Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura
Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128
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A POESIA E A FILOSOFIA: DISCURSO INICIAL.
Aloisio Arimatea Rosa1(Grad.UFS/SE - Esp.UNIT/SE)
A poesia e a filosofia estão ligadas uma a outra e o estudo desta questão remonta ao
momento em que os poemas de Homero poeta grego (sec.VIII a.C.), eram tidos como
referência cultural por excelência e, junto com Homero outros poetas seus contemporâneos,
através de seus textos, marcaram o período do ressurgimento da escrita na Grécia, esse
momento encerrava todo conhecimento que a sociedade grega pôde desenvolver. O
proposto pela poesia, pode ser, também visto na obra de Hesíodo (poeta grego séc.IX a.C.)
Teogonia, é feito às Musas o questionamento de como as coisas, o todo no universo
começou; como surgiram e nasceram o dia, a noite, a terra, o mar; buscava-se a essência
das coisas.
Quando os poetas se questionam pela origem dos deuses, de certo modo, dá-se a
origem da filosofia. Platão (428-7 a.C./348-7 a.C.) filósofo ateniense in A República, adotara
as idéias do filósofo Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.), localizando a poesia no
inicio da formação da mentalidade da visão de mundo grego. A filosofia projetava, no
primeiro momento, seu movimento num mesmo espaço que, anteriormente, era o domínio
só do poeta, ou seja, o aspecto da questão da origem histórica da filosofia reside na
compreensão de como se processa a passagem entre a mentalidade mito-poética e a
mentalidade teorizante.
A mito-poética inscreve-se historicamente como a forma de saber responsável por
praticamente todo o conhecimento que a antiga sociedade grega pôde desenvolver e
propagar. É dito pelos estudiosos que os filósofos tinham a intenção de compreender o
mundo. A poesia também fazia esse esforço num outro tipo de linguagem, ou seja, o
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surgimento da filosofia vem estabelecer uma diferença nesse período histórico. Só com o
advento da filosofia a sociedade grega passou a presenciar e passou a dispor de um novo
modus de conhecer: uma alternativa ao modelo de conhecimento e concepção de mundo
que os poetas pronunciavam. Com o surgimento da filosofia a tradição mito-poética não se
encerra. Como se duas vias se abrissem a partir de uma via primeira, a tradição mitopoética consistia em explicar o mundo e com o surgimento da filosofia se bifurca. A tradição
mítica e a filosófica se inter-fecundam ao longo do tempo. A ruptura dar-se-á do ponto de
vista da experiência da linguagem. O surgimento da palavra escrita provocará um
distanciamento entre a ordem da palavra e a ordem da realidade. Visualize-se um poeta
apresentando oralmente seus poemas num auditório, portanto em contato direto com seu
público ele pode assegurar o convencimento a sua platéia pela entonação que ele conferia
às suas palavras. A partir do momento em que surge a mito-poética sob a forma da palavra
escrita se perceberá um distanciamento entre aquele que compõe o poema, o que comunica
o poema e o que lê o poema, introduzindo o texto escrito no universo da polissemia e da
ambigüidade.
1 - HOMERO E HESÍODO
No século VI a.C. os gregos contrapõem a busca de uma unidade de compreensão
racional, que organiza, integra e dinamiza os conhecimentos. A poética surge como forma
de dominar a verdade percebida nas colônias gregas, uma nova mentalidade decorrente das
novas condições de vida existentes na Grécia encontra sua expressão através das
epopéias, fusão de lendas eólias2 e jônicas, são relatos mais ou menos fabulosos. As lendas
narravam fábulas do mundo helênico em formação; a língua era mistura de dialetos, através
dos quais relatavam ocorrências históricas. Nesse período vão surgir os chamados “ciclos”
consistindo nas cantorias das guerras de Tebas e a Guerra de Tróia, dos quais foram
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conservados os poemas a Ilíada e a Odisséia; ambos de autoria do poeta Homero escritos
entre o século X e o século VIII a.C.
A obra de Homero expressa o valor da poesia e a importância social nela
encontrada. Homero, em termos cosmogônicos, faz a seguinte afirmação: “o oceano é o pai
de todos os deuses”. Quando aparece o primeiro filósofo grego, o Tales3 (cerca de 625/4558 a.C.) também diz que a água é princípio de todas as coisas. Em Homero nós
encontramos esta afirmação em uma linguagem poética, inclusive genealógica, foca na
substância a razão de existir das coisas. A diferença com relação a Tales é de o filósofo
começar a pensar de uma forma física, ou seja, numa acepção aristotélica a presença da
água daria explicação à causa material. Portanto o objeto ao qual a filosofia dedicará o seu
conhecimento: o cosmos e a extensão da phisis [natureza]. Tanto a poesia grega quanto a
filosofia em sua origem podem ser consideradas modelos de conhecimento da realidade. O
problema da arqué, do princípio, reside no ponto de que se entendendo o princípio se
dominará o conhecimento, o desdobramento das coisas. A solução encontrada para explicar
a realidade em conhecer é diferente. Como se deduz das leituras de “Os Pré-socráticos Vida e Obra” (1996), os heróis homéricos, quando se apresentam, fazem questão de
apresentar sua ascendência genealógica como garantia de seu valor pessoal. Homero
cantava os homens bons - aristoi - possuidores de virtudes - arete - significava o mais alto
ideal cavalheiresco aliado a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro, identificada e
atribuída à nobreza, indicando a superioridade de excelências humanas e seres nãohumanos. Quando canta os deuses os define por oposição aos seres terrenos. Os deuses
escapam à velhice e a morte e pode-se saber de quem cada divindade é filho ou filha.
