PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Luiz Felipe de Oliveira Faustino Capoeiragem carioca: da fina malandragem ao esporte civilizado (1885-1910) MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL SÃO PAULO 2008 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Luiz Felipe de Oliveira Faustino Capoeiragem carioca: da fina malandragem ao esporte civilizado (1885-1910) MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação da Profa. Doutora Estefânia K. Fraga. SÃO PAULO 2008 2 Banca Examinadora ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 Dedico esta pesquisa primeiramente aos meus pais, José Antonio e Alba, por serem os grandes responsáveis pela minha formação intelectual, educacional e moral, características que me fizeram lutar e buscar sempre um grau mais elevado em minha vida. Dedico também ao meu Mestre de capoeira Plínio, por me educar e ensinar praticamente como filho, a arte da Capoeira Angola, sempre me possibilitando crescer, ouvir as histórias dos mestres mais antigos e, em maior instância, preservar a tradição da capoeira, lutando para elevá-la ao mais alto grau das culturas populares de nosso país. Dedico por fim ao amor de Luciana, uma mulher de muito valor, paciência e equilíbrio, características fundamentais para a “roda de capoeira da vida”, que jogo todos os dias. 4 RESUMO O objetivo desta pesquisa foi investigar o olhar e o discurso dos intelectuais que analisaram a capoeira no período 1885-1910, caracterizando-a como crime previsto em lei, posteriormente projetando-a como luta nacional, entendida como esporte civilizado. Esta pesquisa possibilitará realizar importantes discussões junto aos diversos grupos de capoeira atualmente, uma vez que ainda questiona-se o papel dos grupos elitizados no universo da prática e ensino da capoeira, bem como a questão do branqueamento da arte-luta. Acredito que os intelectuais do período abrangido foram os responsáveis pela assimilação cultural da prática da capoeira branqueando-a, tornando-a assim uma atividade baseada em noções como civilização, modernização e padrão, alheias ao universo cultural afro-descendente, do qual a capoeira nasceu. Utilizei como fontes históricas os livros publicados pelos intelectuais, bem como a imprensa periódica que divulgava e retratava a capoeira conforme o olhar e o discurso hegemônicos originados nos grupos dominantes, comparando-os na busca por pontos em comum e/ou divergentes. Ao término da pesquisa, pude identificar a mudança no tratamento e na própria divulgação da capoeira, sendo apresentada como esporte civilizado, desligando-a da prática da malandragem dos capoeiras antigos, do período da escravidão. Palavras-chave: Capoeira – Criminalidade – Civilização 5 ABSTRACT The matter of this research is the investigation on the look and intellectual speech from whom analyzed the capoeira in the historical period 1885-1910, charactering it as crime foreknown in law, posterior projecting it as national fight, understood as civilized sport. This study will provide the reveal very important discussions to the varietal cream of society on practical and learning from capoeira universe, as well as whitening issue from art-fight. I believe that the intellectual group from the period embraced were the responsible for the cultural assimilation from the whitening capoeira practice, transforming it in an activity based on notions like civilization, modernization and patterns, distant to the afro-descendent cultural universe where the capoeira was born. I utilized the published books by the intellectual as historic fonts; as well the periodic press that divulgated and painted the capoeira as the look and speech originated on the dominant groups, compare on the search to look for equals or differencing points of view. To the end of this research, I could identify the change on treatment and even on the divulgation of capoeira, as been presented as civilized sport, turning it away from the trickery from the old capoeira players, back from the slavery period. Key words: Capoeira – Criminality – Civilization 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................p.08 Cáp.1: DEBATES SOBRE A CAPOEIRA NA PRODUÇÃO ACADÊMICA..................p.17 1. A capoeira como representação cultural afro-descendente..........................p.18 2. A capoeira através das fontes policiais.........................................................p.20 3. A capoeira através do perfil da Gynasthica Nacional....................................p.27 4. Embranquecimento da capoeira: formação e exclusão cultural nacional...p.30 Cáp.2: PLÁCIDO DE ABREU: O OLHAR CRIMINALIZADO DA CAPOEIRA (18851890)............................................................................................................................p.33 1. Pioneirismo no estudo da capoeira...............................................................p.33 2. Análise da obra Os Capoeiras......................................................................p.35 2.a. Origem da capoeira................................................................................p.37 2.b. Maltas e partidos rivais...........................................................................p.40 2.c. Organização interna e ensino.................................................................p.49 2.d. Rituais de conflito...................................................................................p.52 Cáp.3: MELLO MORAIS: A CAPOEIRA COMO LUTA NACIONAL, A PARTIR DE UM OLHAR CIENTÍFICO (1901-1909)...............................................................................p.59 1. Intelectuais e formação nacional..................................................................p.59 2. Análise da Obra Capoeiras e Capoeiragens................................................p.61 2.a. A capoeira como luta nacional..............................................................p.63 2.b. Olhar científico sobre a capoeira...........................................................p.71 2.c. Origens e Histórico da capoeira............................................................p.73 2.d. As maltas e partidos rivais.....................................................................p.76 2.e. Os rituais na prática da capoeira...........................................................p.79 3. Lima Campos: a capoeira esportiva na Revista Kosmos.............................p.81 CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................p.90 Relação de Fontes e Referências Bibliográficas..........................................................p.94 ANEXOS.....................................................................................................................p.100 7 INTRODUÇÃO Esta pesquisa investigou o olhar dos intelectuais Plácido de Abreu e Mello Morais sobre a capoeira, bem como analisou a elaboração de seus discursos que projetavam a ela uma nova prática. Estes intelectuais sagraram-se os primeiros a abordar exclusivamente a capoeira em estudos, ensaios, produções literárias, reportagens na imprensa periódica, etc., durante as décadas de 1880-90 e 1900-10. Desvendar as tramas de seu discurso, contextualizando-os, bem como as circunstâncias de sua produção, nos possibilita compreender os limites das ações práticas engendradas pelos grupos dominantes e a maneira como mantém o exercício do poder1. Acredito ter sido através da elaboração deste discurso que os grupos dominantes determinaram modos e padrões sociais disciplinadores para os grupos populares marginalizados, utilizando para tal as manifestações culturais – no caso, a capoeira – produzidas no cotidiano dessas classes. Busquei tratar da capoeira analisando-a em meio ao momento de sua criminalização através do Artigo 4022, quando da elaboração do primeiro Código Civil, 1 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 1997. Dos vadios e capoeiras; Artigo 402: Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. Pena de prisão celular de dois a seis meses. Parágrafo único: é considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças se imporá a pena em dobro. Artigo 403: No caso de reincidência será aplicada ao capoeira, no grau máximo a pena do artigo 400, pena de um a três anos em colônias penais que se fundarem em ilhas marítimas, ou nas fronteiras do território nacional, podendo para esse fim serem aproveitados os presídios militares existentes. Parágrafo único: se for estrangeiro será deportado depois de cumprir a pena. 2 8 de autoria de Rui Barbosa, em 1890, responsável pela perseguição e quase extinção da capoeira das ruas do Rio de Janeiro. Vale destacar que, na fase anterior a esta data, a capoeira era considerada uma prática cultural marginalizada, mas não havia meios legais de se puni-la ou garantir processo, pois ela não constava de proibição na lei3. Havia o combate das forças policiais aos capoeiras, mas não à sua prática, fato que a partir de 1890 e especialmente pela ação do Chefe de Polícia do Distrito Federal, Sampaio Ferraz, representou a ela o início de uma fase de intensa perseguição e proibição, causando verdadeiro ostracismo (1890-1900), o que só acabaria com seu renascimento, ao longo da década 1900-10. O Rio de Janeiro vivia um momento de intensa agitação social e política, marcado por inúmeras mudanças e novidades. As mudanças urbanas estavam em processo, fora a época dos bota-abaixo, caracterizada por grandes reformas realizadas no centro velho, no intuito de transformar a cidade com ares coloniais em uma nova cidade modernizada, limpa e disciplinada. Esta era a cena urbana onde os capoeiras surgiam como tradicionais protagonistas, encenando disputas e conflitos que atraíam a atenção de políticos, da polícia e dos cidadãos “de bem”, que dificilmente conseguiam controlá-los. Este clima social foi alvo da preocupação e atenção de diversos intelectuais e políticos, especialistas de diversas áreas: medicina, jurídica, sociologia, policial, jornalística. Os intelectuais encontravam as soluções para os problemas sociais baseando-se nos ideais de progresso, modernidade e civilização, conceitos que Artigo 404: se nesses exercícios de capoeiragem perpetrar homicídios, praticar lesão corporal, ultrajar o pudor público e particular, e perturbar a ordem, a tranqüilidade e a segurança pública ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas cominadas para tais crimes. 3 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição – os capoeiras na corte imperial (1850-1890). Rio de Janeiro: Ed. Acess, 1999. 9 chegavam ao país importados de modelos de desenvolvimento social baseados na cultura e sociedade européia, elaborados por pensadores como E. Renan, G. Le Bom e, principalmente, o Conde de Gobineau4. Apreciei muito a definição de Schwarcz sobre esses intelectuais e seu papel na definição de novos padrões sociais, sendo assim caracterizados como homens de letras. Na concepção de Carvalho5, a República necessitava firmar-se não apenas como modelo político, mas também como modelo social, uma espécie de carro chefe regulador da sociedade que ainda mantinha os costumes da antiga Corte Imperial. Para tal, cercou-se de uma série de cientistas e intelectuais com a intenção de definir um modelo de nação, ocupando a partir de então as principais instituições culturais do país, ditando normas e diretrizes sociais. Assim, para este autor a principal preocupação dos intelectuais (Geração de 1889-1930) centrou-se na elaboração e constituição de um sentimento de identidade6, capaz de dar aos brasileiros a real noção de nação e cultura nacional que eles próprios almejavam, numa sociedade marcada principalmente pela intensa desigualdade e pela ansiedade em garantia de liberdades individuais e de propriedade. A partir da formulação de pressupostos ideológicos, constituídos por uma hegemonia cultural exercida pelas classes dominantes no Rio de Janeiro, estes intelectuais buscaram elaborar uma nova prática da capoeira, fazendo dela um jogo disciplinado, juntamente com a regulação do corpo e das manifestações populares. Esta forma de praticar a capoeira como jogo intencionava por fim às disputas, conflitos 4 SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças – Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 7ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 5 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 6 CARVALHO, José Murilo de. Entre a liberdade dos antigos e modernos: a República no Brasil. In: Pontos e Bordados – ensaios de história e política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. 10 e correrias, marcas vivas do sistema social escravocrata, transformando-a em autêntica luta nacional. A capoeira constou na lei como crime até o ano de 1941, momento em que durante o governo de Getúlio Vargas ela foi retirada do Código Penal, ao mesmo tempo em que se criou a primeira lei de regulamentação da prática da educação física no país. Durante esta fase que vai de 1890-1941, houve uma decisiva guinada na trajetória histórica da capoeira, pois ela era tida por ameaça social em 1890, quando de sua criminalização, e considerada luta nacional, ao longo da década 1900-1910. Outro fato interessante foi que a saída de Sampaio Ferraz da chefatura da polícia em 1903 não se seguiu outro chefe de polícia que perseguisse capoeiras na capital federal, sendo possível acreditarmos numa espécie de vingança deste político republicano e dos que seguiram sua atuação7. As fontes históricas que acreditei darem conta de analisar estas problemáticas foram os livros publicados por Plácido de Abreu e Mello Morais, em 1886 e 1901, respectivamente. Essas publicações foram fundamentadas como estudos descritivos e ensaios tipológicos, o que nos permite enquadrar estes intelectuais como cientistas sociais, embora Abreu não se caracterizasse dessa forma. Na medida em que estes autores demonstraram idéias, noções e anseios de suas épocas, mostrou-se necessário também investigar a ressonância de seu discurso nos meios sociais eruditos, nos quais a imprensa periódica teve papel fundamental na divulgação e disseminação de novos valores e padrões sociais no início do séc. XX nas grandes cidades, principalmente na capital federal. 7 Não discuti exclusivamente Sampaio Ferraz pelo fato dele não representar personagem central na pesquisa, mas sim a decorrência que sua repressão representou à prática da capoeira. 11 Minha intenção ao selecionar os estudos e ensaios foi investigar o olhar que tinham os intelectuais para a capoeira e analisar a elaboração de seus discursos para uma nova prática, buscando averiguar a visibilidade atingida pelas publicações, durante a fase de implacável perseguição policial. Analisando a constituição destes discursos sobre a capoeira, busquei questionar de que maneira ela foi vista e entendida pelos grupos sociais dominantes, e qual sua importância para a constituição da idéia de nação que esses grupos possuíam e queriam disseminar através dos meios letrados. Nessa perspectiva, baseei-me no trabalho e nas indicações de Sevcenko para a incorporação da literatura como fonte histórica, na medida em que Abreu e Mello Morais tornaram-se intelectuais conhecidos não somente por sua produção sobre a capoeira, como também literatos, produzindo contos, poesias, narrativas, etc. Observei que esta influência literária marcou a obra de ambos, sendo assim, trabalhar com sua obra permitiu explorar também um vasto campo de possibilidades não consumadas, não realizadas, um anseio do vir-a-ser histórico. Portanto, com Sevcenko: O estudo da literatura conduzido no interior de uma pesquisa historiográfica, todavia, preenche-se de significados muito peculiares. Se a literatura moderna é uma fronteira extrema do discurso e proscênio dos desajustados, mais do que o testemunho da sociedade, ela deve trazer em si a revelação dos seus focos mais cadentes de tensão e mágoa dos aflitos. Deve traduzir no seu âmago mais um anseio de mudança do que mecanismos da permanência (...)8 A forma mais elucidativa que encontrei para trabalhar as fontes literárias juntamente com a imprensa foi comparar as falas e o olhar expresso pelos seus produtores. A análise comparativa das fontes, juntamente a obra dos intelectuais e a imprensa periódica, desde a jornalística à ilustrada, apresentou-se de forma rica e até 8 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão – tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983. 12 mesmo prazerosa ao ofício do historiador. Pude encontrar a ansiedade expressa por Abreu e Mello Morais em suas obras nas diversas formas que a imprensa retratava e divulgava a capoeira, seguindo as indicações de Cruz, buscando analisar como as elites dominantes compreendiam as culturas populares e suas variadas formas de manifestação, expressando-se de forma moderna e civilizada, através do periodismo urbano9. Assim, nesta linha interpretativa, sabendo que o domínio dos temas utilizados pela imprensa passava subliminarmente pela aceitação do público leitor, podemos identificar como a capoeira foi gradualmente sendo aceita pelas elites, na medida em que ela ganhava mais e mais destaque como luta nacional. Outra autora fundamental na análise desta imprensa periódica e de sua influência nos meios eruditos foi Barbosa, em suas investigações sobre a constituição da imprensa como instrumento de consolidação dos grupos dominantes e de seu exercício de poder. Acredito que uma pequena passagem de suas indicações preenche minha intenção em buscar a ressonância do olhar hegemônico dos intelectuais através da disseminação na imprensa e nos meios letrados: Outra questão que precisa ser melhor compreendida é a da absorção dos homens de letras.(...) Cooptados pela classe dominante, esses intelectuais produzem uma mensagem visando a criação de um consenso, cujo fim último é perpetuar a dominação de classe.(...) E para isso não basta a imposição de normas sociais nas ruas: é preciso um discurso que unifique normas, padrões e valores a serem discutidos ou disseminados. E a imprensa cumpre essa “missão”.10 A organização dos capítulos seguiu a trilha deixada pela necessidade de organização das fontes. Observei que através dos estudos, os autores buscaram compreender as formas de se praticar a luta e também os meios de se controlá-la 9 CRUZ, Heloisa Faria de. São Paulo em papel e tinta – periodismo e vida urbana (1890-1915). São Paulo: Ed. EDUSP, 2000. 10 BARBOSA, Marinalva. Os donos do Rio. Rio de Janeiro: Ed. Vício de Leitura, 2000. 