Responsabilidade Social: Uma Categoria Polissêmica
Autoria: Fátima Regina Ney Matos, Joysinett Moraes da Silva
Resumo
Conceito relativamente novo, a responsabilidade social encontra-se permeando as
relações entre o Estado e a Sociedade Civil, representada pelas organizações empresariais.
Este ensaio se propõe a oferecer uma contribuição para melhor compreensão da
responsabilidade social em suas bases teóricas, tendo em vista que sua práxis vem se
firmando antes do seu corpo teórico. Mais do que um conceito, a responsabilidade social vem
se mostrando uma prática de sucesso na vida cotidiana, apresentando-se também como uma
categoria que pode ser analisada sob diferentes aspectos que se complementam. Os papéis
desempenhados pela Ética, pelo Mercado, pela Cultura e pela Gestão em relação à
responsabilidade social são ainda pouco explorados pela literatura e pretende-se ampliar o
foco das formulações teóricas sobre o assunto.
Introdução
Apesar de ter surgido desde o século XV, “somente no século XIX a imprensa começa
a adquirir as características de um meio de comunicação dirigido às massas” (MELO, 1971, p.
15). O progresso tecnológico ocorrido na segunda metade do século XX possibilitou o
desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, democratizou o acesso à informação e
transformou o mundo numa “aldeia global”.
Com a democratização da informação, o homem passou a questionar o comportamento
das organizações frente à sociedade, seus aspectos éticos e sua cultura, seus valores e crenças.
A cultura organizacional orienta o planejamento estratégico e ajuda a interpretar o que não
está claramente enunciado nos documentos formais, códigos de ética ou normas
organizacionais.
O conteúdo e a força da cultura organizacional influenciam o comportamento ético. É
a cultura organizacional que possibilita a formação da empresa-cidadã, que resgata os
princípios éticos e morais da organização e o desenvolvimento da responsabilidade social.
A responsabilidade social pode ser entendida como a extensão do papel organizacional
além de seus objetivos econômicos, da produção e/ou comercialização de bens e serviços para
a obtenção do lucro. A responsabilidade social inclui a proteção e melhoria do bem-estar da
sociedade, a participação ativa da organização em ações comunitárias, o interesse em
preservar o meio ambiente.
Aspectos metodológicos
Definido por Martins (2002, p.19) como uma “contribuição que trata em profundidade
de determinada faceta de um assunto”, este ensaio tem como objeto de estudo a identificação
de algumas das bases teóricas da responsabilidade social.
A tradição da ciência ocidental mostra que, partindo-se do senso comum procura-se
construir um embasamento teórico diferente do mesmo. O senso comum é colocado como
conhecimento empírico, o que o torna diferente do conhecimento científico, moldado sob as
bases do positivismo (MATTOS, 2003, p.61).
A responsabilidade social é um conceito ainda em construção sobre a sua práxis, sob
as ações sociais realizadas no cotidiano empresarial e requer um embasamento que a
diferencie do senso comum, da prática empírica e assistemática, de apenas mais uma
ferramenta do marketing. Neste ensaio, procurar-se-á localizar algumas das bases que servirão
de referencial para a responsabilidade social, enfatizando seus aspectos filosóficos,
econômicos, sociológicos e administrativos. Não há a pretensão de construir uma nova
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teoria (grounded theory), que, segundo Roesch (1999, p. 170), significa “a construção de
teoria a partir de dados baseados na realidade”; metodologicamente, trata-se tão somente de
um estudo bibliográfico.
Responsabilidade social como um conceito político: o papel do Estado
Para sobreviver em um ambiente hostil, o homem descobriu que a maneira mais fácil
seria associando-se a outros "indivíduos em relações organizadas de dependência mútua"
(Biesanz, 1972, p.103).
Inicialmente, a luta pela sobrevivência favoreceu a associação e o homem juntou-se à
outros para procurar alimentos e abrigo comum, realizando uma incipiente divisão do
trabalho. Adquirindo o controle sobre a técnica de fazer o fogo, o homem passou por uma
revolução tecnológica que possibilitou a transformação de utensílios rudimentares em objetos
que facilitavam a sobrevivência frente a uma natureza inóspita. Controlando o fogo, o homem
trocou uma vida nômade por uma vida sedentária, fixando-se em determinadas regiões
geográficas. Passou a domesticar animais e a lavrar a terra, interferindo decisivamente no
meio ambiente.
O conhecimento adquirido passou a ser organizado e aplicado a tarefas práticas e,
além do pastoreio e da agricultura, o homem desenvolveu técnicas cada vez mais sofisticadas
de trabalhar metais, o que tornou a divisão do trabalho mais significativa e possibilitou o
início da concentração da riqueza. Desenvolveram-se as trocas, surgindo o comércio.
Com o uso e o controle do fogo, surgiram a metalurgia e as técnicas de fundição.
Ambas foram inovações tecnológicas, pois além de possibilitarem o surgimento de situações
novas, exerceram uma função renovadora do sistema social.
Das sociedades nascem as civilizações, que, de acordo com Cotrim (1996, p.23)
caracterizam-se pelo aparecimento das classes sociais, formação do Estado, divisão social do
trabalho, aumento da produção econômica e registros escritos.
O aparecimento do Estado, "instituição político-administrativa que detém força para
impor normas e organização à sociedade civilizada" (ibid.,p.24), possivelmente atendeu aos
interesses básicos da classe dominante, pois tornou-se necessário o controle da classe
explorada, criada e mantida pela divisão social do trabalho. Provavelmente o papel primeiro
do Estado foi a administração de conflitos sociais.
A terra e o trabalho foram os recursos econômicos originais do sistema feudal e a
classe dos senhores da terra passou a ser dominante, enquanto aos servos, sem terras, cabia o
trabalho. A vida social era dependente da propriedade ou da posse da terra e o sistema
administrativo desenvolveu-se a partir de uma situação patrimonial. O Estado Medieval
caracterizou-se pelo fortalecimento da Igreja, pelas invasões dos bárbaros e pelo feudalismo.
A ordem, no Estado Medieval, era "sempre bastante precária, pela improvisação das
chefias, pelo abandono ou pela transformação de padrões tradicionais, pela presença de uma
burguesia voraz e quase sempre todo-poderosa, pela constante situação de guerra e,
inevitavelmente, pela própria indefinição das fronteiras políticas" (DALLARI, 1979, p.61).
No Estado Medieval, a unidade da Igreja sobrepunha-se à unidade territorial e à
unidade política e, como uma instituição dominante, ambicionava a fundação de um Estado
universal. Desavenças entre os poderes secular e sacro abalaram a soberania da Igreja e, as
relações de poder sofreram transformações que propiciaram a formação do Estado Moderno.
