SUSTENTABILIDADE E GESTÃO DE PROJETOS – UM ESTUDO EXPLORATÓRIO AUTORES Francine Gayer Ivana Naomi Mukai Priscila da Paz Vieira ORIENTADOR Denise Oldenburg Basgal CURSO MBA–Gerenciamento de Projetos– Isae/FGV Turma GP 3/12 Resumo Dois grandes temas têm orientado as pesquisas da academia e as atividades das empresas, nos âmbitos nacional e internacional: os projetos e a sustentabilidade. Devido à globalização, que promoveu a queda das fronteiras e possibilitou que empresas ampliassem seus negócios, difundiu-se o estudo e a prática do gerenciamento de projetos. O Relatório Brundtland ampliou as discussões sobre a importância de promover o desenvolvimento da humanidade respeitando os três pilares da sustentabilidade. Refletir sobre como a sustentabilidade tem orientado as boas práticas do gerenciamento de projetos é o que propõe este artigo. Para atingir esse fim, foi realizada uma pesquisa exploratória sobre a sustentabilidade relacionada ao gerenciamento de projetos, a fim de melhor entender o tema e para analisar criticamente a literatura encontrada, bem como propor uma sugestão de estudo específico e delimitado sobre o assunto, pois concluiu-se que é muito escasso o emprego da sustentabilidade nas práticas de gestão atuais e que a abordagem do tema não apresenta grandes aprofundamentos, motivo pelo qual a resistência à adesão de práticas sustentáveis ainda é expressiva. Palavras-chave: sustentabilidade, gerenciamento de projetos. 1. INTRODUÇÃO No final da década de 1990 se fortalecem as discussões sobre a “globalização”, fenômeno que caracteriza a dissolução das fronteiras entre os países, possibilitando que produtos, serviços e, com mais força nos últimos anos, as pessoas circulem com mais facilidade entre os países. Esse movimento é ainda mais evidente nas empresas, o que tem exigido que estas se adaptem e se reorganizem muito rapidamente. Nesse contexto, os projetos exercem um papel fundamental e já são considerados agentes de mudança nas organizações, permitindo que novas oportunidades e inovações surjam perante as atividades rotineiras e operacionais, além de garantir sua permanência no mercado cada vez mais competitivo e globalizado. Por outro lado, a importância do desenvolvimento sustentável está em voga como o fator que garantirá a continuidade dos negócios das empresas. A cobrança da sociedade diante dos impactos e consequências nas dimensões econômica, ambiental e social está cada vez maior, pois as ações de tais entidades afetam toda a civilização, independentemente da localização física e da situação econômica. A sociedade quer das organizações uma atuação com maior transparência e responsabilidade. A definição de “sustentabilidade” tem o Relatório Bruntland como documento de referência, que afirma que “desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades” (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1991, p. 9). Elkington (2012) referencia a sustentabilidade empresarial e propõe a reflexão sobre o Triple Bottom Line, que discute a sustentabilidade em três pilares: econômico, social e ambiental. Apoiando-se nesses dois conceitos, outras propostas surgiram e ampliaram o debate sobre as dimensões da sustentabilidade. Hawkes (2001, p. 26) inclui aos três pilares tradicionais também o pilar “cultural”. Sachs (2002, p. 85-88) refere-se à sustentabilidade social, cultural, ecológica, ambiental, territorial, econômica e política. Silva (2011) define sete pilares da sustentabilidade: econômica, social, ambiental, cultural, política, ética e estética. Ainda nessa linha, Loures (2008) define negócios sustentáveis como aqueles em que estão presentes e atuantes as competências capazes de criar valor econômico-financeiro sem causar danos ao meio ambiente ou a terceiros. Logo, como uma empresa pode ser sustentável sem comprometer seus lucros, que estratégias podem ser adotadas e aplicadas com a finalidade de alcançar a sustentabilidade, como prover vantagem competitiva com respeito aos preceitos de sustentabilidade devem ser questões levantadas e avaliadas. Sendo assim, o gerenciamento de projetos pode ser visto como uma competência estratégica de modo a garantir que