13 através de regras. Já na imprensa periódica a capoeira surgia como notícias do cotidiano, durante a década 1880-90, através de notas de conflitos e agressões; mas por volta da década 1900-10, com o abrandamento da perseguição policial, ela ressurgiu como representação da cultura nacional, sendo por diversas vezes chamada de nosso jogo. Sendo assim, dividi a pesquisa sobre estas fontes em três capítulos, a partir do momento em que elas foram sendo produzidas. No primeiro capítulo trabalhei o enfoque e a discussão do tema capoeira atualmente na obra de diversos historiadores e pesquisadores, na intenção de desenvolver a análise do discurso e do olhar dos intelectuais a partir da própria discussão historiográfica já aberta nesse campo. Portanto, neste capítulo realizei um mapeamento histórico do período abrangido, buscando lacunas ainda vazias na produção acadêmica, perguntas sem esclarecimento, numa discussão que se apresenta recente para a historiografia das últimas três décadas. O segundo capítulo foi organizado a partir da análise aprofundada do ensaio de Plácido de Abreu, publicado ainda durante o Império, em 1886. Neste ensaio, o autor buscou analisar os capoeiras como tipo social, caracterizados por uma cultura peculiar, expressa através de gestos, vestimentas, formas de comunicação e manifestação de luta. Na análise do olhar de Abreu sobre a capoeira, investiguei o momento de sua produção, de que forma a capoeira era praticada pelas ruas, quais as necessidades e anseios demonstrados pelos grupos dominantes e como suas indicações apontavam para a criminalização da capoeira. Neste capítulo busquei na imprensa periódica a forma como a capoeira surgia em suas páginas, e de que maneira ela era entendida pelos grupos dominantes e pelas 14 próprias elites letradas, na busca pela ressonância entre a fala de Abreu e os anseios desses grupos que temiam a capoeira dos negros marginalizados. Sondei os principais jornais da cidade, como o Jornal do Comércio e a Gazeta da Tarde, e revistas ilustradas, como Vida Fluminense e Revista Ilustrada, no período 1880-90, na intenção de analisar como ocorria a aparição da capoeira e até mesmo sua divulgação, através de pontos de vista diferenciados, desde a mais evidente visão dominante, às mais populares notas das gazetas. O terceiro capítulo foi organizado através da obra de Mello Morais, publicada em 1901, numa coleção sobre costumes populares editada pelo autor em folhetins avulsos. Nesta obra, o autor analisou não somente a capoeira, mas sim uma série de manifestações populares, onde buscou identificar os valores tradicionais da cultura nacional, este sim seu propósito. Como a capoeira era tida como tradicional manifestação produzida pelos grupos populares, na obra o autor deu destaque exclusivo a ela com um capítulo, ficando claro que sua intenção era propor um novo olhar para a própria cultura nacional em formação. Concomitante a obra de Mello Morais, através da investigação aprofundada das revistas ilustradas da década 1900-10, como Kosmos, O malho, A notícia, A careta, Semana Ilustrada, pude fazer a comparação da forma como a capoeira ressurgia através de reportagens, fotografias e caricaturas, com relação ao momento em que Abreu e a imprensa periódica de sua época retrataram. Observei que os jornais diminuíram muito a divulgação dos conflitos de capoeiras, durante a fase pós-1890, o que acredito ter ocorrido em função da perseguição de Sampaio Ferraz que praticamente extinguiu sua prática do cotidiano das ruas, enquanto que a imprensa ilustrada passava a dar maior visibilidade a capoeira perseguida. 15 Completei este capítulo com um dos principais expoentes dessa representação da capoeira esportiva na imprensa, Lima Campos, um colunista consagrado na revista Kosmos, que publicou um verdadeiro ensaio em forma de reportagem, onde analisei seu olhar e discurso, comparando-o aos demais autores traçando paralelos entre suas visões sobre a arte-luta. Junto a este ensaio, temos também a publicação de diversas caricaturas de Calixto, ilustrando os passos da capoeira e suas corruptelas, somando importante contribuição para os assuntos abordados, que incluí como capítulo extra de Anexos. Analisar a capoeira e a trajetória de sua própria prática nos leva a pensar na forma como as culturas populares se expressam através de seu cotidiano, bem como de qual realidade elas emergem como manifestação social. Atualmente, discute-se longamente o papel do negro na sociedade brasileira e qual a influência das culturas africanas herdadas do passado escravocrata, no entanto essa discussão passa pela questão das classes sociais e da maneira como esta cultura herdada fora sendo gradativamente assimilada pelos grupos dominantes. É fundamental identificar o momento em que a capoeira passou a ser praticada como esporte, pois atualmente vemos práticas culturais que vivenciaram processo semelhante ao vivido pela capoeira, como o samba, que sendo produzido com a intenção de mercado, perdeu sua tradição de poetizar a dureza do dia-a-dia e de revelar as injustiças sociais da marginalização dos afro-descendentes. Sendo assim, meu objetivo maior foi, através desta pesquisa, refletir essa transformação e quais os motivos que a desencadearam. 16 CAPÍTULO 1 DEBATES SOBRE A CAPOEIRA NA PRODUÇÃO ACADÊMICA Atualmente, constituiu-se dentro do pensamento histórico e da produção acadêmica nacional uma importante linha de pesquisa que toma a capoeira como tema, entendendo-a como manifestação popular, componente da formação cultural brasileira, exemplo da capacidade de resistência dos grupos marginalizados submetidos a uma ordem dominante. Esta linha de pesquisa vem desde a década de 1960 e atingiu na última maior quantidade de publicações e indicações de problemáticas. Nesta linha, há questões que são tratadas em diversos trabalhos e que se cruzam, fazendo com que a leitura de toda essa produção desse base suficiente de temas e lacunas a serem preenchidas pela análise do olhar e do discurso dos intelectuais do final do séc. XIX e início do XX. Também a constituição de um pano de fundo histórico se fez necessário para a contextualização dos autores e das questões que eles abordavam sobre a prática da capoeira à época. A leitura dos pesquisadores da capoeira foi fundamental na caracterização dos praticantes das décadas de 1880-1910, bem como na contextualização de seu envolvimento com os partidos e movimentos políticos, durante a fase final do II Império. Confrontei com essas pesquisas a análise do olhar de Plácido de Abreu e Mello Morais, na medida em que eles se referiam a capoeiras de suas épocas e problematizo se sua 17 visão estava baseada em sujeitos reais ou em estereótipos difundidos pela visão hegemônica. Através destas pesquisas obtive indicações de investigação e sondagem, decorrentes da análise da capoeira e de sua perseguição no período 1880-1910. A seguir elenco uma série dessas problemáticas desenvolvidas nesta obra e debato seus conceitos, a partir de indicações da obra desses dois intelectuais, que analiso mais aprofundadamente nos próximos capítulos. 1. A capoeira como representação cultural afro-descendente. Debati com o pioneiro trabalho Capoeira Angola – Ensaio Sócio-Etnográfico, de Waldeloir Rego, publicado em 1968, na Universidade Federal da Bahia. Neste, o autor investigou as origens da capoeira na Bahia, suas principais formas de manifestação e prática, bem como realizou uma aprofundada pesquisa sobre a etnografia11 dos termos e linguagens próprias dos capoeiras. Acabou também por abrir portas ao estudo desta manifestação cultural na produção acadêmica, pois após sua obra veio uma série de estudos e pesquisas que passaram a associar a capoeira tanto ao tema cultural como tema racial, discutindo-a no campo da cultura negra afro-brasileira. 11 Entendo aqui etnografia pelo entendimento universal do termo, como uma atividade característica da antropologia, cuja disposição venha ser a organização seriada de todas as formas de manifestação sócio-culturais de um determinado povo ou sociedade. O autor não especifica na introdução de seu trabalho sua definição para o termo. 18 Acredito ter sido esta sua principal contribuição: incluir a capoeira no campo da cultura descendente afro-brasileira, o que me possibilitou pensar toda a trajetória desta arte-luta somada ao próprio processo de formação sócio-cultural brasileiro, buscando confrontar o olhar dos intelectuais (1885-1910) sobre as origens da capoeira. O autor discute esta questão fundamentado em pesquisas de campo e até mesmo na busca etimológica do termo, fato que o levou a pesquisar grupos e suas linguagens na África: No caso da capoeira, tudo leva a crer seja uma invenção dos africanos no Brasil, desenvolvida por seus descendentes afro-brasileiros, tendo em vista uma série de fatores colhidos em documentos escritos e sobretudo no convívio e diálogo constantes com os capoeiras atuais e antigos que ainda vivem na Bahia, embora, em sua maioria, não pratiquem mais a capoeira, devido à idade avançada.12 O que o autor quis fazer foi incluir a capoeira como característica da cultura negra da Bahia nos anais da produção acadêmica brasileira. Mas, além disso, esta questão foi a base para uma discussão que surgiu posteriormente no campo da historiografia cultural da capoeira sobre seu embranquecimento e africanização, influências determinantes em seu processo de formação como prática esportiva. Destaco ainda que sua obra foi fruto da amizade que o autor tinha junto aos mestres antigos da capoeira da Bahia, desde capoeiras famosos em Salvador, como de diversas vilas do recôncavo baiano, como Santo Amaro, Cachoeira, São Félix, e outras. Ele apresenta diversos relatos da capoeira do passado, de suas formas de manifestação e prática, bem como da perseguição policial que, na capital soteropolitana, teria atingido seu auge nas décadas de 1910-30, sob o comando de 12 REGO, Waldeloir. Capoeira Angola - Ensaio Sócio-Etnográfico. Salvador: UFBA, 1968. 19 Pedro Gordilho, o “Gordito”, diferentemente da perseguição à capoeiragem carioca, ocorrida 30 anos antes. 2. A capoeira através das fontes policiais. Atualmente, há um grupo de autores que, na busca por novas fontes históricas sobre o tema, acabou ampliando o campo de estudos sobre a capoeira e suas formas de manifestação e controle. Cito dois destes autores e os incluo na medida em que suas obras constituíram análises-chave para a compreensão do período 1880-1910: Carlos Eugênio Líbano Soares e Antonio Carlos S. P. Liberac são autores que trabalharam no campo da Historiografia e partiram da análise da capoeira por meio dos documentos e registros policiais, encontrados nas delegacias e órgãos de justiça, principalmente do Rio de Janeiro. Soares realizou uma das mais abrangentes e detalhadas pesquisas no campo da Historiografia da Capoeira, tendo a possibilidade de ampliar as fontes históricas perdidas pelos arquivos do país na análise da capoeira como manifestação da cultura popular. O autor buscou os capoeiras utilizando fontes históricas recentemente incorporadas no campo da Historiografia, as fontes policiais. Soares teve acesso a vários centros de documentação da força pública de justiça no Rio de Janeiro, como arquivos da Chefatura de Polícia, Casa de Detenção, Códices de registro de entrada em presídio, Arsenal de Marinha, etc. Através destas fontes, o autor traçou importante 20 panorama sobre a caracterização dos praticantes da capoeira da época, e da forma como eram vistos pelos órgãos repressores e de controle do Estado. Em duas obras de importância fundamental para as pesquisas sobre a capoeira, ele deu conta de cobrir todo o séc. XIX no Rio de Janeiro, desde a fase da capoeiraescrava13, sendo prática de domínio das populações africanas escravizadas, à fase da capoeira partidária, agremiando grupos na cidade que se confrontavam no dia-a-dia. Utilizei fartamente seu trabalho intitulado A Negregada Instituição – Os capoeiras na Corte Imperial (1850-90) 14, estudo aprofundado sobre o período 1870-1890. O principal tema abordado pelo autor é a importância da atividade política dos partidos Conservador e Liberal ao final do II Império, de 1870-1889, que necessitavam dos capoeiras como forma de arregimentação e intervenção direta nas eleições. Essa intervenção nos pleitos eleitorais fazia-se por intermédio do uso da força e da coerção como forma de influenciar as pessoas a votar neste ou naquele deputado ou senador do Império, afastando inclusive aqueles que se negavam a mudar seu voto. Soares apresenta inúmeros casos de jornais e sedes de agremiações políticas que foram alvos de grupos de capoeiras chamados Maltas, geralmente bancados por algum deputado ou até mesmo um partido, fatos que aprofundo no próximo capítulo. Mas aqui ressalto que a importância das maltas de capoeiras encontrou-se no fato desses sujeitos, que eram em sua maioria negros afro-descendentes marginalizados, utilizarem a luta da capoeira como forma de profissionalização, uma vez que viviam de 13 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Capoeira Escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas: UNICAMP, 2001. 14 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição – os capoeiras na corte imperial (18501890). Rio de Janeiro: Ed. Acess, 1999. 21 servir favores e serviços às grandes personalidades políticas da Corte, e acabavam assim ficando conhecidos através do exercício destas funções. O autor destacou também a influência que a Princesa Isabel exerceria sobre estes sujeitos capoeiras, pois sabendo de seu apoio às fugas de negros escravizados e de sua participação ativa na campanha abolicionista, a maioria dos capoeiras tinham por ela verdadeira idolatria, considerando-a “protetora” e, posteriormente, “libertadora” de todos eles15. Esse fato fez com que a maioria dos capoeiras, ao final do II Império, fossem ferrenhos monarquistas, lutando assim contra as organizações e manifestações de caráter republicano. Esta questão foi fundamental, pois ao fim do Império e início do governo republicano, observei forte revanchismo da parte das forças públicas contra os praticantes da capoeira, e o que Soares nos elucidou foi que esta tendência iniciou-se com a partidarização que os capoeiras demonstraram pela Monarquia no país. Soares apenas indicou uma discussão sobre o papel dos intelectuais e primeiros entusiastas da capoeira, entendendo-os como importantes personagens na divulgação e na inserção da capoeira nos meios eruditos: São os primeiros escritores da temática, geralmente ligados à academia literária, desde o final do séc. XIX aos inícios do XX. A tônica desse momento era a ‘recuperação’ da capoeira, de um crime banido pelo código penal de 1890 em uma lucta nacional, como aparece na pena dos literatos. Essa linha de análise vai desde o eclipse da monarquia até os anos vinte de nosso século.16 Estas considerações são fundamentais, na medida em que se busque através de pesquisas sobre a capoeira o momento crucial e os personagens responsáveis pelo seu embranquecimento, isto é, o momento em que a capoeira deixou de ser prática 15 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição – os capoeiras na corte imperial (18501890). Rio de Janeiro: Ed. Acess, 1999. 16 Ibidem, p.38. 22 exclusivamente exercida por sujeitos negros, e passou a ser praticada também por sujeitos brancos. A obra de Soares me deu as referências sobre os capoeiras e seus partidos, mas não abrangeu o papel das elites dominantes no processo de proibição desta capoeira partidária, que ocorreria nas décadas de 1890-1900. Esta perseguição – que praticamente tirou a capoeira das ruas além de prender seus praticantes – abriu as portas para as elites dominantes entrarem com um novo olhar e indicarem novas formas de se praticá-la, através de intelectuais que passaram a estudá-la e divulgá-la como esporte. Procurei então abranger esta problemática com indicações da atuação destes intelectuais sobre a prática da capoeira, durante as fases de 1880-90 e 1900-10, quando a olhavam como luta-malandragem até sua fase esportiva, quando passam a entendê-la como luta nacional. Outro autor que dedicou seus estudos a problematizar a capoeira do final do Império foi Antônio C. S. P. Liberac, em Capoeira no jogo das Cores17. Neste estudo, o autor abordou a questão da criminalidade, onde buscou analisar a capoeira dentro da ordem da polícia e do Estado. A documentação trabalhada por Liberac foi a mesma explorada por Soares, os arquivos de polícia do Rio de Janeiro, principalmente registros de entrada e correção da Casa de Detenção. O autor explorou uma série de tradições, rituais e localidades presentes na prática da capoeira. Dessa forma, demonstrou como os capoeiras da 17 LIBERAC, Antonio Cardoso S. P. A capoeira no jogo das cores - Criminalidade, Cultura e Racismo no Rio de Janeiro (1890-1937). Tese de dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP, 1996. 23 época se organizavam solidariamente, forjando laços de identidade, impondo assim resistência à ordem social dominante. Liberac apontou a importância do aspecto luta presente na capoeira da época, uma vez que a disputa entre grupos rivais na cidade do Rio de Janeiro era marcada por violentos combates nas ruas, com a ocorrência “natural” de mortes. Deste estudo utilizei vários casos de capoeiras presos e envolvidos com a ordem dominante, contrapondo a visão dos intelectuais com a capoeira perseguida nas ruas, buscando pontos de encontro e estereótipos surgidos a partir de casos e experiências vivenciadas por sujeitos marginalizados. No entendimento da questão da luta como componente cultural, Liberac está na mesma linha de Sidney Chalhoub, quando este interpreta o papel da ideologia dominante na constituição do estereotipo do vadio/ vagabundo18, nos finais do séc. XIX, caracterizando diversos sujeitos populares como marginalizados em função de sua indisciplina. Brigas de bar, casos de embriagues ou a prática da capoeira eram vistos como práticas marginalizadas, indisciplinadas, portanto crime. Esta noção criminosa da capoeira acabou por criar um estereotipo de capoeira criminoso, vadio, embriagado e assassino. Os intelectuais que abordaram a capoeira tomaram por base este tipo idealizado de capoeira, passando assim a defender sua prática higienizada, disciplinada e regrada. Chalhoub nos deu uma contribuição especial sobre este aspecto da capoeira criminosa ser na realidade uma noção estereotipada oriunda das classes dominantes e 18 CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e boteqim – o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro na belle époque. Campinas: UNICAMP, 2001, p.73. 24 de sua cultura hegemônica. Cito aqui um pequeno trecho desta problemática e como foi trabalhada pelo autor: aos “atos fúteis” de violência parecem ser, antes do que dados inquestionáveis da realidade, construções ou interpretações das classes dominantes sobre a experiência ou condições de vida experimentadas pelos populares. Estas noções, contudo, não se confundem com a experiência real de vida dos populares, nem são a única leitura possível desta experiência (...) são construções das classes dominantes para justificar sua dominação de classe, sendo, então, apenas uma versão ou leitura possível da “realidade”, apresentada de maneira mais ou menos consciente pelos agentes históricos desta classe.19 Esta problematização da capoeira crime foi fundamental, pois a constituição do capoeira disciplinado, regrado e civilizado fundou-se a partir da noção de sua marginalização, sendo praticada pelos malandros freqüentadores dos botequins e tavernas da cidade, causadores de conflitos, e também os capangas profissionais contratados para serviços especiais. O autor aponta que, ainda durante a década de 1880, havia a presença de maioria afro-descendente na constatação de detenções por capoeira. E, na maioria dos casos, esses presos constituíam-se de homens livres, exercendo alguma profissão como carregadores, estivadores, trabalhadores de rua, domésticos, dentre outros20, possuindo assim ocupação e rendimentos. Essa noção de ocupação dos presos me deu base suficiente para questionar se a visão dos intelectuais sobre capoeiras vadios, vagabundos e assassinos não teria se originado na memória social guardada a partir de lembranças de casos de conflitos promovidos por capoeiras, generalizando-os numa mesma prática de desocupados e desempregados, que a utilizavam no ócio e na vadiagem. 