A Teoria Geral do Estado mostra "argumentos pró ou contra a continuidade de uma
organização política da sociedade, a questão de saber se o Estado sempre existiu ou se se pode
falar de Estado apenas a partir de uma certa época" (BOBBIO, 1999, p.69). Os adeptos da
descontinuidade não consideram a polis grega como um Estado e nem tampouco aceitam que
a sociedade medieval possa ser representada como tal; as diferenças são mais consideradas
que as semelhanças e analogias.
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A abordagem da continuidade considera que o Estado "(...) como ordenamento político
de uma comunidade, nasce da dissolução da comunidade primitiva fundada sobre os laços de
parentesco e da formação de comunidades mais amplas derivadas da união de vários grupos
familiares por razões de sobrevivência interna (o sustento) e externas (a defesa)" (ibid.,p.70).
A formação do Estado Moderno parece ser dependente da organização política,
definindo-se política como "o processo através do qual qualquer grupo organizado encontra
seus líderes e decide seus planos de ação" (BIESANZ, 1972, p.566), transformando os
conflitos em decisões.
O advento do Estado Moderno tem como marco a publicação, em 1532, da obra O
Príncipe, de Nicolau Maquiavel. De acordo com Bobbio (1999, p.65), inclusive a palavra
"Estado" se impôs através da difusão e pelo prestígio de O Príncipe.
No início do século XVII, Thomas Hobbes comparou o Estado a um gigantesco ser
artificial, o Leviatã, cuja alma seria o poder absoluto; sendo o despotismo o único modo de
evitar a desorganização social que levaria o homem a se comportar como “o lobo do homem”.
Em oposição ao pensamento de Hobbes, John Locke defendeu a liberdade civil,
religiosa e política, abraçando a teoria do liberalismo moderado.
Redigido por volta de 1758, apenas no final do século XIX foi publicado O Contrato
Social,de Jean-Jacques Rousseau, que procurava "encontrar uma forma de associação que
defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado"
(ROUSSEAU, 1998, p.20-21).
A partir destes teóricos, o Estado Moderno vai, através de suas posições sóciopolítico-econômicas, subdividindo-se em Estado máximo ou Estado mínimo, intervencionista
ou abstencionista, que assume tarefas ou mantém uma postura indiferente.
De acordo com Bobbio (1999, p.124-130), o Estado intervencionista se propõe como
fim a felicidade dos seus próprios súditos e pode ser identificado como o Estado do bem-estar
social (Welfare State) contemporâneo. O Estado abstencionista ou mínimo pode ser
identificado com o atual Estado liberal e conforme o liberalismo de Adam Smith , deve se
limitar a prover a defesa externa e a ordem interna, bem como a execução de trabalhos
públicos.
O Estado liberal, interferindo o mínimo possível na esfera social, acentuou o progresso
econômico e exacerbou a valorização individual, favorecendo os mais audaciosos, os mais
hábeis e menos escrupulosos, sem levar em consideração a natureza associativa do homem,
contrariando a máxima rousseauniana de que "não existe senão um contrato no Estado: o da
associação; e este, por si só, exclui qualquer outro" (ROUSSEAU, 1998, p.118). A concepção
individualista da liberdade favoreceu a omissão do Estado em proteger os menos afortunados,
desenvolvendo-se uma gradativa injustiça social pois, "concedendo-se a todos o direito de ser
livre, não se assegurava a ninguém o poder de ser livre" (DALLARI, 1979, p.244).
O Estado liberal enfatizando a valorização do indivíduo e a proteção da liberdade,
parece ter garantido uma situação de privilégio para os economicamente fortes e de exclusão
social para uma significativa parte da população.
Fundamentado na teoria de Hayek (SROUR, 1998, p.246), nasceu, na década de 1940,
o neoliberalismo, como uma reação teórica ao Estado intervencionista.
O Estado não pode sobrecarregar-se com programas sociais, pois os pobres são
responsáveis pela própria condição e o mercado garante a seleção dos mais aptos;
é preciso combater a 'cultura da dependência'.Só tolos falam nos 'objetivos sociais
da empresa' ou da 'propriedade': o objetivo da empresa é produzir, o da
propriedade é servir à produção; os objetivos sociais têm de ser da sociedade,
cobertos mediante a arrecadação de tributos que atrapalhem o menos possível o
processo produtivo e que sejam previsíveis e estáveis. (SROUR, 1998, p. 248).
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É neste cenário, visualizado no início da década de 1960 em alguns países do Primeiro
Mundo, em especial nos Estados Unidos e na França, onde a política econômica neo-liberal,
acentua as demandas sociais criadas a partir do liberalismo e onde o mercado em sua busca
incessante pelo lucro marginaliza um enorme contingente de mão-de-obra, que começa a se
desenvolver a noção de responsabilidade social. A responsabilidade social pode ser
entendida, segundo o Instituto Ethos, como uma “cultura de gestão que procura aplicar
princípios e valores a todas as atividades e relações da empresa, (...) abrindo novas
perspectivas para a construção de um mundo economicamente mais próspero e socialmente
mais justo”.
O princípio da responsabilidade social fundamenta-se no pressuposto de que as
organizações são instituições sociais que se constituem e se desenvolvem no seio da
sociedade, fazem usos dos recursos fornecidos pela mesma, interferem na qualidade de vida
dos seus membros e, portanto, devem dar um retorno para a comunidade.
Responsabilidade social como um conceito filosófico: o papel da Ética
A análise da responsabilidade social está diretamente relacionada à ética e a moral,
pois envolve a maneira como a empresa conduz seus relacionamentos internos e externos.
O interesse pela ética e pelo estudo dos princípios morais remonta aproximadamente
ao século V a.C.
Confúcio, filósofo chinês nascido no antigo estado de Lu, provavelmente no ano 551
a.C., fundamentou seus ensinamentos na ética. Considerado o fundador da filosofia chinesa,
para ele, o princípio básico da filosofia era a humanidade.
Seguido por alguns discípulos, Confúcio viajava através da China pregando o caminho
do 'jen', ou seja, da humanidade e do amor, com o objetivo de persuadir os grandes
proprietários de terras para a realização de reformas sociais.
Para o confucionismo, o indivíduo deveria procurar ser um homem virtuoso, a família
deveria buscar a harmonia e o Estado deveria ser bem organizado, o que tornaria o mundo
cheio de paz.
