Trabalho feminino na agricultura familiar do Alto Jequitinhonha, Minas Gerais Flávia Maria Galizoni1 Eduardo Magalhães Ribeiro2 Resumo: O objetivo deste artigo é contribuir para uma maior compreensão da realidade feminina na agricultura familiar. Partindo das relações de trabalho na família rural em uma região de predominância de unidades familiares - o Alto Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais busca dimensionar a importância da participação feminina nas atividade produtivas, e analisar a representação do trabalho feminino para os membros da família em uma situação de forte migração sazonal masculina. Conclui indicando que a mulher em sua jornada de trabalho faz a junção de atividades domésticas e produtivas, e que a migração sazonal masculina apesar de implicar em algumas reorganizações da divisão familiar do trabalho, não significam necessariamente em uma reorganização das relações de poder entre homens e mulheres. Palavras-chaves: Trabalho feminino, agricultura familiar, relações de gênero. Introdução A mulher desde há muito trabalha na agricultura, entretanto sua identidade é definida, principalmente, por suas atividades na esfera doméstica e não consideradas trabalho. Essa situação tem resultado na invisibilidade do trabalho feminino, no não reconhecimento da trabalhadora rural, dificultando o seu acesso aos direitos previstos em lei, excluindo-as das políticas de desenvolvimento. Artigo de Pisa e Ribeiro (1999), analisando a ocupação feminina na agricultura de Minas Gerais, demonstrou que a participação das mulheres no total do pessoal ocupado na agropecuária mineira cresceu, pulando de 24,51% em 1985 para 26,16% em 1996. Os autores indicam que este fenômeno ocorreu em todos os grupos de áreas até 1.000 hectares, sendo que os estabelecimentos de até 50 hectares ocupavam 67,73% das mulheres que trabalham na agricultura. Se o foco de observação mudar para os estabelecimentos de até 100 hectares, encontra-se então 79,51% do total de mulheres que trabalham na agricultura mineira. Em 1996 representavam 11,06% no total dos trabalhadores temporários na agricultura mineira e, foram encontradas, surpreendentemente, até em setores considerados de preponderância masculina como a pecuária. Combinando estes dados com outras tendências globais da agropecuária mineira - que indicam uma maior permanência da ocupação de pessoal nos estabelecimentos explorados com mão-de-obra familiar (Ribeiro, 1999) - observa-se que dentro deste segmento vem aumentando a importância do trabalho feminino. Mas quais são os aspectos sociais, culturais e políticos que se depreendem destes fenômenos? Como estes dados e números se refletem na participação das mulheres no trabalho rural? Que tipos de conflito estariam colocados nas relações familiares? 1 Antropóloga, IFCH/UNICAMP, bolsista CNPq. E-mail: [email protected] . Caixa Postal 151, Lavras, MG, CEP: 37200-000. 2 Economista, professor da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais, pesquisador CNPq. E-mail: [email protected] DAE/UFLA, Caixa Postal 37, Lavras, MG, CEP: 37200-000. 1 Que impacto poderia ter sobre as representações construídas sobre o que é próprio do homem e da mulher? Foram estas questões que nortearam um estudo de caso realizado numa região de agricultura familiar em Minas Gerais. O objetivo deste artigo é dimensionar a importância da participação feminina nas atividade produtivas em uma região de predominância de unidades familiares – o Alto Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais – e analisar a representação do trabalho feminino para os membros da família em uma situação de forte migração sazonal masculina. É fruto de pesquisa de campo realizada nesta região no período entre janeiro e setembro de 1999, em duas etapas. A primeira, exploratória, quando foram realizados contatos e entrevistas com os Sindicatos de Trabalhadores Rurais dos municípios, entidades civis e associações, as Igrejas Batista e Católica e movimentos sociais da região. Nessa etapa, foram