19 Ibidem, p.51. LIBERAC, Antonio Cardoso S. P. A capoeira no jogo das cores - Criminalidade, Cultura e Racismo no Rio de Janeiro (1890-1937). Tese de dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP, 1996, p.82. 20 25 Outra questão analisada por Liberac foi a partidarização da capoeira na Corte. O autor serviu-se dos inúmeros casos de prisão de capoeiras que participavam dos partidos chamados de maltas, chegando a ser compostas por quase cinqüenta capoeiras. Há diversos relatos de presos na região central da cidade, mas as maltas apontadas por Liberac possuíam outros nomes dos apresentados por Soares, o que nos indica diversidade das fontes colhidas. Essas maltas eram conhecidas por Flor da Gente (Glória), a Espada (Lapa), a Três Cachos (Santa Rita), Monturos (Santa Luzia), dentre outras. Liberac indica que as tendências políticas destes sujeitos foram os principais motivos que os levaram a pertencer a esta ou aquela malta em alguma freguesia, questionando a visão dos autores do final do séc. XIX e início do XX. Não se tratava somente de pertencer a uma malta simplesmente por ser de alguma localidade, mas de possuir convicções políticas, acreditar na Princesa Isabel, “Libertadora” dos Escravos, ou ter participação em algum partido ou agremiação republicana. Apontando também na direção de Soares, o autor entende que a prática da capoeira estava determinada principalmente pela ferrenha disputa entre partidos pela dominação de áreas estratégicas do centro da cidade. Então, cada um desses grupos alinhou-se à causa republicana ou à monarquista, atacando os adeptos do adversário em situações de conferências, comemorações ou préstitos realizados nos espaços da cidade. As obras dos autores Soares e Liberac foram fundamentais para dar conhecimento da maioria dos personagens da capoeira-malandragem, de suas características no ato de suas prisões e no desenrolar de seus processos. A relação 26 dos capoeiras com a ordem dominante, através de sua partidarização, surge também na obra dos intelectuais das décadas 1880-1910, assim pretendi debater na historiografia a problemática do crime, e de sua relação com a visão esportiva. 3. A capoeira através do perfil da Gynasthica Nacional. Trabalhei também com outra pesquisadora da capoeira, Letícia V. de S. Reis, na obra O mundo de pernas pro ar – A capoeira no Brasil21. Nesta, ela percorreu os caminhos traçados pela capoeira em seu processo de formação histórica, onde buscou identificar as características na mudança de perfil dos capoeiras em sua relação com os caminhos da cultura nacional em formação. Por sua busca antropológica ao perfil dos capoeiras ela acabou reunindo as problemáticas anteriores, no entanto sem aprofundar uma época especificamente, mas revendo desde o séc. XIX aos dias atuais. Letícia Reis construiu um pano de fundo histórico no qual se assentou a perseguição pela qual a capoeira passou durante a segunda metade do séc. XIX, culminando com a perseguição na década de 1890-1900. A autora expôs o clima de medo sob o qual vivia a sociedade carioca desta época, gerado pelas inúmeras brigas, tumultos e conflitos causados pelos capoeiras, ocorridos nas ruas da cidade. Ela destacou que a instituição policial não tinha 21 REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000. 27 condições de prever esses casos e geralmente chegava aos locais de contenda quando já havia terminado e seus protagonistas desaparecido. A autora nos aponta como este aparente descontrole propagou a capoeira como o terror da população pacífica22, sendo entendida pelos grupos dominantes como prática cultural associada à barbárie africana, contrária ao estágio de civilização que estes grupos almejavam atingir. Ela nos mostra como esses conflitos tiveram sua origem na participação dos capoeiras nos partidos, ou maltas, e de sua relação com as disputas políticas do II Império. Constituiu-se um perfil de capoeira partidária, entendendo os praticantes da arte-luta não como meros gladiadores de ruas, mas sim personagens ativos na cena nacional, optando por apoiar ora os conservadores, ora os liberais, encenando na arena política não como eleitores (devido ao fato das eleições serem censitárias), mas como empenhadores de urna23. Esta influência da política na capoeira mesclou-se de tal forma a ela que marcou profundamente as gerações posteriores, e que ainda na década de 1910 a figura do capoeira-capanga eleitoral seria rememorada e utilizada pela imprensa e pelos grupos dominantes24. Letícia Reis nos mostrou também que os capoeiras da época foram influenciados pela chamada fase “Redentora”, como ficou popularizada a imagem da Princesa Isabel dentre a população negra e ex-escrava da Corte, o que representava uma tendência a permanecer a Monarquia no poder25. Ela nos mostrou casos em que José do Patrocínio e a Princesa Isabel ficaram conhecidos por investir numa organização de capoeiras, 22 Ibidem, p.46. REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000. 24 SILVA, Marcos A. Caricata República – Zé Povo e o Brasil. São Paulo: Ed. Marco Zero, 1990. 25 REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000, p.41. 23 28 custeados principalmente para combater a campanha republicana e defender a monarquia. Este grupo ficou conhecido como Guarda Negra, milícia formada por capoeiras-capangas que se responsabilizou por inúmeras agressões contra republicanos, positivistas e até mesmo antigos abolicionistas. Trabalhei com sua obra por ter abordado a influência das teorias científicas raciais, principal norteadora dos debates e evoluções que caracterizaram esta fase da capoeira. O discurso médico da eugenia racial, que pretendia principalmente o melhoramento da raça brasileira através da normatização e disciplina das práticas culturais dos grupos marginalizados, determinou um modo de se repensar a capoeira buscando sua evolução e civilização, para tal a inserção das idéias esportivas foram fundamentais neste processo. Numa passagem do capítulo “A Gynasthica Brasileira”, ela comenta as fundamentações dos discursos presentes neste período: Em meio ao período repressivo da capoeira iniciam-se gestões no sentido de higienizar, isto é, minimizar ou destituir de sua origem africana aquela que era a gynasthica brasileira por excelência. Entretanto essa nova representação social da capoeira como esporte – que vai, pouco a pouco tornar-se hegemônica – tem origem nos mesmo pressupostos teóricos do determinismo racial, nesse momento histórico, o discurso médico higienista, impregnado de uma visão eugênica, enfatiza a ginástica como fator de regeneração e purificação da raça.26 A autora entrou no debate sobre o embranquecimento da capoeira, indicando este ter se iniciado já ao final do séc. XIX, uma vez que observou a participação de muitos sujeitos oriundos dos grupos dominantes como doutores, políticos, chefes de polícia e escritores na prática e no debate sobre a capoeira. Estes personagens acabaram elaborando uma interpretação cultural da capoeira como uma prática civilizada e, até mesmo, enobrecida. 26 REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000, p.60. 29 Neste ponto, é premente uma discussão com Lilia Schwarcz, na obra O espetáculo das raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930) 27 , onde a autora explorou a questão das teorias científicas e raciais que se disseminaram nos meios intelectuais e políticos do país, ao final do séc. XIX e no início do XX, importadas da Europa, principalmente França e Inglaterra. A autora indica que teses sustentaram-se na interpretação hierarquizada das raças branca, negra e amarela28, e esta hierarquização racial indicava também uma diferenciação cultural, como se a cultura acompanhasse o desenvolvimento políticoeconômico de um país. Assim, as culturas advindas de países ou regiões não civilizadas (como a África Neocolonizada, pós-1885), entendidas por inferiores, não eram bem vindas, tão pouco se permitiria sua prática. Essa problemática constitui-se como central na análise da capoeira deste período, pois percebi que a saída encontrada pelos intelectuais para o problema da melhoria da raça foi o branqueamento, todavia através da miscigenação. Schwarcz nos mostrou como, no caso nacional, a adaptação deste ideário cientificista gerou problemas, uma vez que já havia profunda miscigenação étnica e cultural, entre europeus, africanos e indígenas e que esta mistura era vista justamente como fator de atraso29. Mesmo assim os intelectuais acabaram encontrando na capoeira a origem mestiça da cultura que almejavam, atribuindo o problema de sua prática aos malandros e insubordinados que a praticavam. 27 SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças – Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 7ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 28 SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças – Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 7ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.62. 29 Ibidem, p.18. 30 4. Embranquecimento da capoeira: formação e exclusão cultural nacional. Aprofundo a questão do branqueamento da capoeira uma vez que, atualmente, discute-se sobre o momento em que ela deixou de ser prática exclusiva dos afrodescendentes e passou a ser praticada também por pessoas brancas. Esta discussão levou erroneamente em alguns casos a atribuir-se ao Mestre Bimba – criador da Capoeira Regional e primeiro mestre a ter academia registrada e autenticada por órgão público e registro na Secretaria de Saúde – a responsabilidade por ensinar a capoeira às classes elitizadas e a pessoas brancas, os filhos de doutores soteropolitanos, tornando-se assim o branqueador da arte-luta. Em uma das Teses de Dissertação que me utilizei na pesquisa, de autoria de Sérgio Luiz de S. Vieira, Capoeira – Matriz Cultural para uma Educação Física Brasileira30, foi clara a intenção do autor de atribuir o chamado embranquecimento da capoeira à única pessoa de Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado). Nas indicações deste autor, pelo fato de Mestre Bimba ter sido um dos primeiros mestres a ensinar em ambiente fechado e regulamentado, ele teria levado muitos alunos das classes altas e médias de Salvador a se tornarem alunos da capoeira-esportiva, entre as décadas de 1930-60. Assim, para Vieira, Mestre Bimba seria o principal agente no embranquecimento da capoeira, ensinando capoeira aos filhos dos grandes doutores da Bahia.31 Faz-se urgente para o universo da capoeira que se esclareça esta questão, pois cabe aos historiadores não o papel de anunciadores da verdade, mas sim o de 30 VIEIRA, Sérgio L. de S. Capoeira – Matriz Cultural para uma educação física brasileira. Tese de Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC-SP, 1997. 31 Ibidem, p.85. 31 questionadores das idéias que se propagam como verdades. Portanto, busquei questionar sobre o branqueamento da capoeira e que personagens contribuíram para sua aceitação como prática cultural e em que momento isso se fez possível. A seguir, pretendi demonstrar como os escritores e cientistas que estudaram a capoeira, como Plácido de Abreu e Mello Morais, ora aceitando a perseguição à prática da malandragem, ora tendendo a sua permissão com devidas limitações, foram os responsáveis pela disseminação da capoeira como cultura também para brancos, levando-a das praças, becos e ruas da cidade aos meios intelectuais e ambientes elitizados à moda gentlemen, civilizados. Percebi que as elites dominantes tiveram que criar a idéia de uma capoeira branqueada, ou seja, civilizada, e que os negros e mestres praticantes da arte luta, responsáveis por seu ensino e propagação, se adequaram às necessidades sociais de suas gerações, não podendo assim ser responsabilizados por branqueá-la. Na formação cultural nacional, entendi que as elites tenderam aceitar uma capoeira desafricanizada, excluindo de sua prática os rituais, as danças e cânticos que remontavam à herança da escravidão. Nos atuais grupos culturais de capoeira, esta questão é absolutamente presente e se busca resgatar tradições e influências de uma capoeira mais ritualizada através da orientação e proximidade com os mestres antigos da capoeira baiana, na medida em que a capoeira carioca também viveu processo de renascimento a partir do ensino de mestres baianos naquela cidade. 32 CAPÍTULO 2 PLÁCIDO DE ABREU: O OLHAR CRIMINALIZADO DA CAPOEIRA (1885-1890) 1. Pioneirismo no estudo da capoeira. O autor analisado nesta pesquisa foi o português Plácido de Abreu Morais. Nascido em 1857, em Portugal, veio ao Brasil imigrante, durante a década de 1880-90, juntamente com uma grande leva de lusitanos que aqui aportaram durante a fase final do Império. Aqui chegado instalou-se no Rio de Janeiro. Na capital da Corte Imperial, arranjou-se trabalhando como empregado em uma tipografia, responsável pelo lançamento de jornais diários e pequenas publicações, como livretos e romances. Acredito que durante esta fase ele acabou desenvolvendo também trabalhos literários, e não apenas serviços de subordinado, fato que ele próprio atestou na Introdução de seu livro, onde citou a intenção de produzir outro. Posteriormente, passou a trabalhar para o jornal O Correio do Povo, imprensa de forte atuação na campanha republicana e até mesmo anti-monarquista. Este jornal acabou perseguido pela ditadura Florianista durante a década 1890-1900, mas por aqui me reservo a buscar o envolvimento de Abreu com o movimento republicano, uma vez que a partir daí é que nosso autor acabou selando também seu próprio destino. 33 Muitos lusitanos imigrantes de sua época sofreram da parte das autoridades policiais vigília especial. Sabemos através da obra de Chalhoub32 que esses imigrantes, sem terem condições de se estabelecer nem arrumar emprego fixo, acabavam relegados à condição de marginalidade. No caso de Abreu, ele não acabou na condição marginal, pois arrumou trabalho remunerado, mas acredito que mesmo assim se relacionou com o mundo da capoeiragem marginalizada, em função da rebeldia e tendência a protestos que o caracterizavam. Abreu morreu em 1894, assassinado de forma inexplicada na zonal sul carioca, na saída de um túnel em Copacabana. O fato teve pouco espaço nos registros dos diários da cidade, e a causa de sua morte pode ter tido origem em sua militância contra a ditadura Florianista, quando da Revolta da Armada. Acredito que Abreu foi praticante da arte/luta capoeira. Esta questão também surgiu nos trabalhos acadêmicos em que me baseio como o de Liberac33, onde ele também acredita que Abreu foi praticante da capoeira. Portanto orientei minha análise no sentido de caracterizar a capoeira e os praticantes desta época, levando-se em conta a possibilidade de Abreu ter sido um praticante, mesmo não demonstrando aceitar os lutadores desta capoeira, como veremos. Sua obra foi de grande importância para o estudo da prática da capoeira do final do II Império, sendo peça chave na delimitação temporal de minha pesquisa, pois se tratou de importante registro tipológico34 dos capoeiras, caracterizados como malandro, 32 CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e boteqim – o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro na belle époque. Campinas: UNICAMP, 2001. 33 LIBERAC, Antonio Cardoso S. P. A capoeira no jogo das cores - Criminalidade, Cultura e Racismo no Rio de Janeiro (1890-1937). Tese de dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP, 1996, p.62. 34 Entendo aqui Tipologia através da exposição elaborada por Mello Morais (que será trabalhado no Capítulo 3), como o estudo das tradições, dos costumes e rituais que constituem a cultura das classes sociais. 34 valentão, capanga eleitoral. Foi a partir da escolha deste autor que pude pensar a prática da capoeira durante seus últimos momentos de relativa liberdade, lembrando que a fase das disputas entre as maltas, durante as décadas de 1870 e 1880, acabaria com a chegada da República e com a perseguição de Sampaio Ferraz. 2. Análise da obra Os Capoeiras. Numa das inúmeras coleções intituladas Miscelanea – freqüentes nos Acervos Gerais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – encadernado com outros exemplares raros, encontra-se um livreto de pouco mais de 80 páginas gastas e protegidas por fina folha de seda, intitulado Os Capoeiras35, lançado em 1886. Trata-se, portanto, da primeira obra literária escrita unicamente sobre a arte-luta da capoeira, trazendo ao público leitor aquilo que se sabia apenas de conversas, boatos perdidos pelas ruas e praças do Centro, de reportagens de jornal quando da prisão deste ou daquele desordeiro, ou quando das correrias e andanças pela madrugada da Corte. Até o momento, não tenho informação sobre outra publicação comercial em editora de que se tenha produzido um livro tratando exclusivamente sobre capoeiras. Sabemos que a capoeira já havia figurado em obras de nossa literatura, como o desordeiro Chico-Juca das Memórias de um Sargento de Milícias36 de Manoel Antônio 35 36 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo: Ed. Três, 1973. 35 de Almeida, e o Mestre Firmo, valente terrível de O Cortiço37, de Aluísio de Azevedo, mas um livro escrito apenas sobre este tema, falando de sua trajetória, grupos e praticantes ainda não havia. Abreu dividiu Os Capoeiras em duas partes. Na primeira parte intitulada Introdução, ele nos deu uma das maiores contribuições quanto à memória de uma época da capoeira que estava por ter seus dias contados. Abreu viveu a fervente década de 1880, momento em que a relativa liberdade que os capoeiras tinham lhes rendia serviços e influência. Na segunda parte, Abreu narrou através de pequeno romance uma série de conflitos vividos por Fazenda, um negro marginalizado que vivia de golpes, fraudes envolvendo-se com importantes figuras da alta sociedade, assim como Lucrécio Barba de Bode, imortalizado por Lima Barreto38. Outros personagens da vida popular marginalizada do Rio de Janeiro aparecem na trama, encenando justamente com o “herói” capoeira. Dei maior destaque na análise da primeira parte Introdução, onde Abreu nos apresentou um verdadeiro ensaio histórico e antropológico da capoeira de sua época. Pela quantidade de informações e casos relatados de capoeiras, conflitos e grupos organizados deste momento, dediquei a investigação no sentido de aprofundar o tipo social capoeira/malandro, buscando identificar na fala do autor indicações de seu discurso, bem como de sua visão para a prática da capoeira. Dividi as questões que Abreu abordou nesta parte em quatro temas, aprofundando-os separadamente: origem da capoeira, maltas e partidos rivais, organização interna e ensino, e rituais de conflito. Meu objetivo em analisar estes temas 37 38 AZEVEDO, Aluísio de. O Cortiço. São Paulo: Ed. Moderna, 1999. BARRETO, Lima. Numa e a Ninfa. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1986. 36 separadamente foi ter ampla visão de como ele fez sua descrição, analisar os principais argumentos sobre a prática da capoeira e buscar uma noção sobre os sujeitos praticantes contextualizados. 2. a. Origem da capoeira. Uma primeira abordagem sobre a obra do autor nos leva ao questionamento que, ainda atualmente, movimenta todos os estudos sobre a capoeira no Brasil: qual a origem da capoeira? Nesta pesquisa não pretendia me aprofundar nesta questão, mas Abreu me trouxe mais uma vez a ela, pois ele também questionou sua origem. Assim, compreender esta indicação é fundamental no desvendamento de sua ideologia. Este tema foi uma das bases que alicerçou meu TCC ainda durante minha graduação, em função da pertinência de se problematizar esta questão quando pretendemos mapear a identidade afro-descendente no Brasil de outrora, e esta mesma questão passou por uma série de trabalhos acadêmicos e pesquisas39 sobre a arte-luta. Todos apontavam o seguinte questionamento: a capoeira é africana ou brasileira? Como resposta, muitos mestres de capoeira, assim como muitos estudiosos, atualmente endossam ser ela uma ancestral manifestação cultural africana, que em solo nacional mesclou diversos elementos advindos de outras matrizes culturais – européia e indígena – para configurar-se como a conhecemos. Assim nesta perspectiva temos uma capoeira afro-descendente. No entanto, há divergências com relação a este 39 Vide Referência Bibliográfica. 37 ponto de vista, quando percebemos que outros autores apontam uma capoeira formada em território nacional, oriunda sim de reminiscências africanas, mas formada e desenvolvida no Brasil, sendo para estes, portanto brasileira, como já apontou Vieira40. Abreu registrou sua visão sobre a origem da capoeira logo no trecho de abertura de sua obra: É um trabalho difícil estudar-se a capoeiragem, desde a primitiva, porque não é bem conhecida a sua origem. Uns, atribuem-na aos pretos africanos, o que julgo um erro pelo simples facto de que na África não é conhecida a nossa capoeiragem e sim algumas Sortes de Cabeça. Aos índios também não se pode atribuir porque apesar de possuírem a ligeireza que caracteriza os capoeiras, contudo, não conhecem os meios que estes empregam para o ataque e a defesa. O mais racional é que a capoeiragem criou-se, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se entre nós.41 Primeiramente, como a grande maioria dos intelectuais de sua época, sua intenção declara-se contrária a dar à capoeira uma origem africana. Nosso autor afirma que na África a capoeira não era conhecida, pois as primeiras viagens de campo ao continente africano com o objetivo de buscar tradições culturais que remetam à capoeira, só foram realizadas por estudiosos e mestres de capoeira há poucas décadas (1960-90), e não tenho nenhuma informação sobre a passagem de Abreu pela África, mas sua afirmação ainda sim está correta. Apesar de negar sua origem africana, acredito que ele acaba caindo em contradição ao se referir aos movimentos presentes na capoeira. As sortes de cabeça apontadas por Abreu possuem muito das cabeçadas, movimento este citado em diversos documentos que atestam as façanhas dos capoeiras no final do séc. XIX. Então aqui abro um questionamento quanto à postura de Abreu: por que não aceitava a 40 Ver cap. 1, VIEIRA, Sérgio L. de S. Capoeira – Matriz Cultural para uma educação física brasileira. Tese de Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC-SP, 1997. 41 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.01. 38 influência africana sobre a capoeira? Por que a negação desta matriz cultural, mesmo quando há indícios que possam apontar nesta direção? Sem a escravidão da população africana não haveria a capoeira, poderíamos ter outras formas de luta, mas não como a capoeira. Sem a cultura ancestral trazida com eles da África, mesmo que a adaptando nestas terras a outra situação sócio-cultural, não haveria uma arte/luta disfarçada em dança. Outra característica intrigante é Abreu referir-se à capoeira como tendo se formado entre nós. Lembrando a origem e a trajetória deste autor, a que nós ele se refere? Estaria ele se referindo à ‘alta sociedade’ que pretendia civilizar-se nos trópicos? Ou o nós a que se refere seria a população pobre, moradora dos cortiços, imigrante, negra? Percebemos assim que ele se considerava integrante da nação, referindo-se como nós à sociedade brasileira, mas acabava por negar essa integração à cultura africana, excluindo esta matriz como formadora da cultura nacional. Essa tendência de integrar culturas em detrimento da negação/ exclusão de outras era clara por parte das elites dominantes e dos grupos emergentes no cenário urbano, ou seja, baseava-se na ideologia da hierarquia racial, como vimos com L. Schwarcz42 e Letícia Reis43, que tendia a assegurar às culturas africanas a caracterização primitiva e bárbara. Minha intenção em explorar este tema não foi concluí-lo, mas sim indicar que a visão de Abreu sobre a capoeira partiu desta ideologia, e num período em que se tratou 42 SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças – Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 7ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 43 REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000. 39 de instituir os grupos sociais na formação cultural do país, acredito ter sido necessário inferiorizar as culturas populares na hierarquizada sociedade aristocrática. 2. b. Maltas e partidos rivais. Ao final do Império, a capoeira praticada ocorria através das disputas entre maltas e partidos rivais. Esta capoeira das maltas foi tema amplamente descrito por Abreu, sendo também retomado por diversos pesquisadores posteriormente. Os capoeiras envolvidos em conflitos nas ruas criaram verdadeira escola de capoeiragem, perdurando por tanto tempo que acabou por fixar-se na memória dos praticantes e na penumbra dos que a temiam como a prática de desordeiros, vadios e assassinos, durante as décadas seguintes. Abreu não abordou a origem destes grupos, mas retratou suas disputas, atestando sua presença marcante no cotidiano da cidade: Guaiamu é o capoeira que pertence aos seguintes partidos: São Francisco (grande centro do qual foi chefe Leandro Bonaparte), Santa Rita, Marinha, Ouro Preto, São Domingos de Gusmão, além de muitos outros pequenos agregados a este. A denominação que têm esses grupos é a casa ou a província, e a cor por que são conhecidos é a vermelha. Nagoa é o capoeira que pertence aos seguintes partidos: Santa Luzia (centro do qual foi chefe Manduca da Praia), São José, Lapa, Santana, Moura, Bolinha de Prata, além de muitos outros menores filiados àqueles. A cor pelo que são conhecidos é a branca.44 44 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.02. 40 Ele indicou ser a disputa por espaços na cidade responsável pela arregimentação dos praticantes, e testemunhou ser ela fator de aglutinação dos grupos. As famosas maltas dos Guayamús e Nagôas, grupos tradicionais que eram rivais e disputavam palmo a palmo as principais freguesias do Rio de Janeiro, encenam como os principais atores neste espetáculo sócio-urbano que era a sede da Corte Imperial. Observamos que Abreu se referiu aos capoeiras exclusivamente pela sua localização geográfica nos bairros da cidade. Ele não abordou a fundamentação política destes grupos, fato que tem sido abrangido somente por recente historiografia da capoeira e que discutimos no primeiro capítulo. Através desta historiografia também temos indícios de ser o primeiro grupo favorável à causa monarquista e o segundo, à causa republicana45. Assim, acredito ser necessário outro questionamento: o autor via a possibilidade de conscientização política destes sujeitos lutadores de capoeira? Lembrando que o autor fora escritor e tipógrafo, estaria ele inferiorizando os capoeiras por suas condições carentes de educação formal? Estas são questões levantadas que não podemos determinar uma resposta, mas que nos permitem problematizar os sujeitos em sua posição na sociedade hierarquizada. Acredito que Abreu devia estar se referindo aos capoeiras com uma tendência elitista, em função das condições marginalizadas destes afro-descendentes e em função de sua própria trajetória imigrante, levando-se em consideração as disputas já apontadas que havia entre brasileiros negros e portugueses brancos. Com sua descrição, Abreu nos mostrou uma cidade recortada entre grupos de capoeiras, e que principalmente o Centro da Cidade seria o local de atuação destes 45 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição – os capoeiras na corte imperial (18501890). Rio de Janeiro: Ed. Acess, 1999. 41 grupos. Assim, o Centro passaria gradualmente a ser mal visto pela sociedade elitista e mal caracterizado pela imprensa dominante, consagrando-se o palco das contendas entre capoeiras. Creio ser esta informação determinante para a grande cirurgia que sofreia esta região da cidade durante a fase de modernização e civilização, desde os primeiros abaixo os cortiços de Barata Ribeiro já em 1895, à fase crítica e explosiva de Pereira Passos e Oswaldo Cruz, em 190446. Vale destacar que havendo diversos colégios eleitorais espalhados por esta região, e sendo a presença dos capoeiras nestas freguesias incontestável, sua importância para a prática da arte-luta será fundamental para constituição de sua memória social. Na descrição dos termos e gírias ao final da Introdução, Abreu revelou os segredos destas maltas e de suas regras de conduta: Cambar: passar de um partido para outro Tapear: enganar o adversário Pegada: encontro de dois partidos inimigos Bramar: gritar o nome da província ou casa a que pertence o capoeira Leva: grito de vitória, perseguição ao inimigo Rujão: batalhão ou sociedade Desgalhar: fugir da polícia Jangada: xadrez de polícia Palácio de cristal: detenção Chácara: Casa de Correção Quero estia, quero tasca, senão bramo: quero parte disto ou daquilo, roubado, senão denuncio.47 Abreu fala de lados diferentes, grupos que eram rivais, mas que estavam abertos a trocas de posição, mantendo os mesmos papéis. Apesar da aproximação dos Guayamus à causa monárquica, envolvidos pela figura popularizada da Princesa Isabel, e dos Nagôas ao patrocínio republicano, percebemos aqui que havia a possibilidade de 46 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.18. 47 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.06. 42 troca de partido. Os partidos políticos nesta época organizavam suas plataformas mais pelas políticas de alianças oligárquicas que pela ideologia, como também já apontou Carvalho48, dando margem à necessidade de manutenção da situação que lhes convinha; também as maltas de capoeiras posicionavam-se da mesma forma, demonstrando estarem envolvidas nas disputas políticas e saberem jogar conforme as regras. Ironicamente, Abreu nos descreve uma situação que demonstra esta questão de adaptação à situação conforme o inimigo a se deparar: Em outro tempo, quando dois bandos de capoeiras brigavam e aparecia a polícia, uniamse as duas forças inimigas para baterem a força pública.49 Assim, vemos que os capoeiras tinham sua orientação política, mas preferiam agir como verdadeiros profissionais, mudando de lado conforme o pagamento, o contratante ou o inimigo em comum. Desta forma sagrou-se o tipo capoeira capanga/eleitoral, que prestava serviços nas épocas eleitorais, utilizando a capoeira como arma de intimidação e hostitlidade. Esses capoeiras capangas sempre estavam a disposição de políticos, que os utilizavam para hostilizar os adversários em tempos de eleições. Muitos desses adversários eram as próprias Gazetas e Jornais Diários, uma vez que ao longo das décadas 1870-80 constituíram-se como importantes meios na divulgação das questões políticas e partidárias na Corte50, bem como na formação da opinião pública na cidade, divulgando biografias, notas, oratórias, etc. Na imprensa diária do período, há casos de periódicos eminentemente liberais favoráveis à causa republicana, que foram alvo de 48 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 49 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.05. 50 BARBOSA, Marinalva. Os donos do Rio. Rio de Janeiro: Ed. Vício de Leitura, 2000. 43 ataque de maltas organizadas de capoeiras, claramente tendenciosos à manutenção monárquica. Na historiografia discutiu-se de forma mais abrangente este tema51, mas na pesquisa selecionei os casos mais elucidativos, para não me distanciar muito da análise dos intelectuais e dos capoeiras. Acredito ser importante trabalhar alguns exemplos para comparar aos capoeiras descritos por Plácido de Abreu. Lendo alguns dos jornais diários, como a Gazeta de Notícias e o Jornal do Comércio, observamos casos constantes de agressões de grupos de capoeiras a plena luz do dia, durante as décadas de 1870-80. Motivados por questões de organização partidária, os capoeiras agiam sem qualquer medo de represálias ou da ação da força pública, como este caso ocorrido no dia 05 de janeiro de 1885: Ontem, pelas três horas da tarde, foi a casa da Gazeta da Tarde invadida por um grupo de capoeiras que vinha em perseguição de vários vendedores desse jornal, que uns com os outros repetiam ainda uma vez aquelas lutas pela preponderância, aos gritos de “Entra Santa’ Ana!” e “Encosta Santa Rita!”. Ao chegarem à Gazeta os pequenos refugiaram-se ali, e os outros precipitaram-se atrás deles, agredindo o jornal da casa, que quis-se opor àquela agressão.52 Este caso é um exemplo claro da atuação dos capoeiras-capangas na capital. O periódico Gazeta da Tarde era um diário vespertino, de média tiragem e não fazia muita frente aos grandes diários da cidade, mas caracterizava-se por ser publicamente liberal53. Produzia em suas colunas reportagens de cunho republicano, aproveitando o momento para publicar diversas críticas às políticas do Imperador. O Folhetim que relatou o caso era da mesma tipografia, e publicou-o como nota de ressalva, aludindo para que o ocorrido não se repetisse com as demais gazetas de menor porte. 51 Vide Referência Bibliográfica. Folhetim Folha Nova, 05 de janeiro de 1885. 53 BARBOSA, Marinalva. Os donos do Rio. Rio de Janeiro: Ed. Vício de Leitura, 2000. 52 44 Neste dia, a malta de capoeiras monarquistas parece ter resolvido acabar com a venda do diário oposicionista em suas freguesias. Sua afronta á luz do dia dá indícios de que a polícia não era ameaça para suas ações e que as maltas gozavam de relativa liberdade para sua atuação, o que podemos associar ao fato dos capoeiras serem definitivamente contratados por senhores de forte influência política. Soares explorou exaustivamente estas maltas organizadas, falando de suas formas de atuação e da impossibilidade da força pública contê-las, uma vez que políticos de carreira sempre estavam por trás de suas ações e condutas. Ele analisou um caso típico54, ocorrido em 1873 – na década anterior – quando o jovem conservador Duque-Estrada Teixeira venceu as eleições para a Câmara dos Deputados pelo Partido Conservador, utilizando-se de capoeiras para afugentar seus opositores liberais no dia da eleição. A imprensa ilustrada da época - com poucos recursos técnicos disponíveis para a utilização da imagem em suas páginas em função dos primeiros passos que ainda dava na principal cidade do Império55 - rechaçou o caso, utilizando-se como motivo para uma série de ataques às práticas monarquistas anti-democráticas e anti-liberais, uma vez ser o deputado monarquista e anti-republicano ferrenho. Na revista ilustrada Vida Fluminense, utilizando a ilustração ainda “jovem” na crítica política ao regime de Angelo Agostini, importante caricaturista do fim do Império, considerado pioneiro nesta área dentro da imprensa periódica56, caricaturou o caso na edição de 22/02/1873: 54 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição – os capoeiras na corte imperial (18501890). Rio de Janeiro: Ed. Acess, 1999, p.87. 55 BARBOSA, Marinalva. Os donos do Rio. Rio de Janeiro: Ed. Vício de Leitura, 2000. 56 SILVA, Marcos A. Caricata República – Zé Povo e o Brasil. São Paulo: Ed. Marco Zero, 1990. 45 57 Temos nesta caricatura uma representação carnavalesca da prática política, com o político ovacionado e carregado, aclamado pela classe popular; mas observamos também que os que o carregam não são apenas eleitores, mas sim capangas, armados e hostis. Assim a revista estava além de caricaturando o caso, cumprindo seu papel de imprensa de oposição, denunciando a prática anti-democrática dos conservadores, que na época não passava de influência pessoal, realizada através da força e coação58. 57 Revista Vida Fluminense, 22/02/1873. CARVALHO, , José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 58 46 Mas, na década de 1880-90 onde temos a obra de Abreu, o crescimento do movimento republicano e a intensa agitação social vivida na Corte fizeram com que a ação das maltas capoeiras atingisse níveis alarmantes. Outro caso que pretendi dar destaque foi um violento conflito causado durante manifestação cívica, a Conferência Republicana/1888, realizada na Sede da Sociedade Ginástica Francesa, onde participavam importantes líderes deste movimento, como Silva Jardim. Acredito ter sido este caso o de maior demonstração de audácia e afronta às instituições civis causada por capoeiras, uma vez que o grupo de Silva Jardim era um Partido Republicano oficializado e seu principal dirigente era figura de destaque na cena política nacional. Através da leitura dos jornais diários da cidade, o que deu maior destaque ao caso foi o digno representante dos grupos dominantes e da política hegemônica59, o Jornal do Comércio. O diário assim expôs o caso em sua coluna noticiário policial, em primeira página: Em frente do edifício da Sociedade Francesa de Ginástica, onde o Dr. Silva Jardim fazia uma conferência, foi travada a 1 e ½ hora da tarde renhida luta entre pessoas que assistiam a Conferência e numeroso grupo de indivíduos, que estavam na rua. Pedras, garrafas, telhas, paralelepípedos, cadeiras, tudo serviu de projéctil de parte a parte e numerosos foram os estampidos de tiros de revólver, que se ouviram durante o conflito.60 Observamos tratar-se de um conflito ocorrido entre grupos diferentes, e que a causa política parecia ser a geradora de toda a situação. Este caso revela a forma como a capoeira-partidária representava um verdadeiro meio de participação política, dos quais os malandros e capangas faziam parte. Revela também que esta participação fazia-se pelo uso da força, da agressão e da violência, porém conferindo a estes grupos 59 60 BARBOSA, Marinalva. Os donos do Rio. Rio de Janeiro: Ed. Vício de Leitura, 2000. Jornal do Comércio, 31 de dezembro de 1888. 