No século IV a.C., Lao-Tsé e Chuang-Tsu fundaram o taoísmo, filosofia religiosa
chinesa, desenvolvida a partir do estudo do tao, a energia cósmica universal que aparece em
toda a natureza. O tao deveria atuar livre e ordenadamente para o maior bem de todos.
Fundamentando-se em princípios éticos, a filosofia taoísta enfatizava a simplicidade de se
viver em contato harmonioso com a natureza para se alcançar a felicidade e a alegria.
A filosofia chinesa se caracterizava por um traço eminentemente prático, procurando
harmonizar a felicidade individual e o bem estar coletivo.
Enquanto a filosofia oriental procurava um ajustamento ao mundo, a ocidental buscava
o domínio sobre o mundo. Na cultura ocidental, o caráter religioso da filosofia chinesa foi
substituído por uma tentativa de compreender racionalmente o mundo, embora persistisse a
busca da arete, a síntese das virtudes ou excelência ética.
Os filósofos pré-socráticos, Tales e Anaximandro de Mileto, Xenófanes de Colofão,
Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia, Empédocles de Agrigento e Anaxágoras de
Clazômenas, foram os precursores ocidentais da ética com um sentido de felicidade, de
realização e de virtude.
Sócrates é considerado o iniciador da ética. Orientado pela pitonisa de Delfos, dispôsse a ensinar aos homens as vantagens de cultuar a moral e a justiça. Seu método, a maiêutica
ou partejamento das idéias consistia em formular inúmeras perguntas, procurando os
fundamentos do agir bem. Somente agia bem o homem que sabia o porquê de sua ação e a
capacidade de distinguir entre o certo e o errado estava sempre na razão.
Aristóteles sistematizou suas primeiras reflexões éticas no tratado Ética a Nicômacos,
assim chamado por ter sido seu filho quem primeiro o editou. Eudemo de Rodes, discípulo de
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Aristóteles, também editou uma versão da ética em Ética a Eudemo. Na Magna Moralia é
apresentada uma síntese dos mesmos princípios éticos aristotélicos..
Para Aristóteles (1973, p.257), “a felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, sendo
também a finalidade da ação e (...) o homem feliz vive bem e age bem; pois definimos
praticamente a felicidade como uma espécie de boa vida e boa ação”. O objetivo principal da
ética era a busca pela causa verdadeira da existência humana, ou seja, a procura do bem e da
felicidade, alcançados pela alma somente e quando esta executasse ações que possibilitassem
sua plena realização.
No período helenístico-romano, Epicuro desenvolveu uma doutrina fundamentalmente
ética, onde o prazer era o maior bem, encontrando-se menos nas sensações físicas e mais na
quietude da mente, no domínio do homem sobre si mesmo.
Ainda neste período, Zenão de Cício fundou a escola estóica, influenciando o
desenvolvimento do pensamento filosófico e ético. Para os estóicos, o destino deveria ser
aceito pelo homem, tendo em vista que os processos naturais eram resultantes de leis da
natureza. A felicidade dependia diretamente de uma submissão do desejo à razão divina, que
comandava o universo.
Com o final do Império Romano do Ocidente, no século VI, começam os tempos da
Idade Média. Do confronto da cultura greco-romana com os povos invasores (bárbaros),
caracterizados por um poder bélico acentuado em detrimento das organizações sociais,
ocorreram transformações que possibilitaram uma nova estruturação da vida social, política e
econômica.
A ética medieval comumente se confundia com a moral. Para Chauí (s/d, p.340), a
confusão entre ética e moral pode ser explicada etimologicamente, tendo em vista que a
palavra moral tem origem no latim, mores, e a palavra ética origina-se do grego, ethos, ambas
significando costumes. Porém, a palavra grega ethos, pode ser escrita com a vogal breve,
epsilon, significando caráter, índole natural, temperamento, ou com a vogal longa, eta,
significando costumes.
Durante a Idade Média, a Igreja católica usou a ética para impor a moral. A moral,
com sua carga maniqueísta de virtude e pecado, certo e errado, lícito e ilícito, bem e mal, foi
usada como instrumento de controle e coerção social. Nessa época, somente a Igreja possuía
um poder centralizado em um território fragmentado econômica e politicamente. Detentora do
conhecimento (as obras eram compiladas e copiadas nos mosteiros), procurou construir uma
ideologia que favorecesse a manutenção do sistema social vigente, caracterizado por uma
rígida hierarquia, que a mantinha no topo.
A ética perdeu o sentido de virtude e de busca da felicidade, sendo coincidente apenas
com a comunhão com Deus e com as regras morais impostas pela Igreja. Nesse aspecto, a
moral transformou-se em um poderoso mecanismo de reprodução social.
No século XVII, Baruch de Spinoza distinguiu ética e moral, unidas durante toda a
Idade Média. A moral foi colocada junto a religião e ambas foram definidas como sistemas
que impõem certos deveres ao homem (SPINOZA, 1979). A ética foi definida como "o ser do
homem tal como ele é" (ibid.) e aqueles que não conseguissem alcançar a verdadeira
liberdade deveriam pelo menos aceitar as imposições da moral e da religião para poderem
viver juntos e sobreviver. Spinoza resgatou o sentido do ethos grego com vogal breve,
epsilon, significando caráter e temperamento, que levariam à felicidade e a verdadeira
liberdade.
A moral, para Jean Jacques Rousseau, era composta por um conjunto de códigos
morais que se fundamentavam em uma espécie de contrato social existente entre os membros
de uma comunidade. Variando conforme a cultura, o estabelecimento de códigos morais era
pré-requisito para a sobrevivência de qualquer grupamento humano. Com a evolução das
sociedades, a moral subdividiu-se em moral de integridade e moral de oportunismo (SROUR,
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1998, p.286-287). A moral da integridade sendo caracterizada por valores como honestidade,
lealdade, idoneidade, respeito à verdade e à legalidade e compromisso com a retidão. Já a
moral do oportunismo caracterizando-se como uma moral oficiosa e dissimulada, marcada
pelo "jeitinho", a falta de escrúpulos, o fisiologismo e o oportunismo.
Immanuel Kant, em sua obra "Crítica da Razão Prática", elaborou uma teoria dos
princípios que regem a conduta humana. O comportamento ético ou moral não é imposto pela
natureza e sim pela sociedade. As leis éticas, impostas à vontade, indicam a conduta a priori,
têm validade universal, isto é, são imperativos. Os imperativos kantianos não admitem falta
alguma à verdade e podem ser categóricos ou hipotéticos.
