fato de que o entendimento da realidade pesquisada deve ser buscado no próprio discurso
fornecido pelos entrevistados. Na medida em que falam de sua própria realidade, os
entrevistados deixam transparecer, além dos fatos objetivos, elementos subjetivos que podem
ajudar a esclarecer o fenômeno estudado. Para Cardoso (1999, p.21), o discurso seria “(...)
fruto do reconhecimento de que a linguagem tem uma dualidade constitutiva e que a
compreensão do fenômeno da linguagem não deve ser buscada apenas na língua, sistema
ideologicamente neutro, mas num nível situado fora do pólo da dicotomia língua/fala”.
Neste sentido, o procedimento de análise de dados efetuado neste trabalho insere-se no
campo da análise de discurso (FIORIN, 2003; MAINGUENEAU, 1998; IÑIGUEZ, 2005).
Tendo como objetivo fundamental a transposição do limite formal do enunciado e uma
aproximação do universo semântico (principalmente em seu aspecto ideológico), o campo da
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análise do discurso nasce no horizonte do marxismo francês da década de 60 e avança,
sobremaneira, sobre outras disciplinas como a Sociologia, a Antropologia e a própria área de
Estudos Organizacionais. Uma vez que as representações sociais do trabalho feminino na
atividade do corte da cana-de-açúcar seriam apreendidas no campo do discurso, entendeu-se
que tal abordagem seria a mais adequada na compreensão das condições de produção e
reprodução de tal atividade no contexto da região de Ituiutaba, Minas Gerais.
5. As Representações Sociais do Trabalho Feminino na Atividade de Corte da Cana-DeAçúcar
Neste momento, serão apresentadas e discutidas as evidências de representações
sociais que traduzem a natureza específica, precária e contínua do trabalho das "bituqueiras"
no âmbito da atividade do corte de cana-de-açúcar na região de Ituiutaba-MG. Após a
constatação, por parte da empresa, de que a cana está em momento propício para o corte, uma
grande quantidade de trabalhadores (cortadores), que são, em sua maioria, homens, iniciam
seus trabalhos. Após o corte manual efetuado pelos trabalhadores (cortadores), um conjunto
de máquinas adentra ao campo (guinchos) com o objetivo de abastecer os caminhões com a
cana já cortada para a usina (fragmento discursivo (001)). Os "restos" deixados pelos
guinchos (as "bitucas", que se assemelhariam, em certa medida, às "bitucas de cigarro") são
coletados por um grupamento de mulheres convencionalmente denominadas "bituqueiras"
(normalmente em grupos de 40 a 50). Estas mulheres "catam" estes restos de cana que ficam
na área de corte e juntam em pequenos montes para que, em seguida, os guinchos passem
novamente. Convêm destacar, ainda, que esta atividade de "limpeza" não se restringiria ao
espaço da área de corte, mas, também, às estradas pelas quais os caminhões de transporte
passam (fragmento discursivo (002)).
(001) [...] depois que os cortadores vêm e cortam, os guinchos vem e
junta e ai a gente vem catar as canas que os guinchos deixam cair. A
gente faz os montes pra novamente os guinchos pegarem. E ai nós vai
catar (Entrevistada 3).
(002) Bituca é o seguinte: É quando o caminhão de cana está
carregado pra transportar essa cana do campo até a usina... Aquelas
canas que vão caindo de cima do caminhão recebem o apelido de
bituca, então essas mulheres vão fazendo a limpeza das rodovias
pavimentadas e estradas de terra (Entrevistado 02 - Presidente do
Sindicato B).
A divisão do trabalho, em termos de gênero, no âmbito da atividade de corte da canade-açúcar, encontra-se evidenciada no fragmento discursivo exposto a seguir:
(003) Sim, no corte de cana são mais homens, no passado a usina
contava com muitas mulheres [...] hoje é muito pouco as mulheres
[...] , mas a maioria é na profissão chamada de bituqueira que são as
mulheres que catam os restos de canas que caem do caminhão, onde
as mulheres catam as canas e fazem aqueles montinhos pra a
carregadeira vim e pegar novamente, e isso é feito se não o prejuízo é
muito grande (Entrevistado 01 - Presidente do Sindicato A).