47 maior poder e vantagens na medida em que os pagamentos se faziam por poderosos, sendo possivelmente “gordos”. Nos dias seguintes, conferi que houve ampla cobertura do diário à apuração dos fatos, uma vez que inúmeros senhores de bem presentes no conflito foram alvejados e ameaçados pelos capoeiras, o que revela a tendência do jornal em manter-se fiel ao público leitor elitizado. Sabendo que os mesmos eram pessoas de influência na cena política, acredito que o diário apresentava clara tendência a cobrar das forças públicas ação, já apontando a criminalização dos praticantes da capoeira. Temos a descrição dos acontecimentos por parte de vários integrantes e participantes da conferência, descrevendo o conflito do ponto de vista dos republicanos que sofreram o ataque, atribuindo aos contrários as caracterizações populacho, turba, massa, porém não revelando sua condição de capoeiras. Num destes relatos, temos: O mesmo Sr. Caseaux informou-me que as pessoas do auditório que davam Vivas a República, correspondera ao povo da rua com Viva a Monarquia, ao Imperador e a Princesa.61 Observamos no relato que se tratou de um grupo vindo de fora que não se conteve ao ouvir os brados de Viva a República, advindos da conferência, e respondeu com Vivas a Monarquia, ao Imperador e a Princesa. A partir daí começaram as provocações com a conseqüência do conflito; nos relatos das praças e dos soldados envolvidos na contenção do caso, temos a descrição de xingamentos, seguidos de pedradas e garrafadas dos de fora, seguidos dos primeiros tiros dos de dentro. 61 Jornal do Comércio, 03 de janeiro de 1889. 48 Posteriormente, temos uma verdadeira guerra civil, com um lado trancado dentro da Sede da Sociedade Francesa disparando contra os de fora, que jogavam tudo para cima dos encurralados, tentando arrombar-lhes a porta. Nos relatos das prisões e das entradas na Casa de Correção, há uma série de indivíduos presos portando navalhas, arma clássica dos capoeiras da época. Também na relação de homens hospitalizados, levados pela polícia, havia vários relacionados dentre eles feridos pelas mesmas navalhas. Assim, podemos ver que os capangas assumiam a dianteira nas disputas políticas e que sua atuação determinou uma prática da capoeira expressa de forma violenta e agressiva, utilizando de armas e meios diversos para sua ação. Esse potencial da capoeira foi fundamental, pois dele partiu uma série de ataques contra sua prática, resultando na lei de criminalização, em 1890. Também a atuação da imprensa, no sentido de se indicar a necessidade de se controlar a prática da capoeira, aliada ao discurso dominante apresentado por Abreu de se olhar os capoeiras como criminosos, portanto criminalizando-a, foi fundamental na determinação de uma visão hegemônica que culminou com a perseguição implacável, durante a década de 1890-1900, através da atuação de Sampaio Ferraz. 2. c. Organização interna e ensino. Abreu caiu mais uma vez em ligeira contradição, quando caracterizou os grupos como bandos, tendendo a mesma visão dos principais jornais e gazetas. Apesar de 49 chamá-los assim, demonstrou posteriormente em suas descrições que eles eram mais que isso; falou da organização interna das maltas, bem como das regras que os grupos criavam. Ele abordou assim esta questão: Os partidos são organizados com um chefe, ajudante, cabos de esquadra e praças.(...) Os capoeiras de mais fama serviam de instructores àqueles que começavam.62 Desta forma, o autor revelou traços característicos de uma estrutura fixa e determinada, com rígida hierarquia imposta pela idade e experiência, o que nos sugere terem os praticantes desta capoeira longa carreira na arte da malandragem, sendo os mais afamados os responsáveis pelo seu ensino e transmissão. E foi justamente esta forma organizada e hierarquizada que se adequou ao sistema político-partidário da época baseado no clientelismo63, o que propiciou à capoeira aproximar-se dos grupos dominantes. Notamos em outras passagens, que Abreu descreve também a forma como a capoeira era ensinada e treinada pelos malandros e capangas. Cada malta de capoeira fazia seu treinamento em dia marcado e local já consagrado, como o próprio autor indica: Há pouco tempo ainda o bando Guayamú costumava ensaiar os noviços no Morro do Livramento, lugar denominado Mangueira. Os ensaios faziam-se regularmente aos domingos de manhã e constavam dos exercícios de cabeça, pé, e golpes de navalha e de faca. A princípio, os golpes eram ensaiados, fazendo-se uso da mão limpa; quando o discípulo aproveitava as lições, começava a ser ensaiado com armas de madeira e por fim serviamse dos próprios ferros, acontecendo muitas vezes ficar ensangüentado o lugar dos exercícios. 62 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.03. CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a república que não foi. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.38. 63 50 Os Nagôas faziam os mesmos ensaios, com a diferença de que o lugar escolhido por eles era a Praia do Russel, para com os partidos de São José e Lapa; e Morro do Pinto para os de Santana.64 Vemos que as maltas aproveitavam suas áreas de influência para garantir também o monopólio no ensino da capoeiragem naquela localidade, garantindo assim seu poder e sua situação. Então a questão da garantia da Freguesia era muito importante na constituição e organização da própria malta, que se originava nas praças dos principais bairros do centro da cidade. Observamos também que os golpes da capoeira aplicados a mão limpa sugerem uma prática da capoeira não letal, pois são golpes que podem causar uma lesão, mas não necessariamente morte, portanto há elementos de uma capoeira praticada como luta lúdica. No entanto, há elementos claros que atestam uma capoeira violenta, dotada de poder de morte, utilizando-se para tal do uso de armas brancas, com a consagrada navalha encenando como preferida. Neste ponto, acredito ser necessária atenção, pois vemos que a capoeira praticada não se resumia a apenas agressões com armas, mas havia também elementos lúdicos, que indicam a capoeira apresentar uma versão comedida, portanto controlada. Nelas também ocorreria a arregimentação das gerações futuras de capoeiras, através do ensino dos carrapetas: pequeno esperto (atrevido) e audacioso, que brama desafiando os inimigos65. Observamos assim que as gerações futuras das maltas estavam praticamente garantidas, uma vez que as freguesias continuariam sob sua influência, na medida em que as forças públicas não apresentavam um plano eficaz de atuação. O aliciamento de menores nas maltas é fato notório, sendo que a capoeira 64 65 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.02. Ibidem, p.06. 51 para estes garotos garantia poder de barganha e influência como jovens assistentes dos mais poderosos. Portanto a discussão sobre a capacidade ou não de organização rígida, hierarquizada e disciplinada podemos considerar esgotada, pois com estes indícios acredito estar claro que a capoeira era extremamente dotada de organização, fato que foi negado pelos autores das gerações seguintes que não a admitiam, atribuindo-lhes apenas papel de assassinos. Tratava-se mais de controlar a força que a capoeira possuía, e que dava mais e mais condições aos sujeitos marginalizados de barganharem na hierarquia social da época. 2. d. Rituais de conflito. Ao longo da Introdução, Abreu descreveu os grupos organizados e sua forma de atuação nas ruas. Nesta descrição temos a caracterização de uma série de rituais que possibilitavam aos praticantes da luta uma questão fundamental para sua constituição como grupo social: sua identidade. Nesse sentido, Abreu fez uma relação dos termos e gírias característicos das falas dos capoeiras e que expressavam sua natureza social popular e rebelde perante a ordem social imposta pelos grupos dominantes. Mas do texto também extraí casos em que as formas de se marcar e realizar um conflito na rua obedecia a uma série de atitudes consentidas por ambos os lados e que culminava com a luta. 52 Então, sua tarefa de traduzir as gírias dos capoeiras fez mais do que simplesmente descrever os tipos sociais da malandragem, ele nos abriu as portas do mundo clandestino das culturas marginalizadas deste período. Assim podemos pensar o universo dos capoeiras não somente através da visão das elites, mas também a partir de sua realidade social e dos próprios meios que utilizavam para sobreviver. Nesta parte, Abreu nos revelou segredos da capoeira a partir da linguagem própria dos praticantes, das relações entre os grupos e maltas rivais, seus modos de atuação, etc. O autor demonstrou conhecer estes aspectos, resultando daí sua fala parecer muito “de dentro” da capoeira, ou seja, ele teria praticado os movimentos para descrevê-los tão fielmente na forma poético-literária. Preferi expor todo o texto para depois analisá-los separadamente: Branquinha: aguardente Porre: pifão, bebedeira Cambar: passar de um partido para outro Tapear: enganar o adversário Marcha: procura do Adversário Leva: grito de vitória, perseguição ao inimigo Pegada: encontro de dois partidos inimigos Bramar: gritar o nome da província ou casa a que pertence o capoeira Senhora da Cadeira: Santana Velho carpinteiro: São José Velho cansado: São Francisco Senhora da Palma: Santa Rita Espada: Senhora da Lapa Carrapeta: pequeno esperto e audacioso que brama desafiando o inimigo Sarandage: pequeno capoeira, miuçalha Vou ver-te cabra: ameaça para brigar Alfinete, biriba, biscate ou furão: estoque ou faca Sardinha: navalha Endireitar: enfrentar com o inimigo Bracear: dar pancada com os braços Lamparina: bofetada Trastejar: dar um golpe falso Chifrada: cabeçada Caveira no espelho: cabeçada na cara Alto da sinagoga: rosto Baiana: joelhada que se dá depois de se haver saracoteado para tapear o inimigo 53 Pantana: volta sobre o corpo, aplicando os pés contra o peito do adversário Rabo de arraia: volta sobre o corpo, rodando uma das pernas de encontro ao inimigo Passo de siricopé: pulo que dá o capoeira depois que faz negaça, para ferir Caçador: tombo que o capoeira dá, arrastando-se no chão sobre as mãos e o pé esquerdo e estendendo a perna direita aos pés do adversário. É direito: é destemido Firma: não foge Grampear: pegar à unha o adversário Foi baleado: está ferido Melado: sangue Mole: covarde Piaba: sem valor Dar sorte: cair em ridículo ou cousa bem desempenhada Passo de constrangimento: vacilação do inimigo quando leva um tombo ou é vencido; ato de retirar-se cabisbaixo Rujão: batalhão ou sociedade Distorcer: disfarçar ou retirar por qualquer motivo Desgalhar: fugir da polícia Jangada: xadrez de polícia Palácio de cristal: detenção Chácara: Casa de Correção Quero estia, quero tasca, senão bramo: quero parte disto ou daquilo, roubado, senão denuncio Arriar: deixar de jogar capoeiragem.66 O autor nos demonstrou que os conflitos entre maltas eram travados por intermédio de rituais consagrados, geralmente iniciando-se com a provocação de um dos partidos ou grupos rivais, bramando o nome da freguesia correspondente e intimidando o adversário através da apresentação das armas, alfinete e sardinha, e a contenda propriamente dita, ou seja, a luta de capoeira. Observamos através destes indícios que a capoeira não possuía neste caso roda, uma vez que as lutas eram travadas através de conflitos no meio da rua, chamados pela polícia de correrias, item que integra o texto de criminalização da capoeira em 1890. Também observamos que não faziam parte desta capoeira os instrumentos e ritmos musicais que a caracterizam atualmente. 66 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.06. 54 Nestes conflitos eram testados os golpes da capoeiragem, aplicados com os pés e cabeças e também a habilidade no uso de armas brancas ou cortantes, o que atesta as argumentações anteriores quando das agressões efetuadas pelos capoeiras. Observamos que os duelos entre capoeiras eram importantes na medida em que direcionavam mais ou menos treinamento, quando de uma surra levada por um dos lados. Vimos que os feridos, além de humilhados perante os capoeiras vencedores, tinham também sua fama questionada e acabavam presos pela polícia. Outra conseqüência eram os mortos. A quantidade de agressões dolosas descritas por Abreu foi utilizada pela imprensa e pelos grupos dominantes para dar noção ameaçadora à capoeira, fazendo dela um “mal social”, tornando-a verdadeiro crime. A presença da polícia não representava aos capoeiras problema, uma vez que na última passagem o capoeira ainda reclamava privilégios em seu processo, querendo tasca e estia, provavelmente diminuição ou até mesmo absolvição da pena, o que indica saber de informações que não podiam ser denunciadas. Analisando a narrativa dos capoeiras de Abreu, observamos que o aspecto ritual mais importante na prática dos capoeiras era a identidade. Como eram os bairros (ou freguesias) os motivos das disputas, identificar-se com uma freguesia era fundamental no ingresso do sujeito para o universo da capoeira. Já vimos também que a cor foi outra forma ritualizada encontrada por Abreu para esta identificação. Os guayamus eram identificados pela cor vermelha, e os nagôas pela cor branca. A questão das cores destes grupos é importante na medida em que representa certo reconhecimento da capoeira como instituição social. Na narrativa o autor assim expôs como a questão da cor causava verdadeiros conflitos em plena cidade pulsante: 55 Assim quando em uma fortaleza (taverna) encontram-se capoeiras adversários, o guayamu pede vinho e aguardente, derrama esta no chão e saracotea em cima, lançando por fim o vinho sobre a aguardente. (...) é bastante isso para começar a luta, porque o capoeira não consente que a sua cor seja pisada e muito menos que se coloque sobre ela a cor dos adversários.67 Podemos observar mais uma vez os capoeiras sem a menor preocupação com represálias policiais, pois entravam em estabelecimentos comerciais e causavam conflitos pelo simples fato de encontrarem adversários, sem ter havido motivação prévia para tal. Destaco que o ritual de provocação de um conflito iniciava-se com a utilização de elementos constitutivos de seu próprio dia-a-dia, como botequins, bebidas alcoólicas, etc., justamente características que levaram as autoridades policiais e os intelectuais posteriormente a associarem estas práticas à própria prática dos capoeiras, culminando assim com sua proibição. Pelo fato do capoeira entrar em um recinto comercial causando uma briga, vemos que a identidade não passava apenas pela forma de se vestir, mas também de se portar, bebendo e até mesmo brigando na taverna, querendo assim através da provocação dominar o lugar, garantindo influência e situação privilegiada. Abreu nos descreve mais um característico caso ocorrido após a saída de um préstito partidário, em que os capoeiras encenam tanto como seguranças como milicianos organizados: Quando, por exemplo, a banda de música sahe do centro da cidade, isto é da terra dos Guayamús, e dirigi-se para os lados da Lapa ou Cidade Nova, os capoeiras que pertencem aqueles partidos acompanham o Batalhão, prevenidos para o encontro com os Nagôas, visto irem à “terra alheia”. Estes já os esperam e, chegada a música ao local onde se acham, sahe o carrapeta (pequeno esperto e atrevido) de entre os companheiros com direção aos Guayamús e brada: 67 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.02. 56 _É a Lapa! ... é a Espada. Quando é daquela província. _ É a Senhora da Cadeira! Quando é de Santana. _ É o Velho Carpinteiro! Quando é de São José. E assim por diante. Então trava-se a luta.68 Assim observamos que o fato dos capoeiras irem acompanhando os desfiles e marchas públicas já podia ser motivo para atenção das autoridades policiais, mas não, quem os acompanhava eram justamente os capoeiras que intencionavam encontrar-se com os rivais para suas contendas. Vemos também os carrapetas demonstrando audácia e valentia, indo à frente dos préstitos gritando o nome dos inimigos a sua primeira vista. Acredito que estes rituais tinham por papel dar identidade aos grupos sociais marginalizados, do qual os capoeiras tinham como alternativa ingressarem nas maltas e desafiarem a ordem pública, que era na realidade sua própria algoz, atenta controladora. Pareceu-me ter sido uma forte motivação para ingressar no universo da capoeiragem, pertencer o sujeito a uma freguesia (ou bairro), ser conhecido nas ruas por valente, adquirir “status” numa sociedade elitizada, na qual os negros não tinham praticamente nenhuma chance de ascensão. Observamos assim que Abreu não aceitava a condição social dos que a praticavam, mas ele também não deu nenhum indício de que desejava sua melhoria nem apontava alternativa política para tal. Assim em sua obra temos uma tendência a se aceitar o controle da capoeira e sua prática neste momento, e que principalmente esta opinião surgia em função da situação de marginalização social dos que praticavam a arte-luta, os malandros e capangas. Veremos com o próximo autor pesquisado, Mello 68 ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886, p.03. 57 Morais, que este tinha objetibvos mais claros e definidos para uma nova prática da capoeira, baseado em outras influências que pretendi aprofundar e investigar. 