Presidente do TCU diz que o órgão viabilizou economia de R$ 700 bilhões com os gastos da Copa do Mundo ENTREVISTA | PAULO KRAMER GestãoPública Uma revista a serviço do País sociedade & Desenvolvimento NOVA ETAPA NO SISTEMA DE GESTÃO DE PESSOAS •• Secretária Ana Lucia Amorim destaca os benefícios da recém-lançada política de administração da força de trabalho no Executivo federal •• Medida visa melhorar a produtividade e a transparência no serviço público 9 770103 732009 ISSN 0103-7323 77 Ano XXI - T II - R$ 14,80 - Nº 77 - Maio de 2014 governo POLÍTICAS DA UNIÃO ESTADOS E MUNICÍPIOS INICIATIVA PRIVADA Governo investe mais recursos em saneamento básico A marcha dos prefeitos: um grito pela sobrevivência dos municípios Fazenda Malunga valoriza a mão de obra e tem a felicidade como meta Até mesmo um time que está gAnhAndo precisA se mexer. mobilize A suA cidAde pArA combAter A dengue. Gestor, a sua atitude é capaz de influenciar milhares de pessoas a combaterem a dengue. Faça a sua parte com ações simples. Organize mutirões, promova a capacitação de agentes de vigilância, engaje os líderes comunitários da sua cidade e oriente as organizações responsáveis pela coleta e tratamento de lixo. A dengue não marca horário para aparecer. É por isso que a sua cidade precisa estar atenta o tempo todo. Conheça a campanha em www.saude.gov.br Melhorar sua vida, nosso compromisso. www.revistagestaopublica.com.br GestãoPública governo sociedade & Desenvolvimento Fundadores Francisco Alves de Amorim João Batista Cascudo Rodrigues (In Memoriam) Conselho Editorial Francisco Alves de Amorim - Presidente Ricardo Wahrendor Caldas - Professor - UnB João Bezerra Magalhães Neto - Administrador Marcus Vinicius de Azevedo Braga - Servidor federal Diretor-Geral Moises Luiz Tavares de Amorim Diretor Administrativo Gerson Floriz Costa Departamento Jurídico Ramiro Laterça de Almeida Relações Institucionais Eraldo Pinheiro de Andrade Editora Maria Félix Fontele - RP 302/0352V/GO Jornalistas Ana Seidl, Altos João de Paiva, Carla Lisboa, Carolina Cascão, Julciara Abreu, Menezes y Morais, Washington Sidney e Zuleika Lopes Colaboradores nesta edição Cláudio Emerenciano, José Osmar Monte Rocha, Marcus Vinicius de Azevedo Braga e Michael Kain Editor de arte/finalização Elton Mark Revisão Washington Sidney Editor de Fotografia Luiz Antônio Atendimento e Redação [email protected] Publicação: Mensal Circulação: Nacional Tiragem: Quarenta mil exemplares Brasília SCLN 104 - Bloco D - Sala 104 - 70.733-540 - Brasília-DF Telefax.: 55.61. 3201 6018 - 9972 6018 Site: www.revistagestaopublica.com.br Sucursal São Paulo Diretor: Cristovam Grazina Diretor Região Norte: Edson Oliveira Secretário-Executivo: Luiz Alberto Corrêa R. Álvaro Machado, 22 3º andar - Liberdade - SP Representantes Belo Horizonte/MG - Márcio Lima -Tel.: 319986-4986 Rio de Janeiro/RJ - Rizio Barbosa - Tel.: 21 2222-2414 Natal/RN - Tania Mendes -Tel.: 84 9991 1111 Salvador/BA - Eliezer Varjão - Tel.: 71 91650547 CARTA AO LEITOR Com cerca de 9 milhões de servidores públicos, da União, estados e municípios, e diante de uma sociedade cada vez mais exigente em fazer valer seus direitos, o governo tem buscado, nos últimos anos, melhorar a gestão e o atendimento aos cidadãos. Não é tarefa fácil. Milhares de pessoas têm saído às ruas para protestar contra a má prestação de serviços em áreas estratégicas como educação, saúde e segurança. Para atender bem, o funcionalismo público precisa estar capacitado, à altura das demandas da sociedade. Nesse sentido, o Ministério do Planejamento deu mais um passo favorável ao lançar, recentemente, o Sistema de Gestão de Pessoas, o qual inclui todo o ciclo funcional do servidor, programas de capacitação, avaliação de desempenho e outros dados importantes. A secretária de Gestão do Ministério do Planejamento, Ana Lucia Amorim, à frente de todo esse trabalho, afirma que é preciso haver uma revolução cultural no serviço público. Matéria importante desta edição. Leitura obrigatória. Na entrevista de abertura da revista, trazemos as opiniões do cientista político Paulo Kramer sobre as eleições majoritárias de outubro e de todo o processo que antecede o pleito. Professor da Universidade de Brasília e de cursos intensivos de aperfeiçoamento em marketing político-eleitoral e comunicação pública em várias instituições, Paulo Kramer acredita que haverá segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves na disputa pela Presidência da República. Vale a pena conferir. Um dos assuntos do momento é a Copa do Mundo da Fifa 2014. Todos os olhares do mundo estão voltados para o Brasil. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, garante que tudo transcorrerá em clima de festa e confraternização. E que não vê nenhum risco em relação a possíveis manifestações de rua. Mesmo assim, o governo monta uma estrutura de segurança com altos investimentos. O presidente do Tribunal de Conta da União (TCU), Augusto Nardes, também dá sua opinião sobre a Copa do Mundo. Em entrevista, ele fala com exclusividade sobre o trabalho de fiscalização do TCU e informa que o órgão viabilizou economia de R$ 700 milhões com os gastos da Copa. Mas admite que a questão da segurança pública é preocupante. . Esta edição está recheada de bons assuntos. Temos matéria sobre a Marcha dos Prefeitos a Brasília, evento que movimenta a cidade devido a quantidade de participantes, em torno de cinco mil pessoas, e o barulho que fazem em torno de suas reivindicações. Em ano eleitoral, os prefeitos fizeram de tudo para garantir melhores recursos para suas cidades. E ainda contamos com as opiniões de nossos articulistas, sempre atuais e bem colocadas a respeito dos mais diversos temas da atualidade. Boa leitura, Maria Félix Fontele Editora-chefe ISSN 0103-7323 Registrado no 1º. Ofício de Registro Cível das Pessoas Naturais e Jurídicas - Brasília- DF As matérias assinadas são de responsabilidade dos autores. São reservados os direitos inclusive os de tradução. É permitida a citação das matérias, desde que identificada a fonte. FILIADO PARCEIRO INSTITUCIONAL IASIA International Association of Schools and Institutes of Administration Colaboração: Ministério do Planejamento DPADM/ONU Divisão de Administração Pública e Gestão do Desenvolvimento das Nações Unidas g over no s ocie dad e 12 Desde 1991 GestãoPública & Desenvolvimento NESTA EDIÇÃO legislativo AGENDA BRASÍLIA 22 ENTREVISTA // AUGUSTO NARDES 54 ENTREVISTA // FRANCISCO MACHADO A democracia como prioridade na gestão dos recursos públicos Presidente do TCU diz que o órgão viabilizou economia de R$ 700 bilhões com os gastos da Copa do Mundo 26 PARLAMENTAR EM AÇÃO // IZALCI LUCAS FERREIRA Pesquisa aponta o deputado como um dos mais produtivos do país CAPA O esforço do governo para elevar o Estado ao padrão do Século XXI: novo Sistema de Gestão de Pessoas vem garantir mais produtividade e transparência no Executivo federal 28 SOCIEDADE AGORA É LEI 59 COPA 2014 Agnelo Queiroz diz que o DF está preparado para receber turistas Seções 6 ENTREVISTA PAULO KRAMER 10 ESPLANADA EM FOCO 33 POLÍTICA E PODER 45 governança e gestão MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA Tomada de contas especial – o longo caminho da volta 71 artigo JOSÉ OSMAR MONTE ROCHA O preço do ócio 85 DICAS DE MERCADO políticas da união 34 DESENVOLVIMENTO Governo investe mais recursos em saneamento básico 38 ESPORTES Aldo Rebelo adianta que Copa do Mundo deverá gerar mais de três milhões de empregos 41 ASSISTÊNCIA SOCIAL Uma ferramenta para a superação do abuso sexual 86 internacional MICHAEL KAIN A economia mundial continuará crescendo em 2014 62 MEIO AMBIENTE GDF cumpre lei de reutilização de resíduos sólidos JUDICIÁRIO 66 INVESTIGAÇÃO Envolvimento de parlamentares leva Operação Lava Jato ao STF sistemas e iNOVAÇÃO 72 PLANEJAMENTO 76 CT&I Congresso busca estimular a criatividade na área científica 93 opinião Cláudio Emerenciano Uma visão da vida 89 Auditores-fiscais reivindicam mais garantia de vida aos trabalhadores Distrito Federal é considerado território livre de analfabetismo Agenda transversal dissemina a melhoria da gestão pública 91 PRÊMIOS E PUBLICAÇÕES GESTOR E CARREIRAS 60 EDUCAÇÃO estados e municípios 48 POLÍTICAS PÚBLICAS A marcha dos prefeitos a Brasília iniciativa privada 80 AGROECOLOGIA Fazer gestão por excelência é cuidar das pessoas Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 5 Agência Berasil ENTREVISTA 6 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 PAULO KRAMER “Vai ter segundo turno na eleição presidencial” Cientista político afirma que Dilma Rousseff irá disputar o pleito com Aécio Neves ●● Zuleika Lopes P aulo Kramer é cientista político com mestrado e doutorado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). É professor da Universidade de Brasília (UnB) desde 1987 e tem trabalhos sobre educação profissional publicados em coautoria com o antropólogo Roberto DaMatta. Também assina artigos de análise política no Brasil e exterior e já foi colunista em vários site e blogs sobre o tema como o Congresso em Foco. Ministra aulas em faculdades particulares, como Iesb, para o curso de pós-graduação em Comunicação Social Pública. Também ministra cursos intensivos de aperfeiçoamento em marketing político-eleitoral e comunicação pública na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM/DF). Com frequência, é convidado a dar entrevistas sobre a conjuntura política nacional e internacional a canais como a TV Globo, Globonews e emissoras de rádio como a CBN e a BandNews-FM. Nesta entrevista ela faz algumas previsões sobre o futuro político do Brasil. O Acredita que a presidente Dilma Rousseff (PT) irá para o segundo turno com o senador Aécio Neves (PSDB), que terá o apoio do governador Eduardo Campos (PSB) para garantir a virada das oposições. Segundo ele, o PSB, tornou a reeleição da presidente bastante incerta. Também lembra que existe um grande número de pessoas indecisas e que estas, sem dúvida, vão decidir qual será o próximo presidente da República. ““ O eleitor é sempre bastante ingrato e ele não está pensando em votar olhando para o retrovisor e, sim, por algo novo que ele possa vislumbrar à sua frente ” Qual sua avaliação do posicionamento do eleitor em 2014? PAULO KRAMER – Estamos com os institutos de pesquisas eleitorais cravando 60% de eleitores indecisos, os quais poderão votar nulo e em branco. Com este número, não dá para prever o comportamento dessa grande massa. A certeza é que os indecisos decidirão as eleições. Antes, com a votação em cédulas, onde já apareciam os rostos e os números dos candidatos, era como uma pesquisa estimulada à votação. Com a chegada da tecnologia digital nas eleições, há 18 anos, o eleitor tem que teclar o número na telinha para aparecer o rosto do seu candidato, como na pesquisa espontânea. Então com a presidente Dilma com votação média e Aécio Neves de baixo a crescendo para alto com Eduardo Campos seguindo a curva da ascensão, o Partido dos Trabalhadores terá muito, mas muito trabalho para se manter no poder. Então está complicada a reeleição da presidenta Dilma? PAULO KRAMER – O Instituto de Pesquisa Data Popular, de São Paulo, saiu às ruas para pesquisar a opinião da população. Quando perguntada à classe média atual sobre sua ascensão, a grande maioria respondeu que é devido a três fatores: “esforço pessoal, Deus e a minha fé e a minha família”. Não cita de nenhuma forma o governo Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 7 ENTREVISTA ou as políticas públicas. O eleitor é sempre bastante ingrato e ele não está pensando em votar olhando para ao retrovisor e, sim, por algo novo que ele possa vislumbrar à sua frente. O PT hoje é um partido dividido? PAULO KRAMER – Sempre foi muito dividido. Com a pretensa invencibilidade da presidenta Dilma no primeiro turno de 2014 indo por água abaixo, o PT entrará em campo com sua militância tradicional e radical nas ruas e a classe média sempre se assusta com aquelas bandeiras vermelhas e rostos congestionados pela raiva e ira. Então, os eleitores colocam o PT no banquinho da reflexão, como nas escolas modernas e farão ter um segundo turno entre a presidente Dilma e Aécio Neves. PAULO KRAMER o PSDB. Servirá para tirar muitos votos de Dilma no Nordeste. Em 2010 ela teve 90% dos votos de Pernambuco, onde Eduardo Campos fez um governo bem avaliado pela população. Na demografia eleitoral, ela perderá em Minas Gerais. ““ A inflação é o grande pano de fundo destas eleições. A nossa capacidade de indignação ética depende de quanto de dinheiro temos no bolso ” Quem é Aécio Neves hoje? PAULO KRAMER – Um senador da República preparado e um ex-governador de Minas Gerais com excelente opinião popular em seu estado. Casou-se e se prepara para ser pai de gêmeos bem na época da eleição presidencial. O cara é de família de linhagem de primeira linha de políticos brasileiros. Ou seja, poderá falar para a nação que lutará por um país melhor para seus filhos e de toda a população. Quem Eduardo Campos apoiará? PAULO KRAMER – Acredito que Eduardo Campos apoiará, no segundo turno, o candidato Aécio Neves. Um acordo entre o PT e PSB não tem mais volta. Ele já queimou todas as pontes que o levariam a um retorno à base da presidenta Dilma. Ele, o Eduardo, vai ganhar uma fatia do poder com alguns ministérios. Vai dar adeus à Marina Silva e sua Rede. Aliás, aliança que, na perspectiva do tempo, não foi tão estratégica assim. Por exemplo, o impede de conquistar aliados no agronegócio, setor que Aécio Neves está reinando sozinho. A terceira via, de Eduardo Campos e Marina, decidirá a eleição? PAULO KRAMER – Muito importante ter uma terceira via. O povo já cansou da eterna luta do PT com O que se pode esperar das ruas, depois dos protestos de 2013? PAULO KRAMER – A inflação é o grande pano de fundo destas eleições. A nossa capacidade de indignação 8 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 ética depende de quanto de dinheiro temos no bolso. Estamos assistindo a um lento despertar da sociedade, acostumada a pensar que os políticos estão roubando, mas eu tenho dinheiro no bolso, o que é que tem? Mas hoje vemos que quem tem emprego formal sabe que no final do mês os impostos corroem seu ganho real que não é devolvido em forma de serviços públicos decentes e de qualidade. Este, na minha opinião, é o principal fermento das manifestações: a indignação. Qual a sua avaliação sobre essa questão: manifestações e Copa do Mundo? PAULO KRAMER – Será um grande ponto de interrogação. Com a mídia mundial no Brasil, os manifestantes não vão perder a oportunidade de protestar e mostrar toda a sua revolta. Creio que elas não serão tão difusas e desorganizadas como foram as de 2013 que deram a oportunidade para vândalos e oportunistas. Sindicatos, Partidos dos Trabalhadores e centrais sindicais foram pegos de surpresa. Com a ascensão de Lula e o PT na Presidência da República, há 12 anos, as bases foram deixadas de lado o que deu oportunidade para o surgimento de novas lideranças. Enquanto eles, os sindicalistas, dividiam as fatias do bolo da Esplanada dos Ministérios, com assento em altos cargos nas estatais brasileiras e torravam cartões corporativos, a nova classe média via seu poder de compra diminuir a cada dia. Quais são os principais gargalos do país? PAULO KRAMER – O país de hoje não faz investimentos e quando o faz, faz menos do que deveria. As regras não são claras. Infraestrutura urbana deficitária, portos sem capacidade para receber e embarcar cargas; falta de mobilidade urbana nas grandes capitais e, pior, os impostos dos brasileiros servem para equipar portos como o de Cuba. Lá não existe Tribunal de Contas da União, Judiciário e Legislativo atuantes como no Brasil. Meio fácil de desvio de dinheiro. Os escândalos éticos, como o caso da Petrobras, atrapalham a economia. Não tenho dúvidas que parte do aluguel da mão Divulgação Os manifestantes não estão na camada mais pobre da população? PAULO KRAMER – Não. A estudante Mayara Vivian, líder do movimento passe livre, de São Paulo, faz parte da nova classe média que se divide em alta, média média e média baixa. A revolta acontece nos meio daqueles que viram uma virada na vida nos anos de governo do Fernando Henrique Cardoso e no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, no mandato da presidenta Dilma, a escada de ascensão ficou estreita. Não é no momento de privação absoluta que ocorre o despertar e sim quando as pessoas vão melhorando de vida e, logo após, percebem que a inflação parou o crescimento. Se a economia fica estancada as pessoas se revoltam. Miséria absoluta não provoca revolta. ““ Qualquer que seja o eleito ou a eleita acontecerá um tarifaço na energia elétrica e nos combustíveis, represados em 2013 e 2014 as empresas de energia a diminuírem o preço das contas de luz. Com a pouca chuva e o consumo em alta vamos passar por um período de escassez de energia. ” de obra semiescrava do programa Mais Médicos irá para a campanha da presidenta Dilma. E para um futuro breve? PAULO KRAMER – Vai faltar energia elétrica no segundo semestre de 2014. Estamos caminhando em uma zona de perigo. Houve erros de estratégia do governo Dilma, que se intitulava a mãe do setor elétrico. Por conta de uma política eleitoreira, a Presidência da República obrigou E as contas públicas em 2015? PAULO KRAMER – Qualquer que seja o eleito ou a eleita acontecerá um tarifaço na energia elétrica e nos combustíveis, represados em 2013 e 2014. Os meus prognósticos sobre a economia brasileira já estão acontecendo. O brasileiro já está sentindo no bolso que a inflação não é aquela que o ministro Guido Mantega apregoa, acompanhada pelo horror e a precariedade dos serviços públicos como no caso da saúde pública. Os comerciantes ainda estão na era da hiperinflação, que deixou o país há muito pouco tempo. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 9 “Esperamos que essa campanha elimine de vez a violência contra as mulheres ao sensibilizar toda a sociedade para abraçar essa luta. A campanha é lançada agora, na época da Copa do Mundo, porque temos que nos preocupar com a preservação da garantia dos direitos das meninas e mulheres. As crianças e mulheres brasileiras não podem ser vítimas de turismo sexual. Receberemos com maior carinho a todos os turistas que vierem, mas não admitiremos da parte de brasileiros ou de estrangeiros qualquer violência contra as nossas mulheres.” “Vamos coordenar junto com o ministro do Trabalho um processo de discussão com o movimento sindical, com os setores patronais para ver a oportunidade de editarmos uma lei nesse sentido. Mas é preciso ainda passar pelo crivo tradicional nosso, que é o crivo da consulta.” Ministro da Secretaria-Geral Presidência da República, Gilberto Carvalho, ao informar que o governo estuda mudanças nas regras trabalhistas, as quais poderão permitir contratações com carga horária flexível, o chamado trabalho part time. José Cruz/ABr Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, ao lançar, em 22 de maio, a campanha: “Violência contra as mulheres - Eu ligo”. “Acho muito difícil qualquer possibilidade de greve. Acho, inclusive, que haverá um entendimento entre o governo federal e o sindicato que cuida dos agentes. Mesmo que o entendimento não seja feito, há decisões claríssimas no STF dizendo que a greve é ilegal.” Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em 23 de maio, ao garantir que caso os agentes da Polícia Federal entrem em greve durante a Copa do Mundo, o governo tem como suprir a ausência deles. 10 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Marcelo Camargo/ABr Divulgação ESPLANADA EM FOCO Antonio Cruz/ABr ●● Barbosa inclui mensaleiros em lista de inelegíveis O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, enviou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a lista de condenados no mensalão, cujos nomes deverão ser incluídos no cadastro de políticos inelegíveis. O documento determina a inclusão dos condenados no mensalão no CNCIAI (Cadastro Nacional de Condenados por Ato de Improbidade Administrativa e por Ato que Implique Inelegibilidade) do CNJ. O CNCIAI é uma ferramenta eletrônica que permite o controle jurídico dos atos da administração que causem danos patrimoniais ou morais ao Estado, concentrando as informações em um único banco de dados. Vinte e três mensaleiros cumprem pena no Brasil, um está preso na Itália e um foi absolvido. Constam da lista enviada ao CNJ: Henrique Pizzolato, José Borba, Pedro Henry, Roberto Jefferson, Pedro Corrêa, Valdemar Costa Neto, José Genoíno, Marcos Valério, José Dirceu e João Paulo Cunha. Nelson Jr/STF Ana SEIDL ●● Dilma defende ações do governo em congresso da União da Juventude Socialista A presidenta Dilma Rousseff defendeu, durante discurso no 17º Congresso da União da Juventude Socialista (UJS) em Brasília, em 24 de maio, os preparativos realizados pelo governo. “A Copa do Mundo se aproxima, tenho certeza que nosso país fará a Copa das Copas. Tenho certeza da nossa capacidade, do que fizemos. Tenho orgulho das nossas realizações, não temos do que nos envergonhar e não temos o complexo de vira-latas, tão bem caracterizado por Nelson Rodrigues se referindo aos eternos pessimistas de sempre.” A declaração foi uma resposta indireta ao ex-atacante Ronaldo, membro do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo. Em entrevista em São Paulo à agência Reuters, no dia anterior, ele disse que se sentiu envergonhado pelo modo como o Brasil se preparou para receber o torneio. ●● MEC anuncia que Enem bate recorde de inscrições O Exame Nacional do Ensino Médio registrou este ano 9.519.82 inscrições, aumento de 21,8% na comparação com a edição de 2013, que teve 7.834.017. As regiões Sudeste e Nordeste têm o maior número de inscritos, com mais de 3 milhões cada. As provas serão realizadas nos dias 8 e 9 de novembro. Estudantes da rede pública e pessoas com renda familiar até 1,5 salário mínimo ficam isentos do pagamento. O Enem 2014 será usado no acesso à educação superior, por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), do Prouni (Programa Universidade para Todos), para obtenção do financiamento concedido pelo Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e a participação no programa Ciência sem Fronteiras. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 11 CAPA RECURSOS HUMANOS O esforço do governo para elevar o Estado ao padrão do século XXI Novo Sistema de Gestão de Pessoas garantirá mais produtividade e transparência no Executivo federal ●● Ana Seidl O Brasil tem hoje cerca de 9 milhões de servidores públicos, incluindo os da União, estados e municípios. O governo federal conta com mais de 600 mil servidores civis ativos, distribuídos em 197 órgãos, considerando a administração direta, as autarquias e as fundações. Desde 2003, o Executivo federal adota política de gestão da força de trabalho que busca adequar a quantidade e a qualificação dos servidores públicos às prioridades e às áreas estratégicas 12 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 de governo. Com a percepção de que é preciso colocar definitivamente o Estado no padrão do Século XXI, a Secretaria de Gestão Pública do Ministério do Planejamento acaba de lançar uma nova ferramenta. Trata-se do Sistema de Gestão de Pessoas (Sigepe), disponibilizado para toda a Embratur Divulgação/MP Esplanada dos Ministérios: servidores públicos federais serão integrados ao novo Sistema de Gestão de Pessoas O atual Siape é utilizado por mais de 200 órgãos para produção das folhas de pagamento, mas o Sigepe será um sistema completo de gestão de pessoas que abarcará todas as disciplinas da área Esplanada dos Ministérios. Até 2017 estará totalmente implantado, substituindo, definitivamente, o atual Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos (Siape). O Sigepe vai contemplar todo o serviço público federal: administração direta, autárquica e fundacional, menos os militares. Tudo para melhorar a gestão da força de trabalho da administração pública federal. O atual Siape é utilizado por mais de 200 órgãos para produção das folhas de pagamento, mas o Sigepe será um sistema completo de gestão de pessoas que abarcará todas as disciplinas da área, cobrindo o ciclo de vida funcional do servidor. O sistema foi estruturado em módulos considerando os principais processos de gestão de pessoas: provisão da força de trabalho; seleção e recrutamento; ingresso; sistema de recompensas e benefícios; saúde O Sigepe é um sistema que abarcará todo o ciclo de vida funcional do servidor público do servidor; gerenciamento funcional; processos especiais; gestão do desenvolvimento de pessoas; gestão do desempenho; relações de trabalho; qualidade de vida; segurança no trabalho do servidor; gestão de documentos; monitoramento; gestão da informação; gestão de processos e sistemas; legislação; gestão de dados; aposentadoria e desligamento; além dos processos de suporte necessários. Para o desenvolvimento do Sigepe foi efetuado extenso trabalho de mapeamento dos processos de gestão de pessoas, com tecnologia workflow, bases de dados integradas e plataforma web. Assim, mais do que um sistema que registrará a vida funcional do servidor, o Sigepe será a ferramenta de trabalho da área de Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 13 CAPA RECURSOS HUMANOS Francisca Maranhão/MP Recursos Humanos e o canal de relacionamento com os servidores para as ocorrências e serviços relacionados à sua vida funcional, onde os processos eletrônicos substituirão o meio “papel”, o que proporcionará ganhos de produtividade, segurança e transparência aos processos de gestão de pessoas, em todos os órgãos do Executivo federal. O projeto foi estruturado em cinco etapas, de forma a proporcionar entregas modulares e constantes até sua conclusão, prevista para 2017. Hoje, quando uma pessoa entra no Ana Lúcia Amorim: nova ferramenta vai melhorar a operacionalização dos concursos públicos serviço público é montada sua pasta funcional. Mas se ele muda de órgão, outra é montada, o que fragmenta o processo. Com o Sigepe, ele vai entrar no serviço público, será feito seu registro no módulo de ingresso, sua pasta funcional será digitalizada, toda eletrônica, e o documento o acompanhará ao longo de sua vida funcional. Não precisa mais apresentar documentos. 14 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Concurso público O Sigepe contará com módulo de seleção, ferramenta que vai melhorar a operacionalização dos concursos públicos. Isso facilitará muito o trabalho dos órgãos e dará elementos de gestão muito eficientes. Haverá uma produtividade muito melhor nessa área. O módulo pretende informatizar os processos relacionados ao recrutamento e seleção por meio de concurso público. Constará no sistema desde a solicitação de autorização dos concursos públicos até a autorização para o preenchimento dos cargos. Desta forma, a expectativa é que os processos, antes tramitados e arquivados apenas em processos físicos em papel, passarão a ser tramitados eletronicamente, via sistema. Atualmente, milhares de jovens participam de concursos públicos, atraídos tão somente por remuneração e estabilidade. O modelo de concurso público, apesar de meritocrático, não consegue “filtrar” os perfis necessários. Para a secretária de Gestão Pública do Ministério do Planejamento, Ana Lucia Amorim, “é necessário aperfeiçoar o processo de verificação de conhecimento”. Segundo ela, no México, se faz uma criteriosa avaliação de currículo, para verificar a experiência pessoal da pessoa. “No Brasil, a prática tem sido priorizar a prova objetiva, privilegiando pessoas que podem abdicar de todas as atividades, se dedicar aos estudos e obter as melhores classificações na prova. Isso não quer dizer que ele será o melhor servidor para a administração pública, uma coisa é passar numa prova, a outra é ter atitude, criatividade e empreendedorismo”, afirma Ana Lucia Amorim. O concurso público de 2013 para Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) foi estruturado para ampliar a concorrência e possibilitar que os melhores candidatos cheguem até a última etapa do certame, que é a prova de títulos e experiência. Na nova sistemática, que reserva peso de 77,5% para conhecimento teórico e 22,5% para conhecimento prático, elevou-se em importância a prova discursiva e ampliou-se o grau de pontuação para a fase complementar de avaliação de títulos acadêmicos e experiência profissional. Com essa mudança, espera-se poder selecionar, dentre os 750 melhores candidatos, aqueles que além do conhecimento intelectual necessário, têm experiência profissional, especialmente gerencial. Esta atividade, em qualquer segmento, requer habilidade para lidar com situações que envolvem tomadas de decisão em graus diversos de complexidade, responsabilidade, autonomia e liderança; competências muito desejadas em todos os órgãos da administração neste momento. Por isso as regras estabelecidas para esse edital seguiram a premissa de valorizar a experiência somada à alta qualificação acadêmica. O concurso EPPGG 2013, na verdade, é um mix de aferição de conhecimento e experiência. Na fase acessória, de avaliação de títulos e experiência profissional, serão chamados somente os candidatos que obtiveram as maiores notas nas provas teóricas. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 15 CAPA RECURSOS HUMANOS ENTREVISTA // ANA LUCIA AMORIM “O servidor público tem que estar voltado para o cidadão” Secretária de Gestão defende avaliação mais criteriosa do desempenho do funcionalismo O s governos, diante de demandas cada vez mais complexas e numerosas, desenvolvem esforços para manter e melhorar a capacidade dos serviços públicos e, ao mesmo tempo, reduzir despesas. Por isso, buscam um novo perfil de servidor público, para enfrentar os desafios do século XXI. Esse é o pensamento da secretária de Gestão do Ministério do Planejamento, Ana Lucia Amorim. Para ela, é preciso haver uma mudança cultural no serviço público . “Temos que estar voltados para o que a sociedade precisa e quer que realizemos”, observa.” Segundo a secretária, é preciso saber o que o cidadão espera do servidor. “O serviço público que buscamos não está voltado para o órgão, para a organização ou para a própria máquina do Estado; tem que estar voltado para o cidadão. Essa é a razão de existir do Estado e dos governos: atender às necessidades da sociedade. É isso que precisamos do servidor público do século XXI”, avalia. ““ O Sigepe é mais amplo, é um sistema de gestão de pessoas que vai tratar desde o ingresso no serviço público até a preparação para a aposentadoria ” A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no atual contexto de inovações tecnológicas, avalia que o servidor ideal para a administração pública precisa ser criativo, ter flexibilidade, espírito de cooperação e pensamento estratégico. Assim, não só deve ser mais qualificado, mas precisa ter habilidades e atitudes necessárias à negociação e à articulação de interesses, em novo ambiente de governança pública. Ana Lúcia concorda e afirma: “O perfil ideal de servidor alia conhecimento, experiência e vocação para o desempenho das funções do cargo/ 16 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 carreira escolhidos”. Nesta entrevista exclusiva, ela destaca os pontos básicos do novo Sistema de Gestão de Pessoas e fala do trabalho da Segep no sentido de qualificar melhor o funcionalismo público federal. Qual o objetivo dessa mudança de sistema de gestão de pessoas? ANA LUCIA AMORIM – No âmbito da administração pública do Executivo federal buscamos modernizar a gestão de pessoas. O Siape, que será substituído, é um sistema muito antigo, defasado em termos de tecnologia e de processo. Ele tem várias deficiências, o que dificulta o trabalho do dia a dia dos órgãos de recursos humanos. O novo Sigepe foi construído baseado totalmente em outro modelo, com tecnologia moderna. Além disso, engloba todas as disciplinas de gestão de pessoas enquanto o Siape é um sistema de folha de pagamentos. O Sigepe é mais amplo, é um sistema de gestão de pessoas que vai tratar desde o ingresso da pessoa no serviço Francisca Maranhão/MP público até a preparação para a aposentadoria. Apresenta disciplinas como gestão por competências, capacitação, desenvolvimento na carreira, atenção à saúde e segurança no trabalho. É um sistema bastante completo, com base por servidor, que vai trazer todo o ciclo de vida funcional dele. Hoje o setor de RH tem que fazer todos cálculos e depois lançar no sistema. No Sigepe já tem a ferramenta de trabalho. Então, vamos ter um ganho de produtividade imenso, redução de erros e segurança da informação. Em termos de estrutura o que vai mudar e qual o resultado esperado? ANA LUCIA AMORIM – O resultado que a gente espera é criar uma nova condição na área de gestão de pessoas. Será um salto muito significativo, tanto para os órgãos setoriais quanto para a Secretaria de Gestão Pública. Porque vamos ter uma série de informações que hoje não temos, porque estão todas fragmentadas. Por exemplo, os investimentos do governo federal em capacitação, cada órgão tem o seu, a gente aqui não tem uma visão centralizada. A partir do Sigepe, por exemplo, no nosso módulo de capacitação, toda a execução dos processos será descentralizada, nos órgãos, mas tudo fica consolidado na base desse novo sistema. Podemos usar isso para retroalimentar ou para subsidiar as políticas públicas na área de gestão de pessoas. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 17 CAPA Com as demandas cada vez mais complexas e numerosas, muitos governos demandam esforços para manter e melhorar a capacidade dos serviços públicos e ao mesmo tempo reduzir despesas. Quais as principais ações que a Secretaria de Gestão desenvolve nesse sentido? ANA LUCIA AMORIM – É verdade. Esse é um esforço contínuo de gestão. Às vezes as pessoas falam muito sobre gestão, mas praticam pouco a gestão. E isso é a verdadeira prática dela. Primeiro, todas as demandas para contratação de pessoal são criteriosamente avaliadas. É feito um estudo da situação do órgão, da carreira, previsão de aposentadorias, os últimos ingressos e a capacidade do órgão de retenção de servidores. Tudo isso é conciliado com a disponibilidade orçamentária. Tentamos potencializar esses recursos, selecionando os melhores perfis para cada instituição. Tanto em termos de carreira, de nível de cargo, tudo isso. Temos feito outros esforços na linha de capacitação. Estamos revendo a nossa política nacional de desenvolvimento de pessoas, procurando potencializar parcerias para que os órgãos possam ter acesso a mecanismos que lhes facilitem a capacitação de servidores. Ao mesmo tempo buscamos parcerias. Exemplo: estamos disponibilizando a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) para todos os órgãos da Esplanada dos Ministérios porque é uma entidade que pode trazer elementos novos para área de gestão de pessoas. RECURSOS HUMANOS Trabalhamos fortemente na redução de custos com o saneamento da folha de pagamento. Fizemos uma revisão na folha e detectamos potenciais erros, corrigindo inconsistências, revisando normas. Publicamos mais de 40 orientações normativas para todos os setores de recursos humanos. Isso foi um trabalho dos últimos dois anos. Com a revisão da folha de pagamento, economizamos mais de um bilhão de reais por ano, com a correção de inconsistências e evitando pagamento de valores indevidos. ““ Precisamos pensar qual país queremos, para onde ele está caminhando e quais são as prioridades do Estado brasileiro ” A Segep introduziu um novo modelo de gestão da folha de pagamento do governo federal que incorpora ações de prevenção e inteligência e oferece maior nível de assertividade e confiabilidade ao processo. A inovação permite análises críticas, por meio de cruzamento de dados e acompanhamento das atualizações realizadas mensalmente na folha, com notificação aos órgãos das inconsistências apuradas. Este trabalho, em apenas quatro meses, com correção de inconsistências e evitando pagamento de valores indevidos, já 18 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 gerou uma economia potencial de R$ 559,4 milhões/ano. Quais os tipos de erros mais frequentes encontrados na folha de pagamentos? ANA LUCIA AMORIM – Interpretações legais equivocadas causavam pagamento de gratificações acima do que poderiam ser pagas. Foram eliminados pagamentos para servidores que já tinham falecido. Foi feito o recadastramento dos aposentados. Cortamos mais de 7 mil benefícios, que não foram renovados. As pessoas não apareceram e o benefício foi suspenso, mesmo assim elas não apareceram mesmo, nem para reclamar. Estamos implantando o novo modelo de gestão da folha de pagamentos, em que fazemos o monitoramento da produção dessa folha. Durante as averiguações, apontamos para os setoriais de RH quais são os erros e avisamos para que sejam corrigidos. Se não corrigirem, nós corrigimos, derrubamos esse pagamento, evitando o erro. Por que antes a gente tinha um comportamento de auditoria, de detectar o erro depois de cometido e isso era muito difícil. Depois que você já pagou um valor errado para o servidor público, fica difícil reavê-lo. Em um mês de trabalho, detectamos R$ 2 milhões em erros, no período entre março e abril. Então, é dessa forma que a gente vem trabalhando. Primeiro potencializando o uso dos recursos existentes. Quer dizer, você tem que contratar da forma certa os perfis corretos, capacitá-los para desenvolverem e produzirem ao máximo. É assim que os governos sempre tentam potencializar o trabalho dos seus servidores públicos e ao mesmo tempo trabalhar na redução de custo, saneando aquilo que precisa ser saneado. O que ainda precisa melhorar no perfil do servidor público federal? ANA LUCIA AMORIM – Temos muitos desafios na área de gestão de pessoas, desde o processo de recrutamento, a seleção de pessoas, para que consigamos alcançar um perfil mais adequado. Depois que a pessoa entra na administração pública, temos que ter melhorias no processo de desenvolvimento dela, tanto na questão de capacitação, desenvolvimento na carreira; como manter esse servidor público estimulado por todo período de sua vida funcional. O servidor público pode ficar durante 35 anos no serviço público. Como mantê-lo estimulado e produtivo até o final da carreira? Isso é um grande desafio. Outro desafio é a avaliação de desempenho desse servidor. Nós temos que melhorar o modelo que dispomos hoje e fazer um processo que de fato esteja mais alinhado com os resultados a serem alcançados. E temos que evoluir nas políticas de reconhecimento, valorização dos servidores excelentes, altamente qualificados e muito dedicados. Em contraposição, há quadros que não produzem. Estão ali, arranjaram um emprego, ganharam um salário, estabilidade, mas não querem muito “dar o sangue”. Numa empresa privada, se o funcionário não produz é demitido. No serviço público não tem essa prerrogativa. O servidor público entra pelo concurso público e ganha estabilidade. Então isso é bom em certo aspecto, mas tem efeitos nocivos. Por que as pessoas se acomodam e o dirigente não pode dizer: tenho uma força de trabalho aqui que não está produzindo, preciso repor. A Constituição tem a previsão de regulação da dispensa do servidor público por insuficiência por desempenho. Mas não está regulamentada. É um assunto a ser enfrentado no futuro. Outra dificuldade é que somente os servidores dos mais baixos escalões são avaliados. Quando um servidor ocupa um DAS 4 ou acima disso, não é avaliado. O que nós consideramos um erro. Porque todos têm que ser avaliados. Mas a política hoje estabelecida é essa. Estamos estudando para ver o que podemos melhorar. Qual é o perfil ideal de servidor público, compatível com o enfrentamento dos desafios do século XXI? ANA LUCIA AMORIM – Nos debates em eventos internacionais, o OCDE traz uma reflexão importante sobre isso. O mundo vive uma inovação tecnológica intensa, na era da comunicação e, assim, precisa de servidores que tenham capacidade de criação. O mundo está se inovando. O serviço público tem que acompanhar essa inovação. Então, o servidor tem que ter criatividade e flexibilidade para a mudança. Não dá mais para usar aquele discurso “isso sempre foi feito assim, a lei diz que tenho que fazer assim”. Somos nós que fazemos as leis. Então temos que estar antenados com o mundo para irmos adaptando e modernizando o nosso arcabouço legal, de forma que o serviço público possa acompanhar a modernidade mundial. Precisamos de servidores proativos, que tenham visão estratégica, espírito de cooperação, porque ninguém faz nada sozinho, tem que trabalhar bem em equipe. Atitude é uma coisa importante. Então, o servidor do futuro não precisa somente de um conhecimento robusto de direito administrativo e administração. Ele tem que ter experiência, vocação, habilidades e atitudes. Atitude para tomar iniciativa e fazer a administração pública funcionar de acordo com o que a sociedade espera. Temos que estar voltados para o que a sociedade precisa que realizemos. Essa visão do cliente, que na iniciativa privada foi tão incutida na época que se discutiu a qualidade nas organizações privadas, tem que vir para o serviço público, com o desenvolvimento da visão do cidadão. O que o cidadão espera de mim. O serviço público que desenho, não está voltado para o meu órgão, para minha organização ou para a própria máquina do Estado. Ele tem que estar voltado para o cidadão. Essa é a razão de existir do Estado e dos governos, atender às necessidades da Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 19 CAPA RECURSOS HUMANOS Francisca Maranhão/MP Temos um projeto chamado Planejamento Estratégico da Força de Trabalho. Conseguimos avançar em alguns diagnósticos. Agora estamos nos preparando para buscar uma consultoria que nos ajude a desenvolver uma metodologia de planejamento com essa finalidade. Essa abordagem integrada considera a visão de Estado, as prioridades de governo e as necessidades de estruturas organizacionais e de pessoas. O Sigepe é uma grande ferramenta que vai nos ajudar muito nisso. Ele vai trazer uma visão integrada das várias disciplinas de gestão de pessoas e ajudar a identificar onde estão as deficiências, as lacunas que nós temos que preencher que nós temos que suprir para uma boa gestão. sociedade. É isso que esperamos do serviço público do Século XVI. Como conseguir uma abordagem integrada da gestão de pessoas com visão estratégica de longo prazo? ANA LUCIA AMORIM – Esse é um desafio imenso por que a visão da gestão de pessoas com estratégia de longo prazo pressupõe que nós estejamos alinhados com esta visão de Estado. Então, as pessoas estão aqui a serviço do Estado e da sociedade para produzirem os resultados que essa sociedade espera. O que precisamos é pensar qual país queremos, para onde ele está caminhando e quais são as prioridades do Estado brasileiro. Aí a gente olha para dentro da máquina, determinamos quais as competências que precisamos ter para que o governo consiga entregar esses resultados. 20 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 O Brasil tem hoje com cerca de 9 milhões de servidores públicos, incluindo os da União, dos estados e dos municípios. O governo federal conta com mais de 600 mil servidores civis ativos, distribuídos em 197 órgãos. Qual a sua análise sobre esses números? São necessários às demanda? ANA LUCIA AMORIM – Primeiro, a gente tem que fazer comparações com países que têm o mesmo modelo organizacional. Depois, o segundo parâmetro é o tamanho. Não podemos comparar o Brasil com a Suécia. Isso não tem o menor sentido. Nós vivemos em um país continental com 27 estados, 5.570 municípios. Quando falamos em 9 milhões de servidores temos que ver essa abrangência. Então, analisamos o número de servidores com relação ao PIB. Temos vários indicadores mostrando que a nossa máquina não é inchada. Isso é um mito. Há necessidades nas áreas de infraestrutura, segurança pública e fiscalização. Quanto mais o nosso país crescer, mais servidores públicos vamos ter. Se nós enriquecermos, precisaremos intensificar a atuação do Estado em áreas que são essenciais .O que precisamos é ter uma quantidade de servidores certos na área certa. O esforço é para readequar o perfil. O desafio muito grande é manter uma máquina eficiente. Será criado um módulo de seleção no Sigepe? Como vai funcionar? ANA LUCIA AMORIM – O Sigepe vai ter esse módulo onde os órgãos vão poder lançar os dados dos concursos públicos que estão realizando. Quando o órgão vai fazer uma demanda por concurso público, ele entra no Sigepe e faz uma demanda para o Ministério do Planejamento por meio do sistema. Hoje isso é feito no papel. Ele manda o processo eletronicamente, que vai tramitar desta forma e o Sigepe o auxiliará nesta demanda. O Ministério do Planejamento autoriza a realização de um novo concurso e o provimento das pessoas que foram concursadas. Quando o órgão precisa de um novo contingente de servidores, formaliza um processo. Então, ele monta um processo em papel, até chegar ao Ministério do Planejamento. O ministério analisa e no caso do processo aprovado, nós fundamentamos para a nossa ministra, que fundamenta para a presidenta, quando exige assinatura desta. Quando não exige, a ministra do Planejamento autoriza o concurso. Com esse novo módulo, tudo vai tramitar eletronicamente e depois o sistema vai fazer todo o registro do andamento do concurso, um controle que nós não temos hoje. Hoje os concursos estão fragmentados. Se você me perguntar quantos concursos estão com edital na fase de homologação hoje eu não tenho essa informação. Tenho que solicitar para todos os órgãos me responderem. Com o módulo de concurso do Sigepe, nós vamos ter esta informação em tela. ““ ” Com a revisão da folha de pagamento, economizamos mais de um bilhão de reais por ano Atualmente, milhares de jovens participam de concursos públicos, atraídos tão somente pela remuneração e a estabilidade. O modelo de concurso público, apesar de meritocrático, não consegue “filtrar” os perfis necessários? ANA LUCIA AMORIM – Fazemos uma reflexão sobre o modelo de concurso púbico, que tipo de servidor público ele está trazendo. É o perfil ideal para o que precisamos? Entendemos que o concurso público é uma conquista, pois ele trouxe um projeto meritório, eliminou uma série de práticas, privilégios e apadrinhamentos. É necessário aperfeiçoar o processo de verificação de conhecimento, não necessariamente deve ser uma prova objetiva sempre no mesmo modelo. No México, se faz uma criteriosa avaliação de currículo, para verificar a experiência pessoal da pessoa. No Brasil, a prática tem sido priorizar a prova objetiva, privilegiando pessoas que podem abdicar de todas as atividades, se dedicar aos estudos e obter as melhores classificações. Isso não quer dizer que ele será o melhor servidor para a administração pública; uma coisa é ele passar numa prova, a outra é ter atitude, criatividade e empreendedorismo. Existe alguma ação ou trabalho para despertar a vocação dos jovens pelo serviço público? ANA LUCIA AMORIM – Temos trabalhado sempre no processo de conscientização após o ingresso. Porque hoje a atratividade é muito grande. Não temos essa necessidade de despertá-los para o serviço público porque eles já estão muito atraídos. Mas, após o ingresso, temos implementado cursos para ambientação na administração pública. E nesse curso temos introduzido esta visão do servidor público voltado para a sociedade. De que ele tem uma missão a cumprir no processo de construção do País. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 21 legislativo ENTREVISTA // AUGUSTO NARDES Presidente do TCU diz que o órgão viabilizou economia de R$ 700 bilhões com os gastos da Copa do Mundo Ele admite que a questão da segurança pública é preocupante Divulgação/TCU ●● Zuleika Lopes O atual presidente do Tribunal de Contas da União iniciou sua vida política como vereador em sua cidade natal, Santo Ângelo (RS). Renunciou ao mandato de deputado federal em 2005 para assumir o cargo de ministro do TCU. Formado em Administração de Empresas e com mestrado em Desenvolvimento, Augusto Nardes observa que o Brasil possui grandes problemas estruturais e que o legado da Copa será em mobilidade urbana. Segurança pública é preocupante, em sua opinião, pois apenas 15% do total foram investidos nesta área. Nesta entrevista, ele emite suas opiniões sobre a Copa do Mundo, relacionadas aos gastos e recursos utilizados. O senhor acredita que o país está preparado para a Copa de 2014? AUGUSTO NARDES – O Brasil receberá a Copa. Isso é fato! E muitos esforços e recursos já foram despendidos para o sucesso do evento, Augusto Nardes: o legado da Copa do Mundo será em mobilidade urbana 22 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 entretanto, poderemos enfrentar uma série de dificuldades durante sua realização. Essas dificuldades decorrem, em grande medida, da insuficiência no planejamento e de falhas na elaboração de projetos, que são as primeiras causas das mazelas identificadas pelo TCU ao fiscalizar obras públicas pelo país. Por isso, possivelmente não deveremos ter um desempenho “padrão Fifa” em alguns serviços, a despeito do enorme esforço da União, dos estados e das cidades-sede para termos uma excelente Copa. Isso porque são múltiplas as demandas para a Copa: estádios, infraestrutura turística, telecomunicações, segurança pública, aeroportos, portos, transporte e mobilidade urbana, entre outras, e o Brasil vive um momento de carências estruturais muito grandes. As obras de mobilidade urbana são as que me causam maior preocupação, pois são os investimentos que beneficiarão mais amplamente todos os extratos da sociedade, visto que atendem do mais rico ao mais pobre. Visitei várias das cidades-sede e constatei muitas situações preocupantes, pois algumas obras não vão ser terminadas antes da Copa. Algumas dessas cidades estão com grandes dificuldades em executar e concluir as ações previstas e, possivelmente, não estarão preparadas para receber adequadamente o cidadão. O legado, contudo, está garantido e acredito que isso seja o mais importante. É aquilo que fica, pois algumas medidas já adotadas pelo governo federal garantem a sua conclusão de modo a beneficiar toda a sociedade brasileira. ““ Possivelmente não deveremos ter um desempenho ‘padrão Fifa’ em alguns serviços, a despeito do enorme esforço da União, dos estados e das cidades-sede para termos uma excelente Copa ” A questão da segurança pública vai pesar muito durante o evento? AUGUSTO NARDES – A questão da segurança pública, por si só, já é extremamente complexa e depende diretamente da atuação integrada das diversas forças de segurança de todos os entes federados – União, estados, Distrito Federal e municípios. Em 20/3/2013, o plenário do TCU apreciou processo que tratou de levantamento das ações de segurança para a Copa do Mundo 2014. Esse trabalho objetivou conhecer a organização e o funcionamento da estrutura de governança e operacionalização da segurança pública do evento, bem como seus programas, projetos e atividades. Buscou, também, identificar objetos e instrumentos de fiscalização e avaliar a viabilidade da realização. Em relação aos gastos com segurança para o evento, conforme dados constantes do Portal da Transparência, do total de investimento previsto - R$ 1,87 bilhão -, apenas R$ 492 milhões foram contratados e R$ 274 milhões foram executados. O fato de menos de 15% do total previsto de investimentos em obras e ações para segurança da Copa do Mundo ter sido executado nos preocupa. Outra preocupação relacionada à segurança pública serão as greves, manifestações e protestos que poderão ocorrer durante o evento. Essa situação se agrava pelo fato de algumas das instituições de segurança terem, recentemente, entrado em greve. Acreditamos que o planejamento estratégico de segurança para a Copa já está levando em consideração essas questões e mitigando os problemas que esses atos possam causar. O TCU acredita na logística dos estados com relação à segurança? AUGUSTO NARDES – De acordo com o Levantamento de Governança de Segurança Pública realizado pelo TCU no ano passado (2013) e recentemente apreciado pelo plenário, em que se avaliou a governança das secretarias estaduais de segurança pública de 25 dos 27 estados da federação (considerando também o Distrito Federal), observou-se que alguns estados estão mais bem preparados para receber a Copa do Mundo do que outros. É importante destacar, ainda, que o TCU tem realizado ações de controle específicas para avaliação da segurança da Copa do Mundo, especialmente no Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 23 legislativo ENTREVISTA // AUGUSTO NARDES Divulgação/TCU que tange ao acompanhamento das ações empreendidas pelos ministérios da Justiça e da Defesa relativas à implantação dos citados Centros de Comando e Controle. O TCU foi criticado pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. Como o senhor analisa essas críticas? AUGUSTO NARDES – O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, fez uma crítica ao TCU numa circunstância específica, há aproximadamente dois anos, quando o tribunal divulgou relatório de auditoria onde fora consignado o registro de “grande risco” de que a rentabilidade a ser gerada por algumas das novas arenas não fosse suficiente para cobrir os custos de manutenção. Mas, de outro lado, lembro que o mesmo ministro Aldo Rebelo, recentemente, elogiou o trabalho do TCU em relação à Copa em audiência pública no Senado e não poderia ser diferente, pois o tribunal tem feito um trabalho integrado, em parceria com todos os órgãos da administração pública federal. Foi nesse contexto que a atuação do tribunal já permitiu uma economia de mais de 700 milhões de reais nos empreendimentos relacionados à Copa do Mundo, tudo isso em ações preventivas, sem que fosse necessário paralisar nenhuma obra. As polícias Federal e Civil e a Polícia Militar vão se unir durante o evento? AUGUSTO NARDES – Sim, acredito que essas forças de segurança, juntamente com as outras instituições envolvidas nas ações de segurança pública para a Copa, entre as quais o Ministério da Justiça, a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, o Estado-Maior 24 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Conjunto das Forças Armadas, os Comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, a Força Nacional, a Polícia Rodoviária Federal, as Guardas Municipais e os Órgãos Executivos de Trânsito estarão mobilizadas, integradas e trabalhando no sentido de obter um ambiente pacífico e seguro para a realização do evento. Quais são as principais preocupações do TCU com o legado deixado ao país pós-Copa? AUGUSTO NARDES – Desde que o Brasil foi confirmado como país-sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e ciente do legado que esse megaevento esportivo pode deixar ao Brasil, o Tribunal de Contas da União manifestou preocupação quanto à verificação da adequada preparação do país para sediá-lo, com a oferta de infraestrutura de transportes, logística e ““ O TCU tem feito uma série de recomendações de boas práticas de planejamento e gestão da coisa pública e também exigido estudos prévios de impactos sociais, ambientais e de custo-benefício dos empreendimentos públicos ” segurança necessárias, bem como quanto ao acompanhamento das ações governamentais relacionadas à realização do evento, haja vista a materialidade, a relevância Vinculação do TCU O TCU, previsto na Constituição, exerce a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e administração indireta. Auxilia o Congresso Nacional no planejamento fiscal e orçamentário anual. É uma instituição com autonomia administrativa, financeira e orçamentária. Não está ligado diretamente a nenhum poder, o que faz com que seja um órgão independente. Sua independência é comparada à do Ministério Público. Mas sua vinculação. Segundo o próprio TCU, “ não é um tema pacífico no mundo jurídico, havendo, na doutrina, posicionamentos diversos. Alguns juristas e professores de Direito Constitucional entendem que o art. 71 da atual Constituição Federal coloca o Tribunal de Contas como órgão integrante do Poder Legislativo, já que a atribuição de fiscalizar faz parte das atribuições típicas do Poder Legislativo. Outros afirmam que o TCU não pertence a nenhum dos poderes e entendem que ele é um órgão independente e autônomo, assim como o Ministério Público e que, ao auxiliar o Poder Legislativo, a ele não se subordina. (Com informações de Wikipedia e TCU) e o risco a que essas despesas estão sujeitas. Inicialmente, o TCU realizou levantamento dos riscos a que o evento está sujeito em diversas áreas e na própria sistemática de gerenciamento dessas ações pelo governo federal. As áreas temáticas analisadas foram: coordenação e supervisão das ações, estádios, aeroportos, obras de mobilidade urbana e alimentação do Portal da Rede Copa. É com essa preocupação que o TCU busca oferecer à sociedade uma contribuição importante para que as ações governamentais sejam desenvolvidas com eficiência e eficácia, respeitando-se as leis e normas regulamentares, a partir da correta aplicação dos recursos públicos, e de forma transparente. Bem, os acompanhamentos até agora realizados