os resultados dos projetos estejam alinhados com os objetivos estratégicos dos negócios sustentáveis da organização. Cabe então concluir que, para que a sustentabilidade esteja integrada nos processos de gerenciamento de projetos, esta deverá ser inserida na estratégia da organização. Diante do exposto, o objetivo principal deste artigo é identificar as práticas adotadas no gerenciamento de projetos voltadas ao desenvolvimento sustentável. Para atingir esse fim, o trabalho foi estruturado de forma a realizar uma pesquisa exploratória sobre a sustentabilidade aplicada ao gerenciamento de projetos, buscando referências brasileiras e internacionais, e a propor uma sugestão de estudo específico e delimitado sobre o assunto. 2. REVISÃO DA LITERATURA 2.1 Os seis princípios da sustentabilidade e o gerenciamento de projetos Silvius (2012, p. 29) afirma que a maneira de produção e consumo que encontramos no mundo globalizado ainda não é sustentável e, para reverter essa situação, deve-se encarar os projetos como os principais agentes de transformação, responsáveis por proporcionar uma mudança sustentável para a sociedade. Porém, esse processo envolve certa complexidade, pois é preciso também mudar o modo de agir e pensar das pessoas, ou seja, suas crenças e valores. Como uma alternativa de unir os dois temas, Silvius (2012, p. 17) apresenta seis princípios da sustentabilidade como guias para integrar a sustentabilidade ao gerenciamento de projetos. Os seis princípios foram definidos a partir dos elementos-chave da sustentabilidade corporativa apresentados por Dyllick e Hockers (2002, apud Silvius, 2012, p. 17), os princípios de sustentabilidade propostos por Gareis et al. (2011, apud Silvius, 2012, p. 17) e com a transparência e o comportamento ético da norma ISO 26000. Tais princípios são correlacionandos com os grupos de processos iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle e encerramento, pertencentes ao ciclo de vida do projeto do guia PMBOK® e apresentados a seguir (SILVIUS, 2012, p. 29-53): 2.1.1 Princípio de sustentabilidade 1: sustentabilidade é sobre o equilíbrio ou harmonização dos interesses sociais, ambientais e econômicos Este primeiro princípio busca uma maneira de integrar o conceito do Triple Bottom Line (TBL) da sustentabilidade no gerenciamento de projetos, de modo a ultrapassar os limites da tripla restrição de escopo, tempo e custo apresentada pelo PMI (2008, apud Silvius, 2012). O autor recomenda que, na iniciação do projeto, é relevante incluir na justificativa os interesses econômicos, sociais e ambientais. Torna-se de grande importância a identificação dos stakeholders envolvidos ou afetados pelo projeto, pois agora irá abranger também os grupos de proteção ambiental, grupos de direitos humanos e organizações não governamentais (ONGs). Isso afetará diretamente os processos do planejamento do projeto como: coleta de requisitos, definição do escopo e atividades do cronograma, indicadores de qualidade, custos, avaliação dos riscos, entre outros. A preocupação social com a equipe de projeto implicará em um gerenciamento mais eficaz desses colaboradores durante a execução do projeto, incluindo incentivos para o desenvolvimento profissional, condições dignas de trabalho e aumento do grau de satisfação. Além disso, os processos de aquisição de materiais e serviços deverão considerar a contratação de fornecedores sustentáveis. O processo de garantia de qualidade também será afetado em função de novos critérios sociais e ambientais definidos no planejamento. No monitoramento e controle, deve-se ter a preocupação de como a sustentabilidade será monitorada e como isso modificará os processos de coleta de dados e a elaboração dos relatórios de desempenho. Os processos de encerramento não sofrerão modificações, mas, mesmo assim, o desenvolvimento sustentável sugere a redução do desperdício, fator que deve ser registrado nas lições aprendidas da organização. 