Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 1 A POESIA E A FILOSOFIA: DISCURSO INICIAL. Aloisio Arimatea Rosa1(Grad.UFS/SE - Esp.UNIT/SE) A poesia e a filosofia estão ligadas uma a outra e o estudo desta questão remonta ao momento em que os poemas de Homero poeta grego (sec.VIII a.C.), eram tidos como referência cultural por excelência e, junto com Homero outros poetas seus contemporâneos, através de seus textos, marcaram o período do ressurgimento da escrita na Grécia, esse momento encerrava todo conhecimento que a sociedade grega pôde desenvolver. O proposto pela poesia, pode ser, também visto na obra de Hesíodo (poeta grego séc.IX a.C.) Teogonia, é feito às Musas o questionamento de como as coisas, o todo no universo começou; como surgiram e nasceram o dia, a noite, a terra, o mar; buscava-se a essência das coisas. Quando os poetas se questionam pela origem dos deuses, de certo modo, dá-se a origem da filosofia. Platão (428-7 a.C./348-7 a.C.) filósofo ateniense in A República, adotara as idéias do filósofo Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.), localizando a poesia no inicio da formação da mentalidade da visão de mundo grego. A filosofia projetava, no primeiro momento, seu movimento num mesmo espaço que, anteriormente, era o domínio só do poeta, ou seja, o aspecto da questão da origem histórica da filosofia reside na compreensão de como se processa a passagem entre a mentalidade mito-poética e a mentalidade teorizante. A mito-poética inscreve-se historicamente como a forma de saber responsável por praticamente todo o conhecimento que a antiga sociedade grega pôde desenvolver e propagar. É dito pelos estudiosos que os filósofos tinham a intenção de compreender o mundo. A poesia também fazia esse esforço num outro tipo de linguagem, ou seja, o Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 2 surgimento da filosofia vem estabelecer uma diferença nesse período histórico. Só com o advento da filosofia a sociedade grega passou a presenciar e passou a dispor de um novo modus de conhecer: uma alternativa ao modelo de conhecimento e concepção de mundo que os poetas pronunciavam. Com o surgimento da filosofia a tradição mito-poética não se encerra. Como se duas vias se abrissem a partir de uma via primeira, a tradição mitopoética consistia em explicar o mundo e com o surgimento da filosofia se bifurca. A tradição mítica e a filosófica se inter-fecundam ao longo do tempo. A ruptura dar-se-á do ponto de vista da experiência da linguagem. O surgimento da palavra escrita provocará um distanciamento entre a ordem da palavra e a ordem da realidade. Visualize-se um poeta apresentando oralmente seus poemas num auditório, portanto em contato direto com seu público ele pode assegurar o convencimento a sua platéia pela entonação que ele conferia às suas palavras. A partir do momento em que surge a mito-poética sob a forma da palavra escrita se perceberá um distanciamento entre aquele que compõe o poema, o que comunica o poema e o que lê o poema, introduzindo o texto escrito no universo da polissemia e da ambigüidade. 1 - HOMERO E HESÍODO No século VI a.C. os gregos contrapõem a busca de uma unidade de compreensão racional, que organiza, integra e dinamiza os conhecimentos. A poética surge como forma de dominar a verdade percebida nas colônias gregas, uma nova mentalidade decorrente das novas condições de vida existentes na Grécia encontra sua expressão através das epopéias, fusão de lendas eólias2 e jônicas, são relatos mais ou menos fabulosos. As lendas narravam fábulas do mundo helênico em formação; a língua era mistura de dialetos, através dos quais relatavam ocorrências históricas. Nesse período vão surgir os chamados “ciclos” consistindo nas cantorias das guerras de Tebas e a Guerra de Tróia, dos quais foram Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 3 conservados os poemas a Ilíada e a Odisséia; ambos de autoria do poeta Homero escritos entre o século X e o século VIII a.C. A obra de Homero expressa o valor da poesia e a importância social nela encontrada. Homero, em termos cosmogônicos, faz a seguinte afirmação: “o oceano é o pai de todos os deuses”. Quando aparece o primeiro filósofo grego, o Tales3 (cerca de 625/4558 a.C.) também diz que a água é princípio de todas as coisas. Em Homero nós encontramos esta afirmação em uma linguagem poética, inclusive genealógica, foca na substância a razão de existir das coisas. A diferença com relação a Tales é de o filósofo começar a pensar de uma forma física, ou seja, numa acepção aristotélica a presença da água daria explicação à causa material. Portanto o objeto ao qual a filosofia dedicará o seu conhecimento: o cosmos e a extensão da phisis [natureza]. Tanto a poesia grega quanto a filosofia em sua origem podem ser consideradas modelos de conhecimento da realidade. O problema da arqué, do princípio, reside no ponto de que se entendendo o princípio se dominará o conhecimento, o desdobramento das coisas. A solução encontrada para explicar a realidade em conhecer é diferente. Como se deduz das leituras de “Os Pré-socráticos Vida e Obra” (1996), os heróis homéricos, quando se apresentam, fazem questão de apresentar sua ascendência genealógica como garantia de seu valor pessoal. Homero cantava os homens bons - aristoi - possuidores de virtudes - arete - significava o mais alto ideal cavalheiresco aliado a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro, identificada e atribuída à nobreza, indicando a superioridade de excelências