levantados, definidos e confirmados os locais do estudo de campo. A segunda etapa compreendeu umaa etnografia propriamente dita. Foi realizada, buscando uma observação participante3, com estada prolongada em três comunidades diferente, escolhidas mediante os seguintes critérios: distribuição nas calhas do Jequitinhonha e seus principais afluentes, período histórico de ocupação, diversidade ambiental, densidade demográfica, migrações e disponibilidade de terras. O artigo é composto por três partes: a primeira faz uma pequena revisão bibliográfica sobre trabalho feminino na agricultura; a segunda discorre sobre o Alto Jequitinhonha e o sistema de lavoura das famílias agricultoras,; e a última, analisa o trabalho feminino e seus espaços na agricultura familiar do alto Jequitinhonha, Agricultura familiar e o espaço do trabalho feminino Nos vários estudos sobre trabalho na sociedade rural e agricultura familiar principal sujeito de análise é a família rural. Isto porque um dos poucos traços de consenso na sua definição teórica, é o uso muito próprio que ela faz da mão-de-obra da família no trabalho agrícola e a sua flexibilidade ao combiná-la com recursos ao seu dispor (Lamarche, 1993). O total de trabalho de uma família é, quase sempre, a soma de várias jornadas de trabalho: masculino, feminino, infantil e de idosos. Desta forma, não é explicativo do ponto de vista da organização do trabalho, centrar a questão somente na figura masculina, é necessário entender a combinação de jornadas de trabalho de todos os membros da família: mulheres, jovens, idosos, para poder avaliar o produto final. Outro aspecto que especifica a agricultura familiar é que a família é ao mesmo tempo unidade de produção e consumo (Chayanov, 1974); e este fato é importante para podermos entender o significado do trabalho feminino na família de agricultores. Heredia (1979), pesquisando agricultores da zona da Mata pernambucana, observou que todos os membros da família desenvolviam alguma espécie de atividade agrícola, porém os agricultores quase sempre afirmavam que mulheres e crianças não trabalhavam. Debruçando-se sobre esta aparente contradição a autora se depara então com a necessidade de definir a própria concepção de trabalho; percebe que não são todas as atividades que são qualificadas pelas famílias como trabalho, são somente aquelas desenvolvidas no roçado as que recebem esta qualificação. Isto porque o roçado, espaço de domínio masculino, é o local da produção de bens essenciais para o consumo familiar; a casa, espaço de domínio feminino, é o local onde é organizado a distribuição dos produtos do roçado para uso da família; apesar do reconhecimento do esforço físico necessário para desempenha-las as atividades domésticas não são consideradas trabalho. Isto porque, na concepção dos agricultores, elas só são possíveis por causa do trabalho anterior no 3 Sobre método de observação participante ver Malinowski (1978) 2 roçado. O consumo é subordinado à produção. Em consequência desta hierarquia, considera-se trabalho as atividades desenvolvidas na esfera produtiva, já as múltiplas tarefas desenvolvidas no espaço do consumo da família não são consideradas trabalho. Heredia (1979) conclui então, que há oposição entre roçado e casa, que define o que é considerado trabalho e não-trabalho, delimitando os espaços e papéis masculinos e femininos; mesmo quando as mulheres desempenham atividades produtivas no roçado, seu trabalho é avaliado como "ajuda" ao trabalho do homem. Garcia Jr. (1993) aponta que a tarefa de plantar desempenhada pelas mulheres no roçado, é considerada trabalho se comparada com suas atividades domésticas, porém, se comparada com as atividades masculinas no roçado, plantar não é considerado trabalho. Neste sentido a qualificação do trabalho feminino é relacional, recebendo, muitas vezes, uma dupla avaliação. O significado de “ajuda” para o trabalho feminino também foi encontrado por Paulilo (1987) em comunidades rurais do Brejo Paraibano. Em seu estudo