Os imperativos categóricos são livres de quaisquer condições, sintetizados na máxima
"age de tal modo, que a máxima de tua vontade possa valer-te sempre como princípio de uma
legislação universal" (KANT, s/d., p.40). Os imperativos hipotéticos condicionam o ato moral
à obtenção de algum retorno ou ao temor de alguma punição, encerrando "meros preceitos de
habilidades”. ( ibid., p.32).
No início do século XX, Max Weber definiu uma ética de convicção e uma ética de
responsabilidade. A ética de convicção, correspondente ao imperativo categórico kantiano,
enfatizava a relação entre normas morais e valores, enquanto a ética de responsabilidade,
correspondente ao imperativo hipotético, enfatizava a relação entre os meios e os fins, tendo
um caráter utilitarista.
A ética deve fazer parte da cultura organizacional, orientando o desempenho da
empresa em seu papel de agente social. Introjetada no imaginário, a ética orienta a práxis,
enquanto a moral faz parte do discurso; do modo como a organização desempenha seu papel
social. De acordo com Srour (1998, p.270) , "enquanto a moral tem uma base histórica, o
estatuto da ética é teórico, corresponde a uma generalidade abstrata e formal".
De acordo com Marx e Engels (1986, p.11), “as idéias da classe dominante são
também as idéias dominantes de cada época”. Para Srour (1998, p. 277), “a moral dos
dominantes torna-se a moral social em vigor”. Quando o fator de produção era vinculado à
terra, vigorava a ética católica, pois no período feudal a Igreja formava, junto com os
proprietários de terras, a classe dominante.
Com o advento do liberalismo, o fator de produção passou a ser o trabalho, também
enfatizado pela ética protestante, desenvolvida a partir da Reforma Protestante.
A Revolução Industrial baseou a ética no capital e o crescimento econômico e material
ilimitado era um valor essencial ao progresso do homem.
A crescente industrialização, ao mesmo tempo que ofereceu empregos que
possibilitaram ótimas condições de vida para uma determinada parcela da população, deixou
muitas pessoas na indigência e trouxe em seu bojo disfunções como o trabalho infantil, a
degradação ambiental e o desrespeito à sociedade.
Com o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas, a sociedade passou a ter acesso a
uma vasta gama de informações, antes restritas a uma minoria.
A ética organizacional passou a fundamentar-se em valores como transparência nas
comunicações e nas relações, preservação ambiental, respeito aos direitos humanos e
trabalhistas e elevação da qualidade de vida da população.
Para Leitão (1997, p.45), "enquanto a ética 'se transfigura' (...) e 'se desmoraliza' (...)
renova nossas esperanças e conforta o nosso otimismo diante do próximo milênio". O
milênio, que ora se inicia, provavelmente verá crescer a responsabilidade social como a
instrumentalização ou operacionalização da reflexão ética para as organizações. Os critérios
de certo e errado são morais, porém o fazer ou não fazer são valores éticos que conduzem à
responsabilidade social das organizações.
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Responsabilidade social como um conceito econômico: o papel do mercado
Como ciência propriamente dita, a economia nasceu na segunda metade do século
XVIII. Os fisiocratas foram os precursores do pensamento capitalista dos séculos XIX e XX.
Anteriormente aos fisiocratas, os mercantilistas defendiam que o enriquecimento de um país
dava-se com a acumulação de metais preciosos, ouro ou prata, habitualmente utilizados como
moeda. Para a obtenção dos referidos metais, era imprescindível a participação do Estado, que
deveria buscá-los no Novo Mundo, conseguí-los através de transações comerciais ou trocá-los
por produtos manufaturados. Foi o período do capitalismo comercial.
François Quesnay, líder dos fisiocratas, foi um opositor dessa política, pois era
contrário à intervenção do Estado. As funções do Estado seriam de polícia, educação e
trabalhos públicos. O postulado básico dos fisiocratas era a defesa da agricultura, em
detrimento do comércio e da indústria..
A partir dos fisiocratas e influenciada pelo pensamento dos utilitaristas Jeremias
Bentham e James Mill, desenvolveu-se a escola clássica, formada por Adam Smith, Thomas
Robert Malthus, David Ricardo e Stuart Mill. Nasceu o liberalismo econômico, ou seja, a
intervenção mínima do Estado na economia.
Adam Smith, em sua obra A Riqueza das Nações (1776), criticou a política
mercantilista baseada na intervenção do Estado na economia, pois a economia deveria ser
dirigida pelas forças do mercado (laissez-faire, laissez-passer). Foi o primeiro a perceber a
importância dos mercados livres, onde os indivíduos, procurando seu bem-estar, faziam com
que a economia se movimentasse com eficiência. Os indivíduos, trabalhando em seu próprio
interesse, estariam trabalhando para o maior bem social. É dele a expressão "mão invisível"
do mercado, significando que a intervenção do Estado na economia era inaceitável. O trabalho
representava a verdadeira fonte de riqueza de uma nação e, o aumento da produtividade estava
diretamente relacionado à divisão do trabalho.
Jean Baptiste Say, discípulo de Adam Smith, elaborou uma lei onde afirma que "a
oferta cria sua própria procura" - lei de Say (LOPES e VASCONCELOS, 1998, p.16).
O liberalismo de Adam Smith e de Say não demonstrou qualquer preocupação com
responsabilidade social. Com a formação da riqueza diretamente relacionada ao trabalho e o
mercado se auto-regulando, o homem era visto apenas como um ser produtor ou consumidor.
A preocupação em relação à prestação de serviços sociais seria exclusividade do Estado.
Em meados do século XVIII teve início, na Inglaterra, um processo de transformações
sócio-econômicas e técnicas que originou à grande indústria moderna, chamado Revolução
Industrial. As oficinas foram substituídas pelas fábricas, as ferramentas trocadas pelas
máquinas e as fontes de energia mecânica foram substituídas pelas máquinas à vapor e pela
eletricidade. O trabalho artesanal foi substituído pelo trabalho assalariado.
A Revolução Industrial possibilitou o surgimento do capitalismo industrial, tornandose a indústria a atividade econômica mais importante. Surgiram novas classes sociais: a classe
dos capitalistas industriais, formada pelo setor mais importante da burguesia ascendente e a
classe dos proletários, formada pelos trabalhadores que viviam exclusivamente da venda de
sua força de trabalho, paga através de salário. O capitalismo industrial visava à obtenção do
maior lucro e, por isso, pagava o menor salário possível pelo maior tempo de trabalho.
Neste cenário, surgiram os movimentos operários, teorizados no socialismo e que
propunham uma transformação nas estruturas sociais.
Karl Marx e Friedrich Engels fundamentaram o socialismo científico ou marxismo.