humanas e seres nãohumanos. Quando canta os deuses os define por oposição aos seres terrenos. Os deuses escapam à velhice e a morte e pode-se saber de quem cada divindade é filho ou filha. Na obra Ilíada(2005) Homero narra os acontecimentos durante a guerra de Tróia4 iniciada pelo descontentamento entre Agaménone5 e Aquiles. Este se afasta do campo de batalha e deixa espaço para o surgimento de outros chefes, quando sobe Tetis6 ao Olimpo e Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 4 implora a Zeus a vitória para os troianos. Cumprido os desígnios de Zeus7, Agaménone arrependido retratar-se perante Aquiles8. Surdo aos rogos de perdão Aquiles só atenderá aos apelos de Pátroclo9 e, como se não bastasse, empresta-lhe as próprias armaduras e seus homens para aliviar a pressão do inimigo e tentar evitar o incêndio das naus. Pátroclo é vencido por Heitor apoderando-se das armas de Aquiles, motivo pelo qual Tetis pede a Hefesto10 novas armas para seu filho. Aquiles só tem em mente vingar a morte do amigo e o último canto da Ilíada é justamente o resgate do corpo de Heitor11 por Príamo12 e a reconciliação dos inimigos fidalgos. Já era a viva percepção do poeta de que o homem abriga em si um duplo, um outro eu. Assim também o fez Hesíodo (séc.IX a.C.), natural da Ascra região da Beócia, segundo relatam os estudiosos, sentiu-se ludibriado pelo seu irmão na partilha da herança paterna. A polêmica com seu irmão Perses serve de tema para uma das duas grandes obras de Hesíodo: Os Trabalhos e os Dias. Sua lida era cultivar os campos e apascentar rebanhos, Hesíodo torna-se também aedo [uma espécie de cantor que apresenta suas composições épicas, acompanhando-se ao som da cítara] sob inspiração das Musas, como relata na sua obra, a “Teogonia”, era o poeta, o veículo anônimo das Musas e referindo-se a ele próprio no início da Teogonia: “(...) Foram elas que, certo dia, ensinaram a Hesíodo um belo canto, quando ele apascentava suas ovelhas ao pé do Hélicon divino13”.(Os Pensadores, 1996, p.12) Canta o poeta, na obra Teogonia, a origem dos deuses numa lógica sistemática de um pensamento racional sustentado pela existência de causalidade, a abrir caminho para as posteriores cosmogonias filosóficas, assim posto o drama teogônico: (...) Primeiro teve origem o Caos - abismo sem fundo - e, em seguida, a Terra e Eros (o Amor) de beleza única entre os deuses imortais, criador de toda vida. De Caos sairá a sombra, sob a forma de um par: Érebo (treva) e Noite. Da sombra sai, por sua vez, a luz sob a forma de outro Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 5 par: Éter e Luz do Dia, ambos filhos da noite. Terra dará nascimento ao Céu, depois às montanhas e ao mar. Segue-se a apresentação dos filhos da luz, dos filhos da sombra e da descendência da terra - até o momento do nascimento de Zeus, que triunfará sobre seu pai, Cronos. (Os Pensadores, 1996, p.12) A poesia, através de seus mitos, constitui um modelo de conhecimento da realidade sensível à própria poesia e oferece uma explicação de um mundo imagético, só o imaginado pelo poeta deflagra sua própria percepção das coisas. Será sempre uma realidade inventada. No dizer de Anatol Rosenfelde (2007,p.18) para quem o termo “verdade” referido nas obras de artes ou ficcionais “tem significado diverso”, diferente do que seria a verdade factual no extra-mundo ficcional porque o termo “verdade”, neste aspecto ficcional, abrangerá uma autenticidade do subjetivo do autor, ponto no qual a verossimilhança será o aspecto, da adequação do que poderia ter acontecido, mas não do que aconteceu. A coerência interna da obra e o mundo extra-literário permeará a concepção possível de juízos mesmo sabendo-se da narrativa a exposição de um mundo das ideias do autor abarcando o mundo imaginário das personagens, situações miméticas remetendo os leitores à provável visão “profunda da realidade”. O discurso, mito ou logos, é a forma que trabalha tanto o poeta quanto o filósofo. Embora logos não seja uma palavra usual nas obras de Homero, para indicar discurso, ele usa outro termo, o mito. Encontramos o primeiro registro do termo logos como discurso em Hesíodo (Teogonia) quando, em descrição à origem da humanidade, conta a história de Prometeu - rouba o fogo de Zeus para dá-lo aos homens e atrai para si e para os mortais a ira do suserano do Olimpo - e a história de Pandora - a mulher condutora da jarra que destampada, deixa escapar e espalharem-se entre os mortais todos os males, deixando prisioneira na jarra apenas a esperança -, então Hesíodo diz coroar esse relato com um logos diferente - primeiro uso de logos - e aí vem a história das cinco raças: da raça do ouro Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 6 que teria vivido livre de cuidados e sofrimentos e transformadas nos gênios bons guardiões dos mortais; da raça de prata ou raça inferior, vivem por cem anos, mas crescendo entregam-se a excessos e recusam-se a oferecer culto aos imortais, são chamados bemaventurados; da raça de bronze ou raça de homens perecíveis, violentos e possuidores de armas de bronze, sucumbem nas mãos uns dos outros e são transportados para o hades sem deixar nome sobre a terra; da raça dos heróis que combateram em Tebas e Tróia, para quem Zeus reservou um lugar tranqüilo na Ilha dos Bem-Aventurados; da raça de ferro, duros tempos - o tempo do próprio Hesíodo - de incessantes fadigas, misérias e angústias. A essa raça aguardam dias terríveis. Estas se vão sucedendo na origem da humanidade. Quando