sobre trabalho e relação de gênero na agricultura nesta região, revela que o trabalho é qualificado e remunerado a partir de quem o desempenha: “leve” se forem mulheres ou crianças, “pesado” se forem homens. E esta qualificação pouco tem a ver com as características da atividade desenvolvida, um pode ser tão árduo e cansativo quanto o outro. Assim a diferença se expressa muito mais no campo da representação simbólica do que no esforço desprendido e na tarefa desenvolvida. Ribeiro (1993) pesquisando famílias agricultoras na zona da Mata mineira, também chegou a uma conclusão parecida, de acordo com ele, os homens constróem uma parte de seu poder no trabalho. As tarefas masculinas possuem maior continuidade, podendo ser expressa num produto final - construir uma cerca ou roçar um pasto por exemplo - e quase sempre, possuem equivalente monetário; já as atividades designadas como femininas são compostas de uma série de tarefas descontínuas: fazer comida, limpar a casa, cuidar das criações pequenas, lavar roupa etc, gastando uma grande quantidade de esforços esparramados, que têm pouco equivalente em dinheiro. Woortmann (1992) chama a atenção para um fato importante nos estudos sobre trabalho feminino na agricultura, indicando que, talvez, haja mais um problema na formulação de questões de pesquisa: o(a) pesquisador(a) reproduz um “discurso público” do grupo pesquisado que privilegia o domínio masculino, deixando à margem o “discurso privado” onde o domínio masculino interage com o domínio feminino estabelecendo relações de gênero e, às vezes, complementariedade entre os gêneros 4. Esta hierarquia simbólica na construção de gênero e na representação do trabalho feminino e masculino no mundo do trabalho rural, se expressam também nas construções de dados sobre este universo. Aguiar (1984) indica a dificuldade estatística de captar a participação do trabalho feminino na agricultura. Segundo esta autora, há um vácuo de teorias que concebam o trabalho feminino realizado no espaço doméstico como atividade produtiva. O conceito de chefe de domicílio esconde e dilui as atividades femininas. Os vários autores acima indicam que divisão social e sexual do trabalho está na raiz dos processos de diferenciação de gênero nas famílias de agricultores. Assim, cabe entender as relações de trabalho tanto no que diz respeito ao espaço interno da família - para assim compreender o papel da mulher e o do homem - quanto compreender o significado que mulheres, 4 A autora afirma que: " O próprio discurso acadêmico, pois, relega ao silêncio o ponto de vista feminino, mesmo quando as atividades das mulheres são cruciais para a reprodução social do grupo com um todo" (Woortmann, 1992: 42). 3 homens e a sociedade envolvente atribuem ao que é trabalho e a relação de poder que constróem a partir desta definição. Sistema de lavoura e trabalho familiar no Alto Jequitinhonha A calha alta do rio Jequitinhonha5, localizada no nordeste de Minas Gerais, é caracterizada por predominância de unidades familiares na agricultura, posse da terra pulverizada, baixo dinamismo econômico, alta taxa de migração tanto sazonal, quanto definitiva, e agricultura extrativista baseada em um sistema de pousio. A posse da terra nesta região é muito pulverizada, indicando processo intenso de divisão fundiária. A principal forma de se adquirir terra, é através de herança, própria ou do cônjuge. Ou ainda através da junção das duas. Assim, o dono da terra é antes de tudo um herdeiro, e a terra é principalmente um patrimônio formado pela família. O alto Jequitinhonha possui, um relevo marcado por espaços distintos, mas, ao mesmo tempo, complementares: grotas e chapadas. As grotas são vãos de córregos, as meias encostas, vales de áreas úmidas e frescas próximas às nascentes. É na grota que os lavradores localizam boa parte de sua unidade de produção: casas e quintais, roças e pastagem. A contraposição às grotas são as chapadas, espigões: grandes extensões de terras planas e elevadas, naturalmente pouco