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A seleção lexical do fragmento discursivo (003) explicitamente associa a figura da
mulher à ocupação de bituqueira na atividade do corte de cana-de-açúcar na microrregião de
Ituiutaba-MG. Tal realidade pode ser comprovada pela clara demarcação, feita pelo
enunciador, entre a ocupação de corte de cana, predominante masculina ("sim, no corte de
cana são mais homens"), e a ocupação de bituqueira, predominantemente feminina ("mas a
maioria é na profissão chamada de bituqueira que são mulheres"). Nota-se, no entanto, ainda a
partir do fragmento, que a presença das mulheres no âmbito da usina já foi maior (inclusive
no corte da cana) e que, no decurso do tempo, houve uma diminuição no efetivo da mão-deobra feminina, com uma clara concentração na atividade da "bituca". Este corte temporal pode
ser observado na seleção lexical do fragmento discursivo (003), onde o enunciador nos mostra
que "no passado, a usina contava com muitas mulheres [...] hoje é muito pouco as mulheres".
Realidade semelhante, ainda, pode ser observada no fragmento discursivo a seguir:
(004) No corte de cana é bem pouco, são poucas. Agora, as mulheres
se concentram mais no serviço da bituca (Entrevistado 02 - Presidente
do Sindicato B).
De acordo com o enunciador do fragmento discursivo (004), a presença feminina na
atividade do corte de cana é bem restrita ("no corte de cana é bem pouco, são poucas").
Convêm notar, neste sentido, o uso, por parte do enunciador, do recurso da repetição ("é bem
pouco, são poucas") como forma de reforçar tal discurso e nos remeter à figura implícita e
predominante do homem no âmbito de tal atividade. Há, ainda, a ideia de que, na atualidade
("agora"), as mulheres estariam mais concentradas na ocupação de bituqueiras ("agora, as
mulheres se concentram mais no serviço da bituca"):
(005) Mais mulheres. Só que sempre, quando assim, não tem o corte
de cana, eles colocam as mulher mais os homem junto, entendeu?
Porque vamos supor, talvez o nosso serviço tá atrasado... aí eles
coloca junto. Mas é, é raramente eles fazem isso. É só se, se tiver
muito atrasado e eles precisar daquele... do... do chão (Entrevistada
16).
(006) Só mulher... Acontece é igual eu to te falando né, de colocar a
turma dos homem cortando cana pra ajudar as mulher porque tá
atrasado o serviço delas, mas... tem homem bituqueiro não
(Entrevistada 16).
O discurso apresentado nos fragmentos discursivos (005) e (006) reforçam a
concepção da divisão do trabalho baseada em gênero e a posição de dominação do homem no
contexto dessa divisão. Adicionalmente, o uso de mão-de-obra masculina no âmbito desta
atividade somente ocorre em situações de atraso na produção ou de necessidade do uso do
solo por parte da usina ("Porque vamos supor, talvez o nosso serviço tá atrasado... aí eles
coloca junto. Mas é, é raramente eles fazem isso. É só se, se tiver muito atrasado e eles
precisar daquele... do... do chão"). Há que se destacar, no entanto, que, embora haja
participação masculina na atividade da "bituca" em situações específicas, a mesma parece não
perder seu caráter predominante feminino. Conforme pode ser visto na seleção lexical do
fragmento discursivo (006), o enunciador parece reforçar claramente esta posição ao admitir
que "só mulheres" trabalham nesta atividade e que não "tem homem bituqueiro não".
Quanto ao perfil das mulheres alocadas neste tipo de atividade, há que se destacar,
inicialmente, sua distribuição etária:
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(007) Tem de tudo... do mamando ao caducando. Tem mulher lá, pra
te falar à verdade, que tem 60 anos, 60 e poucos anos, que trabalham e
tem mulheres mais novas do que eu com de 19 anos que está lá
(Entrevistada 5).