2.1.2 Princípio da sustentabilidade 2: sustentabilidade é sobre a orientação de curto e longo prazos A natureza temporária do projeto não implica que as responsabilidades de seu gerente sejam orientadas a um curto prazo, ou seja, até o encerramento do projeto. A maioria dos benefícios proporcionados pelo entrega do produto final do projeto é observada no longo prazo, após a sua conclusão. Sendo assim, na iniciação e no planejamento do projeto, é importante definir os resultados almejados a longo prazo em consonância com os requisitos, escopo e demais áreas de conhecimento envolvidas nesses estágios. Durante a execução, é importante investir na capacitação e no desenvolvimento da equipe de projeto não só para atender às necessidades imediatas de curto prazo deste, mas também para objetivar profissionais que agreguem valor a longo prazo. Os processos de monitoramento e controle serão menos afetados por esse princípio. Já no encerramento, espera-se que a entrega do resultado do projeto contribua para o permanente benefício da organização. 2.1.3 Princípio da sustentabilidade 3: sustentabilidade é sobre a orientação local e global A globalização tem um forte poder no gerenciamento de projetos. Hoje, as equipes estão distribuídas geograficamente assim como os fornecedores e clientes. Logo, é importante que os processos de gerenciamento de pessoas e aquisição levem em conta ao fatores culturais e as condições de trabalho em países de baixo custo na cadeia de suprimentos, como Índia, China ou África. No âmbito local, stakeholders como a comunidade local não podem ser ignorados, pois características do projeto, como a geração de ruído ou tráfego, poderão abalar o ambiente de convívio dessas pessoas. Esse princípio impacta em quase todos os grupos de processo do ciclo de vida do projeto, com exceção dos processos de monitoramento e controle e encerramento. 2.1.4 Princípio da sustentabilidade 4: a sustentabilidade é sobre consumo de renda, não de capital Esse princípio é orientado aos recursos integrantes ou de parte das entregas do projeto, como o uso de recursos humanos, materiais, matéria-prima, água e energia. Possui forte impacto no planejamento do projeto através da seleção de materiais e recursos ecologicamente corretos na definição do escopo. Outro fator importante é a preocupação com o bem-estar das pessoas envolvidas no projeto. Muitas vezes, a pressão imposta para cumprir os prazos e obter resultados, combinados com a escassez dos recursos humanos, pode ocasionar o consumo de capital humano, pois afetará a capacidade futura da pessoa na execução do projeto. O impacto desse princípio no monitoramento e controle e no encerramento do projeto não é notório. 2.1.5 Princípio da sustentabilidade 5: sustentabilidade é sobre transparência e prestação de contas Esse princípio se aplica a todos os grupos de processos do ciclo de vida do projeto. A prestação de contas é representada através de relatórios que demostram o desempenho do projeto, de como as decisões e ações tomadas irão influenciar não só as variáveis da tripla restrição do gerenciamento de projetos, mas também os indicadores do TBL para a integração da sustentabilidade no processo. A transparência abrange os processos do gerenciamento de comunicação, visando à correta percepção pelos stakeholders a respeito do andamento do projeto, ou seja, através da comunicação clara, sem manipulações e omissão dos eventos problemáticos e potenciais. Como a inclusão da sustentabilidade no gerenciamento do projeto irá aumentar o conjunto de stakeholders, é de extrema importância uma comunicação mais transparente para permitir o engajamento dessas pessoas e entidades. 2.1.6 Princípio da sustentabilidade 6: sustentabilidade é sobre valores pessoais e ética O gerente de projetos tem papel fundamental em influenciar a organização e os membros envolvidos no projeto, expondo seus valores pessoais e conduzindo eticamente o projeto perante os consumidores, fornecedores, profissionais, enfim, a sociedade. Isso se aplica a todos os grupos de processos de gerenciamento de projetos. 