Na obra Ilíada(2005) Homero narra os acontecimentos durante a guerra de Tróia4
iniciada pelo descontentamento entre Agaménone5 e Aquiles. Este se afasta do campo de
batalha e deixa espaço para o surgimento de outros chefes, quando sobe Tetis6 ao Olimpo e
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implora a Zeus a vitória para os troianos. Cumprido os desígnios de Zeus7, Agaménone
arrependido retratar-se perante Aquiles8. Surdo aos rogos de perdão Aquiles só atenderá
aos apelos de Pátroclo9 e, como se não bastasse, empresta-lhe as próprias armaduras e
seus homens para aliviar a pressão do inimigo e tentar evitar o incêndio das naus. Pátroclo
é vencido por Heitor apoderando-se das armas de Aquiles, motivo pelo qual Tetis pede a
Hefesto10 novas armas para seu filho. Aquiles só tem em mente vingar a morte do amigo e o
último canto da Ilíada é justamente o resgate do corpo de Heitor11 por Príamo12 e a
reconciliação dos inimigos fidalgos. Já era a viva percepção do poeta de que o homem
abriga em si um duplo, um outro eu.
Assim também o fez Hesíodo (séc.IX a.C.), natural da Ascra região da Beócia,
segundo relatam os estudiosos, sentiu-se ludibriado pelo seu irmão na partilha da herança
paterna. A polêmica com seu irmão Perses serve de tema para uma das duas grandes
obras de Hesíodo: Os Trabalhos e os Dias. Sua lida era cultivar os campos e apascentar
rebanhos, Hesíodo torna-se também aedo [uma espécie de cantor que apresenta suas
composições épicas, acompanhando-se ao som da cítara] sob inspiração das Musas, como
relata na sua obra, a “Teogonia”, era o poeta, o veículo anônimo das Musas e referindo-se a
ele próprio no início da Teogonia: “(...) Foram elas que, certo dia, ensinaram a Hesíodo um
belo canto, quando ele apascentava suas ovelhas ao pé do Hélicon divino13”.(Os
Pensadores, 1996, p.12)
Canta o poeta, na obra Teogonia, a origem dos deuses numa lógica sistemática de
um pensamento racional sustentado pela existência de causalidade, a abrir caminho para as
posteriores cosmogonias filosóficas, assim posto o drama teogônico:
(...) Primeiro teve origem o Caos - abismo sem fundo - e, em seguida, a
Terra e Eros (o Amor) de beleza única entre os deuses imortais, criador
de toda vida. De Caos sairá a sombra, sob a forma de um par: Érebo
(treva) e Noite. Da sombra sai, por sua vez, a luz sob a forma de outro
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par: Éter e Luz do Dia, ambos filhos da noite. Terra dará nascimento ao
Céu, depois às montanhas e ao mar. Segue-se a apresentação dos filhos
da luz, dos filhos da sombra e da descendência da terra - até o momento
do nascimento de Zeus, que triunfará sobre seu pai, Cronos. (Os
Pensadores, 1996, p.12)
A poesia, através de seus mitos, constitui um modelo de conhecimento da realidade
sensível à própria poesia e oferece uma explicação de um mundo imagético, só o imaginado
pelo poeta deflagra sua própria percepção das coisas. Será sempre uma realidade
inventada. No dizer de Anatol Rosenfelde (2007,p.18) para quem o termo “verdade” referido
nas obras de artes ou ficcionais “tem significado diverso”, diferente do que seria a verdade
factual no extra-mundo ficcional porque o termo “verdade”, neste aspecto ficcional,
abrangerá uma autenticidade do subjetivo do autor, ponto no qual a verossimilhança será o
aspecto, da adequação do que poderia ter acontecido, mas não do que aconteceu. A
coerência interna da obra e o mundo extra-literário permeará a concepção possível de juízos
mesmo sabendo-se da narrativa a exposição de um mundo das ideias do autor abarcando o
mundo imaginário das personagens, situações miméticas remetendo os leitores à provável
visão “profunda da realidade”.
O discurso, mito ou logos, é a forma que trabalha tanto o poeta quanto o filósofo.
Embora logos não seja uma palavra usual nas obras de Homero, para indicar discurso, ele
usa outro termo, o mito. Encontramos o primeiro registro do termo logos como discurso em
Hesíodo (Teogonia) quando, em descrição à origem da humanidade, conta a história de
Prometeu - rouba o fogo de Zeus para dá-lo aos homens e atrai para si e para os mortais a
ira do suserano do Olimpo - e a história de Pandora - a mulher condutora da jarra que
destampada, deixa escapar e espalharem-se entre os mortais todos os males, deixando
prisioneira na jarra apenas a esperança -, então Hesíodo diz coroar esse relato com um
logos diferente - primeiro uso de logos - e aí vem a história das cinco raças: da raça do ouro
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que teria vivido livre de cuidados e sofrimentos e transformadas nos gênios bons guardiões
dos mortais; da raça de prata ou raça inferior, vivem por cem anos, mas crescendo
entregam-se a excessos e recusam-se a oferecer culto aos imortais, são chamados bemaventurados; da raça de bronze ou raça de homens perecíveis, violentos e possuidores de
armas de bronze, sucumbem nas mãos uns dos outros e são transportados para o hades
sem deixar nome sobre a terra; da raça dos heróis que combateram em Tebas e Tróia, para
quem Zeus reservou um lugar tranqüilo na Ilha dos Bem-Aventurados; da raça de ferro,
duros tempos - o tempo do próprio Hesíodo - de incessantes fadigas, misérias e angústias.
A essa raça aguardam dias terríveis. Estas se vão sucedendo na origem da humanidade.