Conforme pode ser visto na seleção lexical do fragmento discursivo (007), parece
haver uma grande variedade etária que contempla desde mulheres mais novas ("e tem
mulheres mais novas do que eu com de 19 anos que está lá") até mais velhas ("tem 60 anos,
60 e poucos anos"). Tal diversidade é reforçada, ainda, pelo uso dos termos "tem de tudo" e
"do mamando ao caducando". Este último, em especial, parece retratar, de maneira simbólica,
a passagem do tempo da mulher, demarcando os "estágios" inicial (a amamentação no colo da
mãe) e final da vida (a velhice). Embora haja esta diversidade, parece haver uma preferência,
por parte da usina, na contratação de mulheres mais velhas:
(008) [...] mas geralmente é pessoas mais velhas, por que já é
costumado a dar a oportunidade pra aquelas que já são acostumado a
trabalhar, mais sempre é mais velha (Entrevistada 3).
(009) Eu acho que a mulher mais velha tem mais experiência, tem
mais responsabilidade, eu acho que é isso (Entrevistada 16).
Conforme pode ser visto nos fragmentos discursivos (008) e (009), a opção, por parte
da usina, na contratação de mulheres mais velhas, pode estar relacionada ao fato de que estas
possuem mais experiência profissional que as mais novas e teriam, assim, mais
responsabilidade no desempenho de suas tarefas.
Quanto à origem geográfica das mulheres que trabalham neste tipo de atividade,
podemos observar, através dos fragmentos (010) e (011), que as mesma são, quase sempre,
oriundas do nordeste brasileiro. Nota-se tal realidade, através das figuras explícitas presentes
no fragmento (010): "piauiense" e "baiana".
(010) [...] a maioria dessas mulheres que trabalham na usina é
piauiense, é baiana, é difícil ter uma mineira que trabalha lá na usina
(Entrevistada 06).
(011) [...] por que a maioria que trabalha com nos tudo é de fora, é
quase tudo de lá, por que as mulheres daqui não tem coragem de
enfrentar o que nós enfrenta na bituca, as mineiras não tem.
(Entrevistada 06)
Em relação ao estado civil das mulheres alocadas neste tipo de atividade, parece haver
uma preferência, por parte da usina, na contratação de mulheres solteiras, conforme pode ser
observado a seguir:
(012) Aí o que que acontece, a maioria deles agora tão pegando
mulher solteira, eles não quer a mulher casada. [...] Eles já pergunta,
na hora que cê vai fazer a entrevista lá, eles já pergunta: "você é
solteira ou cê é casada?", "Seu marido trabalha no mesmo lugar que
você vai trabalhar?", "Qual que é a profissão do seu marido?", sempre
eles perguntam isso aí (Entrevistada 16).
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Conforme pode ser visto na seleção lexical do fragmento discursivo (012), há a figura
implícita da usina (instrumentalizada pela utilização do pronome "eles"), que nega a entrada
da mulher casada ("eles não quer a mulher casada") e permite a inserção da mulher solteira
("agora tão pegando mulher solteira") neste tipo de atividade. Tal critério de seleção é
instrumentalizado no processo seletivo, como pode ser visto no fragmento (012) por
perguntas específicas que tentam elucidar o estado civil da candidata ("você é solteira ou cê é
casada?", "Seu marido trabalha no mesmo lugar que você vai trabalhar?", "Qual que é a
profissão do seu marido?"). Convêm destacar, ainda, que tal prática parece ser recorrente nos
processos de recrutamento e seleção das usinas, uma vez que, ao final do fragmento, o
enunciador reforça tal realidade ao afirmar que "sempre eles perguntam isso aí".
No que diz respeito a razão pela qual a usina opta pelo trabalho de mulheres na
atividade da "bituca", alguns pontos importantes devem ser destacados:
(013) por que não sei, mais como se diz mulher aguenta tudo, né?
Hoje em dia, se um pessoal, uma de nós fala que vai fazer greve, eles
até brinca com a cara da gente. Agora, se um cortador falar que vai
fazer greve e não faz nada por que o cortador até tira podão para eles,
é como se diz, nós faz que nem cachorrinho: abaixa a cabeça e coloca
o rabo entre as pernas e fica calado e aceita tudo que eles falam (risos)
(Entrevistada 5).