Suas principais idéias filosóficas, políticas e econômicas foram o materialismo histórico e a
luta de classes. A responsabilidade social, como uma prática que se desenvolveu a partir das
disfunções do Estado em cumprir papéis sociais e do mercado em absorver toda a mão-deobra oferecida pela sociedade, não foi analisada pelo marxismo.
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Da luta de classes resultaria uma sociedade igualitária, sem excluídos, uma sociedade
responsável em suprir todas as necessidades sociais de seus membros.
A partir da década de 1930, John Maynard Keynes procurou mostrar que somente o
livre jogo das forças do mercado, defendido pelos clássicos, não poderia garantir uma situação
de equilíbrio e de crescimento econômico. Até então, a visão predominante era a de que as
economias de mercado tinham capacidade de utilizar eficientemente todos os recursos
disponíveis sem a intervenção estatal, inclusive "a forma de sempre alcançar o chamado nível
de pleno emprego, em que não existiria mão-de-obra voluntariamente desempregada"
(LOPES e VASCONCELOS, 1998, p.15). Keynes enfatizou a existência de um equilíbrio de
subemprego. Esta situação somente poderia ser 'corrigida' através de investimentos públicos,
enfatizando o papel do Estado na economia.
Após a Segunda Guerra, surgiu uma ordem mundial bipolar, baseada em dois centros
de poder econômico - o capitalismo, caracterizado pela economia de mercado e o socialismo,
caracterizado por uma economia planificada, sem mercado de trabalho e de capitais respectivamente denominados Primeiro Mundo e Segundo Mundo. Em meados do século XX,
Alfred Sauvy cunhou a expressão Terceiro Mundo, que incluía os países subdesenvolvidos ou
em desenvolvimento, que não se enquadravam na classificação anterior.
No Primeiro Mundo, formado pelos países ricos, desenvolveu-se, baseado nos
postulados keynesianos, o Estado do bem-estar social ou assistencialista (Welfare State). Com
recursos provenientes de tributos, o poder público mantém um sistema educacional gratuito,
seguro-desemprego, plano de aposentadoria, serviço de saúde, transporte coletivo e vários
benefícios sociais destinados a propiciar maior qualidade de vida à população.
Em 1940, como uma reação teórica ao Estado do bem-estar social, nasceu o
neoliberalismo, fundamentado no pensamento dos economistas austríacos Friedrich von
Hayek e Ludwig von Mises: "qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do
Estado detona um processo irreversível de supressão das liberdades individuais e leva à
constituição de um regime totalitário" (SROUR,1998, p.246).
O neoliberalismo caracteriza-se pela total liberdade de mercado, enfatizando a
iniciativa individual como a base da vida econômica. Propondo um Estado mínimo,
responsável por apenas três funções - policiamento, administração da justiça e defesa nacional
- o neoliberalismo está sendo abraçado como a política econômica de alguns países
subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, especialmente o Brasil.
No Terceiro Mundo, incluindo o Brasil, o sistema capitalista obedeceu a uma lógica de
exclusão, predominando o interesse na maximização do lucro e o Estado, geralmente, não
cumpre a contento sequer as funções de policiamento, educação e saúde.
No Estado do bem-estar social (Welfare State), o Primeiro Setor (Estado) atua no
campo social. O Segundo Setor (Mercado), desde o advento da Revolução Industrial e
atingindo seu ápice no Neoliberalismo, vem mostrando "o seu ímpeto concentrador de renda,
o favorecimento das elites, a promoção da desigualdade social e a exclusão social" (MELO
NETO & FROES, 1999, p.2).
O Terceiro Setor surgiu nos Estados Unidos, resultante da fusão do Primeiro e do
Segundo Setores. Nasceu na sociedade civil e se desenvolveu a partir de atividades
filantrópicas, caracterizando-se pela realização de ações de caráter privado, que objetivam a
geração de bens de consumo para uma coletividade, sem acumular excedentes econômicos.
De acordo com Claus Offe (1998, p.26-28), o Terceiro Setor vem a ser o representante
institucional de uma nova ordem, que surgiu da desordem social vigente e supera em
vitalidade, legitimidade e harmonia a ordem da burocracia estatal (Primeiro Setor) e a ordem
econômica do mercado (Segundo Setor).
A sociedade brasileira, sob o aspecto de seu desenvolvimento tecnológico, pode ser
considerada tecnicamente avançada, embora grande parte de sua população viva em
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condições precárias, sem acesso aos mais elementares meios de sobrevivência e direitos
sociais.
Participantes da sociedade civil, algumas empresas estão procurando uma forma de
diminuir a desigualdade social, aplicando recursos financeiros e elaborando projetos que
visem à integração da massa de excluídos. Empresas que começam a investir em aspectos
sociais, apoiando o desenvolvimento da comunidade onde estão inseridas, zelando pelo meio
ambiente, investindo no bem-estar de seus funcionários e respeitando o "poder" dos clientes
ou dos consumidores, estão se tornando empresas cidadãs, caracterizadas por um
comportamento ético denominado responsabilidade social.
De acordo com Friedman (1977, p.116), em uma economia livre, "há uma e só uma
responsabilidade social do capital - usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a
aumentar seus lucros até onde permaneça dentro das regras do jogo, o que significa participar
de uma competição livre e aberta, sem enganos ou fraudes".
Atualmente já se vislumbra, além do lucro, o aspecto da responsabilidade social. O
mecanismo de apropriação dos excedentes econômicos, além dos shareholders (acionistas),
deve beneficiar também aos stakeholders (participantes do ambiente empresarial empregados, clientes, comunidade). Em síntese, a responsabilidade social passa a agregar
valor às empresas que a praticam.
Responsabilidade social como um conceito sociológico: o papel da cultura
O mais antigo conceito sobre cultura é o de Tylor (1877): “conjunto complexo que
inclui conhecimentos, artes, leis, crenças, moral, costumes, enfim tudo que o homem adquire
como membro de uma sociedade” (DELLA TORRE, 1980, p.218). Herança social, a cultura
precisa de um grupamento humano para se desenvolver. Só o homem cria, possui e transmite
cultura.
No campo da sociologia, o estudo das organizações pode ser considerado recente,
tendo como marco inicial, segundo Clegg (1999, p.197) os trabalhos de Robert Merton sobre
a dinâmica da mudança social, no final da década de 1940. Até então, a análise sociológica
não enfocava as organizações propriamente ditas, e sim o papel que desempenhavam em
relação a aspectos como desigualdade social e relações intercomunitárias, dentre outros
Para Schein, cultura organizacional "é o conjunto de pressupostos básicos (basic
assumptions) que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com
os problemas de adaptação externa e integração interna e que funcionaram bem o suficiente
para serem considerados válidos e ensinados a novos membros como a forma correta de
perceber, pensar e sentir, em relação a esses problemas" (apud FLEURY & FISCHER, 1996,
p.20).