2.2 A sustentabilidade e o gerenciamento de projetos no Brasil O Instituto Ethos é a organização de referência no Brasil quanto a indicadores de responsabilidade social. Em 2006, propôs uma reflexão sobre a sustentabilidade e os projetos, organizando um estudo com diversas organizações internacionais e nacionais de renome, entre elas Avon Comésticos, Banco do Brasil, Coca-Cola, Fundação Getulio Vargas, Petrobras e Votorantim Papel e Celulose (ETHOS, 2006). O estudo propõe que sejam avaliados os projetos que compõem o core business das organizações, considerando os três elementos da sustentabilidade: econômico, tradicionalmente analisado pelas empresas; ambiental, elemento que já ganhou algum espaço; e o social, escassamente considerado nos projetos. Também sugere inserir a sustentabilidade no ciclo de vida dos projetos, propondo que as organizações utilizem roteiros que garantam processos decisórios mais eficientes quanto à sustentabilidade. 3. DISCUSSÕES Mudar os alicerces que sustentam a gestão de projetos há tempos estabelecidos e adotados dentro das organizações, alinhando-os aos conceitos do Triple Bottom Line e promovendo benefícios não somente no âmbito econômico, mas também no social e ambiental é um importante desafio da atualidade. Ainda encontra-se certa resistência por parte das corporações que vivem um modelo de máximo retorno financeiro em curto espaço de tempo. Voltolini (2011, p. 28) faz referência a quatro desafios-chave para os líderes sustentáveis: a educação, o pensar e agir globalmente, a ética e a sustentabilidade. Esse quarto desafio “consiste em estender o propósito das empresas para além das fronteiras econômico-financeiras”, exigindo, portanto, que os resultados econômicos das organizações venham seguidos por um olhar social e ambiental. Para Voltolini (2011), planteia-se dois grandes impasses nas organizações: oferecer produto/serviço diferenciado, pautado na sustentabilidade, aos seus clientes e a dificuldade de mensuração sobre quanto os produtos/serviços sustentáveis agregam valor ao negócio. Adotar uma gestão sustentável é uma forma estratégica de conduzir uma empresa de modo responsável. Implica não somente em mudança nos processos e valores, mas também na busca pela eficiência operacional e vantagem competitiva. O custo despendido na implantação de uma gestão sustentável reverte-se em investimento, que é pago ao longo do tempo. Para isso, é necessário conhecer os princípios que regem as relações entre as corporações e a sociedade que as integra. Essa mudança de modelo empresarial, que organiza uma cultura forte baseada nos princípios sustentáveis, é voltada à maximização dos resultados em longo prazo. Silvius (2012) mostra que, para a prática da sustentabilidade seja colocada em exercício com êxito, é preciso que um planejamento de longo prazo seja organizado para que as ações tomadas tenham garantia de continuidade. É conveniente que a sustentabilidade seja tratada de forma peculiar nas áreas de conhecimento dentro do ciclo de vida do projeto, já que todas elas estão oportunamente integradas. Qualquer ação tomada em um determinado âmbito impactará (positiva ou negativamente) o retorno dos demais, dentro da cadeia produtiva. Visto que se pretende intensificar a prática sustentável nos negócios atuais e futuros, é necessário estabelecer uma base para análise, a fim de que se possa aplicar melhorias contínuas e estabelecer metas mais prósperas. Mas, para que se atinjam essas metas e para que o trabalho realizado possa ser avaliado, bem como os impactos causados, é necessário registrá-lo e mensurá-lo. Para isso, são estabelecidos indicadores como instrumentos de gestão estratégica de sustentabilidade, que favorecem também a execução de relatórios de sustentabilidade mais completos. Não existem hoje parâmetros bem definidos para o tema, nem um consenso sobre indicadores de viabilidade “econômico-social-ambiental” de projetos, situação que dificulta o processo decisório tanto por parte do empreendedor quanto por parte do cliente. Os retornos dos projetos de sustentabilidade devem ser medidos e divulgados. Eles garantem a prática de uma governança corporativa diferenciada, mediante os requisitos exigidos que permitem esse alinhamento e auxiliam nas decisões estratégicas empresariais. Sobre o âmbito social, o gerenciamento dos stakeholders apresenta-se como instrumento importante para a garantia da sustentabilidade no gerenciamento de