O primeiro ponto, destacado no fragmento discursivo (013), é o de que a mão-de-obra
feminina aceitaria, de maneira mais passiva, as condições impostas pela natureza da função
(calor excessivo, desgaste físico, periculosidade, entre outros) e pela direção da empresa. Tal
realidade pode ser comprovada ao observarmos a seleção lexical do fragmento discursivo
(013) que relaciona a figura da mulher com a de um cachorro ("nós (mulheres) faz que nem
cachorrinho: abaixa a cabeça e coloca o rabo entre as pernas e fica calado e aceita tudo que
eles falam"). Convêm destacar o uso do diminutivo, por parte do enunciador, para caracterizar
o cachorro (associado a figura feminina). Em certo sentido, a mulher estaria sendo relacionada
a um tipo específico de cachorro ("cachorrinho") que não, necessariamente, seria aquele
animal "bravo", "aguerrido", mas sim a um tipo de animal "domesticado" e “submisso”, muito
presente no espaço doméstico e que aceita o mando do dono.
Tal realidade leva o enunciador do fragmento discursivo (014) a afirmar que, embora
seja um "serviço sofrido", a dura realidade somente poderia ser enfrentada por mulheres, uma
vez que somente elas aguentariam tudo.
(014) [...] por que é um serviço mais sofrido né, por que mulher
aguenta tudo. Que homem quando são colocados pra bituca eles
catavam duas cana aqui e duas cana ali, e também demais. E nós esta
lá ralando... E aí eles batem o pé e falam que não vai, e não há chefes
que fazem eles irem (Entrevistada 06).
Conforme pode ser visto no fragmento discursivo (014), o "aguentar tudo" não estaria
relacionado, somente, a dificuldade prática do exercício da atividade (condições insalubres e
perigosas, por exemplo), mas, também, a maior sujeição da mulher ao mando da empresa. Tal
fato pode ser comprovado, ainda de acordo com o fragmento (014), pela resistência imposta
pelos homens que são alocados, provisoriamente, nesta atividade. Segundo o enunciador, os
homens, quando colocados na "bituca", utilizam-se de estratégias de redução do ritmo de
trabalho ("que homem quando são colocados para bituca, eles catavam duas canas aqui e duas
11
cana ali") e confronto com a chefia imediata ("e ai eles batem o pé e falam que não vai, e não
há chefes que fazem eles irem"). Além disto, podemos observar tal prática de resistência e
enfrentamento por parte dos homens (cortadores), retomando a seleção lexical do fragmento
discursivo (013), na medida em que o enunciador afirma que os chefes não fazem nada "por
que o cortador até tira o podão para eles".
É interessante destacar, neste ponto, a próxima associação entre o "podão"
(instrumento pontiagudo utilizado no corte da cana) e, por que não dizer, da própria cana,
como elementos simbólicos do universo masculino presentes no âmbito da usina. Caberia ao
homem, nesta lógica, utilizar-se de seu instrumento (podão) e de sua força física (elemento
culturalmente relacionado ao universo masculino) para cortar a cana (elemento de natureza
até certo ponto masculino) que emerge do solo (fértil e associado ao feminino). Neste sentido,
não é estranho o fato de que o "cortador", com seu instrumento de trabalho, não aceite uma
atividade de natureza essencialmente feminina (bituqueira).
À mulher, predominantemente presente na atividade da "bituca", restaria o "abaixar e
catar" os restos da cana cortada (bitucas), como um ritual de sujeição e submissão ao universo
masculino. O "abaixar", neste sentido, possuiria uma forte simbologia de submissão/sujeição
ao trabalho anterior feito pelo homem (corte) e a colocaria numa posição desprivilegiada no
espaço do trabalho (reflexo de sua posição na sociedade). Além disto, o "catar" os restos da
cana cortada poderia estar, também, simbolicamente, relacionado ao papel de dependência
econômica que a mulher teria em relação ao marido em nossa sociedade. Em outra
perspectiva, a atividade de "catar" a cana que sobra poderia ser entendida, também, como uma
prática de "limpeza" do local de trabalho (limpeza da casa). Por fim, é simbólico, ainda, a
utilização, no fragmento discursivo (013) da expressão "colocar o rabo entre as pernas".