58 CAPÍTULO 3 MELLO MORAIS: A CAPOEIRA COMO LUTA NACIONAL, A PARTIR DE UM OLHAR CIENTÍFICO (1901-1909) 1. Intelectuais e formação nacional. Destaco a obra de Alexandre Mello Morais Filho por ter sido o primeiro a publicar um ensaio de orientação científica sobre a capoeira, durante a fase de maior repressão por parte das autoridades policiais através de sua classificação como crime previsto em lei. Mello Morais era baiano, mas passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Nasceu em Salvador em 1843, vindo a falecer na capital federal em 1919. Durante sua infância na Bahia gozou de vida luxuosa e de muitas possibilidades. A família o preparava para as ordenanças para o clero, ou seja, planejava fazê-lo padre, assim foi enviado pela primeira vez ao Rio de Janeiro em 1866, matriculando-se no Seminário de São José. Posteriormente, regressando para Salvador para concluir sua formação, acabou envolvendo-se com estudantes de Direito e jovens literatos, residindo em uma república estudantil, em função de sua família ter tido problemas financeiros e praticamente falido. Apresentando muito gosto por poesia, envolveu-se com figuras promissoras de nossa literatura como Castro Alves, Lapa Pinto, Pedro Moreira, dentre outros. Com esta influência e distante da família que o prometera ao clero, o jovem acabou afastando-se 59 de fato das ordenanças, dedicando-se assim à literatura e jornalismo, que viria a ser sua profissão futuramente. O autor teve uma passagem pela Europa, onde residiu na Inglaterra e na Bélgica. Na Grã-Bretanha, trabalhou no jornal Eco Americano, escrevendo reportagens sobre o Brasil e nossa cultura em terras estrangeiras; este jornal acabou não tendo muito sucesso, fechando pouco tempo depois. Assim, o autor mudou-se para a Bélgica, onde estudou Medicina, chegando inclusive a formar-se em curso oficial. Acredito que esta última passagem foi importante na constituição do discurso de Mello Morais, dando um forte tom cientificista às suas interpretações, o que aparecerá bem explícito em sua obra quando ele refere-se às culturas e costumes de origem africana e indígena, que veremos mais adiante. Voltando da Europa, fixou-se definitivamente no Rio de Janeiro, onde viveu até o fim de sua vida. A partir deste regresso, Mello Morais viveu um período de intensas mudanças no modo de vida brasileiro, com a ampliação do trabalho assalariado e a ascensão das cidades como centros cosmopolitas, onde as noções de civilização e progresso eram palavras de ordem. Nesse contexto, o autor demonstrou profundo interesse e gosto pelas coisas do Brasil, passando a partir daí a dedicar sua obra na compreensão da cultura nacional, estudando a literatura, a poesia, e, principalmente, as tradições culturais mantidas pela crença popular. A obra de Mello Morais encontra-se no campo da etnografia, sua maior coleção, mas também produziu diversos ensaios sobre história literária, poesia, crítica de arte, comentários em colunas semanais, etc. Compará-lo à Plácido de Abreu seria pensar dois personagens de uma mesma história, mas com papéis distantes. Abreu era imigrante, republicano que se envolvera com a campanha fervente contra a monarquia; 60 Mello Morais era brasileiro, com uma trajetória elitizada, formando-se doutor na Europa e voltando ao país para colher os frutos que seu diploma lhe possibilitaria. Mas ambos apresentaram interesse pela capoeira, sugerindo serem sujeitos “próximos” de certa forma da cultura das ruas e de seus principais atores, os grupos marginalizados. 2. Análise da Obra Capoeiras e Capoeiragens. Em uma das mais originais obras produzidas sobre cultura popular do início do séc. XX, publicada em 1901 no Rio de Janeiro, Festas e Tradições Populares do Brasil69, Mello Morais abordou uma série de manifestações, rituais e eventos culturais praticados no Brasil, realizados através de comemorações, danças, apresentações cênicas, eventos religiosos diversos, etc. Dentre esta infinidade de manifestações culturais, ele abordou também a capoeira. No capítulo Tipos de Rua, ele descreveu e analisou diversos personagens conhecidos pelas ruas e praças do Rio de Janeiro, figuras que se tornaram imortalizadas pela continuidade de práticas advindas de épocas anteriores. Mello Morais selecionou Capoeiras e Capoeiragens para mostrar as tradições dos malandros das ruas da capital, demonstrando ser a arte/ luta uma prática já difundida e conhecida em nossos meios sociais. Destaco esta característica como uma primeira valorização da capoeira como costume. 69 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901. 61 Neste estudo, Mello Morais passou pelos mesmos temas observados por Abreu, mas com questões pertinentes a sua época. Analisei suas argumentações, buscando comparar e diferenciar a obra de ambos, contextualizando assim seus olhares e as fundamentações de seus discursos sobre a capoeira. Acredito que Mello Morais teve mais subsídios para investigar os temas, apresentando mais conhecimento das culturas populares, como também uma visão mais aglutinadora das mesmas. A diferenciação entre ambos consistiu na obra de Mello Morais ter tom memorialista70, ficando claro em diversos momentos ele rememorar por sua própria experiência épocas anteriores a geração dos capoeiras do II Império. Vimos na obra de Abreu que ele descrevia acontecimentos de sua época, inclusive mantendo relações com capoeiras, já Mello Morais observa uma capoeira quase extinta, buscando valores em seu passado para reerguê-la como prática. Minha intenção não foi aprofundar a discussão sobre a questão da memória como fonte para o historiador, mas analisar o olhar dos autores sobre a capoeira, e no caso de Mello Morais é importante destacar esta fundamentação memorialista em sua obra. Destaco que, nesta obra, ele não desejou apenas relembrar os fatos vividos, se propôs compreender as culturas populares e suas formas de manifestação, dando direção à capoeira, atuando também como sujeito ativo em sua época. A obra de Mello Morais exigiu mais abrangência ao investigá-lo, pois observei que suas referências eram mais volumosas e a estruturação de seu discurso estava 70 Entendo aqui memorialista como um estudo baseado nas lembranças de sujeitos reais, que vivenciaram determinada época ou situação a ser lembrada. E essas lembranças têm o papel de dar novo significado ao momento em que o próprio sujeito que recorda vive, às suas expectativas e à sua própria condição. Para tal, tomo como referência a definição de Marilena Chauí, desenvolvida na Apresentação de Memória e Sociedade, de Ecléa Bosi, lembrar não é reviver, mas re-fazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição. 62 baseada numa visão científica, portanto seu olhar sobre a prática da capoeira mais complexo, comparativamente à obra de Abreu. Identifiquei como temas similares nas obras: a origem da capoeira, organização e disputas travadas entre das maltas e por fim uma descrição dos rituais de luta, da prática e dos movimentos. Dividi a análise de Capoeiras e Capoeiragens em mais temas, incluindo os novos apresentados: a capoeira como luta nacional e olhar científico da prática. 2. a. A capoeira como luta nacional. O autor começou sua análise comparando a capoeira a manifestações culturais, principalmente lutas praticadas em outros países. Assim, ele buscou através do estudo de nossa arte-luta comparar o Brasil do ponto de vista cultural às demais nações européias produtoras e exportadoras de cultura civilizada, tema que o próprio autor faz alusão já no início do texto sobre os capoeiras: Na Inglaterra há famílias de remadores, e de jogadores de sôco (...) os portugueses tem o jogo de pau, os franceses a savate. (...) No Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, há uma sub-classe que reclama distintíssimo lugar entre as suas congêneres e que tem todo o direito a uma nesga de tela no quadro da história dos nossos costumes – a dos capoeiras.71 71 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.257. 63 Quando Melo Moraes comparou a capoeira ao boxe inglês, ao savate francês e o jogo de pau português, o que me pareceu claro foi sua intenção em elevar o Brasil frente estas nações. É importante lembrar que nesta época as elites dominantes do país eram extremamente dependentes, em termos de importação de moda e valores culturais, das “novidades” então em voga na Europa, principalmente França e Inglaterra. Pela análise do texto percebi que a intenção do autor para com a capoeira era utilizar-se dela para melhorar a imagem do país, garantindo nossa grandiosidade cultural a partir de manifestações importantes, entendendo a capoeira na perspectiva de uma luta nacional. Porém, quando começou a discorrer sobre os sujeitos populares praticantes da capoeira e de suas façanhas, sua visão mostrou-se elitista como a de Abreu. Ele foi claro ao definir estes sujeitos capoeiras como sub-classe, assim implicitamente diferenciando hierarquicamente as classes sociais do país, caracterizando os afrodescendentes e populares como inferiores. Em sua obra ele não deixa claro qual ponto de referência está tomando para inferiorizar os capoeiras, mas acredito que sua referência seja o grupo social dominante do qual fazia parte. Com outro trecho podemos ver como sua visão elitista abarca também a própria prática da capoeira: Quando estudávamos no Colégio de Pedro II, foi nosso lente de francês o bacharel Gonçalves, bom professor e melhor capoeira. (...) O Dr. D.M., jurisconsulto eminente e deslumbrante glória da tribuna criminal, cultivou em sua mocidade essa luta nacional, entusiasticamente levada a excessos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens, em correrias reprovadas, em homicídios horrorosos.72 72 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.258. 64 Vemos que Mello Morais “enobrece” a capoeira, atribuindo a ela a participação de ilustres personagens da alta sociedade. Mas ao mesmo tempo ele a diferencia e inferioriza quando praticada nas ruas, caracterizando por povo baixo os malandros que a praticavam, cuja prática decorria em desordens, correrias e homicídios. Assim vemos que ele aceitava a capoeira quando realizada civilizadamente, por pessoas de “boa referência”, mas tendia a seu controle, lembrando que a capoeira de sua época já havia sofrido proibição e perseguição policial, na fase anterior (1890-1900). Mello Morais fala da capoeira através de um olhar esportivo, definindo-a como ginástica: O capoeira não é nada mais nem nada menos do que o homem que entre dez e doze anos começou a educar-se nesse jogo (a capoeiragem), que põe em contribuição a força muscular, a flexibilidade das articulações e a rapidez dos movimetnos – uma ginástica degenerada em poderosos recursos de agressão e pasmosos auxílios de desafronta.73 Percebemos em sua fala que ele deu destaque aos elementos presentes na capoeira característicos de uma luta esportiva. Como caso representativo desta tendência de se aceitar a capoeira como luta nacional civilizada, temos um desafio ocorrido em abril de 1908, travado entre representantes do jiu jitsu japonês e da tradicional capoeiragem nacional, explorado por importantes revistas ilustradas da capital federal. Destaco o papel destas revistas como novos meios de comunicação no espaço urbano em constituição, que eram exploradas pelas elites dominantes que disseminavam sua cultura como hegemônica, funcionando como instrumentos de 73 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p. 258. 65 valorização e disseminação de novos modos, costumes e valores na sociedade urbanizada, onde grupos emergiam, buscando novas identidades74. Entre 1908 e 1910 a Marinha Brasileira realizou ampla campanha a favor do jiujitsu, a ser ensinado como ginástica nas forças armadas. Mas o projeto da Marinha e dos japoneses mudou de rumo quando estudantes da Faculdade de Medicina e jornalistas sugeriram um desafio, a ser realizado em praça pública, entre representantes das duas modalidades. As Revistas Ilustradas O Malho, A Notícia e A Careta divulgaram o desafio como grande acontecimento da semana, dando indícios de que a capoeira como atração despertava interesses à imprensa, uma vez que novos grupos atraídos pela arte-luta tornavam-se público leitor, portanto consumidores75. Ocorrido em abril de 1908, figurado entre o japonês Sada Miako, divulgador do jiu-jitsu no Brasil e Ciríaco Francisco da Silva, lutador da capoeiragem nacional, este evento foi de grande importância por representar verdadeiro renascimento para a arte da malandragem, ocorrido após sua fase de ostracismo em meio à perseguição policial. O desafio contra a capoeiragem ocorreu no Concerto Avenida-Teatro, localizado no centro do Rio de Janeiro. A luta foi acompanhada por grande platéia, o que sugere que as disputas esportivas em praça pública vinham se tornando alvo de apreciação popular. A Revista O Malho deu cobertura posterior ao caso, publicando uma fotografia de Ciríaco em primeiro plano - vale destacar que a utilização da fotografia como recurso 74 CRUZ, Heloísa F. São Paulo em papel e tinta – periodismo e vida urbana (1890-1915). São Paulo: Ed. EDUC, 2000. 75 MARTINS, Ana Luísa. Revistas em Revista-imprensa e práticas culturais em tempos de república (1890-1922). São Paulo: Ed. EDUSP, 2001, p.345. 66 técnico novíssimo à época tinha como propósito dar maior destaque ao caso, bem como causar um relativo sensacionalismo no público leitor76 - todo trajado conforme a fina malandragem da época, em terno de linho branco, bengala a mão, chamada por ele Santo Antônio 16, além de seu chapéu de banda. Lemos no rodapé da fotografia a caracterização de Ciríaco, sendo agilíssimo e pacífico, justamente os valores pretendidos para os grupos marginalizados que faziam da capoeira manifestação hostil : 76 KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Ed. Ática, 1989. 67 O creoulo Ciríaco, agilissimo, pacifico e celebre capoeira, conduzido pela Avenida Central em alegre troça de estudantes que o proclamam em altas vozes – o vencedor do jiu-jitsu e doutor de borla e capello, em capoeiragem...77 A Revista “A Notícia”, importante meio literário da cidade, com longa data de publicação e ampla aceitação dentre as camadas mais elitizadas da sociedade carioca, também deu conta de prestar crédito ao caso. Ela prestou homenagem através de reportagem realizada em 17 de maio de 1909, onde temos importante registro do próprio capoeira. Na reportagem, a revista adotou os termos e colóquios de Ciríaco na íntegra, alegando estar trazendo ao seu público leitor a verdadeira narrativa dos acontecimentos e até para surpresa do próprio capoeira, que pedira que sua fisionomia e características particulares fossem respeitadas. Ele próprio depois comentou a destoante disposição da revista. Transcrevo também na íntegra sua entrevista: Cheguei em frente cum ele, dei minhas cuntinença e fiz a primeira ginga, carculei a artura do negrinho, a meiada das perna, risquei com a mão pra espantá tico-tico, o camarada tremeu, eu disse: Antão? Como é? Ou tu leva o 41 dobrado ou tu está ruim comigo, pruque eu imbolá, não imbolo. O japonês tremeu, risquei ele por baixo, dei o passo da limpeza gerá, o negrinho aturduou, mexeu, mas não cahio. Aí, Ciríaco! Entra com teu jogo inteiro! Eu me queimei e já sabe: tampei premeo, distroci a esquerda, virei a pantana, óia o home levando com o rabo-de-arraia pela chocolatera. Deu o ar comprimido e foi cume poeira. Ahi eu fiz o manejo da cumprimentação e convidei o home pro relógio de repetição, mas o gringo se acontentou com a chamada e se deu por satisfeito.78 Vemos assim o capoeira descrever a contenda com uma visão debochada e despretensiosa do fato, demonstrando os golpes e movimentos utilizados para vencer o adversário japonês. Pela sua fala, após atingir o estrangeiro com golpes precisos, o próprio reconheceu a superioridade do capoeira, assumindo a derrota antes que a 77 78 Revista O Malho, 13 de agosto de 1910. Revista A Notícia, 19 de maio de 1909. 68 situação piorasse. Claro que existe aqui tom vantajoso do malandro, mas a luta de fato foi vencida por ele. Na revista A Careta temos mais uma referência ao fato, divulgado em montagem fotográfica de página inteira, publicado em 29 de maio de 1909: 69 Vemos Ciríaco mais uma vez cercado pelos estudantes de medicina, realizando demonstração através de passos de agilidade, jogando a capoeira com outro integrante não identificado, exibindo sua categoria ao desfilar dentre eles muito bem trajado, característica valorizada pela cultura hegemônica. Observamos que a revista também enalteceu os feitos da capoeira nacional, assumindo-a como nosso jogo contra a influência estrangeira, representada pelo jogo japonês, o que indica que ela também demonstrava a preocupação de retratar e elevar culturalmente nossas tradições nacionais, no momento em que outros países também se exibiam internacionalmente. Após representar os movimentos da prática do jiu-jitsu, o leitor desfrutou dos passos e movimentos da capoeira demonstrados por Ciríaco em página cheia, apresentados de forma organizada e civilizada. As lutas vinham ganhando destaque como meio atrativo de novo público e a capoeira era digna representante nacional desta modalidade esportiva. Pudemos observar assim que, através das páginas das revistas ilustradas, a capoeira era utilizada como forma de se criar uma identidade nacional, forjada entre o público leitor masculino e a capoeira como luta nacional, capaz que hostilizar qualquer luta estrangeira. Acredito que este caso representou justamente o tipo de capoeira defendido por Mello Morais (para ele autêntica luta nacional) e que agradaria os grupos sociais que antes tinham medo e não aceitavam a antiga prática dos capangas eleitorais. Fica claro também que o desejo deste autor por uma capoeira civilizada era compartilhado pelas 70 revistas periódicas, importantes como meio de comunicação difundido dentre as elites consumidoras. Percebi assim que a cultura letrada e elitizada estava assimilando a capoeira como prática, aceitando-a como esporte nacional, e que esse movimento foi se intensificando ao longo da década 1900-10, reerguendo a capoeira após a fase de perseguição de Sampaio Ferraz. Do estudo de Mello Morais ao desafio vencido por Ciríaco os meios da cultura letrada hegemônica foram gradativamente divulgando e retratando a capoeira, tornando-a uma atividade esportiva, abrindo as portas para se praticá-la nos meios sociais que nas décadas anteriores foram tão hostis. 2. b. Olhar científico sobre a capoeira. Tenho desde o início abordado as tendências cientificistas da época que influenciaram o pensamento das elites dominantes. Observei na obra de Mello Morais, em diversas passagens de seus estudos ele demonstrar esta tendência. Assim, estranhamente, ele compara a capoeira às doenças que afetavam o país à época, pretendendo assim explicar os problemas causados pelos conflitos de rua: Como a febre amarella, que não sabemos porque espanta tanta gente e quer-se a todo instante debelar, a capoeiragem, que é uma luta nacional, degenerando em assassinatos, tem merecido perseguição sem descanso, guerra sem condições. Entretanto na Europa o tifo, a difteria, o cólera e mais epidemias produzem anualmente grandes destroços e a ciência não cogitou nunca do seu extermínio, mas de preveni-la; os jogos de destreza e 71 de força são regulados em seu exercício, disciplinados pela arte, não havendo quem se oponha senão aos abusos.79 Analisando estas colocações, cabe uma série de questionamentos: em que implica comparar uma manifestação cultural a doenças infecto-contagiosas? O autor refere-se aqui à perseguição policial sobre a capoeira, mas como se posiciona frente ao controle das atividades culturais? Os abusos citados pelo autor seriam os conflitos praticados nas ruas da capital federal, encabeçados pelas maltas capoeiras? Assim ele indicou pensar a capoeira não como um corpo criminalizado, mas sim como um corpodoente e, se doente, através da intervenção da ciência, possível de cura. Em 1901, fazia apenas 10 anos da campanha de perseguição e extinção dos capoeiras na capital federal, através de Sampaio Ferraz. Nesta data, uma série de prisões já havia ocorrido geralmente através de processos de acusação de natureza não muito clara, diversas deportações para o Presídio de Fernando de Noronha e o próprio assassinato de capoeiras famosos no meio popular. Mello Moraes referiu-se ao tifo, a difteria e cólera para alegar a necessidade da ciência estar atenta a estas chagas que assolavam as populações desenvolvidas, impedindo seu crescimento; justamente o que os higienistas e sanitaristas pretendiam para o Brasil. E quando ele diz tem merecido perseguição sem descanso, guerra sem condições, está evidentemente colocando-se favorável ao controle policial sobre as manifestações que não se enquadravam em seu ideal de modelo social, a imagem do “bom trabalhador”. O autor se debruça sobre a capoeira como um doutor sanitarista o 79 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.257. 