Quando se criou a idéia de que a passagem da poesia ou surgimento da filosofia na Grécia
marca a passagem do mito para o logos (isto é uma perspectiva do século XIX que na
verdade não aparece no corpus dos autores gregos) encontramos uma disputa nesse tipo
de discurso, mas poetas e filósofos gregos estão se movimentando no mesmo espaço
mental. Platão cria seus próprios mitos para expressar seu pensamento filosófico, sendo o
mito, muitas vezes a conclusão de toda argumentação num texto. A exemplo de A República
no livro X 614b a 621b, relato oral transmitido a alguém ao retornar do Hades. É o mito
escatológico (ou requerendo uma concepção de divindade, teológico) de Er descrevendo o
acontecimento após a morte e diz aos interlocutores da conservação do mito e se
acreditassem nele da forma posta alcançaria a salvação. Ainda de A República ser um livro
de ideias política, um discurso cuja literatura tem um impacto político educativo, então se
configura um discurso prazeroso, mas não inócuo, mesmo dizendo algo passível de
acontecer. Platão define a literatura com uma mentira no todo em que existe algo de
verdade e essa verdade deverá ser encontrada no espaço da ficção.
2 - A LITERTURA
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A arte literária, segundo conceitos propostos na época clássica, consiste nos
preceitos estéticos da invenção, para a poesia, seara digna de tratar da escolha do assunto
- o objeto cantado (a musa inspiradora, a natureza sensibilizadora etc) -; quanto à
disposição, coordena o assunto numa ordem lógica e atraente - na disposição das palavras
para combinação de sentido da mensagem poética, da musicalidade e métrica -, dando ao
trabalho movimento e unidade. No tocante à elocução (maneira de expressar-se oralmente e
na escrita), a arte literária preza pela correção, clareza e harmonia da língua, dando estilo à
obra, proporcionando-lhe forma externa. Arte literária é, também, a arte criadora da imitação
da realidade pela palavra. A teoria da imitação deságua na literatura. As definições
conceituais de literatura, conhecidas até a modernidade, são verdadeiramente ficção, a
criação de uma supra-realidade com os dados profundos, singulares da intuição do artista,
podendo ser verossímil e inverossímil. Seguindo o pensamento aristotélico de que o imitar é
congênito nos homens e, portanto, todos apreciam as imitações. A mimese poética não
sendo “cópia da realidade”, “vai apreender o geral presente nos seres e eventos particulares
- e, por isso mesmo, a poesia se aparenta com a filosofia14”(1988, p.343). Os objetos da
mimese poética são variados e diversificados conforme as ações dos homens. Assim os
poemas épicos de Homero representam os homens melhores ou imitações destes como
objeto de menção da literatura, imitação do real, inverossímil. A concatenação em um
determinado discurso pode ser a argumentação e, em termos de uma narração, como as
ações vão seguindo em uma relação de causa e efeito. Neste ponto Aristóteles dirá na
Poética ser a poesia mais filosófica que a história porque a poesia trata do universal e não
do particular; a poesia cria um personagem e cria uma história a partir dessa relação de
causa e efeito e assim o faz por ser ficcional.
Sendo a poesia fruto da imaginação surge uma particularidade quanto ao poeta: o
poeta, não tem compromisso com a verdade, ou seja, a poesia não vai se basear num
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discurso cujo procedimento básico é argumentação. Retome-se o discurso de Platão:
quanto ao conceito de mimese, quando aplicado à produção dos poetas, é sempre retirado
da comparação com a atividade do pintor que imita visualmente coisas particulares e entre o
poeta e do pintor há o artesão na sua função de construir ou criar algo. Uma cama que é a
cama natural ou a Idéia de cama, única e essencial, da qual deus é o criador, uma segunda,
a cama particular feita pelo artesão a partir da Idéia de cama anterior e, por fim, a cama do
pintor que imitou não a Ideia de cama, mas a cama particular tal como ela aparece. É
importante observar o fato de que o pintor procurará sempre imitar a aparência da cama e
não o Ser mesmo da cama. A conclusão será que as obras dos pintores e, por
conseqüência, as obras dos poetas, “são objetos aparentes, desprovidos de existência real”
(596e), por serem feitos através da mímese.
Seguindo ensinamento do Professor Jacyntho Lins Brandão, percebemos neste
ponto que a dialética para o filósofo reconhecerá ao poeta a condição de “mágico e imitador”
não tem necessidade de fazer argumentações porque o poeta está inspirado pela musa. A
poesia, especialmente através de seus mitos, constitui um modelo de conhecimento da
realidade em que esta, a realidade sendo sensível, é explicada a partir de um suprasensível: a causa, explicação e a determinação o mundo real, o cosmo, é o mundo dos
deuses. Esse mundo real, apreendido aistheticamente, isto é, apreendido por todo o
conjunto de sentidos e sensações que formam a sensibilidade do homem, é justificado e
encontra o seu fundamento justamente num mundo que, ainda que permaneça real, não se
sente nem se vê, mas que se intui e é cognoscível por inspiração poética. A poesia,
portanto, oferece uma interpretação da realidade que, no fundo, é uma invenção, daí serem
os mitos necessariamente fantásticos – necessidade e contingência da sua linguagem. Na
qualidade de linguagem que tenta conceber o real, o conhecimento mito-poético é uma
forma de saber inventiva.