Como as sociedades humanas, todas as organizações possuem uma cultura. A cultura é
um elemento valioso do patrimônio intangível da organização. Apesar de orientar o
comportamento de seus membros e da empresa como um todo, a cultura organizacional não é
facilmente observável.
Os artefatos visíveis (lay out, uniforme, logotipo, etc.) são facilmente identificados,
porém o sistema de crenças e valores exige uma observação mais profunda, uma convivência
com os elementos que formam a organização. É comum as declarações públicas não
refletirem o modo como a empresa conduz rotineiramente as seus negócios
As organizações, como sistemas abertos, transacionam com o ambiente, criam
estruturas de papéis e desenvolvem um modo particular de interagir interna e externamente,
modelado pela visão ou missão de seu fundador. Como nasce pequena, a nova organização
‘apreende a personalidade’ do dono e, sobre ela, desenvolve a sua própria personalidade.
Cria-se gradativamente um sistema de crenças e valores implícitos que deve ser seguido pelos
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membros. Assim nasce a cultura organizacional, que orienta a tomada de decisões e ajuda no
processo de socialização de novos membros.
A cultura age como um elo de ligação, mantendo a integridade, estabilidade,
singularidade e filosofia de administração de uma organização. A cultura organizacional é
então a personalidade da organização. Assim como a personalidade é “um conjunto de
valores ou termos descritivos usados para caracterizar o indivíduo” (HALL & LINDZEI,1973,
p.22) a cultura organizacional é representada por um conjunto de valores que caracteriza a
empresa.
Para Aktouf, a cultura "implica uma interdependência entre história, estrutura social,
condições de vida e experiências subjetivas das pessoas, "(...) sendo definida como "um
conjunto de elementos em relações dialéticas constantes: relações concreto-econômicas,
sociais e simbólicas" (in CHANLAT, 1993, p.50).
A missão de uma organização determina a sua utilidade para a sociedade e para os
clientes e permite identificar a necessidade dos seus serviços no mercado. A definição da
missão, além de descortinar a cultura da organização, é também significativa para a
elaboração de um plano estratégico.
Para Friedman (1977, p.118), a missão da organização é usar os recursos para
aumentar e maximizar continuamente seus lucros, aumentando a riqueza dos shareholders
(acionistas). Atualmente, mais importante que maximizar lucro, é maximizar valor. A
maximização do valor ocorre, geralmente, quando a empresa amolda-se as imposições da
sociedade, ou seja, passa a seguir normas que respeitem o meio ambiente, os empregados, os
clientes e a comunidade.
É provável que haja uma correlação entre o desempenho de uma organização e sua
cultura. E a cultura organizacional possivelmente é, em grande parte, reflexo da cultura da
sociedade, do ambiente circundante, com o qual as organizações fazem constantes trocas.
Responsabilidade social como um conceito administrativo: o papel da gestão
O desenvolvimento da administração remonta à formação dos primeiros grupamentos
humanos. No passado, os homens responsáveis pela sobrevivência do grupo enfrentavam
problemas práticos e precisavam de técnicas para resolvê-los. Com o advento das civilizações,
o governo, a igreja e os exércitos passaram a sistematizar técnicas administrativas.
Há vinte e cinco séculos, Sun-Tzu (1997, p.36) escreveu: "O guerreiro inteligente
procura o efeito da energia combinada e não exige muito dos indivíduos. Leva em conta o
talento de cada um e utiliza cada homem de acordo com sua capacidade".
A Igreja Católica Romana contribuiu muito para a evolução da administração,
mantendo uma hierarquia verticalizada, centralizando as decisões e definindo claramente sua
missão, propósitos, objetivos, políticas, regras e regulamentos.
Do sistema feudal, vinculado a terra, desenvolveu-se o sistema artesanal, onde
predominavam as corporações de ofício, formadas por um mestre que tinha sob suas ordens
vários aprendizes e jornaleiros (etapa seguinte a de aprendiz).
Como processo produtivo, o artesanato precedeu a Revolução Industrial. O artesão era
o produtor que, detendo a propriedade das ferramentas, exercia, por conta própria, um ofício
manual especializado. Na maioria das vezes, o artesão era um servo que aprendia um ofício e
posteriormente reunia-se em associações profissionais (guildas).
A partir do processo artesanal, desenvolveu-se a manufatura, que "(...) ora introduz a
divisão do trabalho num processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios
anteriormente distintos (...) seu ponto de partida, seu resultado final é o mesmo: um
mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos" (MARX, 1982, p.389).
Com a Revolução Industrial, o processo de produção artesanal começou a desagregarse e a entrar em decadência, transformando-se em pequenos focos de atividades de caráter
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marginal. Os trabalhadores habilitados perderam sua qualificação técnica e transformaram-se
na classe proletária; o capital comercial converteu-se em capital industrial e a burguesia
mercantil e manufatureira transformou-se em burguesia industrial, formando a classe dos
capitalistas, proprietária dos bens de produção. Da manufatura surgiu o sistema fabril e, deste,
surgiram os processos de produção em massa.
O sistema fabril inicialmente caracterizou-se por longas jornadas de trabalho (em
média dezoito horas de trabalho por dia, incluindo mulheres e crianças), que causavam fadiga,
tensão e o constante risco de acidente. Formou-se a classe operária ou proletariado, que
vendia sua força de trabalho aos donos do capital.
Durante séculos, a administração foi praticada empiricamente e o conhecimento em
que se fundamentava era assistemático. Com a Revolução Industrial, surgiu a necessidade de
substituir os métodos empíricos por métodos racionais, pois a utilização de novas tecnologias
concentrou grande quantidade de matéria-prima e trabalhadores no mesmo local, o que
requeria uma coordenação efetiva.
Em 1832, Charles Babbage, professor de matemática, publicou, na Inglaterra, o
"primeiro tratado de administração na era da máquina" (MEGGINSON et al., 1986, p.54).
Nesta obra, On the Economy of Machinery and Manufactures, enfatizava que "a aplicação de
princípios científicos aos processos de trabalho aumentaria a produtividade e baixaria as
despesas" (STONER & FREEMAN, 1995, p.24). Babbage formulou o "princípio de
transferência de habilidade, ou seja: na medida em que uma máquina se torna mais
automática e é capaz de produzir com precisão grandes quantidades de bens, o trabalhador
que a usa necessita de menos habilidade e se torna um atendente de máquina ao invés de um
artesão especializado" (MEGGINSON et al., 1986, p.55). As idéias de Babbage foram
precursoras da teoria da administração científica e da linha de montagem.