pelo TCU em torno da Copa do Mundo de 2014, que envolveram um gigantesco trabalho de fiscalização das obras, serviços e ações de governo destinados à viabilização do evento, ao custo estimado de R$ 25 bilhões, sendo 15 bilhões já executados, proporcionaram uma economia aos cofres públicos da ordem de R$ 700 milhões. O TCU tem feito uma série de recomendações de boas práticas de planejamento e ges¬tão da coisa pública e também exigido estudos prévios de impactos sociais, ambientais e de custo-benefício dos empreendimentos públicos. Tudo com o intuito de que a Copa do Mundo de Futebol de 2014 deixe um legado útil para o nosso Brasil.l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 25 legislativo PARLAMENTAR EM AÇÃO // IZALCI LUCAS FERREIRA Pesquisa aponta o deputado como um dos mais produtivos do país Agência Câmara Luta pela melhoria da educação é bandeira principal ●● Zuleika Lopes M ineiro de Araújos, o deputado federal Izalci Lucas Ferreira (PSDB/DF) chegou à Brasília ainda menino. Na cidade estudou, formou em Contabilidade e pós graduou-se em Gestão Financeira. Professor, empresário, auditor, ex-juiz do Trabalho e líder sindical, entrou para a política em 2002, como deputado distrital, período em que apresentou cerca de 170 projetos, dos quais vários viraram leis, como a obrigação do aviso nas portas externas dos elevadores, exposição do Código de Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais e daquela que assegura a inclusão digital aos alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal, entre outras. Por duas vezes foi secretário de Ciência e Tecnologia do DF. Entre 2006 e 2009, Izalci revolucionou a área com a criação dos DFs digitais, do Parque Tecnológico Capital Digital, dos projetos professor informatizado, Bolsa de Iniciação Científica Junior e do Bolsa Universitária. Em 2010 foi eleito deputado federal com mais de 97 mil votos. Há dois anos, figura entre os dez melhores parlamentares do Brasil e o primeiro do DF, de acordo com a avaliação anual feita pelo Núcleo de Estudos (NECON) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de 26 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Izalci Lucas criou a Frente Parlamentar de Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação, da qual é presidente Janeiro (IESP-UERJ) e publicada pela revista Veja. O deputado Izalci tem como principais bandeiras de luta a Educação e a Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação. Nesta entrevista, ele fala um pouco sobre o seu trabalho e suas lutas no Congresso Nacional. Nas últimas análises feitas pelo Núcleo de Estudos da Universidade do Rio de Janeiro e publicadas pela revista Veja, o senhor aparece entre os dez parlamentares mais produtivos do país. Quais foram os temas do estudo? IZALCI LUCAS – Avaliou-se o ativismo de deputados e senadores em 243 proposições legislativas de maior relevância entre projetos de lei, medidas provisórias e propostas de emenda à Constituição que tramitaram durante o ano para nove eixos relativos à modernização e competitividade do Brasil. Os temas foram: Carga tributária, Infraestrutura; Combate à corrupção; Melhor gestão de gasto público; Sistema educacional universal e eficiente; Marco regulatório claro e respeitado; Simplificação de regras e poda à selva burocrática; Governabilidade e Relações trabalhistas. Todos os parlamentares foram analisados? IZALCI LUCAS – Segundo os critérios do levantamento, foram retirados da relação parlamentares envolvidos em escândalos ou que possuem reputação duvidosa. A UERJ utilizou informações da Transparência Brasil, organização independente e autônoma que trabalha no combate à corrupção e levou em conta também a Lei da Ficha Limpa que passou a vigorar a partir de 2012. O senhor é o único parlamentar que figura nas últimas duas análises. Como é a rotina de um parlamentar produtivo? IZALCI LUCAS – Sou membro de 12 comissões permanentes, quatro subcomissões, além de Comissões Especiais de análise de medidas provisórias e de emenda à Constituição. O dia na Câmara começa às 9h, mas quase sempre tenho compromissos mais cedo. A partir das 9h iniciamos os trabalhos nas comissões, frentes parlamentares e em debates nas audiências públicas e no plenário. A jornada termina quase sempre após as 21h, de segunda à sexta-feira. Os fins de semana são reservados para visitas às cidades e encontros com segmentos e lideranças para ouvir as demandas da população. ““ O mais importante é que garantimos a manutenção dos 10% do PIB para a educação ” Quais são os destaques de seu trabalho na Câmara? IZALCI LUCAS – O primeiro diz respeito ao Plano Nacional de Educação (PNE) que já havia sido aprovado na Câmara, mas estava parado no Senado. Conseguimos analisar as modificações feitas no Senado e o Plano Nacional de Educação está pronto para ser votado em plenário. O mais importante é que garantimos a manutenção dos 10% do PIB para a educação. Como já havíamos garantido os recursos dos royalties, creio que nada mais impede que os gestores públicos invistam com seriedade na educação brasileira. Uma de suas bandeiras é a Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação. Qual avaliação que o senhor faz do trabalho realizado nessa área? IZALCI LUCAS – Os últimos 15 meses foram de trabalho intenso para avançarmos nesta área. Criamos a Frente Parlamentar de Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação, da qual sou presidente e trabalhamos em parceria com a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação. A partir de então passamos a debater na Câmara as mudanças necessárias para destravarmos o setor. Foram discussões semanais sobre temas como recursos humanos nas instituições de pesquisa, a incubação de empresas de base tecnológica; a propriedade intelectual, dentre outros, assim como o Marco Civil da Internet e o Código Nacional de Ciência e Tecnologia. Com relação a este último vimos que sem mudar a Constituição não poderíamos avançar nas regulamentações para destravar o setor. Fiquei então com a responsabilidade de relatar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 290), também chamada de PEC da Inovação para fazer as mudanças necessárias. O meu relatório foi aprovado nas comissões e já chegou ao plenário vitorioso. A PEC foi aprovada por unanimidade. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 27 legislativo SOCIEDADE AGORA É LEI Abuso sexual de criança e adolescente vira crime hediondo ●● Menezes y Morais N esta segunda quinzena de junho, com o Brasil celebrando os jogos da Copa do Mundo, o Estado brasileiro, por meio do Congresso Nacional, endurece as penalidades contra aqueles que praticam crime de pedofilia e de exploração sexual de crianças e adolescentes. Com a nova legislação em vigor, esse tipo de delito é considerado crime hediondo. A lei define exploração sexual de criança e adolescentes a utilização deles em atividades sexuais remuneradas, a pornografia infantil e a exibição em espetáculos sexuais públicos ou privados. A nova legislação é resultado do Projeto de Lei do Senado Federal nº 243, de 2010, do senador Alfredo Nascimento (PMDB-AM). A presidenta Dilma Rousseff sancionou a lei ao lado da ministra Ideli Salvatti e da apresentadora Xuxa Meneghel, numa cerimônia no Palácio do Planalto. Xuxa, que confessou à imprensa há algum tempo que fora vítima de abuso sexual quando criança, comemorou a nova lei. Para ela, os condenados por esse tipo de crime devem ser punidos com rigor. E “terão que pagar por muito tempo”. Dilma sancionou a nova lei durante a Semana Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Antes da solenidade, a presidenta recebeu os criadores do aplicativo Proteja Brasil, lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) dia 19/5. A nova legislação altera o nome jurídico do artigo 218-B do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). E acrescenta inciso ao artigo 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, classificando como hediondo o crime de favorecimento da prostituição “ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável”. O PL do senador Nascimento foi aprovado em votação simbólica na Câmara dos Deputados dia 13/5. E sancionado pela presidenta Dilma Rousseff em 21 de maio. A votação do projeto resultou num acerto entre o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDBRN), com os líderes partidários, 28 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 depois de pedido da ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Direitos Humanos. Conforme a relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, deputada Liliam Sá (Pros-RJ), existe uma rede de exploração de pessoas dessa faixa etária em vários pontos do Brasil. “A Câmara dos Deputados dá um grande passo com esse projeto, mas ainda existem muitos pedófilos e exploradores de Gustavo Lima/Agência Câmara ““ A Câmara dos Deputados dá um grande passo com esse projeto, mas ainda existem muitos pedófilos e exploradores de crianças que precisam ser presos e, somente assim, as crianças serão prioridade neste país ” Liliam Sá, deputada federal (ProsRJ) relatora da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes crianças que precisam ser presos e, somente assim, as crianças serão prioridade neste país”, disse. A presidente da CPI, deputada Erika Kokay (PT-DF), ressaltou que esse tipo de crime cria uma cadeia de vitimização: as crianças são empurradas, pela pobreza, ao regime de exploração sexual; têm a infância e a adolescência roubadas; são desumanizadas na exploração; e, finalmente, são culpadas pela exploração de que são vítimas. Conforme a Agência Brasil, Dilma disse pelo Twitter que a imposição de penas mais duras vai fortalecer o combate a esse tipo de crime. “A partir de hoje, o Brasil passa a contar com um forte instrumento legal na luta contra a exploração sexual de crianças e adolescentes”. A presidenta disse ainda: “Essa lei fortalece nossa Deputada Erika Kokay, presidente da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes batalha contra um crime que fere nossas crianças e envergonha o país”. A Lei 8.072/90 prevê a classificação de hediondo para outros dez crimes graves, como estupro de crianças e adolescentes menores de 14 anos e pessoas vulneráveis, que não têm condições de discernimento para a prática do ato devido à enfermidade ou deficiência mental. Também são considerados hediondos os crimes de latrocínio e sequestro seguido de morte. Com a inclusão no rol de crimes hediondos, a exploração sexual de criança ou adolescente passa a ter pena prevista de quatro a dez anos de reclusão, aplicável também a quem facilitar essa prática. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 29 legislativo SOCIEDADE Gustavo Lima/Agência Câmara reclusão, é aplicável também a quem facilitar essa prática ou impedir ou dificultar o seu abandono pela vítima Os condenados por esse tipo de crime não poderão pagar fiança e não terão direito a anistia, graça ou indulto natalino. A pena imposta terá de ser cumprida inicialmente em regime fechado. Para a progressão de regime, será exigido o requisito objetivo de cumprimento de, no mínimo, dois quintos da pena aplicada, se o apenado for primário, e de três quintos, se reincidente. Deputada Liliam Sá, relatora da CPI: crianças de até cinco anos são exploradas sexualmente A nova lei também inclui o proprietário do local onde o crime aconteceu. Será considerado hediondo o crime tipificado no Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40) de submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 anos ou vulnerável. A pena, de 4 a 10 anos de 30 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Repúdio social A deputada Maria do Rosário (PT-RS), que apresentou parecer favorável ao projeto, afirmou que “esse tipo penal suscita repúdio social, sendo um atentado à liberdade sexual e se revela como a face mais nefasta da pedofilia”. Pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, a deputada Maria do Rosário comentou: “Incluir esse crime na lista dos hediondos não banaliza a lei porque se trata de uma tipificação claramente hedionda. A matéria não deve ser confundida com a criminalização da prostituição de pessoas adultas que desejam atuar nessa atividade”, explicou. A exploração sexual de crianças e adolescentes é um crime comum a todas as classes sociais, segundo a deputada Liliam Sá (Pros-RJ), que relatou o projeto na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual. Liliam Sá revelou que a CPI concluiu que a exploração ocorre em todo o território nacional e em todas as classes. “São quadrilhas especializadas que atuam em hotéis, taxistas, agências de turismo, aliciando crianças e adolescentes de qualquer idade. Tivemos notícia de crianças de até 5 anos exploradas sexualmente. A Câmara dá um grande passo ao aprovar essa medida, que agrava ainda mais a exploração de crianças e adolescentes”. O deputado Jean Wyllys (PSol-RJ) avaliou que a prostituição de mulheres adultas não pode ser confundida com exploração sexual de menores. Ele lembrou que a prostituição de mulheres adultas não é crime. Crime virtual Além dos lugares fixos para a prática do crime, existem os locais virtuais, instalados na rede mundial de computadores. Erika Kokay (PT-DF) informou que existem no Brasil cerca de 450 sites com pornografia envolvendo crianças e adolescentes. Ela destaca que 98% dos sites com conteúdo pornográfico estão hospedados em outros países. Isto dificulta as investigações e a punição dos envolvidos. “Nós apresentamos proposição para que os crimes cometidos no Brasil, que têm como vítimas os brasileiros, possam seguir a legislação do nosso próprio país”. A parlamentar do DF apresentou o PL 4665/12. Ele altera o Código Penal (Decreto-Lei 2848/40) para determinar que o consentimento e a ocorrência de relações sexuais anteriores não descaracterizam o crime de estupro e não abrandam a pena prevista de 8 a 15 anos de reclusão. Durante a Copa do Mundo A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Ideli Salvatti avalia que a mudança vai endurecer o enfrentamento dessa prática criminosa. “É uma forma de agravar a o aplicativo para smartphones, Proteja Brasil, indica telefones e endereços e o melhor caminho para chegar às delegacias especializadas de infância e juventude pena e buscar inibir essa forma de violência”. Ideli afirmou ainda que o governo fortalece as redes de monitoramento e combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, integradas por instituições como os conselhos tutelares. A ministra destacou o serviço do Disque 100, que recebe denúncias por telefone. E o aplicativo para smartphones Proteja Brasil, que permite a localização de delegacias, conselhos tutelares e outras organizações especializadas na proteção dos direitos de crianças e adolescentes, que estejam próximas ao usuário para ele possa fazer a denúncia. Ideli revelou que o governo Dilma reforça as ações de combate a exploração de crianças e adolescentes durante os jogos da Copa do Mundo, que começam dia 12 de junho. O governo quer o apoio do Poder Judiciário para combater esse tipo de crime, com a criação, por exemplo, de varas especializadas, acrescentou. Proteja Brasil Desenvolvido para smartphones, o aplicativo Proteja Brasil pode ser baixado gratuitamente. Ele facilita a denúncia para esse tipo de crime. A partir do local onde o usuário está, o Proteja Brasil indica telefones e endereços e o melhor caminho para chegar às delegacias especializadas de infância e juventude. O aplicativo também indica as localizações dos conselhos tutelares, das varas da infância e das organizações que ajudam a combater a violência contra a infância e adolescência nas principais cidades brasileiras. Enquete feita no portal de notícias da Câmara dos Deputados indica que 100% dos internautas consultados concordaram com a mudança na lei, que transforma em hediondo os crimes de exploração sexual de crianças e adolescentes. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 31 MAIS UMA UPA INAUGURADA: CEILÂNDIA. É assim que este governo está mudando a saúde do DF. Sala Vermelha Sala de Coleta Sala de Espera Box de Emergência O GDF acaba de entregar a UPA de Ceilândia. Ela é a maior do DF, uma das maiores do Brasil. São quase 2.500 m2 e conta com 300 funcionários entre médicos, enfermeiros, técnicos e terceirizados. Ela funciona 24 horas por dia e atende especialidades como clínica médica, pediatria, odontologia e exames. Com capacidade para atender 400 pessoas por dia, a UPA de Ceilândia tem também farmácia, sala de raio-x, eletrocardiograma, sala de medicação e inalação, sala de urgência e sala de observação para adultos e crianças. O GDF já entregou 5 UPAs: Samambaia, Recanto das Emas, Núcleo Bandeirante, São Sebastião e, agora, a de Ceilândia. É assim que este governo está mudando a saúde do DF. Secretaria de Saúde Governo do Distrito Federal POLÍTICA E PODER MARIA FÉLIX José Cruz/ABr ●● Mais segurança durante a Copa para não prejudicar a campanha de Dilma pela reeleição O Palácio do Planalto está atento para qualquer fato que fuja ao controle durante a Copa do Mundo relacionado às manifestações de rua. Tudo para não prejudicar a campanha de Dilma Rousseff à reeleição. Para evitar surpresas, o governo anunciou mais investimentos, agora de R$ 1,9 bilhão em operações de segurança e defesa. Serão colocados nas ruas mais de 150 mil agentes de segurança pública e das Forças Armadas. A operação vai se estender até 18 de julho. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, também vai ajudar com movimentações em favor da Copa. A militância petista foi convocada para, nas ruas e nas redes sociais, demonstrar todo seu entusiasmo pelo mundial, na tentativa de contagiar as pessoas. Com a subida de três pontos percentuais nas intenções de votos, de 37% para 40%, Dilma Rousseff pretende manter esse patamar e subir mais um pouco, conquistando de vez o eleitorado no primeiro turno. O Exército contará com veículos blindados, metralhadoras, radares de solo, helicópteros, viaturas, além de roupas especiais contra ataques químicos Wordpress ●● Estruturas montadas Os principais candidatos à Presidência da República começam a montar suas estruturas de campanha com formação de núcleos, coordenações e pessoas que vão integrar a linha de frente. O ex-ministro Franklin Martins, da coordenação da pré-campanha de Dilma Rousseff, afirma que a estrutura será menor do que a de 2010. O presidente do PT, Rui Falcão, disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já é considerado como “comandante-geral” da campanha, ainda que informalmente. Aécio Neves começa a montar uma superestrutura, com coordenadores em vários estados. Também vai contar com um time de juristas e ex-ministros do TSE. O governador de Minas, Antonio Anastasia, deverá ser um dos principais coordenadores, com a missão de montar o programa de governo de Aécio. Eduardo Campos terá dez coordenadores, todos comandados pelo primeiro-secretário nacional do PSB, Carlos Siqueira. A campanha terá forte influência de Marina Silva, candidata a vice, com um viés em defesa da sustentabilidade, mas também do agronegócio. ●● Os gastos milionários dos partidos Eleger políticos no Brasil é algo muito caro, sem amadorismos. É trabalho para profissional. Em 2014 não será diferente. A campanha para a Presidência da República vai bater novo recorde. Isso porque a previsão do PT, PSDB e PSB é a de que vão gastar mais de R$ 500 milhões Em 2010, segundo informaram, gastaram R$ 266 milhões. Mas essa cifra pode ser bem maior, já que os recursos, em sua maioria, são fruto de doações de empresas e de empreiteiras e nunca se sabe, ao final, quanto de fato foi gasto. O PSDB projeta um gasto de R$ 200 milhões. O PSB fala em R$ 150 milhões. E o PT diz que deverá gastar R$ 150 milhões para reeleger Dilma Rousseff. Mas especialistas sustentam que esses valores poderão dobrar ou mesmo triplicar. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 33 políticas da união DESENVOLVIMENTO Governo investe mais recursos em saneamento básico Obras do PAC vão beneficiar municípios com até 50 mil habitantes ●● Washington Sidney C erca de 5,3 milhões de moradores de 635 municípios com até 50 mil habitantes serão beneficiados em breve com saneamento básico. As obras de abastecimento de água e esgotamento sanitário fazem parte da terceira etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O anúncio foi feito pela presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia no Palácio do Planalto, em maio. Serão liberados R$ 2,8 bilhões da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para a realização das novas obras. “O Brasil superou um passado em que governantes não tinham interesse em investir em saneamento. Achavam que era obra que não rendia voto, afirmou a presidenta em sua conta no Twitter, logo após o evento. Ela disse que o governo transformou o investimento em saneamento em uma política de alcance nacional, com benefício para os brasileiros de todos os cantos do país. Desde 2011, quando começou a segunda fase do PAC 2, a Funasa já repassou R$ 3,45 bilhões para obras de abastecimento de água e esgoto. Segundo o Ministério da Saúde, com o início da terceira etapa, serão 4.629 ações do PAC 2 mantidas pela Funasa. A pasta informou que, atualmente, 92% dos empreendimentos do programa foram concluídos ou estão em execução. Durante a cerimônia de lançamento desta terceira etapa do PAC 2, Dilma disse a um grupo de prefeitos e gestores que o país deu um salto no investimento em saneamento nos últimos anos. “Para os pequenos municípios chegamos a quase R$ 7 bilhões, mas o total do investimento em saneamento no Brasil chega a R$ 37,8 bilhões para todos os municípios, sejam pequenos, médios ou grandes”, discursou, referindo-se aos investimentos do PAC, programa iniciado no governo do 34 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 ““ O Brasil superou um passado em que governantes não tinham interesse em investir em saneamento. Achavam que era obra que não rendia voto ” Presidenta Dilma Rousseff Trata Brasil/Divulgação Mais de 31 milhões de pessoas moram em lugares onde o esgoto corre a céu aberto ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dos municípios que receberão os recursos, 239 são do Nordeste, 131 do Sudeste, 131 do Sul, 69 do Centro-Oeste e 65 do Norte. Os municípios foram selecionados pela Funasa por meio de projetos apresentados pelas prefeituras, que realizarão as obras. A presidenta destacou a importância da parceria entre o governo federal, estados e municípios para ampliar a rede de esgoto sanitário e abastecimento de água no país. “Saneamento básico, abastecimento e tratamento de água e esgoto têm, num país como o nosso, uma importância fundamental porque é um setor no qual tradicionalmente não se investiu muito ao longo das décadas passadas”, observou. Avanços De fato, houve avanços consideráveis nessa área nos últimos anos, admite Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, principal instituição independente do país a fornecer informações de relevância à sociedade sobre esse tema. Segundo ele, o setor ganhou mais recursos e destaque das autoridades públicas após uma série de ações conduzidas pelo governo federal, como é o caso dos recursos do PAC. “Há mais de 20 anos não se tinha mais perspectiva de avanço. A Lei do Saneamento, 11.445, de 2007, também ajudou a dar rumo ao setor, pois obrigou os municípios a elaborarem Planos Municipais de Saneamento e a terem os serviços regulados por agência reguladora. Embora lentas, essas providências ajudarão o país”, ponderou. Apesar dos avanços, a situação do país em termos de saneamento básico ainda é crítica. Segundo o Trata Brasil, quase metade da população das 100 maiores cidades do país ainda não conta com coleta de esgotos. A pesquisa foi feita pelo instituto, em parceria com a empresa GO Associados. Segundo o estudo, diariamente são despejados oito bilhões de litros de fezes, urina e outros dejetos nas águas do mar, dos córregos e rios. E pouco mais de um terço ou 36,28% da coleta de esgoto passa por tratamento. Com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 35 políticas da união DESENVOLVIMENTO Agência Brasil Dilma Rousseff afirma que o total do investimento em saneamento no Brasil chega a R$ 37,8 bilhões para todos os municípios, sejam pequenos, médios ou grandes (IBGE), o Trata Brasil informou que nessas 100 maiores cidades vivem 40% dos habitantes do país ou 77 milhões. E mais de 31 milhões de pessoas moram em lugares onde o esgoto corre a céu aberto. A pesquisa aponta ainda que em 32 municípios a coleta varia entre 0% a 40%. Em outros 34, de 41% a 80%. Quanto ao esgoto tratado, verificou-se que em Um rombo milionário no SUS A precariedade do sistema de tratamento de esgoto afeta diretamente a saúde da população – sobretudo a das crianças: 53% das internações por diarreia no Brasil são de menores de cinco anos que não têm acesso a saneamento básico de qualidade. O problema custa R$ 140 milhões por ano ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados são do Trata Brasil. Pesquisa da Sociedade Americana de Química (ACS) revela que seis em cada dez pessoas não têm acesso a saneamento adequado, o que prejudica a saúde. O problema aumenta a vulnerabilidade a doenças, sobretudo diarreicas, como cólera, shiguelose, amebíase e infecções por salmonela. Dados da ONU revelam que 88% das mortes por diar- reia no mundo são causadas pela falta de sistemas de tratamento de esgoto, sendo que 84% são de crianças, principalmente menores de cinco anos. No Brasil, o cenário é o mesmo, como mostra a atualização do estudo Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População, divulgado em abril. Desenvolvida pela pesquisadora Denise Kronemberger a pedido do Instituto Trata Brasil, a pesquisa aponta que em 60 das 100 maiores cidades do país os baixos índices de coleta de esgoto resultam em altas taxas de internação por doenças diarreicas, as quais respondem por mais de 80% das enfermidades que o saneamento ambiental inadequado causa no Brasil. De acordo com o estudo, os municí- 36 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 pios brasileiros que mais gastam com doenças diarreicas – e que, não por acaso, possuem condições precárias de saneamento básico – são, respectivamente: Ananindeua (Pará); Belford Roxo (Rio de Janeiro); Anápolis (Goiás); Belém (capital do Pará); Várzea Grande (Mato Grosso); Vitória da Conquista (Bahia); Campina Grande (Paraíba); Santarém (Pará); Maceió (capital de Alagoas) e João Pessoa (capital da Paraíba). Por lei, os municípios tinham prazo até dezembro de 2013 para apresentarem um Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB). No dia 21 de março deste ano, porém, um decreto presidencial prorrogou a data para 31 de dezembro de 2015. De acordo com o decreto, após essa data, "a existência de plano de sa- Édison Carlos: a Lei do Saneamento Básico ajudou a dar rumo ao setor 40 cidades este serviço não ultrapassa 20% da coleta. Já o nível de excelência (acima de 81%) só existe em seis cidades: Sorocaba (SP), Niterói (RJ), São José do Rio Preto (SP), Jundiaí (SP), Curitiba (PR) e Maringá (PR). Em outras nove, supera os 70%: Ribeirão Preto (SP); Londrina (PR), Uberlândia (MG), Montes Claros (MG), Santos (SP), Franca (SP), Salvador (BA), Petropólis (RJ) e Ponta Grossa (PR). Na média, os 100 maiores municípios destinaram 28% de sua receita em obras de saneamento a maioria num total de 60 não chegou a utilizar 20% dos recursos na ampliação dos serviços. E entre as oito cidades que aplicaram mais de 80% da verba os destaque são : Ribeirão das Neves (MG), Recife (PE), Teresina (PI), Praia Grande (SP) e Vitória (ES). Em relação à distribuição de água tratada, o serviço é oferecido por 90,94% das cidades, acima da média nacional (81,1%). Mas ainda faltam melhorias porque em 11 cidades o atendimento está abaixo de 80% da população. l Trata Brasil/divulgação neamento básico (...) será condição para o acesso a recursos orçamentários da União ou a recursos de financiamentos geridos ou administrados por órgão ou entidade da administração pública federal, quando destinados a serviços de saneamento básico". Além de afetar a saúde dos moradores, a falta de saneamento básico adequado provoca outros prejuízos. O estudo Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro, publicado em março deste ano pelo Trata Brasil e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), revela que a produtividade dos trabalhadores, a educação e o turismo são setores diretamente afetados por esse problema. As crianças são as maiores vítimas da falta de esgotamento sanitário: 53% das