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Para Donald Schüler (2007, p.105) o pensamento do pré-socrático Heráclito
expressa o pensar como a entrada das sensações no corpo, a inteligência não entra em
contato direto com as coisas em que incide o pensamento. Para Heráclito os sentidos é a
via pela qual o homem sai de si e recolhe em si a matéria com que trabalha o intelecto. É
um lugar comum na antiguidade a afirmação de o poeta ter uma liberdade não existente nos
outros gêneros de discurso. Encontramos em Luciano, autor do Século II d.C., a definição
de o poeta ser quem goza de pura liberdade no uso das palavras, diferentemente do
filósofo, do historiador e do orador cujo discurso é cercado por determinadas circunstâncias
e por determinados objetivos. Assim os objetivos da criação poética diferem dos objetivos
das demais ciências. Um último aspecto é o de o poeta trazer em seu discurso o domínio de
toda carga estética por ele colocada no poema, pois a poesia é o cultivo da beleza e da
inteligência. Popularizando a definição de Heráclito, temos a poesia como a percepção de
coisas que já se conhece concebida como algo totalmente novo.
3 - CANTADORES E REPENTISTAS, LITERATURA ORAL.
Esse modo de fazer poético atravessou tempos e gerou cantorias várias chegada
aos cordelista, deixada pelos trovadores, da lírica medieval. O trovador era o artista de
origem nobre do sul da França, cantava motivos diversos, acompanhado de instrumento
musical, como o alaúde ou a cistre, compunha e entoava cantigas. Os cantadores não
nobres, pertencentes a classes inferiores, eram chamados de jograleses, cantadores ou
menestréis. Seguiam com sua viola de cidade em cidade, de castelo em castelo. Era uma
uniformidade presente na prática da poesia do século XI até século XV nas regiões do norte
da Espanha e no sul da França, no melhor dizer de Bráulio Tavares (Poetas do Repente,
2006), músico, pesquisador e escritor. Com os colonizadores portugueses essa forma de
fazer poesia chegou ao Brasil por catequizadores de silvícolas. Traziam dos sítios urbanos,
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no dizer de Eric A. Havelock “métodos mais sofisticados de registros de informação que os
disponíveis no discurso oral”15, perpetuavam o uso da escrita, a nós legado pelo ensino
destes colonizadores chegados ao Brasil no século XVI até o século XIX.
No Brasil o repente ou verso improvisado é um amalgamado entre uma tradição
folclórica cuja origem remonta aos trovadores medievais e o fazer do repentista nordestino
brasileiro. Há um amalgamar de poesia e música na qual predomina o improviso. O canto é
acompanhado de instrumento musical, no nosso caso a viola de cordas, como a lira o fora
para a epopéia. Essa forma de cantar traz em seu bojo a estrutura da poesia clássica,
quando cantada a musicalidade, quando grafados os versos percebe-se melhor a
metrificação, a estética e a disposição das rimas no verso da cantoria do repente
semelhante aos da poesia clássica. A cantoria dos Repentistas Violeiros tem sido explorada
e revitalizada pela cultura contemporânea e o seu material, tal qual a filosofia e a poesia
clássica, é a linguagem. Se indagado de que trata a cantoria, poderíamos repetir tudo até
então dito, por tratar, antes, da percepção que o repentista tem das coisas que vê, que
sente, que vive mesmo sem ser por ele visto, por ele vivido, por ele sentido.
Na melhor teorização compartilha-se de um preceito básico constitutivo do
classicismo, qual seja a imitação da natureza, mas uma natureza mencionada pelos
preceptista do classicismo e por isso mesmo não se identifica, exatamente com o mundo
exterior, por não ser uma reprodução realista e exata. Ficará acentuado o aspecto
característico desprovido do significado no domínio do universal. Há uma reflexão feita pelos
poetas João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do Repente, 2006), repentistas
pernambucanos em narrar o ato do criador divino Deus, e a afirmação de que poesia e
mundo surgiram no mesmo instante. Ato criador imbuído de sentimento e beleza e de
intelectualismo clássico, porém atualíssimo e popularmente brasileiro, mas segundo teorias
universais da literatura, compreende uma estética poética na construção dos versos na
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composição da estrofe. Os repentistas realizam, na forma de fazer sua cantoria, uma
imitação das coisas da natureza no tocante ao sensível à cada poeta repentista, como
também o fizeram os autores poetas greco-latinos; praticam as regras da poesia da era
clássica o que atribui à teorização de uma beleza estética da poesia, numa roupagem
poética imutável e universal. O intelectualismo dos repentistas nos remete aos
ensinamentos aceitos por Aristóteles e Horácio. Se já são herdeiros da literatura clássica
européia, lembremos que o racionalismo dominou a literatura francesa desde finais do
século XVI, os versos dos brasileiros pernambucanos nos remetem sim ao poeta francês
François de Malherbe (1555-1628) cujas obras situam-se entre os séculos XVI e XVII.
Malherbe considerava que a origem divina da poesia funciona como puro ornamento
mitológico, mas as técnicas e as regras são fundamentos da criação poética. Para o
Repentista Sebastião Dias, “antes de saber aplicar a rima a estética do verso o mais
importante é saber desenvolver o verso” (Poetas do Repente, outubro/2006), sem
desconhecer o necessário domínio das regras que a bela poesia exige. Desta forma não
desconsidera as regras necessárias para o processo criador, clareza mental e ordenamento
artístico para a feitura do poema. Como se concordasse com os teorizadores da era
renascentista de que a poesia é fruto da razão do saber peculiar de cada artista, assim
cantaram João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do Repente, 2006):
Quando tudo começou
O criador pensou bem
Só ele pode dizer
De onde a poesia vem
E que quando Ele fez o mundo
Fez poesia também.
Nossa poesia vem
Como flor na ventania
Pra mim poesia e Deus
Nasceram no mesmo dia
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Enquanto Deus existir
Existirá poesia.
Essa doce melodia
É pura igualmente à flor
Perene como uma fonte
Irmã gêmea do amor
E por isso também faz parte
Das obras do criador.