férteis, com escassas fontes de água. As chapadas não foram ocupadas com moradias; normalmente são utilizadas para extração ou pastoreio comunitário. Há uma disposição dessas gradações do relevo, compondo um complexo e uma totalidade - chapadas caracterizadas por planaltos, grotas pelas encostas dos vales. Essas sucessões do relevo fazem-se acompanhar de uma variedade de vegetação. As várias zonas ecológicas e variações ambientais que chapadas e grotas apresentam são - segundo os lavradores - intimamente relacionadas às distribuições desiguais de fertilidade da terra necessária para fazer lavoura. Partindo deste critério, lavradores construíram formas de identificar o grau de fertilidade utilizando principalmente a observação da vegetação, das comunidades de plantas e conjunto de árvores predominantes. Os matizes da vegetação indicam ambientes diferentes, e cada zona ecológica distinta indica potencialidades de usos específicos: lavouras de mantimento (milho, feijão, amendoim, abóbora, cana-de-açúcar, quiabo etc), mandiocal, extração e pastagem para as criações. A disposição do recurso fertilidade coloca para as famílias de lavradores um problema fundamental, que diz respeito ao estoque de terras disponíveis para a lavoura: as roças são feitas em sua maioria nas terras de cultura, mas esta é escassa. A forma pela qual as famílias resolveram esta questão foi conhecer, discriminar e usar; construíram comunitariamente técnicas de classificação intrinsecamente ligadas ao uso. Criadas a partir da escassez de um recurso - terra de cultura - são sistemas de produção maiores que uma resposta à escassez; são sistemas que incluem toda uma ordenação do ambiente (Galizoni,2000). Como o ambiente é desigual, os lavradores têm que pensar em estratégias diversificadas para sua produção. As famílias necessitam sempre de áreas com vegetação e cobertura vegetal para iniciar um novo ciclo de plantio, por isso é necessário deixar áreas de lavoura enfaxinar por um período, descansar as terras do plantio para criar vegetação e, através deste processo, recuperar parcialmente sua fertilidade. Tal qual um tabuleiro de xadrez assimétrico, o espaço nas 5 A área designada neste artigo por alto Jequitinhonha, corresponde à parte do vale acima da foz do rio Araçuaí e do rio Itacambiruçu, refere-se mais precisamente aos municípios de Turmalina, Chapada do Norte, Berilo, Minas Novas, José Gonçalves de Minas, Leme do Prado, Botumirim, Cristália e Grão Mogol. 4 comunidades rurais do alto Jequitinhonha é esquadrinhado, alternando mato e roça, lavoura, criação e extração. Para realizar a roça as famílias precisam antever e combinar quantidade de mão-de-obra disponível, com qualidade e declividade dos terrenos que possuem, disposição do ambiente e pauta alimentar que precisam minimamente alcançar para sua alimentação. A roça é sempre a conclusão de uma cadeia de operações que envolvem terra, ambiente, família, trabalho, conhecimento, técnica e muitas contas. A lavoura é concretizada através da soma de várias jornadas de trabalho que envolvem todo o grupo familiar: homens, mulheres, crianças e idosos. No alto Jequitinhonha a roça não é uma atividade exclusivamente masculina, a mulher participa de quase todas suas etapas. Para compreendermos a participação do trabalho feminino na lavoura da família é preciso compreender os trabalhos necessários para formar as roças. Toda lavoura familiar começa com a escolha do terreno, e para escolhê-lo leva-se em conta a disponibilidade de terra, a cobertura vegetal, a declividade, a exposição ao sol e, principalmente, o que se pretende plantar. Selecionado o terreno, o próximo passo é derrubar ou roçar as árvores do local, utilizando-se, para este trabalho, machado ou foice - dependendo da dimensão da vegetação. Cortam-se as árvores bem próximo do solo, deixando somente os tocos do tronco. Vem daí um dos nomes pelo qual os lavradores denominam a lavoura: roça de toco. As galharias em bandeiras de lenha são denominadas coivara, sendo este o outro nome