projetos. Uma atenção especial aos diferentes stakeholders se revela de suma importância quando se trata de sustentabilidade. Isso fica evidenciado pela possibilidade de estabelecimento de paralelos entre a teoria que Sachs apresenta e as boas práticas apresentadas na quinta edição do PMBOK®. Sachs (2002) afirma que “é necessário um planejamento flexível negociado e contratual, simultaneamente aberto para as preocupações ambientais e sociais”, e o processo de “planejar a gestão dos stakeholders” tem essa mesma preocupação, já que prevê o desenvolvimento de estratégias de gestão baseadas nos interesses e necessidades dos stakeholders. Da mesma forma, o conceito de que “uma condição importante na abordagem negociada e participativa é garantir que a população local receba uma fatia dos benefícios resultantes do aproveitamento de seus recursos” pode ser relacionado com o processo de “gerir o engajamento dos stakeholders”, que sugere trabalho e comunicação com os stakeholders para atingir suas necessidades e expectativas (PMI, 2013). A maturidade na gestão de projetos nas últimas décadas ganhou novo conceito. Para Kerzner (2002), a maturidade em gestão de projetos é o desenvolvimento de processos e sistemas que se repetem, de maneira que aumentam a probabilidade de êxito dos projetos submetidos a esses processos e sistemas. Processos, ferramentas e técnicas aplicados apresentam-se poderosos meios para se atingir o resultado planejado. O PMI, através dos seus guias de referência, PMBOK® e Guia das Melhores práticas de Gestão de Portfólio, promove uma discussão mundial sobre as estratégias utilizadas pelas organizações para gerenciar seus projetos e/ou portfólios. Em mais de 40 anos de atividade, tem um esforço destacável na definição de padrões internacionais para o gerenciamento de projetos, uma atividade essencial para garantir o funcionamento eficiente de diversas organizações no contexto da globalização. O PMI também incentiva que instituições de ensino e pesquisadores desenvolvam estudos e gerem conhecimento sobre o gerenciamento de projetos. Seguindo esse propósito, ainda que de maneira incipiente, as discussões sobre o gerenciamento de projetos sustentáveis têm se ampliado. A consciência das organizações sobre os efeitos gerados por um projeto na sociedade, no meio ambiente e na economia, durante o seu ciclo de vida e também depois de sua conclusão, está crescendo cada vez mais e instigando a repensar, portanto, sobre como as metodologias de gestão de projetos atuais devem ser revisadas. Assim, devem incluir os princípios sustentáveis para asseverar a boa prática de gestão dos projetos, o que irá possibilitar auxílio na atenuação dos riscos, no surgimento de oportunidades, no alinhamento estratégico da organização e, principalmente, no propósito final de todo projeto, a satisfação dos stakeholders. 4. CONCLUSÕES O presente estudo exploratório, baseado na revisão de literatura sobre sustentabilidade aliada às práticas de gerenciamento de projetos, demonstrou que a abordagem da sustentabilidade como diferencial nas práticas de gestão é ainda bastante escassa, sem grandes aprofundamentos, mesmo tendo decorrido mais de duas décadas de evolução sobre esses dois temas tão discutidos no mundo globalizado (EID, 2009, apud SILVIUS, 2012, p. 28). Essa nova visão e missão do ambiente corporativo, que faz com que a sustentabilidade seja um fator referencial no complexo sistema em que um produto final não representa apenas lucro financeiro, felizmente não se apresenta mais como uma temática filantrópica. A adesão das organizações aos acordos e compromissos globalmente reconhecidos exige o ajuste da gestão das responsabilidades assumidas. No âmbito geral, todos os envolvidos, sejam eles consumidores, financiadores, investidores, entre outros, exigem compromissos éticos das empresas. Não existe nenhum sistema produtivo que seja funcional sem capital financeiro, natural e humano, todos estes bem segmentados e em equilíbrio mútuo. A sustentabilidade remete ao equilíbrio da oferta entre bens e serviços. Alterações nos padrões comportamentais, de produção e de consumo permitem aproveitar oportunamente a