Eu não vejo a sua cor
Mas me orgulho por tê-la
No jardim é rosa virgem
No espaço é uma estrela
Peça que nós somos donos
E os olhos não podem vê-la.
Poesia é a estrela
Herdada na antiguidade
Nasceu do parto da luz
E doída como a saudade
Ninguém mais tem o direito
De saber da sua idade.
Poesia é a saudade
Da dor da separação
Nasce no pomar do peito
Pra fazer germinação
Peça abstrata que enfeita
O museu do coração.
Foi na Grécia inspiração
Nos tempos anteriores
Na Europa fez história
Dos antigos trovadores
E no Nordeste é a vida
Dos poetas cantadores.
Poesia uma das flores
Que só Deus beija a corola
Jóia que a mão não segura,
Se aprende sem escola
Imagem que a gente amarra
Com dez cordas de viola.
Começa a expressão do saber inventivo através do qual o cantador explica a poesia
na simples cognição - termo tomado no sentido de conjunto de unidade de saber da
consciência baseada em experiências sensoriais, representações, pensamentos e
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lembranças. Atribui à poíesis ou ato de fazer algo, idéia de ação, de criação ao Deus tal fora
nos tempos gregos. O repentista, trovador brasileiro nordestino canta a natureza no puro
viés poético, porque inspirado pelo poder da criação - criação dele mesmo, os versos da
cantoria - utilizando a linguagem em discursos comparativos como que reverenciando o
Deus do universo.
No tocante à cultura brasileira nordestina, as cantorias foram perenizadas nos
ambientes das feiras, local indispensável de reunião dos homens de negócios e ponto das
satisfações de necessidades - princípio básico para a ação do homem no mundo grego entre os membros da urbanidade a troca e a venda, reencontro de gente e hora da passar
informações etc. O discurso e Heráclito atual no que é e no que será nos lembra: “alguém
pode ser bom no jogo das ideias e ruim na realização de negócios” (Schüler, 2007).
Lembrava ainda ser a compra e venda de mercadorias um fator de atração mais do que a
troca de ideias. Ainda na percepção heracliteana, os homens bem sucedidos, além do
trabalho apreciam música, jogam, dançam, ou seja, na arte do entretenimento poucos serão
incluídos, nem todos os artistas serão bons para os que podem buscar diversão. Heráclito
inclui no saber da massa poetas popularizados como Hesíodo, Homero etc. A advertência
de Heráclito é pedagógica e admite serem os passos do homem dirigidos pelos golpes de
sua própria inteligência.
Linguisticamente o visível e invisível estão indissoluvelmente unidos, afirma o filósofo
Heráclito ser a harmonia invisível mais forte, mais nobre. A harmonia é entendida como a
construção mantenedora da união dos contrários em guerra; a harmonia é fundamento no
jogo corrente das oposições. Sem ele não haveria sintaxe, trabalho que a mitologia atribuía
aos deuses. Contrários aos apelos dos poetas e pensadores induzido-nos a ver a morte, a
decadência, o nada através de rostos jovens, os chamamentos de Heráclito nos faz, ainda,
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“perceber a ordem atrás da desordem, o nascimento atrás da morte, o discurso atrás do
silêncio, o saber atrás da ignorância16”.
As citações de Aristóteles et all (Os Pensadores, 1988) no tocante ao que disse
Heráclito quanto à luz como chama viva da alma do homem: - O sol não apenas, como
Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo continuamente17. (Aristóteles,
Meteorologia, II, 2.355 a 13); “O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a
vista, mas vivo ele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se
acende do que dorme18. (Citação de Clemente de Alexandria, Tapeçarias, II, 8.) Donald
Schüler fazendo sua análise do dizer de Heráclito sobre o sol: quando o pré-socrático
deitado na grama do jardim posicionou os pés em direção ao poente, o sol inclinava-se, aos
poucos no horizonte de modo a parecer ser totalmente abarcado pelos pés do filósofo.
Encerra, então, Shüler: “Heráclito pode esconder a bola de fogo com os membros inferiores,
pois ela não excede o tamanho do pé”. A disposição do corpo do filósofo, deitado sobre a
relva com os pés voltados para o poente na hora do por do sol, a cabeça de certo pouco
inclinada e os olhos em direção aos pés, tendo todo corpo acompanhado a curvatura da
terra a ponto de o sol ser ocultado aos olhos do filósofo pelos pés. Na posição em que
Heráclito está, o sol tem o tamanho de seu pé: [Sobre o tamanho do sol] da largura de um
pé humano (B3). (Schüler, 2007)
O cantador repentista de viola questiona a partir das manifestações perceptíveis do
infinito crepuscular vespertino, as cores e as luzes, a inquietação dos seres animais, a
tristeza do ser humano e o todo no natural quadro plástico do infinito no momento do por do
sol, o que leva o poeta refletir o seu próprio existir. Compara o perceptível na natureza ao
imaginário transcendente. Assim cantaram João Paraibano e Sebastião Dias (Poetas do
Repente, 2006):
Quando o sol mostra o crepúsculo
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Que o dia chega ao fim
Um aperto, uma tristeza,
Eu sinto dentro de mim
Enquanto estou contemplando
Eu fico a Deus perguntando
Se o fim da vida é assim
Quando a tarde chega ao fim
Na terra esfria o calor
Abelha volta ao cortiço
O sereno cai na flor
É quando a lua de prata
Dança por cima da mata
Deixando o chão de outra cor.
Nos confins do interior
Tudo fica diferente
O sol um príncipe cansado
Vai descansar no poente,
A natureza entristece
Que o fim do dia parece,
O fim da vida da gente.