pelo qual a lavoura é designada: roça de coivara. Feitas as coivaras, inicia-se a próxima etapa: colocar fogo. O fogo não é posto de maneira indiscriminada; ao contrário, é posto com critério, de uma forma precisa para se alcançar a decoada (o caldo resultante da mistura da água de chuva com as cinzas) propícia a fertilizar o plantio que se vai fazer6. Após a queima da coivara inicia-se a destoca. Essa tarefa consiste em revirar a terra com a enxada e retirar os tocos mais finos. Segundo os agricultores, essa operação está ligada à densidade da vegetação somada ao tipo de plantio que se vai fazer. Estando pronta a terra, aguarda-se o “bom tempo”, a época das chuvas, para se realizar o plantio. Há uma série de associações de plantio que os lavradores realizam. São realizadas, pelo menos, duas capinas nas roça. A primeira, após aproximadamente vinte dias do plantio; a segunda, chamada repasse, depois de uns 30 ou 40 dias. A colheita possui vários ritmos, relacionados ao ciclo de crescimento das diversas plantas. Colhe-se o milho, geralmente, entre os meses de março a abril; o feijão colhe-se em janeiro ou fevereiro; a cana é colhida e beneficiada principalmente em agosto; também nesse período - chamado da seca, entre março e outubro - é que se colhe e se beneficia a mandioca. Com exceção da tarefa de roçar que - segundo os lavradores - pela bruteza do serviço, é trabalho masculino realizado pelos adultos da família. Mas se a mulher é viúva, separada, sozinha ou se não tem filhos adultos faz ela própria o seu roçado. Todas as outras etapas são realizadas em conjunto pelo casal e filhos, inclusive tarefas como fazer cercas. As mulheres têm grande conhecimento das técnicas de lavoura e o trabalho na roça se coloca de forma praticamente indistinta para homens e mulheres7. O trabalho feminino nas etapas das lavouras estão distribuídos da seguinte forma: 6 Sobre o fogo como uma técnica ver Boserup (1987), Ribeiro (1997) e Posey, (1987) O trabalho feminino no alto Jequitinhonha aparece em uma perspectiva distinta da encontrada em boa parte da literatura sobre campesinato. Moura (1978 ), Woortmann (1995) e Garcia Jr. (1983) Seyfert (1985), encontraram realidades diferentes. 7 5 - derrubar ou roçar: é um serviço masculino, que a mulher faz com restrições, se é viúva, separada, sozinha ou se não tem filhos adultos; - queimar: colocar fogo é uma tarefa masculina, mas que a mulher também pode desempenhar. O senhor João, lavrador do município de Minas Novas, afirma que o fogo que a mulher coloca queima mais, é mais quente. Já as queimadas da palhada (restos da roça do ano anterior, mesmo local que se plantou no ano anterior) a mulher pode fazer sem problema, sendo inclusive uma tarefa dividida com os homens. - destoca: mulher destoca, mas normalmente esta atividade é classificada como masculina. - plantio: tarefa masculina e feminina, trabalho em conjunto. - capina: são feitas duas capinas, e as duas são tarefas masculina e feminina realizada em conjunto - colheita: tarefa feminina. Pode-se observar que as mulheres participam ativamente do trabalho na lavoura. A forte migração sazonal masculina existente na região, interfere nas tarefas de derrubar, roçar e colocar fogo; as mulheres arrumam camarada (diarista) para realizar estes trabalhos quando os homens estão migrando ou então elas mesmas fazem o serviço. Boa parte das vezes, a concretização destas tarefas ocorre com a combinação destas duas opções, porque não é sempre que a família tem recurso para pagar o camarada, assim a mulher assume a direção e efetivação deste trabalho. Também a colheita tornou-se uma atividade quase que exclusivamente feminina, porque efetuada no período que boa parte dos homens estão viajando para o trabalho temporário em outras regiões de Minas Gerais e do país. As mulheres casadas e com filhos praticamente não migram e assumem maiores responsabilidades no cuidado da lavoura e das criações, e na manutenção da família. Uma questão que se coloca é se a valorização do trabalho