internações por diarreia no Brasil são de menores de cinco anos Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 37 políticas da união ESPORTES Aldo Rebelo adianta que Copa do Mundo deverá gerar mais de três milhões de empregos Ministro lembra que a Constituição protege as manifestações pacíficas e coíbe as violentas ●● Carolina Cascão A menos de 30 dias da Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014, o Brasil vive a expectativa de realizar um dos principais eventos do planeta. E foi sobre essa preparação que o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, falou ao vivo, no programa Bom Dia Ministro, da TV NBR, no último dia 13 de maio. Segundo ele, tudo transcorrerá em um ambiente de festa e confraternização. E que se houver manifestações, estas serão atos isolados, pois não há tanta gente interessada em que a Copa seja tumultuada. “Acho que o Brasil está preparado, a Constituição protege as manifestações pacíficas e coíbe as violentas”, disse. De acordo com o ministro, a segurança pública funcionará e a integridade das pessoas será assegurada. “Não vejo nenhum risco em relação a manifestações”, reafirmou. Ele exemplificou ao citar que as manifestações de junho de 2013 não atrapalharam a Copa das Confederações. Foi perguntado ao ministro também sobre a situação da greve dos rodoviários e da depredação de ônibus no Rio de Janeiro e se isso preocupava o governo em relação à Copa. “Nós naturalmente temos a lei para lidar com este tipo de manifestação. A lei precisa ser aplicada. As manifestações pacíficas são protegidas, mas as violentas, aquelas que prejudicam a população, que depredam e degradam o patrimônio público ou privado, ninguém pode aceitar e tolerar. A sociedade não pode se submeter ou ser submetida à pressão desse tipo de manifestação e violência. As pessoas naturalmente têm as suas 38 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 ““ ” Acho que o Brasil está preparado, a Constituição protege as manifestações pacíficas e coíbe as violentas Aldo Rebelo, ministro do Esporte necessidades, precisam se deslocar, trabalhar e cumprir os compromisso e ter a sua vida; e, às vezes, são prejudicadas pela prática violenta de manifestações que não estão protegidas pela lei e acho que os governos federal e estadual dispõem de polícias militar e civil para coibir o abuso de manifestações violentas”, disse. Elza Fiúza/ABr Ministro Aldo Rebelo fala sobre preparação do Brasil a 30 dias da Copa consequência o aumento da arrecadação de tributos ”, explicou. Questionado sobre o legado da Copa do Mundo e o que este evento deixará para a nação brasileira, Aldo Rebelo explicou que o evento é uma oportunidade e que o Brasil, além de ficar com todos os benefícios de infraestrutura, como a ampliação dos aeroportos, terá um aumento no número de empregos e será transformado num destino para eventos e turismo. “Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pela Ernst & Young (consultoria americana), a Copa poderá gerar três milhões e 600 mil empregos no Brasil. Isso já seria suficiente para transformar a Copa num grande benefício, um acréscimo de 0.4 ao ano ao PIB e a economia do Brasil até 2019. É claro que isso aí tem como Obras, uma das principais questões Aldo Rebelo foi muito questionado sobre as obras que foram planejadas para a Copa e ainda não foram concluídas. No estádio de São Paulo, palco de abertura do evento, por exemplo, o ministro afirmou que o estádio foi entregue já acabado e que agora apenas estão sendo concluídas as instalações dos assentos para as chamadas arquibancadas temporárias. “Acho que além da obra do estádio, nós temos ali um legado de mobilidade urbana muito importante para a cidade de São Paulo. Tenho certeza que a abertura da Copa será uma grande festa no estádio considerado um dos dez mais belos do mundo e numa região muito valorizada pela intervenção do poder público da prefeitura do estado e do governo federal”, disse. As obras que não foram entregues, segundo Aldo, são obras do PAC que estavam planejadas antes da Copa e que foram antecipadas, mas nem todas tiveram como ficar prontas para a Copa do Mundo. “Essas obras que já estavam planejadas muito antes da Copa ser aprovada para o Brasil foram recolhidas para uma matriz de responsabilidade com o objetivo de serem antecipadas para melhorar as condições de realização da Copa. Nem todas as obras antecipadas tiveram condição de ficar pronta para a Copa do Mundo, mas continuarão a ser executadas e entregues depois”, disse. Segundo o ministro, várias obras foram antecipadas em diversas cidades brasileiras, mas que serão concluídas logo depois da Copa e que esta ajudou o Brasil a ter uma infraestrutura de mobilidade urbana melhor e mais rápida. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 39 políticas da união ESPORTES DER-MG Uma das perguntas foi sobre o estádio de Porto Alegre. “Visitei várias vezes o estádio do Internacional e vi que ainda temos em torno dele obras em andamento. Tenho conversado com o prefeito, temos enviado ao Rio Grande do Sul o secretário-executivo (do Ministério do Esporte, Luis Fernandes) e há todo um planejamento para que essas obras sejam resolvidas até o primeiro jogo. Creio que serão resolvidas. Acho que a segurança dos torcedores e convidados será assegurada. Há jogos muito importantes, tem jogo da Argentina em Porto Alegre, vem muito argentino para ver o jogo, para ficar na cidade. Então é preciso que a gente faça todo o esforço para garantir a segurança das pessoas, dos torcedores”, explicou. Com relação às obras inacabadas no aeroporto internacional Tancredo Neves (Confins), o ministro disse que a solução é continuar realizando essas obras. “Não tenho outra alternativa. Lembro desse aeroporto de Confins quando era considerado uma espécie Fase final das obras no Aeroporto Internacional Tancredo Neves de aeroporto fantasma, diziam que tinham feito um elefante branco, que não tinha utilidade. E de fato a capacidade dele era muito superior à demanda da época. Hoje, o aeroporto não corresponde mais às necessidades, como aqui em Brasília, quando em 2003 tínhamos dois milhões de passageiros por ano. Em 2013, esse número multiplicou para 16 milhões de passageiros. As obras foram planejadas e estão sendo executadas. Brasília, por exemplo, já inaugurou a maior parte e Confins também vai inaugurar. Não creio que teremos problema na Copa do Mundo”. Disse que não haverá problemas na Copa quanto ao fluxo nos aeroportos porque há uma permuta de passageiros durante esse período. “Muitos passageiros que usam essa infraestrutura no período normal vão preferir ficar em casa para ver a Copa. Eventos, feiras, congressos, enfim, 40 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 suas viagens ficarão adiadas. Além disso, Belo Horizonte tem também uma estrutura urbana importante, obras foram realizadas. Lembro que quando assumi o Ministério do Esporte, em 2011, a minha primeira viagem foi para Belo Horizonte, para inaugurar uma alça de viadutos, perto do Estádio Magalhães Pinto e da Universidade Federal de Minas Gerais, que recebeu inclusive o nome do saudoso vice-presidente José Alencar. Acho que Belo Horizonte tem um legado muito importante para apresentar na Copa”, afirmou. Sobre o estádio Arena da Baixada, no Paraná, o ministro disse que será entregue até a Copa. Segundo ele, este espaço teve a reforma mais simples, pois não precisou de demolição, apenas de construir arquibancadas para completar o anel e fechar o estádio que já era moderno. Aldo Rebelo lembrou que o Paraná e Curitiba sediarão a Copa pela segunda vez. Em 1950, foi construído o estádio Durival de Britto e Silva, que ainda está de pé, e Curitiba realizou os jogos da Copa deste mesmo ano. “O Brasil só não tirou nota 10 naquela Copa porque perdemos a final para o Uruguai. A Copa no Paraná já é um sucesso. Eu fiz uma visita e uma palestra para uma associação comercial do Paraná, em Curitiba, e todos estão entusiasmados pelos resultados positivos que a Copa traz, não apenas pela divulgação da imagem, mas pelas oportunidades de negócios também para o estado”, disse. l políticas da união ASSISTÊNCIA SOCIAL Gercom Venda Nova/MDS Um dos Centros de Referência da Assistência Social (Creas), localizado em Apolônia (RJ), promove oficinas para crianças e adolescentes: apoio do serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif). Uma ferramenta para a superação do abuso sexual Programa de proteção já atendeu 55 mil crianças e adolescentes com reintegração familiar e comunitária ●● Washington Sidney U ma das políticas sociais mais importantes do governo federal é a luta pela superação da violência sexual sofrida pelas crianças, adolescentes e por suas famílias. A principal ação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) nesse sentido é o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif). Em 2013, esse serviço atendeu a cerca de 55,4 mil meninos e meninas com até 17 anos em todo país. Os números ainda estão sendo analisados pelos técnicos do ministério e poderão sofrer pequenas variações, mas já revelam uma realidade dramática. Do total de crianças a adolescentes atendidos no Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 41 políticas da união ASSISTÊNCIA SOCIAL Elza Fiúza/ABr Paif, 41,7 mil eram meninas e 13,7 mil, meninos. A maioria (33,2 mil) tinha de zero a 12 anos. Desses, 23,6 mil eram meninas. Denise Colin, secretária nacional de Assistência Social do MDS, conta que os casos de abuso e exploração sexual identificados são encaminhados para o Serviço de Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (Paefi), prestado, preferencialmente, nos Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas), onde as famílias são acolhidas. Psicólogos, assistentes sociais e advogados, entre outros especialistas, Denise Colin: casos de abuso e exploração sexual identificados são encaminhados para o Serviço de Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (Paefi) Psicólogos, assistentes sociais e advogados, entre outros especialistas, prestam assistência às crianças e adolescentes que sofreram violência. prestam assistência às crianças e adolescentes que sofreram violência. Em geral, os beneficiários desse serviço são famílias em vulnerabilidade e 42 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 as que integram os programas de transferência de renda do governo. “Lá é realizado todo um trabalho de resgate e fortalecimento de vínculos comunitários e, principalmente, familiares”, explicou Denise. É grande a dificuldade de lidar com esse tipo de situação. Jussara Pereira da Silva, orientadora social do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo do Creas de Formosa (GO), diz que as pessoas têm medo, vergonha de contar os abusos. E também há falta de conhecimento. “Mas aqui há apoio e confiança para contar tudo. O trabalho em conjunto com a assistência social faz com que essas famílias sejam amparadas para que não tenham no futuro um problema psicológico”, explica. Iesca Paula de Almeida, assistente social do Creas de Formosa, ressalta que a maioria dos abusos é cometida por alguém da família, vizinhos ou pessoas da própria convivência da criança ou adolescente. "Quando o Creas é a porta de entrada, encaminhamos para exames, perícia e delegacia. Também informamos sobre o que a criança precisa naquele momento: sentimento de proteção, como lidar com a questão da culpabilidade e como agir com a criança quando a situação de abuso aconteceu." Campanha A Comissão Intersetorial de Enfrentamento à Violência Sexual e o Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes convocaram toda a sociedade a assumir a luta contra o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes com a campanha Proteja Brasil. Para isso, bastava usar uma flor no dia 18 de maio. O MDS participou da campanha, coordenada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). Por meio da campanha, foram realizadas atividades de mobilização da sociedade com foco na prevenção desse tipo de situação, com a divulgação do Disque Direitos Humanos (o Disque 100), serviço gratuito que funciona 24h nos sete dias da semana para receber denúncias de violência contra crianças e adolescentes, e do Conselho Tutelar. Outro aliado no combate a esses crimes é o aplicativo para dispositivos móveis Proteja Brasil, batizado com o mesmo nome da campanha. Ele pode ser baixado gratuitamente e surgiu para facilitar as denúncias contra casos de violação de direitos, com a indicação dos equipamentos públicos onde podem ser feitas DF lidera casos O Distrito Federal teve, no ano passado, uma média de cinco casos de violência sexual contra crianças e adolescentes por dia, segundo dados do Conselho Tutelar. Foram 1.840 registros. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, 85% das ocorrências são dentro da casa da vítima. O problema é tão grave na capital do país que uma pequena multidão de crianças de sete escolas e representantes de entidades sociais fizeram uma caminhada no Gama no dia 16. Só no mês de abril deste ano, foram computados 58 casos de abuso. O Distrito Federal também liderou o número de denúncias de casos de violência contra crianças e adolescentes em 2012, segundo levantamento feito pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH). O ranking considera o número de denúncias por habitantes. Os casos mais comuns computados envolvem negligência, violências psicológica, física e sexual. De janeiro a dezembro de 2012, foram 3.776 denúncias do DF registradas no Disque Direitos Humanos, um aumento de 104% em relação ao mesmo período do ano anterior (1.850). O índice representa 5,1 denúncias para cada grupo de 10 milhões de pessoas. Em segundo lugar está o Rio Grande do Norte (4.441 casos, o equivalente a 4,5 denúncias por grupo de 10 milhões de pessoas), seguido do Rio de Janeiro (15.479 casos ou 3,7 denúncias por 10 milhões de pessoas). Ceilândia foi a região administrativa do Distrito Federal que teve o maior percentual de denúncias de violência registradas em 2012: 22,3% do total, seguida por Recanto das Emas (7,3%), Taguatinga Norte (6,9%) e Planaltina I (5,7%). A região com menor índice de violência foi o Lago Sul, com 0,2% de denúncias registradas. A pesquisa revela também que jovens e crianças do sexo feminino são as maiores vítimas de violência (57%), e as faixas etárias com mais casos são entre oito e 14 anos (47%) e entre 4 e 7 anos (20,1%). Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 43 políticas da união ASSISTÊNCIA SOCIAL Elza Fiúza/ABr denúncias. Além disso, é possível ligar para esses locais por meio do próprio aplicativo, e também para o Disque 100 para denúncias contra todo tipo de violações de direito. Projeto transforma prática em crime hediondo No dia 14 de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, em votação simbólica, projeto de lei que tipifica a exploração sexual de crianças, adolescentes e vulneráveis como crime hediondo. Como já foi aprovado pelo Senado, o texto foi à sanção presidencial. O projeto prevê que as penas por esta prática serão as mesmas previstas para os demais crimes ““ A aprovação do texto irá contribuir para chamar a atenção do poder de Judiciário sobre o quão grave é a prática ” Maria do Rosário, relatora do projeto e ex-ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos hediondos, que variam de oito a 30 anos de prisão. As condições para o cumprimento da pena também ficam mais rígidas: ela começará sempre no regime fechado e, para chegar ao semiaberto (que permite trabalho fora da prisão), o condenado deverá cumprir ao menos 2/5 da pena (ou 44 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 de 3/5, se for reincidente), e não 1/6, como nos demais crimes. Atualmente, pelo Código Penal, o crime de exploração sexual se dá ao se "submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone". Pelo projeto aprovado na primeira quinzena do mês de maio passado, será acrescentado no Código Penal um trecho no qual define que o crime se dará quando houver "favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável". Entre os crimes hediondos estão o latrocínio (roubo seguido de morte), estupro, estupro de vulnerável, extorsão mediante sequestro, entre outros. Maria do Rosário, relatora do projeto e ex-ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, acha que a aprovação do projeto representa proteção maior para crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual. Para ela, a exploração sexual de crianças e adolescentes se enquadra no rol de crimes hediondos. “A aprovação do texto irá contribuir para chamar a atenção do poder de Judiciário sobre o quão grave é a prática”, afirma. l Com informações do Portal Brasil e da Agência Câmara governança e gestão MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA Tomada de contas especial – o longo caminho da volta E stoura mais um escândalo na gestão pública. tomada de contas especial para apuração dos fatos, idenPoliciais, fotos, declarações, servidores presos, tificação dos responsáveis e quantificação do dano.” gravações de negociatas. Os jornalistas, ávidos, Constituindo a TCE medida de exceção, aplicada perguntam pelo valor desviado, como em uma matema- quando esgotadas as ações na via administrativa, tratatização do impacto daquela situação, valorizando o delito -se de uma ação instaurada pelo gestor por moto próprio pelos seus valores e não pelos indícios de descontrole, em ou por determinação dos órgãos de controle, diante do um hábito comum na comunicação social pátria. indício de dano ao Erário, visando identificar o quanto Nas atividades de gestão, em diversas situações, o foi desviado e por quem, de modo a instruir o julgamento Erário, a chamada “viúva”, se vê lesado com danos ocasio- pelos Tribunais de Contas, a quem compete, no nosso nados por desvios, superfaturamentos, usos indevidos e ordenamento jurídico, definir o mérito, determinando um sem número de atividades de uma criatividade ímpar de forma cogente o ressarcimento do dano. e que floreiam os anais da gestão pública em diversas Cabe ao gestor administrativo a instauração da TCE esferas. Para esse mal, pensou-se um remédio... e as normas vigentes, sabiamente, ainda que não estaNa busca de recuperar os recursos beleçam competências concorrentes do Erário nessas situações, surgiu um dos órgãos de controle na linha da avoO retorno de instituto denominado de Tomada cação da instauração de TCE, indicou recursos padece de de Contas Especial (TCE). No plano mecanismos cogentes que permitam questões temporais, federal, a TCE tem amparo no Art. a correção e a provocação do gestor 71. da Constituição Federal de 1988, envolvido, quando esse é leniente na da demora do quando diz que cabe ao controle instauração da TCE, para que estas não processamento, e de externo: “ julgar as contas (...) daqueles valoração, no sentido de dormitem em gavetas da administração. que derem causa a perda, extravio ou Assim, a TCE não se confunde com retornos a menor do que outra irregularidade de que resulte a apuração disciplinar ou com inquéritos o potencial detectado prejuízo ao erário público;” e também policiais, dado que a sua função precípua de dano no contido na Lei nº 8.443/1992, a não se atém à punição dos envolvidos e Lei Orgânica do Tribunal de Contas sim ao ressarcimento do Erário, mesmo da União, em seu “Art. 8° Diante da que colateralmente os Tribunais de omissão no dever de prestar contas, da não compro- Contas, nas suas funções judicantes, apliquem punições vação da aplicação dos recursos repassados pela União, no julgamento dos processos. Esses instrumentos têm na forma prevista no inciso VII do art. 5° desta Lei, da finalidades distintas, podem ser abertos no mesmo fato ocorrência de desfalque ou desvio de dinheiros, bens ou gerador e podem colaborar entre si, subsidiando–se valores públicos, ou, ainda, da prática de qualquer ato mutuamente pelos seus achados e conclusões, ainda que ilegal, ilegítimo ou antieconômico de que resulte dano independentes. ao Erário, a autoridade administrativa competente, sob Cabe ressaltar também que uma boa TCE sustenta pena de responsabilidade solidária, deverá imediata- um bom processo judicante e de recuperação de ativos, mente adotar providências com vistas à instauração da e tem-se na observância do contraditório e da ampla ““ ” Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 45 governança e gestão defesa não só um respeito aos direitos fundamentais, mas também um instrumento operacional de apuração e na audição das vozes dos atores, na busca de uma verdade material que permita um ressarcimento mais efetivo. O ressarcimento pela via da TCE percorre um longo caminho, desde a percepção do desvio e as medidas administrativas preliminares na busca do ressarcimento amigável, até a instauração propriamente dita, com certificação do controle interno e julgamento pelo Tribunal de Contas, com a decorrente propositura de ação de cobrança no âmbito da advocacia pública e a consequente execução de bens. Um ciclo longo, de atores diversos e necessários, dado que a TCE figura como uma miniatura de um processo de contas ordinário, que enfrenta no seu decorrer não só os gargalos naturais da burocracia estatal, mas também a natural interveniência de representantes dos acusados, em trâmites recursais que fazem, no plano concreto, que estas ações de cobranças, etapas derradeiras, muitas vezes alcancem apenas os herdeiros até o limite dos patrimônios transferidos, em um cenário de baixo retorno de recursos desviados, demandando nesse fim um largo período de tempo, favorecendo a sensação de impunidade dos que desviam, ainda que exista um visível esforço dos atores envolvidos na otimização dos processos em seu âmbito de atuação. Assim, o retorno de recursos padece de questões temporais, da demora do processamento, e de valoração, no sentido de retornos a menor do que o potencial detectado de dano e, ainda, de provisionamento futuro do recurso ressarcido em um contexto totalmente diverso do momento do dano. Por exemplo, se um estudante vai cursar seu doutorado em outro país e não retorna, quando da volta dos recursos a União, que financiou a sua bolsa, já nos encontramos em outro contexto tecnológico e as demandas iniciais jazem alteradas, retribuindo 46 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Tomada de contas especial – o longo caminho da volta esse retorno para outra conjuntura. O fato é que precisávamos, no país, de profissional com aquela qualificação naquele momento e não logramos êxito. Temos que ter em mente que a TCE se inscreve no contexto de um mecanismo eminentemente de exceção, previsto nas delegações naturais do setor público, na qual gestores ou designados na execução direta ou por meio de parceiros em convênios, recebem recursos para um determinado fim público e pela ausência de prestação de contas ou pela deficiência na execução de objetos pretendidos e suas correspondentes finalidades, estes agentes delegados se veem instados a restituir os valores recebidos para a fonte original inutilizando todo um ciclo de delegação e execução. Por isso, uma visão saneadora permeia o processo de TCE, possibilitando, pelo retorno do recurso ou a apresentação de prestação de contas, a sua extinção pela perda de objeto. A TCE não é um fim em si mesmo, pois se destina, em um contexto, diríamos assim, mais litigioso, ao resgate dos recursos mal empregados, visando remediar os efeitos danosos daquela gestão. Mas, a TCE não pode ser nosso prato principal, pois a gestão necessita se antecipar aos riscos, de modo a prevenir ocorrências danosas. Com esse fim, os governos dos diversos entes tem utilizado de outros expedientes de caráter preventivo, no âmbito de cadastros públicos, que apontam pessoas físicas e jurídicas que deram causa ao dano, atuando pela via da transparência e do impedimento de recebimento de novos recursos, visam aumentar a credibilidade do sistema pelo impedimento da continuidade de uma relação com aqueles que apresentaram problemas. Esses cadastros são alvo de grande judicialização e mormente as alegações jurídicas clássicas de seus detratores, apresentam-se como instrumentos de excelência na prevenção de recorrências na atuação de agentes que já demonstraram a sua baixa capacidade de gerir recursos públicos. Entretanto, o aspecto preventivo necessita evitando a sangria antes que ocorra, de mais... Faz-se mister um avanço nos dadas as dificuldades de recolher o controles internos, face aos riscos perA TCE não é leite derramado. cebidos, em especial na firmatura de um fim em si mesmo, Queremos, como cidadãos, que o parcerias e no acompanhamento da pois se destina, em um dinheiro volte...Mas queremos mais execução destas, rompendo o velho contexto, mais litigioso, ainda que ele não saia. Essa questão modelo de volumosos processos de nos lembra que esse assunto necessita prestação de contas, para iniciativas ao resgate dos recursos vir a baila, pois temos a responsabique tenham um viés mais estratégico, mal empregados, lidade geracional de pensar sobre esses que com auxílio da TI, que permita visando remediar os processos de ressarcimento de recursos uma análise de prestações de contas efeitos danosos daquela mal empregados, para com criatividade mais expedita, com ações de fiscaligestão e bom senso, otimizá-los, para que reszação mais céleres e pontuais e que peitem sim os direitos fundamentais dos retroalimentem os sistemas no sentido arrolados, mas que tenham em mente de impedir novos acordos e novos aprovisionamentos de recursos, buscando também pelas também que aquele recurso privou um outro grupo de seus ações de georeferencimento e com o apoio do controle direitos sociais e que o tempo, inexorável, vai destruindo social, identificar também o adimplemento dos objetivos a credibilidade pela impunidade, em prejuízos imateriais a gestão pública, instância de oferta de direitos sociais aos pactuados. Diante do desvio, do escândalo, da ação criminosa, cidadãos, inclusive aqueles de maior vulnerabilidade. l a dimensão de reposição do Erário é valorosa, mas é necessário avançar sobre esse paradigma e pensar nos Marcus Vinicius de Azevedo Braga é analista de Finanças e Controle (CGU-PR). em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Bacharel em Pedagogia pela mecanismos que permitirão surgir aquele desvio e que Mestre Universidade Federal Fluminense (UFF). Bacharel em Ciências Navais com Habilitação podem alimentar outros, passíveis de serem impedidos, em Administração (Escola Naval). ““ ” Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 47 estados e municípios POLÍTICAS PÚBLICAS A marcha dos prefeitos a Brasília Um grito pela sobrevivência dos municípios brasileiros ●● Ana Seidl A XVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, encerrada em 15 de maio, contou com a participação de cinco mil pessoas, entre prefeitos e gestores. O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, leu a carta encaminhada à presidenta Dilma Rousseff e aos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo e aos pré-candidatos à presidência da República. Os signatários expuseram a crise financeira enfrentada pelos municípios e falaram sobre as consequências do subfinanciamento dos mais de 390 programas federais. Também destacaram que o principal motivo da atual situação de dificuldade financeira dos municípios está na política de isenções fiscais concedida pelo governo, causando a redução do Fundo de Participação dos Municípios. “Segundo o TCU, apenas do FPM foram retirados R$ 77 bilhões nos últimos cinco anos”, alerta o documento. As reivindicações dos gestores foram expostas durante os quatro dias de evento. Aos candidatos à presidência da República, os prefeitos cobraram o compromisso com a valorização da pauta municipalista. Os pontos prioritários foram: aumento do FPM; redistribuição dos royalties; compensações pelas perdas por desonerações fiscais; reajuste dos valores repassados à manutenção dos programas federais; aumento do piso do magistério pelo INPC; atualização da lei que trata do ISS e o encontro de contas da Previdência. A marcha também marcou a consolidação da campanha liderada pela CNM, Viva o seu Município, que paralisou as atividades de quase duas mil prefeituras de todo o país no dia 11 de abril com o objetivo de mostrar à população os motivos e os efeitos da crise. Conquistas e gargalos O compromisso do Congresso Nacional com a votação do aumento em 2% do Fundo de Participação 48 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 As reivindicações dos gestores foram expostas durante os quatro dias de evento. Aos candidatos à presidência da República, os prefeitos cobraram o compromisso com a valorização da pauta municipalista Antonio Cruz/ABr Prefeitos, vereadores, gestores, secretários de Estado e parlamentares debatem a crise nos municípios dos Municípios (FPM), antes das eleições, e dos royalties pelo Supremo Tribunal Federal (STF) são conquistas do nosso movimento”, afirmou o presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski. Em discurso, na cerimônia de abertura da XVII edição da Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, Ziulkoski fez uma retrospectiva do movimento e suas conquistas. Ele destacou as perdas registradas por conta das desonerações concedidas como medida de incentivo fiscal, principalmente as do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto de Renda (IR). “Um dado estarrecedor. Nós perdemos um ano de FPM nos últimos cinco anos. Isso porque a União faz favor com chapéu alheio. Ela deveria renunciar da sua parte e respeitar a Federação. E eu chamo a atenção do Congresso Nacional que autorizou o Executivo a agir dessa forma”, lamentou. “Quase 90% dos municípios têm dívidas previdenciárias”, informou Ziulkoski. Pesquisa da CNM mostra que, até o dia 20 de março, 1.129 municípios estavam no Serviço Auxiliar de Informações para Transferências (Cauc), porque não conseguem a Certidão Negativa de Débitos (CND). Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 49 estados e municípios POLÍTICAS PÚBLICAS Antonio Cruz/ABr Paulo Ziulkoski: o compromisso do Congresso Nacional com a votação do aumento em 2% do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), antes das eleições, é conquista do movimento dos prefeitos Ziulkoski completou: “Nos tiraram, nos roubaram para fazer ajuste fiscal e cadê o ajuste social? Não estamos pedindo favor, esses recursos vão para a saúde e para a educação do povo brasileiro”. O presidente da CNM comentou sobre a aprovação do piso salarial dos agentes comunitários de saúde. O líder reconheceu como positiva a iniciativa da Câmara dos Deputados de ter acrescentado ao texto a responsabilidade da União com o pagamento do benefício. Mas voltou a criticar o financiamento dos programas federais executados pelas prefeituras e lamentou o fato de diversas políticas, criadas por meio de resoluções e decretos, nunca terem tido reajuste no valor repassado. “Todo o nosso problema se resume em dois fatores: renúncia fiscal e o subfinanciamentos dos programas”, explicou. “Se não tiver do governo federal uma mudança, nas próximas marchas viremos entregar esses programas,” ameaçou Ziulkoski, sendo ovacionado pela plateia. O presidente da CNM destacou alguns avanços do movimento: a instalação na Câmara dos Deputados da comissão especial destinada a analisar a proposta que aumenta o fundo em 2%, no mínimo de sessões regimental; a inclusão na ordem do dia da apreciação da liminar concedida 50 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 ““ Todo o nosso problema se resume em dois fatores: renúncia fiscal e o subfinanciamentos dos programas ” Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional de Municípios pela ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lucia, na ação que trata dos royalties; e a responsabilização da União em relação ao financiamento dos pisos das categorias, com o pagamento total do benefício. Auxílio Financeiro aos Municípios (AFM), 1% do Fundo de Antonio Cruz/ABr Participação dos Municípios (FPM) e Fundo de Exportação (FEX) são outras conquistas do movimento: “Foram mais de R$ 274 bilhões obtidos com a nossa mobilização na marcha”, ressaltou Ziulkoski. Ausência O subchefe de Assuntos Federativos da Presidência da República, Gilmar Dominici, justificou a ausência dos representantes do governo federal no maior evento municipalista da América Latina. “O ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, não pode comparecer por causa de doença. Já a presidenta Dilma Rousseff teve que se ausentar pois está na Paraíba visitando a transposição do Rio São Francisco”, explicou Segundo Dominici, o governo sempre está aberto ao diálogo já que até criou o Comitê de Articulação Federativa, proposta do presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski. “Nos entendemos que os municípios estão em crise, assim como o país e mundo. Independentemente disso, o governo está aberto para discutir sempre” declarou Dominici. Na abertura da XVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, a senadora Ana Amélia (PP-RS), representando o presidente do Senado, Renan Calheiros, ressaltou as dificuldades enfrentadas pelos gestores municipais. “Não é fácil ser prefeito e administrar o município em uma situação de absoluta fragilidade da ““ ” Não há na escala política representantes mais sofridos do que os vereadores e os prefeitos Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados Federação brasileira, cuja crise fundamental está justamente na base dessa Federação, que é o município. Porque a corda sempre arrebente no mais fraco“, disse. “É no município que as pessoas vivem, trabalham e sofrem as dificuldades. Então, se não houver solidariedade entre os entes federativos, essa Federação vai acabar falindo”, destacou a senadora. “É na porta do prefeito que o cidadão vai bater para pedir uma internação hospitalar. Na porta do vereador que o cidadão contribuinte vai reclamar e pedir um medicamento. Muitos secretários de Saúde são presos por não conseguirem cumprir uma exigência judicial”, lamentou. Ana Amélia considera injusta a divisão dos percentuais de investimento na saúde: “Atualmente, o município tem que aplicar 15% da receita, os estados 12% e a União?”, questionou. Ana Amélia apoiou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 39/2013, que aumenta em 2% o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), de autoria de todos os dirigentes municipalistas do país. Ela alertou para a redução gradativa dos repasses. “O FPM reduziu de 15 a 20%, neste ano, em comparação ao ano passado. O prefeito não consegue fechar a conta com essa redução da receita. Ela lembrou que quatro mil municípios, cerca de 80%, Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 51 estados e municípios têm no FPM a sua principal fonte de receita. A senadora criticou também as desonerações de impostos concedidos pelo governo com impacto no fundo. Após o discurso de Ana Amélia, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) destacou que todos os senadores presentes ao evento vão apoiar a causa municipalista: “Faremos na tribuna do Senado um apelo pela valorização do municipalismo brasileiro. É o nosso compromisso. “Vota, vota!.” Gritavam os municipalistas e participantes do evento, levantando uma grande faixa com um mapa do Brasil e a sigla FPM. O presidente da Câmara dos POLÍTICAS PÚBLICAS Prefeitos e parlamentares de todo o Brasil estiveram reunidos para a realização das bancadas estaduais em 14 de maio, que aconteceram no Senado e na Câmara Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), deu a reposta: assinou a instalação da Comissão Especial que analisará o aumento de 2% do Saúde e educação O ministro da Saúde, Arthur Chioro, em 16 de maio, durante participação na XVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios disse que “é um desafio gerir as políticas de saúde dentro de um sistema que é tripartite”. “Quase nenhum município investe menos do que é constitucional em Saúde, e ao investir mais de 20% o conjunto de políticas públicas da prefeitura é comprometido”, admitiu Chioro. O ministro reconheceu a complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele fez um balanço da execução de programas federais nos municípios, ressaltando a gestão deles. O ministro da Educação, Henrique Paim, falou sobre a valorização dos professores e programas federais da área, mas não indicou formas para diminuir a burocracia e resolver os problemas do setor apontados pelo movimento municipalista. Ele respondeu às perguntas formuladas pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) e por participantes da marcha. 52 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Ele disse que a marcha é um grito de sobrevivência. “Os municípios não são mais o primo pobre da Federação, são o primo paupérrimo e abandonado da nação brasileira. Não há na escala política representantes mais sofridos do que os vereadores e os prefeitos”. Alves reconhece a crise: “As prefeituras estão falidas, quebradas e desmotivadas. Isso em um país com discurso municipalista. Prefeitos não são intermediários. Prefeitos foram eleitos, são líderes, devem ter autonomia e o poder orçamentário”. O presidente da Câmara lembrou que pediu, muitas vezes, que o Supremo Tribunal Federal (STF) aprecie as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adin) que contestam a nova lei de distribuição dos royalties. “Nós estamos querendo redistribuir as riquezas deste país entre todos os estados e municípios”. Bancadas estaduais Prefeitos e parlamentares de todo o Brasil estiveram reunidos para a realização das bancadas estaduais em 14 de maio, que aconteceram no Senado e na Câmara. A bancada do Rio Grande do Norte contou com a presença de muitos prefeitos. No entanto, apenas um parlamentar participou, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Para acalmar os ânimos exaltados com a falta de comprometimento dos congressistas, Alves ponderou: “É melhor Antonio Cruz/ABr um bom acordo ao invés de uma briga que a gente não sabe se vai ganhar” afirmou o deputado para seus conterrâneos. Já no caso da bancada do Paraná o auditório estava lotado. O prefeito de Pitangueiras (PR), Antônio Kolachinski, destacou que os municípios pequenos, como o dele, necessitam de mais arrecadação. O aumento do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) ajudará a complementar os gastos em saúde e educação. “Converso sempre com o meu deputado para que ele lute por isso.” O presidente da bancada de São Paulo, Celso Giglio(PSDB), destacou a importância da reformulação do pacto federativo e o aumento da autonomia municipal. “Uma decisão imposta de cima para baixo coloca o prefeito em uma situação ruim. Ou ele cumpre a LRF ou honra com o aumento dos pisos salariais”, diz Giglio sobre o impasse vivido pelos prefeitos a respeito da Lei de Responsabilidade Fiscal. Na bancada de Pernambuco, o deputado Silvio Costa (PSB) pediu paciência aos gestores municipais. “Não dá para pressionar o governo pedindo dinheiro. Temos que priorizar”, ressaltou Costa. Os prefeitos não concordaram e criticaram a ausência da presidenta Dilma Rousseff na XVII Marcha a Brasília Evento reuniu quase cinco mil municipalistas de várias localidades: em busca de mais recursos para as prefeituras em Defesa dos Municípios. A prefeita de Santa de Pirapama (MG), Kênia Marques dos Santos, estava desapontada com o que chamou de descaso das autoridades. “A gente fica com o pires na mão mendigando recursos. E não pode ser assim. Os prefeitos estão administrando miséria. Eu sou prefeita de primeiro mandato e às vezes dá vontade de desistir”, desabafou. “Quem não faz coisa errada, não se esconde”, alfinetou o prefeito Nicodemos Ferreira de Barros, de Feira Nova (PE). l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 53 AGENDA BRASÍLIA ENTREVISTA // FRANCISCO MACHADO A democracia como prioridade na gestão dos recursos públicos Coordenador de Cidades do DF fala da importância do Orçamento Participativo na definição e na execução das obras ●● Washington Sidney U ma revolução na gestão dos recursos públicos no Distrito Federal. Assim se pode definir o Orçamento Participativo, instrumento que democratizou as decisões sobre o investimento dos recursos arrecadados pelo GDF. Por meio dele, a comunidade elegeu 678 obras, 250 das quais estão concluídas. Caso do Balão do Periquito, no Gama, por exemplo, além de diversas escolas e centros de saúde. À frente da Coordenadoria das Cidades do Distrito Federal, órgão responsável por este programa, o economista Francisco Machado explica, nessa entrevista para a Gestão Pública, o funcionamento do Orçamento Participativo, sua importância no combate ao desvio Francisco Machado informa que já são 678 obras entre concluídas, em execução e aprovadas 54 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 administrativo e na implementação da transparência Que relação se pode fazer entre Orçamento Participativo e gestão? FRANCISCO MACHADO – A participação popular, no meu entendimento, tem um apelo muito grande, relacionado à necessidade da organização, da autogestão, está muito vinculada a esse caminho. Mas também tem um componente forte no combate ao desvio administrativo, desvio de conduta e até a corrupção, na medida em que a população está mais atenta. Então, transparência, acesso à informação e a participação popular constituem esse tripé extremamente importante para que a gente avance na democratização da gestão pública. A democracia representativa é muito importante, não tenha dúvida, mas a participação popular, a democracia direta, a democracia participativa tem esse componente progressista. Gosto sempre de dizer que avançamos aqui no Distrito Federal com a democracia na medida em que estamos incluindo esse componente da participação popular. Como começou o Orçamento Participativo? FRANCISCO MACHADO – Começou com uma concepção, eu diria, até mais arrojada e mais ambiciosa. Infelizmente não conseguimos, concretamente, que ele cumprisse toda a dimensão que entendemos do Orçamento Participativo. Nós gostaríamos que, na discussão do Orçamento Participativo, começássemos a debater e entender o orçamento como um todo, desde as questões relacionadas às receitas e às despesas do governo até chegar na discussão lá na comunidade, elegendo as prioridades da comunidade onde às vezes o programa não tivesse alcançado. Então, trabalhávamos com essa dimensão. Fizemos cursos no primeiro ano, em 2011, para entender como cons- ““ A participação popular, no meu entendimento, tem um apelo muito grande, relacionado à necessidade da organização, da autogestão ” titui a peça Orçamento, como é que se dão as receitas, como é que se dão as despesas. Depois ingressamos na participação popular, elegendo, nas regiões administrativas, áreas tanto do setor urbano como do segmento rural, discutindo quais eram as prioridades e, obviamente, casando esses dois interesses numa peça única, que é o que a gente tem tentado propor. Mas, do ponto de vista da Lei Orçamentária, tem sido incluído quase como uma peça anexa ao orçamento. Tem ganhado dimensão e importância, mas precisamos avançar um pouco mais. A concepção também relacionava muito estreitamente os compromissos da secretaria com as demais unidades do GDF. As secretarias, administrações regionais integram o sistema de comando do que seria esse Orçamento Participativo. Mas o trabalho acabou ficando com a Coordenadoria das Cidades FRANCISCO MACHADO – Na prática acabou ficando muito aqui. Por mais que a gente tivesse construído um grupo técnico de implementação do Orçamento Participativo, composto por várias secretarias e a Coordenadoria das Cidades, a tarefa acabou ficando, quase exclusivamente, do ponto de vista do governo, aqui. É esse pessoal aqui que tem nos ajudado a dialogar com as secretarias, a dialogar com as administrações porque o recurso que vêm para a implementação das prioridades do Orçamento Participativo vem dessas unidades, seja das secretarias, seja das administrações. Não existe uma rubrica Orçamento Participativo dentro do Orçamento do GDF. Não sei como acontece em outras unidades da Federação, mas aqui não existe. Então, saem dessas rubricas. Nós temos de negociar entre as prioridades que nós coletamos em nossas assembleias de base com as prioridades que o GDF tem como prioridades estratégicas, mas também as prioridades das unidades de execução. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 55 AGENDA BRASÍLIA Isso não gerou confusão? FRANCISCO MACHADO – Esse negócio criou, num primeiro momento, certa ciumeira, uma disputa. Até porque eles achavam que as prioridades implementadas por nós poderiam dar crédito maior para a Coordenadoria das Cidades do que para as administrações. Isso chegou ao ponto de criar um debate interno e nossos próprios companheiros do Orçamento Participativo requererem que nas nossas placas de obras, nas placas de serviço, a gente tivesse lá “Esta é uma obra do Orçamento Participativo”. Mas os administradores reagiram: “Não, nós que estamos executando. Então, essa é uma obra da minha administração aqui na minha cidade”. Ou o secretário lá, por exemplo, de Obras, ou de Educação, ou de Saúde: “Não, essa obra foi executada por nós. Essa é a obra da secretaria”. Aí se criou certa polêmica e chegamos à conclusão de que não valeria à pena ficar esgrimando. Na verdade, essa é uma obra do GDF. O que conta é o interesse público e não o interesse político de secretários ou administradores? FRANCISCO MACHADO – Exatamente. Essa é uma obra do GDF. E o que conta mesmo é que aquela população foi contemplada naquilo que ela elegeu como a sua prioridade. Essa a questão que era fundamental. A chancela. Não íamos brigar pela chancela. A chancela, na nossa opinião, é do governo do Distrito Federal. E trabalhamos muito com ENTREVISTA // FRANCISCO MACHADO ““ Essa é uma obra do GDF. E o que conta mesmo é que aquela população foi contemplada naquilo que ela elegeu como a sua prioridade ” essa questão. E reconhecemos que a grande parte do nosso trabalho é feita lá na ponta, para a pessoa que foi para a assembleia de base, para o cara que foi eleito delegado da sua área, para o conselheiro, o delegado do Orçamento Participativo. Essa é o pessoal que, na verdade, é a porta, que faz um trabalho muito importante na implementação do 56 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Orçamento Participativo. Ele é que também deve ser contemplado. E é um pouco disso que nós recebíamos então a cobrança: “Olha, Chico, nós trabalhamos, é trabalho voluntário, nós nos deslocamos, inclusive, de áreas agrícolas para vir aqui na reunião da administração, nos deslocamos distante para vir aqui na reunião do conselho, e nós queremos que esse trabalho seja reconhecido, que tenhamos crédito”. A forma de ter esse crédito é até um carimbo, uma placa do Orçamento Participativo. Isso criou certo probleminha que a gente está procurando contornar. E vamos contornar com as publicações que nós estamos preparando, onde relacionamos essas obras e o efetivo trabalho desse contingente, que não é pequeno. Veja que nós temos mais de mil delegados do Orçamento Participativo. Nós temos quase cem conselheiros do Orçamento Participativo, todos trabalhando voluntariamente, de maneira comprometida, responsável, alguns acompanhando as obras, os trabalhos por meio das nossas comissões, seja de licenciamento, seja de acompanhamento. Enfim, é um trabalho que é aportado para a região administrativa. No Brasil nós temos um problema recorrente que é o fato de um governo começar uma obra e não concluir. Qual a importância do Orçamento Participativo do ponto de vista da continuidade? FRANCISCO MACHADO – Nós queremos iniciar e terminar no nosso governo, obviamente, as prioridades do Orçamento Participativo. Não sei se vamos conseguir, porque existem prioridades do Orçamento Participativo que são grandes. Por exemplo: o asfaltamento de algumas DFs que demandam um trabalho que pode começar agora e só ser concluído daqui a seis meses. A ideia nossa é iniciar e concluir, prestar contas com os nossos delegados, principalmente prestar contas junto à população. Então, o compromisso continua sendo esse. E vamos pavimentando esse compromisso com o desenvolvido, pressionando as secretarias, administrações para que concluam essas obras, que precisamos efetivamente colocar à disposição da população. Do ponto de vista da gestão, o Orçamento Participativo é um avanço? FRANCISCO MACHADO – Sem sombra de dúvida. Como eu disse: o nosso delegado ou o militante lá de determinada área, que foi eleita para realizar a assembleia de base, ele acompanha desde a discussão de suas prioridades, discute nas suas áreas, são apresentadas várias prioridades para determinada região. Elas têm que ter certo peso e eles acabam escolhendo as principais priorida- ““ Nós queremos iniciar e terminar no nosso governo, obviamente, as prioridades do Orçamento Participativo ” des, acompanham essas prioridades, acompanham o início da execução, acompanham as obras, fiscalizam. E é outra coisa que algumas secretarias e algumas construtoras contratadas, às vezes para construir uma determinada unidade, não estão acostumadas. O cara chega lá: “Eu sou do Orçamento Participativo”. Ele se identifica, mostra o crachazinho: “Eu quero fiscalizar”. Muitas vezes não querem deixar ele entrar. Nós temos de acionar a secretaria, a administração, enfim, porque isso está absolutamente relacionado ao nosso compromisso com a transparência. Desde que foi implantado o Orçamento Participativo, em 2011, quantas obras já foram concluídas de prioridades da população, quantas foram licitadas? O senhor pode dar um quadro dessas obras? FRANCISCO MACHADO – Entre as concluídas, em execução e as aprovadas para dar início, nós temos 678 obras. Ou seja, entre as concluídas, as que estão em curso e as que estão se iniciando. Do nosso ponto de vista, foi um sucesso esse esforço que nós temos feito com os administradores, com os secretários, nós do governo, mas principalmente com os nossos delegados, com os nossos conselheiros, que têm nos ajudado muito. Algumas pessoas vinham fazendo críticas com a baixa execução, com o baixo desempenho do Orçamento Participativo, mas os números comprovam exatamente o oposto. É um trabalho que tem sido exitoso. Está havendo realização, reconhecimento, e são obras importantes, como eu falei, desde uma estrada, uma creche, um colégio, uma unidade hospitalar. Então, nós estamos avançando bastante. E também na parte de serviço. Porque não é só obra. Tem a parte de serviço. E nós temos conseguido, de forma muito empenhada, com os nossos partícipes populares, que, na minha opinião, desempenham papel muito importante, que é o povo acompanhando, participando, criticando. Como é a participação popular no Orçamento Participativo? É feita por meio de entidades, associações, sindicatos? Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 57 AGENDA BRASÍLIA ENTREVISTA // FRANCISCO MACHADO prioridades sendo contempladas de que o nosso governo está comprometido com o Orçamento Participativo. FRANCISCO MACHADO – Na verdade, a participação é individual. Não são entidades. As entidades continuam existindo. Ninguém está aqui para substituir as entidades. As entidades, sejam elas associações de moradores, sindicatos, vão continuar existindo. A nossa participação é por indivíduo: da dona de casa, que não teve a oportunidade de entrar para uma associação e está lá participando. E participa e cobra. E o debate é duro, não é fácil não. Porque na mesma hora em que eles reconhecem o trabalho, eles podem também vaiar, não é? Eles criticam a baixa execução. E ““ Ninguém está aqui para substituir as entidades. As entidades, sejam elas associações de moradores, sindicatos, vão continuar existindo ” o nosso governador tem reafirmado, sempre que possível, seu compromisso com a execução do Orçamento Participativo. E essa é uma prova concreta com o número de 678 58 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Das 250 obras já concluídas, qual o senhor considera a mais importante, a mais impactante? FRANCISCO MACHADO – É difícil dizer. Talvez o Balão do Periquito, lá no Gama, seja uma obra muito importante. Mas tem o ginásio poliesportivo, uma obra muito importante requerida pelo pessoal da área rural, do PAD/DEF. Outra obra muito importante, em Samambaia, foi a substituição da escola de zinco, uma verdadeira agressão ao nosso corpo discente. Foi destruída e construída uma escola modelo, muito boa, linda escola. É uma obra extremamente importante também. Foi uma obra eleita, consagrada e aprovada no Orçamento Participativo e que nós concluímos. Pela sua experiência à frente da Coordenadoria das Cidades, qual tem sido a prioridade da população: saúde, educação, segurança? FRANCISCO MACHADO – Depende da região. Temos algumas regiões mais bem equipadas, com poder aquisitivo maior, que dispensam a presença de equipamentos públicos. Não querem escola pública, não querem creches, não querem essas coisas. São as áreas mais carentes que requerem hospital, creche e escola. As áreas rurais têm centrado basicamente em estradas para escoar a produção. Então, depende da região. l COPA 2014 Agnelo Queiroz diz que o DF está preparado para receber turistas Tomás Faquini/ME Mundial esportivo deverá movimentar R$ 8,4 bilhões durante os jogos ●● Julciara Abreu O governador Agnelo Queiroz reuniu, em 13 de maio, no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, parte dos secretários e administradores regionais para fazer um balanço das obras executadas e dos últimos preparativos para a Copa do Mundo 2014. Segundo a Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe), o evento deve movimentar no DF cerca de R$ 8,4 bilhões durante os jogos. Além disso, a pesquisa aponta que a cada partida no Mané Garrincha são gerados 2 mil novos empregos diretos e indiretos. Segundo Agnelo, o evento abriu novas oportunidades de investimentos, como a reforma do aeroporto, o Bus Rapid Transit (BRT), o Expresso DF Norte e as ciclovias. Ele ressalta que o torneio deixará um legado inesquecível para a cidade nos próximos 100 anos. O governador disse que o governo cumpriu todas as metas de infraestrutura e que tudo estará pronto para Vista aérea do Estádio Mané Garrincha: palco de sete jogos da Copa do Mundo da Fifa 2014 receber os turistas. “Tem gente que dizia que não entregaríamos o estádio para a Copa do Mundo. Não só fizemos como entregamos bem antes, para a Copa das Confederações. Fomos o cartão de visitas do Brasil para o mundo.” O governador fez questão também de afirmar que esta é a chance de mostrar Brasília para o mundo. “Vamos colocar a capital do país em outro patamar. Vamos realizar não só a Copa, mas também os Jogos Mundiais Universitários, as Olimpíadas e a Fórmula Indy, entre outros”, confirmou. No estádio serão realizados sete jogos, um deles da Seleção Brasileira, na fase de classificação. Haverá uma partida das oitavas de final em 30 de junho, um confronto pelas quartas de final em 5 de julho e a decisão do terceiro e quarto colocados do mundial em 12 de julho. De acordo com o secretário Extraordinário da Copa do Mundo, Claudio Monteiro, o estágio avançado das obras na capital federal mostra que a opção política de investir em Brasília, com enfoque nos megaeventos, foi acertada. “Mostramos que a capacidade de organizar grandes espetáculos não é uma exclusividade do eixo Rio-São Paulo”, garantiu. O vice-governador Tadeu Filipelli afirmou que Brasília está muito bem preparada para o mundial em relação a infraestrutura, e também para receber todos os turistas que vierem assistir aos jogos da Copa do Mundo. Ele destacou que a capital federal acolherá todos em grande estilo. “Há várias melhorias complementares que continuarão a ser realizadas após a Copa. Não podemos confundi-las com o que era fundamental para o evento e já foi entregue”, esclareceu Filipelli. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 59 AGENDA BRASÍLIA EDUCAÇÃO Distrito Federal é considerado território livre de analfabetismo Programa do GDF é destaque no campo da inclusão social ●● Ana Seidl O governador Agnelo Queiroz recebeu do ministro da Educação, Henrique Paim, em 9 de maio, o Selo de Território Livre do Analfabetismo. O selo é uma homenagem às localidades que atingem 96% de alfabetização, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O DF atingiu o índice de 96,5%. “Queremos que essa seja uma situação que tenhamos em breve em todo o país. Vale lembrar que nunca é tarde para estudar”, disse o ministro da Educação, Henrique Paim. O governador Agnelo Queiroz disse que a alfabetização na capital é feita por meio da Educação de Jovens e Adultos e pelo Programa DF Alfabetizado. Os beneficiários do programa Bolsa Família que integram o DF Alfabetizado recebem incentivo do governo local. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida e do governo do Distrito Federal. Esse selo significa um reconhecimento pelo resgate das pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar e de serem alfabetizadas na idade certa. Esse selo serve para que o DF vire exemplo e trabalhe cada vez mais para ir atrás dos que ainda são analfabetos”, discursou o governador. Com base nas informações de 2010 do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 96,5% dos moradores do DF são alfabetizados. No entanto, conforme pesquisas recentes da Codeplan, esse percentual teve um aumento de 1,4%. No comparativo entre os dados, o Censo aponta 3,5% de analfabetos no DF e a Codeplan indica que 2,1% não sabem ler ou escrever, o que representa 51,9 mil moradores da capital. Uma das estratégias do Governo do Distrito Federal foi unir a educação ao Turismo, com o lançamento do Turismo Cidadão. O programa sempre que solicitado vai até às escolas e casas da melhor idade, levando os 60 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Com base nas informações de 2010 do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 96,5% dos moradores do DF são alfabetizados brasilienses até os principais pontos turísticos da cidade. Além de ser uma experiência importante e única para o morador, o que é visto durante os passeios está sendo trabalhado em sala. Lançado em abril, o Turismo Cidadão tem como meta inicial atender 25 mil pessoas. Até agosto deste ano, mais de Antônio Cruz/ABr do cidadão”, apontou o secretário de Turismo, Luis Otávio Neves. Integrantes de uma das turmas do programa DF Alfabetizado: meta é acabar com o analfabetismo quinze instituições de ensino já agendaram visitas. No mês passado, idosos conheceram o Planetário e demais pontos turísticos da capital federal. “Existe uma máxima no Turismo que diz que se a cidade que é boa para o morador, também é para o turista. O selo Território Livre do Analfabetismo prova que é a celebração dos nossos esforços em prol do conhecimento. Além disso, o Programa Turismo Cidadão pretende unir esforços no sentido de também resgatar valores de cidadania. Estas são políticas públicas importantes para o desenvolvimento da cidade e Referência Segundo o secretário de Educação do Distrito Federal, Marcelo Aguiar, o DF tornou-se referência no país no segmento de alfabetização. Somente no ano passado, mais de 10,5 mil pessoas foram alfabetizadas. Atualmente, 187 turmas estão em pleno andamento no DF, cinco delas em Samambaia. “Temos um grande motivo de alegria e orgulho, que é já termos superado o índice que o Ministério da Educação coloca para cada estado alcançar em alfabetização. Hoje, o MEC paga R$ 400 para um educador. Nós dobramos este valor aqui no DF”, lembrou Aguiar. Segundo o secretário de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda, Daniel Seidel, o “DF Alfabetizado” é um dos destaques no campo da inclusão social. Ele ressaltou que o legado dessa ação é imensurável: “A educação ninguém rouba de nós, ela é a melhor forma de superarmos a miséria”, acrescentou. Uma das pessoas que fazia parte dessa parcela e que hoje está livre é a dona de casa Maria de Fátima Alves da Silva, 58 anos, que fez a capacitação do GDF e recebeu o certificado de conclusão de curso. “Esse certificado é uma bênção para mim. Representa tudo na minha vida. Não consegui estudar quando era pequena e, com nove anos de idade, tive que sair da casa dos meus pais para trabalhar. Depois, me casei, criei meus filhos e agora que já estão casados aproveitei essa oportunidade. Agora, quero fazer informática”, planeja a dona de casa. O programa Brasil Alfabetizado é dirigido aos jovens com 15 anos ou mais, adultos e idosos não alfabetizados. Ele trabalha com seis tipos de bolsas mensais pagas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Já o programa DF Alfabetizado foi criado pela gestão do governador Agnelo Queiroz com a meta ousada de erradicar, até este ano, o analfabetismo no território brasiliense. Hoje, existem no DF mais de 50 mil pessoas que não sabem ler ou escrever, e nunca receberam educação formal. “Nós temos todas as condições materiais e humanas de erradicar o analfabetismo até este ano, e o programa DF Alfabetizado é uma das prioridades do governo para chegarmos a esse momento”, ressalta o governador Agnelo Queiroz. Dos alunos que concluíram a primeira etapa do programa, realizada em nove cidades do DF, a grande maioria tem mais de 50 anos de idade e são mulheres. Incluí-las nas 170 turmas foi uma das prioridades do Comitê Intersetorial de Mulheres do GDF, coordenado pela primeira-dama Ilza Queiroz, que comemorou a formatura ao lado dos beneficiados. Segundo o secretário de Educação, Denilson Bento da Costa, o grande desafio das próximas etapas do programa é ampliar o público com mais de 50 anos. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 61 AGENDA BRASÍLIA MEIO AMBIENTE GDF cumpre lei de reutilização de resíduos sólidos Coleta seletiva muda hábitos e população inicia a separação do lixo seco do lixo orgânico em todas as cidades ●● Zuleika Lopes A coleta seletiva do lixo foi implementada pelo Governo do Distrito Federal em todas as cidades desde o mês de fevereiro de 2014 e visa cumprir o que determina o Plano Nacional Resíduo Sólido, implementado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em setembro de 2011 e que entra em vigor dia 3 de agosto deste ano. Segundo o MMA, a aprovação da Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), após longos vinte e um anos de discussões no Congresso Nacional, marcou o início de uma forte articulação institucional envolvendo os três entes federados – União, estados e municípios, o setor produtivo e a sociedade civil na busca de soluções para os graves problemas causados pelos resíduos, que têm comprometido a qualidade de vida dos brasileiros. A preocupação do GDF é obter a correta destinação e educar a população para cumprir esta nova política do lixo. Ou seja, separar o lixo seco do lixo orgânico. Para isto, os caminhões da coleta seletiva são de cores diferentes, verdes, e possuem uma música com tema infantil para que as crianças também participem e se familiarizem. O lixo recolhido é destinado às 32 cooperativas de reciclagem cadastradas no sistema do Serviço de Limpeza Urbana, que reúnem 1,5 mil catadores. Centros de Triagem O primeiro Centro de Triagem de Materiais Recicláveis do Distrito Federal dividirá espaço com a Usina de Compostagem da Ceilândia, ambos localizados no terreno do Serviço de Limpeza Urbana (SLU). O investimento é de quase 2,3 milhões. “Hoje é um dia histórico para o DF porque começamos a construir um 62 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 A preocupação do GDF é obter a correta destinação e educar a população para cumprir esta nova política do lixo. Ou seja, separar o lixo seco do lixo orgânico equipamento para os catadores trabalharem com dignidade sem serem alvo de discriminação. Essa nova Divulgação política de resíduos sólidos marca a mudança de comportamento na nossa cidade”, afirmou o governador Agnelo Queiroz. O diretor geral do SLU, Gastão Ramos, disse que a construção dos Centros de Triagem marca a entrega do segundo pilar para o fechamento do lixão da Estrutural. Quatro unidades serão instaladas em terrenos do SLU, como a de Ceilândia, na L4 Norte, Gama e Setor de Garagens, e entrarão em funcionamento até maio. As demais serão doadas para cooperativas por meio de parceria com o BNDES. Todas Divulgação terão capacidade para abrigar até 173 trabalhadores por turno e poderão funcionar com até três escalas de trabalho diárias. Rotina que a catadora Francisca dos Santos, 66 anos, deseja que se concretize em breve. “Vai melhorar muito a nossa vida. O lixo não vai vir mais misturado, com coisas de hospital e vidro. Têm dias que nem com a máscara consigo trabalhar por causa do mau cheiro. Já adoeci várias vezes. Agora isso vai mudar”, comemorou a trabalhadora. O governador ressaltou que está sendo realizada ampla divulgação para esclarecer a população sobre a coleta seletiva. “Contamos com a colaboração de todos para que possamos melhorar a economia de nossa cidade e a qualidade de vida de todos os moradores. Esta é a primeira cidade do Brasil em que a GDF faz ampla campanha para esclarecer a população sobre a importância da coleta seletiva coleta seletiva será realizada em toda a área urbana e rural”, destacou Agnelo. Cada unidade terá dois pavimentos. O superior abrigará esteiras de separação, compartimentos para lançamento dos resíduos não aproveitados e silos de armazenagem do material bruto. No térreo funcionarão as áreas de prensagens, separação secundária, armazenamento do resíduo separado, depósito de material. Além do galpão de triagem e área de administração, os catadores contarão com refeitório; vestiário com armários, banheiros e chuveiros; sala multiuso e equipamentos de segurança individual. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 63 AGENDA BRASÍLIA Empresas fazem sua parte A empresa Ciplan Cimentos Planalto S.A., localizada na região da Fercal, a 30 km do Centro de Brasília, implementou, em 2013, um projeto socioambiental com as mulheres da Comunidade Queima Lençol, uma das 14 comunidades da região. O Projeto Mãe Ambiente foi patrocinado pela Ciplan e executado pela Federação das Mulheres de Brasília (Femube). Durante nove meses, as 25 selecionadas receberam educação ambiental e aprenderam a reciclar os sacos de cimento da fábrica em ecobags em um processo bem artesanal. As sacolas, após montadas, receberam acabamentos como pinturas, desenhos e colagens, já se tornando sucesso de vendas. Do lixo ao luxo, as mulheres se prepararam para entrar no mercado e planejaram efetivar a criação de uma cooperativa de reciclagem que terá o nome de Calliandra, flor do cerrado. O lançamento oficial da Calliandra ocorreu em 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, na sede da Associação Brasiliense de Supermercados com apresentação da produção das ecobags aos supermercadistas de Brasília visando a troca das sacolas plásticas utilizadas atualmente em todo os estabelecimentos de vendas. Tina/ Correio Braziliense. Educação Ambiental Defensores do Planeta ensinam de maneira divertida e lúdica como preservar o meio ambiente e falam sobre os danos que a poluição pode causar. Ao final da peça, os atores convidam as crianças do ensino fundamental, para que possam aprender na prática como separar o lixo seco do orgânico. Um dos integrantes do teatro, José Nildo, técnico em gestão do SLU, disse que o principal objetivo das apresentações é conscientizar a criança sobre a importância da preservação do meio ambiente. “Trabalhamos para que sejam adultos diferentes. Com certeza, no futuro, a natureza vai estar mais conservada. Mas nosso trabalho também tem surtido efeito nos adultos, pois muitos que assistem a essa peça voltam pra casa revendo suas atitudes”, conta. Ainda segundo José, o teatro já alcançou, aproximadamente, 100 mil crianças. “Foram muitas escolas visitadas, existem algumas que já nos apresentamos mais de uma vez. Isso vai gerando uma consciência. Muitas não jogam mais o lixo no chão, elas pegam o papel da bala e colocam no bolso”, completa. As escolas que tiverem interesse em convidar o grupo “Defensores do Planeta”, devem enviar um e-mail paradiretoriadeoperacoes.slu@ gmail.com” ou entrar em contato pelo telefone 3213-0121 solicitando uma apresentação. l MEIO AMBIENTE A gerente de meio Ambiente da Ciplan, Maria Teixeira, e Mary Ramalho, diretora da Femube. Ao fundo as mulheres cooperativa Calliandra 64 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Uma leitura das ações políticas e governamentais sob a ótica da sociedade O cidadão elege os parlamentares e governantes GestãoPública Tema de JUDICIÁRIO INVESTIGAÇÃO Envolvimento de parlamentares leva Operação Lava Jato ao STF O ministro Teori Zavascki é o relator do processo ●● Menezes y Morais A Operação Lava Jato, deflagrada em março deste ano pela Polícia Federal (PF), para desbaratar uma quadrilha envolvendo doleiros, empresários, mercado clandestino de câmbio, laranjas, contratos da Petrobras em lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos e tráfico internacional de drogas, também revelou indícios de participação de três deputados federais e um senador da República nos atos ilícitos. De acordo com a PF, a quadrilha movimentou cerca de R$ 10 bilhões. Entre os parlamentares citados nos relatórios da PF estão o senador Fernando Collor de Melo (AL), do Partido Trabalhista Brasileiro; os deputados federais Luiz Argôlo (BA), ex-PP, hoje do Solidariedade; Cândido Vaccarezza, do Partido dos Trabalhadores (SP) e André Vargas (PR), ex-PT, sem partido. As denúncias da PF atestam a existência de crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro há vários anos. Por serem investigações extensas, com vários desdobramentos, o Ministério Público Federal (MPF) decidiu dividir as denúncias que apresentou à Justiça Federal. Os parlamentares, que têm fórum privilegiado, serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Teori Zavascki, relator do processo da Operação Lava Jato no STF, disse nos autos que as investigações da Polícia Federal apontaram ligações do doleiro Alberto Youssef com os deputados André Vargas, Luiz Argôlo e Cândido Vaccarezza. Por isto, Zavascki decidiu que o processo deve ser julgado pelo STF. E 66 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 As denúncias da PF atestam a existência de crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro há vários anos Nelson Jr/STF Plenário do STF: magistrados poderão julgar mais um longo procevsso envolvendo parlamentares decretou o sigilo sobre os autos que envolvem o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. O ministro Zavascki começou julgar o caso com duas decisões: mandou soltar os presos, no dia seguinte reconsiderou a decisão, e determinou que o melhor lugar para os réus da Operação Lava Jato é na prisão. No bojo da documentação enviada ao STF pelo juiz Sergio Moro, dia 20 de maio, apareceu o nome do senador, ex-governador de Alagoas e ex-presidente da República Fernando Collor de Melo (PTB-AL). A PF encontrou oito comprovantes de depósitos bancários em nome de Collor durante as operações de busca e apreensão no escritório do doleiro Youssef. Os depósitos foram supostamente realizados no intervalo de três dias, em maio de 2013, somando R$ 50 mil na conta do senador. Collor enfatizou que não conhece o doleiro Alberto Youssef. E que jamais manteve relacionamento Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 67 JUDICIÁRIO INVESTIGAÇÃO Carlos Humberto/STF de ordem pessoal ou política com ele. O Ministério Público Federal do Paraná (MPF) é o autor da denúncia que levou a Polícia Federal (PF) a realizar a Operação Lava Jato. Divisão de tarefas A quadrilha operava no Brasil e no exterior. Onze envolvidos estão presos. Dez acusados permanecem encarcerados em Curitiba, na PF, e na Casa de Custódia de Piraquara. Outra pessoa está presa na Espanha e um último acusado está foragido. Até o fechamento desta edição permaneciam presos na sede da PF Nelma Kodama, Alberto Youssef, Lucas Bace Junior, Carlos Alberto Pereira Costa, e Raul Henrique Srour. Na Casa de Custódia de Piraquara Rene Luiz Pereira, André Cato de Miranda, Ediel Viana da Silva, Carlos Habib Chater e André Luis Paula dos Santos. Maria de Fátima Stocker está detida na Espanha e Sleiman O ministro Teori Zavascki é o relator do processo da Operação Lava Jato no Supremo Nassim El Kobrossy é considerado foragido pela Justiça. Para o Ministério Público Federal, a quadrilha do doleiro tinha divisão de tarefas. Raul Henrique Srour, por exemplo, liderava o grupo acusado de atuar no mercado paralelo, fraudando identidades para realizar operações de câmbio. O MPF contabilizou 900 operações de câmbio fraudulentas, feitas com identidades de terceiros, entre janeiro de 2013 e março de 2014. Segundo a denúncia, a empresa Districash Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários era utilizada como fachada para os crimes. Ainda de acordo com o processo, Valmir José de França fazia o recolhimento, transporte e saque de valores em espécie para os crimes, Maria Lúcia Ramires Cardena estava envolvida na remessa de informações 68 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 falsas ao Banco Central, e Maria Josilene da Costa e o próprio Raul Srour lavaram dinheiro na compra de um automóvel de luxo. Segundo a Polícia Federal do Paraná, ao todo, a Lava Jato prendeu 18 pessoas, cinco tiveram a prisão temporária decretada, uma conseguiu alvará de soltura e outra pagou fiança. Conforme a PF, a quadrilha, liderada pelo doleiro Alberto Youssef, tinha um número dois, o ex-diretor da Petrobras, engenheiro Paulo Roberto Costa. Costa foi indicado ao cargo de diretor da Petrobras pelo Partido Popular (PP), da base aliada do governo. Ele operava o esquema de desvio de verbas em contratos fraudulentos da estatal, na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Nessa operação, a PF estima que foram desviados até R$ 400 milhões da obra, considerada superfaturada pelo Tribunal de Contas da União. Costa estava preso desde o dia 20 de março. Foi posto em liberdade por decisão monocrática do ministro Teori Zavascki. O ministro é relator de um habeas corpus interposto pelo advogado de defesa do ex-diretor da Petrobras. Em liberdade Ao decidir que a Operação Lava Jato deve ser julgada pelo STF, por contar com o envolvimento de parlamentares, o ministro suspendeu as investigações e autorizou a libertação dos acusados. Zavascki considerou que havia indício de que o juiz feriu a competência do Supremo e decidiu Divulgação/Polícia Federal do Paraná Alguns dos bens apreendidos pela Polícia Federal do Paraná: joias e documentos suspender ações, investigações e prisões. O ministro determinou a remessa de todos os documentos, inquéritos e ações para o STF. Após o ministro do STF determinar a libertação dos presos da Operação Lava Jato, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara de Justiça Federal do Paraná, que determinou a prisão dos acusados, alertou sobre o risco de fuga para o exterior de alguns integrantes da quadrilha, principalmente os ligados ao tráfico de drogas. A decisão de Zavascki pôs engenheiro Paulo Roberto Costa em liberdade. Costa está proibido de deixar a região onde reside e entregou os passaportes às autoridades policiais. Conforme as investigações, o ex-diretor da Petrobras ajudou empresas de fachada mantidas pelo doleiro Alberto Youssef a fechar contratos com a estatal. Os outros acusados de envolvimento com a quadrilha do doleiro não foram soltos porque o juiz federal Sérgio Moro questionou o ministro do Supremo sobre a abrangência da decisão. Entre eles, os doleiros Carlos Chater, Alberto Youssef e Nelma Kodama, presa em flagrante tentando fugir do país com 200 mil euros. Diante do alerta, Zavascki reviu o caso e decidiu que somente Costa ficaria solto e os demais seriam mantidos presos. Zavascki afirmou sua decisão foi para evitar "decisões precipitadas". O ministro remeteu os autos à Procuradoria-Geral da República antes de decidir o que fica no Supremo e o que volta para a primeira instância. Pelo seu entendimento, o que não tiver relação com autoridades com foro privilegiado deve voltar para a Justiça comum. O tribunal também pode decidir que mesmo pessoas sem foro sejam julgadas pelo plenário – caso avalie que isso seja necessário para analisar as acusações contra autoridades. Mas Zavascki pode decidir sozinho sobre o desmembramento do processo (remessa de parte da ação para primeira instância) ou pode levar a decisão para o plenário do STF. Zavascki informou que, após analisar o processo – o que não tem prazo para acontecer –, poderá tomar uma nova decisão sobre a necessidade da manutenção das prisões feitas pela PF. Tendo à disposição o inteiro teor das investigações, o ministro disse que o STF poderá, “no exercício de sua competência constitucional, decidir com maior segurança acerca do cabimento ou Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 69 JUDICIÁRIO INVESTIGAÇÃO Sérgio Lima/ Folhapress e Laycer Tomaz/ Câmara dos Deputados O doleiro Alberto Youssef e o deputado André Vargas: denúncias chegam à Justiça não do seu desmembramento, bem como sobre a legitimidade ou não dos atos até agora praticados”. Conselho de ética O protagonismo de parlamentares nas denúncias do Ministério Público, confirmadas pelas investigações da Polícia Federal, deixou a Câmara dos Deputados em estado de alerta. Pressionando pelo escândalo, o deputado André Vargas, renunciou a vice-presidência da Câmara. Depois, acossado pelo PT para renunciar ao mandato, Vargas se desfilou da legenda. O PT pediu sua renúncia para não desgastar mais ainda a imagem do partido, chamuscado pelo fogo do mensalão num ano eleitoral. Agora o PT pede o cargo de volta ao Tribunal Superior Eleitoral. O parlamentar paranaense, entretanto, não escapou do julgamento dos seus pares: responde a processo no Conselho de Ética da Câmara, onde se comenta que o relatório a ser encaminhado ao plenário vai recomendar a cassação do seu mandato. Na documentação enviada ao STF, o juiz paranaense informa que consta contra André Vargas "possível recebimento de vantagem de Alberto Youssef, consistente no pagamento de viagem de avião, e ainda possível tráfico de influência para a obtenção pela empresa Labogen S/A Química Fina e Biotecnologia de parceria para desenvolvimento produtivo junto ao Ministério da Saúde". O doleiro Youssef é amigo há mais de 20 anos do deputado André Vargas, conforme declarou em discurso no plenário da Câmara. Os dois usavam 70 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 inclusive mensagens de textos dos aparelhos celulares para combinar ações, de acordo com a PF. A defesa do deputado licenciado André Vargas disse que ele responderá a todos os questionamentos que lhe forem feitos pela Justiça. Youssef está preso desde março na sede da PF no Paraná, investigado por lavagem de dinheiro, corrupção, evasão de divisas e outros crimes. Ele é réu em três das oito ações penais abertas pela Justiça Federal do Paraná em decorrência da operação Lava Jato. Youssef é suspeito de ter articulado o esquema criminoso com o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. O Juiz Sérgio Moro declarou dia 9/5, em documento, que o elo entre doleiro e Vargas tem “possível caráter criminoso”. A Mesa Diretora da Câmara aprovou, por unanimidade, relatório da Corregedoria que defende a cassação do mandato de Luiz Argôlo por quebra de decoro parlamentar. O relatório, assinado pelo corregedor, deputado Átila Lins (PSB-PI), foi enviado ao Conselho de Ética, que abriu, dia 15 de maio, processo contra o parlamentar. Para o corregedor, os atos atribuídos a Argôlo ferem o Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara e podem justificar a cassação do mandato. “Os fatos denunciados, em tese, consubstanciam condutas delituosas, que ofendem os princípios da moralidade, e que desmerecem o mandato parlamentar. Ofendem a imagem do Legislativo”, diz o relatório. l artigo JOSÉ OSMAR MONTE ROCHA O preço do ócio A vida é uma dádiva de Deus. Mas na vida tudo tem o seu preço; uns pagam para nascer (exemplo: fecundação in vitro, parto cesariano, barriga de aluguel, etc.) O enxoval de um bebê recém-nascido custa um preço elevado. A maioria das famílias brasileiras tem dificuldades para suprir com satisfação o instante generoso em que a graça divina permite a uma mãe dar à luz uma criança. Todos pagam para viver (alimentação, moradia, vestuário, escola, saúde, lazer, etc.); e também todos pagam para morrer; o funeral é um preço exorbitante que geralmente surpreende os familiares do morto. É um momento de dor e vexame emocional – ninguém está preparado para fazer um enterro de forma tranquila. Outros pagam o preço do cárcere. São privados da liberdade de ir e vir como assegura a Constituição da República Federativa do Brasil; isso em decorrência de cumprimento de pena por algum crime praticado e em decorrência de trânsito em julgado. É o resultado de cominações estabelecidas em dispositivos legais. Os monges pagam o preço do isolamento do convívio social liberal. Fazem votos de fé e praticam a abstinência de atos de luxúria, poder político, riqueza e vida conjugal. Vivem inteiramente dedicados à oração e cumprem rigorosamente os dogmas da religião que fora abraçada, em obediência ao juramento do seu monastério. Existe um segmento da sociedade que exercita o sentimento do ócio, vive sem trabalhar, não tem horário, não tem compromisso com patrão: são os aposentados. Eles conquistaram o direito à ociosidade. Em verdade já pagaram antes (quando trabalhavam) para não trabalhar agora (durante a aposentadoria). Para esses cidadãos não há pressa. Sombra e água fresca são lemas adotados. A inanição, a omissão e a sofreguidão não alteram o ritmo suave dos verdadeiros aposentados. Mas também existe uma casta que vive do ócio: são artistas (inventores, compositores, cantores, pintores, poetas, escritores, pensadores, etc.). Esses criadores são vacinados com o germe da liberdade. A vida lhes confere o direito de produzir alguma obra sem a cobrança de tempo (dia, hora e lugar); e pagam um alto preço porque a sociedade emite juízo de valor (crítica, elogio, rejeição) por tudo que é produzido no exercício do ócio. Sem dúvida, é a demonstração de que o ócio tem preço e a moeda circulante é a opinião do público sobre esses autores, porque os seus feitos não são medidos em termos salariais, e sim, pela avaliação dos observadores, que às vezes impiedosamente estipulam para uma obra, sem parâmetros, um baixo valor. Isso significa em termos reais que esses artistas vivem e pagam o mais pesado preço do ócio. l José Osmar Monte Rocha é graduado em Ciências Contábeis, pós-graduado em Gerência Empresarial lato sensu. É contador, auditor, analista de Finanças e Controle do Ministério da Fazenda (aposentado). É professor da Universidade do Distrito Federal (UDF). Atuou como inspetor seccional de Finanças de ministérios, como delegado Regional de Contabilidade e Finanças do MIC e como conselheiro fiscal de empresas estatais. É sócio fundador e diretor financeiro do Inafip. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 71 sistemas e iNOVAÇÃO PLANEJAMENTO Agenda transversal dissemina a melhoria da gestão pública Servidores apresentam as próprias experiências e auxiliam no mapeamento de novas iniciativas de modernização ●● Carolina Cascão O Ministério do Planejamento, por meio da Assessoria Especial para Modernização da Gestão (Asege), órgão de assessoramento da ministra Miriam Belchior, tem promovido mensalmente o encontro Gestão em Destaque, resultante de uma série de eventos voltados para a disseminação de conceitos e iniciativas sobre gestão pública. A iniciativa também tem como objetivo ampliar a compreensão dos servidores sobre as ações de modernização da gestão desenvolvidas pelo governo federal. Ao todo, já aconteceram sete edições desde ano passado. O último, realizado em maio, discutiu o Planejamento Estratégico com foco em resultados: o caso Dataprev. “A ideia é também reunir e favorecer a articulação entre diferentes profissionais e instituições públicas por meio da apresentação e reflexão sobre experiências bem-sucedidas na melhoria e modernização da gestão pública”, disse o chefe da Asege, Valter Correia da Silva. O evento faz parte de uma agenda transversal de melhoria da gestão pública e é acompanhado pela Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade, instituída no âmbito da Presidência da República, e que envolve ministros e empresários. Esta Câmara que tem como presidente Jorge Gerdau reforça o patrocínio institucional ao evento. Nos encontros, que acontecem sempre na primeira terça-feira de cada mês, há a apresentação da iniciativa e, a seguir, um comentarista convidado discute a experiência, os desafios enfrentados, os resultados obtidos e os principais pontos de melhoria. O público também participa desta discussão. E a mediação é 72 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Nos encontros, que acontecem sempre na primeira terçafeira de cada mês, há a apresentação da iniciativa e, a seguir, um comentarista convidado discute a experiência, os desafios enfrentados, os resultados obtidos e os principais pontos de melhoria Divulgação/MP Gestores e servidores públicos assistem ao debate sobre o planejamento estratégico com foco em resultados da empresa Dataprev feita pelo chefe da Asege. O público presente gira em torno de 100 a 250 pessoas por evento, e de mais de 90 via internet. “Acreditamos que os objetivos estão sendo cumpridos. Em todas as edições, o público presente demonstra bastante interesse no tema em debate. As perguntas realizadas pelo público geram um diálogo com os participantes da mesa que se estende por mais de uma hora perante um auditório que não se esvazia até o final do evento. É possível notar que as pessoas comparecem para efetivamente conhecer e compreender as experiências apresentadas, demonstrando muito interesse em aproveitar as lições aprendidas em seus próprios órgãos”, revelou Valter Correia. Destaques De acordo com a Assessoria Especial, todas as edições trouxeram temas importantes e cada uma agrega um público específico ao debate. Como a melhoria do atendimento ao cidadão e a prestação de serviços públicos. Valter Correia destacou a edição de março deste ano, que abordou o Programa de Gestão do Atendimento no Instituto Nacional de Previdência Social (INSS) e o fim das filas nas agências da Previdência Social, que pode ser replicada por diversos órgãos. Para tratar deste tema foram convidados o secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, Carlos Eduardo Gabas, e o secretário-executivo da Casa Civil, Valdir Moysés Simão, que também participou da concepção e implantação da iniciativa à época em que estava à frente do INSS. A mesa contou também com o atual presidente do INSS, Lindolfo Neto de Oliveira Sales, e do ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho. Nesta ocasião, os participantes puderam ouvir e debater como foi criado e implantado o projeto que reestruturou o modelo de atuação da Previdência e promoveu a excelência no atendimento ao cidadão, que resultou no fim das filas nas agências. Os palestrantes abordaram como foi realizado o aperfeiçoamento dos processos, a instituição do agendamento eletrônico eficaz e da rotina de gestão da estratégia focada em resultado. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 73 sistemas e iNOVAÇÃO PLANEJAMENTO O presidente do Dataprev, Rodrigo Ortiz, o chefe da Asege, Valter Correia, e o diretor e fundador da Newfield ConsultingBrasil, Luiz Sérgio Gomes da Silva Outro destaque foi a implementação do sistema de indicadores de desempenho, a “Sala de Monitoramento”, que permite observar, em tempo real, quantas pessoas aguardam o atendimento em quaisquer das 1.449 agências da Previdência no Brasil. Com isso, houve uma significativa redução no tempo de concessão de benefícios e na análise de processos. “Este tipo de iniciativa, que revoluciona todo um setor, é muito inspiradora para os servidores públicos que se deparam diariamente com o enorme desafio de garantir um atendimento de qualidade à população. O entusiasmo com que a experiência foi relatada e debatida, bem como a ênfase nas lições aprendidas, mostram que é ““ Este tipo de iniciativa, que revoluciona todo um setor, é muito inspiradora para os servidores públicos que se deparam diariamente com o enorme desafio de garantir um atendimento de qualidade à população ” Valter Correia, chefe da Asege possível encarar os problemas, planejar e executar”, afirmou Valter. Os resultados obtidos são visíveis. De acordo com o chefe da 74 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Asege, além do sucesso de público, tanto presencial quanto pela Internet, a assessoria tem recebido ligações e feedbacks positivos por e-mail de participantes. “Além disso, alguns órgãos já nos procuraram com propostas de temas. Nota-se que os gestores públicos estão não somente interessados em assistir os eventos, como também em apresentar as próprias experiências, o que nos auxilia a mapear e divulgar novas iniciativas de modernização. É interessante ver que, cada vez mais, o tema entra na pauta dos órgãos”, comemorou. O início A ideia de realizar o Gestão em Destaque surgiu em 2012, quando o Ministério do Planejamento debateu e estruturou junto à Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade da Presidência da República, a Agenda de Ações para Modernização da Gestão. Esta agenda, composta por um conjunto de iniciativas, visa aperfeiçoar a qualidade dos serviços públicos prestados à sociedade, ao mesmo tempo em que busca contribuir para o alcance, com qualidade das prioridades governamentais. Além disso, traz três objetivos principais: melhoria da entrega de serviços à população e às empresas; melhoria da eficiência do gasto público; e melhoria da governança e da gestão de meios dos ministérios. “A concepção do ciclo de eventos Gestão em Destaque surge nesse contexto, com vistas a comunicar e debater com os servidores públicos a pauta de melhoria da gestão, a Temas das edições anteriores do evento • Dados Abertos: Transparência e Cidadania (set/2013); • Regime Diferenciado de Contratações (out/2013); • Funpresp-Exe – Fundo de Previdência Complementar do Servidor Público Federal do Poder Executivo (nov/2013); • Gestão de Macropolíticas Públicas Federais (fev/2014); • Gestão do atendimento no INSS e o fim das Filas (mar/2014); • Planejamento e monitoramento estratégico do Ministério da Educação e o exemplo do Enem (abr/2014); • Planejamento Estratégico com foco em resultados: o caso Dataprev (maio/2014) partir da disseminação de conceitos e iniciativas exitosas já em prática nos diversos órgãos e entidades da administração pública federal. O objetivo é ampliar a compreensão dos servidores públicos sobre as ações em curso, bem como reunir e favorecer a articulação entre diferentes profissionais e instituições públicas”, explicou Valter Correia. O evento é realizado na primeira terça-feira de cada mês, no período da manhã, e dura cerca de três horas, ontece no auditório do Ministério do Planejamento, na Esplanada dos Ministérios, Bloco K, em Brasília. A participação é gratuita, mediante inscrição, e há transmissão ao vivo pela internet no site http://www. gestaoemdestaque.gov.br. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 75 sistemas e iNOVAÇÃO CT&I Congresso busca estimular a criatividade na área científica Especialistas apontam a necessidade de haver mais investimentos na capacitação de recursos humanos ●● Carolina Cascão F ormar um cenário mais competitivo para o aumento da oferta e demanda de pesquisa para a tecnologia e inovação do Brasil. Esse foi o objetivo do oitavo Congresso da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti), realizado nos dias 6 e 7 de maio, em Brasília (DF), com a participação de mais de 400 inscritos, entre pesquisadores, dirigentes de instituições consolidadas e especialistas do setor de Ciência e Tecnologia e Informação (CT&I). O evento, que teve como tema o Ambiente Inovador no Brasil: Desafios para o Desenvolvimento Socioeconômico, contou com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e tecnológico (CNPq/MCTI) da Finep/MCTI, entre outras instituições. O próximo será realizado em 2016. Para a presidente da Abipti, Isa Assef dos Santos, o encontro realizado em Brasília contribuiu, principalmente, para refletir sobre os temas em destaque no setor desde o ano passado. “O evento, em sua oitava edição, é da maior importância para a discussão de assuntos determinantes no âmbito da CT&I. Estamos determinados, focados e com toda a responsabilidade para estimular o crescimento do desenvolvimento tecnológico no Brasil”, destacou Isa Assef. Segundo ela, o importante é atuar com vistas ao fortalecimento do setor científico e tecnológico. “Temos a missão 76 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Para a presidente da Abipti, Isa Assef dos Santos, o encontro realizado em Brasília contribuiu, principalmente, para refletir sobre os temas em destaque no setor desde o ano passado Felipe Linhares/Abipti Participantes debateram temas de destaque do setor como ambiente inovador e desenvolvimento socioeconômico de promover o engajamento sistemático dos associados em projetos mobilizadores e estruturantes, conforme preconizado pela política de ciência, tecnologia e inovação do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação)”, afirmou a presidente da Abipti. Isa Assef fez um balanço dos principais tópicos discutidos durante os dois dias de evento. Entre eles, a necessidade de foco no processo de produção e inovação, de investir na capacitação de recursos humanos para a CT&I. “O nosso grande mérito é produzir resultados promissores com recursos escassos. O apoio financeiro sempre é um dos principais tópicos de discussão, mas sabemos transformar isso (pouco investimento) em algo verdadeiramente produtivo e gratificante”, avaliou. Entre as atividades programadas estavam a exposição de painéis, debates, mesas-redondas, palestras e conferências que abordaram assuntos como a interação Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 77 sistemas e iNOVAÇÃO CT&I Isa Assef, presidente da Abipti: mérito de produzir resultados promissores com recursos escassos entre instituições científicas e tecnológicas (ICTs) e empresas, marcos regulatórios de CT&I e mecanismos de fomento e financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), entre outros. Políticas Ao discorrer sobre o tema Interação entre ICTs e empresas para a promoção da inovação, Rubén Dario Sinisterra, presidente do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), disse que as políticas de CT&I precisam de foco e que é preciso direcioná-las para se ter avanço nas áreas em desenvolvimento no Brasil. “Se queremos ser um país competitivo na área de biotecnologia, oriundo da biodiversidade, temos um portfólio ““ Já existe dinheiro investido em CT&I. O que precisa ser feito é realocar esse dinheiro nas plataformas estratégicas ” Rodrigo Fonseca, diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Finep maravilhoso para isso, que inclusive já está mapeado. Mas falta articulação”, comentou. Ele também defendeu a continuidade dos esforços no programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Segundo ele, a iniciativa já é uma tentativa do governo federal de direcionar o estímulo do 78 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 desenvolvimento à pesquisa científica e tecnológica de ponta. “É onde está mapeado o “cérebro” do Brasil, e aponta as áreas principais (de inovação)”, disse. Os focos apontados por Sinisterra foram nas competências que correspondem às áreas de tecnologia em fármacos; tecnologia verde; nanotecnologia; energia; e de engenharia. Sobre os investimentos em setores estratégicos geradores de ciência, tecnologia e inovação (CT&I), Rodrigo Fonseca, diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), afirmou que é um dever do Estado direcionar esse capital para áreas do conhecimento científico e tecnológico. Tudo isso para garantir que o nível de conhecimento científico produzido no Brasil - 13º no ranking mundial de papers - não seja perdido pela falta de aporte à pesquisa e ao desenvolvimento. De acordo com ele, o primeiro passo para a execução disso são os planos Inova Empresa e Inova Petro, desenvolvidos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e executados pela Finep. “Já existe dinheiro investido em CT&I. O que precisa ser feito é realocar esse dinheiro nas plataformas estratégicas”, finaliza. Outro ponto muito discutido durante o congresso foi o incentivo Rodrigo Fonseca, diretor da Finep: Estado deve direcionar capital para a área do conhecimento científico da inovação relacionado ao acesso do conhecimento, o que se torna possível, segundo o presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), Otávio Brandelli, com a aproximação entre as entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (EPDIs) e o setor produtivo. O exemplo que ele utilizou para ilustrar foi a criação do Iphone: empreendedores como Steve Jobs, que colocaram em prática plataformas tecnológicas modernas como a do smartphone, o fizeram devido ao acesso irrestrito que tiveram ao conhecimento. Isso engloba tanto os bancos de informação em universidades e centros de pesquisa, como a contribuição que empresas fizeram nessas instituições. Em defesa da tecnologia e da inovação O posicionamento da Abipti é que o Brasil tenha uma política de Estado voltada para fomentar o desenvolvimento tecnológico e inovador, sem deixar de lado a Ciência, ou seja, sem perder o conhecimento produzido pela pesquisa científica, uma vez que ele não se transforma em bens e serviços para a sociedade. A presidente da Abipti, Isa Assef, destacou também a necessidade de se disseminar a cultura de boas práticas de gestão para unir as entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação A presidente da Abipti, Isa Assef, destacou também a necessidade de se disseminar a cultura de boas práticas de gestão para unir as entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (EPDIs) com o setor produtivo (EPDIs) com o setor produtivo para fomentar um ambiente propício que alavanque o progresso socioeconômico brasileiro. “Não temos dúvidas de que, sem as condições necessárias para alavancar o desenvolvimento tecnológico e a inovação, este processo será muito longo e não alcançará os resultados esperados”, disse Assef. Referência A Abipti representa e promove a participação das entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (EPDIs), no estabelecimento e na execução da política de desenvolvimento nacional. Representa cerca de 200 associados e reúne os principais nomes do setor de Ciência e Tecnologia e Informação (CT&I) em congressos de abrangência nacional, realizados a cada dois anos. O objetivo disso é reafirmar a importância da pesquisa tecnológica e da inovação para o desenvolvimento nacional por meio de debates e troca de experiências para a geração de resultados positivos. l Com informações da Agência CTI Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 79 iniciativa privada AGROECOLOGIA Fazer gestão por excelência é cuidar das pessoas Empresário valoriza a mão de obra e tem a felicidade como meta ●● Carla Lisboa F elicidade é a palavra-chave que o engenheiro florestal Joe Valle adotou como fórmula, conceito e, sobretudo, como meta de gestão de sua empresa. Proprietário bem-sucedido de uma fazenda de produção de hortaliças e frutas, ele é um dos empresários do ramo da agroecologia que disputam, ombro a ombro com o agronegócio, um lugar no mercado de hortifrúti do Centro-Oeste do Brasil. E foi justamente essa fórmula de gestão que o tornou o maior produtor de orgânicos da América Latina. A receita para atingir o sucesso foi a junção de vários fatores. O primeiro: um grande mercado. No caso, o Distrito Federal. O segundo, a adoção das mais modernas práticas de gestão. “Tivemos de estudar de novo o assunto porque enfrentamos problemas muito graves, chegando quase à falência”, conta. Nesse choque, em que os técnicos foram chacoalhados, perceberam a importância da gestão em todos os negócios. Entenderam que o maior ativo de todas as instituições são as pessoas. “Fazer gestão por excelência é cuidar delas e, para isso, tive de estudar e praticar gestão”, afirma. Joe Valle, que também é deputado distrital pelo PDT, lembra que, durante o período em que estudou gestão, engenharia florestal e agronomia, teve um laboratório à disposição. Uma empresa para aplicar os conhecimentos. “O que eu estava adquirindo na teoria era visto na prática no mesmo momento. Essa foi a grande lógica de transformação, de virada da Fazenda Malunga. Saímos de uma administração de técnicos para uma gestão profissional, participativa, levando em consideração as mais modernas técnicas de gestão que estão no mercado”, conta. Na época dessa virada, ele adotou e até hoje trabalha com a metodologia do PDCA (plan, do, check, act), ou 80 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Joe Valle, que também é deputado distrital pelo PDT, lembra que, durante o período em que estudou gestão, engenharia florestal e agronomia, teve um laboratório à disposição seja, um método interativo de gestão de quatro passos usado para controle e melhoria contínua de processos e de produtos. O método é conhecido Arquivos/Malunga Joe Valle: administração profissional e participativa faz da Fazenda Malunga um sucesso também como Roda de Deming, Ciclo de Shewhart, Ciclo de Controle ou PDSA (plan-do-study-act). O Ciclo PDCA envolve planejamento, execução, checagem e ação. “Ou seja, trabalhamos sempre com base em metodologias, fazendo planos de ação participativos, gerando metas, criando os mapas necessários para se chegar nessas metas e, com isso, conseguir o ponto final de tudo que é a felicidade das pessoas. A gestão por excelência leva à felicidade de todas as pessoas das instituições”, acredita. Arquivos/Malunga Modelo revolucionário Quem vê as saladas prontas para o consumo nas prateleiras dos supermercados e as frutas nas gôndolas das seções de hortifrúti não imaginam que, para os produtos chegarem até ali, um grupo de trabalhadores, orientados por um modelo de gestão, atuaram na produção dos orgânicos desde a semente até a distribuição. Cada etapa passou por estudos, planejamentos e metas. No Sistema Malunga há, atualmente, 260 pessoas em ação. Os trabalhadores da empresa estão distribuídos de forma hierárquica. Há um conselho gestor cujos participantes têm como pré-requisito Joe Valle apresenta a visitantes seu modelo de produção sem a utilização de agrotóxicos para integrá-lo estar na empresa há mais de 10 anos. Outro requisito é ser “malungueiro” de coração, ou seja, a pessoa entra e já se apaixona pela empresa. O conselho puxa essas pessoas para que elas tomem decisões juntamente com eles. Trinta por cento dos lucros da empresa são distribuídos entre os conselheiros. As deliberações dos conselheiros são repassadas para os encarregados que têm líderes e colaboradores. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 81 iniciativa privada AGROECOLOGIA Arquivos/Malunga Hortaliças orgânicas: da fazenda para as prateleiras dos supermercados Malunga criou ferramentas específicas para trabalhar desde novos métodos de observação de plantas até a tomada de decisões e de gestão da empresa. A hierarquia é bem simples: um conselho deliberativo que faz a gestão completa e toma as decisões coletivamente, de forma participativa; embaixo desse conselho há outro nível: os encarregados. Cada encarregado tem três líderes sob sua tutela e, cada líder, três culturas. Com isso, consegue-se um modelo de especialização por cultura e uma gestão diversificada, o que constitui a empresa Malunga. “Essa é a lógica com a qual trabalhamos e que tem dado certo ao longo desse tempo”, comenta o empresário. Valle acredita que inovação é fazer diferente o que todo mundo faz igual. “Todos os dias a gente faz isso. Não adianta fazer as coisas do mesmo jeito e esperar resultados diferentes. Nós fazemos diferente para ter resultados diferentes”, explica. Na Malunga a inovação ocorre cotidianamente por meio de Na Malunga a inovação ocorre cotidianamente por meio de metodologias de análises diferentes que propiciem a busca de ferramentas simples e com baixo custo. metodologias de análises diferentes que propiciem a busca de ferramentas simples e com baixo custo. Valle afirma que a tecnologia não é a parte mais onerosa do processo de produção porque ela constitui, simplesmente, a aplicação do conhecimento de forma simples. Com esse modelo, a 82 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Novo modelo Valle não acredita no provérbio português que diz que quem procura agradar a todos não agrada a ninguém. Pelo contrário, quando ele entendeu que só seria um empresário bem-sucedido se buscasse a felicidade de todos os que trabalham com ele e que consomem seus produtos, conseguiu alavancar sua empresa. A meta do empresário é a felicidade das pessoas que trabalham com ele e a de quem consome seus produtos. Foi por isso que ele deixou de lado o uso do agrotóxico, introduziu uma cultura orgânica e adotou uma gestão participativa com bons salários e distribuição de lucros. O resultado disso é ele ser um dos empresários mais ricos do país, capaz de competir com as multinacionais do agronegócio e uma quantidade imensa de funcionários satisfeitos. “Acho que a grande inovação de tudo é uma gestão baseada na felicidade das pessoas, na união, no respeito e no trabalho de pesquisa. Essa, para mim, é a grande inovação. Entendo que, quando o assunto é o ser humano, a não há sentido na vida e no trabalho que Arquivos/Malunga não seja proporcionar a felicidade das pessoas. Isso é o que buscamos. Mesmo no sistema capitalista, as pessoas procuram consumir produtos para ser felizes. A gente precisa buscar boas formas para encontrar a felicidade de maneira mais simples, encurtando os processos para que possamos viver com tranquilidade e paz”, acredita. Esse modelo de gestão tem atraído pessoas do mundo inteiro. Recentemente, Joe Valle recebeu na Malunga um grupo de produtores australianos que veio ao Distrito Federal exclusivamente para visitar a fazenda e aprender com eles como administrar e produzir. Em 2009, Remando contra a maré A guinada ocorreu numa época em produção que se apresentam para mim que ninguém acreditava na agricultura quando olho para as minhas plantas e orgânica, todos criticavam os conhepara as pessoas dentro do sistema e cimentos tradicionais no campo e o para o amadurecimento de vida e do agronegócio, com suas monoculturas, trabalho ao longo desses anos”, diz. agrotóxicos e mecanização da produção Valle reconhece que graças a essas surgia com força no Centro-Oeste do bases sólidas a Malunga cresceu. “Por Brasil. Joe Valle e seus colegas provaisso ela é referência mundial. Tudo o ram que era viável e melhor. “As pesque fazemos lá tem critério científico. soas pichavam aquele tipo de produção Estudamos a planta, os conceitos para como coisa de bicho-grilo, hippie, irresconseguir unir o homem e a natureza e, ponsável e diziam que era mais vida alassim, obter um processo sustentável ternativa no campo do que agricultura que constitui a Malunga”. alternativa, e não se investia nisso”, Ele diz ainda que enfrentou vários lembra. O grupo ousou, apostou no soaltos e baixos. Um deles foi o próprio Joe Valle e o sonho materializado nho de Joe Valle, superou o estigma e casamento. “Casei-me com uma agrôde ser produtor rural venceu a contracorrente. noma, proprietária de uma loja de Acreditou que o abandono do agroagrotóxico no interior de Minas Gerais. tóxico era possível e que a produção de orgânicos em larga Demorou, mas consegui convertê-la totalmente para a agriculescala para exportação era viável. “Procuramos dar uma base tura orgânica. Ela abriu mão do veneno e se tornou uma das científica ao que estávamos fazendo a partir de uma coisa fun- defensoras fervorosas dessa filosofia e uma grande produtora damental: o casamento do conhecimento científico com o sa- orgânica”, finaliza. ber popular tradicional dos produtores mais antigos”, afirma. A parceria com a esposa também é responsável pelo sucesAo unir o conhecimento científico com o saber tradicional, ge- so do empreendimento. “Ela é minha parceira. Veio para a fararam inovação e uma nova tecnologia que tem sido melhorada zenda em 1995 e, com essa característica inerente às mulheres a cada dia com a experiência prática. de ser multifuncionais, ela fez a diferença. Hoje é responsável “Nunca parei de estudar. Até agora, enquanto exerço a fun- por toda a parte administrativo-financeira. Ela transformou a ção de deputado distrital, continuo fazendo cursos, estudando Malunga em uma empresa profissional”, conta. O casal morade meia noite às quatro da manhã, sobretudo as técnicas de va na fazenda. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 83 iniciativa privada a fazenda e seu modelo de produção e de organização ocuparam 25 minutos do programa Globo Rural. A TV Globo contou a história do empreendimento. Uma história que, segundo Joe Valle, está escrita no DNA dele. “Eu sempre sonhei em ser produtor de alimentos. Minha mãe contava que quando eu tinha cinco anos fugia para o sítio de meu avô, no interior do Rio Grande do Norte. Ia de táxi. E como no interior todo mundo conhece todo mundo, o taxista conhecia todo mundo da cidade, ele me levava e me buscava do sítio. Toda vez que chegava, levava uma surra por causa do sumiço”, lembra. Espírito empreendedor Ele trabalhou no Exército e, na primeira oportunidade, comprou, em 1985, um pedaço de terra ao lado das terras do pai, nas proximidades de Unaí, Minas Gerais, e começou a materializar seu sonho de ser produtor rural. Funcionário do Banco do Brasil, o pai de Joe Valle foi transferido, em 1974, do interior do Rio Grande do Norte para o Distrito Federal, onde conseguiu comprar um pedaço de terra. Contudo, enfrentou dois problemas que o levaram a desistir de tudo e abandonar seu sonho. Em primeiro lugar, ele se contaminou com agrotóxico. A intoxicação ocorreu porque ele e mais um único funcionário que tinha era quem fazia as polarizações. Após isso, AGROECOLOGIA faliu. “Quando desisti eu pensava que, se ser produtor era aquilo, eu não queria ser produtor rural. Ou seja, eu produzia alimentos que não conseguia nem sequer dá-los de presente para minha mãe por causa da quantidade de veneno que eu havia posto nele. Se produzir alimento era dessa forma, então, aquilo não servia para mim”. Sem saber das alternativas existentes, desistiu do sonho. ““ Como a proposta de agricultura alternativa era concreta, ofereci as minhas terras para a gente fazer o experimento e concluir o nosso projeto por lá Joe Valle ” Durante o curso de engenharia florestal e agronomia, ele encontrou um grupo de alunos envolvido num sistema alternativo de produção que, na época, era chamado de agricultura alternativa. Entrou para o grupo e formaram uma equipe de 16 estudantes e um professor. A partir desse momento retomou a paixão, acalentou o sonho e voltou a trabalhar pela concretização dele. No grupo, passou a estudar o modelo, porém, como sempre 84 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 foi muito pragmático, queria vê-lo funcionando. O grupo passou a viajar nas férias da universidade para visitar esse tipo de alternativas. “Achamos muitas coisas ruins. Funcionários públicos que produziam por diletantismo, mas encontramos também algumas experiências que nos marcaram muito”. Dentre elas, encontraram a que lhes deram o conteúdo de que precisavam para elaborar o projeto de pesquisa da universidade e, ao mesmo tempo, o transformou no maior produtor de orgânicos da América. Numa dessas férias, o grupo de estudantes visitou uma produção de orgânicos em São Paulo. Era uma experiência de um japonês que marcou o grupo. Ele os ensinou o que fazia e apresentou para os jovens pesquisadores a perspectiva da agricultura orgânica. A união foi tão forte que, posteriormente, uma pessoa que trabalhava com o japonês se mudou para o DF para trabalhar com o grupo. “Como a proposta de agricultura alternativa era concreta, ofereci as minhas terras para a gente fazer o experimento e concluir o nosso projeto por lá. O projeto foi encerrado, mas como eu era o proprietário da terra e queria continuar vivendo nela, dei prosseguimento e continuo lá até hoje. Fizemos a transição de uma agricultura convencional, com veneno, para uma agricultura alternativa, orgânica, equilibrada, com base científica. Isso foi o grande diferencial”, assegura. l DICAS DE MERCADO Carla lisboa ●● Supertablet da Microsoft substitui o notebook Exemplo de empresa que se renova constantemente por meio de complexos processos de gestão, a Microsoft mantém-se na liderança do mercado de tecnologia. Um dos motivos que a mantém há tantos anos na pole position são os habituais lançamentos de produtos com novidades que facilitam cada vez mais a vida de quem está plugado na internet. Em maio ocorreu o lançamento do tablete Microsoft Surface Pro 3 equipado com Windows 8.1 completo para combater iPad. A novidade do dispositivo visa a competir com o iPad da Apple. A inovação é o processador superpotente Intel Core i7 e tela 2K. O Surface Pro 3 vem ainda com uma nova versão das famosas capas-teclado da linha, uma caneta cheia de funcionalidades e a promessa de substituir o seu notebook. O responsável pela nova linha, Panos Paney, subiu ao palco para destacar que 96% dos usuários que compraram um iPad também carregam seus laptops na bolsa. Segundo ele, os tablets são feitos para assistir a filmes e jogar, mas quando os usuários querem terminar tarefas, recorrem aos seus notebooks. No lançamento do novo produto, em Nova York, o próprio diretor-executivo da Microsoft, Satya Nadella, reforçou a estratégia da empresa de priorizar a integração e a computação na nuvem em seus dispositivos. Nadella destacou ainda que a empresa não está apenas interessada em lançar apenas hardware, mas construir uma experiência única em produtividade que una tablets e laptops ●● Samsung vai lançar nova linha de tablets A Samsung prepara o lançamento de uma nova linha de tablets, a Galaxy Tab S, que terá duas novidades. A primeira é que eles serão os primeiros tablets da Samsung equipados com leitor biométrico; além disso, também terão tela AMOLED. As informações partiram de fontes do SamMobile, que já tem várias especificações do produto. O sensor funcionará da mesma forma que o do S5, podendo desbloquear tela, autorizar pagamentos, acessar pastar privadas e fazer login no sistema da Samsung. O Galaxy S terá um recurso exclusivo que permite o uso por mais de um usuário a partir de logins diferentes. O aparelho usará uma funcionalidade presente no Android, mas melhorando-a com a possibilidade de usar o leitor biométrico. Quanto à tela AMOLED, terá resolução de 2560x1600. Será o segundo tablet da Samsung com essa tecnologia. O primeiro saiu em 2011, Galaxy Tab 7.7, que tinha Super AMOLED Plus. Desde então, só os smartphones saíram com tela assim. O SamMobile diz que haverá câmera de 8 megapixels que grava vídeos Full HD e outra frontal de 2.1 MP. O design do aparelho será semelhante ao do Galaxy Tab 4 (o da foto acima) e ele virá com Android Kit Kat (4.4.2). Será lançado em seis variações, com Wi-Fi, 3G e LTE (4G), nos tamanhos 8,4 e 10,5 polegadas. ●● A Europa em detalhes na palma da mão Duas plataformas recém-lançadas dão uma boa ajuda para organizar o roteiro pela Europa. A Comissão Europeia de Turismo acaba de lançar seu aplicativo oficial em português. Permite pesquisar passeios, voos, hospedagem e fazer as reservas. Só funciona no iPad. Para iOS é grátis. Quanto aos bilhetes de trem, a plataforma para dispositivos móveis da Rail Europe ajuda a comprar bilhetes de trem na Europa em qualquer celular ou tablet. Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 85 internacional MICHAEL KAIN A economia mundial continuará crescendo em 2014 R eino Unido – A economia britânica começa a dar mostras de recuperação. Nos três meses anteriores a dezembro de 2013, a taxa de desemprego ainda estava alta, mas recuou de 7,2% para 6,9% em janeiro de 2014. Cerca de 2,34 milhões de trabalhadores estão desempregados, embora o desemprego de médio e longo prazo entre jovens esteja se reduzindo. Os salários médios estão aumentando, mas a Central Sindical (TUC, na sigla em inglês) afirma que os preços nos últimos anos dobraram em relação à massa salarial. A taxa de inflação na Grã-Bretanha em 2013 foi de 2,6% e em março de 2014 a alta dos preços anualizada foi de 1,6%, estando previsto aumento de 1,9% em 2014. Espera-se que a massa salarial cresça em 2014, dado o controle da inflação. A ocorrência de fortes chuvas e inundações durante os meses de inverno afetou áreas urbanas e rurais e o primeiro-ministro David Cameron prometeu que as vítimas das enchentes serão favorecidas com isenção do imposto cobrado pelas prefeituras, equivalente ao IPTU. A previsão de crescimento da economia britânica em 2014 foi reajustada de 2,5% para 2,9%. Em 18 de setembro de 2014, os escoceses votarão em importante referendo, para decidir se desejam ou não se tornarem independentes do Reino Unido. O ministro da Economia, o Wikimedia Commons Vista da cidade de Glasgow, na Escócia: país irá decidir se permanece no Reino Unido britânico George Osborne, afirmou que se a Escócia deixar a União, deixará de usar a libra esterlina como moeda. O primeiro-ministro escocês Alex Salmond, conhecido pela emotividade e comentários desafiadores, reclamou que o governo britânico estaria intimidando os escoceses. Afirmou também que a comunidade de negócios no restante do Reino Unido poderia incorrer em custos de transação superiores a milhões de libras se a Escócia não continuasse utilizando a libra esterlina como moeda. Por outro lado, o primeiro-ministro do governo galês criticou a afirmação de Salmond e disse que seu governo se opõe a uma união monetária com a Escócia, caso esta se torne independente, devido ao aumento dos custos 86 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 de transações entre o País de Gales e a Escócia. O presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso em visita a Londres afirmou ser difícil, se não impossível, a uma Escócia independente se tornar Estado-membro da União Europeia(UE). Uma das razões seria que a Escócia teria que ser aceita por todos os 28 membros da UE e a aceitação de um país formado pelo desligamento de um outro não seria tarefa fácil. Citou como exemplo, as tentativas de independência da Catalunha e de outras regiões na Espanha, de desligamento regional na Itália, França e em outros países. A despeito de uma campanha vibrante favorável à independência, as pesquisas de opinião indicam que a Escócia continuará parte do Reino Unido. A economia mundial continuará crescendo em 2014 A chanceler alemã Angela Merkel visitou Londres e reuniu-se com o primeiro- ministro David Cameron. Foi quase uma visita de Estado. A senhora Merkel foi a primeira líder alemã a discursar perante as duas casas do parlamento (nenhum outro político alemão o fizera anteriormente) e a tomar chá com a Rainha Elizabeth II. O discurso da chanceler desapontou o primeiro ministro e os políticos do partido Conservador e eurocéticos, desde que eles contavam com sua ajuda na renegociação dos tratados da EU, objetivando restringir o movimento de pessoas no território europeu. A chanceler considera ser o livre movimento de mão de obra um dos itens intocáveis na estrutura da União Europeia. Embora em conversas privadas, a chanceler alemã tenha afirmado considerar David Cameron um sobrinho estimado, advertiu que poderia apenas tentar flexibilizar o Tratado de Lisboa na área de turismo, ou reduzindo a burocracia e proporcionando a devolução de poderes aos parlamentos nacionais. David Cameron discutiu com a chanceler alemã sobre candidatos à sucessão dos presidentes da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, que se aposentarão este ano. Devido ao rápido influxo de pessoal ao Reino Unido, nos últimos anos, pressionando serviços e mercado de trabalho, o partido eurocético UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) cuja bandeira é o controle da imigração, desafia os demais partidos e Roberto Stuckert Filho/PR Dilma Roussef faz giro pela Europa depois de participar da cerimônia de posse de 19 novos cardeais da Igreja católica espera atrair mais de um terço do eleitorado nas eleições para o parlamento europeu, a serem realizadas em 22 de maio deste ano, tornando-se o maior partido britânico naquele parlamento. União Europeia A recuperação econômica na União Europeia começa a ganhar terreno. A Comissão Europeia assinalou que os 18 membros da zona do euro crescerão, em média, 1,2% em 2014 e 1,8% em 2015. Quando todos os 28 países membros são considerados, a taxa de crescimento do produto interno bruto em 2014 é estimada em 1,5% e de 2% em 2015. O comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da UE, Olli Rehn, afirmou que “o pior da crise parece ter passado”, mas “a recuperação ainda é modesta”. A estimativa da taxa de crescimento nos diversos países diverge de acordo com a fonte. Os cálculos oficiais nacionalmente tendem a serem maiores que os da Comissão Europeia, que envolve 28 Estados-membros. A federalista europeia, vice-presidente da Comissão Europeia, Viviane Reding, representante de Luxemburgo, sugeriu que os membros da zona do euro formem uma federação equivalente aos Estados Unidos da Europa. Segundo a senhora Reding, os demais países que não usam o euro, poderiam manter a política econômica, comercial e de defesa da comunidade. Tal proposta gerou controvérsia na Europa, visto que os partidos eurocéticos crescem em muitos dos Estados-membros e possivelmente se tornarão mais influentes no parlamento europeu, que será renovado entre 22 e 25 de maio. Na Grã-Bretanha, o sentimento eurocético vem-se espalhando, bem como em outros países. As pesquisas de opinião indicam uma reviravolta na representação política. Na Itália, o senhor Matteo Renzi, de 39 anos, mais jovem premier da história do país e líder do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, foi escolhido em substituição ao senhor Enrico Letta. O senhor Renzi se diz comprometido com a modernização e prometeu realizar reformas econômicas. A Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 87 internacional A economia mundial continuará crescendo em 2014 Protestos na Venezuela contra a alta da inflação, corrupção e criminalidade provocam tumulto nas ruas de Caracas imprensa o compara ao ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, em seus primeiros anos de governo. Brasil Os últimos dados sobre o crescimento da economia brasileira em 2013 indicam uma taxa maior (2,3%) do que a estimada pelos órgãos oficiais. Para 2014, estima-se crescimento de 1,9%. A presidenta Dilma Rousseff visitou Roma para a cerimônia de posse de 19 novos cardeais da Igreja católica, dentre quais, foi nomeado o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta. Ela brincou dizendo que o Brasil ganhara dois cardeais, se referindo à nomeação do cardeal Lorenzo Baldisseri, italiano, que servira como Núncio Apostólico no Brasil de 2002 a 2012. Dilma Rousseff continuou sua viagem à Europa e visitou em Bruxelas a liderança da União Europeia para discutir o acordo de livre comércio entre o Brasil e aquele bloco, além do pacto regional entre a UE e o Mercosul (Mercado Comum do Sul). Esse acordo, há muito objeto de discussão e reuniões não tem prosperado, devido principalmente ao protecionismo comercial e econômico praticado pela Argentina e, recentemente, pela caótica situação política e econômica da Venezuela, novo Estado-membro do Mercosul. Infelizmente, o discurso dos líderes do bloco sul-americano não parece convergir, tendo a imprensa registrado recente fala da presidente argentina Cristina Kirchner fazendo referência a relatório da Organização Mundial do Comércio (OMC) que classifica os países pelas políticas comerciais protecionistas. Segundo ela, o Brasil estaria em primeiro lugar na adoção daquelas práticas e a Argentina em quarto, embora a imprensa criticasse apenas a Argentina, esquecendo o Brasil. Venezuela A Venezuela vem sendo atingida desde o início de fevereiro por sérios protestos populares envolvendo a oposição e apoiadores do governo de Nicolás Maduro. O número de 88 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 descontentes com o rumo tomado pelo atual governo alcançou 59,2% nas últimas pesquisas de opinião. As principais razões para os protestos, que se tornaram violentos, com o registro oficial de 40 mortes, 650 feridos e mais de duas mil pessoas detidas, são: a alta taxa inflacionária (59,3% em março), corrupção, criminalidade, desabastecimento e violência explicita. A oposição e o governo, após apelos da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), do papa Francisco, da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da comunidade internacional, iniciaram reuniões em nível diplomático visando o diálogo e o fim da violência, atuando como mediadores os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia. Ucrânia Apesar de fazer parte do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) o Brasil talvez não seja diretamente afetado pela atual crise política envolvendo a Ucrânia e a Rússia, embora os efeitos de um agravamento no conflito possa influenciar negativamente o mercado internacional de petróleo e gás. Ademais, os dois países são importantes parceiros comerciais do Brasil e espera-se que o fluxo de comércio não seja prejudicado pelas diferenças locais. l Michael Kain é economista e cientista político, graduado pela Universidade do País de Gales. É pós-graduado pelas universidades de Manchester e de Cambridge. GESTOR E CARREIRAS trabalho Auditores-fiscais reivindicam mais garantia de vida aos trabalhadores Previdência Social revela que ocorrem no Brasil mais de 700 mil acidentes por ano E m 28 de abril, Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, auditores-fiscais deram um abraço simbólico no prédio do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, em Brasília. Com este gesto, a categoria fez o seu protesto contra o que chama de desmonte da pasta, que deixa a desejar na proteção da saúde e segurança dos trabalhadores brasileiros, bem como de seus servidores. Durante a manifestação, os auditores-fiscais do trabalho usaram uma coroa de flores e velas para homenagear as vítimas de acidentes de trabalho. Eles chamaram a atenção para o número insuficiente de auditores-fiscais e de servidores administrativos, estes com salários defasados em comparação com funcionários dos demais ministérios, e para as condições degradantes das unidades físicas do MTE espalhadas por todo o país. Servidores dão abraço simbólico em prédio do Ministério do Trabalho: protesto contra condições precárias na fiscalização de acidentes A presidente do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Sinait), Rosa Jorge, e o vice-presidente Carlos Silva, protocolaram o “Relatório das Condições de Trabalho no Ministério do Trabalho e Emprego ”, um levantamento feito por auditores e servidores administrativos o qual faz um raio-x das condições precárias dos prédios em que eles desempenham suas funções. Segundo Rosa Jorge, o documento tem o objetivo de denunciar e exigir providências urgentes. “É necessário restaurar o mais rápido Segundo Rosa Jorge, o documento tem o objetivo de denunciar e exigir providências urgentes possível as condições de trabalho dignas para os servidores e para o público em geral, que procuram e necessitam dos serviços do MTE”. Conforme a presidente do Sinait, Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 89 GESTOR E CARREIRAS trabalho Rosa Jorge: são menos de 2.750 auditoresfiscais para fiscalizar um universo de mais de 7 milhões de empresas auditores-fiscais e servidores administrativos atuam lado a lado e têm várias reivindicações em comum, especialmente no que se refere à melhoria das condições das unidades do MTE e à necessidade de realização de concursos públicos para reverter o quadro defasado de servidores da pasta. l Fonte: Ascom/SINAIT Fiscalização deficiente Durante o ato, Rosa Jorge lembrou que atualmente a fiscalização trabalhista está com mil cargos vagos e para piorar a situação na expectativa de 400 aposentadorias, somente este ano. Segundo ela, o último grande concurso feito para o cargo de auditor-fiscal do Trabalho ocorreu em 1984, e de lá para cá a situação foi só piorando. Atualmente são menos de 2.750 auditores-fiscais em atividade para fiscalizar um universo de mais de 7 milhões de empresas. “Não adianta ter leis ótimas se não tiver quem as fiscalize. Existe uma bela CLT, mas não tem quem vá lá até o empregador para fazer cumprir a lei”, argumentou Rosa Jorge. A carência de auditores-fiscais do Trabalho também se reflete no aumento dos acidentes de trabalho, que se proliferam pelo país. Para Rosa Jorge, o Brasil vive uma epidemia de acidentes de trabalho. Segundo ela, dados da Previdência Social mostram que ocorrem no Brasil mais de 700 mil acidentes por ano. Por dia, 30 trabalhadores sofrem acidentes e ficam com sequelas e oito morrem. “É um número muito alto e nós não temos servidores para dar conta de fazer o trabalho de prevenção”, disse Rosa Jorge. Por fim, a presidente do Sindicato lembrou que entre os auditores-fiscais do Trabalho há vítimas de acidentes de tra- 90 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 balho, como Eratóstenes, João Batista e Nelson, que ao lado do motorista Ailton, morreram assassinados em Unaí, há dez anos. Os mandantes deste bárbaro crime ainda não foram julgados e condenados, prolongando a impunidade e o sofrimento das famílias. O vice-presidente do Sinait, Carlos Silva, criticou a falta de prioridade do governo na contratação de mais auditores-fiscais para fortalecer o Ministério do Trabalho e consequentemente reduzir os drásticos números de acidentes de trabalho. Ele disse que todas as normas que o ministério publica são atacadas pelo empresariado, a exemplo da mais recente investida contra a NR 12 – que trata da segurança de máquinas e equipamentos. O diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil no Distrito Federal, João Barbosa, prestou solidariedade aos auditores-fiscais do Trabalho. Ele denunciou a falta de segurança nas obras do governo e criticou as comissões criadas para fiscalizar as empresas. Segundo ele, a competência para este serviço é dos auditores-fiscais do Trabalho e não de técnicos que não têm o preparo da fiscalização trabalhista. O sindicalista disse que falta vontade política para resolver os problemas que impedem a promoção da segurança e saúde dos trabalhadores. PRÊMIOS E PUBLICAÇÕES A Controladoria Pública como instrumento de um Estado eficiente e uma sociedade mais participativa O professor Marcus Vinicius de Azevedo Braga, Analista de Finanças e Controle da Controladoria Geral da União (CGU), em parceria com o também servidor da CGU Franklin Brasil, é um dos vencedores do Prêmio Professor Lino Martins da Silva da Associação dos Servidores de Controle Interno do Rio de Janeiro (Ascierj). Com o trabalho Do Paradoxo à Efetividade – A Controladoria Pública como Instrumento de um Estado Eficiente e uma Sociedade Mais Participativa, os autores arrebataram o primeiro lugar do concurso, edição de 2014. Marcus Braga é um dos articulistas da Revista Gestão Pública, com a seção Governança & Gestão. A segunda colocação ficou com o trabalho Lições Finlandesas de Controle Público a serem seguidas pelo Brasil, de autoria de André Henrique Sousa Barros e Helen Theodoro Gomes da Silva. O trabalho Gestão Pública Municipal - A Institucionalização do Controle Externo sob o aspecto Social, de José Érison Barros dos Santos, classificou-se em terceiro lugar. O prêmio foi entregue no dia 21 de maio durante o quinto Congresso dos Servidores do Controle Interno do Estado do Rio de Janeiro (V Concin). O Prêmio Professor Lino Martins da Silva tem a finalidade de estimular o debate e a pesquisa sobre o sistema controle de interno, seus problemas, desafios e perspectivas, reconhecendo trabalhos de qualidade e de aplicabilidade na administração pública. Foi lançado em 11 de dezembro de 2013, por ocasião da posse da nova diretoria, com a finalidade de estimular o debate e a pesquisa sobre o sistema de controle interno, seus problemas, desafios e perspectivas. O professor Lino Martins, que inspirou o nome do prêmio, faleceu em março de 2013. Era contador, auditor, advogado, professor, pesquisador e autor de livros, deixando grande contribuição ao desenvolvimento da ciência e da profissão contábil no Brasil. Nasceu em Portugal, na freguesia de Nine, no município de Vila Nova de Famalicão. Aos 7 anos de idade, emigrou para o Brasil onde fez os estudos fundamentais, secundários e superiores. Formou-se em Ciências Contábeis, Direito e fez pós-graduação em Auditoria Externa. Lecionou na Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ as disciplinas de Contabilidade Pública, Auditoria, Análise de Balanço e Análise e Controle de Custos na Faculdade de Administração e Finanças, entre 1971 a 2010. Neste para o Sistema de Custos em implantação no Governo Federal. Em 2000, atuou como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), na elaboração do termo de referência para o Sistema de Custos do Banco Central do Brasil. l Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 91 PRÊMIOS E PUBLICAÇÕES GESTÃO ESTRATÉGICA DA INFORMAÇÃO E INTELIGÊNCIA COMPETITIVA ●● ORGANIZADORES: CLÁUDIO STAREC, ELIZABETH BRAZ PEREIRA GOMES E JORGE BEZERRA LOPES CHAVES ●● EDITORA: SARAIVA A proposta desta obra é fornecer conceitos, ferramentas, metodologias e conselhos práticos para melhorar o fluxo de informação e também o processo de tomada de decisão nas Organizações. Um problema tão sério que foi retratado por um pensamento do poeta T. S. Eliot - “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento e onde está o conhecimento que perdemos na informação?” Os 23 autores, profissionais que trabalham com questões da Ciência da Informação, Gestão do Conhecimento ou Inteligência Competitiva, pretendem apresentar nova sistemática de recuperação e tratamento de informações competitivas dos ambientes interno e externo da empresa, transformando-as em produtos e comunicando-os ao tomador de decisão. O principal objetivo dos autores não é apresentar teorias utópicas, modismos ou fórmulas mágicas, mas sim debater o real significado da gestão estratégica da informação nas organizações e discutir formas de estimular o fluxo de informação. GESTÃO AMBIENTAL: RESPONSABILIDADE SOCIAL E SUSTENTABILIDADE ●● AUTOR: REINALDO DIAS ●● EDITORA: ATLAS Este livro aborda os principais temas relacionados com as empresas e o meio ambiente, tais como: desenvolvimento sustentável, legislação ambiental municipal, sistemas de gestão ambiental, comércio internacional, mudança climática global 92 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 AS REGRAS DA INOVAÇÃO: COMO GERENCIAR, COMO MEDIR E COMO LUCRAR ●● AUTORES: TONY DAVILA, MARC EPSTEIN E ROBERT SHELTON ●● EDITORA: BOOKMAN Neste livro, o assunto é como gerenciar, medir e lucrar com inovação. A cada capítulo, os autores dão dicas de como alcançar este objetivo. Entre os temas tratados, há a definição de inovação, como alavancá-la e como estruturar seu negócio para ser verdadeiramente inovador. A obra aponta caminhos para que empresas, unidades de negócios, organizações sem fins lucrativos ou entidades governamentais possam colocar a inovação em prática. Dividido em sete capítulos com as sete “regras” para inovar, o livro aborda dicas para alcançar este objetivo através da utilização de instrumentos padrão de gestão, como estratégia, liderança, sistemas de gestão e pessoas. No livro, a inovação é vista como característica fundamental para o crescimento e a sobrevivência de qualquer companhia. Para os autores, trata-se de um processo que exige instrumentos, regras e disciplina específicos, bem como sistemas de avaliação e incentivos. Em suas palavras, a inovação é ingrediente indispensável para um sucesso sustentado e protege os ativos tangíveis e intangíveis de uma empresa contra a erosão do mercado. e o Protocolo de Kyoto, produção mais limpa, eco-eficiência, marketing verde, responsabilidade ambiental e cidadania. Além disso, trata de questões vinculadas e que são da máxima importância para as empresas, como a responsabilidade ambiental empresarial e a relação com as comunidades locais, dando especial ênfase no papel das administrações públicas municipais. A obra apresenta estudo de caso elucidativo da relação entre a cidadania ambiental emergente e as empresas, discutindo os efeitos da ampliação do debate ecológico na tomada de posição das pessoas e as organizações não governamentais. O livro utiliza exemplos recentes de problemas ambientais, contextualizando-os em cada capítulo com os conceitos apresentados. opinião Cláudio Emerenciano Uma visão da vida O s mistérios, desafios e enigmas da vida estão cidades, em todas as regiões do mundo, estreitam perdentro e em redor de nós. Impõe-se a cada um des- manentemente seus vínculos com a vida, com a terra e vendá-los e superá-los. Busca quase tão infindável a natureza. Possuem, dizia André Gide, o dom intransquanto a de Ulisses, na Odisseia, tentando retornar ao ferível de apreender, captar e entender vozes do silêncio, seu reino de Ítaca. Tão paciente, perseverante e indômita que ecoam da madrugada ao crepúsculo (em “Sinfonia quanto a resistência de sua esposa, Penélope, que ludi- Pastoral”). Esse é o “homem naturalmente bom” na briou seus pretendentes com um ardil: tecia um tapete visão de Rousseau. É o homem salvo, liberto e redimido de dia e o desfiava de noite. Inabalavelmente convicta de por Jesus, disse John Milton, para quem a liberdade, que o marido, um dia, retornaria. Assim se passaram dez fundada no exercício do livre arbítrio, exorciza o medo, anos... A contemplação de cada amanhecer a renovava o desespero, a angústia e o desalento. Nada tem sentido em esperanças. A percepção de um sentido no entardecer se o homem não misturar sua alma e seu espírito. Amala impregnava de paz e serenidade. A beleza sem fim, gamar os sentimentos e a razão. Ser livre para discernir, indescritível, insuperável, universal, possui um conteúdo pensar e querer. Sonhar e avançar. Criar laços, uns com eterno: o amor e a simplicidade. André os outros, para sublimar a vida. Mudar Malraux, em seu clássico “A condição e humanizar o mundo... humana”, identifica na capacidade de São Francisco de Assis, o pobreHá uma fonte sofrer, perdoar, esquecer, partilhar, zinho (polverello), compartilhava sua de todas as esperanças amar, renunciar e sonhar uma espécie fé e seu amor com todas as criaturas. e de todos os laços. de catapulta invisível, imaterial, que Orava durante toda a noite e, às priÉ a paz interior, do lança a humanidade no infinito. É a meiras claridades do dia, agradecia a espírito, da consciência, via de convergência do homem com Deus pelo espetáculo incomparável Deus. Segundo o padre Teilhard de da Criação. O Cântico das Criaturas que incorpora o Chardin, é a identificação do “lugar do (ou Cântico do Irmão Sol) é uma ode homem à harmonia homem no universo”. Antevisão prea Deus, à Criação e aos homens. Sua universal cursora do católico inglês Gilbert Keith “Exortação ao Louvor do Senhor” é Chesterton, em seus monumentais uma espécie de canto do universo, “Ortodoxia” e “O homem eterno”: odes oração e poema da inserção de tudo à fé, ao amor, à inteligência e aos sentimentos. e todos em Deus. Thomas Merton , teólogo e pensador, Há uma fonte de todas as esperanças e de todos os imergiu no sentido da vida e dos homens no Tibet, laços. É a paz interior, do espírito, da consciência, que chamado de “o teto do mundo”. Suas reflexões glorificam incorpora o homem à harmonia universal. Esse é um a dimensão humana, resgatada pelo Cristo na Cruz. São território transcendental, espiritual, puro, exuberante, Tomé, vacilante na fé, atônito e fragilizado, reencontrourenovador, através do qual o ser humano concebe e -a diante de Jesus (João 20, 27): “E logo disse a Tomé: explora sonhos, ideais, ilusões, fantasias, desejos, von- Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega também tades e aspirações. Tudo isso é um canto à vida em todas a mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas as suas dimensões. Os homens simples, dos campos e das crente. Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu. ““ ” Maio de 2014 - Gestão Pública & Desenvolvimento 93 artigo Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. Há uma cultura da liberdade, que fortalece no homem a resistência ao desânimo, à insegurança, ao temor e às suas contradições. Evidencia-se em cada um, na sequência interminável de passos adiante, contínuos, ampliando sua capacidade de exercer sua liberdade sem tibieza nem vacilações. Eis os fundamentos da civilização da paz. Coexistem com a democracia. São inseparáveis e interdependentes. As instituições decorrem desses elos. Nos dias de hoje, aqui e ali, tentam garrotear as pessoas pela disseminação da intolerância. Há um descompromisso com os valores da verdadeira democracia, alicerçada no pluralismo de ideias e num humanismo que consagre o direito de cada homem procurar e desfrutar a felicidade. Há uma tentativa planetária de subtrair às novas gerações a consciência dessa liberdade. No mínimo deturpá-la; 94 Gestão Pública & Desenvolvimento - Maio de 2014 Uma visão da vida Quadro de William Turner, pintor romântico inglês: Ulysses zombando de Polyphemus – Odisséia de Homero ( 1829) subvertê-la ao sabor de radicalismos, histerias e perversidade, que militam em favor de novas formas de autoritarismo. Seria como se o mundo revivesse o terror de “Os deuses têm sede” de Anatole France e “Um conto de duas cidades” de Charles Dickens, que devassaram e retrataram as atrocidades e pânico da Revolução Francesa. Ou na selvageria impactante do sovietismo em “Dr. Jivago” de Boris Pasternak e “O arquipélago Gulag” de Alexander Solzhenitsyn, russos aureolados com o Nobel da literatura. Os maus submetem os bons ao convertê-los à cultura da violência e do medo. Mas, em todos os tempos, o bem prevalece. Sempre... l Cláudio Emerenciano é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Buscando a excelência na administração pública IBAP INSTITUTO BRASILEIRO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PARCERIAS INSTITUCIONAIS IASIA International Association of Schools and Institutes of Administration DPADM/ONU Divisão de Administração Pública e Gestão do Desenvolvimento das Nações Unidas JÁ EM CIRCULAÇÃO AGORA EDITADA PELA NOVA EQUIPE EDITORIAL DO IBAP IBAP INSTITUTO BRASILEIRO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Publicações produzidas pelo Instituto Brasileiro de Administração Pública - IBAP GestãoPública & Desenvolvimento