72 faria sobre seu microscópio, buscando vencer alguma chaga endêmica. Mais para frente em sua exposição, ele volta a esta visão sobre a arte da malandragem: Essas lutas, essas aptidões, que variam de povo para povo, mas com o fim que acima indicamos, concorrem para reunir mais um traço à fisionomia nacional, e têm merecido de espíritos eminentes sérias reflexões: Darwin e Ribot socorreram-se desses elementos no estudo da generalização das leis da hereditariedade.80 Com estas colocações o autor demonstrou possuir uma visão eugenista no que se refere à discussão sobre as classes sociais no Brasil. Vemos assim que a ideologia do melhoramento racial era pano de fundo utilizado pelas elites dominantes para se entender e explicar as questões culturais observadas pelas ruas e praças das principais cidades da república recém-criada, questão que problematizei com as indicações de Schwarcz81 e que acredito esclarecerem de forma completa a base ideológica do discurso de Mello Morais frente às manifestações populares, apesar dele acreditar tratar apenas de temas folclóricos e costumes. 2. c. Origens e Histórico da capoeira. Com a intenção de valorizar a capoeira, Mello Morais buscou apresentar o que seria um histórico da arte-luta, na fase da virada do século. Analisando este histórico: 80 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.258. 81 SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças – Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 7ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 73 Entre as nossas classes populares avultou sempre neste país assinalando nos primeiros tempos costumes de uma torrente de imigração africana, e depois um herança na mestiçagem nos conflitos das raças.82 Para Mello Morais, vemos que a questão das culturas formadoras da nação estava mais realista que para Abreu. Ele remete aos africanos parte da responsabilidade pela capoeira, reconhecendo terem sido os responsáveis culturalmente por sua origem. Mas, como cientista social, acreditava que a miscigenação seria uma solução para o melhoramento da raça brasileira. Adiante no histórico, ele retomou a primeira metade do séc. XIX, alegando esta ter sido uma “época de ouro” na prática da capoeira: Nas garrafadas de março, um dos nossos mais eloqüentes oradores sagrados fez prodígios nesse jogo, livrando-se de seus agressores; recordamo-nos ainda de um frade do Carmo, que, por ocasião de uma procissão do Enterro, debandou a cabeçadas e a rasteiras um grupo de indivíduos imprudentes que o provocaram.83 Vemos que o autor criou uma imagem da capoeira – indicando a partir da década de 1830 – ter sido heróica, o que acredito ser uma visão distorcida deste momento. Esta imagem é equivocada, pois demonstrou já Líbano Soares em amplo estudo84 sobre a capoeira das décadas de 1810-50 ter sido alvo de inúmeras queixas por parte de senhores ilustres da sociedade imperial, bem como da insegurança disseminada pelos próprios chefes de polícia da corte quando não davam conta de conter tantos capoeiras e suas afrontas85, caracterizando-a inclusive capoeira escrava. 82 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901 p.257. 83 Ibidem, p.259. 84 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Capoeira Escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas: UNICAMP, 2001. 85 Ibidem, p.21 74 Em outra passagem ele apresenta outra visão distorcida sobre o passado da capoeira: Pode-se dizer que de 1870 para cá os capoeiras não existem: se um ou outro, verdadeiramente digno desse nome pela lealdade antiga, pela confiança própria e pelo conhecimento da arte resta por aí, veio daquele tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus fins.86 Podemos observar que Mello Morais via a capoeira de seu tempo como uma arte falida, sendo ela praticada por uma gente de péssima índole social, assassinos e gatunos, conforme sua tipologia. E por se referir a um tempo antigo onde a capoeira seria disciplinada, acredito que o autor clamava assim por um ideal disciplinador para reerguê-la, acreditando serem os praticantes malandros de sua época os responsáveis por seu desgaste social. A autora Letícia Reis apontou na mesma direção, questionando Mello Morais sobre ele desviar a capoeira dos sujieitos marginalizados que a praticavam, apropriando-se da capoeira como prática esportiva. Em suas argumentações, ela problematizou o autor e suas colocações a respeito do passado disciplinado da capoeira, do início do séc. XIX. Em sua própria definição: Há na postura de Mello Moraes uma nítida apropriação simbólica da capoeira como um esporte, no intuito de destituí-la do que tinha de “mau e bárbaro” (...) esta versão da capoeira que a representa como um esporte, procura afastar dela, ou pelo menos minimizar sua herança étnica africana, a fim de que lhe fosse possível, através de seu embranquecimento “civilizar-se”, tornando-se então um dos símbolos de distinção nacional frente aos outros países.87 Nesta definição, vemos claramente que a postura de Mello Morais era interferir não somente na prática da capoeira, como também de criar uma idéia generalizadora 86 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.260. 87 REIS, Letícia Vidor de S. O mundo de pernas para o ar – a capoeira no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Publisher Brasil, 2000. 75 sobre suas origens, forjando um sentido histórico e uma série de valores pertinentes a ela inexistentes. Claramente ele mascarou a realidade histórica da capoeira, adaptando a arte-luta conforme as necessidades históricas das elites dominantes. 2. d. As maltas e partidos rivais. Mello Morais rememorou as maltas de capoeiras no jogo das eleições partidárias, na mesma direção de Abreu. Com uma descrição mais detalhada desta, assim falou: Os capoeiras formam maltas, isto é grupos de vinte a cem, que a frente dos batalhões, dos préstitos carnavalescos, nos dias de festas nacionais provocam desordens, esbordoam, ferem, etc...88 Ele não se referiu mais aos famosos grupos da década de 1870-80, guayamus e nagôas, mas caracterizou-os por grupos de capoeiras somente, associando-os aos eventos cívicos nacionais. Acredito que assim ele apontou na direção de aceitá-la mais como costume popular, diminuindo sua capacidade de organização e força enquanto grupo social, simplesmente relatando o que a memória social guardara dos capoeiras daquela época antiga: desordens, feridos, etc. Não há em seu olhar indício de organização estruturada da parte das maltas, o que indica que Mello Morais não 88 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.258. 76 aceitava esta capacidade na arte da malandragem, mais uma vez os inferiorizando culturalmente frente os “nobres” que a praticavam.89 Ele não pode deixar de mencionar os bairros e os nomes de guerra pelos quais ficaram conhecidas estas regiões da cidade e conseqüentemente seus valentes desordeiros: O capoeira antigo tinha igualmente seus bairros, o ponto de reunião das maltas; suas escolas eram as praças, as ruas, os corredores. A malta de Santa Luzia chamava-se a dos luzianos; a do Castelo, de Santo Inácio; a de São Jorge, da lança; dos ossos a do Bom Senhor Jesus do Calvário; flor da uva, a de Santa Rita, etc.90 Observamos que ele já fala das maltas como ocorridas em outro tempo, rememorando-a, dando indícios de que em sua época estas freguesias já não viviam mais os conflitos em seu cotidiano. Além de registrar os apelidos que caracterizavam seus protagonistas, ele deu indícios de que sua prática fizera escola pelas ruas, praças e corredores, dando a ela status de cultura popular urbana sacrallizada através de seus agentes, os capoeiras. Sobre a relação da capoeira com a política eleitoral do II Império, assim ele rememorou a questão: Ao seu ombro tisnado escorou-se até há pouco o senado e a câmara, para onde, a luz da navalha, muitos dos que nos governam, subiram(...) Alistados nos batalhões da Guarda Nacional, os capoeiras exerciam poderosa influência nos pleitos eleitorais, decidiam das votações, porque ninguém melhor do que eles arregimentava fósforos, emprenhava urnas, afugentava votantes.91 89 Ver Cap.1, LIBERAC, Antonio C. P. A capoeira no jogo das cores – Criminalidade, Cultura e Racismo no Rio de Janeiro (1890-1937). 90 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.259. 91 Ibidem, p.259. 77 Mello Morais enfatizou que diversos políticos da mais alta classe política recorreram à capoeira, alistando os capoeiras como verdadeiros soldados mercenários de um jogo onde as regras eram a hostilidade e demonstração de poder. Desta forma referiu-se à época das maltas de capoeiras, mas em momento algum Mello Morais questiona esse uso político dos capoeiras, apenas descrevendo seu trabalho rude de agressores e capangas eficazes. Vale questionar se ele estava implicitamente aceitando esta prática, entendendo os capoeiras do período como eficientes agentes, ou se a condenava, e na leitura atenta de sua obra não encontrei outra menção que solucionasse esta questão. Observamos que ele fala da capoeira tendo servido apenas de ferramenta nas mãos dos poderosos. Ao demonstrar sua participação no esquema político do final do II Império, o autor também reconheceu a reservada liberdade que gozavam os capoeiras na situação de capangas eleitorais: A polícia, amedrontada e sem força, fazia constar que persegui os desordeiros, acontecendo raríssimas vezes ser preso este ou aquele, que respondia a processo.92 Assim ele abordou o tema das maltas e do jogo político-partidário, tratando dele com tom acomodado. Tratando-se de intelectuais que assumiam o papel de direcionar a formação cultural da socidade, não entrar nesta questão da prática poítica foi uma falha na obra de Mello Morais. Ele tinha uma idéia civilzadora da capoeira, mas não das práticas políticas fraudulentas. 92 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.260. 78 2. e. Os rituais na prática da capoeira. Com relação ao jogo da capoeiragem e aos aspectos rituais dos golpes e movimentos, Mello Morais foi mais descritivo que Abreu, pois ele tinha o objetivo claro de mostrar detalhadamente como nossa luta nacional se realizava e quais suas potencialidades frente às demais lutas. O autor representa um desafio de dois capoeiras hábeis, enfrentando-se em luta. Assim ele descreve a cena: Figuramos uma arena. Os contendores aproximam-se, os olhos cintilam, os lábios murmuram frases de desdém, de ameaça. Ondulando em movimento serpentiginoso, balançam os braços, conservando a cabeça e o pescoço na imobilidade (...) o capoeira, colocado em frente a seu contendor, investe, salta, esgueira-se, pinoteia, simula, deita-se, levanta-se e, em um só instante, serve-se dos pés, da cabeça, das mãos, da faca, da navalha, e não raro que um apenas leve de vencida dez ou vinte homens (...) a navalha e um cacete, que nunca excede de cinqüenta centímetros, preso ao pulso por uma fina corda de linho, eram-lhe as armas prediletas, nunca fazendo uso das de fogo.93 O autor visava esclarecer a capoeira em sua prática, falando dos movimentos, dos principais golpes e da caracterização social do capoeira numa sociedade em que a aparência determinava o sujeito. Aqui devo também me estender um pouco, na medida em que os rituais presentes na prática da capoeira expressavam-se através das vestimentas, locais de encontro e influência e principais movimentos, como também atestara Plácido de Abreu. Mais uma vez podemos observar que a violência fazia parte desta prática de capoeira e que as armas sugerem que os conflitos e disputas acabavam com mortes e 93 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.260. 79 feridos gravemente, advindo daí o temor das elites dominantes na prática descontrolada da arte-luta. Ele fala dos principais golpes, rabo-de-arraia, rasteira, cabeçada, tombos e passo a dois, descrevendo-os e destacando seu potencial combativo. Ele chama atenção para o olhar do capoeira, capaz de adentrar os pensamentos e emoções dos contendores inimigos, destacando-lhe os nervos e reflexos mais que os músculos ou massa corporal. Via que a relativa inferioridade física nacional podia superar os demais estrangeiros com a ação devastadora e surpreendente da capoeira. Este fato é importante, pois reforça as argumentações anteriores sobre o autor desejar elevar o Brasil ante os países estrangeiros, principalmente Europeus, bem como estar influenciado pelo olhar científico sobre o “conflito das raças”. Mello Morais não pode deixar de atestar as características rituais que também foram enxergadas por Abreu, o que nos sugere sua força enquanto memória social. A gíria e a fama pela valentia aparecem novamente em sua narrativa: A capoeiragem antiga e moderna tem a sua gíria, a sua maneira de expressão, pela qual são compreendidos os lances do jogo. Deveras arriscados, difíceis, e dependendo de rapidez e hábito, não é sem longa prática que conseguem tais lutadores fazer-se notáveis.94 Ele diferencia claramente dois momentos da capoeira onde as características rituais perduraram, as gírias que criavam um universo íntimo entre os capoeiras continuaram fazendo sentido. Alega também serem os capoeiras notáveis aqueles de 94 MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901, p.261. 80 maior tempo de prática, outro indício de perpetuação desta manifestção popular em nossos meios sociais. Comparativamente à obra de Abreu vemos que Mello Morais estava mais preocupado em demonstrar a capoeira em sua potencialidade combativa, ou seja, destacar sua força como luta nacional. Percebi que houve uma evolução na aceitação social da capoeia como cultura, desviando-a da visão criminalizada, mas também observei que, sem a referência cientifica e a apropriação cultural engendrada pela elite dominante, esta aceitação seria seriamente comprometida. Tratou-se de determinar quais sujeitos ativos representantes de uma verdadeira política de formação cultural nacional dariam a direção neste processo, e estes sujeitos não foram os malandros capoeiras da cidade do Rio de Janeiro. 3. Lima Campos: a capoeira esportiva na Revista Kosmos. Na Revista Artística, Scientífica e Literária Kosmos trabalhei com Lima Campos. Este escritor é citado em livros e teses dos diversos pesquisadores da capoeira, e observei que sua obra esteve baseada no próprio ensaio de Mello Morais, publicado cinco anos antes. Neste sentido, acredito que Campos apontava na mesma direção, dando indícios que fundamentava teoricamente seu discurso no mesmo ideário 81 científico, dando exemplo prático de como se disseminava a opinião dos cientistas e intelectuais sobre a prática da capoeira. A Revista Kosmos estava na mesma linha das analisadas anteriormente, com destaque principal aos aspectos sociais da alta elite carioca, com tendência à modernidade e aos avanços que a vida urbana observava através de novos produtos e novos modos de consumo, possuindo como público muitos homens e jovens mulheres95. O escritor Lima Campos (César Câmara de Lima Campos, 1872-1929, poeta brasileiro da segunda geração simbolista, um dos fundadores da Revista Fon-Fon, colaborador em diversas revistas na imprensa periódica do Rio de Janeiro). Caracterizava-se por produzir contos utilizando linguagem rebuscada, usando diversas figuras de linguagem nas narrativas e destacando situações vividas por personagens de origem aristocrática e garbosos de modos e meios, como hotéis de luxo no Rio de Janeiro, festas requintadas, cabarés, o que nos indica que seu público leitor era geralmente masculino e elitizado. Lima Campos responsabilizou-se por ter escrito uma das grandes referências para o estudo da capoeira perseguida de 1890-1910: na edição de março de 1906, publicou em sua coluna o artigo Nosso Jogo: a Capoeira, contendo um grande texto, contendo histórico da arte-luta, descrição dos movimentos e das maltas, e ainda ilustrações de Kalixto Cordeiro96, importante caricaturista político da época, que além de ilustrar fielmente os principais passos e golpes da capoeiragem carioca, transcreveu as 95 MARTINS, Ana Luísa. Revistas em Revista-imprensa e práticas culturais em tempos de república (1890-1922), São Paulo: Ed. EDUSP, 2001. 96 Para referências deste caricaturista, ver SILVA, Marcos A. Caricata República – Zé Povo e o Brasil. São Paulo: Ed. Marco Zero, 1990. 82 falas e gírias populares dos próprios capoeiras (incluí em capítulo extra de Anexos, ao final da pesquisa) pelo fato de ter acompanhado a edição da reportagem Nosso Jogo e por somar às próprias indicações já trabalhadas com Abreu. Na análise da reportagem, dei destaque a algumas passagens, analisando a constituição de seu discurso, conforme trabalhado com os outros autores. Dividi este texto em temas, seguindo a mesma linha: origem da capoeira, desenvolvimento histórico através do séc. XIX, culminando com o que ele chamou de atualidade, as gírias e movimentos componentes da luta. Investiguei vários números seguintes a esta edição buscando uma reposta ou comentários por carta do público leitor, esperando ansioso por uma repercussão do fato, mas sem sucesso. A revista não mais divulgou nenhuma reportagem sobre capoeiras ou capoeiristas, tendo Lima Campos voltado a suas colunas mensais. Inicialmente, Lima Campos seguiu a mesma tendência exposta de Abreu e Mello Morais, demonstrando ser sua preocupação primordial comparar a capoeira às lutas praticadas em outros países, definindo ser a capoeira nossa representante: Das cinco grandes lutas populares: a savata francesa, o jiu-jitsu japonês, o Box inglês, o pau português, é a nossa capoeira (...) a melhor e mais terrível como recurso individual de defesa certa ou de ataque impune.97 Ele apresentou a grande preocupação dos intelectuais investigados, identificar os caracteres e tradições culturais que nos pusessem em pé de igualdade com as nações européias, principalmente. Ele parecia vasculhar as festas, os folguedos e os rituais da cultura popular com a intenção de nacionalizá-las, e em alguns casos até mesmo 97 Revista Kosmos, março de 1906. 83 destituí-las de seus sujeitos produtores – os marginalizados, como no caso dos capoeiras – impondo novos modos e meios, mais civilizados. Lima Campos, ainda buscando a comparação e almejada superioridade da nossa cultura nacional frente às nações estrangeiras, indicou de forma rápida e despercebida ser a capoeira produção cultural das classes populares: Das cinco grandes lutas populares ... a nossa capoeira... a melhor e mais terrível. (...) o que bem indica o grande valor defensivo que possue essa estratégia popular e que a coloca acima de todas as congêneres de qualquer outra nacionalidade.98 Assim, de forma diminuída no texto da reportagem, Campos atestou a caracterização popular para a capoeira, referendando-a como prática vinda das classes marginalizadas, mas o destaque em seu discurso sempre tendia a elevá-la como luta a ser praticada de forma regrada e disciplinada. Posteriormente, Lima Campos buscou apresentar o que seria um histórico da capoeira, desde sua origem à sua trajetória nos tempos do Império. Nesta passagem, demonstrou conhecer apenas pela memória literária e popular as fases de uma já conhecida história, como pudemos explorar profundamente em Mello Morais. Campos tinha pouco espaço na Revista, portanto seu histórico foi diminuído, mas rico em indicações e referências da época: Por que, quando, onde e como nasceu a capoeira?Na transição, provavelmente, do reinado português para o império livre, pela necessidade do independente, fisicamente fraco, de se defender ou agredir o ex-possessor robusto, nos distúrbios, então freqüentes em tavernas e matulas, por atritos constantes de nacionalidade.99 98 99 Revista Kosmos, março de 1906. Revista Kosmos, março de 1906. 