feminino e sua atuação em áreas consideradas de preponderância masculina representa alterações na relações de poder entre homens e mulheres Analisando a migração temporária de trabalhadores do Jequitinhonha, Martins (1986) afirma que ela só é possível através do sobretrabalho de mulheres e crianças que permanecem na terra realizando as atividades necessárias para manutenção da lavoura familiar. Eigenheer (1980) aponta que em determinadas situações quando há redefinições das relações locais de trabalho também pode ocorrer redefinições da divisão de trabalho no interior da família e no significado do papel social entre homens e mulheres. A dubiedade do trabalho feminino A rotina de trabalho das mulheres lavradoras no Alto Jequitinhonha é uma lida sem fim. Começa diariamente bem cedinho, entre quatro e meia e cinco horas da manhã, buscando água para o consumo diário da família, percorrendo, muitas vezes, uma grande distância para se abastecer; segundo as lavradoras: "Água buscada não há o tanto que chegue". Depois vem os outros afazeres: fazer café, arrumar a casa, molhar a horta, lavar roupa, cuidar das criações pequenas, lavar as louças, fazer o almoço e levá-lo para o marido e filhos que saíram cedo para o trabalho da roça. Leva o almoço e fica para trabalhar a tarde toda na lavoura, enfrentado o mesmo serviço que os homens. É também a mulher que busca lenha para abastecer a família durante a semana. É importante observar que quando há filhas adultas, algumas auxiliam a mãe e outras trabalham junto com o pai e os irmãos na lavoura. Este foi o caso de Eva, lavradora do município de Turmalina, quando solteira, trabalhava direto com o pai na lavoura, e sua irmã auxiliava a mãe 6 nos afazeres em casa. Eva avalia que cuidar só da lavoura é um serviço melhor, por que é um serviço só, concentrado, com começo, meio e fim, onde se vê o resultado final materializado; enquanto o trabalho na casa é um tanto de serviços "picado", descontínuos; são serviços miúdos, que somados, representam uma gama de atividades imensas. O relato de Josina, a seguir, também é esclarecedor do espaço concreto do trabalho da mulher na jornada da família: "Quando eu estava com a idade de dez anos, o meu pai morreu, nós ficamos. Eu era mais sofredora, porque tinha que ajudar minha mãe a trabalhar para criar os outros menininhos que ficaram. Eu não era a mais velha, a que era mais velha do que eu ficava dentro de casa e eu trabalhava mais minha mãe. Era tanto, que minha mãe me levava para trabalhar junto com ela para os outros; chegava lá, se fosse bastante camarada na roça, eu não aguentava trabalhar no meio deles, eles me punham para carregar água, e eu carregava água; quando chegava com a vasilha de água era a continha deles beber e eu voltava de novo, para buscar mais. Quando eu fui apanhando idade, ficando mocinha, eu sabia fazer todo serviço, eu sabia carpir, sabia plantar, sabia qualquer serviço... Roçava, apanhava coivara assim depois que queimava, qualquer serviço que me pusessem: tocar roda para fazer farinha, mexer com gado... Minha vida é uma lida sem fim, eu sempre trabalhei" (Josina, lavradora, município de Cristália). Na região pesquisada, quando alguém, homem ou mulher, queria elogiar o ânimo de trabalhar de alguma mulher, afirmaram "Fulana é muito boa de serviço, roça igual homem". Seu João, lavrador do município de Minas Novas, ao se referir ao tanto que sua mulher trabalha, afirmou: "Ai de mim se não fosse ela, sou fraco, não tenho dinheiro para pagar camarada". Há o reconhecimento do trabalho feminino, ou seja, o trabalho da mulher na roça é aceito como trabalho; mas como ele é avaliado pelos homens? Pela afirmação ao lado, percebe-se que como auxiliar ao do homem, substituindo o camarada, ou em casos extremos igualando-se aos homens, mas não como um trabalho independente. E as mulheres? Como avaliam seus esforços na lavoura? Elas constróem uma identidade mais positiva de seu trabalho na esfera familiar, mas muitas vezes encontraram dificuldades de afirmá-lo