se criou a idéia de que a passagem da poesia ou surgimento da filosofia na Grécia marca a passagem do mito para o logos (isto é uma perspectiva do século XIX que na verdade não aparece no corpus dos autores gregos) encontramos uma disputa nesse tipo de discurso, mas poetas e filósofos gregos estão se movimentando no mesmo espaço mental. Platão cria seus próprios mitos para expressar seu pensamento filosófico, sendo o mito, muitas vezes a conclusão de toda argumentação num texto. A exemplo de A República no livro X 614b a 621b, relato oral transmitido a alguém ao retornar do Hades. É o mito escatológico (ou requerendo uma concepção de divindade, teológico) de Er descrevendo o acontecimento após a morte e diz aos interlocutores da conservação do mito e se acreditassem nele da forma posta alcançaria a salvação. Ainda de A República ser um livro de ideias política, um discurso cuja literatura tem um impacto político educativo, então se configura um discurso prazeroso, mas não inócuo, mesmo dizendo algo passível de acontecer. Platão define a literatura com uma mentira no todo em que existe algo de verdade e essa verdade deverá ser encontrada no espaço da ficção. 2 - A LITERTURA Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 7 A arte literária, segundo conceitos propostos na época clássica, consiste nos preceitos estéticos da invenção, para a poesia, seara digna de tratar da escolha do assunto - o objeto cantado (a musa inspiradora, a natureza sensibilizadora etc) -; quanto à disposição, coordena o assunto numa ordem lógica e atraente - na disposição das palavras para combinação de sentido da mensagem poética, da musicalidade e métrica -, dando ao trabalho movimento e unidade. No tocante à elocução (maneira de expressar-se oralmente e na escrita), a arte literária preza pela correção, clareza e harmonia da língua, dando estilo à obra, proporcionando-lhe forma externa. Arte literária é, também, a arte criadora da imitação da realidade pela palavra. A teoria da imitação deságua na literatura. As definições conceituais de literatura, conhecidas até a modernidade, são verdadeiramente ficção, a criação de uma supra-realidade com os dados profundos, singulares da intuição do artista, podendo ser verossímil e inverossímil. Seguindo o pensamento aristotélico de que o imitar é congênito nos homens e, portanto, todos apreciam as imitações. A mimese poética não sendo “cópia da realidade”, “vai apreender o geral presente nos seres e eventos particulares - e, por isso mesmo, a poesia se aparenta com a filosofia14”(1988, p.343). Os objetos da mimese poética são variados e diversificados conforme as ações dos homens. Assim os poemas épicos de Homero representam os homens melhores ou imitações destes como objeto de menção da literatura, imitação do real, inverossímil. A concatenação em um determinado discurso pode ser a argumentação e, em termos de uma narração, como as ações vão seguindo em uma relação de causa e efeito. Neste ponto Aristóteles dirá na Poética ser a poesia mais filosófica que a história porque a poesia trata do universal e não do particular; a poesia cria um personagem e cria uma história a partir dessa relação de causa e efeito e assim o faz por ser ficcional. Sendo a poesia fruto da imaginação surge uma particularidade quanto ao poeta: o poeta, não tem compromisso com a verdade, ou seja, a poesia não vai se basear num Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 8 discurso cujo procedimento básico é argumentação. Retome-se o discurso de Platão: quanto ao conceito de mimese, quando aplicado à produção dos poetas, é sempre retirado da comparação com a atividade do pintor que imita visualmente coisas particulares e entre o poeta e do pintor há o artesão na sua função de construir ou criar algo. Uma cama que é a cama natural ou a Idéia de cama, única e essencial, da qual deus é o criador, uma segunda, a cama particular feita pelo artesão a partir da Idéia de cama anterior e, por fim, a cama do pintor que imitou não a Ideia de cama, mas a cama particular tal como ela aparece. É importante observar o fato de que o pintor procurará sempre imitar a aparência da cama e não o Ser mesmo da cama. A conclusão será que as obras dos pintores e, por conseqüência, as obras dos poetas, “são objetos aparentes, desprovidos de existência real” (596e), por serem feitos através da mímese. Seguindo ensinamento do Professor Jacyntho Lins Brandão, percebemos neste ponto que a dialética para o filósofo reconhecerá ao poeta a condição de “mágico e imitador” não tem necessidade de fazer argumentações porque o poeta está inspirado pela musa. A poesia, especialmente através de seus mitos, constitui um modelo de conhecimento da realidade em que esta, a realidade sendo sensível, é explicada a partir de um suprasensível: a causa, explicação e a determinação o mundo real, o cosmo, é o mundo dos deuses. Esse mundo real, apreendido aistheticamente, isto é, apreendido por todo o conjunto de sentidos e sensações que formam a sensibilidade do homem, é justificado e encontra o seu fundamento justamente num mundo que, ainda que permaneça real, não se sente nem se vê, mas que se intui e é cognoscível por inspiração poética. A poesia, portanto, oferece uma interpretação da realidade que, no fundo, é uma invenção, daí serem os mitos necessariamente fantásticos – necessidade e contingência da sua linguagem. Na qualidade de linguagem que tenta conceber o real, o conhecimento mito-poético é uma forma de saber inventiva. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 9 Para Donald Schüler (2007, p.105) o pensamento do pré-socrático Heráclito expressa o pensar como a entrada das sensações no corpo, a inteligência não entra em contato direto com as coisas em que incide o pensamento. Para Heráclito os sentidos é a via pela qual o homem sai de si e recolhe em si a matéria com que trabalha o intelecto. É um lugar comum na antiguidade a afirmação de o poeta ter uma liberdade não existente nos outros gêneros de discurso. Encontramos em Luciano, autor do Século II d.C., a definição de o poeta ser quem goza de pura liberdade no uso das palavras, diferentemente do filósofo, do historiador e do orador cujo discurso é cercado por determinadas circunstâncias e por determinados objetivos. Assim os objetivos da criação poética diferem dos objetivos das demais ciências. Um último aspecto é o de o poeta trazer em seu discurso o domínio de toda carga estética por ele colocada no poema, pois a poesia é o cultivo da beleza e da inteligência. Popularizando a definição de Heráclito, temos a poesia como a percepção de coisas que já se conhece concebida como algo totalmente novo. 3 - CANTADORES E REPENTISTAS, LITERATURA ORAL. Esse modo de fazer poético atravessou tempos e gerou cantorias várias chegada aos cordelista, deixada pelos trovadores, da lírica medieval. O trovador era o artista de origem nobre do sul da França, cantava motivos diversos, acompanhado de instrumento musical, como o alaúde ou a cistre, compunha e entoava cantigas. Os cantadores não nobres, pertencentes a classes inferiores, eram chamados de jograleses, cantadores ou menestréis. Seguiam com sua viola de cidade em cidade, de castelo em castelo. Era uma uniformidade presente na prática da poesia do século XI até século XV nas regiões do norte da Espanha e no sul da França, no melhor dizer de Bráulio Tavares (Poetas do Repente, 2006), músico, pesquisador e escritor. Com os colonizadores portugueses essa forma de fazer poesia chegou ao Brasil por catequizadores de silvícolas. Traziam dos sítios urbanos, Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 10 no dizer de Eric A. Havelock “métodos mais sofisticados de registros de informação que os disponíveis no discurso oral”15, perpetuavam o uso da escrita, a nós legado pelo ensino destes colonizadores chegados ao Brasil no século XVI até o século XIX. No Brasil o repente ou verso improvisado é um amalgamado entre uma tradição folclórica cuja origem remonta aos trovadores medievais e o fazer do repentista nordestino brasileiro. Há um amalgamar de poesia e música na qual predomina o improviso. O canto é acompanhado de instrumento musical, no nosso caso a viola de cordas, como a lira o fora para a epopéia. Essa forma de cantar traz em seu bojo a estrutura da poesia clássica, quando cantada a musicalidade, quando grafados os versos percebe-se melhor a metrificação, a estética e a disposição das rimas no verso da cantoria do repente semelhante aos da poesia clássica. A cantoria dos Repentistas Violeiros tem sido explorada e revitalizada pela cultura contemporânea e o seu material, tal qual a filosofia e a poesia clássica, é a linguagem. Se indagado de que trata a cantoria, poderíamos repetir tudo até então dito, por tratar, antes, da percepção que o repentista tem das coisas que vê, que sente, que vive mesmo sem ser por ele visto, por ele vivido, por ele sentido. Na melhor teorização compartilha-se de um preceito básico constitutivo do classicismo, qual seja a imitação da natureza, mas uma natureza mencionada pelos preceptista do classicismo e por isso mesmo não se identifica, exatamente com o mundo exterior, por não ser uma reprodução realista e exata. Ficará acentuado o aspecto característico desprovido do significado no domínio do universal. Há uma reflexão feita pelos poetas João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do Repente, 2006), repentistas pernambucanos em narrar o ato do criador divino Deus, e a afirmação de que poesia e mundo surgiram no mesmo instante. Ato criador imbuído de sentimento e beleza e de intelectualismo clássico, porém atualíssimo e popularmente brasileiro, mas segundo teorias universais da literatura, compreende uma estética poética na construção dos versos na Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 11 composição da estrofe. Os repentistas realizam, na forma de fazer sua cantoria, uma imitação das coisas da natureza no tocante ao sensível à cada poeta repentista, como também o fizeram os autores poetas greco-latinos; praticam as regras da poesia da era clássica o que atribui à teorização de uma beleza estética da poesia, numa roupagem poética imutável e universal. O intelectualismo dos repentistas nos remete aos ensinamentos aceitos por Aristóteles e Horácio. Se já são herdeiros da literatura clássica européia, lembremos que o racionalismo dominou a literatura francesa desde finais do século XVI, os versos dos brasileiros pernambucanos nos remetem sim ao poeta francês François de Malherbe (1555-1628) cujas obras situam-se entre os séculos XVI e XVII. Malherbe considerava que a origem divina da poesia funciona como puro ornamento mitológico, mas as técnicas e as regras são fundamentos da criação poética. Para o Repentista Sebastião Dias, “antes de saber aplicar a rima a estética do verso o mais importante é saber desenvolver o verso” (Poetas do Repente, outubro/2006), sem desconhecer o necessário domínio das regras que a bela poesia exige. Desta forma não desconsidera as regras