Diferentemente do homem (cortador), que levanta o seu podão e enfrenta o mando da chefia,
a mulher (bituqueira) colocaria "o rabo entre as pernas", numa possível alusão à submissão e
aceitação do mando masculino.
Há que se caracterizar, neste ponto, a natureza "rude" e "sofrida" do trabalho
desempenhado por estas mulheres no exercício de suas atividades. Em um primeiro momento,
convêm destacar a longa jornada de trabalho cumprida pelas mesmas, que se estende desde as
4:20h da manhã até a noite, onde são executadas tarefas domésticas como lavar, passar,
cozinhar e arrumar a casa. Tal realidade pode ser comprovada no fragmento discursivo (015)
que apresentam uma tripla jornada de trabalho executada por estas mulheres.
(015) [...] eu acordo 4:20h da manhã, arrumo comida pra mim e pro
meu marido. Aí 5:00, 5:20 eu tô no ponto pro ônibus passar e me
pegar. E 7 horas mais ou menos começa a atividade. [...] E aí vai de 7
ate as 3. [...] tem uma hora de almoço [...] nós vem todas suja pra casa
né [...] aí eu pego e arrumo a minha casa primeiro, aí depois que eu
vou tomar banho (Entrevistada 06).
O exercício da atividade de bituqueira, que se estende das 7 da manhã até às 3 da
tarde, é, ainda, caracterizado pela forte exposição ao calor do sol (016: “o dia todo tomando
um sol desse [...] é difícil – Entrevistada 5), pela dor física proporcionada pelas longas
caminhadas e pelo contínuo movimento de abaixar e levantar (017: “é muita dor no corpo na
coluna, dor nas pernas...” – Entrevistada 5), pela exposição a poeira (018: “é você atrás [do
caminhão] pegando [...] muita poeira e o pó da cana é ruim” – Entrevistada 06) e a produtos
de natureza químico-biológico (019: “no primeiro ano que eu entrei [...], por causa da vinhaça
né, eu vomitava verdim, eu ficava tontinha...” – Entrevistada 10), pela periculosidade de
exposição a animais peçonhentos (020: “porque tem cobra, aranha, assim, os bicho
peçonhento né?” – Entrevistada 13), pela precariedade das instalações sanitárias (021: “lá tem
12
os banheiros. Mas a gente fica sem jeito de entrar no banheiro do ônibus, de entrar na
barraquinha montada...” – Entrevistada 5), bem como pela ausência de locais para esquentar a
comida (022: “Come frio [...]. Se tiver a marmita que compra pra levar aqui, a gente leva e
come quente [...]. Se não tiver, come frio – Entrevistada 5).
Convêm destacar que a precariedade e o sofrimento vivenciado no escopo desta
atividade é compartilhado, também, por mulheres gestantes (mesmo em seus últimos meses
de gestação), conforme pode ser observado nos fragmentos discursivos a seguir:
(023) [...] sim, trabalhei grávida. Tive cinco ameaças de perder a
minha menina, por causa do serviço né? Porque era aquele agacha e
levanta... (Entrevistada 5).
(024) Mas o que tem mais lá na roça, você pode observar que tem
muié com depressão [...] Por conta que, às vezes, assim, tá brigando
em casa, chega na roça, recebe uma crítica duma mulher, recebe uma
crítica de um fiscal, recebe uma crítica de um e de outro e assim vai
juntando tudo... Você pode olhar que teve muitas aí que afastou o ano
passado, esse ano já afastou por conta da depressão, entendeu? Por
conta, eu acho, que do stress mesmo né, então vai juntando aquilo
tudo e o que provoca mais (Entrevistada 10).