A administração científica ou abordagem mecanicista, desenvolveu-se a partir do final
do século XIX, nos Estados Unidos, dada a necessidade de se aumentar a produtividade nas
fábricas, pois estava começando a Segunda Revolução Industrial, com a passagem da
máquina a vapor para a eletricidade. Frederick Winslow Taylor, engenheiro que trabalhava na
oficina de manutenção de máquinas da Midvale Steel Works, é considerado o fundador da
Teoria da Administração Científica.
O sistema de administração científica era baseado em três princípios: determinar o
melhor método para realizar as tarefas, selecionar e treinar o trabalhador mais habilitado para
a tarefa e, através da gerência, planejar e controlar o trabalho com "ordens de produção"
(TAYLOR, 1966, p.52-55-76). Com a administração científica, nasceu o "conceito do homo
economicus".
Os pesquisadores norte-americanos que mais contribuíram para o desenvolvimento da
administração científica foram Carl Barth, Henry Gantt, Frank e Lillian Gilbreth.
Em 1903, foi inaugurada a Ford Motor Company, porém, somente em 1913, Henry
Ford, baseando-se na teoria da administração científica, aplicaria plenamente os princípios da
linha de montagem, já conhecidos havia mais de um século.
Enquanto o movimento da administração científica se expandia nos Estados Unidos,
Henri Fayol, estudava o desenvolvimento gerencial na França, enfatizando os princípios de
administração através do papel do executivo principal.
A abordagem mecanicista foi muito criticada por tornar o homem mais uma peça do
processo produtivo, que deveria apenas executar, do melhor modo possível, as ordens do
supervisor. Neste contexto, as empresas buscavam apenas a otimização dos processos
produtivos, sem levar em consideração os aspectos sociais.
Como uma reação à abordagem mecanicista, nasceu a Escola de Relações Humanas. O
estudo que deu origem a esta nova abordagem foi realizado na Western Electric Company's
11
Hawthorne Works, em Chicago, de 1927 a 1932 e ficou mais conhecido como os "estudos de
Hawthorne".
O objetivo dos "estudos de Hawthorne" era investigar a relação entre o nível de
iluminação do local de trabalho e a produtividade dos trabalhadores. No transcorrer da
pesquisa, o professor Elton Mayo foi convidado, juntamente com uma equipe de
pesquisadores, a participar da análise dos resultados. Concluíram que "uma cadeia complexa
de atitudes havia interferido nos aumentos de produção" (STONER & FREEMAN, 1995,
p.31) e que o aumento da produtividade estava diretamente relacionado não ao nível de
iluminação, mas ao estilo de supervisão.
Na década de 1930, Ludwig von Bertalanffy desenvolveu a Teoria Geral dos Sistemas,
cujo objetivo era classificar os sistemas analisando o modo de organização de seus
componentes e identificando os padrões de comportamento de cada grupo de sistemas. Apesar
de originária da Biologia, a abordagem sistêmica é um modelo holístico e seus dois
pressupostos básicos - interdependência das partes e tratamento complexo da realidade podem ser aplicados às organizações.
Os trabalhos de Burns e Stalker (1961), Chandler (1962) e Lawrence e Lorsch (1973)
marcaram o início dos estudos sobre a inter-influência entre ambiente e organizações e deram
início ao desenvolvimento da Teoria da Contingência. Esta abordagem baseia-se na
"concepção de que a técnica de administração que melhor contribui para o alcance dos
objetivos organizacionais pode variar em situações ou circunstâncias diferentes" (STONER &
FREEMAN, 1995, p.35).
As diferentes abordagens administrativas, com exceção da Escola de Relações
Humanas, pouco ou nenhuma preocupação apresentaram com o homem, apesar do mesmo ser
imprescindível para a existência de qualquer organização.
As organizações são sistemas abertos que interagem constantemente tanto com o
ambiente externo (macroambiente) quanto com o ambiente interno. Neste final de século, o
ambiente vem se transformando rapidamente, com o desenvolvimento de novas e sofisticadas
tecnologias e o processo de globalização da economia. As mudanças, rápidas e contínuas,
apresentaram efeitos de longo alcance para as organizações e transformaram também o estilo
de vida dos consumidores, suas crenças, suas expectativas.
As novas tecnologias extinguiram milhares de empregos e os papéis dos setores
privados e públicos estão cada vez mais mesclados, sendo que em alguns casos não se
consegue identificar onde termina o papel da empresa e começa o papel do Estado.
Parece distante o tempo em que uma empresa, para ter êxito, precisava apenas
maximizar os lucros. A função principal do administrador era maximizar o valor da riqueza
dos shareholders e o seu objetivo primeiro era o lucro. Atualmente, vem sendo cobrada das
organizações maior responsabilidade em relação à comunidade e ao grupo de indivíduos que
podem ser afetados direta ou indiretamente para a realização dos objetivos organizacionais.
Para Drucker (1991, p.75) as empresas "existem numa comunidade. Portanto, não
podem refugiar-se no isolamento se o mundo ao seu redor começa a se despedaçar".
O interesse pela responsabilidade social das organizações vem despertando
curiosidade há algum tempo, porém somente com os atuais problemas de destruição de meio
ambiente, desemprego, normas I.S.O. (International Organization for Standartization) e leis
de proteção ao consumidor, o tema está se tornando realidade em algumas empresas.
Atualmente, a responsabilidade social pode ser abordada sob duas perspectivas
distintas: a doutrina da responsabilidade social e a doutrina do interesse do acionista.
O principal representante da doutrina do interesse do acionista é Milton Friedman,
vencedor do prêmio Nobel de economia de 1976. Nesta abordagem, a responsabilidade
primária da organização é maximizar lucros e o único interesse dos acionistas é o retorno
financeiro. Defendendo o interesse do acionista, a empresa faz o que sabe fazer melhor e
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beneficia a sociedade através da produção de riquezas. Os problemas sociais devem ser
solucionados pelo governo e organizações filantrópicas.
Em outro extremo, encontra-se a doutrina da responsabilidade social, defendida por
Paul Samuelson. Um dos principais representantes desta doutrina foi Andrew Carnegie,
fundador do conglomerado U.S.Steel Corporation.
Em 1899, Carnegie publicou O evangelho da riqueza, onde estabelecia os dois
princípios da responsabilidade social das organizações: o princípio da caridade e o princípio
do zelo ou custódia.