necessárias para o processo criador, clareza mental e ordenamento artístico para a feitura do poema. Como se concordasse com os teorizadores da era renascentista de que a poesia é fruto da razão do saber peculiar de cada artista, assim cantaram João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do Repente, 2006): Quando tudo começou O criador pensou bem Só ele pode dizer De onde a poesia vem E que quando Ele fez o mundo Fez poesia também. Nossa poesia vem Como flor na ventania Pra mim poesia e Deus Nasceram no mesmo dia Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 12 Enquanto Deus existir Existirá poesia. Essa doce melodia É pura igualmente à flor Perene como uma fonte Irmã gêmea do amor E por isso também faz parte Das obras do criador. Eu não vejo a sua cor Mas me orgulho por tê-la No jardim é rosa virgem No espaço é uma estrela Peça que nós somos donos E os olhos não podem vê-la. Poesia é a estrela Herdada na antiguidade Nasceu do parto da luz E doída como a saudade Ninguém mais tem o direito De saber da sua idade. Poesia é a saudade Da dor da separação Nasce no pomar do peito Pra fazer germinação Peça abstrata que enfeita O museu do coração. Foi na Grécia inspiração Nos tempos anteriores Na Europa fez história Dos antigos trovadores E no Nordeste é a vida Dos poetas cantadores. Poesia uma das flores Que só Deus beija a corola Jóia que a mão não segura, Se aprende sem escola Imagem que a gente amarra Com dez cordas de viola. Começa a expressão do saber inventivo através do qual o cantador explica a poesia na simples cognição - termo tomado no sentido de conjunto de unidade de saber da consciência baseada em experiências sensoriais, representações, pensamentos e Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 13 lembranças. Atribui à poíesis ou ato de fazer algo, idéia de ação, de criação ao Deus tal fora nos tempos gregos. O repentista, trovador brasileiro nordestino canta a natureza no puro viés poético, porque inspirado pelo poder da criação - criação dele mesmo, os versos da cantoria - utilizando a linguagem em discursos comparativos como que reverenciando o Deus do universo. No tocante à cultura brasileira nordestina, as cantorias foram perenizadas nos ambientes das feiras, local indispensável de reunião dos homens de negócios e ponto das satisfações de necessidades - princípio básico para a ação do homem no mundo grego entre os membros da urbanidade a troca e a venda, reencontro de gente e hora da passar informações etc. O discurso e Heráclito atual no que é e no que será nos lembra: “alguém pode ser bom no jogo das ideias e ruim na realização de negócios” (Schüler, 2007). Lembrava ainda ser a compra e venda de mercadorias um fator de atração mais do que a troca de ideias. Ainda na percepção heracliteana, os homens bem sucedidos, além do trabalho apreciam música, jogam, dançam, ou seja, na arte do entretenimento poucos serão incluídos, nem todos os artistas serão bons para os que podem buscar diversão. Heráclito inclui no saber da massa poetas popularizados como Hesíodo, Homero etc. A advertência de Heráclito é pedagógica e admite serem os passos do homem dirigidos pelos golpes de sua própria inteligência. Linguisticamente o visível e invisível estão indissoluvelmente unidos, afirma o filósofo Heráclito ser a harmonia invisível mais forte, mais nobre. A harmonia é entendida como a construção mantenedora da união dos contrários em guerra; a harmonia é fundamento no jogo corrente das oposições. Sem ele não haveria sintaxe, trabalho que a mitologia atribuía aos deuses. Contrários aos apelos dos poetas e pensadores induzido-nos a ver a morte, a decadência, o nada através de rostos jovens, os chamamentos de Heráclito nos faz, ainda, Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 14 “perceber a ordem atrás da desordem, o nascimento atrás da morte, o discurso atrás do silêncio, o saber atrás da ignorância16”. As citações de Aristóteles et all (Os Pensadores, 1988) no tocante ao que disse Heráclito quanto à luz como chama viva da alma do homem: - O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo continuamente17. (Aristóteles, Meteorologia, II, 2.355 a 13); “O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a vista, mas vivo ele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se acende do que dorme18. (Citação de Clemente de Alexandria, Tapeçarias, II, 8.) Donald Schüler fazendo sua análise do dizer de Heráclito sobre o sol: quando o pré-socrático deitado na grama do jardim posicionou os pés em direção ao poente, o sol inclinava-se, aos poucos no horizonte de modo a parecer ser totalmente abarcado pelos pés do filósofo. Encerra, então, Shüler: “Heráclito pode esconder a bola de fogo com os membros inferiores, pois ela não excede o tamanho do pé”. A disposição do corpo do filósofo, deitado sobre a relva com os pés voltados para o poente na hora do por do sol, a cabeça de certo pouco inclinada e os olhos em direção aos pés, tendo todo corpo acompanhado a curvatura da terra a ponto de o sol ser ocultado aos olhos do filósofo pelos pés. Na posição em que Heráclito está, o sol tem o tamanho de seu pé: [Sobre o tamanho do sol] da largura de um pé humano (B3). (Schüler, 2007) O cantador repentista de viola questiona a partir das manifestações perceptíveis do infinito crepuscular vespertino, as cores e as luzes, a inquietação dos seres animais, a tristeza do ser humano e o todo no natural quadro plástico do infinito no momento do por do sol, o que leva o poeta refletir o seu