É importante destacar que a atividade das bituqueiras infringe sérias consequências
físicas e psicológicas para a mulher trabalhadora, como a depressão (fragmento 024) e as
ameaças de perda de crianças em mulheres gestantes (fragmento 023). Tal realidade parece
influenciar, sobremaneira, a representação que a mulher trabalhadora tem sobre si mesma e
sobre seu papel na sociedade:
(025) [...] Tudo é mais fácil pra homem, não é? Homem não faz nada
dentro casa né [...] chega, deita na rede [...] meu marido é assim [...]
ele chega e deita e fica de boa [...] no sábado ele não trabalha e fica só
deitado, quer comer alguma coisa e fala nega trás aí, ou nega vai fazer
o almoço agora, né? Tem hora que eu tenho vontade de nascer
homem, e parecer homem e homem ganha mais, pra você ver o
homem fica montado em cima de uma carregadeira e ganha 1500, mil
e pouco por mês. A gente trabalha o dia inteiro andando em pé e
ganha menos. Tudo para homem é mais fácil, né gente? Eles choram
de barriga cheia. Eu falo que tem hora que eu tinha que ter nascido
homem, homem não faz nada, homem é tranquilo (Entrevistada 3).
(026) [...] É difícil ser mulher. [...] Fora que mulher sofre demais, né?
Homem não sofre igual a mulher sofre, Deus me livre, por exemplo
igual a [...] já apanhou demais de homem, porque enfrentar um
homem nunca que uma mulher tem mais força que um homem, não
mulher sofre muito (Entrevistada 13).
Conforme pode ser observado nos fragmentos discursivos (025) e (026), há uma clara
associação entre os termos fácil/homem e difícil/mulher. Além disso, há uma relação da
mulher como um ser que, essencialmente, sofre (inclusive violência física) e trabalha
(inclusive no espaço doméstico), enquanto que, para o homem, a realidade parece ser mais de
um ser que violenta e descansa ("ele chega e deita e fica de boa"). Esta visão negativa da vida
13
feminina é, ainda, reforçada pela representação que a comunidade tem acerca da mulher
alocada neste tipo de atividade:
(027) Aqui na cidade, [...] a mulher que trabalha na bituqueira [...] tem
fama de mulher que não presta [...] a fama é de mulher que não presta.
É de palavreado, é de puta. O termo de palavra é desse jeito por causa
de uma ou outra. Ai todas leva (Entrevistada 5).
(028) [...] o povo ficava falando. Não, porque vai entrar na bituca, a
mulher vai ficar sem vergonha, a mulher vai ficar... a mulher vai virar
a cabeça, não precisava nem falar... na boca dos outros aqui na cidade,
mulher que trabalha na roça não presta né? (Entrevistada 10).
(029) [...] não, a gente ouve na rua mesmo. Muitas piadinhas, igual a
mim te falo a mulher aqui vizinha aqui ela fala que tem muita vontade
mais o marido fala que bituca não é lugar para mulher casada não, fala
desse jeito. Isso é por causa de muitas conversinhas, ou uma ou outra
dá muita moral pra chefe ai já sai aqui na cidade e a cidade é pequena
e ai sai fulano esta saindo com cicrano lá na usina lá, e ai como já se
diz as piadinhas começa (Entrevistada 5).
(030) [...] quase morreu por conta, porque não queria que ninguém
soubesse que ela trabalhava na roça, porque ela era bituqueira. Tem
muitas que a gente encontra na rua, hoje em dia é muita, mas assim do
ano passado, ano retrasado muitas, quando via você no supermercado
você não podia nem falar que era bituqueira. [...] Tem muitas mulher
que tem preconceito, que trabalha lá e esconde que trabalha em muitos
outros lugar né, que esconde que trabalha lá porque tem vergonha. [...]
E muita gente também olha assim, as vezes, você ta no serviço, ta em
algum lugar, não é porque eu trabalho em tal lugar, ai já fica meio
assim, entendeu (Entrevistada 10).
Conforme pode ser visto nos fragmentos discursivos apresentados acima, parece haver
uma clara discriminação da mulher alocada neste tipo de atividade. A bituqueira, nos trechos
escolhidos, é associada às expressões "mulher que não presta" (028) e "puta" (027), que
possuem caráter essencialmente negativo em nossa sociedade. Tal representação da
comunidade parece ser disseminada, conforme pode ser visto nos fragmentos (029) e (030),
através de vias informais (conversas nas ruas e piadinhas), revelando assim uma certa
intenção de ocultação de sua profissão e, até mesmo, de negação perante a outras pessoas.