Na morte do sol poente,
A treva escurece o monte
A brisa canta um poema
No bojo fresco da fonte
E o sol é como um espelho
Pintando o céu de vermelho
Pra morrer no horizonte.
A carga lírica das palavras, a melodia ritmada dos versos não traduz apenas o
meditar contemplativo, mas inquisidor. A imitação de todos os efeitos da mais pura natureza
pintada pelo cantador, imita a natureza integrada na imagética do repentista. O quadro
cantado exibe ao leitor ou ouvinte tanto a apresentação de homem e natureza, quanto de
todo ser ao cosmos, numa visão filosófica. O discurso ritimado do improviso remete ao
ensinamento de Hênio Tavares (1981, p.157) quando cita Goethe, para quem a poesia deve
ser rítmica e melódica; cita Carlayle, definidor de poesia como sendo o pensamento musical;
cita Dante para quem poesia é a ficção retórica posta em música; quando cita Edgar Allan
Poe para quem a poesia é a criação rítmica da beleza perceptível pelo poeta, transmitida
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com o recurso da linguagem pela palavra. Ao mesmo tempo expressa os poetas citados a
sua percepção subjetiva e fazem versos com musicalidade, métrica e rítmica.
As estrofes dos repentistas, acima transcritas, seguem a métrica encontrada na
Sétima, setenta, setilha ou hepteto: sete versos. Os cantadores de repente aqui referidos
seguem ainda o ensinamento clássico renascentista. É literatura meramente imediata para o
cantador popular ou repentista. Essa forma poética vinda da Europa Medieval foi
amalgamada, transformada em cultura popular brasileira, nutrindo a cultura literária. O
repente faz uso da rima, porém não exigida como regra. No caso do Brasil, herdeiro da
antiga manifestação literária da Península Ibérica, a cantoria adaptou-se ao imenso
continente em formas várias de norte a sul do país tropical, justificado por Câmara Cascudo:
“... Difícil é que uma canção se popularize no norte e no sul com a mesma intensidade19”
(1984, p.37).
Algo que nasce de poeta e transmite o sentimento de poeta mesclando culturas,
sendo transplantada de um continente para outro qual nome podemos dar?
Sendo cultura popular remete-nos à lição de Hênio Tavares como sendo o termo por
ele lembrado e já estudado por William Thomis, pesquisador inglês trabalhou a etimologia
criada no século XIX quando em agosto de 1846 lançou, através do jornal “The Athenaeum”,
o termo “Folk-Lore”, para melhor expressar, diríamos substituir o termo italiano “Popular
Antiquities ou Antiquitates Vulgares”. Estava criada a expressão saxônica Folk traduzida
como povo e Lore traduzida como saber, a sabedoria do povo, folclore em bom português
brasileiro.
Câmara Cascudo, segundo Hênio Tavares, estudou e enumerou vários cantos
populares, seus temas elementos e classificações. Reconhece, portanto, a necessidade de
uma secularização. A expressão folclore será então convencionada como nominação
conceitual às tradições populares no âmbito dos povos civilizados ou, ainda, uma divisão da
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antropologia cultural responsável pelo estudo dos aspectos da cultura de qualquer povo, que
diz respeito à literatura tradicional: mitos, contos, fábulas, advinhas, música e poesia,
provérbios, sabedoria tradicional e ou anônima.
No Folclore a percepção do poeta declama o cotidiano e expressa seu amor por uma
cidade do nordeste brasileiro: como seguem os versos dos repentistas Antonio Lisboa
desafio respondido por Edmilson Ferreira durante o VI Desafio de Nordestinos Cantadores
realizado no Recife/PE, em junho de 2006, (Poetas do Repente, 2006):
O meu caso de amor é sem censura
Com o cais do Apolo que me adora
As fachadas da Rua da Aurora
E as escadas do bairro do Ibura
Compro arte na Casa da Cultura
Na Ceasa adquiro minha feira
Faço cooper no Parque da Jaqueira
E me informo no Porto Digital
Tenho um caso de amor especial
Com a bela Veneza Brasileira
Pra manter esse amor puro e sincero
Cruzo as pontes do rio Capibaribe
Todo dia contemplo o Beberibe
E toda noite visito o Marco Zero
Curto a voz de Baracho no bolero
Ouço as músicas de Antônio Madureira
Leio os clássicos da obra de Bandeira
E os poemas concretos de Cabral
Tenho um caso de amor especial
Com a bela Veneza Brasileira...
Quanto ao sentir disse Heráclito: “Sentir é comum a todos os homens. (B 113)”
(Schüler, 2007). Sentimentos ligam-nos a casas, ruas, montes, rios, aves e homens. Os
sentimentos organizam, pela convivência, o mundo familiar. Pelos sentimentos o mundo
estranho converte-se em nosso mundo. A reflexão será, em todos os tempos, privilégio de
poucos. Na poesia popular ou na poesia erudita pode-se ler o sentimento amoroso traduzido
em uma estrofe de autor desconhecido, uma estrofe ou quarteto, tal qual fragmento ou peça
de um soneto cujo eu lírico canta o objeto amado, agora perdido:
Que te perdi hoje sei
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e choro meu desencanto...
pois amar como eu te amei,
nem mesmo a Deus amei tanto!
O sentimento gerado pela ausência do objeto amado é logo arremetido ao deus e
quase uma conformidade reverencial na concepção do ser humano existente desde a
prática politeísta grega ao moderno âmbito das civilizações cujo testemunho humano
conserva caracteres individuais mesmo sendo referencia ao mito do amor ou da própria
linguagem para expressar a temática do amor. Percebe-se na corrente do imaginário, o
inventivo externar de um sentimento na citação de Câmara Cascudo(1984, p.45) “o mito,
presente pelo movimento, pela ação, pelo testemunho humano”, capaz de conservar
algumas características “somáticas que o individualizem”, embora possua costumes que vão
sendo transformados, adaptados às condições de ambiência no agir.