próprio existir. Compara o perceptível na natureza ao imaginário transcendente. Assim cantaram João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do Repente, 2006): Quando o sol mostra o crepúsculo Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 15 Que o dia chega ao fim Um aperto, uma tristeza, Eu sinto dentro de mim Enquanto estou contemplando Eu fico a Deus perguntando Se o fim da vida é assim Quando a tarde chega ao fim Na terra esfria o calor Abelha volta ao cortiço O sereno cai na flor É quando a lua de prata Dança por cima da mata Deixando o chão de outra cor. Nos confins do interior Tudo fica diferente O sol um príncipe cansado Vai descansar no poente, A natureza entristece Que o fim do dia parece, O fim da vida da gente. Na morte do sol poente, A treva escurece o monte A brisa canta um poema No bojo fresco da fonte E o sol é como um espelho Pintando o céu de vermelho Pra morrer no horizonte. A carga lírica das palavras, a melodia ritmada dos versos não traduz apenas o meditar contemplativo, mas inquisidor. A imitação de todos os efeitos da mais pura natureza pintada pelo cantador, imita a natureza integrada na imagética do repentista. O quadro cantado exibe ao leitor ou ouvinte tanto a apresentação de homem e natureza, quanto de todo ser ao cosmos, numa visão filosófica. O discurso ritimado do improviso remete ao ensinamento de Hênio Tavares (1981, p.157) quando cita Goethe, para quem a poesia deve ser rítmica e melódica; cita Carlayle, definidor de poesia como sendo o pensamento musical; cita Dante para quem poesia é a ficção retórica posta em música; quando cita Edgar Allan Poe para quem a poesia é a criação rítmica da beleza perceptível pelo poeta, transmitida Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 16 com o recurso da linguagem pela palavra. Ao mesmo tempo expressa os poetas citados a sua percepção subjetiva e fazem versos com musicalidade, métrica e rítmica. As estrofes dos repentistas, acima transcritas, seguem a métrica encontrada na Sétima, setenta, setilha ou hepteto: sete versos. Os cantadores de repente aqui referidos seguem ainda o ensinamento clássico renascentista. É literatura meramente imediata para o cantador popular ou repentista. Essa forma poética vinda da Europa Medieval foi amalgamada, transformada em cultura popular brasileira, nutrindo a cultura literária. O repente faz uso da rima, porém não exigida como regra. No caso do Brasil, herdeiro da antiga manifestação literária da Península Ibérica, a cantoria adaptou-se ao imenso continente em formas várias de norte a sul do país tropical, justificado por Câmara Cascudo: “... Difícil é que uma canção se popularize no norte e no sul com a mesma intensidade19” (1984, p.37). Algo que nasce de poeta e transmite o sentimento de poeta mesclando culturas, sendo transplantada de um continente para outro qual nome podemos dar? Sendo cultura popular remete-nos à lição de Hênio Tavares como sendo o termo por ele lembrado e já estudado por William Thomis, pesquisador inglês trabalhou a etimologia criada no século XIX quando em agosto de 1846 lançou, através do jornal “The Athenaeum”, o termo “Folk-Lore”, para melhor expressar, diríamos substituir o termo italiano “Popular Antiquities ou Antiquitates Vulgares”. Estava criada a expressão saxônica Folk traduzida como povo e Lore traduzida como saber, a sabedoria do povo, folclore em bom português brasileiro. Câmara Cascudo, segundo Hênio Tavares, estudou e enumerou vários cantos populares, seus temas elementos e classificações. Reconhece, portanto, a necessidade de uma secularização. A expressão folclore será então convencionada como nominação conceitual às tradições populares no âmbito dos povos civilizados ou, ainda, uma divisão da Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 17 antropologia cultural responsável pelo estudo dos aspectos da cultura de qualquer povo, que diz respeito à literatura tradicional: mitos, contos, fábulas, advinhas, música e poesia, provérbios, sabedoria tradicional e ou anônima. No Folclore a percepção do poeta declama o cotidiano e expressa seu amor por uma cidade do nordeste brasileiro: como seguem os versos dos repentistas Antonio Lisboa desafio respondido por Edmilson Ferreira durante o VI Desafio de Nordestinos Cantadores realizado no Recife/PE, em junho de 2006, (Poetas do Repente, 2006): O meu caso de amor é sem censura Com o cais do Apolo que me adora As fachadas da Rua da Aurora E as escadas do bairro do Ibura Compro arte na Casa da Cultura Na Ceasa adquiro minha feira Faço cooper no Parque da Jaqueira E me informo no Porto Digital Tenho um caso de amor especial Com a bela Veneza Brasileira Pra manter esse amor puro e sincero Cruzo as pontes do rio Capibaribe Todo dia contemplo o Beberibe E toda noite visito o Marco Zero Curto a voz de Baracho no bolero Ouço as músicas de Antônio Madureira Leio os clássicos da obra de Bandeira E os poemas concretos de Cabral Tenho um caso de amor especial Com a bela Veneza Brasileira... Quanto ao sentir disse Heráclito: “Sentir é comum a todos os homens. (B 113)” (Schüler, 2007). Sentimentos ligam-nos a casas, ruas, montes, rios, aves e homens. Os sentimentos organizam, pela convivência, o mundo familiar. Pelos sentimentos o mundo estranho converte-se em nosso mundo. A reflexão será, em todos os tempos, privilégio de poucos. Na poesia popular ou na poesia erudita pode-se ler o sentimento amoroso traduzido em uma estrofe de autor desconhecido, uma estrofe ou quarteto, tal qual fragmento