O princípio da caridade estipulava que os membros mais afortunados da sociedade
ajudassem os menos afortunados, tais como os desempregados, os inválidos, os doentes e os
idosos. É importante salientar que a caridade era uma obrigação dos indivíduos ricos e não
das suas empresas.
O princípio do zelo ou custódia estipulava que os ricos e suas empresas se tornassem
zeladores do dinheiro da sociedade, guardando-o, "em confiança", para o restante da
população. Multiplicando este dinheiro, a fortuna dos ricos também aumentava, através dos
investimentos dos recursos sob custódia.
Até a década de 1960, os princípios da caridade e do zelo ou custódia eram
amplamente aceitos nas organizações norte-americanas, mas, a partir dessa época, começaram
a surgir novas idéias sobre o tema responsabilidade social.
A opinião pública e o governo devem fixar os limites tanto das relações do mercado
quanto das fora do mercado. Quando o administrador se depara com um problema social,
além da sua consciência, ele obrigatoriamente consulta os aspectos legais e a opinião pública.
Mesmo ao implantar programas de ação afirmativa, que são programas que visam ampliar a
base de empregados, incluindo minorias, a organização deve observar a lei e o clima
resultante da aplicação do programa.
A grande dificuldade com qualquer dos modelos que tratam da responsabilidade social
é que nenhum deles formula uma maneira de lidar com um conflito de valores, nenhum deles
está diretamente relacionado com a ética.
A responsabilidade social da empresa pode ser subdividida em responsabilidade social
interna e externa, de acordo com a classificação de Melo Neto e Froes (l999, p.83).
A responsabilidade social interna diz respeito as relações com os empregados e seus
dependentes. A empresa com responsabilidade social interna prioriza o bem estar de seus
funcionários, procurando fomentar um clima organizacional saudável e promovendo um
processo de comunicação, descendente e ascendente, caracterizado pela transparência.
O cumprimento das suas obrigações sociais, ou seja, pagamento, no prazo, de salários
justos, com eqüidade interna e externa, depósito dos valores referentes ao Fundo de Garantia
por Tempo de Serviço - FGTS, do Programa de Integração Social - PIS e dos demais tributos
determinados legalmente, pagamento de férias com os devidos acréscimos, do décimo terceiro
salário, do seguro desemprego e do vale transporte, de acordo com as imposições legais, em
uma sociedade que, muitas vezes caracterizada pela "moral do oportunismo", também podem
ser considerados como parte da responsabilidade social interna.
Porém, além do cumprimento das obrigações legais, a empresa socialmente
responsável procura suprir os funcionários com remuneração indireta - os benefícios extras ou
fringe benefits.
No seu papel de regulamentador, o Estado, através de um tratamento tributário
favorável, pode facilitar o desenvolvimento de um programa de benefícios sociais a ser
implantado pela empresa.
Benefícios relacionados à saúde, à educação e à previdência dos empregados e seus
dependentes pertencem ao conjunto de fatores de manutenção ou de higiene, de acordo com a
classificação de Herzberg (1964, p.46). Esses fatores, quando ausentes, causam insatisfação, o
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que afeta negativamente as condições físicas, o ambiente de trabalho e o clima de relações
entre a administração e os empregados.
Ainda de acordo com Herzberg, existem os fatores motivacionais, que se referem ao
conteúdo do cargo, as tarefas e aos deveres relacionados com o cargo em si. Os fatores
motivacionais causam um efeito duradouro de satisfação, de realização, de crescimento e de
reconhecimento profissional.
A responsabilidade social interna está, portanto, relacionada à teoria dos dois fatores
ou bi-fatorial, de Frederikc Herzberg.
A responsabilidade social externa diz respeito as ações relacionadas diretamente com a
comunidade na qual a empresa está inserida. Ao exercer a responsabilidade social externa a
empresa procura realizar ações sociais em favor da comunidade, através da doação de
produtos ou transferência de recursos financeiros. O investimento direto em projetos
comunitários, ou em parceria com órgãos governamentais ou organizações nãogovernamentais; a preservação do meio ambiente, as atividades geradoras de empregos, o
patrocínio de projetos sociais, o apoio ao trabalho voluntário de seus funcionários fazem parte
da responsabilidade social externa da empresa.
Considerações Finais
Neste ensaio, procurou-se fazer uma análise sobre a evolução dos conceitos de Estado,
de mercado, da ética e da administração, na tentativa de localizar o cenário onde surgiu a
necessidade da responsabilidade social como modelo alternativo de gestão.
A cultura organizacional fornece o quadro de referência que possibilita a escolha dos
valores, das normas e dos costumes, a escolha entre ser ou não uma organização ética. Sob o
prisma da análise organizacional, a responsabilidade social apresenta uma correlação positiva
com os princípios da cultura organizacional. O comprovado comportamento ético das
empresas pode até não influenciar no aumento do lucro, mas certamente agregará valor.
Movidas durante três séculos pela busca crescente do lucro, vigorava, para a maioria
das empresas, uma "moral do oportunismo". Com a democratização dos meios de
comunicação de massa, a sociedade passou a exigir, com maior intensidade e de forma
organizada, o respeito pelos direitos do empregado, do cliente e da comunidade, a preservação
do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.
Em relação ao papel do Estado, pode-se observar que o mesmo não conseguiu superar
as imperfeições do mercado. Mesmo o Estado do Bem Estar Social - Welfare State - vem
sofrendo pressão para diminuir subsídios e benefícios. O Estado Mínimo, proposto pelo
liberalismo e neo-liberalismo legitima a atual omissão do Estado em cumprir suas funções
sociais.
Hannah Arendt (1999), em seu ensaio sobre o julgamento de Adolf Eichmann em
Jerusalém, em 1961, cunhou a expressão "banalidade do mal", após uma reflexão sobre a
culpa e a responsabilidade individual no moderno Estado burocrático. Atualmente, têm-se
observado a 'banalidade da miséria' e parece ser natural conviver com situações de acentuada
desigualdade social sem nenhuma preocupação. Como representantes dos Primeiro e Segundo
Setores, o Estado e o Mercado já não estão conseguindo administrar a grande massa de
excluídos sociais, sendo imprescindível a colaboração da sociedade civil.
Pode-se, portanto, concluir que a responsabilidade social, característica do Terceiro
Setor, pode vir de encontro ao anseio da sociedade civil, representada basicamente pelas
empresas, em procurar, de uma forma sistemática, contribuir para melhorar a qualidade de
vida dos excluídos.
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