externamente, como por exemplo nos casos de aposentadoria rural, quando muitas lavradoras ao encaminharem seus processos de aposentadoria declaravam como profissão “doméstica”, e por isso não tiveram acesso ao benefício o que demandou várias campanhas dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais da região para esclarecimento e sensibilização das mulheres sobre seus direitos. Há uma avaliação contraditória do trabalho feminino na lavoura do alto Jequitinhonha, por um lado, é valorizado tanto na perspectiva dos homens quanto das mulheres, considerado importante. Os homens afirmam que preferem casar na região por que mulheres de outros lugares não se adaptariam ao ritmo de trabalho de lá. Segundo um lavrador do município de Chapada do Norte: "As mulheres daqui fazem de tudo um pouco, não mexem só com uma coisa: mexem com criação, fazem cerca se precisar, buscam água, areiam panela ...O homem sai para trabalhar e a mulher sabe fazer os serviços". É comum as mulheres da região afirmarem, na presença de seus maridos, que "no serviço da lavoura nenhum homem me deixa para trás"; e os homens confirmam que o serviço da mulher é muito mais fatigante: "quando pesa por homem, pra mulher é muito mais pesado", porque na região além das atividades domésticas a mulher trabalha muito na roça, participando praticamente de todas as etapas. Por outro lado representa uma sobrecarga de atividades para a mulher, que tem que realizar tarefas domésticas e tarefas na lavoura; neste sentido, as mulheres unificam em si mesma, a dicotomia casa e roça. Assim não se percebe na região explicitamente a clássica divisão e oposição entre trabalho masculino e feminino, no que diz respeito ao trabalho na lavoura e até mesmo com o 7 gado. Inclusive atividades consideradas em outras regiões no estado de Minas Gerais, estritamente masculinas, são realizadas por mulheres no alto Jequitinhonha: lidar com o gado, campear, roçar o mato e fazer cerca. As mulheres têm muito conhecimento das técnicas de lavoura, em quase todos os relatos o trabalho na roça parece indistinto entre homens e mulheres, com exceção da destoca, no trabalho com foice e em alguns caso, no colocar fogo. Mas mesmo nestes serviços quando precisa a mulher faz - "a minha filha também destoca", é uma afirmação feita por vários lavradores. O reconhecimento do trabalho feminino na lavoura, não implica em mudanças significativas nas relações entre homens e mulheres. Isto porque simbolicamente e na prática o trabalho masculino produz produtos e bens trocáveis e socializáveis, e o trabalho feminino por ser fragmentado e descontínuo - e por isso mesmo mais intenso - produz menos produtos por unidade trabalhada (Ribeiro, 1993). Assim a qualificação do trabalho feminino ou masculino não se faz pelo tanto de esforços desprendido e sim pelo produto final. E a identidade feminina ou masculina não é construída somente pelo tipo de trabalho realizado, muitas vezes os trabalhos são qualificados posteriormente dependendo se for realizado por homens ou mulheres, como indicou Paulilo (1987). Desta forma o trabalho feminino na lavoura é reconhecido e considerado importante, mas quando confrontado com o trabalho temporário masculino realizado nas regiões canavieiras do interior paulista é considerado mais “leve”, porque realizado em condições melhores que este. Desta forma, há uma redefinição do trabalho feminino na unidade familiar, mas também há uma resignificação do trabalho masculino, que enfrenta a dureza de trabalhar fora, sem o conforto da família. Apesar da mulher trabalhar na lavoura, os agricultores afirmam que o "sustento vem de São Paulo", ou seja, do trabalho masculino realizado em outras regiões; neste sentido, o trabalho na lavoura se torna acessório na manutenção da família, assim como o trabalho das mulheres; apesar das reorganizações do trabalho familiar, o trabalho masculino é considerado preponderante. Quando, o homem não migra ou, no correr do ciclo familiar, deixou de migrar, seu trabalho é reavaliado