ou peça de um soneto cujo eu lírico canta o objeto amado, agora perdido: Que te perdi hoje sei Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 18 e choro meu desencanto... pois amar como eu te amei, nem mesmo a Deus amei tanto! O sentimento gerado pela ausência do objeto amado é logo arremetido ao deus e quase uma conformidade reverencial na concepção do ser humano existente desde a prática politeísta grega ao moderno âmbito das civilizações cujo testemunho humano conserva caracteres individuais mesmo sendo referencia ao mito do amor ou da própria linguagem para expressar a temática do amor. Percebe-se na corrente do imaginário, o inventivo externar de um sentimento na citação de Câmara Cascudo(1984, p.45) “o mito, presente pelo movimento, pela ação, pelo testemunho humano”, capaz de conservar algumas características “somáticas que o individualizem”, embora possua costumes que vão sendo transformados, adaptados às condições de ambiência no agir. O pensamento filosófico de Heráclito quando diz que os sentimentos amparam também os que não pensam sistematicamente e prossegue afirmando “não compreendemos os outros misteriosos em sua estranha alteridade, sem o concurso do sentir, porque sentir é comum a todos os homens”(2007, p.123). 4 - CONCLUSÃO A poesia faz uso da linguagem expressando o sentimento do homem, o seu modo de pensar o ser e fazer mais pertinente o ato de refletir o mundo e sua maneira de agir; testemunhar o existir no mundo a forma individual das coisas ou uma coletiva forma de viver, comunicar, transmitir conhecimento, partilhar experiências; a poesia teve seu espaço de ação dividido com a filosofia. A filosofia surgiu como alternativa de conhecimento ou alternativa do mundo que os poetas pronunciavam para expressar sua percepção inspirada, Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 19 adaptando sua sabença e percepção objetiva às condições da ambiência cotidiana e coletiva. Para saber usufruir dos recursos da poesia o filósofo nos lega discurso compreensivo o que vemos por Heráclito, segundo Donaldo Schüler: Tanto o ouvir como o falar requerem saber... Não há ouvir sem compreender, e este se realiza como processo de organização... A fala é um tecido elaborado com fios de muitas fontes espalhadas no tempo e no espaço. Como o ouvir, o falar procede de um saber que compromete aquele que fala. A fala destina-se a outros ouvidos para se emaranhar em outros discursos, no perene fluir do Discurso que se desvela e se retrai. (2007, p.154) Assim a matéria linguagem de conteúdo lírico ou emotivo escrito em verso ou em prosa chama-se de poesia serve à literatura em suas várias manifestações, mesmo sendo ficção (mentira) por não trazer o factual, a informação não garantida como verdade. A poesia em toda sua semântica não tem um discurso inócuo porque provoca impacto sobre o indivíduo e sobre a sociedade, mas se valendo do verossímil. Está próxima da filosofia por traduzir em qualquer forma e instância os sentimentos pertinentes aos seres humanos. A linguagem é o instrumento comum aos poetas e aos filósofos e com o surgimento da palavra escrita o discurso perde o efeito imediato e único da intencionalidade do poeta. Com a palavra escrita, as diversas interpretações podem ser concebidas, a possibilidade de reflexão ganha espaço ampliado e como na esfera da linguagem duas palavras têm significados diferentes, não se terá o definitivo ser ou não ser das coisas, como pretendia alguns filósofos da antiguidade. A tentativa de os significados diversos se reencontrarem só pela linguagem, esse foi o primeiro ponto em que os filósofos se depararam e o esforço de fazer o discurso verdadeiro foi um desafio ainda maior. Para o filósofo o grande desafio é resgatar a realidade de ser a ordem do discurso diferente da ordem da realidade. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 20 Linguagem e realidade percorrem caminhos distintos desde a origem da linguagem. Os poetas e pelos filósofos ocupavam a ágora, espaço de todo cidadão grego, espaço ainda de ação de cidadania ao fazer uso da palavra. O poeta de maneira geral ou universal levava uma perspectiva, um discurso dos atos vivido, embora real, no espaço da literatura aparece de maneira ficcional, suscita um meditar a vida. Já a filosofia trata do ponto de vista de ensinar a viver, conforme a filosofia antiga, a filosofia seria a arte de ensinar a viver. Se o poema se presta a agradar o recebedor os filósofos tentam abordar a “verdade”. Ambos tentam ser propedêuticos. Os gregos alcançaram o referencial máximo de cultura e conhecimento, a mitopoética grega pôde reunir estados e sociedade complexa e distintos entre si em torno de um conjunto de identidade definidores da língua, dos valores e dos saberes pelos quais o povo grego se reconhece. O patrimônio cultural grego advindo da poética abrigou a filosofia, divergindo em relação ao método poético, abriu nova via e provocou ruptura interna na modalidade de pensamento. Enquanto os poetas inventam e reinventam seus temas e suas formas, com discurso de estilo épico, lírico, satírico, cômico e trágico, a filosofia sem se apartar da cepa primeira, providenciou a teorização da ciência da literatura e se baseou na literatura mesma para tratar do discurso da sua própria ciência. O fazer poético grego permanece impregnado e tornou-se universal a todas as sociedades em redor do planeta toma por base a oralidade da poesia, refletir ante o dizer dos jograleses ou dos cantadores de cordel é aproximar-se do uso da linguagem e da poesia grega e ainda do modo de pensar dos filósofos de primeiros tempos gregos. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 21 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES, Roland. Mitologias; tradução Rita Buongermino et all. DIFEL, Rio de Janeiro, 2003. BRANDÃO, Jacyntho Lins. A invenção do romance. Coleção Pérgamo Editora Universal de Brasília, 2005. CANDIDO, Antonio et all. São Paulo, Perspectiva, 2007. (Coleções Debates). CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3ªedição. BH: Itatiaia; São Paulo, 1984. Edusp. (Capítulo I). Fênix - Revista de História e Estudos Culturais. Janeiro/Fevereiro/Março de 2007, Vol.4 AnoIV nº1. 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Belo Horizonte, 1981. 1 Graduado em Letras/Português pela UFS/SE; Pós-Graduando em Língua, Linguagem e Literatura pela UNIT/SE. 2 Dialeto grego antigo que era falado nas ilhas Eólias - Grécia Antiga. 3 Os Pensadores Pré-Socráticos. São Paulo, Editora Cultural, 1996. 4 Cf. Ilíada, tradução de Carlos Alberto Nunes (2005, p.550). O início da guerra de Tróia foi o seguinte: como vários pretendentes apareceram para casar com Helena, todos fizeram um juramento, em que aquele que fosse escolhido seria defendido caso Helena fosse raptada. Menelau foi o escolhido, e após o rapto de Helena por Paris, Menelau foi pedir ajuda a seu irmão, Agaménone e este lembrou o juramento a todos os aqueus. Casado com Clitemnestra, irmã de Helena, foi traído por ela juntamente com Egisto, que foi morto em sua volta de Tróia 5 Cf. Ilíada, tradução de Carlos Alberto Nunes (2005, p.550) Agaménone: o rei por excelência, governou Micenas, e na Ilíada é dele o comando supremo dos gregos na guerra contra Tróia. Também diz-se rei da Lacedemônia ou de Argos. Filho de Atreu e Aérope, é chamado, como seu irmão Menelau, de atrida (ou átrida), que quer dizer “filho de Atreu”. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 22 6 Cf. Ilíada (2005, p.567). Tétis: existem duas deusas com este nome. Uma delas (Tethis), menos importante na Ilíada, é a mais antiga deusa do mar, filha de Urano e Gaia, a mais nova das titânidas... A outra (Tétis), é mãe de Aquiles, uma das nereidas (filhas de Nereu, o Velho do Mar) e Dóris... 7 Cf. Ilíada (2005, p.568). Zeus: deus mais poderoso do Olimpo, (...) o “pai dos Deuses e dos Homens” etc. Da etimologia do seu nome veio a relação com a claridade do céu. Sendo filho do titã Crono, é também chamado de Crônida... Foi Tétis quem cuidou de Hefesto quando foi atirado do Olimpo por Zeus, invejoso do filho de Hera... 8 Cf. Ilíada (2005, p.552). Aquiles: filho de Tétis e Peleu (por isso chamado de pelida ou peleio) (sendo o sétimo filho de Tetis) (...) ela resolve banhá-lo no Rio Stix, segurando-o pelos calcanhares, tornando-o, assim, invulnerável em todo o seu corpo, menos nesta parte... 9 Cf. Ilíada (2005, p.566). Pátroclo: o maior amigo de Aquiles, o filho de Menetes. Por parte de pai, é originário de Lócria, mas quando jovem foi para a Tessália, para a Corte de Peleu. Desde então foi criado junto com Aquiles, e com ele aprende medicina.... Na Odisséia, seus ossos são depositados na mesma urna que os de Aquiles. 10 Cf. Ilíada (2005, p.559). Hefesto: deus do fogo, filho de Zeus e Hera... Deus metalúrgico, é ele quem faz a famosa armadura de Aquiles, que aparece descrita na Ilíada (Canto XVIII). Ele é um deus coxo e muitas vesões contam a sua história. A mais famosa é que Zeus brigava com Hera por causa de Héracles e Hefesto tomou o partido de sua mãe. Zeus o atirou do alto do Olimpo. Ele caiu um dia inteiro parando em lemno, e foi ajudado por síntios 11 Cf. Ilíada (2005, p.566). Heitor: filho mais velho de Príamo e Hécuba, é o maior guerreiro de Tróia. Ele foge ao combate enquanto Aquiles está lutando entre os gregos, pois sabe que o seu destino é cair nas mãos de Aquiles (...) Dois deuses o ajudam muito durante a guerra, Ares e Apolo. 12 Cf. Ilíada (2005, p.566). Príamo: o filho mais novo de Laomedonte. Rei de Tróia durante a guerra, mas já bastante idoso. Pai de Paris que rapta Helena e 13 Hélicon: trompa de caça. 14 Cf. Victor Manuel in Teoria da Literatura 15 - Cf. O som da fala e o signo escrito(p.56/57). Transcrevemos a tradução de Ordep José Serra da obra de Eric A. Havelock, Revolução da Escrita na Grécia e suas consequências culturais. A história da escrita e da palavra escrita é com freqüência tratada de maneira simplista, como se o termo “escrita” designasse uma única invenção que se realizou com efeitos mais ou menos uniformes dede o antigo Egito até a Europa moderna. Isso reflete o preconceito que pretende dividir a história inteira em duas épocas, a letrada e a iletrada. Na verdade, o termo “escrita” denota uma série de dispositivos tecnológicos que, independentemente dos materiais e instrumentos variáveis utilizados como suporte do escrito ou como meio de escrever, vieram a distinguir-se historicamente por conta de sua variável capacidade de cumprir a função básica: a função de apoiar o usuário no ato de um reconhecimento. A experiência visual de uma forma ou signo escrito foi originalmente usada para referir e acionar um “pensamento” de algum modo pertinente a essa forma ou com ela “associado”. (São Paulo, Ed. Terra e Paz, 1996) 16 (Schüler, 2007, p.123) 17 Os Pensadores Pré-socráticos, no capítulo Fragmentos, p.87 18 Os Pensadores Pré-socráticos, no capítulo Fragmentos, p.87 19 CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. BH, 1984. Edusp. (Capítulo I, p.37)