O pensamento filosófico de Heráclito quando diz que os sentimentos amparam
também
os
que
não
pensam
sistematicamente
e
prossegue
afirmando
“não
compreendemos os outros misteriosos em sua estranha alteridade, sem o concurso do
sentir, porque sentir é comum a todos os homens”(2007, p.123).
4 - CONCLUSÃO
A poesia faz uso da linguagem expressando o sentimento do homem, o seu modo de
pensar o ser e fazer mais pertinente o ato de refletir o mundo e sua maneira de agir;
testemunhar o existir no mundo a forma individual das coisas ou uma coletiva forma de
viver, comunicar, transmitir conhecimento, partilhar experiências; a poesia teve seu espaço
de ação dividido com a filosofia. A filosofia surgiu como alternativa de conhecimento ou
alternativa do mundo que os poetas pronunciavam para expressar sua percepção inspirada,
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adaptando sua sabença e percepção objetiva às condições da ambiência cotidiana e
coletiva.
Para saber usufruir dos recursos da poesia o filósofo nos lega discurso compreensivo
o que vemos por Heráclito, segundo Donaldo Schüler:
Tanto o ouvir como o falar requerem saber... Não há ouvir sem
compreender, e este se realiza como processo de organização... A fala é
um tecido elaborado com fios de muitas fontes espalhadas no tempo e no
espaço. Como o ouvir, o falar procede de um saber que compromete aquele
que fala. A fala destina-se a outros ouvidos para se emaranhar em outros
discursos, no perene fluir do Discurso que se desvela e se retrai. (2007,
p.154)
Assim a matéria linguagem de conteúdo lírico ou emotivo escrito em verso ou em
prosa chama-se de poesia serve à literatura em suas várias manifestações, mesmo sendo
ficção (mentira) por não trazer o factual, a informação não garantida como verdade. A
poesia em toda sua semântica não tem um discurso inócuo porque provoca impacto sobre o
indivíduo e sobre a sociedade, mas se valendo do verossímil. Está próxima da filosofia por
traduzir em qualquer forma e instância os sentimentos pertinentes aos seres humanos.
A linguagem é o instrumento comum aos poetas e aos filósofos e com o surgimento
da palavra escrita o discurso perde o efeito imediato e único da intencionalidade do poeta.
Com a palavra escrita, as diversas interpretações podem ser concebidas, a possibilidade de
reflexão ganha espaço ampliado e como na esfera da linguagem duas palavras têm
significados diferentes, não se terá o definitivo ser ou não ser das coisas, como pretendia
alguns filósofos da antiguidade. A tentativa de os significados diversos se reencontrarem só
pela linguagem, esse foi o primeiro ponto em que os filósofos se depararam e o esforço de
fazer o discurso verdadeiro foi um desafio ainda maior. Para o filósofo o grande desafio é
resgatar a realidade de ser a ordem do discurso diferente da ordem da realidade.
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Linguagem e realidade percorrem caminhos distintos desde a origem da linguagem.
Os poetas e pelos filósofos ocupavam a ágora, espaço de todo cidadão grego, espaço ainda
de ação de cidadania ao fazer uso da palavra. O poeta de maneira geral ou universal levava
uma perspectiva, um discurso dos atos vivido, embora real, no espaço da literatura aparece
de maneira ficcional, suscita um meditar a vida. Já a filosofia trata do ponto de vista de
ensinar a viver, conforme a filosofia antiga, a filosofia seria a arte de ensinar a viver. Se o
poema se presta a agradar o recebedor os filósofos tentam abordar a “verdade”. Ambos
tentam ser propedêuticos.
Os gregos alcançaram o referencial máximo de cultura e conhecimento, a mitopoética grega pôde reunir estados e sociedade complexa e distintos entre si em torno de um
conjunto de identidade definidores da língua, dos valores e dos saberes pelos quais o povo
grego se reconhece. O patrimônio cultural grego advindo da poética abrigou a filosofia,
divergindo em relação ao método poético, abriu nova via e provocou ruptura interna na
modalidade de pensamento. Enquanto os poetas inventam e reinventam seus temas e suas
formas, com discurso de estilo épico, lírico, satírico, cômico e trágico, a filosofia sem se
apartar da cepa primeira, providenciou a teorização da ciência da literatura e se baseou na
literatura mesma para tratar do discurso da sua própria ciência.
O fazer poético grego permanece impregnado e tornou-se universal a todas as
sociedades em redor do planeta toma por base a oralidade da poesia, refletir ante o dizer
dos jograleses ou dos cantadores de cordel é aproximar-se do uso da linguagem e da
poesia grega e ainda do modo de pensar dos filósofos de primeiros tempos gregos.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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2003.
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de Brasília, 2005.
CANDIDO, Antonio et all. São Paulo, Perspectiva, 2007. (Coleções Debates).
CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3ªedição. BH: Itatiaia; São Paulo,
1984. Edusp. (Capítulo I).
Fênix - Revista de História e Estudos Culturais. Janeiro/Fevereiro/Março de 2007, Vol.4
AnoIV nº1. Disponível em www.revistafenix.pro.br; consultado em 03 de dezembro de 2008.
HAVELOCK, Erick A. A revolução da escrita na Grécia e suas conseqüências culturais.
São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista; Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1996.
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SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (Dis)Curso. Porto Alegre: L&PM, 2007.
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Coimbra, 1988.
TAVARES, Hênio Último da Cunha. Teoria Literária. 7ª ed. Belo Horizonte, 1981.