Neste sentido, parece haver, portanto, uma representação de uma mulher que, a todo
momento, se vê marginalizada e discriminada, seja em sua atividade profissional, seja em sua
casa e no âmbito de sua família, seja perante à sociedade como um todo, embora não
abandone essa representação, resignificando sua atuação e modificando sua postura de
resignação.
6. Considerações Finais
O objetivo deste trabalho consistiu em analisar as representações sociais do trabalho
feminino na atividade de corte de cana-de-açúcar, com destaque para o trabalho
desempenhado pelas “bituqueiras” da região de Ituiutaba, Minas Gerais. Para tanto, foram
14
estudadas, por meio de pesquisa qualitativa fundamentada na técnica de análise do discurso,
representantes sindicais e trabalhadoras rurais do setor sucroalcooleiro que atuam na cidade
de Ituiutaba, situada na região do Triângulo Mineiro, Minas Gerais.
A análise do material empírico coletado permitiu identificar e compreender a atuação e
as estratégias de sobrevivência das “bituqueiras” inseridas no contexto da atividade de
colheita da cana-de-açúcar na região do Triângulo Mineiro. Foi possível observar, ao resgatarse a origem dessas trabalhadoras, que muitas delas são migrantes provenientes de regiões
pobres do Nordeste brasileiro e do Norte de Minas Gerais. Ao abandonar suas origens
familiares, culturais e regionais, muitas vezes acompanhando seus maridos em busca de
melhores condições salariais e de vida, essas mulheres se sujeitam a uma atividade fortemente
marcada pelo esforço físico, pela insalubridade (calor excessivo, por exemplo), pela
periculosidade (acidentes de trabalho e riscos à saúde da trabalhadora), e pela precariedade
(baixa qualidade de transporte, alimentação e higiene no ambiente de trabalho), enfrentando
desafios e incorporando uma posição marginalizada em um universo claramente definido
como masculino.
Este contexto permite concluir que a atividade de corte da cana-de-açúcar marca a
subjetividade da trabalhadora feminina a partir de uma forte ideologia de “trabalho árduo e
marginalizado”. O trabalho como “bituqueira” estrutura-se, para essas mulheres, como única
alternativa possível de subsistência e de inserção profissional. Tal condição, por sua vez, leva
estas trabalhadoras a uma situação de extremo desgaste físico e emocional, que antecipa sua
vida laboral e impacta negativamente sobre sua vida enquanto mulher, dona de casa, mãe e
trabalhadora. Configuram-se, assim, representações sociais do trabalho feminino vinculado à
atuação das “bituqueiras” na atividade da colheita da cana, que envolvem desde aspectos
objetivos, como as condições de trabalho (tais como elementos associados à saúde, higiene e
segurança no trabalho), a aspectos subjetivos, como as relações de trabalho e a (re)produção e
(re)significação da condição marginalizada da mulher trabalhadora inserida nesse contexto
precarizante.
Os resultados aqui apresentados são limitados aos relatos das “bituqueiras” da região
do Triângulo Mineiro, não sendo possível, a partir desta pesquisa, inferir sobre a realidade
vivenciada em outros espaços de cultivo da cana-de-açúcar no Brasil, especialmente na região
de origem destas trabalhadoras (Nordeste). Sugere-se, assim, que outras pesquisas busquem
explorar comparações entre as diferentes realidades práticas e representacionais vivenciadas
por trabalhadoras rurais da atividade de corte de cana nas mais variadas regiões brasileiras,
bem como comparações com mulheres inseridas em outras atividades profissionais. Por fim,
espera-se que, com este trabalho, todo um universo "invisível" e "precarizado", "lar" de um
enorme contingente de trabalhadoras marginalizadas em um contexto de dominação
masculina, passe a ser objeto de reflexão por parte da academia, possibilitando a geração de
estudos e pesquisas que busquem problematizar essa realidade.
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“Penduradas no tempo...”: Representações Sociais do