ocasião de quebra, para o avanço no que se refere também à qualidade. No campo ambiental, a deterioração dos ecossistemas e a consequente escassez de recursos e por conta disso, no campo social, a intensificação de conflitos étnicos criados e seu impacto de longo prazo podem afetar as empresas de modo negativo ou não, infundindo-lhes restrições operacionais ou revelando oportunidades de geração de valor, respectivamente. Aproximar a classe empresarial dos stakeholders comprometidos com questões socioambientais apresenta como benefício imediato e direto a melhor aplicação dos recursos, que consequentemente vai gerar resultados de longo prazo e melhoria das condições de qualidade de vida, atuais e futuras. De acordo com Schleder et al. (2013), a sustentabilidade empresarial se dá através do estabelecimento de relações éticas com seus stakeholders e que ela é função da qualidade dessas relações. Uma empresa procura geração de valor para seu público, dessa forma, suas ações são orientadas para que superem as expectativas de clientes e de todos os demais envolvidos no processo, sejam eles, impactantes ou impactados. Atender a essas expectativas consequentemente reduz os riscos ambientais, sociais e de cunho econômico, aumenta as oportunidades e também os investimentos e rendimentos, pois para os investidores essa é uma condição mais segura de negócio e, portanto, bem mais atrativa. As organizações devem mostrar aos investidores e analistas que investimentos em projetos de sustentabilidade podem gerar retornos muito superiores aos de investimentos tradicionais, criando um histórico de crescimento e conduzindo a projeções maiores de negócio. A maioria dos projetos de sustentabilidade não é submetida a avaliações, o que acaba se tornando uma opção pouco clara e evidente por parte das empresas, pois coloca os acionistas em uma posição de visão pouco clara do retorno do dinheiro investido. Por se tratar de um tema relativamente novo dentro das organizações, qualquer assunto relacionado à sustentabilidade representa numerosos fatores de riscos, que devem ser tratados dentro dessa perspectiva. Nesse caso, buscar o risco estrategicamente tratando-o de forma positiva também é fundamental. A carteira de projetos expande significativamente em um ambiente propício a menos riscos, mais oportunidades, maior geração de valor e devem ser considerados como uma carteira de investimentos. As dificuldades relacionadas à implantação da sustentabilidade nas corporações só poderão ser atenuadas no momento em que líderes responsáveis atuarem de forma transparente e comprometida com a criação de ambientes que estimulem os projetos sustentáveis, mantendo o relato regular sobre os impactos ocasionados nos negócios, bem como provocando a reflexão sobre como os princípios de sustentabilidade, em termos dos elementos constituintes do Triple Bottom Line e demais variáveis envolvidas, contribuem na gestão de projetos. A sustentabilidade corporativa pode ser eleita como uma das etapas na procura da gestão eficiente em seu mais alto grau, a fim de ter empresas viáveis do ponto de vista econômico, ambientalmente corretas e socialmente justas. Muito embora este artigo tenha se proposto a realizar uma pesquisa exploratória sobre um tema tão abrangente como sustentabilidade e gestão de projetos, entende-se que os objetivos do presente estudo foram atingidos, trazendo uma contribuição para que novas explorações sobre o tema sejam realizadas de forma analítica e aprofundada. REFERÊNCIAS COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1991. Disponível em: <http://futurocomum.spruz.com/downloads.htm>. Acesso em: 2 jul. 2013. ELKINGTON, John. Sustentabilidade: canibais com garfo e faca. Tradução de Laura Prades Veiga. São Paulo: M.Books, 2012. HAWKES, John. The fourth pillar of sustainability: culture’s essential role in public planning. Melbourne: Common Ground Publisching Pty Ltda. e Cultural Development Network, 2001. Disponível em: <http://www.culturaldevelopment.net.au/community/Downloads/HawkesJon(2001)TheFourthPillarOfS ustainability.pdf>. Acesso em: 20 out. 2013. 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