1
Graduado em Letras/Português pela UFS/SE; Pós-Graduando em Língua, Linguagem e Literatura pela
UNIT/SE.
2
Dialeto grego antigo que era falado nas ilhas Eólias - Grécia Antiga.
3
Os Pensadores Pré-Socráticos. São Paulo, Editora Cultural, 1996.
4
Cf. Ilíada, tradução de Carlos Alberto Nunes (2005, p.550). O início da guerra de Tróia foi o seguinte: como
vários pretendentes apareceram para casar com Helena, todos fizeram um juramento, em que aquele que fosse
escolhido seria defendido caso Helena fosse raptada. Menelau foi o escolhido, e após o rapto de Helena por
Paris, Menelau foi pedir ajuda a seu irmão, Agaménone e este lembrou o juramento a todos os aqueus. Casado
com Clitemnestra, irmã de Helena, foi traído por ela juntamente com Egisto, que foi morto em sua volta de Tróia
5
Cf. Ilíada, tradução de Carlos Alberto Nunes (2005, p.550) Agaménone: o rei por excelência, governou
Micenas, e na Ilíada é dele o comando supremo dos gregos na guerra contra Tróia. Também diz-se rei da
Lacedemônia ou de Argos. Filho de Atreu e Aérope, é chamado, como seu irmão Menelau, de atrida (ou átrida),
que quer dizer “filho de Atreu”.
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6
Cf. Ilíada (2005, p.567). Tétis: existem duas deusas com este nome. Uma delas (Tethis), menos importante na
Ilíada, é a mais antiga deusa do mar, filha de Urano e Gaia, a mais nova das titânidas... A outra (Tétis), é mãe de
Aquiles, uma das nereidas (filhas de Nereu, o Velho do Mar) e Dóris...
7
Cf. Ilíada (2005, p.568). Zeus: deus mais poderoso do Olimpo, (...) o “pai dos Deuses e dos Homens” etc. Da
etimologia do seu nome veio a relação com a claridade do céu. Sendo filho do titã Crono, é também chamado de
Crônida... Foi Tétis quem cuidou de Hefesto quando foi atirado do Olimpo por Zeus, invejoso do filho de Hera...
8
Cf. Ilíada (2005, p.552). Aquiles: filho de Tétis e Peleu (por isso chamado de pelida ou peleio) (sendo o sétimo
filho de Tetis) (...) ela resolve banhá-lo no Rio Stix, segurando-o pelos calcanhares, tornando-o, assim,
invulnerável em todo o seu corpo, menos nesta parte...
9
Cf. Ilíada (2005, p.566). Pátroclo: o maior amigo de Aquiles, o filho de Menetes. Por parte de pai, é originário de
Lócria, mas quando jovem foi para a Tessália, para a Corte de Peleu. Desde então foi criado junto com Aquiles, e
com ele aprende medicina.... Na Odisséia, seus ossos são depositados na mesma urna que os de Aquiles.
10
Cf. Ilíada (2005, p.559). Hefesto: deus do fogo, filho de Zeus e Hera... Deus metalúrgico, é ele quem faz a
famosa armadura de Aquiles, que aparece descrita na Ilíada (Canto XVIII). Ele é um deus coxo e muitas vesões
contam a sua história. A mais famosa é que Zeus brigava com Hera por causa de Héracles e Hefesto tomou o
partido de sua mãe. Zeus o atirou do alto do Olimpo. Ele caiu um dia inteiro parando em lemno, e foi ajudado por
síntios
11
Cf. Ilíada (2005, p.566). Heitor: filho mais velho de Príamo e Hécuba, é o maior guerreiro de Tróia. Ele foge ao
combate enquanto Aquiles está lutando entre os gregos, pois sabe que o seu destino é cair nas mãos de Aquiles
(...) Dois deuses o ajudam muito durante a guerra, Ares e Apolo.
12
Cf. Ilíada (2005, p.566). Príamo: o filho mais novo de Laomedonte. Rei de Tróia durante a guerra, mas já
bastante idoso. Pai de Paris que rapta Helena e
13
Hélicon: trompa de caça.
14
Cf. Victor Manuel in Teoria da Literatura
15
- Cf. O som da fala e o signo escrito(p.56/57). Transcrevemos a tradução de Ordep José Serra da obra de Eric
A. Havelock, Revolução da Escrita na Grécia e suas consequências culturais. A história da escrita e da palavra
escrita é com freqüência tratada de maneira simplista, como se o termo “escrita” designasse uma única invenção
que se realizou com efeitos mais ou menos uniformes dede o antigo Egito até a Europa moderna. Isso reflete o
preconceito que pretende dividir a história inteira em duas épocas, a letrada e a iletrada. Na verdade, o termo
“escrita” denota uma série de dispositivos tecnológicos que, independentemente dos materiais e instrumentos
variáveis utilizados como suporte do escrito ou como meio de escrever, vieram a distinguir-se historicamente por
conta de sua variável capacidade de cumprir a função básica: a função de apoiar o usuário no ato de um
reconhecimento. A experiência visual de uma forma ou signo escrito foi originalmente usada para referir e
acionar um “pensamento” de algum modo pertinente a essa forma ou com ela “associado”. (São Paulo, Ed. Terra
e Paz, 1996)
16
(Schüler, 2007, p.123)
17
Os Pensadores Pré-socráticos, no capítulo Fragmentos, p.87
18
Os Pensadores Pré-socráticos, no capítulo Fragmentos, p.87
19
CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura Oral no Brasil. BH, 1984. Edusp. (Capítulo I, p.37)
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CONCLUSÕES PRECIPITADAS A RESPEITO DA EX