na composição do trabalho familiar e muitas vezes, nestas situações o trabalho masculino e feminino são pensados com complementares, mas coordenado pelo homem. A avaliação do trabalho feminino pelos membros da família lavradora, no alto Jequitinhonha, possui assim uma dubiedade muito grande. Como a mulher participada tanto das atividades domésticas quanto das atividades produtivas na roça, sua jornada de trabalho combina estas duas esferas, o trabalho feminino contém aspecto contraditórios porque em parte é representado como cativo e em parte como espaço de afirmação da identidade feminina. Cativo, porque é sempre um trabalho subordinado à família e ao marido. E família, nesse contexto, significa um trabalhador coletivo, assim por mais que a mulher trabalhe, realiza suas atividades num espaço simbólico e cultural marcado, onde seu papel também é demarcado. Bison (1995) analisando mulheres migrantes do Jequitinhonha, em São Paulo, demonstra claramente a força das relações culturais: apesar de associarem o Jequitinhonha a trabalho intenso e subordinação irrestrita à família, essas mulheres dificilmente rompiam com seu lugar de origem, enviando mensalmente parte significativa de seus salários, e quase sempre acalentava a vontade de retornar. O trabalho na lavoura, representa afirmação de uma identidade positiva para a mulher, abrindo um leque de atuação e participação públicas para elas: ela também trabalha, e por isso pode se apropriar de alguns direitos construídos nesta sociedade por meio do trabalho, por exemplo, o acesso à terra. No Alto Jequitinhonha, a posse e domínio da terra são legitimados pelo trabalho que a família realiza na terra. Como o direito sobre a terra é construído por meio do trabalho, a mulher tem possibilidade de ter acesso à terra porque deposita trabalho sobre ela, 8 realizando praticamente os mesmos serviços que os homens. Mas se a mulher no Alto Jequitinhonha tem acesso à terra, este não é sem conflito. A mulher não é privada da terra principalmente porque trabalha na lavoura e através do seu trabalho constrói seu direito, mas há grande distância entre construir seu direito e efetivá-lo; e a mulher, em casos de demanda, leva desvantagens; a não ser quando é casada ou se viúva ou solteira, possui filhos maiores que garantam concretamente o espaço de trabalho. Neste sentido é exemplar o caso de uma mulher na beira do Jequitinhonha, município de Botumirim, logo após ficar viúva, com os filhos pequenos, viu uma parte de sua gleba ser cercada e vendida por um fazendeiro vizinho, ela pelejou para impedir a venda, mas não conseguiu, diz que: "Ele [o fazendeiro] fez isto porque sou mulher, viúva e meus filhos são pequenos". O trabalho feminino na agricultura camponesa do alto Jequitinhonha, está envolvido em uma trama social complexa, impossível de ser abordado por um só ângulo, impossível de ser analisado em separado, sem compreender as relações familiares de produção. As lavradoras são sujeitos singulares, que trazem em suas vidas e corpos, a marca do trabalho Bibliografia: Aguiar, N. (Coord.). Mulheres na força de trabalho na América Latina. Petrópolis, Vozes, 1984. Bison, W. P. A volta por cima - mulheres migrantes entre o vale do Jequitinhonha e São Paulo. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 1995. Chayanov, A.V. La organizacion de la unidade economica campesina. Ediciones Nueva Vision, Buenos Aires, 1974. Eigenheer, S. C. F. A pequena produção e o trabalho feminino numa área do alto Jequitinhonha. In Bruschini, M. C. A. e outros. Trabalhadoras do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1982. Galizoni, F. A terra construída - família, trabalho, ambiente e migrações no alto Jequitinhonha, Minas Gerais. Tese de mestrado, FFLCH/USP, 2000. Garcia Júnior, A. R. Terra de trabalho. RJ, Paz e Terra, 1983. Heredia, B. M. A Morada da Vida. Trabalho Familiar de Pequenos Produtores no Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. Heredia, B. 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