84 Conforme esta apresentação da capoeira, o autor a desliga completamente de qualquer relação com a cultura africana. Para ele, ela representou sim a luta do mais fraco contra o mais forte, mas em sua visão o mais fraco era o mestiço brasileiro, inferior ao estrangeiro que, no caso do Brasil à época, tratava-se evidentemente do colonizador português. Assim, Campos desviava a origem da capoeira das tradições africanas para dar a ela o status de cultura nacional, portanto branca mesmo que ainda mestiça. Aliado aos conceitos melhoradores da raça brasileira, o mestiço era sim inferior e fraco, frente às tradições européias, como ingleses, franceses ou alemães, portanto a capoeira seria uma autêntica invenção cultural nacional para superar sujeitos de outras nacionalidades. O autor reforça esta idéia de inferioridade da raça: Creou-a o espírito inventivo do mestiço, por que a capoeira não é portugueza nem é negra, é mulata, é cafusa e é mameluca, isto é – é cruzada, é mestiça, tendo-lhe o mestiço anexado, por princípios atávicos e com adaptação inteligente, a navalha dos fadistas da mouraria lisboêta, alguns movimentos sambados e simiescos do africano e, sobretudo, a agilidade, a levipedez felina e pasmosa do índio nos saltos rápidos leves e imprevistos para um lado e outro, para vante e, surprehendentemente, como um tigrino real, para traz, dando sempre a frente ao inimigo.100 Segundo as palavras de Campos, a capoeira era um fenômeno cultural basicamente nacional, protagonizado pelo mestiço. Conforme discutido anteriormente, a questão de associar a cultura popular a uma idéia generalizadora de mestiço, fez com que se perdesse a identidade com as manifestações africanas na imagem totalizadora do tipo nacional. O autor negou visivelmente não ser a capoeira africana, dando aos africanos a contribuição de apenas alguns movimentos sambados e simiescos. Referente às características simiescas revela o autor possuir uma visão elitista sobre a imensa tradição cultural africana, uma vez que esta associação intensificou-se 100 Revista Kosmos, março de 1906. 85 principalmente a partir de teses defendidas pela ideologia do branqueamento já discutidas. Mestiço era o brasileiro, o personagem nacional que estava em fase de construção e consolidação desde o movimento romântico do início do séc. XIX. Ser cultura nacional, dissociando-a das tradições culturais africanas foi uma primeira característica que deu condições à capoeira passar a ser aceita socialmente, mesmo que ainda de forma muito gradual. Podemos observar que ele valorizou por demais as características herdadas dos ameríndios, bem como dos portugueses, relegando as já citadas características africanas ao acaso dos movimentos corporais. Quanto à origem da capoeira ele discutiu a questão da capoeiragem carioca, grande centro até mesmo exportador de capoeiras e malandragem. Tendo a sua gênese em dois pontos diversos: ao norte em Pernambuco, nos primeiros faquistas contra o marinheiro, como, em represália a autonomasia de cabritos, apelidavam os cafagestes o ex-possessor, apelido aliás honroso, e, ao sul, aqui no Rio, nos primeiros capoeiras propriamente ditos (porque a capoeira legítima é por excelência carioca).101 Assim Campos entrou no âmbito das origens da capoeira atribuindo a ela ser brasileira, bem como carioca, superando a muito perseguida capoeiragem recifense. Ele não fez nenhuma menção a capoeiragem de São Salvador da Bahia ou ao grande celeiro de capoeiras que fora o recôncavo baiano. Como sabemos de larga data ter sido a capoeira famosa também na capital soteropolitana102, o autor demonstrou aqui ter conhecimentos superficiais, atados à capital fluminense, o que exige cautela ao analisarmos sua fala e a fundamentação de seu discurso para a prática da capoeira. 101 102 Revista Kosmos, março de 1906. REGO, Waldeloir. Capoeira Angola - Ensaio Sócio-Etnográfico. Salvador: UFBA, 1968. 86 Posteriormente ele analisou os meados do séc. XIX, referindo-se às décadas de 1870 e 80 como o período áureo da capoeira, atribuindo a este uma fase de instituição e profissionalização da prática da arte-luta. Tocando no assunto das maltas partidárias, não pode deixar Campos de referir-se aos Guayamus e Nagoas, protagonistas da fase clássica dos distúrbios causados em épocas de eleições. O autor fez referência a Sampaio Ferraz, Chefe de Polícia já citado. No entanto, em momento algum o autor fez crítica a esta perseguição, ou a posição da polícia quanto à capoeira: Quando chefe de polícia do governo provisório, em 1890, Sampaio Ferraz, deu caça tenaz e de morte às maltas, conseguindo destroça-las, pela elimininação dos chefes e dos imediatos de mais ascendência.103 Assim, ele apenas caracterizou a perseguição dada à capoeira, praticamente atestando a necessidade de se controlá-la, uma vez que citou Sampaio Ferraz e sua tenacidade ao realizar seu trabalho de destroça-las. Como ele escreveu este artigo numa fase em que mudanças indicavam novo rumo à própria prática da capoeira, acredito que o autor assim difundia a capoeira, como se cada abuso cometido por seus praticantes sempre estivesse na atenção da polícia e das forças públicas, direcionandoa civilizadamente. Ao tratar de sua atualidade, o escritor fez críticas aos capoeiras de sua geração: Hoje a capoeira é usada com caráter menos profissional e sem arregimentação séria e disciplinada como outrora, quando a organização e a manutenção das maltas obedeciam às disciplinas de uma regulamentação perfeita e um verdadeiro quadro de classe, dsede as chefias e as sub-chefias até os carrapetas..os capoeiras modernos não levam já a esses extremos o amor a arte; são mais, a bem dizer mashorqueiros navalhistas, faquistas enfim, estrilhadeiros avulsos, que própria, exclusiva, profissional e arregimentamente capoeiras.104 103 104 Revista Kosmos, março de 1906. Revista Kosmos, março de 1906. 87 Concluiu o escritor ser a capoeira de sua época prática dada aos ladrões, golpistas, desordeiros e vadios. Percebemos que ele acabou também idealizando o passado da capoeira, pois ele enfatizou a disciplina de outrora em virtude de uma hierarquia, com chefes e sub-chefes, inferiorizando os capoeiras de sua geração, acreditando que a arte precisava assim ser resgatada e que reerguida. Explorando também o autor Lima Campos (na obra a autora ainda não havia tomado ciência do nome deste autor, uma vez que sua publicação fazia-se apenas com as iniciais L. C.), ela indicou que ele tirou da capoeira sua essência africana105, atribuindo aos índios da terra a levipedez felina e pasmosa nos saltos rápidos, leves e imprevistos para um lado e outro, para vante e, surprehendentemente, como um tigrino real, para traz, dando sempre frente ao inimigo. Ao negro criador da luta, restou ter oferecido à capoeira alguns movimentos sambados e simiescos dos africanos. Somando estas investigações sobre o texto de Lima Campos, cabem alguns questionamentos: baseado em qual capoeira o autor argumentou tais características fundamentando assim um discurso sobre sua trajetória e prática? Segundo sua visão, qual o sentido de se praticar a capoeira? Para quais sujeitos e grupos ele estava dirigindo sua prática? Acredito que a resposta a estes questionamentos esteja na própria condição social do autor, representante da mais concreta visão hegemônica que me deparei através da pesquisa. Lima Campos não escondeu sua visão cultural branqueadora, onde buscou dissociar da cultura nacional por ele imaginada as tradições sócioculturais africanas; para ele, a capoeira aparecia como produto da mestiçagem cultural 105 Revista Kosmos, março de 1906. 88 nacional, sintonizando-se mais uma vez com o discurso de Mello Morais de se aceitar uma capoeira disciplinada e vigiada pelos grupos dominantes, contribuindo para a disseminação da capoeira esportiva, valorizada como luta nacional. 89 CONSIDERAÇÕES FINAIS O início desta pesquisa se deu a partir de meu TCC, onde investiguei as origens da capoeira entre as atuais vertentes da capoeira, baseado na perspectiva dos mestres adeptos das mesmas. Trabalhei como fontes revistas atuais sobre capoeira, onde tinha diversas entrevistas e artigos históricos sobre os mestres e seus alunos que mantinham seu trabalho. No momento da elaboração do projeto de ingresso na pós-graduação neste programa de História, o objetivo inicial era investigar dois eventos ocorridos no Rio de Janeiro, entre 1968-69, promovidos pela comissão desportiva da aeronáutica (CDA). Nestes eventos, chamados I e II Simpósio Nacional de Capoeira, ocorridos sob a organização da própria aeronáutica em suas instalações no RJ, promoveu-se um encontro nacional com a participação de diversos mestres representantes dos estilos angola e regional, cujo objetivo principal definiu-se pela intenção de normatizar e padronizar todos os movimentos e regras da capoeira, visando a federalização da capoeira como esporte nacional. Então, meu objetivo principal foi investigar estes eventos buscando compreender o momento histórico em que a capoeira passou a ser aceita como esporte, e não apenas como luta estigmatizada pela violência e temor, herança do século XIX. No entanto, tive grande dificuldade em trabalhar com este evento, pois em visita às instalações da aeronáutica, pesquisando os arquivos da CDA e no CENDOC (Centro de Documentação), descobri que este evento não foi registrado pela aeronáutica, não 90 constava nenhuma ata ou relatório de cobertura do evento. Averiguando o ocorrido neste evento, notei que os mestres da capoeira não se sentiram a vontade durante o evento, pois muitos desconfiavam das intenções deste e do próprio momento de ditadura intensa que o país atravessava. E esta confirmação obtive com depoimentos colhidos de mestres que participaram deste evento, relatados em revista atual sobre capoeira106. Busquei assim contato com estes mestres, visando atingir o ocorrido durante os simpósios; atingi seus contatos via internet, e descobri que ambos eram baianos, residindo atualmente em Salvador. Quando busquei um contato inicial, a resposta não foi promissora, uma vez que não se mostraram favoráveis a relembrar do Simpósio (atestando não ter sido muito bom o contato entre os mestres e os profissionais de educação física pertencentes à aeronáutica). E a distância destes mestres não foi fator positivo, pois meu trabalho não me permitia viajar e permanecer tempo suficiente com os mestres para colher deles depoimentos seguros sobre o evento ocorrido durante a ditadura militar. Analisando a trajetória da capoeira como esporte, verifiquei em teses e outros trabalhos citados no decorrer da dissertação que nos primeiros estudos sobre a capoeira, realizados por diversos intelectuais na primeira fase do período republicano (1890-1930), já estava implícita a idéia de se modificar a perigosa capoeira dos malandros das ruas da capital federal em esporte regrado e regido por normas e padrões moralizantes. Por questão de gosto e interesse por esta temática, delimitei este momento e estes intelectuais como necessário a ser aprofundado e investigado sob a perspectiva do historiador social. Também neste campo de estudos as fontes históricas disponíveis estavam localizadas em locais de mais fácil acesso, como Bibliotecas e 106 Revista Capoeira, São Paulo, setembro de 1998 a junho de 2000. 91 Arquivos Públicos ou de Instituições Universitárias, fato que para minha realidade profissional foi mais adequado. Nos trabalhos citados as fontes correspondiam a livros publicados a época pelos intelectuais, bem como a artigos e reportagens veiculados na imprensa periódica e ilustrada, abundantes neste momento. Destes arquivos, utilizei-me do Arquivo do Estado de SP, onde tive grande dificuldade em analisar as revistas periódicas devido à baixa qualidade dos equipamentos de microfilmagem; IEB-USP (Instituto de Estudos Brasileiros), onde encontrei grande parte das revistas e autores que não encontrei facilmente em livrarias; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pesquisar neste local foi um dos momentos mais marcantes de minha pesquisa, pois encontrei todos os livros e autores de época citados na Dissertação, bem como todas as revistas periódicas e jornais, sendo que as máquinas de microfilmagem funcionavam perfeitamente. Pesquisar neste último local foi importante na medida em que me vi sozinho em outra cidade realizando o trabalho do historiador de buscar, investigar e até mesmo caçar informações, autores e fatos perdidos por olhares menos atentos, além de me proporcionar experiência suficiente para me “virar” sem minha orientadora por perto. Através da leitura e análise das fontes literárias e periódicas, percebi nitidamente a mudança no trato da capoeira, tanto pelas imagens como pela própria divulgação de uma prática não mais marginalizada, mas sim possível de representar a cultura do país. Assim, a evolução do tema através da Dissertação seguiu a própria trilha deixada pelas fontes sondadas, fato que destaquei em cada capítulo, com a especificidade de cada autor, partindo da obra de Abreu em 1886, apresentando uma capoeira criminalizada e marginal, culminando com a capoeira esportiva e civilizada, presente nas obras de Mello Morais e Lima Campos entre 1901 e 1906. 92 Mais uma vez saliento que a importância deste tema eleva-se no atual universo da capoeira, uma vez que uma questão ainda latente venha a ser a culpabilidade que algumas pessoas persistem em atribuir a Mestre Bimba ou aos demais mestres de capoeira, buscando identificar o responsável pelo ensino da capoeira para as classes sociais elitizadas. A partir das pesquisas e análises que realizei, creio dar conta de preservar a memória destes mestres e reconhecer de fato os responsáveis pelo branqueamento da prática marginalizada da capoeira, homens de letras como Plácido de Abreu e, mais explicitamente, Mello Morais e Lima Campos. 93 FONTES LITERÁRIAS: ABREU, Plácido de. Os Capoeiras. Rio de Janeiro: Tipografia Part, 1886. MELLO MORAIS FILHO, Alexandre José de. Festas e tradições populares no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Tecnho Print, 1901. FONTES PERIÓDICAS: Jornal do Comércio (1885-1891) Jornal Folha Nova (1885-1890) Jornal Gazeta da Tarde (1885-1890) Revista A careta (1901-1910) Revista A notícia (1903-1910) Revista Ilustrada (1901-1910) Revista Kosmos (1904-1910) Revista O malho (1903-1910) Revista Vida Fluminense (1870-1880) 94 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARANTES, Antônio Augusto. O que é cultura popular. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983. AREIAS, Anande das. O que é capoeira. 4ª edição. São Paulo: Editora da Tribo, 1999. 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São Paulo: Tipografia do Diário Oficial, títulos consultados: 1890, 1941, 1943, 1953, 1972, 1973. COLEÇÃO Recôncavo. O jogo de Capoeira – Textos de Pierre Verger e desenhos de Caribé. Salvador: Livraria Progresso, 1955. LIBERAC, Antonio Cardoso S. P. A capoeira no jogo das cores - Criminalidade, Cultura e Racismo no Rio de Janeiro (1890-1937). Campinas: UNICAMP, 1996. LIMA, Luiz Augusto Normanha. Capoeira Angola – Lição de vida na civilização brasileira. São Paulo: PUC-SP, 1991. OLIVEIRA, André Luis de. O significado dos gestos no jogo da capoeira. São Paulo: Psicologia PUC-SP, 1993. REIS, Letícia V. de S. Negros e Brancos no jogo da capoeira. São Paulo: Antropologia USP, 1993. VIEIRA, Sérgio L. de S. Capoeira – Matriz Cultural para uma educação física brasileira. São Paulo: Educação PUC-SP, 1997. 98 ARQUIVOS E BIBLIOTECAS CONSULTADOS Arquivo do Estado de São Paulo, fundo documental Periódicos, São Paulo. Biblioteca Central e de Direito Civil, Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP, São Paulo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Acervo Geral e Acervo de Periódicos/ Microfilmados, Rio de Janeiro. Biblioteca Nadir Kfouri, Setor de Teses de Dissertação de Mestrado e Doutorado, PUCSP, São Paulo. CENDOC (Centro de Documentação da Aeronáutica), Setor de Arquivos Permanentes, Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro. IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), Setor Periódicos e Setor de Microfilmes, USP, São Paulo. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, setor Biblioteca, São Paulo. 99 ANEXOS Não te conto nada seu compadre! O samba esteve cuerêréca. No fim que houve uma choramella de escacha. O Cara Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante chegou. Ih, seu camarada! Foi um estrompício! O marchante era sarado, foi logo encaroçando a joça. Eu tive que entrar com meu o meu jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu estava separado, não havia cara que me levasse vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui ver como era p´ra contar como foi. 100 A peneiração Com pouco vi o cabra peneirando na minha frente, dansei de velho, o typo era bom! Sambou em entrou no cateretê comigo... 101 A cocada Fiz duas chamadas nos materiais rodantes, de uma palma, sempre com os mirones grelados no meço, o cabra não leu... fiz uma figuração por cima para o bruto fugir com o carão, e grampeei o indivíduo. Chamei o cabra na xinga, levei a caveira de lado e fui buscar o machinismo mastigante do poeta. O cabra engoliu a língua, danou-se, não perdeu a cisma, ganhou tento e compareceu de novo... não fiz questão do preço da banha... 102 O calço ou a rasteira Cahi no bahiano rente a poeira, e isquei-lhe um rabo-de-arraia que o marreco voou na alegria do tombo, indo amarrotar a tampa do juízo numa canastra, e ahi gritei: Entra negrada! O turuna enfeitou-se outra vez... Oh! Cabra cutuba! 103 A lamparina Grimpei, perdi a estribeira, cocei-me, dei de mão na barbeira e... ia sapecar-lhe um rabo de galo, quando o cabra cascou-me uma lamparina que eu vi vermelho. 104 Meter o andante Ahi não conversei, grudei na parede, escorei o tronco, e meti-lhe o andante na caixa de comida. O dreco bispando que eu não era pecco, chamou na canela que si bem corre, está muito longe... Eu voltei p´ro samba garganteando: Meu Deus, que noite sonorosa! 105 Typos e uniformes dos antigos Nagôas e Guayamús, sendo os principais distintivos dos primeiros cinta com cores branca sobre a encarnada e chapéo de aba batida para a frente e dos segundos com cores encarnadas sobre a branca e chapéo de aba elevada na frente. 106